
Os romances de Ficção Científica(FC) são provavelmente a segunda maior causa de urticária em intelectuais e acadêmicos, só perdendo, por muito pouco, para os livros de auto-ajuda.
À simples menção do termo ou da sigla “FC” seguem-se, invariavelmente, discretos acenos de cabeça, resmungos e uma sensação de desconforto. Dores de barriga, crises de enxaqueca e “calores”, seguidos das necessárias seções de descontaminação por exposição aos programas eleitorais gratuitos, são recomendadas para todos aqueles que se sintam ofendidos com a perspectiva de... sonhar livremente.
Olhar só para trás é reducionista e perigoso. De onde será que vem a idéia de que um romance só é confiável, bom e recomendável se for situado no presente ou no passado? Por que o passado é mais confiável? Por que o presente é mais criticável? Por que o futuro é inaceitável?
Medo. O ser humano tem um receio atávico do que não conhece, do que não domina e do que não consegue prever. Se um evento está, fisicamente, “virando a esquina”, isto já constitui um problema. E se, então, está longe o suficiente para ser classificado como algo que está relacionado ao “amanhã”, então é melhor chamar o médico da família. E que ele traga os nossos sais!
Crescemos ouvindo o ditado: o futuro a Deus pertence. Concordo. Mas quem tenta descrever o que Deus planejou para a humanidade, são os autores de ficção científica. Estes artistas da possibilidade mostraram que muitas vezes seus exercícios intelectuais podem mudar de categoria: se transformam em probabilidades. Cinturões de satélites para comunicação, veículos espaciais reutilizáveis, cirurgias oculares à laser, estações orbitais, pousos em outros planetas, clonagem, vôos supersônicos, computadores pessoais, dispositivos portáteis de comunicação interpessoal... perdão, eu quis me referir aos nossos pequenos e eficientes telefones celulares.
Não importa se o nome dado a um objeto há 60 anos atrás por um escritor, não é o mesmo que o departamento de marketing de uma indústria atual resolveu adotar como o melhor. Existiu a necessidade de um determinado equipamento (lentes de contato, ar condicionado, agenda eletrônica ou descascador de batatas), esta necessidade foi detectada pela indústria e ela foi atendida. O interessante é que este tipo de necessidade foi previsto com antecedência e o respectivo equipamento foi descrito, muitas vezes com anos de antecedência, por autores de FC.
Não quero aqui fazer uma apologia aos poderes sobrenaturais de presciência deste gênero de escritor, só quero deixar claro que existe mérito, inclusive mérito social, neste tipo de obra. Pensar uma sociedade diferente, criar equipamentos para resolver problemas, imaginar para as pessoas o desenvolvimento de novas habilidades, ou novas dificuldades, tentar criar realidades paralelas, melhores, piores, intercaladas, intermitentes ou, meramente diferentes, é o tipo de exercício a que este tipo de autor se entrega. De corpo e alma. Existem grandes autores neste gênero e existem obras que já deveriam fazer parte daquelas relações de livros que todos nós fazemos e cujo título é: tenho que ler. A propósito, se você não tem uma lista assim, já está na hora de fazer.
Definições
Mas o que pode ser considerado ficção científica? Muitos acadêmicos e intelectuais vêm tentando definir este gênero literário, mas só produziram complicações que tendem, quase como uma regra, a ser pejorativas. Exemplo: “FC é a vulgarização e antecipação de grandes descobertas científicas ou então conjecturas sobre o relacionamento entre o homem e a tecnociência”.
Até agora, quem melhor conseguiu definir FC, são seus próprios autores. Com definições que variam do cômico ao ofensivo, passando pelo razoável e o consciente, encontramos coisas assim: uma charmosa união entre fatos científicos e visão profética (anônimo); gênero literário que induz à voluntária suspensão da realidade em seus leitores utilizando uma atmosfera de credibilidade científica para suas especulações (anônimo); história sobre seres humanos, com problemas humanos e soluções humanas em torno de especulações científicas (Theodore Sturgeon); o ramo da literatura que aborda o impacto dos avanços científicos na vida das pessoas (Isaac Asimov); FC administra possibilidades improváveis fantasiando impossibilidades plausíveis (Miriam deFord); FC é difícil de definir pois é um gênero literário que aborda a evolução e que evolui enquanto se tenta defini-la (Tom Shippey); e a mais simplista de todas, a minha: uma história de ficção científica é aquela que faz o leitor viajar, no tempo e no espaço, sem medo, sem perigo mas o tempo inteiro com um friozinho na barriga.
Mas se a FC é tão rica, tão gostosa, tão criativa e variada, por que é vista como a prima pobre, inculta, burra, infantil e rampeira da literatura de proposta? Os únicos culpados são os próprios autores. Para demonstrar uma sociedade diferente, uma tecnologia avançada, um tempo futuro, não é necessário ter um complexo equipamento na parede do banheiro do personagem principal que receba o sugestivo nome de “pente mecânico”. Ao longo da história da humanidade muitos artefatos tiveram suas formas determinadas pela sua função original e, dificilmente podem ser melhoradas. Desde os tempos das cavernas os homens usam seus dedos para desfazer os nós de seus cabelos e um pente é uma evolução perfeita. Não se mexe em time que está ganhando. Ou existe uma forma melhor de prender papéis do que um clipe? Quando autores assim perdem a noção do ridículo, fazem um desserviço ao gênero literário que produzem.
