terça-feira, 31 de maio de 2011

Do punk ao ciberpunk: Burst City, Death Powder e Akira



Do punk ao ciberpunk: Burst City, Death Powder e Akira

Nenhum outro filme capturou a intensidade, o pessimismo, a delinqüência e as bravatas do movimento punk japonês como Burst City de Ishii, uma ousada, impetuosa e anárquica cápsula do tempo do zeitgeist do início dos anos oitenta.

No entanto, apesar da sua esmagadora influência - não só da forma como das convenções do ciberpunk japonês, mas o futuro do cinema japonês contemporâneo como um todo - Burst City permanece desconhecido. É freqüentemente ofuscado pela maior visibilidade, a nível internacional de seguidores de renome: Tsukamoto, Takashi Miike e Takashi Kitano, entre outros, todos em dívida com o trabalho de Ishii de alguma forma.

No entanto, Ishii sempre desempenhou o papel de rebelde: assistia a aula de cinema na Universidade Nihon apenas quando precisava tomar emprestado mais equipamento; desaparecia por longos períodos de tempo; fazia filmes de comprimento comercialmente inviável como os 55 minutos de Electric Dragon 80.000 V (2001) , desafiava os cinéfilos convencionais com seus filmes punk para em seguida desafiar os fãs de seu trabalho com filmes hipnóticos como Angel Dust (1994) e Labyrinth of Dreams (1995).

É este ethos que move Burst City; dirigir através das estradas desertas de Tokyo e terrenos baldios industriais, que são da sua exposição inicial, e o colapso anárquico do seu ato de encerramento.




A estética visual do Burst City é uma mistura eclética de industrialização punk e imagens de deserto pós-apocalíptico que lembra os dois primeiros filmes de Mad Max (1979 e 1981), com alguns enfeites de ficção científica, como os canhões futuristas usados pela polícia para dispersar tumultos, por exemplo.

Burst City porém, vai além da habitual pompa do gênero. Ele tem o imediatismo e a atmosfera de um documentário, mostrando tanto pessoas quanto a música, enquanto usa do cenário distópico ao redor como uma metáfora para a ansiedade, a infelicidade e alienação vivida pelos jovens do Japão na época. Este documentário é reforçado pelo manejo inovador da câmera. Seu uso altamente dinâmico, na mão, quase um fluxo de consciência entrelaçado com a igualmente agressiva edição estilo metralhadora, não só capta a energia e agitação da música - que é muito importante – que influencia bastante Tsukamoto na execução do seu trabalho.




Os ambientes industrializados do filme - os armazéns abandonados e salas de caldeiras, onde as gangues de motoqueiros e as bandas punk residem - se tornaria um aspecto fundamental para o ciberpunk japonês, ao descrever Tokyo como uma favela de concreto. A noção de metrópole como entidade opressora começa a tornar-se evidente aqui e é interessante notar que este filme foi feito no mesmo ano de Blade Runner, que por sua vez, exibe conotações similares. A participação prévia de Ishii no movimento punk lhe permitiu reunir um conjunto impressionante da vida real das bandas punk  japonesas  - The Rockers, The Roosters e The Stalin, entre outras - como parte do elenco, assim como o cantor e compositor dos anos 70, Shigeru Izumiya.


Shigeru Izumiya



Curiosamente, Izumiya também foi creditado como autor do filme e diretor de  arte, sugerindo que tinha uma forte participação na estética de Burst City. Isto serve como um elo vital de como Izumiya iria escrever e dirigir seu próprio filme, um filme que iria passar a cristalizar muitas das convenções e das idéias do ciberpunk japonês que posteriormente seria explorada por Tsukamoto e Fukui.




 Death Powder (1986) de Shigeru Izumiya introduz um visual pouco ortodoxo e abstrato que se provaria instrumento para a execução do futuro ciberpunk japonês. Como Burst City, o som também desempenha um papel vital aqui, ainda que as bases para o assalto sensorial viria a ser definido e refinado por Tsukamoto. Izumiya, como Ishii, possui uma forte ligação musical, cantor popular e compositor, bem como compositor de trilhas sonoras - compôs a música para Ishii em Crazy Thunder Road.





Perdido no purgatório do domínio público há décadas, Death Powder mal existe, disponível somente em DVD pirata e só recentemente segmentos surgiram na Internet. A compreensão ocidental do filme foi em grande parte incoerente e mal sucedida devido a má tradução para o inglês e, como resultado, Death Powder é frequentemente ignorado. No entanto, sua influência é bem clara e é, sem dúvida, o primeiro filme do movimento ciberpunk japonês extremo, exemplificando o surrealismo invasivo corpóreo que se seguiria ao longo dos dez anos seguintes.





Situado em Tokyo dos dias de hoje ou num futuro próximo, o filme acompanha um grupo de pesquisadores e sua Guernica, um andróide cibernético feminino capaz de vomitar poeira venenosa de sua boca. Para Karima (interpretada por Izumiya) é  dada a guarda da andróide, mas que parece perder a cabeça, atacando os outros dois - Noris e Kiyoshi - quando retornam. Kiyoshi inala o pó de Guernica e começa a se transformar em consequência disso. Ela também começa a alucinar na medida que seu subconsciente começa a se fundir. Uma seqüência intitulada "Dr. Loo Made Me" - sugere que a andróide está tentando se comunicar com Kiyoshi - onde vemos o projeto Guernica em seus estágios iniciais, com os três pesquisadores, bem como o excêntrico Dr. Loo, liderando a operação. As alucinações fornecem a Kiyoshi a onisciência, revelando o amor de Karima por Guernica, bem como a investigação de um grupo de homens desfigurados pela carne que se deteriora incontrolavelmente.

O tema da carne, a fronteira entre a vida e a morte e a noção do que significa ser humano entra em jogo regularmente, enquanto o filme deriva de uma situação surrealista a outra. Death Powder levanta uma questão: se você deixa de ser carne, você  deixa de ser humano?







Esta é uma idéia que rotineiramente é explorada no ciberpunk, mas enquanto exemplos ocidentais como Blade Runner e Neuromancer focam nas implicações em larga escala, Death Powder - e a maioria da produção japonesa ciberpunk posterior - aborda as mudanças dentro do indivíduo. No primeiro caso, as tecnologias invasivas já foram realizadas com sucesso na sociedade, tornando-se prática comum.
No entanto, as tecnologias exploradas neste último, ainda estão em seus estágios primordiais, são obras em andamento e extremamente esotéricas, com resultado extremamente volátil e imprevisível.

Death Powder também estabelece a tendência no ciberpunk japonês de colocar as imagens antes de sua narrativa, um aspecto fundamental ao não impor barreiras sensoriais ao estilo de assalto exibido. Como resultado, história e propósito são  evidenciados a partir do que é visto, ao contrário do que é dito, permitindo aos filmes subseqüentes, uma qualidade tonal e filosófica.

Como muitos filmes de espírito semelhante que viriam a seguir, Death Powder destaca a natureza destrutiva e  desumanizante da tecnologia. A grande dica vem do andróide Guernica que partilha o mesmo nome da pintura de Pablo Picasso de 1937, retratando o famoso bombardeio de Guernica pelos aviões nazistas (em apoio a Franco), durante a Guerra Civil Espanhola. O mural de Picasso, mostra uma orgia de corpos retorcidos, animais e edifícios, deformados pela guerra, ou mais amplamente, pela tecnologia depravada que lhe dá este poder. No fim do filme se vê o grupo fundido e contorcendo-se em um oceano de carne monstruosa, a forma humana, consumida e destruída nas mãos da ciência interventora.

Apesar da influência estética e temática de Death Powder, ele passou com pouco alarde e nunca mais foi vista fora do Japão até anos mais tarde. O filme posterior e de espírito semelhante, Android of Notre Dame (Kuramoto, 1988) foi ligeiramente melhor, em parte devido à infâmia que cercou a série de filmes que era parte de uma coleção de sete filmes, conhecido como Guinea Pig series; do gênero exploitation, voltado para tortura, assassinato e outros processos destrutivos, filmes planejados para parecem realistas (snuff movie).





Android of Notre Dame não conseguiu alcançar um público mais vasto e desde então tem se revolvido na obscuridade do culto junto com seus filmes-irmão.





No entanto, tudo mudou quando o ciberpunk japonês começou a rastejar para baixo dos  holofotes internacionais, com uma adaptação em anime para o cinema  do popular mangá de Katsuhiro Otomo, Akira (1988). Embora este artigo se concentre principalmente na produção live-action ciberpunk, a chegada de Akira foi tão importante e influente para o sub-gênero, que precisa ser reconhecido.






Akira conseguiu duas coisas: primeiro introduziu praticamente sozinho, o anime e o mangá para um público global (especialmente no Reino Unido e EUA) e segundo por que perpetuou o ethos ciberpunk em maior escala,  combinando a metrópole néon de alta tecnologia e baixa qualidade de vida de Blade Runner e Neuromancer, com toques de terror. O filme condensa a narrativa do magnum opus gigantesco de Otomo (de seis volumes),  em apenas duas horas e dirigido pelo próprio Otomo. Um marco dentro do ciberpunk japonês, pois foi a primeira vez que um sub-gênero não só teve sucesso comercial no mercado interno, mas também conseguiu encontrar um público estrangeiro receptivo.

Situado entre os indigentes da superlotação da Neo Tokyo futurista, a história gira em torno de motoqueiros assassinos juvenis e melhores amigos, Kaneda e Tetsuo. Durante uma briga com uma gangue rival, Tetsuo é ferido mas é misteriosamente levado por militares e cientistas. Experimentos com alteração química transformam Tetsuo em um semideus com poder psicocinético incontrolável. Ele entra numa fúria destrutiva na busca de Akira, uma entidade muito poderosa que destruiu Tokyo décadas antes.

