quinta-feira, 31 de março de 2011

Conversando com J.K. Rowling


Harry Potter e a Pedra Filosofal foi publicado em 1997. Desde então, milhões de exemplares dos cinco livros de J.K. Rowling sobre Harry foram vendidos em todo o mundo.

Eles podem ser encontrados em 57 idiomas, do albanês ao zulu, e continuam a figurar na lista dos mais vendidos. E a tendência é que as vendas aumentem ainda mais. O lançamento do quinto livro da série, Harry Potter e a Ordem da Fênix, foi ansiosamente aguardado por três anos e, mesmo antes de chegar às livrarias, 1 milhão de cópias já estavam encomendadas em um site da internet. Essa é uma história que J.K. Rowling jamais poderia imaginar. Cada capitulo torna-se mais enlouquecedor.

O filme baseado no primeiro livro, lançado em 2001, quebrou todos os recordes de bilheteria da época. As primeiras edições dos livros - se não tiverem sido devoradas até o limite - atingem valores extraordinários em leilões. Os produtos com a marca Harry Potter dominam as lojas de brinquedos no mundo inteiro e alguns já se tornaram objetos de colecionadores.

E pensar que tudo começou com uma viagem de trem. Alguns se lembram de ler Harry Potter e a Pedra Filosofal sem saber nada a respeito do livro, sua autora, as personagens ou mesmo o que aconteceria depois. Mas agora quem não sabe que Harry Potter é um bruxo? J.K. Rowling dá pouquíssimas entrevistas. Quando as concede, faz questão de enfatizar que, apesar do sucesso editorial que criou, ela não é uma pessoa, muito diferente de nós. Não é nenhuma novidade que os jornalistas vivem inventando histórias a seu respeito (Rita Skeeter* não aparece nos livros por acaso). Pipocam especulações a respeito do futuro da série e da vida pessoal da autora.

Nesta entrevista, ela não tinha a menor dúvida de que iria terminar os sete livros originalmente planejados. Aqueles que a conhecem não estio menos confiantes de que ela atingirá este objetivo, mas a seu próprio tempo.

Quase ao fim da entrevista, que ocorreu antes do lançamento de Harry Potter e o Cálice de Fogo, J.K.. Rowling refletiu com um pouco de arrependimento sobre toda a pressão que vem com a fama. Mas isso não é nada comparado ao que ela enfrenta hoje: controlam seu tempo, seu dinheiro, seu patrocínio e exigem que lide com a escrita como um negócio. A indústria que cresceu a partir daquele momento no trem depende de urna única mulher - J.K. Rowling.

Uma responsabilidade descomunal para um ser humano. O mundo da literatura para jovens agora se acende com um brilho dourado de atenção e reconhecimento até então desconhecido. A obra de J.K. Rowling juntamente com as de vários autores, sem dúvida transformou o cenário literário para sempre. Às vezes parece que esses livros correm o risco de submergir sob o barulho que acompanha cada lançamento.

Mas nada pode diminuir o mérito de terem atingido a imaginação e o coração das crianças.

No centro dessa indústria cheia de marcas registradas, bonecos, chaveiros; e bolas, estão pilhas de papel e tinta à moda antiga - os livros de Harry Potter.




* jornalista que aparece pela primeira vez em Harry Potter e o Cálice de Fogo para cobrir o Torneio Tribruxo. Ela escreve para o Profeta Diário e está sempre atrás de alguma história sensacionalista, que normalmente inclui o nome de Harry Potter.


Conversando com J.K. Rowling por Lindsey Fraser [ Download ]

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Nome do Vento - Patrick Rothfuss



[...]

NO INÍCIO DE MEU SEGUNDO PERÍODO, Kilvin me deu permissão para estudar siglística. Isso fez algumas sobrancelhas se levantarem, mas nenhuma na Ficiaria, onde eu me revelara um operário trabalhador e um estudante dedicado.

A siglística, dito em termos simples, é um conjunto de instrumentos para canalizar forças. Como simpatia em forma sólida. Por exemplo, se você entalhasse um tijolo com a runa ule e outro com a runa doch, as duas runas fariam os tijolos se grudarem um ao outro, como se tivessem sido fixados com argamassa.
Mas não é tão simples assim. O que realmente acontece é que as duas runas racham os tijolos com a força de sua atração. Para que isso não aconteça, você tem que acrescentar uma runa aru a cada tijolo. Aru é a runa do barro; ela faz os dois pedaços de barro se grudarem, resolvendo o seu problema.

No entanto, aru e doch não se encaixam, têm o formato errado. Para fazê-las se encaixarem você tem que acrescentar runas de ligação: gea e teh. Depois, para equilibrar as coisas, também tem que acrescentar gea e teh ao outro tijolo. Desta forma, eles se colam um ao outro sem quebrar.
Isso só acontece, porém, se forem feitos de barro. A maioria não é. Por isso, em geral, é melhor misturar ferro à cerâmica do tijolo antes de levá-lo ao forno, o que, é claro, significa que você tem de usar fehr em vez de aru. Depois, precisa trocar teh e gea de lugar para que as pontas se encaixem direito...
Como vê, usar argamassa é o caminho mais simples e mais confiável para juntar tijolos.

Estudei siglística com Cammar. Esse homem de um olho só, cheio de cicatrizes, era o guardião dos portões de Kilvin. Só depois de conseguir provar um domínio sólido da siglística é que o aluno podia passar para uma posição meio informal de aprendiz de um dos artífices mais experientes. Ele os ajudava em seus projetos e, em troca, eles lhe mostravam as minúcias refinadas da arte.

Existiam 197 runas. Era como aprender uma nova língua, porém, eram quase 200 letras desconhecidas, e tínhamos que inventar nossas próprias palavras, em grande parte do tempo. A maioria dos alunos fazia pelo menos um mês de estudos antes de Cammar considerá-los aptos a seguir adiante. Alguns levavam um bimestre inteiro.

Do começo ao fim, precisei de sete dias.
Como?

Primeiro, estava motivado. Outros alunos podiam se dar ao luxo de passear com indolência por seus estudos. Seus pais ou padrinhos arcavam com as despesas. Eu, por outro lado, precisava subir depressa na hierarquia da Ficiaria para poder ganhar dinheiro trabalhando em meus próprios projetos. Minha prioridade máxima já não era a taxa escolar; era Devi.

Segundo, eu era brilhante. E não era só aquele brilhantismo corriqueiro que se vê por aí.
Eu era extraordinariamente brilhante.

Por último, tive sorte. Pura e simples. 

[...]


O Nome do Vento - Patrick Rothfuss [ Download ]

terça-feira, 29 de março de 2011

Science Fiction - A Collection of critical essays



The last decade or so has seen a shift in literary taste away from the meticulous psychological realism of, say, Goodbye Columbus to the brilliant extravagances of Portnoy’s Complaint. The novels of Barth, Heller, Pynchon, and Vonnegut are symptomatic of this shift, as is the popularity of Tolkien’s epic fantasy, The Lord of the Rings. Even so conservative a group as Renaissance scholars has felt the effects of the shift in taste as the intense critical interest in Spenser’s Faerie Queene and Shakespeare’s late romances, The Winter’s Tale and The Tempest, bears witness.

Most people have a healthy love of wonder and melodrama, but for many years the accepted canons of taste, committed to rather narrow ideals of realism and an Arnoldian conception of “high seriousness,” rejected the basic stuff of romance as childish. Now, however, it has become possible for serious critics to reexamine areas of literature that formerly were ignored, and science fiction, which is perhaps the characteristic romance form of the scientific age, has been “discovered.” We do not expect romances to provide subtle psychological portraits or fully rendered images of the world as we know it. Rather, we expect to hear of marvels and adventures in strange places populated by such preternatural creatures as giants and dragons.

The essential aesthetic effect of romance is wonder, and we have only to consider the titles of some of the science‐fiction magazines such as Amazing Stories, Thrilling Wonder Stories, or Astounding Science Fiction to perceive how strongly the old hunger for the marvelous persists. Call your magic a “space warp” or a “matter transformer,” your enchanted island the planet Einstein‐ named, of course, for that quaint twentieth century physicist who thought it impossible to travel faster than lightcall your giants and dragons “extraterrestrials,” and what you have is merely the contemporary form of one of the most ancient literary kinds.

[...]


Contents

Introduction by Mark Rose

1. Backgrounds
Starting Points by Kingsley Amis
Science Fiction and Literature by Robert Conquest
The Roots of Science Fiction by Robert Scholes

2. Theory
On the Poetics of the Science Fiction Genre by Darko Suvin
The Time‐Travel Story and Related Matters of SF Structuring by Stanislaw Lem
Genre Criticism: Science Fiction and the Fantastic by Eric S. Rabkin

3. Approaches
On Science Fiction by C. S. Lewis
The Imagination of Disaster by Susan Sontag
How to Play Utopia: Some Brief Notes on the Distinctiveness of Utopian Fiction by Michael Holquist
The Apocalyptic Imagination, Science Fiction, and American Literature by David Ketterer
Science Fiction and the Future by John Huntington

Notes on the Editor and Contributors
Selected Bibliography




Science Fiction - A Collection of critical essays - Edited by Mark Rose [ Download ]

segunda-feira, 28 de março de 2011

Spock


Não basta ser sincero / ter caráter, ser honesto / Gotta work, like Kirk e o Vulcano / Oh meu Deus, quanta luta, quanta luta (Spoc, Pato Fu)


O Capacitor Fantástico não poderia deixar passar em branco, uma data tão especial, o aniversário de 80 anos do ator Leonard Simon Nimoy (26/03/1931), que eternizou o senhor Spock de Star Trek (Jornadas nas Estrelas), e que em 2010 anunciou sua aposentadoria como ator.

Nascido em Boston, Massachusetts (EUA), filho de judeus ortodoxos imigrantes de Iziaslav (Ucrânia). Seu pai era dono de uma barbearia e sua mãe era uma dona de casa.

Começou a atuar aos oito anos de idade no teatro do bairro. Seus pais queriam que ele entrasse para a faculdade e seguisse uma carreira estável, mas seu avô incentivou-o a se tornar um ator. Estudou teatro e fotografia e mais tarde obteve mestrado em Educação e um doutorado honorário.

Após dar baixa nas forças armadas (sargento do exército americano), fez diversas pontas em filmes B e séries para TV ao longo dos anos 60, como Dragnet, Twilight Zone, Bonanza, James West, Os Intocáveis, The Eleventh Hour, Combate!, Perry Mason, The Outer Limits, The Virginian e Get Smart. (A dupla Nimoy e William Shatner trabalhou junto pela primeira vez em um episódio de The Man from UNCLE, e com DeForest Kelley, em um episódio em The Virginian).

Nimoy já era 'figurinha carimbada' quando foi chamado para contracenar com Shatner, desta vez na série que o tornaria mundialmente famoso, e pela qual Nimoy ganhou três indicações ao Emmy.

Com o cancelamento da série (que não fora tão bem sucedida comercialmente na época), Nimoy voltou a fazer pontas na TV, sem grande sorte. Somente no final dos anos 70, quando Star Trek voltou a ser reprisada na televisão americana, uma legião de fãs transformou-a em um fenômeno cult e Nimoy pode voltar em grande estilo, e o resto todos já sabem... 


 

Parabéns Leonard Nimoy! Uma vida longa e próspera para você!
 




[...]

QUASE TRINTA ANOS atrás, um grupo de visitantes chegou ao set de filmagem de Star Trek, algo que os atores estavam bastante habituados. Mas naquele dia, algo incomum aconteceu. Um dos convidados, uma mulher de olhos sonhadores, veio até mim, durante uma pausa nas filmagens e apresentou-se. Em seguida ela revelou algumas informações que me deixaram completamente surpreso:

"Eu represento um grupo de pessoas no Novo México, que estão em contato com uma inteligência alienígena", ela me disse sinceramente. "Você pode não estar ciente da importância do trabalho que está fazendo. Você foi escolhido, em um sentido metafísico, para abrigar a entidade alienígena chamada Spock".

Não me lembro exatamente o que eu respondi, mas fiquei impressionado com a intensidade de sua crença.
E como reprimi meu ceticismo, educadamente perguntei por que esses seres estavam tão preocupados com estabelecer contato, e ela passou a explicar que "o propósito" de Spock era preparar a humanidade positivamente para um contato real com vida alienígena. Afinal, a ficção científica na época retratava extraterrestres negativamente, com monstros de olhos esbugalhados, estereotipados, empenhados em conquistar a Terra.

