segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Antologia DIESELPUNK recebendo contos



Antologia DIESELPUNK Guidelines

Por que Dieselpunk? Simples. Porque a Vaporpunk não foi o bastante!

A antologia Dieselpunk pretende reunir noveletas de história alternativa do subgênero dieselpunk escritas por autores brasileiros e portugueses, com fins de publicação pela editora Draco em 2011.

Por considerarmos que a dimensão ideal precípua para expressar um enredo de história alternativa é a noveleta (e não o conto, como no caso da ficção científica), decidimos fixar os limites das submissões entre 8.000 e 18.000 palavras. Isto não quer dizer, em absoluto, que submissões fora deste padrão serão sumariamente rejeitadas. Se o trabalho submetido possuir qualidade literária e se enquadrar na temática proposta, essa qualidade pesará em nossa apreciação, ainda que o texto seja menor ou maior do que o limite proposto. No entanto, convém deixar claro que olharemos com maior simpatia trabalhos dentro do intervalo citado.

Analogamente, gostaríamos de receber trabalhos dieselpunks cujos enredos dissessem respeito, direta ou indiretamente, às culturas brasileira e/ou portuguesa, mostrando o impacto social do avanço tecnológico precoce na história dessa(s) cultura(s). Não se trata de uma exigência estrita. Trabalhos dieselpunks que nada tenham a ver com o Brasil ou com Portugal serão apreciados com a atenção devida e poderão ser eventualmente aceitos. Porém, cumpre frisar de antemão nossa predileção por dieselpunks que sejam lusófonos de corpo (i.e, escritos por autores portugueses e brasileiros) e de espírito (enredo, personagens, ambientação lusófonos).

Pensamos na antologia Dieselpunk como uma continuação temática da Vaporpunk (Draco, 2010) ou, se preferirem, uma espécie de irmã mais jovem. Como no caso da antologia anterior, em que não nos prendemos à definição castiça de steampunk, também não nos prenderemos agora à definição estrita de dieselpunk.

Isto quer dizer que a ação da noveleta submetida não precisa necessariamente transcorrer na Londres Vitoriana de fins do século XIX ou na América do Norte do início do século XX. Ao contrário, seria melhor que a ação transcorresse no Brasil ou em Portugal desses mesmos períodos históricos (ou quiçá antes, se o avanço tecnológico for realmente radical) ou ainda, quem sabe, nos análogos alternativos do Brasil ou de Portugal. Tampouco se faz necessário que o motor de combustão interna seja a única tecnologia precoce presente nos enredos propostos. Antes de mais nada, estamos interessados em enredos que mostrem o impacto social do emprego amplo e precoce de avanços tecnológicos nas culturas portuguesa e/ou brasileira. Tais enredos podem se constituir em passados alternativos ou em presentes alternativos.

Nos passados alternativos, a ação transcorre numa época bastante anterior ao presente, como por exemplo, na noveleta “Custer’s Last Jump”, de Steven Utley & Howard Waldrop, em que o advento da aviação em meados do século XIX modifica a história da Guerra de Secessão e das Guerras Índias que se seguiram.

Nos presentes alternativos, a ação se passa mais ou menos em nossa época, só que numa linha histórica alternativa, modificada pelo advento precoce de uma tecnologia.
Quando principiamos a cogitar essas guidelines, pensamos em conceituar steampunk e dieselpunk aqui. Contudo, descobrimos uma definição castiça adequada na Wikipedia. Os conceitos ali expressos são mais restritivos do que aqueles que lhes estamos propondo, mas já dá para ter uma idéia geral. Portanto, usem e abusem: http://en.wikipedia.org/wiki/Steampunk. Se possível, dêem preferência ao verbete da Wikipedia em inglês, visto que sua tradução na Wikipedia em português encontra-se incompleta e, em alguns trechos, errada.

Se quiserem, sintam-se à vontade para consultar o ensaio “Steampunks!” constante na coletânea em e-book Ensaios de História Alternativa , cujo download é gratuito no site:

http://www.scarium.com.br/e-books/sebook3_06_03.html

No que se pese que se trata de um texto escrito em 1998, é mais atualizado do que o verbete da Encyclopedia of Science Fiction, escrito pelo Peter Nicholls.☺

No que concerne especificamente à subtemática dieselpunk, apenas como fonte de inspiração, talvez valha a pena conferir o site: www.dieselpunks.org. Embora a subtemática ainda não possua seu próprio verbete na Wikipedia, uma há uma definição curta em “temáticas derivadas do cyberpunk ”, aqui:
http://en.wikipedia.org/wiki/Dieselpunk#Dieselpunk

Em termos literários, stricto sensu, dieselpunk é a adoção precoce da tecnologia do motor de combustão interna e as consequências que esse avanço tecnológico precoce na sociedade.

Nossa deadline é 31 de março de 2011.

A submissão deve ser mandada somente em versão eletrônica, formato universal de texto (.txt) ou rich text file (.rtf), para o e-mail glodir@unisys.com.br, com cópia de segurança para ericksama@gmail.com. Confirmaremos a recepção de cada trabalho submetido.

Em caso de dúvida, não hesite em nos contatar.
Aguardamos a submissão da sua noveleta.
Gerson Lodi-Ribeiro (organizador)
Erick Sama (editor).
Outubro de 2010.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Entrevista com Marcello Simão Branco

Aproveitando o lançamento de 'Assembleia Estelar', o Capacitor Fantástico entrevista seu organizador, o pesquisador e escritor Marcello Simão Branco.





Capacitor Fantástico: Nos fale um pouco sobre o que encontraremos em 'Assembleia Estelar'?

Marcello Simão Branco: O livro é uma antologia de contos e noveletas com histórias de ficção científica de conteúdo político. Narrativas sobre escolhas eleitorais no futuro, histórias alternativas, guerras futuras e caos social, novas formas de hegemonia política no século XXI, revoluções, sociedades anarquistas, divisão política humana na conquista do espaço etc. São 14 histórias com dez dos principais autores brasileiros: André Carneiro, Ataíde Tartari, Carlos Orsi, Daniel Fresnot, Fernando Bonassi, Flávio Medeiros, Jr, Henrique Flory, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos, alé de quatro estrangeiros, incluindo três estrelas da FC internacional, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin, e o português Luís Filipe Silva. O livro ainda contém um longo artigo escrito por mim em que analiso as relações históricas e temáticas entre a FC e a política, no exterior e no Brasil.






CF: Como e quando surgiu a ideia incomum de casar FC com política?

MSB: Bom, minha formação é de doutor em ciência política, então acabou sendo natural tentar aproximar estes dois campos de interesse. Mas de maneira concreta me inspirei no livro "2084: Election Day: Stories About the Politics of the Future", organizado por Isaac Asimov e Martin H. Greenberg - este um antologista e cientista político - em 1984, com a mesma proposta. Fui atrás deste livro e tomando ele como base, organizei "Assembleia Estelar". Mas o resultado ficou diferente, já que o norte-americano centra-se mais na política interna dos EUA e sua democracia e além de temas de política externa. Já "Assembleia Estelar" tem um conteúdo político mais variado, conforme comentei na resposta anterior.


CF: Como foi feita a seleção dos trabalhos?

MSB: Enviei a proposta do livro para cerca de 40 autores brasileiros e alguns portugueses. A receptividade foi grande e a maioria enviou trabalhos. A partir daí, selecionei os que entraram no livro. Adicionalmente também procurei autores com histórias já publicadas há alguns anos que eu considero de boa qualidade, e as incluí no livro também. E por fim, a Devir me permitiu escolher histórias de FC política dos autores
estrangeiros que ela tem contrato.



CF: Como foi ou está sendo, esta parceria com a Devir?

MSB: Muito pródiga. O Douglas Quinta Reis, diretor editorial, é, sobretudo, um fã de FC e entende o que um leitor e aficcionado do gênero espera de uma editora. A proposta de "publicar FC para quem gosta de FC", casa perfeitamente com minha trajetória dentro do gênero e a editora é muito aberta ao debate e sugestão de ideias e trabalhos. Nesse sentido, além do aspecto comercial, há um engajamento dentro da linha editorial que justifica a parceria que temos realizado, seja em "Assembleia Estelar", seja na coleções de livros em geral e também no "Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica".


CF: Quais outras coletâneas você organizou?

MSB: Além desta, organizei profissionalmente "Outras Copas, Outros Mundos", para a editora Ano-Luz, em 1998. Foi outra antologia temática pioneira na FC brasileira - e internacional - relacionando o fantástico com o futebol. Foram 11 contos de autores nacionais, às vésperas da Copa do Mundo de 1998. Algumas outras foram em caráter amador, na coleção "Terra Incognita", da mesma Ano-Luz, por volta de 2000 e 2001, como livros de contos de Carlos Orsi e Simone Sauressig.


CF: A FCB parece estar se avolumando de forma nunca vista, algo que os militantes no fandom não poderiam ter previsto dez anos atrás. É somente a internet, é um momento financeiro favorável, ou modernização do mercado gráfico/editorial, ou tudo junto? Como você vê a situação atual? Os leitores estão procurando mais literatura fantástica hoje?

MSB: Acredito que sim. Na verdade, há muitos mais livros do que é possível ler e comprar à disposição do leitor brasileiro hoje. Mas o mercado é também grande o suficiente para se segmentar em gêneros, temas e faixas etárias diferentes, embora a maior oferta seja para os livros de caráter infanto-juvenil. O mercado editorial para os gêneros fantásticos atravessa um grande momento, mas pode não ser definitivo. No fundo, ainda é uma questão de obter retorno do mercado e seguir as tendências que vêm do exterior, mesmo porque a maior parte dos livros publicados pelas grandes editoras é de autores e temas da moda no exterior. Veja o sucesso da fantasia no início dos anos 2000 e o dos vampiros nos últimos anos.


CF: Não lhe parece que a estratégia para chegar aos leitores de amanhã, tenha que ser repensada, e que estamos perdendo um tempo precioso insistindo em modelos tradicionais/conservadores? Por exemplo, a maioria das editoras ainda se definiu por adotar modelos eletrônicos em seus lançamentos, e mal se utilizam da internet para disseminar seus produtos. Não lhe parece que estaremos sempre 'correndo atrás do prejuizo'?

MSB: Sim, mas é que as grandes editoras têm, em geral, uma estrutura pesada e conservadora. Elas deverão mudar aos poucos, seguindo a tendência das editoras estrangeiras e o quando tiverem um retorno financeiro seguro de novas estratégias. Também a disseminação de novas tecnologias associadas ao livro deve, a médio prazo, provocar um impacto não desprezível na estratégia das editoras.


CF: Você deve se lembrar de um tempo em que autores internacionais de FC e Fantasia, tinham seus livros publicados no Brasil. A partir de um determinado momento, estas publicações deixaram de acontecer e ficamos afastados da FC mundial (ainda hoje estamos). Você considera que este fato prejudicou de alguma maneira a FCB? A FCB que temos hoje, está de alguma forma descompassada em relação a FC mundial, ou escrava do universo das séries televisivas e do cinema blockbuster?

MSB: Olha, esta fase que você comenta já passou. De uns cinco anos para cá, a quantidade de livros de FC, fantasia e horror no Brasil atingiu números centenários. Em 2009, por exemplo, tivemos 364 livros destes gêneros publicados no país, sendo quase 40% deles, de autores nacionais (ainda que em editoras pequenas, edições amadoras e eletrônicas). 

