sábado, 14 de janeiro de 2012

O Oitavo Passageiro (Parte 23)





XII

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Os quatro membros sobreviventes da tripulação do Nostromo reuniram-se no cassino, que já não era confinante ou apertado. Adquirira uma largueza que eles sentiam com horror e lembrava-lhes coisas que queriam esquecer. Parker, que segurava dois lança-chamas, pôs um deles, com deferência, sobre a mesa nua.

— Onde estava? — perguntou Ripley, tristemente.
— No chão da câmara misturadora, debaixo da passarela — disse o engenheiro mecanicamente. — Nenhum sinal dele. Nenhum sangue. Nada.
— E o alienígena?
— Mesma coisa. Quer dizer, nada. Só um grande buraco, aberto através do complexo central da ventilação. No metal. Não sabia que ele tinha essa força.
— Nenhum de nós sabia. Dallas também não. Temos estado sempre um passo atrás dessa criatura desde que primeiro trouxemos sua primeira fase, a maniforme, para bordo desta nave. Isso tem de mudar. De agora em diante vamos supor que o alienígena seja capaz de tudo, inclusive invisibilidade.
— Nenhuma criatura conhecida é naturalmente invisível — ponderou Ash.
Ela o fulminou com os olhos.
— Nenhuma criatura conhecida pode rasgar placas metálicas de três centímetros de espessura como se fossem de papel — disse. E não houve resposta. — Cumpre que nos conscientizemos do que temos pela frente.
O silêncio na sala era total.
— Ripley, o que aconteceu lhe dá o comando — disse Parker. — No que me diz respeito, tudo bem.
— Obrigada — Ripley olhou-o mas não viu sarcasmo nele. Nem nas palavras, nem na atitude.
— E agora, Ripley? — perguntou ela a si mesma, três rostos encaravam-na, na expectativa. Pediam instruções. Ela revolveu a própria mente, desejando ser brilhante e eficaz, decisiva. E só encontrou incerteza, temor e perplexidade. Precisamente o que seus colegas estariam sentindo. Compreendia Dallas, agora. Agora, quando já não tinha importância.
— Está decidido, então. Salvo melhor juízo, o plano é o mesmo, e a ordem do dia é executá-lo.
— Para acabar da mesma maneira? — disse Lambert. — Não, obrigada.
— Você tem outra idéia melhor, é isso?
— Sim. Abandonar a nave. Tomar o módulo de salvamento e cair fora. Será um risco. Podemos não conseguir entrar na órbita da Terra. Mas podemos também ser apanhados por outra nave. Uma vez numa rota de grande movimento, alguém captará nosso S.O.S.

Ash interveio. Lambert obrigava-o a isso embora o que tinha para dizer lhe custasse. Falou com calma:
— Você esquece alguma coisa. Dallas e Brett talvez não estejam mortos. É uma possibilidade que abre perspectivas terríveis. Mas não temos certeza. Não podemos abandonar a nave antes de saber positivamente se estão vivos ou mortos.
— Ash tem razão — disse Ripley. — Temos de tentar mais uma vez. Sabemos que o alienígena usa o sistema de ar e ventilação. Vamos atacá-lo nível por nível. Desta vez, à medida que avançarmos, selamos a laser cada abertura, escada ou passagem à retaguarda até que ele esteja encurralado.
— Voto com você — disse Parker, olhando para Lambert. Ela mantinha os olhos baixos e não disse nada.
— Como estão as armas? — perguntou Ripley.
O engenheiro levou algum tempo verificando níveis de combustível e linhas de alimentação.
— Bocais, linhas de alimentação, tudo funciona. Tudo limpo — e mostrando o incinerador de Dallas: — Aquele podia ser carregado de novo. Boa parte do combustível foi usada.
— Então, por favor, providencie algum. Vamos enchê-lo. E você, Ash, vai com ele.
Parker olhou com expressão indecifrável para o oficial de ciência.
— Eu me arranjo sozinho.

Ash fez que sim, de cabeça.
O engenheiro apanhou sua própria arma, deu meia volta e se foi.
O resto deles ficou em volta da mesa. Estavam todos tristes e calados. Incapaz de suportar o silêncio, Ripley perguntou ao oficial de ciência.

