segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ciberpunk, biopunk, mannerpunk, splatterpunk, steampunk, pós-ciberpunk...



Trinta anos atrás ou quase, um sujeito chamado Bruce Bethke escrevia uma história sobre hackers adolescentes e a batizou de 'Ciberpunk'... de lá para cá, muita coisa aconteceu, livros foram escritos, filmes levaram para a telona (e para as grandes platéias) ideias perturbadoras sobre um futuro distópico tecnológico.













Ciberpunk

União de 'cibernética' e 'punk', um sub-gênero da Ficção Cientifica com foco em tecnologia avançada, usualmente associada a ruptura da ordem social.

Em um conto ciberpunk encontramos hackers, inteligência artificial e mega-corporações, sendo uma tendência localizar a ação em um futuro próximo.

No meio da década de 80, o ciberpunk se tornou um tópico nos círculos acadêmicos e objeto de estudo e investigação dos pós-modernos, na mesma época, chegou até Hollywood e se estabeleceu como um estilo cinematográfico. Filmes como Blade Runner e Matrix foram concebidos dentro da estética visual apregoada pelo movimento.

No início dos anos 90, seus reflexos já eram visiveis nos games e também na música. Uma larga variedade de escritores inicialmente dentro dos conceitos do ciberpunk, começaram a expandi-lo, gerando outros sub-gêneros como o Steampunk.

O mundo distópico é a antítese às visões utópicas dos anos 40 e 50 (Gibson definiu que o ciberpunk antipatiza com a Ficção Científica utópica, como em 'The Gernsback Continuum', onde ele de certa forma, condena a antiga FC).

"Tudo que os cientistas podem fazer a um rato, pode ser feito a um ser humano. E fechar os olhos não vai tornar as coisas mais fáceis. Isso é ciberpunk!" (Bruce Sterling)

Muito da literatura ciberpunk se concentra em ações no espaço virtual, confundindo realidade com virtualidade. Outro aspecto característico é a interface cérebro humano e máquina, através da ciência. O cibermundo é sombrio, redes de computadores dominam todos os aspectos da vida.

Gigantescas corporações tomaram o lugar de governos, economicamente, politicamente e militarmente falando. A batalha contra o autoritarismo é um tema comum na ciberficção em particular, ao invés da FC convencional, onde os estados totalitários tendem a ser estéreis, ordenados e controladores.

Na visão ciberpunk, o hacker é o herói solitário, lutando contra as injustiças do mundo.

Um destes tipos mais significativos é Case, de Neuromancer. Um 'cowboy de console', brilhante hacker, que é traido por seus parceiros da organização criminal. Como Case, os protagonistas são manipulados e se encontram em situações onde suas chances de sobreviver são poucas, são anti-heroís, se parecem mais com os detetives de romances, envolvidos em complicados casos e quase sempre terminam sem uma recompensa justa.

Esta ênfase que Thomas Pynchon chamava de 'preteridos' e Frank Zappa, 'os esquecidos pela Grande Sociedade' , é o elemento punk.

Ciberpunk é uma metáfora dos dias modernos, sobre governos corruptos e mega-impérios financeiros, alienação e subjulgação à tecnologia, expressando um senso de rebelião.

'O Ciberpunk é a Ficção Científica da contra-cultura.' (David Brin)

O editor Gardner Dozois é reconhecido como a pessoa que popularizou o termo 'ciberpunk'.
Entre as obras mais representativas, encontramos 'Mirrorshades' de Bruce Sterling, 'Splendid Chaos' de John Shirley, 'Neuromancer' de William Gibson, 'Spaceland' de Rudy Rucker e 'Metrophage' de Richard Kadrey.

O escritor David Brin descreveu o ciberpunk como "a mais elaborada campanha de promoção vinculada ao gênero Ficção Científica".

Aos poucos, estes escritores perceberam que o ciberpunk não era uma revolução, ou algum tipo de filosofia que invadia a FC, mas apenas outro 'sabor' da FC.

Ciberpunk (The Gernsback Continuum, Neuromancer, Mirrorshades, Splendid Chaos, Spaceland e Metrophage)
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Biopunk


Uma combinação de 'Biologia' e 'Punk', Biopunk é um sub-gênero da Ficção Cientifica que utiliza elementos que vão desde os romances 'noir' de detetives ao anime (desenhos animados japoneses).

Descreve a face mais underground da sociedade bio-tecnológica, que começou a surgir na primeira década do século 20.

Ao contrário do ciberpunk, não se interessa por tecnologias de informação, mas por biologia, individuos que são aprimorados, mas não por partes mecânicas, mas por engenharia genética.

Um dos mais proeminentes escritores deste campo é Paul Di Dilippo, famoso pela sua coletânea 'Ribofunk', nome retirado de um dos elementos do ARN (ácido ribonucléico).

Os livros de S.Andrew Swann, com sua série 'Moreau' são um bom exemplo, onde através da engenharia genética, seus personagens são seres do submundo, na linha detetivesca de Raymond Chandler. O conto 'Eyes of Heisenberg' de Frank Herbert trata de cidadãos controlados pelo 'OPTIMEN' ou líderes geneticamente elaborados e que vivem centenas de anos.
Os filmes Gattaca, Innerspace e os trabalhos de David Cronenberg (Videodrome) e Koichi Ohata (Genocyber) podem ser exemplos do cinema biopunk.

Biopunk (Ribofunk, Moreau e Los ojos de Heinsenberg) [ Download ]


Mannerpunk

Apesar do nome 'mannerpunk' ser uma alusão ao ciberpunk, trata-se de um sub-gênero da literatura de fantasia. O termo foi primeiro usado pelo critico Donald G.Keller em um ensaio 'The manner of Fantasy' em Abril de 1991.

Ellen Kushner talvez seja o nome que melhor define o mannerpunk. Quase todos seus romances podem ser considerados como ficção histórica, e o seu livro 'Swordpoint' (1987) é a síntese do gênero.

Entre outros, vale a pena destacar 'The Anvil of the world' de Kage Baker, 'To reign in Hell' de Steven Brust e 'War for the oaks' de Emma Bull.

A típica história de fantasia mannerpunk envolve uma aventura romântica que em algum ponto se torna uma crítica social. Magia, criaturas legendárias, outras raças, não são o ponto principal do gênero, apesar de fazer parte (ou não). Por este motivo, algumas vezes os livros de mannerpunk são chamados de ficção histórica.

Mannerpunk (Swordpoint, The Anvil of the world, To reign in Hell, War for the Oaks) [ Download ]


Splatterpunk



Splatterpunk é um neologismo que descreve um sub-gênero da ficção de terror, distinta pela exarcebação da violência.

O termo foi criado pelo crítico de pop-cultura David J.Schow nos meados dos anos 80.



Clive Barker é comumente citado como o escritor mais conhecido por sua série 'Books of blood'. Outros livros fundamentais são 'Scream' de John Skipp e Craig Spector, 'Pas de Deux' de Kathe Koja e 'Darkness divided' de John Shirley.

As histórias possuem uma caracteristica comum, de serem intensamente perturbantes e as vezes até desagradaveis, diferenciando-se do terror clássico de autores como Stephen King, Dean Koontz e John Saul.

O splatterpunk é mal-comportado, quer chocar, não é complacente às fórmulas financeiramente bem sucedidas e seguras da ficção de terror. Ele é mais influenciado pelos rebeldes e marginais. por mestres do rock-horror como Alice Cooper, o punk rock dos Sex Pistols e filmes como 'O massacre da serra elétrica'.

Splatterpunk (Weaveworld e Books of blood, Darknes Divided, Paux de Deux e The Scream) [ Download ]


Steampunk

(Steam = Vapor)

Steampunk é um sub-gênero da FC, onde as histórias se passam em um mundo aparentemente alternativo do nosso passado, semelhante historicamente à era Vitoriana.

Como no ciberpunk, a sociedade Steampunk é tipicamente distópica, com elementos noir e da ficção 'pulp'.

Sociedades secretas e teorias conspiratórias são usualmente apresentadas e ainda podem incluir elementos de fantasia. Frequentemente encontramos o horror lovecraftiano, o oculto e o gótico como influências.

O atual crescimento da popularidade do gênero se deve principalmente aos filmes e revistas em quadrinhos (comics), aos trabalhos de artistas como Hayao Miyazaki e Alan Moore/Kevin o'Neill (League of Extraordinary Gentlemen).

Alguns dos titulos mais conhecidos são: 'The Difference Engine' de William Gibson & Bruce Sterling, 'The Light Ages' de Ian R. MacLeod, 'Automated Alice' de Jeff Noon, 'Iron Council' de China Miéville, a série 'Age of Unreason' de Gregory Keyes, 'Homunculus' de James Blaylock, 'Anti-Ice' de Stephen Baxter, 'Souls in the great machine', de Sean McMullen, 'The Anubis Gates' de Tim Powers e 'Titus Groan' de Mervyn Peake

Uma vertente muito comum é o 'Western Steampunk', uma cientificação ficcional do western americano, vistos em 'The Wild Wild West' e 'Adventures of Brisco County'. Outra é a Fantasia Steampunk de China Mielville, combinando magia e tecnologia à vapor.

Steampunk (Automated Alice, Age of unreason, Homunculus, The Anubis Gates, The Light Ages, The Difference Engine, Iron Council, Anti-Ice, Souls in the Great Machine, Titus Groan) [ Download ]


Pós-ciberpunk


O Pós-ciberpunk, como seu predecessor ciberpunk, se concentra no desenvolvimento tecnológico em um futuro próximo, onde vemos os efeitos da dinamização das telecomunicações, da engenharia genética e da nanotecnologia.


A principal diferença em relação ao ciberpunk, está na atitude dos protagonistas, que defendem a união harmônica (utópica) com a tecnologia.

Exemplos de literatura pós-ciberpunk: 'Down and Out in the Magic Kingdom' de Cory Doctorow, 'Permutation City' de Greg Egan, 'Beggars in Spain' de Nancy Kress, 'Fairyland' de Paul J. McAuley, 'Market Forces' de Richard K. Morgan, 'Singularity Sky' de Charles Stross e a série 'Otherland' de Tad Williams.

O termo foi usado pela primeira vez em 1991, para descrever o romance 'Snow Crash' de Neal Stephenson. Em 1998, Lawrence Person publicava o artigo chamado 'Notes toward a postcyberpunk manifesto' em uma revista de pouca circulação chamada Nova Express, e no ano seguinte o mesmo artigo chegava ao popular site Slashdot. O artigo defendia a necessidade do gênero, assim como o ciberpunk já fora uma resposta à Space-Opera e a FC dos anos 70 e 80.