Parte do sucesso de Akira inevitavelmente reside na atenção ao detalhe e enorme pretensão.
Um orçamento astronômico para um anime na época - cerca de um bilhão e cem milhões de ienes (aproximadamente quatorze milhões de dólares no câmbio hoje) - quantia adquirida através da parceria de várias grandes empresas de comunicação japonesas, incluindo a Toho e a Bandai. Este orçamento propiciou produzir centenas de milhares de células de animação para criar um movimento fluído - especialmente na sua ação - e captar nuances que caso contrário não teriam existido. Otomo também se dedicou ao trabalho de fazer gravação de som sincronizado ao movimento labial, a primeira vez para um anime, resultando em altos custos de produção. O filme estabeleceu recordes de bilheteria de um anime no Japão durante o lançamento no verão de 1988, faturando mais de seis bilhões e trezentos milhões de ienes (aprox. setenta e sete milhões de dólares). Internacionalmente, teve uma exibição limitada nas salas de cinema nos Estados Unidos e no Reino Unido logo após - semeando um imenso culto de fãs ocidentais de que goza até hoje -, mas só conseguindo distribuição em vídeo caseiro no início dos anos noventa.

Temas de mutação, modernidade e efervescência social são abundantes em Akira. A gangue de motoqueiros de Kaneda e Tetsuo são como uma revisão dos delinqüentes vistos em Crazy Thunder Road e Burst City de Ishii, enquanto a para-normalidade de  Tetsuo e sua subsequente transformação, define-o firmemente no território do horror corpóreo de Cronenberg. Sua eventual fusão com o metal - o que resulta em um terrível híbrido homem-máquina que transforma Tetsuo no mestre de um novo universo - não só é evocativa da noção da tecnologia ciberpunk corrompendo a forma humana (neste caso, literalmente), mas também serve como um importante precursor visual para o próximo avanço do movimento.






A seguir: Metal-morfose: Tetsuo: The Iron Man e Tetsuo II: The Body Hammer

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pesadelos Pós-humanos




Um homem acorda em certa manhã e encontra-se lentamente se transformando em um híbrido de carne e sucata de metal; ele sonha ser sodomizado por uma mulher dotada de um falo artificial semelhante a uma cobra. Experimentos clandestinos de privação sensorial e tortura mental desencadeiam poderes psíquicos em cobaias, levando-os a explodir em pus negro ou rasgar a carne uns dos outros em um frenesi sexual.



 
Este é o estilo ciberpunk japonês: um movimento que eclodiu no cinema underground japonês para atrair a atenção internacional no final dos anos oitenta.

O mundo do live-action ciberpunk japonês é uma mistura bastante estranha; muito distante das noções estabelecidas de hackers de computador, tecnologias ubíquas e dos conglomerados dominantes, como os encontrados nas páginas de ‘Neuromancer’ de William Gibson (1984) - o principal pivô ciberpunk durante a formação deste subgênero no início dos anos oitenta.


Eraserhead


Do ponto de vista cinematográfico, o ciberpunk japonês deve mais ao gótico industrial de Eraserhead de David Lynch (1976) e o horror psicosexual inicial de David Cronenberg, do que a metrópole encharcada de Blade Runner (1982) de Ridley Scott, apesar do neon tech-noir de Scott ser um marco importante para a estética mangá, ciberpunk e anime, como Akira (1982-1990) de Katsuhiro Otomo e Ghost in The Shell (1989) de Masamune Shirow.







No mundo ocidental, o ciberpunk nasceu da New Age, movimento da ficção científica literária dos anos sessenta e setenta, que reunia autores como Harlan Ellison, JG Ballard e Philip K. Dick - cujo livro Do ‘Androids Dream of Electric Sheep?’ (1968) foi a base para Blade Runner – e que foram peças chave em seu início, criando mundos caracterizados pela vida artificial, a decadência social e a dependência tecnológica.

Os romances de detetive hard-boiled de Dashiell Hammett também se mostraram influentes quanto à orientação global do subgênero ser estritamente pessimista. O que veio a ser conhecido como ciberpunk na metade dos anos oitenta era caracterizado pela sua temática de exploração do impacto da alta tecnologia em vidas comuns - pessoas; vivendo na miséria, empilhados uns em cima dos outros, dentro de uma metrópole opressora dominada por tecnologias avançadas.

O ciberpunk japonês, por outro lado, é cru e primitivo por natureza, e caracteriza-se pela atitude em vez de conceitos.

Uma colisão entre carne e metal, o subgênero é uma explosão de sexo, violência, concreto e máquinas, uma pequena coleção de universos de bolso que se revelam em pesadelos pós-humanos e fetiches teratológicos, movidos por um sentimento sem fronteiras, de invasão e violação. A imaginação é abjeta, perversa e imprevisível e, como o trabalho de Cronenberg, a mutação do corpo através da intervenção tecnológica é um tema importante, assim como a repressão, a desumanização e a sexualidade.

Durante os anos oitenta e no início dos anos noventa, esta tensão estava caracterizada na maioria dos trabalhos iniciais de dois diretores: Shinya Tsukamoto e Shozin Fukui.

Esses diretores faziam filmes curtos, afiados, centrados nos horrores de ver o corpo invadido, infectado e repleto de tecnologia.


Shinya Tsukamoto


As contribuições mais famosas de Tsukamoto são talvez Tetsuo: The Iron Man (1989) e Tetsuo II: The Body Hammer (1992). Ambos apresentam a situação do pesadelo de seus protagonistas (interpretado em ambos pelo ator Tomorowo Taguchi) passando por uma metamorfose bizarra, de um humilde assalariado (salaryman) a um ser humano híbrido de carne e sucata.


Shozin Fukui


Embora não tão conhecido do público ocidental, o trabalho de Fukui também é importante. Estilisticamente semelhante a Tsukamoto, mas suficientemente diferente para não ser uma mera cópia, Fukui abriu o sub-gênero, incorporando Cronenberg,  através de experimentos científicos que têm impacto sobre o corpo pela ampliação tecnológica, como evidenciado em seus filmes 964 Pinocchio (1991) e Rubber's Lover (1996). Estes filmes focam na venerabilidade da mente humana e como uma alteração pode causar mais do que uma mudança na aparência física, mas criar um estado mental totalmente novo e processos de pensamento que estão além do humano.

Tsukamoto e Fukui evitam muitas das convenções cristalizadas por Neuromancer de Gibson.

Não há mega-conglomerados ou realidade virtual e a luta pelo poder entre a alta tecnologia versus baixa qualidade de vida, mas sim baixa tecnologia versus vida comum. A tecnologia em sua visão do ciberpunk consiste de sucata industrial - Tetsuo - e laboratórios improvisados construídos a partir de material bruto e datado - Rubber Lover's - dando uma estética de Faça-Você-Mesmo para seu ethos total. Estes eram, afinal, filmes feitos com pouco ou nenhum dinheiro e como resultado, não se passavam em cenários gigantescos em metrópoles de um futuro próximo, mas hoje, na cidade ciberpunk da vida real de Tokyo, sugerindo que as ansiedades sobre a modernidade não estão distantes, mas algo que deve estar nos preocupando agora.

Ambos os cineastas também sofrem com uma fixação por paisagens pós-industriais, utilizando sucata, caldeiras, armazéns abandonados, áreas delimitadas por grades e fábricas, como um playground decadente para suas idéias.



No entanto, este novo e desafiador subgênero não aconteceu da noite para o dia. Há muitos precursores do trabalho de Tsukamoto e Fukui, e que também precisam ser abordados. Alguns são bastante conhecidos para o público ocidental, enquanto outros ainda têm de obter o reconhecimento que merecem, contribuindo para uma das fases mais fascinantes e filosóficas do cinema japonês contemporâneo.


Emergente: Sogo Ishii, 8mm e punk

Embora a idéia do ciberpunk no Ocidente tenha nascido da literatura, o ciberpunk japonês, pode se dizer, nasceu da música. Durante os anos setenta e início dos anos oitenta, Tokyo estava curtindo uma incrivelmente vibrante cena musical punk underground. Um ethos que depois se ramificou em arte e cinema, graças em grande parte a um indivíduo: Sogo Ishii.


Sogo Ishii



Nascido em 1957, Ishii rapidamente construiu uma reputação de ser uma espécie de dissidente e tornou-se uma figura proeminente da cena do cinema underground e Tokyo. Operando dentro dos escombros de um estúdio arruinado, Ishii revelou uma variedade de projetos de orçamento zero em película de 8mm, em um momento que antigos pesos  pesados do cinema internacional, como Akira Kurosawa, lutavam para obter investimento financeiro.

Esforços pioneiros como Panic High School (1978) e Crazy Thunder Road (1980) envolviam rebelião e anarquia associados com o punk, e tornaram-se altamente influentes nos círculos de cinema underground. Crazy Thunder Road em particular apontou o caminho com sua estética gangue de motoqueiros punk, um estilo que seria explorado mais adiante por Otomo e que influenciaria Akira.





 
Originalmente feito como um projeto de graduação da universidade, foi pego para distribuição por um grande estúdio, Toei, fazendo de Ishii o primeiro de sua geração a passar do cinema amador para o circuito profissional da indústria, enquanto ainda era estudante de uma universidade.





