A cada vitória contra os rebeldes Corelianos, Jacen Solo se torna mais e mais admirado, mais poderoso, e mais certo de conseguir a paz galática. Mas a paz pode ter seu preço. A despeito das relações estremecidas por conta de pontos de vista, Han e Leia Solo e Luke e Mara Skywalker permanecem unidos por uma terrível suspeita - Alguém está manipulando a guerra, e se ele ou ela, não for detido, todos seus esforços para uma reconciliação podem ser inúteis. Sinistras visões levam Luke a acreditar que a fonte do mal não é outra senão Lumiya, Lady Negra dos Sith.
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Star Wars - Legacy of Force - Aaron Allston
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
A Ficção Científica está morrendo? - William Gibson
O futuro da FC ? Nós o estamos vivendo hoje.
Aquela série “História do Futuro” ( ‘Future History’, descreve um futuro projetado para a raça humana da metade do século 20 ao início do séc.23) que nós liamos nos livros de Robert A.Heinlein, quando eu tinha 14 anos de idade, ficou para trás.
Sempre havia uma ditadura teocrática americana. Acho que passamos disso.
Aquela coisa que chamamos de FC e que fazemos através da literatura, sempre estará conosco.
O gênero é chamado assim desde 1927.
É algo relativo a natureza dos gêneros, não a natureza da FC em si.
A coisa mais interessante que aprendi com a FC é que cada momento presente, é sempre o passado de alguém e o futuro de outro. Entendi isso quando criança, nos anos 50, quando eu lia FC escrita nos anos 40; antes mesmo de saber na verdade muita coisa sobre a história dos anos 40, ou sobre história como um todo. Eu literalmente tive que deduzir o fato da segunda grande guerra mundial, como se faz em engenharia-reversa, minha primeira iteração pessoal da história do século 20 fora da FC dos anos 40.
Eu cresci numa monocultura - o que era altamente problemático - e a FC me permitia um grau de perspectiva cultural salvadora, que eu nunca teria de outro modo.
Eu espero que isso ainda aconteça hoje, para pessoas que precisam disso, mas hoje em dia, temos outras possibilidades.
Poucos anos depois de descobrir as ‘Histórias do Futuro’ de Heinlein, eu adotei , como um completo idiota, o lema de Ballard - ‘A Terra é um planeta alienígena’ - de que o futuro é quase como hoje.
O espaço (para onde a FC nos levava) se tornou metafórico. Virou espaço interior.
Quando comecei a escrever FC, aos 20 e poucos anos, descobri que só poderia deixar a Terra de uma forma auto-consciente, nostalgicamente, algo do tipo orbita baixa, o futuro havia migrado para uma forma diferente que emergia, que eu decidi chamar de ciberespaço.
Quando eu tinha 20 anos eu não queria nada além de ser um escritor de FC.
Hoje eu não tenho certeza de que me tornei um.
Eu suspeito que eu já fosse algo mais quando comecei - provavelmente o que Donald Theall (1928-2008) definiu como ‘para-modernista’ significando qualquer texto cultural que não é nem moderno nem pós-moderno, mas que também pode ser classificado tanto quanto um como outro ou ambos. Eu assumo isso ao concordar que o momento presente é sempre infinitamente mais estranho e mais complexo do que qualquer futuro que eu possa imaginar.
Meu trabalho será (por um tempo, de qualquer maneira) capturar estranhos fragmentos deste nosso presente-alienígena em mundos (como dizemos em FC) que podem vir a ser ‘o futuro’.
Se eu pudesse magicamente acessar alguma informação do futuro de verdade, eu escolheria ver a história passada e aquilo que eles poderiam ter e que se parecesse com FC. Os produtos de duas diferentes atividades especulativas. Eles sabem tudo do nosso passado, mais do que nós sabemos, e tentando fazer uma engenharia reversa da história, fora dos sonhos, como eu me lembro, seria algo excitante e único.
O último livro de William Gibson se chama ‘Spook Country’.
Site oficial de William Gibson
Reflex - Steven Gould
Steven Gould começou sua carreira de escritor com um grande sucesso da Ficção Científica, intitulado 'Jumper'. Sua sequência só seria lançada quatorze anos depois; 'Reflex'.
Em 'Jumper', Davy descobre sua habilidade , quando em perigo, de se transportar no espaço-tempo. Davy procurava por um santuário, por explicações e acabou encontrando Millie, seu grande amor.
'Reflex' se passa doze anos depois de 'Jumper', Davy e Milie estão vivendo juntos e felizes, Davy ocasionalmente trabalha para a Agência de Segurança, embolsando um bom dinheiro 'honesto', realizando trabalhos considerados 'impossíveis'.
Mas nem tudo é perfeito, pois alguns caras malvados aparecem em cena, interessados nos poderes do rapaz.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009
A Ficção Científica está morrendo? - Stephen Baxter

É verdade que muitos dos velhos sonhos da Ficção Científica já se realizaram ou estão ultrapassados.
A sensação que temos é que vivemos um tempo de mudanças aceleradas. Mas a FC não se trata - raramente - de predizer o futuro, mas de falar sobre nossa ansiedade e sonhos do tempo em que foram escritas.
Na época de HG Wells, a teoria da evolução das espécies causou um grande choque na sociedade, então o clássico de 1895, ‘The time machine’ (A máquina do tempo), não se trata realmente de predizer o ano de 802.701 mas uma meditação angustiante sobre as implicações do darwinismo sobre a humanidade.
Conforme a ciência avança, uma imensa variedade de futuros são gerados pela FC.
Durante as décadas de 50 e 60, tivemos as histórias sobre holocausto nuclear e suas conseqüências, como ‘A canticle for Liebowitz’ de Walter Miller.
Os anos 80 assistiram uma explosão de poder computacional, que levou a surgir o ciberpunk, como Neuromancer de William Gibson.
Hoje nós temos as possibilidades de um futuro trans-humano unindo informação tecnológica e biotecnologia - basta ver livros como ‘The secret life’ de Paul McAuley.
Temos também as questões da mudança do clima, exploradas pela série ‘Science in the Capitol’ de Kim Stanley Robinson e no meu livro ‘Flood’.
FC é uma maneira de se lidar com mudanças, ou aprender sobre isso, como internalizar isso - não tanto como a profecia está para a terapia de massas. É claro que nos dias de hoje podemos pegar um livro como ‘The Flood’ de Maggie Gee, um livro sobre desastres em um futuro próximo, publicado sem nenhuma referencia ao gênero FC. Não creio que esteja errado.
Na verdade, isso mostra o sucesso da literatura de sci-fi e de seus métodos.
A FC já foi assimilada, mas ainda continua lá, servindo para a mesma função.
Nos anos que estão por vir, quem sabe ficaremos sem petróleo, água ou ar. Sempre haverá material o bastante para a FC e a necessidade dela, no entanto, ela se encontrará rotulada como tal nas livrarias.
O último livro de Stephen Baxter chama-se ‘Flood’.
Site oficial de Stephen Baxter
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
A Ficção Científica está morrendo? - Margaret Atwood
Se a FC está ficando fora de moda? Não há motivo para me perguntar isso - sou velha demais - mas eu tive uma conversa com Randy do meu banco, que parece ter uns 25 anos. (O que deve significar que tem uns 35, a medida que você envelhece, os outros parecem mais jovens, assim como quando você é jovem o velho parece mais velho ainda. Tempo é relativo. Sei disso de tanto ler FC.)
Eu sei que ele é um fã de sci-fi por que me disse ter gostado muito de ‘Oryx and Crake’.
Enquanto eu conversava sobre assuntos de banco com ele, pedi sua opinião.
A primeira parte da nossa conversa foi sobre o significado do termo FC.
Para Randy, e eu acho que ele é representativo, sci-fi inclui outros planetas, que podem ter ou não, dragões. Isto inclui toda a coisa paranormal, não aquela mesa da sua tia que sai vibrando ou coisas se partindo, mas pessoas capazes de mudar de forma e com olhos vermelhos, sem pupilas, e coisas que tomam conta do seu corpo. Isto sem falar nas naves espaciais e cientistas loucos e experimentos que dão terrivelmente errado.
O terror comum não conta - assassinos com serras-elétricas e coisas assim.
Randy e eu concordamos que você pode encontrar um desses andando pela rua. É aquilo que você não pode encontrar nas ruas é que conta, para Randy. E ele acha que estas coisas não saem de moda. Eu concordo com ele.
Nem tudo na FC é sobre ciência - a ciência ocorre em um outro nível da trama, como uma ferramenta, mas o que manda é a ficção.
A forma narrativa é o que interessa; é o caminho através da escuridão e a parte mais brilhante do mundo da imaginação humana; um mapa daquilo que mais desejamos e também do que mais tememos. É por isso que é tão importante. Fala do que faríamos se nós pudéssemos.
E graças a ciência, cada vez mais nós podemos.
O trabalho mais recente de Margaret Atwood é ‘Oryx and Crake’, uma ‘ficção especulativa’.
Site oficial de Margareth Atwood
A Ficção Científica está morrendo?
A Ficção Científica está morrendo?
Marcus Chown - New Scientist - 12/11/08
Anos atrás, em uma das minhas matérias para a New Scientist, fui entrevistar o astrônomo americano Carl Sagan em Londres. Carl Sagan, conhecido por seus livros de ciência e a popular série Cosmos feita para televisão, e seu romance ‘Contact’ (Contato), que acabou virando um filme estrelado por Jodie Foster.
Ao encontrar o homem em pessoa, perguntei-lhe o que preferia - Ciência ou Ficção Científica?
‘Ciência’. Disse sem hesitar. ‘Por que a ciência é bem mais estranha do que a Ficção Científica’.
De lá pra cá, descobrimos que 73% da massa-energia do universo se encontra na forma de ‘energia negra’ (dark energy), responsável por acelerar a expansão cósmica, descobrimos micro-organismos vivendo na escuridão das profundezas debaixo da terra e mesmo dentro de reatores nucleares, e vemos o crescimento da teoria da super-corda, onde a matéria, como pequenas cordas, vibram na décima dimensão espacial.
Se a ciência é mais estranha do que a Ficção Científica (FC), como Sagan me disse décadas atrás, então hoje é ainda bem mais estranha.
Isso leva muitas pessoas a reinvidicarem que a ciência - e a tecnologia - estão mudando tão rapidamente que é difícil para a FC manter-se à frente dela.
