sábado, 30 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 8)







SETE
O Advento


Gracie, a vaca, vivia ali na Sala Comum com todo mundo. As galinhas, também tinham um canto para elas, mas os suínos foram alojados em um chiqueiro do lado de fora.

Durante quatro dias, a partir daquele Ação de Graças, a neve tinha caido lentamente, pesadamente, como neve a se instalar na cidade em miniatura, dentro de um peso de papel de vidro.
Depois de uma semana de tempo invernal as crianças já usavam o trenó nas margens do velho lago. Depois a neve começou a cair a sério, impulsionada por ventos que faziam Anderson temer pelas paredes reforçadas.
Três ou quatro vezes por dia, os homens saiam ao exterior para limpar a "cobertura" que se formara no teto da Sala Comum. Assim que a metade da cobertura de neve pesada era limpa, a outra metade surgia para substituí-la. Além desta tarefa e os cuidados com os suínos, os homens ficavam ociosos durante uma nevasca. O resto do trabalho, cozinhar  tecer, cuidar das crianças e dos doentes, era trabalho das mulheres.
Mais tarde, quando o tempo melhorasse, eles podiam caçar novamente, ou, com mais esperança de sucesso, encontrar peixes no gelo do lago. Havia também uma abundância de Plantas para cortar.

Era difícil passar por esses dias ociosos. Bebida não era permitida na Sala Comum (do jeito como estava, já havia brigas suficiente), e o jogo de cartas logo perdia seu atrativo quando o dinheiro em disputa não era diferente daquele que as crianças brincavam no Monopólio.
Havia poucos livros para ler, com exceção da Bíblia de couro de bezerro de Anderson (a mesma que certa vez estivera no púlpito da Igreja Episcopal), e o espaço interior era valisoso. Mesmo se tivessem livros, era improvável que alguém iria ler. Orville talvez, ele parecia uma espécie de amigo dos livros. Buddy também. E a Senhora tinha lido muito também.

A conversa, nunca ia além das reclamações. A maior parte dos homens imitava Anderson, sentado imóvel na orla de sua cama, mastigando a polpa da Planta. Era questionável contudo se como Anderson, poderiam dirigir este tempo para fins úteis. Quando a primavera chegava, todas as ideias, os projetos, as inovações vinham de Anderson e de mais ninguém.

Agora, parecia haver mais alguém capaz de pensar, que pelo contrário, preferia pensar em voz alta. Para o velho ali sentado, ouvindo Jeremias Orville, as idéias apresentadas por ele pareciam as vezes positivamente não religiosas. A maneira como ele falava sobre as Plantas, por exemplo, como se fossem apenas uma espécie de laboratório. Como se ele admirasse a sua conquista. Disse muitas coisas, quase no mesmo fôlego, que fazia sentido. Mesmo quando o tempo era o assunto da conversa (e muito frequentemente era), Orville tinham algo a dizer sobre isso.

"Eu ainda mantenho", disse Clay Kestner (isso foi no primeiro dia da nevasca ruim, mas Clay tinha que manter a mesma coisa há vários anos), "que o tempo não está mais frio, mas nós sentimos mais frio. É psicosomático. Não há nenhuma razão para que o tempo esteja mais frio."
"Pô, Clay", Joel Stromberg respondeu, balançando a cabeça reprovando (embora possa ter sido apenas reflexo da doença), "se o inverno hoje não é mais frio que o inverno nos anos sessenta e cinqüenta, eu vou comer o meu chapéu. Costumavamos nos preocupar se nós iamos ter um Natal branco. Eu digo que é pelo que aconteceu com o o lago."
"Bobagens!" Clay insistiu, não sem justiça.
Normalmente, ninguém teria dado mais atenção para Clay e Joel do que ao vento se lamentando sobre as Plantas lá fora, mas desta vez Orville se intrometeu: "Vocês sabem, pode haver uma razão para estar ficando mais frio. O dióxido de carbono."
"O que o cu tem a ver com as calças?" Clay brincou.
"O dióxido de carbono é o que as Plantas – qualquer planta, usa para combinar com a água quando estão fazendo seus próprio alimento. É também o que nós, ou seja, animais - exalamos. Desde que as Plantas chegaram, eu suspeito que o velho equilíbrio entre o dióxido de carbono que utilizam e a quantidade que emitimos já começou a favorecer as Plantas. Portanto, há menos dióxido de carbono na atmosfera. Agora, o dióxido de carbono é um grande absorvedor de calor. Ele armazena o calor do sol e mantém o ar quente. Assim, com menos dióxido de carbono, mais frio e neve. Isso é apenas uma teoria, é claro."
"Isso é uma teoria dos infernos!"
"Eu concordo com você, Clay, uma vez que não é minha. É uma das razões que os geólogos dão para a idade do gelo."

Anderson não acreditava em geologia, uma vez que era contra o que dizia a Bíblia, mas sobre o que Orville disse sobre o dióxido de carbono era verdade, então o agravamento dos invernos (e que estes eram piores, ninguém duvidava disso) poderia muito bem ter uma causa. Mas verdade ou não, havia algo que ele não gostava no tom de Orville, algo mais do que apenas a atitude de "sabe-tudo pós-graduação da faculdade”, que Anderson usava para ferir Buddy. Era como se essas pequenas palestras sobre as maravilhas da ciência (e foram mais do que algumas poucas),  tivessemm um único objetivo: levá-los ao desespero.

Mas ele sabia mais ciência do que ninguém, e Anderson a contragosto respeitava isso. Além disso ele tinha impedido Clay e Joel de ficar argumentando sobre o tempo e, por essa pequena bênção, Anderson não podia deixar de dar graças.

Não estava ainda tão ruim quanto ficaria em fevereiro e março, mas já era muito ruim: o espaço mínimo, as discussões bobas, o barulho, o fedor, o atrito de carne na carne e nervo no nervo. Seria muito ruim.
Quase intolerável. Duzentas e cinqüenta pessoas vivendo em 2.400 metros quadrados, e muito do espaço fora entregue ao armazenamento. No inverno passado, quando havia quase o dobro de pessoas na mesma sala, quando todos os dias testemunhávamos uma nova morte, a cada mês uma nova epidemia causada pelo frio mortal, havia sido imensuravelmente pior. Os mais sensíveis, aqueles que não conseguiam suportar, tinham enlouquecido, passando a cantar e rir, para enganar o degelo do mês de Janeiro, e estes foram embora este ano.

Este ano, as paredes estavam firmemente ancoradas desde o início, este ano o racionamento não foi tão desesperadamente rígido (apesar de haver menos carne). Ainda assim apesar de todas estas melhorias, ainda era uma forma intolerável de viver e todo mundo sabia disso.

A única coisa que Buddy não podia suportar, a pior coisa, era a presença de tanta carne. Todos os dias ela esfregava-se contra ele, exibia-se, fedia em suas narinas. E qualquer uma das centenas de mulheres na sala, mesmo Flor, pelo simples gesto, pela palavra mais mansa, desencadeava sua luxúria. Simplesmente não havia lugar, durante o dia ou a noite, na acanhanhada Sala Comum, para o sexo. Sua vida erótica era limitada a ocasiões em que ele poderia impor a Maryann ir com ele visitar a casinha onde congelavam a comida,  atrás do chiqueiro. Maryann, em seu sétimo mês e propensa a qualquer resfriado, raramente ia com ele.

Não ajudava que, enquanto havia luz na sala, Buddy poderia olhar por cima de tudo que ele estava fazendo (ou, mais provavelmente, ele não estava fazendo) e ver, a não mais de vinte metros de distância, Greta.

Mais e mais, ele buscava refúgio na companhia de Orville Jeremiah.
Orville era o tipo de pessoa, familiar para Buddy da época da universidade, de quem ele sempre gostou muito mais do que eles gostavam dele. Embora ele nunca contasse uma piada para Buddy, quando o homem falava, e ele falava incessantemente - Buddy não podia deixar de rir. Era como se as conversas sobre livros e filmes ou a forma como as pessoas falavam no velho Jack Paar Show, pudessem tornar divertida a coisa mais banal. Orville nunca bancava o palhaço, era o seu humor, a maneira como ele olhava para as coisas com uma irreverência, (não tanto que alguém como Anderson pudesse reclamar), uma paródia oblíqua. Nunca se sabia onde poderiam chegar, de modo que a maioria das pessoas, caipiras como Neil, ficavam relutantes em conversar com ele, embora o escutassem com prazer.

Buddy se viu imitando Orville, usando suas palavras, pronunciando-as da sua maneira (ge-nu-í-no ao inves de ge-nuí-no), adotando suas idéias. Era uma constante fonte de saber. Buddy, que considerava sua própria educação apenas suficiente para avaliar o âmbito de outra pessoa, considerada Orville enciclopédico. Buddy caiu de quatro tão completamente sob a influência do homem, que não seria injusto dizer que ele estava apaixonado.
Houve momentos (por exemplo, quando Orville passava muito tempo com Flor) que Buddy sentia algo como o ciúme. Ele teria se surpreendido ao saber que Flor se sentia da mesma forma quando Orville gastava seu tempo com Buddy. Era evidentemente um caso de paixão, de primeiro amor.
Mesmo para Neil ele tinha algo a dizer, o recém-chegado, um dia Orville o levou para um canto e lhe ensinou um monte de piadas sujas.   

Os caçadores caçavam sozinhos, os pescadores pescavam juntos. Neil, um caçador, estava agradecido pela oportunidade de estar sozinho, mas a falta da caçada de dezembro agravou-lhe quase tanto quanto a pressão e o clamor da Sala Comum. Mas no dia que a nevasca parou, ele encontrou rastros de veados na neve ainda fresca perto do milharal oeste. Seguiu-os por quatro milhas, tropeçando em seus próprios sapatos de neve, em sua ânsia.
Os rastros terminavam em uma concavidade de cinzas e gelo. Não havia rastros indo para longe ou se aproximando da área. Neil jurou em voz alta. Ele gritou por um tempo, sem estar ciente de que estava gritando.
Era para livrar-se da pressão.

Nenhuma caça agora, pensou ele, quando começou a pensar novamente.
Decidiu que iria descansar o resto do dia. Descansar! Ha! Ele teria que lembrar-se disso. Com os outros caçadores e pescadores ainda longe da Sala Comum talvez ele tivesse um pouco de privacidade. Isso foi o que ele fez, foi para casa e bebeu um chá fétido com sabor de alcaçuz (ou o que eles chamavam de chá) e começou a se sentir sonolento, e sabia que estava olhando, ou pensando (ele estava olhando para Flor e pensando nela) quando de repente Gracie começou a fazer um alvoroço como nunca tinha ouvido antes. Ele só tinha ouvido isso antes uma vez: Gracie estava parindo.

A vaca estava fazendo grunhidos como um porco. Virada de lado, mexia-se no chão. Era a primeira cria de Gracie, e ela não era grande o bastante. Era de se esperar problemas.
Neil atou uma corda ao redor do  pescoço, mas ela estava se debatendo, e ele não podia prender as pernas, então tinha que deixar isso de lado. Alice, a enfermeira, estava ajudando ele, mas desejava que seu pai estivesse lá. A velha Gracie estava berrando como um touro agora. Qualquer vaca que demora mais de uma hora parindo é uma perda certa, até meia hora já é ruim. Gracie estava com dor e gritando já por meia hora.
Manteve-se contorcendo-se para tentar escapar das dores.
Neil prendera a corda para evitá-la de fazer isso.

"Eu posso ver a cabeça. A cabeça está saindo agora", disse Alice.
Ela estava de joelhos na traseira de Gracie, tentando aumentar a abertura.
"Se isso é tudo que você pode ver, como você sabe que é ela?"

