
Ismo Santala: Você disse que quando decidiu ser um escritor, suas ambições literárias estavam entre ser um segundo JRR Tolkien ou James Joyce Júnior. Quando esta bifurcação teve lugar e como resolveu este dilema?
Michael Swanwick: Ah, isso foi nos tempos de colégio e da universidade, eu passava meu tempo escrevendo péssimas histórias de fantasia e coisas ainda piores. Tolkien e Joyce pareciam cada qual no topo de suas montanhas e era lá que eu queria estar, no topo. Minha lealdade a um ou outro mudava de tempos em tempos, dependendo do que minha caneta quisesse.
Para resumir... eu poderia ser um adulador e dizer que decidi por ser o próximo Vladimir Nabokov, pois todos meus primeiros heróis da literatura tendiam a ser grandiosos - mas a verdade foi que eu parei de tentar pular carniças nestes dez anos de crescimento literário e comecei a escrever narrativas simples que eu pudesse aprender com elas. Isso se deu aproximadamente no inicio dos 70 quando vim para Filadélfia e encontrei Gardner Dozois e Jack Dann e outros autores de FC e pude ver como autores de verdade trabalhavam. Escrever parece muito com arquitetura, pois existe muito deste trabalho pouco romântico, pouco glamoroso e que tem que ser feito antes de se obter grandes efeitos. Levantar uma parede requer trabalho braçal, o personagem precisa de uma motivação muito forte. Meus primeiros onze anos como escritor, eu escrevia constantemente e ainda assim não conseguia terminar as histórias. Quando aprendi o básico da coisa, eu consegui.
E é claro que a primeira boa história que você escreve é como vento nas velas, ela te leva à frente e dá seu curso. Você passa a querer escrever melhor.
Você vislumbra o horizonte.
Um inesperado benefício do meu começo foi que quando publiquei pela primeira vez, sabia mais sobre ficção do que a maioria dos autores iniciantes, então as minhas duas primeiras histórias a serem publicadas ('Gunungagap' e 'The feast of Saint Janis') apareceram relacionadas para concorrer ao Nébula. Isso chamou a atenção para mim. Mas não aconselho aqueles que querem se tornar escritores que se espelhem no meu início de carreira. É terrível chegar perto dos trinta anos sem ter escrito nada ainda e sem conhecer sobre sua habilidade para seguir esta carreira.
Quais são seus escritores prediletos? Novos, antigos, conhecidos ou emergentes?
Puxa! Poderíamos ficar uma semana falando deles. Estabelecidos eu diria: Gabriel García Márquez, Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Djuna Barnes, A. S. Byatt, Jorge Luis Borges, Joanna Russ, John Barth em seu inicio (particularmente The Sot-Weed Factor e Chimera), Julio Cortázar, Italo Calvino, John Fowles, Samuel R. Delany, Donald Barthelme, Muriel Spark, William S. Burroughs, e inevitavelmente Thomas Pynchon.
Esses são apenas aqueles que me vem mais rapidamente à cabeça. Mas existem estes escritores como Kafka e Salinger e Twain que me são tão familiares e que acabo por esquecer de citá-los.
Novos e emergentes: Greer Gilman, autor de um livro e dois contos de fantasia. China Mieville, que tem recebido muita atenção hoje em dia, e merece. Ellen Kushner e Delia Sherman autoras de The Fall of the Kings. Andy Duncan, chamado de Howard Waldrop da sua geração. Sherman Alexie ainda é novo? Ele é sensacional ainda assim.
Charlie Stross e seu livro Accelerando que me inspira com cada linha dele. Ian R. MacLeod. Geoff Ryman. Paul Park. Gwynneth Jones. Ken MacLeod. Michael Chabon, é claro. Kelly Link. Ted Chiang que consegue ser original e novo a cada história. Mas é claro, estou falando apenas de lembrança, o que vem à cabeça.
Estive em Helsinque recentemente onde fui entrevistado por um fanzine finlandês e meu entrevistador me perguntou se eu não pensava que este era uma época extraordinária para o gênero, comparável a New Wave, porêm maior, pois há tantos escritores fazendo trabalhos fantásticos, tanto na FC quanto na fantasia. E eu pensei: Sim! Com certeza! Foi um tipo de choque, um deja vu. Tive que viajar até a Finlândia para que alguém me apontasse o óbvio, mas a verdade. Existe um enorme número de ainda-não-conhecidos autores surgindo para a literatura, o que é totalmente sem precedentes, neste exato momento. Se eu me atrevesse a fazer uma lista dos melhores escritores atualmente escrevendo, você ficaria de saco cheio antes mesmo de eu terminar.
Deixei de fora todos da minha geração, contudo suas obras estão particularmente próximas do meu coração, porque sou amigo da maioria deles. Mas é uma competição. São os caras com quem eu tento conviver.
Um dos apelos da FC é que o gênero oferece um universo de conceitos que o escritor pode acentuar ou perverter, de acordo com seus desejos. Seria certo dizer que você estaria interessado também no lugar comum literário dos clichês pela mesma razão?
Como qualquer outra coisa, a caixa de ferramentas da FC prestasse como um bom criado para um pobre mestre. Minha série de histórias curtíssimas, The Periodic Table of Science Fiction, invoca fortemente aquele material preexistente na FC, algumas vezes tratado seriamente, outras vezes como brincadeira. Mas tem um lado ruim também. Muitos escritores procuram trabalhar na mudança de algumas alegorias existentes, como um mágico de palco irá superficialmente modernizar um dos números do Houdini, enquanto mantém a mecânica intacta.
Você encontra naves espaciais baseadas em navios da marinha mercante da Segunda Guerra Mundial e que fazem prospecção de minérios em asteróides igual à corrida pelo urânio dos anos 50, é uma ficção que nenhuma pessoa sã pode acreditar que algum dia poderá acontecer. Em casos extremos você encontra astronautas com armas laser, estes autores não percebem que eles há muito não escrevem Ficção Científica mas meramente ficção inexata dos dias atuais.
O verdadeiro desafio, o jogo de verdade, é desenvolver idéias originalmente genuínas. O escritor que inventou a máquina do tempo ou a nave das gerações, ou o ciberespaço, pensavam grande. Aquele que for fazer uma versão engraçadinha de uma destas coisas irá ser publicado e esquecido. São as regras do jogo. Se não pode aparecer com algo novo, se tudo que você tem é a força da sua prosa, então você deveria tentar escrever outra coisa qualquer.
Escrever coisas mais simples não basta. Você tem que trazer algo de novo, uma razão para alguém querer ler seu trabalho ao invés de usar este mesmo tempo para reler Proust.
Como você descreve a diferença entre seus contos e seus romances? Por exemplo, alguma idéia destes contos acaba se tornando um romance ou você sabe até onde a idéia pode ir?
Uma história curta é um objeto mental que pode ficar na mente por completo. Um romance é grande demais para isso. Parece mais como uma viagem. Você pode saber do inicio e do fim e ter o sentimento, mas os incidentes surgem separadamente. Um conto é como uma alucinação viva, mas um romance é imenso, algo que você pode se mudar para dentro e viver por uma temporada.
Quando tenho uma idéia, não sei se ela irá crescer o bastante para se tornar uma ficção, muito menos de que tipo. Mas vou brincar com ela e pensar sobre ela e fazer algumas anotações e eventualmente, se não for robusta o bastante, vai ficar claro para mim. Com a ocasional exceção da loucura, eu não começo nada até que eu tenha a linha inicial escrita e uma visão clara de como irá se desenvolver até o seu fim. O ultimo parágrafo essencialmente, o momento emocional onde tudo que foi escrito até então contribuiu para que ele existisse. Quando tenho isso, posso começar escrever e conduzir o enredo (não tenho idéia de onde vai parar, somente o que está estabelecido para que a história faça sentido) tão simples e certo em direção ao fim. Quando o leitor chega lá, saberá que é inevitável por que o trabalho todo foi dedicado a justificá-lo. Mas também pode ser surpreendente, por que sabendo do que se aproxima, posso acrescentar algumas distrações e desorientações, que manterá o leitor longe do que está por vir.
Nunca tive um conto que chegou a se tornar um romance. Seria violar o formato e o sentimento da idéia, como um oleiro sentar-se para fazer um pote e terminar com um camelo de cerâmica. Mas certa vez comecei um trabalho que era para ser um romance e terminei com um conto curto de 425 palavras. Cortei a história em tiras pequenas, colei sobre uma máscara com o rosto da minha esposa, feita de gaze cirúrgica, e pendurei na parede da sala de jantar.
A freqüência com que ocorrem colaborações literárias é um dos aspectos notáveis da FC/Fantasia. Você trabalhou com outros escritores em inúmeras ocasiões; como se compara com trabalhar sozinho? (e seu próximo trabalho em colaboração com Gene Wolfe.)
Cada colaboração é única. As histórias que escrevi com Jack Dann e Gardner Dozois, foram como parcerias de escola. Gardner e Jack sabiam tudo sobre como escrever e eu era um principiante. Foi uma oportunidade incrível para aprender. 'Green Fire' com Eileen Gunn, Pat Murphy e Andy Duncan era a criança dos olhos de Eileen desde o inicio. Ela possui um talento enorme e estranho e lamentavelmente pouco prolífico, então foi um privilégio trabalhar com ela e ver como sua mente funcionava. As duas histórias que fiz com Avram Davidson foram póstumas, pois trabalhei em histórias que ele deixou inacabadas. 'Apenas sobre seu corpo morto' eu disse para as pessoas 'era o único jeito dele deixar isso acontecer.'
'Dogfight' minha colaboração com William Gibson, eu vejo como um completo sucesso mas não acho que ele gostou. Possivelmente Bill não quisesse colaborar, pois sua visão era tão específica que as palavras de outra pessoa em sua ficção, mesmo boas, nunca iriam satisfazê-lo. Gene Wolfe é para mim, o maior escritor na língua inglesa vivo atualmente. Um editor que conheço pensa que ele irá ser um segundo Saul Bellow mas eu li Ravelstein e não vejo diferença.
Em seus dois maiores ensaios, 'In the tradition...' (Fantasia) e 'A user's guide to the Postmoderns' (FC) você mapeia certas tendências de cada gênero. O que pensa sobre o status acadêmico da Ficção Científica e da Fantasia?
Se você for procurar por ensaios criticas sobre a FC e a Fantasia você será soterrado com trabalhos sobre Stanislaw Lem, Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick e (sem brincadeira) Jane Austen. Por que infelizmente a maioria das pessoas no estudo destes gêneros são acadêmicos que não acreditam em seus gostos e julgamentos próprios. Eles não escrevem sobre Clifford Simak ou Leigh Brackett ou Jack Vance por que estes autores - cuja as obras são tremendamente importantes - não foram sancionados pelo consenso critico e podem parecer que não possuem literalidade afinal.