No passado a FC falhou em predizer o transistor, que a cada ano com a miniaturização, permitiu existirem computadores que dominassem o mundo moderno. No futuro, seguindo este argumento, será ainda mais difícil para os escritores de FC predizer os desenvolvimentos tecnológicos que irão mudar as nossas vidas.
Ficção Científica (FC), dizem os profetas do apocalipse, está morta, ou se ainda não está morta, se encontra em estado terminal.
‘A discussão sobre se a ciência está tornando a FC obsoleta está ocorrendo nas convenções de FC desde que eu as freqüento.’ diz John Cramer, um escritor de FC e físico da Universidade de Washington em Seatle.
‘Me lembro de 15 anos atrás, um proeminente editor de livros de FC, dizer que o programa espacial fizera a FC baseada em viagens espaciais (ficção espacial) desnecessária. ’
Tais reclamações são reminiscentes das perenes alegações de que a ciência está morta ou morrendo, quando o proeminente físico Lord Kelvin em 1900, declarou ‘Não há nada de novo para ser descoberto na física hoje. Tudo que sobrou é medição mais e mais precisa’. Isso, é claro, foi bem antes de o átomo ser partido e de todos os cientistas serem apresentados ao quantum. No caso da FC, a premissa dos profetas do apocalipse é que o gênero trata de predizer o futuro.
Na verdade pouco se trata disso.
A pergunta ‘o que é Ficção Científica’ é costumeiramente objeto de acalorados debates.
De qualquer maneira, em um nível bastante básico, a ciência e a extrapolação dela provêem mundos alternativos nos quais a história ocorre.
Contadores de história têm invocado mundos diferentes desde os tempos antigos para entreter seus ouvintes, com lendas que os levavam para longe da realidade, dando significado aos eventos de sua existência cotidiana.
Também como instrumento para se contar uma história, a FC freqüentemente articula nossas preocupações e ansiedades atuais - paradoxicalmente, se trata do aqui e agora, mais do que o futuro.
Como Stephen Baxter aponta no romance de 1895, ‘The time machine’(A máquina do tempo) de HG Wells, famoso por popularizar a idéia da viagem no tempo, ela fala mais propriamente sobre o que a seleção natural de Darwin fez com a raça humana. Em 1968 o romance ‘Stand on Zanzibar’, de John Brunner já imaginava as conseqüências da superpopulação. ‘The Lion of Comarre’ de Arthur C.Clarke, explora realidades artificiais criadas por computadores, que levariam as pessoas a desprezar a realidade pouco interessante.
Todos estes livros tratam de imaginar onde os dias atuais, freqüentemente preocupantes, e suas tendências cientificas e tecnológicas poderão nos levar.
Eles podem agir como um sinal de aviso ou no mínimo servir, nos preparando para o que o escritor americano Alvin Toffler chamou de ‘choque do futuro’.
Ficção Científica é literatura sobre mudança. Não é coincidência de que tenha surgido como gênero reconhecido com escritores como Jules Verne no final do século 19, uma era em que pela primeira vez na história, as crianças poderiam crescer em um mundo radicalmente diferente daquele dos seus pais. E esta mudança acelerou no século 20.
Enquanto que a mudança é uma parte das nossas vidas, FC se parece com sobreviver. Mesmo que de fato, a ciência seja bem mais estranha que a FC, isso não deveria deter os escritores.
‘Nós precisamos que nosso processo cerebral esteja bem lubrificado, para impedir que a imaginação atrofie.’ diz Cramer. ‘É algo que nós, escritores de FC hard, sempre fizemos.’
Existe também a idéia de que ao invés de estar morrendo, a FC está mudando.
De 1930 a 1950, a FC viveu no triste gueto das revistas populares (pulp magazines), cujas capas exibiam alienígenas com olhos de inseto, aterrorizando indefesas heroínas. Após batalhar para se ver livre destas correntes, a FC moderna, semi-respeitável, nasceu.
Mais tarde nós vimos não somente os romances de SCI-FI alcançarem as listas dos mais vendidos, o gênero alcançou audiências gigantescas através dos games e filmes como Star Wars (Guerra nas Estrelas) e The Matrix.
Os temas de sci-fi também se infiltraram na ficção comum.
Malorie Blackman, em seu best-seller ‘Noughts and Crosses’, uma trilogia para adolescentes, explorou um mundo onde negros e brancos trocavam de cor. Kazuo Ishiguro, em seu belo romance ‘Never let me go’, reconta a triste história de pessoas que foram clonadas especificamente para doar seus orgãos. E o que dizer sobre a vencedora de um Prêmio Nobel, Doris Lessing e sua ‘ficção espacial’, com seus maravilhosos livros sobre Shikasta. E Haruki Murakami, o mais famoso escritor do Japão, a quem a crítica atribuiu temas de FC em livros como ‘The wind-up Bird Chronicle’?
A linha entre FC e a literatura comum, se tornou incrivelmente imperceptível, contudo o gênero continuará sem dúvida, a ter sua própria seção nas livrarias, mesmo que para alguns, aquilo chamado de sci-fi, não seja leitura para qualquer um.
Como os dinossauros, longe de terem desaparecido da Terra, transformaram-se em pássaros que ainda povoam grande parte do planeta, a FC se metamorfoseou em uma multiplicidade de formas, muitas delas ainda bastante atuantes. A velocidade das mudanças, enfatizada por Sagan, simplesmente colocou a FC em um nível de imaginação superior para os escritores da atual geração. Não há por que não acreditar que também não aumentou o desafio.
Seis importantes autores de FC nos dizem o que pensam sobre para onde o gênero está indo.
Margaret Atwood, Stephen Baxter, William Gibson, Ursula K Le Guin, Kim Stanley Robinson e Nick Sagan.
domingo, 4 de janeiro de 2009
A Guerra e Matadouro Cinco
Com seu enorme bigodão e seu humor negro, Kurt Vonnegut era chamado de Mark Twain moderno.
De 1952 a 2005, Vonnegut escreveu dezenas de romances satíricos. A memória e a Segunda Grande Guerra Mundial, e seus efeitos sobre os indivíduos americanos e sobre seu pais, são os temas que prevalecem nos trabalhos de Vonnegut.
Kurt os encarou diretamente em sua obra prima, publicada em 1969, Matadouro Cinco, ou a Cruzada das Crianças.
Vários episódios dramáticos, como o suicídio de sua mãe no dia das mães, quando ainda jovem, e ter sobrevivido ao bombardeio aliado à cidade de Dresden, tiveram enorme impacto em seus trabalhos, principalmente em Matadouro Cinco.
Kurt Vonnegut era a quarta geração de uma família de descendentes de alemães.
Antes de se alistar para a Segunda Grande Guerra Mundial, formou-se em química e trabalhou como editor do jornal estudantil por dois anos, na faculdade de Cornell.
No Exército, serviu como tradutor de alemão na infantaria. Foi capturado durante a batalha de Bulge em 1944 e transportado para um campo de prisioneiros na cidade industrial de Dresden, na Alemanha.
Poucos dias após chegar em um campo de trabalhos forçados, Vonnegut sobreviveria e testemunharia o bombardeio a Dresden, que causou a morte de 135 mil civis alemães, quase o mesmo número obtido pelas duas bombas atômicas no Japão. Depois da Guerra, terminou a faculdade, obteve seu mestrado em antropologia na universidade de Chicago e trabalhou como repórter policial.
Em 1952, sua carreira de escritor começou, com a publicação de ‘Player piano’.
Matadouro Cinco é a historia de Billy Pilgrim. O protagonista é um fraco complacente.
Ele não tem medo de morrer, pois não tem paixão por viver.
Como um soldado americano na Segunda Grande Guerra, Billy tinha praticamente a mesma experiência de Vonnegut, - era um prisioneiro da Batalha de Bulge e tinha sobrevivido ao bombardeio de Dresden. Casara-se com uma mulher revoltante, pois o pai dela o faria rico.
Depois da queda de seu avião, Billy dizia ter sido raptado por Tralfamadorianos, seres extraterrestres que viajavam através do tempo e espaço.
Ele adotou uma atitude tralfamadoriana diante da morte – que era inevitável e previsível - e dizia uma frase, a cada vez que encontrava com a morte, incluindo a sua, algo como ‘coisas da vida’, fazendo a morte parecer rotineira.
Billy se tornara um prisioneiro dos extraterrestres, levado através do tempo.
Matadouro Cinco é tido como a obra prima de Vonnegut. Um marco da literatura pós-moderna.
Expondo a brutalidade da guerra e fazendo com que o bombardeio a Dresden ganhasse destaque, o romance transformou-se em uma ponderosa bandeira do sentimento pacifista.
Kurt fez do capítulo inicial do livro, um capitulo autobiográfico, escreveu sobre o começo da sua vida e dos eventos significantes que ocorriam durante o processo de escrever o livro, explicando os motivos de um veterano da segunda grande guerra ao escrevê-lo.
Seu impulso inicial fora de expor a atrocidade ocorrida em Dresden, e sobre esta experiência crucial escrevendo em seu próprio sistema, usando elementos de literatura, como repetição de frases e tempos. Em adição a isso, Vonnegut em pessoa, aparecia na história.
Desta forma, Vonnegut queria amplificar sua existência através da história contada.
A interação do personagem ficcional e do autor em pessoa, não somente mostra a intensa inter-relação dos períodos de tempo, como também demonstra certo tipo de paralelismo das vidas de Vonnegut e Billy Pilgrim.
Muitos críticos dizem que Matadouro Cinco seria uma semi-autobiografia de Kurt Vonnegut, mesmo se não existisse o primeiro capitulo.‘Coisas da vida’ é a frase que mais freqüentemente assombra todo o livro.
A frase quase se tornou a marca registrada de Vonnegut. Ela se segue a cada morte da história, mesmo a morte de um simples homem, ou de uma multidão de civis, de uma bactéria ou mesmo de livros, e mesmo quando a morte é intencional, natural ou acidental.
‘Coisas da vida’, é a atitude que Billy Pilgrim adotou dos Tralfamadorianos.
Esta frase expressa sua particular atitude sedada diante da morte.
O autor utilize esta frase para transmitir sua opinião de como as atrocidades da guerra afetam as pessoas. A aparição rotineira de ‘coisas da vida’ não apenas ridiculariza a morte em seu livro, mas expõe o fato cruel de que na guerra a morte se torna algo banal. À medida que os leitores encontram mais e mais esta frase, mais e mais se tornam entorpecidos e distante da morte, assim como Billy Pilgrim.