O sexo do bezerro era crucial, e todos na Sala Comum se reuniam em volta para assistir ao parto. Após cada urro de dor, as crianças gritavam como encorajamento para Gracie. Então as contorções pioraram, enquanto seu bezerro acalmou.
"É isso aí, é isso!" Alice estava gritando, e Neil colocava força na corda.
"É um menino!" Alice exclamou. "Graças a Deus, é um menino!"
Neil riu da velha.
"É um touro, é o que você quer dizer. Vocês da cidade são todos iguais!"

Sentia-se bem porque ele não tinha cometido qualquer erro e tudo estava uma maravilha. Ele foi até o barril e retirou a parte de cima e serviu-se de uma bebida para comemorar. Ele perguntou a Alice se ela queria, mas ela apenas olhou para ele engraçado e disse que não.

Ele sentou-se na única cadeira da sala (a de Anderson) e assistiu o bezerro mamar o úbere cheio de Gracie. Gracie não tinha levantado. Ela devia estar esgotada. Por que, se Neil não estivesse por perto, ela provavelmente não iria sobreviver. O sabor de alcaçuz não era tão ruim uma vez que você se acostumava com ele.
Todas as mulheres estavam quietas agora, e os filhos também.

Neil olhou para o bezerro e pensou como um dia ele seria um touro grande com tesão por pegar Gracie – a mãe dele! Animais, pensou confuso, apenas animais. Mas não era exatamente isso. Ele precisava beber um pouco mais.

Quando Anderson chegou em casa parecia que tinha tido um dia ruim (a tarde já se foi?), mas Neil se levantou da cadeira quente e gritou feliz:
"Ei, papai, é um touro!"

Anderson veio e olhou para Neil parecendo muito com a noite de Ação de Graças, de preto e com aquele sorriso feio (mas ele não tinha dito uma palavra sobre beber demais no jantar), e bateu no rosto de Neil, que simplesmente foi direto ao chão.

"Maldito idiota estúpido!" Anderson gritou. "Seu bosta, idiota! Você não sabe que Gracie morreu? Você a estrangulou até a morte, seu filho da puta!"

Então chutou Neil. E foi cortar a corda ainda apertada em torno do pescoço de Gracie. Sangue derramou no chão e Senhora recolheu algum com uma bacia. O bezerro puxava o úbere da vaca morta, mas não havia mais leite. Anderson cortou a garganta do bezerro também.

Não era culpa dele, era? A culpa era de Alice. Ele odiava Alice. Ele odiava seu pai também. Ele odiava todos aqueles bastardos que pensavam ser tão inteligentes. Ele odiava todos eles. Ele odiava todos eles.
Cobriu sua dor com as duas mãos e tentou não gritar de dor nas mãos, dor na cabeça, a dor de odiar, mas talvez ele gritasse, quem sabe?

Pouco antes de escurecer a neve começou a cair novamente, uma queda perfeitamente perpendicular, através do ar sem vento. A única luz na Sala Comum vinha do lampião queimando na alcova da cozinha, onde Senhora estava vasculhando potes bem lavados.
Ninguém falava.
Quem ousava negar o quão gostoso ficara o mingau de fubá e coelho temperado com o sangue da vaca e do bezerro. Estava calmo o suficiente para ouvir as galinhas cacarejando em seus refúgios no canto distante.

Quando Anderson saiu para comandar o abate e a salga da carcaça, nem Neil nem Buddy foram convidados a participar. Buddy estava sentado na cozinha, no tapete sujo de boas-vindas e fingiu ler um texto de biologia na penumbra. Ele o tinha lido por várias vezes antes e conhecia algumas passagens de cor. Neil estava sentado perto da porta, criando coragem de ir lá fora e juntar-se aos homens.

De todos os habitantes da cidade, Buddy era provavelmente a única pessoa que sentira prazer na morte de Gracie. Naquelas semanas desde a Ação de Graça, Neil havia ganho seu lugar de predileto de seu pai. Agora, desde que Neil tinha sido tão eficaz na reversão dessa tendência, Buddy argumentou que seria apenas uma questão de tempo antes de voltar a gozar dos privilégios de sua primogenitura. A extinção da espécie (eram os Herefords uma espécie?) não foi um preço muito alto para pagar.

Havia um outro que se alegrou com essa sucessão de eventos, mas ele não era, nem na sua própria estimativa, um deles, um dos moradores. Jeremias Orville tinha esperança de que Gracie e seu bezerro ou ambos pudessem morrer, já que a preservação do gado tinha sido uma das realizações mais orgulhosas de Anderson, uma lembrança que a civilização-como-nós-a-conhecemos não estava fora de moda e um sinal, para aqueles que acreditam em sinais, que Anderson era realmente um dos Eleitos. Que aquele que
realizaria as esperanças de Orville fosse a incompetência do próprio filho do homem, dava a Orville um prazer quase estético: como se alguma divindade estivesse acompanhando a sua vingança, e escrupuloso para que as leis de justiça poética fossem observadas.

Orville estava feliz esta noite, e trabalhou para esquertejar a vaca com uma fúria silenciosa. De vez em quando, quando não podia ser visto, engolia um bocado de carne crua já que estava tão faminto quanto qualquer homem ali.
Mas ele passaria fome de bom grado se antes pudesse ver Anderson passando fome também.

Um barulho estranho, um som de vento, mas não era vento, chamou sua atenção. Parecia familiar, mas não conseguia definí-lo.
Era um som que pertenciam aos da cidade.

Joel Stromberg, que estava cuidando dos porcos, gritou:
"Ah, hei – não... que porr..."
De repente Joel foi metamorfoseado em um pilar de fogo.

Orville viu isso tão claramente quanto tinha ouvido o som anterior, mas sem pensar atirou-se sobre um banco de neve nas proximidades.
Rolou na neve até estar fora da vista de tudo, das carcaças, dos outros homens, do chiqueiro. As chamas subiam a partir da queima do chiqueiro.

"Sr. Anderson!" Gritou. Apavorado para não perder sua pretensa vítima para os incendiários, ele rastejou de volta para resgatar o velho.

Três corpos esféricos, cada um com cerca de cinco metros de diâmetro flutuou pouco acima da neve na periferia das chamas. Os homens (com excepção de Anderson, que estava agachado atrás do flanco da vaca morta, mirando com a sua pistola a esfera próxima) ficaram olhando as chamas, como se enfeitiçados. Nuvens de vapor escapavam de suas bocas abertas.

"Não desperdice balas nos escudos Mr. Anderson. Venha, eles irão incendiar a Sala Comum em seguida. Temos que tirar as pessoas de lá."

Anderson concordou, mas não se mexeu. Orville teve que puxá-lo.
Nesse momento de incapacidade e estupor, Orville pensou ver em Anderson a semente do que Neil tinha se tornado.
Orville entrou na Sala Comum primeiro. Como as paredes foram reforçadas para suportar a neve, nenhum deles tinha conhecimento do fogo lá fora. Eles estavam como antes, durante toda a noite, pesados de tanta infelicidade. Vários deles já na cama.

"Todo mundo pegue suas roupas", Orville ordenou com uma voz calma e  autoritária. "Deixem este local o mais rapidamente possível pela porta da cozinha e corram para a floresta. Levem só o que está à mão, mas não percam tempo procurando coisas. Não espere ninguém. Rápido! Agora."

Muitos que tinham ouvido Orville olhavam estupefatos. Não era para ele estar dando ordens.
"Rápido" Anderson dirigiu "e sem perguntas."

Eles estavam acostumados a obedecer Anderson sem questionar, mas ainda havia muita confusão. Anderson, acompanhado de Orville, entrou diretamente na área da cozinha, onde sua família estava alojada. Estavam todos empacotando suas roupas pesadas, mas Anderson os apressou mais ainda.
Lá fora havia gritos, breves como o de um coelho abatido, conforme os dispositivos incendiários iam se virando contra seus espectadores.

Um homem em chamas correu para a Sala e caiu no chão, morto. O pânico começou.
Anderson, já perto da porta, impunha respeito, mesmo no meio da histeria e
conseguiu tirar sua família entre os primeiros.
Passando pela cozinha, Senhora agarrou uma panela vazia. Flor carregava uma cesta de roupa para lavar, muito pesada, que ela esvaziou na neve. Orville, na sua ansiedade de vê-los fora e em segurança, não levou nada consigo. Não haviam nem cinqüenta pessoas correndo pela neve quando o canto mais distante da Sala comum pegou fogo.
As primeiras chamas subiram dez metros acima do telhado, em seguida, começou a escalar os sacos de milho empilhados contra as paredes.

Era muito difícil correr na neve carregando pacotes, assim como é difícil correr com água até os joelhos: assim que você consegue o momentum, você está apto a cair para a frente.

Senhora e Greta haviam saído de casa vestindo apenas chinelos de palha e como outros só com seus camisolões ou embrulhados em cobertores.
Anderson tinha chegado quase ao limite da floresta, quando Senhora jogou de lado sua panela e exclamou: “A Bíblia! A Bíblia ficou lá!“
Ninguém a ouviu. Ela correu em direção ao prédio em chamas. No momento em que Anderson estava ciente da ausência de sua esposa, não havia mais como impedí-la. Seu próprio grito não foi ouvido, entre tantos outros.
A família parou para ver.

"Continuem correndo" Orville gritou para eles, mas não ganhou nenhuma atenção. A maioria dos que tinham fugido da casa chegavam à floresta agora.

As chamas iluminavam a vizinhança do prédio por uma centena de metros, fazendo a neve brilhar com um brilho laranja instável de sombras devido a fumaça ondulada, como o fogo das trevas.

Senhora entrou pela porta da cozinha e não reapareceu mais. O teto desabou, as paredes caíram para fora, como peças de dominó. Os três corpos esféricos poderiam ser vistos em silhueta, subindo. Em formação cerrada, eles começaram a deslizar em direção a floresta, seu “hummmmm” disfarçado pelo crepitar das chamas.
Dentro do triângulo definido por eles, a neve derretera e o vapor subia ao ar.

"Por que ela faria uma coisa dessas?" Anderson perguntou para sua filha, mas vendo que ela estava delicadamente equilibrada à beira da histeria, ele a pegou com uma mão, enquanto na outra trazia uma corda que tinha pego de um carrinho de mão fora de casa e correram atrás dos outros.

Orville e Neil praticamente carregavam Greta, que gritava obscenidades em seu rico contralto.

Orville estava frenético, e além do frenesi havia uma sensação de alegria e prazer que o fazia querer comemorar, como se a conflagração atrás deles fosse tão inocente como uma fogueira festiva.

Quando gritou ‘Depressa, Depressa!’ era difícil saber se chamava Anderson e Flor ou os três incendiários não muito atrás deles.



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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nave Escrava - Frederik Pohl



 Durante o voo de Montauk levamos um susto por causa de um míssil teleguiado, mas depois descobrimos que era um dos nossos. Chegamos a vê-lo muito bem pela janela de nosso avião de transporte, enquanto se aproximava uivando para interceptar nossa linha de voo, e cento e quarenta passageiros aspiraram ruidosamente o ar, todos ao mesmo tempo. Entretanto o radar IFF do míssil conseguiu nos reconhecer. Logo desviou, deu uma volta completa e foi embora, a caça de um Caodai, apesar de eu saber que naquela área não poderia encontrá-lo.