Notes toward a postcyberpunk manifesto

Pós-ciberpunk (Singularity sky, Down and out in the magic Kingdom, Permutation City, Fairyland, Beggars in Spain, Snow Crash, Otherland, Market Forces) [ Download ]

domingo, 3 de maio de 2009

Stanislaw Lem

Stanislaw Lem (12 de setembro de 1921 - 27 de Março de 2006) nasceu em Lviv, Ucrânia. Filósofo, ensaísta, poeta e escritor de Ficção Científica, sua obra (mais de 27 milhões de livros vendidos) foi traduzida para 41 línguas, algo notável para um autor que não escrevia em inglês.

Lem (que possuia um QI de 180) estudou medicina na Universidade de Lviv e na Universidade de Cracóvia, mas seus estudos foram interrompidos devido a Segunda Grande Guerra.
Durante a guerra e a ocupação nazista da Polônia, Lem trabalhou como mecânico de automóveis e soldador, foi membro da resistência, lutando contra os alemães, com documentos falsificados que escondiam sua origem judia, o que o livrou dos campos de concentração.

Em 1946 Lem mudou-se para Cracóvia e trabalhou como assistente de pesquisas em uma instituição científica e começou a escrever ficção em seu tempo livre. Também escrevia artigos científicos para a imprensa especializada.

Seu estilo, repleto de humor e inteligência, trocadilhos e neologismos, não poupava críticas (mesmo que indiretas) ao comunismo e ao progresso desenfreado.

Lem escrevia basicamente sobre sua permanente preocupação com o futuro da humanidade. Suas descrições de sociedades utópicas são marcadas por doses de ironia e a sensível impotência de seus protagonistas.

Seu livro Solaris de 1961, provavelmente seu trabalho mais conhecido, descreve um planeta-oceano consciente e a impossibilidade de comunicação (um de seus temas prediletos) entre os exploradores humanos e a entidade. O diretor russo Andrei Tarkovsky faria em 1972 uma versão poética e intimista do livro e posteriormente também o diretor Steven Soderbergh em 2002. Lem desaprovou as adaptações e se recusou a assistir a última.

A carreira de Lem ficou marcada também por polêmicas.
Em boa parte de sua vida, Stanislaw Lem teve que lidar com a censura. Vários trabalhos do início da carreira de Lem, tiveram sua publicação impedida ou retardada.

Em 1973, Lem foi homenageado pela SFWA (Science Fiction and Fantasy Writers of America), recebendo o título de membro honorário por sua obra. Contudo, Lem nunca teve ou demonstrou uma opinião favorável à Ficção Científica americana, descrevendo-a como literalmente medíocre, mais preocupada em ganhar dinheiro do que com novas ideías.
Devido a comentários como este, seu título foi revogado três anos depois.

Em seu último romance, Fiasco, de 1988, uma expedição da Terra tenta se comunicar com os habitantes do remoto planeta Quinta, porém estes se recusam terminantemente a permitir o contato. Por mais fortuito que pareça, este livro parece sumarizar com amargura, seus pensamentos nos últimos anos de vida.

Lem se afastaria do gênero, dedicando-se a escrever ensaios criticando o progresso tecnológico, extremamente pessimista quanto ao futuro da humanidade.

Site oficial - Stanislaw Lem

Vitrifax - Resenhas e ensaios

Coleção Stanislaw Lem (Automatthews Friend, Chain of chance, De como Ergio el autoinductivo mato a un carapalida, De impossibilitate Vitae, Eden, El electrobardo de Truri, Existe verdadeiramente Mr.Smith, Fabulas de robots, Fiasco, Gigamesh, Highcastle, Peace on Earth, La Albatros, La febre del hierro, La gran paliza, One human minute, Philip K Dick - el visionario entre charlatones, Return from the stars, Salvemos el espacio, Seventh voyage, Solaris, Star diaries 23 voyage, Tales of Pirx the pilot, The cyberiad, The futurological Congress, The investigation, The invencible, The offer of King Krool, The star diaries - memoirs of a space traveller, un valor imaginario -prólogos imaginários 1,, vacio perfecto, viaje septimo, Diários de las estrelas 1, Non Serviam, His Master voice, Provocacion, Love and tensor algebra) [Download]

sábado, 2 de maio de 2009

Diários estelares - 23° viagem - Stanislaw Lem


Da conhecida Cosmozoologia do professor Tarantoga, li sobre um planeta que orbita ao redor da estrela dupla Erpeya, que é tão pequeno que se todos seus habitantes saíssem de suas casas ao mesmo tempo, a única maneira de poderem caber na superfície seria levantando uma das pernas.
A despeito da enorme reputação do professor Tarantoga, contudo parece ter exagerado um pouco neste ponto, então decidi que iria determinar a veracidade pessoalmente.

Minha viagem foi confusa, na variável Cefeida-443 meu motor falhou e o foguete começou a cair em direção da estrela, o que me deixou alarmado, já que a temperatura da coisa era de seis mil graus centígrados. O calor aumentava a cada minuto e ficou de tal forma que precisei me espremer dentro do pequeno congelador onde usualmente eu guardava a comida – certamente uma tremenda falta de sorte, pois nunca antes tal coisa me havia acontecido .
Com sucesso reparei o problema e voei para Erpeya sem mais incidentes.

A estrela dupla era constituída de uma gigante vermelha, vermelha como uma fornalha, mas não tão quente, enquanto a outra era uma pequena azul que emitia um calor terrível.

O planeta em si era de fato bem pequeno, só o encontrei após percorrer a vizinhança inteira. Seus habitantes, os Whds, receberam-me muito cordialmente.

Excepcionalmente belos eram os sucessivos ocasos e auroras, os eclipses também forneciam visões espetaculares. Por metade do dia, brilhava o sol vermelho e todos os objetos pareciam mergulhados em sangue, na outra metade do dia surgia o sol azul, poderoso, e era preciso andar com os olhos fechados, apesar de disso, era quase tolerável. Sem saber o que era a noite, os Whds chamavam o sol azul de dia e o vermelho de noite.

Suas casas, e isso era verdade, eram incrivelmente minúsculas, mas os Whds sendo bastante inteligentes e possuindo grande conhecimento particularmente da física, haviam superado esta dificuldade através de uma idéia engenhosa, contudo admiravelmente singular.

Usavam de um aparato altamente preciso de raios-x com o qual tiravam o que chamavam de perfil atômico, que era um diagrama exato, mostrando cada molécula de proteína e seu elo químico, do qual seus corpos eram feitos. Então, quando chegava a hora de entrar para passar a noite, os Whds atravessavam por uma pequena porta que possuía dentro um mecanismo que os reduzia individualmente a átomos. Desta forma ocupavam pouco espaço e assim passavam a noite, então de manhã, um alarme ligava o mecanismo que seguindo os perfis atômicos, colocava de volta as moléculas na ordem e sequência apropriadas, a porta se abria e os Whds voltavam à vida, bocejavam e iam trabalhar.

Os Whds me falavam sobre as vantagens deste modo de vida, observando que deste jeito nunca tinham insônia, pesadelos, noites mal dormidas, já que a máquina os reduzia a átomos privando-os de vida e consciência. Eles utilizavam tal expediente em outras situações, como por exemplo nas salas de espera de médicos e escritórios do governo, que ao invés de cadeiras tinham pequenas caixas, pintadas de rosa e azul, com aquelas máquinas dentro e em certos encontros e conferências – quando um homem ficava por demais enfadado e sem nenhuma utilidade, simplesmente ocupando espaço pelo fato de sua existência.

Desta mesma forma os Whds estavam habituados a viajar. Se queriam ir a algum lugar, escreviam o endereço em um cartão e o colavam num cilindro pequeno que era colocado então sob a máquina, e então eram atomizados para dentro do cilindro. Havia uma instituição especial, semelhante ao nosso serviço de correios que enviava o cilindro para o respectivo endereço.

Se alguém estivesse com pressa, seu perfil atômico podia ser transmitido por telégrafo ao local designado e lá eles o recriavam através da máquina. O Whd original, enquanto pulverizado, ficaria nos arquivos. Este modo de viagem telegráfica era simples e rápida, consideravelmente atraente, apesar de conter certos riscos. Pouco depois da minha chegada, os jornais noticiaram um desagradável acidente. Parecia que um jovem Whd de nome Thermopheles, deveria supostamente ir até uma cidade situada no outro hemisfério do planeta, para se casar. Estando apaixonado, era naturalmente impaciente e desejando estar junto de seu par o mais rápido possível, foi até um posto e telegrafou a si mesmo. Naquele mesmo momento, o operador do telégrafo foi chamado por conta de um assunto urgente e seu substituto, sem saber que Thermopheles já fora enviado, submeteu seu perfil novamente, e eis que diante da ansiosa quase-noiva estavam dois Thermopheles, como duas ervilhas em uma vagem. Difícil imaginar o choque, a confusão, e a angústia da pobre garota, sem falar dos convidados da festa. Tentou-se então convencer a um dos Thermopheles a se submeter a atomização e então assim acabar com tal desagradável incidente, mas a tentativa falhou por completo, pois cada qual acreditava ser o verdadeiro e único Thermopheles.
O caso foi levado ao tribunal e passou por muitas apelações. Foi só após a minha partida que se deu o veredito, contudo não posso dizer como o caso foi resolvido.
(Nota do editor: O veredito obrigou ambos os noivos a serem atomizados e a subseqüente reconstrução de apenas um, o que foi verdadeiramente salomônico.)

Os Whds queriam a todo custo que eu experimentasse seus métodos de viagem, garantindo que erros como aquele eram extremamente raros e que o processo em si de nada tinha de misterioso ou sobrenatural. Como todo mundo sabe, organismos vivos são feitos da mesma matéria que tudo ao nosso redor, planetas e estrelas inclusive, a única diferença estava na interconexão e arranjo das partes que os constituem. Estes argumentos eu compreendia perfeitamente, mas me recusei terminantemente a entrar na máquina.

Certa tarde uma coisa muito curiosa me aconteceu. Fui me encontrar com um Whd que conhecia, sem ter antes telefonado para ele. Ninguém estava em casa quando cheguei. Procurando por ele, abri várias portas, uma por uma (os quartos eram extremamente apertados) até que finalmente depois de abrir uma porta que era menor do que as outras, vi que seu interior parecia com o de um refrigerador, completamente vazio com exceção de uma prateleira na qual havia uma caixa cheia de um pó cinzento. Sem pensar, peguei um pouco daquele pó, então ouvi o barulho de uma porta se abrindo e larguei o pó ao chão.

