sábado, 5 de abril de 2008

A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 4/4





Stork: Será que o desenvolvimento dos CG mudará a natureza fundamental da nossa interação com computadores. Será mais visual do que tátil?

Clarke: Irá ser cada vez mais visual, mas também pela fala, e as pessoas já estão tratando computadores como indivíduos, cada vez mais.

Stork: Você consegue enxergar seu laptop ou desktop com uma personalidade ou uma identidade?

Clarke: Meu computador tinha um programa que dizia ‘Me desculpe Dave, eu não posso fazer isso’, quando eu o mandava fazer algo idiota. Mas não é uma personalidade de verdade ainda.

Stork: Podemos ocasionalmente atribuir um sentido nosso às máquinas, mas HAL tinha seu próprio e sabia que existia, de alguma forma. De onde isso veio?

Clarke: Não tenho certeza de onde tiramos nosso sentido de identidade, obviamente ele se desenvolve conforme crescemos e presumidamente HAL também desenvolveu ao nascer em Urbana, ao aprender com Mr.Langley.

Stork: Ainda assim, o sentimento da própria existência, todos temos um. Você acha que uma máquina possa verdadeiramente ter um?

Clarke: Não vejo razão por que um computador não possa possuir qualquer atributo que um ser humano possui. Gosto de citar Marvin Minsky quando diz ‘Sou uma máquina, eu penso’. e você poderia dizer ‘Sou uma máquina, tenho emoções.’ E nós somos máquinas, máquinas baseadas em carbono, algumas pessoas podem dizer ‘ah, você é muito mais do que uma máquina’. Ok, me mostre o que temos, que uma máquina não poderia ter? Esta discussão já dura milhares de anos, eu acho. O fantasma na máquina.

Stork: Então para você não há diferença fundamental entre coisas animadas e inanimadas?

Clarke: Neste espectro contínuo sim, entre estar vivo e não estar, consciente e inconsciente não há divisórias, acho.

Stork: A obscura distinção entre humanos e máquinas, entre animados e inanimados, pensante e não pensante.

Clarke: A barreira entre máquinas e homens, entre computadores e homens, está se movendo o tempo todo. E eventualmente haverá computadores que pensarão serem seres humanos, se você deixar que eles se desenvolvam. E ultimamente podem haver computadores que começaram a fazer coisas que nós sequer começamos a entender, já que uma geração de computadores sucede a outra, com mais e mais recursos. Este é o pensamento que assusta muita gente. Sabe, a velha história de Frankenstein, mas eu sempre disse, talvez otimisticamente, que a real inteligência não será malévola.

Stork: Por que?

Clarke: Qualquer inteligência não será malévola ou agressiva, até que tenha que se defender. Costumo dizer que se houver uma guerra entre homem e máquina, eu saberei dizer que lado a começou.

Stork: Mas imagine que Kubrick discordasse disso. Que máquinas pudessem ser malévolas e que fossem. Ele poderia ter uma idéia diferente de quem começou a guerra.

Clarke: Kubrick tinha uma visão sarcástica, se não pessimista, da tecnologia. É claro que ‘Dr.Strangelove’ é um clássico exemplo de máquinas que vão para o lado errado. Eu não sei se ele concordaria comigo, que uma máquina realmente inteligente não faria o mal.

Stork: Para seres humanos evoluírem é necessário algum conflito. As máquinas não necessitam da seleção natural, do conflito. Talvez esta noção do beneficio inerente ao conflito seja algo que se perca com relação às máquinas e portanto, elas não precisariam ser beligerantes.

Clarke: Nós provavelmente desenvolvemos nossos instintos agressivos através da evolução, por vivermos em um ambiente perigoso, então as máquinas não teriam este pano de fundo, então talvez não fossem agressivas e não fossem malévolas, a não ser que fossem deliberadamente programadas por nós neste sentido, o que é incidentalmente o que ocorre hoje. Todas esperando dentro de silos subterrâneos espalhados pelo mundo.

Stork: Você é praticamente um otimista quanto a tudo que eu li e tudo que sei sobre você. Tudo que eu vi de Kubrick me parece bem pessimista. Foi difícil trabalhar junto com ele, se admitirmos que vocês são pessoas com visões de vida diferentes?

Clarke: Discutíamos sobre todo tipo de coisa, mas não me lembro de perdermos nossa cabeça em momento algum, um com o outro; exceto talvez por uma coisa; a data de publicação do livro.

Stork: Ele tinha medo que o livro viesse a explicar demais?

Clerke: Ele disse que não tinha tempo de olhar meu manuscrito, pois estava ocupado demais com o filme. Apesar disso, tudo correu bem.

Stork: Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre o livro e o filme?

Clarke: São inúmeras diferenças fundamentais entre eles. No livro usamos a gravidade de Júpiter como um impulso (flyby), exatamente como a Galileo fez e está fazendo e as outras sondas espaciais também. Fomos para Saturno por dois motivos: Saturno é o mais belo e mais espetacular dos planetas. Nós decidimos não ir para Saturno no filme por que o departamento de artes não conseguiria reproduzi-lo, e fiquei feliz com isso, por que sei da incrível complexidade dos anéis de Saturno. Nosso Saturno iria parecer ultrapassado, datado. Fiquei feliz por trocar por Júpiter, que também é bastante espetacular, de qualquer maneira.

Stork: O departamento de artes trabalhou bem com a lua. Diga-nos sobre o esforço de fazer uma lua direito. Vocês depois conversaram com astronautas que estiveram lá e que poderiam comparar sua versão com a lua de verdade.

Clarke: Quando fizemos o filme não sabíamos exatamente como era a superfície lunar. Sabemos agora que a superfície é bombardeada constantemente. Tivemos que fazer algumas apostas. Felizmente não estávamos tão longe da verdade. Não pareceu muito ridícula. Os astronautas depois nos cumprimentaram. Eu tenho ao meu lado um belo mapa lunar da missão Apollo 15, com a assinatura deles. Eles deram nome a uma das crateras, de um dos meus livros. Muitos disseram que parecia que nós havíamos estado lá antes deles.

Stork: Uma das diferenças entre o livro e o filme, é que o livro explica bastante enquanto o filme não. Por que não ter as explicações no filme?

Clarke: Sempre sou acusado de dar explicações demais no livro e Stanley era acusado de não tê-las feito, mas Stanley dizia para mim ‘Eu quero dar a você uma experiência emocional, e você não precisa entender exatamente o que está acontecendo, se você sentir aquilo que eu quero evocar.’ Acho que ele estava certo. Stanley queria criar um mito, e um mito é inesgotável e você pode ter suas próprias idéias sobre aquilo ou você pode não concordar com a opinião do cara sentado ao lado. Eu tentei explicar o necessário. Talvez eu tenha explicado coisas demais.

O legado de HAL


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A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 3/4



Stork: HAL vive em uma espaçonave entre cientistas, engenheiros e astronautas, mas muito do que hoje ocorre na ciência de computadores está ligado ao lado comercial. Qualquer pessoa possui um computador de mesa, ou um som digital, ou um relógio digital. Me parece uma tendência que foi subestimada e não prevista em 2001.

Clarke: Ninguém imaginou como os computadores tomariam conta do mundo. O presidente da IBM ficou famoso por dizer em 1940, que só haveriam no mercado, cinco ou seis computadores, não me lembro do número exato, mas cada casa hoje tem mais computadores do que isso, quase que em cada quarto. Ninguém, nem mesmo o mais louco dos escritores de ficção cientifica, talvez apenas Isaac Asimov, colocou um Palm top em suas histórias. Isaac provavelmente, eu certamente não.

Stork: Como foi que não percebemos isso?

Clarke: Apenas vemos o que é obvio eventualmente.

Stork: Você foi tão presciente sobre os satélites orbitais. Nos conte sobre sua previsão.

Clarke: Bem, o conceito de um satélite de comunicação orbital é, honestamente, algo simples. Se eu não tivesse escrito meu artigo em 1945, eu sabia de 10 pessoas que o fariam em 1946.

Stork: Descreva-o para nós.

Clarke: Em 1945 eu trabalhava com o mais avançado radar do mundo. Radar de aproximação, que trabalhava com freqüências de 3cm de tamanho de onda. Era um grande segredo. Lembro que quando um dos nossos magnetrons, que geravam a energia, teve que ser mandado para reparos, tive que portar uma arma, no caso de tropas de paraquedistas alemães tentarem roubá-lo. Acho que não faria tanta resistência assim e nem tão eficaz. De qualquer forma, os magnetrons eram secretos e agora tem um em cada forno de microondas. Trabalhava nesse radar de feixe estreito e é claro, que eu sempre estive interessado em viagens espaciais, toda minha vida, e tinha sido membro da British Interplanetary Society, em 1936 em Liverpool. Em 1945 quando parecia que a guerra logo terminaria, alguns de nós, prematuros cadetes do espaço, nos reunimos e dissemos, bem, como podemos fazer algum dinheiro para construir nosso foguete para chegarmos até a lua. Enquanto pensávamos sobre isso, o conceito de usar satélites como retransmissores me surgiu. Não tenho certeza hoje como a idéia não surgiu para outros, nas nossas discussões. Eu fui aquele que escreveu o artigo, então eu o desenvolvi como um trabalho e que incluía tudo que já fora feito até aquela época, incluindo algo que só recentemente foi feito, como o link ótico entre satélites.