A ficção científica de qualidade está muito além da cor verde (ou cinza, como querem alguns) dos seres alienígenas, dos cativantes olhos azuis do ET de Steven Spielberg ou de canudinhos para tomar refrigerantes que esguicham a bebida na boca de uma mulher com pele de onça, três seios enormes, uma cauda preênsil e saltos altos. Escrever algo com um pé na realidade e outro na ciência é o verdadeiro desafio, é a diferença entre boa e a má ficção. É o pé na realidade que confere credibilidade ao texto. É a verossimilhança que arrebanha leitores e adeptos. Não existem super-velocidades, as leis da física e da química continuam vigentes, até prova em contrário a gravidade existe e não é a “cor” do Sol que vai permitir que qualquer um de nos vista um pijama azul, uma capa e botas vermelhas e saia por aí voando e combatendo o crime.
Mas o leitor desavisado não pode se deixar abater com expressões como “conselho de planetas” ou “a base da guarda espacial”. Às vezes expressões assim são necessárias para dar um contexto social e até mesmo político para a obra. “The Moon is a Harsh Mistress” de Robert Heinlein (não encontrei tradução em português) não pode nem deve ser lido simplesmente como a história de uma cidade na Lua. Existe aqui uma profunda análise dos problemas psicológicos, biológicos, políticos, sociais e tecnológicos que envolveriam uma empreitada assim. Este romance especificamente, é uma impressionante luta pela liberdade de decisão e expressão, uma revolta grupal contra a opressão, a dominação cultural e o poderio militar de outro grupo social. Dito assim fica parecendo muito mais sério não é? O que ocorre é que, como em qualquer outro gênero literário existem autores excelentes e aqueles que deveriam voltar aos seus empregos anteriores. E mesmo quando se analisa a obra completa de um autor, encontramos obras melhores e piores.
Se nos ativermos por exemplo à obra de três autores consagrados que andaram flertando com a ficção científica, o realismo fantástico e o horror, sendo eles Jorge Luiz Borges (O Aleph), José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira) ou Henry James (A Volta do Parafuso), percebe-se que eles, como qualquer outro autor, não foram brilhantes o tempo inteiro. E o mesmo acontece com todos os autores de qualquer outro gênero. A diferença é que os escritores de FC são sempre mais visados pois se expõe a riscos maiores.
Fantasia, horror e FC
Um erro comum é confundir ficção científica com dois outros gêneros próximos, o horror e a fantasia. O horror, como diz Freud em um de seus ensaios,é aquela “estranheza inquietante”. São conhecimentos biológicos ou antropológicos em torno dos padrões de “normalidade humana” e o que se afasta desta normalidade.
Apesar de existirem muitos autores excepcionais e romances consagrados como por exemplo “Frankenstein” (Mary Shelley), “Dracula” (Bram Stoker), "O Exorcista" (William Peter Blatty), “O Bebê de Rosemary” (Ira Levin), “O Iluminado” (Stephen King), provavelmente os dois autores de romances de horror que mantiveram uma consistência em termos de qualidade ao longo de toda sua obra, foram Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.
O gênero fantasia, provavelmente o ramo principal do qual a ficção científica e o horror derivaram, tornou-se mundialmente popular depois da publicação da obra suprema de J. R. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis” no final dos anos 60. Usualmente todos os romances que se referiam ou contenham animais falantes, mundos mágicos, “capa e espada”, feiticeiras, magos, unicórnios e outros seres mitológicos, estaremos transitando pelo mundo da fantasia que, também, é o mais amplo dos três gêneros pela sua variedade de temas. São mundos onde normalmente a ordem e as leis que mantêm esta ordem, não se aplicam ou são diferentes das que regem nosso próprio universo.
Mas independente de qualificações, e até como uma forma de afirmar sua rebeldia, inúmeros autores transitam de um gênero para outro, sem perder qualidade em sua obra. Cita-se como exemplo “O Homem Demolido”, de Alfred Bester, que é um policial ambientado no futuro, ou ainda “O Talismã” de Stephen King que é uma gigantesca história de fantasia.
Mas, como sempre, especialmente em um campo que envolve muita criatividade como a literatura, existem reações. E, sem se importar com urticárias, calores ou enxaquecas, a Universidade de Liverpool na Inglaterra, desde 1994, vem oferecendo um curso de Mestrado em Estudos de Ficção Científica, que abrange assuntos tão variados quanto utopias, FC e guerra fria, FC e sexo, bem como disciplinas dedicadas ao estudo de autores específicos, como Philip Dick, Isaac Asimov, Arthur Clarke e outros.