Existem exceções é lógico, e por que elas existem, eu devo dizer que meus próprios ensaios não possuem o rigor intelectual de trabalhos de crítica acadêmica. Foram escritos como propaganda. Eu queria promover alguns trabalhos que eu pensava não estar recebendo a devida atenção, e provocar as pessoas para argumentar sobre seus méritos.
A única coisa que eu já escrevi e que pode ser encarado como um resenha de um olhar rigoroso é 'Hope-in-the-mist', um ensaio biográfico de Hope Mirrlees (escritora de fantasia, cujo maior sucesso foi Lud in the mist de 1926) que apareceu em Foundation, um jornal britânico sobre estudo dos gêneros.
Por fim, para fechar como esperado, no que você está trabalhando atualmente?
Nunca tenho certeza absoluta. Dois livros, ou quase. Estou escrevendo uma fantasia que começa com um estilo meio guerra do Vietnam no reino das Fadas. O protagonista, Will, começa como um relutante criado de um dragão mecânico e em decorrência disso é levado de sua vila para um mundo maior e mais estranho, vitima de um destino inesperado que espera a maioria dos heróis das histórias de fadas. Pode ser que se passe, ou não, no mesmo universo de The Iron Dragon's Daughter. Certamente os dragões serão os mesmos. Mas num continente inteiramente diferente e abordando um reino diferente.
O outro - no qual ainda estou nos estágios iniciais de pesquisa - será sobre ficção cientifica pura, uma viagem de descobrimento em uma das luas do sistema solar, com Lizzie O'brien, o protagonista de 'Slow Life', indicado para o Prêmio Hugo. A graça desta história está em reimaginar que no futuro próximo, a exploração espacial será uma realidade, Por exemplo, no conto - que pretendo que não se torne um livro - o astronauta tem que passar muito do seu tempo dando resposta engraçadinhas para perguntas idiotas na internet. É óbvio que as primeiras pessoas a irem para Marte irão inevitavelmente ter que se render a isso. Mas eu espero tratar de coisas mais sérias também.
Também estou trabalhando em muitas, muitas histórias curtas. Tenho quarenta delas parcialmente escritas no meu computador e notas e idéias mais, e que não consigo dar conta. Algumas jamais serão finalizadas, outras serão, e não tem jeito de saber qual é qual até que aconteça. Ah, e alguns projetos estranhos, tanto de ficção quanto não, dos quais não posso falar porque se eu o fizer, jamais irei sentar para escrever sobre eles.
E a minha muito esperada primeira coleção de contos curtíssimos, Cigar-box Faust and Other Miniatures, está finalmente chegando este outono pela Tachyon, em tempo para a Convenção Mundial de Fantasia que se aproxima.
Então continuo ocupado. As idéias hoje chegam cada vez mais rápidas, mas escrever ainda é demorado como sempre foi, infelizmente.
(Ismo Santala - 2003)
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Entrevista com Michael Swanwick
domingo, 12 de abril de 2009
Atomic Rockets










Sua imaginação foi capturada pelo estrondo dos foguetes de SPACE CADET de Heinlein ou pelo Polaris de TOM CORBETT? Mas serão estes foguetes possíveis ?
Este site foi feito principalmente para autores de ficção científica que querem um pouco de precisão nas informações científicas.
Atomic Rockets
Michael Swanwick

Michael Swanwick (18 de November, 1950), escritor de Ficção Científica(FC) e Fantasia. nascido em Schenectady, NY(EUA), começou a ter seus livros publicados nos anos 80.
Seus primeiros livros, In the Drift (1985), Vacuum Flowers (1987), Stations of the Tide (1991) e The Iron Dragon's Daughter (1993) chamaram a atenção da crítica por seu estilo recheado de imaginação e ironia, fugindo um pouco da FC convencional de então. Em The Iron Dragon's Daughter, um conto com elementos de fantasia, Swanwick veste elfos com ternos Armani e dragões são caças a jato; Jack Faust (1997), reconta a lenda de Fausto a partir da tecnologia moderna e Bones of the Earth (2002), trata-se de uma viagem temporal envolvendo dinossauros, só que de uma maneira bem diferente...
Seus contos também aparecem em diversas revistas e coletâneas, como Gravity's Angels (1991), Moon Dogs (2000) e Tales of Old Earth (2000), entre outras. Além disso, tem diversos trabalhos fruto de colaborações com outros escritores, como Gardner Dozois ("Ancestral Voices", "City of God" e "Snow Job") e William Gibson ("Dogfight").
Ao longo de quase trinta anos, acumulou diversos prêmios, como 5 Hugos, 1 Nebula, 1 World Fantasy, 1 Sturgeon, 3 Locus, 4 prêmios Asimov pela escolha do público e 2 SF Chronicle.
Swanwick também se dedica a escrever sobre a profissão que escolheu. Publicou dois ensaios, sobre FC (The User's Guide to the Postmoderns, 1986) e Fantasia ("In the Tradition...", 1994), em que, de maneira controversa, categoriza os novos escritores de FC em dois grupos: 'ciberpunk' e 'humanistas'.
Nas palavras de Swanwick:
"Quando escrevi User's Guide to the Postmoderns, eu implicitamente me coloquei no meio do caminho entre o que chamei de escritores de ciberpunk e escritores humanistas. Ambos mostram tendências que vejo no meu trabalho, então eu os defino por estarem um pouco a direita, ou um pouco à esquerda. Se pudesse sintetizar todos estes autores em um só, provavelmente o escritor resultante disso, seria eu.
Michael Swanwick online
52 títulos de Michael Swanwick (Periodic table of Science Fiction, The Iron Dragon's Daughter, Ancestral voices, Hello, said the Stick, A Midwinters tale, A small room in Koboldtown, After Science Fiction died, Ancient engines, Bones of the Earth, Cold Iron, Congratulations from the future, Dogfight, Dragons of Babel, Girls and boys come out to play, Griffin 's egg, Hunting the great white, Legions in time, Lord Weary's Empire, Minor planets Phoebe, Moondogs, Mother Grasshoper, Radiant doors, Radio Waves, Riding the Gigantosaur, Scherzo with Tyrannosaur, Slow life, Stations of the tide, Teller, The changeling's tale, The dead, The dog said Bow-Wow, The Dragon Line, The edge of the world, The feast of Saint Janis, The madness of Gordon van Gelder, The Raggle Taggle Gypsy, The Scarecrow's boy, The sleep of reason, The very pulse of the machine, The wireless folly, The Wisdom of Old Earth, The wreck of the River of Stars, Tin Marsh, Triceratops Summer, Trojan Horse, Urdumheim, Vacumn Flowers, Walking out, Wild minds, Shed that guilt ) [ Download ]
sábado, 11 de abril de 2009
Antigas máquinas - Michael Swanwick

‘Planejando viver para sempre, Tiktok?’
As palavras interromperam a conversa de bar e trouxe silêncio com elas.
Um silêncio quase infinito e então ‘Acredito que está falando comigo?’ disse o mecanizado.
O bêbado riu. ’Tem mais alguém aqui enfiando agulhas na cara?’
O velho viu tudo. De leve tocou na mão da jovem sentada ao lado dele e disse: ’Observe isso.’
Cuidadosamente o mecânico baixou sua seringa junto de uma garrafa de colágeno liquido sobre um pedaço de tecido aveludado.
Desconectou-se do recarregador, deixando o plugue ao lado da seringa.
Quando ergueu o rosto novamente, sua face era calma e rígida. Parecia com um jovem leão.
O bêbado riu-se desdenhoso.
O bar ficava bem no canto distante da entrada. Um refúgio à prova da irritação das ruas, todo de latão e espelhos e painéis de madeira, aconchegante como o interior de uma noz. Uma luz suave espalhava-se preguiçosa pela sala, criando uma variação de detalhes como nuvens cobrindo um dia de verão, mas longe de obscurecê-la.
O bar, as garrafas por detrás do bar, e as prateleiras sob as garrafas por detrás do bar, era tudo bastante real. Se havia algo virtual, estava longe dali, onde não poderia ser tocado.
‘Se isso foi um desafio’ disse o mecanizado ‘ficarei mais do que contente em encontrá-lo lá fora’.
‘Ah, não’ respondeu o bêbado, sua expressão revelava a mentira em suas palavras ‘eu só vi você injetando esta meleca na cara, oh, tão delicado, parecia uma velha se enchendo de antioxidantes. Então pensei... ’ ele colocou uma mão sobre a mesa para se segurar ‘...pensei que você esperasse viver para sempre.’
A garota olhou para o velho como se fosse perguntar algo. Ele colocou um dedo sobre os lábios.
‘Bem, você está certo. Você tem... o que? Uns cinquenta anos? Mal começou a envelhecer e tornar-se decadente. Logo, logo seus dentes estarão podres e vão cair e seu cabelo vai desaparecer, sua face vai se encher com milhões de rugas. Sua audição e sua visão irão embora e não será capaz de lembrar-se de quando as possuía. Terá sorte se não precisar usar fraldas antes do fim. Enquanto eu... ’ ele espirrou um filete do fluido de sua seringa e deu um tapinha na garrafa e bolhas subiram à superfície... 'tudo que puder falhar eu irei simplesmente repor. Então, sim, eu planejo viver para sempre, enquanto você, bem, suponho que esteja planejando morrer. Logo, eu espero. ’
O rosto do bêbado torceu-se e com um incoerente rugido de raiva atacou o mecanizado.
Rápido demais para poder ser visto, o mecanizado afastou-se, agarrou o bêbado e o ergueu por sobre sua cabeça. Uma de suas mãos pressionava a garganta do homem de modo que não podia falar. A outra mão juntava seus punhos presos por trás dos joelhos, e o bêbado não tinha como escapar.
‘Poderia quebrar sua espinha fácil’ disse sem emoção ‘se quisesse poderia romper cada órgão interno de seu corpo. Sou dois ponto oito vezes mais forte do que um homem jovem e três ponto cinco vezes mais rápido. Meus reflexos só estão abaixo da velocidade da luz e acabei de ser regulado. Você não poderia ter escolhido uma pessoa pior para começar uma briga.’
Então o bêbado foi solto e colocado de pé, tossindo procurando ar.
‘Mas também sou um homem misericordioso, e pedirei gentilmente que vá embora.’
O mecanizado empurrou o bêbado na direção da porta. O homem saiu correndo por ela.
Todos no local – e não eram muitos – estavam observando. Então se lembraram de seus drinques e a conversa voltou a encher o bar novamente. O barman guardou algo debaixo do balcão e voltou ao serviço.
Deixando sua recarga incompleta, o mecanizado guardou o kit de lubrificação em um bolso. Pagou e estava saindo, quando o homem velho se aproximou e disse: ‘Ouvi dizer que espera viver para sempre, é verdade?’
‘Quem não espera?’ respondeu curto e grosso.
‘Então sente-se. Gaste alguns poucos minutos dos abundantes minutos que os séculos à sua frente lhe reservam e divirta um homem velho. O que é tão urgente para que você não possa gastar algum tempo?’
O mecanizado hesitou. Então, quando a jovem sorriu para ele, ele se sentou.