Stork: Dos dois maiores desenvolvimentos no mundo da comunicação, satélites e Internet, você foi diretamente responsável por um deles.

Clarke: O que eu não previ e ninguém o fez, foi o extraordinário aparecimento dos cabos. Escrevi um livro sobre o cabo atlântico. Ninguém nunca imaginou que simples filamentos de vidro, teriam uma performance tão superior a qualquer cabo de cobre e desbancariam, inclusive, os satélites - mas são limitados ao sistema ponto a ponto e você precisa de satélites para cobertura global e móvel.

Stork: Durante a produção do filme, você viu apenas partes e pequenos pedaços. A primeira vez que assistiu inteiro foi na noite de lançamento. Você ficou impressionado?

Clarke: Acho que vi o filme completo pouco antes disso, mas só rapidamente e mais o final. Stanley ainda estava montando-o, cortando e mudando-o e não me lembro de meus sentimentos a respeito da primeira vez no cinema, que foi em Uptown, em Washington. Na verdade eu estive nas três apresentações noturnas sucessivas, esta em Washington, em New York e em Los Angeles, vestido de pingüim. Faz tanto tempo, não confio na minha memória do evento. Quase foi um fracasso, devido ao Presidente Johnson ter anunciado sua renûncia e Martin Luther King tinha sido assassinado, muitas coisas estavam acontecendo nos bastidores. Nós realmente não sabíamos o que tínhamos realizado.

Stork: Fale-nos do Oscar.

Clarke: 2001 foi indicado. Acho que por efeitos especiais. Estava no Arthur Chandler Pavilion para a cerimônia, com o melhor discurso não lido jamais escrito. Foi sem dúvida um desapontamento, quando eles anunciaram que você não conseguiu aquilo que tanto desejava. Acho que fiquei um pouco aborrecido por que ‘O planeta dos Macacos’ ganhara um Oscar por maquiagem e achava que tínhamos feito algo ao menos tão bom quanto aquilo.

Stork: O que você teria dito se tivesse ganho?

Clarke: Não tenho a menor idéia do que dizia o discurso. Tenho que procurá-lo qualquer dia desses. Deve estar enterrado nos ‘clarkivos’.

Stork: Vamos falar de HAL e da sua visão. Nós vemos primeiramente HAL como um grande olho vermelho. De onde ele veio?

Clarke: O famoso olho vermelho foi um produto do departamento de artes e eu acredito que alguem em algum lugar, tem o verdadeiro olho que foi leiloado. Na verdade não faz muito sentido, pois eu queria visão binocular. Por que era vermelho? Dava uma impressão agourenta, mas não era prático.

Stork: Mas a gente tinha a impressão de que era ominipresente, não interessava onde você ia, tinha um olho.

Clarke: O Grande HAL está olhando você!

Stork: Você foi unfluenciado pelo Grande Irmão (Big Brother)?

Clarke: Nós estamos entrando em um mundo onde computadores tipo HAL estão nos vigiando. Eles estão instalando câmeras pelas cidades, particularmente em áreas de alta criminalidade, o que nos causa alguma preocupação, mas sou a favor.

Stork: Então HAL reconhece os tripulantes. Ele faz leitura labial. Nos fale de suas habilidades.

Clarke: A única que eu sei foi a sugestão de Stanley, o poder de ler lábios. Primeiro, eu não acreditava que um computador pudesse fazê-lo. Segundo, por que alguem se importaria em dar esta capacidade a ele? É um ponto inportante que nunca foi explicado. De qualquer jeito, produziu uma seqüência inesquecível.

Stork: Mas talvez a leitura labial só tenha aparecido. Uma vez que você tem reconhecimento de fala, uma vez que tem visão,HAL poderia ter juntado tudo isso. Além disso, você nunca aprende leitura labial e assim mesmo consegue fazê-lo.

Clarke: Bem, eu não consigo ler lábios, a não ser que o faça inconscientemente. E agora que estou ficando surdo, eu deveria estar fazendo mais leitura labial. Mas parece incrível para mim que um bom leitor de lábios, possa enganar as pessoas a volta, a ponto de achar que ele pode ouvir.
Stork: Que tipo de problemas HAL teria com este problema de visão? Ele tinha que reconhecer a equipe. Como o faria?

Clarke: O problema técnico é fazer com que HAL reconhecesse o que acontece ao seu redor, milhões e bilhões de bytes de informação por segundo. O que é relevante, e o que não é. É um problema fantástico de programação, mas tenho certeza de que pode ser resolvido, apesar de eu não saber como.

Stork: Por que os seres humanos são tão bons nisso e as máquinas não?

Clarke: Acho que os humanos são bons em extrair mensagens importantes das suas cercanias, por que se não soubessemos que o tigre dentes de sabre está na espreita, nós não estaríamos aqui. Então selecionamos esta nossa habilidade para isso.

Stork: Mas como ele consegue saber onde a tripulação se encontra? Parece um milagre de certa forma, no meio daquela confusão de sinais sensoriais, HAL de alguma forma pode escolher o que ver, o que ouvir.

Clarke: O mais importante para HAL é saber onde a tripulação se encontra. O trabalho de ensiná-lo o que é importante seria tremendo. É o inesperado. Coisas que ninguém pode provavelmente ter imaginado, é que causam os problemas reais. Quero dizer, coisas realmente impossíveis, que vemos na tecnologia de acidentes, que ninguém sonhou o que ocorreria e acontecem.

Stork: Humanos são flexíveis e muita gente acha que os computadores só fazem aquilo que lhes dizem e que nunca serão capazes de antecipar estes eventos inesperados.

Clarke: É uma falácia imaginar que computadores só fazem aquilo que lhes dizem para fazer, por que nós podemos estender suas habilidades. Podemos dizer a eles para serem curiosos, e eles podem aprender coisas que nós não sabemos. Isso já foi feito, de fato, na matemática.

Stork: Quer falar sobre isso? No trabalho de Doug Lenat sobre descobrir novos teoremas matemáticos com computadores?

Clarke: Não sei muito a respeito.

Stork: Nós humanos confiamos bastante na visão. Muito do nosso mundo é visual, muito do nosso cérebro é visual. Acha que poderia ter um HAL sem visão?

Clarke: HAL sem visão seria limitado, mas existem outros sentidos, a habilidade de ler ondas eletro-magnéticas. O som, é claro, você pode ‘ver’ através do som, como os golfinhos fazem. Apesar da visão ser importante, talvez não seja tão mais importante.

Stork: Outro aspecto de HAL é sua emoção. HAL parecia mais emocional do que sua tripulação, como mencionou. Por que fazê-lo assim?

Clarke: Existe um argumento a ser considerado e que poderia explicar o por que de computadores emocionais. Será que poderiam ser inteligentes se não tivessem emoções? É uma questão para a qual não tenho certeza de saber a resposta. Eu penso que emoções são essenciais, a outra é, podemos ter emoções sem inteligência, e todos conhecemos pessoas assim.

Stork: Como ele demonstra estas emoções? Ele é só um olho e uma voz.

Clarke: Com sua voz. É claro que a voz é critica. Não imagino HAL sem a voz de Douglas Rain. De outro modo, é claro, ele mostra suas emoções com suas ações. Desconectar os astronautas dos sistemas de suporte de vida por exemplo.

Stork: Ele diz que tem medo. Um computador pode sentir medo?

Clarke: Não tenho certeza que possa, mas pode ser programado para se comportar como tal. Não sei qual a distinção filosófica entre uma coisa e outra.

Stork: No filme ouvimos a explicação que a programação emocional de HAL faz com que, seja mais fácil de se falar com ele. Mas se HAL possuía sentimentos genuínos nunca saberemos. Ele tinha?

Clarke: Acho que sim. Há uma discussão no filme de fato, onde dois astronautas tentam decidir se HAL tem uma personalidade e se ele é uma pessoa de verdade, e um deles diz ‘ele age como se acreditasse que é’. E é isso. Eu tenho um cachorro e sou muito ligado a ele e eu acho que ele me ama, mas será que ele está somente agindo como se me amasse?

Stork: Isso importa?

Clarke: Quando um comportamento se parece tanto com a coisa real, qualquer que seja, a ponto de não poder distinguí-los, então eu acho que não importa.

Stork: Como você concebeu a morte de HAL?

Clarke: A sua morte é certamente um dos aspectos mais emocionantes do filme, quando Bowman puxa lentamente os módulos. Ainda bem que não fizemos aquele filme nos dias de hoje, pois seriam microchips deste tamanho (indica com os dedos algo minúsculo) ao invés de belos módulos manuseáveis. Não seria nada dramático. Mas, é um tipo de lobotomia, é claro. A idéia básica é essa.

Stork: Você colocou estes módulos apenas para causar o efeito ou existia alguma consideração cientifica por detrás ?

Clarke: Puramente efeito dramático, queríamos que fossem puxados, um depois do outro.

Stork: A sala do cérebro era grande como uma casa e muito iluminada. Quem estava lá além de HAL para ver tanta luz?

Clarke: A sala do cérebro de HAL é engraçada, se pensarmos nos computadores de hoje. Um dos engenheiros poderia precisar entrar lá para ver se tudo estava de acordo.

Stork: Por que a tripulação não tinha relógios digitais?

Clarke: É difícil imaginar o que uma mudança tecnológica pode fazer em 30 anos ou desde que o filme foi feito. Não me lembro dos relógios. Acho que tínhamos alguns com um design antigo por lá, em algum lugar. Poucas tecnologias desaparecem completamente.

