
Iain M. Banks, ficou conhecido como uma das cabeças iluminadas da Ficção Científica (FC), através da sua saga"Culture", onde em um universo utópico, naves espaciais robóticas altruístas cuidam de humanos geneticamente aperfeiçoados, onde não falta nada e todos estão libertos das tarefas de uma vida normal para expressarem-se conforme queiram.
Banks, que também escreve não-ficção, encontrou inspiração para escrever FC, quando ainda era criança, por causa da corrida espacial.
CNN: Para alguém que escreve tanto FC quanto, na falta de uma palavra melhor, ‘mainstream’, qual é o interesse pela FC como um gênero?
Ian M.Banks: Acho que devido à liberdade que encontramos na FC, onde você pode basicamente ir para qualquer parte. Acho que há uma ligação muito próxima com o prazer que eu sentia ao ler FC quando jovem - quando você abre um livro de FC, especialmente os de contos, você simplesmente não sabe para onde será levado. Pode ser o passado, ou o futuro distante, pode estar no espaço, pode inclusive ser contado pelo ponto de vista de um alienígena. Eu amo esta liberdade. E é tão excitante para o escritor quanto para o leitor.
No ‘mainstream’ é mais ou menos como tocar piano. Um piano convencional é um instrumento fabuloso para se expressar, um instrumento clássico.
A FC é como um órgão reverberando dentro de uma catedral, você tem três teclados, não apenas um, você tem lingüetas, chaves para usar, tem um teclado extra nos pés, pode tocar como quiser! Não dá para ser sutil, como um piano é, e acho que existe um sentimento épico que é fácil de se achar na FC.
CNN: Que autores o inspiraram quando era jovem, aqueles que você se espelhou?
Banks: Imagino que os suspeitos de sempre, pois quando eu era jovem, caras como Heinlein e Asimov, mais provavelmente Arthur Clarke e Brian Aldiss um pouco mais. Ainda acho que Aldiss era para mim a maior influencia como escritor. Tinha um cara chamado Mike Harison, M John Harrison, que eu admirava muito, ele ainda está por ai, escrevendo coisas incríveis. Mas não há nenhuma grande surpresa, são as pessoas que se esperam. Sou péssimo com nomes. Dan Simmons, gostava dele, ele está muito bem hoje.
CNN: Uma coisa que nos chama atenção em seus livros é sobre a sua forma de escrever sobre tecnologia, é tão convincente. De onde tira suas idéias?
Banks: Acho que a maior parte são desejos realizados, para ser honesto. Algo que é ótimo em FC, especialmente o tipo que eu escrevo, é que não se trata de um futuro próximo, não é necessariamente plausível, é apenas imaginar ‘Não seria legal se fosse assim?’ . Não estou denegrindo, apenas não dá pra confundir com a realidade, sendo assim, está tudo bem.
Acho que é assim ‘Não seria legal se a responsabilidade moral fosse tirada de nós por máquinas incrivelmente inteligentes e espertas e estivéssemos livres para seguir como seres humanos dentro de uma estrutura moral benigna, e não seria bom se fossemos mais inteligentes?’ Esta é minha teoria particular, de qualquer modo.
CNN: Você gostaria de viver lá?
Banks: Com certeza, sim, oh, é o meu paraíso...sim, eu gostaria, absolutamente. Novamente, tem a ver com realização de um desejo. Nunca fiz um estudo, nunca tive uma resposta do que seria para a humanidade, o que seria a utopia pessoal de cada um. Esta é a minha. Eu penso nela, consigo me imaginar dentro dela - é absolutamente maravilhosa!
CNN: E como é ser um humanóide nesta cultura ?
Banks: Muito bom, com glândulas de drogas e orgasmos enormes e longos. Você pode trocar de sexo quando desejar, tem total controle sobre a dor, nem tem calos. Esta não é uma das minhas, mas de Ken MacLeod, meu camarada e também escritor de FC - ‘Um bom aperfeiçoamento no corpo humano, eu acho, seria não ter calos.’ então eu aproveitei...
CNN: Nesta sociedade sem necessidade de se abastecer, onde ninguém precisa fazer coisa alguma, você está removendo muito da batalha do dia-a-dia. Não estaria removendo também um ponto central de se viver?
Banks: Penso que muito desta batalha será algo sem sentido e apenas chata. A batalha por existir para a maioria das pessoas na maioria do tempo, especialmente em uma sociedade pós-agrícola e industrial, é um pouco desgastante. As pessoas precisam trabalhar e dedicam longas horas para ganhar pouco dinheiro. Se não for assim, você não consegue nada. A vida não tem lá tanta graça, francamente, então eu ficaria bem feliz de escapar desta batalha.
CNN: Quais os efeitos dos pousos na lua tiveram em você enquanto crescia?
Banks: Oh, a coisa toda teve um efeito enorme. Nasci em 54 e quando aconteceu, em 69, eu estava na idade certa para apreciar aquilo tudo. Já tinha idade suficiente para lembrar de JFK, em seu primeiro pronunciamento sobre como chegaríamos à lua, a coisa toda era bastante excitante. Eu adorava o SATURN 5 (o foguete lançador) e toda aquela tecnologia.
Foi triste a forma como a NASA lidou com a coisa toda até transformá-la em algo chato, as pessoas perderam o interesse e precisou que a Apollo 13 quase chegasse ao desastre para trazer novamente a atenção delas.
Todas estas advertências sobre como devíamos ter feito as coisas, antes de mandar pessoas para qualquer parte, mas ainda acho que valeu a pena. Voltar à lua deve ser o primeiro passo, depois Marte e então veremos.
CNN:Acha realmente que o futuro da humanidade está entre as estrelas?
Banks: Bem, é lá ou então em parte alguma. Acho uma insanidade ter a capacidade de sair do planeta e não usá-la. Ainda não temos nenhuma defesa real contra meteoros e cometas ou qualquer ameaça que venha a atingir o planeta. Você tem todos os ovos em uma cesta, somos sete bilhões em um só lugar, e somos potencialmente vulneráveis, algo grande pode vir e nos arrancar da face do planeta. Não parece loucura, parece? Sou de uma geração que não tinha comida industrializada, nem jatos e eletricidade à vontade e todas estas coisas nos eram prometidas - onde estão nossas cidades flutuantes, e naves espaciais e bases lunares e marcianas e por ai vai - mas sou um otimista, ainda acho que chegaremos lá.
Mas estamos tornando a vida mais difícil para nós neste momento, com toda esta coisa do aquecimento global e toda a bobagem associada. Veremos, acho que continuaremos errando. Seria ótimo se pudéssemos gastar um pouco menos com os militares e mais com a exploração espacial: dirigir fundos para algo que valesse a pena ao invés de desenvolver novas maneiras de nos matar.
CNN: Um dos aspectos mais atraentes desta sua sociedade é que não há necessidade de gerar matéria prima, ninguém tem fome, todos tem roupas. Acha que é da natureza humana construir uma sociedade assim?
Banks: Indiscutivelmente não. É por isso que não somos nós. Eu pensei muito nisso antes de publicar os livros e decidi que não seria nosso futuro, mas seriam humanóides, poderiam se passar por nós, por que não estou bem certo o que somos. É algo bem pessimista de dizer, que somos ligados à guerra e a destruição, e a tortura e o racismo, e o sexismo - todas estas coisas horríveis, esta xenofobia - devemos ter um gene xenófobo. Penso que deveríamos modificarmos-nos geneticamente, francamente - se pudéssemos identificar aquela pequena parte que causa tudo isso, nós poderíamos eliminá-la e assim sermos pessoas melhores.
CNN: Se existe um elemento desta sua sociedade (Culture) que você pudesse passar à humanidade, qual seria?
Banks: Oh caramba! Certamente não seria o envelhecimento lento e o potencial de nunca morrer, por que isso seria desastroso, pode estar certo que os ricos iriam querer ter isso apenas para eles, ninguém mais poderia ter acesso.
Talvez as glândulas de drogas. Não pela razão trivial que permitiria você ficar chapado sem ter que pagar por isso o tempo todo, mas se você tivesse realmente boas drogas que pudesse fabricar dentro de seu corpo, somente pensando nela, resolveria todos os problemas com as drogas: você teria um entorpecente melhor do que cannabis, muito mais excitante do que crack ou cocaína e muito mais prazerosa do que heroína.
Mas enquanto isso, sendo como somos, devemos passar nossas vidas intoxicados, caídos por ai, vendo a civilização deteriorar-se. Não é o que eu queria, francamente. Eu preferia não ter calos.
Entrevista concedida a Linnie Rawlinson da CNN durante o festival do livro de Lincoln.
Saga 'Culture' - oito livros [ Download ]
domingo, 1 de junho de 2008
Iain M. Banks, a corrida espacial, Culture - entrevista
Barbarella em quadrinhos - Jean-Claude Forest

Jean-Claude Forest nasceu em 1930, em Perreux, Franca. Um pintor, ele expunha na Galeria Schimdt em Paris, em 1965. Barbarella era entendida originalmente como brincadeira, feita para apreciacao particular de Forest e seus amigos, mas acabou um sucesso imediato junto ao público francês e depois em muitos outros países europeus e nos Estados Unidos. Forest atualmente está ocupado em fabricar novas punições - e recompensas - para sua bela heroína.