‘Obrigado. Meu nome é...’
‘Eu sei quem é você, Mister Brandt.' Disse o mecanizado interrompendo-o. 'Não há nada de errado com minha eidética (faculdade de evocar visualmente eventos passados.)
Brandt sorriu: ‘É por isso que gosto tanto de vocês. Não preciso ficar lembrando-os das coisas.’ Fez um gesto em direção da jovem.
‘Esta é minha neta.’ A luz se intensificara onde ela estava sentada, fazendo seu cabelo ruivo brilhar. Ela sorriu graciosa.
‘Sou Jack.’ O jovem puxou uma cadeira. ‘Navegador-Fuego Quimera, modelo número...’
‘Por favor... Eu fundei a Quimera. Acha que não reconheço uma das minhas crianças?’
Jack ficou vermelho. ‘Sobre o que quer falar comigo Mister Brandt?’ sua voz era bem menos hostil agora, contra-hormônios sintéticos agiam para refrear suas emoções.
‘Imortalidade. Achei sua ambição bastante intrigante.’
‘O que posso dizer? Eu me cuido, invisto cuidadosamente, compro meus upgrades. Não vejo razão pela qual não deveria viver para sempre.’ E desafiadoramente continuou: ‘Espero que isso não o ofenda.’
‘Não, não, é claro que não. Porque deveria? Alguns homens procuram a imortalidade através do seu trabalho e outros através de seus filhos. Como eu poderia ser mais feliz do que ter a ambos? Mas me diga, realmente espera viver para sempre?’
O mecanizado nada disse.
‘Lembro de um incidente que ocorreu com meu falecido sogro, William Porter. Era um grande sujeito, Bill, e quem se lembra dele? Apenas eu. Mas ele era um pouco sem noção, um dia ele estava em uma excursão num museu de ciência que incluía uma antiga e magnífica locomotiva a vapor. Isso foi no século passado. Bem, ele estava ouvindo admirado a guia falar sobre as virtudes desta antiga máquina, quando ela mencionou sua data de fabricação e ele percebeu que era mais velho que ela. Neste ponto o velho Bill deu uma risada. Mas não havia nada para rir, certo?’
‘Não.’
A neta estava sentada quieta prestando atenção e comendo aperitivos de uma vasilha.
‘Quantos anos você tem Jack?’
‘Sete anos.’
‘Eu tenho oitenta e três. Quantas máquinas você conhece tão velhas quanto eu? Oitenta e três anos e ainda funcionando?’
‘Eu vi um carro outro dia’ disse a neta ‘Um Dusenberg. Vermelho.’
‘Maravilhoso. Mas ele não é mais usado para transporte, não é mesmo? Temos calçadas rolantes agora. Eu ganhei um prêmio certa vez, feito da válvula de um Univac. Ele foi o primeiro e verdadeiro computador. Apesar de toda a fama e importância histórica não passava de ferro velho.’
‘O Univac’ disse o jovem ‘não podia agir por conta própria. Se pudesse talvez estivesse vivo hoje.’
‘Peças se quebram.’
‘Peças novas podem ser compradas.’
‘Sim, enquanto existe mercado para elas. Mas existem tão poucas pessoas mecânicas do seu modelo. E muitos de vocês estão em profissões de risco. Acidentes acontecem e a cada acidente, o mercado de consumo diminui.’
‘Pode-se comprar peças antigas. E pode pedir que alguém as fabrique.’
‘Sim, se puder pagar por isso. Mas e se não puder?’
O jovem ficou calado.
‘Filho, você não irá viver para sempre. Precisamos estabelecer isso. Então, quando admitir que morrerá algum dia, você deve admitir tsmbém que será mais cedo do que tarde. As pessoas mecânicas estão em sua infância. E ninguém pode transformar um modelo T numa esteira rolante, concorda?’
Jack fez que sim.
‘Você já sabia disso.’
‘Sim.’
‘É por causa disso que você agia daquele jeito.’
‘Sim.’
‘Vou ser direto aqui Jack – você provavelmente não vai viver oitenta e três anos. Você não tem as vantagens que tenho.’
‘E quais são elas?’
‘Bons genes. Eu escolhi meus ancestrais muito bem.’
‘Bons genes’ disse Jack amargamente. ‘Você recebeu bons genes e o que o que diabos eu recebi no lugar disso?’
‘Juntas de molibdênio e aço inoxidável. Chips de rubi de zircônio – ora, fizemos tudo de melhor para vocês garotos.’
‘Mas não o bastante!’
‘Não. Não é. Apenas o melhor que podíamos.’
‘Qual a solução então?’ perguntou a neta sorrindo.
‘Eu os aconselharia a tomar o caminho mais longo. Foi o que eu fiz.’
‘Tolices!’ disse o mecanizado.’ Você foi do movimento extensionista quando jovem. Eu baixei a sua biografia. Me parece que queria a imortalidade tanto quanto eu.’
‘Ah sim, fui um membro do movimento pela extensão da vida. Não pode imaginar as porcarias que colocávamos em nossos corpos. Mas um dia eu desisti. O problema é que a informação se deteriora com o tempo, na medida em que a célula humana se reproduz. A morte é inerente para pessoas de carne. Parece ter sido escrita em nosso programa básico, um meio talvez de manter o universo livre de velhos.’
‘E idéias velhas’ disse a neta maliciosamente.
‘Touché! Percebi que estender a vida era um erro. Então decidi que meus meninos poderiam ter sucesso onde eu fracassei. Que vocês iriam... ’
‘Você falhou.’
‘Mas não parei de tentar.’ O velho socou a mesa ao mesmo tempo em que disse a frase. ‘Vamos pensar no que eu deveria ter feito. Como seria um verdadeiro imortal? Que instruções eu deveria ter dado ao meu time de desenhistas? Vamos fazer um homem mecânico que irá viver para sempre!’
Com cuidado o mecanizado disse: ‘Era o jeito óbvio de começar. Ele deveria ser capaz de poder comprar partes novas quando estivessem disponíveis. Deveriam haver adaptadores para tornar fácil ajustar-se tecnologicamente. Deveria poder viver sob condições de extremo calor, frio ou umidade e... ’ fez um gesto com a mão sobre o rosto ‘...não deveria ser tão feio.’
‘Acho você bonito’ disse a neta.
‘Tá, mas isso aqui deveria se passar por carne.’
‘Então seu hipoteticamente imortal deveria... um, poder receber upgrades infinitos, dois, capacidade de se adaptar a um vasto espectro de condições e três, ser discreto. Algo mais?’
‘Acho que ela deveria ser charmosa’ disse a neta.
‘Ela?’ perguntou o mecanizado.
‘Por que não?’
‘Não seria ruim ‘ disse o velho. ‘O organismo que sobrevive às forças evolucionárias é aquele melhor adaptado do nicho ambiental. O nicho ambiental em que vivem as pessoas é feito pelo homem. Qual o traço mais útil para um sobrevivente do que provavelmente a habilidade de se relacionar bem com os homens. O que seria melhor que uma mulher?’
‘Oh, ele não gosta de mulheres. Posso ver pela sua expressão corporal’ disse a neta.
O jovem ficou corado.
‘Não se ofenda’ disse o velho. ‘Você nunca deveria se ofender com a verdade. E quanto a você...’ virou se para a jovem – ‘se não passar a tratar as pessoas melhor, não a levarei mais a lugares assim.’
Ela abaixou a cabeça e pediu desculpas.
‘Desculpas aceitas. Mas podemos voltar ao assunto? Nosso hipotético imortal pareceria com uma mulher, de várias maneiras. Poderia se auto-regenerar. Fazer crescer partes de reposição sozinha. Poderia usar quase tudo como combustível. Um pouco de carbono, água... ’
‘Álcool seria uma excelente idéia’ disse a neta.
‘Seria capaz de mimetizar efeitos superficiais de envelhecimento’ disse o mecanizado. A vida biológica evolui através das gerações. Quero que ela possa ser capaz de se desenvolver ao longo dos upgrades.’
‘É justo. O que eu faria seria acabar com os upgrades inteiramente, e daria a ela controle consciente de seu corpo todo. Assim ela poderia mudar e evoluir à vontade. Ela precisaria disso para sobreviver ao colapso da humanidade.’
‘O colapso da humanidade? Acho que vai acontecer?’
‘Em um longo tempo? É claro. Se for olhar para o futuro parece inevitável. Tudo parece inevitável. Para sempre é um longo tempo, lembre-se. Tempo suficiente para absolutamente tudo poder acontecer.’
Por um momento ninguém falou.
Então o velho bateu as palmas das mãos uma contra a outra. ‘Bem, criamos nossa Nova Eva. Vamos então soltá-la ao vento e ver até onde ela poderá ir. Ela poderá viver quanto tempo?’
‘Para sempre’ disse o mecanizado.
‘Para sempre é muito tempo. Vamos partir em unidades menores. No ano 2500 ela estará fazendo o que?’
‘Trabalhando em um emprego’ disse a neta. ‘Design de moléculas artísticas, talvez, ou escrevendo alucinações recreativas. Estará intensamente envolvida com a cultura. Terá muitos amigos dos quais cuidará com carinho e talvez um marido ou uma esposa ou duas.’
‘’Que envelhecerão’ disse o mecanizado ‘e morrerão.’
‘Ela irá lamentar-se por eles e seguir vivendo.’
‘No ano 3500. O Colapso da civilização.’ Anunciou o velho com prazer. ‘Então o que ela fará?’
‘Ela irá se preparar, é claro, se houver radiação ou toxinas no meio-ambiente, irá tornar seu sistema imune contra os efeitos. E se tornará útil para os sobreviventes. Como mais velha poderá ensinar as artes de cura. Irá aos poucos ensinando-os isso ou aquilo. Ela terá uma base de dados contendo tudo que eles perderam. Aos poucos, elas os guiará de volta a civilização. Mas para uma civilização pacífica desta vez. Uma que não irá querer se destruir.
‘Ano um milhão. A humanidade evolui para um estado que não podemos hoje imaginar. Como ela responde a isso?’
‘Ela acompanha a evolução – Não. Ela dá forma à evolução da humanidade. Ela vai optar por um método livre de riscos para alcançar as estrelas, então ela irá encorajar um tipo de ser que desejará fortemente tal coisa. Ela não estará entre os primeiros a fazê-lo, penso. Esperará algumas centenas de gerações para experimentar.’
O mecanizado que tinha estado ouvindo fascinado em silêncio agora disse: ‘Suponha que nunca aconteça? O vôo estelar será sempre difícil e perigoso? Então o que acontece?’
‘Antigamente diziam que o homem nunca voaria. Muita coisa que parece impossível se torna simples se você puder esperar por ela.’
‘Quatro bilhões de anos. O sol queima todo seu hidrogênio, a atmosfera entra em colapso, fusões de hélio se iniciam e o sol se torna uma gigante vermelha. A Terra é vaporizada.’
‘Ela estará em alguma parte então. Fácil.’