Stork: HAL parecia bem simples graficamente. Quer falar algo sobre o crescimento do CG (Computer Graphics)?

Clarke: Aquilo que vemos em 2001 parecia impressionante na época. É claro que hoje podemos fazer coisas incríveis.


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A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 2/4



Stork: Kubrick via 2001 por um lado ‘espiritual’. Por que você acha que ele pensava assim?

Clarke: O uso que Kubrick dava para a palavra ‘espiritual’ em relação ao filme é complicado de definir. Eu acho que ‘emocional’ talvez fosse melhor.

Stork: É notável que seja ‘emocional’, quando os personagens não demonstram suas emoções.

Clarke: Surpreendentemente muito da emoção vem quando HAL desconecta os astronautas que dormem e você vê os sistemas de suporte a vida falhando, aquilo é muito tocante.

Stork: Muitos momentos decisivos ocorrem no silêncio.

Clarke: Tentamos ser precisos sempre. Parte da ação acontece fora da Discovery, no espaço, que é claro, totalmente silencioso.

Stork: O que pensa sobre o progresso da Inteligência artificial?

Clarke: Concordo que a Inteligência artificial, como definimos, está uns dez anos à nossa frente. Este dia virá.

Stork: Se você escrevesse esta mesma história hoje, você faria HAL igual?

Clarke: Em ‘2010’ eu fiz mudanças em HAL, e eventualmente fiz dele um sujeito bacana. Se eu tivesse planos de fazer um novo filme, eu certamente o faria desta forma.

Stork: Por que você o fez?

Clarke: Acho que mesmo o pior sujeito pode ser recuperado eventualmente, e esta é uma mudança interessante, fazer de HAL um bom sujeito.

Stork: Então você não pensa nele como uma extensão natural da maldade humana?

Clarke: Inteligência é uma ferramenta que pode ser usada para o bem ou para o mal. A história humana prova que sem a inteligência não se pode fazer nada. É como o fogo. Sem ele não teríamos a civilização e olhe quanta destruição o fogo causou.

Stork: Tem uma cena maravilhosa de HAL cantando ‘Daisy’. Pode nos dizer como isso se originou?

Clarke: Quando HAL é desconectado e canta ‘Daisy, Daisy’ é uma piada, por que o primeiro computador construído para falar nos laboratórios da Bell em 1940, 1950,
cantou ‘Daisy, Daisy’ com uma voz bem mecânica; combinamos isto com meu amigo John Pierce, o diretor do laboratório.

Stork: HAL nasceu em Urbana, Illinois. Por que?

Clarke: Eu escolhi Urbana por um motivo pessoal. Meu professor de matemática aplicada na Kings era George MacVeaty, que depois foi para Urbana e para a Universidade de Illinois. Eu descobri depois que George trabalhou em Bletchley Park, onde eles quebraram o código do Enigma, o código alemão. E aconteceu que o primeiro computador, o Colossus, foi construído com o propósito de quebrar este código. Também em Bletchley Park, trabalhava Alan Turing e ele desenvolveu o teste Kana Machine, eles escreveram um livro chamado ‘Kana Machine Think’ e eles inventaram o famoso teste que se você está conversando, digamos, através de um teleprinter ou um computador e não puder dizer se o seu interlocutor do outro lado, é um ser humano ou uma máquina, estará provado que do outro lado haverá uma inteligência. Hoje este teste é aplicado em outras áreas e as pessoas podem ser enganadas por pouco tempo, mas eventualmente você perguntará alguma coisa e receberá uma resposta estúpida.

Stock: HAL nasceu em 12 de Janeiro de 1992. Por que a data, e por que tão antes de 2001?

Clarke: Acho que HAL teve duas datas de nascimento, uma no filme e outra no livro e ambas ocorreram bem antes de 2001. Não sei por que escolhemos estas datas. Nem estou certo de que sabiam que ambas eram domingos.

Stork: Você chegou a pensar em fazer de HAL um robô. Por que a rejeitou?

Clarke: Pensamos em fazer HAL um robô convencional. Poderia se mover e fazer coisas. Então nós chegamos a conclusão de que seria um clichet. Já haviam muitos monstros mecânicos, você sabe. Robbie, o robô e outros. E é claro, o mais belo robô de todos, em Metropolis, de Fritz Lang. Então fugimos do clichet e pensamos que se distribuíssemos sensores nós poderíamos ver tudo por toda parte e talvez manipuladores que poderiam controlar coisas, não precisariamos mover o cérebro central. Poderia ficar em um só lugar, imóvel. De novo esta era uma idéia antiga, de Olof Stapledon, ‘Last and First men’ onde há uma raça de gigantescos cérebros imóveis, com suportes de vida e todo tipo de sensores, mas nunca se mexiam. Não precisavam.

Stork: Você pode dizer então que primeiramente foi por rações artísticas? Não fazê-lo como um robô.

Clarke: Acho que parte por razões artísticas e também por que era bem mais fácil assim. Imagine em um confronto ente os astronautas e um HAL móvel, balançando os braços e tudo mais, seria uma cena bem dramática - acho que algo parecido com isso é feito de tempos em tempos, mas fico agradecido por não termos feito. Incidentalmente eu me tornei como HAL, por que não posso me mover, mas tenho sensores espalhados pelo mundo.

Stork: HAL matou. Foi assassinato?

Clarke: Quando ele mata, não acho que seja assassinato. Bem, depende inteiramente da sua definição. Podemos dizer que foi auto-defesa, que é um argumento utilizado pela lei. Acho que foi mais auto-defesa do que assassinato.

Stork: Não seria imoral, se desconectar um computador inteligente como HAL?

Clarke: Esta é uma pergunta interessante, se seria imoral desconectar ou desligar-se temporariamente um computador inteligente. De outra forma, alguns computadores poderiam ser capazes de dormir de tempos em tempos, como nós. É um ponto para se discutir. Uma das razões pelas quais fizemos HAL daquele jeito, foi poder mostrá-lo sendo dramaticamente desconectado. Puxando aquelas coisas. Mas é claro, não seria tão dramático se fossem microchips.

Stork: HAL pergunta, não no filme, mas no livro, se vai sonhar quando for desligado. Um computador sonha quando está desligado?

Clarke: Não vejo por que razão não possam. Nós sonhamos para organizar e rejeitar todo tipo de input e informações que retemos durante o dia. Jogue no lixo isso, guarde aquilo, e assim vai. Isso é só o que os sonhos fazem. Estou certo que um computador inteligente terá que fazer o mesmo. Provavelmente o fará por multi-tarefa e não precisará ser desligado.

Stork: Ao longo do filme vemos vários comerciais interessantes. Fale-nos sobre eles e por que você achou que seria a Bell Telephone a ganhar o espaço em 2001.

Clarke: Como a maioria dos filmes de grande orçamento, tenta-se jogar com a indústria, por dois motivos, algumas vezes as companhias irão pagar por isso, de qualquer jeito é uma boa publicidade, nas duas direções, mesmo que nenhum dinheiro venha a aparecer. A Bell Labs é claro, se interessou. É uma ironia que tenha sido desfeita pouco depois do lançamento do filme.


Stork: Nos fale sobre o xadrez como uma marca da inteligência e o que HAL tem a ver com isso.

Clarke: Kubrick escolheu o xadrez por várias razões, estou certo disso. Um dos motivos é que ele modestamente ganhava para jogar xadrez na Washington Square, contra adversários, poucos dólares, mas dava para viver. Felizmente eu nunca aprendi nem as regras mais básicas. Deliberadamente, pois tinha medo de que se eu aprendesse, seria possuído. Foi muita sorte; esta foi uma decisão que tomei quando criança. Eu era aficcionado por jogo de damas e dardos, mas xadrez, de jeito algum! E se eu tivesse me tornado um enxadrista, 2001 nunca teria sido feito. Estou certo que Stanley e eu passaríamos muito tempo jogando e eu ficaria muito frustrado por ser derrotado por ele. Se xadrez é uma prova de inteligência, é claro que é discutível, desde que o campeão de xadrez atual é um computador.

Stork: Por que diz que é discutivel? Deveria significar que a máquina é inteligente. Acha que Deep Blue é inteligente?

Clarke: Se xadrez for um teste de inteligência, então obviamente alguns computadores são mais inteligentes do que seres humanos. Mas se xadrez for uma questão de ‘força bruta’; você sabe, utilizar algoritimos, apenas tentando de tudo até que se encontre um que funcione, então não é realmente inteligência.

Stork: Então você está dizendo que não existem máquinas inteligentes hoje?

Clarke: Tenho duvida se existe alguma máquina realmente inteligente hoje, mas estou certo de que existem algumas sendo testadas. Talvez em dez anos. Robôs que podem construir outros robôs já são uma realidade.

Stork: É vida artificial?

Clarke: Vida artificial é outra questão, não é o mesmo que inteligência artificial. Existem células automatas que são padrões que se movem de um computador para outro de acordo com regras bem simples, e tem um comportamento como seres vivos. Elas podem ser definidas como criaturas vivas, embora suas possibilidades sejam limitadas, eu diria.

Stork: Então você define a vida como algo separado do substrato?

Clarke: Vida é algo que surge com complexidade. Aconteceu de surgir aqui, com base no carbono. Mas poderia ser silício, amônia, plasma. Como no livro de Fred Hoyles ‘The black cloud’ - tudo é possível. Mesmo galáxias inteligentes. É claro que elas pensavam bem vagarosamente.