"Duas formas de arte, os quadrinhos e o nu feminino - uma com apenas meio século de idade, a outra só uma hora mais jovem que a humanidade - se juntam num Bang! em Barbarella luxuriosamente imaginada e liquidamente desenhada pelo francês Jean-Claude Forest... Em sua mistura de ficção científica e espirituosa mitologia, alucinação luminosa e perverso melodrama, Forest alcancou uma mutação da imaginação; criou em Barbarella a apoteose do erotismo." - Playboy.
Barbarella, com seus cabelos longos e nome sonoro, seu rosto de bebê e desdem por se vestir desnecessariamente, se descobre no planeta Lythion, onde fez um pouso forçado depois de viajar sozinha pelo espaco em seu foguete. Ela é uma criatura do futuro, que é confrontada com os monstros e robôs do estranho planeta, no qual é posta à prova vez após outra. Ela pune o mal em todas as formas em que o encontra e recompensa, do seu jeito particular, todos os belos homens que encontra durante suas aventuras. E, seja enfrentando sádicos, ou disparando sua arma de raios em monstros gelatinosos, ela nao parece evitar perder, parte de ou todo, seu apertado traje espacial.
Barbarella em quadrinhos [ Download ]
Considerações sobre escrever Ficção Fantástica por H.P. Lovecraft
Arkan23
A razão de escrever histórias é dar para mim mesmo, a satisfação em poder visualizar mais claramente e detalhadamente, aquela vaga,ilusória e fragmentada impressão do fantástico, do belo, e experimentar o excitamento que transmitem-me certas coisas (cênicas, arquitetônicas, o clima, etc), idéias que ocorrem e imagens com que nos deparamos, na arte e na literatura.
Eu escolhi o gênero fantástico pois é o que melhor se encaixa com minhas inclinações - um dos meus desejos mais persistentes e intensos é criar momentaneamente, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação dos limites do tempo, espaço e das leis da natureza, que sempre nos aprisionam e frustram nossa curiosidade sobre o infinito dos espaços cósmicos, além do raio de alcance de nossa visão ou análise. Estas histórias freqüentemente enfatizamo elemento do horror por que o medo é nossa emoção mais forte e profunda, e a que melhor se permite criar ilusões sobre outra natureza desafiadora.
O horror e o desconhecido ou o estranho estão sempre conectados, de forma que é difícil criar uma imagem convincentearrancada de uma lei natural ou de um espaço alienígena ou fora deste mundo, sem usar da emoção do medo. A razão pela qual o tempo interpreta um papel importante em muitos dos meus contos é por que este elemento tece em minha mente como a mais profunda e dramática e inflexivelmente força do universo.
Conflitos com o tempo me parecem o mais potente e frutífero tema de toda a expressão humana.
Como a minha escolha, por uma forma de escrever ser tão obviamente especial e restrita, não é menos um tipo de expressão tão velha quanto a própria literatura. Sempre houve uma pequena porcentagem de pessoas que sentem uma ardente curiosidade sobre o desconhecido, um desejo de escapar da casa-prisão, do que é conhecido como real, para estas terras encantadas de aventuras incríveis e infinitas possibilidades, que os sonhos nos oferecem, coisas como densas florestas, torres urbanas fantásticas e que fulgurantes ocasos momentaneamente nos sugerem.
Estas pessoas incluem grandes autores, como também insignificantes amadores como eu mesmo -Dunsany, Poe, Arthur Machen, M. R. James, Algernon Blackwood, e Walter de la Mare são mestres neste campo.
Cada história que escrevo é diferente da outra.
Uma vez ou outra eu escrevo sobre um sonho, mas usualmente eu costumo começar com uma sensação, uma idéia ou uma imagem que tento expressar e que só se resolve na minha cabeça quando consigo pensar em uma boa maneira de dar corpo a ela, dentro de uma cadeia de acontecimentos dramáticos, capazes de serem descritos em termos concretos.
Costumo me utilizar de uma lista mental, de condições básicas ou situações que melhor se adaptam a esta sensação, idéia ou imagem, e então começo a especular logicamente e sobre explicações naturalmente motivadas por aquela sensação ou idéia ou imagem, em termos da condição básica ou da situação escolhida.
O processo de escrita, é claro, varia conforme a escolha do tema e do conceito inicial, mas se analisarmos todas as minhas historias será possível perceber que seguem uma lista de regras em sua maioria.Preparo uma sinopse ou cenário de eventos, na ordem das ocorrências - não necessariamente na ordem da narração.
Descrevo cobrindo todos os pontos vitais e determino todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e as conseqüências são desejadas neste esboço. Preparo uma segunda sinopse, desta vez na ordem da ocorrência, com mais detalhes e mais notas, mudando a perspectiva, criando o clímax.Mudo então a sinopse original para se adequar, se uma mudança for criar uma ocorrência dramática intensa e efetiva na história.
Insiro ou retiro incidentes à vontade - nunca estando preso à concepção original, mesmo se o resultado final seja uma história totalmente diferente daquela primeiramente planejada.
Agora escreva - rápida e fluentemente e não de forma crítica - seguindo a segunda sinopse. Mudo a trama sempre que o processo de desenvolvimento parecer sugerir tal mudança, não se prendendo a nenhum desenho prévio. Se o desenvolvimento revelar novas oportunidades para efeito dramático, volte depois para reconciliar as partes antigas com o novo plano.
Insira e retire seções inteiras se necessário ou desejável, tente inícios e términos diferentes, até encontrar aquele que melhor se apresente.
Mas certifique-se que todas as referências sejam reconciliadas com o desenho final.
Remova palavras desnecessárias, sentenças e parágrafos ou mesmo elementos, observando a precaução de sempre conciliar as referências.
Revise o texto inteiro, prestando atenção ao vocabulário, a sintaxe, o ritmoda prosa, a proporção das partes, harmonize refinadamente, de forma convincente as transições (cena a cena), certifique-se do início, do fim, dos climaxes, etc., garantindo suspense dramático, o interesse, a plausividade e atmosfera, e vários outros elementos. Prepare uma cópia limpa (próxima do apresentável) mas não hesite em acrescentar seus toques e revisões onde achar preciso. O primeiro desses estágios é sempre puramente mental - um cenário de condições e acontecimentos na minha cabeça, e que nunca se fixam até eu estar pronto para preparar uma sinopse detalhada de eventos na ordem da narração. Também, por vezes, começo a escrever antes que saiba como vou desenvolver aquela idéia - este inicio cria um problema para ser explorado.
Existem, penso, quatro tipos de histórias fantásticas, uma expressa um sentimento ou sensação, outra expressa uma concepção pictorial, a terceira expreessa uma situação geral, uma condição, lenda ou concebida intelectualmente e a quarta um quadro bem definido ou uma situação dramática ou um clímax.
Estes contos podem ser categorizados em dois tipos, aquele em que se mostra pelo terror, devido a algum tipo de condição ou fenômeno e aqueles em que existe uma ação por parte dos personagens, em conexão com uma condição bizarra ou um fenômeno.
(continua...)
Ler a versão em espanhol do site Malacandra
sábado, 31 de maio de 2008
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Artes intersticiais, New Weird e Ficção Científica Mundana
Nunca houve um tempo melhor do que este para se escrever Ficção Científica.
(Michael Swanwick)
Sendo assim, vamos focar em 3 movimentos literários que são hoje, os mais novos.
Somente uma pequena fração dos escritores conhecidos pertence a estes grupos, mas seus conceitos são representativos, pois tem algo a dizer sobre os dias de hoje.
ARTES INTERSTICIAIS
As artes intersticiais foram criadas por Ellen Kusher, que é prolífico em criar movimentos literários (este é o terceiro, se formos contar o Mannerpunk e Young Trollopes). Como o site oficial diz:
"O que são artes intersticiais? É a arte feita dos interstícios entre gêneros e categorias. O tipo de arte que floresce nas fronteiras entre disciplinas distintas, meios ou culturas. É uma arte que cruza barreiras, feita por artistas que se recusam a serem rotulados por categorias... Como na natureza, as maiores áreas de biodiversidade ocorrem nas margens entre ecossistemas; acredito que alguns dos trabalhos mais vitais, inovadores e desafiadores podem ser encontrados nestas margens, entre categorias, generos e disciplinas."
Por estes trabalhos serem tão difíceis de se classificar, quase sempre geram incompreensão em uma cultura que se tornou enormemente dependente de comprar e vender arte através de rótulos. Obras literárias que atravessam estas barreiras, por exemplo, que conscientemente mesclam orientações e temas, são classificadas de um jeito ou de outro, e são criticadas de acordo com os termos de sua classificação - ao invés dos próprios termos - em detrimento do trabalho
Nos anos recentes, pequenas editoras publicaram várias antologias dedicadas ao que podemos chamar de histórias não-exatamente-FC; quase todas têm um nome próprio para isso - slipstream, new wave fabulists, cross-genre, e todos me dizem que estas histórias são mais difíceis de vender do que digamos, Asimov, que tem muitos leitores, já que tantos escritores novatos estão tentando conquistar o público.
Se você ainda está um pouco confuso sobre o que são as artes intersticiais, então seja bem vindo ao clube.