A internet coloca a FC brasileira em contato permanente com centros importantes da FC internacional. Inclusive, alguns autores e críticos têm publicado em revistas nos EUA e na Europa. Algumas poucas editoras (como a Aleph e a Devir) têm publicado livros de autores importantes e atuais. Mas o que poderia tornar ainda mais efetiva a aproximação dos temas da FC internacional e brasileira seria a publicação de uma revista profissional de contos, a exemplo do que foi a "Isaac Asimov Magazine", no início dos anos 1990. 

De qualquer maneira, os melhores autores brasileiros de hoje escrevem uma FC instigante e ousada a par do que acontece nos principais centros da FC mundial. Não porque seguem necessariamenrte as tendências, mas porque desenvolvem caminhos próprios, a partir da realidade brasileira.


CF: Você e Cesar Silva são os pesquisadores responsáveis pelo sempre aguardado 'Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica'. No decorrer do tempo em que trabalharam para a elaboração do anuário, foi possível perceber alguma tendência ou mudança significativa nas publicações nacionais, em relação a outras épocas?

MSB:  Sim, principalmente na quantidade, como disse antes. No primeiro "Anuário", de 2004, tivemos 130 livros publicados no ano. Em 2009, como disse antes, 364. E agora em 2010, passará com folga dos 400 livros. Duas características podem ser apontadas como principais: 1) a expansão dos lançamentos baseia-se nos livros para o público infanto-juvenil; 2) o expressivo aumento quantitativo na publicação de autores nacionais (48 num total de 130 em 2004 (37%) e 142 de 364 (39%) em 2009), com a manutenção de um patamar em termos proporcionais. Surgiram várias editoras novas que publicam autores nacionais e outras tradicionais que voltaram a dar espaço à FC, fantasia e horror.
Contudo, se aumentou a quantidade, falta ainda que os bons autores nacionais sejam publicados pelas grandes editoras, pois estas priorizam os autores estrangeiros.



CF: Para terminar, você tem alguma outra coletânea em vista? Alguma sugestão de leitura ou link que queira divulgar?

MSB: Uma nova coletânea neste momento não. Mas para os próximos anos é possível que coordene um novo projeto. Dois livros que li recentemente merecem ser recomendados: "O Incrível Homem que Encolheu", de Richard Matheson (editora Novo Século) e "Selva Brasil", de Roberto de Sousa Causo (editora Draco), pois estão entre os melhores lançamentos de 2010. Sugiro também a visita aos sites das editoras que publicam FC&F de maneira regular e engajada, como, por exemplo, a Devir, a Aleph e a Tarja Editorial. A maior parte do que há de melhor vem sendo realizado por estas editoras. Afora, isso, vale a pena conhecer o blog de Cesar Silva, www.mensagensdohiperespaço.blogspot.com, que realiza um trabalho de divulgação e análise sobre a FC&F brasileira dos mais idealistas e independentes.

CF: Obrigado Marcello, pela sua gentileza em conceder esta entrevista!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

As parábolas sem conclusões de Stanislaw Lem e “Solaris”




Solaris foi o primeiro romance do famoso escritor polaco Stanislaw Lem a ser traduzido para inglês. Para poder compreender o seu contexto, o qual é a redescoberta da parte de Lem da ficção científica como uma forma de literatura maleável e satisfatória, o leitor deve conhecer a espantosa amplitude dos interesses e realizações de Lem. Porque Lem não é apenas o mais importante escritor de ficção científica da Europa, mas é também um fenômeno cultural em si mesmo.

O senhor existe Sr. Lem?

O nosso autor desmentiu os rumores que diziam que era apenas um computador e que usava a sigla LEM = Lunar Excursion Module [Módulo de Excursão Lunar]. Embora os seus conhecimentos enciclopédicos e furiosa produtividade nos despertem por vezes certas dúvidas, o seu sutil sentido de humor e súbitos ataques de autocrítica vêm confirmar o seu desmentido.

A verdade é que Stanislaw Lem nasceu em 1921, na cidade de Lwow, na Galícia, onde tanto o seu pai como a sua mãe eram médicos. A ocupação nazista proibiu os estudos universitários aos intelectuais polacos, por isso o jovem Lem trabalhou durante a guerra como mecânico de garagem, mantendo contato com o movimento da Resistência, por quem nutria simpatia.

Lem descreveu a sua infância e adolescência durante o período antes da guerra num encantador livrinho autobiográfico, High Castle (Wysoki zamek, 1968).

Em 1944, Lem deixou Lwow, então incorporada na URSS, e foi para Cracóvia, onde reside desde essa data. Lá se formou em medicina e durante algum tempo trabalhou como interno nos hospitais. O período da guerra e o ambiente que imediatamente se seguiu foram o cenário da única novela de Lem que não é de ficção científica, Time Saved (Czas nieutracony), aparentemente escrita durante os anos 1948 a 1950, mas publicada apenas em 1955, e à qual foi atribuído o prêmio literário da cidade de Cracóvia. O protagonista é um jovem médico polaco, que, da solidão, encontra o caminho para uma participação social.

Nos primórdios da sua carreira, Lem escreveu artigos de jornal e poesia, mas o seu interesse dominante nessa época era o estudo da história e da metodologia da ciência, especialmente o desenvolvimento e as implicações da cibernética. A fascinação por este assunto permaneceu viva em Lem, o qual se tem mantido a par do desenvolvimento da ciência moderna e sempre teve o mais profundo interesse pela filosofia da ciência, seus meios e fins (veja-se a discussão sobre “solarística” nesta mesma novela).


A primeira novela de ficção científica de Lem, The Astronauts (Astronauci, 1950, filmada com o nome de The Planet of Death — O Planeta da Morte), nasceu da sua preocupação a respeito do poder destrutivo da ciência quando usada de modo irracional. Narra uma expedição a Vênus, expedição essa que partiu de uma Terra do século 21, utópica e sem classes: depois de muitos perigos e aventuras, a tripulação, que é internacional, descobre que a vida inteligente foi exterminada pela guerra nuclear. Embora a novela siga a vulgar forma de aventura à moda de Júlio Verne, acrescentada de um utopismo socialista e com um aviso a respeito das alternativas catastróficas, é a primeira de uma longa lista de obras de ficção científica de caráter parabólico.

As obras de Lem são parábolas que falam de nós próprios através de situações espantosas acontecidas em outros mundos.

A obra de não-ficção de Lem, provocativa e de caráter pioneiro, traduz as mesmas preocupações que a sua ficção cientifica e lança sobre esta uma imensa luz.

Muitos dos seus artigos sobre medicina, cibernética, filosofia e literatura não foram ainda reunidos, mas os livros seguintes indicam as áreas dominantes dos seus interesses: Cybernetic Dialogues (Dialogi, 1950, escrito na forma racionalista de uma discussão entre “Hylas” e “Philinous”); Getting Into Orbit (Wejscie na orbite, 1962, ensaios sobre Camus, Dostoievsky e futurologia, escritos nos anos 50); Summa Technologiae (1964, um volume de quinhentas páginas, brilhante e altamente controverso, sobre o “jogo Homem-Natureza”, sócio-cibernética e os prospectos da engenharia cósmica e biológica. Traduzido já na URSS, o livro aguarda apenas um editor inteligente para criar análoga sensação no mundo que fala outras línguas); The Philosophy of Chance (Filozofia przypadku, 1968, um volume correspondentemente grosso sobre a teoria da literatura e da cultura); e Science Fiction and Futurology (Fantastyka i futurologia, no prelo).

Contudo, apesar de todo o seu renascentismo universalista de interesses e imensa erudição, Lem é antes de tudo um escritor que escolheu a ficção científica por ser potencialmente adequada às suas preocupações e elevou-a à dignidade de um estilo literário superior. Desde a época áurea de H. G. Wells que a ficção científica européia  — não obstante uns esparsos esforços de Zamiatin, A. Tolstoy, Huxley, Capek e, de modo mais notório, Stapledon— não atingia este nível.

A obra de Lem desenvolveu-se paralelamente ao renascimento da ficção científica britânica com Wyndham, Clarke e Aldiss, e um pouco antes do renascimento da ficção científica soviética com Yefremov, Dneprov e os Strugatskys. Na verdade, com o seu exemplo de uma especulação não dogmática e aberta, mas também cientificamente plausível e filosoficamente pioneira, Lem contribuiu até profundamente para o desenvolvimento destes últimos. Juntamente com os britânicos e soviéticos — e a ficção científica americana—, Lem, por si só, tornou-se o quarto pilar da ficção científica mundial desde a segunda grande guerra.

É óbvio que Lem está absolutamente a par da ficção científica dos estados Unidos dos anos 40 e 50. Se a evidência dos seus próprios livros não fosse suficiente, um comentário publicado na Áustria em 1969 atesta que, nos anos 50, tinha lido  “... gente como Knight, Bradbury, Brown, Bester, Pohl, Blish, Kutter, Russel, Asimov, Clarke, Dick, Campbell, Heinlein...”
Em outros ensaios refere-se a Wyndham, Boucher, Leiber, Seabright, Van Vogt e Sheckley. Foi também leitor da edição francesa de Galaxy até 1965  (ponto em que parece ter desistido, por tédio, da ficção científica ocidental).

Assim, depois da segunda grande guerra, Lem teve os mesmos antecedentes que os escritores de ficção científica ingleses e russos: Verne, Wells, Stapledon, Capek e a ficção científica americana, “tecnologicamente” antifascista, dos anos 40 e 50.

É porém igualmente óbvio que, com este denominador comum ou erário mínimo de toda a ficção científica dos nossos dias, misturaram-se também outros antecedentes, procedentes de uma diferente tradição e meio ambiente, contribuindo assim para o método criativo específico de um escritor altamente individualizado.
O sistema de aproximação ou ângulo de visão de Lem serão discutidos na análise de Solaris, a seguir a uma lista com anotações das suas obras de ficção científica, a qual poderá eventualmente fornecer as primeiras pistas:

