sábado, 1 de março de 2008

O que matou a Ficção Científica (Lost Pages)



"O que matou a Ficção Científica
por Doutor Josiah Carberry, Professor de Inglês na Brown University de San Diego.

Resumo: O extinto gênero literário e cinemático, conhecido certa vez como 'Ficção Científica', nasceu em 1926 e alcançou seu auge em 1966, depois disso, uma série de catástrofes, tanto literárias quanto não, levaram o gênero ao seu declínio e virtual desaparecimento.

É difícil acreditar hoje em dia, em nosso atual panorama desprovido de trabalhos de especulação fantástica, que no passado, a literatura e o cinema fossem dominados por um agora esquecido, gênero de entretenimento, chamado ‘Ficção Científica’.

Alguns poucos aficcionados podem muito bem encontrar suas obras favoritas de ‘FC’, como era comumente chamada, nas quase desintegradas primeiras edições, revistas bolorentas e baratas, e em filmes deteriorados. Porém, descobertas recentes revelaram que – longe de conhecer as peculiaridades dos clássicos fora de catálogo deste gênero – aqueles que nasceram a partir de 1966 eram na maioria ignorantes, quanto a verdadeira noção de FC.
Este abismo de gerações de fato, representa o principal obstáculo para a ressurreição do gênero.

Talvez devamos falar brevemente sobre os dias gloriosos da FC, antes de examinar os fatores que a levaram ao seu infame aniquilamento.

Quando um empreendedor imigrante galês de nome Hugh Gormsbeck lançou sua revista Amazing Stories, em 1926, ele juntou uma profusão de histórias disparatadas e uma variedade de escritores, sob o rótulo ‘cientificação’, um termo que posteriormente se tornaria ‘ficção científica’ (FC). Criando regras e colocando a FC em campo, digamos assim, Gormsbeck pavimentou a estrada que sustentaria o crescimento, a popularidade e a camaradagem entre leitores e escritores.
Nos quarenta anos seguintes, por toda parte, o gênero adquiriu complexidade e sofisticação, estabelecendo padrões de excelência.
Saindo das revistas para os livros de capa dura (entre 1950 e 1960) a FC começou a produzir genuínas obras primas, como ‘Other Than Human’ (Theodore Sturgeon - 1953), ‘The Galaxy My Destination’ (Alfred Bester - 1957) e ‘The Nova Mob’ (Henry Kuttner - 1961).

Ao mesmo tempo, a FC começava a se infiltrar em outras mídias.
Rádio-dramaturgias como ‘The Shadow Lady’ e ‘Dimension X Squared’ empolgava milhares de ouvintes. Nos jornais, os quadrinhos como ‘Flashman Gordon’, ‘Buckminster Rogers’ e ‘The Black Flame’ disputavam a preferência com as revistas de quadrinhos mensais ‘Captain Marvelous’, ‘Kimball Kinnison’, ‘Galactic Lensman’, e ‘Superiorman’, para leitores não interessados em literatura.

Hollywood em peso aderiu ao gênero, com uma variedade de produções —‘Things that Might Come’ (1936) e ‘Destination Orbit’ (1950) —além do execrável ‘I Married a Martian’ (1949) e o muito esperado e decepcionante ‘Eye in the Sky ‘(1958).

A metade final dos anos 50 foi um período excitante para a FC, e o lançamento do primeiro satélite chinês, aumentou o interesse no gênero, refletindo-se em dezenas de novas revistas, publicações e peças televisivas (como ‘The Twilight Zone’, de Orson Welles).
Ao final dos anos 60, a FC já explodira como fenômeno popular de massa.
Clássicos cultuados como ‘Drifter in a Strange Land’ (Robert Heinlein - 1961), ‘Vril Revival’ (Thomas Pynchon - 1963) e ‘Dunebuggy’ (Frank Herbert - 1965) conquistaram os corações e as mentes de leitores adultos e jovens, flertando com as listas de best-sellers (o mesmo destino feliz foi vaticinado por especialistas para o triunvirato em progresso, sobre os romances de fantasia britânicos - a fantasia havia sido um aliado de longa data, de seu primo mais cientificamente respeitável. Mas a morte precoce do autor JRR Tolkien em 1955, depois de um único livro lançado, ‘The lord of the rings’, impediu sua realização.)

Adicionalmente, uma nova geração de escritores surgiu com uma visão literária mais sofisticada (H.Ellison, S.Delany, R.Zelazny, B.Malzberg, U.Le Guin) e começou a se tornar conhecida.

Tudo parecia correr bem para a FC até a metade desta década, porém sua ruína, como todos sabemos, estava próxima.

E o nome de sua nêmesis era JORNADA NAS ESTRELAS.

8 de Setembro de 1966, 8:30 da noite.
Raramente se pode apontar com tanta precisão, um momento de mudança histórica, mas retrospectivamente, este foi certamente o momento que marcou o fim da Ficção Científica.

Um todo-poderoso homem de Hollywood, mais famoso por seu anteriormente citado ‘Destination Orbit’, George Pal, acabara de chegar ao meio televisivo após seu gigantesco fracasso teatral, com o não intencionalmente cômico, ‘A Clockwork Orange’, de 1965.
Concebendo uma viagem imaginária, de um cruzador inter-estelar no século 23, chamado The Ambition, foi uma maneira bastante esperta de utilizar uma boa quantidade de cenários já existentes.

O primeiro e grande erro de Pal foi ao escolher o elenco.
Nick Adams interpretava o histriônico Capitão Tim Dirk, como uma espécie de James Dean de terceira categoria. O oficial alienígena de nome Strock foi concebido sobre um Bela Lugosi narcotizado. O médico de bordo ‘Bones’ LeRoi foi risivelmente interpretado por Larry Storch. O engenheiro ‘Spotty’ (chamado assim pelos fãns) encontrou o veterano Mickey Rooney longe de sua melhor forma. E para os elementos femininos- bem, uma definhante jovem modelo chamada Twiggy (no papel de Yeoman Sand) e uma bastante volupta Jayne Mansfield (como a Tenente de comunicações Impura).

O erro seguinte de Pal foi insistir em escrever ele mesmo, todo o roteiro da primeira temporada, por contenção de gastos. Se usando de todos os clichês encontrados na FC assim como em westerns, filmes de guerra e uma dúzia de outros gêneros, os roteiros de Pal foram qualificados pela crítica, como os piores já escritos na história da televisão.

Com dois enganos pesando contra ele, os outros fatores são menores, como primitivos efeitos especiais, vilões ridículos, vestimentas saídas de O Mágico de Oz no espaço, um tema musical enlouquecido e inconveniente - era apenas a cobertura no bolo do desastre.

Basta perguntar a qualquer pessoa de certa idade e que assista televisão, onde ela ou ele estava, quando o infame primeiro episódio de Jornada nas Estrelas (um ultra-confuso episódio de viagem no tempo intitulado ‘When did we go from then?’) foi ao ar.
Aproveitando-se de um momento de queda na programação de outono e garantindo que todos os seus competidores exibiam reprises, os minutos da estréia desta bomba televisiva, encontrou milhares de televisores ligados.

Queixos começaram a cair por todo o país e os telespectadores começaram a ligar uns para os outros, erguendo uma onda de atenção sobre a série.
Na época, a costa oeste dos Estados Unidos era o foco das séries que estreavam, e o episódio recebeu os índices mais altos de audiência já registrados.
Contudo, isso não era um bom sinal.

O dia seguinte trouxe um unânime e cruel linchamento.
Colunistas e editores dos jornais tiveram um ótimo dia com o espetacular fracasso, assim como os comediantes de tevê (Johnny Carson, por exemplo, dedicou seu monólogo de abertura de 9 de setembro, a este episódio).
Na semana seguinte, uma edição especial do Guia da TV, dedicou uma arrasadora avaliação de Jornada nas Estrelas e da FC televisiva em geral.
Imprudentemente, o canal NBC, empolgado pelo prestígio de Pal, já o havia contratado para mais 36 episódios. E preferindo, ao invés de fugir ou buscar auxilio, Pal agarrou-se à carta de autorização da emissora e partiu para a briga em face da desonra.
Semana após semana, o publico era jogado de um episódio horroroso para outro.
Inúmeras falas retiradas da série (‘Ele está... ele está morto Tim!’, ‘Eu sou um médico do século 23, maldição, e não um cientista cristão!’, ‘Um para subir Spotty’, ‘Pouco axiomático, Capitão.’) tornaram-se uma ironia nas conversas diárias.

E então o inevitável ocorreu.

Os escritores de FC passaram a levar a sério aquela porcaria.

O prejuízo embutido por toda aquela coisa do tipo ‘Buckmisnster Rogers’, nunca deixou a consciência do público. Ser visto lendo um livro de FC publicamente era o equivalente a usar nas costas, um cartaz escrito ‘ME CHUTE’.
Tudo que a literatura séria de FC tinha laboriosamente conseguido, desvaneceu de uma noite para outra.
As vendas dos livros e revistas de FC caíram vertiginosamente, leitores esporádicos e escritores começaram a deserdar do gênero em bandos. Falências - tanto pessoais quanto financeiras - proliferaram. Filmes ainda em produção foram cancelados.
Em uma espiral decrescente, um malogro seguia ao outro para o fundo.
Finalmente em 1968, muito depois da morte de Jornada nas Estrelas - surgiria uma campanha organizada por verdadeiros fãs de FC - enquanto a memória da tragédia estava viva, e alguns ferrenhos leitores e autores sobreviveram, de uma reminiscência miserável e esfarrapada do legado vital.

Persistia uma pequena dúvida, se a FC teria a capacidade literária de recuperar-se de uma tragédia desta dimensão. O cenário sempre fora propício a ciclos de sucessos que logo se transformavam em fracassos. Bastava um novo acontecimento de grande magnitude, um cataclisma extra-literário, para finalmente matar este gênero, testamento do vigor e do inerente encanto da natureza humana.

Primeiro e, antes de tudo, veio o desastre da Apollo 11 em 1969.
Quando o modulo de excursão lunar falhou ao tentar pousar na superfície lunar, o mundo assistiu a tragédia que solapou qualquer otimismo tecnológico deixado intacto após a guerra do Vietnam e o crescente alerta sobre a poluição ambiental.
(Os distúrbios pelo Dia da Terra 1972-1975).

A perversão da tecnologia para manutenção da ‘Big Nurse’, um banco de dados de contra-inteligência pelo FBI, sob a terceira administração Nixon e a subseqüente aprovação das leis que limitavam a manufatura de computadores de baixo desempenho, contribuíram para diminuir o fascínio por um futuro de máquinas sofisticadas.

O prego final no caixão da Ficção Científica ocorreu com o derretimento incontrolável da usina de Three Mile Island, em 1979.
Querendo ou não, a FC há muito estava relacionada com a energia nuclear na cabeça das pessoas, e esta catástrofe que contaminou toda orla marítima, transformou a FC em sinônimo de mortandade em massa.