Depois de Crazy Thunder Road, Ishii fez o curta-metragem frenético Shuffle (1981) - curiosamente, uma adaptação não-oficial dos quadrinhos de Katsuhiro Otomo -, assim como uma série de vídeos de música e concertos para uma variedade de bandas punk japonesas. No entanto, logo a Toei voltaria oferecendo apoio a Ishii para filmar seu próximo longa-metragem. Este mais novo investimento financeiro resultou em seu mais influente trabalho até à data; Burst City (1982), um filme que encapsulava e sintetizava sua matéria favorita: o movimento punk.







A seguir: Do punk ao ciberpunk: Burst City, Death Powder e Akira

domingo, 29 de maio de 2011

Neal Stephenson



Neal Stephenson (31 de Outubro 1959) nasceu em Fort Meade, Maryland (EUA) em uma família de engenheiros e cientistas e viveu os primeiros anos de sua vida em Iowa.

Foi assistente de pesquisa no Departamento de Energia em Ames e é formado em física pela Universidade de Boston, onde também trabalhou.

É apontado como o melhor exemplo de literatura pós-cyberpunk, abordando áreas como matemática e computação.

Seu primeiro romance publicado, 'The Big U' (1984) teve pouca repercussão. Passou a ser conhecido com Snow Crash (1992), que fundia memes, vírus de computador e outros temas tecnológicos com mitologia suméria. O reconhecimento internacional veio com The Diamond Age (1995), sendo galardoado com os prémios Hugo e Locus e incluindo-se entre os finalistas do prémio Nebula. Em seguida Stephenson lançaria um outro grande sucesso de crítica e vendas, Cryptonomicom (1999), um tecno-thriller, recheado de detalhes técnicos, de programação de computador, criptografia e submarinos da segunda guerra mundial, um livro cultuado entre hackers.

Com a série de livros Baroque Cycle (O Ciclo Barroco) Stephenson dá um passo definitivo para se afastar da FC convencional, a saga composta por oito romances histórico-científicos independentes, traduzida em vinte línguas e vencedora em 2004 do Prémio Arthur C. Clarke. 

Além de escritor, Neal trabalha em uma empresa que desenvolve sistemas de propulsão e orientação orbital e também escreve para revistas como Wired.

Site Oficial



Neal Stephenson (Anathem, Baroque Cycle series, Cryptonomicon, In the Kingdom of Mao Bell,  Mother Earth Mother Board, Snowcrash, Spew, The Big U, The Diamond Age, The Great Simoleon Caper, Zodiac a Eco-thriller, Interface, Ensaios, Confusion, In the Beginning Was the Command Line, The Diamond Age or A Young Lady's Illustrated Primer. The Cobweb) [ Download ]

sábado, 28 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 12)



ONZE
UMA MORTE NATURAL





O cabelo de Anderson estava caindo aos punhados. Talvez fosse a idade, mas ele culpou a sua dieta. Os suprimentos escassos resgatados do fogo havia sido racionados, e o pouco milho que restava agora era de Maryann e para plantar, quando voltassem para o superfície. Coçou o couro cabeludo esquisito e amaldiçoou a Planta, mas era um ódio parcial, como se estivesse irritado com um empregador, ao invés de em uma guerra com seu inimigo. Seu ódio tornou-se contaminado com gratidão, sua força esvaía.

Mais e mais ele ponderou sobre a questão de quem iria sucedê-lo. Era uma questão de peso: Anderson fora talvez o último líder do mundo - quase rei, sem dúvida um patriarca.

Embora geralmente acreditasse no direito de primogenitura, ele se perguntou se uma diferença de apenas três meses, não poderia ser entendida como caridade em favor do filho mais novo. Recusou-se a pensar em Neil como um bastardo, e foi assim obrigado a tratar os meninos como gêmeos, de forma imparcial. Havia algo a ser dito sobre cada um deles. Neil era trabalhador, não era dado a reclamações e era forte, tinha os instintos de um líder de homens, se não possuía todas as habilidades. No entanto, ele era estúpido. Anderson não podia deixar de ver. Ele também era... assim, meio perturbado. Anderson não sabia, mas suspeitava que Greta era de alguma maneira responsável por isso. Considerando este problema, ele tendia a vê-lo obliquamente, através de um vidro baço, como nos foi dito para observar um eclipse. Ele não queria saber da verdade se assim podia ajudá-lo.
Buddy por outro lado, apesar de possuir muitas das qualidades que faltavam ao meio-irmão, não suportava ser contrariado. Ele havia provado isso quando sob a desaprovação de seu pai, tinha ido morar em Minneapolis. Quando Anderson encontrou seu filho durante a Ação de Graças, se tornou bastante claro que Buddy não teria sucesso ao ocupar seu lugar no mais alto posto.
Anderson, na passagem da puberdade precoce para a meia idade, tinha desenvolvido um horror irracional ao adultério. Ele mesmo tinha sido um adúltero, e um dos seus filhos era o fruto de tal união. Ele tinha na verdade, negado-o de imediato e acreditara em sua negação.
Durante muito tempo parecera para ele que ninguém poderia tomar seu lugar.
Por isso teria que carregar o fardo sozinho. Seus filhos haviam mostrado fraquezas de novo, Anderson sentiu o efeito disso como um aumento em suas próprias forças. Secretamente ele prosperava em suas falhas.

Então Jeremias Orville tinha entrado em cena.
Em agosto, Anderson havia sido movido por razões obscuras e que foram (agora parecia) providas por Deus para poupar o homem. Hoje ele tremia na sua visão, como Saulo deve ter tremido quando ele percebeu que o jovem Davi iria substituí-lo e seu filho Jonathan. Anderson tentou desesperadamente negar isso e proteger seu herdeiro. (Ele sempre temeu que, como aquele rei, começaria uma guerra contra o ungido do Senhor, e seria sua derrota. A crença em predestinação tinha decididamente, algumas desvantagens.)
Aos poucos ele passou a dedicar atenção para esta sua tarefa ingrata (pois, embora ele admirasse Orville, não gostava dele), na medida que sua força e propósito o abandonava. Orville, mesmo sem saber, estava matando-o.



Era noite e eles tinham mais uma vez caminhado até à exaustão. Como Anderson era o árbitro do que constituía a exaustão, ficou evidente a todos que o velho estava desgastado: como após o equinócio primaveral, cada dia era mais curto do que o dia anterior.
O velho coçou o couro cabeludo escamoso e amaldiçoou alguma coisa que ele não conseguia se lembrar exatamente o adormeceu sem pensar em contar as cabeças. Orville, Buddy e Neil fizeram a contagem.  Orville e Buddy contaram 24. Neil, de algum modo, tinha encontrado 26.

"Mas isso não é possível", disse Buddy.
Neil foi categórico: ele contara 26. "Diabos, não posso contar, por amor de Cristo?"
Desde a partida de Greta, um mês ou quase se passara. Ninguém estava mantendo o controle do tempo.  Alguns achavam ser fevereiro, outros março. A partir das expedições à superfície só sabiam que ainda que era inverno. Eles não precisavam saber mais do que isso.
Nem toda a gente seguia junto deles. Com efeito, além de Anderson, seus dois filhos e Orville, haviam apenas outros três homens. Uma equipe base permanecera para trás, já que outros como Maryann e Alice, não podiam passar o dia rastejando através das raízes. O número daqueles que julgavam incapazes crescia diariamente até que houvessem tantos viciados como antes. Anderson fingira ignorar a situação, temendo provocar algo pior.

Anderson levara os homens pela via normal, que era marcado por cordas que Maryann tinha trançado. Não era mais possível para eles encontrar seu caminho pelo fio de Ariadne das vinhas capilares, em suas explorações tinham quebrado tantas que criaram um labirinto de suas próprias explorações.
Era perto da superfície, a cerca de sessenta graus de inclinação, que se depararam com os ratos. Primeiro foi como o zumbido de uma colméia, embora de maior frequência. O pensamento dos homens foi de que os incendiários tinham finalmente conseguido descer até eles. Quando eles se aventuravam no tubérculo pelo qual o barulho estava vindo, o murmúrio elevou-se até estridente, como se uma ária sendo transmitida no volume máximo por um sistema de som ruim.
A escuridão de aparência sólida fora do alcance da lamparina vacilou e dissolveu-se para uma tonalidade mais clara, quando milhares de ratos caíram uns sobre os outros para entrar no fruto.
As paredes da passagem eram qual uma colméia de ratos.

"Ratos!" Neil exclamou. "Não disse que tinham sido os ratos que roeram o seu caminho através da raiz até lá em cima? Eu não disse, hein? Bem, aqui estão eles. Deve haver um milhões deles."
"Se não agora, logo haverá" Orville concordou. "Eu me pergunto se estão todos no mesmo tubérculo?"
"Que diferença pode fazer?" Anderson perguntou impacientemente. "Eles nos deixaram isolados, e eu não quero a companhia deles. Parecem contentes em comer a maçã maldita cristalizada, e eu estou contente em deixá-los comer. Eles podem comer toda ela, não me importo."