Poucos anos atrás, estive na primeira conferência de artes intersticiais, e lá eles eram persistentemente indagados por críticos pouco amigáveis, e nenhum deles sequer conseguiu uma definição.
A Fundação de Artes Intersticiais recentemente publicou sua primeira antologia, Interfictions - e ainda é cedo para dizer como os leitores vão reagir a isso. Todavia, este desejo por parte dos escritores de expandir seus limites é a maior tendência na atual ficção científica. Com ou sem um movimento organizado, parece que vieram para ficar.
NEW WEIRD
O estilo New Weird é uma criação de M.John Harrison, cujos livros da serie Viriconium foram os ancestrais do movimento. Um exemplo é o escritor China Mieville, com seu livro 'Perdido Street Station', um hit da FC, igual a 'Neuromancer' de Gibson, ou 'Snow Crash' de Neal Stephenson.
A ação se passa
'Algo está acontecendo na literatura fantástica. Uma fuga. Uma liberação. E a qualidade surpreende. Noções estão se partindo e se unindo interna e externamente, através de fronteiras. Particularmente na Inglaterra, onde somos resenhados nos jornais, e vendemos e somos lidos e reescritos por outros escritores. Estamos escrevendo livros despreocupadamente, ignorando limites entre FC, fantasia e horror. Justina Robson, M. John Harrison, Steve Cockayne, Al Reynolds, Steph Swainston, para mencionar alguns escritores, e, apesar de todas nossas diferenças, compartilhamos algo. E vindos de outras áreas, escritores como Toby Litt e David Mitchell utilizam as armadilhas da FC com reverência e facilidade, que há muito se perderam no panorama condescendente literário.
O que isso tem em comum com as artes intersticiais é o descontentamento com os gêneros atuais e uma indisposição para respeitar seus limites. O que o faz radicalmente diferente das artes intersticiais é que não existe o desejo de se expandir através da fantasia, da FC e do horror. O New Weird simplesmente pretende quebrar todas as divisões, os muros entre gêneros e reformular o aspecto da ficção. Sem nenhum desejo de se tornar uma tendência.
Isso reflete um desejo poderoso por contemporaneidade de se escrever FC e ser mais estranho e intenso do que o que temos hoje. Escrever, em resumo, uma ficção que tem tudo que gostamos e ainda algo mais.
A antologia de New Weird, intitulada apropriadamente de 'The new weird anthology', foi editada por Jeff Vandermeer, que foi um crítico do movimento no princípio e depois foi vencido por ele. Vai ser lançada em 2008.
FICÇÃO CIENTÍFICA MUNDANA
A Ficção Científica mundana é o mais novo dos movimentos e o que menos tem para mostrar. Ninguém o levaria a sério a não ser por dois motivos: o primeiro é por ser uma criação de Geoff Ryman, mais conhecido por 'The unconquered country', 'The child garden' e aquele que foi nosso livro predileto de 2004, 'Air'. O segundo é um ótimo argumento:
"Toda aquela história de viagens interestelares é muito improvável. Warp drive, buracos de minhoca e outras formas de se viajar além da velocidade da luz é mais realização das fantasias do que um especulação séria sobre um futuro possível. A viagem interestelar pode nos levar à ilusão de um universo abundante em mundos hospitaleiros, iguais à Terra. Isso é inverossímel. Este sonho de abundância pode encorajar uma atitude de desperdício com a abundância que temos aqui em nosso planeta."
Existem outras trivialidades da FC que os Mundanos rejeitam, incluindo civilizações alienígenas e inteligência artificial. Significa que, para que a FC se torne uma influência positiva para o mundo, eles pretendem escrever apenas histórias que possam se passar aqui, de um futuro promissor e que podemos ter, ao invés daquele que gostaríamos de imaginar ser possível . Seria legal tomar um gole de vinho alienígena a beira de um antigo canal de Marte com a princesa marciana, dizem. Mas isso simplesmente não vai acontecer.
O ponto interessante a respeito dos Mundanos é como vários escritores respondem com ojeriza a esta retórica, enquanto concordam com suas premissas. Um dos comentários que se fazem sobre este fenômeno é que os Mundanos fazem objeção não à liberdade de brincar com a imaginação, mas ao que chamam de 'third-hand fiction' - histórias escritas por pessoas que, por não terem idéias próprias, criam imitações da FC do tipo que gostavam de ler quando eram jovens. Os mundanos ainda não montaram uma antologia própria, mas um número futuro da Interzone será dedicado a eles.
Então, são três movimentos, um tenta levar a FC além dos limites que tradicionalmente a definem, estabelecendo-se dentro daquilo que chamamos de mainstream. Outro pretende ficar dentro de seus limites, mas criando um híbrido mais vigoroso entre FC, fantasia e horror. O terceiro quer concentrar a FC dentro de conceitos mais tradicionais, o futuro será como atualmente somos.
E o que todos eles têm em comum?
http://floggingbabel.blogspot.com
http://www.interstitialarts.org/wordpress/
http://interfictions.blogspot.com/domingo, 27 de abril de 2008
Ficção Científica às cegas - Parte 2/2

Stross e Doctorow estão sentados do lado de fora no bar do hotel Chequers em Newbury, uma pequena cidade a oeste de Londres.
O hotel está repleto por uma espécie distinta de fãs de FC, membros de um grupo chamado Plokta (Press lots of keys to abort = ‘Pressione um monte de botões para abortar’)
Stross e Doctorow só se encontraram quatro vezes, mas possuem a intimidade confortável de amigos de longo tempo, o que só é possível na era do email. (Escreveram juntos inúmeras e aclamadas histórias e romances muito antes de se conhecerem pessoalmente.)
Stross, 39 anos, natural de Yorkshire, mora em Edinburgo, parece uma mistura de monge Shaolin e um balconista barbudo de uma videolocadora, com a cabeça raspada - exceto por um rabo de cavalo.
Doctorow, um canadense de 33 anos, parece um jovem escritor de moda, jaqueta de couro e óculos fashion, também ao modo dos geeks, com um laptop G4 (Mac) sempre à postos.
Parecem ter o mesmo background, Stross trabalhou nos anos 90 como desenvolvedor de software para duas firmas 'dot-com' inglesas; então virou jornalista e começou a escrever uma coluna sobre Linux para uma revista de computadores. Doctorow, que recentemente se mudou para Londres, saiu da faculdade aos 21 anos direto para seu primeiro emprego como programador, começou uma empresa 'dot-com' e foi co-fundador de um conhecido blog sobre tecnologia, o Boingboing.net.
Apesar de estarem já a algum tempo longe da programação, isso continua a influenciá-los e a infectar suas idéias.
No Chequers, Doctorow menciona o título original de um de seus romances, uma história sobre um filtro de spam que se torna inteligente e tenta comer o universo. 'Pensava em chamá-lo de /usr/bin/god ''Genial.' diz Stross."Há um público que sabe que /usr/bin significa o repositório para programas Unix e que god (Deus) seria o nome do programa, mas parece um pouco abstrato para o restante do público.
Esta tendência pode tornar difícil para um leitor desavisado de Stross; para compreendê-lo, as pessoas precisariam de uma overdose de Slashdot (um blog que se auto-intitula 'Notícias para Nerds'). Ainda assim, é esta fluência em computação que permite a estes escritores se aproximarem tanto, do futuro.
'Stross e Doctorow são os tipos certos para isso, com a cabeça cheia de bits' disse o romancista Bruce Sterling, um dos ciperpunks original.
Nesta tarde de sábado, o pessoal do Plokta convergiu para o bar, para trocar idéias e opiniões. Alguns sacaram seus laptops para aproveitar do hotspot Wi-Fi (área de banda larga de internet sem fio)local.Eles me lembraram o que acontece quando Manfred Macx, um personagem de 'Accelerando', chega em uma nova cidade no início do livro:o seu traje-computadorizado começa a trocar dados e ele pensa 'ah, a banda (internet) daqui é boa'. Eu me sinto mais como Donna, a jornalista da Field Circus, aproveitando um belo dia de conversas e drinques, questionando sobre a Singularidade.
Na mesa do bar com Stross e Doctorow, tiro vantagem de uma rara pausa na conversa para perguntar:'Será a Singularidade o evento mais notável da história humana?
'Numa resposta em dupla, os dois revolucionários dizem que será como o nascimento de uma linguagem, o ocaso da agricultura; mas logo concordam que a Singularidade irá muito além de tudo isso em intensidade.
'A singularidade é bem termonuclear em sua finalidade' diz Doctorow 'É apocalíptica, no sentido exato da palavra'.
A dramatização de Doctorow é fácil de digerir perto do que Vinge diz da Singularidade:
'Logo depois dela ocorrer, a era humana chegará ao fim. A Singularidade marcará o início da era 'pós-humana'.
Vinge espera que a Singularidade ocorrerá quando a inteligência da máquina sobrepujar a dos homens. A vida na Terra sempre avançou por simulação e adaptação, pondera. A vida animal conseguiu sua evolução desta forma. Os homens são os únicos animais que aprenderam a fazer isso mais rápido, através da solução de problemas. Uma máquina sapiente o fará ainda mais rápido.
Há uma sensação de expectativa do Plokta enquanto Doctorow se prepara para entrevistar Stross na sala de conferência da Chequers. Esta entrevista de escritor-para-escritor é um dos pontos altos da semana: duas das mentes mais avançadas dentro da FC trocando idéias livremente entre eles e a audiência, discutindo sobre tudo, desde o progresso da inteligência artificial até as tênues relações entre FC e a ciência em si.