Já não era sem tempo. É necessário parar de encarar a FC como um gênero menor, descartável, especialmente se forem consideradas sua influência criativa em outras áreas como a televisão, o cinema e a própria ciência. Existe qualidade, profundidade e seriedade na FC. É preciso prender os cães de guarda lá na casinha no fundo do quintal, colocar a prataria e a melhor porcelana na mesa da sala se jantar e deixar a Ficção Científica (com letras maiúsculas) entrar na nossa casa e na nossa vida. Existe, sim, vida inteligente na FC. Basta saber onde procurar.
(Fábio Marchioro .2004)
Parágrafo - Manual de Sobrevivência do Novo Escritor
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Existe vida inteligente... na Ficção Científica?
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O Futuro da Ficção Científica - Norman Spinrad (1980)

Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.
Era uma idéia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.
Vivemos ainda hoje do grande boom da Ficção Científica dos anos 70. O número de títulos de FC publicados a cada ano está subindo. Além disso, algo como 25% de toda a ficção publicada na forma de livro nos Estados Unidos é hoje de Ficção Científica (FC).
Títulos de FC fazem parte das listas de best-sellers nacionais.
A revista Isaac Asimov Science Fiction Magazine, em sua breve existência, chegou ao topo da circulação de 100 mil exemplares; a OMNI, com uma existência menor ainda, alcançou um milhão.
A ficção científica tem sido a grande esperança de Hollywood. Charles Brown, da Locus, estima que algo em torno de 75% de todos os romances de FC publicados até hoje estão, ainda, disponíveis. O que acontecerá? Isso vai continuar ou o colapso da bolha, como aconteceu em 1950, nos trará de volta a Terra, quando cada palavra pagava 50 cents e os adiantamentos eram de dois mil dólares?
A comunidade FC nunca viveu sem suas Cassandras e muitos, nesta área, cresceram na dificuldade, com pouco dinheiro e até com um pouco de auto-satisfação de viver sendo grotescamente sub-pago e sabendo disto, olhavam por sobre seus ombros, esperando o machado cair mais uma vez.
O boom dos anos 70 foi principalmente um produto da moda, impulsionado por grandes filmes, como 'Guerra nas Estrelas' e 'Contatos Imediatos', acrescido do instinto de alguns editores de FC que se encontrava em guerra pelas licitações. Quando Hollywood agarrar-se ao próximo modismo e deixar de lado os romances de FC, o ar se tornará pesado para os que estavam nesta bolha, cabeças rolarão e todos nós voltaremos ao nosso belo e pequeno recanto literário.
Bem, talvez, mas eu não penso assim.
O fenômeno comercial do atual boom da FC tem suas raízes históricas, culturais e até espirituais mais profundas do que campanhas de filmes de milhões de dólares ou adiantamentos de cem mil dólares para novos livros.
Estamos vivendo um momento crítico na evolução de nossa espécie e a Ficção Científica encabeça a cultura popular como uma parte forte de nossa cultura e está além de nosso controle.
Qualquer que seja a moda, ela não pode efetivamente, ser duradoura ou preencher por muito tempo um vácuo psicológico. A moda efetivamente envolve manipulação, deslocamento do imaginário, estruturas míticas e forças históricas e psicológicas que prevalecem na consciência da massa, que é o seu alvo. Talvez se possa vender gelo para esquimós, mas não se pode esperar que todos comprem. Então, enquanto o aspecto comercial do boom da FC da década de 70 estiver super valorizado pela moda em torno de 'Guerra nas Estrelas', 'Contatos Imediatos', 'Super Homem', 'Jornada nas Estrelas', 'Galáctica' e companhia, esta moda não pode ser tão bem sucedida, sem que a chave não fossem forças poderosas já existentes na psique coletiva.
Consideremos o - muito medíocre para ser caridoso - aspecto artístico desses filmes comerciais, que encheram o balão da FC. Assumindo que o povo não é composto de tolos - vamos admitir (é uma questão passível de debate em certos círculos) - que os épicos hollywoodianos de FC não são um sucesso por serem obras de arte do cinema, mas por serem ficção científica.
A verdade é que esta moda criou um novo público para a FC. Verdade também que a maioria dos beneficiários deste modismo não possuía a mesma fama e relevância artística comparável ao trabalho produzido pelos membros da SFWA ou de escritores premiados por seus livros.
Mas isso seria para sempre?
Quando o povo desenvolver um novo apetite, não haverá em curto prazo, aqueles que produzirão o próximo fast-food na área de FC? Isso é eterno, é parte da natureza da interface comercial.
Nada de novo, então. O que é novo é que esta fome permitirá que produtos medíocres faturem milhões através dos franchises da fast-food literária. Será que a natureza deste apetite mudará o futuro da FC e este relacionamento será recíproco? O que todo modismo faz é expor uma grande e nova platéia a algo semelhante à FC, poderíamos dizer, como se um pequeno restaurante de tacos pudesse expor ao paladar de seus inocentes fregueses, algo como a verdadeira comida mexicana e então aprimorar o seu gosto.