Um último golpe de má sorte surgiu na forma de um filme underground de 16 milímetros, que teve a infelicidade de ganhar notoriedade na cena pornográfica de San Francisco, ‘Close Encounters of the Stars Wars Kind’ era uma aventura classificada como proibida para menores de 21 anos, dirigida pela dupla, George Lucas e Steven Spielberg, estrelado por desconhecidos atores e atrizes ( Charlie Sheen, Rob Lowe, Hugh Grant, Louise Ciccone, Janet Jackson, Hilary Rodham, Sly Stallone, Arnie Schwarzenegger, etc). Nesta repugnante pantomima, representantes de um império inter-estelar decadente, fizeram da Terra seu parque de diversões sexual, recebendo apenas a resistência de rebeldes nus, que se esforçavam para serem mais libidinosos e repreensíveis do que os tiranos.
Após a Corte Suprema acabar com Lucas e Spielberg, nenhuma outra pessoa em sã consciência iria se atrever a aproximar-se da FC.

Duas décadas após estes incidentes, a FC permanece como uma forma praticada somente por um punhado de amadores excêntricos, aparecendo em publicações mimeografadas, limitada a circulação entre cento e poucas pessoas no máximo.
(pelo menos nos EUA. A situação da FC no Reino Unido tem uma outra e complexa história. Procure pelo título "O Império da Mídia de Moorcock e Ballard, Ltda”.).

Que esta, certa vez orgulhosa tradição literária, termine desta forma, parece inevitável
devido a cadeia de circunstâncias aqui relatadas. Ainda que, por um minuto, podemos imaginar - se não fosse abusar de uma herética vertente da velha FC, conhecida como ‘realidade alternativa’ - como as coisas poderiam ter sido diferentes.”


Introduction—"What Killed Science Fiction?" - Paul Di Filippo - Lost Pages

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domingo, 24 de fevereiro de 2008

Ficção Científica como fuga à censura estatuída



"...Como o homem só pode falar sobre as coisas do seu tempo, mitificando-as, fazendo humor com elas, submetendo-as ao sarcasmo ou as negando na forma convencional, não há outra forma de o interlocutor se portar frente ao discurso, a não ser se interrogando sobre qual é a sua intencionalidade. Como Barthes (1990, p. 166) afirma, “O sentido engana o homem: mesmo quando quer criar o não-sentido ou o sem-sentido, o homem acaba por produzir o próprio sentido do não-sentido ou do sem-sentido”. Não há como se furtar à pergunta, frente a um conjunto de indícios textuais, de por que eles existem: de qual é a sua razão de ser. A linguagem está fadada a ser um objeto desacreditado: ela vive sob o signo da desconfiança: este é o seu destino. Não há como não considerá-la “consistente, profunda, cheia de segredos, dada ao mesmo tempo como sonho e como ameaça” (Barthes, 2000, p. 5).
Este estudo objetiva tecer algumas reflexões sobre um filme catalogado como estando filiado ao gênero da ficção científica, apresentar uma matriz interpretativa para o mesmo e, a partir disso, apresentar um pleito que teria um princípio de validade mais geral para os filmes que são dados como pertencentes a esse gênero, tentando pensá-los como forma de ruptura e embuste frente à censura estatuída. É óbvio que não defendo que todos o sejam, mas A Batalha de Riddick parece cumprir este papel à risca..."


Revista Trama - Volume 2 - Número 4 - 2° Semestre de 2006


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O que a FC nos deixou - Entrevista com Pablo Capanna



Pablo Capanna, provavelmente, o único intelectual da Argentina que dedicou quase todo o seu trabalho à ficção científica, afirma que o gênero se esgotou. Ou melhor, que ele impregnou tudo, da literatura ao imaginário do século passado, desde o design até a aeronáutica e a imaginação do Pentágono.

O futuro não é mais do que uma propriedade da imaginação, um terreno no qual convivem, em eterno conflito, o terror e o desejo. Ninguém resiste demasiadamente à catástrofe, e por isso foram inventados os profetas e o tarô de Marselha. O mundo nada mais é do que um sistema de símbolos: existe quem insiste em decodificá-lo e os que aguardam a revelação.

Borges, se não me engano, estabelece a origem da ficção no livro Somnium Astronomicum, escrito por Kepler no século XVII. A rigor, é um tratado com pretensões científicas sobre a vida na lua, cujos delírios se renderam frente às evidências, e que sobreviveu graças ao seu virtuosismo poético. Custa pensar, não obstante, para todos os que hoje utilizam um computador pessoal com a mesma facilidade com que abre uma torneira, que certa vez a lua foi um cartão recortado, atirado de estilingue num canto do céu para o deleite dos telescópios primitivos, mais capazes de abrir espaço para a fantasia que de demonstrar alguma coisa com certeza axiomática.

Agora que a terra é mapeada pelo Google Earth, democratizada nas lan houses, talvez tenha chegado o momento propício para confrontar quanto do mundo previsto ou inventado pela literatura se confirma ou se desmente no horizonte contemporâneo.


Um exercício que o escritor Isaac Asimov já praticou frente à série de ilustrações que o desconhecido artista francês Jean Marc Cotè desenhou em 1899, em seu afã de representar o alvorecer do século 21. São imagens de cozinhas equipadas com provetas, serviços de correios sonoros, máquinas que transformam em instantes ovos em galetos e espetáculos que exibem cavalos como curiosidades zoológicas.

"O futurismo é um caminho cheio de armadilhas", conclui Asimov, criando um ditado.

Neste contexto, logo após a primeira guerra mundial - talvez como uma válvula de escape para uma geração que ainda contava suas perdas – se os Estados Unidos não houvessem incorporado à cultura de massas o gênero - que um editor da segunda onda da Revolução Industrial batizou de scientifiction - provavelmente não existiriam os trens balas e nem as centenas de fanáticos que sobem, todos os anos, ao Monte Uritoco, para avistar naves extraterrestres.
Depreciada pelos cânones acadêmicos vigentes, a ficção científica foi uma força soterrada que, nas palavras do filósofo Pablo Capanna, moldou o presente tal como o conhecemos. Ela antecipou e previu tantas coisas como se grande parte de seus livros se tratassem de uma somatória de textos sagrados, a que se devem render tributo.

Este é um aspecto que mais tarde geraria uma série de cultos destrambelhados, dos quais a denominada "seita ufólógica" é exemplo suficiente.

E assim seguiram as coisas, até que em 1967 a extinta editora Columba publicou "El sentido de la ciencia ficción" de Pablo Capanna e iniciou os estudos em espanhol sobre o tema. Se à primeira leitura, esta última afirmação resulta no mínimo estranha, temos que recordar que naquele tempo existia um vazio de textos críticos que se referissem à ficção científica, relegada aos gêneros menores da cultura popular.Tampouco se pode desdenhar da impossibilidade de pensar o futuro que toda uma comunidade idiomática sofreu.sob o jugo de sistemas políticos de índole ou viés militarista. Devemos pensar, então, que a edição original do livro de Capanna não corresponde a uma eventualidade e sim à conjunção de diversos fatores de ordem pública.
Ao final dos anos 60, essa obra já portava o fermento revolucionário que seria o sinal da década posterior e a cultura de massas se preparava para entrar no debate intelectual. Aqueles livros amontoados em estantes secretas e que criavam, junto ao pó, traças de menosprezo, muito rapidamente se converteriam em campo de monografia: romances por encomenda e folhetins impressos em papel barato, (os Estados Unidos cunharam o termo pulp fiction para se referirem a eles) que logo conheceram a lupa dos estudiosos.

Em nosso meio, boa parte desta gestação é obra daquele primeiro livro de Capanna, ao redor do qual orbita, quase toda a ficção científica em espanhol. Capanna parece negar seu mérito.

Capanna: "Eu não sou o professor da cátedra de Ficção Científica" (cátedra é superior a uma simples matéria de faculdade), agora que acaba de editar uma versão definitiva do seu livro pioneiro. "O livro circulou principalmente porque ninguém mais se ocupou em escrever sobre o tema. Não que isso seja bom, e sim que não houve competência para tanto", sustenta, ainda que compreenda, que é improvável que um trabalho sobreviva 40 anos sem que o rigor do tempo provoque estragos.

Publicado no fim do ano passado como "Ficção Científica, Utopia e Mercado" (Edições Cántaro), traz de volta um texto fora de catálogo que, além de propor uma propedêutica do gênero, chega ao seu centro filosófico e revela perspectivas surpreendentes.

Capanna: "Quando Víctor Massuh me propôs escrever "O sentido...", eu estava vivendo um vazio pessoal. Havia saído da faculdade com meu diploma de Professor de Filosofia, trabalhava em uma escola técnica da Ford em tempo integral e não tinha um minuto livre. Naquele momento a CGT iniciou um plano de luta que incluía a tomada das fábricas com o propósito secreto de debilitar o governo de Arturo Umberto Illia (Presidente da Argentina de 1963 a 1966, nacionalista, derrubado por um golpe militar). Quando ocuparam a Ford, passamos lá uma noite inteira. No dia seguinte nos mandaram embora dizendo que a empresa nos comunicaria em breve alguma novidade, e portanto não sabia se me despediriam ou se voltaria a trabalhar. De repente, tive quinze dias livres e neste tempo reuni o material - que estava muito disperso - e encaminhei o livro."

De onde vem o seu gosto pela ficção científica?

Capanna: Das histórias, é claro. Quando era criança era o que eu via na tv e ouvia no rádio. Histórias como as de Flash Gordon. Então apareceu ‘Más Allá’, uma revista que foi dirigida, por um tempo, por Héctor G. Oesterheld. Aí conheci a ficção científica propriamente dita. Cheguei a ter a coleção completa e até publiquei um conto quando tinha 18 anos...

Por que o senhor se nega a dar uma definição do gênero?

Capanna: Porque não posso dar. Posso sim tentar definir historicamente, mas os limites estão muito tênues e na verdade é muito difícil estabelecer uma fronteira entre o fantástico e a ficção científica. Há 40 anos isso era mais claro.

Mas, se tivéssemos que limitar o conceito de ficção científica para poder entender do que falamos?

Capanna: Fundamentalmente, ficção científica foi um gênero literário...

Por que fala no passado?

Capanna: Eu penso que cumpriu seu ciclo. Sobrevive como uma categoria comercial, mas perdeu impulso. Nasceu como gênero literário e logo se estendeu a todos os meios: colonizou o cinema, passou a fazer parte da concepção gráfica das coisas. Os que viveram na década de sessenta, fomos criados em um mundo de ficção científica. Os carros tinham uma traseira que imitava os foguetes de Flash Gordon, e tudo o que víamos se apresentava como "a tecnologia do futuro", quando na realidade era do presente. A ficção científica configurou um imaginário e depois se esgotou.

Por quê?

Capanna: Chegou-se a uma situação em que o único progresso que se enxerga é o progresso tecnológico. A única coisa de que temos certeza é que o celular do ano que vem terá mais funções que o deste ano. Agora, ninguém sabe se existirá mais justiça, menos fome e menos desigualdade. Costuma-se dizer que o que distingue um romance de ficção científica de um romance utópico em geral - como ‘Admirável mundo novo’ (A brave new world), de Aldous Huxley, onde tudo termina mal - é que nos primeiros sempre há alguma reviravolta onde um grupo se opõe ao sistema e propõe uma alternativa para que as coisas mudem ou comecem a mudar.

E agora?

Capanna: Agora não se vê mais isso. Se você lê William Gibson - que é um grande escritor, embora não me interesse em especial - é possível encontrar uma insistência nas marcas, nos dispositivos eletrônicos e na tecnologia, mas em seu mundo a condição humana está piorando. É um mundo dominado pelas máfias. Não é ficção científica, é quase realismo. É nesse sentido que o ciclo se esgotou. Talvez esse seja um ponto de vista meramente pessoal e logo haja um renascimento.

