quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Monster Island News

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

GOJIRA !!



Não, não se trata da banda de metal rock francesa, mas do nosso monstrengo favorito, GODZILA !!

Dois blogs imprescindíveis para se manter atualizado sobre as últimas do lagartão radioativo.





terça-feira, 27 de setembro de 2011

Japanese Science Fiction: A view of a changing society



Prefácio do Editor

De quase imperceptivelmente durante a década de 1980, o Japão tornou-se notícia nas décadas seguintes.
O sucesso da economia japonesa e da engenhosidade do seu povo têm sido amplamente apreciados no exterior.

O que é novo é a consciência de seu impacto cada vez maior no mundo exterior. Isso tende a produzir um ajuste de reações desconfortáveis. Também muitas vezes leva a estereótipos baseados em informações desatualizadas ou preconceitos.

A Nissan Institute/Routledge visa favorecer uma compreensão atual e equilibrada, mas não acrítica, do Japão. Um dos objetivos da série é mostrar a profundidade e a variedade de práticas e idéias japonesas.
Outro é, usando de comparação, ver que lições, positivas e negativas, podem servir para outros países.

Há muitos aspectos do Japão que são pouco conhecidos fora desse país, mas que merecem ser melhor compreendidos.

Uma maneira fascinante de estudar um povo é estudá-lo através das suas próprias fantasias, de sua literatura.
A ficção científica, como no Japão e em outros lugares, destina-se principalmente ao entretenimento, mas consegue revelar muito sobre ansiedades nacionais, preocupações, traumas e aspirações.

A ficção científica japonesa é pouco conhecida no Ocidente, em grande parte, sem dúvida, porque pouco dela tem sido traduzida para o inglês e outras línguas ocidentais.

Neste amplo e sensível livro, o autor introduz ao leitor ocidental o trabalho de escritores de ficção científica que transmitem muito sobre a mente do Japão, a psique coletiva de uma nação submetida aos horrores da bomba atômica, a viver sob pressão em um ambiente altamente tecnológico coletivista, sem quase nenhum recurso natural, e a residir em condições superlotadas e de se submeter à ameaça sempre presente de
tufões, terremotos e incêndios.

Além do interesse sociológico, o autor também mostra que os escritores de ficção científica japonesa são capazes de contar boas histórias.





Contents

General editor’s preface 
Author’s preface 
Introduction 

Part One The origins of Japanese science fiction

1 The beginnings 

2 The period of development 

Part Two The concerns of a changing society

3 The jaded Japanese

4 Advertising and the media 

5 Economics and commerce 

Money
Competition and the drive for success
International aspects of Japanese commercialism 
Motivation of companies 
The insurance industry 

6 Human concerns and values 

Warnings against materialism 
Pollution and conservation 
Animal training and experiments 

7 Consciousness of generational change 

Generational changes in attitudes towards the work ethic
Intergenerational relations 
The upbringing of the young 

8 Sex 

Part Three Matters of the mind and spirit

9 Moral values, ethics, and religious beliefs 

Japanese gods 
The limitation of divine powers 
Pragmatism 
Western religious influences in Japanese science fiction
References to Buddhism

10 The psyche, perception, and emotion 

Psychological stress 
Personality and perception 
Human desires and emotions 
Restraints 

Part Four The consequences of change

11 Some socio-psychological considerations 

Fear of excessive regimentation
Alienation

12 Post-war political and politico-moral attitudes 

13 War and the bomb 

14 International relations and future directions

Notes and references 
Index  



Japanese Science Fiction: A view of a changing society [ Download ]

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Zombie Reporting Center




Zombie Reporting Center é uma comunidade dedicada aos últimos acontecimentos no mundo dos mortos vivos. Lá é possível encontrar resenhas, links, listas, posters, galerias de imagens, lançamentos, eventos e convenções, games e ainda é possível assistir filmes online.




domingo, 25 de setembro de 2011

Giger's Alien









Giger's Alien [ Download ]

sábado, 24 de setembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 7)






 IV


À medida que o sol, ainda invisível, subia no céu, a cor vermelho-sangue do ar clareava. Reduzira-se, agora, a um amarelo-ocre ao invés do brilhante-dourado da Terra Mas, de qualquer maneira, era um progresso.
A tempestade amainara de certo modo, e o pó onipotente começava a assentar.
Pela primeira vez, os três viajantes, cansados de andar a pé, podiam ver um pouco mais longe. Estava subindo já há algum tempo. O terreno era ainda em aclive, mas, à exceção de uns poucos pilares isolados de basalto, compunha-se da mesma lava uniforme. Havia, por vezes, saliências, mas a maior parte delas já tivera as arestas adoçadas por éons de vento incessante e pela abrasão das partículas nele suspensas.

Kane ia na vanguarda, um pouco à frente de Lambert. A todo minuto esperava que ela lhe anunciasse haver captado de novo o sinal. Chegou a uma crista e olhou para a outra vertente, contando ver o mesmo que tinham visto até então: rocha lisa e mais subida.
Ao invés disso, os olhos dele deram com algo tão inesperado que se arregalaram por detrás do visor, sujo, é verdade, mas ainda transparente do capacete.
De tão inesperado, gritou no pick-up:

— JESUS CRISTO!

— O que foi? O que aconte... — começou Lambert, que o alcançara antes de Dallas. Ambos ficaram tão chocados quanto Kane.

Tinham sempre assumido que o sinal fosse gerado por um mecanismo de alguma espécie, mas nenhuma imagem do transmissor se formara na sua mente até aquele momento, ocupados que estavam com a tempestade e com a necessidade elementar de não se desgarrarem uns dos outros. Confrontados, porém, com a verdadeira fonte do som — muito mais impressionante do que qualquer dos três havia imaginado — sua impassibilidade de cientista evaporou-se temporariamente.

Era uma nave. Relativamente intacta e mais alienígena do que teriam podido pensar. Dallas não classificaria seu aspecto como horripilante; mas tinha algo de perturbador, o que era inesperado num engenho daqueles, produto de fria tecnologia mecânica. As linhas do maciço destroço eram puras, mas insólitas, e comunicavam ao conjunto uma anormalidade inquietante.

Dominava-os e às rochas em que jazia com suas proporções desmesuradas.
Tanto quanto podiam ver aterrissara do mesmo modo que o Nostromo, de ventre no chão. Basicamente, tinha a forma de um gigantesco U metálico, mas as pontas do U inclinavam-se ligeiramente para dentro. Uma delas era menor e mais inclinada que a outra. Se isso era produto de avaria ou de alguma estranha concepção de bom gosto e simetria, não tinham maneira de saber.

Chegando mais perto, viram que o corpo da nave engrossava na base do U, onde havia uma série de protuberâncias concêntricas, que eram como grossas placas coroadas por um domo. Dallas concluiu que as pontas do crescente continham as seções de propulsão e engenharia, e a parte central as acomodações da tripulação, talvez o depósito de carga, e a ponte. Mas tanto podia ser assim, como o contrário.

A astronave jazia silente e apagada, sem qualquer mostra de vida ou atividade.
Exceto o sinal que, assim tão próximo, fizera-se ensurdecedor.
Todos três se deram pressa em reduzir o volume dos receptores nos capacetes.
Fosse qual fosse o metal do casco, brilhava, na luz agora mais intensa do dia, com um estranho fulgor vítreo que nenhuma liga feita por mão de homem era capaz de irradiar. Dallas não estava sequer convencido de que fosse mesmo metal. Uma primeira inspeção sumária não revelara nada que se parecesse solda, rebite ou sutura nem qualquer outro método de unir placas ou seções. A nave dava mais a impressão de uma coisa nascida que de um objeto manufaturado.
O que era bizarro, naturalmente. Porque, abstraindo-se o método de construção, tratava-se indiscutivelmente de um engenho espacial.

Tão pasmos haviam ficado com o surpreendente aspecto da nave que não lhes ocorreu pensar o que valeria em bônus ou como coisa salvada de naufrágio.
Falavam ao mesmo tempo, aos gritos, nos seus respectivos pick-ups.
Kane repetia idiotamente:
— É uma nave, sem dúvida nenhuma, uma nave!
Lambert estudou o brilho peculiar, quase molhado dos flancos da aeronave, a ausência de características externas familiares, e sacudiu a cabeça, assombrada.
— Você tem certeza? Talvez seja uma estrutura local. É tão estranho...
— Não — disse Kane, com a atenção posta nas duas extremidades gêmeas que formavam a retaguarda do veículo. — A coisa não é fixa. Mesmo levando em conta a eventual peculiaridade de uma arquitetura alienígena, é claro que isso não foi concebido para integrar-se na paisagem. É, seguramente, uma nave.
—  sh? Você pode ver isso daí? — Dallas lembrou-se de que o oficial de ciência podia ver o enorme destroço clararamente através dos vídeos dos seus pick-ups; e que, provavelmente, avistara a nave ao mesmo tempo que Kane.
— Sim, posso ver. Não com muita clareza, mas com clareza suficiente para concordar com Kane. É uma nave.
A voz de Ash nos seus capacetes parecia excitada; ou tão excitada quanto era posssível para um homem da sua fleuma.
— Nunca vi coisa igual. Aguardem um momento.
Esperaram, enquanto ele conferia leituras e fazia umas duas perguntas rápidas ao cérebro eletrônico.
— A Mãe também não — informou. — É de tipo completamente desconhecido e não se relaciona com qualquer veículo espacial que tenhamos jamais encontrado. É tão grande quanto me parece daqui?
— Maior — disse Dallas. — De construção maciça. Os detalhes ainda não são perceptíveis. Mas se foi construída em escala, como as nossas próprias naves, então os construtores são muito mais altos que nós.
Lambert deu uma risada nervosa.
— Coisa que logo saberemos, se houver alguém a bordo para dar-nos boas-vindas.
— Estamos bem perto e na linha de visão — continuou Dallas, ignorando a observação da navegadora. — Você deve estar recebendo um sinal muito mais claro do que antes. E o chamado de socorro? Estamos próximos demais da fonte agora para julgar. Houve alguma alteração nele?
— Não. Seja o que for que produz o sinal, está dentro dessa carcaça. Estou convencido disso. Tem de estar. Se estivesse fora e para além dessa massa de metal, nunca o teríamos captado.
— Se for metal — disse Dallas, que continuava a examinar o veículo alienígena. — A nós parece mais plástico.
— Ou osso — sugeriu Kane.
— Supondo que a transmissão venha do interior, que faremos agora? — disse Lambert.
Kane deu um passo à frente:
— Vou entrar e dar uma olhada. Depois conto a vocês...
— Pare, Kane. Não seja tão afoito. Um desses dias vai se dar mal com isso.
— Mas voto em favor de entrarmos. Temos de fazer alguma coisa, não podemos ficar aqui e esperar que revelações se materializem magicamente no ar por cima da astronave
continuou Kane. E, franzindo o cenho: — Você fala a sério que não devemos entrar?
— Não é isso. Mas nada de precipitação.
E para o distante oficial de ciência:
— Você ainda nos ouve?
— Não tão bem agora que estão junto ao transmissor. A interferência é inevitável. Continuo ligado, porém, e o sinal embora pequeno, é nítido.
— OK. Não vejo sinais de vida nem movimento de qualquer espécie, exceto essa maldita poeira. Use-nos como ponto de referência e veja se daí pode ver ou descobrir alguma coisa que nós não podemos.
Houve uma pausa, enquanto Ash se dava pressa em cumprir as instruções recebidas. Dallas, Kane e Lambert continuavam maravilhados com as linhas elegantemente deformadas da cosmonave.
— Tentei tudo — disse, por fim, o oficial de ciência.
— Infelizmente, não estamos equipados para isso. O Nostromo é um cargueiro comercial e não um veículo de exploração, para uma leitura razoável eu precisaria de um bom número de caríssimos instrumentos que simplesmente não fazem parte do equipamento de um rebocador.
Dallas tentou esconder dos outros seu desapontamento.
— Entendo. A coisa não é vital, afinal de contas. Continue tentando, com o material de que dispõe. E informe-nos de descobrir algo. Sobretudo indicações de movimento. Os detalhes não interessam. Podemos fazer nossa própria análise.
— Muito bem. Cuidem-se.
— E agora, capitão?

