sábado, 7 de janeiro de 2012

O Oitavo Passageiro (Parte 22)





Ofegante, Ripley alcançou sua posição, no vestíbulo, junto à comporta de boreste. Um olhar de relance ao seu rastreador mostrou que não havia movimento na área. Apertou um botão vermelho na vizinhança. Um zumbido suave encheu aquela área do corredor e a porta maciça deslizou para o lado. Quando estava completamente aberta e o zumbido cessara, a moça ligou seu intercomunicador.

— Comporta de estibordo pronta.
Parker e Lambert alcançaram a seção do corredor especificada por Dallas e se detiveram. A boca do ventilador, com sua grade, ficava no terço superior da parede:
— É por onde ele sairá, se tentar este caminho — observou Parker. Lambert assentiu, e foi até o mais próximo pick-up embutido para informar que estavam em posição.
De volta ao depósito de mantimentos, Dallas ouviu com atenção o aviso de Lambert, que se seguiu ao de Ripley. Fez uma ou duas perguntas, acusou recebimento das respostas, e desligou. Ash deu-lhe o lança-chamas. Dallas ajustou o bocal da arma e deu duas rajadas curtas, como ensaio.
— Funciona. Parker é melhor para coisas de mecânica aplicada do que ele pensa — e como Ash tinha uma expressão curiosa: — O que foi?
— Você tomou sua decisão. Não cabe a mim comentá-la.
— Você é o meu oficial de ciência. Vamos, comente.
— Isso nada tem a ver com ciência.
— Não temos tempo para casuísmos. Diga o que quer dizer.
Ash olhava-o genuinamente intrigado.
— Por que vai você? Por que não Ripley? Ela estava disposta e tem competência bastante.
— Eu não devia ter jamais sugerido outra pessoa — conferia o nível do fluido no lança-chamas. — Foi um erro pedir voluntários. A responsabilidade é minha. Deixei que Kane investigasse a nave alienígena. Agora cabe a mim isto. Já deleguei bastante risco aos outros sem correr nenhum eu mesmo. Era tempo que o fizesse.
— Você é o capitão — disse Ash. — Tem de ser prático e não heróico. Fez bem em mandar Kane. Por que mudar agora?

Dallas sorriu-lhe. Não tinha muitas oportunidades de apanhar Ash em contradição.

— Você não pode falar em protocolo. Você abriu a porta e nos fez entrar, lembra-se?
O oficial de ciência não respondeu.
— Então não me venha a dar lições sobre o que é próprio ou impróprio.
— Será pior para nós se perdermos você. Sobretudo agora.
— Você acabou de dizer que Ripley é competente. Eu concordo. Ela é a primeira, na linha de sucessão. Se eu não voltar, não há coisa que saiba fazer que ela não saiba.
— Discordo.
Estavam perdendo tempo. Não se podia saber por onde andaria a criatura. Dallas estava cansado de discutir.
— Chega. A decisão é minha, está tomada, acabou-se — virou-se, pôs o pé direito dentro do cano, fez deslizar o lança-chamas à frente, cuidando para que não escorregasse. Havia um leve declive.
— Não — disse —, assim não vai. O espaço não é bastante para andar de gatinhas. Terei de rastejar — retirou a perna, passou a cabeça e, sacudindo-se, conseguiu meter o corpo todo. Havia menos espaço do que pensara. Como um ser do tamanho do que Parker e Ripley diziam ter visto, pudera enfiar-se por ali, não podia imaginar. Bem, talvez o duto até ficasse ainda mais estreito. Nesse caso, o alienígena, na ânsia de fugir, entalara-se. O que faria tudo infinitamente mais simples.
— Como vai indo?
— Não muito bem — respondeu a Ash. E sua voz reverberou em torno dele. Com esforço conseguiu firmar os cotovelos e colocar-se na posição militar de rastejar.
— É amplo o bastante para que a gente possa sentir-se bem desconfortável...
Acendeu seu bastão luminescente e teve alguma dificuldade em achar e ajustar o microfone que tinha prendido à gola do uniforme. A luz mostrava o espaço à frente, liso, igual, descendo um pouco. Sabia que esse declive seria mais sensível depois, antes de emergir por detrás da criatura na comporta de estibordo.
— Ripley, Parker, Lambert, vocês podem captar minha emissão? Estou nos dutos agora, e descendo.
Embaixo, Lambert falou no comunicador da parede:
— Podemos ouvir. Lambert aqui. Tentarei acompanhá-lo com o nosso rastreador, desde que entre no raio de ação dele.
Ao lado, Parker levantou o lança-chamas e olhou com raiva para a grade de ventilação.
— Parker — disse Dallas —, se ele tentar sair por aí, mande-o de volta. Eu o empurrarei daqui.
— Muito bem.
— Prontos aqui na comporta. A porta está aberta e à espera de companhia.
— Pois a companhia está a caminho — disse Dallas.
E começou a rastejar, de olhos no túnel à frente e mão no controle do incinerador. O duto tinha, naquela seção, menos de um metro de diâmetro. O metal lhe arranhava os joelhos e ele lamentou não ter posto um segundo macacão. Tarde demais para isso agora,  pensou. Todo mundo está pronto, impossível recuar.
— Que tal? — perguntou uma voz no seu microfone.
— OK, Ash — informou ao aflito oficial de ciência.
— Não se preocupe comigo. Mantenha os olhos naquela abertura, caso ele me escape de algum modo.