Pode-se afirmar que existiu uma época de maior inocência?

Capanna: Houve um processo de amadurecimento do gênero. Quando foi comercializado nos Estados Unidos durante a década de trinta, havia uma enorme ingenuidade em torno de uma idéia básica: que todos os problemas da humanidade poderiam ser resolvidos com mais e melhor tecnologia. A prova disso está na aparição dos tecnocratas, um grupo político nascido diretamente da ficção científica. Essa ingenuidade durou um tempo, mas quando sobreveio a Segunda guerra Mundial, junto com todas as carnificinas do período, produziu-se uma crise de maturidade. Aí apareceu uma figura como John W. Capbell, muito polêmica, mas que evidentemente levantou o nível da discussão. Como diretor da revista Astounding, impulsionou a carreira de autores como Ray Bradbury ou Theodore Sturgeon.


Tratava-se de uma ficção científica humanista, como se vê no subproduto mais original desses anos, que foi a série ‘Jornada nas Estrelas’ (Star Trek). Ali os americanos se dão bem com os russos, os negros com os brancos. Em ‘Jornada’ aconteceu o primeiro beijo interracial da história da televisão. Era uma série verdadeiramente progressista. Mais tarde isso foi perdendo força e hoje existe uma ficção científica para cada setor. Inclusive algumas racistas e de tendências autoritárias.

O que define, então, que uma obra seja classificada como ficção científica?

Capanna: O critério dos editores.

Nada mais?

Capanna: Acho que não. Porque a maioria dos bons escritores que saíram da ficção científica, como James G. Ballard, renegam o gênero. Em última instância, ficar fazendo essas distinções é coisa de acadêmicos. E os acadêmicos, que contribuíram tanto para que o gênero fosse aceito pela cultura, ao mesmo tempo o limitaram. Definiram convenções estritas que na prática não são respeitadas, mas que funcionam como critério para os editores.

O caráter antecipador de alguns textos se converteu em uma marca do gênero?

Capanna: Acredita-se que a ficção científica se ocupa de adivinhar o futuro e é certo que esteve sempre ligada a ele, mas já se escreveu ficção científica sobre o homem de Neanderthal ou sobre Napoleão em Waterloo. É lógico, portanto, que havendo textos de temáticas tão variadas alguns tratarão de questões do porvir, mas a isso se chama simplesmente de cálculo de probabilidade. Para predizer o futuro estão aí os economistas e as pitonisas, não os escritores. O que dizem os grandes criadores - e eu já ouvi isso ao vivo de Brian Aldiss e William Gibson - é que a ficção científica se ocupa basicamente do presente. Do presente projetado, ampliado. Nos últimos 50 anos os escritores não querem mais fazer prognósticos sobre o futuro, embora em geral tratem de nos prevenir. São romances de advertência.

Por exemplo...

Capanna: Ocorre que às vezes isso que um escritor imagina como advertência termina tornando-se realidade, a despeito de suas intenções. Em 1948, George Orwell escreve "1984". Ele vinha da experiência do totalitarismo e quer nos advertir sobre um estado tirânico, onde o Grande Irmão nos vigia a todos. Não se podia imaginar, naquele momento - porque era um romance de advertência - que aí pelo ano 2000 iria existir um programa de televisão no qual as pessoas se matam para se encerrar num local onde serão vigiados, nem muito menos supor que uma empresa como a Microsoft criaria um software para monitorar os sinais vitais dos trabalhadores, com a suposta intenção de melhorar seu rendimento.

E daí se deduz que a ficção científica inventa o futuro?

Capanna: Provavelmente. Apesar das intenções do autor, que às vezes podem ser simplesmente de advertência, as coisas acabam acontecendo. Alguém levanta uma idéia, coloca-a em circulação e logo ela se materializa em tecnologia.

E o que é o futuro?

Capanna: Imaginação. É um horizonte para nossa imaginação. É uma forma de dar sentido à vida. Neste contexto, a ficção científica tem tentado tanto antecipar quanto prevenir, e direta ou indiretamente influenciou a cultura. Quer dizer, faz parte do imaginário. Existiram fenômenos importantes no século XX - geralmente considerados secundários ou marginais, mas de muito peso - que nasceram da ficção científica. Nasceram religiões inspiradas na ficção científica: a Cientologia, por exemplo, que assola Hollywood, é a religião da ficção científica, cheia de componentes que antes figuravam nas revistas especializadas.

Até que ponto a ficção científica não é uma ideologia?

Capanna: Ideologia sim, mas no sentido clássico, daquilo que não se vê, que não se faz temático, que é como o ar. A ideologia é o que não se questiona. E como a ficção científica ocupou o imaginário do futuro, qualquer um se punha a pensar, ou prometia um futuro melhor ou diferente e estava valendo. Por outro lado, a conquista do espaço foi um projeto da ficção científica que foi usado politicamente pela NASA porque era parte do imaginário daquele momento.

Poderia-se falar de uma certa conspiração do poder para beber na fonte dessas ficções e levá-las à prática?

Capanna: Diria ao contrário: que as mentes conspirativas têm sido vítimas da ficção científica.

De que maneira?

Capanna: Por exemplo, no uso que os serviços de inteligência norte-americanos fizeram da parapsicologia. Ficamos sabendo que gastaram milhões de dólares para treinar telepatas para saber o que os russos estavam fazendo. Alguém poderia perguntar-se: como pode ser, que gente supostamente racional ou lúcida, que está no poder no Pentágono, colocava um telepata a meditar, para ver o que faz o inimigo? Entretanto, essa é uma idéia que lhe foi semeada pela ficção científica quando era criança, e transformou-o no tipo de gente que pensa desta forma.

Ou seja, a ficção científica extrapola totalmente a mera literatura...

Capanna: Do ponto de vista literário se pode questionar qualquer coisa, mas do mitológico, a ficção científica configurou o imaginário de todo o século XX.

http://www.revistaenie.clarin.com/notas/2008/02/02/01598619.html
Nesta entrevista também está a opinião de Oliverio Coelho. (Entrevista de Diego Manso.)
Tradução: Ana Paula Medeiros

Pablo Capanna nasceu em Firenze, Itália, em 1939, mas sua família mudou-se para Buenos Aires quando Pablo tinha 10 anos. É professor de filosofia, jornalista e escritor. Por duas vezes foi agraciado com os prêmios Pléyade, o Diploma Konex e cinco vezes com o Prêmio Más Allá.

Algumas de suas obras: El sentido de la ciencia ficción (Buenos Aires, 1967), La Tecnarquía (Barcelona, 1973), El Señor de la Tarde, Conjeturas en torno de Cordwainer Smith (Buenos Aires, 1984), Idios Kosmos, claves para Philip K. Dick (Ediciones Axxón, Buenos Aires, 1991). El mundo de la ciencia ficción (Buenos Aires, 1992), El mundo desolado (Almagesto, Buenos Aires, 1993), "Contactos" extraterrestres (Buenos Aires, 1993), El mito de la nueva era (Buenos Aires, 1993), Philip K. Dick, Idios Kosmos (Almagesto, Buenos Aires, 1995), La tentación de la magia (Buenos Aires, 1995), Excursos (Buenos Aires, 1999), El icono y la pantalla. Andrei Tarkovski. (Buenos Aires, 2000), Philip K. Dick, Idios Kosmos (Cántaro, Buenos Aires, 2006).

El sentido de la Ciencia Ficción [ Download ]

Idios Kosmos - claves para Philip K. Dick [ Download ]

sábado, 23 de fevereiro de 2008

H. G. WELLS

Herbert George Wells (21 de Setembro , 1866 – 13 de Agosto, 1946), escritor britânico, é mais conhecido por seus romances de ficção científica, 'The War of the Worlds' (Guerra dos Mundos) e 'The Time Machine' (A máquina do tempo), mas em sua vida literária, exerceu forte influência no pensamento da época, escrevendo artigos sócio-poliíticos para revistas e jornais e em seus livros.

H.G. era o filho mais novo (de quatro filhos) de um jogador de cricket e uma doméstica. Seus pais eram parte da massa de trabalhadores que na virada do século 19 ansiava por uma posição na classe média. Seu pai vendia tacos de cricket, bolas e equipamentos esportivos e conseguia um dinheiro extra participando como jogador, de jogos de pouco significado.

Wells tinha gosto pelo esporte e talvez seguisse na atividade do pai, porém um acidente em 1874, aos oito anos, o manteve preso a uma cama, com a perna quebrada. Para matar o tempo, o jovem começou a ler avidamente e logo passou a se dedicar aos livros, o que o permitia adentrar outros mundos. Sua mãe trabalhava para uma família abastada e graças a isso, Wells podia mergulhar na magnífica biblioteca que havia na casa.

Seu primeiro livro, aquele que o projetou, foi 'Anticipations' em 1901, porém seu trabalho mais explicitamente futurístico, chamou-se 'Um experimento em profecia'.
Influenciado pela valorização da ciência e dos pensamentos reformistas, Wells se interessava por desenhar uma sociedade utópica, urbana e livre de restrições morais, já que era avesso aos costumes vitorianos e à moral vigente.

Foi em 'The World Set Free' (1914) que Wells fez talvez sua maior 'profecia'; afirmando que no futuro, cientistas conseguiriam dominar a energia provida pelo decaimento natural do rádio e utilizá-la com fins práticos. Wells também viu a utilidade daquilo para criar a bomba que mudaria o conceito da guerra . Leó Szilárd reconheceu que o livro o inspirou ao teorizar sobre a reação nuclear em cadeia.

Wells também escreveu não-ficção, mas a sua obsessão com a questão de uma sociedade mais organizada e justa o perseguiria até a morte. Mesmo que para tal, usasse, nos livros, de uma catástrofe mundial, onde as pessoas teriam que se organizar racionalmente para sobreviver.
Assim foi em 'In the Days of the Comet' e 'The Shape of Things to Come' (1933).

Outros temas, como sua contemplação sobre a natureza versus a criação e questões humanitárias, se tornaram concretas em livros como 'The Island of Dr.Moreau' (A ilha do Doutor Moreau). Nem todos seus romances científicos terminavam com uma feliz utopia ou de maneira distópica como 'When the sleeper awakes'. Wells apoiava as visões socialistas e foi a favor das tentativas de Lenin para reconstruir a economia russa, como sua visita àquele país, em 1920, demonstrou. Mas logo Wells se viu desiludido com a rigida doutrina Bolshevik e convenceu-se de que tudo aquilo era um erro.

Em seus últimos anos, Wells se tornara pessimista sobre o futuro da humanidade (devido a Segunda Grande Guerra) e o título de seu último livro sugere isso, 'Mind at the end of its Tether' (1945) onde sugere que não seria uma má ideía, a raça humana ser substituída por outra menos irracional.