— Alguma idéia nova? Sugestões, palpites? Contribuição sua ou da Mãe.
Ele alçou os ombros:
— Nada. Ainda pingando dados.
Ela o olhou firme.
— Não posso crer. Você está querendo me dizer que, com tudo o que temos armazenado nesta nave em matéria de conhecimento, não se acha nada melhor para combater essa coisa?
— Pois é o que parece, não? Lembre-se de que não se trata de uma fera catalogada, previsível. Você mesma disse que ela é capaz de tudo.
— Sim. Tem sua própria munição mental, pelo menos alguma, pelo menos tanto quanto um cão. Provavelmente mais que um chimpanzé. Também já demonstrou sua capacidade de aprender. Era completamente estranha ao Nostromo e, no entanto, sabe agora como andar pela nave sem ser descoberta. É ágil, forte e astuta. Um predador como nunca encontramos antes. Não é por isso tão surpreendente assim que nossos esforços para dominá-la tenham falhado.
— Você me dá a impressão de querer desistir.
— Estou apenas pondo em palavras o óbvio.
— Esta é uma nave moderna, bem equipada, projetada para viajar pelo hiperespaço e para executar uma variedade de tarefas de alta complexidade. Você não vai querer me convencer que todos os recursos dela são inadequados para enfrentar um animal isolado, mesmo um animal como esse.
— Lamento, capitão. Disse-lhe apenas, honestamente, como vejo as coisas. Desejar que sejam diferentes não vai alterar a situação. Um homem com um revólver pode caçar um tigre de dia com alguma possibilidade de êxito. Mas elimine-se a luz, ponha-se o homem à noite na floresta, envolto pelo desconhecido, e todos os seus pavores ancestrais retornarão. A vantagem será do tigre. Operamos, aqui, no escuro. Ignoramos tudo sobre a nossa fera.
— Muito poético, mas não muito útil.
— Desculpe — não parecia importar-se.
— Pois, Ash, tente modificar alguns desses 'fatos' que você parece considerar tão positivos. Vá ter com a Mãe de novo — ordenou ela — e interrogue-a até que nos dê respostas mais aceitáveis.
— Muito bem, posso tentar. Embora não saiba muito bem o que você espera. A Mãe é incapaz de encobrir informações.
— Experimente diferentes questões. Não sei se estará lembrado, mas eu tive sucesso operando através do ECIU. Sabe? O pedido de 'socorro'...
— Sim, eu me lembro — Ash olhou-a com respeito. — Talvez você tenha razão — e saiu.
Lambert sentara-se. Ripley foi sentar-se ao lado dela.
— Agüente firme. Você sabe que Dallas teria feito o mesmo por nós. Ele jamais abandonaria a nave sem estar certo da nossa morte.
Lambert não se deixou aplacar.
— Tudo o que sei é que você quer que fiquemos até sermos comidos um por um.
— Eu lhe prometo que não será assim. Se parecer que não há modo de vencê-lo, serei a primeira a determinar que saiam daqui depressa.

Uma idéia lhe ocorreu nesse momento. Deslocada, embora, e peculiar também, tinha inexplicável relevância em relação ao problema que os ocupava. Ela olhou para Lambert. Sua companheira devia responder-lhe a verdade, senão a questão não teria sentido. Sentia difusamente que, apesar de difícil em muitas coisas, nisso podia confiar em Lambert. Podia confiar na sua resposta.
É claro que uma resposta, positiva ou negativa, não bastava para decidir a questão. Mas não podia deixar que essa pequena bolha de idéia tomasse vulto dentro dela, ou em breve ocuparia obsessivamente toda sua mente. Tinha de saber e livrar-se disso:

— Lambert, você alguma vez dormiu com Ash?
— Não — fora uma resposta imediata, que não deixava lugar para hesitação ou subterfúgio. — E você?
— Não — as duas se calaram até que Lambert acrescentou, espontaneamente: — Nunca tive a impressão de que ele estivesse particularmente interessado.

Era o fim do tópico, no que dizia respeito à navegadora. E era quase o fim, também, no que dizia respeito a Ripley. Não sabia explicar por que continuava a remoer o assunto. Mas o fato é que ele não lhe saiu da cabeça e continuou a atormentá-la sem que pudesse explicar a si mesma por que infernal razão.

Parker verificou o nível do primeiro cilindro de metano e assegurou-se de que a garrafa de gás altamente comprimido estava cheia. Fez o mesmo com o segundo, que estava encostado junto dele. Depois, pegou os dois, um em cada mão, e foi com eles escada acima. O deque B estava deserto, e ele se sentiu abandonado. Quanto mais depressa se juntasse aos outros, melhor. Na verdade, lamentava não ter deixado que Ash o acompanhasse. Fora um idiota em ir correndo sozinho encher os cilindros. Todas as vítimas do alienígena tinham estado sozinhas. Arriscou uma pequena corrida a despeito do grande peso das garrafas.

Dobrou assim, em passo acelerado, uma esquina do corredor, e parou assustado, derrubando, quase, um dos recipientes. À sua frente estava justamente o conduto principal de ventilação. E além dele, mas não muito além, alguma coisa se mexera. Mas teria mesmo visto isso? Todo mundo andava imaginando coisas,  ele piscou algumas vezes, a ver se clareava vista e mente.
Já se dispunha a prosseguir quando o movimento foi repetido. Havia uma sugestão de volume e de massa. Vaga, mas perceptível. Olhando em torno deu com um dos intercomunicadores de parede. Ripley e Lambert estariam ainda na ponte.
Ele girou o comutador ao pé da grade.