O especialista Leslie Philips diz que ‘Billy parece querer que aceitemos a vida como ela é, e entender que a morte é inevitável, é algo que nós não devemos temer.’ Mas em vez disso, o objetivo de Vonnegut é instigar o medo nos leitores, levando-os a perceber o quão terrível é ser usado pela morte e através disso, desenvolver sua consciência sobre a devastação causada pela guerra.
Por exemplo, a descrição das velas e do sabão que os alemães fazem da gordura de seus inimigos mortos é assustadoramente suficiente para perturbar.
A mensagem nas entrelinhas e que Vonnegut tenta transmitir, não é somente contra as atrocidades de Dresden, mas contra todas as guerras.
Sem a amarga experiência prática de Vonnegut na segunda grande Guerra, não seria possível se gerar tão profundo sentimento sobre a vastidão da morte.
Poo-Tee-Weet?
'Poo-tee-weet' é outra misteriosa frase que aparece várias vezes no livro. É dita por pássaros.
No primeiro capitulo autobiográfico, Vonnegut escreve: ‘isto é tudo que se pode dizer do massacre, é algo como "poo-tee-weet?"’.
Ao final do livro, quando a guerra termina, Billy Pilgrim deixa a cocheira onde estava trancado e vê um pássaro falando com ele, dizendo ‘poo-tee-weet?’.
Não há significado literal, mas é de partir o coração. As ‘palavras’ do pássaro expressam a falta de palavras do autor diante da guerra sangrenta e das atrocidades humanas que testemunhou.
É de se notar que a frase é uma interrogação. Pode também ser interpretado como uma acusação do autor e uma indagação ao ato malévolo cometido pelos humanos uns contra os outros, perguntando ‘Por que isso aconteceu?’ .
De fato, este tipo de questionamento aparece por diversas vezes no livro – ‘Por que eu?’ – ‘Porque alguém?’. De outra forma, Vonnegut pode estar usando Billy Pilgrim como seu porta-voz através do livro. A frase ‘coisas da vida’ serve para Kurt Vonnegut, mostrando a relação indireta e interior entre Pilgrim e Vonnegut.
Escrever Matadouro Cinco, como Vees-Gulani aponta em seu estudo psiquiátrico sobre o livro, pode se tratar de um processo terapêutico para Kurt. Não é difícil imaginar o quanto a guerra e mais particularmente, a destruição de toda uma grande cidade como Dresden, devem tê-lo traumatizado.
A atrocidade que testemunhou teve significante impacto em seu físico e psicológico, assim como em sua fé. Vonnegut pensa em quão sem sentido a parte da sua memória de Dresden é para ele e ainda assim quanto incitante é Dresden, para lhe fazer escrever sobre ela. Podemos dizer que Vonnegut foi provavelmente evasivo quando trata de suas memórias do tempo da guerra, uma vez que ele observa que a maioria das experiências são imprestáveis.
Quando comparando Matadouro Cinco com Ardil 22 (Catch 22), outra obra fenomenal antibelicista, escrita por Joseph Heller, Alberto Cacicedo encontra nos dois autores, mais ou menos a mesma atitude de desdém diante da Guerra, como também sobre suas memórias traumáticas e que de alguma forma, fizeram seus livros ainda mais amargos.
Ao citar ao final do capitulo autobiográfico, a história bíblica da esposa de Lot (que se transforma numa estátua de sal), Vonnegut declara que as pessoas não devem olhar para trás.
Todavia, dando a chance de ele próprio de olhar para trás, Vonnegut na verdade realiza uma terapia efetiva de seu trauma de guerra. De fato, ele mesmo admitiu que seu romance tem um aspecto terapêutico, e que depois dele, ele era uma pessoa diferente, que ‘se livrou de um monte de porcarias’.
A despeito disso, Matadouro Cinco foi um dos livros mais perseguidos nos Estados Unidos.
Em alguns estados, ele faz parte do currículo do último ano escolar, enquanto que em outros, foi retirado das bibliotecas e do currículo de leituras.
Não termina ai, o livro já foi queimado, banido e contestado em inúmeros estados.
Várias razões são apontadas para a proibição do livro.
Linguagem repreensível, critica as ações do governo, manifesto contra a Guerra, antiamericanismo…etc.
Ironicamente o livro foi até alterado para servir à sua intenção inata, que era desencorajar adolescentes de lutar por seus países.
Em uma entrevista para Don Swaim, Vonnegut disse que não se importava com as pessoas que boicotavam seu livro por motivos pessoas, mas que as instituições públicas não tinham o direito de banir um livro que falava de algo real.
Respondendo as críticas de seu freqüente uso de profanações e redundâncias em seu livro, Kurt respondia com uma frase do mesmo livro:
‘Não há nada de inteligente que possa ser dito de um massacre.’
Ele tinha já declarado no começo de Matadouro Cinco, que seu livro era ‘curto, confuso e enervante’.
Kurt Vonnegut era um escritor profissional.
Ele poderia usar de palavras fáceis e fazer sua trama mais assimilável, a fim de agradar a mais pessoas. Mas não o fez. A experiência amarga da guerra determinou que Kurt Vonnegut deveria dizer sempre o que pensa sobre a guerra, e recusar-se a torná-la aceitável e bela, através de uma linguagem exuberante.
Binglong Yang – 17 de Maio de 2006
Kurt Vonnegut

Kurt Vonnegut Jr. (11 de Novembro, 1922 - 11 de Abril, 2007), escritor de Ficção Científica, humorista, repórter e artista plástico, nasceu em Indianapolis (EUA), em uma família de descendência alemã. Cursou a universidade Cornell, formando-se poucos dias antes de alistar-se no Exército. Foi combatente da infantaria na 2° Grande Guerra e recebeu a medalha do Coração Púrpura por serviços à Pátria. Esta experiência, particularmente sua captura na Batalha de Bulge e depois como prisioneiro e testemunha do bombardeio de Dresden (Alemanha), influenciaria toda a sua obra. Depois da guerra, Vonnegut estudou antropologia e trabalhou como repórter policial em Chicago.Posteriormente foi relações públicas da General Electric.
Em 1952 publicaria seu primeiro livro 'Piano Player'.
Muito do que Vonnegut escreveu, pode ser considerado autobiográfico. Do massacre de Dresden, Vonnegut extrairia o material para escrever aquela que seria considerada sua obra prima e um dos 100 livros mais lidos em todo mundo, Slaughterhouse-Five (Matadouro Cinco). No primeiro capítulo do livro, Kurt narra os acontecimentos à época da guerra e sobre seu processo de escrita, amplificando com idas e vindas históricas, seu próprio papel dentro do livro.
Uma das características do estilo de Vonnegut era saber utilizar do surreal, do tragicômico, do humor negro e da ironia, sem perder a esperança e o humor.
Com seu último livro, de 1996, Timequake (que marca o retorno de Kilgore Trout, alter-ego do escritor), Vonnegut anunciou que estava se aposentando da ficção, se limitando a contribuir para revistas, escrevendo sobre aspectos sociais e principalmente críticas à administração George W. Bush. À sua maneira, explicou a aposentadoria: "o radinho dentro da cabeça parou de transmitir"
Da sua obra, foram feitos dois filmes, Slaughterhouse-5 (dirigido por George Roy Hill, 1972) e Mother Night (dirigido por Keith Gordon, 1996).
Apesar de muitos de seus livros tratarem de temas da Ficção Científica(FC), Kurt conseguia alcançar aquelas pessoas que não se interessavam pelo gênero. Seu papel como defensor das ideías humanitárias, influenciado pelos líderes socialistas dos anos 60, lhe rendeu papel de destaque. Foi eleito presidente honorário da Associação Humanista da América.
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sábado, 3 de janeiro de 2009
A AMBIÇÃO DE UM HOMEM - Bertrand Chandler
A sala estava silenciosa, a não ser pela música suave, vinda do rádio ligado.
A sala estava silenciosa, o silêncio que só é possível quando se tem duas pessoas juntas.
Contudo não se tratava da calma afetiva de amantes, mas a serenidade da decepção que tinha como fundo a música, que apagava o passar do tempo; o ruído de uma vagarosa disputa.
Estavam lendo - ela sentada em sua poltrona de braços, ele na dele. Ele colocou o livro aberto sobre o colo, para encher seu cachimbo. Ela tossiu, quando a fumaça a alcançou.
'Você precisa, fumar esta coisa?' Ela pergunta.
'Eu gosto.' Ele responde.
'Outros homens fumam tabaco.' Ela completa.
'Eu fumo o que posso pagar.'
'Barato! Ela queixou-se. 'Barato, barato! Desde que fui tola o bastante para me casar com você, tem sido assim, tudo tem que ser barato! Um apartamento barato numa cidade barata. Comida barata. Bebidas baratas. Roupas baratas. Um carro barato ...'
'Nós vivemos na medida das nossas posses. '
'Se fosse apenas uma questão de coisas materiais eu não me importaria tanto, mas você é uma pessoa barata. Seu gosto para filmes é barato, seu gosto para música. E seu gosto para livros... '
'Não é barato... ' ele disse de súbito.
'Ah, não? Barato e adolescente, eu diria. Deixe-me ver. '
Levantou de sua poltrona, agarrou o livro dele, leu em tom de escárnio:
'Foguetes do Amanhã. Vai me dizer que isso não é coisa barata?'
'Não é. É uma boa antologia. '
'Escapismo barato. '
'Não é escapismo. Quantas vezes tenho que dizer a você, que a boa ficção científica não é escapismo – não posso dizer o mesmo sobre os romances históricos que você lê.'
'Não é escapismo? Foguetes na lua, homens verdes de Marte, discos voadores... '
'É a boa Ficção Científica. Ela lida com problemas que homens e mulheres precisarão encarar algum dia. Talvez em breve, quem sabe.'
'Certo.' Ela disse. 'Vou deixar você continuar tentando me convencer. Você parece estar na metade de uma história chamada "Julgamento de Eva". Do que se trata?'
'Você deveria ler'. Ele disse. 'É muito boa.'
'Ler este lixo! Me diga do que se trata, é tudo que eu quero saber.'
'Tudo bem. O autor assume que o sol está perto de se tornar uma Nova, o que significa é claro, que a Terra e todos seus habitantes serão incinerados. O povo já foi avisado sobre o que está prestes a ocorrer. A história trata de como homens e mulheres passam suas últimas horas de vida'.
'Ah, isso é muito útil. Suponho que depois de ler, você estará bem preparado para uma emergência deste tipo. Agora me diga, o que você faria se soubesse que o mundo acabaria amanhã?'
Ele encheu novamente o cachimbo. Sobre a pequena chama, mirou sua esposa.