Stork: E quanto aos sistemas econômicos, são grandes e bem complexos. Aprendem, podem reagir, trocar produtos e as pessoas agem dentro dele.

Clarke: Sim, sistemas econômicos mundiais, são certamente organismos. Eu escrevi um conto, muitos anos atrás, chamado ‘Dial F for Frankenstein’, onde eu assumo que o sistema telefônico mundial em certo ponto, se torna uma entidade viva. Depois de uma ligação, ele subitamente começa a pensar e toma o controle do mundo. Escrevi isso nos anos 60 e acho que foi publicado na Playboy. ‘Dial F for Frankenstein’ se tornou datado hoje, por que ninguém mais disca é claro, e hoje se isso acontecesse, não seria com o sistema telefônico, mas com a Internet. Mas é claro que é uma possibilidade real. Quando a Internet irá tomar conta?

Stork: Alguma sugestão? Alguma idéia?

Clarke: Acho que a Internet já assumiu o controle. Passo 90% do meu tempo na Internet trocando emails, então provavelmente isso já aconteceu.

Stork: Mas ainda não é inteligente. Acho que concorda comigo.

Clarke: A Internet não é inteligente, nem a maioria das pessoas que a utilizam. Acho as vezes penso que não sou inteligente, por gastar tanto tempo da minha vida nela.

Stork: Computadores são ubiguos. Tratamos com eles de diversas maneiras. Teclamos neles, falamos com eles, escrevemos neles com canetas especiais. Como HAL. Você poderia especular que métodos surgirão para que humanos e máquinas se comuniquem?

Clarke: Hoje usamos teclados para nos comunicar. E cada vez mais usaremos a voz e eles falarão conosco. Em breve, acho que teremos implantes cerebrais e isso já está sendo testado - já está acontecendo. Na semana passada, um rapaz ganhou uma mão biônica que era controlada mentalmente. É obvio que é o próximo passo, e em um dos meus livros eu mostro um capacete que se ajusta ao crânio. Com milhares de micro eletrodos, não irei entrar em detalhes técnicos, deixarei para os engenheiros. E teremos comunicação mental direta, telepatia eletrônica se preferir, com computadores e é claro, entre eles. Irá revolucionar a sociedade. É algo bastante comum em livros de ficção científica. Uma coisa que me preocupa é a quantidade enorme de informação que estamos guardando. Quando ficaremos sem espaço para tanto? Parece que não vai acontecer por que os equipamentos de armazenamento estão ficando cada vez mais poderosos e os números são inacreditáveis. Vivo em um pais onde a grande maioria acredita em reincarnação. Meu problema com a reincarnação é: como funciona este mecanismo de entrada-e-saida e como é o sistema de armazenamento? Nunca tive uma resposta, mas acho interessante. Se somos de alguma forma guardados depois de morrer e então podemos ser reavivados, então a pergunta é - se a informação nunca se perde, se tudo é guardado de algum modo no tecido cósmico, então todo mundo que já viveu deveria reincarnar e isso é um assunto para séria especulação filosófica.

Stork: Então você prevê um estado único entre homens e máquinas?

Clarke: Homens e máquinas vão se unir. Hoje já existem pessoas com mecanismos artificiais dentro de seus corpos. Corações artificiais. Um dia eles terão cérebros artificiais. Serão capazes de baixar nossos pensamentos, nossas personalidades em um computador. Acho inevitável. E não me preocupa. O fato de ser um bípede baseado em carbono, não me leva a menosprezar um bípede baseado em silicio.

Stork: Direitos iguais?

Clarke: Direitos iguais para robôs.


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Marvin Minsky - The Turing option [ Download ]
Alan Turing - Can machines think [ Download ]
Fred Hoyle - Black Cloud [ Download ]
Olaf Stapledon - Last and first men [ Download ]

A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 1/4



Dawn of HAL -Entrevistador Dr. David G. Stork

Stork: Diga-nos como foi seu primeiro encontro com Kubrick e como 2001 começou.

Clarke: Estava em Sri Lanka quando Stanley Kubrick me escreveu e disse que queria fazer um bom filme de ficção científica, que ficasse famoso, subentendendo que até então não havia nenhum que fosse bom o bastante. Não concordei totalmente com ele. Nesta época eu estava indo para New York, trabalhar em um projeto para a Time/Life, um livro que se chamaria ‘Man and Space’. Assim que cheguei, entrei em contato com Stanley e nos encontramos e decidimos trabalhar em um projeto que se chamaria ‘The journey beyond the stars’, acho que era esse o título. Minha sugestão era ‘How the solar system was one’, que eu ainda acho que era um bom título. Você está ouvindo Steven Spielberg? De qualquer forma, eu estava trabalhando na Time/Life e estava numa reunião com Stanley certa tarde e eu ia de um projeto para o outro, então tive que voltar para Sri Lanka e nós mantivemos nos falando de todo jeito. Quando finalmente o contrato ficou pronto, me mudei para a Inglaterra e lá a maioria do trabalho foi feito. Apesar disso, a maioria dos meus escritos preliminares foram feitos na suíte do Hotel Chelsea, em New York.

Stork: Quais idéias são suas? Quantas são dele? Como foi o relacionamento para escrever o roteiro?

Clarke: Depois de mais de um quarto de século é difícil lembrar quem fez o que. Mas tenho certeza de que o título ‘2001’ foi de Stanley. E ainda não sei de onde tirou, não sabia na época, que 2001 era o primeiro ano de um novo século e de um novo milênio.
Começamos selecionando seis contos meus que achei que seria um material que poderíamos utilizar. Mas de fato, usamos apenas um, ‘The sentinel’, que era sobre a descoberta de um artefato alienígena na lua.

Stork: Mas não existe um computador em ‘The Sentinel’, então você precisou acrescentar mais um personagem, HAL.

Clarke: É claro que o personagem chave na expedição era o computador HAL, que como muitos disseram era o único personagem humano no filme. HAL surgiu aos poucos. Em certo momento íamos usar uma voz feminina. Athena, acho que era seu nome. Não sei por que, de novo, mudamos para HAL. Tentei por anos acabar com a lenda de que HAL viesse de IBM. Mas de fato, como disse no livro, HAL vem de ‘Heuristic Algorithmic’, e significa que ele pode trabalhar com um programa pronto ou pode olhar em volta e procurar uma solução melhor, desta forma você vai ter o melhor dos dois mundos. Foi assim que HAL foi criado.

Stork: Ficou popular que HAL vinha de IBM, apenas sendo a sílaba anterior. Qual foi a sua reação quando isso foi divulgado?

Clarke: Não sei quem descobriu a coincidência, que não foi realmente marcante. E não me lembro de Stanley ter comentado sobre isso. Por algum tempo ficamos embaraçados com isso, mas eu acho que hoje a IBM se orgulha da associação.

Stork: E como era no set de filmagem?

Clarke: Raramente eu ia ao set. Em anos eu só visitei duas ou três vezes. Acho que minha principal impressão de Stanley era sua determinação e também sua bondade. As pessoas pensam que ele era um tirano, um personagem do tipo Napoleão. É claro que Napoleão era uma personalidade que interessava a Stanley. Mas não, ele tinha muita atenção comigo.

Stork: Como você aprendeu sobre ciência da computação? Aquele era o inicio da moderna ciência da computação. Como você imaginou que HAL seria?

Clarke: Sempre me interessei por computadores. No meu tempo de serviço civil, eu costumava freqüentar o Museu das Ciências. O item que mais me fascinava era o computador incompleto de Babbage. Uma maravilhosa maçaroca de engrenagens, que podia calcular tabelas algorítmicas. De fato, houve um modelo posterior que foi terminado. Eu já coloquei minhas mãos nele uma vez. Acho que está num filme no Museu das Ciências. Então, sempre me interessei, acho que ele aparece em várias histórias minhas, acho que era inevitável...


Stork: Você também aprendeu como programar em um HAL Jr. 9.000. Nos fale disso.

Clarke: A Hewlett Packard gentilmente me presenteou com um dos primeiros computadores de mesa. Aprendi sua programação bem primitiva. Tinha cartões que eram inseridos dentro. Lembro de escrever um programa com 25 linhas e somente cinqüenta erros nele.

Stork: Mas você com certeza leu e se aconselhou com cientistas. Nos diga como foi.

Clarke: Quando estavamos fazendo 2001, nós consultamos especialistas em diversas áreas concernentes a certas partes do filme. Então, obviamente, encontramos os melhores nesta área de computação, o que significa dizer MIT e Marvin Minsky, que veio ao estúdio e conversou com a gente. E sabe, nós pegamos suas idéias, mas que não foram necessariamente responsáveis pelo que acontece no filme.

Stork: O que eles disseram?

Clarke: Não me lembro agora.

Stork: O filme é tão preciso quanto a descrição da tecnologia, por que isso é tão importante, usar da ciência corretamente, quando se faz um filme ou qualquer trabalho de arte?

Clarke: Isso sempre provocou discussão - o quão preciso cientificamente precisa ser um filme de ficção científica. E meu argumento é de que se não for assim, não é ficção científica, é fantasia. Agora, não tenho nada contra a fantasia, alguns dos meus trabalhos favoritos são de fato fantasia. Mas se for ficção científica então deve haver possibilidade daquilo acontecer ou pelo menos não deve haver argumentos contra. Algumas vezes eu estendo meus horizontes, como no meu romance com Baxter, ‘The light of other days’, criamos uma espécie de bureau do tempo, onde se pode ver e ouvir qualquer coisa que já aconteceu. Bem, tivemos que escrever muito para explicar como ele funcionaria. Então você não pode provar que é impossível. Pode ser que toda a informação esteja de alguma forma guardada em algum lugar. Sendo assim, nós poderíamos ser capazes de recuperá-la.