Soa fantástico, não é? Talvez eu seja imprudente em admitir isso. Imaginem as manchetes dos tablóides:

ALIENS CONTRATAM ATOR DE SÉRIE DE TV DE FICÇÃO CIENTÍFICA

Agradeci-lhe e voltei a trabalhar. Spock havia se tornado um ímã para esse tipo de coisa [... ]


I am Spock - Leonard Nimoy [ Download ]

domingo, 27 de março de 2011

Alice In Wonderland - Classics Illustrated (1948)








Classics Illustrated 049 - Alice In Wonderland - By Lewis Carroll (1948) [ Download ]

Lewis Carrol



Charles Lutwidge Dodgson (27 janeiro de 1832 - 14 de janeiro de 1898) nasceu na pequena Daresbury, condado de Cheshire (noroeste da Inglaterra).

Mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, foi escritor, matemático e fotógrafo.

Sua imaginação, seu jogo de palavras, sua irreverência e bom humor, permearam sua fantasia singular e sofisticada, cativando crianças e adultos até os dias de hoje.

Suas obras mais famosas como 'As aventuras de Alice no País das Maravilhas' e sua sequência 'Alice através do espelho', bem como os poemas 'A Caça ao Snark' e  'Jabberwocky' influenciaram não apenas a literatura infantil, mas também uma série de grandes escritores como Joyce e Borges.

Dodgson foi uma criança precoce, era apaixonado por jogos, principalmente os que envolviam enigmas e mágica (ilusionismo). Gostava de fazer passes de mágica para outras crianças, além de já demonstrar gosto pela arte da fotografia.

Era alto, esguio, cabelos castanhos e olhos azuis, o que o fazia ser considerado atraente. Porém uma infecção mal cuidada, o fez perder a audição de um ouvido ainda novo. Também era bastante gago e com a maturidade tornou-se um pouco arredio e avesso a multidões. Reza a lenda que o Dodo de ‘Alice no País das Maravilhas’ era em referência própria.

Devido ao pai ser um reverendo protestante, Charles recebeu uma educação religiosa caseira, preparatória para uma carreira também religiosa. No entanto, seu ingresso na universidade Christ Church em Oxfrod, e o convite para assumir a cadeira de Matemática,levou-o a mudar de planos. Lecionou por quase vinte cinco anos.

Mesmo antes de viver em Oxford, Dodgson já escrevia poemas. E seu primeiro trabalho com o pseudônimo com o qual seria mundialmente conhecido foi um poema romântico, ‘Solitude’ (1856).
 
A escolha do nome que o tornaria famoso também foi um enigma, uma brincadeira sua.
Lewis era um anglicismo de Ludovicus, o latim para Lutwidge. Carroll é um sobrenome irlandês semelhante ao nome Carolus, a forma em latim de se escrever Charles.

A maior parte de sua produção literária de então era satírica, mas suas ambições eram exigentes:
"Não acho que escrevi nada digno de publicação, mas não me desespero de fazê-lo algum dia", escreveu em julho de 1855.

Dodgson participava da Irmandade Pré-Rafaelita, uma confraria de artistas, na qual também estava o escritor de livros infantis George MacDonald, que apesar de desconhecido do grande público, serviu como inspiração para ninguém menos que J.R.R. Tolkien.

Foi George que em 1863, levou um manuscrito inacabado de Dodgson para a editora Macmillan, que imediatamente o aprovou. Originalmente a editora planejava publicá-lo como ‘Alice entre as fadas’ (Alice Among the Fairies) ou ‘Alice e a Hora de Ouro’ (Alice’s Golden Hour).

Dois anos depois de vendido, ganhou o título ‘Alice no País das Maravilhas’ (Alice’s Adventures in Wonderland), publicado sob o pseudônimo utilizado pela primeira vez nove anos antes. O livro alcançou de imediato um sucesso de reconhecimento e de vendas inédito para a época. Lewis Carroll recebia milhares de cartas de fãs, mas Dodgson preferia continuar sua vida como professor.

Ele também publicou muitos artigos e livros de matemática com seu próprio nome.

A continuação do primeiro livro e de seu maior sucesso, ‘Alice no País do Espelho’ (Through the Looking Glass And What Alice Found There) era superior no controle da técnica narrativa, porém sombrio, muito provavelmente devido a perda do pai, que o deixou em depressão por alguns anos.

Em 1876, Dodgson escreveu seu último grande trabalho, 'A Caça ao Snark', sobre as aventuras de um grupo bizarro de seres diferentes, e um castor, que buscam encontrar a criatura de mesmo nome.

Apesar de ter escrito alguns livros abordando Geometria e Álgebra, foi como lógico que Dodgson se destacou. O seu interesse pela lógica matemática e pelos jogos capazes de testar a razão, levou-o a publicar livros como 'Game of Logic' (1887) e 'Symbolic Logic' (1896).

Em 1895, seria publicado seu 'What the Tortoise said to Achilles', conhecido como ‘O Paradoxo de Carrol’, peça importante para a Lógica moderna.

Um dos traços característicos da lógica de Charles Dodgson era o poder de forçar as leis da lógica, explorando os limites da linguagem simbólica, mostrando os limites das formulações e revelando o nonsense que pode estar escondido sob a aparência da correção formal.

Dodgson sofria de insónia e durante a noite distraia-se formulando enigmas lógicos, divertidos jogos de palavras e de adivinhação.

Como fotógrafo e desenhista amador, Dodgson gostava de retratar meninas nuas. Sempre declarara que seu intuito era somente artístico, que eram sempre feitos com o consentimento dos pais e que se notasse qualquer constrangimento ou infelicidade no olhar das crianças, deixaria de faze-los para sempre. Além disso, ordenou em seu testamento que todas as fotografias e desenhos fossem queimados para nunca criar qualquer constrangimento no futuro. Mesmo assim, foi acusado de ser pedófilo.

Atualmente, estudos recentes classificam os retratos de Dodgson como parte do ‘Victorian Child Cult’, um movimento comum na época vitoriana, onde a criança era vista como a forma mais sublime da pureza.

Suas últimas publicações em vida, Sylvie and Bruno (publicada em duas partes, 1889 e 1893) foram ambas abafadas por escândalos, boatos misteriosos sobre seu envolvimento em orgias com mulheres casadas, e que não puderam ter sua veracidade desvendada após seu falecimento (vítima de pneumonia), pelo desaparecimento de todos seus últimos diários.



Lewis Carrol (Alice no Pais das Maravilhas, Alice's Adventures in Wonderland, Alice en El Pais de las Maravillas, Atraves del espejo y lo que Alice encontro al otro lado, Alice in Wonderland, Fantasmagoria, The Hunting of the Snark, Complete works of Lewis Carrol, The annotated Alice, The annotated Hunting of the Snark, Alice's Adventures in Wonderland, illustrations drawn by John Tenniel ) [ Download ]

sábado, 26 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 3)



DOIS:
DESERÇÂO

Eles tiveram que ir até Tassel, a velha Tassel que eles ainda tinham como sua verdadeira casa.

As Plantas tinham arremessado suas mudas (embora exatamente como isso foi feito permanecia um mistério, pois as Plantas não apresentaram o menor sinal de flores e corpos de frutificação) sobre e
ao redor dos campos com tamanha liberdade que tinham finalmente conquistado todos os esforços humanos de manter-se no local. Eles, os seres humanos, haviam se estendido longe demais: a sua cidade e as fazendas não poderiam ser fronteiras.

Nos três primeiros anos, haviam conseguido se manter, ou parecia assim – pulverizando as Plantas com venenos que o Governo tinha desenvolvido. A cada ano, enquanto o Governo e seus laboratórios duraram, para cada veneno novo, as Plantas desenvolviam imunidades quase tão rápido quanto eram inventados. Mas mesmo assim haviam pulverizado somente os campos. Nos pântanos e ao longo da margem do lago selvagem, nas florestas e ao longo da  estradas, as mudas cresceram além do alcance de qualquer inimigo, além do machado e haviam muitas plantas e poucos machados para tornar isso uma iniciativa concebível. Onde quer que as Plantas cresciam, não havia luz suficiente, nem água suficiente, nem mesmo solo o suficiente para mais nada.

Quando as árvores velhas e arbustos e gramíneas foram preteridas e morreram, a erosão destruiu a terra.
As fazendas não, é claro, ainda não. Mas em apenas três anos, as Plantas foram cercando os campos e pastos, e depois foi só uma questão de tempo.
Pouco tempo na verdade. As Plantas primeiro mordiscaram, depois morderam e, durante o verão de seu quinto ano, elas simplesmente invadiram a cidade.
Tudo que restou foi essa sombria ruína.

Buddy tinha um certo prazer elegíaco em vir até ali. Havia até mesmo um lado prático para ele. Escavando nos destroços ele muitas vezes foi capaz de encontrar ferramentas velhas e folhas de metal, até mesmo livros.
O tempo para comestíveis era passado, no entanto. Os ratos e saqueadores à sua maneira vindos de Duluth há muito tempo limparam o pouco que tinha sido deixado para trás após a mudança para Nova Tassel. Então, ele desistiu da busca e fui sentar nos degraus da Igreja Congregacional, que graças aos esforços contínuos de seu pai, foi um dos últimos edifícios na cidade a permanecer intacto.

Havia, lembrou, um carvalho, um carvalho alto e arquetípico carvalho, à direita da Planta que tinha quebrado a calçada na borda do que costumava ser o parque da cidade. Durante o quarto inverno, eles usaram o carvalho como lenha. E muitos olmos também. Não havia, sem dúvida, falta de olmos.
Ele ouviu à distância, o lamento lúgubre de Gracie sendo puxada de volta à cidade amarrada ao final de uma corda. A perseguição tinha sido demais para Buddy.
Suas pernas doiam. Ele questionou se a raça Hereford fora extinta. Talvez não, pois Gracie estava grávida, ela ainda era jovem, e se ela desse luz a um bezerro, havia esperança para sua raça, embora fosse apenas um vislumbre. Que mais se pode pedir além de um vislumbre?

Ele imaginou também, quantos enclaves tinham resistido tanto quanto Tassel. Nos últimos dois anos os saqueadores tinham sido a única ligação da vila com o mundo lá fora, mas mesmo os saqueadores já não apareciam tanto quanto antes. Era provável que as cidades tinham chegado ao seu fim.

Ele ficou extremamente grato que não estava lá para testemunhar isso, pois mesmo a cadavérica e pequena Tassel deixava-o melancólico. Ele não teria pensado antes que poderia se importar tanto assim. Antes do advento das Plantas, Tassel fora tudo que ele desprezava, a pequenez, a mesquinhez, a dolosa ignorância e um código moral tão contemporâneo como o Levítico. E agora ele chorou como se tivesse sido Cartago a cair para os romanos e coberta com sal, ou Babilônia, aquela grande cidade.

Talvez não fosse o cadáver da cidade que ele pranteava, mas todos os outros cadáveres combinados. Certa vez, mil e tantas pessoas tinham vivido aqui, e todas, senão meros 247 deles, foram mortas. Como sempre os piores haviam sobrevivido e os melhores tinham morrido.

Pastern, o ministro Congregacional, e sua esposa Lorraine. Eles tinham sido bons para Buddy durante aquele ano, antes dele deixar a Universidade, quando a vida tinha sido uma longa rixa com seu pai, que queria que ele fosse para a escola de agricultura de Duluth. E Vivian Sokulsky, sua professora da quarta série. A única mulher mais velha da cidade com um senso de humor ou um grão de inteligência. E todos os outros também, sempre os melhores deles.

E agora Jimmie Lee. Racionalmente não se podia culpar as plantas pela morte de Jimmie. Ele havia sido assassinado, embora como ou por quem, Buddy não imaginava. Ou por quê. Acima de tudo, por quê? A morte e as Plantas eram parentes próximos, de tal forma que não se podia sentir a respiração de um sem parecer ver a sombra do outro.

"Olá estranho."
A voz tinha um timbre musical muito forte, como a voz de contralto em uma opereta, mas a julgar pela reação de Buddy, poderia se pensar ser demasiado desagradavel.

"Olá, Greta. Vá embora."

A voz riu, uma risada rouca que teria atingido as últimas fileiras de qualquer teatro, e Greta se aproximou, tão enérgica quanto seu riso, que agora cessara. Ela estava diante de Buddy como se estivesse apresentando uma queixa perante o tribunal.

Prova A: Greta Anderson, braços cruzados e os ombros para trás, projetando os quadris para frente, com os pés descalços plantados na terra, como raízes. Ela merecia roupas melhores que a camisa de algodão que usava. Em tecidos mais ricos e cores mais vivas e com cuidados certos, o tipo de beleza de Greta poderia sobrepujar a qualquer outra, mas agora ela parecia apenas velha.