— The Astronauts (Astronauci, 1951 — veja-se acima).
— Sesame (Sezam, 1955, contos).
— The Magellan Nebula (Oblok Magellana, 1955, uma novela utópica a respeito da vida e descobertas de uma gigantesca nave espacial, cujo nome já é revelador: Gaea). Hoje em dia Lem considera as suas primeiras obras como sendo de uma ingenuidade cheia de otimismo; eu sou levado a contrapor que esta ingenuidade utópica continua a ser um dos pólos da tensão criativa de Lem, até nas suas obras mais ricas.
— The Star Diaries of Ion Tichy (Dzienniki gwiazdowe, uma série de “jornadas” realizadas por um Dom Quixote, Gulliver ou Candide cósmicos — várias histórias publicadas em 1954, com primeira edição de1959; edição final aumentada em 1966). É sem dúvida uma das obras-primas de Lem. O horror satírico e grotesco destas histórias e os seus bem apontados dardos alegóricos são provavelmente a razão de ser esta a sua obra mais traduzida.
— Invasion from Aldebaran (Inwazja z Aldebarana, 1959). Uma coleção de histórias diversas escritas nos anos 50, incluindo algumas sátiras muito boas sobre o tipo de história de ficção científica dos Estados Unidos e as primeiras histórias do ciclo do “piloto Pirx”.
— The Investigation (Sledztwo, 1959). Um mistério nas fronteiras da ficção científica: a Scotland Yard investiga uma série de casos que poderiam ser ressurreições de mortos; são apresentadas várias hipóteses, mas não há qualquer solução final definida.
— Eden (Eden, 1959). Uma pequena novela a respeito de uma tripulação de exploradores num planeta desconhecido, ironicamente chamado Eden, e das dificuldades que tiveram para compreender as relações biológicas e sociais entre a estranha espécie inteligente desse planeta, espécie essa que está a caminhar para uma monstruosidade biossociológica.
— Return from the Stars (Powrot s gwiazd, 1951). Um astronauta, devido a uma contração do tempo, regressa a uma humanidade sem conflitos, pseudo-utópica, e encontra-se em vias de degenerar numa antiutopia hedonista. (Esta obra será publicada em breve, nesta coleção.)
— Solaris (1961 — ver mais adiante).
— Memoirs found in a Bathtub (Pamietnik znaleziony w wanniet 1961). Uma novela formalmente similar ao duplo horizonte do Iron Heel de Londres: num futuro utópico, durante umas escavações nas montanhas Rochosas, são encontradas umas memórias nas ruínas de um Quinto Pentágono subterrâneo. Todo o “universo de grutas-de-aço” do escritor das memórias, isolado de qualquer verificação empírica, é um gigantesco centro de espionagem que existe com a finalidade de competir com um “antiuniverso” inimigo, cuja existência é pouco provável; o narrador perde a esperança e comete suicídio.
As últimas quatro novelas — das quais encontramos o eco nos nº 13 e 18 mais adiante — são variações sobre um modelo de “conte philosophique” do século 18, do tipo de Voltaire ou Diderot, satiricamente invertidas e inclinando-se para o humor negro, muito semelhante ao que encontramos em Swift. Nas situações abertas e imprevisíveis que apresenta, Lem não se preocupa tanto com o “progresso”, que em todas as novelas é pressuposto, como com o preço de certas espécies de progresso e a impossibilidade de uma “solução final”. Graças a uma rigorosa mas perturbante precisão de pormenores e estrutura, Lem tem impressionante sucesso em transmitir estilisticamente a opacidade criada pelos “ruídos da informação”. Isto permite-lhe rivalizar com a densidade da melhor ficção científica americana moderna e reprovar a grande tradição de ficção científica que vem desde Swift, passando por Wells, Stapledon e Capek, recorrendo a um novo arsenal de artimanhas baseadas na cibernética, na teoria da informação e na moderna filosofia da ciência.
— The Book of Robots (Ksiega Robotów, 1961). Mais histórias de Ion Tichy e Pirx, assim como The Lymphater Formula, um conto sobre um microcosmo artificial.
— Lunar Night (Noc Ksiezycowa, 1964). Histórias e também quatro peças para a televisão, nas fronteiras do ciclo de Tichy, algumas também representadas no teatro.
— The Invincible (Niezwyciezony, 1964). Um conto longo cuja situação básica é similar à de Eden, com um retoque sombrio, que consta do fato de o planeta explorado ter tido uma evolução cibernética em vez de biológica. (Publicada em Portugal com o título de A Nave, Invencível.)
— Robotic Fables (Bajki Robotów, 1964). Consta de contos populares humoristicamente recontados, sob um disfarce cibernético e adaptados aos nossos dias.
— The Cyberiad (Cyberiada, 1965). Uma série de histórias grotescas que apresentam dois construtores robôs, rivais entre si, Trurl e Klapaucjusz.
— The Hunt (Polowanie, 1965). Coleção de contos, incluindo alguns a respeito de Pirx.
— Tales of Pilot Pirx (Opowiesci o pilocie Pirxie, 1968). Coleção de nove contos sobre o desenvolvimento pouco heróico de um astronauta, desde a fase de jovem exemplar, à moda de Heinlein, até se tornar um protagonista complexo.
— His Master's Voice (Geospana, 1969). Novela que trata de um projeto gigantesco para decifrar as informações que vêm do espaço e que resulta numa descodificação parcial, em que cada sucesso é seguido por novos problemas. Como é usual nas parábolas de Lem, há vários níveis de significação que refletem, de um modo satírico, os dilemas sociais dos nossos dias.

Existem cerca de quarenta traduções destas obras na União Soviética, Japão, nas duas Alemanhas, Iugoslávia, França, Itália e toda a Europa de Leste, atingindo (contando com os originais polacos) mais de 10 milhões de exemplares — 4 milhões só na URSS. Com exceção de um conto mutilado aparecido numa velha antologia, a obra de Lem foi apresentada ao leitor da língua inglesa apenas na antologia de Darko Suvin, Other Worlds Other Seas (Nova Iorque, Random House, 1970), que contém dois contos de Ion Tichy, um de Pirx e uma das “fábulas robóticas”.


Solaris - Stanislaw Lem (Posfácio) [ Download ]

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carl Sagan: A Exploração e Colonização de Planetas



Obras de ficção científica podem, dependendo de como estiverem estruturadas por seus autores, em nosso caso, o astrônomo Carl Sagan, ser usadas como textos de referência em História da Ciência por sua interdisciplinaridade.

O caso específico das viagens interplanetárias, pensadas e teorizadas cientificamente e divulgadas sob a linguagem da ficção científica nos livros de Carl Sagan, é o de que se ocupa esta dissertação.

Os autores de textos de ficção, como os colegas de Sagan Arthur Charles Clarke e Isaac Asimov, procuram, como acontece com textos teóricos acadêmicos, assim como também eram alguns dos textos de Sagan, fundamentar suas extrapolações em observações cuidadosas de tendências em ação na sociedade e na ciência e desenvolver sua (narração, no caso de Asimov e Clarke) implementação ou divulgação com rigor e consistência. Ou seja, parte da literatura futurística seria um instrumento importante de análise de História da Ciência para que esta possa pensar em propostas alternativas para uma política científica e de
ensino científico que tenha um alcance social. Uma espécie de experimento ou exercício imaginário.

Em outras palavras, o que aqui se estuda é a relação entre ficção científica e ciência que fale das viagens interplanetárias e como elas estão expressas nas obras de Sagan.

Portanto, a dissertação delimita o que, em primeiro lugar, deve-se considerar sobre as viagens interplanetárias, sua disseminação nos anos de 1930 a 1960 e sua divulgação através de dois dos melhores escritores de ficção científica do século XX, que se empenharam em divulgar idéias científicas ou de Astronáutica para uma melhor compreensão da ciência, do papel da ciência e do impacto da ciência e tecnologia numa sociedade com uma velocidade em movimento rápido, mas sem muitos detalhes.

Depois, como foi a realização primordial de algumas dessas fantasias realizadas pelo envolvimento de Carl Sagan, inicialmente, com o complexo militar industrial dos Estados Unidos da América durante a Guerra Fria com a URSS e depois pela NASA. E o que se aprendeu, cientificamente, com a exploração de nosso sistema solar e de nossos planetas mais próximos, de maneira que esses resultados da exploração espacial pudessem ser divulgados com a ajuda da literatura de ficção em forma de alerta sobre os problemas que teremos de enfrentar num futuro bem próximo.

E, por último, o destino da humanidade imaginado por Sagan numa espécie de manifesto divulgado por ele mesmo em seus principais livros e aqui analisado para que se pudesse manter o paralelismo de conteúdo e tendências entre as obras de ficção e a literatura acadêmica sobre o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e o destino da humanidade e dos indivíduos que a compõem.

Isto nos leva a concluir que o estudante de História da Ciência, tendo uma formação inicial ou complementar em humanidades, poderá encontrar na estante de História da Ciência um valioso manifesto para uma reflexão despretensiosa ou para a militância.



Introdução

Capitulo I  Carl Sagan e a ficção cientifica
1.1 A ficção cientifica antes de Carl Sagan
1.2 O Contexto da ficção cientifica e a divulgação pelas revistas
1.3 Isaac Asimov, Arthur Charles Clarke
1.4 A influencia da ficção cientifica a educação cientifica

Capitulo II  Carl Sagan e o Complexo Militar Industrial
2.1 Carl Sagan e seu relacionamento com o “complexo militar industrial”
2.2 O vôo interestelar
2.3 Marte e a ficção cientifica
2.4 Civilizações extraterrenas
2.5 Astrobiologia
2.6 Das conjecturas aos paradigmas

Capitulo III  Sagan, O divulgador do vôo interestelar
3.1 Razões do vôo interestelar
3.2 Efeito estufa e inverno nuclear
3.3 O conhecimento do espaço e a sobrevivência da espécie humana
3.4 As perspectivas cósmicas
3.5 O circulo se fecha: a extrapolação da ciência e ficção cientifica.

Considerações Finais
Bibliografia




Carl Sagan: A Exploração e Colonização de Planetas [ Download ]
Carlos A.Loiola de Souza (Dissertação de Mestrado - PUC/SP 2006)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vampiros em Nova York - Os primeiros dias - Scott Westerfeld



Era fim de tarde.

Eu havia passado o dia num restaurante próximo, explorando o cardápio e esperando que as nuvens se dispersassem. Torcia para que a garçonete, entediada e muito bonita, não começasse a conversar comigo.
Se aquilo acontecesse, eu teria de ir embora e vagar pelo cais o dia inteiro.

Eu estava nervoso a tensão normal de encontrar uma ex, com o adicional de incluir encarar um canibal maníaco. As horas passavam numa lentidão torturante. Mas, finalmente, alguns raios de sol atravessavam as nuvens. A luminosidade do terminal. Peeps não suportam a luz do sol.

Havia chovido muito naquela semana, quebrando o piso do antigo estacionamento como se fosse lama seca. Gatos ferozes me observavam de todos os cantos escuros, sem dúvida atraídos pela população crescente de ratos.

Predadores, presas e ruínas: é impressionante como a natureza consome espaços criados pelo ser humano depois que lhes damos as costas.

A vida é voraz.



Vampiros em Nova York - Os primeiros dias - Scott Westerfeld [ Download ]

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As Terras de Elyon - Livro I - As Montanhas Misteriosas - Patrick Carman



Fechei o livro e segurei-o na mão.

— Não se saiu nada mal — comentei. Era um costume meu, falar assim com os autores; de alguma forma isso tornava-os mais reais. — As tuas viagens estão prestes a incluir um vôo até o fundo de um assustador poço negro. — Segurei o livro sobre a abertura e larguei-o, lançando o Cabeza de Vaca num vôo de queda livre na escuridão.

O livro levou muito mais tempo do que eu esperava para atingir o fundo. Não sendo cientista, faltava-me a capacidade de calcular o tempo, a velocidade e a profundidade, por isso só podia adivinhar que o fundo do buraco ficaria a cerca de uns nove assustadores metros. Não fazia a mínima idéia do que iria descobrir lá no fundo. Talvez houvesse mesmo um gigante adormecido, à espera de uma jovem saborosa para lhe aconchegar o estômago.

Virando-me, percorri a biblioteca com os olhos. O falcão ainda estava lá, mas os gatos tinham desaparecido. Levantei-me e tentei assustar o pássaro, agitando os braços no ar e batendo com os pés no chão. Porém, a ave permaneceu imóvel e em silêncio, com os olhos fixos nos meus mais insignificantes movimentos.

A seguir pus-me de cócoras, enfiei a mão no meio do escuro e tirei a candeia do prego. O vidro que protegia o pavio estava colado e tive de fazer força para conseguir tirá-lo. Molhei o pavio com óleo do recipiente e parti dois fósforos antes de conseguir acender um terceiro. Tendo resolvido o problema da iluminação, voltei novamente a minha atenção para o túnel.