‘O que você está fazendo, honorável alienígena?’ disse o filho do Whd que eu procurava. ’Preste atenção, você está derramando o meu pai!’
Ao ouvir estas palavras, fiquei aterrorizado em pavor, mas o jovem disse:
‘Não foi nada, não se preocupe!’

Saiu e voltou pouco depois carregando uma quantidade considerável de carvão, um saco de açúcar, uma pitada de enxofre e um punhado de areia comum. Ouvi algo parecido com um profundo suspiro e um engolir, a porta se abriu e lá estava meu amigo Whd, rindo da minha cara, são e salvo. Perguntei para ele depois, durante nossa conversa, se eu não havia lhe causado algum mal, por ter pego parte de seu material corpóreo, e também como seu filho fora capaz de consertar meu desastrado ato.

‘Ora vamos, nem pense nisso! Você não me causou mal algum, que besteira! Certamente está ciente, meu querido amigo alienígena, das descobertas da moderna fisiologia, que diz que todos os átomos do nosso corpo são constantemente repostos por novos, alguns elos se partem, outros se formam, a perda é recuperada pela assimilação de alimentos e líquidos, e graças também ao processo respiratório – tudo isso junto é o que chamamos de metabolismo. Sendo assim, os átomos que compõe seu corpo, um ano atrás, agora estão vagando distantes, apenas a estrutura geral do organismo permanece inalterada, um sistema inter-relacionado constituído por partes materiais. Não há nada de estranho naquilo que meu filho fez, ele apenas repôs o suprimento de material necessário para minha recriação; afinal somos feitos de carbono, enxofre, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e traços de metais, e estas substâncias que ele trouxe, possuem todos os elementos necessários. Por favor, entre e experimente por você mesmo, verá como o processo não causa qualquer dor…’

Declinei graciosamente da oferta de meu anfitrião e por algum tempo fiquei relutante frente a convites semelhantes, porém ao fim, depois de uma longa reflexão, me convenci a fazê-lo.

Fui a um escritório de raios-x e eles registraram meu perfil atômico, então fui ver meu amigo. Espremer-me dentro daquela coisa não foi fácil, contudo meu anfitrião me auxiliou; a pequena porta só podia ser fechada depois que todos estivessem do lado de dentro.

A porta fechou com um clique e tudo ficou escuro. O que aconteceu então eu não me lembro.
Só senti que estava pouco confortável e que o topo da prateleira apertava minha orelha e antes que pudesse tentar mudar de posição a pequena porta se abriu e eu sai de dentro.

Minha primeira pergunta foi do motivo deles terem cancelado o experimento, mas meu anfitrião me informou, com um sorriso de prazer, que eu estava enganado. E para completar, uma rápida olhada no relógio da parede confirmava que vinte horas haviam se passado sem que eu tivesse a menor sensação disso. O único inconveniente estava que meu relógio de bolso indicava a hora em que eu entrara no mecanismo, a hora precisa em que eu fora reduzido a átomos, junto com ele.

Os Whds - com quem cada vez mais sentia se fortalecerem os laços de amizade - me disseram que ainda haviam outras aplicações para este método; eles tinham desenvolvido o costume de ao se verem diante de um problema sem solução, permanecerem dentro da máquina por décadas e então renasciam – voltando para o mundo perguntavam se o problema havia sido solucionado – se não, submetiam-se mais uma vez a atomização até que a solução viesse.

Após esta experiência bem sucedida tomei gosto pela coisa, por aquele jeito novo de descansar, de modo que não passava mais apenas as noites, mas cada minuto livre no estado atomizado, no parque, na rua, onde houvesse uma destas máquinas, que pareciam caixas postais com pequenas portas. Tudo que era preciso era lembrar-se de colocar o alarme para a hora certa; uma pessoa esquecida poderia passar a eternidade dentro da máquina, mas felizmente haviam os inspetores que a cada mês checavam os mecanismos.

Próximo do fim da minha estada naquele planeta, me tornei um entusiasta dos costumes dos Wdhs e o fazia como disse, sempre que podia.

Por esta temeridade eu iria pagar caro.

Aconteceu certa vez, que o mecanismo onde eu estava ter emperrado um pouco e naquela manhã, quando o alarme foi disparado, a coisa me reconstruiu não na minha forma habitual, mas como Napoleão Bonaparte em seu uniforme imperial, usando da faixa tricolor da legião de honra, o sabre ao lado, o chapéu com detalhes dourados na cabeça, e um orbe e um cedro em cada mão – e foi assim que eu apareci na frente de meu espantado anfitrião Whd.

Me aconselharam de imediato a procurar um mecanismo que não estivesse danificado, para me refazer, enquanto que meu perfil atômico verdadeiro estivesse gravado e disponível; assim mesmo não quis ouvi-los e contentei-me em trocar o chapéu por um boné com abas, o sabre por alguns talheres e o orbe e o cedro por um guarda-chuva.

Quando já sentado nos controles do meu foguete e com o planeta desaparecendo longe, atrás de mim, na escuridão da noite eterna, derrepente me dei conta de ter sido muito precipitado ao me desfazer daquelas provas tangíveis, que poderiam dar crédito à minha história.

Mas agora era tarde demais.

The Twenty-Third Voyage, The Star Diaries (1976) - trad.Michael Kandel

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Brasyl - Ian McDonald


Ian McDonald nos presenteia com seu mais recente trabalho, tão aguardado e já constante nas listas de indicados para a maioria dos prêmios da Ficção Científica de língua inglesa.

Ciberpunks, capoeiristas, dimensões paralelas, reality show, a Copa do Mundo de 1950, física, Coroa portuguesa, luta de espadas quânticas, travestis, Teoria da Gravidade, Gisele Bundchen, filosofia, favelas e terreiros...

Passado, presente e futuro se confundem em Brasyl.

Na São Paulo de um futuro próximo (2032), vive Edson, um empresário que venceu na vida graças a 'malandragem', em meio à riqueza e a pobreza extremas. Edson está envolvido com o perigoso submundo da computação quântica numa sociedade onde predomina a vigilância total.
No Rio de Janeiro dos dias atuais vive Marcelina, uma produtora ambiciosa que corre atrás da fama televisiva. Por fim temos Padre Luis, um missionário jesuíta no Brasil de 1732, atravessando o Amazonas em busca de um padre louco fugitivo.

Três personagens, todos linkados através do tempo e do espaço, numa ambiciosa história que vai mudar a maneira de você enxergar a realidade.


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quinta-feira, 30 de abril de 2009

The Mammoth Book of Zombies - Stephen Jones

Dos túmulos e sepulturas levantam-se aqueles que não podem morrer. Histórias novas e antigas dos mestres do horror,incluindo Clive Barker, Robert Bloch, Graham Masterston, Ramsey Campbell, Hugh B. Cave e outros.

Clive Barker - Sex, Death and Starshine
Ramsey Campbell - Rising Generation
Manly Wade Wellman - The Song of the Slaves
R. Chetwynd-Hayes - The Ghouls
Edgar Allan Poe - The Facts in the Case of M. Valdemar
Karl Edward Wagner - Sticks
Charles L. Grant - Quietly Now
Basil Copper - The Grey House
M. R. James - A Warning to the Curious
Nicholas Royle - The Crucian Pit
Brian Lumley - The Disapproval of Jeremy Cleave
H. P. Lovecraft - Herbert West - Reanimator
Lisa Tuttle - Treading the Maze
David Riley - Out of Corruption
Graham Masterton - The Taking of Mr Bill
J. Sheridan Le Fanu - Schalken the Painter
David Sutton - Clinically Dead
Les Daniels - They're Coming for You
Hugh B. Cave - Mission to Margal
Michael Marshall Smith - Later
Peter Tremayne - Marbh Bheo
Dennis Etchison - The Blood Kiss
Christopher Fowler - Night After Night of the Living Dead
Robert Bloch - The Dead Don't Die!
Kim Newman - Patricia's Profession
Joe R. Lansdale On the Far Side of the Cadillac Desert with Dead Folks

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

The Mammoth Book Of Vampires - Stephen Jones

Os mestres do macabro ressuscitam em contos nunca antes publicados, histórias de vampiros, em todas suas assustadoras formas. Incluindo a primeira edição de RED REIGN de Kim Newman.

Clive Barker - Human Remains
Brian Lumley - Necros
Brian Stableford - The Man Who Loved the Vampire Lady
F. Marion Crawford - For the Blood is the Life
Ramsey Campbell - The Brood
Robert Bloch - Hungarian Rhapsody
Edgar Allan Poe - Ligcia
Richard Christian Matheson - Vampire
Hugh B. Cave - Stragella
David J. Schow A Week in the Unlife
Frances Garfield - The House at Evening
R. Chetwynd-Hayes - The Labyrinth
Karl Edward Wagner - Beyond Any Measure
Basil Copper - Doctor Porthos
Bram Stoker - Dracula's Guest
Dennis Etchison - It Only Comes Out at Night
Peter Tremayne - Dracula's Chair
Melanie Tern - The Better Half
M. R. James - An Episode of Cathedral History
Manly Wade Wettman - Chastel
Howard Waldrop - Der Untergang Des Abendlandesmenschen
E. F. Benson - The Room In the Tower
Graham Masterton - Laird of Dunain
F. Paul Wilson - Midnight Mass
Nancy Holder - Blood Gothic
Les Daniels - Yellow Fog
Steve Rasnic Tern - Vintage Domestic
Kim Newman - Red Reign
Neil Galman - Vampire Sestina

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terça-feira, 28 de abril de 2009

The Mammoth Book of Monsters - Stephen Jones


The Mammoth Book of Monsters traz o que há de melhor em matéria de histórias sobre Monstros, escritas por nomes consagrados do horror, como Ramsey Campbell, Kim Newman, Harlan Ellison, Joe R. Lansdale e muitos outros.

David J. Schow - Visitation
Ramsey Campbell - Down There
Scott Edelman - The Man He Had Been Before
Dennis Etchison - Calling All Monsters
R. Chetwynd-hayes - The Shadmock
Christopher Fowler - The Spider Kiss
Nancy Holder - Cafe Endless: Spring Rain
Thomas Ligotti - The Medusa
Gemma Files - In The Poor Girl Taken By Surprise
Sydney J. Bounds - Downmarket
Robert E. Howard - The Horror From The Mound
Jay Lake - Fat Man
Brian Lumley - The Thin People
Tanith Lee - The Hill
Joe R. Lansdale - Godzilla's Twelve Step Program
Karl Edward Wagner - .220 Swift
Robert Silverberg - Our Lady Of The Sauropods
Basil Copper - The Flabby Men
Robert Holdstock - The Silvering
Michael Marshall Smith - Someone Else's Problem
Clive Barker - Rawhead Rex
Kim Newman - The Chill Clutch Of The Unseen

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

The Mammoth Book Of Best New Horror - Stephen Jones


A nova edição do Mammoth Book dedicado ao horror e dark fantasy, traz algumas das melhores histórias dos mestres do macabro, incluindo Neil Gaiman,Brian Keene, Elizabeth Massie, Glen Hirshberg, Peter Atkins e Tanith Lee.