Foi assim que conseguimos aterrissar bem no horário. Desembarquei no litoral da Flórida. Completamente contra minha vontade.
Não encontrei o helicóptero que deveria estar a minha espera. Falei com a moça atrás do balcão dos cartões postais, era apenas uma maruja, mas realmente bonitinha, e pedi que me deixasse usar seu telefone. Então chamei o número que constava em minhas ordens. A voz que me respondeu tinha um tom bastante displicente e me comunicou que breve mandariam alguém me buscar. Então apanhei minha bagagem e me sentei para esperar.

O salão estava cheio de gente e a espera foi demorada. Por causa do meu translado desde meu cruzador, que se encontrava na linha de piquetes, até o litoral e a espera pelo transporte até Montauk e finalmente a longa viagem até a Flórida, eu não tinha pregado olho durante a noite toda. Comecei a cochilar. Alguém me sacudiu.

— Tenente, precisa sair daqui. – Era um fuzileiro atarracado, cuja braçadeira indicava que era da patrulha de terra. — Os prisioneiros terão que passar neste ponto.
— Entendo. Muito obrigado. – Levantei-me para deixar a passagem livre.

Um avião de transporte acabava de aterrissar na pista e uma fila de Caodais, baixinhos e robustos, estava descendo a rampa com as mãos entrelaçadas em cima da cabeça, vigiados por guardas armados da Polícia de Segurança. Comecei a observá-los com curiosidade. Era a primeira vez que via os inimigos em carne e osso e eles não se pareciam com os cartazes encontrados nos alojamentos dos oficiais, nos campos de treinamento. Pensei que eram muito escuros e não podiam ser da Indochina. Talvez fossem originários de algum estado satélite do Oriente Médio.

— Como é que você gostaria de se defrontar com um destes nenéns num combate? – perguntou um capitão da Força Aérea que se encontrava ao meu lado.
— Já me aconteceu algumas vezes - respondi lançando-lhe um olhar. Voltei para telefonar. Sentia-me um pouco envergonhado por tê-lo esnobado. Mas era verdade: a bordo do Spruance tivera a ocasião de tomar parte em repetidos entreveros e estes heróis que ficavam em segurança na madre pátria eram muito irritantes.

A reação que consegui na sala de operações do Projeto Mako foi de surpresa total.
— Tenente, o senhor está me dizendo que ninguém foi buscá-lo? – perguntou uma voz incrédula. — Espere um minuto.
Esperei. A voz voltou após um intervalo.
— Sinto muito, tenente – falou ofegando um pouco. — O piloto se confundiu. Estará lá dentro de quinze minutos.

O salão de espera agora já estava apinhado de prisioneiros, talvez uns cem. Apesar de serem prisioneiros, formavam um grupo muito calmo. Havia um PS armado de rifle automático para cada três prisioneiros, e mesmo assim sua proximidade me proporcionou uma sensação esquisita. Afinal, durante as ações, nunca tinha me aproximado de um Caodai, a menos de mil jardas, em águas de cem braças.

O capitão da Força aérea, boquiaberto, ainda observava os Caodai, e me lançou um olhar de reprovação; daí decidi ir na direção oposta. Era a primeira vez que me encontrava na Flórida e do terraço do aeroporto consegui ver uma paisagem de palmeiras e hibiscos, idêntica àquela prometida pelos folhetos das agências de turismo, nos dias em que ainda existiam folhetos deste tipo.

Estes dias já estavam muito longe. Há três ou quatro anos, mas naquela época eu ainda era um civil, e minha mulher também. Aliás, o país inteiro era civil, exceto oito ou dez milhões de tropas regulares. Era muito difícil lembrar...



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Lançamento de Mortal Engines de Philip Reeve e debate




Algo de muito especial vai acontecer amanhã…

Estarão presentes na Livraria Saraiva do Morumbi Shopping, às 16 horas, entusiastas dos gêneros SteamPunk, DieselPunk, CyberPunk, amantes da Ficção Científica e de Fantasia em geral, atendendo ao lançamento de “Mortal Engines” (Site Oficial), de Philip Reeve.

Será uma tarde de diversidade cultural na Literatura Fantástica, ao redor de uma obra passada em um planeta Terra pós-apocalíptico, onde, toda a tecnologia humana fora perdida e, graças a instabilidade geológica decorrente de um holocausto nuclear, cidades se tornaram colossais veículos carregando dezenas de milhares de habitantes – eternamente em busca de outras cidades para caçar, consumir e pilhar.

A mistura de sofisticação e improviso, das tecnologias remanescentes e técnicas redescobertas… a amálgama embaralhada da História humana se transformou em uma caricatura de um passado distante que se infiltrou para o que chamávamos de presente dando origem a um futuro improvável, retrofuturista e anacrônico.

Em “Mortal Engines” o futuro é coisa do passado e esta diversidade vai se fazer sentir na presença do Conselho SteamPunk, de Goths, Head Bangers, Nerds, Geeks e de todos os amantes da boa literatura com a intenção de passarem juntos pelo portal temporal que vai nos levar ao universo alternativo criado por Philip Reeve.

Um verdadeiro mercado de artefatos, acessórios e vestimentas baseados na estética SteamPunk, DieselPunk, CyberPunk, Vitoriana e de diversas outras procedências, estarão disponíveis para compras no local além de outras fascinantes obras de Ficção Científica e Fantasia lançadas pela Novo Século Editora.

Para tanto, o evento contará com a presença de membros da Liga de Artífices SteamPunk, como Naná Hayne, Susie Hervatin, a marca Secret Garden e Lili Angelika, que vão expor suas peças e promover um desfile de trajes Vitorianos em meio aos presentes.

Os fundadores do Conselho SteamPunk aproveitarão a ocasião para formar uma mesa redonda sobre os sub-gêneros retrofuturistas, sobre a expressão multi-dimensional destes sub-gêneros e sobre a relevância da Literatura Fantástica para anunciar seu mais novo projeto: 2011: A Revolução RetroFuturista


Livraria Saraiva – Shopping Morumbi
Av. Roque Petroni Jr,  1.089 – Morumbi
São Paulo – SP – Cep: 04707-000
Tel: (11) 5181.7574
Horário: 16:00




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quinta-feira, 28 de abril de 2011

The Mammoth Book of Haunted House stories - Peter Haining



Contents
ACKNOWLEDGMENTS
THE HAUNTED HOUSE by Elizabeth Albright and Ray Bradbury
FOREWORD

1 HAUNTED PLACES: Stories of Fact and Fiction

THE HAUNTED AND THE HAUNTERS Edward Bulwer-Lytton
AUTHENTIC NARRATIVE OF A HAUNTED HOUSE Joseph Sheridan Le Fanu
A CASE OF EAVES DROPPING Algernon Blackwood
A HAUNTED HOUSE Virginia Woolf
GHOST HUNT H. Russell Wakefield
DARK WINNER William F. Nolan

2 AVENGING SPIRITS: Tales of Dangerous Elementals

THE OLD HOUSE IN VAUXHALL WALK Charlotte Riddell
NO. 252 RUE M. LE PRINCE Ralph Adams Cram
THE SOUTHWEST CHAMBER Mary Eleanor Freeman
THE TOLL-HOUSE W. W. Jacobs
FEET FOREMOST L. P. Hartley
HAPPY HOUR Ian Watson

3 SHADOWY CORNERS: Accounts of Restless Spirits

THE ANKARDYNE PEW W. F. Harvey
THE REAL AND THE COUNTERFEIT Louisa Baldwin
A NIGHT AT A COTTAGE Richard Hughes
THE CONSIDERATE HOSTS Thorp McClusky
THE GREY HOUSE Basil Copper
WATCHING ME, WATCHING YOU Fay Weldon

4 PHANTOM LOVERS: Sex and the Supernatural

A SPIRIT ELOPEMENT Richard Dehan
THE HOUSE OF DUST Herbert de Hamel
THE KISSTRUCK BOGIE A. E. Coppard
MR EDWARD Norah Lofts
HOUSE OF THE HATCHET Robert Bloch
NAPIER COURT Ramsey Campbell

5 LITTLE TERRORS: Ghosts and Children

LOST HEARTS M. R. James
THE SHADOWY THIRD Ellen Glasgow
A LITTLE GHOST Hugh Walpole
THE PATTER OF TINY FEET Nigel Kneale
UNINVITED GHOSTS Penelope Lively

6 PSYCHIC PHENOMENA: Signs from the Other Side

PLAYING WITH FIRE Sir Arthur Conan Doyle
THE WHISTLING ROOM William Hope Hodgson
BAGNELL TERRACE E. F. Benson
THE COMPANION Joan Aiken
THE GHOST HUNTER James Herbert
COMPUTER SEANCE Ruth Rendell

7 HOUSES OF HORROR: Terror Visions of the Stars

IN LETTERS OF FIRE Gaston Leroux
THE JUDGE'S HOUSE Bram Stoker
THE STORM McKnight Malmar
THE WAXWORK A. M. Burrage
THE INEXPERIENCED GHOST H. G. Wells
SOPHY MASON COMES BACK E. M. Delafield
THE BOOGEYMAN Stephen King

APPENDIX: Haunted House Novels: A Listing




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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ficção Científica e Tradução - Projeto de Tradução do Conto "Primeiro Contato" De Murray Leinster




RESUMO

Há um tipo de literatura que surge a partir do final do Séc. XIX e início do Séc. XX, no qual seus autores mesclam ficção e fatos científicos (e seus possíveis desdobramentos): a ficção científica. Esses textos tendem a apresentar registros diferentes, variando, por exemplo, do dominantemente técnico à narrativa poética, o que faz com que eles possam ser considerados como obras textualmente híbridas.

Além das questões ditas literárias, essa característica impõe aos seus tradutores diversos problemas que se assemelham – e em muitos casos são idênticos – àqueles encontrados na tradução de textos técnicos. Por isso, e para fundamentar a escolha de estratégias tradutórias adequadas, é conveniente termos um modelo ao qual possamos recorrer para analisar os textos, de modo a formalizar um procedimento que oriente um tratamento adequado dos diversos registros dando conta, tanto de sua dimensão técnica, quanto da literária.

Aplica-se aqui o modelo proposto por Christiane Nord, seguindo-se os princípios básicos do Funcionalismo alemão e da Teoria do Escopo de Hans J. Vermeer, cujo objetivo, grosso modo, é fornecer critérios para as escolhas que um tradutor deve fazer ao longo de suas traduções.

O presente trabalho se propõe como elaboração e realização do projeto de tradução anotada do conto de ficção científica First Contact (Primeiro Contato), de Murray Leinster, incluindo comentários e notas de tradução, bem como referências a características da ficção científica e pontos de contato desse texto com alguns textos escritos antes do Séc. XIX que apresentam alguma vinculação com a ficção científica do Séc. XX.



INTRODUÇÃO
1 FICÇÃO CIENTÍFICA
1.1 ORIGEM DA EXPRESSÃO
1.2 O QUE É FICÇÃO CIENTÍFICA?
1.3 TEMAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA
1.4 ANCESTRALIDADE
1.5 JULES VERNE E H.G. WELLS
1.6 A FICÇÃO CIENTÍFICA INTER ARTES
2 A TRADUÇÃO DE FICÇÃO CIENTÍFICA
2.1 O MODELO DE ANÁLISE DE TEXTOS DE CHRISTIANE NORD
2.2 PROJETO DE TRADUÇÃO
2.3 FIRST CONTACT
2.4 TRADUÇÃO ANOTADA
3 CONCLUSÃO
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
4.1 NOTA
4.2 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
4.3 DICIONÁRIOS
4.4 REVISTAS E PERIÓDICOS
4.5 CONSULTAS VIA INTERNET
5 ANEXOS


Ficção Científica e Tradução [ Download ]
Projeto de Tradução do Conto "Primeiro Contato" De Murray Leinster
Ralph Lorenz Max Miller Jr..
Dissertação - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná.