A brisa sinistra e escura continuava a sentir-se, fazendo tremelicar a minha candeia, que projetava sombras nas paredes. Balancei os pés para o outro lado e apoiei-os na escada. Depois entrei pela abertura e agarrei-me com a mão esquerda ao degrau de cima. Pegando na candeia com a outra mão, pendurei-a no velho prego enferrujado. Só me restava fazer uma coisa: fechar-me lá dentro para que ninguém descobrisse onde tinha me metido. Ainda pendurada na escada, meti novamente uma das mãos na biblioteca, agarrei na perna da cadeira e dei-lhe vários puxões. Tendo colocado a cadeira no seu lugar, puxei a porta secreta até ouvir um clique fechando-a do lado de dentro.

Do lado de dentro o fecho era simples de usar, mas acionei-o várias vezes para ter certeza de que funcionava. Depois peguei na candeia e desci-a o máximo que consegui, voltando a pendurá-la no quinto degrau. Fui repetindo este processo até pisar um chão de terra, vinte e nove degraus abaixo.

Olhando para cima, via o mesmo que vira ao olhar para baixo: apenas a alguns metros acima, a luz diluía-se num céu negro e sem estrelas. Havia paredes em três lados e um túnel que seguia para oeste, debaixo da biblioteca, em direção às montanhas. O livro que tinha atirado para a escuridão jazia no chão.

O Cabeza de Vaca tinha caído de mau jeito e, ao que parecia, tinha agora em minha posse dois livros que precisariam dos cuidados de Grayson. Estava destruindo livros a um ritmo assustador.



As Terras de Elyon - Livro I - As Montanhas Misteriosas - Patrick Carman [ Download ]

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Até mais e obrigado pelos peixes - Douglas Adams



Oito horas a oeste, um homem sozinho estava sentado em uma praia, lamentando uma perda inexplicável. Só conseguia refletir sobre essa perda em pequenos pacotes de dor um de cada vez, porque se pensasse na coisa toda seria grande demais para suportar.

Observava as grandes e lentas ondas do Pacífico avançando pela areia e esperava e esperava pelo nada que sabia que estava prestes a acontecer. Quando chegou a hora de nada não acontecer, realmente nada não acontecia e assim a tarde se consumia e o sol descia por trás da longa linha do mar e o dia chegava ao fim.
A praia era uma praia cujo nome não vamos citar, porque era onde ficava a sua casa particular, mas era uma pequena faixa arenosa dentre as centenas de milhas do litoral que parte de Los Angeles rumo ao oeste - o mesmo que é descrito em um verbete da nova edição do Guia do Mochileiro das Galáxias como "enlodada, enlameada, emporcalhada, embostada e mais aquela outra palavra que esqueci, além de várias outras coisas ruins", e em outro, escrito poucas horas depois, como "parecido com milhares de milhas quadradas de impressos de marketing do American Express, mas sem mesmo sentido de profundidade moral. E, além disso, por algum motivo o ar é amarelo".

O litoral estende-se pelo oeste, depois faz uma curva em direção ao norte até a nevoenta baía de São Francisco, que o Guia descreve como "um bom lugar para ir. É fácil acreditar que todo mundo que você encontra por lá também é um espacial. Fundar uma nova religião para você é a a que eles usam para dizer 'oi'. Até que você esteja inslado e tenha dominado a manha do lugar é melhor dizer não para três de cada quatro perguntas que lhe fizerem, porque existem coisas estranhíssimas acontecendo por lá e muitas podem ser letais para um alienígena desprevenido". As centenas de milhas sinuosas de penhascos e areia, palmeiras, arrebentações e entardeceres são descritas no Guia como "Impressionante. Mesmo".

E em algum lugar neste longo trecho de litoral ficava a casa desse homem inconsolável, um homem que muitos achavam ser louco. Mas apenas porque, dizia ele às pessoas, ele era louco mesmo.

Um das inúmeras razões pela qual as pessoas achavam que ele era louco era a peculiaridade da sua casa, que, mesmo em uma terra onde a maioria das casas era peculiar de uma maneira ou de outra, era bastante radical em sua peculiaridade.

A sua casa se chamava O Exterior do Asilo. O seu nome era simplesmente John Watson, embora ele preferisse ser chamado - e alguns dos seus amigos haviam relutantemente concordado com isso agora - de
Wonko, o São. Na sua casa havia várias coisas estranhas, incluindo um aquário de vidro acinzentado com seis palavras gravadas nele.

Podemos falar sobre ele bem mais tarde - esse foi apenas interlúdio para apreciar o pôr do sol e para dizer que ele estava lá, apreciando-o também.

Perdera tudo o que mais amava e agora estava simplesmente esperando o fim do mundo - sem saber que já tinha chegado e passado.


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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política



Se é verdade que a ficção científica está mais associada aos temas da exploração do espaço, seres extraterrestres, viagens no tempo ou realidade virtual, ela também possui uma ampla relação com a política.

A começar pela presença em narrativas utópicas que idealizaram civilizações mais virtuosas, posteriormente na presença de assuntos políticos nos enredos das histórias contemporâneas de FC, especialmente aquelas que exploram novas utopias, distopias ou sociedades alternativas, mas também especulações sobre a realidade social e política, tratando das instituições da democracia, da globalização e dos conflitos internacionais.

Assembleia Estelar é uma antologia sobre as formas de organização política, com a presença de autores brasileiros, e americanos, como Bruce Sterling e Ursula K. Le Guin.

O Capacitor Fantástico deseja todo o sucesso do mundo a esta nova iniciativa da Devir, e espera que logo a editora possa dar uma chance a novos autores brazucas de qualidade e que também merecem ser lidos.

No site da Devir para compra.

Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política.
Organização e introdução: Marcello Simão Branco
Capa de Vagner Vargas.
São Paulo: Devir Livraria, selo Pulsar, dezembro de 2010, 408 páginas.
ISBN: 978-85-7532-453-0.
Preço: R$ 39,90.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Joan D. Vinge




Joan Carol Dennison (2 de Abril de 1948) nasceu em Baltimore, Maryland (EUA).

Filha de um engenheiro aeronáutico, desenvolveu precocemente o interesse pela astronomia, sua grande paixão de infância. Durante o ensino médio descobriria a ficção cientifica, assumindo o lugar da astronomia, principalmente influencida pelo estilo de Andre Norton. 

Quando começou a faculdade Vinge optou pelo estudo de Artes, mas logo se desiludiu com seus professores e trocaria o mundo das artes pelo da antropologia, na qual formou-se pela San Diego State University em 1971. Logo após, trabalhou como um arqueóloga no Condado de San Diego.

Em janeiro de 1972 ela se casou com o escritor de ficção científica e matemático Vernor Vinge, e no ano seguinte, começou um esforço sério para escrever ficção científica.

Seu primeiro conto publicado, "Tin Soldier", apareceu em uma antologia de novos escritores chamada Orbit 14, em 1974. Esta primeira fase de sua carreira, foi pontuada por aparições em diversas revistas e antologias.

Logo, vários de seus trabalhos passaram a ganhar prêmios importantes: O romance 'Snow Queen' ('A Rainha da Neve') ganhou o Prêmio Hugo de ficção científica. 'Eyes of Amber' (Olhos de Âmbar) ganhou o Prêmio Hugo de 1977, também sendo indicada para vários prêmios Hugo, Nebula, John W. Campbell Award New Writer. 'Psion', foi nomeado melhor livro para Jovens Adultos pela American Library Association.
    
Na década de 80 Vinge ficou muito ocupada com a produção de 'novelizações' a partir de filmes de grande bilheteria,  como 'Mad Max Beyond Thunderdome', 'Ladyhawke', 'Willow', 'Santa Claus: The Movie', e uma série de outros. Ela também fez adaptações para livros infantis, como 'Star Wars Retorno do Jedi Storybook',que ganhou o Prêmio North Dakota Children's Choice de 1984.

Nos primeiros anos de sua carreira Vinge ganhou a reputação de ser uma das poucas mulheres autoras de ficção científica hard, e ela era uma freqüente colaboradora da Analog, certamente a publicação mais dedicada a esse estilo de FC. No entanto, ao mesmo tempo, suas histórias têm abordado temas menos ciêntíficos, como estruturas sociais - o que não surpreende, dada a sua formação de antropóloga.

Recentemente novelizou 'Lost in Space' ('Perdidos no Espaço').

Vinge continua a publicar para crianças e adultos.


Joan D.Vinge ( O Feitiço de Áquila, Lost in Space, Voices from the Dust, CAT series, Eyes of Amber, Fireship, Mother and son, Psiren, Snow Queen series, Tin Soldier, To bell the cat, View from a heigh, World's End, The Peddler's Apprentice (com Vernor Vinge), La Reina de la Nieve, Ojos de Ambar ) [ Download ]

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 25)


 O VELHO MIMÓIDE

Estava sentado junto da janela panorâmica e olhava para o Oceano.
Nada mais havia a fazer, agora que o relatório, que levara cinco dias a preparar, não passava de um padrão de ondas viajando no espaço. Iam se passar meses antes que um padrão semelhante partisse da Terra para criar a sua própria linha de turbulência no campo gravitacional da galáxia, em direção aos dois sóis gêmeos de Solaris.

Sob o sol vermelho, o Oceano estava mais sombrio que nunca e o horizonte estava obscurecido por uma neblina avermelhada. O tempo estava estranhamente cerrado e parecia estar preparando um daqueles terríveis furacões que surgiam duas ou três vezes por ano à superfície do planeta, cujo único habitante, é racional supor-se, controla o clima e cria as tempestades a seu bel-prazer.

Se passariam vários meses antes de eu poder partir. Do meu ponto de vantagem no observatório, veria o nascer dos dias — um disco cor de ouro pálido ou de púrpura esbatida. Uma vez por outra iria me deparar com a luz da madrugada saltitando por entre as formas fluidas de qualquer edifício surgido do Oceano, observaria o Sol refletido na esfera prateada de uma simetríade, acompanharia as oscilações dos graciosos agilus que vergam sob o vento e iria me distrair observando velhos e poeirentos mimóides.
E um dia as telas de todos os videofones começariam a piscar e todo o equipamento de comunicação ganharia vida de novo, ressuscitado por um impulso cuja origem estava à bilhões de milhas d distância, e que anunciaria a chegada de um colosso de metal.
O Ulisses, ou talvez o Prometheus, aterraria na Estação, acompanhado pelo ruído sibilante dos seus gravitadores, e eu sairia para o telhado plano para observar os regimentos dos brancos robôs dos serviços pesados, em completa inocência prosseguindo com as suas tarefas, não hesitando em se destruir ou destruir qualquer obstáculo imprevisto, em estrita obediência às ordens registradas nos cristais que formam a sua memória. Depois a nave se elevaria sem ruído, mais rápida que o som, deixando um estrondo sônico para trás, por sobre o Oceano, e a face de todos os passageiros se iluminaria com a ideia de voltar para casa.
Que significava essa palavra para mim? A Terra? Lembrei as grandes e ruidosas cidades por onde iria vaguear e onde me iria perder e pensei nelas como pensara no Oceano na segunda ou terceira noite, quando me quisera atirar para as suas sombrias ondas.