"Eu quase nunca mais o vejo. Sabe que nós somos praticamente vizinhos de porta. Só que não temos porta. Não te vejo faz uma semana. Às vezes eu acho que você tenta me evitar."
 "Às vezes eu tento, mas você pode ver por si mesmo que não funciona. Agora, por que você não vai fazer o jantar de seu marido como uma boa esposa? Tem sido um dia ruim para todos."

"Neil está deprimido. Espero que seja chicoteado hoje à noite, e eu não vou estar em casa - ou devo dizer na tenda? - quando ele chegar. Quando ele voltou para a cidade,  amarrou a corda no cativeiro de Studs para tentar fazer parecer que não foi culpa dele que Studs pulou a cerca. Clay e meia dúzia de outros viram ele fazendo isso. Ele vai pagar por isso."
"Que idiota!"
Greta riu. "Você disse, não eu."

Com uma naturalidade fingida, ela se sentou no degrau abaixo dele.

"Sabe Buddy, eu venho muito aqui também. Eu fico tão sozinha na nova cidade, nem é realmente uma cidade, é mais como um acampamento de verão com as barracas e tendo que carregar água do córrego. Oh, é tão chato. Você me entende. Sabe melhor do que eu. Eu sempre quis ir morar em Minneapolis, mas primeiro tinha o pai, e em seguida... Mas eu não preciso te dizer isso."

Tinha ficado bem escuro na cidade em ruínas. Uma chuva de verão começou a cair sobre as folhas das Plantas, mas apenas algumas gotas penetraram a sua cobertura. Era como estar no spray soprado do lago.
Depois de um silêncio considerável (durante o qual ela havia se recostado para descansar os cotovelos no degrau de Buddy, deixando o peso de seu cabelo espesso e queimado pelo sol puxar a cabeça para trás, de modo que enquanto falava, ela olhava para as folhas longínquas da Planta), Greta soltou outra risada bem modulada.

Buddy não pode deixar de admirar seu riso. Era como se fosse a especialidade dela, uma nota que ela pudesse chegar que outra contralto não podia.

"Você se lembra da vez que você colocou vodka no suco da reunião de jovens do meu pai? E todos nós começamos a dançar aqueles discos horriveis e velhos dele ? Oh, aquilo foi o máximo, foi tão divertido! Ninguém mais, além de você e eu, sabia dançar.Foi uma coisa terrível. A vodka, quero dizer. O Pai nunca soube o que aconteceu."
"Jacqueline Brewster sabia dançar bem, se me lembro bem."
"Jacqueline Brewster é uma otária."
Ele riu, e isso se tornara muito menos habitual para ele, o riso era grosseiro e um pouco estridente.
"Jacqueline Brewster está morta", disse ele.
"É verdade. Bem, acho que além de nós dois ela era a melhor dançarina que havia."

Depois de outra pausa, ela começou novamente com um grande show de vivacidade.
"E daquela vez que fomos para a casa de velho Jenkins, fora da Estrada Municipal,lembra disso?"
"Greta, não vamos falar sobre isso."
"Mas foi tão engraçado, Buddy! Foi a coisa mais engraçada do mundo. Lá estávamos, nós dois naquele sofá velho e barulhento. Pensei que iria cair aos pedaços, e ele lá em cima tão apagado que nunca soube de nada."
Apesar de tudo, Buddy bufou.
"Bem, ele era surdo."Ele pronunciou a palavra da maneira da cidade, com um longo ‘u’.
"Oh, nós nunca vamos ter momentos como aquele de novo."
Quando se virou para olhar Buddy, seus olhos brilharam com algo mais do que lembranças.

"Você era um selvagem. Não havia nada que o parasse. Era o rei da colina, e eu a rainha, não? Não era Buddy? "Ela agarrou sua mão e apertou-a. Antigamente suas unhas teriam cortado sua pele, mas as unhas tinham ido embora e sua pele era mais grossa.
Ele puxou a mão e se levantou.
"Pare com isso, Greta. Isso não leva a nada."
"Eu tenho o direito de lembrar. Foi dessa maneira que aconteceu , e você não pode me dizer que não foi assim. Eu sei que não é mais assim. Tudo o que preciso fazer é olhar ao redor para ver isso. Onde está a casa de Jenkins agora, hein? Alguma vez você já tentou encontrá-la? Ela se foi, simplesmente desapareceu. E o campo de futebol? Cada dia um pouco mais de tudo se perde. Fui ao MacCord outro dia, onde eles costumavam ter os mais belos vestidos da cidade. Não havia nada. Nem um botão. Parecia o fim do mundo, mas eu não sei, talvez estas coisas não sejam tão importantes. As pessoas é que são mais importantes. Mas todas as melhores pessoas se foram, também."
"Sim", disse Buddy: "Sim, se foram."
"Salvo alguns poucos. Quando você foi embora, eu vi tudo acontecer. Alguns deles, os Douglas e outros, foram para as cidades, mas foi bem no início do pânico. Eles voltaram, como você, aqueles que conseguiram. Eu queria ir, mas depois Mãe morreu e o Pai ficou doente e eu tive que cuidar dele. Ele lia a Bíblia o tempo todo. E orou. Ele me fez ficar de joelhos ao lado de sua cama e orar com ele. Mas sua voz não era tão boa, então, eu geralmente acabava orando por mim. Eu pensei que seria engraçado se rezasse para Papai, e não para Deus. Mas não havia ninguém a essa altura que pudesse rir. O riso tinha acabado de secar, como rio Split Rock. A estação de rádio tinha parado de transmitir, exceto notícias, duas vezes ao dia, e quem quer ouvir as notícias? Aquelas pessoas da Guarda Nacional tentando nos obrigar a fazer o que o Governo queria. Delano Paulsen foi morto na noite em que eles enfrentaram a Guarda Nacional, e eu fiquei uma semana sem saber disso. Ninguém quis me falar, porque depois que você partiu, Delano e ficamos juntos. Eu acho que talvez você nunca soube disso. Assim que papai ficou bom, ele casou nós dois. As plantas pareciam estar em toda parte. Elas quebraram as estradas e a rede de água. O lago velho era apenas um pântano, e as Plantas cresciam lá também. Tudo era terrivelmente feio. É bonito agora, em comparação.
Mas a pior parte era o tédio. Ninguém se divertia. Voces tinham ido embora e Delano estava morto e papai, bem, você pode imaginar. Eu não devia admitir isso, mas quando ele morreu, foi uma espécie de alívio. Então seu pai foi eleito prefeito e realmente começou a organizar tudo, dizendo-lhes o que fazer e onde viver, e eu pensei: 'Não haverá espaço para mim'. Eu estava pensando na arca de Noé, porque o pai costumava ler de vez enquanto. Eu pensei: 'Eles vão embora sem mim.' Eu estava com medo. Acho que todo mundo estava com medo. A cidade devia ser assustadora também, com todas aquelas pessoas morrendo. Eu ouvi sobre isso. Mas eu estava realmente com medo! Como você explica isso? E então seu irmão começou a vir visitar-me. Ele tinha uns 21 anos e não era muito feio, pelo ponto de vista de uma garota. Exceto por seu queixo. Mas eu pensei: 'Greta, você tem a chance de se casar com Japhet'.
"Quem?"
"Japhet. Ele foi um dos filhos de Noé. Pobre Neil! Quero dizer, ele realmente não tinha a mínima chance, não?"
"Eu acho que você já lembrou o bastante".
"Quero dizer, ele não sabia nada sobre garotas. Ele não era como você. Tinha 21 anos, e eu não acho que ele pensasse em meninas. Ele disse mais tarde que foi seu pai quem me recomendou! Você consegue imaginar isso! Ele estava criando-o como um touro!"

Buddy começou a caminhar para longe dela.
"O que eu deveria ter feito? Me diz! Eu deveria ter esperado por você? Colocar uma vela acesa na janela?"
"Você não precisa de uma vela, quando está carregando uma tocha." 
Novamente o riso lirico, mas farpado com estridência não dissimulada. Ela se levantou e caminhou em sua direção. Seus seios, que eram dignos de nota antes, eram sensivelmente menores.

"Bem, você quer saber por quê? Você tem medo de ouvir a verdade. Se eu te dissesse, você não acreditaria, mas eu vou te dizer de qualquer maneira. Seu irmão é um quilo de macarrão molhado. Ele é completa e totalmente incapaz de cumprir com suas obrigações."
"Ele é meu meio irmão", disse Buddy quase automaticamente.
"E ele é metade de um marido para mim."

Greta estava sorrindo estranhamente, e de alguma forma tinham chegado a estar de pé frente a frente, a centímetros de distância. Ela tinha apenas que ficar na ponta dos pés para alcançar os lábios dele. As mãos dela não o tocavam.

"Não" ele disse se afastando dela. "Acabou. Foi há muito tempo. Foi há oito anos. Nós éramos crianças. Adolescentes".
"Oh, cara, você perdeu a coragem!"
Ele bateu nela com força suficiente para derrubá-la ao chão, mas justiça seja feita, ela pareceu até saborear o golpe.
"Isso" disse ela, a música sumiu da sua voz, "É tudo que Neil pode fazer. E devo dizer que entre os dois, ele faz isso melhor".

Buddy deu uma risada, sólida e bem-humorada, sentindo um pouco do sangue de garanhão velho subindo. Ah, ele tinha esquecido da magnífica sagacidade dela. Com certeza a única que sobrou com senso de humor, ele pensou. E ainda era bonita. Talvez ficassem juntos novamente.
Eventualmente.

Então ele se lembrou que não era um dia para se ficar bem humorado, e o sorriso deixou seus lábios e o garanhão aquietou-se e retornou ao estábulo.



Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 3) [ Download ]

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sound Design and Science Fiction




Contents

Acknowledgments
Introduction

Part I. T he Dawn of Sound Design
chapter 1. Sound Design: Origins and Influences
chapter 2. Music and Speculation in 2001: A Space Odyssey

Part II . Sound Montage
Chapter 3. The Convergence of Hollywood and New Wave Science Fiction
Chapter 4. Suggestive Fragments in THX 1138

Part III . Sound Designing
Chapter 5. From Sound Capture to Construction: Building the Lexicon of Sound Designs for Star Wars
Chapter 6. Surround Sound and Science Fiction

Part IV. Sound Effects
Chapter 7. Genre Splicing: Horror and Science Fiction
Chapter 8. Alien: Audio-biomechanics

Part V. Voice Design
Chapter 9. Blade Runners: A Crisis in Voicing Authority, Identity, and Spectacle

Part VI. Final Design
Chapter 10. Sound Mixing and Sound Design in Science Fiction Cinema: A Mixed Paradox
Chapter 11. Mixing Man and Machine in Terminator 2: Judgment Day

Part VII . Conclusion: A Sounding of the Future
Chapter 12. What is The Matrix? Sound Design in a Digital World
Appendix: Overview of the General Processes of Sound Production

Notes
Glossary
Bibliography
Filmography
Index




Sound Design and Science Fiction - William Whittington [ Download ]

quinta-feira, 24 de março de 2011

Gender resistance: interrogating the ‘punk’ in cyberpunk




This is the ‘fight’ that attracted me to cyberpunk; the challenge to normative ways of thinking which punk seems to offer, and which cyberpunk tries to harness in its representations of technology. Cyberpunk - a subgenre of science fiction - mixes up the technophilia of cyberculture with the anti-establishment attitude of punk, resulting in a number of recognisable characteristics in its texts, including ‘hybrid’ identities, dystopian futures, and a focus on technology. This focus often upsets any easy distinction between human and machine, while its alternative (cyborgian) identities perhaps offer new paradigms for thinking about gender.

My premise in this paper is that the disruptive potential of this distinctive subgenre is derived from its adoption of ‘punk’ as a discourse or practice of resistance to social ‘norms’3. As a number of critics have noted, both cyberpunk and its ‘parent’ genre, science fiction, show an interest in innovative style and language4. In this paper I am going to use this close attention to language and style to interrogate the ‘punk’ in ‘cyberpunk’, and to ask to what extent it is effective as a means of resisting normative models of technology and gender. To do this, I use close textual analysis of two cyberpunk texts:

Snow Crash by Neal Stephenson and ’(Learning About) Machine Sex’ by Candas Jane Dorsey.

What do these texts offer which is different from better known cyberpunk texts, such as William Gibson’s Neuromancer? Gibson – one of the most famous cyberpunk authors – is widely credited with coining the term ‘cyberspace’, and his 1984 novel, Neuromancer, is perhaps the best known example of this genre. Neuromancer epitomises many features of the genre, its narrative structured round a plot to remove the electronic restraints which prevent an Artificial Intelligence from functioning independently of its human owner.