Clássicos Ilustrados - A ilha do Doutor Moreau [ Download ]
Material promocional - Things to come [ Download ]


A ilha do Doutor Moreau [ Download ]

The Shape of things [ Download ]

A guerra dos mundos [ Download ]

The new world order [ Download ]

The Time Machine [ Download ]

War and the future [ Download ]

What is coming [ Download ]

When the Sleeper wakes [ Download ]

La Maquina del tiempo y apendices sobre el viaje en el tiempo [ Download ]

The Invisible man [ Download ]

JULES VERNE

Jules Verne (8 de Fevereiro de 1828-1908) nasceu na França, em uma ilha próxima a Nantes, seu pai era um advogado famoso e para que seguisse seus passos, Verne foi mandado para Paris, estudar Direito. Tudo dizia que a vida de Verne seguirira de maneira previsível, enquanto gozava dos confortos da cidade, mas o contato com os intelectuais surtiu efeitos no jovem que logo se encantou com a literatura, para profundo desgosto de sua família.

Naquela época, uma das maneiras mais seguras de se fazer fama e fortuna na literatura era escrevendo para o teatro. Todos os autores daquela época, Dumas, Balzac, tinham logrado sucesso assim. Desta forma, Jules começou a escrever operetas em colaboração com Michel Carré e poucos anos depois, em 1850, uma de suas comédias foi apresentada. Esta não teve boa aceitação. Apaixonado pela efervescência de sua época, Vernes estava sempre cercado de novas talentos e seguia as novas correntes de ideías. Sua paixão principal era a geografia e o mundo da ciência, o mar e as expedições.

Um dia, já casado, em 1962, enviou um manuscrito a um editor, inspirada nas experiências de Madar, que se propunha a viajar pelo mundo em um balão. O romance se chamava 'Vitória' e grande parte se passava sobrevoando a África.

O editor achou a ideía interessante, contudo mal construida. Verne ouviu as críticas e em 24 de Dezembro de 1862, era publicada 'Cinco semanas num balão', a primeira de quarenta viagens extraordinárias que Jules Verne escreveria.
O sucesso foi tanto que Jules foi contratado como escritor em tempo integral.

Assim nascia a moderna literatura para jovens.




A imaginação de Verne conseguira conjugar habilmente elementos fantásticos com dados científicos, de tal maneira que a realidade e a ficção deixavam de ser perceptíveis.



Dois anos depois lança 'Viagem ao Centro da Terra'.
Em 1868 inicia a famosa trilogia, 'Os filhos do Capitão Grant (1868), 'Vinte mil léguas submarinas' (1870) e 'A ilha misteriosa' (1874).


Em 1870 Verne realiza uma longa viagem pela França a fim de colher material para seu livro 'A Geografia da França'.


Apesar do reconhecimento público, Verne enfrentava uma forte campanha difamatória; diziam que seus livros eram pessimamente escritos e que os jovens precisavam ler os clássicos, ao invés de histórias toscas sobre lugares distantes. Além disso, os cientistas acusavam Verne de que as suas histórias eram repletas de inverdades científicas, que ao invés de divulgar, deformava o conhecimento.

Verne continuaou explorando os temas que desde o princípio se manifestaram em sua obra. Entre suas melhores histórias, estavam aquelas que conseguiam mesclar ciência, um argumento baseado em uma difícil viagem e o componente heroíco, que gerava uma forte tensão ao se debater contra opositores e perigos.



Jules Verne sofria com a diabetes e perdeu a visão nos seus últimos anos de vida, recluso em Amiens, onde morreu aos 81 anos.



Vinte anos depois, um grupo de estudantes resolveu dar a volta ao mundo, seguindo o roteiro de Verne e levaram somente 43 dias.



A obra de Jules Verne representou mais do que um mero entretenimento para a juventude - lida e traduzida no mundo inteiro, chegou até os nossos dias como uma mensagem de esperança na determinação e na criatividade do ser humano.




Curiosidades sobre Jules Verne

Verne antecipou o uso de tanques de guerra no livro 'A casa de vapor', o submarino em '20.000 léguas submarinas'. O lança-chamas em 'Ante a bandera' . Os satélites artificiais de 'Robur, o dono do mundo.'
Outros trabalhos seus também descreveram com extrema precisão máquinas e inventos que são hoje familiares, mas em seu tempo impensáveis, como o helicóptero, a tortura com descargas elétricas, bombas de fragmentação, o canhão de longo alcance, mísseis teledirigidos, cercas elétricas e o cinema sonoro.Mas um de seus mais surpreendentes livros, 'Da terra a lua', estava recheado de predições que se cumpririam muitos anos depois com incrível precisão.Verne situa um telescópio de 5 metros de diâmetro nas Montanhas Rochosas, nos EUA, com alguns detalhes idênticos ao primeiro telescópio do Monte Palomar.Em lugar de escolher os países que iriam promover as viagens, entre as maiores potências de seu tempo (França e Inglaterra), Verne preferiu os EUA e a Rússia.
O lugar de lançamento da nave de Verne era Cabo Town, bem perto de Cabo Canaveral.Nas primeiras viagens ao espaço de Verne, viajam animais cobaias. A cadela Laika foi o primeiro ser vivo a viajar para o espaço.
A nave de Verne se chamava Columbia e carregava três homens.O módulo da Apollo 11 se chamava Columbia e também carregava três homens.A Columbia de Verne possuia um sistema de refrigeração baseado em circuito fechado, os ocupantes se alimentavam de alimentos concentrados e usavam foguetes secundários para corrigir a rota. Como as naves modernas.

"Tudo que uma pessoa pode sonhar, outras podem tornar realidade. Jules Verne"




Viagem ao centro da Terra [ Download ]
Da terra a Lua [ Download ]
A volta ao mundo em 80 dias [ Download ]
A ilha misteriosa [ Download ]
Os filhos do Capitão Grant [ Download ]
Vinte mil léguas submarinas [ Download ]
A casa a vapor [ Download ]
O Castelo dos Cárpatos [ Download ]
As Índias negras [ Download ]

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ALAN MOORE e STEAMPUNK - Entrevista



O seu ‘League of Extraordinary Gentlemen’ fez mais por popularizar a estética steampunk do que qualquer outro livro. Como surgiu o livro?

De uma forma estranha, a estética steampunk não veio de fora. Já tinha lido alguns expoentes do gênero, como Tim Powers, KW Jetter e outros - não sabia se ‘Diamond Age’ de Neil Stephenson poderia se qualificar como tal, ou se era ‘nanopunk’. Me interessei pelas histórias, gostei mesmo.

Mas a ‘League of Extraordinary Gentlemen’ surgiu, eu acho, de ‘Lost Girls’.
Nós estamos nos divertindo tanto, eu e Melinda Gebbie, utilizando pornografia com três personagens literários conhecidos (Dorothy, Alice e Wendy), que subitamente me ocorreu:
‘Você poderia fazer a mesma coisa com um livro de aventuras.’

Tinhamos o homem invisível, e Mr.Hyde, o Capitão Nemo e depois de muito pensar chegamos a Mina Murray (de Drácula), como a principal personagem feminina. Então começamos a escrever com esta idéia bem simples, um tipo de Liga da Justiça Inglesa-Vitoriana.

Mas foi quando Kevin O’Neill começou a trabalhar na arte da coisa, e começou a fazer coisas como desenhar a mais fiel e mais exótica versão do Nautilus - que Kevin então começou a sentir como se esta história se passasse em um mundo onde várias fantasias e ficções vitorianas verdadeiramente aconteceram. Isso acabou se espelhando no tipo de arquitetura que Kevin criava, o tipo de tecnologia, em termos de carro e outros veículos do período.

Acho que estava a meio caminho da coisa, quando me dei conta de que eu tinha Mr.Hide de Stephenson assassinando Nana de Emile Zola na Rua Morgue de Edgar Alan Poe, subitamente percebi a fantástica possibilidade de tornar este livro algo sem precedentes, se fizéssemos cada personagem do livro um personagem previamente existente da ficção, então o livro tornou-se um amalgama louco de toda ficção mundial que já existiu.

Com o segundo volume nos ocorreu que nos poderíamos talvez estendê-lo, como um almanaque de lugares fictícios, no qual nós tentaríamos amarrar tudo junto, cada lugar deste mundo ficcional.

No número seguinte, ‘The Black Dossier’ (que será o último da parceria DC/Wildstorm), exibimos uma linha do tempo, das origens da humanidade até os dias de hoje, uma linha do tempo da totalidade deste planeta fictício. Muito disso está retratado na vida de Orlando, um personagem imortal que encontramos no século 12 antes de Cristo, na antiga Tebas. O que isso faz é acrescentar um incrível mundo tri-dimensional, em que cada história, fantástica ou não, que você possa ter lido na sua vida, provavelmente coexiste ali.

E esta não é uma idéia nova para mim, desde ‘Jason and the argonauts’ (Jasão e os argonautas) as pessoas pensam ‘o que aconteceria se meus heróis de ficção favoritos estivessem todos juntos?’ No século 19 isso acontecia bastante, com Jules Verne escrevendo a sequência de ‘The narrative of A Gordon Pym’ de Edgar Alan Poe. Teve um monte de ‘crossovers’ (cruzamentos entre idéias, conceitos, obras, universos), tudo que fizemos com a ’League’ foi levá-la até ao extremo, onde tudo potencialmente se cruza em algum lugar das páginas da ‘League’
E assim surgiu a idéia e foi assim que foi desenvolvida.

Os dois primeiros volumes são aqueles que os entusiastas do steampunk mais vão gostar, por que com o volume 3 subsequente, saímos da era vitoriana. A maioria das cenas se passa em 1958, que achamos ter sido uma época tão distante e peculiar, quanto a era vitoriana, se pararmos para pensar.

O volume 3 por sua vez, está dividido em 3 partes, cada qual com 72 páginas e num período de tempo especifico. A primeira em 1910, com eventos que se relacionam com a Ópera, então temos ‘Mack The Knife’ e ‘Pirate Jenny’ surgindo, assim como outros personagens do final da era vitoriana e alguns do inicio da eduardiana. A segunda ocorre toda em 1958 e a terceira em 2008.


Não pretendíamos fazer um fetiche da era vitoriana. Temos outras histórias ocorrendo em algum ponto dela, e outras antes ainda, no passado.

Ainda assim é um período inacreditavelmente rico o que nos favorece, acho que depois de ‘From Hell’, ‘The League’ e ’Lost Girls’, que eu suponho ser eduardiana, sinto que estive em perigo - porque amo tanto aquele período - de ser classificado como um tipo de maluco vitoriano-eduardiano. De fato me interesso por quase todos os períodos, todos tem algo para ensinar.



O que acha do steampunk como estética e seu potencial como uma cultura?

Se estou entendendo direito, é um tipo de manifestação de um ‘ethos’ que se torna mais prevalecente na cultura atual. Me parece que neste momento do século 21, estamos mais conscientes de nós mesmos - de nosso passado - do que nunca antes. Por conta da Internet, por conta dos monstruosos arquivos que geramos, a cultura do passado está disponível para nós.


E quando olhamos para ela, percebemos que existe um fabuloso depósito de idéias que podem ser incrivelmente belas - e que ainda podem ter muita vida pela frente - e que foram descartadas impiedosamente pra fora de nossa cultura, devido a nossa insistência de querer coisas novas todos os dias.

Acho que estamos numa posição, onde podemos olhar para trás, para as maravilhosas e gloriosas lembranças de nossas culturas antigas - de nosso intelecto - e podemos usar elementos deste tesouro para construir nosso futuro.