O olhar de Dallas, que percorria de ponta a ponta a imensa nave, fixou-se em Kane e Lambert. Percebeu que os dois o observavam.
O executivo estava com a razão, naturalmente. Não bastava descobrir a fonte do sinal que os levara a aterrissar, cumpria ir até o gerador, descobrir a causa do sinal e a da presença da nave estelar naquele minúsculo planeta.

Ter chegado até ali e não explorar o interior daquela coisa alienígena era inconcebível.
Pois não foi a curiosidade, afinal de contas, que levou o homem a deixar seu mundo, isolado e insignificante, e partir à conquista das galáxias?
Tomou a única decisão lógica nas circunstâncias:
— Daqui, a nave parece morta. Vamos chegar perto da base. Aí, se nada se mostrar...
— Se nada se mostrar... — fez Lambert, fitando-o.
— Então, veremos.
Avançaram para a nave, com o situador agora inútil balançando no cinto de Lambert.
— A essa altura, há só uma coisa... — começou Dallas.

A bordo do Nostromo, Ash acompanhava cada palavra deles. Mas, sem qualquer aviso, a voz do capitão sumiu-se, Voltou mais uma vez, bem forte, para, em seguida, desaparecer completamente. Ao mesmo tempo, Ash perdia o contato visual.

— Dallas! — chamou aflito, apertando botões no console, virando chaves, pedindo melhor desempenho de pick-ups já exigidos ao máximo.
Só o silvo termonuclear do sol local, constante e triste como um queixume, se ouvia em todos os alto-falantes...

Junto ao casco sinistrado, cujas proporções colossais eram mais evidentes do que nunca, e que se elevava curvo e imenso acima deles, em meio aos turbilhões de poeira, detiveram-se os astronautas.
— Ainda nenhum sinal de ocupação — murmurou Dallas, como se falasse consigo. — Nem luzes, nem movimento — fez um vago gesto na direção do que imaginavam ser a proa — e nenhuma entrada. Vamos tentar o outro lado.
Enquanto caminhavam, com cautela, pelo solo juncado de fendas e cascalho xistoso, a nave parecia infinitamente mais sólida que a rocha em que repousava, Dallas se deu conta de quão pequeno o barco espacial o tornava. A ele e aos outros. E não só fisicamente, embora o arco majestoso, desmesurado os reduzisse — pobres bichos da terra — a insetos; mas insignificantes também de um ponto de vista cósmico.
A humanidade sabia ainda muito pouco do universo e apenas explorara uma fração mínima de um só setor.

Uma coisa é especular ao telescópio sobre o que poderá esconder-se na imensidão dos céus. Outra é fazê-lo no isolamento de um pequeno mundo como aquele, confrontados por uma nave de manufatura alienígena, que mais parecia uma excrescência animal que um engenho familiar, feito para superar as leis naturais da física.

Isso, admitiu o capitão, era o que mais o perturbava acerca da nave sinistrada. Se estivesse conforme às linhas habituais, se fosse feita de material conhecido, não pareceria tão assustadora. E não punha tais sentimentos à conta de xenofobia. No fundo, não esperara que aquela coisa alienígena fosse alienígena assim...

— Alguma coisa está acontecendo — disse Kane. E apontou.
Era hora de deixar qualquer especulação gratuita — pensou Dallas — e enfrentar a realidade. Aquela estrutura em forma de U era uma nave estelar, e só superficialmente diferia do Nostromo. Não havia nada de inerentemente maligno no material de que se compunha ou de agourento no seu desenho. Um era o resultado de uma determinada tecnologia, outro, de postulados estéticos diversos, mas igualmente válidos. Vista a essa luz, a enorme ferradura assumia uma espécie de exótica beleza. Sem dúvida, Ash estaria a delirar de entusiasmo diante daquele modelo único entre todos e a lamentar-se por não tê-los acompanhado. Lambert, ao contrário, lhe teria cedido seu lugar sem hesitação.
Mantinha a mesma expressão de desconsolo desde que fora escolhida para a patrulha.

O que Kane apontava era um trio de manchas escuras que haviam surgido no flanco do casco. Ao chegarem mais perto e mais alto também, pois que o terreno subia levemente viram que as manchas eram escotilhas ovais. Tinham espessura também, e não apenas comprimento e largura.
Viram-se, por fim, debaixo das três aberturas, que eram como marcas de pústulas no casco — de metal? De plástico? De quê?
Mais apertadas, e mais escuras, aberturas secundárias podiam ser vistas no fundo dos ovais externos. O vento entrava e saía por elas, carregado de pedra-pomes reduzidas a um finíssimo pó, o que era sinal de que as escotilhas já estavam abertas há algum tempo.

— Parece uma entrada — disse Kane, de mãos na cintura, a estudar os três óculos. — Talvez sejam uma outra forma de câmara de compressão e descompressão. Vocês vêem as aberturas secundárias por detrás das primeiras externas?
— Mas, se são câmaras, por que estarão assim tão juntas? — Lambert olhava desconfiada para as janelinhas. — E por que estarão todas abertas?
— Talvez os construtores gostassem de fazer as coisas de três em três — Kane deu de ombros. — Se viermos a conhecer algum deles, permito que você lhe pergunte isso.
— Engraçadinho — disse Lambert, sem sorrir. — Aceito a explicação. Mas e o fato de estarem abertas?
— Não sabemos se estão de fato abertas — disse Dallas, fascinado com os ovais, com suas pálpebras lisas, tão diferentes das escotilhas quadradas, pesadas, do Nostromo. As alienígenas pareciam moldadas na mesma matéria do casco, ao invés de postas mais tarde, quando a construção já ia pela metade, a força de solda e rebites, grosseiramente.
— Quanto à razão de estarem abertas, se é que o estão, talvez a tripulação tenha querido abandonar o veículo as pressas.
— E por que precisariam três aberturas para isso?
Dallas respondeu-lhe de mau humor:
— E como diabo haverei de saber? — Depois, emendou, contrito: — Desculpe, não era o caso...
— Não, não era — dessa vez, Lambert sorriu-lhe — Minha pergunta foi tola. E era tempo de termos algumas respostas, para variar.
Mantendo os olhos no chão, atento a qualquer pedra solta, ele começou a galgar o ligeiro aclive que levava às janelas.
 — Já esperamos suficientemente — disse. — Agora vamos... se pudermos.
— Talvez alguém julgue isso um bom modelo de câmara hermética. Mas não eu — disse Kane, estudando o interior da entrada que começavam a franquear.
Dallas já havia entrado.
— O piso é firme. A porta secundária, ou postigo ou o que seja, está aberta também — e, depois de uma pausa: — Há um grande recinto, aqui atrás.
— E não há luz? — disse Lambert, pegando na lanterna que trazia pendurada à cinta fazendo conjunto com a pistola.
— Há luz bastante, por enquanto. Poupe a bateria, talvez precisemos dela. Vamos.

Kane e Lambert seguiram-no por um corredor que descia, e emergiram num grande salão de pé direito alto. Se havia controles, chaves ou qualquer espécie de instrumental nessa seção da espaçonave, estavam escondidos por detrás das paredes cor de chumbo. Como no interior de um tórax humano, costelas de metal reforçavam o chão, o teto e as paredes. A fantasmagórica luz do exterior dançava nas partículas de poeira suspensas no ar quase parado daquele salão sinistro.
Dallas encarou seu oficial de ciência.

— O que pensa disso?
— Não sei. Um depósito de carga talvez? Parte de um sistema de fechamento estanque muito mais complicado do que o nosso? Acabamos de passar por uma porta dupla; isso é a verdadeira câmara de compressão e descompressão.
— Grande demais para tanto, não lhe parece? — disse Lambert, com um fio de voz.
— Estou tentando adivinhar. Se os tripulantes desta nave guardarem para com ela a mesma escala que nós temos com o Nostromo, então serão avantajados e precisarão de uma taxa de compressão e descompressão das proporções da câmara que estamos vendo. Mas admito que a idéia de um porão de carga me agrada mais. Talvez explique a necessidade de três entradas em vez de uma única.
Voltou-se e viu que Dallas se debruçava para olhar por um grande buraco negro que havia no piso.
— Cuidado, Dallas! Não podemos saber o que está lá dentro, nem que profundidade tem isso.
— A nave está aberta e ninguém se interessou pela nossa invasão. Não creio que haja viva alma.
Dallas destravou seu bastão luminoso e dirigiu o brilhante jato para baixo.
— Vê alguma coisa? — perguntou Lambert.

Um Coelho Branco talvez, com os olhos cor de rosa? O de Alice tirou um relógio do bolso do colete e conferiu as horas...