Doctorow destila esta última questão com uma simples pergunta:
'Frankenstein seria um romance melhor se Mary Shelley usasse de detalhes biológicos corretos?'
Debatem por um pouco, então Stross sugere: 'Talvez ela estivesse correta - para seu tempo.'
Escritores de FC costumam dobrar as leis da física em prol da história, algumas vezes, Einstein que se dane, você precisa viajar mais rápido que a luz para que nosso herói consiga atravessar a galáxia de uma ponta a outra. Mas o comentário de Stross sobre os escritos de Shelleyse aplica diretamente àqueles que escrevem sobre a Singularidade: tentam ser acurados o máximo que conseguem ser em relação ao seu tempo, extrapolando tendências atuais.
Doctorow diz que só trapaceia se for forçado pela narrativa. Em 'Down and Out', por exemplo, quando as pessoas precisam ser restauradas de suas cópias de backup, os doutores baixam seus cérebros para corpos recém-clonados. A idéia de clones instantâneos é quase mágica, (na realidade clones começam como embriões e crescem até a fase adulta em tempo normal), mas o invento não funciona e permite que um personagem recentemente assassinado volte à sua velha vida para encontrar seu assassino.
O respeito pela precisão é algo natural para os geeks, mas também é um jeito de evitar aquilo que Doctorow chama de 'correções pedantes' dos fãs, que são tão exigentes quanto leais.
O escritor Larry Niven sabe disso mais do que todos. Durante a convenção mundial de FC de 1971, estudantes do MIT protestaram contra a física usada no livro Ringworld gritando:
'O Ringworld é instável!'
Stross, Doctorow e seu público não se limitam aos seus próprios interesses ou mesmo à tecnologia. Para eles, escrever textos futurísticos de FC não significa ter que entender relatividade ou estimar com proximidade a área de superfície de uma vela solar capaz de impulsionar uma espaçonave à metade da velocidade da luz.
O resultado desta obcecada atenção por detalhes gera idéias fabulosas.
Greg Egan, um cientista de computadores e escritor, é um dos inovadores da ficção sobre Singularidade e desenvolveu uma teoria inteiramente nova de cosmologia para este universo pós-Singularidade em seu livro 'Schild's Ladder'. Ele a chama de Teoria Quantum Gráfica, e seu trabalho deixou alguns de seus colegas escritores, alguns deles físicos, confusos, coçando suas cabeças. (Stross brinca dizendo que Egan, pode ser na verdade uma inteligência artificial, pois ele se recusa a dar entrevistas com medo de ser desmascarado no teste de Turing.)
'Apeals Court', uma história que Stross e Doctorow co-escreveram, se passa nos pântanos da Flórida, que sofreram reengenharia para gerar energia. 'Accelerando' é tão densamente tecnológico quanto a FC permite. Numa das passagens, Amber, a filha de Manfred Macx, recebe um pacote de seu pai há muito tempo desaparecido. O entregador da FedEx utiliza um seqüenciador de DNA rápido para que o pacote se abra e revele uma impressora 3D baseada nos condensados Bose-Einstein, uma forma altamente instável de matéria, citada primeiramente em 1995.
É uma técnica clássica de FC: Enquanto os físicos estão ocupados em descobrir uma maneira de criar e manipular esta forma de matéria e publicar seus resultados em ensaios, Stross se debruça sobre seu laptop em seu escritório, buscando artigos sobre estas idéias, concebendo o que aquele trabalho pode vir a criar em 20, 30 ou 100 anos.
Então, estes escritores estão predizendo o futuro ou apenas se divertindo inteligentemente?
Quando perguntei a Vinge, o poderoso-chefão da ficção, sobre a Singularidade, ele parafraseou Robert Heinlein:
(FC é uma grande e incestuosa família. Joan Vinge, ex-esposa de Vernor também é uma escritora de FC; então, sempre que você faz uma pergunta para um escritor, ele ou ela sempre lhe dará a resposta de outro.)
'Se você tiver 1000 macacos escrevendo FC, Heinlein disse, alguns deles poderão estar certos'.
As boas histórias, Vinge acrescenta, deveriam ao menos prover indicações úteis sobre o futuro.
'Ler uma história bem escrita de FC é como executar uma simulação com algum tipo de regra geral. Quando algo fica claro é como se pudéssemos dizer "olhe, este é um pré-sintoma do cenário Z." Então, você fica imediatamente ciente das possibilidades vindouras.
'Em 'Accelerando', as primeiras criaturas a receberem 'uploads' não são humanos, e sim lagostas. Stross disse que teve esta idéia a partir de um artigo de um grupo de cientistas da universidade de San Diego, que criou uma versão eletrônica funcional de uma pequena parte do cérebro de uma lagosta californiana. Stross resume o material publicado da pesquisa para mim, mas diz que não sabe o seu desenrolar.
Parte de mim, confesso, pensa que ele está exagerando, criando uma história como base para o seu trabalho.Poucos dias depois, volto para New York e encontro na internet as pesquisas dos caras de San Diego; pergunto a Stross se são os mesmos de quem ele me falou.
Sigo por um link desta pesquisa, faço perguntas e, algumas horas depois, um físico deste grupo, Henry Abarbanel, me liga. Ele está empolgado, mas também um pouco confuso.
Empolgado por seu trabalho em grupo ter inspirado um romance de FC, perplexo por que ele não consegue perceber uma referência de sua pesquisa na história, apesar de existirem várias referências a lagostas.Falamos um pouco sobre FC em geral: ele era um fã de Asimov quando criança;e então Abarbanel explica o que ele e seus colegas estão fazendo com estas lagostas.
A pesquisa, liderada pelo biólogo Allen Selverston, se concentra na lagosta californiana, porque apenas 14 neurônios são responsáveis por uma área do processo gástrico.
O número de neurônios é incrivelmente pequeno, o que faz com que esta área sirva como modelo. Ainda assim, entender a neurobiologia destes neurônios não é fácil.
Custou a Selverston 25 anos de estudos.
Então Abarbanel e seus colegas precisaram de mais dois anos para entender como recriar este sistema eletronicamente.Também é um trabalho difícil:
Abarbanel compara a ter todas as partes de um 747 no chão de um hangar sem o manual de instruções e tentar juntar as peças e construir um avião.
Tudo isso para simular apenas 14 neurônios.
Uma tarefa simples se comparada a simular os milhares de neurônios que compõem um cérebro humano.Naturalmente, imagino que Abarbanel iria rir sobre a idéia de 'uplodar' uma mente humana.
Mas isso não impede Stross de dar saltos em sua imaginação.
'Francamente, diz Abarbanel, não considero isso uma loucura. Mesmo que isso leve 5, 10 ou 500 anos, não tenho dúvida de queum dia descobriremos como fazê-lo'.
Esta nova tendência na FC, imagino, como todas as melhores que antes vieram, não se trata somente de predizer o futuro ou incrementar uma 'agenda' ou mesmo se trata daquele velho entretenimento com tecnologia.
É tudo isso mas também sobre explorar os limites do possível, construindo mundos distantes e povoando-os, trazendo estas grandes idéias à realidade, ao nosso mundo'.
'É o que supostamente se faz com a Ficção Científica, diz Abarbanel. Fazemos uma extrapolação absurda em magnitude, além daquilo que hoje podemos fazer e se não conseguimos fazê-lo é por que não podemos chegar lá'.
Gregory Mone (Popular Science, 2004) autor do livro 'The Wages of Genius'.
Charles Stross - Accelerando [ Download ]
Charles Stross - Singularity Sky [ Download ]
Cory Doctorow - Down and Out [ Download ]
Ficção Científica às cegas - Parte 1/2
Ficção Científica às cegas - Parte 1/2
Assombrados com a velocidade com que a tecnologia avança, uma facção de escritores (geeks de carteirinha) acredita que nosso mundo irá mudar tão radicalmente que prever o que está por vir é quase impossível.
Estamos por volta do ano 2030 e temos muito tempo para matar. Os três membros da tripulação, Boris, Pierre e Su Ang, estão sentados no bar, uma sala de paredes de madeira, decorada como um pub de 300 anos
Ah sim, a Singularidade. Uma palavra bastante real, apesar de ter sido tirada de um romance, 'Accelerando', de um escritor britânico chamado Charles Stross. A idéia foi concebida por Vernor Vinge, um cientista de computadores e escritor de ficção científica, professor emérito da universidade de San Diego. Segundo Vinge, vivemos um período sem precedentes tecnológica e cientificamente na história. Em algum momento, a convergência de campos como a inteligência artificial e a biotecnologia levará a humanidade a uma mudança sem precedentes. No momento seguinte ao acontecimento da Singularidade, o mundo será tão diferente daquele que conhecemos quanto hoje nos parece a idade da pedra.
Quatro anos atrás, diz Pierre. Su Ang vota em 2016. Mas Boris, o bebedor de medusas, diz que a noção da Singularidade é tolice. Para ele, tal coisa não aconteceu.
