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sexta-feira, 11 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (5/5) - Thomas M. Disch



[Ler 4/5]

Não quero sugerir que o paralelo que estou observando, entre a FC e a religião, é sempre uma coisa boa. Há aspectos da religião que causaram problemas, historicamente falando. Por exemplo, houve a Inquisição, numa época em que se você tivesse noções que pudessem ser consideradas heréticas, isso certamente lhe traria problemas.

A religião é freqüentemente organizada para criar problemas para  pessoas que têm ideias erradas. Na FC também. Há influências ortodoxas na FC e eu senti em minha própria experiência, e outros também sentiram. Como a maioria dos hereges, tenho a tendência em pensar em ortodoxia como sendo uma oposição ao livre exercício da imaginação. Os ortodoxos, naturalmente, pensam que são defensores da verdade.

Acho que quando falamos de arte versus religião (se não estamos considerando a religião um ramo da arte) o imperativo artístico é o de fazer coisas novas, criar uma imagem que não é apenas um eco do bem sucedido de ontem, e se opõe necessariamente à outra sentença, ou seja, fazê-lo de novo da mesma forma.

Como escritor, o que muitas vezes se sente dos editores, e as vezes dos leitores, é que se deve repetir algo: se é tão bom, então faça-o como você fez da última vez.Isso geralmente é feito, as pessoas, parece-me, escrevem substancialmente o mesmo livro novamente. O processo é chamado ortodoxia, e o resultado pode ser um livro de bolso ou um ícone. A maioria dos romances de bolso ortodoxos são baseados em um livro chamado 'The Hero with a Thousand Faces', de Joseph Campbell. Campbell mostra como todos os mitos podem ser resumidos em um mito para todos os fins.Moisés é a mesma história de Teseu, e isso é o mesmo para todas as outras histórias famosas. Assim, uma vez que há somente uma história para contar, os escritores só precisam escrever esta história. E qual é essa história? Aventura!

Pegue qualquer uma delas, como 'Lord Vallentine’s Castle' de Robert Silverberg, e sob sua pintura nova há o chassi de 'The Hero with a Thousand Faces'. Silverberg, é claro, não tem a única cópia do livro de Campbell. A minha ‘The Brave Little Toaster’ é um conto de aventura investigativa com o mesmo enredo. Não há necessariamente nada de errado nisso, todos os escritores na verdade, provavelmente vão escrever uma, algum dia, talvez até sem saber, porque é um padrão muito básico, mas não é o único padrão para se contar uma história. Experimente dizer isso para um pintor de ícones ortodoxos, e você só terá um olhar vazio em resposta.

Há outro aspecto de sempre contar a mesma história, e não é uma questão do enredo, mas da moral da história. Tem sido por vezes sugerido que eu sou um niilista, e sinto que isso equivale a dizer que sou um herege. Niilistas não acreditam em nada, e isso significa que há, portanto, algo em que acreditar, ou seja, uma posição ortodoxa. 

O meu niilismo parece resumir-se entre aqueles que me apontam como tal para um livro chamado 'OS GENOCIDAS' no qual a Terra é destruída por invasores alienígenas. Eu não quero sugerir no livro que a terra deva ser destruída por invasores alienígenas, ou que venha a ser destruída, ou mesmo que nós merecemos esse destino. Eu queria escrever o que se pode chamar de uma tragédia épica, e ao mesmo tempo que pode ser uma ambição um pouco pretensiosa (para um pequeno livro), a noção de que qualquer um poderia escrever uma tragédia foi um erro da minha parte, que eu compreendi desde então. Não estou me contradizendo, preste atenção, mas quando o Grande Inquisidor me tinha sob seu poder, ele me apontou que os problemas não deveriam existir na FC, a menos que eles estejam lá para serem resolvidos, e que os homens podem olhar para um futuro de imortalidade e que é bem possível, que nenhum de nós vá algum dia morrer.

Embora não esteja convencido, não me oponho ao Grande Inquisidor, e outros de sua fé, publicando livros que expressam a ortodoxia, a visão alegre da imortalidade destinada a humanidade, e a conseqüente irrelevância da experiência trágica, mas acho que os hereges devem ser autorizados a distribuir seus panfletos e publicar seus romances também.

Tudo isso resume-se a uma declaração a favor do pluralismo, e que parece ser um fundamento bastante inglês. Historicamente a Inglaterra foi o primeiro país em que várias religiões aprenderam a viver lado a lado com êxito. Com certeza eles ainda se reúnem, algumas vezes, em congressos ecumênicos, ou se não lá, vivem todos na mesma aldeia e zombam uns das igrejas dos outros, amigavelmente, no espírito pacífico e pluralista, o espírito de uma boa convenção.

De modo que este parece ser o meu final feliz. Exceto, e me ocorre a dúvida, se eu poderia com base nestas idéias, qualificar-me como um pensador religioso. E se assim for, se eu poderia solicitar a vocês, tornarem-se membros da minha própria congregação. Os benefícios fiscais seriam simplesmente maravilhosos para mim.



Ficção científica como uma Igreja - 'On SF' por Thomas M. Disch.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (4/5) - Thomas M. Disch




[Ler 3/5]

A escala de tempo é outro aspecto do Sublime, o fato de que você pode olhar para trás na história da mesma maneira que você pode olhar no espaço, ou você pode olhar avante na história através das dimensões, como as projeções de Stapledon através de eras e eras de futuridade. Wells foi o primeiro escritor a explorar a história humana universal que remonta ao período dos homens das cavernas ou mesmo a formação geológica da Terra. É um novo sentido da história que temos, as dimensões de tempo, que precisa ser comemorado de alguma forma, ser entendido, compreendido e pensado.
Então esse é outro aspecto de sublimidade, a histórica.

Mas ainda há mais uma, e é onde a palavra realmente tem seu peso. Antes de paisagens serem consideradas Sublimes (de acordo com Reynolds) Michelangelo foi creditado como sendo o grande pintor sublime. Isso também se relaciona com o que era suposto haver e que Rafael e outros não tinham: ‘terribilitá’, uma palavra italiana maravilhosa; ‘Terribility’ (terrabilidade) não funciona em inglês da mesma forma que ‘terribilità’ em italiano. Significa que você olha para um Michelangelo e você se relaciona com a imagem que está vendo: uma imagem humana tão poderosa e tão profundamente significativa que você olha para ela e sente algo além do humano na imagem humana, algo semelhante a Deus. E, é claro, era o que Michelangelo estava pintando: imagens de deuses.

Agora, pintar um retrato de um deus assim não é fácil. Você não precisa sequer ser cristão para entender o que a imagem humana pode ser ilimitadamente significante para os seres humanos, pois ela pode condensar tudo o que é significativo e maravilhoso, a alma quebrando-se em uma imagem - ou um conto.

O sublime humano pode ser encontrado tanto na literatura quanto na pintura.

Os artistas Michelangelo e Reynolds não podem ser comparados com outros pintores: mas com Homero e Milton. Atualmente os romancistas raramente escrevem sobre deuses, raramente escrevem sobre heróis no sentido de pessoas vestindo algo apropriado para um baile à fantasia. A não ser por heróis militares e cowboys, cada um tem seu próprio uniforme, os heróis dos romances modernos tendem a ser pessoas comuns.

Há também aspectos da observação ligados ao ritual de evocação dos heróis extraordinários de fantasia. Parsifal, de Wagner, tem um pouco em comum com a Missa Solene em latim. Ou a Society for Creative Anachronism, que organiza justas para aqueles rituais que anseiam por uma participação mais energética.

Eu tenho minha própria sugestão de um ritual que poderia ser devolvido e renovado nos dias de hoje: a construção de pirâmides. Sinto que foram negligenciadas por bastante tempo. Certa vez eu estava em uma catedral na Itália, e ela parecia tão fácil de fazer. Era uma catedral nova e não muito bem construída. Não havia muito que distingui-la como uma obra de arquitetura, e eu não pude deixar de pensar: ‘Ei, eu poderia fazer isso!’ Então pensei que talvez não pudesse de verdade, mas eu certamente poderia fazer algo!

No entanto, se você não tem uma religião, provavelmente não iria querer construir uma catedral, porque estaria preso a todo um sistema com o qual não concorda.

Mas quanto a pirâmides, você teria a satisfação de construir algo sem ter que ser um verdadeiro crente. Então escrevi um artigo, propondo que construíssem pirâmides em Minnesota, e que foi publicado e muito bem recebido. Liguei para voluntários e recebi um monte de e-mails de pessoas que queriam construir pirâmides em Minnesota, e de voluntários para serem uma espécie de escravos para tal. Infelizmente, ninguém escreveu se oferecendo para financiá-la, e paramos ai. Eu devia ter me ocupado organizando uma angariação de fundos, pois assim haveriam pirâmides hoje em Minnesota, e não seria apenas um devaneio meu.


Ficção científica como uma Igreja (5/5) 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (3/5) - Thomas M. Disch



[Ler 2/5]

Se você não tem uma religião para esses fins, então é terrível. Mas deixei de fora algo óbvio. A idéia central da religião é supostamente sobre a experiência humana de nossa relação com outra coisa: Deus, o infinito, ou o quer que seja. A questão é: pode este paralelo ser prolongado a partir dai? Se existem todas essas semelhanças com a religião, então não refletiria a FC também, este aspecto central da religião?

(Há muitas histórias na FC sobre religião, e vou recomendar a você apenas a sensacional Enciclopédia de Ficção Científica, onde Brian Stableford escreveu um artigo absolutamente definitivo sobre o assunto É um assunto extenso, e há muito o que dizer. Mas não é bem onde eu quero chegar aqui.)

O que tenho em mente é: Todo fã de FC irá lhe dizer que o elemento básico da FC é a Sensação de Deslumbramento (Sense of Wonder). Esta sensação pode ser facilmente relacionada com a religião, e posso dar-lhe um nome diferente, o Sublime.

Comecei a ler recentemente um livro chamado 'Turner and the Sublime' (de Andrew Wilton). O Sublime é instantaneamente reconhecível em pinturas de JMW Turner, ou John Martin (se você viu a pintura do Apocalipse na Tate Gallery, com o raio colidindo com o penhasco, sabe do que estou falando). Martin fez dilúvios e catástrofes em larga escala, e há uma série de paisagens marinhas, com tempestades no mar e turbilhões distantes. A imensidão faz parte disso, mas não apenas o tamanho, também a sensação de olhar para grandes distâncias e perder-se em reverência.

É como olhar as estrelas, de certa forma, mas observar estrelas envolve um pouco de pensamento. Se você não tem imaginação, um céu negro com poucos pontos que piscam pode ser interpretado como uma espécie de show de luzes. Quando você começa a especular sobre o que o céu realmente é, o quão longe estão as estrelas e como quão grande cada uma delas é, você começa a ficar perdido nessas idéias, que é quando a Sensação de Deslumbramento começa a acontecer.