‘Cinco bilhões de anos. A Via Láctea colide com a galáxia de Andrômeda e toda vizinhança de torna altamente radioativa e as estrelas explodem.’
‘Esta é mais interessante. Ela já tinha previsto e estará a alguns milhões de anos luz distante em uma galáxia amigável. Ela terá tempo bastante para se preparar. Tenho fé que provará estar preparada para tal.’
‘Um trilhão de anos. A última estrela se apaga. Restarão apenas buracos negros.’
‘Buracos negros são uma fonte espetacular de energia. Nenhum problema.’
‘1,06 googol anos.’
‘Googol?’
‘É dez elevado a centésima potência – um, seguido de cem zeros. A morte do universo. Como ela poderia sobreviver a isso?’
‘Ela já teria percebido que isso se aproximava’ disse o mecanizado.
‘Quando o último buraco negro desaparecer, não haverá mais energia disponível. Talvez ela precise reescrever sua personalidade pelas constantes físicas do universo moribundo
‘Seria possível?’
‘Oh, talvez. Mas eu realmente penso que a vida do universo é algo longa o bastante para qualquer um.’ Disse a neta. ‘Ela não seria gananciosa.’
‘Talvez sim’ disse pensativo o velho. ‘Talvez não’ e então disse ao mecanizado: ‘Então ai está, uma espiadela no futuro e uma breve biografia do primeiro imortal, que termina, aliaís, com sua morte. Agora me diga, sabendo que contribuiu com algo, mesmo que pequeno, para esta realização – isso não seria o bastante?’
‘Não’ disse Jack. ‘Não seria.’
Brandt fez uma careta. ‘Bem, você é jovem. Deixe-me perguntar isso: Tem sido uma boa vida?’
‘Não tão boa. Não boa o bastante.’
Por um longo tempo o velho ficou em silêncio, então disse: ‘Obrigado. Apreciei nossa conversa. ‘
O interesse se fora de seus olhos e ele desviou sua atenção.
Sem saber o que fazer Jack olhava para a neta, que sorriu e deu de ombros: ‘Ele é assim mesmo. Ele é velho. Seu entusiasmo varia de acordo com seu equilíbrio químico. Espero que não se importe.’
‘Entendo’ disse o jovem ficando de pé e depois seguiu para a porta.
Chegando à porta, olhou para trás e viu a neta rasgando o guardanapo de linho em pequenas tiras e comendo os retalhos delicadamente com a ajuda de pequenos goles de vinho.
Ancient Engines (1999) - Michael Swanwick
Indicado a melhor conto de FC de 2000, para os prêmios Nebula, Locus, Hugo e vencedor do prêmio de melhor conto de FC de 2000 na escolha dos leitores da Asimov SF.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
How to write Science Fiction and Fantasy - Orson Scott Card

How to Write Science Fiction and Fantasy was published in 1990 by Orson Scott Card. Card is an American sci-fi and fantasy author probably best known for his story Ender's Game.
The advice in the book is based on his own experiences and he clearly knows something because he's written numerous novels and been very successful as a writer.
This book is an excellent guide for those who wish to write stories in the science fiction and fantasy genres. The book is intended for those writing speculative fiction (a different term for 'science fiction and fantasy'). While it includes some general information for writers, it mostly focuses on things that are an issue only in these genres, such as world building, coming up with plausible alien cultures and working out rules for magic. There are a lot of good books out there for writing fiction in general, so Card recommends a few for things like plotting and perspective, which any writer has to deal with.
The writing style is entertaining and easy. Card uses examples from his own experience and other works of fiction. He also raises the point, which I've seen in other books, that every writer is different. There is one point where he does give rules to be followed, but the final rule is to be prepared to break them. I think the advice given in this book should be seen as a guideline, from which a writer can develop his or her own style and techniques.
About the Author
No one had ever won both the Hugo and the Nebula Award for best science fiction novel two years in a rowuntil 1987, when Speaker for the Dead won the same awards given to Ender's Game. But Orson Scott Card's experience is not limited to one genre or form of storytelling. A dozen of his plays have been produced in regional theatre; his historical novel, Saints (alias Women of Destiny) has been an underground hit for several years; and Card has written hundreds of audio plays and a dozen scripts for animated videoplays for the family market.
He has also edited books, magazines, and anthologies; he writes a regular review column for The Magazine of Fantasy and Science Fiction; he publishes Short Form, a journal of short-fiction criticism; he even reviews computer games for Compute! Along the way, Card earned a master's degree in literature and has an abiding love for Chaucer, Shakespeare, Boccaccio, and the Medieval Romance.
He has taught writing courses at several universities and at such workshops as Antioch, Clarion, Clarion West, and the Cape Cod Writers Workshop. It is fair to say that Orson Scott Card has examined storytelling from every angle.
How to write Science Fiction and Fantasy - Orson Scott Card [ Download ]
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Querem escrever horror? - Tim Waggoner

Querem escrever horror?
Muitas pessoas querem.
A grande indústria editorial pode ter momentaneamente virado as costas ao gênero, mas o mercado das pequenas editoras está a prosperar nos EUA, já para não mencionar o número crescente de fanzines de horror na Internet.
Infelizmente, muitas das histórias publicadas nestes mercados não são muito inspiradoras (para o dizer de uma forma amável) e são simplesmente más (para o dizer de forma honesta).
Querem que o seu trabalho sobressaia do resto da alcateia licantrópica?
Querem começar a vender obras para mercados maiores e mais prestigiosos?
Querem que as suas histórias de horror sejam tão boas que as pessoas corram sem fôlego ao longo da prosa, e mal sejam capazes de sussurrar um exausto, "Caramba!" quando terminam leitura?
Não é fácil. Mas eu tenho três dicas para oferecer que aumentarão as suas hipóteses de se juntar ao panteão de escritores de horror de sucesso:
1. Cuidado com os clichés.
Leiam amplamente, tanto dentro como fora do gênero de horror, para que possam reconhecer enredos já usados até à exaustão (e para além dela). Ficarão sabendo como fazer melhor do que escrever histórias que terminam em "E era tudo um sonho," ou "E então ela apercebeu-se, enquanto o seu amante enterrava as presas no pescoço dela, de que ele... era... um...VAMPIRO!"
Quando eu era adolescente, escrevi uma história de horror com o título embaraçoso de "Natal
Assustador". Nela, um jovem delinquente atormenta e mata um homem idoso cujo fantasma volta, buscando uma vingança Natalícia. Pelo menos tive o bom senso de nunca enviar este pedaço de porcaria a ninguém.
Histórias de vingança são um dos maiores clichés da ficção de horror e, além disso, não existe tensão nelas. Os leitores sabem sempre exatamente como elas vão terminar.
Mesmo assim, podem usar os clichés para vosso proveito.
Na minha história, "Blackwater Dreams", publicada na antologia Bruce Coville's Book of Nightmares 2, voltei a tentar criar outra história de vingança fantasmagórica. Só que, desta vez, agarrei no cliché e retorci-o. O personagem principal, um jovem rapaz que se culpa pelo afogamento de um amigo, é visitado nos seus sonhos pelo fantasma do afogado. O rapaz teme que
o espírito tenha vindo em busca de vingança, mas o amigo não está zangado - ele está só.
No final da história, o meu protagonista tem que fazer uma escolha terrível: deixar o amigo entregue à sua solidão, ou o unir-se a ele, na sua úmida vida após a morte.
Na minha história "Alacrity's Spectatorium", voltei a trocar as voltas a outro cliché. Usei a noção de que vampiros não têm um reflexo e criei um espelho escuro que só mostra os reflexos de vampiros. Que preço pagariam os vampiros por um breve vislumbre seu nesse espelho sem igual? Mais, o que significaria para eles um tal vislumbre?
Em vez de terminar com um cliché, por que não começar com um?
Comecem com "Foi tudo um sonho," e construam a vossa história a partir daí. Por que não começar com um homem que descobre que a amante dele é uma vampira e descrever o que acontece depois disso? Ou então dêem a volta ao cliché. E se um vampiro descobrisse que o amante dele não era outro nosferatu mas sim (tremor!) um humano? E tentem evitar
o mais usado enredo na história da ficção de horror, que o autor o Gary A. Braunbeck (Time Was, Things Left Behind) descreve como uma história na qual o personagem principal só existe "para ser devorado pelo monstro". Histórias nas quais os personagens são apenas adereços serem comidos, sugados, estripados, rasgados, trucidados e transformados em geleía pelo seu monstro devorador, seja ele um vampiro, um lobisomem ou o omnipresente assassino-em-série.
Estas histórias não são apenas enfadonhas; elas são insultuosas para leitores que merecem melhor.
Provavelmente, o melhor modo de se evitarem clichés é aderir a um dos mais antigos: escrevam sobre aquilo que sabem. Busquem na vossa experiência ideias para histórias, escrevam sobre as coisas que os excitam e perturbam, as pessoas, os lugares e os eventos que tecem o tecido singular da vossa existência, que tornam a a vida diferente de qualquer outra vivida antes.
Se fizerem isto, não poderão evitar serem originais.
2. Há uma diferença entre perturbar os leitores e simplesmente os enojar.
Demasiados novatos pensam que escrever horror é escrever descrições detalhadas de estripamentos e de fluidos corporais a esguichar. Eles confundem o uso de tais elementos com audácia artística e escrita de vanguarda. A verdade é que, em vez disso, tais escritores são o equivalente literário da criança que enfia o dedo dentro do nariz e tira cá para fora um grande
macaco para poder acenar com ele em frente aos rostos dos amigos.
O bom horror - como toda a ficção que verdadeiramente importa - pretende afetar os leitores
emocionalmente. Claro, a repulsa é uma reação emocional, mas é uma bastante simplista, com um efeito limitado nos leitores. Eles terminam a história sobre um preservativo mastigador de pénis, e pensam, 'Puxa, isto é nojento', e imediatamente se esquecem de tudo.
Vocês falharam no objetivo de os tocar, de mexer com eles, exceto no menos profundo dos
níveis. Não estou a dizer que devem evitar escrever sobre o escuro e o perturbador.
É disso que trata o horror, da silenciosa sutileza de uma sombra semi-vislumbrada num dia que de outro modo seria de sol, até à revulsão "na-cara-do-leitor" do sangue a pingar do metal reluzente de uma lâmina de barbear.
Mas se optarem por irem atrás do "gross-out", como o Stephen King diz, ele tem que surgir naturalmente da própria história, ser uma parte tão integrante ao conto que estão a contar que não pode ser removido sem que a história sofra com isso.
No romance de Gary A. Braunbeck "Some Touch Of Pity" (mais um excelente exemplo de um escritor que pega num cliché - a história do lobisomem - e lhe dá uma forma original),
há um flashback que descreve a violação de uma das personagens. Não só o aspecto físico do acontecimento, mas também as emoções que o personagem sente enquanto a violação ocorre.
A cena é absolutamente brutal, mas também é completamente necessária à história.