Dobrou sem incidentes sua primeira esquina, lutando para não perder a orientação, para saber onde estava no labirinto do sistema de ventilação da nave. Já a planta que estudara, parecia-lhe vaga e confusa na memória. Os ventiladores não estavam entre as partes importantes do Nostromo e não adiantava lamentar-se por não haver estudado minuciosamente sua rede. Havia outras bifurcações à frente. Deteve-se com a respiração difícil, e levantou a boca do lança-chamas. Nada indicava que houvesse algo de tocaia naquelas encruzilhadas, mas não custava ter cuidado. O nível do fluido era bom, o lança-chamas estava praticamente cheio. E não fazia mal nenhum anunciar à criatura quão perto ele se encontrava na sua esteira. Talvez isso a empurrasse à frente, sem que fosse preciso enfrentá-la.

Um toque no botão vermelho e o tubo cuspiu chama pelo cano abaixo. O rugido da labareda foi alto, naquele espaço apertado, e o calor voltou um pouco, machucando-lhe a pele. Foi em frente, embora o metal agora estivesse quente. Bastava não tocá-lo com as mãos sem luvas. O calor penetrava porém mesmo através do pano grosso das calças. Mas tão nervoso estava, tão tenso, que mal o sentia. Buscava perceber à frente os movimentos ou o cheiro do alienígena.

Na área de equipamento, Lambert observava com atenção a grade do ventilador. Ela moveu um controle na parede e o painel deslizou com um zumbido, deixando apenas um grande orifício negro no alto da parede.

— Você ficou louca? — perguntou Parker.
— Ele tem de sair por aqui, se abandonar o encanamento principal — explicou Lambert. — Será melhor deixá-la aberta. É muito escuro atrás da grade. Prefiro saber se alguma coisa vem vindo.

Parker pensou em discutir com ela, mas decidiu que seria melhor poupar energia, reservando-a para a guarda do buraco, com ou sem grade. De qualquer maneira, Lambert era mais graduada do que ele.
Dallas se detinha a cada momento para remover as gotas de suor que o cegavam. Mas elas voltavam, com a tenacidade de formigas. O sal lhe queimava os olhos, impedia-o de ver. À frente, o duto descia a pique. Ele antecipara isso, lembrando-se da planta. Mas o fato de ver confirmada sua previsão deu-lhe pouco prazer. Tinha, agora, de prestar ainda mais atenção. Não bastava vigiar o caminho, havia que cuidar também da velocidade e do equilíbrio.

Arrastando-se até a borda do declive, apontou para baixo o lança-chamas e soltou uma pequena rajada flamejante. Não houve urro nem o duto se encheu do odor de carne queimada. A criatura estaria ainda longe. Pensou se não estaria a rastejar, furiosa, ou temerosa mesmo, no rumo da saída. Talvez, porém, esperasse por ele, talvez se voltasse para enfrentá-lo, com recursos de defesa que lhe eram impossíveis de conceber.

Era quente, ali dentro, e ele começava a cansar-se. Havia outra possibilidade, pensou: e se a criatura houvesse descoberto outro caminho? Nesse caso teria feito toda essa tensa, agoniada perseguição em pura perda. Mas só havia um modo de sabê-lo: prosseguir. E iniciou a descida, de cabeça, com o lança-chamas em posição, para a frente, e tão bem equilibrado quanto possível naquelas aperturas.
Foi Lambert quem primeiro notou o movimento da agulha no rastreador. Teve um minuto de nervosismo até que um cálculo apressado confirmasse a leitura com uma quantidade conhecida.

—Começo a receber uma leitura que lhe diz respeito — informou a Dallas.

O duto fazia outro ângulo agudo. Não se lembrava de que houvesse tantos desvios e inclinações bruscas, mas estava seguro de encontrar-se ainda no tronco principal do sistema. Não passara ainda por um só túnel secundário que fosse bastante amplo para admitir bicho maior do que Jones, o gato.
A despeito de sua já demonstrada aptidão para enfiar- se em espaços exíguos, Dallas não acreditava que o alienígena fosse capaz de comprimir sua própria massa a ponto de caber num duto menor de ventilação, que tinha, quando muito, doze centímetros de diâmetro. A esquina à frente foi mais difícil de vencer do que as anteriores. A barra do lança-chamas era dura e inflexível, o que não facilitava as coisas. Ofegante, deixou-se ficar de bruços, considerando como devia prosseguir.