Stork: 2001 devia parecer muito distante em 1964. Você chegou a pensar seriamente em estar aqui hoje, no início de um novo século ?

Clarke: Em 1964, quando começamos a trabalhar no filme, o primeiro pouso lunar ainda levaria 5 anos para acontecer. 2001 se parece de fato, com 1984; foi uma data escolhida aleatoricamente, pois parecia um futuro remoto. Não sei onde suspeitava ou esperava estar por volta de 2001, você sabe que assumimos que as coisas que mostramos um dia iriam acontecer. Hoje nos esquecemos que na década de 60, haviam planos por parte da NASA, de se colocar homens em Marte na década de 80.

Stork: Então você está desapontado?

Clarke: Sempre me pergunto o por que das coisas que mostramos, como a base lunar, a exploração de júpiter, ainda não aconteceram. Minha resposta é que muito mais coisas aconteceram do que poderíamos pensar. A exploração através de sondas de quase todos os planetas. Closes da superfície marciana, a Sojourner correndo entre as rochas. Que visão fascinante!

Stork: Dos novos desenvolvimentos, algum em particular mexeu com você?

Clarke: Suponho que a maior surpresa em tecnologia desde que fizemos 2001 foi a revolução do microchip. Foi uma das maiores na história. É um dos exemplos da terceira lei de Clarke - qualquer tecnologia avançada o bastante é indistinguível de magia. Meu exemplo favorito é o cd-rom. Aqui está um disco prateado que cabe na sua mão e você pode colocar um filme inteiro nele! Nos mais modernos, você pode colocar oito filmes inteiros nele!

Stork: HAL, é claro, era inteligente ou parecia, e era bem malvado. Você de alguma forma ligava inerentemente a inteligência à maldade?

Clarke: Inteligência não é algo fácil de se definir. Eu gosto de pensar que seja a reação apropriada à qualquer circunstancia. HAL se viu diante de uma situação onde ele pensou que a missão estava em perigo, devido ao comportamento dos astronautas e tomou uma decisão que ele depois admitiria ter sido desastrosa.

Stork: Por todo o filme existe esta ligação do desenvolvimento ferramental com o bélico. A bela cena onde o osso está flutuando e corta para uma arma nuclear no espaço. Parece fazer esta ligação, entre inteligência e guerra.

Clarke: É um fato triste que muito do desenvolvimento tecnológico se destina a destruição, e este é um dos temas de 2001. Não fica claro no filme, quando aquele osso sobe no ar e se torna um artefato nuclear orbital. Mas é exatamente o que quer dizer.

Stork: Então por que vocês decidiram que HAL deveria matar a tripulação?

Clarke: No filme isso acrescenta dramaticidade para uma história que alguns críticos disseram depois, onde quase nada acontecia. Nós não explicamos o por que. Se tivéssemos feito, parte da magia se perderia. De fato, fui acusado de fazer com que a magia fosse destruida, por explicar demais o que acontecera, nos livros seguintes.

Stork: Quer dizer que não vai explicar agora?

Clarke: Bem, eu não expliquei exatamente por que HAL fez o que fez. Mas Stan foi gentil ao dizer que nós estávamos tentando construir um mito. E um mito deve ser inesgotável, e deve ter um número de explicações pendentes, na verdade muitos livros foram escritos por outras pessoas, explicando do que 2001 se tratava.



The Sentinel [ Download ]
The light of other days [ Download ]
Marvin Minsky - Why peoples think computers can't [ Download ]
Marvin Minsky - Society of mind [ Download ]


Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Notas e Links

2010: Odyssey Two - Stars Frontiers RPG



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2001: A Space Odyssey - Stars Frontiers RPG


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2010 - Graphic Novel



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Jack Kirby 2001: A Space Odyssey e 2001: A Space Retrospective



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sábado, 29 de março de 2008

HUGO CORREA

Hugo Correa (11 de Maio de 1927, 25 de Março de 2008). Jornalista e escritor chileno, era considerado o pai da ficção científica de seu país. Correa publicou em 1959 'Los Altísimos', seu primeiro romance, seguido por 'El que merodea en la lluvia' (1962), 'Los títeres' (1969), e 'Alguien mora en el viento' (1959), que lhe rendeu o prêmio Alerce da Sociedade de Escritores do Chile.
Traduzido para inglês, francês, português, alemão e sueco, Correa é um dos clássicos modernos do gênero, junto aos argentinos Adolfo Bioy Casares e Angélica Gorodischer e o cubano Angel Arango.
Seu trabalho foi publicado na prestigiada revista especializada em FC, 'Fantasy and Science Fiction', em Abril de 1962 com o conto “The last element” e em Julho de 1967 com “Alter Ego”.

Alter Ego
Carrusel
Cuando Pilato se opuso
El ataque de los selenitas
La 322
La Bestia Marciana
La Campana
La esfera lunar
Los altissimos
Los ojos del Diablo
Meccano
Los Invasores

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Aos sonhadores




Ainda dentro da comoção causada pelo adeus ao mestre Clarke, fomos todos pegos de surpresa, pelo falecimento de Hugo Correa, o pai da Ficção Científica chilena.
O Capacitor Fantástico, presta sua homenagem aos sonhadores:

"Gostamos de saber que existem homens e mulheres extraordinários.
E momentos extraordinários, quando a História dá um salto adiante graças ao esforço desses indivíduos.
Que o que pode ser imaginado, pode ser alcançado.
Que você deve ousar sonhar, mas não há substituto para a perseverança, o trabalho duro.
E quando comemoramos a grandeza desses eventos e os indivíduos que as alcançaram, não podemos esquecer o sacrifício daqueles que tornaram estas conquistas e estes sonhos possíveis."


X-Files, episódio 'Lapso de Tempo' -parte 2

domingo, 23 de março de 2008

2001: Space Odyssey



Arthur C Clarke/Stanley Kubrick screenplay - 2001: Space Odyssey [ Download ]

A última entrevista - Arthur C.Clarke



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Ao mestre com carinho



Livros de Arthur C.Clarke em inglês [ Download ]

2001-2010-2061-3001 – The complete odyssey
A fall of moondust
A time odyssey 1 – Time’s eye
A time odyssey 2 – Sunstorm
Childhood's end
Cradle
Expedition to Earth
History lesson
Imperial Earth
Islands in the sky
Nightfall
Rama 1 – Rendez-vous with Rama
Rama 2 – Rama revisited
Rama 3 – The garden of Rama
Rama 4 – Rama revealed
Reach for tomorrow
Tales from the white hart
The fountains of paradise
The ghost from the Grand Banks
The lost worlds of 2001
The nine billion names of God
The pacifist
The sand os Mars
The trigger
The light of other days
The songs of Distant Earth

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ARTHUR CHARLES CLARKE

Arthur Charles Clarke (16 de Dezembro, 1917 - 18 de Março de 2008)

O maior talento de Arthur Charles Clarke consistia em transitar entre a arte e a ciência com igual clareza, inteligência e paixão.

Seus trabalhos, de descobertas científicas a literatura de ficção, da aplicação técnica ao entretenimento, tiveram um impacto direto na vida das pessoas, no presente e nas futuras gerações.

Arthur C.Clarke, filho de uma família de fazendeiros ingleses, nasceu na cidade costeira de Minehead em Somerset, Inglaterra. Depois de completar estudos básicos em sua cidade, Clarke se mudou para Londres em 1936 e desde bem cedo, demonstrava interesse em ciências espaciais, se filiando a British Interplanetary Society (BIS) para a qual passou a contribuir com artigos, antes mesmo de escrever ficção científica.

Como ocorreu com muitos jovens de sua idade naquela época, a Segunda Guerra Mundial interrompeu esta rotina e em 1939 ele se alistou na RAF e pouco depois se tornaria oficial encarregado do primeiro equipamento de radar do tipo talk-down, ainda em fase experimental. Após a guerra, Clarke retornou para Londres e para a BIS, tornando-se seu presidente de 1947 a 1950 e novamente em 1953.

Em 1945, a revista inglesa ‘Wireless World’ publicou um de seus ensaios técnicos ‘extra-terrestrial Relays’ onde pela primeira vez se propunha os princípios de um satélite de comunicação em órbita geoestacionária – que só se tornaria realidade 25 anos depois. Clarke trabalhou junto a cientistas e engenheiros na evolução nesta sua idéia, nos EUA, além de ajudar a desenvolver sistemas de lançamento e orientação de espaçonaves e na mesma época, discursou nas Nações Unidas quando das deliberações do uso pacífico do espaço.

Ao mesmo tempo que colaborava em assuntos estritamente científicos, Clarke exercitava sua veia de escritor. Sua primeira história vendida, ‘Rescue Party’ foi publicada na revista ‘Astounding Science’ (Maio 1946). Era o começo de uma carreira prolífica e brilhante, com mais de 70 títulos de ficção que lhe deram os prêmios Nebula em 1972, 1974 e 1979 e o Hugo em 1974 e 1980, além de ter recebido o título de Grande Mestre dos Escritores de Ficção Científica da América em 1986.