Vou misturar-me por entre os homens. Ficarei calado e atento, um companheiro que sabe apreciar. Farei muitos conhecimentos, amigos, mulheres — talvez até arranje uma esposa. Durante uns tempos terei de fazer um esforço consciente para sorrir, acenar com a cabeça, ficar parado e executar os milhares de pequenos gestos que constituem a vida sobre a Terra, e mais tarde esses gestos voltarão a ser menos reflexos. Encontrarei novos interesses e ocupações e não me entregarei a eles por completo, tal como também nunca mais me entregarei por completo a nada nem a ninguém. Talvez à noite olhe para a escura nebulosa que tapa a luz dos sóis gêmeos e recorde tudo, até o que agora estou a pensar.

Com um sorriso condescendente e levemente infeliz, relembrarei as minhas loucuras e as minhas esperanças. E esse Kelvin do futuro não terá menos valor que o Kelvin do passado, o qual, em nome de um ambicioso empreendimento chamado Contato, estava preparado para tudo. E nenhum homem terá o direito de me julgar.

Snow entrou na cabina, olhou em volta e olhou de novo para mim.
Fui até junto da mesa:
— Andava à minha procura?
— Não tem nada para fazer? Podia dar-lhe algum trabalho... uns cálculos. Não seria nada particularmente urgente...
— Obrigado — sorri —, não precisava ter-se incomodado.
— Tem a certeza?
— Sim. Estive pensando em certas coisas e...
— Gostaria que pensasse um pouco menos.
— Mas você não sabe o que eu estava pensando! Diga-me uma coisa. Você acredita em Deus?
Snow lançou um olhar apreensivo na minha direção:
— O quê? Quem é que, nos dias de hoje, ainda acredita...
— Não é assim tão simples. Não me refiro ao tradicional Deus da religião da Terra. Não sou perito em histórias das religiões e talvez isto não seja nada de novo... você por acaso não saberá se alguma vez existiu uma crença num... deus imperfeito?
— Que quer dizer com esse imperfeito? — E Snow franziu a sobrancelha. — De certo modo, todos os deuses das velhas religiões eram imperfeitos, tendo em conta que os seus atributos eram apenas os atributos humanos ampliados. O Deus do Velho Testamento, por exemplo, exigia uma submissão humilde e sacrifícios e tinha ciúmes dos outros deuses. Os deuses gregos tinham faniquitos e querelas de família e eram tão imperfeitos como os mortais...
— Não — interrompi. — Não estou pensando em um deus cuja imperfeição é fruto da candura dos seus criadores humanos, mas um deus cuja imperfeição represente a sua característica essencial: um deus limitado na sua onisciência e poder, falível, incapaz de prever as conseqüências dos seus atos e criando coisas que conduzem ao horror. Ele é um deus... doente, cujas ambições excedem os seus poderes e que, a princípio, não perceba este fato. Um deus que criou os relógios, mas não o tempo de que estes são a medida. Criou sistemas e mecanismos que serviam fins específicos, mas agora os ultrapassou e traiu. E criou a eternidade, que deveria ser a medida do seu poder e que afinal é a medida da sua infinita derrota.
Snow hesitou, mas a sua atitude não mostrava já nada daquela reserva cautelosa das últimas semanas:
— Houve o Maniqueísmo...
— Não tem nada a ver com o princípio do Bem e do Mal — interrompi imediatamente. — Este deus não tem qualquer existência fora da sua matéria. Gostaria de libertar-se dessa matéria, mas não pode...
Snow ponderou o problema durante algum tempo:
Não conheço nenhuma religião que corresponda à sua descrição. Essa espécie de religião nunca foi... necessária. Se bem o compreendo, e temo que sim, o que você tem em mente é um deus em evolução, que se desenvolve com o decurso do tempo, cresce, continua sempre a aumentar em poder, ao mesmo tempo em que tem consciência da sua impotência. Para o seu deus, a condição divina é uma situação sem objetivo. E, compreendendo essa verdade, ele entra em desespero. Mas, Kelvin, esse seu deus desesperado não será a humanidade? É do homem que você está falando, e isso é uma falácia, não só em termos filosóficos como também místicos.
Insisti:
— Não, nada tem a ver com o homem. O homem pode talvez corresponder, sob certos pontos de vista, à minha definição provisória, mas isso acontece porque a definição tem imensas lacunas. Apesar das aparências, não é o homem que cria os deuses. São os tempos, a época, que os impõem. O homem pode seguir de acordo com a sua época ou rebelar-se contra ela, mas a essência da sua cooperação ou rebelião vem do exterior. Se existisse apenas um único ser humano, aparentemente ele poderia tentar a experiência de criar, em inteira liberdade, os seus próprios fins... mas só aparentemente, porque um homem que não cresceu junto a outros seres humanos não poderá tornar-se um homem. E o ser (o ser que tenho em mente) não pode existir no plural, entende?
— Oh, então nesse caso... — Apontou para fora da janela.
— Não, o Oceano também não. Durante o seu desenvolvimento ele chegou provavelmente muito próximo do estado divino, mas regressou a si próprio demasiado cedo. É mais semelhante a um eremita do cosmo, do que um deus. Ele repete-se, Snow, e o ser em que estou a pensar nunca faria tal coisa. Talvez já tenha nascido num canto qualquer da galáxia, e em breve venha a ter um entusiasmo infantil qualquer que o leve a apagar uma estrela e a acender outra. Passado um tempo, acabaremos por reparar nele...
— Já reparamos — disse Snow com sarcasmo. Novas e supernovas . De acordo com as suas ideias, são velas sobre o altar desse deus.
— Se pretende entender literalmente o que digo...
— E talvez Solaris seja o berço da sua criança divina — continuou Snow, com um sorriso crescente, que aumentava o número de rugas que tinha em volta dos olhos. — Solaris podia bem ser a primeira fase do deus desesperado. Talvez a sua inteligência venha a crescer enormemente. Todo o conteúdo das nossas bibliotecas solaristicas podia ser apenas um registro dos seus problemas de dentição...
—... e nós não teríamos passado de um brinquedo com que o bebê brincou durante algum tempo. É possível. E sabe o que você acaba de fazer? Apresentou uma hipótese inteiramente nova a respeito de Solaris! Meus parabéns! De súbito tudo tem o seu lugar: a impossibilidade de estabelecer contato, a ausência de respostas, várias... como direi, várias peculiaridades no seu comportamento em relação a nós. Tudo é explicável se o considerarmos em termos de comportamento de uma criança pequena.
— Renuncio à paternidade da teoria — resmungou Snow, em pé junto à janela.
Por muito tempo continuamos a olhar para as sombrias ondas. Na neblina que obscurecia o horizonte, uma longa mancha pálida começou a surgir no oriente.
Sem desviar os olhos do fulgente deserto, Snow perguntou abruptamente:
— O que lhe deu essa ideia de um deus imperfeito?
— Não sei. A mim parece-me perfeitamente possível. É o único deus em quem imagino poder acreditar, um deus cuja paixão não é redenção, que nada salva, que não serve a nenhum propósito... um deus que se limita a ser.
— Um mimóide — sussurrou Snow.
— O quê? Ah, sim, já notei. Um mimóide muito velho.

Ambos olhamos para o nebuloso horizonte.
— Vou lá fora — disse eu abruptamente. — Ainda nunca saí da Estação, e esta é uma boa oportunidade. Voltarei daqui a meia hora.
Snow abriu interrogativamente os olhos.
— O quê? Vai lá fora? Aonde vai?
Apontei em direção à mancha cor de carne que ficava semi escondida pela neblina:
— Ali. O que poderia me deter? Levo um helicóptero dos pequenos. Quando regressar à Terra, não quero ser obrigado a confessar que sou um solarista que nunca pôs o pé em Solaris!

Abri um armário e pus-me a escolher um traje atmosférico enquanto Snow olhava em silêncio. Por fim, este disse:
— Não estou gostando disso.
Escolhi um traje. Voltei-me então para ele:
— O quê? —  Fazia tempo que não me sentia tão excitado. — Com o que se preocupa? Confesse! Você está com medo que eu... garanto que não tenho qualquer intenção... sinceramente nunca me passou pela cabeça.
— Vou com você.
— Obrigado, mas prefiro ir sozinho. — Enfiei o traje. — Já reparou que será o meu primeiro voo por sobre o Oceano?
Snow resmungou qualquer coisa, mas não consegui entender o quê.
Eu estava ansioso por reunir o resto do equipamento.
Acompanhou-me à base de lançamento e ajudou-me a puxar o aparelho para fora e a colocá-lo no disco do elevador. Estava verificando o meu traje quando me perguntou de repente:
— Posso confiar na sua palavra?
— Continua preocupado? Sim, pode. Onde estão os tanques de oxigênio?

Não trocamos mais palavra. Fiz deslizar e fechei o telhado transparente, fiz-lhe sinal e ele pôs o elevador em funcionamento. Emergi no telhado da Estação; o motor ganhou vida; as três lâminas giraram e o aparelho elevou-se —estranhamente leve— no ar. Depressa a Estação ficou para trás.

Sozinho por cima do Oceano, o vi com outros olhos.
Estava voando muito baixo, a cerca de uns cem pés, e pela primeira vez senti uma sensação muitas vezes descrita pelos exploradores, mas que, da altura que estava a Estação, nunca notara pessoalmente: o movimento alternado das luzentes ondas em nada se assemelhava à ondulação do mar ou a um amontoar de nuvens. Era como a pele de um animal a rastejar — as contrações incessantes e lentas de tecido muscular a segregar uma espuma carmesim.
Quando voltei o aparelho na direção do mimóide que seguia à deriva, o sol acertou-me nos olhos e lampejos vermelho-sangue batiam na cabine abaulada.
O negro Oceano, relampejando em sombrias chamas, estava tingido de azul.
O aparelho deu uma volta pelo largo e o vento empurrou-nos para uma boa distância do mimóide, uma silhueta longa e irregular que se erguia acima do Oceano.
Emergindo da neblina, o mimóide já não era rosado, antes de um cinzento-amarelado. Perdi-o momentaneamente de vista e pude avistar a Estação, que parecia sentada sobre a linha do horizonte e cujo traçado exterior fazia lembrar um antigo zepelim.
Mudei de direção e o corpo total do mimóide foi crescendo na minha linha de visão — uma escultura barroca. Tive medo de ir de encontro às saliências bulbosas e fiz o aparelho subir de modo tão abrupto que perdeu a velocidade e começou a capotar; mas a minha cautela fora desnecessária, pois os picos arredondados dessas torres fantásticas estavam baixando.

Voei junto à ilha e, lentamente, metro a metro, baixei até ao nível dos picos desgastados pela erosão. O mimóide não era grande. De ponta a ponta media cerca de três quartos de milha e tinha poucas centenas de metros de largura. Em alguns pontos estava quase a partir-se. Era óbvio que este mimóide era um fragmento de uma formação muito maior. Pela escala de Solaris, era apenas minúscula lasca, com semanas ou talvez meses de idade.

Por entre os penhascos sarapintados junto ao Oceano, encontrei uma espécie de praia, uma superfície inclinada mas bastante plana, de vários metros quadrados, e para lá me dirigi. Os rotores quase bateram num penhasco que subitamente me surgiu no caminho, mas aterrei em segurança, desliguei o motor e fiz deslizar o teto para trás. Em pé sobre a fuselagem, assegurei-me de que não havia hipótese do aparelho deslizar para dentro do Oceano. As ondas lambiam a margem dentada a cerca de quinze metros de distância, mas o aparelho estava solidamente apoiado sobre as suas pernas; saltei para o “solo”.