First Contact - Murray Leinster [ Download ]

terça-feira, 26 de abril de 2011

The Best from the rest of the World: European Science Fiction



A ficção científica é o ramo da literatura que capta o universo através de uma lente grande angular.
Ao contrário da literatura mainstream, que tenta, mais ou menos retratar o mundo real e pessoas reais em situações presentes ou históricas, com o máximo de verossimilhança, a ficção científica reconhece desde o início que é fantasia, que não está mostrando o que é, ou o que foi, mas ações de pessoas e coisas contra o pano de fundo da imaginação sem limites.

Tudo o que poderia ter sido, tudo o que pode vir a ser,o mundo de hoje como talvez poderia ser se as coisas das quais não temos conhecimento estivessem acontecendo, todos esses horizontes infinitos são captados pela lente da ficção científica. No entanto, para que o leitor possa ser convencido da credibilidade, a melhor ficção científica tenta convencer o leitor de que este não é apenas outro conto de fadas, estes contos também são parte de um mainstream paralelo não perceptivo.

A ficção científica sempre esteve conosco - escritores sempre especularam sobre horizontes ainda não comprovados - e os exemplos podem ser encontrados desde o início da tradição escrita e podem ser encontrados em todos os períodos através das estórias contadas. De certa forma é escapismo e é um tipo de genética da curiosidade: as pessoas sempre querem saber o que está além da próxima colina, e além do horizonte mais distante, e no fim do arco-íris.

Quando contadores de estórias já não podiam mais convencer uma platéia (como os nossos antepassados menos informados), a arte da ficção científica passou a existir.

O que hoje sabemos, avançando a linha do que poderia ser, traz o fator "e se..." - e temos então a FC. Fantasia concebida como realidade. [...]




Contents
Introduction by Donald A. Wollheim 
Party Line by G~rard Klein (France)
Pairpuppets by Manuel Van Loggem (Holland)
The Scythe by Sandro Sandrelli (Italy) 
A Whiter Shade of Pale by Jon Bing (Norway) 
Paradise 3000 by Herbert W. Franke (Germany) 
My Eyes, They Burn! by Eddy C. Bertin (Belgium) 
A Problem in Bionics by Pierre Barbet (France) 
The King and the Dollmaker by Wolfgang Jeschke (Germany) 
Codemus by Tor Age Bringsvaerd (Norway) 
Rainy Day Revolution No. 39 by Luigi Cozzi (Italy) 
Nobody Here But Us Shadows by Sam J. Lundwall (Sweden) 
Round and Round and Round Again by Domingo Santos (Spain) 
Planet for Sale by Niels E. Nielsen (Denmark) 
Ysolde by Nathalie-Charles Henneberg (France)

The Best from the rest of the World: European Science Fiction - Donald A.Wollheim [ Download ]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

2000 AD SCI-FI SPECIAL 1980





2000 AD SCI-FI SPECIAL 1980 [ Download ]

sábado, 23 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 7)



SEIS
Ação de Graças

Nuvens cinzentas estavam se concentrando acima.
O chão estava seco, nu, cinzento, sem grama, sem árvores, só as plantas, dobrando para o inverno, como guarda-sóis, cresciam aqui.
A luz, sem brilho outonal enfraquecida às vezes, e uma brisa passava pelo parque, trazendo poeira.

Sentado na mesa de piquenique de concreto em bancos frios, uma pessoa poderia ver a sua própria respiração. As mãos nuas dormentes e duras de frio. Por todo o parque, as pessoas exercitavam seus dedos congelados dentro de seus sapatos e desejavam que Anderson terminasse logo a oração.

Em frente ao parque estava o que restou da Igreja Congregacional.
Anderson não tinha deixado que seu próprio povo canibalizasse a madeira da igreja, mas no último inverno saqueadores tinham arrancado as portas para usar de lenha e quebrado as janelas para se divertir. Os ventos tinham enchido a igreja de neve e poeira, e na primavera o chão de carvalho tinha sido coberto com um tapete verde de plantas jovens.
Felizmente, ele descobrira a tempo (pelo o qual eles deveriam ser gratos), mas mesmo assim o chão, provavelmente em breve sofreria o colapso de seu próprio peso.

Buddy, vestindo seu único terno, tremia com a oração se arrastando lenta. Anderson, em pé na cabeceira da mesa, também vestindo um terno para a ocasião, mas Neil, sentado no lado esquerdo de seu pai em frente a Buddy, nunca tinha possuído um terno. Ele de camisa de lã e jaqueta jeans, estava invejavelmente confortável.

Era costume da gente da cidade, como expatriados que voltavam para casa em breves visitas para estabelecer a sua residência de posse, celebrar todas as festividades, exceto Natal, aqui no parque da cidade velha. Devido as tantas coisas desagradáveis e desanimadoras que tiveram que fazer, aquilo era necessário para a sua moral.

Anderson, tendo finalmente estabelecido o princípio de que o Deus Todo-Poderoso foi responsável por suas múltiplas bênçãos, começou a enumerá-las. A mais notável dessas bênçãos nunca foi diretamente referida de que, após sete anos e meio, eles estavam todos vivos (todos os que estavam), enquanto muitos outros, a grande maioria, estava morta. Anderson, porém, se ocupava em bênçãos mais periféricas, relativas a esse ano: a abundância da colheita, a saúde de Gracie em seu décimo mês com bezerro (não referindo-se às perdas associadas), as duas últimas ninhadas de porcos, e os caçadores terem voltado para casa com caça. Infelizmente, esta tinha sido pouca (um cervo e vários coelhos), uma nota mal-humorada, ao final da oração.

Anderson logo chegou ao fim, agradecendo o seu Criador pela riqueza de sua criação e seu grande Salvador pela promessa da Salvação.
Orville foi o primeiro a responder. Seu amém era reverente e ao mesmo tempo viril. Neil resmungou alguma coisa como o resto deles e estendeu a mão para a jarra de uísque (aquilo que chamavam de uísque), que ainda estava três quartos cheia.
Senhora e Flor, que estavam sentadas junto da cabeceira da mesa mais próxima da churrasqueira, começaram a servir a sopa. Tinha leve sabor de coelho e temperada com ervas do lago.

"Mande ver!" Disseram alegremente. "Há muito mais chegando."
O que mais você poderia dizer em Ação de Graças?
Já que era um feriado importante, toda a família reunira-se, em ambos os lados da mesa. Além dos sete Andersons, estavam Mae, a irmã mais nova da Senhora, o marido Joel Stromberg, ex-Lakeside Stromberg's Resort Cabanas, e os dois pequenos Strombergs, Denny, de dez anos, e Dora, de oito. Além destes os “convidados especiais” dos Andersons (ainda em liberdade condicional), Alice Nemerov RN, e Jeremias Orville.

Senhora não podia fazer nada a não ser lamentar a presença dos Strombergs, pois ela tinha certeza de que Denny e Dora só a fariam lembrar do marido, ausente da mesa. Aquele ano não tinha sido amavel com a sua irmã querida. Mae, admirada pela beleza em sua juventude
(Embora provavelmente não no mesmo grau que Senhora tinha sido), mas aos quarenta e cinco anos ela era uma mulher desmazelada e uma encrenqueira. Na verdade, ela ainda tinha o cabelo vermelho-fogo, mas que apenas apontava para a decadência do que permaneceu. A única virtude que restava era que ela era uma mãe solícita. Demasiado, Lady pensava.

Senhora que sempre odiou feriados. Agora, quando não havia nem mesmo a gula do ritual de um jantar com peru para aliviar a tristeza sob a aclamação do feriado, a única esperança era terminar o mais rapidamente possível.
Estava agradecida, pelo menos, por estar ocupada com o serviço. Se fosse cuidadosamente desleixada, poderia sair de perto.

"Neil," Greta sussurrou. "Você está bebendo demais. É melhor você parar."
"Hã?" Neil respondeu, olhando para a esposa (ele tinha o hábito, quando comia, de se inclinar sobre o seu alimento, especialmente se fosse sopa).
"Você está bebendo demais".
"Eu não estava bebendo, pelo amor de Deus!", Disse ele, para a platéia inteira ouvir. "Eu estava comendo minha sopa!"

Greta levantou os olhos para o céu, um mártir da verdade. Buddy sorriu transparecendo seu propósito, e ela pegou o seu sorriso. Houve um lampejo de cílios, nada mais.

"Em qualquer caso, não é problema de vocês o quanto eu bebo ou não bebo. Eu vou beber tanto quanto eu quero. "Para demonstrar isso, serviu-se de um pouco mais da bebida destilada a partir do bagaço das folhas da Planta. Não possuía o gosto de Jim Beam, mas Orville era testemunha da sua pureza por sua própria experiência em Duluth. Fora a primeira utilização, como alimento, que Anderson tinha encontrado para as plantas, e desde que ele não era um abstêmio, deu sua benção ao projeto. Anderson franziu as sobrancelhas pela forma que Neil enchia a cara, mas não disse nada, não querendo que pensassem que ele estivesse tomando as dores de Greta. Anderson acreditava firmemente na supremacia do sexo masculino.

"Alguém quer mais sopa?" Flor perguntou.
"Eu" disse Mary Ann, que estava sentada entre o marido e Orville. Ela comia tudo o que podia agora, por causa do bebê. Por seu pequeno Buddy.
"E eu também", afirmou Orville, com aquele sorriso especial dele.
"Eu também", disse Denny e Dora, cujos pais lhes tinham dito que poderiam comer tudo durante o jantar, que Anderson estava oferecendo.
"Alguém mais?"

Todo o resto tinha se voltado para o uísque, que tinha se provado desagradavel como licorice.
Joel Stromberg estava descrevendo o progresso de sua doença para Alice Nemerov RN.
"E isso realmente não doi, essa é a coisa mais engraçada. E sempre que eu quero usar as minhas mãos elas começam a tremer. E agora a minha cabeça da mesma maneira. Alguma coisa tem de ser feito."
"Temo, Sr. Stromberg, que nada possa ser feito. Costumava haver algumas drogas, mas mesmo elas não funcionam muito bem. Seis meses, e os sintomas reaparecem. Felizmente, como você diz, não doi."
"Você é uma enfermeira, não é?"

Ele ia ser um desses! Muito cuidadosamente, ela começou a explicar tudo o que sabia sobre a doença de Parkinson, e algumas coisas que ela não sabia. Se ela pudesse envolver mais alguém na conversa! A outra única alma próxima era o menino Stromberg roubando bebidas dos outros copos (o gosto ruim foi o suficiente para Alice) sentado diante o prato vazio de Senhora.
Se Senhora ou Flor pudessem parar de servir comida e sentar-se por um minuto, ela poderia escapar do hipocondríaco intolerável.

"Diga-me," ela disse, "quando tudo começou?"

Os peixes foram comidos, e Flor começou a recolher os restos. O momento que todos estavam esperando, o momento terrível não poderia ser mais adiado. Enquanto Flor trazia o prato de polenta fumegante na qual foram jogados poucos fragmentos de frango e de legumes, a Senhora distribuía as salsichas.
Um silêncio caiu sobre a mesa.

Cada um deles tinha uma única salsicha. Cada salsicha tinha cerca de nove centímetros de comprimento e três quartos de polegada de diâmetro. Eles haviam sido grelhada sobre o fogo e chegou à mesa ainda chiando.
Tinha alguma carne de porco nelas, Alice tranquilizou-se.
Provavelmente não seriam capazes de dizer a diferença.

A atenção de todos voltou-se para a cabeceira da mesa.