Sentindo que ele tinha ido longe demais, disse em um tom mais suave: "Não há nada que possamos fazer contra um exército de ratos, em qualquer caso, eu só tenho um cartucho no revólver. Não sei para o que estou guardando-o, mas eu sei que não é para um rato."
“Eu estava pensando no futuro, Sr. Anderson. Com toda essa comida disponível e sem inimigos naturais para mantê-los aqui embaixo, esses ratos multiplicariam-se sem limites. Eles não podem ameaçar a nossa alimentação agora, mas e daqui a cerca de seis meses? Daqui a um ano?"
"Antes que o verão comece, Jeremias, nós não estaremos vivendo aqui. Os ratos são bem-vindos."
"Nós ainda estaremos dependendo dela para nos alimentar. É o único alimento, a menos que queira comer ratos. Pessoalmente eu nunca gostei do sabor. E há o próximo inverno para se pensar. Com as poucas sementes que restam para o plantio, mesmo que boas, não podemos passar outro inverno. Eu não gostaria de viver assim mais do que qualquer outro, mas é uma maneira de sobreviver. A única maneira no momento."
"Ah, isso é um monte de besteira!" Disse Neil em apoio ao pai.
Anderson parecia cansado, e a lamparina que estava segurando, a fim de examinar as perfurações da parede da passagem, baixou.
"Você está certo Jeremias. Como de costume". Seus lábios se curvaram em um sorriso de raiva, e ele balançou o pé descalço (sapatos eram demasiado preciosos para serem desperdiçados aqui), sobre um dos buracos de rato do qual dois olhos brilhantes estavam olhando fixamente para cima, examinando os examinadores.
"Bastardos" gritou. "Filhos da puta!"
Houve um guincho e uma bola de gordura peluda fez um grande arco para longe do alcance da luz do lampião. O lamento, que havia ficado um pouco mais silencioso, subiu em volume reagindo a Anderson.
Orville colocou a mão no ombro do velho. Seu corpo inteiro estava tremendo de raiva impotente.
"Senhor..." Orville disse. "Por favor".
"O bastardo me mordeu!" Reclamou Anderson.
"Não podemos nos dar ao luxo de assustá-los agora. Nossa melhor chance é..."
"Quase arrancou meu dedo do pé!" disse ele, inclinando-se para sentir a lesão. "O bastardo".
"Temos que contê-los aqui. Bloquear todas as passagens para fora desse tubérculo. Senão..."
Orville encolheu os ombros. A alternativa era clara.
"Então como vamos sair?" Neil opôs presunçosamente.
"Ah, cala a boca Neil!" Anderson disse cansado. "Com o quê?" perguntou para Orville. "Não temos nada que um rato faminto não consiga mastigar abrindo caminho em minutos."
“Temos um machado. Podemos enfraquecer as paredes das raízes, para que entrem em colapso. A pressão nessa profundidade é tremenda. Deve ser dura como o ferro, mas se pudermos raspar o suficiente nos pontos certos, a própria terra bloqueiaria as passagens. Os ratos não podem mastigar seu caminho através de basalto. Há o perigo da caverna ceder, mas acho que não vai. Um engenheiro de minas tem geralmente que evitar desabamentos, mas é um bom treino produzi-los."
"Eu vou deixar você tentar. Buddy, volte e pegue o machado e qualquer outra coisa com uma borda de corte. E mande aqueles viciados aqui em cima. Neil e o resto de vocês, espalhem-se para cada uma das entradas do tubérculo e façam o que puder para manter os ratos dentro. Eles não parecem muito ansiosos para sair, mas quando as paredes começarem a desmoronar-se... Jeremias, você vem comigo e me mostre o que quer que eu faça. Eu não entendo porque a coisa toda não vai cair sobre nossas cabeças malditas...Deus!"
"O que é?"
"Meu dedo do pé! O rato maldito arrancou um pedaço. Bem, vamos mostrar a estes bastardos!"

O extermínio dos ratos conseguiu alguma coisa. Orville atacou a primeira raiz até o ponto onde se escapava para fora, para tornar-se a casca dura dos frutos. Trabalhava muitas horas, raspando fatias finas de madeira, observando qualquer sinal de estresse que lhe daria a oportunidade de fuga, raspava um pouco mais, observava. Quando veio abaixo, não houve aviso. De repente, Orville estava no meio do trovão. Ele foi arremessado de volta para o corredor.
O tubérculo inteiro desabara sobre si mesmo.

Os homens vigilantes em outras entradas não relataram nenhum rato que escapasse, mas não tinha sido sem uma fatalidade: um homem, depois de seu almoço (Anderson insistira em que só comessem três vezes ao dia, e depois com moderação), entrara no tubérculo para pegar um punhado de polpa de frutas, exatamente no momento errado. Ele, a polpa da fruta e alguns poucos milhares de ratos seriam  transformados em um ritmo lento, geológico, em petróleo.
Uma parede de basalto nivelara com perfeição euclidiana bloqueando cada uma das entradas para o tubérculo, que tinham descido de forma rápida como uma guilhotina.
Anderson, que não estivera presente para testemunhar o evento (logo após Orville ter começado seu trabalho, ele teve  outro desmaio; vinham com maior frequência nos últimos tempos), ficou incrédulo quando lhe foi reportado. A explicação posterior de Orville não o convenceu.

"O que é Buckminster não-sei-o que tem a ver com isso? Faço uma pergunta simples, e ganho uma aula sobre cúpulas."
"É apenas uma suposição. As paredes do tubérculo tem que suportar uma pressão incrível. Buckminster Fuller foi um arquiteto, um engenheiro, se preferir, que construiu coisas que faziam exatamente isso. Ele projetou os esqueletos, você poderia dizer. Projetou-os de modo que, se a parte menor for enfraquecida, o corpo todo cede. Como quando você remove a pedra angular de um arco, exceto que todos eram peças fundamentais."
"Esta é uma boa hora para aprender sobre Buckminster Fuller, quando um homem foi morto."
"O senhor me desculpe. Compreendo que era minha responsabilidade. Eu deveria ter dado mais atenção ao assunto antes de agir."
"Isso não ajuda em nada agora. Vá procurar Alice e traga-a aqui. Eu estou com febre e a mordida do rato  dói mais a cada minuto."
É sua responsabilidade mesmo! Anderson pensou quando Orville se foi.
Bem, seria a sua responsabilidade em breve. Ele poderia convocar uma assembleia enquanto ainda tinha o seu juízo e anunciá-lo de fato. Mas isso equivaleria a sua própria abdicação. Não, ele ia dar tempo ao tempo.

Enquanto isso teve uma nova idéia, uma forma de legitimar Orville como seu herdeiro: Orville seria seu filho, seu filho mais velho, por meio de casamento. Mas recusou-se esta ideia também. Flor ainda era tão jovem, pouco mais que uma criança. Apenas alguns meses atrás, ele tinha visto ela com as outras crianças brincando no chão da Sala comum. Casamento? Ele iria conversar com Alice Nemerov sobre isso. Uma mulher sempre sabia melhor sobre esses as coisas. Anderson e Alice eram os sobreviventes de mais idade. Esse fato e a morte da esposa de Anderson, forçou-os a ter confiança um no outro.
Enquanto esperava por ela, ele massageou o seu dedo mínimo. Agora que estava dormente, a dor era proveniente do resto do pé.




Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 12) [ Download ]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ficção científica em órbita no Rio de Janeiro




Evento único no Rio de Janeiro que discute ficção científica e suas conexões com a TV, o cinema e outras mídias, o Space Blooks invade, de novo, um dos lugares mais plurais da cidade: a Blooks Livraria.

Com curadoria de Octavio Aragão, doutor em Artes Visuais (UFRJ) e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, a segunda edição do encontro traz a cidade, de novo, para o centro do universo de alienígenas, mundos paralelos e fenômenos inexplicáveis que conquista uma crescente legião de fãs.

Este ano, o Space Blooks ganhou mais uma noite e um convidado internacional: Rob Shearman, escritor britânico vencedor do World Fantasy Awards, finalista do prestigiado prêmio Hugo, e um dos roteiristas da série cult britânica Doctor Who.

“A maior parte dos seriados tem seu pé bem plantado em conceitos de Sci-Fi, vide os fenômenos Lost, Heroes, Fringe e The 4400. Mais do que o cinema, a TV é hoje o principal veículo pelo qual a ficção científica chega ao consumidor, formatando gostos e visões de futuro. Ter um roteirista do gênero e escritor premiado falando sobre seu processo de trabalho na TV inglesa será um presente para todos nós”, comemora Octavio Aragão.

A programação, claro, tem prata da casa: Lúcio Manfredi, de Dom Casmurro e Os Discos Voadores (Leya), e Pedro Vieira, de Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tara Editorial) - autores de mashups que ousaram lançar mão de obras do “bruxo do Cosme Velho” em romances polêmicos, que mexeram com o panorama literário no final do ano passado.

Além deles, Gérson Lodi-Ribeiro faz a noite de autógrafos do seu A Guardiã da Memória (Draco), no terceiro e último dia do evento. A Draco aproveita e lança, também, Space Opera, antologia com textos de diversos autores brasileiros sobre naves espaciais, alienígenas e armas futuristas.


PROGRAMAÇÃO/SERVIÇO

30/05: “Mashup de Assis” – Lúcio Manfredi, autor de Dom Casmurro e Os Discos Voadores (Leya), e Pedro Vieira, de Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tara Editorial).

31/05: “Ficção Científica na TV” – Robert Shearman, escritor britânico vencedor do World Fantasy Awards, finalista do prestigiado prêmio Hugo e um dos roteiristas da série cult britânica Doctor Who.

01/06: Lançamentos - A Guardiã da Memória, romance de Gérson Lodi-Ribeiro, e Space Opera, antologia de autores brasileiros: ambos da Editora Draco.


SPACE BLOOKS 2011
Data: 30 e 31/05 e 01/06, às 19h.
Local: Blooks Livraria – Praia de Botafogo 316, Botafogo (Unibanco Arteplex) - (21) 2559-8776
Entrada Grátis.


blooks.com.br - diariamente, durante todo o mês de maio, posts especiais sobre Sci-Fi. Às sextas-feiras, filmes.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Space:1970

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Fundo do Poço no Reino Encantado - Cory Doctorow




O escritor de ficção científica canadense Cory Doctorow, é figurinha carimbada aqui no Capacitor Fantástico.  Ele é autor, entre outros livros, do premiado 'Little Brother', que você encontra aqui, traduzido para o português com o nome 'Pequeno Irmão'.
 