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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Beer and Sci-Fi



Cerveja combina com quase tudo...incluindo ficção científica. Beer and Sci-Fi é um blog que combina discussão sobre cerveja e vez por outra até ficção científica, sonhos utópicos, filmes, etc.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

The Best Science Fiction and Fantasy of the Year - Vol.5



Contents
Acknowledgements
Introduction

“The Fool Jobs” - Joe Abercrombie
“Map of Seventeen” - Christopher Barzak
“The Aarne-Thompson Classification Revue” - Holly Black
“The Spy Who Never Grew Up” - Sarah Rees Brennan
“The Taste of Night” - Pat Cadigan
“The Jammie Dodgers and the Adventure of the Leicester Square Screening” - Cory Doctorow
“The Truth Is a Cave in the Black Mountains” - Neil Gaiman
“Sins of the Father” - Sara Genge
“Fair Ladies” - Theodora Goss
“The Maiden Flight of McCauley’s Bellerophon” - Elizabeth Hand
“Names for Water” - Kij Johnson
“Plus or Minus” - James Patrick Kelly
“Iteration” - John Kessel
“The Man with the Knives” - Ellen Kushner
“The Miracle Aquilina” - Margo Lanagan
“The Sultan of the Clouds” - Geoffrey A. Landis
“Seven Sexy Cowboy Robots” - Sandra McDonald
“The Naturalist” - Maureen McHugh
“Amor Vincit Omnia” - K. J. Parker
“The Care and Feeding of Your Baby Killer Unicorn” - Diana Peterfreund
“Elegy for a Young Elk” - Hannu Rajaniemi
“Alone” - Robert Reed
“The Exterminator’s Want-Ad” - Bruce Sterling
“The Lady Who Plucked Red Flowers beneath the Queen’s Window” - Rachel Swirsky
“The Night Train” - Lavie Tidhar
“Still Life (A Sexagesimal Fairy Tale)” - Ian Tregillis
“The Zeppelin Conductors’ Society Annual Gentlemen’s Ball” - Genevieve Valentine
“The Things” - Peter Watts

 
The Best Science Fiction and Fantasy of the year - n.5 - editado por Jonathan Strahan (pdf/mobi/epub) [ Download ]

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Encontro com RAMA - Arthur C. Clarke



Rama estava silencioso como um túmulo – e talvez o fosse.

Nenhum sinal de rádio, em qualquer freqüência; nenhuma vibração que os sismógrafos pudessem captar, além de microssismos indubitavelmente causados pelo crescente calor do Sol; nenhuma corrente elétrica; nenhuma radioatividade. Uma quietude quase agourenta; seria de crer que até num asteróide houvesse mais
barulho.

Que é que nós esperávamos? pensou Norton. Um comitê de recepção? Não sabia se havia de sentir-se desapontado ou aliviado. Em todo caso, era a ele que parecia caber a iniciativa.

As ordens que tinha recebido eram para esperar durante vinte e quatro horas, depois sair e explorar. Ninguém dormiu muito nesse primeiro dia; os próprios membros da tripulação que não estavam de serviço passaram o tempo controlando os instrumentos que tenteavam em vão, ou simplesmente contemplando pelas vigias a paisagem friamente geométrica. Este mundo está vivo? Perguntavam-se e tornavam a perguntar-se. Está morto? Ou simplesmente adormecido?

Na primeira excursão, Norton levou consigo apenas um companheiro – o Capitão-de-corveta Karl Mercer, seu valente e talentoso oficial de Sustentação da Vida. Não tencionava em absoluto distanciar-se da nave a ponto de ficar fora do alcance da vista é, se houvesse algum contratempo, era pouco provável que um
grupo maior oferecesse mais segurança. Tomou, contudo, a precaução de levar mais dois membros da tripulação que, já metidos nos seus trajes espaciais, esperavam na eclusa de ar.

Os poucos gramas de peso que lhes davam os campos gravitacional e centrífugo combinados não ajudavam nem impediam; tinham de confiar exclusivamente nos seus jatos. Logo que fosse possível, disse Norton de si para si, armaria uma cama-de-gato com cabos de amarração entre a nave e as casamatas, de modo que os exploradores pudessem mover-se de um lado para outro sem desperdício de propulsores.

A mais próxima casamata ficava a apenas dez metros da eclusa de ar, e a primeira preocupação de Norton foi verificar se o contato não havia causado nenhum dano à nave. O casco da Endeavour repousava contra a parede curva com uma pressão de várias toneladas, mas essa pressão estava uniformemente distribuída. Mais tranqüilo, ele pôs-se a flutuar em volta da estrutura circular, procurando determinar qual seria o seu objetivo.

Apenas havia Norton percorrido alguns metros quando notou uma interrupção na parede lisa, aparentemente metálica. A princípio julgou que se tratasse de uma espécie de decoração, pois não parecia ter nenhuma função útil. Seis sulcos ou fendas radiais sanavam profundamente o metal e, dentro deles, havia seis barras cruzadas como os raios de uma roda, sem aro, com um pequeno cubo no centro. Mas não havia meio de fazer girar a roda, pois estava embutida na parede.

Notou então, com uma excitação crescente, que havia escavações mais profundas nas extremidades dos raios, perfeitamente torneadas de modo a receber dedos (garras? tentáculos?). Se uma pessoa se colocasse assim, apoiando-se contra a parede, e puxasse o raio assim...
Macia como seda, a roda deslizou para fora da parede. Com inexprimível assombro – pois estava virtualmente convencido de que quaisquer partes móveis teriam sido soldadas pelo vácuo há muitos séculos – Norton viu-se de repente com uma roda de malaguetas nas mãos. Era como se fosse o capitão de algum
velho navio à vela, manejando o leme do seu barco.
Ainda bem que o pára-sol do seu capacete não permitia que Mercer lhe observasse a expressão...

Estava surpreendido, mas também sentia raiva de si mesmo; talvez já houvesse cometido o primeiro erro. Estariam soando agora sinais de alarma no interior de Rama, ou o seu ato irrefletido fizera disparar algum mecanismo implacável?

Mas a Endeavour não comunicou nenhuma alteração; os seus sensores ainda nada detectavam além de leves crepitações térmicas e dos movimentos do próprio comandante.

– Bem, Capitão... Vai girar a roda?

Norton pensou mais uma vez nas instruções recebidas. "Siga o seu alvitre, mas proceda com cautela." Se consultasse o Controle da Missão sobre cada um de seus movimentos, nunca chegaria a parte alguma.

– Qual é o seu diagnóstico, Karl? – perguntou a Mercer.
– Trata-se, evidentemente, do controle manual de uma eclusa de ar... com certeza um sistema auxiliar de emergência para os casos de falha de força. Não posso imaginar nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, que não tome tais precauções.

"E seria à prova de falhas", disse Norton lá no seu íntimo. "Só poderia ser operado se não houvesse possibilidade de perigo para o sistema..."
Segurou duas hastes opostas do molinete, firmou os pés no chão e testou a roda. Esta não se moveu.

– Me ajude aqui – pediu a Mercer.
Cada um dos dois segurou um raio; fizeram quanta força tinham, mas não conseguiram produzir o menor movimento.
Não havia, é claro, motivo para supor que os relógios e os saca-rolhas girassem, em Rama, no mesmo sentido que na Terra...
– Vamos experimentar o sentido contrário – sugeriu Mercer. Desta vez não houve resistência. A roda girou quase sem esforço, descrevendo um círculo completo. Aí, então, com muita suavidade, o mecanismo engatou.

A meio metro deles, a parede curva da casamata começou a mover-se como a concha de um mexilhão que se abre vagarosamente. Algumas partículas de pó, impelidas pelo ar que escapava, saíram flutuando, a cintilar como diamantes na intensa luz solar.

O caminho que levava a Rama estava aberto.




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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sci-Fi Art Now



A ficção fantástica brazuca aos poucos vai ganhando seu espaço, mostrando seu valor, mas o mesmo ainda não pode ser dito da ilustração fantástica nacional. Carece de incentivos, concursos específicos são raros (exemplo do FC do B deste ano) e não há publicações que tragam respaldo e divulgação para esta atividade, apesar de acreditarmos no talento da galera que batalha no dia-a-dia.

Gostaríamos de ver a ilustração brasileira em blogs como o Sci-Fi Art Now.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Giant Freakin Robot


Fique ligado! Giant Freakin Robot traz para você todas as novidades do mundo fantástico no cinema, tv e literatura, assim como a cobertura de eventos e convenções.

domingo, 18 de setembro de 2011

The Guide to The Aliens Universe




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sábado, 17 de setembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 6)


  
Kane torceu uma chave. A couraça de proteção retraiu-se, revelando três botões escondidos. Ele os apertou em seqüência. Com um gemido a porta deslizou para o lado.

Entraram.

Sete trajes pressurizados alinhavam-se contra a parede. Eram volumosos, incômodos, mas absolutamente necessários para a excursão, mesmo que a análise da atmosfera exterior, feita por Ash, fosse só meio correta. Ajudaram-se uns aos outros a enfiar aquelas peles artificiais de proteção, e verificaram o funcionamento de todas elas.
Só então envergaram os elmos — o que foi feito com a solenidade e o cuidado devidos. Cada um verificou se o capacete do vizinho estava hermeticamente selado. Dallas conferiu o de Kane, Kane o de Lambert, e Lambert o do capitão. Executaram a operação com seriedade, embora mais parecessem versões espaciais de macacos numa sessão de faceirice coletiva. Ligaram em seguida os reguladores automáticos. E logo respiravam o ar dos cilindros, um pouco choco, é verdade, mas saudável e limpo.
Dallas, com uma desajeitada manopla enluvada, ativou o intercomunicador do capacete:

— Transmitindo. Podem ouvir-me?
— Recebendo — anunciou Kane, depois de uma pausa em que pôs sua própria aparelhagem para funcionar. — Você também me ouve?
O capitão fez que sim, com a cabeçorra. Depois voltou-se pesadamente para Lambert, ainda muda e emburrada.
— Recebendo — disse ela também, mas sem esconder o enfado. Não gostara nada de ser escolhida para a expedição.
— Vamos, Lambert — disse Dallas, para animá-la. — Estou levando você pelos seus méritos, não pela boa disposição.
— Obrigada pela lisonja — respondeu Lambert secamente —, mas é só também. Por que não escolheu Ash ou Parker? Qualquer dos dois teria dado saltos de alegria.
— Ash tem de ficar a bordo, e você sabe disso. Parker tem muito que fazer na casa de máquinas, e não seria capaz de sair de um simples saco sem os seus instrumentos. Não me importa que você me amaldiçoe a cada passo, desde que nos leve à fonte daquele maldito sinal.
— Maravilhoso.
— Muito bem, estamos entendidos. Não toquem nas armas sem ordem.
— Você espera mesmo companhia? — perguntou Kane, desconfiado.
— Sempre é bom estar preparado.
Dedilhou os controles externos da roupa espacial, abriu outro canal, e perguntou:
— Ash? Está me ouvindo?
Foi Ripley quem respondeu:
— O senhor oficial de ciência está descendo para sua ampola transparente de observação. Conceda-lhe dois minutos, capitão Dallas.
— Entendido — e voltando-se para Kane —, feche o postigo interno. — O executivo operou os controles necessários e a porta deslizou por detrás deles. — Agora, destranque o postigo externo.