Acho que o arquétipo dos livros de FC são aqueles que apelam diretamente para esse sentimento, que o ajudam a formar uma visão da vastidão do espaço. (Olaf) Stapledon, e outro que vem imediatamente à mente (comparável a uma imagem de John Martin) é 'Rendez-vous com Rama' de (Arthur Charles) Clarke, onde você tem um artefato que é misterioso, explorado em suas grandes dimensões, totalmente impressionante, e que desaparece sem ter sido explicado, é apenas observado. Ringworld (e Larry Niven) é outro exemplo óbvio da satisfação que contemplar um fenômeno em grande escala pode te dar. Em menor escala, eu escrevi uma história sobre um elevador que só vai para baixo, sempre, sem parar.

Você pode percorrer esta trilha até o início do romance gótico - não é FC, mas um primo amado: O Castelo de Otranto (romance de 1764 escrito por Horace Walpole e considerado o primeiro romance gótico) é um livro absolutamente idiota que eu não acho que alguém poderia ler hoje em dia sem rir, mas em um ponto só, bate todos os outros. A única coisa que acontece é que a interessante Sensação de Deslumbramento é um capacete gigante que aparece do nada e cai no meio da praça da cidade, matando o amado da heroína. Isso acontece na página 2. Ninguém pode explicá-lo, é um capacete muito grande. Mais tarde, outros pedaços de armadura aparecem, da mesma forma, gigantescos.

Tem que ser algo na noção de grandeza que é inspiradora, que desperta o sentimento de admiração e nos faz ajoelhar e rezar. Tudo isto está relacionado ao que Freud escreveu sobre a ‘experiência oceânica’ - que é uma religião sem uma teoria, o sentimento que você tem em uma noite estrelada.

Mas isso não é tudo que existe do Sublime, porque não há nenhum sistema para tal ainda: está relacionado com o universo. As religiões sempre olham para o universo e descobrem deuses. E os deuses têm invariavelmente uma forma muito humana. É na formação da idéia de qual forma humana os deuses devem ter, é que entra o negócio de escrever histórias.


Ficção científica como uma Igreja (4/5)

terça-feira, 8 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (2/5) - Thomas M. Disch



[Ler 1/5]

Isso não esgota o paralelo entre FC e religião. É quase tão longe quanto fui em Minneapolis, e não fui bem recebido. Mas desde então, ao longo dos anos, tenho pensado sobre todas as formas de natureza religiosa do fandom de FC, e suas convenções, como uma coisa boa, especialmente se você não tem outra religião.
Se você pensar sobre alguns dos propósitos para os quais as religiões servem às pessoas, e pensar em como a FC pode servir a alguns propósitos, existe sim bastante coisa em comum.

O lado óbvio é o da vida social. Certamente quando metodistas se reúnem e decidem assar bolos e vendê-los uns aos outros, e depois sentar-se e comê-los, eles não estão realmente pensando sobre a salvação neste momento. Eles estão desfrutando do café e dos bolos com seus amigos

E é bom ter ocasiões para se reunir e tomar um café com bolo, mesmo se você for Presbiteriano, Unitarista ou fã de FC.

Depois há a questão da peregrinação. No caminho até Leeds percebi que era abril e percebi que eu estava presente em uma peregrinação. Dez quilômetros de interminável congestionamento na M1. Peregrinos, todos nós. E como diria Chaucer (escritor medieval inglês) um dos propósitos de fazer uma peregrinação não é chegar lá, mas sim trocar histórias ao longo do caminho.

Depois há o aspecto que os teólogos chamam de Ágape, ou comunhão, ou como era praticada pelos romanos, as orgias de embriaguez. Este é um aspecto importante da religião. As pessoas que lêem sobre história da religião, sabem que não há um só registro que não cite estes intervalos periódicos durante o ano, em que as pessoas precisam relaxar um pouco. E assim nós temos os feriados.

Há também o aspecto nacionalista da religião. Hoje em dia é considerado quase cafona, e nem me lembro que pertencemos a nações, mas gostando disso ou não, a nacionalidade é uma das principais formas de se classificar pessoas em grupos. No decorrer das vezes em que estive em convenções na Inglaterra (um vez estive em Bristol, e outra em Buxton) vi uma enorme quantidade de ingleses que não tinha visto antes em outra parte. E eu ficava pensando: ‘Bem, sou um turista’.

Mas se você fosse inglês, veria o mesmo e não pensaria em si mesmo como um turista. Religiões e o sistema de peregrinação fornecem maneiras de você começar a conhecer a sua nação, por assim dizer, através da experiência direta. Você visita outras cidades e você vê do que eles gostam e você vive lá algum tempo. Com pessoas convergindo de toda a sua nação, você se mistura e ouve sotaques engraçados e pede para que repitam até você poder entender o que estão dizendo. Depois de algum tempo, você tem realmente um sentido de grupo social maior. Como uma força unificadora social, uma das funções da religião sempre foi torná-lo consciente do grupo maior ao qual pertence.

Essas são coisas realmente boas sobre o sistema de convenções de FC. 


Ficção científica como uma Igreja (3/5)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (1/5) - Thomas M. Disch



Exorto-vos a meditar comigo sobre o tema da Ficção Científica (FC), como uma experiência religiosa e como uma igreja.

É domingo de Páscoa, estamos reunidos para celebrar nossos ritos peculiares, e por isso começarei o serviço agora.

A primeira vez que eu tentei elaborar algo assim, foi em Minneapolis, na primavera de 1973, quando fui a uma pequena convenção de Ficção Científica (deve ter sido por volta da Páscoa).

Duas ou três pessoas discursavam antes de mim. Enquanto falavam, ocorreu-me que esta era uma reunião religiosa, algo que nunca entendi sobre as convenções até então. Não se assemelhava ao catolicismo no qual fui criado (cresci na época em que as missas eram em Latim), mas havia uma grande semelhança entre a convenção de FC em Minneapolis e certos cultos pentecostais que eu tinha presenciado na Guatemala.

Agora que tenho o gancho, vou fazer uma digressão para falar sobre as minhas experiências na Guatemala.

Eu estava viajando com Tony Clark, um vigarista profissional que vendia relógios de ouro maciço na sua van, e a van ficou presa na lama. A única maneira para chegar onde eu queria ir, era tomar um avião que, por razões políticas parou na fronteira das Honduras Britânicas, e eu não consegui ir adiante. Não havia transporte público da fronteira para a única cidade, Belize. Então comecei a pegar carona, e não havia muito trânsito no interior das Honduras Britânicas, quando finalmente um Land Rover veio e parou para mim. O motorista era muito simpático, e eu estava muito amigável também. Acontece que ele estava lá como missionário do Evangelho Pentecostal, e achava que a Divina Providência colocara-me lá na estrada para ele me encontrar. Eu não poderia contradizer isso. Levou-me para sua casa e participei de seu trabalho. E foram horas muito agradáveis. Eles cantavam e dançavam e estavam convencidos de sua natureza especial ali: do fato de que, das poucas pessoas da raça humana que iriam ser salvas nos tempos vindouros, estavam aqueles da região central das Honduras Britânicas, os privilegiados que não iriam para o inferno, mas para o céu.

Esse é o paralelo que eu observei com Minneapolis.

Bendito é o texto, bem-aventurados são aqueles que lêem FC, porque eles herdarão o futuro.

Também há sugestões de poderes secretos, que algumas poucas pessoas possuem, sugerindo que estes poderes secretos mentais, de vários tipos, são relacionados com quem lê FC. Tais poderes, não raramente, estão associados também com a experiência religiosa. Há também a revelação feita a Noé. Como Noé, muitos escritores de FC e seus fãs, se consideram sabedores sobre a catástrofe que se aproxima (o que quer que possa ser), e estão contando em estar entre os poucos felizardos que sobreviverão.
Necessita citar capítulo e versículo?

Depois há a questão da cura e aqui vou entrar em outra digressão.

Minha primeira grande conferência de FC foi a Conferência dos Escritores de Milford (Connecticut), em 1964. Eu não conhecia ninguém em Milford de antemão e ninguém lá nunca tinha ouvido falar de mim, porque eu estava lá como convidado de Dobbin Thorpe. Dobbin havia publicado uma história surpreendente e Damon Knight gostou dela e foi assim que Dobbin foi convidado.

Eu ficaria hospedado com Walt e Leigh Richmond, proprietários da Red Fox Inn, a cerca de dez quilômetros fora de Milford. Na pousada participei de uma cena com a qual estava pouco familiarizado.
Walt Richmond estava examinando um escritor jovem de FC que também fora convidado. Ele tinha uma doença em seu joelho, relacionada com um trauma de infância e que Walt estava investigando. Acontece que este companheiro tivera todo tipo de problemas não resolvidos com seu pai, e todos eles se concentravam em engrams (conceito de neuropsiquiatria) em seu joelho. Eu não sabia sobre a teoria por trás de tudo isto, mas fiquei impressionado com o fato de que ambos entendiam o que estavam fazendo e que eles esperavam que eu também soubesse. Eu era tímido e eu não deixei Walt elucidar sobre meus engrams.Mas eu tive que contar esta história porque os Richmonds estão entre aquelas pessoas que possuem poderes psíquicos de algum tipo estranho. Escreviam livros, e Leigh explicou o método da sua colaboração.

É comum quando você escreve em colaboração com outros, as pessoas quererem saber como você realmente o faz. Walt e Leigh tinham encontrado uma técnica muito incomum e eficaz. Ele pensava no que iriam escrever e projetava isso psiquicamente. Ela sentava-se na máquina de escrever e escrevia a história que ele havia projetado para ela. Nunca tiveram que trocar uma palavra sequer!

Isto foi o mais perto que cheguei dos arcanos interiores do templo da Verdade.

Acreditar em Ficção Científica.

Os Richmonds compreendiam todo tipo de coisas sobre a Atlântida. Eles escreveram livros sobre ela, livros que eram visões de coisas que tinham realmente acontecido. Claro que ficaram um pouco irritados quando as pessoas consideravam os livros como ficção, porque sabiam que não era ficção. Mas por outro lado, eles tinham que ganhar a vida, e assim era publicada, como ficção.



Ficção científica como uma Igreja (2/5)

domingo, 6 de março de 2011

Thomas M. Disch


 
Apesar de americano, Disch era associado frequentemente com a ficção científica new wave da Grã-Bretanha - onde viveu no final dos anos 1970 - e que era centrada em autores como Michael Moorcock e M.John Harrison, invés de figuras como Philip K Dick e Ursula Le Guin nos Estados Unidos, igualmente empenhados em ampliar o alcance do gênero de suas origens.