Penso que em muitos aspectos seja a definição de ‘decadência’(estilo literário marcado pela artificialidade, pela valorização da arte como única forma de redenção humana) dada pelo escritor decadente Théophile Gautier, que disse que um escritor decadente deve sentir-se livre para apropriar-se das mais deslumbrantes e suntuosas lendas antigas e, ao mesmo tempo, deveria sentir-se livre para emprestar dos vocabulários técnicos - a forma mais atual possível - ser capaz de trazer o passado e o futuro e o presente tudo em um glorioso caldeirão.


E eu penso que é isso que talvez o steampunk esteja tentando fazer. Tomar aqueles elementos abandonados que provavelmente nada tem de errado e são perfeitamente funcionais, mas apenas foram deixados de lado, por nossa cultura apressada, e colocá-los juntos, de uma maneira nova, a fim de criar idéias que nos ajudarão a projetar nós mesmos em direção ao futuro.

É o que parece para mim, que o steampunk, conscientemente ou não, está fazendo.


Acho que a arte, a tecnologia e a mídia, isso tudo está mudando a maneira básica com que vemos nosso tempo. Até pouco tempo atrás víamos a progressão do tempo como um tipo de esteira transportadora, onde estávamos presos, indo do passado para o futuro, e não havia nada que pudéssemos fazer sobre isso, e o passado, uma vez que a esteira o deixasse para trás, tinha desaparecido para sempre.

Contudo não era uma verdade, todas as idéias do passado ,talvez o mais precioso bem do passado, ainda podiam ser alcançadas. E acho que algumas pessoas, talvez os escritores de steampunk, estão percebendo que podem abraçar o passado como um meio de progredir para o futuro.


Não se trata de simples nostalgia. Ou ficaríamos cansados dela rapidamente.
É essencial que haja algum progresso, um aspecto de avanço na maneira que utilizamos estes magníficos fragmentos da cultura antiga.

Da minha perspectiva, embora não seja conscientemente um, é o que penso que o steampunk se trata.




Primeiro trabalho (revista Embryo)

O senhor do Caos

Bibliografia


Resumo da história - Alan Moore

Alan Moore nasceu em 18 de Novembro de 1953 em Northampton, Inglaterra, uma cidade industrial entre Londres e Birmingham. Filho mais velho de um cervejeiro, o jovem Moore enfrentou a pobreza e foi bastante influenciado pelo ambiente em que viveu (alem das excentricidades religiosas de sua avó). Foi expulso de uma escola conservadora e não foi aceito em nenhuma outra. Em 1971, Moore estava desempregado e não possuía qualificações para tentar qualquer emprego. Casou-se em 1974 e deste casamento, nasceram suas filhas Amber e Leah. Em 1979 começou a trabalhar como cartunista com o pseudônimo Curt Vile. Depois de algum tempo, chegou a conclusão que era péssimo desenhista e passou a se dedicar a escrever. Escreveu roteiro para a famosa série de FC, Doctor Who e na revista 2000 AD, para a qual criou várias séries populares como ‘The Ballad of Halo Jones’, ‘Skizz’ e ‘D.R. & Quinch’.
Trabalhou depois para a revista inglesa Warrior, onde começou duas de suas séries mais famosas: Marvelmen (conhecida também como Miracleman), uma espécie de revisão do conceito do super-herói tradicional e ‘V For Vendetta’ (V de Vingança), uma obra arrasadora, sobre a luta por liberdade e dignidade em uma Inglaterra distópica e fascista. Ambas ganharam (em 1982 e 1983) o prêmio British Eagle Award.
Graças a este reconhecimento, ganhou sua primeira série americana, ‘Saga of the Swamp Thing’, ao mesmo tempo que contribuía com seu estilo único, profundo e provocador, escrevendo para outros títulos da DC, como ‘Tales of the Green Lantern Corps’, ‘Batman Annual’ e vários ‘Superman’. Em 1986, quando a DC Comics se reestruturava, Moore apareceu com Watchmen, que junto com o ‘Batman: The Dark Knight Returns’ de Frank Miller, redefiniu o conceito dos quadrinhos. Watchmen tornou-se o primeiro comic a receber o prestigiado prêmio Hugo, de Fantasia e Ficção Científica.
Atualmente Moore possui sua própria empresa, a America’s Best Comics (ABC), na qual está desenvolvendo suas novas séries: ’The League of Extraordinary Gentlemen’, ‘Promethea’, ‘Tom Strong’, ‘Tom Strong's Terrific Tales’, ‘Tomorrow Stories’ e ‘Top Ten’.
Outros projetos de Moore incluem gravar um disco e tornar-se um mágico.
Alan Moore vive em Northampton, Inglaterra.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Steampunk por ai




Literatura:
Difference engine - William Gibson&Bruce Stirling [ Download ]
Humunculo - James Peter Blaylock [ Download ]
La lista de los siete - Mark Frost [ Download ]
The Anubis Gates - Tim Powers [ Download ]
Time ships - Stephen Baxter [ Download ]


RPG:
Castle Falkenstein - Steam Age [ Download ]
Dragon Mech - Steam Warriors [ Download ]
Gurps - Steampunk [ Download ]


Esculturas:


Revistas:


Música:


Concursos:


Imagens:

STEAMPUNK



'Steam’ quer dizer ‘vapor’, mas também é uma abreviação para um conceito tecno-industrial, uma passagem para um novo mundo, de caldeiras chiando, engrenagens, rodas dentadas e maravilhas vivas de latão. A máquina desta transformação é tradicionalmente a força-vapor, responsável por tantas mudanças na história durante a revolução industrial, mas a tecnologia por trás é irrelevante.

Não importa se as máquinas eram movidas por vapor, óleo ou magicamente por demônios; é a presença e o conceito da máquina que importa.

A máquina é também um símbolo de grandes transformações.

Outras grandes construções, como castelos ou monumentos, podem existir numa espécie de vácuo, sua mera existência pouco implica comparativamente sobre a sociedade que as construiu.

As máquinas, entretanto, requerem uma significativa infra-estrutura.

Uma gigantesca indústria movida a vapor, implica na existência de dezenas de fundições, trabalhadores braçais, incluindo artesões e engenheiros para construir e fazer funcionar as máquinas e uma civilização com vasta demanda só se satisfaz pela produção em massa - tal não ocorre de maneira isolada.




Adicionar vapor e tudo que isso, em períodos e cenários diferentes, é chamado de STEAMPUNK.


Onde o cyberpunk examina o que a tecnologia fará com a sociedade, o steampunk pega os sonhos científicos da revolução industrial e os torna realidade.

O infortunado epíteto ‘punk’ é derivado do gênero ‘cyberpunk’ da Ficção Científica.

Um dos primeiros livros de steampunk foi ‘The difference engine’, escrito por William Gibson e Bruce Sterling, autores consagrados no movimento cyberpunk, porém o termo já existia anteriormente a publicação.

‘The difference engine’ coloca supercomputadores com imagem digital e inteligência artificial, na Londres Vitoriana, bastante transfigurada devido a presença de tal tecnologia.



Um dos pontos peculiares na ficção steampunk; ‘steam’ não significa somente trazer para outra realidade, máquinas como trens e teares de algodão, mas criar o anacronismo ou a impossibilidade de máquinas como computadores, televisores, robôs (mesmo Mecha’s a vapor) um agente de ‘suspensão da realidade’.

Ao invés de meramente reconstruir engenhocas do nosso tempo, o steampunk pega a tecnologia moderna e a remodela em latão, rebites e caldeiras fumacentas em um novo ambiente.


A maioria das representações steampunk tem em comum um visual com motivos e imagens que se repetem, obviamente, os ornamentos e os mecanismos da força vapor, tubos, canos, caldeiras, foles, bielas, válvulas e coisas assim, por toda parte, mas mesmo aquelas desprovidas de tecnologia guardam traços do steampunk. Uma armadura blindada com rebites,um escudo moldado para parecer uma roda dentada.

A arquitetura do steampunk se apropria das construções vitorianas, exuberantes estruturas góticas, repletas de chaminés e gárgulas, monstruosidades barrocas de metal e pedra apontando para nuvens de fuligem.


STEAMPUNK Vitoriano

O Steampunk vitoriano é a expressão mais comum deste gênero.
A era Vitoriana (referência a Rainha Vitória, que aos 18 anos subiu ao trono da Inglaterra, ocupando-o de 1837 a 1901) foi a época das grandes fábricas, da aceleração do processo produtivo, da consolidação da produção capitalista, de grandes saltos tecnológicos, era das ferrovias, do favorecimento da ciência e também do surgimento das workhouses (casas ou asilos que exploravam mulheres, crianças e desabrigados em trabalhos pesados, já que a maquinaria colocava abaixo os limites morais e naturais da jornada de trabalho).


A era Vitoriana foi também o auge do romance científico, e a maioria dos livros de Jules Verne, especialmente ’20.000 Leagues under the sea’ (‘20.000 léguas submarinas’) e ‘From Earth to the Moon’ (‘Da terra a lua’) podem ser facilmente classificadas como steampunk.

Outra contribuição histórica ao gênero, são os contos Edisonianos (referente ao inventor Thomas Edison) de Edward S.Ellis, Luis Senarens e outros, com seus personagens que utilizam veículos avançados movidos a vapor, em suas aventuras através do mundo.





Além de servirem como inspiração pueril para a futura ‘ficção científica’ (o nome só foi cunhado em 1929), estas histórias tiveram uma influência no tema ‘boy inventor’ (Garoto inventor), personificado pelo jovem inventor e aventureiro Tom Swift, em sua série de livros juvenis.






O PULP

Com H.G.Wells surgiu a literatura pulp (1920-1930).

A literatura pulp e o steampunk compartilham uma atitude similar frente a ciência. Ciência e tecnologia se mudaram das províncias do mistério e da alquimia e se tornaram mais familiares, mais otimistas.


Onde o pulp ressalta a atitude maravilhada frente a ciência, com seus cintos foguetes, relógios comunicadores e coisas assim, o steampunk o faz de maneira diferente.

Tudo tende a ser absolutamente sujo, imundo, graças a fumaça, a fuligem e o lixo produzido pelas indústrias, ou então brilhantes e polidos, em cada rebite e chapa vaidosamente brilhantes. De maneira similar, os personagens tendem aos extremos, dos pequenos e desprezíveis batedores de carteira de rua, descritos na obra de Charles Dickens, aos heróicos, honoráveis cientistas de Verne e mais tarde, personificados em Artemus Gordon (o agente-cientista, inventor que percorre o oeste americano imaginário, pós guerra da secessão, com suas invenções bizarras.)




Adicionando-se steampunk à fantasia, onde a magia não está oculta, nem é misteriosamente ambígua, mas uma força relativamente comum que pode ser manipulada, canalizada e usada para disparar bolas de fogo, chegamos a Fantasia Steampuk.

FANTASIA STEAMPUNK.

Tanto a magia quanto o steampunk podem ser fundidos pela indústria, feitiços mágicos são analisados e produzidos em massa.


China Mielville escreveu o excelente livro ‘Perdido Street Station’ que descreve um tipo de ‘fantasia industrial’, onde taumaturgos são artesões, como engenheiros, e conjuram poderosas máquinas mágicas para capturar leviatãs de outros planos de existência.

Steampunk contudo, também pode ser adicionado a clássica fantasia medieval sem adicionar os maneirismos vitorianos.

A renascença ainda é recente, próxima o bastante para poder ser trabalhada, e aquele tempo trás lembranças do imaginário de Leonardo da Vinci, que desenhou tanques a vapor, helicópteros e outros dispositivos em seus famosos cadernos.