Kane repetiu o processo que os admitira à câmara. E quando o último botão foi apertado, recuou para junto dos outros, à espera. E Lambert apertou-se contra a porta interna, numa reação instintiva em face do desconhecido.
A porta externa correu. Nuvens de vapor e de poeira cósmica dançaram à frente dos três terráqueos.
A luz da madrugada era de um laranja-calcinado. Não tinha o confortante amarelo do Sol. Mas Dallas esperava que mudasse, com a progressão do dia. Dava, em todo caso, claridade bastante para verem naquela atmosfera densa, carregada de partículas.
Pisaram na plataforma elevadora, que corria entre duas guias verticais. Kane tocou num botão, e a plataforma desceu. Tinha censores debaixo do piso para saber onde ficava o chão. Computou, assim, a distância, e deteve-se quando sua base roçou a parte superior do solo, que era de pedra escura.

Com Dallas à frente, mais por hábito do que realmente por protocolo, a pequena patrulha se adiantou cautelosamente pela superfície. Era de lava endurecida, que não cedia debaixo de suas botas. Ventos da força de vendavais açoitaram-nos quando se detiveram para um primeiro reconhecimento da paisagem. De momento, nada podiam ver, salvo o que corria por entre seus pés e se perdia na névoa alaranjada e marrom.
"Que lugar deprimente!" pensou Lambert. Não necessariamente assustador, embora a impossibilidade de ver muito adiante do nariz fosse desconcertante. Lembrava-lhe um mergulho à noite em águas infestadas de tubarões. Era impossível dizer o que poderia surgir, de chofre, da escuridão.
Talvez ela estivesse a tomar uma decisão muito drástica muito cedo, mas não pensava assim. Em toda aquela terra embuçada não havia uma só nota mais vibrante de cor. Não havia, por exemplo, nem azul nem verde. Tudo lavado em sépia e amarelo, com algum laranja, castanhos desbotados, cinzentos sujos. Nada capaz de alegrar a vista, aquecer a alma ou aliviar as preocupações da mente. A atmosfera semelhava um experimento malogrado de química com cloro e enxofre. E o chão parecia um tombadilho coberto de excreta. Tinha pena de qualquer coisa que tivesse um dia vivido ali. A despeito de qualquer evidência pró ou contra, sentia que nada vivia ali agora.
E se Kane estivesse com a razão? Talvez aquilo fosse a pervertida idéia de paraíso de alguma criatura inimaginável. Nesse caso, não gostaria de encontrá-la...

— Em que direção?
— O quê?
O nevoeiro, os vapores, lhe haviam toldado os pensamentos. Sacudiu-os dentro da cabeça.
— Em que direção, Lambert?
Dallas mirava-a, inibido.
— Estou bem. Excesso de preocupações.
Na mente, visualizava sua estação a bordo do Nostromo. Aquele assento e o seu instrumental de navegação, tão confinantes e sufocantes em condições normais, pareciam-lhe, agora, um pedaço do céu.
Conferiu uma linha na tela de um pequeno engenho que levava preso ao cinto.
— Para lá — disse. — Naquela direção. — E apontou.
— Você mostra o caminho — disse o capitão. E pôs-se imediatamente atrás dela.
Seguida, então, por Dallas e Kane, Lambert começou a caminhar, em meio à tempestade. Bastou que deixassem a massa protetora do Nostromo, para que vento e poeira os envolvessem.
A mulher parou, contrariada, e acionou os instrumentos que levava na roupa.
— Não posso ver nada!
Surpreendentemente foi a voz de Ash, que soou dentro do seu capacete.
— Sintonize o situador, Lambert. Ele está dirigido para o transmissor do sinal de socorro. Deixe que ele guie você e não mexa nele. Eu mesmo o dirigi e está correto.
— Já está ligado, Ash, e sintonizado também, ou você pensa que eu não conheço o meu ofício?
— Não quis ofendê-la — respondeu, do conforto da nave, o oficial de ciência.
Dallas falou também, da concha do seu capacete:
— O situador está funcionando a contento. Você pode me ouvir, Ash?
Dentro da sua ampola transparente, situada no ventre do Nostromo, Ash desviou os olhos das figuras que o pó ocultava a meio ou fazia dançar a distância, e fixou-os no seu console brilhantemente iluminado. Três imagens de ouro, estilizadas e hieráticas como ícones, desenhavam-se ali, nítidas e claras contra o fundo da tela. Ele tocou um controle, e ouviu-se um pequeno gemido. Sua cadeira deslocou-se para o lado, e Ash ficou alinhado precisamente com o painel aceso.
— Vejo-os perfeitamente aos três aqui na minha bolha plástica. E posso ouvi-los também com clareza. O nevoeiro não é tão espesso que interfira muito, pelo menos aqui na superfície. E como o sinal de socorro está em outra freqüência, não há perigo de superposição.
— É bom, isso. E promissor. — A voz de Dallas parecia artificial. — Estamos captando vocês muito bem. Vamos manter os canais abertos. Não queremos ficar perdidos aqui fora. Não nestas circunstâncias, neste tempo.
— Correto. Acompanharei cada passo de vocês. Mas não os incomodarei, a não ser que alguma coisa muito importante aconteça.
— Muito bem, Dallas desligando — disse Dallas. Mas deixou aberto o canal de comunicação com a nave. Depois, vendo que Lambert percebera, acrescentou:
— Estamos perdendo um tempo precioso. Prossigamos.

Sem uma palavra, ela voltou sua atenção para o situador e recomeçou a andar em meio a todo aquele lixo que se movia por si mesmo. A gravidade, ligeiramente mais baixa, reduzia o peso das roupas e dos tanques de oxigênio. Intrigava-os, porém, o enigma de um mundo tão pequeno capaz de gerar atração tão forte. Dallas anotou mentalmente que seria aconselhável fazer uma pesquisa geológica mais aprofundada da sua composição. Talvez fosse influência de Parker, mas a possibilidade de que o planeta escondesse grandes depósitos de metais preciosos não podia ser ignorada.

A Companhia, naturalmente, chamaria a si a descoberta, uma vez que fora feita a expensas dela e em horário por ela comprado a bom dinheiro. Mas, de qualquer modo, haveria polpudas bonificações. A escala involuntária poderia, afinal de contas, render alguma coisa.

O vento era impiedoso, açoitava-os sem trégua com pó e cascalho.
— Impossível enxergar a mais de três metros, em qualquer direção — queixou-se Lambert.
— Deixe de lamúrias — disse Kane.
— Mas eu gosto de me lamuriar...
— Vamos. Deixem de portar-se como crianças. O lugar não é apropriado.
— E, todavia, é maravilhoso. — Lambert não se deixara intimidar. — Intocado pelo homem, preservado pela natureza. Lugar ideal, se a gente é uma pedra.
— Já disse: chega.
Ela calou-se, mas continuou a resmungar coisas ininteligíveis. Dallas não podia proibir também que falasse entre os dentes.
De súbito, os olhos dela registraram uma informação que, momentaneamente, galvanizou seus pensamentos. Alguma coisa desaparecera da tela do situador,
— O que foi? — perguntou Dallas.
— Espere.
Ela ajustou ligeiramente o aparelho, o que era difícil, dada a espessura das luvas. A linha que sumira da face da tela reapareceu.
— Eu tinha perdido uma linha. Captei-a de novo.
— Algum problema? — Uma voz distante soou nos capacetes deles. Era Ash que se inquietava.
— Nada de importante — informou Dallas. E fez um pequeno círculo de 360 graus tentando encontrar algo de sólido na tempestade. — Ainda e sempre vento e pó. O raio do situador começa a falhar, a interromper-se. Perdemos a transmissão por um segundo.
— Ainda está bem nítida aqui atrás — Ash conferiu suas leituras. — Não penso que tenha sido a tempestade. Talvez estejam entrando em terreno mais acidentado. Isso poderia bloquear o sinal. Cuidado, então. Se o perderem e recobrarem de novo verifiquem meu próprio canal até que possam receber de novo a transmissão. Eu os orientarei daqui.
— Vamos ter isso sempre presente, Ash, mas por enquanto não é necessário.
 — Comunicaremos a você qualquer problema desse tipo e dessa seriedade.
— Confere. Desligando.
Tudo ficou silencioso de novo. Andaram calados pelo vasto limbo alaranjado de partículas. Depois de algum tempo, Lambert estacou.
— Perdeu-o de novo?    
— Não. Mudança de direção — gesticulou para a esquerda deles. — Temos de ir agora para lá.
Tomaram a nova direção, Lambert de olhos pregados à tela do situador, Dallas e Kane de olhos pregados em Lambert. Em volta deles, a tempestade parecia ganhar violência.
Partículas maiores faziam um barulho fino, martelante, nos visores dos capacetes, trasmudando-se no cérebro deles em palavras onomatopaicas:
Tic-tic... queremos entrar... plic, ploc... queremos entrar...
Dallas sacudiu-se como um cachorro. O silêncio, a desolação envolta em nuvens, a cerração amarelenta, tudo aquilo começava a ter efeito sobre ele.
— Está perto — disse Lambert. Os monitores das roupas transmitiram, imediatamente, ao remoto Ash, a aceleração simultânea dos seus pulsos.
— Muito perto mesmo.

Prosseguiram. Alguma coisa surgiu à frente, muito acima deles. A respiração de Dallas ficou mais curta, de excitação, mas também de esforço físico.
Desapontamento... Era apenas uma grande formação rochosa, retorcida e grotesca. A previsão de Ash de que encontrariam, provavelmente, terreno mais alto confirmou-se. Abrigaram-se por um instante à sombra do monolito. E nesse momento exato a linha desapareceu outra vez do situador de Lambert.
Aconteceu outra vez.

— Teremos ultrapassado o sinal?
Kane estudou as rochas, tentou ver por cima delas, não pôde.
— Não pode ser. Só se for uma fonte subterrânea.
Dallas recostou-se contra a parede rochosa.
— Talvez esteja por detrás disto aqui — bateu na rocha com o punho cerrado. — Ou pode ter sumido devido à tempestade. Vamos parar um pouco e ver.
Esperam ali, descansando as costas no paredão liso.
— Agora sim é que estamos cegos — disse Kane.
O dia vai raiar logo — ajustou o seu pick-up. — Ash, se me pode ouvir: quanto falta para amanhecer?
A voz do oficial de ciência soou débil, distorcida pela estática.
— O sol nasce em cerca de dez minutos.
— Poderemos ver melhor, então.
— Ou menos do que agora — disse Lambert. Não se preocupava em disfarçar seu desânimo. Estava muito cansada, e tinham ainda de alcançar a fonte do sinal. Nem se tratava de fraqueza física. A desolação, o colorido sobrenatural começavam a fatigar-lhe a mente. Tinha saudades do seu console, limpo, familiar, brilhante.