— Aqui Ripley.
— Fale baixo! — cochichou ele, aflito. À frente, o movimento cessara. Teria a criatura ouvido-a?
— Posso ouvi-lo — disse Ripley, trocando com Lambert um olhar intrigado. Lambert não tinha expressão, mas, quando falou de novo, foi também num sussurro, como ele pedira: — Repita... Por que essa precaução?
— O alienígena — disse Parker, sempre em voz baixa. Não ousava falar alto: — Está do lado de fora da comporta de estibordo. Sim, agora. Abra a porta devagar. E quando eu disser, feche-a depressa e abra a outra.
— Você tem certeza de que...
Ele cortou o que ela ia dizer.
— Já lhe disse, está aqui. Faça o que pedi... — e, depois de obrigar-se a falar com calma: — Agora, abra a porta. Devagar.

Ripley hesitou, começou a dizer algo, depois viu que Lambert assentia de cabeça com vigor. Se Parker estivesse errado, nada tinham a perder, salvo uma quantidade mínima de ar. Mas, se ele soubesse o que fazia, então... Ela moveu a chave.
Embaixo, Parker tentava colar-se à parede, quando soou uma espécie de gemido e a porta da comporta interna moveu-se para o lado. A criatura saiu da sombra e avançou para ela. Várias luzes apagavam-se e acendiam lá dentro. Uma era de um belo verde-esmeralda, a mais brilhante. O alienígena contemplou-a com interesse e chegou até o limiar da comporta.

— Vamos, vamos — urgia o engenheiro. — Olhe para a bela luz verde. Isso. Não gostaria de ter a luz verde para você? Claro que gostaria. Pois entre, só isso, entre e ela será sua para sempre. São dois passos mais, dois só. Meu Deus, dois passos apenas.
Fascinado pelo indicador que pulsava hipnoticamente, o alienígena entrou na câmara. Estava agora dentro dela. Mas por quanto tempo? Quem poderia dizer quando se aborreceria daquilo, quando teria suspeitas?

— Agora — disse Parker. — Agora!

Ripley preparava-se para fechar a porta. Sua mão já estava a meio caminho da alavanca quando a sirene de emergência do Nostromo soou.
Atenção, queria dizer o apito.
Ela e Lambert ficaram petrificadas. Uma olhou para a outra e cada uma viu apenas o seu próprio choque espelhado no rosto da companheira. Ripley moveu a alavanca.
O alienígena ouvira a sirene também. Contraindo os músculos, saltou para trás, cruzando a soleira de um salto. Fora um salto inacreditável e por um segundo ele teria escapado inteiramente, mas a porta, ao fechar-se, pegou um dos seus membros e esmagou-o. O alienígena soltou um ronco que era rugido e berro ao mesmo tempo. Parecia vir do fundo d'água. Um jorro de fluido surgiu, fervilhando, da ferida. A criatura se livrou, deixando o membro que fora apanhado nas mandíbulas do metal. Depois fugiu correndo-, cego de dor. Ao passar pelo engenheiro, que apenas entreviu, levantou-o no ar, lançou-o longe e se foi, desaparecendo na primeira volta do corredor.

Por cima da cabeça de Parker, que jazia embolado no chão, uma outra luz verde se acendera e piscava, iluminando as palavras PORTA INTERNA FECHADA.
Mas o metal da comporta hermética fervia e derretia-se agora, e a porta externa se abriu. Uma lufada de ar congelado apareceu do lado de fora e o ar que a câmara continha foi sugado para o espaço.

— Parker? — dizia Ripley, aflita no intercomunicador. Pôs- se a apertar botões e a torcer interruptores. Tudo em vão. Uma luz verde, porém, não parava de piscar em seu console.
— O que houve? Deu certo?
— Não tenho certeza. A porta interna está selada e a de fora se abriu.
— Então? Deve ter funcionado. Onde está Parker?
— Não sei. Não obtenho resposta dele. Se tivesse dado certo, Parker estaria a cantar vitória em todos os intercomunicadores. Vou até lá — decidiu e correu para o convés B.

Quase caiu por duas vezes. Da primeira, tropeçou numa saliência do chão e quase perdeu os sentidos. De algum modo, conseguiu reequilibrar-se e prosseguir  cambaleando. Não era o alienígena que a preocupava, mas Parker, um ser humano.
Desceu as escadas de quatro em quatro, precipitou- se para o corredor B, correu à comporta. Estava vazia, exceto por uma forma estendida, atravessada no corredor: Parker.
Curvou-se para ele. Estava tonto, mas vivo, semiconsciente.
— O que foi? Você tem um aspecto horrível. A criatura...

O engenheiro tentava formar palavras inteligíveis, acabou tendo de gesticular, vagamente, apontando a comporta. Ripley calou-se e, olhando para a direção que ele Mostrava, viu o trágico buraco na comporta. A outra, externa, ainda estava aberta e, ao que parecia, depois de ter dado saída ao monstro.
Então o ácido varou o metal.
Houve uma explosão surda do ar que saía, e um pequeno furacão os envolveu.
O ar assobiava ao sair chupado pelo vácuo. E um sinal vermelho de alerta surgiu simultaneamente em vários recessos das paredes do corredor:

DESPRESSURIZAÇÃO PERIGOSA.


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