O trabalho de Disch era conscientemente literário e ambicioso - e tornou-se ainda mais com o passar do tempo - notável desde o princípio por sua sagacidade sarcástica, fria raiva, o cinismo e a dependência da ironia e da alegoria. Em seus últimos romances e poemas, muitas vezes parecia que a sátira dera lugar à amargura.

O crítico John Clute chamou-o de "talvez o mais respeitado, mais invejado e menos lido de todos os escritores modernos de primeira linha da Ficção Científica". Ele era bem-visto pela sua poesia (que assinava como Tom Disch) por muitos que não tinham sequer idéia de que ele escrevia ficção de gênero.

Thomas Michael Disch nasceu em 2 de fevereiro de 1940 em Des Moines, Iowa, filho de um caixeiro-viajante. Ele foi educado em casa e em uma escola católica militar. Em 1953 a família mudou-se para Minneapolis-St Paul, em Minnesota, e na escola tomou gosto pela poesia, memorizando milhares de versos.

Imediatamente após a escola mudou-se para New York, onde teve uma série de empregos de curta duração como vendedor, em escritórios, livrarias, jornais e na chapelaria de um teatro. O último o levaria a carregar uma lança no Lago dos Cisnes (por trás de Margot Fonteyn) e (escondido) como um servo de Don Giovanni no Metropolitan Opera. Ele também teve uma breve passagem no exército, do qual foi prontamente dispensado por invalidez depois de um colapso nervoso. Trabalhou com seguros e, em seguida matriculou-se em cursos diversos (arquitetura) e aulas noturnas de escrita criativa na Universidade de Nova York.

Conforme os exames se aproximavam em 1962, percebeu que era provável que falhasse e, sob a perspectiva de outro colapso nervoso, dedicou o fim de semana anterior para escrever um conto ao invés de revisar seu trabalho de aula. 'The Double Timer' foi vendido por 112,50 dólares para a revista Fantastic Stories e ele desistiu dos estudos.

Posteriormente contudo (apesar de escrever) continuou em uma série de bicos (caixa de banco,  trabalhou em um necrotério, redator de publicidade) para pagar as contas. Suas primeiras histórias de Ficção Científica, reunidas em 1966 em 'One Hundred and Two H Bombs', possuia um conto, "White Fang Goes Dingo", que foi mais tarde expandido do que era conhecida como Mankind Under the Leash and The Puppies of Terra (A humanidade sob a coleira e os animais de estimação da Terra). A maior parte deste trabalho foi mais tarde reeditado na coleção 'The Early Science Fiction Stories of Thomas M Disch' (1977, editado por David G Hartnell).

Os animais de estimação da Terra reapareciam no tema do primeiro romance, 'OS GENOCIDAS' (1965). Nele os alienígenas utilizam a Terra como uma espécie de estufa. Quando os seres humanos iniciam uma luta contra a transformação de seu meio ambiente, que ameaça a sua sobrevivência, são exterminados como pulgões.

No segundo livro, os seres humanos são igualmente tratados como pouco importantes por alienígenas conquistadores, apesar de serem mantidos como animais de estimação. A indiferença do universo para o sofrimento humano foi um tema constante na obra de Disch.

Campo de Concentração (1968) descrevia uma América num futuro próximo em que os presos políticos recebem doses de uma droga que melhora consideravelmente a sua inteligência, mas reduz sua expectativa de vida apenas a poucos mês. Um tema não muito diferente de 'Flowers for Algernon' de Daniel Keyes (filmado como Charly, no mesmo ano), mas no conto de Disch, a analogia com 'Doctor Fausto' de Thomas Mann eram explícitas.

De fato, uma dificuldade persistente para a reputação de Disch era de que muitos de seus romances eram excessivamente literários para os padrões da ficção científica da época, quando o mainstream literário era definido quanto ao gênero. Nos anos posteriores, isso levou-o a afastar-se, para produzir, entre outros livros, romances de terror, críticas, poesias e peças teatrais. Mas a partir de meados de 1960 sua produção era tão prolífica como a de muitos de seus contemporâneos, que haviam iniciado suas carreiras em revistas populares.

Ele e John Sladek, colaborando sob o nome de Cassandra Knye, escreveram horror gótico, 'The House that fear built' (A casa que o medo construíu) de 1966, e dois anos mais tarde escreveu, como Thom Demijohn, um romance (não de ficção científica), 'Alice Black' (1968). Disch produziu novelizações da série de televisão 'The Prisoner' e do longa-metragem  'Alfred The Great' (ambos de 1969, este último com Victor Hastings). Outra novela, enorme, a gótica 'Clara Reeve' (1975), surgiu sob o nome de Leonie Hargreave.

Mas seus romances mais conhecidos, e mais elogiados, '334' (1972) e 'On Wings of Song' (1979), ambos de ficção científica, se passam em um futuro próximo em Nova York. O primeiro descreve a luta dos moradores de um prédio (o 334 do título, que também foi utilizado como base para a estrutura do livro) contra as restrições e a indiferença das autoridades em uma cidade distópica. 'On Wings of Song' (Nas Asas da Canção),  ganhou o Prêmio John W Campbell, era menos pessimista e mais popular que grande parte de sua obra. Celebra as artes (especialmente a ópera) como um mecanismo de transcendência espiritual em um futuro repressivo, em que o fundamentalismo dominou o meio-oeste americano.

A partir da década de 1980, quando retornou para a América, Disch concentrou-se na ficção de horror, escrevendo uma série de romances situados em Minneapolis: 'The businessman' (O Empresário) de 1984, foi seguido por 'The MD' (1989), 'The Priest' (1994) e 'The Sub' (1999) , satirizando o sonho americano, concentrando-se nas conseqüências terríveis de pessoas realizando seus desejo íntimos.

Em 1986 produziu um jogo de computador de aventura, 'Amnesia', que tornou-se popular no Commodore 64 e no Apple II. No mesmo ano, escreveu um livro infantil, 'The Brave Little Toaster', que foi transformado em um filme de animação distribuído pela Disney. 'The Brave Little Toaster Goes to Mars' veio em 1988.

Também produziu duas obras de crítica mordaz sobre a FC: 'The Dreams Our Stuff is Made Of'(1998) e 'Disch on SF'(2005), bem como dois livros de poesia, 'The Castle of Indolence'(1995) e 'The Castle of Perseverence'(2001).  Por muitos anos escreveu críticas de teatro para o jornal The Nation.

Sua própria poesia teve um público relativamente restrito, até a publicação de seus poemas selecionados, "Yes, Let's" em 1989. Foi seguido por 'Dark Verses and Light'(1991) e 'About the size of it'(2007). Sua peça 'The Cardinal Detoxes' (1990), que estava prevista para ser encenada em uma antiga escola em Low East Side, Manhattan, provocou a ira da Arquidiocese de Nova York, que possuía a propriedade. Após uma tentativa frustrada de obter uma ordem judicial impedindo a execução de ir em frente, a Igreja em seguida tentou trancar o local pouco antes da performance.

Apesar daqueles que apoiavam a peça de Disch, alegarem de que não havia nada de profano na peça, um monólogo sobre um arcebispo em uma clínica de recuperação de alcoolatras,e que matou uma mulher grávida em um acidente por dirigir embriagado e tentar subornar um juiz, Disch era, sem dúvida alguma, hostil à religião. Em seu blog no LiveJournal, que manteve até 02 de julho, ele se proclamou Deus, e encorajou leitores a erguerem santuários em seus quintais, para que suas ferramentas de jardinagem fossem dedutíveis do imposto de renda. Um de seus últimos livros, intitulado 'The Word of God' é composto por histórias curtas a partir do ponto de vista da  Divindade.

Uma figura corpulenta, tatuada, que oscilava entre o charme e a rabugice, Tom Disch viveu por muitos anos com o poeta Charles Naylor, com quem produziu várias antologias. Naylor morreu em 2005, após uma longa doença que esgotou as economias do casal. Sua casa em Barryville, New York, sucumbiu a fungos, e Naylor o tinha nomeado como inquilino do apartamento da Union Square West, Disch então esteve sob ameaça constante de despejo. Tornou-se cada vez mais deprimido, tanto por seu fracasso em obter o reconhecimento por seu trabalho e devido as circunstâncias de sua vida. No seu último post no blog, reclamava do aumento do preço dos alimentos.

Ele disparou contra si mesmo, no Dia da Independência dos EUA, em 2008.


Obituário - The Telegraph - 08 Jul 2008
http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/2271007/Thomas-M-Disch.html


Thomas M. Disch ( 334, After Pottsville, Camp Concentration, Casablanca, Come to Venus Melancholy, Descending, In Xanadu, Minnesota Gothic, On Wings of Song, Ringtime, The Businessman, The Genocides, The MD, The Pressure of Time, The Priest, The Prisoner, The Roaches, The Shadow, Understanding Human Behavior ) [ Download ]

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Entrevista com Marcello Simão Branco

Aproveitando o lançamento de 'Assembleia Estelar', o Capacitor Fantástico entrevista seu organizador, o pesquisador e escritor Marcello Simão Branco.





Capacitor Fantástico: Nos fale um pouco sobre o que encontraremos em 'Assembleia Estelar'?

Marcello Simão Branco: O livro é uma antologia de contos e noveletas com histórias de ficção científica de conteúdo político. Narrativas sobre escolhas eleitorais no futuro, histórias alternativas, guerras futuras e caos social, novas formas de hegemonia política no século XXI, revoluções, sociedades anarquistas, divisão política humana na conquista do espaço etc. São 14 histórias com dez dos principais autores brasileiros: André Carneiro, Ataíde Tartari, Carlos Orsi, Daniel Fresnot, Fernando Bonassi, Flávio Medeiros, Jr, Henrique Flory, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos, alé de quatro estrangeiros, incluindo três estrelas da FC internacional, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin, e o português Luís Filipe Silva. O livro ainda contém um longo artigo escrito por mim em que analiso as relações históricas e temáticas entre a FC e a política, no exterior e no Brasil.






CF: Como e quando surgiu a ideia incomum de casar FC com política?

MSB: Bom, minha formação é de doutor em ciência política, então acabou sendo natural tentar aproximar estes dois campos de interesse. Mas de maneira concreta me inspirei no livro "2084: Election Day: Stories About the Politics of the Future", organizado por Isaac Asimov e Martin H. Greenberg - este um antologista e cientista político - em 1984, com a mesma proposta. Fui atrás deste livro e tomando ele como base, organizei "Assembleia Estelar". Mas o resultado ficou diferente, já que o norte-americano centra-se mais na política interna dos EUA e sua democracia e além de temas de política externa. Já "Assembleia Estelar" tem um conteúdo político mais variado, conforme comentei na resposta anterior.