Espere um minuto, interrompe Su, estamos aqui viajando em uma espaçonave do tamanho de uma lata de soda limonada. Deixamos nossos corpos para trás, poupando espaço e energia necessários para que a Field Circus, movida a vela-laser, possa viajar mais rápido. Nossos cérebros foram 'uplodados' e nós vivemos eletronicamente dentro de pequenos nano-veículos espaciais. O pub aqui, assim como outros ambientes, é virtual, para que nós não soframos o choque da privação sensorial. E você me diz que a idéia de uma mudança fundamental na condição humana é tolice?
'Accelerando' é a história de três gerações de uma família disfuncional vivendo na Singularidade.
O que faz o romance pouco usual não é o tamanho da nave ou os estranhos coquetéis ou mesmo a metáfora sexual - uma transferência do código-fonte culmina em um coito - mas o fato de que Stross tem a intenção de imaginar nosso, relativamente próximo, futuro.
Este é um ato de coragem, por que a moderna ficção cientifica está passando por uma crise de fé.
A última safra de histórias, na maioria, embarcou no caminho da fantasia (elfos e magos), história alternativa e space-operas sobre civilizações interestelares do ano 12.000 (que tipicamente tratam sobre como estas civilizações se envolvem umas com as outras).
Apenas uma pequena parte de tecno-profetas está atenta a extrapolar as correntes mais comuns e imaginar como parecerá nosso mundo nas próximas décadas.
'Estamos parados em um nevoeiro, diz Stross, não sabemos para onde estamos indo, só que estamos indo bem rápido.'
Os lendários Arthur Charles Clarke, Isaac Asimov e Robert Heinlein ainda parecem soberbos. Clarke levou a humanidade a alcançar os céus com sua visão de satélites de comunicação, elevadores espaciais e estações espaciais giratórias. Asimov mudou nossa perspectiva sobre encher nossos lares com robôs que limpam, cozinham e algumas vezes se viram contra seus donos. E, com suas empolgantes aventuras espaciais, Heinlein nos levou para galáxias distantes e civilizações futuras. A época de ouro da FC, que durou dos anos 40 aos 50, inspirou gerações de jovens a se tornarem astronautas, físicos e engenheiros, a tentar tornar reais algumas daquelas histórias.
(E alguns destes jovens ainda prestam reverência a suas raízes: A NASA por exemplo, algumas vezes se utilizam de escritores de FC como consultores.)
Em uma feira de FC em Boston, meses atrás, vi à venda diversas reimpressões de clássicos da FC da época de ouro, mas também encontrei quadros de pessoas seminuas em cenas de batalhas contra dragões, vendedores de cristais e um músico de folk se preparando para um recital. Onde estava a ciência da Ficção científica? O que houve com aquela história de antecipar o futuro?
A antropóloga Judith Berman, que recentemente escreveu um artigo sobre FC, deu uma resposta terrível para estas perguntas.
'A maioria das histórias modernas é nostálgica e tratam com prudência e pouco entusiasmo as novas tecnologias. Ainda assim, existe ainda muita gente excitada com a visão da Singularidade de Vinge, mas esta mudança ainda está a caminho, científica e tecnologicamente. A cosmologia está passando por revisões fundamentais, a genética oferece, aos pesquisadores, as ferramentas para reconstruir os blocos da vida e a nanotecnologia, muito recentemente, deixou de ser uma fantasia para virar realidade.'
'Muitas linhas de progresso estão convergindo', diz o físico e editor da revista Analog Stanley Schmidt. 'Se você se fixa em apenas uma dessas linhas, você não irá entender como outra delas pode afetá-lo.'
Este novo tipo de futuro exige uma nova espécie de guia, como Stross, cujo primeiro romance 'Singularity Sky', foi indicado para o prestigioso prêmio Hugo, ou suas freqüentes colaborações com Cory Doctorow, que em 2000 ganhou o premio Campbell como melhor novo escritor de FC.
Ambos são programadores de computador por formação.São geeks. Eles acompanham o que acontece na ciência e na biotecnologia, sem esquecer de mencionar política e economia. E eles elegeram a Singularidade como a idéia que simboliza a 'nova descoberta' da nossa era. Se suas histórias irão dar vida a uma nova época de ouro ou inspirar uma nova geração de sonhadores ainda veremos, mas seu foco é pertinente.
'Agora mesmo, vivemos um tempo excitante por que existe uma explosão de descobertas na biologia, na astronomia, física, por toda parte.' diz David G.Hartwell, o editor-senior da Tor Books. 'E Doctorow e Stross são os escritores que estão mais ligados a isso tudo.'Ficção Científica às cegas - Parte 2
Por que a Ficção Científica Brasileira é invisível e marginalizada?

Marcello Simão Branco - 16/04/2008
Creio ser interessante iniciar esta conversa procurando responder ao título provocativo de um artigo do crítico e escritor Fausto Cunha, intitulado: “A Ficção Científica no Brasil – Um Planeta Quase Desabitado”.
O texto, publicado no livro 'No Mundo da Ficção Científica', do professor universitário americano L. David Allen, em 1975, faz uma recapitulação das origens do gênero no Brasil, situando-o como de importância marginal na literatura brasileira e intermitente quanto ao volume de sua publicação, baseada em sua maioria em autores estrangeiros.
Veja que o texto é de 33 anos atrás. Na época ainda havia algumas editoras publicando o gênero, até com séries específicas, como a Hemus, a Expressão e Cultura, a José Olympio e a Francisco Alves, fora outras editoras importantes que o publicavam também como a Nova Fronteira, a Brasiliense e a Record.
E anda assim, Cunha dizia que a ficção científica no país era um planeta quase desabitado, se referindo principalmente aos autores brasileiros, que ele situa como tendo o melhor momento nos anos 60, por meio das coleções de livros editadas por Gumercindo Rocha Dorea, na GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart.
Nesse sentido, agora no início do século 21, a ficção científica brasileira ainda seria um planeta quase desabitado?
Creio que com o movimento de fãs e escritores do início dos anos 80, naquilo que já foi identificado como a Segunda Onda da FCB, o gênero no Brasil começou a ser mais habitado, para usar o termo de Cunha, mas mesmo com mais de 20 anos de vida, ainda seria de uma espécie difícil de ser encontrada. Como se vivesse no subterrâneo, no fundo de um oceano ou uma região de difícil acesso.
E quais as razões desta ‘marginalização’ e desta ‘invisibilidade’? Certamente há várias, creio que relacionadas com aspectos internos à ficção científica e externos a ela.
Para aqueles que a cultuam e praticam o discurso de preconceito e marginalização é recorrente, procurando situar o problema fora de seus muros. Desta perspectiva, o gênero seria discriminado porque
1) as pessoas não gostam de ciência e a tomam como uma leitura difícil;
2) as pessoas acham que é uma literatura escapista ou alienada, que reproduz valores estranhos à sociedade brasileira, sendo não mais do que um sub-produto da
indústria cultural capitalista e
3) seria difícil levar a sério uma ficção científica escrita por brasileiros, já que o país tem problemas de educação e falta de investimento em ciência e tecnologia muito graves.
É possível defender que ao menos parte destas três razões apontadas principalmente pelo fã do gênero, tenha perdido um pouco de seu vigor.
Primeiro, porque os assuntos científicos estão inseridos no cotidiano das pessoas, num país quase totalmente urbanizado e integrado internacionalmente como o Brasil.
Segundo, porque a ficção científica não é apenas entretenimento, podendo discutir e refletir sobre grandes questões do nosso tempo e a partir de uma perspectiva ora distanciada, ora metafórica.
Terceiro, porque embora o país ainda tenha um longo caminho a percorrer em direção a uma educação básica de qualidade, o parque industrial brasileiro é o maior do Hemisfério Sul, as universidades brasileiras possuem algumas conquistas científicas importantes e, mais do que um símbolo, o Brasil é um dos poucos países do mundo que já enviou um homem ao espaço.
Estes são os chamados problemas externos ao gênero no Brasil, principalmente do ponto de vista dos fãs, mas haveria também alguns que estão situados em seu interior. Estes mais controversos e difíceis de serem comparados com os externos, pois se referem a uma realidade particular de uma pequena, mas combativa comunidade de fãs e escritores forjados em seu meio.
Em todo caso, os tais problemas externos de certa forma justificariam uma postura mais defensiva e auto-centrada por parte daqueles que cultuam e praticam o gênero no Brasil. Desta forma, criam sua própria sub-cultura, não por acaso utilizando o nome estrangeiro de fandom (domínio do fã) para se auto-intitular.
É uma marca desta geração em sua criação e desenvolvimento ser muito semelhante às suas congêneres estrangeiras, especialmente no que diz respeito às suas instituições, como clubes, fanzines, prêmios e convenções.
Por pelo menos uma década todas funcionaram relativamente bem, algumas com muito boa qualidade. É possível dizer que a comunidade brasileira de ficção científica tem procurado se integrar e participar de uma comunidade internacional dedicada ao gênero.
Ler na íntegra o artigo no site da Scarium
sábado, 26 de abril de 2008
The rough guide to sci-fi movies - John Scalzi
Contents:
The Origins: Science fiction literature
The History: A warp-speed tour of sci-fi film
The Canon: 50 sci-fi classics
A Clockwork Orange
The Adventures Of Buckaroo
Banzai Across The 8th Dimension!