The main protagonists are a male hacker called Case, and a ‘razorgirl’ (a technologically-enhanced hired assassin) called Molly. It uses a number of tropes which associate it with popular perceptions of punk, including a ‘DIY’ approach to technology, resistance to authority, street slang and tribal dress codes. The narrative raises many of the hopes and fears associated with new technologies, from the euphoria of online disembodiment to the possibilities for bodily enhancement through medical technology. It also highlights some of the problematic aspects of the genre in terms of gender representation.


[...]


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Katherine Harrison

quarta-feira, 23 de março de 2011

Natural-Born Cyborgs: Minds, Technologies, and the Future of Human Intelligence




The Naked Cyborg

My body is an electronic virgin. I incorporate no silicon chips, no retinal or cochlear implants, no pacemaker. I don’t even wear glasses (though I do wear clothes), but I am slowly becoming more and more a cyborg. So are you. Pretty soon, and still without the need for wires, surgery, or bodily alterations, we shall all be kin to the Terminator, to Eve 8, to Cable... just fill in your favorite fictional cyborg. Perhaps we already are. For we shall be cyborgs not in the merely superficial sense of combining flesh and wires but in the more profound sense of being human-technology symbionts: thinking and reasoning systems whose minds and selves are spread across
biological brain and nonbiological circuitry. This book is the story of that transition and of its roots in some of the most basic and characteristic facts about human nature. For human beings, I want to convince you, are naturalborn cyborgs.

This may sound like futuristic mumbo-jumbo, and I happily confess that I wrote the preceding paragraph with an eye to catching your attention, even if only by the somewhat dangerous route of courting your immediate disapproval! But I do believe that it is the plain and literal truth. I believe, to be clear, that it is above all a SCIENTIFIC truth, a reflection of some deep and important facts about (a whiff of paradox here?) our special, and distinctively HUMAN, nature.

Certainly I don’t think this tendency toward cognitive hybridization is a modern development. Rather, it is an aspect of our humanity, which is as basic and ancient as the use of speech and which has been extending its territory ever since. We see some of the “cognitive fossil trail” of the cyborg trait in the historical procession of potent cognitive technologies that begins with speech and counting, morphs first into written text and numerals, then into early printing (without moveable typefaces), on to the revolutions of moveable typefaces and the printing press, and most recently to the digital encodings that bring text, sound, and image into a uniform and widely transmissible format. Such technologies, once up and running in the various appliances and institutions that surround us, do far more than merely allow for the external storage and transmission of ideas. They constitute, I want to say, a cascade of “mindware upgrades”: cognitive upheavals in which the effective architecture of the human mind is altered and transformed.

[...]


Introduction
CHAPTER 1 Cyborgs Unplugged
CHAPTER 2 Technologies to Bond With 
CHAPTER 3 Plastic Brains, Hybrid Minds 
CHAPTER 4 Where Are We? 
CHAPTER 5 What Are We? 
CHAPTER 6 Global Swarming 
CHAPTER 7 Bad Borgs? 
CHAPTER 8 Conclusions: Post-Human, Moi? 
Notes 
Index


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Andy Clark

terça-feira, 22 de março de 2011

Coleção Percy Jackson e os olimpianos



O Ladrão de Raios


E se os deuses do Olimpo estivessem vivos em pleno século XXI? E se eles ainda se apaixonassem por mortais e tivessem filhos que pudessem se tornar heróis? Segundo a lenda da Antigüidade, a maior parte deles, marcados pelo destino, dificilmente passa da adolescência. Poucos conseguem descobrir sua identidade.
Percy Jackson está para ser expulso do colégio interno... de novo. É a sexta vez que isso acontece. Aos 12 anos, está é apenas uma das ameaças que pairam sobre esse garoto, além dos efeitos da síndrome do déficit de atenção, da dislexia... e das criaturas fantásticas e deuses do Monte Olimpo, que, últimamente, parecem estar saindo dos livros de mitologia grega do colégio para a realidade. E, ao que tudo indica, estão aborrecidos com ele.
Vários acidentes e revelações inexplicáveis afastam Percy Jackson de Nova York, sua cidade, e o lançam em um campo de treinamento muito especial, onde é orientado para enfrentar uma missão que envolve humanos diferentes – metade deuses, metade homens -, além de seres mitológicos. O raio-mestre de Zeus fora roubado, e é Percy quem deve resgatá-lo.
Com a ajuda de novos amigos – um sátiro e a filha de uma deusa – Percy tem dez dias para reaver o instrumento de Zeus, que representa a destruição original, e restabelecer a paz no Olimpo. Para conseguir isso, precisará fazer mais do que capturar um ladrão. Terá de encarar o pai que o abandonou resolver um enigma proposto pelo oráculo e desvendar uma traição mais ameaçadora que a fúria dos deuses.






O Mar de Monstros


O ano de Percy Jackson foi surpreendente calmo. Nenhum monstro que colocasse os pés no campus de sua escola, nenhum acidente esquisito, nenhuma briga em sala de aula. Mas quando um inocente jogo de queimado entre ele e seus colegas torna-se uma disputa mortal contra uma tenebrosa gangue de gigantes canibais, as coisas ficam, digamos, feias. E a inesperada chegada de sua amiga Annabeth traz outras más noticias: as fronteiras mágicas que protegem o Acampamento Meio-Sangue foram envenenadas por um inimigo misterioso, o único porto seguro dos semideuses será destruído. Nesta vibrante e divertidíssima continuação da serie iniciada com O Ladrão de Raios, Percy e seus amigos precisam se aventurar no Mar de Monstros para salvar o acampamento dos meios-sangues. Antes, porém, nosso herói entrará em confronto com um mistério atordoante sobre sua família – algo que o fará questionar se ser filho de Poseidon é uma honra ou uma terrível maldição.






A Maldição do Titã


Quando Percy Jackson recebe uma ligação urgente e aflita de seu amigo Grover, ele imediatamente se prepara para a batalha. Ele sabe que vai precisar de todos os seus poderosos aliados semideuses ao seu lado, sua confiável espada de bronze Contracorrente, e … uma carona de sua mãe.Os semideuses correm para o resgate para descobrir que Grover fez uma importante descoberta: dois poderosos meio-sangues cujo parentesco é desconhecido.
Mas não é só isso que os espera. O lorde titã Cronos criou sua mais traiçoeira estratégia até agora, e os jovens heróis caíram como presas. Eles não são os únicos em perigo. Um antigo monstro ressurgiu – um que os rumores falam ser tão poderoso que poderia destruir o Olimpo – e Artemis, a única deusa que parece saber como rastreá-lo, está desaparecida.
Agora Percy e seus amigos,juntamente com os Caçadores de Artemis, tem apenas uma semana para achar a deusa sequestrada e desvendar o mistério sobre o monstro que ela estava caçando. Pelo caminho eles devem encarar o seu mais perigoso desafio: a congelante profecia da maldição do titã.






A Batalha do Labirinto


Percy está prestes a começar o ano letivo em uma nova escola. Ele já não esperava que essa experiência fosse lá muito agradável, mas, ao dar de cara com cheerleaders monstruosas e mortas de fome, vê que tudo, sempre, pode ficar ainda pior.
Nesse quarto volume da série, o tempo está se esgotando e a batalha entre os deuses do Olimpo e Cronos, o Senhor dos Titãs, fica cada vez mais próxima. Mesmo o Acampamento Meio-Sangue, o porto seguro dos heróis, se torna vulnerável à medida que os exércitos de Cronos se preparam para atacar suas fronteiras, até então impenetráveis. Para detê-los, Percy e seus amigos semideuses partirão em uma jornada pelo Labirinto um interminável universo subterrâneo que, a cada curva, revela as mais temíveis surpresas.






O Último Olimpiano


Os meios-sangues passaram todo o ano preparando-se para a batalha contra os Titãs, e sabem que as chances de vitória são pequenas. O exército de Cronos está mais poderoso que nunca, e cada novo deus ou meio-sangue que se une à causa confere mais força ao vingativo titã. Enquanto os Olimpianos se ocupam de conter a fúria do monstro Tífon, Cronos avança em direção à cidade de Nova York, onde o Monte Olimpo está precariamente vigiado. Agora, apenas Percy Jackson e seu exército de heróis podem deter o Senhor do Tempo.


Coleção Percy Jackson e os olimpianos - Rick Riordan [ Download ]

segunda-feira, 21 de março de 2011

O futuro, segundo Monteiro Lobato: Eugenia e Utopia na obra O presidente negro (1926)




O presente texto consiste em uma reflexão acerca do tema da eugenia e seu contexto histórico e social na Modernidade, a partir da leitura da ficção científica de autoria do escritor brasi-leiro José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), intitulada O presidente negro, lançado em 1926 como O choque das raças na America no anno de 2228.

A partir da concepção de que o homem é um ser essencial-mente histórico e social, nosso propósito neste texto é questio-nar o caráter histórico das concepções eugênicas, ou seja, por que os ideais eugênicos parecem estar em consonância com a Modernidade e o capitalismo? E qual seria o papel da Eugenia neste contexto?

A busca por seres humanos melhores, mais fortes, bonitos e inteligentes pode ser encontrada nos textos dos filósofos gregos da antiguidade, ideal este retomado na Modernidade. A cunhagem do termo eugenia no século XIX, derivado do grego, e que vem a significar boa (eu) geração (genus), como uma nova ciência, desenvolvida pelo biólogo inglês Francis Galton (1822-1911), significa não apenas a busca por homens melho-res, mas homens mais aptos para as novas demandas sociais, que eram os desafios do progresso.

O questionamento acerca de como o ideal eugênico se fez presente na história (inclusive nas artes e na literatura, como é o caso da obra de Monteiro Lobato) é fundamental para o cientista humano que busque o entendimento sobre os rumos e projetos da modernidade e sua expansão em termos ideológi-cos, através do capitalismo. A eugenia está ancorada com os fundamentos modernos que também foram os ideais que fundaram o pensamento liberal, que justifica a política e a economia capitalista, principalmente em sua concepção de homem e natureza. Quando vemos, no texto O presidente negro, de Lobato, o imaginário futuro de uma sociedade que resolve seus conflitos e se torna harmônica pela eugenia, esta visão é o transplante de um ideário amplamente cultivado na Europa Ocidental e que, a partir do fim do século XIX e até a primeira metade do século XX foi praticamente hegemônica.

Desta forma, nosso trabalho estrutura-se da seguinte forma: no primeiro momento, buscaremos a raiz da eugenia, através do questionamento da concepção de homem e natureza para os modernos, a partir de do ideal de sociedade exposta na obra Utopia, publicada em 1516, por Thomas More (1478-1535), nos moldes platônicos. Buscaremos então as origens do pensamento eugênico no século XIX e como ele foi propagado no Brasil, e como Monteiro Lobato expõe tais ideais em sua ficção O presidente negro.
Para compreender o significado histórico de uma determi-nada idéia, há a necessidade de apreendê-la em seu curso histórico, mas não como uma sucessão de idéias que geram outras, mas nas relações sociais dos homens que produzem sua existência real e que serão condicionadoras dos ideais que estes mesmos homens reais defenderão, seja para manter sua forma de vida, seja para modificar as situações sociais que não condizem com aquilo que acreditam. Devemos, assim, buscar a materialidade histórica das relações sociais, materialidade esta entendida como a produção da vida através do trabalho. Para compreendermos o ideal da eugenia, de gerar um Homem melhor a partir da seleção biológica das “raças” humanas, devemos compreender como aquela sociedade organizava e produzia sua vida, e o que a levou a produzir tal entendimento.


O futuro, segundo Monteiro Lobato: Eugenia e Utopia na obra O presidente negro (1926) [ Download ]
Rafael Egidio Leal e Silva
Universidade Estadual de Maringá, Programa de Pós-graduação em Psicologia (UEM/PPI).
Anais do V Fórum de Pesquisa e Pós-Graduação em História da UEM

domingo, 20 de março de 2011

Entrevista com Thomas Disch (continuação)



[início]


DH: Você passou da ficção científica ao horror com os romances de Minnesota...

TD: Bem, aqueles livros, mas uma boa parte da minha atenção é dedicada a crítica e a não-ficção e ao teatro...Eu levei um ou dois anos afastado escrevendo um jogo de computador interativo. Houve propostas de filmes, que às vezes não se concretizavam, mas ganhei pouco dinheiro. Houve dois romances históricos que fizeram sucesso, e que me deram bastante trabalho.

Quando você faz algo que requer muito trabalho seu, o seu próprio senso de quem você é muda, mas raramente o público acompanha isso. Então, eu nunca sei - se alguém telefona e diz: "Olá, é o Thomas Disch?", Eu vou dizer: "Eu não sei. Qual é a sua idéia desse tal Thomas Disch?" Eu posso ser um poeta - para muita gente, se sou só um poeta, eles irão se surpreender quando souberem que eu faço outras coisas. O mesmo ocorre com os romances de terror, com a ficção científica - cada uma dessas audiências não lê fora do seu próprio conjunto de interesses, é raro encontrar seguidores fiéis.