Anderson ergueu a faca e garfo. Então, ciente da solenidade do momento, ele cortou um pedaço de salsicha quente, colocou em sua boca, e começou a mastigar. Depois do que pareceu um minuto inteiro, ele engoliu.
Pela graça de Deus… Alice pensou.
Flor estava muito pálida, e debaixo da mesa Alice alcançou a sua mão para emprestar a sua força, apesar de Alice não se sentir tão bem assim...

"O que todo mundo está esperando?" Anderson reclamou. "Tem comida na mesa."

A atenção de Alice se desviou para Orville, que estava sentado ali com a faca e o garfo na mão, e aquele sorriso estranho dele. Ele pegou Alice fitando-o e piscou para ela. Por tudo que era sagrado! Seria para ela? Orville cortou um pedaço da salsicha, e mastigou com gosto. Ele sorriu otimista, como um homem em um anúncio de creme dental.

"Sra. Anderson" ele disse: "você é uma cozinheira maravilhosa. Como você faz isso? Eu não tive um jantar de Ação de Graças assim desde Deus sabe quando."

Alice sentiu os dedos de Flor relaxar e largá-la. Ela está se sentindo melhor, agora que o pior já passou, pensou Alice.  Mas estava errada. Houve um barulho forte, como quando um saco de farinha ao cair ao chão, e Mae Stromberg gritou. Flor tinha desmaiado.

Ele, Buddy, não devia ter permitido isso, muito menos ter dado a idéia  e insistido nisso, mas muito provavelmente ele, Buddy, não teria sido capaz de manter à aldeia através desses sete anos infernais. Primitivo, pagão, sem precedentes, como era, havia uma lógica para isso.
Isso. Estavam todos com medo de chamar pelo seu nome correto. Mesmo Buddy, na privacidade inviolável de seu próprio conselho, evitou a palavra para isso.
A necessidade pode ter alguma justificativa. Havia todo um amplo precedente (O banquete Donner, o naufrágio da Medusa), e Buddy teria não teria que ir mais longe do que isso para arranjar uma desculpa, se eles estivessem famintos.

Além da necessidade, explicações podiam ser elaboraradas particularmente pela metafísica. Assim, metafisicamente, nesta refeição a comunidade estava unida por um complexo vínculo, o ponto central pelos quais os elementos uniam-se na cumplicidade do assassinato, cumplicidade alcançada por um ritual tão solene e misterioso como o beijo com o qual Judas traiu Jesus Cristo, um sacramento. O mero horror incluso da tragédia, e o almoço de Ação de Graças da cidade foi o crime e a expiação, por assim dizer, de um só golpe.

Apesar da teoria, Buddy em seu coração, não sentia nada além do horror, o horror apenas, e nada em seu estômago senão a náusea.
Bebeu outro gole firme do álcool com sabor de alcaçuz.
Neil, tinha terminado com sua segunda salsicha, começou a contar uma piada suja. Todos, com exceção de Orville e Alice, tinham ouvido-o contar a mesma piada no almoço de Ação de Graças passado. Orville foi o único a rir, o que piorou a situação ao invés de melhorar.

"Onde diabos está o veado?" Neil gritou, como se  naturalmente, fosse a continuação do desfecho da piada.
"O que você está falando?" perguntou o pai. Anderson, quando bebia (e hoje ele quase equiparava a Neil), alterava-se. Em sua juventude ele tinha uma reputação como um brigão depois da oitava ou nona cerveja.
"O veado, por amor de Cristo! O cervo! Eu atirei noutro dia! Não vamos ter um veado? Que raio de Ação de Graças é essa?"
"Neil" Greta repreendeu: "Você sabe que tem que ser salgado para o inverno. Haverá pouca carne até lá."
"Bem, onde estão os outros veados? Três anos atrás, as florestas estavam repletas de veados. "
"Estive pensando sobre isso mesmo", afirmou Orville, e novamente foi David Niven ou, talvez, um pouco mais sombrio, James Mason. "A sobrevivência é uma questão de ecologia. Isso é como eu explico. Ecologia é a maneira das plantas e animais diferentes viverem juntos. Ou seja, quem come quem, o veado... e tudo mais, eu temo, estão se tornando extintos."

Houve um silêncio, mas perceptível suspiro de diversas pessoas na mesa que tinham também pensado o mesmo, mas nunca ousaram dizer na presença de Anderson.

"Deus proverá", Anderson contrapôs sombriamente.
"Sim, deve ser a nossa esperança, para a Natureza por si só, não. Basta considerar o que aconteceu com o solo. Isto costumava ser o solo da floresta . Olhe para ele!" Pegou um punhado de pó cinzento no chão. "Poeira. Em alguns anos, sem grama para segurá-lo, cada centímetro do solo irá dar no lago. O solo é uma coisa viva. Está cheio de insetos, vermes, e não sei o quê."
"Toupeiras", Neil colocou.
"Ah, toupeiras!" disse Orville. "E todas aquelas coisas que vivem sob as plantas e nas folhas em decomposição no solo ou dependem delas, da mesma maneira que fazemos. Você já deve ter notado que as Plantas não perdem as folhas. Assim, exceto onde plantamos, o solo está morrendo. Não, ele já está morto. E quando o solo está morto, as plantas, as nossas plantas não serão capazes de viver novamente. Não do jeito que costumavam."
Anderson bufou seu desprezo por tão absurda noção.
"Mas veados não vivem no subsolo!" Neil opôs.
"É verdade, eles são herbívoros. Herbívoros precisam comer grama. Por um tempo, eu suponho que possa ter vivido das plantas jovens surgindo perto do lago, ou então, como coelhos, podem comer a casca das plantas mais velhas. Mas nem isso serve como uma dieta nutricionalmente adequada, ou não foi suficiente ou... "
"Ou o quê?" Anderson exigiu saber.
"Ou a vida selvagem está sendo eliminada da maneira como suas vacas foram no último verão, do jeito que Duluth foi, em agosto."
“Não pode prová-lo!" Neil gritou. "Eu vi montes de cinzas nas florestas. Eles não provam nada. Nada!" Ele tomou um longo gole da jarra e levantou-se, acenando com a mão direita para mostrar que não podia ser provado. Ele não estimou a posição ou a inércia da mesa de concreto muito bem, de modo que,
vindo de encontro a ela, bateu de volta ao seu assento e em seguida, puxado pela gravidade para o chão. Rolou na lama cinza, gemendo.
Tinha se machucado.

“Ele está bêbado!” Greta cacarejou desaprovando, e levantou-se da mesa para ajudá-lo.
"Deixe-o!" Anderson disse.
"Perdão!" ela declamou grandiosamente. "Desculpe-me por viver."
"De que cinzas ele estava falando?" Orville perguntou a Anderson.
"Eu não tenho a menor idéia" disse o velho. Tomou um gole do jarro e lavou sua boca com aquilo. Então deixou escorrer-lhe a garganta, tentando esquecer o sabor concentrando-se no efeito dela.
O pequeno Denny Stromberg se inclinou sobre a mesa e perguntou a Alice Nemerov se ela ia comer mais de sua linguiça. Ela tinha comido apenas uma única mordida.
"Não" Alice respondeu.
"Posso comer então?" perguntou ele. Seus olhos verdes azulados brilhavam do licor que ele tinha ingerido durante toda a refeição. Caso contrário, Alice estava certa, seus olhos não iriam brilhar. "Por favor?"
"Não perturbe Miz Nemerov, Denny. Ele não quis ser rude. Não é querido?"
"Pode comê-la" disse Alice empurrando a lingüiça fria no prato do menino.
Coma e que se dane, pensou.
Mae tinha acabado de observar que eles eram treze à mesa. ". . . por isso, se você acredita nas superstições antigas, um de nós vai morrer antes do fim do ano", ela concluiu com um riso alegre, ao qual apenas se juntou seu marido.
"Bem, eu acredito que está ficando muito frio", acrescentou ela, levantando as sobrancelhas para mostrar que suas palavras tinham mais do que um significado único.
"Mas o que esperar, já que é final de novembro?"
Ninguém parecia esperar qualquer coisa.
"Sr. Orville, me diga, você é nativo de Minnesota? Pergunto por causa do seu sotaque. Parece inglês, se entende o que eu quero dizer. Você é americano?"
"Mae, que coisa!" Senhora repreendeu-a.
"Ele fala engraçado. Denny notou isso também."
"Sério?" Orville olhou para Mae Stromberg atentamente, como se quisesse contar cada cabelo crespo vermelho, e com o estranho sorriso.
"Isso é estranho. Fui criado toda a minha vida em Minneapolis. Acho que é apenas a diferença entre a cidade e o interior."
"E você é uma pessoa da cidade, de verdade, tal como o nosso Buddy. Eu aposto que você queria estar lá agora, né? Eu conheço o seu tipo." Ela piscou lasciva para indicar o tipo que era.
"Mae, pelo amor de Deus"
Mas Denny teve sucesso onde Senhora não pode, em fazer a Sra. Stromberg parar. Vomitou tudo sobre a mesa. Os respingos salpicaram as quatro mulheres ao redor dele - Senhora, Flor, Alice, e sua mãe e houve uma grande comoção ao tentarem escapar do perigo que era a boca de Denny. Orville não podia ajudar a si mesmo, e riu. Ele foi acompanhado, felizmente, por Buddy e pequena Dora, cuja boca estava cheia com salsicha. Mesmo Anderson fez um barulho que poderia caridosamente ser interpretado como riso.

Buddy desculpou-se e Orville fez mais elogios para o cozinheiro e um gesto quase imperceptível para a direção de Flor que, no entanto, Flor percebeu. Stromberg levou seu filho para a floresta, mas não longe o suficiente para impedir que o resto deles ouvisse as chicotadas.
Neil dormia no chão.
Maryann, Dora, e Anderson ficaram sozinhos na mesa. Maryann ora chorando e ora não, o dia todo. Agora, uma vez que ela também bebera, começou a falar: "Ah, eu lembro do tempo...".
"Perdoe-me", disse Anderson deixando a mesa, e levando a jarra com ele.
"...nos velhos tempos", Maryann continuou. "Era tudo tão bonito, o peru e a torta de abóbora, e todo mundo feliz...".

Greta, depois de sair da mesa, tinha ido vagar pela igreja. Antes de desaparecer no vestíbulo escuro, ela e Buddy haviam trocado um olhar e Buddy fez um sinal com a cabeça afirmativamente. Quando o jantar acabou, ele seguiu para lá.

"Olá estranho!" Aparentemente, ela insistia nesta jogada permanentemente.
"Olá, Greta. Você está em forma hoje."

No vestíbulo, eles estavam fora da linha de visão da área de piquenique. O chão era sólido. Greta segurou a nuca de Buddy firmemente em suas duas mãos frias e puxou seus lábios para os dela. Seus dentes rangiam, e as suas línguas reconheceram-se com familiaridade.
Quando ele começou a puxá-la para mais perto, ela recuou a rir baixinho. Tendo conseguido o que queria, ela podia se dar ao luxo de provocar.
Sim, esta era a velha Greta.

"Neil não estava bêbado?" Ela sussurrou. "Ele não estava chapado?"
A expressão em seus olhos não era exatamente como ele se lembrava, e ele não poderia dizer, se o corpo sob suas roupas de inverno havia mudado da mesma forma. Ocorreu a ela perguntar o quanto ele havia mudado, mas o desejo crescendo dentro dele anulou tais irrelevâncias. Agora era ele quem a beijou. Lentamente, em um abraço, que começou a descer ao chão.
"Oh não", ela sussurrou: "Não."