O penhasco em que quase batera era uma gigantesca membrana ossuda, atravessada por várias aberturas e cheia de saliências nodosas. Uma fenda com a largura de vários metros cortava-o no sentido da diagonal, o que me permitiu examinar o interior da ilha, interior esse que já espreitara pelas aberturas que havia na membrana.
Caminhei cuidadosamente pela borda mais próxima, mas as minhas botas não mostravam qualquer tendência para deslizar e o traje não prendia os movimentos, e continuei subindo até que cheguei a uma altura como de quatro andares acima do Oceano e pude ver uma vasta paisagem petrificada, que se estendia sem fim até desaparecer de vista nas profundezas do mimóide.
Era como olhar para as ruínas de uma antiga cidade, uma cidade marroquina com dezenas de séculos de idade, arrasada por um terremoto ou qualquer outra calamidade: descobri uma emaranhada teia de ruelas serpenteantes, atulhadas de escombros, e vastas alamedas caindo abruptamente em direção à espuma oleosa que flutuava junto à praia.

A uma certa distância, grandes edifícios continuavam intactos, sustentados por arcos  ossificados. Viam-se negras aberturas nas paredes inchadas e imersas — vestígios de janelas ou postigos. Toda a cidade flutuante descaía ora para um lado ora para o outro, tal como um navio a naufragar, depois assentava e rodava lentamente e o sol provocava sombras sempre em movimento, as quais se estendiam pelas fileiras de ruínas. De vez em quando, uma superfície polida apanhava e refletia a luz.
Arrisquei-me a subir mais acima, depois parei; riachos de fina areia começaram a escorrer pelos rochedos acima da minha cabeça, caindo em cascata pelas ravinas e alamedas e ricocheteando em rodopiantes nuvens de pó.
O mimóide não é feito de pedra, e para desfazer a ilusão basta que apanhemos um pedacinho dele: é mais leve que pedra-pomes e é composto por pequenas células muito porosas.

Eu estava agora suficientemente alto para sentir a oscilação do mimóide. Este movia-se para diante, propulsionado para um destino desconhecido pelos músculos sombrios do Oceano, mas a sua inclinação variava. Balouçava de um lado para o outro, e a lânguida oscilação era acompanhada pelo suave murmúrio de espuma amarela e cinzenta que brotava da praia imersa. O mimóide adquirira o seu movimento balouçante há muito tempo já, provavelmente na altura do seu nascimento, e mesmo depois de crescer, e apesar de começar já a partir-se, mantinha o padrão original.
Só nesse momento me apercebi de que não estava nem um pouco interessado no mimóide e que voara até ali não para explorar a formação, mas para conhecer melhor o Oceano.

Com o helicóptero poucos passos atrás de mim, sentei-me na praia áspera e cheia de fissuras. Uma densa onda negra quebrou de encontro à beira da margem e espraiou-se, não preta mas de um verde-sujo. A onda ao recuar, deixou viscosos riachinhos que deslizaram trementes de volta ao Oceano. Aproximei-me mais, e quando veio a onda seguinte, estendi a mão.
O que se seguiu foi a reprodução fiel de um fenômeno que fora analisado um século antes: a onda hesitou, retraiu-se, depois envolveu a minha mão sem lhe tocar, de modo que uma delgada camada de “ar” separava a minha luva dentro de uma cavidade que um minuto antes fora um fluido e tinha agora uma consistência carnuda.
Levantei lentamente a mão, e a onda, ou antes, uma excrescência da onda ergueu-se ao mesmo tempo, envolvendo a minha mão num casulo translúcido com reflexos esverdeados. Levantei-me para poder erguer a mão ainda mais alto, e a substância gelatinosa esticou como uma corda, mas não quebrou. O corpo principal da onda permanecia imóvel na praia, rodeando os meus pés sem lhes tocar, como um estranho animal pacientemente à espera que a experiência acabasse.

Do Oceano nascera uma flor, e o seu cálice era moldado com o feitio dos meus dedos. Recuei. O caule tremeu, oscilou de modo incerto e caiu de novo na onda, que o absorveu e recuou.

Repeti várias vezes a brincadeira, até que —como já o primeiro observador verificara — uma onda me ignorou, cheia de indiferença, como se aborrecida com uma sensação demasiado conhecida. Eu sabia que para reavivar a “curiosidade” do Oceano teria de esperar várias horas. Perturbado pelo fenômeno que eu próprio estimulara, de novo me sentei. Embora tivesse lido numerosas descrições do caso, nenhuma me preparara para a experiência como a vivi e senti-me até certo ponto mudado.
Em todos os seus movimentos, considerados em conjunto ou separadamente, cada um desses braços que saiam do Oceano parecia exibir uma espécie de alerta, cautelosa mas não feroz, uma curiosidade ávida por apreender rapidamente uma forma nova e inesperada e lastimando ter de recuar, incapaz de exceder os limites estabelecidos por alguma misteriosa lei. Era impossível descrever o contraste entre essa viva curiosidade e a brilhante imensidão do Oceano, que se estendia a perder de vista... Nunca sentira tão fortemente a sua gigantesca presença ou o seu poderoso e imutável silêncio ou as forças secretas que davam às ondas a sua subida e descida regular.

Sentei-me sem nada ver e mergulhei num universo de inércia, deslizei por uma encosta irresistível e identifiquei-me com o mudo colosso fluido; era como se, sem o mínimo esforço de palavras ou pensamentos, lhe tivesse perdoado tudo.

Durante aquela última semana tinha-me comportado de modo tão normal que Snow deixara de me vigiar constantemente. À superfície eu estava calmo; em segredo, sem realmente o admitir, aguardava algo. O regresso dela? Como podia esperar tal coisa? Todos sabemos que somos criaturas materiais, sujeitos às leis da fisiologia e da física e nem mesmo a força de todos os nossos sentimentos combinados pode vencer essas leis. Podemos apenas detestá-las. A fé, velha como a vida, dos amantes e dos poetas no poder do amor, que é mais forte que a morte, que “finis vitae sed non amo ris”, é uma mentira inútil e nem mesmo divertida.

Teremos, pois, de nos resignar a ser um relógio que mede a passagem do tempo, umas vezes a funcionar bem, outras a precisar de reparação, cujo mecanismo gera o desespero e o amor logo que é posto em funcionamento pelo seu fabricante? Teremos de nos habituar à ideia de que todos os homens revivem velhos tormentos, tormentos esses que ficam cada vez mais profundos porque se vão tornando cômicos com a repetição? Que a existência humana tenha de repetir-se, está bem, mas que se repita como uma música em voga ou um disco que um bêbedo faz continuamente tocar, enquanto vai metendo moedas na máquina dos discos...

Aquele gigante líquido causara a morte de centenas de homens.
Toda a raça humana tentara em vão, estabelecer com ele até a mais tênue das ligações, e agora agüentava ali com o meu peso, sem reparar mais em mim do que repararia num grão de pó. Eu não acreditava que ele pudesse reagir à tragédia de dois seres humanos. Contudo, as suas atividades tinham um propósito... Certo que eu não tinha uma certeza absoluta, mas partir significaria desistir de uma probabilidade, talvez infinitesimal, talvez apenas imaginária... Deverei então continuar a viver aqui, entre objetos em que ambos tocamos, no ar que ela respirou? Em nome de quê? Na esperança do seu regresso? Eu não esperava nada. E, contudo vivia na expectativa.

Desde que ela partira, era tudo o que me restava. Não sabia que empreendimentos, que brincadeiras, até que torturas me aguardavam ainda.

Não sabia nada, mas persistia na fé de que a era dos milagres cruéis ainda não acabara.



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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Horror Masters



Horror Masters.com - Mais de 2.900 histórias de horror!

Há seções especiais para histórias de fantasmas, vampiros, monstros, ocultismo, lobisomens, bruxas e horror em geral.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Contos Fantásticos e Best SF

Desde a antiguidade os homens têm contado histórias, mas somente a 200 anos atrás, com os irmãos Grimm,  se começou a investigar as origens das histórias e, desde então, tentamos responder a perguntas como: por que as contamos?

Uma resposta poderia ser porque são arrebatadoras.
Quem resiste a um bom conto de FC, Terror ou Fantasia?

Frequentemente desprezados por grandes editoras e relegados a parcas coletâneas independentes, os contos constituem a espinha dorsal da literatura de gênero, como disse Doctorow, 'tudo termina e começa com um pequeno e tímido conto'.

Dois sites, um brasileiro e outro americano, onde o conto tem o devido destaque.







quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Visitante do labirinto - Rafael Ábalos



Um jovem príncipe, filho do Honorável Rei Winder Wilmut Winfred, está perdido na mata próximo do Lago Fergonol depois de ter saído para um passeio ao longo de suas margens.O jovem chega a uma cabana onde descobre com surpresa que um homem estranho está a sua espera, é Gorgonan, duende do Lago Fergonol, que anunciou que ele tinha atravessado as portas do labirinto invisível, tal como anos atrás, tinha feito seu pai, o rei.  A perplexidade do Príncipe aumenta com a visita de três outros duendes, Borbarón, Candelán e Sandelón, os três idênticos a Gorgonan. Ele informa que o herói deve se preparar para no dia seguinte fazer uma viagem que o levará a descoberta de si mesmo.

Um livro contendo todos os elementos das lendas e contos de aventura: um jovem que se perde na floresta e encontra uma cabana onde vivem os duendes, navios piratas, seres fantásticos como o dragão, cavaleiros andantes, castelos sob cerco, os barões gananciosos...


[...

O vento cantou melodias que pareciam vir de flautas de bambu, o velho e desajeitado Gorgonan sentou na sua agradável cadeira de balanço de vime brincando com seu cachimbo de bolhas de sabão e anéis mágicos no ar de espuma azul. Sentou-se na porta de sua casa confortável, de frente para as águas geladas do lago em cuja superfície espelhava as neves eternas das montanhas que ficavam nas suas margens como um gigante sonolento e preguiçoso. No céu, uma lua minguante com brilho de águas em movimento, brilha uma louca corrida entre uma infinidade de estrelas cintilantes.

Gorgonan sabia que estava próxima a chegada do Visitante. Apareceria pelo atalho do oeste com a precisão de um relógio de sol, no justo momento em que a lua se desvanecesse no horizonte. Por isso não mostrava nenhuma impaciência. — O que tem que chegar, chegará, — disse para si mesmo, olhando as pontas reluzentes de suas botas como se falasse com elas. Ele nunca as tinha limpado com tanto esmero. Mas esta era uma ocasião única, embora o Visitante ignorasse ainda seu irremediável destino: só era um jovem príncipe um pouco atordoado, esguio e de olhos apagados, que, nessa mesma tarde decidiu aventurar-se a passear pelas margens do lago e que agora vagava perdido e assustado pelo bosque que o envolvia, fechado e denso como um enigma indecifrável. ...]


O Visitante do labirinto - Rafael Ábalos [ Download ]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Film & Festivals - Sci-Fi / Horror








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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

E.T. O Extraterrestre em sua Aventura na Terra



[...Michael pós os enchimentos nos ombros e pegou o capacete. Estava se sentindo violento hoje, querendo ação. Em poucas passadas estava outra vez no alto da escada. Mas deparou com Elliott ali, bloqueando-lhe a passagem.