DH: Então não é o suficiente para ter uma marca associada ao seu nome?

TD: Não, a menos que a marca já seja estabelecida. Alguém como Updike pode escrever o que quiser, e as pessoas irão seguir Updike. Com Disch não é assim.

DH: Você vê autores da mainstream tentando escrever romances de ficção científica ocasionalmente...

TD: Eles costumam ser uma droga. Paul Theroux, oh meu Deus - O-Zone é terrível. Da mesma forma Doris Lessing, e ela fez muito isso. Ela é quase tão divertida quanto L. Ron Hubbard. Eu não gosto de seu trabalho. Mas ela tem essa identidade com a questão social, ser uma escritora responsável... Pessoas que gostaram do trabalho inicial que ela fez, que a colocou no mapa... Eu não posso acreditar que o faria, com os romances Canopus. Mas recebem uma atenção respeitosa.

DH: Porque ela é Doris Lessing?

TD: E também porque ela é um ícone feminista, e se você é um ícone de um movimento específico, então você não pode fazer nada de errado. Como o contingente gay que obedece a certos escritores. [Pausa] Eu sou gay mesmo, mas eu não escrevo literatura "gay".

DH: Você já foi tido como um ícone ou um modelo para a comunidade gay?

TD: Um pouco. Fiquei contente quando um livro chamado A Canon Gay incluiu On Wings of Song, eu pensei, bem, finalmente! Eles parecem ter me notado. Mas, assim que o livro foi publicado, e seu autor saiu em turnê, ele quase foi morto por um molestador de gays em Dublin.

DH: Quando foi isso?

TD: Ah, três anos atrás. Ele ainda está no hospital. Muito triste. Foi um belo livro, no entanto. E é a única vez que alguém já disse, oh, este é um escritor gay.

DH: Você sempre foi declarado?

TD: Sim...Bem, logo que eu soube, eu assumi. A partir, digamos, cerca de 1968. Começou a aparecer na poesia mais do que noutros locais. Eu nunca fui de escrever ficção confessional ou autobiográfica, houveram algumas histórias com temática gay, a partir daquele momento, e eu suponho que On wings of Song é a primeira em que é claramente o trabalho de um escritor gay escrevendo sobre a experiência gay . Mas há bastante disso também em 334.

Escritores de ficção científica são capazes de tirar partido das novas liberdades da cultura - e as pessoas não percebem. Uma das vantagens de ser um escritor de ficção científica, em termos de liberdade artística, é que as pessoas não prestam atenção ao que você faz, e assim você estará livre para ser audacioso. Isso já era verdade para os escritores na década de 50, quando a audácia era de um tipo político.


DH: O senhor acha que houve uma dimensão política em sua própria escrita?

TD: Eu ouso dizer que sim. Fiz coisas que eram, obviamente, anti-Vietnã, Camp Concentration e Echo Round His Bones, e antes disso. Eu acho que a política deve estar lá em muito da ficção que eu fiz, mas nunca fui um batalhador, eu não tenho uma causa, e não creio que a maioria dos leitores pensariam em mim como um escritor político. Mas está lá em praticamente todos os trabalhos novos, e provavelmente mais nos romances de terror do que na ficção científica.

DH: Porque você escolheu a sua Minnesota como cenário dos romances de terror?

TD: Bem, primeiro por que fui criado lá, e então a minha ideia era fazer uma espécie de Comédia Humana balzaquiana, com sobreposição de personagens. Além disso, Minnesota é um ambiente circunscrito. Um romance de terror precisa de um tipo de cúpula de vidro sobre ela, geograficamente. Você precisa de uma área que não é o mundo, e uma cidade como New York, na minha opinião, é o mundo inteiro.

DH: Você também escreveu histórias para crianças...The Brave Little Toaster (A Pequena Torradeira Valente) é o mais conhecido.

TD: Sim, e outras. Eu vou te dizer uma das minhas idéias favoritas que eu não tenho encontrado um comprador para ela ainda...talvez haja uma editora lá fora que vai querer que eu escreva para eles.. um livro especificamente para meninas intitulado So You Want To Be A Papa (Então você quer se um Papa). Ele seria parecido com um guia de carreiras, explicando que, bem, sim, hoje em dia as meninas ainda não estão autorizados a ser Papa, mas tantas outras barreiras caíram: aqui você vai saber como se tornar o primeiro papa do sexo feminino. Um livro perfeitamente sério sobre o assunto, que falaria sobre a história do papado... [Risos]

DH: Eu posso entender o porquê de alguns editores estarem um pouco cautelosos.

TD:...falaria para uma sensível, ambiciosa, menina jovem e idealista que quer ser Papa. Eu acho que seria um livro maravilhoso.

DH: Certamente teria uma dimensão política. Você começou a escrever para crianças, por si só, ou decidiu enquanto escrevia?

TD: Bem, no início era uma história particular, você sabe se vai ser uma história para crianças, porque o tom é desse jeito. Já fiz várias dessas histórias que tenho publicado como contos, porque não há nenhuma editora pronta para elas. Todos os editores que viram a proposta de The Brave Little Toaster  disseram: "Não. O conceito de aparelhos falantes é muito rebuscado, e as crianças não vão aceitar isso." Eles podem aceitar animais falantes, mas não podem aceitar uma torradeira falante? Mesmo depois que eu tinha vendido para a Disney e a Disney estava produzindo? Editores de livros infantis... vamos falar de gente conservadora! As pessoas mais conservadoras em nossa cultura são os editores de livros infantis. Eles simplesmente não fazem nada que não tenha sido feito uma centena de vezes antes até a exaustão.

Então, embora eu tenha muitas idéias maravilhosas para livros infantis, e eu escrevo, eu não consigo publicá-las, exceto The Brave Little Toaster. Mesmo assim, o editor da Doubleday, que finalmente publicou-a, o fez apenas porque a Doubleday me tinha preso a um contrato de cinco livros (tinha, na verdade), e The Brave Little Toaster foi um dos cinco. O filme nesse ponto já estava em andamento, mas ainda assim me disse: "Eu nunca teria publicado isso mesmo. Eu acho que este não é um livro bom para crianças."


DH: Não há muito crédito sendo dado a imaginação das crianças pelo que parece.

TD: Ah, não. Eles são os inimigos da imaginação, e eu acho que quase conscientemente. De um modo engraçado, eu acho que eles estão fazendo o trabalho da "direita", porque uma parte significativa em criar seus filhos é reprimi-los. Da mesma maneira que as escolas são instituições penais para os muito jovens, alguns livros infantis são formas  estupidificantes da imaginação. Você pode dizer a eles o que eu disse.

DH: Quem são seus autores favoritos, e que tem influenciado sua própria escrita?

TD: Tolstoi. De verdade. Eu li Guerra e Paz na escola, e pensei que era muito importante. Quando eu estava escrevendo The Genocides, fui ao México e com um punhado de livros, entre eles Anna Karenina. Foi o único texto que usei no curso que dei quando era artista-em-residência na William and Mary, em 1996. Ele tinha o efeito que eu esperava em meus alunos. Só bateu com força quando tive que ler atentamente ao microscópio, para olhar o que Tolstoi estava fazendo e tentar imitá-lo de forma consciente.

DH: No que Tolstoi lhe inspira?

DT: Há uma citação de Willa Cather, The Song of the Lark - Willa Cather é outra pessoa que eu amo, é muito recente , eu a encontrei tarde na vida. Ela era leitura obrigatória na escola, e nada poderia ser mais...Avesso.

DH: [risos] Eu tenho ouvido isto de outras pessoas do meio-oeste.

TD: ...Então evitava-se Willa Cather, mas a descobri tarde na vida. Em O Canto da Cotovia, ela diz que na arte a coisa mais importante é a capacidade de dizer a verdade, e se você puder fazer isso, você realmente vence. Mas não é fácil, as pessoas pensam que é fácil dizer a verdade, que você só tem que olhar em seu coração e ela está lá. Mas não - é a coisa mais difícil de fazer, e é isso que Tolstoi faz, mais do que qualquer outro escritor de ficção. É impressionante - só agora estou lendo sua biografia, e ele era uma pessoa horrível...

DH: Oh Deus, sim.

TD: ...ele vivia numa bagunça tão grande, impossível de relacionar-se, e desagradável, mas ele foi simplesmente o melhor escritor de ficção que já viveu, e você tem que estudar a sua obra, frase por frase, molécula por molécula, e ver como ele constrói cada personagem.


E foi isso que nós fizemos no meu curso. Havia cerca de 12 alunos na classe, e a cada um foi atribuído um determinado personagem de Guerra e Paz para acompanhar, e cada aula eles dariam um relatório sobre o que sabiam sobre seu personagem. Pudemos acompanhar cada personagem junto dos outros conforme o livro avançava, algo que, idealmente se deveria fazer como um leitor atento. Em seguida, o trabalho final para a classe era escrever um novo episódio de Guerra e Paz sobre o personagem que estava estudando. Quase todos eles fizeram o melhor que podiam por conta própria até esse ponto, porque eles estavam prestando atenção. Uma das meninas tinha uma história sobre uma cena de batalha com um dos personagens militares - foi maravilhoso, era tão boa que você poderia publicá-la em um livro. É sobre o que Willa Cather disse - para obter a verdade, precisa de muito trabalho, e esse é o trabalho que Tolstoi fez, e que essa menina fez, ela superou o curso.

DH: Você mencionou que muita de sua atenção é focada na crítica e outros trabalhos de não-ficção, recentemente. Seu olhar retrospectivo da FC, The dreams our stuff is made of, ganhou um Hugo. Que outras reações você já teve a respeito deste livro?

TD: Bem, é estranho, porque eu sei que muita gente deve discordar dele severamente, mas eles nunca ousam dizer isso em voz alta na minha presença. Tive toda sorte de resenhas, e quando eles disseram que eu estava atacando um dos seus ícones favoritos, Heinlein ou Le Guin, eles deveriam dizer: "Estejam avisados. Ele não é gentil com isso ou aquilo", mas dizem que eu estava errado de uma forma maldosa. Eu realmente protegi meu traseiro muito bem, de todas as duras críticas ao livro - não eram apenas fáceis 'leitores de uma linha apenas', argumentei em cada caso.

O melhor elogio que tive foi de uma resenha que acabei de ler no site de Frank Wu, onde o autor disse que durante anos ele e um amigo tinham discutindo sobre Le Guin e Heinlein, e que no meu livro eu tinha feito todos os argumentos contra Heinlein que ele fez ao seu amigo, e também todos os argumentos contra Le Guin que o amigo fez para ele, e ele percebeu que simplesmente eu estava certo. E é isso que eu gosto de pensar que eu fiz. Eu gosto de pensar que eu só fiz bonito quando eu estava insistindo em algo. Suponho que as áreas mais frágeis do livro são sobre coisas que eu ignoro, mas acho que provavelmente é uma boa política escrever um livro que tem um lado polêmico nele.

DH: Qual foi sua motivação para escrevê-lo?

TD: Eu simplesmente sabia que eu era um de apenas três ou quatro indivíduos que poderiam escrever sobre isso com autoridade. Minha vida tinha sido a pesquisa disso, então me senti preparado para escrevê-lo, e eu pensei que iria fluir muito facilmente, e assim foi.

DH: Houve alguma coisa que estimulou este olhar retrospectivo?

TD: Eu suponho que "the pressure of time" (título de uma história minha) - Eu senti que tinha chegado a esse ponto em minha vida, e que o gênero tinha chegado a esse ponto em sua vida, onde eu poderia fazer a colheita.

DH: Você acha que se você fosse um jovem escritor hoje estaria trabalhando com ficção científica?

TD: Não, não. É triste. Eu sei que há certos temperamentos que, naturalmente, avançam para a ficção científica, mas eu não acho que você pode fazer uma carreira começando na ficção científica hoje. Eu não acho que a escada sobe sempre por todo o caminho. Posso estar errado. Eu acho que a Internet seria um bom lugar para começar algo...

DH: É principalmente pela falta de mercados?

TD: Ah, sim. Com poesia seria o mesmo, porque a poesia não é um meio de subsistência. Mas para a ficção, redação comercial, acho que você teria que encontrar uma maneira diferente, e você teria que encontrar um modo para começar na mídia - TV, comédias (não acho que ninguém entra no negócio do cinema diretamente). Como o mercado está agora, mistérios seria provavelmente uma oportunidade melhor de trabalho para o início de um escritor de ficção, porque há um mercado para esses e não há espaço para ficção científica inteligente, do tipo que eu fiz do meu jeito.