A questão principal é por quê.
Obviamente, a Ficção Científica de repente começou a alimentar uma fome que não estava satisfeita por nenhuma outra 'cozinha ficcional'. A viagem até o pato de Pequim começa pelo rolinho primavera.
A coisa mais importante sobre tudo é que o modismo não ficará sendo somente, a venda de junk food para a mente, mas também irá expor muitas pessoas a uma Ficção Científica que jamais puderam experimentar antes.
Na realidade estaremos expondo a Ficção Científica para pessoas que nunca a leram, inclusive, mas que desenvolveram uma fome por experiências psicológicas a partir disto.
Por quê? O que desejamos encontrar ao alimentar, nesta conjuntura, a evolução da cultura popular? Vamos pensar em alguns fenômenos colaterais.
O boom da FC nos anos 70 foi precedido por uma proliferação de novos cultos religiosos.
É um fato comum que a nossa corrida atrás da ciência e da tecnologia tem diminuído a credibilidade das religiões tradicionais.
É fato também que a visão de um mundo científico deveria prover uma nova fonte de nutrição espiritual que tomasse o lugar daquela desacreditada.
É fato que o espírito humano tem a necessidade de experimentar o transcendental. Todas as vezes que a ciência e a tecnologia tomaram conta da nossa cultura, presenciamos o renascimento de um misticismo atávico e da procura pelo espiritual, e o nascimento desses novos tipos de cultos religiosos, ou mais precisamente, a totalidade deste novo tipo de fenômeno tomava o nicho psicológico deixado vago pela religião tradicional.
Organizações como a Cientologia, a ARICA, Silva Mind Control, etc, etc, são tentativas de unir a experiência mística do oriente com os métodos científicos do mundo moderno segundo a visão ocidental.
Tipicamente um guru ou mestre perfeito, como o pináculo de uma hierarquia bem estruturada, um método ou um caminho que será seguido pelos seus crentes e uma visão de uma Nova Jerusalém ao final do arco-íris. Porém, mais do que uma moral teológica ou um livro de receitas de como chegar ao paraíso, esses grupos oferecem aos seus seguidores uma ciência ou um método quase científico de transcender a consciência aqui e agora.
É claro que o budismo e o hinduísmo em sua pureza teórica fazem a mesma coisa, porém o que é novo nisto tudo é um tipo de culto religioso que atende à psique moderna, que se adaptou não ao culto de imagens de deuses e demônios, mas à metodologia e às armadilhas da pseudo-ciência.
Eles estão tentando reintroduzir experiências místicas transcendentais na cultura moderna através da ciência, não ao invés da ciência, mas transcender os parâmetros espirituais sob a ótica de um mundo científico, não o negando, mas se apropriando de sua metodologia com fins transcendentais.
Vinte anos atrás ou mais, os fãs da Ficção Científica já diziam que estavam tentando recapturar o 'sense of wonder'. Esta fome de experiências atrás de flashes de uma consciência transcendental e que não rivalize com o avanço da ciência e da tecnologia, sempre foi um ponto comum àquelas pessoas que liam FC. Aliás, a preocupação predominante da FC com viagens no espaço, outros mundos, alienígenas e criaturas superpoderosas sempre disse diretamente ao transcendentalismo científico.
O espaço, por si só, é uma experiência de um outro plano existencial; outros planetas são novos mundos desconhecidos, criaturas alienígenas são seres não humanos, sencientes como deuses e demônios e mutantes são homens que transcenderam os parâmetros de nossas atuais definições de humanidade, não através do mito, mas à verossimilhança plausível, possível cientificamente.
O que aconteceu nos anos 70 é que a história, o modismo e a perda da credibilidade lógica na perda das fontes tradicionais combinada com a experiência transcendental fornecida pela Ficção Científica (com a sua estética do 'sense of wonder'), agiu como um novo e moderno culto a preencher o vácuo psicológico de então.
A fome de parte desta platéia pelo que a Ficção Científica poderia fornecer era uma condição já preexistente. A moda meramente focalizou o público para isso.
E se você duvida, olhe para o tipo de Ficção Científica que construiu este grande boom, não somente em termos de mérito literário, mas em termos de conteúdo. 'Jornada nas Estrelas' se passava inteiramente no espaço, em outros mundos, e apresentava a figura mefistofélica e benevolente do Sr. Spock. A space opera 'Guerra nas Estrelas' tinha em seu centro a metafísica, a Força. Os adoráveis e benignos alienígenas de 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau' eram como deuses bondosos. As figuras messiânicas como Michael Valentine de 'O Estranho Numa Terra Estranha' e Paul Atreides de 'Duna'. Os super-heróis da Marvel. A fantasia metafísica de Tolkien.