'Deixe-me voltar ao meu livro'. Pediu.
'Ah não, não até que responda a minha pergunta. O que você faria?'
'Depende...'
'Depende do que? Uma resposta tipicamente evasiva. Depende, eu suponho, se você tem ou não tem habilidade e conhecimento para construir uma nave espacial para escapar para Marte ou Júpiter ou para onde quer que as pessoas estão fugindo, nesta sua história estúpida. E você ainda tem a coragem de dizer que não é escapista? Vamos, me responda!'
'Com tempo, uma nave poderia ser construída. '
'Mas não por você. '
'Não. '
'Então, o que você faria?'
'Me deixe em paz. ' Resmungou.
'Por que eu deveria? Você sempre diz que não conversamos mais e agora que eu me desvio dos meus interesses, para dar atenção aos seus interesses juvenis, você não quer conversar?'
'É impossível falar com você, logo você insiste em tornar a coisa toda pessoal, maldição!' Se não podemos conversar sobre algo de maneira objetiva, nós não podemos discutir coisa alguma!'
'Por que não?'
'Por que você leva tudo para o lado pessoal. A próxima coisa que você irá me dizer é que você conheceu no passado, pelos menos três homens maravilhosos que poderiam construir uma nave espacial com dois tambores de óleo e um aquecedor a querosene, e que te levariam para o cinturão de asteróides fácil.'
'Talvez eles pudessem mesmo. Mas você não respondeu a minha pergunta. O que você faria?'
'Eu não sei. ' Disse se levantando da cadeira.
'Aonde você vai?'
'Pegar uma cerveja na cozinha. Se importa? '
'Você poderia perguntar se eu quero uma também. '
'Quer?'
'Não. '
Foi até a cozinha. Pegou um copo da prateleira do armário. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa de cerveja. Tinha o abridor à mão quando foi interrompido por alguns estalos baixos no rádio.
'Dê um jeito nesta estação. ' Disse a esposa. 'Parece que tem algo errado. '
'Espere um pouco. ' Ele respondeu.
Então, ao invés da música, ouviu uma voz assustada, falando afobada, a transmissão desaparecia e voltava segundos depois.
'Chamado de emergência... mísseis intercontinentais...hidrogênio...Nova Iorque foi... Londres... Washington destruída... Moscou... acredita-se que...cobalto...'
Você ouviu isso? Ela gritou. 'O que isso significa?'
Ele colocou a garrafa sobre a mesa e foi até o armário.
'Significa o fim do mundo. ' Abriu a gaveta de talheres.
'O que faremos?'
Ele caminhou de volta a sala de estar, carregando uma faca em sua mão.
'Voltando a sua pergunta, minha querida. Aqui está a sua resposta.'
FIM
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 7/7
Parte 7
Total silêncio e escuridão.
Cliff não se movia.
Sentiu que Gnut estava por perto, logo à frente e foi isso.
Sua mão metálica agarrou-o pela cintura, puxando-o contra seu corpo gelado e o levou consigo.
Luzes escondidas banhavam-nos com uma luz azulada.
Sentou Cliff e ficou observando-o.
O jovem já lamentava aquela sua atitude, mas o robô, exceto por seus olhos sempre assustadores, não parecia estar com raiva.
Apontou para um banco em um canto e Cliff rapidamente obedeceu e sentou-se quieto, sem sequer se atrever a olhar ao redor.
Estava em algum tipo de laboratório. Um aparato complexo de metal e plástico cobria as paredes e mesas, sem que ele reconhecesse sua utilidade.
Dominando o centro da sala havia uma longa mesa em cujo topo se via uma caixa larga, quase como aquela junto do caixão lá fora, mas conectada por fios com um aparelho mais distante.
Do alto descia um cone de luz brilhante projetada por vários tubos.
Uma coisa, meio coberta sobre uma mesa próxima, lhe pareceu familiar e bastante deslocada em relação ao resto. Pareceu-lhe, de onde estava, ser uma pasta comum. Ficou a pensar o que seria aquilo.
Gnut não lhe dava atenção. E, de uma vez só, com o topo de uma ferramenta fina, arrancou o topo da pequena caixa de registros. De dentro retirou o filme e por quase meia hora ajustou-o ao aparato no fim da mesa maior.
Cliff olhava tudo fascinado com a habilidade do robô em manusear tudo com aqueles dedos metálicos. Concluída esta tarefa, Gnut trabalhou por algum tempo em um aparato semelhante em outra mesa, então parou pensativo por um instante e puxou o que parecia ser uma alavanca.
Uma voz se ouviu como se vinda de dentro de uma caixa – a voz do embaixador morto.
‘Eu sou Klaatu e este é Gnut.’
Era a gravação! As primeiras e únicas palavras que o embaixador havia proferido.
Mas logo, no segundo seguinte, ele viu que não estava mais só. Havia um homem na mesa.
O homem sentou-se e Cliff viu o rosto lívido de Klaatu.
Klaatu pareceu surpreendido e falou algo rápido em uma língua desconhecida para Gnut, que pela primeira vez pelo que Cliff se lembrava, respondeu. As sílabas ditas por Gnut eram carregadas de emoção e a expressão em seu rosto mudou de surpresa para alegria.
Conversaram naquela língua por muitos minutos.
Klaatu, aparentemente fatigado, estava se deitando quando viu Cliff e parou no meio do caminho. Gnut falou de novo.
Klaatu então acenou para Cliff com uma das mãos e foi até ele.
‘Gnut me contou tudo’, disse com a voz gentil e então ficou olhando Cliff em silêncio, com um sorriso cansado no rosto.
Cliff tinha milhões de perguntas a fazer, mas mal se atrevia a abrir a boca.
‘Mas você’ começou a dizer, respeitoso mas ainda bastante excitado ‘não é o Klaatu que estava no túmulo?’
O sorriso desapareceu e ele balançou a cabeça.
‘Não’. Então virou-se para Gnut, disse algo em sua língua e suas palavras pareceram cheias de sofrimento. E voltou-se para Cliff e disse:
‘Eu estou morrendo.’ Novamente sua face mal segurava o fraco sorriso.
Cliff não sabia o que dizer.
Esperou desejando entender o que se passava. Klaatu parecia ter lido sua mente.
‘Percebo que não compreende. Apesar disso, diferente de nós, Gnut possui grandes poderes. Quando a ala foi construída e as apresentações começaram, isso serviu para ele como uma inspiração. Agindo apenas a noite, ele concebeu este aparato – e agora ele pode me fazer vivo de novo, a partir da minha voz gravada por seu povo. Como deve saber, um corpo possuiu uma voz característica. Ele construiu a maquina a partir do processo reverso de gravação, a partir do som ele fez o corpo característico.
Cliff engasgou. Então fora isso.
‘Mas você não precisa morrer. A sua voz foi gravada assim que saiu da nave, quando você estava bem! Tem que me deixar levá-lo para o hospital. Nossos médicos são talentosos!’
Klaatu balançou a cabeça negativamente.
‘Você ainda não entende. Sua gravação tem imperfeições. Talvez não tão grandes, mas acabam por arruinar o produto. Todos os experimentos de Gnut não viveram mais do que alguns minutos, ele me disse... e assim deve ser comigo também.’
Cliff de repente compreendeu a origem dos experimentos.
Lembrou-se de que no dia em que a ala foi aberta, um operador de som do Smithsonian perdera uma pasta contendo vários filmes com gravações de animais da fauna mundial. E ali estava a valise sobre a mesa. E os Stillwells foram feitos das gravações retiradas da mesa de controle de som.
Sentiu seu coração pesado. Não queria que o estranho morresse. Pouco a pouco uma idéia sensacional lhe ocorreu. Explicou com excitação crescente.
‘Você diz que a gravação tinha imperfeições, e é claro que sim. Mas a causa disso se deve ao uso de aparelhos imperfeitos para a gravação. Mas se Gnut puder reverter o processo, usando os mesmos pedaços do aparelho onde sua voz foi gravada, a imperfeição pode ser analisada, retirada e você viveria e não morreria.’
Assim que acabou de falar, Gnut começou a andar pelo lugar e então o abraçou. Uma reação verdadeiramente humana se via nos músculos de metal sua face.
‘Me traga o aparelho então’ disse ele em perfeito inglês e começou a empurrar Cliff para a porta, mas Klaatu ergueu sua mão e disse:
‘Não há pressa. É tarde demais para mim. Qual é seu nome meu jovem?’
Cliff respondeu.
‘Fique comigo até meu fim.’
Klaatu fechou os olhos e deitou-se, depois sorrindo um pouco, mas sem abrir os olhos, falou:
‘E não fique triste se eu não puder viver novamente... não é seu dever. Não sinto dor.’
Sua voz mais e mais ia enfraquecendo.
Cliff, apesar de tantas dúvidas, só conseguia olhar calado.
Klaatu parecia perdido em seus pensamentos.
‘Eu sei, eu sei. Você tem muitas perguntas para fazer. Sobre sua civilização, sobre Gnut...’
‘E sobre vocês.’
‘E sobre Gnut. Talvez... algum dia, talvez eu possa voltar.’
Ficou um longo tempo imóvel até Cliff entender que ele havia morrido. Lágrimas encheram seus olhos, levara apenas poucos minutos para aprender a amar aquele homem.
Olhou para Gnut. O robô sabia disso também, que ele estava morto, mas não havia lágrimas em seus olhos vermelhos e Cliff sabia agora o que ele pensava.
‘Gnut. Eu trarei o aparelho original. Eu o pegarei. Cada peça dele.’
Sem uma palavra, Gnut o conduziu até a porta. Fez os sons que a abririam e, uma vez aberta, o som de uma multidão de humanos entrou e uma onda de espanto correu pelo prédio.
As luzes estavam acesas e Cliff saiu descendo a rampa.
As duas horas seguintes sempre na memória de Cliff seriam como um sonho.
Como se aquele misterioso laboratório e seu homem pacífico e morto repousando nele fosse a parte central de sua vida, e aquela cena com aqueles homens barulhentos com quem falava fosse apenas um grosseiro e bárbaro interlúdio.
Não se afastou muito da rampa.
De onde estava contou apenas parte da história.
Eles acreditaram.
Aguardou quieto enquanto toda a pressão caía sobre os mais altos oficiais na terra que não mediam esforços para obter os aparelhos requisitados pelo robô.
Quando chegaram, Cliff o carregou para o chão junto da porta. Gnut estava lá, esperando, em seus braços trazia o corpo sem vida do segundo Klaatu.