Um exemplo da sua genialidade literária aliada ao seu caráter visonário-tecnológico, está em ‘O Vento Solar’, uma coletânea de todos seus contos escritos na década de 60 e que consegue abarcar temas como o laser, o código genético, as primeiras sondagens de Marte e Vênus com robôs, o descobrimento dos pulsars e o desembarque na Lua.

Se Asimov tinha suas leis robóticas, Arthur elaborou as Leis de Clarke e que dizem assim:

1. Quando um cientista reconhecido e experiente, diz que algo é possível, ele está provavelmente certo. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado.

2. O único jeito para desvendar o limite do possível é ir além dele, através do impossível.

3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.

Em 1964 começou a trabalhar com o já famoso produtor de cinema Stanley Kubrick, naquele que seria seu maior sucesso de público e que o faria conhecido mundialmente. Quatro anos depois ele dividiria a indicação ao Oscar com Kubrick pela versão para cinema de ‘2001: A Space Odyssey’.

Em 1985 Clarke publicaria a sequência ‘2010: Odyssey Two’ e com o diretor Peter Hyams trabalharia para a versão para o cinema. O trabalho só foi possível pela utilização de um computador Kaipro e um modem, ligando Clarke em Sri Lanka com Peter em Los Angeles.

Na televisão, participou junto de Walter Cronkite e Wally Schirra da cobertura da CBS das Missões Apolo 12 e 15. Não só escreveu para diversas séries de televisão como teve uma série própria ‘Arthur C.Clarke Mysterious World’ em 1981.

Seu trabalho lhe rendeu inúmeros prêmios e homenagens.

A órbita geo-estacionária, 36 mil quilômetros acima da linha Equador, foi oficialmente batizada pela International Astronomical Union como sendo a Órbita Clarke.

Além disso, seu nome batizou um asteróide, 4923 Clarke, e uma espécie de dinossauro, Serendipaceratops arthurcclarkei, descoberto em Inverloch na Austrália. Mas a maior das honras lhe coube quando a Rainha da Inglaterra o agraciou com o título de nobreza, em cerimônia que ocorreu em Sri Lanka, conduzida pelo Príncipe Charles.

Sir Arthur morava em Colombo, Sri Lanka (ex-Ceilão) desde 1956, e era um entusiasta, praticante e incentivador da exploração submarina, tendo escrito diversos livros voltados para esta sua paixão.

Em 2004 sobreviveu ao terrível tsunami que praticamente destruiu toda a região, porém perdeu sua escola de mergulho em Hikkaduwa.

Nos seus últimos anos de vida, Arthur estava preso a uma cadeira de rodas, devido a complicações da poliomielite, que se agravara bastante.

Arthur Charles Clarke também ficou famoso pelas suas frases e em uma delas dizia:

“Se nós tivermos aprendido algo da história das invenções e descobertas, é que, à longo prazo – e muitas vezes a curto prazo – as profecias mais audaciosas parecem ridiculamente conservadoras.”

Site oficial:
http://www.clarkefoundation.org/

O projeto 2001:
http://www.2001exhibit.org/

Bibliografia e dados pessoais:
http://www.arthurcclarke.net/

Coleção de livros de Arthur C.Clarke em português [ Download ]

2001: Uma odisséia no espaço
2010: Odisséia Dois
2061: Odisséia Três
3001: A Odisséia Final
A cidade e as estrelas
A estrela
A luz das trevas
A sonda do tempo
A última ordem
Alvorada de Saturno
As canções da terra distante
As fontes do paraíso
Contos da taberna
Crime em Marte
Dinossauros
Massa crítica
Não haverá outra manhã
O fim da infância
O outro lado do céu
O martelo de Deus
O vento solar
Os náufragos de Selene
Rama I
Rama II
Sentinela
Terra Imperial
Um processador de textos acionado por vapor

[ Download ]

quarta-feira, 19 de março de 2008

Adeus Clarke



"Para cada homem vivo hoje existem trinta fantasmas, pois é esta a proporção que o número dos mortos excede o dos vivos.

Desde o início dos tempos, cerca de cem bilhões de seres humanos caminharam sobre o planeta Terra.

Ora, este é um número interessante, pois, por uma curiosa coincidência, há aproximadamente cem bilhões de estrelas no nosso 'universo local', a Via Láctea.

Portanto, para cada homem que algum dia viveu, brilha uma estrela."


Prólogo de '2001, uma odisséia no espaço'.

sábado, 15 de março de 2008

Guia de como sobreviver a um ataque de zumbis


Introdução

Os mortos caminham entre nós. Zombies, mortos vivos - não importa o nome - estes sonâmbulos são a maior ameaça para a humanidade, mais do que a própria humanidade.

Chamá-los de predadores e nós de presas não seria correto. Eles são a doença, e a raça humana seu hospedeiro. As vítimas de sorte são devoradas, seus ossos são limpos, sua carne consumida.
Aqueles sem sorte se juntam aos atacantes, transformados em monstros carnívoros podres. Armas comuns não fazem efeito contra estas criaturas, assim como o pensamento convencional. A ciência da exterminação, desenvolvida e aperfeiçoada desde o início de nossa existência, não pode nos proteger desde inimigo que não está 'vivo' para poder ser morto.

Isso quer dizer que os morto vivos são invencíveis? Não. Podem ser parados? Sim.

A ignorância é o aliado mais poderoso dos zumbis.É por isso que este livro foi escrito, para prover de conhecimento necessário para sobreviver a estas bestas sub-humanas.

Sobrevivência é a palavra chave - não vitória, conquista, apenas sobrevivência.
Este livro não ensinará você a se tornar um caçador profissional de zombies. Alguém que estiver buscando devotar sua vida a esta profissão, deve procurar treinamento em outra parte.
Este livro não foi escrito para a polícia, para militares ou qualquer agência do governo.
Estas organizações, se desejarem se preparar contra a ameaça, possuem recursos que vão além de simples pessoas comuns.
É para as pessoas comuns que este guia foi escrito, cidadãos, pessoas com tempo limitado e poucos recursos mas que se recusam a se tornar vítimas.

Dito isso, conhecimento é apenas uma parte da luta.O resto depende de você.
É sua escolha pessoal, o desejo de sobreviver, de estar atento quando o perigo surgir!
Sem isso, nada irá protegê-lo.

Na última página do livro, faça a você mesmo uma pergunta: O que farei? Morrer passivamente ou me levantar e gritar: 'Não serei uma vítima de vocês! Eu sobreviverei!'
A escolha é sua.


Zombie Survival Guide - Max Brooks [ Download ]

Star Wars Encyclopedia





The completely unofficial Star Wars Encyclopedia - Bob Vitas - 1892 páginas [ Download ]



Versão Online - http://www.theforce.net/swenc/

PRIMERA ANTOLOGÍA DE LA CIENCIA-FICCIÓN LATINOAMERICANA

Depois do êxito cada vez maior da nova narrativa latino americana por todo o mundo, não podemos deixar de nos surpreender que até hoje tenha se deixado de lado, quase como um continente perdido dentro da literatura do continente, a originalíssima FICÇÃO CIENTÍFICA, ainda escrita, em muitos casos, por jovens escritores sem contato com os outros de nossas terras.
Esta primeira antologia de Ficção Científica latino americana vem preencher este vazio.
Com sua leitura, junto com o assombro de descobrir valiosos novos escritores de vários países irmãos, não deixará também de se assombrar - nós também - que se tratando deste gênero,
que René Avilés Fabila tenha se antecipado em anos a absurda guerra entre El Salvador e Honduras por conta de uma partida de futebol, ou que Emilio Alarco tenha previsto também, muitos anos antes, o atual alge dos transplante de orgãos. E ainda tem mais surpresas!


ARGENTINA
Samantha, por Alicia Suárez

BRASIL
El paraíso perdido, por Clóvis García
El niño y la máquina, por Antonio Olinto

COLOMBIA
Rocky Lunario, por René Rebetez

COSTA RICA
El planeta de los perros, por Alberto Cañas

CUBA
El planeta negro, por Ángel Arango
El pirotécnico Li-Shiao, por Manuel Herrera
No me acaricies, venusino, por Juan Luis Herrero
Las montañas, los barcos y los ríos del cielo, por Germán Pinilla

ECUADOR
La doble y única mujer, por Pablo Palacio
EL SALVADOR
Misión cumplida por Alvaro Menén Desleal
El hombre y su sombra, por Alvaro Menén Desleal

HONDURAS
La búsqueda, por Oscar Acosta
El regresivo, por Oscar Acosta
Nacimiento último por Orlando Henríquez

MÉXICO
Hacia el fin del mundo, por René Avilés Fabila

PERÚ
Tesis por José Adolph
La magia de los mundos, por Eugenio Alarco

Organizada por RODOLFO ALONSO
Ciencia Ficcion Latinoamericana (1970) [ Download ]

segunda-feira, 10 de março de 2008

K3PO - Modelo de papel



Não, não se trata de C3PO, mas o modelo de papel de K3PO, um droid de serviço no centro de comando da Base Echo em Hoth.