— Michael...
— O que está querendo, cara? Michael adiantou-se.
— Tenho uma coisa muito importante para contar a você.
— E o que é?
— Lembra do duende?
— Duende? Ora, saia da minha frente ...
— Espere um instante, Michael. Estou falando sério. Ele voltou.
— Elliott... — Michael não tinha muito o que fazer com o irmão menor. Elliott era como um fuinha desagradável, cheio de movimentos furtivos...
— Saia da minha frente.
— Posso mostrar o duende a você. Mas não se esqueça de que ele me pertence.
Michael hesitou.
— Está bem ... mas que seja depressa.
— Jure primeiro. E tem de ser o juramento mais solene que você puder fazer.
— Está bem, está bem, juro tudo. Mas mostre logo o que tem. É um gambá ou algo assim? Está no seu quarto? Mamãe vai matá-lo.

Elliott levou Michael pelo corredor.
— Tire as ombreiras — disse ele, ao entrarem no quarto. — Pode assustá-lo.
— Não enche, Elliott. Elliott levou-o até o armário.
— Feche os olhos.
— Por quê?
— Feche os olhos sem fazer perguntas, Michael.

Dentro do armário, o veterano botânico intergalático estava revisando tudo o que sabia a respeito de aparelhos de comunicações, pois em breve teria de construir um. Ouviu os dois humanos entrarem no quarto, mas ignorou a aproximação, mais concentrado em vasculhar o cérebro à procura de indicações para a construção do transmissor. A porta do armário abriu-se de repente.
Elliott passou o braço por ele e acenou com a cabeça, num gesto tranqüilizador.
— Venha conhecer meu irmão.

Eles saíram, no momento em que Gertie, de volta do jardim de infância, entrava correndo no quarto. Vendo o monstro, ela gritou. E o monstro também gritou. Além de Michael, que acabara de abrir os
olhos. As vozes misturadas alcançaram o centro de comando da casa, onde Mary estava sentada, tentando recuperar as forças.

— Oh, Deus...

Ela se levantou da mesa da cozinha. Que ritual selvagem sua família estava agora realizando? Parecia que estavam arrancando a calcinha de Gertie. Dentro de 20 anos, Gertie estaria tentando recordar a cena, num diva de analista.

Mary subiu a escada, preparada para tomar anotações, que entregaria mais tarde a Gertie, quando ela começasse a fazer análise.
Ela avançou exausta pelo corredor, a caminho do quarto de Elliott. Um dia inteiro de trabalho no escritório, seguido por um trauma infantil em casa... apenas mais um dos pequenos desafios da vida.
Mary parou por um momento à porta de Elliott. Esperava que pelo menos o quarto estivesse arrumado.
Abriu a porta. Cada objeto que Elliott possuía fora jogado no chão. Mary olhou para o filho. No meio de tudo aquilo, como ele podia exibir uma expressão tão inocente?

— O que aconteceu aqui?
— Aqui onde?
— Onde? Olhe só para esta confusão! Como é possível?
— Está falando do meu quarto?
— Isto não é um quarto, mas um acidente. Contratou um furacão para vir aqui?

Dentro do armário, o veterano botânico intergalático estava encolhido entre Michael e Gertie. A garotinha parecia prestes a mordê-lo. A boca do menino estava entreaberta, numa expressão apatetada, os ombros enormes e disformes ocupavam um espaço considerável no armário apertado. O hóspede do espaço esperava que o arranjo atual não fosse permanente, já que o aposento era muito apertado.
Ele espiou por uma fresta na porta. A mãe das crianças estava apontando para as coisas que ele espalhara pelo quarto, à procura de componentes para o seu transmissor.

Tentou avaliar o grau de cordialidade da mulher da Terra. Ela não usava correntes de metal, não parecia armada, era tão atraente quanto a princesa marciana do poster. Só não tinha, é claro, a silhueta inferior em forma de pêra, a suprema beleza. E também não podia se gabar da elegância incomparável de dedos compridos nos pés...]


E.T. O Extraterrestre em sua Aventura na Terra - William Kotzwinkle (baseado no roteiro de Melissa Mathison) [ Download ]

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Tim Powers




Timothy Thomas Powers (29 de fevereiro de 1952) nasceu em Buffalo, Nova Iorque(EUA) e cresceu na Califórnia, para onde sua família se mudou em 1959.

Estudou Inglês e Literatura na California State Fullerton, onde conheceu James Blaylock e K.W. Jeter, que se tornariam amigos e colaboradores ocasionais. Outro escritor que ele conheceu durante este período foi Philip K. Dick. O personagem "David" no romance Valis de PKD, é baseado em Powers.

Seus livros são conhecidos por apresentar o que se convencionou chamar de "histórias secretas '- ele se utiliza de eventos históricos, mas mostra uma outra visão deles, em que a magia é uma força importante das motivações e ações dos personagens. Como em 'Three Days to never', que explora viagens no tempo, criaturas sobrehumanas, além de Charlie Chaplin e Albert Einstein.

Powers também escreve Ficção Científica, mas  frequentemente é na Fantasia, na magia e no sobrenatural que seu trabalho ganha em ênfase.

Seu primeiro romance de maior destaque foi  'Drawing of the Dark'(1979), mas o aquele que o colocou no mapa foi o seguinte 'Anúbis Gates'(1983), que ganhou o prêmio Philip K. Dick Memorial. Anubis Gates foi desde então, traduzido e publicado em diversos idiomas.

Logo em seguida a este sucesso de crítica e vendas, Powers publicaria o apocalíptico 'Dinner at Deviant's Palace'(1985) que também ganharia um PKD Memorial award.

Já com um público consolidado de fãs, Powers lançaria 'No Stranger Tides'(1987) que mistura piratas e vodu e a seguir 'The Stress of her regard'(1989) explorando o sobrenatural de poetas como Byron, Shelley e Keats. Sua fantasia contemporânea também foi premiada com um World Fantasy Award e um Locus, através de 'Last Call'(1992), que formaria uma trilogia com 'Expiration date'(1995) e 'Earthquake Weather'(1997), ambos também vencedores do prêmio Locus.

Em 2001, 'Declare', uma história sobre espiões sobrenaturais, ganharia os prêmios World Fantasy e  International Horror Guild award.

Powers também lecionou em meio período, na Orange County High School of the Arts, onde seu amigo, Blaylock é diretor do Departamento de Escrita Criativa.

Mais recentemente Powers voltou às manchetes quando o ator Johnny Depp subiu no palco do Anaheim Convention Center, em sua fantasia de Jack Sparrow, e surpreendeu seus fãs anunciando que o quarto filme da série se chamaria 'Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides' (Piratas do Caribe: Navegando em águas misteriosas).

Sobre o anúncio, Powers declarou que estava ainda curioso para ver como Hollywood adaptará sua fantasia histórica à franquia milionária.

'No Stranger Tides' é sobre Jack Shandy Chandagnac, filho de um titereiro britânico que assumiu a tradição da família, depois que seu pai morreu indigente. Ele embarca para a Jamaica para encontrar o tio que roubou a herança de seu pai, mas no caminho é capturado por piratas que praticam feitiçaria voodu - eles lhe dão a opção de unir-se às suas fileiras ou a execução. Logo, relutantemente, ele se junta com Barba Negra na busca da fonte da juventude.

Powers também acrescentou: "Algumas pessoas me perguntam se estou preocupado com que eles possam estragar o meu livro. Eu sempre penso em algo que James Cain disse, quando as pessoas perguntaram o que pensava sobre o que Hollywood tinha feito de seus livros. Ele apontava para a estante e dizia: "Eles não fizeram nada para eles, vejam'.

Powers vive atualmente em Muscoy, California, com sua esposa Serena (sua agente) e um coelho chamado Mac Sidhe.

Tim Powers ( Cena En El Palacio De La Discordia, La Fuerza De Su Mirada, Dinner at Deviant's Palace, The Anubis Gates, En Costas Extranas, Esencia Oscura, La Ultima Partida, Las Puertas de Anubis, Drawing of the Dark, Last Call, On Stranger Tides, Stress of Her Regard, Three Days to Never, The Bible Repairmen, The Skies Discrowned ) [ Download ]

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 24)


VITÓRIA

Mais três semanas.
Os escudos subiam e desciam sempre nas mesmas horas. Eu continuava prisioneiro dos meus pesadelos, e todas as manhãs o fingimento recomeçava. Mantinha uma compostura fingida e Rheya fazia o mesmo teatro. O engano era mútuo e deliberado e o nosso acordo contribuía para a nossa última evasão. Falávamos do futuro, da nossa vida na Terra nos arredores de qualquer grande cidade. Passaríamos o resto da vida entre árvores verdes e um céu azul e não voltaríamos a sair da Terra. Juntos fizemos o projeto da casa e do jardim, e discutíamos por causa de pormenores, tais como a localização de uma sebe ou de um banco.

Não creio que, nem por um instante, estivesse sendo sincero.

Nossos planos eram impossíveis, e eu sabia, pois mesmo que Rheya pudesse abandonar a Estação e sobreviver à viagem, como poderia eu passar pelos inspetores da imigração com a minha passageira clandestina? A Terra só admite seres humanos, e mesmo desses só os que são portadores dos devidos papéis. Rheya seria detida para uma verificação de identidade logo na primeira barreira, seríamos separados e ela logo se trairia.

A Estação era o único lugar onde podíamos viver juntos. Rheya devia saber disso.

Uma noite ouvi Rheya sair silenciosamente da cama. Queria fazê-la parar; na escuridão e no silêncio, conseguíamos por vezes afastar o desespero por um momento, ajudando-nos mutuamente a esquecer. Rheya não notou que acordei. Quando estendi a mão ela estava fora da cama e seguia descalça em direção à porta. Sem ousar elevar a voz, sussurrei o seu nome, mas ela já estava do lado de fora, e pela porta aberta vinha uma estreita faixa de luz do corredor.

Houve um som de sussurros. Rheya falava com alguém... mas, quem? Quando tentei levantar-me, o pânico apoderou-se de mim e não consegui mover as pernas. Pus-me à escutar, mas nada ouvi. O sangue latejava-me nas têmporas. Comecei a contar, e estava a chegar aos mil quando houve um movimento junto à porta e Rheya regressou. Ficou um segundo parada sem se mexer e obriguei-me a respirar de modo regular.

— Kris? — sussurrou.

Não respondi.
Entrou rapidamente na cama e deitou-se, tendo o cuidado de não me incomodar. Zumbiam-me perguntas na cabeça, mas não queria ser o primeiro a fazer qualquer movimento e não o fiz. O interrogatório silencioso continuou por uma hora, talvez mais. Depois adormeci.

A manhã foi como outra qualquer. Observei furtivamente Rheya, mas não vi qualquer alteração no seu comportamento. Depois do café nos sentamos junto à grande janela panorâmica.
A Estação pairava entre nuvens cor de púrpura.

Rheya lia e enquanto olhava para fora notei subitamente que, pondo a cabeça num certo ângulo, podia ver-nos a ambos refletidos na janela. Retirei a mão da grade. Rheya não fazia ideia de que a estava observando. Olhou para mim, obviamente convencida, pela minha posição, de que eu estava olhando para o Oceano, depois inclinou-se e beijou o lugar onde a minha mão pousara. No minuto seguinte estava novamente lendo.