Com gentileza, passou o corpo para Cliff, que o recebeu sem uma palavra, como se tudo tivesse sido combinado.
Pareceu para ele uma despedida.
De todas as coisas que Cliff queria dizer para Klaatu, uma permanecia imperativa em sua cabeça. Agora, com o robô à porta da grande nave verde, ele achou que era o momento apropriado.
‘Gnut, você precisa fazer uma coisa por mim. Ouça com atenção. Eu quero que diga ao seu mestre, aquele que ainda irá surgir – que o que aconteceu com o primeiro Klaatu foi um acidente e que todos na Terra nos sentimos terrivelmente mal por aquilo. Você o fará?’
‘Eu já sabia disso.’ Disse o robô gentilmente.
‘Mas me prometa dizer ao seu mestre estas palavras – assim que ele surgir?’
‘Você não compreende’ disse Gnut e ainda gentilmente disse apenas mais quatro palavras.
Ao ouvi-las Cliff sentiu-se atordoar e todo seu corpo estremeceu.
Assim que se recobrou e seus olhos se focaram, viu a grande nave desaparecer.
Tão subitamente quanto aparecera, já não estava mais lá.
Caiu. Em seus ouvidos, como sinos, as últimas palavras de Gnut ainda ressoavam.
Nunca as esqueceria até o dia de sua morte.
‘Você não compreende’ o poderoso robô havia dito. ‘Eu sou o mestre.’
FIM
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 6/7
Parte 6
Às quatro da tarde, bastante descansado e com um visor infravermelho pendurado em seus ombros, Cliff passou através do cordão de segurança e entrou na ala interplanetária.
Ele era esperado e não houve problema.
Assim que seu olhar caiu em Gnut, uma estranha sensação percorreu-o e por alguma obscura razão ele quase sentiu pena do gigante.
Gnut jazia ma mesma posição de sempre, o pé direito ligeiramente avançado e a mesma expressão na face, mas agora parecia que havia algo mais.
Ele estava solidamente encapsulado em um enorme bloco de glasstex transparente.
Do chão ao topo dos seus seis metros e numa distância igual para a direita e para a esquerda, atrás e na frente, ele estava imerso em uma prisão transparente como água que confinava cada centímetro de sua superfície e que iria prevenir do mínimo movimento de seus impressionantes músculos.
Era um absurdo, sem dúvida, sentir pena de um robô, um mecanismo feito pelo homem, mas Cliff passara a pensar nele como um ser vivo de verdade, igual a um ser humano. Ele mostrara propósito e vontade, era capaz de executar tarefas complicadas, sua face era capaz de exprimir emoção de tristeza e muitas vezes parecia imerso em profundos pensamentos; tinha sido brutal com o gorila, gentil com o rouxinol e os outros dois corpos e tinha evitado magoar Cliff quando ele seria capaz. Cliff não duvidava que estivesse vivo, o que quer que ‘vivo’ significasse.
Mas do lado de fora esperavam os homens do rádio e da televisão; ele tinha trabalho a fazer.
Uma hora depois Cliff estava sentado sozinho a dez metros do chão, em uma grande árvore que ficava localizada do outro lado do passeio público em frente ao prédio, de onde podia ver, por uma janela, a parte superior de Gnut. Presos aos seus galhos ao seu redor, três instrumentos – seu visor infravermelho, um rádio e uma tevê infravermelha com som. O primeiro lhe permitiria ver na escuridão a imagem ampliada do robô como se fosse de dia, e os outros captariam sinais e sons incluindo de seus próprios comentários e os transmitiram para os estúdios através de milhares de quilômetros em todas as direções, através do espaço.
Nunca antes, provavelmente, um repórter fotográfico tivera tamanha importância – certamente não um que se esquecia de tirar fotografias. Mas agora isso era passado, e Cliff estava orgulhoso e preparado.
Longe dali, num grande círculo, uma multidão de curiosos e assustados. Será que o plástico glasstex prenderia Gnut? Se não o fizesse, ele tentaria se vingar por ter sido preso? Será que algo inimaginável sairia da nave e libertaria Gnut e, quem sabe, executaria a vingança?
Milhares esperavam agarrados a seus rádios; aqueles na distância não esperavam que algo acontecesse, ainda assim esperavam por algo e estavam preparados para correr.
Em lugares selecionados, não muito longe de Cliff, de todos os lados haviam baterias móveis de raios, manejados por unidades das forças armadas e bem à sua direita, um enorme tanque estacionado com um grande canhão.
Cada arma estava apontada para a porta da ala do museu.
Uma fileira de tanques menores e mais rápidos ao norte. Seus projetores de raios estavam virados para a entrada.
A noite caiu, os últimos oficias deixavam o prédio juntamente com políticos e outros privilegiados, e então as grandes portas foram fechadas e trancadas.
Logo Cliff ficou sozinho ali, a não ser pelos homens atrás das armas ao seu redor.
Horas passaram. Veio a lua.
De tempos em tempos Cliff relatava para o pessoal do estúdio que tudo estava quieto.
Seus olhos não podiam ver nada a não ser os dois pontos vermelhos dos olhos de Gnut, mas através do visor amplificador conseguia ver tudo em uma distância de cinco metros com clareza semelhante ao dia.
Exceto por seus olhos, não havia evidência de que havia algo senão metal não-funcional.
Mais outra hora. Agora e novamente Cliff verificava os níveis de seu pequeno monitor de rádio-televisão, apenas por alguns segundos de cada vez, para poupar a bateria.
A emissão não ia além de Gnut e por certa vez mostrara Cliff sentado em sua árvore, sozinho.
Poderosos televisores de infravermelho de grande distância continuavam a focalizá-lo de ângulos mais próximos.
Isso lhe dava uma sensação engraçada.
Então subitamente Cliff viu algo e rápido procurou o visor de amplificação.
Os olhos de Gnut se moviam, ao menos a intensidade da luz emitida estava variando.
Como se dois pequenos flashes vermelhos virassem de um lado para outro, cruzando como faróis o campo de visão de Cliff.
Excitado, Cliff sinalizou para os estúdios, iniciou a transmissão descrevendo o fenômeno. Milhões de pessoas vibravam excitadas com sua voz.
Poderia Gnut quebrar sua terrível prisão?
Minutos se passaram e os flashes dos olhos continuavam, mas Cliff não conseguia captar movimentos no corpo do robô. Em breves relatos ele descrevia o que observava.
Gnut estava claramente ativo, não havia dúvidas de que ele lutava contra seu cárcere transparente, mas, a não ser que pudesse quebrá-lo, não se moveria de forma alguma.
Cliff olhava para o amplificador quando começou.
Seus olhos captaram algo fabuloso acontecendo, apesar de não ser registrado pelo aparelho. Um brilho vermelho envolvia agora o corpo do robô.
Com os dedos tremendo, reajustou as lentes do televisor, o que fez apenas o brilho crescer em intensidade. Parecia que o corpo de Gnut estava incandescente de tão quente.
Descreveu o ocorrido em fragmentos de excitação, pois sua atenção estava em ajustar corretamente as lentes.
A figura de Gnut tornava-se mais e mais brilhante. E então se moveu.
Sem dívida, se moveu.
Ele podia de alguma forma aumentar a temperatura de seu corpo e usou isso para explorar esta limitação do plástico. O glasstex, Cliff lembrou, era um material termoplástico, ganhava a forma pelo resfriamento e uma vez aquecido tornava-se novamente macio.
Gnut o estava derretendo.
Cliff descreveu a cena em três frases. O robô tornara-se vermelho como uma cereja, as extremidades do bloco igual a gelo perderam seu formato e toda a estrutura começou a ceder.
O processo se acelerou e viu que o robô já podia se mover lá dentro.
O plástico já estava na altura da sua cabeça, depois do pescoço e depois na cintura, e então Cliff viu que Gnut estava livre. Então, ainda vermelho como uma cereja, se moveu, saindo de sua visão.
Cliff não conseguia mais ver ou ouvir nada, nada além do ruído de aclamação dos curiosos além do cordão de segurança dos policiais e, mais baixo, as vozes de comando nas baterias de tiro ao seu redor. Eles possivelmente também haviam ouvido e visto as imagens e estavam aguardando.
Minutos passaram. Então se ouviu um som metálico quando as grandes portas da ala do museu se abriram e dali saiu o gigante de metal, que não brilhava mais. Parou com os olhos indo e vindo de um lado para outro, vasculhando a escuridão.
Vozes na escuridão ordenaram e num segundo Gnut era atingido por raios coloridos de luz que cruzavam de todos os lados.
Atrás dele as portas de metal derretiam, mas seu corpo verde não parecia sofrer.
Então o mundo pareceu ter chegado ao fim, ouviu-se um urro tremendo, e tudo à frente de Cliff explodiu em fumaça e caos.
Sua árvore tombou para um lado e esteve a ponto de cair dela. Pedaços de reboco e fragmentos caiam. O tanque-canhão dispara e com certeza acertara Gnut.
Cliff esforçava-se para conseguir enxergar através da poeira. Reparou em um movimento próximo dos restos da porta e mais distintamente a grande forma de Gnut ficando de pé.
Levantou-se lentamente e virou-se para o canhão e de súbito atirou-se na direção dele. A grande arma tentou acompanhar o movimento, mas o robô saiu de sua mira e logo já estava sobre ele. Só houve tempo dos tripulantes fugirem e ele o destruiu com apenas um soco e então se voltou para olhar direto para Cliff.
Começou a vir na sua direção e logo já estava junto da árvore. Cliff conseguira subir até a copa superior. Gnut pôs as duas mãos ao redor da árvore, deu um safanão e o tronco inteiro saiu do chão com raízes e tombou. Antes que Cliff atingisse o chão, o robô o segurou com suas mãos.
Cliff pensou que sua hora havia chegado, mas muitas coisas estranhas ainda estavam por acontecer para ele naquela mesma noite.
Gnut olhou para ele em sua mão e depois o ergueu até sentá-lo em um de seus ombros, as pernas ao redor do pescoço. Virou-se então e começou a seguir pelo caminho leste deixando a área do prédio. Cliff não tinha como escapar.
Enquanto cruzavam o parque, via as bocas das armas se movendo acompanhando Gnut e a ele mesmo, nas suas miras. Mas não dispararam.
Ao colocá-lo em seus ombros, Gnut se assegurara de que não o fariam – Cliff esperava.