Se a cena fosse menos marcante, ou pior, removida, a história seria muito menos potente em termos emocionais.
Na minha história, "Keeping It Together", publicada na primeira antologia da SFF Net, intitulada Between The Darkness And The Fire, escrevo sobre um homem gay que leva um estilo de vida heterossexual numa casa e com uma família que ele próprio criou a partir do seu desejo desesperado de ser aquilo que ele acha que é "ser normal".
Mas é uma ilusão que não pode ser sustentada, e à medida que a história progride, a casa, a esposa, a sua filha jovem, tudo se começa a deteriorar em seu redor. Numa cena, o personagem faz amor com a sua esposa por causa de um sentido de dever conjugal e, uma vez que a dissolução dela já se encontra adiantada nesta altura, o ato sexual. . .danifica-a.
Criei esta cena não somente para fazer os leitores dizerem "Ooooh, que nojo!" mas para
dramatizar ainda mais o impacto de uma negação tão profunda tanto no meu personagem principal como nos que o rodeiam.
Lembrem-se que elementos extremos, como qualquer outra coisa em ficção, são só ferramentas para vos ajudarem a contar vossas histórias da melhor maneira que vocês conseguem. Mas, como qualquer ferramenta poderosa, eles devem ser usados espaçada e cautelosamente, e sempre com uma boa razão.
3. Dêem-nos personagens com quem nos preocupemos.
Deixem-me dizer, antes de mais, que este conselho não significa que tenhamos de gostar dos seus personagens. Significa que os personagens devem ser tão desenvolvidos e interessantes que nos façam querer ler para descobrir o que lhes acontece.
Há personagens - Capitão Ahab, Sherlock Holmes, Hannibal Lector - que nem sempre são agradáveis (e que às vezes são completamente desprezíveis) mas que são tão singulares, tão completamente realizados, que não podem deixar de nos fascinar. É de personagens
carismáticos que a ficção memorável trata em todo o lado, qualquer que seja o meio onde o autor é publicado.
Na minha história, "Seeker", que apareceu na antologia da White Wolf Dark Tyrants, escrevo sobre um cruzado desiludido que perdeu a sua fé em Deus e foi procurar um ninho de vampiros para provar a si mesmo que há algum tipo de faceta espiritual na existência, mesmo se essa faceta é malévola. O enredo ocorre em dois planos distintos. O primeiro é a narrativa do cruzado
que penetra na floresta onde os vampiros vivem, sendo atacado por eles, e lidando finalmente com o seu líder (que eu tornei não apenas um vampiro mas um vampiro que se fundiu com o próprio bosque). O segundo plano é detalhado em vários flashbacks, sendo constituído
pelos eventos que causaram a perda da fé do cruzado e o deixaram tão desesperado por encontrar um sinal - qualquer sinal - de que há Algo Mais na vida.
Se eu tiver feito o meu trabalho bem, não só os leitores se interessarão pela ação da história, mas também pelo próprio cruzado, de forma a que, quando história atinge o seu clímax e a busca do personagem é satisfeita de um modo que ele - e, esperançosamente, os leitores - nunca imaginara (não, ele não se torna um vampiro também; lembrem-se do que eu disse antes,
sobre evitar clichés? Tento fazer o que eu mesmo digo), não só existe uma recompensa emocional, como também os leitores, espera-se, deixarão a história pensando um pouco na sua própria espiritualidade.
Há muito mais para dizer sobre escrever bom horror, mas se pensarem nos três conselhos que lhes dei e os seguirem à risca, criarão histórias que não só serão algo mais do que os contos genéricos que por aí há de zumbis mastigadores de carne e assassinos-em-série sedentos de sangue, vocês criarão ficção que vale a pena ler - que vale a pena recordar.
site de Tim Waggoner
(Tradução Ricardo Madeira)
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Gêneros de ficção científica, fantástico, terror e policial perdem a função profilática (John Clute - 1999)

Nos últimos 20 anos, o Ocidente voltou-se para a leitura de gêneros que privilegiam a angústia e tudo indica que essa febre ganhará nova intensidade com a aproximação do fim do século.
Embora o número de anos de um século seja algo bem definido, entendendo-se por ano o tempo gasto por um planeta em sua órbita em torno do Sol , o clímax chamado Milênio, que construímos com base nesse acúmulo de órbitas, foi quase inteiramente urdido em sonhos e na numerologia. Milênio é o que acontece quando uma espécie com dez dedos decide usá-los.
É claro que a história não termina por aí.
O Milênio no qual estamos prestes a entrar não é simplesmente o desfecho arbitrário de um acidente biológico. Ele se tornou um símbolo poderoso de um momento o qual receamos que se tenha tornado grande demais, um abismo negro de futuridade no qual estamos nos lançando com rapidez para que possamos compreendê-lo.
Os símbolos, naturalmente, não são reais, porém, modelam as mentes que os criam. O Milênio é um símbolo ativo, poderoso, criado por uma espécie que conquistou o poder de fazer com que seus símbolos trabalhem para ela.
Somos uma espécie cujo nome é Frankenstein.
Essa febre de fim de século, portanto, tem substância.
Ela molda nossa imaginação e nossa imaginação forja o mundo. É, portanto, uma febre com pedigree. Por baixo do atual modismo febricitante acerca do Milênio, estendem-se dois séculos de obsessão com o tempo no mundo ocidental, uma obsessão de múltiplas raízes
(embora a Revolução Francesa assinale, talvez, seu primeiro momento histórico significativo) e cujas manifestações são praticamente infinitas.
Vamos nos deter aqui nas histórias que contamos para nós mesmos para nossa diversão e instrução, histórias que nos desviam das trevas que nos aguardam.
Foi pouco antes do ano de 1800 a primeira virada de século no Ocidente a ganhar atenção generalizada que o relógio do Manifesto do Tempo começou a bater, e o motor da história passou a funcionar de modo visível.
Os cidadãos do mundo ocidental começaram a duvidar das Escrituras quando diziam que não havia nada de novo sob o sol, que a humanidade não tinha outra alternativa a não ser repetir as grandes histórias que o Senhor idealizara para nós.
Novo ritmo - Começamos a sentir que o chão do mundo se movia, como se respondesse a um novo ritmo imposto por Deus. O tempo decorrido parecia imensuravelmente profundo.
O tempo presente era totalmente reescrito (pelos ideólogos da Revolução Francesa que, apagando o passado, recomeçaram a história do mundo com um calendário novo em folha). E o futuro era inventado: começávamos a crer que as coisas mudariam. À luz do dia, chamamos essa mudança de Progresso; mas não quando caem as sombras.
À noite, por volta do ano de 1800 em diante, os cidadãos do Ocidente começaram a ter pesadelos com uma existência vertiginosa. Nossos mestres e senhores responsáveis pelo script de nossas atividades diurnas, de nossos casamentos e trabalhos, guerras e os esporádicos momentos de paz não foram capazes de admitir a existência desses sonhos. (Até hoje, insistem ainda em não admitir que as pessoas do opulento mundo ocidental, a despeito dos milagres do Progresso, continuam a se comportar como se o mundo estivesse se desintegrando.) À noite, deixamos de crer nos mestres.
Mudança - Não é de espantar, portanto, que, por volta do ano de 1800, a literatura ocidental tenha começado a mudar. Foi aproximadamente nessa época, talvez uma década a mais ou a menos, que aquilo a que se pode chamar de gêneros de angústia surgiram. Esses gêneros
são geralmente conhecidos hoje como ficção científica, fantástico, terror e policial.
Eis aqui o instante para onde tudo converge: estamos no início de um romance. Uma estranha e assustadora figura mecânica é vista no momento em que se arrasta pela hediondez sublime do deserto ártico, oprimida por mais do que angústias humanas. Ele é uma criação. Seu mestre, o dr. Frankenstein, fê-lo com partes de corpos humanos.
O romance onde ele aparece, Frankenstein ou O Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley, é, portanto, um romance de ficção científica e, possivelmente, o primeiro. Mas a criação de Frankenstein é também um monstro, um espectro mecânico saído dos piores pesadelos do doutor (e do mundo), em que o inanimado se torna animado e rouba de nós nossa substância (e
nossas esposas), como nas histórias contemporâneas de E.T.A. Hoffmann.
Ele é uma visão precoce engendrada pela literatura de terror, um gênero assombrado por gêmeos perversos que brotam na consciência, oriundos das fissuras de um mundo que se tornou repentinamente mórbido. Ele é também uma criação mitológica, um embusteiro
deformado que traz um estranho fogo de presente dos novos mundos da futuridade; e, nesse sentido, Frankenstein é também um dos primeiros romances fantásticos escritos.
Ele cometeu crimes, está sendo perseguido; ele prefigura todos os vagabundos fantasmagóricos dos séculos 19 e 20, de Melmoth a Marlowe (personagens de Conrad e Chandler).
Narrativa perfeita - Frankenstein é um texto que transpira angústia em relação ao passado, presente e futuro. É a narrativa perfeita para marcar o início dos textos de angústia que nos têm encantado, tranqüilizado e desviado do temor da mudança, um temor que é natural à espécie, como todas as espécies da Terra que precisam aceitar o mundo à sua volta para que possam sobreviver.
A ficção científica normaliza o mundo em mutação, quando afirma que é possível fazer com que as coisas funcionem, que existem meios de consertar o que está arruinado, que se mantivermos o equilíbrio e esperarmos pelo amanhã, sobreviveremos. Para os autores e leitores da ficção científica tradicional, a história dos dois últimos séculos é a história de como tomar posse da mudança.
Para eles, o Milênio desponta como o marco de julgamento do nosso sucesso ou fracasso na grande empresa humana da conquista. Para os autores de ficção científica de mente mais fecunda, dentre os quais figuram Kim Stanley Robinson, Neal Stephenson, Bruce Sterling e Gene Wolf, os obstáculos tecnológicos que a ficção científica apresenta parecem, na melhor das
hipóteses, dúbias; e, na pior das hipóteses, fatais à vida no planeta.
Esses autores, entretanto, parecem estar transcendendo o gênero no qual se formaram. O terror pacifica nossas angústias ao situá-las em histórias cujo propósito principal parece ser o de dar comichões na nossa nuca. Creio ser essa apenas uma pequena parte da empresa literária de terror. Os grandes romancistas de terror, como Shelley, Bram Stoker, Stephen King e Peter
Straub, lidam, meio secretamente, com algo mais profundo.
Caldeirão da história - Acho que estão tentando nos dizer que os gêmeos perversos vão nos assustar, que os segredos do passado, que sempre ameaçam nos aterrorizar e nos expor a violações eternas, nada mais são do que visões domesticadas saídas do caldeirão da história; que a verdade atrás das portas do ano 2000 (ou atrás de outras portas que possamos discernir) é
muito mais terrível do que qualquer coisa que o passado possa evocar.
O horror secreto que esses romancistas transmitem é a suspeita de que o gêmeo perverso não está atrás de nós, e sim na nossa frente. Que o mundo depois do Milênio talvez seja um mundo estilhaçado, uma casca de ovo que talvez não suporte nossa pisada aterradora.