Eles estavam de joelhos quando Anderson entrou. Ele não disse nada durante muito tempo, nem eles se levantaram. Um olhar estranho, manhoso no rosto de Greta e Buddy pensou que tinha sido por isso, que Greta esperava.
Ela tinha escolhido a igreja para isso mesmo.
Anderson fez um gesto para que se levantassem, e permitiu que Greta saisse, depois de cuspir na cara dela.
Foi esta a compaixão, que não exigia punição pela lei...a sua propria, de adúlteros: que sejam apedrejados! Ou era apenas fraqueza em relação a familia? Buddy não podia ler nada da careta do velho.

"Eu vim aqui para rezar", disse a seu filho quando eles estavam a sós.
Então, ao invés de terminar sua frase, balançou a perna e o chutou
(lentamente, talvez fosse o licor) a tempo de Buddy escapar do pontapé.
"Ok, garoto, vamos cuidar disso mais tarde", prometeu Anderson, sua voz engolindo as palavras.
Então ele entrou na igreja para rezar.
Parecia que Buddy não desfrutaria da posição que ele tinha herdado em junho do ano passado, de ser o preferido de seu pai.
Assim que deixou a igreja, os primeiros flocos de neve da nova estação caíam do céu cinzento.
Buddy assistiu-os derretendo na palma de sua mão.



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sexta-feira, 22 de abril de 2011

2000 AD SCI-FI SPECIAL 1982




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quinta-feira, 21 de abril de 2011

The Outer Limits Companion





















The Outer Limits Companion - David J.Schow [ Download ]

quarta-feira, 20 de abril de 2011

As definições de ficção científica da crítica brasileira contemporânea



Introdução.
Esta pesquisa pretende discorrer a respeito das definições de ficção científica concebidas e praticadas pelos críticos brasileiros da atualidade. Entende-se que o primeiro crítico literário brasileiro a se interessar em analisar e realizar estudos sobre o gênero foi Otto Maria Carpeaux. A princípio, o crítico atacou com veemência a ficção científica, pois comparava esta literatura com outras vertentes literárias se baseando nas obras conhecidas como space operas. Entretanto, após analisar as principais obras da ficção científica, Carpeaux se entusiasmou, percebendo que as peculiaridades deste gênero eram bastante interessantes.
Mais adiante, até o início da década de 1990, esta crítica era exercida pelas comunidades de fãs de ficção científica denominada fandom.

Os leitores e escritores de ficção científica, que compõem o fandom, influenciados pelos clássicos estrangeiros do gênero, sobretudo pela science fiction anglo-americana, escreviam seus textos e eles próprios os debatiam. Em seus comentários, davam conta de reconhecer tais influências. Assim, realizavam uma crítica literária comparativista. [...]



As definições de ficção científica da crítica brasileira contemporânea [ Download ]
Arnaldo Pinheiro Mont’Alvão Júnior
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS
Estudos Linguísticos, São Paulo, 2009

terça-feira, 19 de abril de 2011

Palestra sobre Literatura Fantástica em Salvador



O Shopping fica na Av.Tancredo Neves 2915, Salvador (BA) e a Livraria Cultura no piso L2.

Coleção Aventuras Grandiosas



A Coleção Aventuras Gradiosas traz adaptações para o público infantil de grandes clássicos da literatura mundial. São histórias com somente 32 páginas cada.

Um excelente estímulo ao hábito de leitura!

Títulos:

A Dama das Camélias – Alexandre Dumas

A Dama de Espadas – Alexander Pushkin

A Ilha do Tesouro – Robert Louis Stevenson

A Pequena Princesa – Frances H. Burnett

A Volta do Parafuso – Henry James

Alice no País das Maravilhas – Lewis Carrol

As Aventuras de Huckleberry Finn – Mark Twain

As Aventuras de Robin Hood – Autor Desconhecido

As Aventuras de Robinson Crusoé – Daniel Defoe

As Aventuras de Tom Sawyer – Mark Twain

As Minas do Rei Salomão – H. Rider Haggard

Beleza Negra – Anna Sewell

Caninos Brancos – Jack London

Conto de Natal – Dickens Charles

David Copperfield – Charles Dickens

Drácula – Bram Stoker

ELA – H. Rider Haggard

Frankenstein – Mary Shelley

Ivanhoé – Sir Walter Scott

Manuscrito encontrado em uma Garrafa e os Crimes da rua Morgue – Edgar Allan Poe

Moby Dick – Herman Melville

O Barril de Amontillado e o Demônio da Perversidade – Edgar Allan Poe

O Chamado da Selva – Jack London

O Conde de Monte Cristo – Alexandre Dumas

O Corcunda de Notre-Dame – Victor Hugo

O Escaravelho de Ouro e Gato Negro – Edgar Allan Poe

O Fantasma Canterville – Oscar Wilde

O Homem Máscara de Ferro – Alexandre Dumas

O Homem que corrompeu Hadleyburg – Mark Twain

O Jardim Secreto – Frances H. Burnett

O Médico e o Monstro – Robert Louis Stevenson

O Mexicano – Jack London

O Morro dos Ventos Uivantes – Emile Bronte

O Pequeno Lorde – Frances H. Burnett

O Príncipe e o Mendigo – Mark Twain

O Raptado – Robert Louis Stevenson

O Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda – Thomas Malory

O Relógio – Ivan Turguêniev

O Retrato Dorian Gray – Oscar Wilde

O Roubo do Elefante Branco – Mark Twain

O Último dos Moicanos – James Fenimore Cooper

Oliver Twister – Charles Dickens

Os Irmãos Corsos – Alexandre Dumas

Os Robinsons Suíços – Johann Wyss

Os Três Mosqueteiros – Alexandre Dumas

Poliana – Eleanor H. Porter

Poliana Moça – Eleanor H. Porter

Tom Jones – Henry Fielding

Um Ianque na corte do Rei Artur - Mark Twain

Viagens de Gulliver – Jonathan Swift



Coleção Aventuras Grandiosas [ Download ]

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mammoth Book of Best New Science Fiction 14


CONTENTS

Summation: 2000

The Juniper Tree - John Kessel
Antibodies - Charles Stross
The Birthday of the World - Ursula K. Le Guin
Saviour - Nancy Kress
Reef - Paul J. Mc Auley
Going After Bobo - Susan Palwick
Crux - Albert E. Cowdrey
The Cure For Everything - Severna Park
The Suspect Genome - Peter F. Hamilton
The Raggle Taggle Gypsy - o Michael Swanwick
Radiant Green Star - Lucius Shepard
Great Wall of Mars - Alastair Reynolds
Milo and Sylvie - Eliot Fintushel
Snowball in Hell - Brian Stableford
On the Orion Line - Stephen Baxter
Oracle - Greg Egan
Obsidian Harvest - Rick Cook & Ernest Hogan
Patient Zero - Tananarive
Due A Colder War - Charles Stross
The Real World - Steven Utley
The Thing About Benny - M. Shayne Bell
The Great Goodbye - Robert Charles Wilson
Tendeleo's Story - Ian Mc Donald
Honourable Mentions: 2000

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sábado, 16 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 6)





CINCO
Relações de sangue


Senhora acomodou Flor na cama naquela noite como se fosse ainda pequena.
Ela tinha apenas treze anos enfim.
Do lado de fora os homens estavam agitados.
Era uma coisa terrível. Se ao menos pudesse fechar os ouvidos para isso.

"Eu gostaria que eles não precisassem fazer isso, Mãe." Flor sussurrou.
"É necessário, querida, um mal necessário. Essas pessoas não teriam hesitado em matar-nos. Você está aquecida sob esse cobertor fino?"
"Mas por que não podemos apenas enterrá-los?"
"Seu pai sabe bem disso, Flor. Tenho certeza de que o aflige ter que fazer isso. Lembre-se que seu irmão Buddy..."
Senhora sempre se referia a seu enteado como o irmão de Flor e de Neil, mas ela nunca pôde esquecer que esta era uma meia-verdade na melhor das hipóteses, e tropeçou na palavra.
"... já sentiu o mesmo que você."
"Ele... não está lá hoje à noite. Perguntei a Maryann. Ela disse que ele tinha ido para o campo oeste."
"Para fazer guarda contra os saqueadores que possam vir."
O barulho constante lá fora penetrava a trama leve das paredes de verão e parava no ar. Senhora afastou uma mecha de cabelos grisalhos e compôs-se com severidade.
"Querida, eu tenho trabalho a fazer agora."
"Será que você pode deixar a luz?"
Flor sabia que não era certo queimar óleo sem propósito, até mesmo esse óleo que havia sido extraído da planta. Ela só estava vendo o quão longe podia ir.
"Sim" admitiu Senhora” (pois não era uma noite qualquer) “mas mantenha a chama baixa."

Antes de baixar a cortina que separava a cama de Flor do resto da Câmara comum, perguntou se Flor tinha feito suas orações.
"Oh, mãe!"
Lady baixou a cortina sem qualquer apologia ou reprovar o protesto ambíguo de sua filha. Seu marido, certamente, teria visto tal coisa com impiedade punindo-al.

Senhora não deixava de ficar satisfeita por Flor não ser tão impressionável (e se a menina tinha um defeito, era esse) para se deixar levar com fervor pelo medo irracional distribuido por seu pai, no seu calvinismo feroz. Se alguém fosse se comportar como um infiel, a Senhora acreditava, maior era a hipocrisia passar-se como um cristão. Na verdade, ela duvidava muito se o Deus a quem o marido orarava existiu algum dia. Se existiu, por que rezar para ele? Ele tinha feito sua escolha eras atrás. Ele era como os antigos deuses astecas que exigiam o sacrifício de sangue em seus altares de pedra. Um Deus ciumento e vingativo, um Deus para os primitivos, um Deus sangrento. Qual foi a escritura que Anderson tinha escolhido no último domingo? Um dos profetas menores. Senhora procurou através das páginas da grande Bíblia de seu marido. Lá estava, em Nahum: "Deus é ciumento e vingador; o Senhor é vingador e cheio de indignação, o Senhor toma a vingança contra os seus adversários, e guarda ira contra os seus inimigos.”
Ah, era tudo que Deus era!



Quando a cortina desceu, Flor se arrastou para fora da cama e disse obedientemente as suas orações. Gradualmente, os pedidos de rotina cediam lugar aos seus próprios - primeiro, para benfeitoria impessoal (que a colheita fosse boa, que os saqueadores tivessem melhor sorte e escapassem), em seguida por favores mais delicados  (que o cabelo dela pudesse crescer mais rápido para que ela pudesse colocá-lo em cachos novamente, que seus seios crescessem apenas um pouco mais, embora já fossem bastante bons para a sua idade – ao que ela dava graças). Enfim, de volta a cama, esses pedidos formais deram lugar a um desejo simples, e ela ansiava por coisas que ainda não aconteceriam.
Quando adormeceu, a máquina ainda estava triturando.
Um barulho a acordou, algo a acordou. Havia ainda um pouco de luz da lamparina.

"O que é isso?" ela perguntou sonolenta.
Seu irmão Neil estava ao pé na sua cama. Seu rosto estava estranhamente vazio. Sua boca estava aberta, o queixo pendurado. Ele parecia vê-la, mas ela não pôde interpretar a expressão de seus olhos.
"O que é isso?" ela perguntou de novo, de forma mais acentuada.
Ele não respondeu. Não se moveu. Estava vestindo as calças gastas e havia sangue nelas.
        "Vá embora, Neil. O que você queria me acordando assim?"
Seus lábios se moviam, como se estivesse dormindo, e sua mão direita fez vários gestos, enfatizando as palavras não ditas do seu sonho.
Flor puxou a fina coberta até o queixo e se sentou na cama.
Gritou, apenas para dizer que fosse embora, um pouco mais alto, então ele iria ouvi-la.
Senhora dormia leve, e Flor não teve que gritar mais de uma vez.
"Você está tendo pesadelos, meu Neil! O que você está fazendo aqui? Neil?"
"Ele não vai dizer nada, mãe. Ele apenas fica assim e ele não vai responder."
Senhora pegou o filho mais velho, agora que Jimmie estava morto, seu único filho, pelo ombro e sacudiu-o rudemente.
A mão direita fez mais gestos enfáticos, mas os olhos pareciam menos extasiados agora.