O robô seguiu para o memorial. A maior parte dos soldados os seguia hesitantes, à distância. Cliff pode ver ao longe que uma onda escura e confusa tomava a área antes vazia – a área de contenção policial havia se desfeito. A sua frente, uma clareira estreita rapidamente se fez, enquanto avançava entre a multidão, num corredor estreito, ouvia os gritos e insultos, que terminava alguns metros depois; poucos se atreviam a chegar muito perto.
Gnut não prestava atenção nisso ou em sua carga, como se fosse uma mosca. Seu ombro era um assento pouco confortável para Cliff, mas com a diferença de que havia o movimento de músculos flexionado a cada movimento, acompanhando o que se esperava em um ser humano.
Cliff ficou assombrado com aquela musculatura viva.
Reto como o vôo de uma abelha, acima dos caminhos, através das cercas e das fileiras de arvores menores, seguia Gnut, com o jovem ao ombro e o soar de milhares de vozes seguindo-o de perto.
Acima deles, helicópteros e jatos, ao redor carros da polícia com suas sirenes irritantes.
Logo à frente, o lago do Memorial e o tumulo de mármore onde repousava o embaixador Klaatu. Brilhando em negro gélido à luz das dezenas de faróis acesos na noite.
Seria aquilo uma visita ao morto?
Sem hesitação, Gnut entrou na água que lhe chegava até os joelhos, então até a cintura e logo os pés de Cliff estavam na água.
Marchando através das águas escuras até o túmulo, o robô seguiu seu caminho inexorável.
A massa escura de mármore subia alto quando chegaram perto.
O corpo de Gnut emergia das águas e já estava praticamente seco quando pisou o primeiro dos degraus da pirâmide.
Logo estavam no topo, na estreita plataforma cujo centro estava o túmulo oblongo.
Brilhando na luz dos refletores, o gigante caminhou ao redor dele e então curvou-se e desferiu um empurrão em sua tampa. O mármore se partiu e a tampa se partiu em pedaços.
Gnut se ajoelhou e olhou para dentro, trazendo Cliff para bem perto da borda.
Do lado de dentro, um caixão de plástico transparente na sombra, apesar das luzes de fora, selado a vácuo para preservar seu conteúdo ao rolar dos séculos, o corpo mortal de Klaatu, o visitante vindo do grande desconhecido.
Deitado, como se adormecido, o rosto transparecendo a nobreza de um quase deus que levara a alguns ignorantes a acreditar que se tratava de um ser divino.
Vestia a túnica com que chegara. Nada de flores, presentes ou ornamentos, que seriam profanos. Ao pé do caixão, uma pequena caixa selada, também de plástico transparente, contendo todos os registros feitos na Terra por ocasião da sua visita – uma descrição dos eventos que se deram com sua chegada, fotos de Gnut e do viajante e um filme capturando para sempre seus breves atos e palavras.
Cliff sentia-se solitário, desejando poder ver o rosto do robô.
Gnut também não se movia mais daquela posição de reverência e contemplação, mas não por muito tempo.
Ali na brilhante e iluminada pirâmide, sob os olhos da multidão amedrontada, Gnut prestava um cumprimento respeitoso e final ao seu belo e adorado mestre.
E então acabou.
Gnut agarrou a pequena caixa com os registros, ficou de pé e começou a descer os degraus.
De volta através da água, direto para o prédio do museu, através dos jardins e cercas como antes, em seu caminho inexorável. Atrás dele a turba caótica de pessoas se movia, seguindo-o o mais próximo que podia, se esbarrando e caindo e esforçando-se para mantê-lo à vista.
Não houve gravação televisionada deste seu retorno. Todas as câmeras haviam sido danificadas no seu caminho até o túmulo.
Ao se aproximarem do prédio, Cliff viu que o projétil do tanque fizera um buraco de uns doze metros estendendo-se do chão ao teto. As portas permaneciam abertas e Gnut, sem variar seu ritmo de passadas, passou por sobre os destroços e seguiu para a traseira da nave.
Cliff pensava se o deixaria ir. Deixou.
O robô o largou ao chão e apontou para a porta, então se virou e fez aqueles sons responsáveis por abrir a porta. A rampa desceu e ele entrou.
Então Cliff fez a coisa mais louca e corajosa que o tornaria famoso por uma geração.
Assim que a rampa começou a recuar, ele pulou para cima dela e entrou na nave.
As portas se fecharam.
Missile Gap - Charlie Stross

It’s 1976 again. Abba are on the charts, the Cold War is in full swing — and the Earth is flat. It’s been flat ever since the eve of the Cuban war of 1962; and the constellations overhead are all wrong. Beyond the Boreal ocean, strange new continents loom above tropical seas, offering a new start to colonists like newly-weds Maddy and Bob, and the hope of further glory to explorers like ex-cosmonaut Yuri Gagarin: but nobody knows why they exist, and outside the circle of exploration the universe is inexplicably warped.
Gregor, in Washington DC, knows but isn’t talking. Colonel-General Gagarin, on a years-long mission to go where New Soviet Man has not gone before, is going to find out. And on the edge of an ancient desert, beneath the aged stars of another galaxy, Maddy is about to come face-to-face with humanity’s worst fear…
Missile Gap - Charles Stross - online
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 5/7
Parte 5
Cliff ficou atrás das grades por toda aquela noite, até as oito da manhã seguinte, quando alguém do sindicato finalmente arranjou um advogado para tirá-lo de lá.
E quando estava saindo, um federal o segurou pelo pulso.
‘Você será levado para responder perguntas no Bureau Continental de Investigação’, o agente lhe disse. Cliff atendeu de bom grado.
Trinta e cinco oficias federais de alta patente estavam esperando-o numa sala de conferência, alguns secretários do presidente, subsecretários de estado, assessores do ministério da defesa, cientistas, um coronel, executivos, chefes de departamento e o terceiro escalão.
O velho Sanders de bigodes grisalhos, chefe da CHI, presidia a sessão.
Fizeram com que Cliff contasse várias vezes a história, e outra vez e mais uma vez, tudo de novo e mais uma vez ainda, não por que não acreditassem nele, mas por que pretendiam encontrar respostas para fatos sem explicação, como o comportamento misterioso de Gnut e os acontecimentos das últimas três noites.
Pacientemente, Cliff revirou sua cabeça em cada detalhe.
Chefe Sanders fazia a maioria das perguntas.
Por mais de uma hora, quando Cliff achou ter encerrado, Sanders vinha com mais perguntas, envolvendo a opinião de seu pessoal sobre o que ocorrera.
‘O senhor pensa que Gnut foi avariado de alguma forma pelos raios, ácidos, calor aplicado pelos cientistas?’
‘Não vi nenhuma evidência disso.’
‘Pensa que ele consegue ver?’
‘Estou certo que sim, ou tem outros poderes que equivalem à visão.’
‘Pensa que consegue nos ouvir?’
‘Sim, senhor. Quando sussurrei que Stillwell estava morto, ele se curvou para ver por si mesmo. E não me surpreenderia se ele entendesse o que falamos.’
‘Em momento algum ele falou, a não ser para emitir os sons que abriram a nave?’
‘Nenhuma palavra em inglês ou qualquer outra língua. Nenhum som de seus lábios.’
‘Em sua opinião, sua força pode ter sido afetada pelo nosso tratamento?’ perguntou um dos cientistas.
‘Já contei como ele levantou o gorila. Ele atacou o animal e o atirou de costas, depois disso o animal passou a ter medo dele.’
‘Como explica que nossas autópsias não revelem a causa da morte de nenhum deles, do gorila, do rouxinol ou dos dois Stillwell idênticos?’ perguntou um oficial médico.
‘Não posso explicar.’
‘Acha que Gnut é perigoso?’ perguntou Sanders.
‘Potencialmente muito perigoso.’
‘Ainda assim diz ter a impressão de que não é hostil?’
‘Para mim, quero dizer. Tenho esta sensação e não tenho nenhuma boa explicação para isso, exceto o fato dele ter me poupado por duas vezes quando me tinha em seu poder. Acho que pela maneira gentil com que segurou os corpos e talvez a tristeza que vi em sua face nas duas vezes.’
‘Se arriscaria a ficar no prédio uma terceira noite sozinho?’
‘Não, por nada deste mundo!’
Alguns riram.
‘Tirou alguma foto do que aconteceu lá na noite passada?’
‘Não senhor.’ Cliff esforçou-se para recompor-se, apesar da vergonha que sentia.
Um homem, quebrando o silêncio, salvou-o dizendo:
‘Poucos minutos atrás, usou a palavra ‘propósito’ em relação às ações de Gnut. Pode explicar melhor?’
‘Sim, esta é uma das coisas que me intrigou. Gnut não parecia mover-se sem razão. Podia mover-se com velocidade impressionante quando queria, vi quando atacou o gorila, mas na maioria das outras vezes andava como se metodicamente cumprindo uma tarefa simples. O que me lembra de uma coisa bastante peculiar, quando ele às vezes assumia uma posição, qualquer que fosse, reclinado ou observando, e ficava assim por muitos minutos. Como se a sua escala de tempo fosse diferente da nossa, algumas vezes era surpreendentemente rápido e em outras passava longos períodos imóvel.’
‘Isso é interessante. Como você explica ele mover-se apenas à noite?’ Perguntou um cientista.
‘Acho que ele está fazendo alguma coisa que não quer que ninguém veja, e de noite ele fica sozinho.’
‘Mas ele continuou mesmo com você lá.’
‘Eu sei. Mas não tenho outra explicação, a não ser que ele me considere inofensivo ou incapaz de impedi-lo, o que certamente é o caso.’
‘Antes de você chegar, nós estávamos considerando a possibilidade de prender Gnut dentro de um imenso bloco de glasstex. Acha que ele permitiria?’
‘Eu não sei. Provavelmente sim, ele permitiu os ácidos e os raios e o calor. Mas é melhor que seja feito de dia, pois a noite parece ser quando ele se move.’
‘Mas ele se moveu de dia, quando o viajante apareceu.’
‘Eu sei.’
Parecia que não tinham mais perguntas para ele. Sanders bateu a mão na mesa.
‘Bem, acho que é tudo, Mr. Sutherland. Obrigado pela sua ajuda e deixe-me congratulá-lo pela sua valentia, meu jovem homem de negócios.’
Sorriu gentil e continuou: ‘Está livre para ir embora, mas podemos precisar chamá-lo de volta. Veremos.’
‘Posso ficar um pouco mais, enquanto decidem-se pelo glasstex? Gostaria de poder dar esta notícia.’
‘A decisão já foi tomada. A notícia é sua. A operação de envolver Gnut em glasstex está prestes a começar.’