A claridade crescente não ajudava, tal como previra. Ao invés de reanimá-los, o sol nascente assustou-os, fazendo com que o ar passasse de cor de laranja a cor de sangue. Talvez tudo ficasse menos terrificante quando a fraca estrela chegasse a seu zênite.

Ripley passou a mão na fronte e deixou escapar um suspiro de exaustão. Fechou e aparafusou o último dos painéis em que estivera trabalhando, depois de verificar que os novos componentes funcionavam bem. Então, pôs suas ferramentas na bolsa.
— Agora, você mesmo pode cuidar do resto. Tudo o que era mais delicado está feito.
— Não se incomode. Nós nos arranjaremos — disse Parker. Teve o cuidado de manter a voz neutra. Não olhou, também, para ela, concentrando-se no seu trabalho. Preocupava-o ainda a possibilidade de que ele e Brett ficassem à margem das eventuais descobertas da expedição.
Ripley dirigiu-se para a mais próxima das subidas, mas acrescentou:
— Se você tiver dificuldades e precisar de mim, estou na ponte.
— Certo — respondeu Brett, pelos dois. Macio.
Parker viu desaparecer sua delicada silhueta.
— Filha da puta — disse.

Ash apertou um controle. Um trio de formas moventes entrou em foco, perdendo seus halos imprecisos, quando o acentuador se pôs em ação. Ele conferiu seus outros monitores. Os sinais dos três trajes espaciais continuavam a chegar-lhe, fortes e nítidos.
— Como vão indo? — quis saber uma voz, no intercomunicador.
Rapidamente, ele desligou a tela, e acionou seu respondedor.
— Até agora, bem.
— Onde estão eles? — perguntou Ripley.
— Aproximando-se da fonte emissora. Atingiram terreno rochoso, e os sinais falham intermitentemente, mas estão de tal modo próximos da sua origem que não vejo como poderão errar. Logo teremos notícias deles.
— Por falar no sinal, não temos mais nenhum dado sobre ele até agora?
— Não, ainda não temos.
— Você já tentou passar a transmissão pelo ECIU para uma análise mais detalhada?
— Ouça, tenho tanto interesse quanto você nisso. Mas se a própria Mãe não identificou a pulsação até agora, de que adiantaria qualquer esforço meu?
— Você se importaria se eu tentasse?
— Mas de modo nenhum! Mal não fará, e pelo menos servirá para matar o tempo. Peço unicamente que me mantenha informado, que me diga se conseguiu alguma coisa, caso tenha sorte.

Ela se afundou um pouco mais no seu assento. A ponte parecia curiosamente espaçosa agora, com o resto da tripulação ausente e Ash embaixo, na sua ampola. Na verdade era a primeira vez que se lembrava de ter ficado assim sozinha ali. Provocava uma sensação estranha, não muito agradável.
Mas se ia dar-se ao trabalho de fazer a análise do sinal pelo ECIU, cumpria começar. Bastou tocar num controle para encher a ponte com o uivo atormentado da nave alienígena. Nervosa, ela se deu pressa em reduzir o volume. A coisa já era suficientemente aflitiva em intensidade moderada.

Podia perfeitamente entender que Lambert tivesse sugerido tratar-se de uma voz. Mas isso era afinal de contas um conceito mais fantasioso que científico.
Controle-se, mulher. E veja o que a máquina tem a dizer sobre o assunto. Suas reações emotivas devem ficar fora disso.

Ciente da improbabilidade do sucesso onde a Mãe falhara, ativou um painel pouco usado. Como dissera Ash, isso, pelo menos, a ocuparia. Não suportava ficar sentada, à toa, numa ponte vazia. Pensava demais.
Melhor um trabalho de faz-de-conta do que nenhum.



O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 6) [ Download ]

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como aprendi a parar de me preocupar com o futuro e passei a amar a Ficção Científica




Este artigo pretende ser tanto uma introdução ao conto 'Nebulous mechanisms' (Mecanismos nebulosos), quanto apresentar o conceito de prototipagem através da Ficção Científica (FC).

Na tradição do lendário Isaac Asimov, abordaremos a longa e simbiótica história entre o fato científico e FC.

Introdução

'Nebulous mechanisms', a história que acompanha esta introdução, é uma obra indiscutível de FC. Firmemente enraizado na rica história do gênero, está repleta do que você poderia esperar encontrar, estações espaciais, mineração de asteróides, viagens espaciais, robôs e uma boa e saudável dose de drama - todos os ingredientes para um bom e velho conto de FC. 'Nebulous mechanisms' contudo é um pouco mais do que apenas uma boa história, é um protótipo ficcional. A idéia fundamental do conto está baseada em um ensaio chamado 'Using Multiple personas in Service Robots to improve exploration strategies when mapping new Enviroments (Usando múltiplas personas em robótica para melhorar as estratégias de exploração quando mapeando novos ambientes) (Egerton, Callaghan, Clarke).

Usamos a história como um experimento intelectual para explorar a teoria e para examinar suas implicações no futuro imaginado. Pense nisso como uma realidade virtual no papel, projetado especificamente para testar as possíveis ramificações da teoria. 'Nebulous mechanisms' foi o primeiro de uma bem sucedida série de contos de FC baseada em teorias emergentes na pesquisa robótica, ciência da computação, artificial inteligência e na neurociência.

Nesta introdução eu queria falar um pouco da história da Prototipagem através da Ficção Científica, antes de você querer ir em frente e ler o conto. Eu não quero adiantar o final, mas você pode querer descobrir por que robôs no planeta anão Ceres 1 estão indo à igreja...

1) A ficção científica é a única e verdadeira literatura do século vinte (1).

A mistura de ficção científica e fato científico não é revolucionária, a relação simbiótica remonta centenas de anos atrás. Tem sido bem documentado que a FC inspirou gerações de cientistas, pesquisadores e até astronautas. O autor britânico de FC, inventor e futurista Arthur C. Clarke resumiu desta forma, em seu ensaio 'Aspects of Science Fiction' (Aspectos da ficção científica).

"Todos os pioneiros da astronáutica foram inspirados por Jules Verne, e vários (por exemplo, Goddard, Oberth, von Braun) escreveram ficção para popularizar suas idéias. E eu sei por experiência própria que muitos astronautas americanos e cosmonautas soviéticos foram inspirados para assumir suas carreiras por conta das histórias que leram quando crianças. (Uma de minhas posses que mais me orgulho é uma monografia, 'Wingless on Luna', com a dedicatória: "Para Arthur, que visualizava os nuances do vôo lunar antes de eu os ter experimentado! - Neil Armstrong”)” (2).

Como assinala Clark, o fato científico e a ficção tem sido mesclados explicitamente na maioria do século XX. Físicos e pioneiros de foguetes Robert Goddard, Hermann Oberth e Wernher von Braum usaram histórias como uma forma de divulgar os seus pensamentos, enquanto o astronauta Neil Armstrong foi inspirado e impulsionado pela ficção de Clark.

Na década de 1970 todo um subgênero de ficção científica surgiu em torno escritores alinhados com as chamadas "Hard sciences" (por exemplo, informática, astronomia, física, química, etc.) O autor norte-americano de FC, Alan Steele, definiu o subgênero como: "FC Hard é uma forma de literatura que utiliza tanto a ciência estabelecida ou cuidadosamente extrapolada como sua espinha dorsal." (3)
Muitos críticos vêem a FC Hard como a única e legitima ficção científica porque se baseia na ciência real, em oposição a FC Soft, ou mesmo pseudociência ou fantasia científica que aborda viagem no tempo, poderes extra-sensoriais e super-heróis. Independentemente como você se posiciona neste debate, é claro que a pesquisa, a teoria e a prática científica, têm um efeito considerável por vezes, polarizando a ficção científica.

O século XXI trouxe-nos algumas explorações fascinantes sobre a relação específica entre ficção científica e tecnologias que estão sendo criadas.

Genevieve Bell e Paul Dourish em seu artigo 'Resistance is Futile:Reading Science Fiction alongside Ubiquitious Computing ' (Resistir é inútil: A Leitura de Ficção Científica e  Computação Ubíqua) argumentam que o entendimento de ficção científica, no caso programas de TV populares britânicos e americanos como Dr. Who e Star Trek, são essenciais na concepção de novas tecnologias. Eles afirmam que a ficção científica pode ser utilizada como uma ferramenta para o design. O as visões futuristas da sci-fi expressas em programas de televisão podem ser usadas para entender a imaginação coletivo das pessoas quanto a como devem parecer as tecnologias do futuro, permitindo assim que os cientistas desenvolvam tecnologias e produtos que são facilmente compreendidas.

[Nota do tradutor: Computação ubíqua é definida como "máquinas que estão inseridas no ambiente humano sem forçar que nós entremos no ambiente delas".]

 "Indiscutivelmente, uma gama de tecnologias contemporâneas - de PDAs a telefones celulares - adotaram as suas formas e funções da ficção científica. Tal como no famoso caso do escritor britânico de ficção científica Arthur C. Clark e sua invenção "especulativa' das comunicações via satélite, a FC não somente antecipou, mas deu forma ao futuro tecnológico ao afetar o imaginário coletivo. Ao mesmo tempo, a FC na cultura popular fornece um contexto em que novos desenvolvimentos tecnológicos são facilmente entendidos. Visões forjadas na ficção científica aparecem como protótipos para cenários tecnológicos (4)

Julian Bleecker expandiu essa noção em sua ficção recente 'Design Future; A Short essay on design, science, fact and fiction' (Design futuro: Um breve ensaio sobre design, ciência, fato e ficção). Bleecker vê a interação entre a FC e a ciência como um terreno fértil para a inspiração e criações de protótipos físicos. Estas ferramentas de design são tanto reais e falsas, operacionais e simbólicas, sério e irônico. Bleecker os descreve como uma conflação "de design, ciência e FC ... a amálgama de práticas que juntas dirigem as expectativas do que cada uma faz por conta própria e as funde em algo novo." (5)

Como 'Design Future' de Bleecker, protótipos de ficção científica como 'Nebulous Mechanisms', procuram um meio termo produtivo entre ciência e ficção. Eles são uma nova lente através da qual as teorias emergentes podem ser vistas de uma forma diferente, livremente exploradas e, finalmente desenvolvidas. Bleecker faz uma excelente observação: "produtivamente, embaraçar ciência e ficção científica pode ser o único caminho para a ciência de verdade alcançar algo além de si mesma e conseguir mais do que as formas costumeiras de inovação incremental ". (6)
É precisamente esta fusão produtiva e a união de ciência e ficção que pode desbloquear, ampliar e expandir as fronteiras do pensamento científico atual.