O fantástico é mais franco que o terror. Escritores fantásticos como J.R.R. Tolkien, cujo O Senhor dos Anéis (1954-1955) é muito provavelmente a ficção de maior influência em língua inglesa do século 20, ou Steven Donaldson, John Crowley ou Robert Holdstockall deixam bastante claro que, em sua opinião, existe algo de muito errado no mundo.
Para os autores fantásticos, as mudanças desordenadas dos anos que se seguiram a 1800 são tão aflitivas quanto as visões apocalípticas que ganharam vida graças à nossa presente obsessão com o Ano 2000. Para eles, o século 20 está errado desde o início. Os maiores romances fantásticos pacificam nossas angústias pela criação de outros mundos que contradizem frontalmente as histórias oficiais que nossos mestres nos contam sobre o Progresso, a Velocidade e a Uniformidade.
Tecido do mundo - É fácil acreditar que o romance policial atinge seu apogeu nas comédias clássicas de detetives, de escritores como Arthur Conan Doyle, Agatha Christie ou Rex Stout. Nos milhares de histórias contadas por esses autores e seus colegas, o detetive é chamado a solucionar um crime que transtornou o mundo que pôs a nu o caos que subjaz às atividades da sociedade à luz do dia e que, quando esclarecido, recompõe o tecido do mundo.
Mas a verdadeira história do romance policial tem outros autores. Shelley, Edgar Allan Poe, Dostoievski, Kafka, Chandler, Ross MacDonald e suas melhores histórias chegam perigosamente perto da revelação do segredo. Macdonald, James Lee Burke ou um outro autor inglês menos conhecido (mas imensamente sombrio), o falecido Derek Raymond, quase nos dizem explicitamente que há, no fim das contas, algo de errado com o próprio sabor do mundo que tentamos identificar; que há algo de errado no modo como tentamos lidar com ele.
Os romances policiais nos dizem que as pegadas que deixamos na casca de ovo do nosso frágil mundo são as marcas do pecado. Praticamente tudo o que foi publicado em 1999, em qualquer um dos quatro gêneros de angústia é, naturalmente, lixo retrô.
Na verdade, qualquer obra em qualquer um dos quatro gêneros ao longo dos últimos 200 anos tem, é claro, em certa medida, um efeito narcótico. A ficção científica, o terror, o fantástico e as histórias policiais surgiram, no fim das contas, para lidar com nosso temor da mudança dos tempos e para nos tranqüilizar.
Os tempos estão mudando de fato. Estamos entrando em um mundo que simbolizamos pelo Milênio de tamanha mutabilidade e tensão que talvez venhamos a precisar de novos narcóticos para que possamos sobreviver às estranhas noites do amanhã. Pode ser que os gêneros em
si mesmos, que tanto fizeram para aliviar-nos a fronte, tenham chegado ao fim de sua utilidade.
Existem algumas indicações de que é isso o que se passa. A mania do retrô em todos os quatro gêneros é um sinal quase certo de morte. A fusão de gêneros destrói muito da função profilática do gênero. Talvez isso seja inevitável; na verdade, é mesmo.
Dois séculos é muito tempo.
Surgem perguntas para as quais não há respostas.
Que faremos quando nossas histórias estiverem mortas?
O que vamos contar a nós mesmos amanhã?
(The Washington Post - tradução de Antivan Guimarães Mendes)
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Tag: artigos, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Mistério/Policial
terça-feira, 7 de abril de 2009
Sookie Stackhouse (Vampiro Sulino) - Charlaine Harris

Sookie Stackhouse (Livro 1 -Morto até o anoitecer, 2 - Vivendo morto em Dallas, 3 - Clube dos Mortos, 4 - Morto para o mundo, 5 - Absolutamente morto) [ Download ]
Site sobre a série de tv True Blood
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Themepunks - Cory Doctorow

"We will explore the problem-space of capitalism in the twenty-first century. Our business plan is simple: we will hire the smartest people we can find and put them in small teams. They will go into the field with funding and communications infrastructure -- all that stuff we have left over from the era of batteries and film -- behind them, capitalized to find a place to live and work, and a job to do. A business to start. Our company isn't a project that we pull together on, it's a network of like-minded, cooperating autonomous teams, all of which are empowered to do whatever they want, provided that it returns something to our coffers. We will explore and exhaust the realm of commercial opportunities, and seek constantly to refine our tactics to mine those opportunities, and the krill will strain through our mighty maw and fill our hungry belly. This company isn't a company anymore: this company is a network, an approach, a sensibility."
Themepunks - Cory Doctorow
domingo, 5 de abril de 2009
E de Espaço - Ray Bradbury

Indice
Introdução
Crisálida
Pilar de Fogo
Hora Zero
O Homem
Fuga no Tempo
O Pedestre
Saudações e Adeus
O menino invisível
Venha ao meu porão
O piquenique de um milhão de anos
A mulher gritando
O sorriso
Eles eram morenos e de olhos dourados
O Bonde
A máquina voadora
Ícaro Montgolfier Wright
E de Espaço - Ray Bradbury [ Download ]
Sobre a Digitalização desta Obra:
Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda
deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade é a marca da distribuição, portanto:
Distribua este livro livremente! Se você tirar algum proveito dessa obra considere seriamente a possibilidade
de adquirir o original: Incentive a publicação de novas obras e novos autores!
Boa Leitura!
Coletivo Adoramos Ler
Ray Bradbury

Ray Douglas Bradbury (22 de Agosto de 1920) nasceu na pequena cidade de Waukegan, USA, foi inúmeras vezes identificado como o poeta da Ficção Científica, graças a sua românticas descrições de ambientes e ricas e apaixonadas construções de personagens.
Junto com Arthur C. Clarke, Asimov, compõe a Santíssma Trindade da Ficção Científica, os três (assim como Robert Heinlein), foram os primeiros a receber o título de Grande Mestre, pela SFWA.
Bradbury preocupava-se mais com o lado humano e visionário de seus personagens do que com a descrição científica e tecnológica, o que era uma inovação para a época.
O seu estilo se tornou bastante peculiar, sendo dotado de um romantismo nostálgico.
Bradbury muitas vezes retrata o homem como refém de sua época.
Seres perplexos ante as maravilhosas mudanças que vão ocorrendo ao seu redor.
Seu livro The Illustrated Man (1951) está entre os 100 maiores livros da ficção de todos os tempos, sem esquecer de outros tantos já clássicos trabalhos, como The Martian Chronicles (1950), The Golden Apples of the Sun (1953), Fahrenheit 451 (1953) e Something Wicked This Way Comes (1962).
Ninguem melhor do que Ray Bradbury, para falar sibre ele mesmo:
Júlio Verne foi meu pai. H. G. Wells foi meu sábio tio.
Edgar Allan Poe foi o primo com asas de morcego que guardávamos lá em cima, na sala do sótão.
Flash Gordon e Buck Rogers foram meus irmãos e amigos.
Aí têm minha ascendência. Acrescentando, claro, o fato de que muito provavelmente Mary Wollstonecraft Shelley, autora de Frankenstein, foi minha mãe.
Com uma família dessas, eu não poderia deixar de ser outra coisa: um escritor de fantasia e de curiosíssimas histórias de ficção científica.
Vivi nas árvores com Tarzã uma boa parte de minha vida, com meu herói, Edgar Rice Burroughs. Quando desci da folhagem, pedi uma pequena máquina de escrever quando tinha doze anos, para o Natal. E matraqueando na máquina , escrevi meu primeiro seriado de imitação, John Carter, Condestável de Marte, e de cor, bati episódios inteiros de Chandu, o Mágico.
Mandei tampas de caixas pelo correio, e acho que juntei-me a todas as sociedades secretas do rádio que existiam. Guardei histórias em quadrinhos, a maioria das quais ainda tenho, em grandes caixas, no porão da minha casa, na Califórnia. Ia às matinês do cinema.
Devorava as obras de H. Rider Haggard e Robert Louis Stevenson.
Em meio aos verões de minha juventude, pulei alto e mergulhei bem fundo no vasto oceano do
Espaço, muito, muito tempo antes que a Era Espacial propriamente dita fosse mais do que um pontinho no telescópio de duzentas polegadas, de Monte Palomar.
Em outras palavras, eu me apaixonei por tudo o que fazia.
Meu coração não batia, explodia. Eu não me aquecia com um assunto; eu fervia.
Sempre corri e gritei quando se trata de uma lista de coisas grandes e mágicas que eu sabia que simplesmente não poderia viver sem elas.
Eu era um menino-mágico imberbe que puxava coelhos irritadiços de cartolas de "papier-mâché". Tornei-me um homem-mágico barbado que puxa foguetes de sua máquina de escrever e dos Ermos do Espaço, que se estendem tão longes quanto o olho e a mente podem ver
e imaginar.
Meu entusiasmo sustentou-me bem, através de anos.
Nunca me cansei dos foguetes e das estrelas.
Nunca cessei de gostar de me apavorar com algumas de minhas histórias mais exóticas e tenebrosas. Assim, aqui, nesta nova coleção de histórias, você encontrará não só E de Espaço, mas uma série de subtítulos que muito poderiam ser: T de Trevas, A de apavorar ou D de
deliciar. Aqui você vai encontrar quase todas as faces de minha natureza e minha vida que possa querer descobrir.
Minha capacidade de rir-me alto com a simples descoberta de que estou vivo num estranho,
selvagem, e estimulante mundo. Minha capacidade igualmente grande de pular e ir plantar groselhas quando sinto o cheiro de estranhos cogumelos crescendo em meu porão, à meia-noite, ou ouvir uma aranha cantarolando enquanto tece sua tapeçaria, no armário embutido, pouco antes do nascer do sol.
Você que está lendo, e eu, que escrevo, somos bastante iguais.
A pessoa jovem dentro de mim atreveu-se a escrever estas histórias para entretê-lo. Encontramo-nos no território comum de uma Era incomum, e compartilhamos nossos dons de sombra e luz, sonhos bons e maus, alegrias simples, e mágoas não tão simples.
O menino mágico fala de um outro ano. Fico de lado e deixo-o dizer o que mais precisa dizer. Escuto, e divirto-me. Espero que você, também.
RAY BRADBURY
Los Angeles, Califórnia -1o de Dezembro, 1965.
site oficial de Ray Bradbury
Livros de Ray Bradbury (Al Abismo de Chicago, Caleidoscopio, Cuento de navidad, Dandelion wine, Death is a lonely bussiness, El dragon, El flautista, El ordenador encantado y el papa androide, El pueblo donde nada baja, El robo sublime, En el expresso al norte, Encontro nocturno, End of the beginning, Eran morenos y de ojos dorados, Fabulas fantasticas, Fahrenheit 451, Fenix Brilhante, The foghorn, Icaro Montgolfier Wright, La tercera expediction, Las doradas manzanas del sol, Medicine for Melancholy, The october game, The pendulum, Quicker than the eye, Somethimh wicked this way comes, The sound of thunder, The illustrated man, The martian chronicles, The veldt, Tres x infinito, Unterderseaboat Doktor, When elephants last in the dooryard bloomed) [ Download ]
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sábado, 4 de abril de 2009
Pobre povo cruel - Arkady and Boris Strugatsky

O Rei sentou-se nu.