Finalmente, emergindo ao mesmo tempo da grande bolha, nós tínhamos os fenômenos na FC do movimento L5 (Grupo não-governamental formado por cientistas para a criação de uma cidade no espaço) . O conceito, a construção de uma cidade auto-suficiente e permanente no espaço era algo totalmente novo, mas que nascera nos escritos de Gerard O Neill.
Nós todos sabemos que isso foi o tema comum da ficção científica por décadas.
E este é o ponto.
De fato, o movimento L5 não cresceu fora do fandom FC ou dos tradicionais leitores de Ficção Científica. Ele se desenvolveu colateralmente ao boom da FC, mas de forma independente em seu campo, aparentemente ignorante da maior parte do que concerne à Ficção Científica, porém com a força evolucionária que produziu o boom da FC.
Sem duvida, a visão de uma nova Jerusalém cientifica e tecnológica, no espaço, está no processo para gerar um movimento popular de massa. A NASA está se esforçando para isso também.
As primeiras raízes desta organização estão começando agora.
Finalmente este movimento acabará por invadir a FC, fazendo um circulo completo e que nos leva ao tema do ensaio, o Futuro da FC. Vai haver uma enxurrada de histórias usando a estação espacial da L5, talvez pela primeira vez na história, o gênero poderá se nutrir da vida real, a L5 vai finalmente unir escritores e leitores como aliados,
E o que tudo isso significa para o futuro da FC?
Significa que a FC está chegando ao centro da consciência popular ou melhor, o povo está indo para onde a FC sempre esteve, e por razões que transcendem o sucesso de alguns filmes, e é por isso que eu acho que a bolha não vai estourar desta vez.
É claro que não vai ser um caminho fácil , haverá escorregadelas e tropeços, a FC ainda alimentará novos e antigos escritores por mais duas décadas, que irão colaborar para tornar ainda mais rico este gênero, um amplo e mais preparado publico está por vir, talvez possamos dizer que a FC possa se tornar o principal gênero na America do Norte dominando a ficção.
Hoje a FC já é um grande negócio, tem importância em nossa cultura e junto à ciência, estaremos juntos com os grandes literatos, com certeza, em breve.
Somos os candidatos a gurus do que ainda está por ser feito e isto também é perigoso.
Assim como os combustíveis fosseis irão um dia acabar, as pessoas terão que perceber que o futuro será diferente dos dias atuais, nossas visões, nossa ficção, será parte de nossos desejos, estará nos programas de televisão, nos esforços para a colonização do espaço, não mais como apenas ficção, mas como prática e realidade.
Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.
Era uma ideia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.
terça-feira, 14 de abril de 2009
A Maga

Trinta anos antes de Harry Potter, Ursula K. LeGuin escrevia romances sobre uma escola para magos. Assim como seus romances tratavam do bem e do mal, também falavam sobre raça e gênero.
Ursula K.Le Guin encontra inspiração para criar seus mundos fantásticos, tanto na literatura quanto na paisagem. Sua casa nas colinas a oeste de Portland, acima do rio Willamette, tem uma vista espetacular para o Monte Helena, que entrou em erupção vinte e cinco anos atrás, mas agora repousa tranquilo. Neste paraíso privilegiado, sua casa por quase meio século, Le Guin escreveu os livros que a fizeram ganhar reconhecimento como 'Grand Master', tanto da Ficção Científica quanto da Fantasia.
Trinta anos antes de Harry Potter, em 'A Wizard of Earthsea' (1968), ela mandou Ged, também conhecido como Sparrowhawk, para uma escola de magos, em um arquipélago pre-industrial, repleto de dragões e feiticeiros, governado pela magia e pela morte. Le Guin também escreve ficção 'realística', poesia, ensaios e livros para crianças.
'Não tenho paciência com esta ideia de rotular o gênero como um sinônimo de falta de qualidade. Talvez se tivéssemos uma crítica menos ignorante, poderíamos fazer algo mais interessante'.
Ela credita a JK Rowlings ter dado à fantasia 'um grande empurrão' com certo remorso.
'Não penso que ela me plagiou, como alguns dizem, porém ela poderia ter sido mais gentil com seus predecessores. Minha incredulidade se limita aos criticos que acharam o primeiro livro dela maravilhosamente original.
Ela tem muitas virtudes, mas originalidade não é uma delas. Isto me revolta.'
Para Margareth Atwood, Le Guin representa a quintessência do escritor americano, de uma inquestionável qualidade literária, 'para aqueles que se perguntam para onde estamos indo'.
Seus mundos, diz Le Guin, não são inventados, mas sim descobertos.
'Eu paro para observar algo, uma pessoa numa paisagem, e tenho que descobrir o que é aquilo'.
Mas mesmo viajando por mundos internos ou externos, seus olhos permanecem no aqui e agora. Aos 76 anos, Le Guin fala sobre sua filiação aos movimentos pela paz e pelas mulheres ('Tenho o prazer perverso de chamar a mim mesma de feminista') e sobre o Taoismo ('profundo e subversivo').
Seus últimos romances, como 'Gifts', agora pela Editora Orion, começa uma nova série para 'jovens adultos', 'The annals of Western Shore'. O segundo, 'Voices', será publicado em Março.