2) Uma boa história de FC, acima de tudo, apresenta uma ideia poderosa. (7)

A abordagem para 'Nebulous Mechanisms' e histórias que praticam a prototipagem através da ficção científica, deve ser simples como uma história bem contada e tão complexa quanto a teoria científica em que se baseou.
Para compreender o funcionamento da protótipo de ficção científica é útil separar  o funcionamento do conto em si para entender melhor como o experimento é conduzido.

Alan Moore, autor de Watchmen e 'V for Vendetta' (V de Vingança), fez um trabalho eficiente ao dissecar a estrutura da narrativa em seu ensaio 'Writing for Comics'

(Escrevendo para quadrinhos). Ele descreve os componentes essenciais de uma história como enredo, ambiente, personagens e ritmo, mas central para cada história deve haver uma idéia. Para Moore, a história é construída sobre a idéia, é a razão de ser da história, é o que impulsiona todos os outros componentes. Todos os outros componentes da história servem para facilitar a compreensão da idéia central.

Aplicando o exemplo de Moore, a idéia em  'Nebulous Mechanisms' foi originada pelo ensaio  'Using Multiple personas in Service Robots to improve exploration strategies when mapping new Enviroments (Usando de múltiplas personas em robótica para melhorar as estratégias de exploração quando mapeando novos ambientes). Mas para o protótipo ser bem sucedido não podemos parar em uma idéia atraente. Os leitores devem aceitar o futuro imaginado como real, plausível e aceitável. Eles devem ser atraídos para o drama, a história deve prender a atenção do leitor; Manter um nível adequado de suspensão de descrença. Este nível de descrença pode ser usado como um teste da validade do protótipo.

O leitor acredita naquele mundo? A ciência está invisível na ação escondida sob a capa da ficção?

Moore descreve a necessária suspensão da descrença desta forma:

"A meu ver, uma história de sucesso de qualquer tipo, deve ser quase como hipnose: Você fascina os leitores com sua primeira frase, atrai mais com a sua segunda frase e os coloca em um transe suave na terceira. Então, tomando cuidado para não acordá-los, você os carrega para os becos de sua narrativa e quando eles estão irremediavelmente absortos dentro da história,  rendidos a ela, você os pega violentamente com um bastão de softball, em seguida, levá-os choramingando até o fim na última página. Acredite em mim, eles vão te agradecer por isso. O importante é que o leitor não deve acordar até que você queira..." (8)

O sucesso do experimento está no equilíbrio tênue entre a credibilidade da história e da exploração da teoria científica. É dentro destes controles e balanços que podemos explorar a beleza da teoria científica amarrada ao drama realizável no mundo real.

3) Às vezes, um robô é apenas um robô

Nos últimos 50 as introduções das antologias sobre histórias de robôs dirão que a era deles chegou. Estamos rodeados de robôs que constroem nossos carros, pilotam nossos aviões, trabalham em nossas fábricas, em nossos elevadores e até mesmo bombardeiam nossos inimigos. Os robôs do mundo real evoluíram para além do "homem de metal" da ficção científica e tornaram-se ciborgues, IAs e outros agentes inteligentes. Thomas M. Disch na introdução para seu essencial exame da ficção científica, 'The  Dreams our stuff is made' diz que "o robô tem sido empregado para uma grande variedade de fins dramáticos (9).

Desde que Karel Capek cunhou o termo robô em sua peça de 1920, 'RUR' (Rossum's Universal Robots), os robôs têm sido largamente empregados por autores de ficção científica. Eles expressaram o nosso mais terrível temor sobre a desigualdade de gênero,  classe e raça. A partir dai se pensa que quando você vê um robô em qualquer história, então deve ser uma representação de algo mais.
Quem é o robô e o que faz deve significar alguma coisa.

Mas há alguns casos, como em 'Nebulous Mechanisms', um robô é concebido para ser apenas um robô. No início, havia basicamente dois tipos de histórias de robô.

O primeiro foi baseado no enredo básico faustiano de Frankenstein. Cientista cria robô.
Robô mata cientista. Muito simples. Isaac Asimov, no início de sua carreira reconheceu esta abordagem faustiana padrão.

"... Uma dos enredos mais comuns na ficção científica é o da invenção de um robô, geralmente retratado como uma criatura de metal, sem alma ou emoção. Sob a influência do destino final de Frankenstein ... parecia haver apenas um enredo. Robô é criado e destrói seu criador, robô é criado e destrói seu criador, robô é criado e destrói seu criador  ..." (10)

O segundo tipo de história de robô surgiu nos Estados Unidos em meados do século XX. Sam Moskowitz em sua introdução 'The Coming of the Robots' assinala que "Psicologicamente o tempo estava maduro para o assalto contra o preconceitos dos leitores sobre robôs. " (11)

Ele passa a descrever duas histórias semelhantes publicadas dentro de algumas semanas uma da outra em 1938. 'I Robot' por Eando Binder inverte o enredo de Frankenstein e 'Helen O'Loy' de Lester Del Rey, que apresenta um mundo onde os robôs progrediram tanto que são indistinguíveis dos seres humanos. Na história, dois amigos depois de comprar um robô, acham que o robô está amando um dos proprietários, Dave. Ambos são histórias pungentes e para pré-adolescentes. Helen O'Loy é descrita como "um sonho em plástico e metal." (12)

Em última análise, Helen que é incapaz de envelhecer, cuida de seu amor até o final, colocando linhas de idade em seu rosto e tingindo os cabelos de grisalho para pensar que está envelhecendo com ele.

Eu explorei temas similares em meu romance 'Fake plastic love' (Amor plástico de mentira), expandindo o conceito de Del Rey do robô doméstico na bela Ann-Mar, que se parece com a estrela do cinema americano Ann Margaret com o vocabulário de uma revista de fofocas. "Ela era basicamente uma garota dos sonhos... seu cabelo vermelho sintético era perfeito demais. Seus lábios também, com o permanente batom vermelho." (13) Ambos os robôs possuem interesses amorosos e ambos são descaradamente robôs, porem enquanto Helen se esforça para ser humana, Ann-Mar continua a ser inequivocamente um robô.

É neste ponto que chegamos a 'Nebulous Mechanisms'. Os robôs da história são realistas ou pelo menos representações realistas de robôs que se esforçam para ser mais do que o que são. Eles não aspiram a participar nos assassinatos de vingança de seus mestres Frankenstein nem se esforçam para "passar" ou tornar-se humano. Os robôs de 'Nebulous Mechanisms' são robôs e apenas isso,.

4) Como amar a Ficção Científica

Se você ainda não adivinhou, vou ser honesto com você, eu amo a Ficção Científica.
Dois dos meus maiores afetos são o rigor intelectual da investigação científica e o desenvolvimento de tecnologia, bem como uma boa e desafiadora história de FC.

A ficção científica é o playground do intelecto. Muitas pessoas se enganam quando pensam que o objetivo do gênero é o de prever o futuro. Se isso fosse verdade, então o a FC teria uma péssima reputação dado seus muitos enganos.
Não, a ficção científica cria não apenas um futuro único, mas vários futuros; uma grande variedade de Terras e inúmeras variações sobre a humanidade e a tecnologia. Se você olhar para trás, você verá que escritores de ficção científica se mantiveram por quase cem anos. Eles têm escrito sobre a era espacial, muito antes assim como após o ocorrido. Eles sonharam sobre os canais de Marte e as realidades desse planeta fascinante vermelho. Toda esta especulação e energia produziram um efeito interessante sobre você e eu.

Andy Sawyer capturou este efeito em seu ensaio 'Tales of Future Passed: A Kipling Continuum and other lost World of Science Fiction' (Contos do Futuro passado: O Continnuum de Kipling e outro Mundo Perdido da Ficção Científica).
Ele escreveu:

"Nós lemos muitas histórias envolvendo as primeiras viagens à Lua, colônias lunares e a exploração do espaço, agora que temos internalizado um conjunto virtual de histórias de viagens espaciais como resultado, não conseguimos entender completamente que de fato isso não aconteceu." (14)

Estes futuros que Sawyer descreve estão alojados em nossa história cultural coletiva.

O futuro e a ficção científica se misturaram em nossa educação e na imaginação a tal ponto que não há meio melhor para usar como uma plataforma para prototipagem de ficção. Prototipagem através da ficção científica nos permite criar múltiplo mundos e uma grande variedade de futuros para que possamos estudar e explorar os meandros da ciência moderna. São uma ferramenta poderosa destinada a melhorar as práticas tradicionais de pesquisa e design. As descobertas que fazemos com esses protótipos podem ser usados para questionar e explorar o pensamento atual em um nível jamais abordado no passado; ou seja, usando múltiplas realidades e futuros para testar as implicações e complexidades da teoria. Além disso, a resposta dada pode fornecer uma arquitetura de tecnologia da experiência do consumidor, investigação e formação como um usuário pode encontrar, explorar e, finalmente, usar essa tecnologia.

A Ficção Científica nos permite ver sob uma nova luz, à luz de um futuro novo, que não é nosso, mas reflete diretamente quem somos e para onde podemos estar indo e sob esta mesma lente quanto à ciência, permite-nos ver os múltiplos futuros a partir da teoria que estamos formulando hoje.

por Brian David Johnson


Mecanismos Nebulosos - Brian David Johnson [ Download ]




[1] J. G Ballard, Literary Review, 2001.
[2] A. C. Clark, Greetings, Carbon-Based Bipeds!, St Martin’s Press, 1999.
[3] A. Steel, Hard Again, New York Review of Science Fiction, 1992.
[4] P. Dourish, G. Bell, Resistance is Futile: Reading Science Fiction and Ubiquitous Computing. 2009.
[5] J. Bleecker, Design Fiction: A short essay on design, science, fact and fiction, 2009.
[6] J. Bleecker, Design Fiction: A short essay on design, science, fact and fiction, 2009.
[7] J.G. Ballard, Sunday Times, 1985.
[8] A. Moore, Alan Moore’s Writing for Comics, Avatar Press, 2008.
[9] T. M. Disch, The DREAMS OUR STUFF IS MADE OF: How Science Fiction Conquered the World, Free Press, 2000.
[10] I. Asimov, Introduction. The Rest of the Robots, Doubleday, 1964.
[11] S. Moskowitz, Introduction, The Coming of the Robots, Crowell-Collier Publishing Company, 1963.
[12] L.D. Rey, Helen O’Loy, Street and Smith Publications, 1938
[13] B. D. Johnson, Fake Plastic Love, iUniverse, 2007
[14] A. Sawyer, Tales of Futures Passed: The Kipling Continuum and other lost World of Science Fiction,
World Weavers: Globalization, Science Fiction and the Cybernetic Revolution (2006), p126

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Empty-World



Empty World. Um site dedicado à literatura e ao cinema que retrata o fim do mundo, o apocalipse, a guerra nuclear, praga, seca, fome e guerra... Populações dizimadas e sobreviventes lutando para reconstruir suas vidas após o evento apocalíptico...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Space Monster



Filmes clássicos de FC, Terrror, do fantástico em geral, enfim, tudo que a gente aqui do Capacitor Fantástico gosta, você vai encontrar no excelente blog SPACE MONSTER.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Bowie2001




Que tal juntar um dos maiores artistas da música mundial com um filme que marcou a história do cinema?