Em seu site Craphound, Doctorow disponibiliza sob a licença da Creative Commons, todos seus livros gratuitamente, além de ser um incentivador de intervenções e traduções de sua obra para outros idiomas.

Lá você pode achar, por exemplo, 'Down and Out in the Magic Kingdom' traduzido para o português (excelente tradução de José Rafael de Macedo Zulio), com o singelo nome de 'O Fundo do Poço no Reino Encantado'.  Se preferir baixe a versão em formato PDF.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Black Sun




Black Sun é parada obrigatória para todos os amantes dos filmes japoneses estilo tokusatsu (monstros gigantes 'com ziper nas costas').











segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sparth









sábado, 21 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 11)






DEZ
CAINDO AOS PEDAÇOS




"Quem é seu astro de cinema favorito, Florzinha?" Greta perguntou.
"Audrey Hepburn. Eu só vi um filme dela quando eu tinha nove anos, mas ela estava maravilhosa. Não há mais filmes. Papai nunca aprovaria, eu acho."
"Papai!" Greta bufou. Arrancou um fio de polpa da fruta e baixou preguiçosamente em sua boca, amassando com a língua contra a parte de trás de seus dentes. Sentados em uma cavidade de breu na fruto, seus ouvintes não podiam vê-la fazer isso, mas era evidente que ela estava comendo novamente.
"E você, Neil? Quem é o seu favorito?“
"Charlton Heston. Eu costumava assistir a qualquer filme com ele."
"Eu também" disse Clay Kestner. "Ele e Marilyn. Vocês mais velhos se lembram de Marilyn Monroe?"
"Marilyn Monroe foi muito superestimado na minha opinião" Greta falou.
"O que você me diz sobre isso, camarada? Ei, amigo! Ainda está aqui?"
"Sim, eu ainda estou aqui. Eu nunca vi Marilyn Monroe. Foi antes do meu tempo."
"Oh, você perdeu, rapaz. Realmente perdeu."
"Eu vi Marilyn Monroe" disse Neil. "Ela não era de antes do meu tempo."
"E você ainda diz que Charlton Heston é o seu favorito?"
Clay Kestner emitiu uma risada franca, de caixeiro viajante, forte e sem graça. Anos antes, ele tinha sido meio-proprietário de um posto de gasolina.
"Oh, não sei", disse Neil nervosamente.
Greta riu também, pois Clay começou a fazer cócegas em seu pé.
"Você está todo molhado, todos vocês" disse ela ainda rindo. "Eu continuo dizendo que Kim Novak é a maior atriz que já viveu." Ela estava repetindo isso por quase quinze minutos, e parecia que ela iria dizer isso de novo.

Buddy estava entediado ao extremo. Pensou que seria melhor ficar lá trás com os outros do que ir junto com seu pai para mais uma exploração tediosa e sem propósito através das raízes do labirinto da Planta. Agora que os mantimentos foram reunidos, agora que eles tinham aprendido tudo sobre a Planta que havia para aprender, não havia nenhum motivo em perambular. E não adiantava ficar parado também. Não tinha percebido até então, que não havia nada a fazer, que escravo do trabalho ele tinha se tornado!
Levantou-se e seu cabelo (curto agora, como todos os outros) roçou o fruto. A polpa dos frutos, quando secava emaranhado ao cabelo, era pior que mordida de mosquito que não podia ser coçada.
"Onde você vai?" Greta perguntou, ofendida que seu público abandonasse no meio da sua análise sobre o charme peculiar de Kim Novak.
"Eu tenho que vomitar" disse Buddy. "Vejo vocês mais tarde".
Era uma desculpa bastante plausível. Os frutos, embora os nutrisse, possuia efeitos colaterais. Todos estavam, um mês depois (era a estimativa mais próxima), ainda sofrendo de diarréia, cólicas e dor de barriga. Buddy quase desejava ter o que vomitar: assim teria algo para fazer.
Pior que o problema do estômago eram os resfriados. Quase todo mundo sofria com estes também, e não havia outro remédio que não paciência, dormir e a vontade de recuperar-se.
Na maioria dos casos, estes eram suficientes, mas três casos de pneumonia haviam se desenvolvido, Denny Stromberg entre eles. Alice Nemerov fez o que podia fazer mas, como foi a primeira a confessar, não podia fazer grande coisa.

Buddy subiu a corda pela raiz. Aqui ele precisava andar agachado, o espaço vazio na raiz era de apenas um metro e trinta centimetros de diâmetro. Pouco a pouco, ao longo do mês passado, tinham ido para baixo algumas centenas de metros de profundidade, Orville tinha estimado pelo menos 300 metros.
Ora, o Edifício Alworth não era tão alto. Nem mesmo a Torre Foshay em Minneapolis!
Nessa profundidade, a temperatura chegava a agradáveis 21 graus.
Houve um rumor à frente.

"Quem é?" Buddy e Maryann perguntaram quase em uníssono.
"O que você está fazendo aqui?" Buddy perguntou à sua esposa, em tom ríspido.
"Fazendo mais corda, mas não me pergunte porquê. É apenas algo para fazer. Isso me mantém ocupada. Eu tenho desfiado algumas raízes, e agora estou atando-as." Ela riu baixinho. "As raizes são provavelmente mais fortes do que as cordas. Aqui, pegue minhas mãos e vou te mostrar como fazê-lo."
"Você!" Quando as mãos de Buddy tocaram a dela, ela continuava tricotando.
"Por que você quer fazer isso?"
"Como você mesmo diz, é algo para se ocupar."
Ela começou a guiar seus dedos desajeitados. "Talvez se eu me sentar atrás de você..." Sugeriu.
Mas não conseguia nem fechar os braços ao redor dela. Sua barriga estava no caminho.
"Como ele está?" Buddy perguntou. "Será que demora?"
"Ele está bem. Deve ser para qualquer dia desses."
 Funcionou como ela esperava: Buddy sentado atrás dela, apertou suas coxas contra as pernas dela, os braços peludos embaixo dos dela, apoiando-os como os braços de uma cadeira.
"Então me ensine" disse ele.

Ele era um aluno lento, não habituado a este tipo de trabalho, mas sua lentidão só fez dele um aluno mais interessante. Eles gastaram uma hora ou mais antes dele estar pronto para iniciar sua própria corda. Quando terminou, as fibras escapavam, como pedaços de fumo no cigarro feito por um novato.
De dentro do tubérculo, veio a música de riso de Greta, e depois o grave de Clay acompanhando.
Buddy não tinha desejo de voltar. Nenhum desejo de ir a qualquer lugar, exceto de volta à superfície, ao ar fresco, seu brilho, sua mudança de estações.
Maryann aparentemente, tinha pensamentos semelhantes.
"Você acha que já é o Dia da Marmota?"
"Oh, eu diria que mais uma semana. Mesmo se fôssemos até lá, onde poderíamos ver ou não o sol, duvido que ainda exista alguma marmota para procurar por sua sombra."
"Então, o aniversário de Flor deve ser hoje. Devemos lembrá-la."
"Quantos anos ela tem agora? Treze?”
"É melhor não deixá-la ouvir isso. Ela tem quatorze anos e é muito enfática sobre o assunto."
Outro som saiu da fruta: grito angustiado de uma mulher. Em seguida, um silêncio sem ecos. Buddy deixou Maryann no mesmo instante para descobrir o que tinha causado-o. Voltou em breve.
"Foi Mae Stromberg. Denny está morto. Alice Nemerov está com ela agora."
"Pneumonia?"
“Isso, ele já não conseguia mais se alimentar."
"Ah, pobrezinho."



A Planta era muito eficiente. De fato, não podiam ser batidas. Já haviam provado isso. Quanto mais você aprendia sobre o assunto, mais você deveria admirá-la.
Se você fosse o tipo que admira essas coisas.
As suas raízes, por exemplo. Eram ocas. As raízes das plantas da Terra, (o pau-brasil é comparável) são sólidas e todas de madeira. Mas para quê? A maior parte das raízes, na verdade, é  matéria morta. O único trabalho da raiz é o transporte de água e minerais até as folhas e, quando forem sintetizados em alimentos, levá-los de volta para baixo novamente. Para isso uma raiz deve manter-se rígida o suficiente para suportar a pressão constante do solo e da rocha ao redor dela. Todas essas coisas a Planta fazia muito melhor, considerando suas dimensões, mais eficiente do que as plantas da Terra.

O espaço aberto dentro da raiz permitia uma maior passagem de água, mais rápido e mais longe. As traqueídes e os vasos que conduzem a água de uma raiz comum não tem um décimo da capacidade dos capilares expansíveis que formam as teias de aranha da Planta. Do mesmo modo, as vinhas que revestem as raízes ocas podiam, em um único dia, transportar toneladas de glicose e outros materiais líquidos das folhas até os tubérculos de frutos e raízes ainda em crescimento nos níveis mais baixos. Estes estavam para o floema das plantas comuns, o que um gasoduto intercontinental está para uma mangueira de jardim.