CF: Como foi feita a seleção dos trabalhos?

MSB: Enviei a proposta do livro para cerca de 40 autores brasileiros e alguns portugueses. A receptividade foi grande e a maioria enviou trabalhos. A partir daí, selecionei os que entraram no livro. Adicionalmente também procurei autores com histórias já publicadas há alguns anos que eu considero de boa qualidade, e as incluí no livro também. E por fim, a Devir me permitiu escolher histórias de FC política dos autores
estrangeiros que ela tem contrato.



CF: Como foi ou está sendo, esta parceria com a Devir?

MSB: Muito pródiga. O Douglas Quinta Reis, diretor editorial, é, sobretudo, um fã de FC e entende o que um leitor e aficcionado do gênero espera de uma editora. A proposta de "publicar FC para quem gosta de FC", casa perfeitamente com minha trajetória dentro do gênero e a editora é muito aberta ao debate e sugestão de ideias e trabalhos. Nesse sentido, além do aspecto comercial, há um engajamento dentro da linha editorial que justifica a parceria que temos realizado, seja em "Assembleia Estelar", seja na coleções de livros em geral e também no "Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica".


CF: Quais outras coletâneas você organizou?

MSB: Além desta, organizei profissionalmente "Outras Copas, Outros Mundos", para a editora Ano-Luz, em 1998. Foi outra antologia temática pioneira na FC brasileira - e internacional - relacionando o fantástico com o futebol. Foram 11 contos de autores nacionais, às vésperas da Copa do Mundo de 1998. Algumas outras foram em caráter amador, na coleção "Terra Incognita", da mesma Ano-Luz, por volta de 2000 e 2001, como livros de contos de Carlos Orsi e Simone Sauressig.


CF: A FCB parece estar se avolumando de forma nunca vista, algo que os militantes no fandom não poderiam ter previsto dez anos atrás. É somente a internet, é um momento financeiro favorável, ou modernização do mercado gráfico/editorial, ou tudo junto? Como você vê a situação atual? Os leitores estão procurando mais literatura fantástica hoje?

MSB: Acredito que sim. Na verdade, há muitos mais livros do que é possível ler e comprar à disposição do leitor brasileiro hoje. Mas o mercado é também grande o suficiente para se segmentar em gêneros, temas e faixas etárias diferentes, embora a maior oferta seja para os livros de caráter infanto-juvenil. O mercado editorial para os gêneros fantásticos atravessa um grande momento, mas pode não ser definitivo. No fundo, ainda é uma questão de obter retorno do mercado e seguir as tendências que vêm do exterior, mesmo porque a maior parte dos livros publicados pelas grandes editoras é de autores e temas da moda no exterior. Veja o sucesso da fantasia no início dos anos 2000 e o dos vampiros nos últimos anos.


CF: Não lhe parece que a estratégia para chegar aos leitores de amanhã, tenha que ser repensada, e que estamos perdendo um tempo precioso insistindo em modelos tradicionais/conservadores? Por exemplo, a maioria das editoras ainda se definiu por adotar modelos eletrônicos em seus lançamentos, e mal se utilizam da internet para disseminar seus produtos. Não lhe parece que estaremos sempre 'correndo atrás do prejuizo'?

MSB: Sim, mas é que as grandes editoras têm, em geral, uma estrutura pesada e conservadora. Elas deverão mudar aos poucos, seguindo a tendência das editoras estrangeiras e o quando tiverem um retorno financeiro seguro de novas estratégias. Também a disseminação de novas tecnologias associadas ao livro deve, a médio prazo, provocar um impacto não desprezível na estratégia das editoras.


CF: Você deve se lembrar de um tempo em que autores internacionais de FC e Fantasia, tinham seus livros publicados no Brasil. A partir de um determinado momento, estas publicações deixaram de acontecer e ficamos afastados da FC mundial (ainda hoje estamos). Você considera que este fato prejudicou de alguma maneira a FCB? A FCB que temos hoje, está de alguma forma descompassada em relação a FC mundial, ou escrava do universo das séries televisivas e do cinema blockbuster?

MSB: Olha, esta fase que você comenta já passou. De uns cinco anos para cá, a quantidade de livros de FC, fantasia e horror no Brasil atingiu números centenários. Em 2009, por exemplo, tivemos 364 livros destes gêneros publicados no país, sendo quase 40% deles, de autores nacionais (ainda que em editoras pequenas, edições amadoras e eletrônicas). 

A internet coloca a FC brasileira em contato permanente com centros importantes da FC internacional. Inclusive, alguns autores e críticos têm publicado em revistas nos EUA e na Europa. Algumas poucas editoras (como a Aleph e a Devir) têm publicado livros de autores importantes e atuais. Mas o que poderia tornar ainda mais efetiva a aproximação dos temas da FC internacional e brasileira seria a publicação de uma revista profissional de contos, a exemplo do que foi a "Isaac Asimov Magazine", no início dos anos 1990. 

De qualquer maneira, os melhores autores brasileiros de hoje escrevem uma FC instigante e ousada a par do que acontece nos principais centros da FC mundial. Não porque seguem necessariamenrte as tendências, mas porque desenvolvem caminhos próprios, a partir da realidade brasileira.


CF: Você e Cesar Silva são os pesquisadores responsáveis pelo sempre aguardado 'Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica'. No decorrer do tempo em que trabalharam para a elaboração do anuário, foi possível perceber alguma tendência ou mudança significativa nas publicações nacionais, em relação a outras épocas?

MSB:  Sim, principalmente na quantidade, como disse antes. No primeiro "Anuário", de 2004, tivemos 130 livros publicados no ano. Em 2009, como disse antes, 364. E agora em 2010, passará com folga dos 400 livros. Duas características podem ser apontadas como principais: 1) a expansão dos lançamentos baseia-se nos livros para o público infanto-juvenil; 2) o expressivo aumento quantitativo na publicação de autores nacionais (48 num total de 130 em 2004 (37%) e 142 de 364 (39%) em 2009), com a manutenção de um patamar em termos proporcionais. Surgiram várias editoras novas que publicam autores nacionais e outras tradicionais que voltaram a dar espaço à FC, fantasia e horror.
Contudo, se aumentou a quantidade, falta ainda que os bons autores nacionais sejam publicados pelas grandes editoras, pois estas priorizam os autores estrangeiros.



CF: Para terminar, você tem alguma outra coletânea em vista? Alguma sugestão de leitura ou link que queira divulgar?

MSB: Uma nova coletânea neste momento não. Mas para os próximos anos é possível que coordene um novo projeto. Dois livros que li recentemente merecem ser recomendados: "O Incrível Homem que Encolheu", de Richard Matheson (editora Novo Século) e "Selva Brasil", de Roberto de Sousa Causo (editora Draco), pois estão entre os melhores lançamentos de 2010. Sugiro também a visita aos sites das editoras que publicam FC&F de maneira regular e engajada, como, por exemplo, a Devir, a Aleph e a Tarja Editorial. A maior parte do que há de melhor vem sendo realizado por estas editoras. Afora, isso, vale a pena conhecer o blog de Cesar Silva, www.mensagensdohiperespaço.blogspot.com, que realiza um trabalho de divulgação e análise sobre a FC&F brasileira dos mais idealistas e independentes.

CF: Obrigado Marcello, pela sua gentileza em conceder esta entrevista!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carl Sagan: A Exploração e Colonização de Planetas



Obras de ficção científica podem, dependendo de como estiverem estruturadas por seus autores, em nosso caso, o astrônomo Carl Sagan, ser usadas como textos de referência em História da Ciência por sua interdisciplinaridade.

O caso específico das viagens interplanetárias, pensadas e teorizadas cientificamente e divulgadas sob a linguagem da ficção científica nos livros de Carl Sagan, é o de que se ocupa esta dissertação.

Os autores de textos de ficção, como os colegas de Sagan Arthur Charles Clarke e Isaac Asimov, procuram, como acontece com textos teóricos acadêmicos, assim como também eram alguns dos textos de Sagan, fundamentar suas extrapolações em observações cuidadosas de tendências em ação na sociedade e na ciência e desenvolver sua (narração, no caso de Asimov e Clarke) implementação ou divulgação com rigor e consistência. Ou seja, parte da literatura futurística seria um instrumento importante de análise de História da Ciência para que esta possa pensar em propostas alternativas para uma política científica e de
ensino científico que tenha um alcance social. Uma espécie de experimento ou exercício imaginário.

Em outras palavras, o que aqui se estuda é a relação entre ficção científica e ciência que fale das viagens interplanetárias e como elas estão expressas nas obras de Sagan.

Portanto, a dissertação delimita o que, em primeiro lugar, deve-se considerar sobre as viagens interplanetárias, sua disseminação nos anos de 1930 a 1960 e sua divulgação através de dois dos melhores escritores de ficção científica do século XX, que se empenharam em divulgar idéias científicas ou de Astronáutica para uma melhor compreensão da ciência, do papel da ciência e do impacto da ciência e tecnologia numa sociedade com uma velocidade em movimento rápido, mas sem muitos detalhes.

Depois, como foi a realização primordial de algumas dessas fantasias realizadas pelo envolvimento de Carl Sagan, inicialmente, com o complexo militar industrial dos Estados Unidos da América durante a Guerra Fria com a URSS e depois pela NASA. E o que se aprendeu, cientificamente, com a exploração de nosso sistema solar e de nossos planetas mais próximos, de maneira que esses resultados da exploração espacial pudessem ser divulgados com a ajuda da literatura de ficção em forma de alerta sobre os problemas que teremos de enfrentar num futuro bem próximo.

E, por último, o destino da humanidade imaginado por Sagan numa espécie de manifesto divulgado por ele mesmo em seus principais livros e aqui analisado para que se pudesse manter o paralelismo de conteúdo e tendências entre as obras de ficção e a literatura acadêmica sobre o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e o destino da humanidade e dos indivíduos que a compõem.

Isto nos leva a concluir que o estudante de História da Ciência, tendo uma formação inicial ou complementar em humanidades, poderá encontrar na estante de História da Ciência um valioso manifesto para uma reflexão despretensiosa ou para a militância.



Introdução

Capitulo I  Carl Sagan e a ficção cientifica
1.1 A ficção cientifica antes de Carl Sagan
1.2 O Contexto da ficção cientifica e a divulgação pelas revistas
1.3 Isaac Asimov, Arthur Charles Clarke
1.4 A influencia da ficção cientifica a educação cientifica

Capitulo II  Carl Sagan e o Complexo Militar Industrial
2.1 Carl Sagan e seu relacionamento com o “complexo militar industrial”
2.2 O vôo interestelar
2.3 Marte e a ficção cientifica
2.4 Civilizações extraterrenas
2.5 Astrobiologia
2.6 Das conjecturas aos paradigmas

Capitulo III  Sagan, O divulgador do vôo interestelar
3.1 Razões do vôo interestelar
3.2 Efeito estufa e inverno nuclear
3.3 O conhecimento do espaço e a sobrevivência da espécie humana
3.4 As perspectivas cósmicas
3.5 O circulo se fecha: a extrapolação da ciência e ficção cientifica.