Michael Marshall Smith - The Things He Said
Simon Kurt Unsworth - The Church On The Island
Christopher Fowler - The Twilight Express
Ramsey Campbell - Peep
Tim Pratt - From Around Here
Gary Mcmahon - Pumpkin Night
Simon Strantzas - The Other Village
Mike O'Driscoll - 13 O'Clock
Joel Lane - Still Water
Joe Hill - Thumbprint
Nicholas Royle - Lancashire
Marc Lecard - The Admiral's House
Tony Richards - Man, You Gotta See This!
David A. Sutton - The Fisherman
Reggie Oliver - The Children of Monte Rosa
Neil Gaiman - The Witch's Headstone
Joel Knight - Calico Black, Calico Blue
Steven Erikson - This Rich Evil Sound
Glen Hirshberg - Miss Ill-Kept Runt
Joe R. Lansdale - Deadman's Road
Mark Samuels - A Gentleman from Mexico
Tom Piccirilli - Loss
Christopher Harman - Behind the Clouds: In Front of the Sun
Caitlin R. Kiernan - The Ape's Wife
Conrad Williams - Tight Wrappers
Kim Newman - Cold Snap

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domingo, 26 de abril de 2009

Charles Stross - entrevista II


'Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.'

HardSF: O que inspira você a colocar ciência na sua ficção?

Charles Stross: Não estou certo se o faço. Você vai encontrar nas minhas histórias coisas como viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo, upload de mentes, nanotecnologia. Algumas destas coisas são mais plausíveis do que outras, de maneira que podem ser possíveis, mas não posso dizer que deliberadamente decido por incorporar a ciência na ficção de maneira sistemática.

HardSF: O quanto isso é importante para você, se no fim o leitor acaba aprendendo conceitos científicos através das suas histórias?

CS: Não é. Mais importante para mim é que eles não comecem a achar que certas coisas que são obviamente irreais, possam acontecer algum dia, mas isso não é exatamente o que eu pretendo fazer. Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.

HardSF: Você acha que as teorias científicas, por serem abastratas e intangíveis, afetam a sua habilidade em vender literatura baseada em FC Hard*?

CS: O que me afeta, em se tratando de trabalhar com literatura, é que de fato para cada livro vendido de Ficção Científica, são vendidos dois do gênero Fantasia, e para cada livro vendido de Fantasia, são vendidos cinco romances. Sendo assim, se eu escrevesse apenas Ficção Cientifica eu estaria, por vontade própria. reduzindo meu pagamento de royalties. Mais interessante do que isso, eu estou escrevendo para uma audiência que é ínfimamente pequena. 25% da população do planeta fala ou lê em inglês (e menos que isso tem o inglês como primeira língua) e 2% da ficção vendida é de FC. Então antes mesmo de começar, tenho que aceitar que não vou conseguir mover montanhas ou ter multidões me seguindo.
Afinal sou apenas um escritor de ficção, e não algum tipo de pregador vendendo a salvação eterna, não é mesmo?

HardSF: Você pensa que a FC Hard é o único tipo possível de FC? Ou tem espaço para a FC 'Soft'?

CS: Acho que toda esta distinção não faz sentido. Eu escrevo ficção, ponto. Se eu escolho falar sobre algum tipo de ciência dentro dela, tento então fazer da forma certa ou ao menos plausível. Mas a retórica da FC Hard versus FC 'soft' me parece pairar ridiculamente nas origens do gênero, criado por Hugo Gernsback no passado, quando havia toda esta agitação - tipo propaganda política - tipo o braço de um movimento, tecnocracia.

HardSF: Como se pode tornar a FC Hard mais agradável para o grande público?

CS: Acho que a FC Hard foi atropelada pela fantasia, basta ver Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas e os filmes com efeitos especiais, quase 30% de tudo que Hollywood vende como FC, e aquilo que você pode razoavelmente classificar como FC Hard é quase nada - dá para contar nos dedos de uma das mãos.

Se levarmos para este público potencial de leitores e espectadores, poderemos fazer com que se interessem. Mas francamente, acho que a onda da FC Hard já passou. A FC Hard surgiu em um contexto bem específico, durante os anos 30 - um tempo em que as pessoas que haviam cruzado as pradarias em carruagens, ainda estavam tentando descobrir como lidar com a eletricidade e máquinas voadoras, e daí os computadores, a energia nuclear e naves espaciais. Foi uma ferramenta educacional bastante útil, expandindo horizontes, mostrando que de certa forma aquilo seria relevante na vida das pessoas. Hoje estamos cercados de gizmos. Provavelmente há mais computadores no meu apartamento hoje, do que em todo este pais (Escócia) nos anos 60. A Ficção Científica implodiu com o presente; mudanças climáticas globais nos afetando diretamente, naves espaciais pousando nas luas de Saturno, transplantes de rosto na França (Ei, esta não era uma história do Fu Manchu, sessenta anos atrás?) e mundos virtuais com PIB maiores do que o da Áustria.

Acredito que o atual crescimento na procura pela Fantasia, comparativamente a FC, é o resultado sintomático deste nosso mundo, como se os leitores gritassem 'PAREM, POR FAVOR' e buscassem conforto em um tempo em que eles sabiam o que diabos estava acontecendo. Alvin Toffler acertou nos anos 70 - chama-se Choque do Futuro.

HardSF: Qual tópico científico você acha que será o mais falado nas próximas décadas?

CS: O de sempre - não há nada de novo na FC hoje. O Aquecimento global continuará sendo de nosso interesse, não importa se você acredita que é antropogênico ou natural - é o elefante na sala de estar, e temos que aprender a viver com isso. Até hoje, apenas Kim Stanley Robinson tem se agarrado a isso nos EUA, ele é um dos escritores de FC Hard mais interessante trabalhando por aí, mesmo estando em conflito ideológico com a velha guarda stalinista da Ficção Científica em geral.

Avanços na tecnologia médica é uma aposta certa, mas não sei se ainda há algo a ser dito e que Bruce Sterling já não o tenha feito em 'Holy Fire', quase dez anos atrás.

Nanotecnologia... cedo ou tarde passaremos deste estágio primitivo, onde nos encontramos presos à quase uma década. E então os prognósticos de Eric Drexler vão parecer tão ultrapassados quanto Jules Verne em 1890. Será como sermos cozidos lentamente, como o provérbio do sapo.

A física parece estar ainda em 1895, com tudo amarradinho, exceto por algumas pontas soltas, como o por que dos elétrons não se neutralizarem a si mesmos ou por que 70% de toda a massa do Cosmos estar oculta. Da primeira crise veio a mecânica quântica e a relatividade, a segunda nos trará... quem sabe? Estou quase certo de que não será a teoria das cordas, mas ainda não posso apostar...

HardSF: Você geralmente escreve sobre o que domina e conhece, ou intencionalmente procura por novos e incertos territórios?

CS: Quase sempre sobre aquilo que conheço, mas sou eclético, aleatório, e um entusiasta por aprender coisas novas (minha formação universitária cobre alguns assuntos úteis para mim; farmacologia, bioquímica, física, ciência computacional)

HardSF: Qual você considera ter sido a sua maior realização; sua contribuição na ciência ou na literatura?

CS: Para a literatura - por que não penso ter feito alguma coisa para a ciência! Poucas pessoas fazem. Mesmo a média das teses de doutorado é um simples pixel em um mosaico do tamanho da Grande Muralha da China. Ao menos na literatura é mais fácil de deixar sua marca.

HardSF: Está trabalhando em algo agora?

CS: Agora mesmo estou trabalhando em um romance de FC mundana*. É um movimento britânico pouco falado, que não se utiliza destas tralhas como alienigenas, viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo e coisas assim. Estou escrevendo uma história de detetive que se passa na Escócia daqui a uns 12-15 anos. É sobre um jogo de computador e a heroína é uma contadora. Parece bem louco pra mim.

(HardSF - 2006-06-28)


*FC Hard é uma modalidade da Ficção Científica que procura dar embasamento científico à história que está sendo contada e portanto exige mais conhecimento do autor. Arthur C.Clarke é um autor famoso de FC Hard.

*FC Mundana (ou terrestre) é um subgênero da Ficção Científica criado em 2002 pelo escritor Geoff Ryman e que se caracteriza por se utilizar de tecnologia atual ou derivada dela, de forma contida e apoiada na ciência. Na FC Mundana, o homem não alcança as estrelas, não existem civilizações de outros planetas, assim como as viagens no tempo, ou mais rápido que a luz e outras dimensões são impossíveis.
Site sobre FC Mundana

Charles Stross


Charles David George Stross (18 de Outubro de 1964) nasceu em Leeds, Inglaterra. Jornalista, formado em ciência computacional, escritor de Ficção Científica, Fantasia e Horror, editor e roteirista, atualmente vivendo na Escócia.

Stross faz parte da nova geração de escritores britânicos de Ficção Científica, especializados em FC hard e Space Opera, contemporâneo de Alastair Reynolds, Ken MacLeod e Liz Williams.

Antes de se tornar um escritor reconhecido, Stross esteve envolvido com RPGs, sendo editor e colaborador de diversas revistas como White Dwarf e Advanced Dungeons & Dragons, bastante populares entre os jogadores.

Seu primeiro conto, The Boys, foi publicado na revista Interzone em 1987 e o primeiro livro, Singularity Sky, foi indicado para receber o prêmio Hugo de 2003. A partir dai, Stross se tornou um nome constante entre os indicados para os prêmios mais importantes da FC de língua inglesa, acabando por ganhar o Hugo de 2005 (Concrete Jungle) e o Locus de 2006 (Accelerando) e 2007 (Missile Gap).