O espaço oco dentro da raiz servia a um propósito maior: abastecer regiões inferiores da Planta com ar. Essas raízes, que se estendiam até abaixo do solo arejado, não tinham, como outras raízes, uma fonte independente do oxigênio. Ele precisava ser trazido para elas. Assim, desde as pontas de suas folhas até o mais distante broto, a Planta respirava. Era essa capacidade de variar o transporte rápido e de grande escala que tinha que ser levado em conta para a taxa de crescimento da Planta.
A Planta era econômica, não desperdiçava nada. Como suas raízes eram profundas afundando-se espessa, a Planta digeria até si mesma, formando assim o buraco no que a complexa rede de capilares e vinhas tomavam forma. A madeira que não era mais necessária para manter um exoesqueleto rígido virava alimento.
Mas a economia fundamental da Planta, sua excelência final, não consistia em nenhuma dessas características parciais, mas sim no fato de que todas as Plantas serem uma só Planta.
Como alguns insetos têm em sua organização social, conquistar seus membros individuais teria sido impossível, de modo que as plantas, formavam um todo único e indivisível, aumentando sua potência efetiva exponencialmente. Os materiais que não estavam disponíveis para um, poderiam para outro ser supérfluo. Água, minerais, ar, alimentos, tudo era compartilhado no espírito do verdadeiro comunismo: de acordo com sua capacidade e sua necessidade.
Os recursos de um continente inteiro estavam à sua disposição.

O mecanismo pelo qual ocorria a socialização das Plantas individuais era muito simples.
Assim como as raízes, o primeiro ramo brotado da raiz primária vertical,movia-se por uma espécie de tropismo comum em direção às raízes parentes de outras plantas. Quando se reconheciam, se fundiam. Quando estavam indissoluvelmente mescladas, se separaram, buscando a união em um nível mais profundo.
Muitos se tornando um.
Você tinha que admirar a Planta. Era realmente uma coisa muito bonita, se olhasse para ela de forma objetiva, como por exemplo, Jeremias Orville olhava.
Claro, tivera vantagens que outras plantas não tinham tido. Não tivera que evoluir por si mesma. Também foi muito bem cuidada. Mesmo assim, ocorreram pragas. Mas que estavam sendo cuidadas. Esta era afinal, apenas sua primeira temporada na Terra.



Quando Anderson, Orville e os outros homens (aqueles que tinham se oferecido em colaborar) retornaram da exploração profunda na Planta, Mae Stromberg já havia desaparecido com o cadáver do filho. Em suas últimas horas com o menino, ela não havia dito uma palavra ou chorou uma lágrima, e quando ele morreu, ela enlouqueceu. A perda do marido e da filha tinha se dado com muito menos calma, ela sentia talvez, que poderia se dar ao luxo de perdê-los, poderia pagar por isso e lamentar posteriormente. Angústia é um luxo. Agora ela era só pesar.
Haviam 29 pessoas sem contar Mae Stromberg. Anderson chamou-os para uma assembléia de imediato.
Dos 29, apenas duas mulheres com pneumonia e Alice Nemerov estavam ausentes.
"Tenho medo" Anderson começou, depois de uma breve oração, "de estarmos caindo aos pedaços."
Havia alguma tosse e um arrastar de pés. Ele aguardou, e em seguida, continuou:
"Não posso culpar ninguém aqui por Mae ter fugido. Eu não posso culpar Mae também. Mas aqueles de nós que foram poupados deste último golpe e guiados pela Divina Providência, aqui, aqueles de nós, isto é...".
Ele parou emaranhado em suas próprias palavras, algo que acontecia com ele cada vez mais.
Ele apertou a mão à testa e respirou fundo.
"O que eu quero dizer é isto: Nós não podemos apenas comer leite e mel. Há trabalho a ser feito. Temos de nos fortalecer para o que vem à frente, e...isto é, não devemos deixar-nos espairecer. Eu tenho ido mais para baixo nesses túneis infernais e descobri que a fruta lá é melhor. Menor e mais firme, menos doce. Eu também descobri que há menos oxigênio... Quero dizer que estamos nos transformando em um bando de...qual era a palavra?"
"Viciados" Orville, disse.
"Um bando de viciados. Exatamente. Agora isso deve parar" Ele bateu a palma da mão com o punho cerrado em ênfase.
Greta, que levantara sua mão durante a segunda parte do discurso, enfim falou sem esperar permissão:
"Posso fazer uma pergunta?"
"O que é Greta?
"Que trabalho? Eu simplesmente não consigo ver o que é que estamos negligenciando."
"Bem, nós não temos feito o trabalho, menina. Isso é fácil de ver."
"Não respondeu a minha pergunta."
Anderson ficou horrorizado com a desfaçatez dela. Dois meses atrás, poderia ter tido apedrejada como uma adúltera, e agora a prostituta exibia seu orgulho e rebeldia para que todos vissem.
Ele deveria ter respondido com um golpe. Ele deveria ter domado seu orgulho, ela tinha agido como uma meretriz com o irmão de seu marido. Não ter reagido ao desafio era uma fraqueza, e todos puderam ver isso também.
Depois de um longo silêncio, ele retornou ao seu discurso como se não tivesse havido nenhuma interrupção.
"Nós temos que combater a letargia! Não podemos parar. Vamos nos manter em movimento a partir de agora. Todo dia. Não vamos sentar. Nós vamos explorar."
"Não há nada para explorar, Sr. Anderson. E por que deveríamos passar todos os dias explorando? Por que não limpar um lugar que é confortável e viver lá? Há comida suficiente em apenas uma dessas batatas grandes."
"Chega! Isso é o bastante Greta! Eu já disse tudo o que eu vou fazer. Amanhã!"
Greta se levantou, mas ao invés de avançar para a luz do lampião, ela se afastou.
"Não! Eu estou farta e cansada de receber ordens como um escravo. Eu já tive o suficiente, eu estou indo embora! Mae Stromberg fez a coisa certa!"
"Sente-se Greta!" o velho ordenou estridente. "Sente-se e cale a boca."
"Não mesmo. Não mais. Estou indo embora. Chega. De agora em diante, eu farei o que quiser e qualquer um que quiser vir é bem-vindo."
Anderson puxou da pistola e apontou para a figura sombria fora da luz da lamparina.
"Neil, você deve dizer para sua esposa se sentar. Ou vou matá-la. E vou atirar para matar, por Deus, eu vou!"
"Senta Greta!" Neil pediu.
"Não vai atirar em mim e quer saber por que você não vai atirar em mim? Porque eu estou grávida. Não iria matar seu próprio neto agora, iria? E não há dúvida de que ele é seu neto."
Era uma mentira, uma mentira completa, mas serviu ao seu propósito.
"Meu neto?” Anderson repetiu espantado. "Meu neto!"
Ele virou a Python para Buddy.
Sua mão tremia com raiva ou simplesmente com uma enfermidade, não se podia dizer.
"Não fui eu!" Desabafou Buddy. "Eu juro que não fui eu."
Greta tinha desaparecido na escuridão, e três homens sairam correndo atrás, ansiosos para segui-la. Anderson disparou quatro tiros mirando as costas de um dos homens. Então, totalmente exaurido, sem sentidos, caiu sobre a lamparina que apagou-se. Extinguiu-se.
O homem que ele havia matado fora Clay Kestner. A quarta bala, passando pelo peito de Clay, tinha perfurado o cérebro de uma mulher que pulou em pânico reagindo ao primeiro disparo de Anderson.
Haviam agora 24 deles, sem contar com Greta e os dois homens que se foram com ela.




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terça-feira, 17 de maio de 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Monsters



Assim como Splice, Monsters passou pelas nossas videolocadoras (ainda existem?) e salas de cinema, sem despertar a merecida atenção.

Na onda de filmes de baixo orçamento, mas de produção caprichada, o primeiro longa do diretor Gareth Edwards (com locações em Belize, Guatemala e México) não conta com nenhuma estrela no reduzido elenco, mas vem com um roteiro delicado e de condução idem, que irá decepcionar aquele desavisado que espera assistir outro filme pegajoso de alienígenas gosmentos e mocinhas histéricas.

A história é surpreendentemente simples.




Seis anos atrás, a NASA descobriu vida alienígena em nosso sistema solar. Uma sonda foi lançada para coletar amostras, mas ao voltar caiu na América Central. Logo novas formas de vida começaram a surgir. Em um esforço para conter a contaminação, metade do México foi colocado em quarentena, como uma zona infectada. Militares americanos e mexicanos lutam para tentar conter as criaturas.


A história começa quando um jornalista, cínico e sem esperança, concorda em escoltar uma jovem turista (prestes a embarcar em um casamento sem paixão) através da zona infectada no México até a segurança da fronteira dos EUA.


Lá pela metade do filme, fica claro que o filme não é sobre monstros (que igual a Cloverfield raramente são vistos) mas sobre nós, seres humanos, e que os monstros (eles existem) na verdade são outros.

Site oficial.

domingo, 15 de maio de 2011

Marion Zimmer Bradley




Marion Eleanor Zimmer Bradley (03 de junho de 1930 - 25 de setembro de 1999) nasceu em uma fazenda em Albany, Nova York (EUA), durante a Grande Depressão.

Escritora feminista prolífica de romances de fantasia heroica, mistério, western, fantasia gótica e ficção científica, começou a escrever aos 19 anos e vendeu seu primeiro conto aos 22 anos.

Em 1965 graduou-se Bachelor of Arts pela Universidade de Hardin Simmons em Abilene, no Texas. Depois, mudou-se para Berkeley, Califórnia, para prosseguir seus estudos de pós-graduação na Universidade da Califórnia.

Em romances como 'As Brumas de Avalon', MZB, como é conhecida graças ao seu amigo e editor Donald A. Wollheim, era uma incentivadora constante da igualdade entre os sexos. Suas histórias de fantasia apresentavam heroínas não-tradicionais para os jovens leitores e principalmente jovens escritoras com quem se relacionava como uma grande família, em sua casa em Berkeley.

'As Brumas de Avalon', permaneceram durante três meses na lista de livros mais vendidos do The New York Times.