Considerações Finais
Bibliografia




Carl Sagan: A Exploração e Colonização de Planetas [ Download ]
Carlos A.Loiola de Souza (Dissertação de Mestrado - PUC/SP 2006)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ficção científica e ensino de ciências



Tem sido comum a proposta de empregar filmes de ficção científica — FC — para introduzir conceitos de ciência em sala de aula (Southworth, 1987; Martin-Diaz et al., 1992; Dubeck et al., 1990; 1993; 1998; Freudenrich, 2000; Dark, 2005).

No entanto, muitas vezes, o potencial didático de uma obra é associado à precisão científica das situações retratadas. Assim, filmes que exibem cenas fantasiosas ou mesmo flagrantemente contrárias ao conhecimento científico seriam didaticamente menos relevantes do que as que trazem situações realistas.

Nas pesquisas em ensino de ciências, no entanto, a noção de “erro” conceitual tem sido examinada com critérios menos valorativos, seja por aquelas baseadas no desenvolvimento cognitivo, derivadas dos trabalhos pioneiros de Viennot (1979) e de Saltiel e Viennot (1985), seja pelas ligadas à história e à natureza do conhecimento científico, que mostram como o desenvolvimento do conhecimento no plano individual está sujeito a indefinições e obstáculos similares aos da construção do conhecimento social da ciência, aspecto já destacado nos anos 1980 por Gilbert e Zylbersztajn (1985).

Além disso, também não é possível ignorar que a obra ficcional segue suas próprias leis: aquilo que um cientista consideraria um erro pode constituir uma estratégia narrativa fundamental para que a história atinja o efeito pretendido pelo autor.

Nessas duas vertentes do erro — etapa do conhecimento e estratégia narrativa — há um aspecto em comum: a apreensão do real a partir de conceitos para representar o mundo por meio da linguagem. As pesquisas em ensino mencionadas baseiam-se, sobretudo, em dados da expressão verbal dos estudantes sobre fenômenos e situações. São narrativas sobre o mundo, calcadas em experiências que embora possuam referências na vivência direta com o mundo, são predominantemente representações culturais coletivas da ciência. A FC, por outro lado, destrincha essas experiências culturais a partir de ideias científicas e colocam-nas sob a perspectiva das questões humanas a elas subjacentes.humanas a elas subjacentes.

Interessa verificar se tais aspectos do erro (etapa de aprendizagem e procedimento narrativo) são epistemologicamente conciliáveis, de forma a ser possível estabelecer entre eles uma relação de necessidade. Se não, a ficção será quando muito um simples recurso para estimular o estudante e facilitar o ensino.

Entretanto, se há uma relação intrínseca entre a questão conceitual da ciência e a lógica ficcional, talvez seja possível encontrar nas obras de ficção algo mais profundo do que uma simples estratégia agradável de ensino.

(...)


Ficção científica e ensino de ciências: para além do método de ‘encontrar erros em filmes’ [ Download ]
Luís Paulo Piassi e Maurício Pietrocola

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

E-books e novos formatos



Com a proliferação dos diversos leitores de e-books, e o número cada vez maior de autores e editoras partindo para a digitalização, vale a pena dar uma passada pelos principais formatos que estão surgindo e que você encontrará eventualmente nos próximos anos.



.ePub
'O MP3 dos livros' vem aos poucos tomando o lugar do nosso velho PDF (que é praticamente uma imagem e não o texto em si, e portanto impossível de alterar a formatação nem redimensionar). O ePub é um padrão internacional para e-books, livre e aberto, organizado por um consórcio de empresas chamado IDPF (International Digital Publishing Forum).  Um livro no formato ePub permite uma leitura muito boa em qualquer tipo de tela, independente da plataforma, seja um e-reader, seu computador, iphone ou um celular. Pode-se aumentar ou reduzir o tamanho da fonte, alargar ou diminuir o tamanho da página.
Recomendamos o Adobe Digital Editions (um gerenciador de epubs) ou o FBREADER.
Para os portateis, o gratuito Ereader.
Outra possibilidade, sem precisar instalar nada é subir o epub para o site Bookworm e asim poder ler em qualquer plataforma que acesse internet. No mesmo site é possível validar seu arquivo e-pub.


.PRC (mobipocket)
Formato destinado ao PDA Palm OS. 
Para o windows utilize o FBREADER 
Se você quiser começar a produzir seus próprios e-books  na extensão .prc, poderá fazer o download gratuito do Mobipocket Publisher (Windows 95/98/NT/2000).
No site da Mobipocket.com, você encontra gratuitamente o Mobipocket Reader para seu PDA, seja ele PalmOS (versão 3.0 e acima), Windows CE (versão 2.0 e acima, inclusive PocketPCs) ou Epoc32 (Psion Series 5), seja seu computador um PC, MacOs, Linux ou Unix... E também o Mobipocket Reader para o PC.


.LIT
Livros eletrônicos no formato LIT são compatíveis com OeB [desenvolvido pela Open Book Forum ].
Foi criado como uma tentativa de resposta da Microsoft ao PDF (Adobe).
Para ler, basta ter instalado o MS Reader para todas as plataformas


.LRF
É o formato criado pela Sony para seus leitores de e-book. Existem poucos utilitários para a leitura deste formato, mas é possível convertê-lo no formato de sua preferencia com o ABC Amber Sony Converter.


.TK3
TK3 Multimedia eBook. Formato de livro eletrônico que suporta texto, imagens, sons e vídeo, pode ser usado para criar documentos interativos e projetos educacionais, tais como guias de referência, catálogos e apresentações.Arquivos em TK3 podem ser criados e editados pelo software TK3 Author e lidos em qualquer plataforma pelo software TK3 Reader.


.RB
Rocket Books. Você deve instalar em seu computador, o simulador eRocket. O eRocket é um programa que simula o aparelho dedicado a leitura Rocket eBook [reading device desenvolvido pela empresa norte-americana NuvoMedia, Inc.].

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Ciência da Ficção - O que é Ficção Científica?



O debate sobre uma definição adequada para a Ficção Científica (FC) é antigo.

A edição de 1979 da Enciclopédia da Ficção Científica tinha mais de vinte definições.
Em 1993, a equipe editorial baixou para onze. O livro de referência da FC cita sessenta e oito definições.
A maioria insatisfatórias, algumas irrelevantes e deixam escapar algo crucial.

Não se pode dizer que a FC é realista, porque não é limitada aos seus métodos, e pela mesma razão não pode ser classificado como naturalismo.

Definir FC como "narrativas do futuro" também é equivocado. Como disse o escritor e teórico de FC, Philip K. Dick, "não é o trabalho da ficção científica, fazer previsões". Dick dá também uma outra razão muito simples pela qual a FC não pode ser definida como uma ficção do futuro, ou seja, pode haver ficção científica no presente, ou em um mundo alternativo.

Hugo Gernsback (considerado o 'Pai da FC') definiu como "um romance com fatos científicos e visão profética entremeadas".

Na visão do croata Darko Suvin, estudioso e crítico de FC, esta definição identifica apenas "estágios primários de desenvolvimento da FC", como qualquer definição que se  concentra na tecnologia, ao invés do âmbito social onde estes avanços tiveram origem.

"Fornecer detalhes técnicos corretos" não é, de acordo com o professor Patrick Parrinder, o elemento definidor da FC. Isso porque os escritores lidam também com extrapolações não tecnológicas, como aspectos sociais, normas de comportamento sexual, cultos religiosos, formas de arte do futuro, etc.

Williams corrobora no mesmo ponto, quando afirma que a FC, além de explorar novas tecnologias, pode explorar um novo conjunto de leis, tais como novas relações abstratas - o que ele chama de "novo máquinário social".

O escritor de FC Kurt Vonnegut, falando sobre seu alter ego, o também escritor de FC, Kilgore Trout, declara que "se Kilgore Trout pode ser um escritor de FC, e ainda assim, não saber quase nada sobre ciência, então qual é a relação entre ciência e ficção científica?"

Outros escritores, como Ben Bova, Burroughs e Damien Broderick, definem a FC como "a ficção que trata de mitos modernos". Essa definição é equivocada, na minha opinião, e explicarei o por que mais tarde.

Se FC não pode ser definida como sendo sobre narrativas do futuro, nem como ficção tecnológica, e se não é o naturalismo, realismo ou mito, então o que exatamente é?

Os compiladores da edição de 1993 da Enciclopédia da Ficção Científica concluíram que uma definição única, que englobe tudo, é provavelmente impossível. No entanto, na introdução de "The Last Frontier: Imaging Other Worlds From the Copernican Revolution to Modern Science Fiction"  (A Última Fronteira: Imaginando Outros Mundos - Da Revolução de Copernico à Ficção Científica Moderna), o professor e historiador Karl Guthke, explora uma definição que julgo que revela os princípios filosóficos por detrás das obras de ficção científica. Um dos defensores mais proeminentes desta definição de FC é também Darko Suvin, que insiste que: "A FC é um gênero literário, cujas condições necessárias e suficientes são a presença e a interação de estranhamento e cognição, e cujo principal dispositivo formal é uma plataforma alternativa imaginada à partir do ambiente empírico do autor."

Embora não haja estranhamento ou "deslocamento", em toda a ficção de FC, o que distingue de outros gêneros é o fato de que seus estranhamentos são cientificamente possíveis ou acredita-se serem cientificamente possíveis.

Suvin dá uma definição do que se entende por literatura de estranhamento cognitivo: "A FC se distingue pela dominância narrativa ou a hegemonia de um 'novum' (novidade,  inovação), validado pela lógica cognitiva".

O 'novum' central de qualquer trabalho de FC, de acordo com Suvin, tem que estar dentro dos limites da razão científica. Se uma obra contém um ‘novum’ fora da "lógica cognitiva", não seria correto então, classificar como um exemplo de FC.

Fundamentalmente, não é a mera presença de um 'novum' que distingue a FC do resto da literatura, pois como diz Brian McHale (teórico e estudioso de literatura): "Qualquer ficção, de qualquer gênero, envolve pelo menos um 'novum', um personagem que não existe no mundo empírico, um evento que realmente não ocorreu.”

O que distingue a FC é o tipo de 'novum' que ela utiliza.

A FC se preocupa com 'novum's baseados em nossa compreensão da lógica e da ciência. Os mundos criados pelos livros de FC não são empíricos, no sentido em que eles estão de acordo com o mundo externo que conhecemos, e são empíricos, no sentido em que o escritor constrói seu mundo alternativo.