Blog de Charlie Stross


Coleção Charles Stross (A boy and his God, A colder war, Accelerando, Ancient of days, Concrete Jungle, Dechlorinating the moderator, Different flesh, Duat, Elector, Escape, Examination Night, Generation Gap, Glasshouse, Halo, Charlie Stross interviews, Iron Sunrise, Lobsters, Love me, Maxo Signals, Merchant Princes series, Message in a time capsule, Missile Gap, Nightfall, Red, hot and dark, Remade, Rogue Farm, Scratch Monkey, SEAQ and destroy, Singularity Sky, Tarkovisky's cut, The atrocity archives, The boys, The concrete jungle, The midlist bombers, Troubadour, Warcrime, Year Zero, Yellow Snow, Jury Service) - [ Download ]

sábado, 25 de abril de 2009

15 Raças Alienígenas Memoráveis da Literatura de Ficção Científica



Aalaag























Os Aalaag conquistaram o planeta Terra com facilidade no romance WAY OF THE PILGRIM de Gordon R.Dickson de 1987. Dentro de sua própria ética, os Aalaags são senhores justos – tratar mal seu 'rebanho' humano é considerada uma ofensa muito séria. Porém eles exigem obediência e um rígido código de conduta que classifica o espírito humano.
Na verdade o planeta natal dos Aalaags foi conquistado também, por um poderoso inimigo sem nome.
Os Aalaags são essencialmente guerreiros altos e orgulhosos, cada qual com uma coleção pessoal de armas e possuem uma aparência espartana. Cada Aalaag encara seus deveres como sendo a maior virtude, e todos seus esforços são dirigidos para o dia em que recuperarão seus planetas perdidos. As raças dominadas por eles são utilizadas para explorar recursos para conquistar este seu objetivo final.
Nosso herói, Shane Evert, um lingüista, encabeça um grupo de tradutores à serviço do líder alienígena, Primeiro Capitão Lyt Ahn. O titulo do livro se refere ao símbolo universal do Peregrino, como condição humana e que se torna o símbolo do movimento de resistência que começa a surgir.
Cativante, calorosamente humano, o romance é Dickson em seu melhor.
Way of the Pilgrim - Gordon R.Dickson [ Download ]



Psychlos






















Esqueça o filme com John Travolta. Esqueça o que quer que você pense sobre L.Ron Hubbard ter fundado a Cientologia. Apenas leia este romance paquidérmico (1066 páginas) de 1982, chamado BATTLEFIELD EARTH. É Space Opera do jeito que devia ser.
Os Psychlos não somente conquistam planetas. Eles não somente conquistam galáxias. Eles conquistam universos. Só eles possuem o segredo do teletransporte instantâneo. E um de seus maiores empreendimentos trata-se da Companhia de Mineração Intergaláctica que leva os nativos de volta ao tempo da idade da pedra e sistematicamente extrai cada minério disponível do planeta, quase até só restar o núcleo.
E os Psychlos acham a crueldade muito divertida. O desonesto – mesmo para os seus padrões - Chefe de Segurança da Terra chamado Terl, tem um esquema para ficar rico treinando alguns nativos humanos para minerar ilegalmente para ele.
Soberba caracterização, tanto de humanos quanto de alienígenas em uma história tão boa que você quase esquece que está lendo. Uma nota de louvor deve ser feita aos Selachees, outro raça alienígena no livro e que tem um papel crucial ao final.
Battlefield Earth - L.Ron Hubbard [ Download ]



Thranx






















Alan Dean Foster já escreveu uma série de trabalhos dentro da Comunidade Humanos-Thranx (Humanx), mas a maioria trata de personagens bem conhecidos como Flinx e Pip, com os Tranx de pano de fundo. Um dos romances contudo, explora bem a cultura Thranx e como os humanos se tornaram parceiros deles. NOR CRYSTAL TEARS (1982) é em grande parte escrito pelo ponto de vista dos Thranx. Tudo parece tão bem encaixado neste livro – que ao final você estará torcendo para que o insectoide Thranx forme uma aliança com os humanos.
Foster lida com as raças com perfeição. E eu adoro estes louva-a-deus.
Série Humanx (Surfeit, The Emoman, Midworld, Cachalot, Nor Crystal Tears, Voyage to the city of the dead, Sentenced to Prism, The Howling Stones) - Alan Dean Foster [ Download ]



Marcianos






















Estamos falando especialmente dos marcianos do livro MARTIANS GO HOME (1955), de Fredric Brown. Eles são literalmente homenzinhos verdes, mas o que eles são realmente, antes de tudo, são uns chatos! Serem chatos parece ser a seu maior objetivo.
Eles invadem a Terra aos milhões, de uma hora para outra, falando inglês com um sotaque do Brooklyn e perturbando a paz e a ordem. Com resultados desastrosos e as vezes fatais. Eles podem se teleportar para onde quiserem, porém não podem ser tocados. Gostam mais do que tudo de dizer com quem sua esposa está dormindo, entregam segredos de defesa para outros países, fazem comentários sobre as falhas humanas, tudo para poder ser tão chato quanto puderem.
Este livro é considerado um clássico da Ficção Cientifica e não conheço ninguém que o tenha lido e não tenha gostado.
Martians go Home - Fredric Brown [ Download ]



Pequeninos






















SPEAKER FOR THE DEAD (1986) é a sequência escrita por Orson Scott Card para seu mundialmente famoso romance ENDER’S GAME (um romance de Ficção Científica obrigatório para pessoas que não lêem Ficção Científica).
Ambos ganharam os prêmios Hugo e Nebula, mas são dois livros bem diferentes entre si.
Muita gente irá discordar de colocar os Pequeninos como uma raça alienígena clássica, mas é a rica descrição desta sociedade que chama a atenção. Especialmente por que, muito do que decepciona no livro, mais uma vez está nas dificuldades das comunicações entre as espécies e na tentativa (em vão) dos humanos para compreender os pequeninos sem prejudicar seu desenvolvimento natural. Tocante em algumas partes, é um livro imperdível para o leitor de Ficção Cientifica interessado em comparar religiões.
O conceito de framling (humanos de outros planetas), ramen (não-humanos com quem se comunicam como se fossem humanos) e varelse (não humanos com quem é impossível se comunicar) será lembrado quando inevitavelmente entrarmos em contato com seres interestelares.
Série Enders (Ender's Game, Investument Counselor, Sppeaker for the Dead, Xenocide, Children of the mind, Ender's Shadow, Shadow of the Hegemon, Shadow Puppets, Shadow of the Giant ) - Orson Scott Card [ Download ]



Overlords






















Incluso em todo curso sobre Ficção Científica, o clássico de Arthur C.Clarke CHILDHOOD’S END (1953) nos mostra um outro tipo de conquistador da Terra, um tipo benigno de certa forma. Os Overlords tornam a vida melhor para todos e dão solução para muitos de nossos problemas, tudo isso de suas gigantescas espaçonaves posicionadas sobre as maiores cidades do mundo.
A humanidade se adapta a esta situação, como é de sua natureza, mas os Overlords não irão revelar a si mesmos por cinqüenta anos e a razão pela qual o fazem incorporam conceitos de memória racial (Jung).
Não direi mais nada, além do que muitos professores amam utilizar este livro em seus cursos.
É claro que existe um segredo, do por que os Overlords estarem agindo daquela maneira.
O que acontece quando o segredo é revelado, pode ser descrito como ‘pungente’.
Childhood's End e O Fim da Infância - Arthur C.Clarke [ Download ]



Fithp






















Larry Niven não precisa de dinheiro, já Jerry Pournelle sim. Isso realmente não importa, pois são dois autores de Ficção Científica, quer estejam comendo hambúrgueres ou filé mignon. Juntos eles realizaram uma das mais bem sucedidos parcerias já vista neste gênero.
FOOTFALL (1985) é um excelente exemplo disso.
Gente que não costuma ler Ficção Científica lia os romances de Niven/Pournelle nos anos 80, enquanto esperavam pelo próximo Heinlein. De qualquer forma, todo mundo que já leu este livro, pensa nos Fithp como elefantes. Assim como os humanos fazem parte de uma cultura de indivíduos, como formigas de uma colônia, os Fithp são de uma cultura de manada.
Com um excelente tratamento dado a esta premissa básica – e sendo criaturas de manada, eles não compreendem o conceito de acordos diplomáticos... ou você é o dominante ou o submisso.
Em particular, a política interna dentro de uma manada inteligente diante de uma difícil conquista é tratada com admirável habilidade.
Footfall - Larry Niven/Jerry Pournelle [ Download ]



Drac






















Ok, o sujeito publica um conto e ganha um prêmio Nebula por isso – poucos meses depois ele ganha o prêmio Hugo também. Em seguida o prêmio John W.Campbell por que, afinal, trata-se de um novato. Ele é o primeiro a ganhar os três prêmios em um ano. Grande coisa?
Então vem Hollywood e um filme subestimado estrelado por Dennis Quaid e Louis Gossett Jr. (Gossett recebeu uma indicação de melhor ator, mesmo o filme não sendo um sucesso).
De uma hora para outra, Barry B.Longyear é o maior nome da Ficção Científica por conta de ENEMY MINE (1979).
Dracs e humanos estão em guerra. Um piloto humano e um piloto alienígena ficam presos em um planeta onde sobreviver é muito difícil, para dizer o mínimo. Eles são forçados a unirem forças para continuarem vivos. O problema é que os Dracs são hermafroditas e Jeriba não precisa de um parceiro para se reproduzir.
Alerta de spoiler para a próxima frase: Devido a morte prematura, o humano se vê forçado a criar a criança alienígena como se fosse sua.
Tanto o livro quanto o filme são essencialmente a história da interação entre homem e alienígena. Não vai ser difícil você chorar.
Enemy Mine - Barry B.Longyear [ Download ]



Fuzzies






















H.Beam Piper solidificou sua posição na história da Ficção Científica com a publicação de LITTLE FUZZY (1962).
Os adjetivos mais utilizados pelos críticos deste livro foram ‘delicioso’ e ‘encantador’, e não podemos culpá-los por isso. Os Fuzzies são adoráveis. Mas o romance explora outro importante tema: como definimos a sabedoria? Foram escritas várias sequências, nem sempre pelo mesmo autor – e nenhuma é tão boa quanto o original.
The complete Fuzzie (Little Fuzzie, Fuzzie Sapiens, Fuzzies and other people) - H.Beam Piper
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Groaci






















É difícil saber qual dos trabalhos de Keith Laumer é mais conhecido da sua série BOLO, aquela com seu personagem James Bondiano Jame Retief. São várias histórias ao longo de décadas. Independentemente estas histórias de heroicidade e engenhosidade humana em face da incompetência diplomática humana, venderam muito bem por anos. A maioria delas conta com um enredo insidioso por detrás de estranhos alienígenas e principalmente dos Groaci.
Os livros são leves e engraçados e os Groaci são difíceis de se lidar, a não ser quando na coleira. Apesar disso, diversão garantida.
Série Bolo (Honor of the regiment, Bolo Strike, The Triumphant, Old Guard, Cold Steel, Bolo Rising) -Keith Laumer [ Download ]