O resultado desta incomum, mas bem sucedida união, pode ser vista e ouvida graças ao trabalho do DJ e produtor musical, o brasileiro (apesar do nome) Fritz Von Runte.

Autor de diversas estrepolias sonoras,o veterano Fritz Von Runte se inspirou nas imagens do clássico 2001 - Uma Odisséia no espaço de Stanley Kubrick, para criar o projeto BOWIE2001, uma experiência audiovisual maravilhosa, mesmo para quem não é fã do músico.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Minority Report - Philip K. Dick

O conto Minority Report (O relatório da minoria) de Philip K.Dick foi publicado a primeira vez em 1956 e aborda, como outros trabalhos seus, a questão do livre-arbítrio. Neste conto, PKD nos apresenta o Precrime, um nova tecnologia capaz de detectar crimes antes que eles aconteçam.




Precrime

Definido como um sistema profilático de segurança, o Precrime pune, com a detenção, pessoas que no futuro próximo cometerão um crime. O método substituiu o sistema tradicional de investigação-acusação-veredito, quando se tem uma vítima e se busca punir o culpado (ou culpados) pelo crime.
Como é dito no livro:

"A punição nunca foi um impedimento e dificilmente proporciona conforto para a vítima já morta".

O Precrime é baseado na noção de que assim que um caminho desagradável futuro é identificado, um caminho alternativo e melhor pode ser criado com a prisão antecipada do futuro agressor.

No cerne do sistema estão três mutantes conhecidos como 'PRECOGS', seres humanos que foram diagnosticados ao nascer como retardados (hidrocefalia) e que possuem a habilidade de 'ver o futuro' - um futuro próximo, somente algumas semanas adiante. Apesar da aparência humana, os PRECOGS são basicamente cérebros - seus corpos estão deformados e não possuem consciência ou qualquer ligação com o mundo real. Eternamente presos às máquinas que os mantém vivos, suas atividades cerebrais são monitoradas, decupadas e analisadas por computadores que transformam suas visões aleatórias em simbolos interpretáveis e que são convertidas, em parte, em predições (as informações não pertinentes à segurança dos cidadãos são passadas para outras agências governamentais). Os resultados finais são analisados conjuntamente pelo Precrime e pelas Forças Armadas, evitando, assim, qualquer tipo de manipulação. 

O sistema funciona da seguinte maneira: A interpretação das visões de cada PRECOG gera um relatório. Conforme são comparados e analisados, um relatório pode diferir do outro e o computador escolhe aqueles dois que mais se assemelham e então produz o relatório da maioria, considerado a predição mais acurada. Porém, sua existência implica na existência de um relato da minoria também, que acaba sendo desprezado.

A história inicia quando o comissário do Precrime John Anderton é apontado como o assassino de um homem desconhecido...





O Filme

Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise (como o capitão John Anderton) a adaptação para o cinema é apenas vagamente baseado no conto de PKD. Estilicamente, o filme, que se passa em 2054, é uma combinação de ficção científica e thriller de ação, com uma forte dose de 'film noir', principalmente na concepção das imagens dessaturadas.

Lançado em 2002 e orçado em 142 milhões de dólares, teve sua produção iniciada muito tempo antes, em 1997, logo após Total Recall, outra adaptação de um conto de PKD. O roteiro escrito por John Cohen foi apresentado ao ator e produtor Tom Cruise (que na época estava compromissado com a série Missão Impossível) que o entregou ao amigo, o diretor Spielberg, que se mostrou bastante interessado. A produção iniciaria somente quatro anos depois, quando Spielberg, já de pré-contrato assinado, passou a encontrar-se com diversos cientistas e pesquisadores, a fim de conceber um futuro plausível para o filme. A filmagem acabou sendo postergada por conta do atraso dos projetos de Cruise e Spielberg (trabalhando em I.A). Posteriormente o roteirista Scott Frank precisou reescrever o roteiro de Cohen, acatando sugestões do diretor para acentuar os vilões e os mocinhos da trama. 

Nas palavras de Steven Spielberg: "A história de Philip K. Dick era só o trampolim. A maior parte do filme não segue a história - para o desgosto dos fãs Philip K. Dick, tenho certeza."

Ocasião e coincidência.

O conto de 1956, mesmo sem se passar em um tempo definido, reflete as preocupações de PKD (um eterno paranóico), com os rumos da política daquela época. Os roteiristas do filme captaram antecipadamente o frenesi anti-terror gerado pelo 11/9. A intuição de Dick foi trazida para as telas do cinema, justo no momento que tal especulação passou a se materializar na vida real de diversas formas, como o banco de dados para crimes futuros e a predição de roubos da polícia de NY.




Minority Report - A nova lei - Phulip K. Dick [ Download ]

Minority Report - Roteiro de Scott Frank [ Download ]

Minority Report - Roteiro de Jon Cohen [ Download ]




domingo, 11 de setembro de 2011

Secret Cinema apresenta Alien

Esqueça o multiplex. Vida longa para o Secret cinema !!

Já falamos aqui no Capacitor Fantástico sobre este grupo maravilhoso Future Cinema que através de sessões clandestinas em Londres, propõe uma outra maneira de curtir o cinema, como uma grande festa reunindo encenação teatral, circo, música, imagem e magia, sim, verdadeira magia.

Veja o que foi preparado para Alien.


sábado, 10 de setembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 5)





III


Talvez fosse melhor para a paz de espírito de todos se a emergência tivesse continuado. Mas com a energia e as luzes recuperadas e nada a fazer senão olharem uns para os outros, os cinco tripulantes da ponte começaram a ficar irrequietos.

Não havia lugar bastante para estender as pernas ou descansar. Um só dentre eles que se pusesse a andar de um lado para o outro ocuparia todo o espaço disponível do convés. Então, sem assunto, puseram-se a lustrar seus respectivos consoles, a consumir quantidades imoderadas de café pedido ao cozinheiro automático e a revolver o cérebro em busca de alguma ocupação que os impedisse de pensar na apertura em que se achavam metidos. De qualquer maneira, preferiam não especular em voz alta sobre o que pudesse existir do lado de fora, talvez até na vizinhança mais imediata da astronave.

De todos eles, só Ash parecia relativamente alegre. Sua única preocupação no momento era a condição mental dos seus colegas.
Não havia distrações a bordo. O Nostromo era um simples cargueiro, um rebocador, uma nave de serviço. Não um iate de recreio. Uma vez livre das tarefas que lhe incumbiam, sua tripulação passava o tempo nos confortáveis abismos do hipersono.
Era natural, por isso, que uma vigília ociosa causasse nervosismo, sobretudo em circunstâncias tão incertas.
Ash, no entanto, podia passar e repassar problemas teóricos no computador sem jamais entediar-se. Achava inclusive estimulante esse tempo acordado.

— Alguma resposta aos nossos chamados externos? — Perguntou o capitão, debruçando-se em sua cadeira para ver melhor o oficial de ciência.
— Já tentei todos os sinais que constam do manual mais a associação de idéias.Também deixei que a Mãe experimentasse uma abordagem estritamente mecanológica. Tudo pura perda de tempo — Ash sacudiu a cabeça e pareceu desapontado. — Sempre e exclusivamente o mesmo sinal de alerta, repetido a intervalos regulares. Todos os outros canais permanecem vazios. Tudo o que se pode captar é uma ligeira crepitação em... deixe-me ver... zero ponto três três. E apontou para cima com o polegar. — A Mãe diz que se trata da descarga característica da estrela central deste sistema. Se alguma coisa ou alguém está vivo, nada mais pode fazer senão enviar aquele sinal de alerta ou pedido de socorro, ou o que seja.
Dallas fez um barulho grosseiro.
— Temos plena potência agora. Vamos ver onde estamos afinal. Pise, aí, no chão.
Ripley acionou o comutador. Um colar de luzes poderosas, pérolas brilhantes no engaste tenebroso do Nostromo, acendeu-se do lado de fora das escotilhas.

O vento e o pó cósmico ficaram mais evidentes então, formando às vezes pequenos redemoinhos no ar, soprando às vezes em linha reta com incrível força na linha visual deles. Rochas isoladas, protuberâncias e crateras eram os únicos acidentes na paisagem devastada. Nenhum sinal de vida, nem um traço de líquen, nenhum arbusto mesmo enfezado, nada.
Só o vento e o pó, girando na noite alienígena.

— E o tal oásis? — disse Kane, baixinho.

Nada. Desolação monótona, inóspita.
Dallas levantou-se, caminhou até uma escotilha e ficou a contemplar a tempestade incessante, as lascas de rocha que ricocheteavam contra o vidro espesso. Perguntava-se se jamais o ar se aquietaria num planeta desses. Por tudo o que tinham logrado saber das condições locais, o Nostromo poderia muito bem ter descido num claro dia de verão. Mas isso era improvável. Aquele globo não tinha dimensões suficientes para produzir condições meteorológicas deveras violentas, como as de Júpiter, por exemplo. Consolava-se até certo ponto com isso, isto é, com a convicção de que o tempo lá fora não podia ficar muito pior. As peculiaridades do tempo no lugar foram, inevitavelmente, o principal assunto das conversações.