Obras de FC não são empíricas, porque descrevem o mundo exterior, como o escritor o experimenta, eles são empíricos em sua metodologia: são construídos de modo com que sejam compatíveis com um mundo cientificamente plausível, um mundo onde a investigação científica é possível e frutífera.

"É uma premissa da FC que, em princípio, tudo deve ser interpretável, empírica e racionalmente", afirma o também escritor de FC, Stanislaw Lem.

Isso quer dizer que uma história de ficção científica deve ser escrita a partir do espírito do conhecimento empírico, com aquilo que Eric S. Rabkin (professor de literatura e escritor de FC&F)  chama de "os hábitos científicos da mente."

O filósofo R.H.Popkin, prescreve que a única fonte de "informação sobre o mundo disponível, são as impressões que obtemos através dos nossos sentidos".

A ficção que o escritor de FC cria deve ser empírica para os seres dentro dela.

Para a escritora premiada Joanna Russ, a FC "se dirige à mente, não ao olho. Não somos  apresentados a uma representação daquilo que sabemos ser verdade, através da experiência direta, ao invés disso, nos é dado aquilo que sabemos ser, ao menos possível."

Uma outra característica que define a FC é o papel que o 'novum' científico desempenha na narrativa, que deve funcionar como o núcleo de todo o projeto, da qual fluem o enredo, estrutura e até mesmo o estilo. O 'novum', Suvin formula, "é tão importante e significativo que determina a lógica narrativa inteira."

Philip K. Dick, define a ficção científica da mesma forma que Suvin. Dick argumenta que se, uma preocupação com o futuro e com a tecnologia não são suficientes para definir a FC, então o que é?

"O que podemos chamar de FC? Temos um mundo fictício, que é o primeiro passo: Uma sociedade que de fato não existe, mas está baseada em nossa própria sociedade, isto é, a sociedade é o ponto de partida para isso; e avança para além da nossa própria, de alguma forma, talvez ortogonalmente, como acontece em um mundo alternativo. 
É o nosso mundo deslocado por algum tipo de esforço mental, por parte do autor, o nosso mundo transformado no que ainda não é. Este mundo deve ser diferente em pelo menos um modo, e esse deve ser suficiente para dar origem a eventos que não poderiam ocorrer em nossa sociedade, ou em qualquer outra sociedade conhecida, presente ou passada."

Dick, como Suvin e Robert E. Scholes (teórico e crítico de FC), vê como fator crucial a maneira pela qual o mundo ficcional é diferente da nossa, ou seja, o tipo de 'novum' que é usado.

"Deve haver uma idéia coerente envolvida neste deslocamento. Ou seja, o deslocamento deve ser conceitual, não apenas uma questão trivial ou bizarra"

O tripé da definição Suvin-Dick de FC, portanto, se apóia em 3 premissas:

   1. Temos um mundo que de uma ou mais formas é diferente do mundo real. (Ficção)
   2. Essa diferença (deslocamento, 'novum', etc) tem de ser concebível dentro da filosofia científica moderna. (Empírica)
   3. Esse deslocamento cognitivo tem de agir como o coração da narrativa. (Central)

Muitos outros escritores e críticos definem a FC da mesma maneira, mesmo com uma terminologia um pouco diferente.
Rabinn diz que: "Uma obra pertence ao gênero FC se o seu mundo narrativo é pelo menos um pouco diferente do nosso, e essa diferença é aparente contra o pano de fundo do conhecimento".

Outros teóricos cujas definições de ficção científica são semelhantes ao estranhamento cognitivo incluem Thomas Pavel, Annie Dillard, William Gass e Frank L. Cioffi, que afirmam que em obras de ficção científica a "base da ordem social", é diferente da nossa "realidade empírica" própria.

Stanislaw Lem escreveu: "FC é a arte de colocar premissas hipotéticas em um fluxo muito complicado de ocorrências psicossociais".

Como Suvin e Dick, Lem é seletivo quanto ao tipo de premissas hipotéticas que podem ser usadas: elas não podem ser de qualquer tipo, como um conto de fadas, por exemplo.

O que Dick se refere como um "deslocamento bizarro" Suvin chama de "estranhamento não cognitivo metafísico". O que Dick define como "deslocamento trivial", Suvin define como "naturalista".

Como o filósofo David Hume apontou em seu famoso livro ‘An Enquiry concerning Human Understanding’; Empirismo e ciência só podem trabalhar em um mundo que é suscetível às leis observáveis. Um universo que não é suscetível à lógica, à razão, um mundo sem causa e efeito, um mundo governado pela magia é um anátema que para o empirismo equivale a uma admissão de derrota. Temos que acreditar que o mundo (qualquer mundo) é compreensível em algum nível.

"Lógica", como diria o filósofo Nietzsche, "por sua natureza, é uma questão de otimismo".

Para Lem, "na ficção científica, não pode haver maravilhas inexplicáveis, transcendências, nem demônios."

A proibição de Lem a demônios é idêntica ao que Dick diz: "a religião nunca deve aparecer em FC, exceto como perspectiva sociológica."

Suvin também só permite aspectos religiosos se for examinada “como um fenômeno humano cientificamente observável". Não se deve "brincar com a religião para além do seu interesse puramente histórico ou antropológico".

Tudo isso sugere que no centro da definição Suvin-Dick de FC, há um compromisso muito sério de alguma espécie com a ciência, e é esse compromisso que torna a FC diferente de todas as outras formas literárias.

O professor Gerald Prince resume a situação assim: "a ficção científica está ligada à ciência, e mesmo sendo frágil esta ligação, que forneça um cenário privilegiado para a razão se aventurar, com suas derrotas e vitórias".

Mas do que se trata esta ligação entre Ciência e Ficção Científica?

O termo criado por Lem, "premissa hipotética" sugere que o escritor de FC é semelhante ao cientista. FC é uma ficção escrita a partir de uma maneira científica de olhar para o universo(s).

O que a FC tem da ciência, segundo a definição Suvin-Dick, é a sua metodologia.
Afirma Suvin que 'novum's de FC são "postulados validados pelos métodos científicos pós-cartesiano e pós-baconiano".

Narrativas de FC, narrativas sérias de FC, são escritas dentro do espírito da ciência.
FC não é ficção sobre ciência, mas ficção através do método científico.

A noção central da ciência para Albert E. Moyer (estudioso da ciência na sociedade), é que "regras metodológicas operam e se desenvolvem independentemente do background  social e cultural do cientista", e que tais regras metodológicas de "funcionamento universal" devem ser apreendidas por escritores de FC, já que a FC é um "experimento mental" (termo de Suvin) a partir de dados científicos, ou seja, cognitivo, da lógica.

Rabkin engloba tudo maravilhosamente ao dizer que: "O que é importante na definição de ficção científica não são os acessórios, as armas de raios, mas o hábito científico da mente do autor" (http://www.columbia.edu/ccnmtl/projects/frontiers/habits.html).

A base do método científico de experimentação é o controle de todas as variáveis, excluindo aquela sob investigação. Este é o que precisamente a FC, de acordo com Suvin-Dick faz, ela imagina o mundo como ele é, com uma diferença (novum) significativa e cientificamente plausível (cognitiva, ou não-trivial, não bizarra), e imagina que mudanças isso provocaria ao fluxo de "ocorrências psicossociais".

Para Rabkin, "Uma boa obra de ficção científica faz apenas uma suposição sobre o seu mundo narrativo e que viola nosso conhecimento sobre o nosso próprio mundo e extrapola toda a narrativa a partir desta diferença."

Se aceitarmos que a FC está edificada sobre a crença no método científico, algo mais importante se torna visível. Algo que se soma ao termo de Lem, o "fluxo de ocorrências  psicossociais". Ver o mundo social, psicológico e físico, a partir de uma perspectiva científica, é vê-lo como um determinado conjunto de variáveis. A perspectiva científica é uma visão profundamente cinética do mundo, uma visão de um mundo predisposto a mudanças. Tal perspectiva, que vê paradigmas como transitórios, é diametralmente oposta à certeza ao absoluto. Não se dá devido aos escritores de FC usarem a metodologia científica, eles a utilizam como sua perspectiva filosófica sobre o mundo.

Dentro da FC há um compromisso filosófico, uma crença no método racional.

Parrinder se refere à dívida dos escritores de FC com a "ideologia" científica, o que Aldous Huxley chamou de "espírito ético" da ciência, ou o que Tanner chamou de "a moralidade da flexibilidade".

Para Huxley, um escritor ou é um propagandista da "ciência pura e da filosofia analítica" ou da "idolatria nacionalista, da mentira organizada [por exemplo: a religião] e de um número sem fim de distrações".

É por este motivo que a FC não pode ser classificada como um mito moderno: o mito é estático, eterno: "O caráter ontológico do mito é antiempírico... vive na ficção mas se esforça para sair deste estado antinômico de ser", disse Lem.

“A ficção tradicional compartilha as ilusões (os mitos) da sociedade que a produz.
Já a FC se esforça, por vezes com bastante sucesso, para ficar de fora" diz Nicholls.

Broderick descreve a FC como principalmente um meio diacrônico, um histórico de mudanças acumulativas, em que cada passo é diferente do último. O mito, pelo contrário, opera normalmente e, principalmente, numa sincrônica ou “dimensão atemporal".

O trabalho da FC, de acordo com Bachard, é por abaixo intuições imediatas e desconstruir um universo de "clichés arquetípicos".

Cioffi acredita que "A FC é uma expressão inteligível de uma sociedade em que as visões do mundo podem mudar", e Campbell afirma que "ao contrário de outras literaturas, a FC assume que a mudança é parte natural da ordem das coisas."

Há muito se tem uma associação óbvia entre o ceticismo e o empirismo.

O filósofo racionalista Anthony Flew atesta sobre a relação entre os dois: "O empirismo caracteristicamente está voltado para a aquisição do conhecimentos, um processo lento e fragmentado, repleto de auto-correção e limitada pelas possibilidades de experimentação e observação, e tem sido caracteristicamente cético quanto a abraçar sistemas metafísicos."

Este espírito cético, que acompanha a defesa do método científico, insiste em que tudo pode ser descentralizado, e respeita a crença de que a verdade absoluta é cognoscível como errônea e anacrônica. “Os cientistas não talham verdades na pedra e nem devem os escritores de FC fazê-lo”, pois como adverte Broderick, “a metodologia a qual se filiaram, não permite isso, a virtude está em destruir a pedra e disseminar as palavras."