— Ripley.
Ela deu um salto ao ouvi-lo, tão cortante e abrupta era a voz dele.
— Sim, Dallas, estou aqui. Posso ouvi-lo perfeitamente. Algum problema? Você parece... — não terminou. Como poderia Dallas estar calmo ou falar com calma nas circunstâncias?
— Estou OK — disse ele. — Apenas cansado. Em mau estado físico. Muitas semanas em hipersono. Perde-se o tônus muscular, malgrado todo o bem que os congeladores façam à gente.
Contorceu-se um pouco até conseguir uma visão melhor do caminho à frente. Dessa nova posição, disse:
— Não creio que este duto vá muito adiante. Está ficando terrivelmente quente aqui — o que era de esperar, disse consigo. O efeito cumulativo dos vários disparos do lança-chamas acabaria por afetar a capacidade de resfriamento interno dos termostatos do sistema.
— Prosseguindo agora. Fique alerta. Desligo.

Qualquer observador poderia ter lido um grande alívio no rosto de Dallas quando ele emergiu, por fim, do apertado túnel. Abria num dos grandes túneis dos condutos de ar do Nostromo, que tinham dois níveis separados por uma passarela. Dallas deixou-se escorregar do tubo por onde viera para o passadiço, e ali distendeu os músculos com satisfação. Uma inspeção da passagem nada revelou. O único som que pôde ouvir foi o pulsar paciente da maquinaria da nave. Havia uma junção a meio caminho e ele caminhou até lá, repetindo a inspeção. Nada. Tanto quanto conseguia ver, a ampla câmara estava deserta.
Nada podia apanhá-lo de surpresa ali, enquanto se mantivesse de pé no centro da peça. Seria um bom lugar para descansar alguns minutos. E precisava disso. Sentou-se, então, examinando sem grande atenção o nível inferior, que podia ver perfeitamente. E falou no microfone preso à sua gola:

— Lambert, que espécie de leitura você recebe agora? Estou em uma das câmaras misturadoras centrais, na estação compensadora do meio. Não há nada aqui além de mim. A navegadora consultou seu rastreador e ficou intrigada. Olhou com susto para Parker. E botou-lhe o instrumento debaixo do nariz:
— Isso faz algum sentido para você?
Parker estudou agulha e leitura.
— Não. Esse brinquedo não é meu, é de Ash. Mas que está confuso, está!
— Lambert? — Era Dallas de novo.
— Ouça. Não tenho certeza, mas estou recebendo um sinal duplo — por mais que sacudisse o rastreador, a leitura era a mesma, tão incompreensível quanto antes.
— Não pode ser. Você recebe dois sinais, separados e distintos, de mim?
— Não. Só um, mas impossível.
— Pode haver interferência — disse ele. — O ar sopra forte por aqui e seria capaz de confundir até um aparelho mais bem feito do que esse, um de medir a densidade atmosférica. Vou continuar. Talvez o sinal fique mais claro, se me deslocar.
Ergueu-se, sem ver a grande mão armada em garra que se levantava devagar do nível inferior por uma das aberturas da passarela metálica. Tirou o pé esquerdo um segundo antes que ela o pegasse. E a mão se recolheu, tão silenciosamente como tinha aparecido.
Dallas andou até o meio da câmara e parou.

— Melhor, Lambert? Caminhei um pouco. O registro clareou?
— É claro, Dallas, mas ainda é duplo. São dois sinais distintos. Não posso saber qual é o seu.

Dallas fez meia volta e seus olhos varreram o túnel, teto, piso, muros, e o grande duto por onde viera. Só então olhou para baixo e seu olhar caiu no lugar onde estivera sentado até há pouco. Baixou então o nariz do lança-chamas. Se era ele o sinal da frente, tendo andado pelo passadiço, então a causa do duplo sinal só podia ser...
Nesse momento, em que começava a apertar o botão do incinerador, a mão surgiu à sua retaguarda e estendeu-se para seu tornozelo.
Ripley estava sozinha junto à boca aberta do grande dueto de ventilação. Observava-o pensando na comporta próxima, cujas 'mandíbulas' esperavam o intruso. Percebia agora um som indistinto, remoto, como de campainhas. Primeiro pensou que fosse dentro da própria cabeça, onde muito som esquisito se vinha originando ultimamente. Mas depois ouviu-o, repetido e mais alto, seguido de eco também. Parecia provir do interior do sistema. Suas mãos se apertaram no disparador do lança-chamas.
O ruído cessou. Imprudentemente, ela se aproximou do orifício, embora de lança-chamas apontado.
Ouviu, então, um som identificável. Um grito lancinante. E reconheceu a voz.
Esquecendo, então, todos os planos, tudo que lhe cumpria fazer, correu até a boca do cano.

—Dallas! Dallas!

Não houve outros gritos depois do primeiro. Só um ruído macio, de feltro, longínquo, que logo desapareceu lá dentro. Conferiu o rastreador. Mostrava um sinal apenas. A cor vermelha começava a apagar-se também, como se apagara aquele grito.

— Oh, meu Deus! Parker, Lambert! — correu para o pick-up e berrou na sua grade.
— Sim, Ripley. Aqui, Lambert. O que houve? Acabo de perder meu sinal.

Ela quis responder, mas a voz lhe faltou. E deixou que morresse na garganta o que tinha querido dizer. Lembrou-se das suas novas responsabilidades e endireitou-se, embora não houvesse ali ninguém para vê-la.

— Perdemos Dallas...





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