‘Obrigado senhor’ disse Cliff calmo e depois perguntou: ‘E o senhor poderia me autorizar estar presente do lado de fora do prédio esta noite? Tenho a sensação de que algo vai acontecer.’
‘O senhor quer outra exclusiva, eu percebo.’ Disse Sanders não muito simpático. ‘E provavelmente deixará a policia esperando enquanto acaba de realizar seus negócios.’
‘Não o farei de novo senhor. Se algo acontecer, eles serão os primeiros a saber.’
O homem hesitava.
‘Eu não sei... eu lhe direi o seguinte: todos os serviços de notícias vão querer um homem por lá, e nós não queremos isso, mas você poderá arranjar para ser o único representante, apenas você. Por minha parte, eu aceito. Nada irá acontecer, mas sua reportagem servirá para deixar os histéricos mais calmos.’
Cliff agradeceu e correu para telefonar para seu sindicato, para contar as novas – de graça – e a proposta de Sanders. Dez minutos depois ele era chamado de volta e ficou sabendo que estava tudo arranjado, e lhe disseram para ir descansar. Eles cobririam o evento.
Com o coração mais leve, Cliff voltou ao museu.
Centenas de curiosos cercavam o prédio, mantidos à distância por um cordão de isolamento policial. Não pôde passar, apesar de ter sido reconhecido, a polícia ainda estava zangada.
Não deu importância. Estava cansado e foi para o hotel e para a cama.
Tinha dormido apenas alguns minutos quando o telefone tocou.
Com os olhos fechados, atendeu. Era um dos caras do sindicato, com novidades.
Stillwell havia sido encontrado, vivo, muito vivo – o verdadeiro Stillwell.
Os dois outros mortos eram cópias; e ele não pudera explicar como. Ele sequer tinha irmãos.
Cliff permaneceu alguns minutos acordado então deitou-se.
Nada mais lhe pareceria fantástico, nunca mais.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 4/7
Parte 4
A escuridão e a idéia de que não estaria seguro fez a possibilidade de uma companhia algo não de todo desagradável.
Uma hora após o escurecer por completo, retirou os sapatos, amarrou-os juntos, pendurando-os no ombro e percorreu o corredor que o deixaria na área de exibição.
Tudo se assemelhava a noite anterior.
Gnut era uma grande sombra distinta no fundo do salão. Seus olhos vermelhos brilhando de novo como se sobre Cliff.
Igual a vez anterior, mas ainda mais cauteloso, Cliff esgueirou-se como uma cobra, com o estômago ao chão e lentamente alcançou a plataforma onde ficava o painel de controle.
Uma vez em seu esconderijo, colocou sua câmera a postos, assim como a arma no coldre do ombro, apertado contra o peito.
Desta vez, disse a si mesmo, ele conseguiria as fotos.
Sentou-se numa posição de onde pudesse manter Gnut à vista o tempo todo. Sua visão já se adptara à falta de luz.
Eventualmente sentia-se solitário e com um pouco de medo, os olhos vermelhos estavam lhe dando nos nervos, o fazendo pensar que Gnut não lhe faria mal de jeito algum.
Ainda tinha dúvidas se estava sendo observado.
Horas se passaram.
De tempos em tempos, ouvia alguns sons da entrada, do lado de fora, um guarda talvez, ou alguns curiosos passando.
Lá pelas nove da noite ele viu Gnut se mover. Primeiro sua cabeça, virou-se de tal modo que seus olhos brilharam mais intensamente, pois olhava para Cliff. Por um tempo foi só isso, então o vulto de metal escuro deslizou pra frente e então direto na sua direção.
Cliff pensou que não sentiria medo agora, mas seu coração parara. O que iria acontecer?
Com um silêncio surpreendente, Gnut chegou perto, sua sombra cobrindo Cliff, seus olhos vermelhos queimando em direção ao homem minúsculo. Cliff tremia, pois sentia mais medo do que a primeira vez. Não havia planejado isso, e quando viu, falava com a criatura:
‘Não me machuque. Só estava curioso, queria saber o que estava acontecendo. É o meu trabalho. Você me entende? Não vou machucar ou ferir você, eu... não faria isso mesmo se pudesse. Por favor!’
O robô não se moveu e Cliff não sabia se suas palavras haviam sido compreendidas.
Quando sentiu que não conseguiria suportar mais o suspense, Gnut se esticou e pegou algo da mesa ou talvez colocou algo nela, então virou e recuou.
Cliff estava seguro! Novamente o robô o havia poupado.
Cliff perdera parte de seu medo. Sentiu que estava seguro agora e que Gnut realmente não o faria mal. Por duas vezes tivera esta possibilidade e nas duas vezes apenas olhara para ele e se afastara.
Cliff não sabia o que Gnut tirara da mesa.
Como da vez passada, o robô fôra até a nave, fizera uma série de ruídos e então a porta se abriu e quando a rampa desceu, ele entrou.
Cliff ficou sozinho por provavelmente quase duas horas.
Nenhum som vinha lá de dentro.
Cliff podia espiar da porta, mas não estava certo de que devia fazê-lo.
Com a arma ele poderia enfrentar outro gorila, mas se Gnut o pegasse então seria o fim.
Esperou que algo fantástico acontecesse, sem saber o quê; talvez o rouxinol de novo, talvez o gorila, talvez nada.
O que quer que acontecesse, mais uma vez o pegaria completamente de surpresa.
Ouviu um som abafado e então palavras, voz humana, até familiar.
‘Senhoras e senhores. O instituto Smithsonian os saúda nesta nova ala interplanetária e as maravilhas que no momento presenciam.’
Era a gravação da voz de Stillwell, mas não vinha dos falantes do teto, mas de algum lugar de dentro da nave. Depois de uma pausa, continuou:
‘Todos vocês devem...devem...’ e então parou.
O cabelo de Cliff se arrepiou. Esta não era a gravação.
Houve silencio por pouco tempo então um grito, um grito humano abafado, de dentro do coração da nave; seguido por tosse e choro de um homem em grande terror.
Cada nervo de Cliff se retesou quando ele chegou até a porta. O som que ouvira saindo de dentro agora se aproximava, saindo das sombras, uma forma certamente humana. Tossindo e meio cambaleante, correu na direção de Cliff.
Três metros atrás, a sombra enorme de Gnut surgiu na porta, seguindo-o.
Cliff parou sem respiração.
O homem era Stillwell, ele corria para a mesa que antes Cliff usara como esconderijo, estava bem perto dela quando seus joelhos dobraram e ele caiu ao chão. Gnut já o alcançara, mas Stillwell não o vira ainda. Parecia bastante doente, fazendo esforços espasmódicos.
Gnut não se moveu, então Cliff disse:
‘O que foi, Stillwell? Eu posso te ajudar? Não tenha medo! Sou eu, Cliff Sutherland, você me conhece, o repórter.’
Sem mostrar surpresa em encontrar Cliff ali e tossindo como um afogado, Stillwell gemeu:
‘Me ajude! Gnut... Gnut.’
Parecia não conseguir falar.
‘Gnut o quê?’
Consciente dos olhos vermelhos sobre ele e receoso de ir até o sujeito, Cliff disse afirmativo:
‘Gnut não vai machucá-lo. Tenho certeza que não. Ele não me feriu. Qual o problema? O que eu posso fazer?’
Então, num acesso de energia, Stillwell levantou-se nos cotovelos.
‘Onde eu estou?’ perguntou.
‘Na ala interplanetária do museu. Não reconhece?’
Somente a respiração pesada de Stillwell era ouvida. Então fraco perguntou:
‘Como cheguei aqui?’
‘Eu não sei.’ Respondeu Cliff.
‘Eu estava fazendo uma gravação, quando de repente, estava aqui, ou melhor, lá...’
O medo tomou-o novamente.
‘Então o quê?’ perguntou Cliff gentil.
‘Eu estava numa mesa e Gnut estava sobre mim. Gnut! Eles o inutilizaram. Ele nunca poderia se mover!’
‘Agora ele pode. Mas acho que não irá machucá-lo.’
Stillwell caiu de costas ao chão.
‘Estou muito fraco. Você me consegue um médico?’
Não parecia se dar conta que o robô estava bem próximo dele, olhando-o na escuridão.
Como Cliff hesitou sobre o que fazer, o homem começou a tossir, regular como um relógio.
Cliff não ousava se mover, mas nada que fizesse poderia ajudá-lo agora.
De repente Stillwell estava silencioso e quieto.
Cliff temia pelo seu coração, então olhou para a os olhos nas sombras sobre ele.
‘Ele morreu.’ Sussurrou Cliff.
O robô pareceu entender, ou ao menos o ouviu. Curvou-se para a frente e contemplou a figura imóvel.
‘O que é isso, Gnut? O que você está fazendo? Posso ajudá-lo de algum jeito? De alguma forma eu sei que você não é hostil, e não acredito que tenha morto este homem. Mas o que aconteceu? Pode me compreender? Você fala? O que está tentando fazer?’
Gnut não fez qualquer som ou movimento, apenas olhava para o corpo aos seus pés.
Na face do robô, Cliff viu triste contemplação.’
Gnut permaneceu de pé por muitos minutos, até que se abaixou, agarrou o morto com cuidado, até gentileza, pensou Cliff, e em seus poderosos braços carregou-o para perto da parede onde jaziam os pedaços desmembrados dos robôs atendentes. Deitou-o ao lado deles e então deu as costas e voltou para a nave.
Sem nenhum traço de medo, Cliff começou a andar até a parede, onde estavam os robôs desmantelados. Quando parou, Gnut voltava emergindo da nave de novo.
Carregava num braço outra forma de vida, uma maior, e algo na sua mão. Colocou-as ao lado do corpo de Stillwell, o que Cliff não conseguiu ver bem, e então voltou à nave e de lá trouxe um novo corpo, que colocou junto aos outros e desta vez, ao voltar para a nave, parou na rampa olhando para trás, imerso em pensamentos profundos.
Cliff reteve sua curiosidade enquanto pode e então foi ver o que Gnut depositara ao chão.
O primeiro da fila era o corpo de Stillwell, como esperava, a seguir estava a grande massa do gorila morto, aquele da última noite. Ao lado do gorila estava o pequeno rouxinol.
Estes dois haviam estado dentro da nave durante o dia e Gnut, apesar da gentileza com que os tratara, pensou, estava apenas limpando a casa.
Mas havia um quarto corpo na história, e que ele não conhecia.
Teve que chegar bem perto para olhar bem.
O que ele viu, o fez perder o fôlego.
Impossível! Seu sangue gelou.