Tal como um tolo pedinte de rua, sentou-se com as costas contra a parede fria.
Tremia de olhos fechados e tentava ouvir, mas tudo era silêncio.
Acordara à meia-noite de um pesadelo e imediatamente entendera que estava acabado.
Sons ofegantes detrás da porta da suíte real, passos, bater de metais e resmungos bêbados de Sua Alteza, o Tio Buht: 'DEIXEM-ME PASSAR! SAIAM DO MEU CAMINHO, PRO INFERNO COM ISSO...'
Molhado de gélido suor, rolara para fora da cama, seguindo por um estreito corredor secundário e então pela passagem subterrânea até o templo.
Algo gemera sob seus pés descalços, pisara em ratazanas, mas na hora não se importou, somente agora, sentado contra a parede, lembrou-se de tudo; da escuridão, das paredes escorregadias e a dor de ter batido a cabeça contra as portas do templo, e de seu próprio insuportável urro de dor.
Eles não poderiam entrar ali, pensou. Ninguém poderia entrar no templo. Somente por ordem do Rei. Mas o Rei não mais ordenava. Riu-se histérico. Oh não, o Rei não ordena mais!
Vagarosamente abriu os olhos e viu suas pernas azuis e lisas com os joelhos feridos.
Ainda estava vivo, pensou. Viverei, por que ninguém pode entrar aqui.
Tudo no templo era azulado devido a luz fria das lanternas, longos tubos brilhantes espalhados sob o teto. No centro do templo, Deus em seu trono gigantesco e pesado, com olhos vazios.
O Rei o olhava pelo canto do olho.
Escória, pensou, que verme miserável, pegar o mestiço e os cães, para me assolar... deu-se conta de não lembrar-se muito bem do maldito.Tão mirrado e imprestável... mas tudo bem, eles iriam pagar por isso. Por tudo, Sua Grandeza Tio Buht.
Durante o reino de seu pai, você se sentou quieto, bebendo calado, com medo de ser notado, pois sabia que o Rei Prostyaga não esqueceria sua desprezível traição...
Grande era meu pai, o Rei pensou com habitual inveja.
Você seria grande também se seus conselheiros fossem anjos em carne e osso.
Todos sabiam, todos tinham visto, seus rostos medonhos e brancos como leite, seus trajes feitos de tal forma que ninguém sabia se estavam nus ou não. E suas flechas ardentes como raios do céu, que fizeram com que os inimigos fugissem, ainda que disparassem por sobre suas cabeças, metade da horda correu com medo daquelas flechas.
Sua Alteza, Tio Buht, sussurrou certa vez, bêbado, que tais flechas poderiam ser usadas por qualquer um, as tais armas dos anjos, seria bom se tirássemos deles.
E ele disse então - bêbado - que se era bom, por que então não obtê-las, por que não... mais tarde após aquela conversa à mesa, um anjo tombou dentro do canal, provavelmente por acidente. Junto dele acharam o corpo de um dos guardas pessoais do Tio. Foi um feito maléfico, terrível, e era conveniente que o povo não se importasse muito com os anjos, eles os temiam, mas este temor também não era total, já que os anjos eram alegres e cordiais.
Apenas seus olhos eram assustadores. Pequenos e brilhantes e não paravam de se mover irrequietos, não eram humanos. Sendo assim o povo os evitava, o Rei Prostyaga dava liberdade a eles, o que era vergonhoso de se lembrar...contudo antes do Golpe o pai, diziam, era um apaziguador.
Dito isso, com minhas próprias mãos, sequei as lágrimas dos olhos.
Lembro que ele costumava se sentar à noite na torre de cristal e eu podia me abrigar ao seu lado, era quente e confortável...os anjos cantavam dos quartos, tão tranqüilo e em harmonia, o pai começava a acompanhá-los - ele conhecia a língua dos anjos - e tudo era vasto e amplo, sem ninguém por perto... não como hoje, com guardas em cada canto, pois não havia motivo para isso.
O Rei lamentou. Sim, ele fora um bom pai e que não devia ter morrido. Não devia morrer enquanto seu filho estava vivo...o filho agora é Rei também,...mas Prostyaga não durou muito.
Tenho mais de cinqüenta anos e ele ainda era mais novo do que eu... parecia que os anjos tinham pedido a Deus por suas vidas. Disseram que os confinaram no quarto do Rei, eles tinham armas, mas não se defenderam.
Antes de morrer, disseram, os anjos jogaram as armas pela janela e elas se queimaram com uma chama azul e nem cinza sobrou. E Prostyaga, disseram, chorou e ficou bêbado pela primeira vez em seu reinado, e olhou para mim, disseram, com amor, e eu acreditei...
O Rei secou as lágrimas do rosto e abraçou as pernas.
E daí? Temos que saber os limites e abdicar, como acontece o tempo todo por ai.
Apenas por uma vez conversei com meu Tio.
‘Sua Alteza.Prostyaga - ele disse - não envelhecerá'.
'Sim - eu disse a ele - mas o que podemos fazer, os anjos pedem por suas vidas.'
O Tio então zombou e disse: 'Anjos - disse - não mais cantarão suas canções por aqui.'
E eu retruquei: 'É verdade, agora podemos negociar com eles, não somente como humanos.'
O Tio então olhou para mim sóbrio e imediatamente se foi.. e eu realmente não tinha dito nada demais...apenas palavras vazias sem significado.
Uma semana depois Prostyaga morreu de um ataque do coração.E dai? Era sua vez.
Ele parecia jovem, mas tinha na realidade mais de cem anos. Todos morremos um dia.
O Rei se assustou e cobriu-se sem jeito. O Santo Padre Agar entrara no templo.
Os Irmãos de fé vinham na sua frente, trazendo-o pelas mãos. Ele não olhou para o Rei, foi direto na direção de Deus e ajoelhou-se diante de seu posto. Alto e corcunda, com longos cabelos brancos e sujos.
O Rei o olhou fixo e disse divertido: 'É o seu fim! Você procurou por isso, e não sou como Prostyaga, você vai se sufocar em seus intestinos, porco bêbado...'
Agar, com a voz profunda falou:
-Deus! O Rei deseja falar contigo! Perdoa-o e ouça-o.
O silêncio caiu na sala, ninguém ousava respirar.
O Rei ponderou: Quando a grande enchente veio e a terra se abriu, Prostyaga pediu a Deus por socorro, e Deus veio dos céus numa bola de fogo no mesmo dia e naquela noite a terra acalmou-se e a enchente se foi.
Isso significava que poderia acontecer hoje novamente.
Você está perdido Tio, você não se cuidou direito. Agora ninguém vai te ajudar...
Agar se endireitou. Os irmãos que o amparavam pularam, virando de costas para Deus e cobrindo suas cabeças com os braços.
O Rei viu como Agar estendeu as mãos e as colocou no peito de Deus.
Os olhos de Deus se abriram.
O Rei ficou boquiaberto de medo pois os olhos de Deus eram grandes e diferentes, um era verde e o outro branco brilhante e luminoso.
Podia ouvir agora a respiração de Deus, pesada e estalante, como se doente.
Agar recuou. - Fale - sussurrou Agar.
O Rei ficou de quatro e começou a engatinhar até o altar.
Ele não sabia o que dizer ou como. E não sabia como começar e sequer se deveria contar toda a verdade.
Deus respirava pesadamente ofegante e o Rei passou a choramingar com medo.
- Sou o filho de Prostyaga - disse o Rei em desespero, amassando o rosto contra a pedra fria - Prostyaga morreu. Peço sua proteção contra os conspiradores. Prostyaga cometeu erros. Ele não sabia o que estava fazendo. Eu consertei tudo; acalmei o povo, me tornei poderoso e inatingível como você, e montei um exército...o traidor Buht está atrapalhando meus planos para conquistar o mundo. Ele quer me matar! Me ajude!
E baixou a cabeça até o chão.
Deus, sem piscar, estava olhando para ele em verde e branco. Deus estava silencioso.
- Ajude-me - repetiu o Rei - Ajude-me, ajude-me!
Derrepente ele pensou se estava fazendo algo errado, pois Deus estava indiferente e inoportunamente lembrou-se que eles tinham dito que seu pai, Prostyaga não morrera de um ataque do coração, mas fora morto ali, no templo, quando os assassinos entraram sem pedir permissão.
-Ajude-me! ele gritou desesperado. Tenho medo de morrer! Ajude-me! Ajude-me!
Ele deitou-se sobre as pedras do chão, mordendo as mãos com terror insuportável.
O Deus de Olhos Diferentes falou com a voz rouca.
-Seu verme velhaco - disse Tolya.
Ernst estava calado observando.
Na tela, através da estática, era possível ver uma forma humana escura que jazia deitada ao chão.
- Quando eu penso - disse Tolya de novo - que se não fosse por ele, Alan e Derek estariam vivos, tenho vontade de fazer alguma coisa.
Ernst balançou os ombros e foi até a mesa.
- Eu sempre penso - continuou Tolya - por que Derek não atirou ? Ele podia ter liquidado todos...
- Ele não podia, disse Ernst.
- Por que não?
- Já tentou atirar em um ser humano?
Tolya fez uma careta, mas não disse nada.
- Pois então - disse Ernst - Tente imaginar. É quase repugnante.
Um uivo triste era ouvido saindo pelos alto-falantes.
'Ajude-me, ajude-me, tenho medo, ajude-me', o mecanismo-tradutor continuava a transmitir.
- Pobre povo cruel...' lamentou Tolya.
Poor cruel folk (1998) -Arkady and Boris Strugatsky
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Meia-noite - Dean R. Koontz
Mesmo antes da Mudança, Denny era um fanático por computador, um desses garotos que se autodenominavam hackers, para quem os computadores eram não só instrumentos, não só jogos e diversão, mas um modo de vida. Depois da conversão, sua inteligência e capacidade foram colocadas a serviço da New Wave.
Forneceram-lhe um terminal mais potente em casa e um modem ligado ao supercomputador no escritório central da New Wave — um mastodonte que, segundo a descrição de Denny, incorporava 6.500 quilômetros de fios e 33 mil unidades de processamento de alta velocidade — que, por razões que Loman não compreendia, eles chamavam de Sol, embora talvez este fosse seu nome porque todas as pesquisas na New Wave faziam uso intenso da máquina e, portanto, giravam ao seu redor.
Enquanto Loman continuava parado ao lado do filho, um enorme volume de dados passava pela tela do terminal. Palavras, números, gráficos e tabelas apareciam e desapareciam em tal velocidade que só alguém da Nova Gente, com sentidos de certa forma mais aguçados e concentração poderosamente mais intensa, poderia extrair significado deles.