"Hã?" ele murmurou.
"Neil, você vai ver Greta agora, você ouviu? Greta está esperando por você."
"Hein?"
"Você tem sonambulismo, ou algo assim. Agora vá."

Ela já tinha puxado-o para longe da cama e deixado cair a cortina, cobrindo Flor.
Ela ficou mais alguns minutos vendo Neil do lado de fora da porta, e em seguida voltou para Flor trêmula.
"O que ele queria? Por que..."
"Ele está chateado com as coisas que aconteceram esta noite, querida. Todo mundo está nervoso. Seu pai saiu e ainda não voltou. São só os nervos.“
"Mas por que ele"
"Quem sabe por que fazemos as coisas que fazemos em nossos sonhos? Agora, é melhor você pegar no sono novamente. Ter seus próprios sonhos. E amanhã..."
"Mas eu não entendo."
"Vamos esperar que Neil também não, amor. E amanhã, nem uma palavra disso para seu pai, você entendeu? Seu pai está chateado ultimamente, e é melhor manter isso em segredo. Apenas nós duas. Você promete?"
Flor assentiu. Senhora enfiou-se na cama. Na cama esperou o marido retornar. Esperou até o amanhecer, enquanto no exterior, a máquina moedora manteve sua música sombria rascante.


Acordar era a dor. A consciência era a consciência da dor. Movimentos eram dolorosos. Foi doloroso respirar.
Movendo-se dentro e fora da dor haviam figuras de mulheres, uma mulher velha, uma menina, uma mulher bonita, e uma mulher muito velha. A bela mulher era Jackie, e já que Jackie estava morta, sabia que estava tendo alucinações. A mulher muito velha era a enfermeira, Alice Nemerov. Quando ela o tocou, sentiu mais dor, então soube que ela devia ser real. Ela moveu seus braços e pior, a sua perna. Pare com isso, pensou. Às vezes ele gritava. Ele odiava porque ela estava viva, ou porque ela estava causando sua dor. Ele estava vivo, também, ao que parecia. Caso contrário, iria sentir essa dor? Ou foi a dor que o manteve vivo? Ah, pára com isso. Às vezes, ele conseguia dormir. Era melhor assim.
Ah, Jackie! Jackie! Jackie!

Logo ficou mais doloroso pensar que qualquer outra coisa, até mesmo na perna se movendo. Ele não era mais capaz de parar ou diminuir essa dor. Ficou ali, enquanto as três mulheres iam e vinham- a velha, a menina e a mulher que parecia velha.
A menina falou com ele.
"Olá", disse ela, "como você está se sentindo hoje? Você pode comer isso? Não poderá comer se não abrir a boca. Você não vai abrir a boca? Só um pouco? Seu nome é Orville, não é? O meu nome é Flor. Alice nos contou tudo sobre você. Você era um engenheiro de minas. Deve ser muito interessante. Eu estive em uma caverna, mas eu nunca vi uma mina. A menos o que vocês chamam de minas de ferro. São apenas buracos, no entanto. Abra um pouco mais que é melhor. Na verdade, foi por isso que o papai..."
Ela parou. "Eu não deveria falar tanto. Quando você estiver melhor, podemos ter longas conversas."
"Foi por isso que papai o que?" Perguntou ele. Era mais doloroso falar que comer.
"Foi por isso que o papai disse... disse que não... Quero dizer, você e Miss Nemerov estão vivos, mas tinha que fazer..."
"Matar".
"Sim tivemos que fazer isso com os outros."
"As mulheres também?"
"Mas entenda, nós tínhamos que fazer. Papai sabe explicar isso melhor do que eu, mas se nós não fizermos isso, então outros vão aparecer, muitos deles juntos, e estarão com muita fome e não temos comida suficiente, mesmo para nós. O inverno é tão frio. Você pode entender isso, não pode?"
Ele não disse mais nada por alguns dias.
Era como se, durante todo esse tempo, tivesse vivido  apenas para Jackie, e agora que ela se fora, ele já não tinha qualquer necessidade de viver. Fora drenado o desejo de qualquer coisa com exceção do sono. Quando ela estava viva, ele não sabia que tinha tanto significado para ele. Ele nunca tinha medido o tamanho de seu amor. Ele devia ter morrido com ela, ele tentou. Somente a dor da memória poderia aliviar a dor do arrependimento, e nada podia aliviar a dor da memória.
Ele queria morrer. Ele disse isso para Alice Nemerov, R.N.

"Cuidado com o que fala", ela aconselhou: "ou eles farão este favor a você. Eles não confiam em nós dois. Nós não devemos nos falar, ou eles vão pensar que estamos fazendo planos. É melhor você tentar ficar bem de novo. Coma mais. Eles não gostam de você por ai sem fazer nada. Você compreende o que  salvou a sua vida, não? Eu. Você é um idiota por deixá-los quebrar sua perna. Por que você não falou? Eles só queriam saber a sua ocupação?"
"Jackie, ela era..."
"Não foi diferente com ela do que para o resto. Você viu as máquinas. Mas você tem que esquecê-la. Você é sortudo por estar vivo. Ponto".
"A menina que me alimenta, quem é ela?"
"Filha de Anderson. Ele é o encarregado aqui. O homem magro de idade com o olhar constipado. Cuidado com ele. E seu filho, o grande, chama-se Neil. Ele é pior ainda."
"Lembro-me daquela noite. Lembro-me de seus olhos."
"Mas a maioria das pessoas aqui não são diferentes de você e eu. Só que eles são organizados. Eles não são pessoas más. Eles só fazem o que eles têm que fazer. Senhora, por exemplo, a mãe de Flor, é uma boa mulher. Eu tenho que ir agora. Coma."

"Você não consegue comer mais do que isso?" Flor repreendeu. "Você tem que ter sua força de volta."
Ele pegou a colher novamente.
"Assim é melhor." Ela sorriu. Uma covinha profunda surgiu na bochecha sardenta dela, quando sorriu. Caso contrário, seria um sorriso comum.
"Que lugar é esse? Só a sua família mora aqui?"
"Esta é a Sala comum. Só ficamos aqui no verão, por que o papai é o prefeito. Mais tarde, quando ficar frio, a cidade inteira se muda pra cá. É muito grande, maior do que você pode ver daqui, mas mesmo assim fica lotada. Há duzentos e quarenta e seis de nós. Quarenta e oito com você e Alice. Amanhã você acha que você pode tentar andar? Buddy é meu irmão, meu outro irmão, fez uma muleta para você. Você é como Buddy. Quando você estiver saudável novamente, você vai se sentir melhor. Quer dizer, você será mais feliz. Nós não somos tão ruins quanto você pensa. Somos congregacionalistas. O que você é?"
"Eu não sou."
"Então você não terá qualquer dificuldade em se juntar a nós. Mas não temos um ministro de verdade, não desde que o reverendo Pastern morreu. Ele era o pai de minha cunhada Greta. Você já viu ela. Ela é a mais bela entre nós. Papai sempre foi importante na igreja, por isso, quando o reverendo morreu, ele apenas naturalmente assumiu. Ele sabe pregar um bom sermão, você ficaria surpreso. Ele é realmente um homem muito religioso."
"O pai de vocês? Eu gostaria de ouvir um desses sermões."
"Eu sei que você está pensando, Sr. Orville. Você pensa que por causa do que aconteceu com os outros que meu pai é mau. Mas ele não é deliberadamente cruel. Ele só faz o que ele tem que fazer. Foi um mal necessário, o que ele fez. Você não pode comer mais? Tente. Vou lhe contar uma história sobre o pai, e então você verá que não tem sido justo com ele. Um dia no verão passado, no final de junho, o touro fugiu e começou a perseguir as vacas. Jimmie Lee, que era o mais jovem, saiu atrás delas. Jimmie Lee era uma espécie de preferido do pai. Ele colocava muito de sua esperança em Jimmie Lee, embora ele não  demonstrasse. Quando o pai encontrou Jimmie Lee e as vacas, todos eles estavam queimados, exatamente como dizem ter acontecido em Duluth. Não houve sequer um corpo para levar para casa, apenas cinzas. Meu pai ficou quase fora de si de tanta tristeza. Ele esfregou as cinzas em seu rosto e chorou. Então ele tentou se comportar como se nada tivesse acontecido. Mas naquela noite ele se pôs chorando e soluçando, e saiu sozinho para o túmulo, onde ele tinha encontrado Jimmie, e ficou lá por dois dias inteiros. Ele tem sentimentos profundos, mas na maioria das vezes ele não demonstra."
"E Neil? Ele é assim também?"
"O que você quer dizer? Neil é meu irmão."
"Foi ele quem me fez as perguntas naquela noite. E para as outras pessoas que eu conhecia. Ele é igual ao seu pai?"
"Não sei nada sobre aquela noite. Eu não estava lá. Você tem que descansar agora. Pense no que eu lhe disse. E Sr. Orville, tente esquecer aquela noite."

Crescia nele o desejo e a vontade de sobreviver, mas ao contrário de qualquer desejo que ele tinha conhecido até então, este era um tumor canceroso, e a força que emprestou ao corpo foi a força do ódio. Apaixonadamente, ele não desejava a vida, mas vingança pela morte de Jackie, por sua própria tortura, para que aquela noite terrível.

Ele jamais sentira muita simpatia por pessoas vingativas. As premissas básicas da vingança sempre lhe pareceram bastante improváveis, como a cena de Il Trovatore, de modo que ele ficou surpreso ao encontrar-se insistindo exclusivamente sobre um só tema: a morte de Anderson, a agonia de Anderson, a humilhação de Anderson.

Inicialmente sua imaginação se contentou simplesmente em elaborar mortes para o velho, então, conforme sua força crescia, estas mortes foram elaboradas com torturas, e finalmente a morte. Torturas poderiam ser prolongadas, enquanto a morte era um fim. Mas Orville, tendo ele próprio experimentado o amargo fel, sabia que havia um limite além do qual a dor não pode ser aumentada.
Desejou para Anderson suportar o sofrimento de Jó. Ele queria esfregar cinzas no cabelo grisalho do homem, para esmagar seu espírito, para arruiná-lo.
Só então ele iria permitir que Anderson soubesse que tinha sido ele, Jeremiah Orville, que tinha sido o agente de sua humilhação.
De modo que quando Flor lhe contou a história de como o velho havia sofrido por Jimmie Lee, ele percebeu o que tinha que fazer.