K3PO [ Download]

SF PAPER CRAFT GALLERY
BLOG PAPERCRAFT

Destino pós-humano - Entrevista com Vernor Vinge

The archaeologists - De Chirico


O matemático e escritor de ficção científica Vernor Vinge aposta que o avanço tecnológico vai pôr fim à vida como a conhecemos
Profetas do apocalipse não faltam no planeta. E os há de todos os tipos. Os religiosos, sobretudo americanos, que aguardam para os próximos anos o fim deste mundo e o advento do Reino dos Céus. Há os que prevêem mudanças radicais no clima, capazes de destruir os habitats de várias espécies. Há quem preveja uma crise dramática de escassez de água. Mas, diferentes de todos esses, há pessoas como o matemático Vernor Vinge, de 60 anos, escritor de ficção científica e ganhador de quatro Hugo Awards, o Oscar do gênero. Ele enveredou por essa área da Literatura inspirado por seus ídolos, Arthur C. Clarke, Robert Heilein e Isaac Asimov. Sua fama surgiu com a publicação, em 1981, de 'True Names', na qual descrevia redes de computadores e os efeitos da internet - que na época nem sequer existia - sobre a vida das pessoas. O primeiro prêmio veio em 1992 com a obra 'A Fire Upon the Deep', em que descreve uma galáxia dividida em zonas de pensamento. Quanto mais distante do centro, mais elevado seria o nível de tecnologia nessas paragens. A Terra, na descrição de Vinge, ocuparia a zona lenta, onde estão os incapazes de superar a velocidade da luz. Há 30 anos, o então professor de Ciência da Computação da San Diego State University (ele se aposentou em 2002) desenvolveu a idéia de que o avanço tecnológico na área de informática vai pôr fim à vida como a conhecemos. Nos últimos anos, ele tem se dedicado a burilar e explicar esse conceito. Quem acha que se trata de delírio de cientista maluco precisa saber que Vinge dá consultoria para grandes empresas e suas palestras são concorridíssimas. A seguir, um pouco de suas idéias.

ÉPOCA - Como o senhor explica seu conceito de singularidade tecnológica?

Vernor Vinge - Acredito que entre 2005 e 2030 vamos conseguir criar um supercomputador muito mais inteligente do que nós. E a partir desse momento o mundo não será mais nosso. As máquinas terão consciência própria e capacidade de criar outras máquinas ainda mais inteligentes e criativas, e assim por diante.

ÉPOCA - Por que chamou isso de singularidade?

Vinge - É uma referência à Física. Singularidade para os físicos é um universo no qual as leis naturais que conhecemos não valem mais, e nem sequer somos capazes de imaginar esse outro universo (a palavra 'singularidade' costuma ser usada para se referir à situação do cosmos no momento imediatamente anterior ao big bang). Após a criação do supercomputador, nosso mundo vai mudar de tal forma que hoje somos incapazes de conceber. Daí a expressão singularidade tecnológica. É um mundo impenetrável para nós, para nossas mentes de hoje, acostumadas com o mundo no qual fomos criados.

ÉPOCA - Vamos desaparecer da face da Terra ou seremos escravizados pelas máquinas, como mostram alguns filmes de ficção científica?

Vinge - Não temos como saber. Por mais úteis que sejam, os computadores que usamos hoje são estúpidos, bastante simples se comparados a nossa capacidade intelectual. Somos bem melhores. As máquinas que antevejo serão absolutamente fantásticas. Se pudéssemos trazer de volta a nosso tempo um gênio como Benjamin Franklin, levaríamos mais ou menos um dia para explicar a ele as mudanças que ocorreram desde seu tempo. Agora, imagine fazer o mesmo com um peixinho dourado. Seremos o peixinho dourado após a singularidade. Qual foi a última invenção que seu cachorro ou gato fez? Pois é, nossas invenções e idéias vão parecer assim para esses supercomputadores.

ÉPOCA - Estamos vivendo novamente um período de medo de fim do mundo, com religiosos anunciando o apocalipse, o temor de grandes mudanças causadas pelo aquecimento global e por inovações como os transgênicos e a nanotecnologia?

Vinge - O século XXI é um século perigoso. Convivemos com os efeitos do aquecimento global, com o risco de esgotamento de recursos naturais, com novas pragas e doenças que se disseminam rapidamente. O sentimento de medo do fim do mundo não é novo - passamos os anos 60 e 70 com medo da hecatombe nuclear. Mas a sensação de medo se intensificou porque a tecnologia avança mais depressa e está muito presente em nossa vida.

ÉPOCA - De onde vêm suas idéias, da Matemática ou da ficção científica?

Vinge - Tento manter a ficção separada da Matemática. Minha idéia sobre a singularidade tecnológica é especulação, mas não é ficção - que é o que faço para ganhar dinheiro (risos). Tento ser o mais fiel possível ao que sabemos hoje em termos de tecnologia.

ÉPOCA - Como o senhor começou a enveredar para a ficção?

Vinge - Sempre me interessei por Ciência e pelo que ela poderia fazer. Para isso, a Matemática é fundamental. Ao mesmo tempo, sempre fui fascinado pelas revoluções tecnológicas e pelo impacto que produzem na sociedade. Esse é o terreno da ficção científica. Na verdade, a ficção científica foi a primeira área afetada por minhas idéias. Hoje boa parte dos livros trata da singularidade, se ela ocorre ou não, da impossibilidade de antever o futuro que se segue a ela.

ÉPOCA - Quais são os sinais de que esse momento estaria se aproximando?

Vinge - Essa singularidade pode ocorrer ou não. Se houver um interesse menor por inovações na área de computação, ela terá menos chances de ocorrer. Nada aqui é inevitável. Mas o sucesso cada vez maior das conexões sem fio é um sinal de sua aproximação. Outro é o desenvolvimento de softwares de computador capazes de se autoprogramar. No mundo da computação, algumas atividades estão ficando obsoletas e a programação é uma delas. Veremos também o crescimento do número de CPUs trabalhando em rede.

ÉPOCA - Qual é o futuro dos robôs no cenário que o senhor imagina?

Vinge - Eles ficarão cada vez mais perfeitos e nós teremos dificuldades para diferenciar o ser vivo da máquina. Temos hoje bonecas-robôs, cães-robôs e gatos-robôs, mas nenhum deles é capaz de nos enganar; sabemos que são máquinas. Mas vai chegar o dia em que ficaremos em dúvida de tão perfeitos que serão. O aparecimento, por exemplo, de um robô doméstico capaz de limpar um banheiro com perfeição pode ser o sonho das donas de casa, mas também pode apontar para a proximidade da singularidade. São avanços graduais todos eles. Tomados individualmente não têm muita importância, mas somados indicam um potencial cada vez maior.

ÉPOCA - A simbiose entre o homem e as máquinas seria outro indicador?

Vinge - Sem dúvida. Hoje você não consegue viver sem seu computador, uma máquina que aumenta sua capacidade mental, que permite a você ter todo tipo de informação à mão numa fração de segundo. Você também não vive sem celular, que oferece acesso à internet onde quer que você esteja. Temos os palms também. Cada vez mais a tendência é de desenvolvimento de equipamentos que acompanhem as pessoas o tempo todo, criando uma espécie de simbiose.

ÉPOCA - O filósofo americano Francis Fukuyama, aquele que ficou famoso há alguns anos pregando o 'fim da História', afirma que esse ponto de virada, em que nossa espécie passará por transformações radicais, virá da Biologia Molecular e da manipulação do DNA. O que o senhor acha disso?

Vinge - Não creio. A Biologia vai mudar muita coisa em nossa vida, nos dará diagnósticos mais precisos, drogas mais seguras, exames preditivos confiáveis. Vai até mesmo permitir que nossa memória seja preservada a despeito da idade. Mas nada disso será radicalmente significativo. Até porque grandes revoluções na Biologia dependem hoje de ferramentas de computação cada vez mais sofisticadas. O supercomputador consciente da própria existência e de sua capacidade virá primeiro.

ÉPOCA - E quanto tempo após a criação desse supercomputador seria necessário para que se criasse essa singularidade?

Vinge - Nós nos tornaríamos obsoletos umas cem horas após o aparecimento desse computador consciente. O que aconteceria conosco é impossível prever. A vida pode se tornar insuportável para nós em meio a esses computadores geniais que vão transformar o mundo segundo sua vontade e necessidade. Para eles, nossas criações seriam irrelevantes e inúteis. Pode ser que sejamos extintos. Pode ser também que alguns de nós sejam mantidos para executar algumas tarefas. Tudo pode acontecer.

ÉPOCA - Seres humanos são guiados por necessidades físicas claras - sexo, alimento e descanso. É claro que esses não seriam os mesmos imperativos de máquinas. O que o faz pensar que elas nos levariam à extinção?

Vinge - Elas também podem nos manter como animais de estimação. Particularmente, acho que a convivência com essas superinteligências seria mais fácil do que a convivência com outros seres humanos. Sucesso para nossa espécie é uma coisa sangrenta, obtida com esforço e luta, derramamento de sangue, guerras, conquistas. Máquinas não seriam tão intensas e passionais.


Revista Época
RUTH HELENA BELLINGHINI

VERNOR VINGE

Vernor Steffen Vinge (10 Fevereiro, 1944) é formado em matemática, em ciência da computação e, como autor de Ficção Científica, teve seu talento reconhecido por ganhar 4 prêmios Hugo e por seu ensaio "The Technological Singularity" (1993), no qual ele argumenta que o crescimento exponencial tecnológico irá chegar a um ponto que sequer podemos imaginar as consequências.
Vinge publicou sua primeira história em 1965 na revista Analog. Na época, ele era um colaborador assíduo de revistas de Ficção Científica. Em 1981 com seu romance 'True Names', Vinge começou a ser notado. Este romance seria o ponto de partida para escritores como William Gibson e Neal Stephenson darem forma ao gênero ciberpunk, pois apresentava um conceito novo, o ciberespaço. Em 1992, Vinge depois de ser nomeado várias vezes, ganha seu primeiro Hugo por 'A Fire Upon the Deep'. Vinge aposentou-se em 2002 das aulas na universidade de San Diego State para se dedicar em tempo integral à literatura. Sua ex-esposa, Joan D.Vinge também é escritora de FC. Atualmente Vinge faz parte do comite de seleção ao prêmio da Fundação pelo Software Livre.