O professor de literatura Robert M. Philmus reduz a um simples ponto ao afirmar que enquanto a FC requer e permite a explicação científica, a fantasia (o mito, a metafísica) não pode permitir isso. O mito é antiempírico, precisamente porque não vê o Universo como um conjunto de variáveis, mas como algo absoluto. As visões do mundo mítico não aceitam o  método científico, o processo racional, não clama por um universo razoável. O Mito reside no aforismo de Nietzsche: "O inexplicável deve ser completamente inexplicável, o inexplicável dever ser completamente sobrenatural, miraculoso como assim exigem todos os religiosos e metafísicos... apesar do homem de ciência ver nesta exigência o princípio de todo mal."

Suvin coloca a dicotomia entre o mito e método científico, assim: "Matematicamente falando, o mito é orientado para as constantes, enquanto a FC, para as variáveis."

FC é, portanto, como sugere Nicholls, "a literatura da mudança", e como Suvin conclui, "ela enxerga a ilusão da identidade mítica estática, geralmente como fraude, na melhor das hipóteses, apenas como uma realização temporária de contingências potencialmente ilimitadas."


Bo Fowler (New Humanist Articles - Volume 116 - Primavera de 2001)







Uma lista do que é e do que não é FC, segundo Darko Suvin.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Jeronymo Monteiro: o Pai da Ficção Científica Brasileira



A ficção científica no Brasil teve muitos precursores de peso que ajudaram a fundar as bases para a edificação do gênero tupiniquim, mas é na década de 1940 que surgiria o primeiro escritor brasileiro de ficção científica de fato.

Excelente matéria de Cláudio Tsuyoshi Suenaga, no Jornal do Bibliófilo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Brasil, terra do mal



[ Antes de falar sobre a imagem do Brasil na literatura francesa do século XIX, é bom lembrarmos que se trata duma época onde a literatura francesa ainda é, senão um modelo universal, pelo menos um ponto de referência imprescindível para os letrados da Europa e das Américas.

Parece-nos esta uma razão para tratar de um assunto que reflete a mentalidade da época, no que toca à relação do então centro da ‘civilização’ com a periferia. Esta periferia era considerada exótica – a própria palavra “exotismo” sendo redescoberta no início do século XIX, para tornar-se um dos topói literários do romantismo, parnasianismo e simbolismo francês.

Como todas as palavras usadas maciçamente antes de serem bem definidas, o exotismo não é de análise fácil, o que os estudiosos contemporâneos – como Bernard Mouralis (1975), Denise Brahimi (1988), Andrzej Stoff (1991), já sabem perfeitamente.

A dificuldade que o exotismo traz é sobretudo a seguinte: no uso praticado no século XIX reúnem-se nesta palavra a estética e a ideologia que hoje em dia costuma-se separar. Vamos voltar brevemente a este problema. Por enquanto vamo-nos ocupar uns instantes do momento histórico em que o Brasil, quase fechado ao mundo durante mais de 150 anos, volta a alimentar de maneira privilegiada o imaginário exótico francês.

A imagem do Brasil que existe na França nos finais do século XVIII faz pensar um palimpsesto. Vale lembrar que o protótipo do “bom selvagem” de Rousseau havia sido o índio brasileiro: tal como ele aparece nos relatos de Léry et Thévet e conseqüentemente de Montaigne ou Ronsard, mais tarde nos de padres franceses que tentam evangelizar (mas também colonizar) a ilha do Maranhão no início do século XVII e deixam uma imagem paradisíaca da terra e dos seus habitantes. Esta imagem do paraíso terrestre muda durante o grande século XVII e durante o século XVIII torna-se o contrário: o Brasil seria uma terra maldita, por várias razões (cf. Crouzet 1998), entre as quais as mais importantes são o extermínio dos índios e a realidade da escravidão dos negros que os viajantes descobrem. Notese que esta realidade no século XVIII é também a das colônias francesas e inglesas, mas é só para lembrar, não para julgar. A verdade é que o colonizador português do Brasil como o espanhol do México, Peru, La Plata são vistos pelos viajantes franceses do século XVIII como vaidosos, arrogantes, cruéis, falsos, corruptos e sobretudo, ociosos e indolentes...]



Brasil, terra do mal: o imaginário de horror na literatura de viagens e ficção francesa do séc.19 [ Download ]
Jerzy Brzozowski - Universidade da Cracóvia - Polônia

domingo, 26 de setembro de 2010

A relação racionalismo vs sobrenatural nas obras de Sir Arthur Conan Doyle




Introdução

O século XIX assistiu ao sucesso de um dos mais conhecidos escritores da sua época que ficou conhecido, essencialmente, pela invenção de uma das mais conhecidas personagens de ficção: Sherlock Holmes.

Ainda hoje, volvidos tantos anos após a sua morte, o nome Conan Doyle continua a provocar reacções de rara passividade, dividindo opiniões entre críticos, estudiosos e leitores.

O ano de 1887 viria a ser o ponto de partida para uma vida dedicada à escrita e a obra A Study in Scarlet publicada no Beeton’s Christmas Annual seria o primeiro conto de muitos cuja personagem principal era Sherlock Holmes.

Tomando em consideração o impacto que as obras de Conan Doyle tiveram na sociedade vitoriana, bem como as posições assumidas ao longo da sua vida, é sempre questionável como é que um homem que criou uma personagem racional, presa a métodos científicos e com ela alcançou a glória e a fama, consegue, em primeiro lugar escrever obras onde o sobrenatural está latente, numa época em que o gótico persistia e, em segundo lugar, abandonar todas as convicções que deixava transparecer nas suas obras e dedicar-se ao espiritualismo.

Conan Doyle tornou-se, sem dúvida, uma identidade difícil de conciliar com Sherlock Holmes.

Desde o supraracionalismo de Holmes até à afirmação da sua fé no Espiritualismo percorreu-se um grande caminho. Que tipo de homem concebe aquela personagem para, a seguir se dedicar a uma causa totalmente contraditória? Os críticos têm procurado, em vão, encontrar, nas suas obras, uma resposta satisfatória “… even though some of his work took an autobiographical direction since his earliest days.” (Lellenberg 9)

Com efeito, os seus trabalhos autobiográficos não responderam às questões que críticos e estudiosos consideravam mais intrigantes acerca dele. A causa de grande perplexidade reside no facto de Sherlock Holmes ter sido criado por alguém que pouco se assemelhava a esta personagem: “…Watsonian in appearance, none too dedicated as a physician, a commercial writer, a British patriot, a spokesman for some unfashionable causes, and finally a Spiritualist missionary.” (Idem 10)

Segundo Lellenberg, as informações que a autobiografia não conseguiu fornecer, as biografias tentaram fazê-lo. Desde a sua morte em 1930, treze biografias de Conan Doyle foram publicadas em Inglaterra e nos Estados Unidos – bastante impressionante para um escritor pouco reconhecido pela academia: “He has had little standing in the academic sight of things, regarded there as merely a popular writer of escapist mysteries, adventures, and outdated historical fiction.” (Ibidem 11)

Contudo, Conan Doyle e a sua obra continuam a ser estudados, particularmente Sherlock Holmes. As reedições das suas histórias sucedem-se uma após outra, traduzidas para inúmeras línguas, e Conan Doyle continua, incontestavelmente, a ser o criador de uma das mais poderosas figuras da ficção.

Na nossa opinião, a questão deve ser colocada da seguinte forma: “Did this British author with a scientific education have a simple or complex psyche?” (Ibidem 10) Como argumenta Lellenberg, poderia um homem cientificamente educado abraçar o Espiritualismo, sem reservas, ou ser ludibriado como no caso das fotografias das fadas de Cottingly. Além disso, quem teria servido de modelo para Sherlock Holmes: “… Joseph Bell, his super observant professor of medicine, as Conan Doyle claimed? Or Conan Doyle himself, as son Adrian would later argue?” (Ibidem 10)

Numa tentativa de entender e explicitar o lugar da lógica e da racionalidade em obras consideradas góticas, iremos analisar as suas narrativas The Hound of the Baskervilles e The Sussex Vampire.
Nesse sentido, considerámos relevante estabelecer algumas analogias com Dracula de Bram Stoker.

Deste modo, procuraremos analisar a interacção entre as narrativas de Conan Doyle com a época em que foram produzidas, demonstrando a intemporalidade de certos símbolos nelas presentes, tendo sempre por base o contraste entre racionalidade e o sobrenatural, nomeadamente, os elementos do gótico.

A presente dissertação dividir-se-á, neste contexto, em três capítulos:

no primeiro capítulo abordaremos aspectos biográficos de Conan Doyle, considerando o seu trabalho literário, as influências e a sua recepção crítica, tentando encontrar as razões para a sua ligação ao ocultismo e ao espiritualismo. Para este efeito, convocar-se-ão, entre outros documentos, três biografias de Doyle produzidas respectivamente por Charles Higham, Hesketh Pearson e John Dickson Carr, que irão concorrer para uma complementação de informação relevante para o tema do estudo.

No segundo capítulo da dissertação procederemos a uma contextualização sociocultural e literária da época observando o papel das artes na sociedade vitoriana, estabelecendo uma conexão com a literatura, e prestando maior atenção à narrativa gótica e ao estudo do sobrenatural no finde-siècle. Tendo em atenção que é neste período que assumem particular relevo as histórias de detectives iremos enquadrar Sherlock Holmes nesse âmbito. Para tal, abordar-se-ão, entre outras, as perspectivas de Martin Priestman, Peter Brooks, John Hodgson, Stephen Knight e Catherine Belsey, enquanto investigadores da importância de Sherlock Holmes na vida e obra de Conan Doyle.

Com efeito, Sherlock Holmes, o primeiro detective não oficial entrou nas páginas da literatura inglesa há mais de cem anos e rapidamente se tornou conhecido em todo o mundo. De facto, a partir de um algo obscuro começo numa revista em 1887, depressa se tornou uma das personagens literárias mais características assim permanecendo até hoje. Os vocábulos “Sherlockian”, “Holmesian” e “Watsonian” fazem, agora, parte do nosso discurso, enquanto a imagem do brilhante detective e do seu leal companheiro, se tornaram arquétipos e clichés da nossa cultura. Como muitas histórias e episódios contados pelos seus biógrafos, havia muito de Sherlock Holmes em Arthur Conan Doyle. Também como o seu famoso protagonista, Doyle possuía uma enorme sensibilidade para os detalhes, uma imaginação activa, uma experiência social e intelectual muito grande e uma inclinação para o dramático. Estas características serão essenciais para a desconstrução das suas obras.

No último capítulo do presente estudo procederemos à análise da obra The Hound of the Baskervilles tentando encontrar os elementos que a caracterizam como gótica. Faremos, ainda, uma abordagem a outras obras de Conan Doyle que devido às suas características, são consideradas histórias de horror.