Akira
Alien
Aliens
Alphaville
Back To The Future
Blade Runner
Brazil
Bride Of Frankenstein
Brother From Another Planet
Close Encounters Of The Third Kind
Contact
The Damned
The Day The Earth Stood Still
Delicatessen
Destination Moon
Escape From New York
E.T: The Extraterrestrial
Flash Gordon: Space Soldiers (serial)
The Fly
Forbidden Planet
Ghost In The Shelll
Gojira
The Incredibles
Invasion Of The Body Snatchers
Jurassic Park
Mad Max 2
The Matrix
Metropolis
On The Beach
Planet Of The Apes
Robocop
Sleeper
Solaris
Star Trek II: The Wrath Of Khan
Star Wars: A New Hope
Star Wars: The Empire Strikes Back
The Stepford Wives
Superman
Terminator 2: Judgement Day
The Thing From Another World
Things To Come
Tron
12 Monkeys
28 Days Later...
20,000 Leagues Under The Sea
2001: A Space Odyssey
La voyage dans la lune
War Of The Worlds
The Icons: Faces of sci-fi film
Crossovers: Blurring sci-fi
The Science: Theories that fuel sci-fi
The Locations: Star tours
Global: Sci-fi film around the world
The rough guide to sci-fi movies - John Scalzi [ Download ]
Horror em Amityville - Jay Anson

A 18 de dezembro de 1975 um casal jovem com três filhos mudou-se para uma bela casa com porão decorado, piscina e abrigo para barcos.
Vinte e oito dias depois eles fugiram aterrorizados, abandonando praticamente todos os seus bens.
A história fantástica de suas experiências recebeu ampla publicidade na televisão, jornais e revistas americanas. A família Lutz, porém, nunca revelou todos os detalhes para qualquer órgão dê divulgação. Agora suas lembranças cuidadosamente reconstituídas juntamente com entrevistas independentes com o clero e a polícia local -trazem à tona toda a sua angustiante história.
George e Kathleen Lutz sabiam que a casa fora cenário de um crime monstruoso -Ronald DeFeo, de 23 anos, fora condenado por ter assassinado seus pais, irmãos e irmãs. Mas a propriedade pareceu-lhes ideal, e o preço era conveniente.
No dia da mudança, um padre convidado para benzer a casa ouviu uma voz ordenar: "Saia!" Na casa paroquial, o sacerdote começou a sofrer uma série de padecimentos inexplicáveis. Enquanto isso, na nova casa, a família Lutz iniciava a mais terrível experiência de suas vidas.
Tudo começou quando a menina de cinco anos vangloriou-se de ter um novo companheiro de brinquedos, alguém - ou alguma coisa, chamada "Jodie".
Horror em Amityville - Uma história verídica por Jay Anson [ Download ]
Revistas de FC, Fantasia, Fantástico e Horror
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Capacitor Fantástico
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Tag: Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Revista
THX 1138 - Ben Bova

Chapter 1
"I need something stronger."
The observer frowned at his viewscreen picture. It was badly distorted. He could hardly make out the man's face.
"What's wrong?" he asked.
"Nothing. . . nothing really. I just feel. . . I need something stronger."
There were fifty viewscreens on the observer's panel; all of them clamoring for attention. His head throbbed painfully. He said to this one:
"If you have a problem, don't hesitate to ask for assistance. Call 348-853." And get off my back. . .
"Yes. . . Thank you, I'll be all right. I'll be all right," said THX 1138.
He stood in front of the medicine cabinet and somehow knew that the observer was no longer paying attention to him. He took two pills from the nearest bottle and returned the bottle to the cabinet.
Popping the two pills into his mouth, THX 1138 made his way back to the hologram room.
THX1138 de Ben Bova a partir do roteiro de George Lucas e Walter Munch [ Download ]
THX 1138 - Roteiro

1. BLACK T.V. MONITOR
Point of view from inside a small medicine cabinet. The door is opened creating a low hum, and throwing light on THX 1138, a man about thirty-five years old. He has a closely shaved head: which makes him appear bald. The image is distorted as seen over a TV monitor.
MALE VOICE
What's wrong?
THX takes a bottle of blue pills out of the cabinet and talks directly into the camera.
THX
Nothing, nothing really. I just feel kind of lousy. I need something stronger.
MALE VOICE
If you have a problem, don't hesitate to ask for assistance. CALL 348-853
THX
Yes, Thank you, I'll be all right. I'm all right.
He takes two of the pills and returns the bottle the cabinet.
FEMALE VOICE
For more rapid results use your new D code on your Mercicontrol card. Thank you.
THX closes the cabinet.
THX 1138 - Roteiro de George Lucas e Walter Munch [ Download ]
domingo, 20 de abril de 2008
RAY CUMMINGS

Raymond King Cummings (30 de Agosto 1887 - 23 Janeiro 1957) escritor americano nascido em New York, considerado por muitos como o pai do gênero de Ficção Científica pulp.
Cummings trabalhou com Thomas Edison como assistente pessoal e escritor de ensaios técnicos entre 1914 e 1919. Seu trabalho mais conhecido se chama 'The Girl in the Golden Atom', publicado em 1922. Sua carreira como escritor conta com mais de 750 romances e contos, alguns com o pseudônimo de Ray King, Gabrielle Cummings e Gabriel Wilson.
A brand new world
Tama of the light country
Aerita of the light country
Monster of the moon
Requiem for a small planet
The Golden temple
Derelict of space
The dead man laughs
The white invaders
Wandl the invader
The girl in the golden atom
Tarrano the conqueror
Beyond the vanish point
Brigands of the moon
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50 robots to draw and paint - Keith Thompson
50 robots do draw and paint - Keith Thompson [ Download ]
domingo, 13 de abril de 2008
Pretensões da Ficção Científica do século 21 - Entrevista com David Brin
Entrevista concedida a by Cristopher Hennessey-DeRose
David Brin, este autor-pai-marido-professor de ciências, escreveu diversos romances, entre eles o indicado ao Hugo, ‘The Postman’, que o levou a ganhar um Locus e foi adaptado para o cinema. ‘The uplift war’ e ‘Earthwere’ foram indicados para um Hugo assim como seu trabalho ‘Kiln People’.
Também tem escrito sobre a ciência por trás da FC, para revistas respeitadas, como Analog e Science Fiction Age, se tornando uma voz reconhecida, quando o assunto envolve questões políticas e sociais.
Cristopher: A Ficção Científica é largamente utilizada por inúmeros autores para contar histórias de interesse humano, e como uma decisão pode afetar muitos, tentando assim, tornar a mensagem mais fácil de digerir.
De uma maneira geral, FC é sobre expandir as perspectivas disponíveis, além do limitado presente familiar, libertando a literatura pela extensão da história do homem através do reino das possibilidades. A Fantasia vai além, mergulhando na improbabilidade.
Isto acontece por que se dá na mais poderosa parte do cérebro humano, o lóbulo prefrontal, que usamos diariamente para explorar nossas opções, criando cenários futuros ou simplesmente para o dia seguinte. Nada é mais humano. Ainda assim, algumas pessoas parecem compelidas a menosprezar a FC como uma caricatura - pastiches de Star Wars (Guerra nas Estrelas).
Não tenho idéia do porquê fazem isso.
Brin: A clonagem é inevitável, como o avião ou a eletricidade. Não é necessariamente mal. O ponto chave moral é que o clone de qualquer pessoa será uma pessoa viva, com direitos humanos. Duplicar genes não muda isso, assim como vemos gêmeos idênticos como uma cópia do outro. Se chegarmos a isso, o estúpido dilema moral - como o dos ricos pagando por órgãos novos, para se manterem vivos - irá desaparecer.
Glory Season fala sobre clonagem em um futuro próximo. Kiln People é sobre algo diferente - sobre fazer cópias temporárias de si mesmo. Essas cópias - ou golems - de vida curta, apenas um dia, não são seres vivos independentes, mas extensões da pessoa original, que redeposita suas memórias ao final do dia, oferecendo a conveniência de poder estar em dois ou mais lugares simultaneamente. Em outras palavras, é o sonho das pessoas muito ocupadas, mas com conseqüências.
Brin: Eu tento evitar colocar esta 'Coisa', nas mãos de alguma elite convenientemente segregadora - algum tipo de agência governamental obscura e conspiradora, ou de um cientista louco. Estas convenções acabam gerando histórias divertidas - mas se tornam terríveis clichês. Ao invés disso, gosto de imaginar o que aconteceria se todos tivessem acesso a esta novidade. Dando-a para as massas. Não somente por que é mais interessante, mas é o que acontece.