A Fantasia steampunk pode retratar a tecnologia do século 20 através dos materiais do século 19 pelos cientistas do século 16

A CIÊNCIA NA FANTASIA.

Em um cenário steampunk, novas tecnologias subjugam todos os fenômenos que de certa vez, foram considerados milagrosos.

O poder dos motores a vapor, podem trazer a vida a outras máquinas.Uma chave em uma pipa inspirou o primeiro vislumbre da eletricidade como uma ferramenta.


Regiões inacessíveis, como o oceano selvagem, mares congelados, ou mesmo os pontos mais altos foram conquistados por máquinas a vapor.

De qualquer modo, se as tecnologias steampunk podem ser usadas amplamente para incrementar um barco voador, e uma placa de ferro pode ser usada para manter o ar do lado de dentro e o frio do espaço de fora, então o steampunk consegue abrir outros campos para novas aventuras.



Steampunk então não é sobre vapor.

É sobre avanço tecnológico por caminhos diferentes, propondo cenários alternativos à nossa realidade.



Foi a força-vapor que disparou a revolução industrial, uma mudança que varreu para longe a velha ordem, de forma mais eficientemente que qualquer filosofia ou mesmo a renascença.

Steampunk é mudança, através do desconhecido e do extraordinário.

E sempre existirão novas maravilhas a serem descobertas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

PAUL DI FILIPPO

Paul Di Filippo (29 de Outubro de 1954) nasceu em Providence, Rhode Island (EUA). Morou no Hawaii, viajou ainda jovem pela Europa, voltando aos EUA onde trabalhou na livraria da Universidade de Brown, até se tornar um escritor em tempo integral, em 1994. Como tal é conhecido por seu humor e pela predileção pelos gêneros cyberpunk e steampunk.

Participou de diversas antologias, entre elas, 'The Steampunk Trilogy', 'Ribofunk', 'Fractal Paisleys', 'Lost Pages', 'Little Doors', 'Strange Trades', 'Babylon Sisters' e escreveu os romances 'A Year in the Linear City' , 'Ciphers', 'Joe’s Liver', 'Fuzzy Dice', 'A Mouthful of Tongues' e 'Spondulix'. Escreve também artigos para revistas como Asimov's Science Fiction, The Magazine of Fantasy and Science Fiction, Science Fiction Eye, The New York Review of Science Fiction, Interzone e Nova Express, além de blogs como Boing Boing.

Site oficial

Podcast de Paul di Fillippo na Boing Boing

Neutrino Drag [ Download ]
Shipbreaker [ Download ]

ORSON SCOTT CARD

Orson Scott Card (24 de Agosto 1951) nasceu em Washington, EUA. Em 1973 esteve no Brasil, trabalhando como missionário da Igreja dos Santos dos Últimos Dias e parte desta sua experiência no Brasil aparece no romance 'Orador dos Mortos' Speaker for the dead - 1986), a seqüência de 'O Jogo do Exterminador' (Ender's Game - 1985).

É autor de best-sellers, de diversos gêneros, entre eles as séries 'Homecoming' e 'Tales of Alvin Maker', assim como os seus romances de fantasia contemporânea 'Magic Street', 'Enchantment' e 'Lost Boys'.

'Ender's Game' e sua sequência 'Speaker for the Dead', foram premiadas com o Hugo e o Nebula, fazendo de Orson, o único autor a ganhar estes prêmios em anos consecutivos.

Seus outros trabalhos demonstram sua versatilidade, como a roterização do filme de James Cameron, 'The Abyss' (O abismo), os roteiro de 'The ultimate Iron Man' para a Marvel Comics, além de sua colaboração no filme 'Robota' do renomado Doug Chiang.



Site oficial


Entrevista no Terra Magazine


O orador dos mortos [ Download ]

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domingo, 3 de fevereiro de 2008

Porque somos todos ciberpunks ? Entrevista com William Gibson



A 'The Observer' fez uma lista das 300 pessoas mais influentes em nossas vidas.
O escritor de FC canadense William Gibson aparece no 288º lugar.Um dos motivos de aparecer na lista foi ter cunhado a palavra 'ciberespaço' em um pequeno conto no ano de 1981. Gibson garantiu um rodapé na história lexicográfica, e também seria verdadeiro afirmar que nas duas últimas décadas, suas ficções visionárias influenciaram genuinamente a nossa definição e nosso relacionamento com as tecnologias emergentes e substancialmente modelaram nossa percepção do futuro próximo.

Seus romances e dúzias de contos podem ser legitimamente categorizados como Ficção Científica, mas nunca utopias ou distopias em sua aparência.
Gibson extrai mais do que simplesmente uma visão pragmática, existe a chuva, lá está a sujeira em seu futuro, e a parafernália modernosa, as vezes, não funciona como deveria.

'O futuro não é uma coisa completamente nova e brilhante, saida daquilo que o precedeu', diz Gibson, 'ele será feito a partir do que existe hoje'.

Como o adolescente crescendo numa área rural, começo dos anos 60 na Virgínia, Gibson se lembra com prazer dos 'anos devorando grande quantidade de FC e mais nada'. Ele sabia que seria alguma coisa ligada as artes, algum tipo de artista, mas achava que seu talento estava mais para o visual do que para o literário.

'Mas eu era um tremendo leitor. Se alguem pudesse passar uma vida lendo livros, eu estava pronto para tal.'

Estudou Literatura na Universidade (li mais D H Lawrence do que devia) mas foi apenas com vinte e tantos anos que percebeu que escrever era algo que ele podia fazer.

'Quando eu olho para trás, para minha estratégia de início de carreira, acho que tive muita sorte ao publicar um romance nos EUA, que iria desaparecer logo, sem deixar sinal.'Mas' acrescenta 'imaginar que décadas depois, um pequeno grupo se reuniria num bar, na França ou na Inglaterra, em torno dele. Um monte de escritores que eu admiro - como John Sladek - começaram assim.'

Suas primeiras histórias apareceram em revistas bem desconhecidas.

'Eu preferi dar as histórias ao invés de tentar vendê-las. Eu morria de medo de ser rejeitado pelo mercado. Mas quando comecei a ser pago por elas, fiquei perplexo. Era a única coisa que eu sabia fazer em casa , na mesa da cozinha, e que valia centos e poucos dólares'.

O grande momento de Gibson chegou em 1984 ao publicar seu romance de aventura sobre hackers de computadores, Neuromancer.

'Assim que saiu, começou a ganhar imediatamente todos os prêmios de FC e atraiu a atenção de todos, mas não foi de uma hora de outra, o sucesso foi mais como uma surpresa contínua. Ainda acho estranho. É como se apenas o primeiro dos filhos fosse o prodígio ou algo assim. Eu fico olhando com certo distanciamento.'

Ele diz que descobriu ter feito algo interessante quando leu um dos capítulos de Neuromancer em uma convenção de Ficção Científica no Texas.

'Alguns conheciam meu trabalho e lá pela metade da leitura, comecei a perceber as pessoas envolvidas com aquilo, eu era como Dylan eletrificado ou algo assim. foi demais!'

Gibson sempre escreveu contra a expectativa do público tradicional de FC.

'Eu escrevo para uma espécie de mercado diferente. Inicialmente assumi que eu saberia que estava na trilha certa se as pessoas da FC mais popular odiassem meu trabalho. Eu nunca esperei que muito deles fossem gostar.'

Gibson diz que o real inimigo do escritor é seu lado técnico.

'Já escrevo há tanto tempo que as vezes me preocupo por não me lembrar se estou me repetindo. A coisa assustadora nisso é ter todo seu trabalho numa base de dados e realizar uma pesquisa por uma frase. Eu odiaria saber quantas vezes eu usei a frase wet neon.'

Seu romance, 'All tomorrow's Parties' é a última parte da trilogia que começou em 1993 com 'Virtual Light' (no qual óculos de realidade virtual tinham a chave do futuro de São Francisco), continuou com Idoru (quando na Tokyo do século 21 se apresenta uma celebridade virtual).Em 'All tomorrow's parties' Gibson preconiza o fracasso dos holocautistas, antecipando que o bug do milenio (Y2K) não ocorreria.

'De alguma forma é cruel para mim saber que aquelas pessoas viverão o pior tempo de suas vidas quando em primeiro de janeiro, emergirem de seus bunkers em Iowa. Essas pessoas venderam tudo que tinham, gastaram tudo comprando feijões e rifles.'

Gibson diz que o romance que está atualmente escrevendo está longe de ser um simples romance.

'Mas eu me lembro ao fim de Neuromancer, de tentar puxar o plugue e evitar qualquer possibilidade de incluir uma linha que dissesse que os dois protagonistas jamais se veriam novamente. Mas o processo que rola no quarto escuro do meu cérebro e que me leva à próxima coisa a vir a escrever mudou, estou embaraçado com a possibilidade de estar voltando numa versão da mesma coisa.Vamos ver no que vai dar.'


Nicholas Wroe - The Guardian - 2 Dezembro de 2000.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

MARY SHELLEY

Mary Wollstonecraft Shelley (30 de agosto de 1797 - 21 de fevereiro de 1851.) nasceu em Londres e aos 17 anos fugiu de casa para viajar pelo continente europeu com o poeta Percy Shelley (com quem se casaria aos 19).

Certa vez, forçados a permanecer dentro de casa devido ao tempo ruim, (que ficaria conhecido como "The Year Without a Summer") o grupo de amigos, na maioria jovens escritores e intelectuais, decidiram se divertir criando histórias de terror. Um dos convidados naquele dia, Doutor John Polidori, criou um conto chamado 'The Vampyre', que mais tarde influenciaria Bram Stoker a escrever 'Drácula'. Outros convidados também escreveram contos de terror mas Mary Shelley não se sentiu o bastante inspirada para fazê-lo.
Naquela noite entretanto, teve um sonho sobre um estudante pálido, ajoelhado diante de um ser criado por ele. Colocou as ideías no papel e nos dias seguintes as reescreveu até ser publicada em 1818, com o nome 'Frankenstein'.

Mary se utilizara de uma série de outras fontes para seu trabalho, como o mito de Prometeu, de Ovídio, a influência de 'Paradise lost' de Milton, assim como já tinha lido Vathek, de William
Beckford, um romance gótico.

Mary e Percy eram ambos ferrenhos vegetarianos e defensores dos animais, e no seu romance, a criatura também é vegetariana.

Desconsiderando a idade e a inexperiência literária da autora, é um romance admirável.
Mary, que assim, por brincadeira, descobriu-se uma escritora de talento, após a morte do marido (1823), se dedicou mais seriamente à literatura, mesmo porque não tinha fonte de renda para cuidar do filho. O pai de Percy Shelley lhe garantiu uma pensão.

Seguiram-se o romance histórico 'Valperga' ou 'A vida e aventuras de Castruccio, príncipe de Lucca' (1823) e 'O último homem' (1826), ficção sobre uma peste que extingue a espécie humana, além de outros romances, diários de viagem e memórias.


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L SPRAGUE DE CAMP

Lyon Sprague de Camp, (27 de Novembro 1907 – 6 Novembro 2000) nasceu em Nova Iorque. Em 50 anos como escritor, escreveu mais de 100 livros, não apenas ficção mas também biografias de outros autores, como Lovercraft.