Os dois andavam por todo milharal juntos, Flor e Orville.
A perna havia sarado, mas ele provavelmente iria coxear para sempre.
Agora pelo menos, ele poderia coxear por conta própria, sem qualquer muleta que não fosse Flor.
"Esse é o milho que vai nos alimentar neste inverno?" questionou.
"É mais do que realmente precisamos. Um lote era para as vacas."
"Eu suponho que você estaria lá fora, na colheita com o resto deles, se não fosse por mim."
Era costume, durante a colheita, as mulheres mais velhas e as meninas mais jovens assumirem funções na aldeia, enquanto as mulheres mais fortes iam para o campo junto com os homens.
"Não, eu não sou velha o suficiente.”
"Oh, deixe disso. Você deve ter uns quinze anos ou quase."
Flor deu uma risadinha. "É você quem está dizendo isso. Tenho treze. Só farei quatorze anos no dia 31 de janeiro."
"Você poderia ter me enganado. É muito bem desenvolvida para treze anos."
Ela corou. "Quantos anos você tem?" Perguntou ela.
"Trinta e cinco anos."
Era mentira, mas ele sabia que poderia ir longe com isso. Sete anos atrás, quando tinha trinta e cinco, ele parecia mais velho do que agora.
"Eu sou jovem o suficiente para ser sua filha, Sr. Orville".
"Por outro lado, Miss Anderson, você está quase com idade para ser minha esposa."
Ela corou mais violentamente desta vez e teria deixado-o, se ele não precisasse de seu apoio. Isto foi o mais distante que ele andou sozinho.
Pararam para descansar.
Exceto pela colheita, era difícil reconhecer ser setembro. As Plantas não mudavam de cor com as estações do ano: elas simplesmente fechavam as folhas como guarda-chuvas para que a neve passasse para o chão. Também não havia qualquer indício de outono no ar. O frio da manhã era um frio como outro qualquer.

"É bonito aqui no interior" afirmou Orville.
"Ah, sim. Eu também penso assim."
"Você viveu aqui toda a sua vida?"
"Aqui ou na parte antiga da cidade." Ela lançou um olhar de soslaio para ele. "Sim, Você está se sentindo melhor agora, não é?"
"Sim. É ótimo estar vivo.”
"Eu estou contente. Estou feliz que você esteja bem novamente."
Impulsivamente ela pegou sua mão. Ele respondeu com um aperto. Ela riu com prazer. Eles começaram a correr.

Esta então parecia ser a etapa final de sua longa reversão ao primitivo.
Orville não poderia imaginar uma ação mais inadequada do que o que ele destinava-se, e sua baixeza só aumentou a paixão sangrenta que continuou a crescer nele. Sua vingança agora exigia mais do que Anderson, mais que a família inteira do homem. Ele exigia toda a comunidade. E o tempo para saborear a sua aniquilação. Ele deve arrancar cada gota de agonia deles, de
cada um deles, ele deveria, gradualmente, levá-los até o limite de sua capacidade de sofrimento e só então enviá-los para o outro lado.



Flor mexia-se em seu sono, as mãos agarrando o travesseiro de palha de milho. Sua boca abriu e fechou, abriu e fechou, e grânulos de suor estouram em sua testa e no delicado vazio entre seus seios. Um peso no peito, como se alguém estivesse pressionando-a para baixo com botas pesadas. Ele ia beijá-la. Quando a boca se abriu, viu o giro da máquina moedora dentro dela. Pedaços de carne moída tombado adiante. E a máquina fazia um som rascante e triste.



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sexta-feira, 15 de abril de 2011

2000 AD SCI-FI SPECIAL 1986



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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Trilogia Millennium - Stieg Larsson



OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O homem que recebia a flor festejava naquele dia seus oitenta e dois anos. Ele abriu o envelope e retirou o papel de presente do embrulho. Depois pegou o telefone e digitou o número de um ex-inspetor de polícia que desde sua aposentadoria instalara-se na Dalecarlia, perto do lago Siljan. Os dois homens não só tinham a mesma idade mas haviam nascido no mesmo dia — o que, nessas circunstâncias, parecia irônico. O inspetor sabia que receberia esse telefonema após a passagem do carteiro por volta das onze da manhã, e tomava seu café enquanto aguardava. Nesse ano, o telefone tocou às dez e meia. Ele atendeu e foi direto ao assunto.
— Ela chegou, suponho. E então, qual é a flor deste ano?
— Não faço a menor idéia. Vou mandar identificá-la. Uma flor branca.
— Nenhuma carta, como sempre?
— Não. Apenas a flor. A moldura é a mesma do ano passado. Uma dessas molduras baratas do tipo faça-você-mesmo.
— Selo do correio?
— Estocolmo.
— Escrita?
— Como sempre, maiúsculas de imprensa. Letras retas e bem traçadas.
Haviam esgotado o assunto e ficaram em silêncio durante quase um minuto. O inspetor aposentado inclinou-se para trás na cadeira da cozinha e aspirou seu cachimbo. Sabia muito bem que não se esperava dele uma pergunta concisa ou um comentário perspicaz que lançassem uma nova luz sobre o caso. Essa época acabara havia anos, e a conversa entre os dois homens idosos tinha o caráter de um ritual em torno de um mistério que ninguém mais no mundo, a não ser eles, estava disposto a resolver.






A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO

Estava amarrada numa cama estreita de estrutura de aço. Correias de couro a prendiam e um arreio tolhia sua caixa torácica. Estava deitada de costas. Tinha as mãos atadas com tiras de couro de um lado e outro da cama.
Já havia muito abandonara qualquer tentativa de se soltar. Estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. Quando os abria, achava-se no escuro, e a única fonte de claridade visível era um fino clarão acima da porta. Tinha um gosto ruim na boca e sentia uma necessidade imperiosa de escovar os dentes.
Parte de sua consciência espreitava o barulho de passos avisando que ele estava vindo. Sabia que já anoitecera, mas não tinha a menor idéia de que horas eram, só sentia que estava ficando muito tarde para uma de suas visitas. Sentiu uma súbita vibração na cama e abriu os olhos. Parecia que algum tipo de máquina começara a funcionar em algum lugar do prédio. Segundos depois, já não saberia dizer se estava imaginando ou se o barulho era real.
Assinalou mentalmente mais um dia.
Era o seu quadragésimo terceiro dia de cativeiro.







A RAINHA DO CASTELO DE AR

Calcula-se em seiscentos o número de mulheres soldados que combateram na Guerra de Secessão. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da história cultural — ou será que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideológico? Os livros de história sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que não respeitam os padrões de gênero, e em nenhuma área essa limitação é tão evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas.




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quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Homem que viu o disco voador - Rubens Teixeira Scavone



Tudo começara naquela tarde fria e nevoenta.
Mesmo sendo o início do inverno, um calor anormal manifestara-se durante o dia inteiro e somente quando a tarde principiava a cair a temperatura se alterara bruscamente em mudança bem característica de São Paulo. Nuvens baixas e ameaçadoras cobriram a cidade e um vento frio varreu os arrabaldes mais elevados, antecipando a queda de uma garoa fina.

O quadrimotor contornava os limites da metrópole.
O comandante Eduardo Germano de Resende vinha cansado. Manobrava os controles quase mecanicamente, deixando para desligar o piloto automático o mais tarde possível.
O contato para a aterragem já havia sido mantido há uns quinze minutos de vôo, quando se inteiraram da existência do teto
baixo e ameaçador, com possibilidades imediatas de interdição do aeroporto. Assim, se quisessem dormir em São Paulo, não tinham tempo a perder. O problema da aterragem estava resolvido e nenhuma espera havia proveniente do tráfego.
Com os olhos nos instrumentos e pressão leve sobre os comandos, Eduardo preparou-se para a aproximação, já enquadrado o aeroporto.
Entravam na reta final.

As nuvens, agora, pairavam sobre a aeronave e já se podia ver o casario pelas janelas molhadas de garoa.
O mais preocupado com os instrumentos era o primeiro-oficial, vigiando o altímetro e os tacômetros. O único que descansava por antecipação era o navegador, já guardando seus mapas e instrumentos, sabendo que mais aquela missão fôra cumprida com êxito.
Ao ser atingida a reta final marcavam os relógios, precisamente, dezoito horas e quarenta minutos.
Nesse momento exato, é que tudo começou.
Eduardo, concentrado no balizamento da pista, somente prestou atenção ao primeiro-oficial quando êle começou a agitar-se no assento. Gusmão curvou-se sobre os instrumentos e pôs-se a dar golpes com o punho fechado junto ao altímetro.

— Que diabo você está fazendo? Que é isso?
O primeiro-oficial demorou vários segundos para responder, limitando-se a apontar o painel com ar assustado.
— Veja! olhe que coisa doida está acontecendo!

Eduardo firmou o comando nas mãos e fixou um dos altímetros. Vinham a mil e trezentos pés. Tudo até a esse instante indicava altitude correta. Mas o altímetro alterava inexplicavelmente a situação, marcava quase quatro mil pés e ia, poupo a pouco, registrando altitude mais elevada, em ascensão assustadora.

O comandante a princípio, não acreditou no que viu.

Numa fração de segundo, examinou o segundo altímetro e, pasmado, constatou idêntico fenômeno. Reagiu da mesma forma que o primeiro-oficial, passando a dar golpes nervosos sobre a base do instrumento.
Aparentemente, o vôo não se modificara. A aproximação era normal e a pista já vinha bem perto, a pouco mais de um minuto de distância, quando a segunda anormalidade aconteceu.
O compasso passou a girar doidamente, como se a aeronave tivesse entrado em torvelinho descontrolado, solicitadas as agulhas por magnetismo desconhecido.

Desnorteado com esse segundo fato, Eduardo agiu mecanicamente interrompendo a aterragem.
Levou as manetes à frente, dando toda a aceleração aos motores, que responderam com um rugido atroador. Compreendendo a emergência, o primeiro-oficial levantou os flaps1, ao mesmo tempo que Eduardo ajustava a mistura e recolhia o trem de pouso. O violento impulso ascensional dos profundores abalou toda a aeronave, não demorando a reação os passageiros e da tripulação, surpreendidos com a manobra inesperada.

A comissária largou seus pacotes e quase caiu sobre uma poltrona. Os passageiros inquietaram-se e indagaram em voz alta o que havia acontecido. O navegador e o rádio-telegrafista correram para a cabine, amontoando-se junto ao segundo-oficial atrás dos assentos de pilotagem.
Desprezando as informações dos instrumentos e procurando ganhar altitude outra vez, o comandante não deu atenção aos tripulantes e concentrou-se no exame do que estava acontecendo.

— Que aconteceu? Por que é que arremetemos dessa forma?
Quem respondeu foi o primeiro-oficial, não ocultando certo nervosismo indisfarçável.
— Olhem! Olhem nos altímetros e no compasso!
— Que é que há com eles? Não vejo nada de mais! É lógico que depois da arremetida já devemos estar pelas alturas que eles registram, três ou quatro mil pés! — exclamou o segundo-oficial, após examinar os instrumentos.

O comandante e o primeiro-oficial tiveram aí a terceira surpresa.
Novamente conferiram os instrumentos e pelas condições de vôo não verificaram mais irregularidade de espécie alguma.
O altímetro indicava quatro mil e duzentos pés, altitude real em que deviam estar depois da ascensão violenta, e o compasso repousava, tranqüilo, indicando rumo constante.
Os dois homens trocaram olhares mudos e, sem revelarem o que havia acontecido, agora de credibilidade duvidosa, limitaram-se a dar explicações não muito convincentes. Gusmão ficou confuso e Eduardo explicou titubeante:

— Não foi nada de grave. Tive a impressão de que a torre havia se enganado nas instruções. E como não via bem a cabeceira da pista com esse teto baixo, resolvi subir para obter confirmação da ordem de aterragem. — A seguir, como que dando as explicações por encerradas, em atitude áspera e não condizente com o seu temperamento, voltou-se para a comissária, ainda pálida, junto à entrada, e gritou uma ordem:
— Não fique parada aí como uma múmia. Vá dizer aos passageiros que não houve nada. Que subi para receber novas instruções por causa do teto. Vá logo e feche a porta!




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