'Escrever fantasia não é escrever para crianças, mas apaga as distinções, é inerentemente um gênero crossover.
Muito do escrever fantasia, é sobre o poder, veja Tolkien, por exemplo. Significa observar o que o poder faz com a pessoa que o tem e aos outros. Acredito, como Shelley, que "o grande instrumento da boa moral é a imaginação", se você não é capaz ou não imagina o resultado suas ações, não há como você agir moralmente ou com responsabilidade.'
'Crianças pequenas não conseguem fazê-lo, bebês são moralmente monstros - completamente ávidos. Sua imaginação tem que ser treinada para a observação e a empatia.'
Não é uma tarefa fácil, como uma vez ela escreveu:
'Claro, é simples, escrever para crianças é tão simples quanto tê-las.'
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Entrevista com Michael Swanwick

Ismo Santala: Você disse que quando decidiu ser um escritor, suas ambições literárias estavam entre ser um segundo JRR Tolkien ou James Joyce Júnior. Quando esta bifurcação teve lugar e como resolveu este dilema?
Michael Swanwick: Ah, isso foi nos tempos de colégio e da universidade, eu passava meu tempo escrevendo péssimas histórias de fantasia e coisas ainda piores. Tolkien e Joyce pareciam cada qual no topo de suas montanhas e era lá que eu queria estar, no topo. Minha lealdade a um ou outro mudava de tempos em tempos, dependendo do que minha caneta quisesse.
Para resumir... eu poderia ser um adulador e dizer que decidi por ser o próximo Vladimir Nabokov, pois todos meus primeiros heróis da literatura tendiam a ser grandiosos - mas a verdade foi que eu parei de tentar pular carniças nestes dez anos de crescimento literário e comecei a escrever narrativas simples que eu pudesse aprender com elas. Isso se deu aproximadamente no inicio dos 70 quando vim para Filadélfia e encontrei Gardner Dozois e Jack Dann e outros autores de FC e pude ver como autores de verdade trabalhavam. Escrever parece muito com arquitetura, pois existe muito deste trabalho pouco romântico, pouco glamoroso e que tem que ser feito antes de se obter grandes efeitos. Levantar uma parede requer trabalho braçal, o personagem precisa de uma motivação muito forte. Meus primeiros onze anos como escritor, eu escrevia constantemente e ainda assim não conseguia terminar as histórias. Quando aprendi o básico da coisa, eu consegui.
E é claro que a primeira boa história que você escreve é como vento nas velas, ela te leva à frente e dá seu curso. Você passa a querer escrever melhor.
Você vislumbra o horizonte.
Um inesperado benefício do meu começo foi que quando publiquei pela primeira vez, sabia mais sobre ficção do que a maioria dos autores iniciantes, então as minhas duas primeiras histórias a serem publicadas ('Gunungagap' e 'The feast of Saint Janis') apareceram relacionadas para concorrer ao Nébula. Isso chamou a atenção para mim. Mas não aconselho aqueles que querem se tornar escritores que se espelhem no meu início de carreira. É terrível chegar perto dos trinta anos sem ter escrito nada ainda e sem conhecer sobre sua habilidade para seguir esta carreira.
Quais são seus escritores prediletos? Novos, antigos, conhecidos ou emergentes?
Puxa! Poderíamos ficar uma semana falando deles. Estabelecidos eu diria: Gabriel García Márquez, Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Djuna Barnes, A. S. Byatt, Jorge Luis Borges, Joanna Russ, John Barth em seu inicio (particularmente The Sot-Weed Factor e Chimera), Julio Cortázar, Italo Calvino, John Fowles, Samuel R. Delany, Donald Barthelme, Muriel Spark, William S. Burroughs, e inevitavelmente Thomas Pynchon.
Esses são apenas aqueles que me vem mais rapidamente à cabeça. Mas existem estes escritores como Kafka e Salinger e Twain que me são tão familiares e que acabo por esquecer de citá-los.
Novos e emergentes: Greer Gilman, autor de um livro e dois contos de fantasia. China Mieville, que tem recebido muita atenção hoje em dia, e merece. Ellen Kushner e Delia Sherman autoras de The Fall of the Kings. Andy Duncan, chamado de Howard Waldrop da sua geração. Sherman Alexie ainda é novo? Ele é sensacional ainda assim.
Charlie Stross e seu livro Accelerando que me inspira com cada linha dele. Ian R. MacLeod. Geoff Ryman. Paul Park. Gwynneth Jones. Ken MacLeod. Michael Chabon, é claro. Kelly Link. Ted Chiang que consegue ser original e novo a cada história. Mas é claro, estou falando apenas de lembrança, o que vem à cabeça.