Ythrians






















Poul Anderson é sem dúvida um dos decanos americanos da Ficção Científica – ele possui algo chamado ‘História do futuro’ – um termo associado a Robert A.Heinlein – mas a história futura de Anderson não é tão ordenada. Muitas delas se passam dentro da chamada ‘Liga Polesotechic’ um panorama que abrange 4.000 anos da exploração interestelar humana.
A Liga é levemente baseada no capitalismo dos lordes feudais germânicos (especuladores egoístas e usurpadores) do século 19. Mas e quanto aos Ythri?
THE EARTH BOOK OF STORMGATE (1978) viola um critério. Trata-se de uma coletânea, não de um romance. Mas Hloch, algo como um erudito/historiador, introduz cada história, e cada uma delas está entremeada com as outras, dando ao leitor o sentimento da cultura Ythrian.
A melhor maneira de incluir esta raça na lista é através de EARTH BOOK (os Ythrians contudo aparecem em outros trabalhos de Anderson).
The Earth book of Stormgate - Poul Anderson [ Download ]



Hroshii






















É difícil explicar estas criaturas sem revelar coisa alguma sobre o livro, mas tentarei.
Quase que a metade do romance juvenil de Robert A.Heinlein, STAR BEAST (1954) se passa sem que a palavra Hroshii apareça. Mas eles são poderosos e pouco inclinados a negociar com quem quer que seja. Simplesmente não aceitam um ‘não’ como resposta.
Star Beast - Robert A.Heinlein [ Download ]



Forhilnor






















Forhilnor são perigosos para os humanos por serem, essencialmente, aranhas gigantes.
O autor canadense Robert J.Sawyer, hoje provavelmente reconhecido por sua FC Hard, nos presenteou com CALCULATING GOD em 2000.
Apesar dos eventos do livro tratarem da chegada dos Forhulnors na Terra e a interação deles com um paleontologista humano, poderíamos dizer que os alienígenas são espectadores...
Sawyer utiliza-se deste encontro para explorar conceitos sobre a Criação, a cosmologia e o por que de existir vida. Ainda assim o leitor irá adorar ter Hollus como convidado para jantar e terá orgulho de tê-lo como amigo.
CALCULATING GOD é um bom livro para se discutir ao redor de uma fogueira.
Calculating God - Robert J.Sawyer [ Download ]



Chtorran






















Se você não conhece David Gerrold, provavelmente conhece algo que ele fez – foi Gerrold quem escreveu o famoso episódio ‘The trouble with Tribbles’ da série Star Trek.
Sua produção inclui alguns contos e romances de qualidade variável, mas em 1983 ele publicou o primeiro volume de MATTER FOR MEN, que acabou conhecido como ‘The war against The Chtorr’.
Apesar dos vermes serem a face mais aparente dos Chtorrans, o que temos na verdade é nada mais, nada menos do que a tentativa de toda uma biosfera conquistar a Terra.
Outros livros foram escritos dando sequência a este e para nossa felicidade, alguns são tão bons quanto o primeiro. É preciso ler na ordem certa, acompanhar a infestação Chtorran se multiplicando e a reação dos humanos.
Matter for Men - David Gerrold [ Download ]



Yilane






















Outra raça bem conhecida e eu espero que alguém resolva fazer um filme desta obra prima de Harry Harrison, chamada WEST OF EDEN (1984).
Os outros dois títulos que se seguiram a este (com a usual perda de qualidade) compõe um espantoso exemplo da meticulosa criação de alienígenas feita por Harrison
No entanto os Yilane não são alienígenas no sentido da palavra... esta é a história de uma evolução alternativa da Terra. Os humanos estão em um estágio primitivo (caçadores).
Os Yilane por sua vez, são répteis de um metro e meio de altura, eretos e inteligentes, descendentes dos dinossauros. A sociedade é matriarcal e tem sua tecnologia baseada quase que inteiramente na manipulação das ciências biológicas. Eles literalmente plantam e criam animais, que são modificados para exercer diversas funções.
Os Yilanes vivem em zonas tropicais enquanto que os humanos em zonas temperadas, mas independente disso, as duas sociedades vão de encontro uma contra a outra e surge o conflito. Kerrick, o protagonista humano, foi capturado quando jovem pelos Yilanes e cresceu entre eles. A beleza deste livro está em ter permitido ao autor mostrar ao leitor, a incrível riqueza da cultura Yilane. Assim como Kerrick aprende, nós também. E de forma educativa, os leitores acabam conhecendo toda uma cultura alienígena – sem sacrificar a história.
Harrison é errático em relação a qualidade de seus trabalhos – alguns são detestáveis, muitos são obras de um artesão e poucos são realmente maravilhosos – mas sem dúvida ele triunfou com este.
Trilogia Eden (West of Eden, Winter in Eden e Return to Ender) - Harry Harrison [ Download ]


(retirado de http://listverse.com/literature/15-memorable-alien-races-in-science-fiction/)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Constructing a Science Fiction Novel - Roger Zelazny


(...Sylvia Burack asked me for an essay for The Writer, and I did the following piece. A large chunk of it tells of the considerations which went into the composition of my novel Eye of Cat. / don't believe I've ever recorded the things I do and think in writing a book in such detail, before or since. Still, it's a short piece, and for those of you who care about such matters I am including it here.

The late James Blish was once asked where he got his ideas for science fiction stories. He gave one of the usual general answers we all do-from observation, from reading, from the sum total of all his experiences, et cetera. Then someone asked him what he did if no ideas were forthcoming from these. He immediately replied, "I plagiarize myself."...)

Constructing a Science Fiction Novel - Roger Zelazny [ Download ]

Medo e Terror na Literatura Infanto-juvenil brasileira


Pé ante pé

Já há algum tempo, vemo-nos invadidos por um sentimento que ultrapassa muros, vidros e mentes, deixando-nos despreparados para a vida. O medo está presente no nosso cotidiano e estende seus braços por todos os setores de atividades em que nos encontremos. Os perigos do mundo são redimensionados e, por vezes, tornam-se desmesurados, atingidos pelo nosso olhar medroso constante. Jean Delumeau nos revela, em sua História do medo no Ocidente, que, nos primeiros tempos, os medos eram oriundos, fundamentalmente, da Natureza.

Em nossa época, o grande perigo está no próprio homem.

Dentro dessa perspectiva inquietante, por que dar atenção a narrativas que se centralizam no medo? Basta pensar na presença deste sentimento em nossa civilização e, inicialmente, no movimento de fascinação que crianças e jovens têm apresentado, ao longo dos últimos anos, em relação às obras que se fundamentam no susto e no pavor. Nas três últimas décadas, principalmente, multiplicaram-se livros e filmes que provocam sensações de horror e, mais do que isso, fazem do medo o seu tema básico. Disseminam-se pela indústria cultural e provocam sensações certeiras. Um arrepio, um recuo ao toque, uma sensação de náusea, repulsa e pronto: estamos face ao que não desejávamos e é impossível recuar.

O horror, é certo, nos causa ameaça. Em última instância, ameaça o nosso mundo, que já anda para lá de ameaçador. Não é de espantar que as cidades se envolvam em artefatos,amaneiradas cidadelas medievais,para que se afaste o medo, e, é claro, os bárbaros que possam causá-lo Assim, engenhocas são mentadas para que os civilizados se sintam mais seguros, envoltos em redes ou grades, em circuitos fechados. No entanto, por entre possibilidades de balas perdidas e um assalto a cada esquina, podemos nos dar ao luxo de ficarmos assustados com histórias de vampiros, lobisomens, monstros, fantasmas...

Preocupados que estamos (ou somos), nós, profissionais ligados à leitura, procuramos a cada dia novas formas e maneiras de apresentar e escolher textos. Foi assim que surgiu este trabalho - de constatações em sala de aula e perguntas e descobertas ligadas a caminhos de leitura.

Na verdade, une teoria e prática, ao tentar entender alguns dos mecanismos das narrativas embasadas no medo e apresentar alguns textos que levam o leitor a ficar com o coração acelerado, a respiração entrecortada, que lhe causam calafrios e um tremer de pernas.

São muitas as reações físicas a situações de medo que aparecem no cotidiano e se espraiam. Por vezes, transformam-se em narrativas, vindo a se constituir em um circuito de textos que vai sendo acionado oralmente e reafirma as reações de susto. No entanto, o estímulo que deflagra o medo pode ser uma narrativa escrita, capaz de manter o leitor em estado de alerta e lançar adrenalina em seu corpo, abalando suas crenças, pensamentos, representações. Em suma, abalando as relações entre razão e o que não é racional.


Sob o domínio do medo

Que condições provocam essa paixão, o medo? E quais seriam os principais elementos das narrativas de terror? Comecemos por ir no rastro de Howard Phillips Lovecraft. Nascido em 1870 e falecido em 1937, escritor e ensaísta, em seu longo ensaio O horror sobrenatural na literatura (Francisco Alves, 1987), formulou uma estética da história do horror sobrenatural.

O ensaio surgiu encomendado por um amigo, que pretendia publicá-lo em uma revista especializada (1924), e reveste-se de especial importância por apresentar um estudo de um escritor que é também ficcionista - entre as obras de Lovecraft situa-se A tumba, considerada uma obra-prima da literatura de terror.

O discurso de O horror sobrenatural na literatura se constrói ao arrolar obras e mais obras, como se fosse um catálogo, só que fortemente amarrado, numa unidade orgânica. O autor reconta os livros que leu, unindo-os na sua busca principal, que é a da psicologia do medo.
A idéia perseguida ao longo do ensaio é que a emoção mais forte e mais antiga do mundo é o medo, e, dentro dessa emoção, a mais forte seria a do medo do desconhecido. Lovecraft procura mostrar que a atração pelo espectral e pelo macabro exige do leitor uma certa dose de imaginação e capacidade de desligamento da vida cotidiana.
E aponta que relativamente poucos são os que se deixam levar por uma sedução pelo desconhecido.