DH: Franquias e seqüências parecem dominantes no mercado de livros.

TD: E isso é simplesmente muito desanimador, você pode escrever um ou dois livros assim, e acho que, bem, eu estou subindo a escada, mas você vai descobrir que o esforço não vai te levar além dos livros de franquia.

DH: Por que você acha que isso ocorreu?

TD: Eu acho que representa a globalização da economia, que apenas cria o produto disponível como uma oportunidade de trabalho, o que significa que a ficção vai acabar sendo - como a poesia tem sido - escrita apenas por amor à arte. O que significa que apenas as pessoas ricas podem se dar ao luxo de escrever ficção como um objetivo de vida. Se você é uma dona de casa, ou você tem alguma outra carreira - alguém como Carol Emshwiller pode ser uma escritora de contos toda a sua vida - será um hobby. Mas para ter o tipo de carreira que eu tive, que foi muito boa para mim, eu não acho que vá ser possível. Eu não gostaria de ter dezoito anos outra vez.

DH: No que você está trabalhando atualmente?

TD: Eu tenho um romance de 40 mil palavras e não posso dizer nada sobre isso, até mesmo o título. Eu tenho uma proposta para um novo trabalho de não-ficção crítica que é uma idéia tão pura que ninguém fez antes que eu não posso te dizer. É algo que alguém realmente poderia roubar, é oportuna, e não vai me surpreender se um livro sobre isso for publicado antes. Eu disse ao meu agente que vou escrever o livro de não-ficção somente quando eu terminar o romance, que segue junto num ritmo agradável. Então há a possibilidade de Collected Poems, como mencionei, e eu tenho um livro dos meus escritos - não apenas poesia, mas literatura, a vida em geral. Nos últimos anos, tenho mais e mais que entrar em mim próprio como um escritor de não-ficção. Então, essas são as minhas intenções.

DH: Você hoje escreve mais ou menos do que costumava fazer? Vem em ciclos, ou você tem um nível estável de escrita?

TD: Eu escrevo bem, mantenho o fluxo constante, mas sempre com interrupções. Quer dizer, eu não sou um desses escritores como Joyce Carol Oates, mas eu mantenho os meus sentidos afiados.

DH: Há mais alguma coisa que você gostaria de falar?

TD: Oh, meu Deus, é um luxo ter alguém interessado em tudo o que você pode pensar para dizer, e para registrá-lo, esse lado de ser um velho estadista é tudo de bom. Depois de ter falado mais de uma hora sobre mim - que poderia pedir mais? É quase como uma espécie de embriaguez. Eu certamente apreciei, então agora eu tenho que ir me flagelar por uma hora, para voltar à realidade.

DH: De volta à realidade então. Obrigado pelo seu tempo.





Entrevista concedida a David Horwich - 30 de julho, 2001 - Strange Horizons.

sábado, 19 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 2)




Os baldes estavam cheios e Buddy agarrou as alças  e fez o caminho de volta para o campo. Pela centésima vez naquele dia, passou por cima do tecido canceroso que se formou sobre o coto da planta que tinha irrigado o milharal no ano passado. Desta vez, seu pé descalço pisou a madeira lisa, onde havia uma poça de seiva escorregadia. Desequilibrado pelos baldes, ele não conseguiu recuperar o equilíbrio. Caiu para trás, a seiva nos baldes derramou-se sobre ele. Deitado no chão, a seiva se espalhara por seu peito e braços, e uma miríade de moscas pousou para se alimentar.

Ele não tentou se levantar.

‘Não fique deitado ai’ disse Anderson, “temos muito trabalho por fazer”. Esticou uma mão, mais gentil que suas palavras, para ajudar Buddy a se levantar.
Quando agradeceu ao pai, havia um tremor em sua voz quase perceptível.

"Está bem?”
“Acho que sim” Sentiu dor no coccix, que tinha batido no toco, então desceu até ao riacho para lavar a porcaria de si.
“Tá na hora mesmo de ir comer.”

Buddy assentiu. Agarrando os baldes (era incrível como automático o trabalho se tornara, até mesmo para ele), partiu para o caminho que levava da floresta ao riacho (que mais para o interior, era o rio Gooseberry) do qual a aldeia retirava sua água.

Sete anos atrás, toda esta área da floresta e a aldeia estava sob dez a quinze metros de água. Mas as plantas haviam drenado a água. Eles ainda estavam drenando, e todos os dias o litoral norte do Lago Superior movia-se alguns centímetros mais para o sul, embora a taxa de sua retirada parecia estar diminuindo e a mais nova das plantas atingira os limites do seu crescimento.

Ele despiu-se e deitou-se de corpo inteiro no rio. A água morna movia-se languidamente sobre suas pernas nuas, limpando a sujeira e a seiva e as moscas mortas que tinham ficado agarradas nele como  papel pega-mosca. Prendeu a respiração e baixou a cabeça lentamente dentro da água que fluia, até ficar totalmente submerso.

Com a água em seus ouvidos, ele podia ouvir alguns sons mais distintamente: suas costas contra as pedras do leito do córrego, e,mais distante, um outro som, um barulho baixo que cresceu, muito rapidamente, batidas. Ele conhecia o som, e sabia que não deveria estar ouvindo-o agora, aqui.

Ergueu a cabeça para fora da água a tempo de ver a vaca desabalada, correndo na direção dele e a tempo para ela vê-lo. Gracie saltou, e sua patas traseiras passaram a poucos centímetros de sua coxa. Então ela  correu para dentro da floresta.

Em seguida, Buddy contou enquanto elas atravessavam o riacho: oito. . . onze. . . doze.
Sete Herefords e cinco Guernseys. Todas elas.

O mugido de um touro soou no ar, e Studs entrou em sua visão, o grande Hereford marrom da aldeia, com seu topete branco. Ele olhou Buddy com desafio casual, mas haviam negócios mais urgentes do que o acerto de contas. Ele apressou-se atrás das vacas.

Studs ter escapado do cercado era uma má notícia para as vacas todas prenhas, e não era bom para nenhuma delas ser montada por um touro ansioso. A notícia seria ainda pior para Neil, que era responsável por Studs. Isso poderia significar uma surra. Este pensamento não entristeceria Buddy profundamente, mas ainda assim ele estava preocupado com o gado. Apressou-se a vestir seu macacão, que ainda estava grudento de seiva.

Antes que ele tivesse preso as tiras sobre os ombros, Jimmie Lee, o mais jovem dos dois meio-irmãos de Buddy, veio correndo perseguindo o touro. Seu rosto estava vermelho com a emoção da perseguição e mesmo quando ele anunciou a calamidade "Studs fugiu!" um sorriso formou-se em seus lábios.

Todas as crianças, e Jimmie não era exceção, sentiam uma simpatia demoníaca, por coisas que causavam desordem no mundo adulto. O jovem vibrava com terremotos, tornados e touros que escapavam.

Não seria bom, Buddy pensou, que seu pai visse o sorriso. Para Anderson, a simpatia mesmo secreta, pelo poder de destruição foi metamorfoseado pela ação do tempo em uma severa, mal humorada oposição aos mesmos poderes, uma magnífica teimosia, implacável na sua forma crua e rude, de como se opunha ao inimigo. Nada poderia seguramente provocar mais esta impiedade, do que ver esta excitação nas bochechas de seu filho mais novo e (como comumente era) mais querido.

"Pai", disse Buddy. "Cadê todo mundo?"
"Clay está reunindo todos os homens que pode encontrar, e Senhora e Flor e as mulheres estão indo lá para assustar as vacas para longe do milho.”

Jimmie gritou a informação sobre seu ombro enquanto trotava ao longo da trilha larga aberta pelo rebanho. Era um bom menino, Jimmie Lee, brilhante como um botão. No velho mundo, Buddy tinha certeza, ele teria se tornado mais outro filho pródigo. Eram sempre os mais brilhantes que se rebelavam. Agora seria sorte se sobrevivesse.
Todos eles.

Com os trabalhos da manhã findados, Anderson olhou para seu campo e viu que estava bom.
A colheita não seria grande e suculenta, como nos velhos tempos.

Eles haviam deixado os sacos de sementes de hibridização mofando nos depósitos abandonados da velha Tassel. Híbridos davam um rendimento melhor, mas eram estéril. A agricultura já não podia pagar por luxos assim. A variedade que ele estava usando agora era muito mais próxima hereditariamente ao milho indiano antigo, dos astecas zea mays. Sua estratégia contra as usurpantes Plantas fora baseada no milho. O milho tinha se tornado a vida do seu povo: o pão que comiam e a carne também. No verão, Studs e suas doze esposas, poderiam pastar no volumoso verde tenro que as crianças raspavam das laterais das Plantas ou poderiam pastar entre as mudas ao longo da margem do lago, mas quando o inverno chegasse o milho sustentaria o gado assim como sustentava os moradores.

O milho cuidava  de si quase tão bem quanto ele cuidava dos outros. Ele não precisava de um lavrador para revolver a terra, apenas uma vara afiada e mãos para soltar as quatro sementes e o pedaço de excremento que seria seu primeiro alimento. Nada tinha o rendimento por hectare que o milho tinha, nada exceto arroz provinha tanto alimento por onça (1 onça = 28 gramas). A terra era valiosa. As Plantas exerciam uma pressão constante sobre os milharais. Todo dia as crianças menores tinham que sair e caçar entre as fileiras de milho os germes verde-limão,  que em uma semana poderiam crescer para o tamanho das mudas, e em um mês seria grande como um bordo crescido.

Malditos! pensou. Que Deus os amaldiçoe! Mas essa maldição perdia muito de sua contundência na convicção de que Deus lhes tinha enviado em primeiro lugar.

Deixe os outros falarem sobre espaço exterior, tanto quanto gostassem: Anderson sabia que o mesmo Deus irado e ciumento que tinha visitado uma vez antes de uma enchente sobre a terra que era corrupto tinha criado as Plantas e semeado-as. Nunca discutiu sobre isso. Se Deus podia ser tão convincente, por que Anderson elevaria a sua voz? Contavam sete anos aquela primavera desde que a primeira muda da Planta tinha sido vista. Elas tinham vindo de repente, em Abril de '72, um bilhão de esporos, invisíveis para todos a não ser para os microscópios mais poderosos, disseminaram a mensagem por todo o planeta por um semeador igualmente invisível (e onde estava o microscópio ou telescópio ou tela de radar que fará Deus visível?), e dentro de dias cada centímetro de terra, na fazendo ou no deserto, selva e tundra, ficou coberta com um tapete verde dos mais ricos.

Todos os anos desde então, haviam cada vez menos pessoas, e mais convertidos à tese de Anderson.
Como Noé, ele estava rindo por último.
Mas não o impedia de odiar, assim como Noé deve ter odiado as chuvas e a elevação das águas.

Anderson não tinha sempre odiado as Plantas. Nos primeiros anos, quando o Governo tinha acabado de cair, e as fazendas estavam em seu auge, saía à luz do luar somente para assisti-las crescer. Era como os filmes sobre crescimento acelerado das plantas que ele havia visto na escola de agricultura anos atrás. Ele pensou que poderia lutar contra elas, mas estava errado. As Plantas daninhas infernais tinham arrancado sua fazenda de suas mãos e a cidade das mãos de seu povo.

Mas, por Deus, ele ia consegui-las de volta. Cada centímetro quadrado. Mesmo se tivesse que arrancar cada raiz de cada Planta com as suas duas mãos. Cuspiu bastante.

Nestes momentos, Anderson tinha consciência de sua própria força, da força da sua determinação, como um homem jovem está consciente da compulsão de sua carne ou uma mulher está consciente da criança que ela carrega. Era uma força animal, e que, Anderson sabia, era a única força suficientemente forte para prevalecer contra as Plantas.

Seu filho mais velho saiu correndo da floresta gritando. Quando Buddy correu, Anderson sabia que havia algo errado. "O que ele disse?", perguntou para Neil.
Embora o velho não quisesse admitir isso, sua audição estava começando a ir embora.
"Ele diz que Studs alcançou as vacas. Parece um monte de besteira para mim."
"Peça a Deus que seja", respondeu Anderson, e seu olhar caiu sobre Neil como um peso de ferro.

Anderson mandou Neil de volta para a vila para garantir que os homens não se esqueçessem de levar cordas e aguilhões na pressa da perseguição. Então, com Buddy partiu na trilha limpa que o rebanho tinha feito. Estavam cerca de dez minutos na frente, pela estimativa de Buddy.

"Estão longe" disse Anderson, e começaram a correr ao invés de andar.