Cris: Ter nascido no sul da Califórnia teve algum efeito nos seus escritos?Brin: Se o ambiente onde você cresce te afeta? A Ficção Científica floresce sob condições como eu conheci quando criança - um misto de confiança e otimismo e novos tipos de terror abstrato. Abundância sem precedentes, os pulmões queimando pela fumaça venenosa de Los Angeles. Os livros de história afirmavam que, qualquer outro tempo da história humana era mais violento do que a minha calma vizinhança, uma segurança surpreendentemente acolhedora, balanceada pela expectativa do mundo, a qualquer momento, fritar numa guerra nuclear. Estas justaposições significam dizer que eu, como muitos escritores da Califórnia, nos sentimos seguros sobre discutir e explorar extravagantemente , com completa falta de inibição pessoal. Não tenho medo de ser queimado na estaca. E ao mesmo tempo, não estamos tranquilos. De uma posição segura, podemos olhar horrorizados uma miríade de fracassos, dez mil maneiras de brilhantes esperanças acabarem mal. Isso acaba criando o hábito de sempre se perguntar - ‘e se’. É claro que não é a primeira vez que o paradoxo favorece a exploração. Sempre existiu alguns jovens pirados, querendo contrariar a aristocracia e mudar as convenções. Só que agora estes poucos são centenas, e não pertencem a uma casta rica. Excentricidade tornou-se um dos traços pessoais mais admiráveis - ao menos é o que mostra a mídia de massa. Algo, definitivamente mudou e a Ficção Científica fez seu papel.
Cris: Ser classificado como autor de Ficção Científica preocupou você?
Brin: Isso pode ser um pouco cansativo. Aqueles que desesperadamente procuram erguer os muros nesse gueto, estão sempre se auto proclamando independentes, alardeando sua veneração às ‘eternas verdades da humanidade’ - uma das frases mais decrépitas que posso imaginar. Isso glorifica a crença de que a natureza humana é intrinsicamente extática - exatamente os mesmos problemas, os mesmos erros paralisantes que contaminam cada geração. Nem sequer tranformam isso em uma coisa boa! Não me entenda mal. A Ficção Científica reconhece o valor da grande literatura do passado, de Aristóteles a Melville, de Shakespeare a Shelley. Mas neste longo percurso, nossos jovens devem lutar contra as mesmas agonias mostradas por Eurípides, Dostoyevsky e Fitzgerald? Não é o propósito de uma boa história, transmitir empatia pelo sofrimento do outro, para que outros não precisem repetí-los?
As crianças não são capazes de aprender com os erros dos pais? Se podem, então certamente eles se depararão com problemas novos e estarão diante de novos desafios, iguais aqueles que enfrentamos, que nossos avós consideravam impossíveis. Ao invés de ‘verdades eternas’, a ficção cientifica é obcecada por transformações e mudanças. Explorar as possibilidades - para o bem e para o mal - o que nos espera logo à frente. Que gênero poderia ser mais relevante nos tempos em que vivemos?
Cris: Do ponto de vista de negócios, você prefere tratar com editores ou diretores de cinema?
Brin: Hollywood tem a vantagem de estar voltada para o lucro obsceno - de uma maneira ou de outra, você não pode resistir. Em contraste, publicar é relativamente barato. O lado bom disso é que os grandes egos são atraídos para o cinema. Publicar é bem menos avarento e intrometido. Se você se garante como autor, você fica livre para criar o que você bem quizer. O meio do caminho entre uma coisa e outra, é o mundo das graphic novels (quadrinhos para adultos). Meu segundo título (enorme - 144 páginas) chamou-se ‘The life eaters’ (DC Comics, Outubro de 2003), foi uma colaboração fascinante com um grande artista, Scott Hampton, mais Todd Klein, assim como produtores, diretores de arte, etc.
O processo de roteiro - é muito parecido com o de um filme. Um filme de orçamento baixo porém, com maravilhosos - apesar de planos - efeito especiais, e a complexa satisfação de ter participado dos esforços de uma equipe de verdade. Espero que venham a aparecer outras formas de intermediar as artes no futuro, de uma maneira de que toda a noção de fazer um filme e contar uma história, se misturem em algo novo.
Cris: Como você fica por dentro da tecnologia atual?
Brin: As pessoas me mandam coisas. Sou convidado a participar de conferencias científicas. Sou contratado como consultor ‘tecno-futurista’ por empresas de ponta. Em outras palavras, sou bem pago para fazer perguntas para as mentes mais brilhantes do mundo. A vida é tão injusta. Em outras civilizações, eles queimavam gente como eu em estacas. Apesar de uma miríade de perigos e rompantes de estupidez, vivemos uma verdadeira renascença.
Cris: O que te inspira?
Brin: A difícil saga da história humana. Toda manhã quando levanto e percebo que os bárbaros não incendiaram minha casa, nem levaram meus filhos, é um grande dia. Qualquer um que nega a palpável existência do progresso, não sabe nada sobre a vida, ou o passado. Mas é uma confiança frágil. Pode ser destruída se formos tolos ou não batalharmos o máximo que pudermos. Não quero que minhas crianças voltem a viver em cavernas. Quero vê-los voando por ai, feito deuses, em um mundo seguro. É pedir muito? Os chatos e os niilistas que criticam sem parar, sem ver o progresso, não estão tentando fazer as coisas melhorarem. Estão só aproveitando o barato entorpecente do ressentimento, sem contribuir com coisa alguma construtiva. De qualquer forma, é melhor eu estar certo. Por que só um mundo, cheio de pessoas espertas, será capaz de lidar com os problemas que esperam à nossa frente. Grandes problemas requerem atenção de uma civilização melhor.
Cris: Qual a responsabilidade dos escritores de FC hoje?
Brin: Liberdade. Liberdade para explorar. Para se encantar com a mudança e com a transformação e compartilhar com prudência este encanto, com as pessoas que irão experimentar rápidas mudanças em suas vidas.
Cris: O quanto deste papel de desorientação social cabe a Ficção Científica atual?
Brin: Bastante, eu creio. Poucos autores estão dispostos a considerar a possibilidade das pessoas comuns serem mais inteligentes do que eles pensam. De fato, eu acho isso surpreendente, quão adaptáveis as pessoas comuns podem ser. Se fossem completos idiotas, ao invés de agir como tolos - todos estariam mortos. Então por que tantos escritores agem como se tivessem inventado o ultraje moral e o as roupas de couro pretas? Não tem uma mensagem mais comum na mídia em massa - dos vídeos de rock aos filmes e romances - do que a 'Suspensão da Autoridade' (“Rebeldes são sempre os heróis. Obediência das normais é mostrado como algo pior do que a morte" Jean Baudrillard) Recebemos esta mensagem desde bem cedo. Não dá para convencer as pessoas de sua quase infinita capacidade criativa, se as pessoas inteligentes permanecerem nos mesmos ‘tropos’ (movimento orientado por um estimulo exterior que opera unilateralmente) com que foram amamentadas.
Cris: Algum conselho final para se viver o século 21 ?
Brin: Questione conjecturas. O esperado. Meus colegas autores de FC - vocês são pagos para isso! Em algumas outras culturas, seriamos queimados por isso! Diabos, nossa cultura
pode derrepente se deteriorar - está mais perto disso e já quase aconteceu várias vezes.
www.davidbrin.com
www.futurist.com/portal/future_trends/david_brin_empowerment.htm
sábado, 5 de abril de 2008
A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Notas e links
O PLANETA DOS MACACOS E O OSCAR
O filme ‘O Planeta dos Macacos’ (PLANET OF THE APES) foi baseado no romance de Pierre Boulle, dirigido por Franklin Schaffner e recebeu três indicações para o Oscar de 1968: Arranjo musical (Jerry Goldsmith), Figurino (Morton Haack) e Maquiagem (John Chambers). Ganhou com o último.
O CENÁRIO LUNAR
Havia uma teoria na época sobre uma conspiração ligando Stanley Kubrick e a NASA. Ele teria auxiliado na criação dos efeitos especiais utilizados na fraude do pouso lunar americano.
A imagem http://www.afraudedoseculo.com.br/images/kubrick3.jpg é do set do filme ‘2001’.
A RENÛNCIA QUE QUASE CANCELOU O FILME
Lyndon B. Johnson, líder político democrata, eleito vice-presidente de John Kennedy em 1960, assumiu a presidência dos EUA após o assassinato de Kennedy e foi o idealizador da ‘Grande Sociedade’. Sob seu governo, o país fez explorações espaciais espetaculares. Quando três astronautas orbitaram com sucesso a lua (Dezembro de 1968) Johnson disse:: "Vocês levaram todos nós, de todo o mundo, a uma nova era."
Apesar de ter sido reeleito em 1964, crises como a da questão racial e a situação no Vietnã, o levaram a entregar o cargo em 1968. Morreu cinco anos depois, de ataque cardíaco, em seu rancho no Texas.
BRITSH INTERPLANETARY SOCIETY (BIS)
A FAMOSA PARTIDA DE XADREZ ENTRE MÁQUINA E HOMEM
Em Maio de 1997 o supercomputador da IBM, Deep Blue, disputou várias partidas com o campeão mundial de xadrez da época, Garry Kasparov, derrotando-o. O evento foi transmitido pela Internet.
A BELL
Conhecida como Bell Labs ou hoje, AT&T Bell Laboratories, é uma empresa dedicada a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e teve sua origem na Bell Telephone Company fundada em 1878 por Alexander Graham Bell.
ALAN TURINGA ENIGMA
Enigma era uma máquina usada para de/criptografar mensagens. Usada comercialmente desde 1920, foi adotada pela Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
A ilha de Sri Lanka, ou pequena lágrima da Índia, no passado conhecida como Serendib, Dharma e Ceilão, fica no sul da Ásia, a 31 km da Índia. Ex-colônia inglesa, é desde 1948, uma república independente.