Nas narrativas de horror, para Lovecraft, o mais importante seria o clima, a atmosfera. Assim, o único teste da literatura verdadeira de horror é saber se suscita no leitor um sentimento de profunda apreensão, uma atitude sutil de escuta ofegante. E esse sentimento se perpetua.
Os textos de terror são muito, muito antigos. O horror cósmico aparece em narrativas do mais remoto folclore; as cerimônias de conjuração de demônios são comuns em rituais antigos; tipos e personagens sombrios de mitos e lendas passaram por séculos, via tradição oral, e tornaram-se parte da herança permanente da humanidade. Por exemplo, a sombra que aparece e reclama o sepultamento de seus ossos, o demônio enamorado que vem raptar a amada, ainda viva, o homem lobo, o mágico imortal, foram narrados em antigas civilizações, passaram e se fortificaram na Idade Média, para continuarem em nosso tempo.


O horror narrado

São muitas as narrativas que causam medo. Contudo, algumas podem ser entrevistas como matrizes, visto que inauguram uma certa linhagem. Provocam influência e continuam, até hoje, vivas, seja pela leitura, seja pelo recontar, seja por sua inserção em outras formas de discursos. Todas surgiram no século XIX: Frankenstein ou O moderno Prometeu (1816) , de Mary Shelley; O médico e o monstro- o estranho caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (1885), de Robert Louis Stevenson, e Drácula (1897) de Bram Stocker. Vale a pena recordar que as obras ensejaram mais de cem filmes e, tanto nos desenhos televisivos como nas histórias em quadrinhos, vemos marcas de seu poder. Também nos RPG e jogos de computador podemos encontrá-las.
E não é à toa que comparecem enfeixadas em um único livro publicado pela Ediouro (2002), traduzidas com cuidado por Adriana Lisboa.

Frankenstein apresenta a possibilidade de o ser humano criar vida - em suma, de se acreditar Deus. Fruto da Ciência, a criatura formada pelo Dr. Victor Frankenstein desafia a moral, deixando entrever o questionamento dos limites entre o errado, numa espécie de ética de expansão. A narrativa trata de responsabilidades, entre criadores e criadores, e nada poderia ser mais atual em um época como a nossa,em que a criação de humanos,através da clonagem, tornou-se uma realidade. Drácula aciona a idéia de finitude da humanidade, justamente por apresentar a imortalidade como eixo. O desdobramento obtido a partir do sangue remete ao aspecto sexual, mas o erotismo é velado.
Em O médico e o monstro, o tema da duplicidade comparece e faz com que um médico- perfeito espécime social -acabe por perder seu senso de naturalidade e transforme-se, por meio de uma poção, em um monstro, capaz de crimes brutais. Bem e mal aqui travam uma luta dentro de uma única criatura.
Nos protagonistas das três obras, concentra-se, à maneira romântica, o desejo de descobrir a essência do humano, nelas concretizada a partir de imagens e metáforas. Na verdade, podemos até não querer entrar em contato com essas personagens, mas elas persistem em nossa cultura justamente por mostrarem o desconhecido que nos habita.

Sustos e revelações são artifícios dessas obras, e encontram-se também presentes em lendas do folclore brasileiro, em Não olhe atrás da porta, de Lia Neiva, em Pente de Vênus, de Heloísa Seixas, nas lendas urbanas que circulam na Internet e percorrem as cidades, e em muitos outros textos. Tais narrativas exibem-se, muitas vezes, como rituais e distorções de nossos maiores medos, trabalhados, metaforicamente ou não, no tecido textual.


Entre sapos

A oralidade sempre perseguiu os efeitos de suspense, ao tentar manter a atenção dos ouvintes e suspender o fluxo contínuo do narrar pela quebra de expectativa ou aniquilamento de sensações. Pode, também, utilizar recursos de comicidade para destruir a atmosfera pesada do narrado.

Assim acontece em “O sapo com medo d’água”, narrativa coletada por Câmara Cascudo. Nela, o medo do sapo liga-se à sua esperteza, e, a estratégia do protagonista consiste em acionar o contrário, pelo discurso, da expectativa de seus oponentes. Assim, a cada ameaça, sucede-se a sua desconstrução, (“- Vamos jogar o sapo nos espinhos! -Espinhos não furam o meu couro - dizia o sapo. - Vamos queimar o sapo.- Eu no fogo estou em casa!”: CASCUDO, p. 212), até que se chega ao clímax, onde a água - em que o sapo sente-se à vontade, aparece como elemento ameaçador (“-Me bote no fogo! Me bote no fogo! N’água eu me afogo!” (CASCUDO , p. 213) . Quebra de expectativa, esperteza,um discurso às avessas são elementos que contribuem para a apresentação do ter medo/não ter medo.

São várias as narrativas que se organizam a partir da exibição de situações de medo, que depois são mexidas para que se desconstrua a imagem de temor.

De morte

Afinal, qual o grande medo humano? Da morte, é claro. E, dentre as narrativas que a tematizam, uma é especial.
O escritor Ricardo Azevedo,em sua obra Meu livro de folclore, apresenta o conto “Gaspar, eu caio”, em que o sobrenatural é explorado e denuncia a capacidade de fabular e fantasiar. Os ossos que vão caindo e formando um esqueleto, que irá lutar com o vitorioso viajante, lembram ao leitor a finitude do seu corpo. Aliás, todos os medos se concentram no medo da morte, cultuada e tema recorrente em histórias folclóricas.
Na verdade, o que se deseja é enganá-la, como acontece nos Contos de enganar a morte, também de Ricardo Azevedo. Neles, através da audácia, da perspicácia ou da esperteza, a morte não consegue seu intento. Através das narrativas, a carga simbólica negativa que a morte recebe na tradição ocidental é amenizada por desvio de intenções.

A morte encontra-se também recuperada por Ângela Lago. Como exemplo, a obra De morte!, reescritura do conto folclórico, salpicada de ilustrações de Dürer com interferências. Aqui a Morte também é enganada durante algum tempo, com humor e esperteza. E a escritora prossegue em Sete histórias para sacudir o esqueleto, o que pode correr por sensações de riso ou de pavor por parte do leitor. Afinal,o esqueleto pode ser sacudido pela comicidade ou pela montagem de um contexto que se avizinha e,ao mesmo tempo, distancia-se do conhecimento do leitor, o que cria uma possibilidade de nova percepção de leitura.


Portas e crenças

Tanto em Não olhe atrás da porta como em Histórias de não se crer, a escritora Lia Neiva trabalha com o sólito, o universo corriqueiro, para que sirva de suporte aos elementos que apontam para o estranho. Habilmente mesclados pela autora, em processos de verossimilhança plasmados com eficácia, o usual e o estranho comportam um efeito sobre o leitor.

A via é a do simbólico, e do prosaico cotidiano, do espaço conhecido e ameno irrompe,de chofre,a impressão de estranheza, desequilibrando a ordem aparentemente cristalizada dos seres ficcionais.Tudo é familiar, e, ao mesmo tempo, inquietante.

Dentro desse movimento de sentido, os efeitos inesperados, em alguns contos, levam à revelação e à angústia. A tensão, como efeito do discurso, é a pedra de toque das narrativas. O prazer estético tradicional, que se marca por um sentimento positivo, de belo ou sublime, aqui desvia-se, sugerindo um prazer diferente - o de decifrar,aliado ao empreendimento de penetrar no sentido humano.
No primeiro conto de Histórias de não se crer, ”Um gole de chá”, a ação nos é revelada por intermédio de um bule, em primeira pessoa; que começa por avizinhar-se do estranhamento. “Há muita coisa nesta vida que vai além da nossa compreensão: bruxarias, por exemplo.” (p. 12). Insólito, fantástico, a inquietante estranheza que foi um conceito largamente estudado por Freud - que mostrou que ,em alemão, o estranho, o sinistro se opõe ao que é íntimo, do lar. Da insinuação de que algo está errado advém o grande medo -do desconhecido.


Do mínimo ao máximo; de Heloísa em Heloísa

A literatura de terror, bem como a policial, não encontra grande desenvolvimento no Brasil. Embora tenhamos um imaginário pleno de mitos e lendas calcadas em situações assustadoras, quando se trata de literatura, principalmente a destinada a adultos, são poucos os empreendimentos no gênero.

Torna-se, portanto, de suma importância a presença de duas escritoras no panorama literário atual: Heloísa Prieto e Heloísa Seixas. A primeira, seja através da organização de antologias, seja através da coleta de mitos e lendas, ou de escrita singular, envereda pelos caminhos do sobrenatural e discute a humanidade a partir do que sai dela.

Sua última obra, Rotas fantásticas (FTD, 2003), reúne dez relatos, meticulosamente construídos, tomando por base lendas urbanas que circulam no país. A apresentação gráfica as recobre de mistério e possibilita um reorganizar de sentido pelos leitores, visto que os textos se apresentam como componentes de um fichário, à maneira policial, que deve ser preenchido com indagações. Figuras que povoam o cotidiano dos brasileiros irrompem nos textos. E, nestes novos tempos, a internet dissemina as narrativas, como a ”Loira do banheiro” e paga-lhes o tributo de autenticidade.

A outra Heloísa, a Seixas, recuperou textos de esquecidos escritores de terror e trouxe-os a leitores atuais, entre eles os de Ambrose Bierce e Algernon Blackwood. Paralelamente, cria os seus textos, publicados em livro (Pente de Vênus) ou nas páginas da revista domingo, do Jornal do Brasil. Os textos no espaço do jornal, que se condensam em mínimas palavras, permitem a inserção do inexplicado. O leitor, ao se defrontar com eles, tem outras possibilidades de espreitar o mundo. E em Pente de Vênus, reconhece-se Ann Radcliffe e Edgar Allan Poe. Fundamentalmente, seus contos são recheados de fantasmas, que muitas vezes não são exteriores, mas espectro do próprio viver na dimensão feminina.


Curiosidade e esquiva

O verdadeiro autor de histórias de terror, qualquer que seja a sua dimensão, explora os limites do que as pessoas são capazes de fazer e as fronteiras do que são capazes de experienciar. Assim ele se aventura nos domínios do caos psicológico, desertos emocionais, traumas psíquicos, abismos abertos pela imaginação, histeria e loucura, todos os elementos que ficariam na divisa do bárbaro. As narrativas de terror muitas vezes apresentam imagens e figuras de caos e sofrimento, como se tematizassem várias espécies de “inferno”, tomando a palavra como exemplo de uma condição humana extrema.

Trabalhemos um pouco com as palavras “horror” e “terror”. O horror deriva do latim horrere: fazer o cabelo se arrepiar. Ou seja, horripilar: horrorizar, eriçar os cabelos, arrepiar. Vem do latim eclesiástico horripilare. O que causa o eriçamento dos cabelos.Já terror viria do latim terrorem, do tema de terrere, espaventar, causar grande medo.