— Rheya — perguntei docemente —, onde foi ontem à noite?
— Ontem à noite?
— Sim.
— Deve... deve ter sonhado, Kris. Não fui a lugar nenhum.
— Não saiu da cabine?
— Não. Deve ter sido um sonho.
— Talvez... sim, talvez tenha sonhado.
Nessa mesma noite comecei a falar novamente do nosso regresso à Terra, mas Rheya me fez parar:
— Não volte a falar da viagem, Kris. Não quero mais ouvir falar disso, sabe muito bem...
— O quê?
— Não, nada.
Depois de irmos para a cama, disse-me que tinha sede:
— Tem um copo de suco de fruta naquela mesa. Pode me dar? — Bebeu metade e estendeu-me o copo.
— Não tenho sede.
— Então bebe à minha saúde — sorriu.
Tinha um gosto um pouco amargo, mas eu tinha a cabeça noutras coisas. Rheya apagou a luz.
— Rheya... Se não quer falar da viagem, falemos de outra coisa qualquer.
— Se eu não existisse, você se casaria?
— Não.
— Nunca?
— Nunca.
— Por que não?
— Não sei. Estive dez anos sozinho e não me casei. Não falemos disso... — Estava um pouco tonto, como se tivesse bebido demais.
— Não; vamos falar nisso. E se eu te pedisse?
— Que voltasse a me casar? Não seja boba, Rheya. Não preciso de ninguém a não ser você.
Sentia a sua respiração na cara e os seus braços em volta de mim:
— Diz isso de outra maneira.
— Te amo.
A cabeça dela caiu-me sobre um ombro e senti-lhe as lágrimas.
— Rheya, que foi?
— Nada... nada... nada... — Ecoou a sua voz no silêncio, e os meus olhos fecharam-se.

Acordei com a madrugada vermelha e sentia a cabeça a ponto de estourar e o pescoço tão rígido que parecia ter os ossos soldados uns aos outros. Tinha a língua inchada e um gosto horrível na boca. Estendi então a mão para Rheya, mas senti apenas o lençol frio.

Sentei-me de supetão.
Estava só — só na cama e só na cabina. A janela côncava refletia uma fileira de sóis vermelhos. Arrastei-me para fora da cama e cambaleei até ao quarto de banho, balançando como um bêbedo e batendo contra a mobília. Estava vazio.

— Rheya!
Sempre a chamar, corri de uma ponta à outra do corredor.
— Rheya! — gritei uma última vez e depois a minha voz calou-se. Já sabia a verdade...
Não recordo a exata seqüência dos acontecimentos depois disso, enquanto, meio nu, percorri toda a Estação, tanto no sentido do comprimento como no da largura. Parece-me que cheguei até a ir à seção de refrigeração, busquei nos depósitos com os punhos fechados em portas trancadas, depois voltava atrás, para de novo me atirar contra as portas que tinham resistido. Quase cai escada abaixo, voltava a levantar-me e seguia sempre para a frente. Quando cheguei às portas duplas e blindadas que davam para o Oceano, continuava ainda a chamar, tinha ainda a esperança de que fosse tudo um sonho. Alguém apareceu junto de mim. Umas mãos agarraram-me e puxaram-me para longe.

Recobrei os sentidos deitado numa mesa de metal na pequena oficina e a ofegar.
A garganta e as narinas ardiam-me devido a um vapor alcoólico qualquer, tinha a camisa ensopada em água e o cabelo colado de encontro ao crânio.

Snow estava atarefado junto a um armário de remédios, remexendo em instrumentos e vasos de vidro, que tilintavam com insuportável clamor. Depois a sua face apareceu, fitando-me gravemente nos olhos.
— Onde está ela?
— Não está aqui.
— Mas... Rheya...
Inclinou-se para mim, aproximou bem a face e falou lenta e claramente:
— Rheya morreu.
— Ela voltará — sussurrei.
Em lugar de temer o seu regresso, desejava-o. Não tentei recordar por que tinha eu próprio tentado uma vez afastá-la, nem por que tanto receio tivera do seu regresso.
— Beba isto.
Snow estendeu-me um copo e atirei-lhe à cara. Recuou cambaleante a esfregar os olhos, e quando voltou a abri-los eu estava de pé, dominando-o sobre ele. Como era pequeno...
— Foi você!
— Que quer dizer com isso?
— Ora, Snow, você sabe muito bem do que estou falando. Foi você quem se encontrou com ela na outra noite. Disse-lhe para me dar um comprimido para dormir... Que aconteceu a Rheya? Diga-me!
Procurou no bolso da camisa e tirou um envelope. Arranquei-o de sua mão. Estava lacrado e não tinha qualquer nome. Dentro tinha uma folha de papel dobrada duas vezes e reconheci a letra, grande e bastante infantil:

“Meu querido, fui eu quem lhe pediu. Ele é um bom homem. Peço perdão por ter sido obrigada a mentir para você. Te peço que me faça uma última vontade — ouve o que ele tem para te dizer e não atente contra si. Você foi maravilhoso.”

Havia mais uma palavra, que ela riscara, mas podia-se ainda ver que tinha assinado “Rheya”.
A minha mente estava agora inteiramente lúcida. Mesmo que tivesse querido gritar histericamente, a voz tinha sumido e nem forças tinha para gemer.
— Como?
— Mais tarde, Kelvin. Precisa acalmar-se.
— Já estou calmo. Conte-me como foi.
— Desintegração.
— Mas... que usaram...
— O aparelho Roche não servia. Sartorius construiu uma outra coisa, um novo desestabilizante. Um instrumento miniatura, com um alcance de poucos metros.
— E ela...
— Desapareceu. Um estalido e um sopro de ar. E é tudo.
— Um instrumento de pequeno alcance...
— Sim, não tínhamos recursos para construir uma coisa maior.
As paredes pareciam cerrar-se sobre mim e tive de fechar os olhos.
— Ela vai voltar.
— Não.
— O que você sabe sobre isso?
— Lembra-se das asas de espuma? Desde esse dia que já não voltam.
— Você a matou — murmurei.
— Sim... Se estivesse no meu lugar, que outra coisa teria feito?
Afastei-me dele e comecei a percorrer a sala de um lado para o outro. Nove passos até ao canto. Meia volta. Mais nove rígidos passos e de novo estava em frente a Snow.
— Ouça, vamos escrever um relatório. Vamos pedir ligação imediata com o Conselho. É possível e eles aceitam, não têm outro remédio. O planeta não ficará mais sujeito à convenção dos quatro poderes. Seremos autorizados a utilizar todos os meios ao nosso dispor. Podemos mandar vir geradores antimatéria. Nada poderá se opor, nada...
Falava aos gritos, e as lágrimas cegavam-me os olhos.
— Quer destruí-lo? Por quê?
— Vá embora, deixe-me em paz!
— Não, não vou embora.
— Snow? — Fulminei-o com o olhar, mas limitou-se a abanar a cabeça. — Que quer? Que pretende que eu faça?
Voltou até junto da mesa.
— Ótimo, vamos fazer um relatório.

Recomecei a andar de um lado para o outro.
— Sente-se.
— Faço o que me der vontade!
— Há dois pontos absolutamente distintos. Um, os fatos. Dois, as nossas sugestões.
— Precisamos falar disso agora?
— Sim, agora.
— Não vou lhe ouvir, entende? Não estou interessado nas suas distinções.
— Enviamos a nossa mensagem há cerca de dois meses, antes da morte de Gibarian. Teremos de estabelecer com exatidão como funciona o fenômeno dos “visitantes”...
Agarrei-lhe no braço.
— Quer calar essa boca?!
— Me dê uma surra se quiser, mas calar eu não calo.
— Oh, então fale, se isso lhe dá prazer... — e soltei-o.
— Bem, então ouça. Sartorius vai querer esconder certos fatos. Estou quase certo disso.
— E você? Não vai esconder nada?
— Não. Agora não. Este assunto ultrapassa as nossas responsabilidades individuais. Sabe-o tão bem como eu. “Ele” deu uma demonstração de atividade racional. É capaz de realizar uma síntese orgânica ao nível mais complexo, uma síntese que nós próprios nunca conseguimos realizar. Ele conhece a estrutura, microestrutura e metabolismo dos nossos corpos...
— Certo... Mas, por que parar aí? O Oceano realizou conosco uma série de... experiências. Uma vivisseção psíquica. Utilizou conhecimentos que roubou dos nossos espíritos sem o nosso consentimento.
— Isso não são fatos, Kelvin. Não são nem mesmo proposições. São teorias. Poderia igualmente dizer que ele tomou em consideração os desejos escondidos em recantos das nossas mentes. Talvez nos estivesse a enviar... dádivas.
— Dádivas! Meu Deus! — Estremeci com incontrolável ataque de hilaridade.
— Calma! — Snow agarrou-me na mão e apertei a sua até ouvir ossos a estalar. Continuou a olhar para mim sem qualquer alteração na expressão.
Soltei-o e fui até ao canto da sala.
— Vou tentar me controlar.
— Sim, claro. Compreendo. Que lhes pedimos?
— Deixo isso com você... Neste momento estou incapaz de raciocinar direito. Ela disse alguma coisa... antes?
— Não, nada. Se quer saber a minha opinião, de hoje em diante já temos uma possibilidade.
— Uma possibilidade? Que possibilidade? — Olhei para ele e, de súbito, fez-se luz. — Contato? Continua com essa história do contato? Não está farto desta casa de doidos? Que mais precisa? Não, é absolutamente impossível. Não conte comigo!
— Por que não? — perguntou calmamente. — Você próprio o trata como um ser humano, agora mais do que nunca. Odeia-o.
— E você não?
— Não, Kelvin. Ele é cego. — Pensei que talvez não tivesse ouvido corretamente. — ...ou antes, ele “vê” de modo diferente de nós. Para ele não existimos no mesmo sentido em que existimos para cada um de nós. Reconhecemo-nos uns aos outros pelo aspecto da face e pelo corpo. Essa aparência, para o Oceano, é como uma janela transparente. Ele introduz-se diretamente no cérebro.
— Certo, e depois? Aonde quer chegar? Ele conseguiu recriar um ser humano que existe apenas na minha memória, e com tanta exatidão que os seus olhos, gestos, voz...
— Não pare. Fale.
— Estou a falar... A sua voz... por que pode nos ler como num livro aberto. Vê o que quero dizer?
— Sim, ele poderia fazer-se compreender.
— Não é o corolário evidente?
— Não, não necessariamente. Talvez tenha usado uma fórmula que não possa ser expressa em termos verbais. Pode ter partido de uma gravação impressa nas nossas mentes, mas a memória do homem é arquivada em termos de ácidos nucléicos que gravam cristais assíncronos de moléculas grandes. “Ele” retirou a impressão mais profunda e mais isolada, a estrutura mais “assimilada”, sem necessariamente saber o que significava para nós. Suponha que eu sou capaz de reproduzir a arquitetura de uma simetríade, que conheço a sua composição e que disponho.da tecnologia exigida... Crio uma simetríade e atiro-a para dentro do Oceano. Mas não sei por que procedo assim, não sei a sua função e não sei o que a simetríade representa para o Oceano.
— Sim. Talvez tenha razão. Nesse caso, não nos desejava qualquer mal e não estava a tentar nos destruir. Sim, é possível... e sem qualquer intenção...
A boca começou a tremer-me.
— Kelvin!
— Está bem, não se preocupe. Você é bom, o Oceano é bom. Todos são bons. Mas, por quê? Explique-me. Por que fez ele isso? O que você lhe disse... a ela?
— A verdade.
— Perguntei-lhe o que você disse.
— Você sabe muito bem. Venha comigo até à cabine e vamos escrever o relatório.A
— Espere. Não pode estar pensando em continuar na Estação.
— Sim, quero ficar.


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