— Não podemos sair. Não podemos ir a lugar nenhum com um tempo desses — disse Kane. — Pelo menos, não no escuro.
Ash levantou pela primeira vez os olhos do seu console. Não se mexera. Parecia feliz, física e mentalmente. Kane não podia entender como o oficial de ciência conseguia isso. Se ele mesmo não tivesse deixado, várias vezes, sua própria estação, já estaria louco àquela altura.
Ash percebeu o olhar do chefe, e forneceu alguns dados tentadores:

— A Mãe diz que o sol local nasce dentro de vinte minutos. Se nos decidirmos a ir a alguma parte, não será nas trevas.
— Já é alguma coisa — admitiu Dallas, agarrando-se àquela última gota de encorajamento. — Se esses que nos chamaram não dizem mais ou se não podem dizê-lo, cabe a nós irmos em busca deles. Ou do objeto sinistrado, se a pulsação que ouvimos for apenas automática. A que distância estamos da fonte transmissora?
Ash analisou suas leituras e ativou uma plotadora ao nível do solo para confirmação.
— A cerca de três quilômetros, quase tudo em terreno plano, tanto quanto os examinadores automáticos são capazes de descobrir. A fonte transmissora está a nordeste da nossa presente posição.
— Composição do terreno?
— Parece ser a mesma que determinamos grosso modo na descida. A mesma matéria dura sobre a qual estamos pousados agora. Tudo basalto maciço, com variações menores. Embora eu não exclua a priori a possibilidade de encontrar alguns bolsões amigdaloidais, aqui e ali.
— Teremos cuidado, então.
Kane conferia mentalmente distâncias e prováveis tempos de percurso.
— Pelo menos, é suficientemente perto para irmos a pé.
— Sim — Lambert parecia satisfeita. — Eu não gostaria de mover a nave. Uma descida vertical, de órbita para terra, é infinitamente mais fácil de planejar que um deslizamento na superfície com um tempo desses.
— OK. Sabemos pelo menos em que solo vamos pisar. Resta descobrir o que teremos de atravessar. Ash, por favor: uma análise preliminar da atmosfera.

O oficial de ciência acionou os seus botões. Uma pequena vigia se abriu como uma boca na pele do Nostromo. Por ela um frasco de metal foi exposto ao vento, sugou uma porção infinitesimal da atmosfera daquele mundo, e recolheu-se.
A amostra foi despejada numa câmara de vácuo. Instrumentos dos mais sofisticados puseram-se a esquadrinhá-la, parte por parte. E em breve essas partes de ar começaram a aparecer sob a forma de números e símbolos nas janelas do console de Ash.
Ele as analisou rapidamente, pediu a repetição de uma leitura, depois apresentou um sucinto relatório aos companheiros.
— A mistura é quase primitiva. Grandes quantidades de nitrogênio inócuo, algum oxigênio, alta concentração de dióxido de carbono em liberdade. Há também metano e amônia, uma parte em estado congelado... Faz frio, senhores, lá fora. Vou examinar agora com maior detalhe os diversos elementos constituintes, mas não espero qualquer surpresa. Tudo me parece standard — e, naturalmente, irrespirável.
— Pressão?
— Dez ao quarto dinas por centímetro quadrado. Não nos deterá ou atrasará, a não ser que o vento realmente se desencadeie.
— E a umidade? — quis saber Kane, em cuja mente as imagens de um oásis extraterreno começavam a desvanecer-se, como se desvanecem, via de regra, as miragens.
— Noventa e oito duplo P. Talvez não cheire bem, mas que é úmido não tenho dúvida. Vapor dágua em quantidade. Uma mistura bizarra, podem crer. Jamais imaginei encontrar tanto vapor d’água coexistindo assim tranqüilamente com o metano. Não aconselharia que alguém bebesse água das eventuais nascentes. Talvez nem seja água...
— Alguma outra coisa que a gente precise saber?
— Só que o escudo fundamental basáltico é de lava fria e dura. E que o ar também é frio, muito abaixo dos níveis suportáveis — informou Ash. — Precisaríamos de roupas especiais para suportar temperaturas tão extremas, mesmo que o ar fosse respirável. Se existe vida nessas condições terá de ser muito robusta.

Dallas pareceu resignado.
— Teria sido absurdo esperar outra coisa. A esperança, porém, é a última que morre. O pouco de atmosfera que existe serve apenas para atrapalhar a visão. Eu preferia não ter atmosfera nenhuma, mas afinal de contas não fomos nós que projetamos essa rocha.
— Nunca se pode saber — disse Kane, de novo em tom filosófico. — Talvez para outros, isso seja o paraíso...
— De qualquer maneira — disse Lambert —, não me parece o caso de excomungá-lo. Poderia ser mil vezes pior!
Depois olhou o vendaval lá fora. Amainava, agora que o dia vinha raiando.
— Eu, por mim, prefiro isso a ter de descer num gigante de gás, com ventos de 300 km em momento de calmaria e 10 ou 20 gravidades pela frente. Pelo menos podemos andar por aí sem precisarmos de estabilizadores ou apoio do gerador. Vocês não sabem a sorte que têm!
— Curioso, mas não me sinto uma felizarda — disse Ripley. — Preferiria muito mais estar de volta ao meu hipersono. — Alguma coisa se moveu aos seus pés, e ela se abaixou para acariciar a anca de Jones, o gato. O animal, gratificado, soltou um ronrom.
— Oásis ou não oásis — disse Kane, com vivacidade —, eu me apresento como voluntário para descer na frente. Gostaria de uma oportunidade de observar nosso misterioso sinal. Nunca se sabe o que se vai encontrar.
— Jóias? Dinheiro? — perguntou Dallas, sem esconder um sorriso. Eram notórias a ingenuidade e boa-fé de Kane.
O executivo deu de ombros:
— E por que não?
— OK. Estou ciente. — Ficou entendido que Dallas seria também um dos membros da pequena expedição. Ele olhou em volta, procurando mais um elemento para completar o grupo. Ninguém se candidatou.
— Lambert. Você.
— Está bem. Mas por que logo eu?
— E por que não você? Você é a nossa indicadora natural das direções a seguir. Vamos ver se é tão boa de terreno quanto aqui neste lugar.

Disse e foi-se pelo corredor. Mas à porta fez uma pausa para acrescentar, com simplicidade:
— Ainda uma coisa. O mais provável é que encontremos uma carcaça morta e uma pulsação automática, repetitiva. Ou já teríamos tido notícia de sobreviventes. Mas não podemos saber o que vamos realmente encontrar. Esse mundo não me parece formigante de vida, hostil ou de qualquer outra espécie Mas cumpre não correr riscos desnecessários. Iremos armados.
Hesitou ao ver que Ripley também se juntara a eles.
— Não, Ripley, você terá de esperar a sua vez. Este é o contingente máximo que posso tirar da nave.
— Mas eu não ia sair, eu gosto daqui. Apenas, já fiz tudo o que tinha para fazer. Parker e Brett precisarão de ajuda, na fixação daqueles delicados tubos...

Estava muito quente lá atrás, na casa de máquinas, a despeito de todos os esforços da unidade de resfriamento. A quantidade de solda que Parker e Brett haviam sido forçados a empregar e o espaço diminuto em que operavam eram responsáveis por isso. Junto dos termostatos, o ar continuaria relativamente frio. Mas o ar contíguo à própria soldadura poderia aquecer-se rapidamente.
O 'maçarico' a laser não podia ser responsabilizado. Gerava um raio relativamente frio. Mas onde o metal fundia e escorria para selar alguma coisa, surgia um calor localizado, que era como um subproduto da operação. Os dois homens trabalhavam despidos da cintura para cima e, mesmo assim, tinham o dorso reluzente de suor.
Não muito longe deles, Ripley encostou-se a uma parede e lançou mão de uma ferramenta especial para fazer saltar fora um dos panos de proteção. Com isso, ficaram expostas complexas agregações de fios coloridos e formas geométricas miniaturizadas. Duas pequeninas seções haviam sido calcinadas. Usando outra ferramenta, ela retirou esses componentes enegrecidos e procurou numa sacola que trazia a tiracolo as apropriadas peças de reposição.
Estava a fixar a primeira delas no lugar, quando Parker desligou o laser e examinou o próprio trabalho com olho crítico.
— Nada mau, se posso dizer.
E, virando-se para a mulher:
— Ripley, queria perguntar-lhe uma coisa.
Ela não se voltou. O suor colava-lhe a túnica ao peito. O segundo módulo foi encaixado com precisão no lugar, como um dente que é reimplantado no seu alvéolo.
— Então? Estou ouvindo.
— A gente vai sair para a tal expedição, ou fica fechado aqui dentro até que tudo esteja consertado? A energia já foi restabelecida. O resto — e indicou a sala devastada com um gesto largo e brusco da mão — é puro trabalho de maquilagem. Nada que não possa esperar alguns dias.
— Vocês sabem muito bem o que se passa.
Sentou-se, esfregou as mãos e reclinou-se para encará-lo: — O capitão escolheu os dois elementos de que precisa, e pronto. Ninguém mais sai até que eles estejam de volta e relatem o que viram. Três fora, quatro dentro. São as normas, não são?
Ripley fez uma pausa, pois uma idéia lhe acudira. Encarou Parker outra vez:
— Mas não é isso que preocupa você, e sim o que poderão encontrar. Ou estaremos todos desde sempre enganados a seu respeito? Será você, afinal de contas, um cientista puro, devotado a alargar as fronteiras do universo conhecido?
— Puxa, Ripley, nada disso! 
Parker não parecia ofendido. O sarcasmo não era habitual na moça.
— Só me interessa alargar as fronteiras da minha conta bancária. Teremos participação no que os três encontrarem, caso seja valioso?
— Não se preocupem — Ripley parecia agastada —, vocês terão o que lhes for devido.
E pôs-se a procurar na sacola de sobressalentes um pequeno módulo maciço a fim de preencher o último claro no quadrado que abrira na parede.
— Pois eu não trabalho mais — anunciou Brett, de repente —, a menos que tenha garantida a minha parte nesse pacote'.
Ripley encontrou a peça que procurava e foi fixá-la no lugar. Só então falou:
— O contrato lhes garante expressamente uma parte em tudo o que se ache. Todos dois sabem disso muito bem. Vamos acabar com essa atitude então, e trabalhar!
E voltou-lhes as costas, a fim de experimentar se os novos módulos funcionavam direito.
Parker olhou-a com fúria e chegou a abrir a boca para unia boa réplica. Mas calou-se. Afinal, ela respondia pela segurança de bordo e hostilizá-la só lhes faria mal. Ele falara demais e fora repreendido. Seria melhor deixar as coisas como estavam. Por mais que isso lhe custasse. Parker sabia ser pragmático quando a situação assim exigia.
Ligou de novo o laser, com raiva. E começou a soldar outra seção do conduto rompido.
Brett, no controle da energia para o laser e dos fios do soldador, disse em voz alta, mas dirigindo-se a ninguém em particular:
— Certo.

Dallas, Kane e Lambert, munidos agora de botas, casacos e luvas, e armados com pistolas de laser — pareciam miniaturas do soldador usado por Parker e Brett —, dirigiam-se para a saída por um estreito corredor. Detiveram-se junto de uma porta maciça, muito bem marcada com símbolos e palavras:

PRINCIPAL CÂMARA DE COMPRESSÃO.
ENTRADA PROIBIDA A ESTRANHOS.

Dallas sempre achava cômica e redundante aquela inscrição. Pois como poderia haver 'estranhos' a bordo? E todo mundo a bordo estava obviamente autorizado a usar a câmara.




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