Estive em Helsinque recentemente onde fui entrevistado por um fanzine finlandês e meu entrevistador me perguntou se eu não pensava que este era uma época extraordinária para o gênero, comparável a New Wave, porêm maior, pois há tantos escritores fazendo trabalhos fantásticos, tanto na FC quanto na fantasia. E eu pensei: Sim! Com certeza! Foi um tipo de choque, um deja vu. Tive que viajar até a Finlândia para que alguém me apontasse o óbvio, mas a verdade. Existe um enorme número de ainda-não-conhecidos autores surgindo para a literatura, o que é totalmente sem precedentes, neste exato momento. Se eu me atrevesse a fazer uma lista dos melhores escritores atualmente escrevendo, você ficaria de saco cheio antes mesmo de eu terminar.
Deixei de fora todos da minha geração, contudo suas obras estão particularmente próximas do meu coração, porque sou amigo da maioria deles. Mas é uma competição. São os caras com quem eu tento conviver.
Um dos apelos da FC é que o gênero oferece um universo de conceitos que o escritor pode acentuar ou perverter, de acordo com seus desejos. Seria certo dizer que você estaria interessado também no lugar comum literário dos clichês pela mesma razão?
Como qualquer outra coisa, a caixa de ferramentas da FC prestasse como um bom criado para um pobre mestre. Minha série de histórias curtíssimas, The Periodic Table of Science Fiction, invoca fortemente aquele material preexistente na FC, algumas vezes tratado seriamente, outras vezes como brincadeira. Mas tem um lado ruim também. Muitos escritores procuram trabalhar na mudança de algumas alegorias existentes, como um mágico de palco irá superficialmente modernizar um dos números do Houdini, enquanto mantém a mecânica intacta.
Você encontra naves espaciais baseadas em navios da marinha mercante da Segunda Guerra Mundial e que fazem prospecção de minérios em asteróides igual à corrida pelo urânio dos anos 50, é uma ficção que nenhuma pessoa sã pode acreditar que algum dia poderá acontecer. Em casos extremos você encontra astronautas com armas laser, estes autores não percebem que eles há muito não escrevem Ficção Científica mas meramente ficção inexata dos dias atuais.
O verdadeiro desafio, o jogo de verdade, é desenvolver idéias originalmente genuínas. O escritor que inventou a máquina do tempo ou a nave das gerações, ou o ciberespaço, pensavam grande. Aquele que for fazer uma versão engraçadinha de uma destas coisas irá ser publicado e esquecido. São as regras do jogo. Se não pode aparecer com algo novo, se tudo que você tem é a força da sua prosa, então você deveria tentar escrever outra coisa qualquer.
Escrever coisas mais simples não basta. Você tem que trazer algo de novo, uma razão para alguém querer ler seu trabalho ao invés de usar este mesmo tempo para reler Proust.
Como você descreve a diferença entre seus contos e seus romances? Por exemplo, alguma idéia destes contos acaba se tornando um romance ou você sabe até onde a idéia pode ir?
Uma história curta é um objeto mental que pode ficar na mente por completo. Um romance é grande demais para isso. Parece mais como uma viagem. Você pode saber do inicio e do fim e ter o sentimento, mas os incidentes surgem separadamente. Um conto é como uma alucinação viva, mas um romance é imenso, algo que você pode se mudar para dentro e viver por uma temporada.
Quando tenho uma idéia, não sei se ela irá crescer o bastante para se tornar uma ficção, muito menos de que tipo. Mas vou brincar com ela e pensar sobre ela e fazer algumas anotações e eventualmente, se não for robusta o bastante, vai ficar claro para mim. Com a ocasional exceção da loucura, eu não começo nada até que eu tenha a linha inicial escrita e uma visão clara de como irá se desenvolver até o seu fim. O ultimo parágrafo essencialmente, o momento emocional onde tudo que foi escrito até então contribuiu para que ele existisse. Quando tenho isso, posso começar escrever e conduzir o enredo (não tenho idéia de onde vai parar, somente o que está estabelecido para que a história faça sentido) tão simples e certo em direção ao fim. Quando o leitor chega lá, saberá que é inevitável por que o trabalho todo foi dedicado a justificá-lo. Mas também pode ser surpreendente, por que sabendo do que se aproxima, posso acrescentar algumas distrações e desorientações, que manterá o leitor longe do que está por vir.
Nunca tive um conto que chegou a se tornar um romance. Seria violar o formato e o sentimento da idéia, como um oleiro sentar-se para fazer um pote e terminar com um camelo de cerâmica. Mas certa vez comecei um trabalho que era para ser um romance e terminei com um conto curto de 425 palavras. Cortei a história em tiras pequenas, colei sobre uma máscara com o rosto da minha esposa, feita de gaze cirúrgica, e pendurei na parede da sala de jantar.
A freqüência com que ocorrem colaborações literárias é um dos aspectos notáveis da FC/Fantasia. Você trabalhou com outros escritores em inúmeras ocasiões; como se compara com trabalhar sozinho? (e seu próximo trabalho em colaboração com Gene Wolfe.)