Confundida e questionada muitas vezes quanto aos seus envolvimentos com a feitiçaria Wicca, ela declarou que para ser uma escritora de fantasia, necessitava conhecer em profundidade outros campos como psicologia, parapsicologia, mitologia, religiões, para trazer autenticidade ao seu trabalho.

Sua série de ficção científica com toques de fantasia, 'Darkover', foi um grande sucesso no mundo inteiro. Trata-se da saga da humanidade criando uma nova civilização num mundo estranho, diferente de tudo o que jamais existiu na Terra. Cada livro constitui uma história completa e independente, sendo que o conjunto relatava o desenvolvimento de uma sociedade nova e fascinante. Ela escreveu sozinha a primeira parte da série e mais tarde em colaboração com outros autores.

MZB estava sempre incentivando a participação de novos escritores a partir de seu trabalho. 'A sacerdotisa de Avalon' por exemplo, é uma obra póstuma de Marion Zimmer Bradley, concluída por sua colaboradora, Diana L. Paxson.

Em 2000, MZB recebeu o prêmio póstumo The World Fantasy Award pelo conjunto de sua obra.



Marion Zimmer Bradley ( A queda da Atlântida, Avalon, As Brumas de Avalon, Clingfire trilogy, Darkover, Sword and sorceress, Witchlight, Dos para conquistar, El trillium negro, La antorcha, Viaje interminable, Brass Dragon, Endless Universe, Falcons of Narabedia, The Spell Sword, Ghostlight, Hunters of the red moon, Lythande, The Best Of MZB, The catch trap, The Dark Intruder & other stories, The Fall of Atlantis, The ruins of Isis, The Stars are waiting, Lady of the Trillium, Glenhaven ) [ Download ]

sábado, 14 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 10)



NOVE
OS VERMES PASTARÃO DOCEMENTE


Quando eles se aventuram para baixo na raiz nova, sete metros abaixo (onde como Orville havia prometido, era razoavelmente mais quente), chegaram a uma espécie de encruzilhada. Haviam três novos ramos para escolher, cada um tão cômodo como aquele através do qual eles estavam viajando. Dois descendentes, com raízes adequadas, embora na frente seguissem perpendicular à direita e à esquerda da principal, e o outro direto para cima.

"Isso é estranho" Buddy observou. "Raízes não sobem."
"Como você sabe que está subindo?" Orville perguntou.
“É só olhar. Está subindo. Para cima é…para cima. O oposto de para baixo.”
"Este é o ponto. Nós estamos olhando para a raiz de cima, que pode estar sob nós, crescendo de outra planta, talvez."
"Você quer dizer que essa coisa poderia ser apenas uma única grande Planta?" Anderson perguntou, entrando no círculo de luz da lamparina, carrancudo. Ele se ressentia de cada atributo adicional da Planta, mesmo aqueles que serviriam ao seu propósito.
"Todas ligadas aqui em baixo desse jeito?"
"Há um modo de descobrir, senhor, seguir a raiz. Se nos levar para outra raiz primária..."
"Nós não temos tempo para brincar de escoteiros. Não até que tenhamos encontrado o material que caiu por este buraco. Será que vamos chegar até eles desta maneira? Ou será que temos de recuar e descer a raiz principal pela corda?"
"Eu não saberia dizer. Desta forma é mais fácil, mais rápido e, no momento, mais seguro. Se as raízes se juntam como esta, talvez possamos encontrar um outro caminho de volta para a raiz principal mais para baixo. Então, eu diria que..."
"Eu direi" disse Anderson, retomando de alguma forma sua autoridade.

Buddy foi enviado à frente com a lamparina em uma ponta da corda, os outros trinta
seguiram depois, em fila indiana. Anderson e Orville na retaguarda, tendo somente os sons à frente para orientá-los: e tanto a luz e a corda não iam tão longe.
Mas havia uma plenitude de som: o arrastar dos pés sobre os galhos, os palavrões, Denny Stromberg chorando. Por vezes Greta perguntava nas trevas: "Onde estamos?" ou "Onde diabos estamos?" Mas isso era apenas um ruído entre muitos outros.
As trinta e uma pessoas que se deslocavam através da raiz estavam ainda bastante chocados. A corda que seguravam era sua motivação e vontade.
Anderson tropeçava nas raízes. Orville colocou um braço em volta da cintura do homem velho para firmá-lo. Anderson arrancou-o com raiva.
"Acha que estou sou algum tipo de inválido?" disse. "Sai daqui!"
Mas da próxima vez que tropeçou,  foi de cabeça ao chão áspero, arranhando seu rosto. Levantando-se, teve uma vertigem e teria caído novamente sem a ajuda de Orville. Apesar de tudo, ele sentiu uma pontada de gratidão para o braço que lhe segurara.
Na escuridão, ele não podia ver Orville sorrindo.

O trajeto seguia para baixo com a raiz, passando por dois cruzamentos como aquele acima. Ambas as vezes Buddy virou à esquerda, de modo que desciam em espiral.
O oco da raiz não deu nenhum sinal de diminuir. Não havia perigo de perder-se, já que o rendado do interior da raiz era uma trilha inconfundível através do labirinto.
Um tumulto na frente da fila os obrigou a parar. Anderson e Orville abriram caminho para a frente.
Buddy entregou a luz a seu pai.

"É um beco sem saída", anunciou. "Vamos ter que voltar por onde viemos."
A raiz oca era larga neste ponto,  mas a teia se raízes preenchia-a de forma condensada. Em vez de quebrar sob a força da golpe de Anderson, que arrancou em punhados, parecia tecido podre. Anderson pressionou uma dessas peças entre as mãos. Era feito o algodão doce e rosa das festas.
 "Vamos avançar através dessa coisa", anunciou Anderson. Ele deu um passo para trás, em seguida, jogou o seu ombro, como um jogador de futebol americano atacando-a. Seu impulso valeu-lhe  dois metros e meio à frente. Então, já que não havia nada sólido sob seus pés, ele começou lentamente a afundar.  Sob seu peso, o algodão doce cedeu. Buddy esticou o braço para frente, e Anderson foi capaz apenas de agarrar a ponta dos dedos. Anderson puxou Buddy para aquilo com ele. Buddy, caindo em uma posição horizontal, serviu como um pára-quedas, e afundaram mais lentamente até parar de todo, em segurança, alguns metros abaixo.

Assim que caíram, um cheiro doce e forte, como de frutas podres, encheu o ar.
Orville foi o primeiro a perceber a boa sorte. Ele agarrou um pedaço da massa densa e a mordeu. Pode sentir o sabor anis característico da Planta, mas havia além disso uma plenitude e doçura, uma satisfação, que era nova. Sua língua reconheceu antes de sua mente e quis mais. Não, não apenas a língua, a barriga dele. Cada célula do seu corpo desnutrido quis mais.

"Atira-nos a corda” Anderson gritou com voz rouca. Ele não estava ferido, mas abalado.
Em vez de jogar a corda, Orville, com um grito de felicidade, despreocupado, mergulhou na massa sedosa. Assim que foi engolido em sua escuridão, ele se dirigiu ao velho e disse:

"Suas orações foram atendidas, senhor. Nos conduziu através do Mar Vermelho, e agora o Senhor está nos alimentando do maná. Prove isso! Nós não temos que nos preocupar com os mantimentos. Este é o fruto das Plantas. Este é o maná do céu."

No tumulto breve sobre a borda, Mae Stromberg torceu seu tornozelo. Anderson sabia manter sua autoridade contra a fome cruel. Ele hesitou em comer a fruta, pois poderia ser venenosa, mas precisava de seu corpo tenso contra uma vontade por demais cuidadosa. Se o resto deles iria ser envenenado, ele poderia muito bem se juntar a eles.
Tinha um gosto bom.  Sim, pensou, deve parecer como um maná para eles. E assim que o fio açucarado condensou na língua em gotas de mel, ele odiou a Planta por parecer tão amiga deles e sua libertadora.
Por fazer o seu veneno tão delicioso.
Aos seus pés a lamparina queimava brilhante. O piso, apesar de forte o suficiente para segurá-lo, não era sólido. Ele tirou a faca do bolso, e cortou uma fatia da substância mais sólida do fruto. Era crocante como uma batata de Idaho, e suculenta. Tinha um ácido mais brando e menos gosto. Ele cortou um outro pedaço. Ele não conseguia parar de comer.
Ao redor de Anderson, fora do alcance da luz, estavam os cidadãos de Tassel (mas ainda haveria uma Tassel da qual eles pudessem ser chamados de cidadãos?)  fungavam e comiam como porcos em um cocho. A maioria deles não se preocupou em arrancar nacos adequados, mas empurravam cegamente em sua boca, mordendo seus próprios dedos e engasgando na sua pressa gananciosa. A polpa se aderiu às suas roupas e seus cabelos emaranhados. Prendia-se aos cílios de seus olhos fechados.
Uma figura de pé avançou para a esfera da luz da lamparina. Era Orville Jeremiah.

"Sinto muito", disse ele, "se eu comecei tudo isso. Eu não deveria ter falado. Eu deveria ter esperado  você dizer o que fazer. Eu não estava pensando direito."
"Está tudo bem" Anderson garantiu-lhe, com a boca cheia de frutas semi-mastigada. "Teria acontecido mesmo, não importa o que você fez. Ou o que eu fiz."
Orville sentou ao lado do homem mais velho.
"Pela manhã..." Começou a dizer.
"Manhã? Dever ser manhã agora."
De fato, eles não tinham como saber. Os únicos relógios que funcionavam, um alarme m relógio, e dois relógios de pulso, eram mantidos em uma caixa na Sala Comum por segurança.
Ninguém ao escapar do fogo tinha pensado em resgatar a caixa.
"Bem, quando todos estiverem alimentados e depois de dormir um pouco, foi o que eu quis dizer, então você pode prepará-los para o trabalho. Perdemos uma batalha, mas ainda há uma guerra para lutar."