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Como desenhar Stars Wars

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Entrevista com Vernor Vinge



‘A FC é para a humanidade, o que o sonho é para o indivíduo’.

O nome Vernor Vinge não soa com a mesma força de nomes como Philip K Dick, Ursula K.Le Guin ou Isaac Asimov, mas o escritor e professor de matemática da Universidade da Califórnia está entre os grandes nomes da FC americana, como estes três legendários autores.
Entre outras coisas, Vinge ganhou o prêmio Hugo de 2007 com seu livro ‘Rainbows End’ (ganhou em 2000 por ‘Deepness in the sky’ e em 1993 por ‘Fire on the deep’). O Hugo é o prêmio mais importante da literatura de FC e Fantasia escrita em inglês e é entregue desde 1953.

Vinge é um escritor de FC hard. O que significa dizer que ele projeta mundos futuros onde o avanço tecnológico é extrapolado, com rigor científico, a partir da realidade atual. ‘Rainbows End’ se passa em San Diego, Califórnia, em 2025. As tecnologias de comunicação evoluíram ao ponto de haver uma realidade virtual coexistindo com a realidade cotidiana. Dispositivos como a roupa inteligente fazem com que a conectividade com a Internet seja constante e em 3 dimensões e as pessoas trocam mensagens mentais como se ‘telepaticamente’.
Neste mundo, que parece de certa forma, inevitável, Vinge questiona - entre outras muitas dúvidas existenciais futurísticas - sobre o fim da privacidade e da natureza da memória humana em um tempo de bases de dados infinitas e a onipresente ciber-vigilância.
Além de matemático e escritor, Vinge é um dos profetas da Singularidade Tecnológica, a idéia de que a evolução exponencial do desenvolvimento tecnológico irá criar uma espécie de super-inteligencia artificial que funcionaria de maneira independente da humanidade, como um novo ser vivo.

Vinge afirma que vivemos um momento na história do planeta, comparável a primeira aparição da vida, milhões de anos atrás. Longe de ser uma ficção, mas, sua descrição deste fenômeno (corroborado por muitos cientistas de prestígio internacional) foi apresentada oficialmente à NASA em março de 1993. Um ensaio na revista Technology Review do MIT, diz que os mundos imaginados por Vinge, tiveram um impacto real e importante no desenvolvimento de novas tecnologias. Em grande parte por que os inventores destas tecnologias eram leitores fanáticos de seu trabalho.

Em uma conversa telefônica, Vernor Vinge explicou a dedicatória em ‘Rainbows End’:
‘Para as ferramentas cognitivas da Internet que estão mudando nossas vidas: Wikipedia, Google, Ebay e outras.’

O que significam estas novas tecnologias para a cultura humana?

Vernor Vinge: Creio que há uma grande possibilidade de que a Internet - quero dizer, os computadores e as bases de dados e as pessoas ligadas a ela - sejam algo inédito, um fenômeno sem precedentes na história. Se fizer as contas, há centenas de milhões de pessoas instruídas que estão hoje se comunicando pela rede. E dentro desta grande massa há provavelmente um milhão de pessoas que são mais inteligentes que todas as pessoas que no passado mandaram neste mundo.
Além disso, qualquer coisa que queira saber, sobre qualquer tema, você pode encontrar milhares de especialistas no assunto, não importa o quão insignificante seja.
Toda esta gente está trabalhando por conta própria, sem um controle central, mas estão colaborando com algo que, pela primeira vez na história, não requer que alguém seja extraordinariamente rico ou bem aventurado para entender e está conectado com o panorama global, com aquilo que se passa no mundo.
Nos últimos 200 anos, mais ou menos, estivemos indo nesta direção lentamente, mas agora a coisa é tão intensa que já existe uma esperança de que se minimize bastante a influência dos governos sobre a humanidade. Não significa que os governos vão desaparecer. Apenas que eles se tornarão provedores de infra-estrutura, ao invés de serem donos de nossas vida.

Não te preocupa que a sociedade na rede, pode ter seu lado negro, por exemplo, a vigilância e o fim da privacidade?

VV: Antes de mais nada, creio que ninguém pode prever o futuro. Mas considero que há motivos para ser otimista. No caso dos governos, por exemplo. Creio que a cada vez mais estão se dando conta de que a base de seu poder não vem dos exércitos mas de ter uma população instruída. E que esta população de centenas de milhões de pessoas criativas, possuem uma liberdade genuína. Isso é o que necessitam e estão começando a dar conta disso.

Você foi um dos primeiros profetas da ‘Singularidade’. Acha que vamos viver o bastante para vê-la acontecer?

VV: Penso que a singularidade é um evento não-catastrófico, que irá ocorrer em nossas vidas. Se não ocorrer um desastre, acho que a veremos. Mas também acredito que se uma super inteligência nascer repentinamente, será talvez incompreensível para nós. Nem sequer poderemos entendê-la. Seria como tentar explicar uma chamada telefônica para um peixe, seria impossível. Esta é a escala da diferença.

Colocou seu livro online e para acesso livre. Por que o fez?

VV: Junto com a maioria das pessoas que ganham a vida escrevendo ficção, observo com ansiedade o que se passa com a idéia da propriedade intelectual. E creio que as pessoas que trabalham para as editoras também. Ao mesmo tempo, sei que posso publicar obras online grátis. No meu caso, vi que muitos ganhadores anteriores do Hugo já o fizeram. Então eu e meu editor decidimos tentar, para ver o que acontece. É uma experiência.

Foi dito que seus livros exercem uma verdadeira influência sobre o desenvolvimento de certos produtos tecnológicos. Quanta influência você acha que a Ficção Científica tem sobre o mundo real?

VV: A Ficção Científica (FC) faz duas coisas. A mais importante é que ela estimula os jovens a se interessar pela ciência e ingressar em carreiras tecnológicas. A outra coisa é - apesar de soar grandiloquente - é que a FC é para a humanidade o que o sonho é para o indivíduo. E você sabe que os sonhos não tem, em geral, nenhum valor como previsão, mas as vezes geram boas idéias, que não ocorreriam de outra forma.

Finalmente, te incomoda que a Ficção Científica seja um gênero marginalizado? Ou seria indelicado fazer esta pergunta?

VV: É preciso se dar conta de uma coisa. Nos anos 50 eu era uma criança e a FC estava marginalizada, no sentido real da palavra. Não creio que era visível para todos. Foi um gênero depreciado, mais do que é hoje em dia. Todavia, naquele tempo as pessoas pensavam que o progresso seguia seu curso muito rapidamente e estavam seguras sobre a maioria das coisas. Hoje a FC - de uma forma ou de outra e não necessariamente o que escrevem os autores de FC -é dominante na nossa cultura. Nos filmes e na cultura popular.
Minha sensação é que assimilamos profundamente o fato de que o futuro não vai ser como esperávamos. Não podemos planejar com antecedência. E se esta mentalidade e estilo de se pensar é hoje, comum a toda raça humana, a FC teve muito a ver com esta mudança.

Por André Hax.
http://vrinimi.org/rainbowsend.html

THÉOPHILE GAUTIER


Pierre Jules Théophile Gautier (30 de Agosto, 1811 – 23 de Outubro, 1872) nasceu em Tarbes, França. foi poeta, dramaturgo, romancista, jornalista e crítico literário. Sua vida esteve envolvida com a maior parte dos acontecimentos políticos e sociais na França do século 19, o que acabou por lhe render grandes obras de diversidade artística. Apesar de ser um defensor do romantismo, a obra de Gautier é complexa para ser classificada, pois flertou com diversas tradições literárias e estilos, como o parnasiano, o simbolismo e o modernismo. Mas Gautier, ao longo de sua carreira literária, ficou mais famoso por escrever um gênero bastante apreciado no século 19: o fantástico. Gautier era admirado por vários e escritores como Baudelaire, Flaubert e Oscar Wilde.

"Só é realmente belo aquilo que não serve para nada; tudo quanto é útil é feio."

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O papel da cidade estrangeira nos contos fantásticos de Théophile Gautier



"Estes contos estranhos diferem de tal forma de todos os contos aparecidos até aqui, experimenta-se lendo-os a mesma impressão que um homem lançado de Paris para Pequim por uma catapulta, experimentaria à visão dos tetos envernizados, das muralhas de porcelanas, das grades vermelhas e amarelas de suas casas, das tabuletas das lojas cheias de caracteres bizarros e de animais fantásticos, e de toda esta população que nos parece tão barroca sobre as folhas de nossos pára-ventos, com seus pára-sois, seus chapéus em cône, ornado de sininhos, e de seus vestidos com relevos de largas flores e de pequenas serpentes aladas."

Sabrina Ribeiro Baltor
Mestranda em Língua Francesa e Literaturas de Língua Francesa - UFRJ


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sábado, 1 de março de 2008

Jules Verne - Modelos de papel





Modelos de papel para montar com temas de Jules Verne