Foi fácil, correndo entre as Plantas, pois cresciam muito afastadas e sua cobertura era tão espessa que não permitia deixar crescer vegetação rasteira. Mesmo fungos adoeciam aqui, por falta de comida. Os poucos álamos que ainda estavam de pé estavam podres no núcleo e só esperando que um vento forte derrubásse-os . Os pinheiros e abetos tinha inteiramente desaparecido, digeridos pelo solo que um dia os alimentara. Anos antes, as plantas tinham suportado hordas de parasitas comuns, e Anderson esperara que as videiras e trepadeiras fossem destruir seus parasitas, mas as plantas tinham se reunido e foi o parasita que sem motivo aparente morreu.

Os troncos gigantes das Plantas subiam fora da vista, suas estruturas espirais escondidas pela folhagem maciça; seu verde suave e vivo, imaculado e intocável, e como todos os seres vivos, indispostos a tolerar qualquer forma de vida, além da sua própria.

Havia nessas florestas uma solidão estranha, doentia, uma solidão mais profunda do que a adolescência, mais perverante do que a da prisão. Parecia, de certa forma, apesar de seu crescimento, verde e florescente, morta. Talvez fosse porque não havia nenhum som. As grandes folhas sobre eles eram demasiadas pesadas e rígidas na estrutura para serem agitadas por qualquer coisa, que não fosse os ventos de um furacão. A maioria das aves tinha morrido. O equilíbrio da natureza foi tão profundamente afetado que mesmo os animais que se julgava não ameaçados se juntaram às fileiras sempre crescente dos seres extintos. As plantas estavam sozinhas nestas florestas, e o sentimento de serem algo à parte de tudo mais, de pertencerem a uma ordem de coisas diferente era inevitável. Aquilo devorava o coração do homem mais forte.

"Que cheiro é esse?" Buddy perguntou.
"Não sinto cheiro de nada."
"Tem cheiro de algo queimando."

Anderson sentiu pontadas de esperança.
"Um incêndio? Mas eles não iriam queimar nessa época do ano. Elas estão muito verdes."
"Não são as Plantas. É outra coisa."

Era cheiro de carne assada, mas ele não diria isso. Seria demasiado cruel, demasiado irracional perder uma das vacas preciosas para um banquete de saqueadores.
  
Seu ritmo desacelerou da corrida para um trote, de um trote para um cauteloso deslizar de espreita.

"Eu sinto agora", Anderson sussurrou.

Retirou do coldre o Colt Python .357 Magnum, que era o sinal mais visível de sua autoridade entre os cidadãos de Tassel. Desde sua condecoração ao cargo mais alto (formalmente, ele era o prefeito da cidade, mas na verdade ele era muito mais), ele nunca foi visto sem ele. A potência desta arma como um símbolo (para a vila que tinha ainda um estoque considerável de armas e munições) residia sobre o fato de que era apenas utilizado para o mais grave dos propósitos: matar homens.

O cheiro tornou-se muito forte e, depois, numa curva do caminho eles encontraram doze carcaças.
Haviam sido incineradas até as cinzas, mas os contornos eram claros o suficientemente para indicar qual delas era Studs. Havia também uma pequena mancha de cinza próxima a eles no caminho.

"Como..." Buddy começou a dizer. Mas ele realmente queria dizer o que, ou mesmo quem, algo que seu pai rapidamente entendeu.
"Jimmie!" o velho gritou furioso, e enterrou as mãos no pequeno monte de cinzas ainda fumegantes.
Buddy desviou os olhos, tanta tristeza era como embriaguez: não era justo que ele encarasse seu pai assim.

Não havia nem sequer uma carne que sobrasse, ele pensou olhando para as outras carcaças.
Nada além de cinzas.

"Meu filho!" o velho chorava. "Meu filho!" Ele segurou no dedo um pedaço de metal que outrora fora a fivela de um cinto. Suas bordas estavam derretidas pelo calor, e o calor retido ao metal estava queimando os dedos do velho homem. Ele não percebeu.
Fora de sua garganta veio um ruído, mais profundo do que um gemido, e suas mãos cavaram as cinzas mais uma vez. Ele cobriu o rosto com elas e chorou.

Depois de um tempo, os homens da aldeia chegaram.
Um deles tinha trazido uma pá para usar como um aguilhão. Eles enterraram as cinzas do menino lá, porque o vento já começava a espalhá-las sobre o chão. Anderson guardou consigo a fivela.

Enquanto Anderson estava falando as palavras sobre a sepultura rasa de seu filho, ouviram o mugido da última vaca viva, Gracie. Então, logo que tinham dito amém, correram atrás da vaca sobrevivente. Com exceção de Anderson, que voltava para casa sozinho.

Gracie levou-os a uma agradável e velha perseguição.



Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 2) [ Download ]

terça-feira, 15 de março de 2011

Philip K. Dick - Exhilaration and Terror of the Modern



Este livro discute a ficção científica de Philip K. Dick, tanto os contos quanto os romances.

A discussão é de dois pontos de vista: histórico e formal.

O primeiro considera a ficção como representação de uma resposta para a pós-modernidade, e investiga um confronto entre humanismo e pós-modernismo.

A segunda considera questões de gênero e forma. Dick é um entusiasta mais do que um escritor de ficção científica convencional, de modo que ele explora as convenções do gênero, em vez de obedecê-las. Não que sua versão de FC seja simplesmente lúdica: o choque entre humanismo e pós-modernismo escapa da ficção, a tensão entre realismo e fantasia, endêmica a Ficção Científica, é agravada no caso.

[...]

Preface 
Acknowledgments
Abbreviations 

PART I
1. Philip K. Dick and the Postmodern
2. Complications of Humanism and Postmodernism 
3. Static and Kinetic in Dick’s Political Unconscious 

PART II
4. Mired in the Sex War: Dick’s Realist Novels of the Fifties 
5. The Short Stories: Philip K. Dick and the Nuclear Family 
6. The Man in the High Castle: The Reasonableness and Madness of History
7. Eating and Being Eaten: Dangerous Deities and Depleted Consumers
8. Critique and Fantasy in Martian Time-Slip and Clans of the Alphane Moon
9. Critical Reason and Romantic Idealism in Martian Time-Slip
10. A Scanner Darkly: Postmodern Society and the End of Difference
11. Gestures, Anecdotes, Visions: Formal Recourses of Humanism
12. Postmodernism and the Birth of the Author in Valis 
Works Cited 
Index


Philip K. Dick - Exhilaration and Terror of the Modern - Christopher Palmer [ Download ]

segunda-feira, 14 de março de 2011

Land of the Zombies, Filmes de Zombies e Black Zombie

Melhor do que um blog sobre zombies, só três !






domingo, 13 de março de 2011

Entrevista com Thomas Disch





Esta semana, em Strange Horizons, apresentamos mais um autor, como o fazemos periodicamente, esta edição traz o romancista, poeta e crítico Thomas M. Disch. Em sua carreira de quase 40 anos, Disch distinguiu-se como um dos escritores mais originais e versáteis surgidos do movimento New Wave da ficção especulativa, que transformou o gênero na década de 60. Ele é mais conhecido no mundo da FC por dois romances, Campo de Concentração e 334, assim como outros, muitas vezes de contos satíricos. Ele também escreveu poesia, horror e críticas teatrais.

Meu primeiro encontro com o trabalho de Disch foi na coleção de Samuel R. Delany , Jewel-Ringed Jaw; e a admiração de Delany por Disch levou-me às suas histórias e romances. Wings of Songs é provavelmente o meu romance favorito de Disch, embora também seja muito afeiçoado a The Genocides. Fiquei encantado pela  oportunidade de falar com ele ao telefone em sua residência em Nova York, sobre sua vida e carreira.




David Horwich: Vamos começar pelo seu início. Quando começou a escrever?

Thomas M. Disch: Há sempre um começo? Lembro-me no jardim de infância em Minneapolis, com Dennis White, meu melhor amigo naquela idade, contando-lhe histórias sobre Ronald Rabitt. Era uma série de aventuras. Essas são as primeiras histórias que eu lembro de ter contado, mas quem sabe  que histórias  eu contei aos meus pais? Contar histórias era absolutamente natural para mim. É minha maneira de me relacionar com as pessoas, eu acho.

DH: Então, você sempre foi de contar histórias. Quando você começou a escrevê-las?

TD: Eu suponho que eles me pediram para fazer esse tipo de coisa na escola, eu não me lembro das histórias que escrevi. Tinha blocos cheios, mas não de histórias, de enredos imitando Asimov,  inspirados em The Caves of Steel .  Eu descobri a ficção científica, e pensei, oh sim! Civilizações galácticas em conflito umas com as outras! Então enchi cadernos completos com descrições de personagens, enredos e histórias futuras do meu próprio império galáctico, sobre o qual eu não me lembro de nada. Isso foi por volta dos 11 ou 12.

DH: É quando você encontrou a ficção científica pela primeira vez?

TD: Tinha cerca de 11 anos, sim. Eu descobri através do meu amigo Bruce Burton, com quem eu jogava Story Tag - uma versão mais elaborada dos contos de Ronald Rabit. Ele apareceu com idéias que me surpreenderam. Só depois de um bom tempo eu descobri que ele estava pegando todas da Astounding Science Fiction - plágio em Story Tag! [Risos] Eu pensei que ele de repente se tornara uma espécie de gênio ou algo assim. Ele parou de ganhar na Story Tag quando eu percebi o que ele estava fazendo

Em Fairmont, Minnesota, você só poderia obter revistas de FC, assinando-as, então eu tinha as minhas próprias assinaturas. Acho que subscrevi a Galaxy antes de Astounding; de qualquer forma, esses foram os meus anos de revistas de FC, 1951, '52, '53. Quando  fiz 14, eu estava vivendo em Twin Cities, e na décima série tivemos que ler Júlio César. Quando descobri Shakespeare, e conheci a poesia e como funcionava, eu surtei. Antes disso, eu achava que era coisa de cartão comemorativo. Então abandonei a ficção científica, e voei para as estrelas. Minha ambição era tornar-me, um Shakespeare, Thomas Hardy, Dostoevksii, eu lia qualquer livro da biblioteca que me dava na telha.


DH: Foi quando você começou a escrever poesia?

TD: Eu comecei a escrever poesia antes de escrever contos, no ensino médio. Mas eu sabia que o que eu estava escrevendo era simplesmente inferior - uma das maldições da inteligência - então eu não persegui ambições literárias mais longe do que as atribuições da escola e do ensino médio me levassem. Isso também serviu para a faculdade. Eu me inscrevi em um curso para aprender a escrever contos com um grande professor, e ele me incentivou, e eu também tinha outros colegas para comparar-me, mas eu sabia que ainda não estava preparado.

Então, quando eu tinha 22 anos, um calouro na faculdade, tive o que depois chamamos de um colapso nervoso. Eu não queria fazer as provas finais, eu não tinha estudado para elas, e eu não poderia fazer o teste de cálculo sem estudar, então fui confrontado com esta crise. Ao mesmo tempo, eu sabia que, de alguma forma, se eu me sentasse no fim de semana que eu estava tendo meu colapso nervoso e escrevesse uma história, esta seria publicável,  eu estava pronto para escrever uma história publicável. Então escrevi "A Double-Timer",  sete mil e quinhentas palavras. Foi a primeira história que eu escrevi pensando, "esta pode ser publicada." E assim foi. E eu nunca fiz os testes.


DH: Então foi uma crise pessoal que o levou a um momento em que você estava pronto para passar ao nível seguinte?

TD: Eu não acho que foi realmente uma crise pessoal, acho que foi uma decisão inconsciente. Isso é o que eu sempre senti sobre colapsos nervosos, se você não está realmente doido, ou esquizofrênico, basicamente, você está fazendo uma decisão que é tão difícil que você precisa da desculpa da neurose. Acho que colapsos nervosos eram muito mais comuns no final dos anos 50 e início dos anos 60,  o mundo é mais moderno sobre essas coisas hoje, para que as pessoas possam tomar decisões sem alegar uma desculpa. Mas funciona em ambos os sentidos, era uma grande vantagem ter colapsos nervosos.

DH: Depois de ser publicado pela primeira vez no início dos anos 60, você pensava em tentar fazer uma carreira escrevendo?

TD: Bastante. Era 1962 eu tinha vendido a primeira história para a Fantastic. Eu comecei a escrever outras histórias em rápida sucessão, e elas foram ficando melhores, gradualmente, sensivelmente. A gama de histórias foi também, naturalmente, aumentando, e eu pensei - hei, eu posso fazer isso, na verdade, eu acho que posso fazê-lo muito bem.

DH: Você estava escrevendo principalmente ficção científica, neste momento?