É considerado como um dos maiores autores do período literário conhecido como 'Golden Age' da Ficção Científica. Foi responsável pela continuação da saga 'Conan, o bárbaro' , criada por seu amigo Robert E.Howard. Alguns de seus trabalhos de ficção mais conhecidos incluem 'Lest Darkness Fall' (1941), 'The Wheels of If' (1940), 'The Glory That Was' (1960) e 'The Dragon of Ishtar Gate' (1961) assim como inúmeros romances e séries criadas em colaboração com outros escritores, como Fletcher Pratt ('Harold Shea and Enchanter').
Ganhou o prêmio Nebula de 1978 por sua obra e o Hugo de melhor livro (não-ficção), em 1991 por 'Time & Chance'.

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Futuro tenso - Kim Stanley Robinson


Futuro tenso*
'Fifty Degrees Below', o romance de Kim Stanley Robinson, se passa em um EUA varrido por enchentes, consequências do aquecimento global.
Sarah Crown do Guardian Unlimited (Inglaterra) , conversou com o autor sobre mudanças climáticas, o poder da ciência e sobre 'o pior Presidente americano da história'.

Kim Stanley Robinson: 'Será um século difícil e feio, mas penso que as pessoas não são tão estúpidas a ponto de se matarem'.
Na esteira de uma tempestade tropical, uma cidade america está arrassada.
Prédios foram demolidos e pontes cairam, dez milhões de pessoas estão sem eletricidade ou água potável, hospitais repletos de doentes e mortos.
Parece familiar? É claro que sim. Mas não se trata dos eventos (o Katrina em 2005) que assombraram os EUA, mas é o inicio de'Fifty Degrees Below', o segundo volume da trilogia de Kim Stanley Robinson sobre mudanças climáticas.
E a cidade destruida não é Nova Orleans, mas Washington DC.
Passado nos EUA, praticamente dos dias de hoje, este livro (assim como 'Forty Signs of Rain', o primeiro da trilogia) conta a história dos esforços de um grupo pouco formal de cientistas, ativistas e políticos, em provocar uma resposta nacional à crise do aquecimento global.
Infelizmente para eles, como diz o ambientalista Charlie Quibler no livro:
'É mais fácil destruir o mundo do que mudar o capitalismo, mesmo que apenas um pouco'.
Não até que a combinação de duas tempestades colidindo, somado a uma onda sem precedentes, apareça causando um crescimento do rio Potomac (em Washington) ao ponto de submergir a capital, como o clímax do primeiro livro. Mas neste ponto, as calotas de gelo polar já teriam começado a derreter, afetando o aquecimento das águas do Golfo e criando condições metereológicas capazes de trazer a próxima idade do gelo.
A última, onze mil anos atrás, e a próxima levaria apenas 3 anos para começar.
Este perturbante e convincente romance é um dos últimos trabalhos do escritor de FC mais bem sucedido em seu gênero, nos dias de hoje. Famoso por sua trilogia, merecedora de todos os prêmios que arrebatou, sobre a colonização de Marte, tem na imaginação poderosa de Robinson, baseada na Ficção Científica, e presenteada por um poder arrebatador narrativo, não apenas o poder capaz de criar cenários apurados, mas também de abordar observações socias, arrebatando muitos devotos, não apenas aficcionados pelo gênero.
O objeto de seu último trabalho, particularmente em vista dos fatos assustadores que a natureza proporcionou aos EUA, sem dúvida lhe renderá mais leitores.

'Li anos atrás sobre a possibilidade do aquecimento global afetar a camada de gelo antártico e que o nível do mar iria crescer. Comecei a pensar, bem, o que nós faremos? Seria possível fazer alguma coisa? É neste ponto que entra a terraformação e a Ficção Científica'.
O conceito de terraformação - transformar a paisagem de um planeta para que adquira caracteristicas da Terra, é o centro da trilogia escrita por Robinson, na qual os personagens tentam mudar o clima de Marte em grande escala, a fim de trazer o planeta para uma temperatura habitável. Robinson usou este conceito para mais do que interferir na paisagem alienígena, até fazê-la se parecer com a Terra, mas na manipulação do nosso próprio planeta, a fim de desfazer os danos ambientais.
Mas o que parecia possivel na vastidão marciana é infinitamente mais complexo em um planeta que já comporta uma complexa biosfera povoada. Qualquer proposta de ação, poderia produzir não apenas uma tragédia mas reações, algumas inesperadas, o que um dos ecologistas do livro chamou de, 'a lei das consequências não intencionais'.

Parece tão fácil em Marte e tão dificil na Terra, o que é certamente irônico, Kim Robinson concorda: 'É infinitamente mais difícil quando já existe uma ecologia estabelecida. Não há lugar para erros. Alguns enganos não podem ser corrigidos.'

'Como?'
'A redução da acidez nos oceanos. É um problema no qual eu comecei a pensar ao final do segundo livro e que toma praticamente para si o terceiro livro. A maior parte do dióxido de carbono da atmosfera acaba no mar, aumentando sua acidez e causando dificuldades para as criaturas mais simples da vida marinha. E elas são a base da cadeia alimentar, na qual nós estamos no topo. Mas existem coisas que podemos fazer e creio que no futuro estaremos envolvidos em enormes projetos de terraformação, aqui mesmo, na Terra.'

A crença fundamental no poder da ciência, de reverter certas condições é a matéria dos livros de Robinson. Mas o quanto de fé podemos colocar na habilidade da humanidade de resolver os problemas que criou para si propria?

'Até agora, eu creio, as possibilidades são favoráveis, mesmo que estejamos causando pequenas extinções em massa, acredito que a razão vai ter que prevalecer. Se o dinheiro aplicado na economia de guerra fosse investido para restaurar a natureza, estariamos numa situação ainda melhor. Quando nações prósperas como os EUA, perceberem que estão condenando à morte suas crianças, haverá uma mudança mosntruosa de valores. Vai ser um século difícil, mas não imagino que as pessoas possam ser tão estúpidas ao ponto de se matarem'.

O livros de Robinson, um americano, tratam quase que exclusivamente do mundo americano. Com as evidências que as mudanças climáticas, disparadas pelo homem, já são perceptiveis ao longo de quase uma década, e a contínua política americana de ignorância e desrespeito, em não ouvir a comunidade internacional, pergunto para Robinson se ele culpa seu país pelos atuais níveis de aquecimento global.
'Os EUA estão sempre negando tudo! Pior do que isso, é admitir que preferimos que o mundo se consuma em chamas, ao invés de admitir que precisamos mudar nosso estilo de vida e que estamos errados. Aqui na Califórnia, 50% dos carros na estrada são SUV's (grandes veículos blindados) o que é uma declaração politica! Estão dizendo que vamos levar o resto do mundo pro buraco conosco e não damos a mínima! Essencialmente, são veiculos republicanos, quando você vê um SUV passar, pode apostar que o motorista votou em Bush. Existe uma pequena parte, uma minoria que está preocupada em reduzir emissão de gases aqui, mas o processo político é controlado por uma administração republicana, que praticamente serve aos intereses da indústria de petróleo. E vamos para as próximas eleições, sabendo que nas duas últimas, de formas diferentes, fomos roubados, não podemos mesmo esperar por um Estado democrático nunca mais! É bem apavorante!'
A desilusão de Robinson com o processo eleitoral americano fica clara em 'Fifty degrees below', quando ele especula sobre a existência de uma manipulação nos programas de computador para falsificar resultados eleitorais. Um número de paralelos entre o presidente republicano do livro de Robinson e a atual liderança dos EUA (Bush), leva a imaginar que existe nele uma sátira intencional da atual situação política.

'Sim, um pouco', admite. 'Mas é duro brincar com isso, a não ser através de humor negro. Em termos da caracterização do presidente, existem similiaridades, mas eu queria que o meu presidente parecesse um cara melhor do que o que temos hoje. Nosso presidente não presta, é provavelmente o pior de toda a história americana. Não é só estupido, mas tem uma capacidade reduzida, um idiota patológico, e acho que ele gosta de fazer coisas más. E penso que muitos do que o apoiam igualmente dão apoio a suas ações. São contra a ideía de progresso, contra o futuro, contra o resto do mundo. Este é o pior momento de nossa historia. Cruzo os dedos esperando uma eleição honesta em 2008.'
Dificilmente poderemos saber se o aquecimento global voltará as manchetes, assim como não é possível saber, se a atual administração americana acordará para os riscos das mudanças climáticas ou predizer os efeitos do abuso ao planeta em nós e em nossos filhos. Com o livro final da trilogia chegando ao fim no próximo ano, Robinson agora encara a tarefa de projetar como as mudanças climáticas se darão ao redor do globo nos próximos anos. Alguma sugestão?

'Bem', diz ele voltando ao otimismo do início da entrevista, 'Quero que as coisas terminem bem, que seja uma comédia e não uma tragédia. Eu quero no final, casamento e filhos'.

Entrevista para o GuardianUnlimited em Setembro de 2005.
* (O título 'Future tense' ou, 'Futuro tenso', é uma brincadeira com a forma do verbo no inglês, o futuro, o que está por vir, e o 'tenso', da situação dramática que a matéria aborda.)

KIM STANLEY ROBINSON

Kim Stanley Robinson (23 de Março, 1952) tem sido, desde o início de sua carreira, um dos escritores mais aclamados pelo público e críticos e é considerado por muitos como o melhor escritor de Ficção Científica vivo, além de um visionário.

Seu trabalho mistura e explora temas ecológicos e sociais com frequência e seus romances são o resultado de seu fascínio pela ciência, como o fruto de 15 anos de pesquisas e dedicação pelo planeta Marte, que culminou com a famosa (e premiada) série 'Mars'.

Robinson é um defensor do gênero e um apaixonado, apesar dos críticos considerarem a qualidade e a preocupação no desenvolvimento dos temas, como tendo pouco em comum com a Ficção Científica conhecida.

Foi várias vezes premiado (Hugo, Nebula e Locus Awards, entre outros) e devido ao seu best-seller Antártica, foi convidado pela US National Science Foundation a tomar parte do projeto Antarctic Artists and Write's. No livro, Robinson descreve uma paisagem alienígena, uma terra de gelo, mas não se trata de outro planeta, mas do último paraíso terrestre, onde uma disputa entre corporações, políticos e ambientalistas, irá determinar o futuro do planeta.

Robinson mora atualmente em Davis, Califórnia, depois de viver em diversos países e hoje está envolvido com estudos de aproveitamento de recursos naturais em horticulturas da sua região. Planetólogo, título que recebeu de organizações ecológicas, Robinson é palestrante voluntário em cooperativas e tem influênciado com seu pensamento e seu trabalho de conscientização, representantes do governo americano e artistas.


The ambiguos utopian - entrevista sobre o livro 'The Years of Rice and Salt'

Tech Nation - podcast sobre o livro 'Fifty Degrees Below'

Chop Wood, Carry Water - entrevista para a revista Locus Online


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domingo, 27 de janeiro de 2008

Incômodos Prazeres - J G Ballard



'Acredito firmemente que a ficção científica, longe de ser um gênero menor e sem importância, na realidade representa a principal tradição literária do século 20, e certamente a mais antiga -uma tradição de resposta imaginativa à ciência e à tecnologia que segue uma linha ininterrupta, passando por H. G. Wells, Aldous Huxley, pelos escritores da moderna ficção científica norte americana, até os inovadores atuais como William Burroughs.