Procederemos, também, à análise sucinta de Dracula – uma vez que não é este o intuito do trabalho – revelando pontos de contacto e/ou afastamento com a short-story “The Sussex Vampire”, de Arthur Conan Doyle.

No caso deste autor, o cepticismo de Sherlock Holmes não lhe permite, sequer, que a trama da história se centre num vampiro. Em Dracula, o vampiro existe e toda a acção se move à sua volta.

Por volta de 1970, os estudos sobre Dracula eram pouco mais de meia dúzia de artigos e uma biografia de Stoker realizada por Harry Ludlam em 1962. Só mais tarde Dracula começou a ser estudado nas universidades. Segundo Clive Leatherdale, com Dracula, the novel and the legend (2001), há quem considere a obra de Bram Stoker o segundo livro mais vendido no mundo a seguir à Bíblia: “Dracula has been translated into numerous languages, and the image of “the count” is familiar the world over. He is part of the landscape of a universal culture: the black cape, the dripping fangs, the scream of terror…”(Leatherdale 9)
Ainda na opinião de Leatherdale “… Dracula is almost the Gothic novel par excellence and has given rise to arguably the most potent literary myth of recent decades”. (Idem 10)

Quer para analisar “The Sussex Vampire”, quer para analisar Dracula, teremos de explorar a noção de vampiro e o seu papel no folclore e na literatura Europeia. O que este estudo visa, afinal, é encontrar uma explicação para a existência das histórias de Sherlock Holmes, demonstrar a sua intemporalidade e tentar compreender as razões que levaram o seu autor a querer abandonar este tipo de produções para se dedicar a uma causa, nem sempre bem aceite pela sociedade e mal compreendida pelos seus leitores como foi a sua orientação espiritualista.



Índice
Agradecimentos
Nota prévia
Introdução

Capítulo 1 – Vida e obra de Arthur Conan Doyle
1.1. Biografia e influências literárias nas obras de Conan Doyle
1.2. A ligação ao espiritualismo e a recepção crítica à obra de Conan Doyle
Notas

Capítulo 2 – Contextualização sociocultural e literária
2.1. A sociedade vitoriana e as artes 
2.2. O sobrenatural, o gótico e os elementos da novela gótica
2.3. As histórias de detectives, as short-stories e Sherlock Holmes
Notas

Capítulo 3 – O vampirismo e o sobrenatural nas histórias de Sherlock Holmes: análise das obras The Hound of the Baskervilles (1901) e “The Adventure of the Sussex Vampire” (1924) – breve leitura comparada com Dracula (1897) de Bram Stoker
3.1. Elementos míticos em The Hound of the Baskervilles
3.2. O vampiro na literatura 
3.3. Breve leitura comparada de “The Adventure of the Sussex Vampire” e Dracula de Bram Stoker
Notas

Conclusão
Notas
Bibliografia 
Anexos



A relação racionalismo vs sobrenatural nas obras de Sir Arthur Conan Doyle [ Download ]
Ana Cristina Antunes Serigado de Oliveira Diogo - Mestrado em Estudos Ingleses - Lisboa/2007


Nota: 'Frances Griffiths with the fairies', por Elsie Wright (Julho/1916) faz parte das famosas fotos das 'Fadas de Cottingley', que na época provocaram uma enorme discussão sobre a suposta evidência real da existência de fadas em nosso mundo. Conan Doyle, um estudioso do misticismo e espíritualista, não apenas acreditou em sua veracidade, mas também escreveu um livro intitulado 'The coming of the fairies' (1922).

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Escrita atemporal (Jorge Luis Borges)


Conheci a obra de Franz Kafka em 1917 e agora confesso que fui indigno da obra de Franz Kafka.


Eu o li em uma revista expressionista, profissionalmente moderna, que havia se consagrado a inventar a falta de pontuação; a falta de rimas, a falta de maiúsculas e o abuso de metáforas simuladas e aparatosas palavras compostas próprias dos jovens desse tempo e talvez dos jovens de todos os tempos.

Entre esse estalido impresso, figurava um apólogo, contraposto à corrente, que levava a assistência de Franz Kafka e que considerei inexplicavelmente insípido.

Recordo que li uma fábula sua, escrita de maneira simples, e me apareceu incompreensível sua publicação. Passei frente à revelação e não a percebi.

Também devo confessar que aderia plenamente a este estilo barroco e que buscava imitá-lo.

Mais tarde seus livros chegaram às minhas mãos é então me dei conta da minha insensibilidade e do meu erro imperdoável.

A grandeza de Kafka é evidente e seu gênio indiscutível.

É o escritor menos controvertido deste século e talvez o primeiro, ainda que em nada, ou quase nada, se pareça a este século.

A leitura de outros escritores nos leva a pensar na época em que escreveram.

Se tomamos o caso de Shakespeare, temos que pensar continuamente que escreveu para o palco e não para a leitura; temos que pensar na política, na decadência da Espanha, da Armada Invencível.
Se tomamos o caso de Dante, não podemos esquecer sua teologia nem seu amor por Virgílio.
Se tomamos o caso de Walt Whitman, não podemos prescindir do sonho da democracia que professava. Tampouco podemos ler Hugo sem nos afastarmos da história da França. Kafka é uma exceção a essa regra tão comum na história da literatura. É um escritor a quem podemos ler atemporalmente.

Kafka nasceu em Praga, é de origem judia, é boêmio, mas não se sente tchecoslovaco. Vive e sofre as conseqüências da Primeira Guerra Mundial, mas nada disso se reflete em sua obra.

Seu trabalho poderia ser definido como uma parábola ou uma série de parábolas, cujo tema central é a relação moral do indivíduo com a divindade e com o universo.

Kafka via sua obra como um ato de fé e não buscava através dela desalentar os homens.

Surgiu e morreu como um clássico no que se refere ao formal.

Quanto ao conteúdo, recordo que meu amigo, o poeta Carlos Mastronardi, me disse uma vez que no final das contas Kafka não havia feito outra coisa a não ser renovar o paradoxo de Zenão de Eléia: uma flecha não pode chegar a sua meta porque antes tem que passar por um ponto intermediário, antes por outro ponto intermediário, e assim sucessivamente temos um número infinito de pontos onde a flecha em cada momento está imóvel no ar, e somando imobilidades não se chega nunca ao movimento.

Curiosamente, descobri depois uma versão chinesa desse mesmo paradoxo. Está no livro de Chuang Tzu e é a história dos reis de Ian. Supõe-se que cada rei, ao morrer, rompe o cetro e entrega a metade restante a seu sucessor; o sucessor faz o mesmo e por isso a dinastia é infinita.

No caso de Kafka, podemos pensar que um de seus temas é a infinita postergação. Essa postergação está sentida de um modo patético, e nisso radica a suprema novidade de Kafka, tomar esse tema que antes havia sido um tema das matemáticas e levá-lo a uma expressão da vida.

Um remoto imperador, infinitamente remoto no tempo e no espaço, faz com que infinitas gerações levantem um muro infinito que dê a volta em seu império infinito para deter o curso de exércitos infinitamente distantes.

Como Virgílio, que a ponto de morrer encarregou seus amigos de reduzir a cinzas o manuscrito inconcluso da Eneida, Franz Kafka encomendou a Max Brod a destruição dos romances e narrativas que asseguravam sua fama. A afinidade destes ilustres episódios é, se não me engano, ilusória. O delicado Virgílio não podia ignorar que contava com a piedosa desobediência de seus amigos: o obsessivo Kafka, com a de Brod.

No mais, o autor que realmente deseja a desaparição de sua obra não encomenda essa tarefa a outro.
Sem dúvida Virgílio e Kafka não desejavam profundamente a destruição de seus escritos: só queriam desligar-se da responsabilidade que uma obra sempre nos impõe. Kafka, como Chesterton, teria preferido a redação de páginas felizes, mas sua fidelidade não condescendeu em escrevê-las.

1883-1924. Estas duas datas delimitam a vida de Franz Kafka.

Ninguém pode ignorar que ele foi marcado por importantes acontecimentos históricos: a Primeira Guerra mundial, a invasão da Bélgica, as derrotas e as vitórias, o bloqueio dos impérios centrais pela frota britânica, os anos de fome, a revolução russa, que foi portadora de uma generosa esperança e que é hoje o imperialismo, o degelo, o tratado de Brest-Litoskv e o tratado de Versailles que engendrou a Segunda Guerra Mundial.

Ele foi igualmente marcado por uma série de fatos íntimos observados na biografia que Max Brod escreveu: os desentendimentos com o pai, a solidão, os estudos de Direito, as horas no escritório, a profusão de manuscritos, a tuberculose. E também as grandes aventuras barrocas da literatura: o expressionismo alemão, as proezas verbais de Johannes Becher, de William Yeats e de James Joyce.

O destino de Kafka consiste em transformar os acontecimentos e as agonias em fábulas.

Narra pesadelos sórdidos em um estilo límpido. E não deixa de ser notável que ele tenha sido leitor das Escrituras e admirador fervoroso de Flaubert, de Goethe e de Swift.

Ele era judeu, mas a palavra judeu, se bem me lembro, não figura em seus escritos – que são intemporais e, desta maneira, eternos.

Kafka é o maior escritor clássico deste tumultuado e estranho século.

JORGE LUIS BORGES


Escritor e poeta argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986) publicou Ficções, O Aleph, História Universal da Infâmia, Informe de Brodie (contos) e Fervor de Buenos Aires (poesia), dentre outros; texto escrito por ocasião do centenário de nascimento de Franz Kafka.

Escrita atemporal  (Folha de São Paulo, 10.12.83).

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eram os índios astronautas?

 
No conto "Eram os índios astronautas?", o escritor carioca Jorge Luiz Calife dá mostras de como se configuraria o Brasil na era do virtual, ao nos apresentar vários futuros imaginados que vão desde simulacros produzidos pelas viagens espaciais que, com a ajuda dos computadores, bifurcam a noção de tempo, até a construção do futuro das nações na era do saber digital.

Suas produções têm como protagonistas o saber informatizado e a sua contribuição para outras possíveis conquistas espaciais do homem, bem como o impacto desse saber no futuro de países periféricos como o Brasil.

Esse tipo de produção textual sempre foi um privilégio, culturalmente aceito, dos países pós-industriais, o que não quer dizer que não tenha disseminado para os países menos desenvolvidos.

Fazendo um estudo de como vem se configurando a produção de ficção científica no Brasil, pretendo questionar, a partir desse conto, de que forma o discurso acerca do saber informatizado, quando circunscrito nos países periféricos, é interpelado pela produção e disseminação das estratégias discursivas do poder discriminatório.

Eram os índios astronautas? (Pre)Visões do Brasil na era virtual [ Download ]
Suzane Lima Costa - Universidade Federal da Bahia