TD: Quase tudo, porque era um campo vasto. Eu não iria ameaçar Saul Bellow, ou mesmo o povo do The New Yorker. Eu nunca vendi para o The New Yorker. Eu tive só um período de teoria da literatura. Eu venho do bairro errado para vender para a revista The New Yorker. Não importa o quão bom eu sou como um artista, que sempre poderão sentir o cheiro de onde eu venho. Eu acho que o único de todos nós, que encontrou seu caminho na revista The New Yorker foi Ursula Le Guin, e mesmo ela era como se um alienígena visitasse a revista.

DH: É isso ainda é verdade hoje?

TD: Ah, sim. É mais verdadeiro hoje, porque acho que sou mais fiel à minha visão - Eu sei o que é, e eu sei que sou o inimigo. Isso é verdade para a poesia também. Eu conheci o editor de poesia da The New Yorker, de forma amigável - Howard Moss, na época - e ele nunca usaria nada meu. Mas há lugares que o fazem, porque eles são menos comprometidos com uma visão de como vêem seu público. O The New Yorker tem um entendimento muito bom do que seu público quer - é John Updike, classe média alta, são as pessoas de uma determinada renda. E se você não está escrevendo para confortar estas pessoas, elas não querem te ouvir. Isso é verdade para quase tudo. É tudo direcionado para uma certa idade, preferência sexual...

DH: Mercado publicitário.

TD: Todas essas coisas. Todos os dados demográficos. Fazem parte da realidade. Às vezes são realidades forjadas – porém mais velho e mais sábio - desde que eu tenha um lugar para publicar, eu posso ser blasé sobre isso.

DH: Foi uma luta para estabelecer sua carreira? Como era a ficção científica no início dos anos 60?

TD: Um campo totalmente aberto para mim. Eu rapidamente me tornei muito bom, na mesma medida em que enviava sinais de alerta para algumas pessoas. Mesmo aquelas que não gostavam de mim era uma espécie de elogio, de certa forma. Algis Budrys me chamou de "niilista". Essa é a palavra que as pessoas usam quando querem dizer "este é o nosso inimigo. Ele não acredita em nada." Significa, ele não acredita em nada do que nós acreditamos (e nós acreditamos em um monte de porcaria).

DH: Você estava tentando fazer algo diferente...

TD: Eu não tinha que tentar. Se eu seguisse a minha visão, isso já era diferente. Havia muita gente da minha idade e geração e com o mesmo passado que o meu, e que estava escrevendo de forma semelhante a minha, então eu não estava sozinho...  Eu fazia parte da "New Wave", que significava: espertinhos de nível universitário. O tipo velho escritor safado tinha só o ensino médio. A ficção científica nos anos 30 e 40 era uma literatura da classe trabalhadora, como a literatura pulp de detetive. O país inteiro estava se tornando gradualmente mais educado, e eu fazia parte de toda essa transição.

DH: O quanto este também foi um produto, ou influenciado por, das mudanças culturais e sociais em curso nos anos 60?

TD: Bem, nós tínhamos uma mudança cultural e social em curso. Fazíamos parte dela, refletíamos em nossas próprias vidas, nós espelhando, e estimulados pelos nossos escritos e outros veículos. Foi se reforçando mutuamente. É bom ter feito parte da história dessa forma.

DH: Você tinha o sentimento na época de que você e seus colegas estavam fazendo algo diferente e novo?

TD: Ah, claro, sabíamos disso. Foi sim uma sensação gloriosa. Sabíamos que estávamos detonando. E isso era divertido.

DH: Então, a recepção foi positiva na época dentro do gênero, dentro do fandom?

TD: Bem, foi positiva e negativa. A geração mais velha que está sendo deixada de lado não fica muito feliz com isso. Os mais velhos tinham uma escolha - poderiam se juntar a nós, ou poderiam tentar lutar. Foi realmente um caso de quais iriam se ajustar e quais iriam se afastar.

Havia uma certa geração marginal - Brian Aldiss, Phil Dick, pessoas da nossa geração - que tinha a opção de se tornar New Wave com a gente, e tirar partido de todas as liberdades de escrita - a linguagem adulta, a comédia. Você poderia finalmente escrever para adultos! Isso foi maravilhoso! Para muitos dos escritores mais velhos, era um chamariz para eles, e eles tiveram um renascimento; Damon Knight foi um deles. Mas havia alguns velhos que simplesmente não conseguiam adaptar-se, como Algis Budrys e Ray Bradbury, acho que eles ficaram para trás, como uma espécie de volta ao Paleolítico.


DH: John Campbell ainda era um dos editores mais fomosos quando você estava começando. Você teve algum encontro com ele?

TD: Não, não. . . Eu não teria me socializado com ele, e eu não acredito que ele apareceria em público, fora de sua própria sala do trono. Eu fui a um monte de convenções de ficção científica - nunca o vi por lá. Acho que as pessoas que se davam muita importância não se misturavam com os novos. Eu nunca vi Heinlein.

DH: Você tem um favorito seu desse período?

TD: Realmente não, porque eu não leio as coisas, a não ser por algum motivo que tenho que o fazer. Quando tenho, normalmente fico agradavelmente surpreso e acho que, hei, isso é muito bom - e não li isso em 40 anos. Eu estava relendo uma história que escrevi em 1964, "Flags Dangerous", que está em um CD que eu fiz recentemente (que vai responder à sua pergunta, um dos favoritos). É perfeitamente diferente, a história boba, quando eu escrevi, eu sabia que tinha encontrado a voz certa e a forma de escrever FC de humor e me fazia rir. Um humorista, que escreve apenas para se divertir. Na mesma época, eu encontrei a mesma voz na minha poesia.

DH: Você publicava poesia nesta época também?

TD: Sim, nesta mesma época eu vendi o meu primeiro poema para a Minnesota Review, e eu passei a escrever poesia desde então. É parte do que eu faço.

DH: Poesia de ficção científica?

TD: Não, não é ficção científica - é poesia. Há um certo elemento na poesia em tudo...Metáforas, quando exploradas, podem se tornar ficção científica, mas isso não faz parte do objetivo, é apenas algo que acontece naturalmente em poemas. Há uma corrente dentro da ficção científica que acha que há algo chamado de "poesia de ficção científica", e para mim isso é sempre um sinal de alerta - como uma doença de pele - devemos evitar essas pessoas cuja idéia de poesia é que existem dois tipos distintos, ficção científica e não ficção científica. É só poesia.

Suponho que, em última análise é a forma mais gloriosa da literatura, mas em nossos tempos você não pode viver de poesia, e eu acho que escrevi boa poesia , como pode-se esperar que um poeta profissional o faça durante sua vida. Tenho sete livros de poesia, e há uma possibilidade agora de um Collected Poems. O Collected Poems seria pelo menos o dobro da massa física real da poesia publicada, e talvez mais que o dobro. Seria um livro de 500 páginas ou mais, o que é bastante bom. Estou sempre atento à possibilidade - sempre que houver um bom poema lá, eu deixo tudo e escrevo o poema. Às vezes vem mais difícil e mais rápido do que outros, mas nunca houve um período em minha vida que não tivesse minhas antenas prontas para receber um poema.


DH: Não é assim com a prosa?

TD: Com histórias eu tenho um arquivo de idéias que é de cinco centímetros de espessura. Você não pode escrever toda idéia que você tem. É uma questão de mercado - escolher escrever uma história particular, que seria publicada em algum lugar onde eu quero ser publicado, ou ganhar algum dinheiro legal - todas essas questões estão envolvidas na decisão de usar uma ideia em particular. Além disso: eu iria me divertir? Algumas histórias dão mais trabalho do que divertem. Muito trabalho. É como alfaiataria. Eu não acho que para um alfaiate um terno seja diversão - é trabalho. Escrever ficção, e qualquer romance, é um tipo de trabalho.

Mas com a poesia, embora não haja trabalho, a atenção que é necessária para fazer um bom poema para concluir, raramente ultrapassa um dia ou dois. Eu não escreveria um poema a menos que eu pense que vá ser bom. Eu não iria sentar e dizer, oh, eu tenho que escrever um poema agora, e ligo meu cérebro e me pergunto o que fazer. Está lá ou não está. Se ele está lá, eu escrevo. A poesia é como uma visita. É por isso que eles falam sobre a musa. Se ela vier, você acaba dizendo Olá para ela.


DH: Você acha que a New Wave atingiu o seu objetivo? Será que as coisas começaram a mudar depois de um certo tempo, ou...

TD: Conseguimos o nosso objetivo, e de uma forma irônica ela falhou. A ficção científica, em nossa cultura, é basicamente destinada a crianças ou adultos jovens, como eles dizem, e uma certa dose de ficção científica tem que atender as necessidades emocionais e intelectuais de jovens de 13, 14, 15 anos. Se ele não conseguir fazê-lo como um gênero, então não vai ter seu lugar no mercado. Então inevitavelmente, o povo que inventa e escreve para Star Trek ou fantasia de capa e espada e feitiçaria abastecem  esse público, e o público sempre se renova. Não é o mesmo público - as pessoas crescem e entram na idade da ficção científica, então vivem através dela e em seguida, eles abandonam a ficção científica, e uma nova geração toma o seu lugar.

Bem, se isso é a verdade, então alguns escritores não são, por temperamento, adequados para escrever para esse público, não vão ser bem-vindos ou bem-sucedidos na ficção científica. Assim, alguns escritores de ficção científica saltam fora - Ursula o fez - ou encontram um nicho para ele, como Silverberg, com os  livros Majipoor depois que ele havia feito New Wave. Quero dizer, foi definitivamente um retrocesso, e isso foi feito para poder ganhar dinheiro. Ele era um escritor, um profissional, e ele tinha que ir onde o público estava.

Outras pessoas acham novas audiências no resto da cultura. Eu o fiz, de certa forma, embora os romances de terror sejam um deslocamento lateral - é um público diferente e, presumivelmente, um público mais velho, e é um público diferente culturalmente. As necessidades emocionais que você está fornecendo são diferentes. Além disso, todos esses gêneros estão deslocando-se em termos de audiência ao longo do tempo. A ficção científica encolheu sensivelmente após a New Wave. Há menos revistas para se publicar. Esta sempre foi a maneira que um escritor novo e jovem fazer-se conhecido, e que agora está mais difícil. Eu estava na Readercon, em Boston, e você olha para fora para a audiência - é chocante a quantidade de velhos em geral. Claro, Readercon visa o público leitor, ao invés da audiência televisiva que parece ser o foco da maioria das convenções de ficção científica.


DH: Você acha que isso é inerente ao gênero, ou é mais um resultado das demandas de comercialização e publicação de nossa cultura?

TD: Nunca foi uma necessidade estética, você poderia sempre escrever ficção para adultos, a questão é, você pode ganhar a vida escrevendo isso? Se você escreve ficção muito boa, e é ficção científica, normalmente você pode encontrar um lugar para publicá-la, a menos que você escreva uma espécie peculiar de romance que cria a sua própria audiência especial no âmbito da ficção científica. Estou pensando em R.A. Lafferty, que escreveu como se fosse Piers Anthony escrevendo para adultos, simplesmente não há público fora da FC para essa combinação particular, é um sabor que só existe dentro da Ficção Científica. Eu suponho que há alguns escritores como esses, que são tão sui generis que só podem ser publicado dentro dos muros do gueto.

Philip K. Dick... não poderia ter seu trabalho publicado no mainstream, ele tinha uma dificuldade enorme em conseguir que a sua boa FC fosse publicada. Fez o que precisava fazer para sobreviver por tempo suficiente para tornar-se reconhecido. Ele pensou bem em seu auge criativo, mas a admiração de seus pares não era suficiente para colocar uma refeição na sua mesa. Ele tinha muitas responsabilidades, e eu não acho que ele tratou de todas lá muito bem, havia uma pressão constante sobre ele.


DH: Você mencionou o gueto da Ficção Científica. Quantas vezes você encontrou estes muros?

TD: Os esnobes? Muitas vezes. Há um certo tipo de acadêmico que conta com esse tipo de defesa, mas isso se tornou coisa do passado, os acadêmicos hoje são mais cuidadosos em suas 'esnobices' do que eram, digamos, 20 anos atrás. O esnobismo mais eficaz é simplesmente não ler as pessoas que você esnoba, e não escrever sobre eles, e não ir nas cerimônias de seus prêmios e tudo mais. O gueto ainda é muito eficaz nesse sentido, em que as portas para publicações são fechadas para escritores de ficção científica. No entanto, existem bem poucas pessoas de FC que batem nestas portas. Então parece haver um consenso geral de que vivemos em dois mundos diferentes, e só se casar com a nossa própria espécie.




[continua...]