Na verdade, Loman não podia lê-los porque não passara pelo treinamento que Denny recebera da New Wave. Além disso, não tinha nem tempo nem necessidade de aprender a exercer completamente seus novos poderes de concentração.
Mas Denny absorvia as contínuas ondas de dados, olhando fixamente, o olhar vazio, para a tela, sem nenhuma ruga de concentração na testa, o rosto relaxado. Desde que fora convertido, o garoto era tanto uma entidade eletrônica sólida quanto carne e sangue e esta nova parte de si mesmo relacionava-se com o computador com uma intimidade que ultrapassava qualquer relacionamento homem-máquina que qualquer pessoa da Antiga Gente experimentara.
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Tensão no Gelo - Dean R. Koontz

A missão transcorre normalmente. Mais alguns minutos e a última das 60 cargas explosivas estará instalada. Numa experiência pioneira, um iceberg de meia milha quadrada será arrancado da calota polar do Ártico, transportado para o sul e derretido para irrigar terras americanas castigadas pela seca. Mas uma série de fortes abalos sísmicos acelera o processo, fazendo com que um bloco de gelo ainda maior seja deslocado.
Um grupo de cientistas fica então à deriva, numa área em que um resgate por barco é impossível. A única esperança de salvamento é um submarino russo, desde que seja rápido: as bombas estão preparadas para explodir em menos de 12 horas. As frias águas do Norte servem de ambiente para Tensão no gelo, um dos mais quentes thrillers de Dean R. Koontz.
Desta vez, o autor não usa personagens ou situações sobrenaturais, como fizera magistralmente em Sr. Assassino, A casa do mal e Esconderijo. Nem precisa. Até a última página, Tensão no gelo é suspense puro, penetrante como o frio do Ártico.
NOTA AO LEITOR
Recebo anualmente mais de dez mil cartas de leitores, dentre os quais um número significativo me exorta a reeditar alguns de meus primeiros livros já esgotados há algum tempo.
Muitos fazem mais do que me exortar. Fazem referências ameaçadoras a maldições do vodu e acordos com sujeitos mal-encarados. Sugerem que seria uma boa idéia reeditar tais livros antes que meu rosto adquira nova forma - embora certa transformação me pudesse ser útil, principalmente se significasse um pouco mais de cabelo.
Eles ameaçam me raptar e me forçar a assistir a resprises de A família Dó-Ré-Mi vinte e quatro horas por dia até que eu enlouqueça completamente.
Fico encantado que os leitores gostem tanto dos meus livros que queiram ler todos.
Já dei permissão para que alguns já esgotados voltem a circular, incluindo Shadowfires, The Servants of Twilight e The Voice of the Night, todos publicados inicialmente sob pseudônimos.
Tensão no gelo foi originalmente intitulado Prison oflce (Prisão de gelo), sob o pseudônimo "David Axton", numa forma bem mais tosca. Eu o revisei e atualizei as referências tecnológicas e culturais, tentando não me empolgar demais e alterar toda a trama e o tom da história.
Este livro teve a intenção de homenagear Alistair MacLean, o mestre do romance de aventura/suspense, autor de Os canhões de Navarone, Desafio das águias e Estação Polar Zebra, entre outros.
Como leitor, adorei esses livros, e escrevi a versão original de Tensão no gelo para ver se conseguia produzir um do gênero.
Numa aventura de suspense desse tipo, os elementos que contam acima de todos os outros são tensão, ritmo e trama - de preferência uma trama com uma série de surpresas e desafios físicos para os personagens, num ritmo progressivo. Os personagens, em geral, precisam ser lineares e certamente menos complexos do que aqueles que aparecem na maioria de meus livros.
Como sempre, tento obter os detalhes de fundo e técnicos corretos - embora, quando escrevo sobre submarinos, por exemplo, não seja minha intenção mergulhar nos detalhes tecnológicos tão profunda e brilhantemente quanto Tom Clancy. Na aventura ao estilo MacLean, uma certa autenticidade deve ser sacrificada à velocidade.
Espero que você tenha gostado de Tensão no gelo, embora também espere que prefira os livros mais recentes. Afinal, esse é o único livro que escrevi nessa linha e, se os leitores quisessem outro, eu nada teria a oferecer para me proteger de ser submetido às reprises de A família Dó-Ré-Mi.
- Dean Koontz, maio de 1994
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quinta-feira, 2 de abril de 2009
O Regresso de Tarzan - Edgar Rice Burroughs
Tarzan, que quer dizer macaco branco, criado por E. R. B. num dos seus sonhos - ele não transportou para a sua literatura a sua experiência de vida, que era vasta e profunda - procurava apenas ser uma coisa diferente, como coisas diferentes seriam as aventuras que ERB escreveu com John Carter sobre Marte. ERB trazia no espírito as leituras de Júlio Verne, o insólito prendia-o e fascinava-o. Por isso Tarzan foi um herói refeito diversas vezes.
O seu primeiro romance fechava o ciclo da vida: ali começava e acabava. Mas o êxito fê-lo regressar à escrita. E então ERB procurou dar-lhe uma formação inglesa, tentando enquadrá-lo dentro do absurdo homem selvagem, aristocrata inglês -, o mesmo é dizer, de um pólo ao outro da civilização.
Mas logo se cansou disso, e nos romances seguintes, a partir do quarto, ele encontraria de novo o Tarzan das primeiras páginas e, quase libertando-o da mulher e do filho - Jane é esquecida na maioria dos seus livros -, faz dele o homem que rompe barreiras com a civilização padrão para se consagrar à vida natural, àquela que se lhe dá pouco quanto a conforto, dá-lhe muito quanto a soluções de personalidade e luta, que é aqui onde o homem tem de encontrar-se.
Por isso mesmo Tarzan é um herói que encontrou justificativa sobretudo em duas épocas: em 1929 quando da depressão econômica da América do Norte - foi em 1929 que ele surgiu pela primeira vez em banda desenhada pela mão de Hal Foster e agora, nesta segunda metade do século em que vivemos, onde o tecnicismo impera já a níveis de invadir o espírito humano, e sujeitá-lo à máquina.
Resultado? Num período de tão grande avanço técnico, onde a nossa atual civilização quase se engalfinha em proporcionar ao ser humano conforto sobre todos os pontos de vista, distrações nunca sonhadas (e cômodas), requintes a todos os níveis que ele faz na sua grande maioria?
Pois bem, consultem-se as estatísticas, e se verificará que nunca como agora se praticou tanto campismo nem tanto caravanismo, nem se desfrutou de tantos fins-de-semana.
Isto sem contar com as legiões que se limitam a refugiar, por impossibilidade do tempo, um dia que seja no pinhal ou no campo!
Porquê? A técnica, em que todos vivemos, dentro de casa, cá fora, no emprego, e mais tarde que vimos na televisão, no cinema e nos jornais, provoca uma espécie de intoxicação que leva o
homem tentando reencontrar-se na verdade pura da sua essência.
Então, perante tanta máquina que o envolve e o controla, passar o tempo em contacto com a natureza é como o sinônimo da libertação, que ele sente que o dignifica.
Aqui volta a surgir Tarzan, como símbolo, pois ele é o homem que tendo sido criado na selva, conhece um dia a civilização e, por a conhecer, compreende que só voltando à vida natural pode encontrar aquela felicidade a que se julga com direito.
Tarzan aparece, desta maneira, como resposta a todos aqueles que, encafuados nas cidades, aproveitam todos os momentos de se livrarem dela. E retoma o êxito que alcançou em 1929 quando a depressão trouxera aos homens consciência de que viver bem não é viver opulentamente, mas viver de acordo consigo próprio. - Nota de R. P.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
As canções da Terra Distante - Arthur C.Clarke

Nota do Autor
Este romance baseia-se numa idéia que desenvolvi há quase trinta anos num conto do mesmo nome (agora incluído na coletânea O outro lado do céu). Entretanto, a presente versão foi direta — e negativamente — inspirada pelo recente surto de space-operas nas telas de televisão e do cinema. (Pergunta: qual é o oposto de inspiração — expiração?)
Por favor, não me interpretem mal: apreciei enormemente o melhor da série Jornada nas estrelas e dos épicos de Spielberg/Lucas, para mencionar apenas os exemplos mais famosos do gênero. Entretanto, estes são trabalhos de fantasia, não de ficção científica no sentido estrito do termo.
Atualmente, é quase certo que no universo real nunca venhamos a ultrapassar a velocidade da luz. Assim, mesmo os sistemas estelares mais próximos estarão sempre a décadas ou séculos de distância. Nenhuma Dobra Fator Seis poderá levar-nos de um episódio a outro a tempo do capítulo da próxima semana.
O grande Produtor no céu não estruturou a sua programação desse modo.
Na última década aconteceu também uma mudança significativa e um tanto surpreendente na atitude dos cientistas com relação ao problema da Inteligência Extraterrestre. O assunto só se tornou sério (exceto entre personagens duvidosos como autores de ficção científica) a partir da década de 60: a publicação de A vida inteligente no universo de Shklovskiy e Sagan (1966) foi um marco.
Mas agora houve um recuo: o fracasso da tentativa de encontrar algum vestígio de vida neste Sistema Solar, ou de captar os sinais de rádio interestelares que nossas grandes antenas deveriam detectar facilmente, levou alguns cientistas a argumentarem que "talvez estejamos sozinhos no Universo..."
O Dr. Frank Tipler, o mais conhecido defensor desse ponto de vista, irritou (propositadamente, sem dúvida) os saganitas, dando a um de seus trabalhos o título provocador de "Não existem extraterrestres inteligentes". Carl Sagan e outros (e eu concordo com eles) argumentam, por seu lado, que ainda é muito cedo para se chegar a conclusões tão amplas.
Enquanto isso a controvérsia se intensifica, costuma-se dizer que qualquer uma das respostas será espantosa. A questão só pode ser decidida com provas concretas e não pela lógica, por mais plausível que seja.
Eu preferiria ver esse debate tolerantemente esquecido por uma década ou duas, enquanto os radioastrônomos, como garimpeiros bateando na beira de um riacho, peneiram com calma as torrentes de ruído que se derramam do céu.
Este romance é, entre outras coisas, minha tentativa de criar uma obra de ficção inteiramente realista sobre o tema interestelar. Exatamente como em Prelúdio para o espaço (1951), eu usava a tecnologia conhecida ou previsível para descrever a primeira viagem da humanidade além da Terra.
Não há nada neste livro que desafie ou negue os princípios conhecidos, a única extrapolação realmente extravagante é a "propulsão quântica" e mesmo esta tem uma origem bastante respeitável (ver "Agradecimentos").
Se ela se revelar uma idéia impraticável, existem várias alternativas possíveis. E se nós, os primitivos do século XX podemos imaginar isso, então a ciência do futuro descobrirá, sem dúvida, alguma coisa muito melhor.
Arthur C. Clarke Colombo, Sri Lanka, 3 de julho de 1985
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