Assim, numa abordagem etimológica superficial, poderíamos aventar a hipótese de que o horror é uma reação física, enquanto o terror seria uma reação provocada pelo sobrenatural, pelo desconhecido, a ameaça desconhecida.. De qualquer forma, as narrativas de horror de terror ( ou horror) parecem surgir com a tentativa de encontrar adequados símbolos e descrições para forças, medos e energias primitivas relacionadas à morte, à vida após a morte, punição, mal, violência e destruição.

Convenhamos que, na época em que vivemos, tornou-se difícil encontrar quem não tenha participado de uma experiência de horror. E, caso tenha a sorte de não a ter vivenciado, pelo menos com ela defrontou-se na mídia, haja vista a profusão de imagens violentas que inundam nosso cotidiano via meios de comunicação. Assim ,enquanto sentamos num sofá, cadeira ou poltrona para ver televisão, confortavelmente recostados, entram em nosso lar imagens de guerras, terremotos, assassinatos, em meio a anúncios de máquinas de lavar, iogurtes e carros. Também ao abrirmos os jornais encontramos o mesmo panorama.

Basta lembrar acidentes de carros, em que motoristas quase batem ao tentar olhar o que aconteceu. Podemos ler neste gesto curiosidade ou até mesmo solidariedade humana, mas sabemos que não é bem isto que os move. E nem adianta afirmar que esse é uma reação que visualiza a realidade como ficção. Qualquer que seja o ângulo de abordagem, continua a ser fundamental a idéia de procura pelo desconhecido, e busca pela sensação de susto e repulsa.
E, ainda além, constata-se que as pessoas se sentem fascinadas pelo que lhes causa repulsa.

Olhar o acidente e, ao mesmo tempo, desviar o olhar. Ou, como as crianças, espalmar a mão aberta sobre o rosto e ver entre os dedos, negando e procurando a visão.

Stephen King nos revela, em seu prefácio ao volume Sombras na noite, que o leitor de terror é justamente aquele que não consegue desviar o olhar do acidente. E, ainda, observa que existem narrativas que mostram o próprio acidente, em detalhes (o que pode ser percebido, por certos críticos, como mau gosto) e outras que apenas exibem as ferragens retorcidas, deixando ao leitor a tarefa de imaginar o que aconteceu.

Entre as trevas e o demoníaco, entre rastros e sombras, pulsa o desejo do conhecimento, de desvendar o mistério, de subjugar o mundo, de entender a existência.

E multiplicam-se leitores que as desejam.



MEDO E TERROR NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA
Rosa Gens (UFRJ)

BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, Ricardo. Contos de enganar a morte. São Paulo: Ática, 2003.
Meu livro de folclore. São Paulo: Ática, 1999.
CASCUDO, Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
KING, Stephen. Sombras da noite. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
LAGO, Ângela.De morte! Belo Horizonte: RHJ, 1992.
Sete histórias para sacudir o esqueleto. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002.
LOVECRAFT, Howard P. O horror sobrenatural na literatura. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
NEIVA, Lia. Histórias de não se crer. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1987.
Não olhe atrás da porta. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989.
PRIETO, Heloísa. Rotas Fantásticas. São Paulo: FTD, 2003.
SEIXAS, Heloisa. Contos mínimos .Rio de Janeiro: Record, 2001.
Pente de Vênus. Porto Alegre: Sulina,1995.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Escrevendo Ficção Científica - Vários autores


On the Writing of Speculative Fiction - ROBERT A. HEINLEIN

(...There are at least two principal ways to write speculative fiction--write about people, or write about gadgets. There are other ways; consider Stapledon's Last and First Men, recall S. Fowler Wright's The World Below. But the gadget story and the human-interest story comprise most of the field. Most science fiction stories are a mixture of the two types, but we will speak as if they were distinct--at which point I will chuck the gadget story aside, dust off my hands, and confine myself to the human-interest story, that being the sort of story I myself write. I have nothing against the gadget story--I read it and enjoy it--it's just not my pidgin. I am told that this is a how-to-do-it symposium; I'll stick to what I know how to do...)


Dialog - ISAAC ASIMOV

(Most stories deal with people, and one of the surefire activities of people is that of talking and of making conversation. It follows that in most stories there is dialog. Sometimes stories are largely dialog; my own stories almost always are. For that reason, when I think of the art of writing (which isn't often, I must admit) I tend to think of dialog.
In the Romantic period of literature in the first part of the nineteenth century, the style of dialog tended to be elaborate and adorned. Authors used their full vocabulary and had their characters speak ornately.
I remember when I was very young and first read Charles Dickens's Nicholas Nickleby. How I loved the conversation. The funny passages were very funny to me, though I had trouble with John Browdie's thick Yorkshire accent (something his beloved Matilda, brought up under similar conditions, lacked, for some reason). What I loved even more, though, was the ornamentation-the way everyone "spoke like a book."...)


You and Your Characters - JAMES PATRICK KELLY

(Once I admitted to myself that I had the raging hunger to write, I gobbled up every book on the subject I could find. I still have most of them; I've just gathered fourteen and stacked them beside my computer monitor for inspiration. Each has a chapter on characterization. If you're looking for technical jargon, have I got some used books for you!
It seems that there are all kinds of characters: developing characters, static characters, round characters, fiat characters, cardboard characters (oh, are there cardboard characters!), viewpoint characters, sympathetic characters, unsympathetic characters, stock characters, confidantes, foils, spear carriers, narrators, protagonists, antagonists. But that's not all; characters can play many roles. There are fiat, sympathetic, static confidantes, like the unnamed first-person narrator in H. G. Wells's "The Time Machine." Or developing, fiat, unsympathetic antagonists, like HAL in 2001, A Space Odyssey. Still with me?...)


Seeing Your Way to Better Stories - STANLEY SCHMIDT

(The first time I met Kelly Freas, the renowned science fiction artist, he had lust published a series of posters to promote interest in and support for the space program. The entire series was displayed on walls throughout the house, and Kelly was asking all the guests at a party which posters they thought most effective. He found a fascinating pattern in the results. "Verbally oriented" people always picked the one showing a moon rocket, three ghostly sailing ships, and the phrase, "Suppose Isabella had said no..." "Visually oriented" people always picked the one with no words, just a picture of a rocket "hatching" from an Earthlike egg.

Writers, by the nature of their work, tend to be "verbally oriented." But they would do well to realize that many of their readers are less so. Most readers do not pick up a novel or short story to admire the author's cleverness in turning a phrase, but to experience vicariously something they cannot experience directly. Your job as a writer is to make your reader forget that he or she is reading and give him or her the illusion of being in the story, seeing and hearing and smelling and feeling what's happening to your characters.
Hence the oft-repeated dictum: "Show, don't tell."...)


Turtles All the Way Down - JANE YOLEN

(The famous philosopher Will James had just finished giving a lecture on the solar system in Cambridge, Massachusetts, when he was approached by an elderly admirer. She was shaking her head and her umbrella and looking very stern.
"Mr. James," she admonished him, "I am shocked by your notion that we live on a ball rotating around the sun. That is patently absurd. "Politely, James waited, inclining his head toward her.
"We live on a crust of earth on the back of a giant turtle," the Grande dame announced.
James, ever gentle, asked, "If your.., um... theory is correct, Madame, what does this turtle stand upon?"
"The first turtle stands on the back of a second far larger turtle, of course," the old woman replied. James lifted his hand. "Ah, Madame, but what does this second turtle stand upon?"
The dowager’s eyes were bright. She laughed triumphantly, "It’s no use, Mr. James--it’s turtles all the way down!"
And so it is with writing fantasy--)


Learning to Write Comedy or Why It's Impossible and How to Do It - CONNIE WILLIS

(Writing comedy is a real pain, made more painful by two persistent myths. The first is that writing comedy is a hoot, something people do for fun when they've written too much serious stuff, and that the main problem is to stop laughing so hard you can't type. While reading comedy may be an amusing experience, writing it is the same pain in the neck as any other kind of writing, only more so. It's a lot like ballet--on stage it's all pink tulle and graceful lifts, but in practice it's mostly sweat, corns, and ripped ligaments. Ditto comedy, especially the corn part.

The second myth (which apparently everybody believes) is that comedy can't be analyzed, that looking at it too closely kills it. This ridiculous notion seems to have evolved from the deadly results of attempting to explain a joke, though it does not take into account the fact that the reason the joke had to be explained in the first place was that it wasn't funny.

Wherever these myths came from, they're just not true. The Marx Brothers, those supposedly spontaneous crazies, used to write the scripts for their movies and then take them on the road to try out the humor on an audience, revise and rework the routines, polish up the jokes, and look for dead spots. It didn't kill their comedy, did it?...)


Good Writing Is Not Enough - STANLEY SCHMIDT

(Only a month after it appeared in Analog in mid-December 1985, S. C. Sykes's short story "Rockabye Baby" was well on its way to nomination for a Nebula, one of the two most prestigious awards in science fiction. It also had been picked up for a "Best of the Year" anthology, and was doing quite nicely in Ahalog's own annual reader poll. Another story attracting much favorable comment in that poll (it was our readers' favorite short story of the forty-two we published last year) and elsewhere was Stephen L. Burns's "A Touch Beyond" (January 1985). "A Touch Beyond'' was a first sale; "Rockabye Baby," a second. Editors do buy, and successfully publish, stories from new writers.
Yet, a magazine like Analog receives so many submissions that it has room for only one or two percent of them. Many stories are rejected not because of anything conspicuously wrong with them, but simply because nothing sufficiently special about them makes them stand out from ninety-eight percent of the competition.
What makes stories like "Rockabye Baby" and "A Touch Beyond'' stand out? How can you make your stories do the same? The key words are imagination, discipline--and the first word in "science fiction.")


The Creation of Imaginary Worlds - POUL ANDERSON.

(This is an infinitely marvelous and beautiful universe which we are privileged to inhabit. Look inward to the molecules of life and the heart of the atom, or outward to moon, sun, planets, stars, the Orion Nebula where new suns and worlds are coming into being even as you watch, the Andromeda Nebula which is actually a whole sister galaxy: it is all the same cosmos, and every part of it is part of us. The elements of our flesh, blood, bones, and breath were forged out of hydrogen in stars long vanished. The gold in a wedding ring, the uranium burning behind many a triumphantly ordinary flick of an electric light switch, came out of those gigantic upheavals we call supernovas. It is thought that inertia itself, that most fundamental property of matter, would be meaningless--nonexistent--were there no stellar background to define space, time, and motion. Man is not an accident of chaos; nor is he the sum and only significance of creation. We belong here...)

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