O primeiro corpo era o de Stillwell, mas o último era Stillwell também, haviam dois corpos de Stillwell, ambos idênticos e ambos mortos.
Cliff recuou com um grito e então o pânico o fez correr de Gnut e gritar e chutar freneticamente a porta de entrada. Ouviu sons de fora.
‘Deixe-me sair! Gritava aterrorizado. Deixe-me sair! Deixe-me sair! Rápido!’
Uma abertura surgiu entre as portas e ele passou por ela como um animal selvagem e correu pelo caminho.
Um casal que passava próximo parou para vê-lo correndo até que alguma razão penetrasse em sua cabeça, então diminuiu a velocidade até parar.
Olhou para o prédio onde tudo parecia normal como sempre e apesar do medo, Gnut não o perseguia.
Estava descalço e respirava com dificuldade.
Sentou no gramado úmido e calçou os sapatos, então parou para observar o prédio e recompor-se.
Que reunião incrível. Um Stillwell morto, um gorila morto e o rouxinol morto, todos diante dos seus olhos. E a última e assustadora coisa, o segundo Stillwell morto, que ele não vira morrer.
E a estranha gentileza de Gnut para com eles e sua expressão de tristeza, que vira por duas vezes em seu rosto.
Enquanto olhava, as coisas ao redor do prédio já não eram as mesmas.
Muitas pessoas apareceram à porta, o som de sirenes de um helicóptero da polícia e de outros lugares, pessoas chegavam correndo, a princípio poucas, mas daí mais e mais.
Os helicópteros policias pousavam do lado de fora do prédio e ele pensou já ver alguns policiais espiando o interior do prédio. Então de repente as luzes do prédio se acenderam.
Controlado, Cliff voltou. Entrou.
Achava ter visto Gnut pela última vez subindo a rampa, mas agora ele estava na posição de sempre, como se nunca tivesse saído de lá. A porta da nave estava fechada e a rampa desaparecera.
Mas os corpos, os quatro corpos estranhamente colocados em linha, continuavam deitados entre os restos dos robôs destroçados, exatamente onde ele os deixara na escuridão.
Ouviu assustado um grito atrás de si. Um guarda uniformizado do museu apontava para ele.
‘É aquele homem! Quando eu abri a porta ele a forçou para sair de dentro e correu como um louco!’
Os policiais cercaram Cliff. ‘Quem é você e o que é isso tudo?’ perguntou um deles áspero.
‘Me chamo Cliff Sutherland, repórter fotográfico. Era eu que estava aqui dentro e que saiu correndo, como disse o guarda.’
‘O que fazia? E de onde apareceram aqueles corpos?’
‘Senhores, terei prazer em responder, mas primeiro os negócios. Coisas fantásticas aconteceram nesta sala e eu vi tudo e sei da história toda, mas...’ Sorriu. ‘Eu declino de responder suas perguntas antes que eu tenha vendido a minha história para os jornais. Sabem como é. Se me deixarem usar o rádio da polícia, apenas por um momento, os senhores terão toda a história em seguida, digamos, em meia hora, quando a televisão a transmitir. Enquanto isso podem acreditar, não há nada que possam fazer e nada perderão com o atraso.’
O policial que fizera a pergunta piscou para um dos outros, decerto não se tratava de um cavalheiro; avançou para Cliff com algemas, que só reagiu mostrando suas credenciais de imprensa. Ele as olhou rapidamente e as guardou em seu bolso.
Umas cinqüenta pessoas já estavam por ali e entre elas dois membros do sindicato, que Cliff conhecia. Eles sussurraram algo no ouvido do policial e então saíram todos até o helicóptero.
Lá, por rádio, em cinco minutos, Cliff fechou um acordo onde ganharia mais dinheiro do que receberia trabalhando um ano inteiro. Depois entregou as fotos e negativos, contou toda a história e eles não perderam sequer um segundo, partindo para a central levando a exclusiva.
Mais e mais pessoas chegavam e os policiais faziam a segurança ao redor do prédio.
Dez minutos depois, uma grande equipe de rádio e televisão abriu caminho entre a multidão, mandada ali pelos homens do sindicato com os quais havia feito acordo. E poucos minutos depois, sob as luzes dos refletores montados por operadores, e de pé junto à nave, não muito distante de Gnut – ele recusou-se ficar junto do robô – Cliff contava a sua história para as câmeras e microfones e, numa fração de segundos, para todos os cantos do sistema solar.
Imediatamente após, a polícia o levou para a prisão.
Fizeram isso por princípio, e porque estavam furiosos com ele.
Boca do inferno
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 3/7
Parte 3
Cliff acordou lentamente no principio sem se dar conta que as imagens que rodavam em sua cabeça eram memóriais reais e não um sonho fantástico.
Foi a lembrança das fotografias que havia tirado que o fez levantar-se e tratar de revelar aquelas em sua máquina.
Nas suas mãos estavam as provas que os eventos da noite passada haviam ocorrido. Ambas haviam saído muito boas. A primeira mostrava claramente a rampa descida da porta até tocar o chão como pudera ver de trás da mesa. A segunda, da porta aberta era desapontadora, pois uma parede impedia a visão.
Isso se devia ao fato de que nenhuma luz vinha do interior da nave quando Gnut lá dentro estava - assumindo que Gnut precisasse de luz para o que quer que fizesse lá.
Cliff olhou os negativos com vergonha de si mesmo. Que péssimo fotografo ele era, por ter apenas tirado duas fotos como aquelas. Tinha tido várias chances de realizar grandes fotos – fotos de Gnut em ação – Gnut lutando contra o gorila – mesmo Gnut segurando o rouxinol – fotos que dariam calafrios a quem as visse, e tudo que tinha eram duas fotos da porta.
Ah sim, tinham valor, mas ele era um grande burro.
E para completar sua brilhante performance, ele havia caído no sono.
Bem, era melhor ir para as ruas e descobrir o que estava acontecendo.
Tomou um banho rápido, barbeou-se e mudou de roupa e logo estava entrando em um restaurante freqüentado por fotógrafos e jornalistas.
Sentou-se em uma mesa e acenou reconhecendo um amigo e competidor.
‘O que vai beber?’ perguntou seu amigo tomando o lugar ao seu lado.
‘Nada, até que eu tenha comido alguma coisa.’ Cliff respondeu.
‘Então você não ouviu?’
‘Ouviu o quê?’ Disse Cliff, como se não soubesse o que estava acontecendo.
‘Você é demais’ comentou o outro. ‘Quando algo realmente grande acontece, você está dormindo na sua cama’.
Então ele contou o que havia sido descoberto esta manhã no museu, para o grande regalo dos jornalistas de todo o mundo. Cliff fez então três coisas.
Tomou seu café da manhã, agradeceu aos céus que ninguém havia o descoberto e continuou mostrando surpresa.
Ainda mastigando, correu de volta ao prédio do museu.
Uma grande multidão de curiosos de avolumava na frente, mas Cliff não teve problemas em entrar, depois de mostrar suas credenciais de repórter.
Gnut e a nave estavam na mesma posição de sempre, mas o piso estava coberto por pedaços dos robôs atendentes destruídos.
Muitos outros repórteres, seus competidores, estavam por perto.
‘Eu estive fora, perdi a coisa toda’ disse para um deles. ‘Gus, qual a explicação para tudo isso?’
‘Me pergunte algo fácil. Ninguém sabe realmente. Pensam que algo saiu da nave, talvez outro robô como Gnut. Mas me diga, onde você andou?’
‘Dormindo’.
‘Melhor prestar atenção. Milhões de bípedes estão apavorados. Vingança pela morte de Klaatu, é o que dizem. A Terra pode ser invadida a qualquer momento.’
‘Mas isso...’
‘Ah, eu sei que é loucura. Mas esta é a história que está correndo por aí e que vende jornais. Mas surgiu um ângulo totalmente novo, muito surpreendente. Venha aqui.’
Levou Cliff até a mesa onde um grupo olhava para algo com interesse, vários objetos guardados por um técnico. Gus apontou para aquilo que parecia serem pêlos marrom-escuros.
‘Aqueles pêlos vieram de um gorila macho.’ Disse Gus com a casualidade de um detetive particular. ‘Foram achados esta manhã pelo chão. Outros foram encontrados junto aos robôs atendentes destruídos’.
Cliff olhou atônito, ou tentou. Gus apontou para um tubo de testes cheio com uma substância.
‘Aquilo é sangue diluído – sangue de gorila. Estava nos braços de Gnut.’
‘Meu Deus!’ Cliff exclamou. ‘E não há explicação?’
‘Nem mesmo uma teoria. Esta é a sua grande chance, garoto maravilha!’
Cliff se afastou de Gus, sem poder continuar a encenar por mais tempo. Não sabia o que fazer com aquela história. O serviço de notícias pagaria bem por aquilo – pelas suas fotos – mas aquilo acabaria por tirar a matéria das suas mãos. Algo na sua cabeça lhe dizia que queria estar na ala novamente aquela noite, mas bem, ele estava com medo. Tivera maus momentos e ainda queria continuar vivo.
Andou por ali por algum tempo e contemplou Gnut.
Ninguém podia imaginar que ele se movia, ou que em seu rosto esverdeado pudesse caber uma expressão genuína de tristeza. Aqueles olhos estranhos.
Cliff pensou se podia estar olhando para ele naquele momento e reconhecendo-o como o intruso da última noite. De que matéria estranha era feito – aquele material colocado no lugar dos olhos por uma raça desconhecida pelos homens, e que toda ciência da Terra não conseguira danificar.
O que Gnut estaria pensando? Quais poderiam ser os pensamentos de um robô – de um mecanismo de metal diferente do barro do qual foi feito o homem? Estaria zangado com ele? Cliff achava que não. Ele o havia tido à sua mercê e o deixado viver.
Deveria se atrever a fazê-lo de novo?
Cliff pensou que sim. Saiu da sala pensando nisso.
Tinha certeza de que Gnut se moveria de novo.
Uma arma de raios Mikton poderia protegê-lo de outro gorila – ou cinqüenta gorilas.
Ele ainda não conseguira a história de verdade. Tinha conseguido apenas duas ridículas fotos de arquitetura.
Devia saber de imediato que iria ficar, em meio ao pó, armado com sua câmera e de uma pequena arma, mais uma vez sob a mesa de instrumentos no laboratório, e ouviria as portas de metal a se fechar à noite.
Desta vez conseguiria a história e as fotografias.
Se nenhum policial fosse destacado para passar a noite de guarda.