O tom de Orville foi educadamente otimista mas Anderson achou-o opressivo. Ter chegado a um santuário depois de um desastre não apagava a memória do desastre. De fato, Anderson, só agora  tinha parado de lutar contra isso, para ter o reconhecimento da magnitude.
"Que trabalho?" perguntou, cuspindo o resto do fruto.
"Qualquer trabalho que você disser, senhor. Explorar. Limpar um espaço aqui embaixo para se viver Voltar à raiz principal para recuperar os suprimentos que cairam por lá. Logo, você pode até enviar um olheiro para ver se algo se salvou do fogo."

Anderson não respondeu. Mau humorado reconheceu que Orville estava certo. Mau humorado admirou a sua desenvoltura, assim como, vinte anos antes, ele poderia ter admirado o estilo de luta de um oponente em uma briga no Red Fox Tavern. Embora Anderson achasse seu estilo um pouco extravagante, você tinha que dar crédito pelo bastardo se manter em pé.
Foi estranho, mas todo o corpo de Anderson ficou tenso, como se para uma luta, como se tivesse bebido.
Orville estava dizendo alguma coisa.
"...o que... você disse?" Anderson perguntou em tom zombeteiro. Ele esperava que fosse algo que lhe daria uma desculpa para arrebentar a cara dele, maldito pilantra inteligente.
"Eu disse que estou muito triste por sua esposa. Eu não consigo entender por que ela fez aquilo. Eu sei como você deve estar se sentindo."

Os punhos de Anderson se estenderam, a mandíbula fechou. Sentiu a pressão das lágrimas por detrás de seus olhos, a pressão que estava lá o tempo todo, mas sabia que não podia dar ao luxo de deixa-las sair. Ele não podia demonstrar a menor fraqueza.

"Obrigado", disse. Em seguida, cortou um outro pedaço sólido em cunha da fruta suculenta, dividiu-o em dois, e deu uma parte a Jeremias, Orville.

"Você se saiu bem esta noite", disse ele. "Eu não vou esquecê-lo."
Orville deixou-o com seus pensamentos, quaisquer que fossem e foi à procura de Flor.
Anderson, sozinho, pensava em sua esposa com uma tristeza, dura e muda. Não podia entender por que ela tinha, como ele achava, cometido suicídio. Ele nunca saberia, ninguém saberia, que ela tinha voltado pelo seu próprio bem. Ele ainda não tinha lembrado da Bíblia que tinha sido deixada para trás, e, mais tarde, quando lembrasse, ele iria se arrepender, nem mais nem menos, do que a morte de Gracie ou das centenas de outras perdas irremediáveis que tinha sofrido. Mas a Senhora tinha previsto com bastante precisão que, sem um artefato, no qual ela mesma não tinha fé, sem a sanção que emprestou a sua autoridade, o velho seria despojado, e que a sua força, a tanto tempo preservada, em breve entraria em colapso, como um telhado quando as madeiras estão podres.
Mas ela não tinha conseguudo, e seu fracasso nunca seria compreendido.


Mais do que o apetite, as pessoas exigiam por satisfação naquela noite. Saciados pelo alimento,  homens e mulheres, sentiam uma fome insaciável que o restrito código da Sala Comum  havia tanto tempo lhes negado. Ali, no calor e na escuridão, tal código não teria vez. Em seu lugar, a democracia perfeita do carnaval se proclamou, a liberdade reinou durante uma breve hora.
Mãos acariciando, como que por acidente outras mãos. A morte não teve escrúpulos para escolher maridos e mulheres, e nem eles. Linguas se limparam da doçura pegajosa de lábios encontrando outras línguas e se beijando.

"Eles estão bêbados" Alice Nemerov declarou de forma inequívoca.
Ela, Maryann e Flor sentaram-se em separado numa depressão escavada a partir da polpa da fruta, ouvindo, tentando não ouvir. Embora cada casal tentasse observar um silêncio decoroso, o efeito acumulativo era inconfundível, mesmo para Flor.
“Bêbados? Como pode?" Maryann perguntou. Ela não queria falar, mas a conversa foi a única defesa contra os sons voluptuosos das trevas. Falar e ouvir Alice falar, não ouviria os suspiros, os sussurros ou pensaria qual seria de seu marido.
"Estamos todos bêbados, minhas queridas. Bêbados de oxigênio. Mesmo com este fruto fedorento, eu sei como uma tenda de oxigênio cheira.”
"Eu não sinto cheiro de nada" disse Maryann.
Era verdade: seu resfriado havia atingido o estágio em que ela não podia mais sentir o cheiro adocicado da fruta.
"Eu trabalhei em um hospital, não? Então, eu devo saber. Meus queridos, estamos todos altos que nem pipas".
"Alta como a bandeira no quatro de julho" Flor disse. Ela realmente não se importava em estar bêbada, se fosse assim. Flutuante. Ela queria cantar, mas percebeu que não era a coisa certa a fazer. Agora não. Mas a canção, uma vez iniciada e mantida dentro de sua cabeça não faria mal:

Estou apaixonada, apaixonada, estou apaixonada, estou apaixonada, estou apaixonada por um rapaz maravilhoso.

"Shhh!" Alice fez.
"Desculpe-me!" Flor disse com uma risadinha. Talvez a música não tinha afinal sido totalmente dentro de sua cabeça. Então, porque sabia que era a coisa certa a fazer, quando embriagada, soluçou, graciosa, pressionado delicadamente as pontas dos dedos nos lábios. Então arrotou o gás em seu estômago.
"Está tudo bem, querida?" Alice perguntou, colocando a mão sobre o ventre cheio de Maryann. "Quero dizer, com tudo o que aconteceu..."
"Sim. Vê! Ele se mexeu!"

A conversa morreu, e o som recomeçou. Agora era um som irritante e persistente, como o zumbido de uma abelha. Maryann sacudiu a cabeça, mas o zumbido não parou.
"Ohhhh!" ela ofegou. "Ohhh!"
Alice acalmou-a.
"Quem você acha que está com ele?” Maryann desabafou.
"Por que você está brava sem nenhum motivo" disse Flor. "Ele provavelmente está com o papai e Orville."
A convicção de Flor quase balançou Maryann. Era possível. Uma hora atrás (Ou menos? Ou mais?) Orville tinha procurado Flor e explicado que ele estava levando seu pai (que, naturalmente, estava muito chateado) para um local mais privado, longe dos outros. Ele tinha encontrado um caminho para uma outra raiz, uma raiz enterrada ainda mais fundo na terra. Será que Flor queria ir lá com ele? Ou talvez preferiu ficar com as mulheres?
Alice pensou que Flor preferia ficar com as garotas no momento. Ela iria morar com o pai mais tarde, se quisesse.
Com a partida de Anderson foi-se a lamparina, tinha sido a deixa para tudo o que se seguiu.
Uma mão se estendeu das trevas e tocou a coxa de Flor. A mão de Orville! Não podia ser outro. Ela tomou a mão e apertou-a nos lábios. Não era a mão de Orville. Ela gritou. No mesmo instante, Alice pegou o intruso pela nuca. Ele gritou.
"Neil" exclamou ela. "Pelo amor de Deus! Esta é a sua irmã, seu idiota! Agora, saia! Vá procurar Greta .. Ou, por outro lado, talvez melhor não."
"Cale a boca!" Neil gritou. "Você não é minha mãe!"
Ela finalmente empurrou Neil para longe. Então deitou a cabeça no colo da Flor.
"Bêbado" ela repreendeu sonolenta. "Absolutamente bêbado."
Então começou a roncar. Em poucos minutos, Flor dormiu também e sonhou e acordou com um grito.
"O que é isso?" Maryann perguntou.
"Nada, foi só um sonho", disse Flor. "Você não estava dormindo?"
“Eu não posso."
Apesar de estar tranquilo agora, Maryann ainda ouvia com atenção. O que ela mais temia era que Neil encontrasse sua esposa. E Buddy. Juntos.


Buddy acordou. Ainda estava escuro. Seria sempre escuro daqui em diante.
Havia uma mulher ao lado dele, a quem ele tocou, apesar de não acordá-la. Não era nem Greta nem Maryann, ele reuniu suas roupas e se esgueirou para longe.
Pedaços da polpa pegajosa estavam agarrados em suas costas nuas e nos ombros, derretidos, desagradavelmente.
Ele ainda sentia a embriaguez. Bêbado e exaurido.
Orville tinha uma palavra para isso – qual era mesmo?
Desinchado.
O líquido escorrendo granulado pela sua pele nua, fê-lo tremer. Mas não de frio. Embora estivesse frio, chegou a pensar nisso.
Rastejando em frente com as mãos e os joelhos, ele encontrou outro casal dormindo.
"O quê?" disse a mulher. Ela soou como Greta. Não importa. Ele rastejou para outro lugar.
Encontrou um onde a polpa não tinha sido perturbada e recostou-se. Uma vez que você se acostumava com a sensação pegajosa, era bastante confortável: macio, quente, aconchegante.
Ele queria luz: a luz solar, da lamparina, mesmo a luz, vermelha instável da queima da noite passada. Algo na situação atual o horrorizava de uma forma que ele não entendia, não podia definir.
Era mais do que as trevas.
Ele pensou sobre isso e assim que caiu no sono novamente, a coisa veio até ele:
Vermes.
Eles eram vermes rastejando através de uma maçã.



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sexta-feira, 13 de maio de 2011

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