Marvin Lee Minsky professor da MIT, formado em matemática pela Harvard e Princeton, é uma autoridade no campo da Inteligência Artificial, psicologia cognitiva, lingüística computacional, robótica e ótica. Trabalhou na construção do primeiro simulador de rede neural e colaborou no desenvolvimento das mãos mecânicas, no microscópio de varredura, no sintetizador musical e na linguagem Logo, entre outras invenções.
DAISY
A canção ‘Daisy Bell’, que faz parte da cultura popular inglesa, foi utilizada em 1962 pelo físico John Larry Kelly Jr. da Bell Labs, para demonstração do sintetizador de voz desenvolvido pela empresa. Arthur Clarke por coincidência visitava na época um amigo, John Pierce, na Bell Labs, e ficou tão impressionado que solicitou uma gravação para ser usada em ‘2001, Uma Odisséia no espaço’.
A letra: ‘ There is a flower within my heart / Daisy, Daisy / Planted one day by a glancing dart / Planted by Daisy Bell / Whether she loves me or loves me not / Sometimes it's hard to tell / Yet I am longing to share the lot / Of beautiful Daisy Bell / Daisy, Daisy, give me your answer do / I'm half crazy all for the love of you / It won't be a stylish marriage / I can't afford a carriage / But you'll look sweet upon the seat / Of a bicycle built for two / We will go 'tandem' as man and wife / Daisy, Daisy / Ped'ling away down the road of life / I and my Daisy Bell / When the road's dark, we can both despise / Policemen and lamps as well / There are bright lights in the dazzling eyes / Of beautiful Daisy Bell / I will stand by you in "wheel" or woe / Daisy, Daisy / You'll be the bell(e) which I'll ring you know / Sweet little Daisy Bell / You'll take the lead in each trip we take / Then if I don’t do well / I will permit you to use the brake / My beautiful Daisy Bell’
Big Brother é um personagem ficcional do romance 1984 (de George Orwell), o enigmático ditador de Oceania, um estado totalitário. Orwell descreve que todos nesta sociedade, são permanentemente mantidos sob a vigilância através da tele-telas. O povo é constantemente relembrado disso pela frase ‘Big Brother está vendo você’ e a sua representação lembra a aparência do ditador russo Stalin. O livro não deixa claro se Big Brother realmente existe como uma pessoa ou se é uma imagem criada pelo Partido que governa Oceania.
DOUG LENAT
Douglas B Lenat, matemático e físico, é presidente da Cycorp Inc. em Austin,Texas, e um proeminente pesquisador de inteligência artificial, engenharia ontológica, especialmente sobre ‘máquinas que aprendem’ (programa Eurisko). Trabalha também com simulações militares e ficou conhecido por um artigo criticando a validade do conceito de mutação randômica do Darwinismo.
SONHO E REALIDADE, O COMPUTADOR DE 2001
Como se construir HAL hoje, em 3 simples passos
Restaurando a reputação de HAL (Wired)
Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4
A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 4/4

Stork: Será que o desenvolvimento dos CG mudará a natureza fundamental da nossa interação com computadores. Será mais visual do que tátil?
Clarke: Irá ser cada vez mais visual, mas também pela fala, e as pessoas já estão tratando computadores como indivíduos, cada vez mais.
Stork: Você consegue enxergar seu laptop ou desktop com uma personalidade ou uma identidade?
Clarke: Meu computador tinha um programa que dizia ‘Me desculpe Dave, eu não posso fazer isso’, quando eu o mandava fazer algo idiota. Mas não é uma personalidade de verdade ainda.
Stork: Podemos ocasionalmente atribuir um sentido nosso às máquinas, mas HAL tinha seu próprio e sabia que existia, de alguma forma. De onde isso veio?
Clarke: Não tenho certeza de onde tiramos nosso sentido de identidade, obviamente ele se desenvolve conforme crescemos e presumidamente HAL também desenvolveu ao nascer em Urbana, ao aprender com Mr.Langley.
Clarke: Não vejo razão por que um computador não possa possuir qualquer atributo que um ser humano possui. Gosto de citar Marvin Minsky quando diz ‘Sou uma máquina, eu penso’. e você poderia dizer ‘Sou uma máquina, tenho emoções.’ E nós somos máquinas, máquinas baseadas em carbono, algumas pessoas podem dizer ‘ah, você é muito mais do que uma máquina’. Ok, me mostre o que temos, que uma máquina não poderia ter? Esta discussão já dura milhares de anos, eu acho. O fantasma na máquina.
Stork: Então para você não há diferença fundamental entre coisas animadas e inanimadas?
Clarke: Neste espectro contínuo sim, entre estar vivo e não estar, consciente e inconsciente não há divisórias, acho.
Stork: A obscura distinção entre humanos e máquinas, entre animados e inanimados, pensante e não pensante.
Clarke: A barreira entre máquinas e homens, entre computadores e homens, está se movendo o tempo todo. E eventualmente haverá computadores que pensarão serem seres humanos, se você deixar que eles se desenvolvam. E ultimamente podem haver computadores que começaram a fazer coisas que nós sequer começamos a entender, já que uma geração de computadores sucede a outra, com mais e mais recursos. Este é o pensamento que assusta muita gente. Sabe, a velha história de Frankenstein, mas eu sempre disse, talvez otimisticamente, que a real inteligência não será malévola.
Stork: Por que?
Clarke: Qualquer inteligência não será malévola ou agressiva, até que tenha que se defender. Costumo dizer que se houver uma guerra entre homem e máquina, eu saberei dizer que lado a começou.
Stork: Mas imagine que Kubrick discordasse disso. Que máquinas pudessem ser malévolas e que fossem. Ele poderia ter uma idéia diferente de quem começou a guerra.
Clarke: Kubrick tinha uma visão sarcástica, se não pessimista, da tecnologia. É claro que ‘Dr.Strangelove’ é um clássico exemplo de máquinas que vão para o lado errado. Eu não sei se ele concordaria comigo, que uma máquina realmente inteligente não faria o mal.
Stork: Para seres humanos evoluírem é necessário algum conflito. As máquinas não necessitam da seleção natural, do conflito. Talvez esta noção do beneficio inerente ao conflito seja algo que se perca com relação às máquinas e portanto, elas não precisariam ser beligerantes.
Clarke: Nós provavelmente desenvolvemos nossos instintos agressivos através da evolução, por vivermos em um ambiente perigoso, então as máquinas não teriam este pano de fundo, então talvez não fossem agressivas e não fossem malévolas, a não ser que fossem deliberadamente programadas por nós neste sentido, o que é incidentalmente o que ocorre hoje. Todas esperando dentro de silos subterrâneos espalhados pelo mundo.
Stork: Você é praticamente um otimista quanto a tudo que eu li e tudo que sei sobre você. Tudo que eu vi de Kubrick me parece bem pessimista. Foi difícil trabalhar junto com ele, se admitirmos que vocês são pessoas com visões de vida diferentes?
Clarke: Discutíamos sobre todo tipo de coisa, mas não me lembro de perdermos nossa cabeça em momento algum, um com o outro; exceto talvez por uma coisa; a data de publicação do livro.
Clerke: Ele disse que não tinha tempo de olhar meu manuscrito, pois estava ocupado demais com o filme. Apesar disso, tudo correu bem.
Stork: Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre o livro e o filme?
Clarke: São inúmeras diferenças fundamentais entre eles. No livro usamos a gravidade de Júpiter como um impulso (flyby), exatamente como a Galileo fez e está fazendo e as outras sondas espaciais também. Fomos para Saturno por dois motivos: Saturno é o mais belo e mais espetacular dos planetas. Nós decidimos não ir para Saturno no filme por que o departamento de artes não conseguiria reproduzi-lo, e fiquei feliz com isso, por que sei da incrível complexidade dos anéis de Saturno. Nosso Saturno iria parecer ultrapassado, datado. Fiquei feliz por trocar por Júpiter, que também é bastante espetacular, de qualquer maneira.
Stork: O departamento de artes trabalhou bem com a lua. Diga-nos sobre o esforço de fazer uma lua direito. Vocês depois conversaram com astronautas que estiveram lá e que poderiam comparar sua versão com a lua de verdade.
Clarke: Quando fizemos o filme não sabíamos exatamente como era a superfície lunar. Sabemos agora que a superfície é bombardeada constantemente. Tivemos que fazer algumas apostas. Felizmente não estávamos tão longe da verdade. Não pareceu muito ridícula. Os astronautas depois nos cumprimentaram. Eu tenho ao meu lado um belo mapa lunar da missão Apollo 15, com a assinatura deles. Eles deram nome a uma das crateras, de um dos meus livros. Muitos disseram que parecia que nós havíamos estado lá antes deles.
Stork: Uma das diferenças entre o livro e o filme, é que o livro explica bastante enquanto o filme não. Por que não ter as explicações no filme?
Clarke: Sempre sou acusado de dar explicações demais no livro e Stanley era acusado de não tê-las feito, mas Stanley dizia para mim ‘Eu quero dar a você uma experiência emocional, e você não precisa entender exatamente o que está acontecendo, se você sentir aquilo que eu quero evocar.’ Acho que ele estava certo. Stanley queria criar um mito, e um mito é inesgotável e você pode ter suas próprias idéias sobre aquilo ou você pode não concordar com a opinião do cara sentado ao lado. Eu tentei explicar o necessário. Talvez eu tenha explicado coisas demais.
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