O principal "fato" do século 20 é o conceito de possibilidade ilimitada. Este predicado da ciência e da tecnologia enfatiza a noção de uma moratória sobre o passado- a irrelevância e mesmo a morte do passado - e as ilimitadas alternativas disponíveis para o presente.

O que liga o primeiro vôo dos irmãos Wright à invenção dapílula é a filosofia social e sexual do assento ejetor.Dado este imenso continente de possibilidades, poucas literaturas parecem estar melhor equipadas para lidar com seus temas do que a ficção científica.

Nenhuma outra forma de ficção tem o vocabulário de idéias e imagens necessário para abordar o presente, muito menos o futuro. A característica dominante da literatura moderna é o seu sentido de isolamento individual, sua atitude de introspecção e de alienação, uma disposição mental sempre indicada como sendo a marca registrada da consciênciado século 20.

Longe disso. Ao contrário, parece-me que esta é uma psicologia que pertence inteiramente ao século 19, parte de uma reação contra as enormes restrições da sociedade burguesa, contra o caráter monolítico da época vitoriana e a tirania do paterfamilias, seguro de sua autoridade financeira e sexual. Exceto pela tendência marcadamente retrospectiva, e pela obsessão com a natureza subjetiva da experiência, os seus verdadeiros temas são a racionalização da culpa e o estranhamento.
Seus elementos são a introspecção, o pessimismo e a sofisticação.
Se alguma coisa caracteriza o século 20 é o otimismo, é a iconografia do merchandising de massa, a ingenuidadee o prazer isentos de culpa diante de todas as possibilidades da mente. A espécie de imaginação que se manifesta agora na ficção científica não é algo novo.
Homero, Shakespeare e Milton, todos eles inventaram novos mundos para criticarem este aqui. A transformação da ficção científica em um gênero independente, e um tanto desonroso, é um desenvolvimento recente.
Ele está relacionado com o quase desaparecimento da poesia dramática e filosófica, e com a lenta retração do romance tradicional na medida em que ele se preocupa, de modo cada vez mais exclusivo,com as nuances das relações humanas.

Entre aquelas áreas negligenciadas pelo romance tradicional estão, em primeiro lugar, a dinâmica das sociedades humanas (o romance tradicional tende a retratar a sociedade como se fosse estática) e o lugar do homem no universo.

Ainda que de modo cruel ou ingênuo, a ficção científica, pelo menos, tenta estabelecer uma moldura filosófica ou metafísica em torno dos mais importantes eventos de nossas vidas e de nossas consciências.

Se faço esta ampla defesa da ficção científica é porque, obviamente, minha própria carreira enquanto escritor esteve envolvida com ela durante quase vinte anos.

Desde o início, quando pela primeira vez voltei-me para a ficção científica, estava convencido de que o futuro era uma chave melhor para o presente do que o passado.

Na época, contudo, estava insatisfeito com a obsessão da ficção científica com os seus dois temas principais - o espaço exterior e o futuro distante. Mais por propósitos emblemáticos do que por qualquer teoria ou programa, batizei o novo terreno que desejava explorar de "espaço interior", aquele domínio psicológico (manifesto,por exemplo, na pintura surrealista) no qual o mundo interior da mente e o mundo exterior da realidade encontram-se e se fundem.

O que desejava era, primordialmente, escrever ficção sobre os dias atuais. Fazer isto no contexto do final dos anos 50, em um mundo no qual o sinal do Sputnik l podia ser ouvido em qualquer rádio, como o farol avançado de um novo universo, exigia técnicas completamente diferentes daquelas disponíveis para o romancista do século 19.

Na verdade, acredito que se pudessem esquecer toda a literatura existente e fossem obrigados a recomeçar sem qualquer conhecimento do passado, todos osescritores se veriam, inevitavelmente, produzindo algo muito próximo da ficção científica.

A ciência e a tecnologia multiplicam-se ao nosso redor.
Em uma proporção cada vez maior, elas ditam as linguagens nas quais falamos e pensamos.
Ou usamos essas linguagens ou permanecemos mudos.

Contudo, por um paradoxo irônico, a moderna ficção científica tomou-se a primeira vítima do mundo cambiante que ela antecipara e ajudara a criar.

O futuro concebido pela ficção científica dos anos 40 e 50 já pertence ao passado.
Suas imagens dominantes, não somente aquelas dos primeiros vôos à Lua e das viagens interplanetárias,mas também as de um mundo cujas relações sociais e políticas são governadas pela tecnologia, assemelham-se agora a imensas peças de um velho cenário.

Para mim, isto pode ser visto de maneira extremamente tocante no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, que significou o fim do período heróico da moderna ficção científica - seus panoramas e costumes admiravelmente concebidos, seus enormes cenários, lembraram-me.. E o Vento Levou, uma representação científica que tornou-se uma espécie de romance histórico ao inverso, um mundo fechado no qual a dura luz da realidade contemporânea nunca conseguiu penetrar.

Nossos conceitos do passado, presente e futuro estão sendo forçados, de forma crescente, a sofrer um processo de revisão. Assim como o passado, em termos sociaise psicológicos, tornou-se uma vítima de Hiroshima e da era nuclear (quase que por definição um período no qual somos todos forçados a pensar prospectivamente), o futuro também está deixando de existir, devorado por um presente que é todo voracidade.

Anexamos o futuro ao nosso próprio presente, como mais uma simples alternativa entre as múltiplas que se abrem para nós.

As opções multiplicam-se ao nosso redor, vivemos em um mundo quase infantil no qual qualquer demanda, qualquer possibilidade, seja por estilos de vida, viagens, papéis sexuais e identidades, pode ser instantaneamente satisfeita.

Além disso, sinto que o equilíbrio entre a ficção e a realidade alterou-se significativamente na década passada. Seus papéis estão sendo cada vez mais invertidos.

Vivemos em um mundo governado por ficções de toda espécie o merchandising de massa, a publicidade, a política conduzida como um ramo da propaganda, a tradução instantâneada ciência e da tecnologia em imagens populares, a crescente mistura e interpenetração de identidades no reino dos bens de consumo, a apropriação pela televisãode qualquer resposta imaginativa livre ou original à experiência.
Nossa vida é uma grande novela para o escritor, em particular, torna-se cada vez menos necessário inventar o conteúdo fíccional de sua obra.
A ficção já está aí.

A tarefa do escritor é inventar a realidade.

No passado, sempre consideramos que o mundo exterior em tomo de nós representava a realidade, por mais incerta ou confusa que fosse, e que o mundo interior de nossas mentes, seus sonhos, esperanças e ambições, representava o reino da fantasia e da imaginação. Esses papéis também, me parece, foram invertidos.

O mais prudente e efetivo método de lidar com o mundo ao nosso redor consiste em assumir que ele é uma ficção completa e, inversamente, que o único e pequeno núcleo de realidade que nos resta está no interior das nossas próprias cabeças.

A clássica distinção de Freud entre os conteúdos manifesto e latente do sonho, entre o aparente e o real, precisa agora ser aplicada ao mundo externo da assim chamada realidade.
Dadas essas transformações, qual é a principal tarefa com a qual se depara o escritor? Pode ele ainda utilizar as técnicas e as perspectivas do romance tradicional do século 19, com sua narrativa linear, sua cronologia medida e seus personagens consulares pretensiosamente povoando seus domínios no interior de uma ampla escalade tempo e de espaço?
Serão os seus temas principais as fontes do caráter e da personalidade profundamente mergulhadas no passado, a calma inspeção das raízes, oexame das mais sutis nuances do comportamento social e das relações pessoais?

Tem ainda o escritor a autoridade moral para inventar um mundo auto-suficiente e fechado,para conduzir seus personagens como um examinador, sabendo todas as questões de antemão?
Pode ele deixar de lado tudo aquilo que prefere não compreender, inclusive os seus próprios motivos, preconceitos e psicopatologias?

Sinto que o papel do escritor, sua autoridade e liberdade para agir, modificaram-se radicalmente. Sinto que, em certo sentido, o escritor não sabe mais de nada.
Ele não tem instância moral.
Ele oferece ao leitor o conteúdo da sua própria cabeça, oferece um conjunto de opções e alternativas imaginativas.
Seu papel é o do cientista que, no campo ou no laboratório, se depara com algo completamente desconhecido. Tudo que ele pode fazer é estabelecer algumas hipóteses e testá-las contra os fatos.

Crash! é um livro assim, uma metáfora extrema para uma situação extrema, um conjunto de medidas desesperadas que só devem ser utilizadas em uma crise extrema.

Se estou certo, e o que fiz nos últimos anos foi redescobrir o presente para mim mesmo, Crash! assume sua posição como um romance cataclísmico sobre os dias atuais,ao lado de minhas obras anteriores que abordam o cataclismo mundial no futuro próximo ou imediato- The Drowned World, The Drought e The Crystal World.Crash!, naturalmente, não trata de um desastre imaginário, ainda que iminente, mas de um cataclismo pandêmico, institucionalizado por todas as sociedades industriais,que mata centenas de milhares de pessoas todos os anos e vitima milhões.

Será que percebemos, na batida de carro, um presságio sinistro do casamento tenebroso entre o sexo e a tecnologia? Será que a moderna tecnologia nos proporcionará meios, até agora não sonhados, para controlar as nossas próprias psicopatologias?

Será que esta utilização da nossa perversidade inata trará algum benefício concebível para nós? Será que existe aí uma lógica desviante mostrando-se mais poderosa do queaquela fornecida pela razão.

Em Crash! utilizei o carro não apenas como uma imagem sexual mas como uma metáfora total para a vida do homem na sociedade atual.

Como tal, o livro tem um papel político bastante distanciado do seu conteúdo sexual, mas eu ainda gostaria de pensar que Crash! é o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia.

Em certo sentido, a pornografia é a mais política das formas de ficção, pois tenta mostrar como nos usamos e nos exploramos mutuamente, da maneira a mais insistente e implacável possível.

Desnecessário dizer que o objetivo final de Crash! é admoestatório, é um aviso contra um mundo brutal, erótico e ofuscante, que nos acena, cada vez mais persuasivamente, das margens do cenário tecnológico.'

JGBallard ( introdução da edição francesa de 'Crash')

J G BALLARD

James G. Ballard nasceu em 15 de Novembro de 1930 em Shangai, China. Depois do ataque a Peal Harbor, Ballard e sua família foram colocados em um campo de concentraçãopara civis. Retornaram à Inglaterra em 1946. Ballard passou dois anos em Cambridge, estudando medicina e trabalhou como redator de propaganda e porteiro antes de ir para o Canadá, com a RAF- Republican Air Force. Em 1956, seu primeiro conto foi publicado e Ballard começou a trabalhar como editor de uma publicação científica, onde permaneceu até 1961. Ballard é autor de mais de 10 romances e diversos contos publicados em várias revistas e antologias. O estilo de Ballard é sofisticado, as vezes bizarro.
Sua tendência de provocar o leitor a fim de fazê-lo refletir, faz com que Ballard escolha por não fazer parte do mercado de massa, porém é considerado pelos críticos como um dos mais proeminentes escritores do Reino Unido.
Ficou conhecido no Brasil depois que seu livro autobiográfico, "O Império do Sol" foi filmado por Steven Spielberg.


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