Cada colaboração é única. As histórias que escrevi com Jack Dann e Gardner Dozois, foram como parcerias de escola. Gardner e Jack sabiam tudo sobre como escrever e eu era um principiante. Foi uma oportunidade incrível para aprender. 'Green Fire' com Eileen Gunn, Pat Murphy e Andy Duncan era a criança dos olhos de Eileen desde o inicio. Ela possui um talento enorme e estranho e lamentavelmente pouco prolífico, então foi um privilégio trabalhar com ela e ver como sua mente funcionava. As duas histórias que fiz com Avram Davidson foram póstumas, pois trabalhei em histórias que ele deixou inacabadas. 'Apenas sobre seu corpo morto' eu disse para as pessoas 'era o único jeito dele deixar isso acontecer.'
'Dogfight' minha colaboração com William Gibson, eu vejo como um completo sucesso mas não acho que ele gostou. Possivelmente Bill não quisesse colaborar, pois sua visão era tão específica que as palavras de outra pessoa em sua ficção, mesmo boas, nunca iriam satisfazê-lo. Gene Wolfe é para mim, o maior escritor na língua inglesa vivo atualmente. Um editor que conheço pensa que ele irá ser um segundo Saul Bellow mas eu li Ravelstein e não vejo diferença.
Em seus dois maiores ensaios, 'In the tradition...' (Fantasia) e 'A user's guide to the Postmoderns' (FC) você mapeia certas tendências de cada gênero. O que pensa sobre o status acadêmico da Ficção Científica e da Fantasia?
Se você for procurar por ensaios criticas sobre a FC e a Fantasia você será soterrado com trabalhos sobre Stanislaw Lem, Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick e (sem brincadeira) Jane Austen. Por que infelizmente a maioria das pessoas no estudo destes gêneros são acadêmicos que não acreditam em seus gostos e julgamentos próprios. Eles não escrevem sobre Clifford Simak ou Leigh Brackett ou Jack Vance por que estes autores - cuja as obras são tremendamente importantes - não foram sancionados pelo consenso critico e podem parecer que não possuem literalidade afinal.
Existem exceções é lógico, e por que elas existem, eu devo dizer que meus próprios ensaios não possuem o rigor intelectual de trabalhos de crítica acadêmica. Foram escritos como propaganda. Eu queria promover alguns trabalhos que eu pensava não estar recebendo a devida atenção, e provocar as pessoas para argumentar sobre seus méritos.
A única coisa que eu já escrevi e que pode ser encarado como um resenha de um olhar rigoroso é 'Hope-in-the-mist', um ensaio biográfico de Hope Mirrlees (escritora de fantasia, cujo maior sucesso foi Lud in the mist de 1926) que apareceu em Foundation, um jornal britânico sobre estudo dos gêneros.
Por fim, para fechar como esperado, no que você está trabalhando atualmente?
Nunca tenho certeza absoluta. Dois livros, ou quase. Estou escrevendo uma fantasia que começa com um estilo meio guerra do Vietnam no reino das Fadas. O protagonista, Will, começa como um relutante criado de um dragão mecânico e em decorrência disso é levado de sua vila para um mundo maior e mais estranho, vitima de um destino inesperado que espera a maioria dos heróis das histórias de fadas. Pode ser que se passe, ou não, no mesmo universo de The Iron Dragon's Daughter. Certamente os dragões serão os mesmos. Mas num continente inteiramente diferente e abordando um reino diferente.
O outro - no qual ainda estou nos estágios iniciais de pesquisa - será sobre ficção cientifica pura, uma viagem de descobrimento em uma das luas do sistema solar, com Lizzie O'brien, o protagonista de 'Slow Life', indicado para o Prêmio Hugo. A graça desta história está em reimaginar que no futuro próximo, a exploração espacial será uma realidade, Por exemplo, no conto - que pretendo que não se torne um livro - o astronauta tem que passar muito do seu tempo dando resposta engraçadinhas para perguntas idiotas na internet. É óbvio que as primeiras pessoas a irem para Marte irão inevitavelmente ter que se render a isso. Mas eu espero tratar de coisas mais sérias também.
Também estou trabalhando em muitas, muitas histórias curtas. Tenho quarenta delas parcialmente escritas no meu computador e notas e idéias mais, e que não consigo dar conta. Algumas jamais serão finalizadas, outras serão, e não tem jeito de saber qual é qual até que aconteça. Ah, e alguns projetos estranhos, tanto de ficção quanto não, dos quais não posso falar porque se eu o fizer, jamais irei sentar para escrever sobre eles.
E a minha muito esperada primeira coleção de contos curtíssimos, Cigar-box Faust and Other Miniatures, está finalmente chegando este outono pela Tachyon, em tempo para a Convenção Mundial de Fantasia que se aproxima.
Então continuo ocupado. As idéias hoje chegam cada vez mais rápidas, mas escrever ainda é demorado como sempre foi, infelizmente.
(Ismo Santala - 2003)
domingo, 12 de abril de 2009
Atomic Rockets










Sua imaginação foi capturada pelo estrondo dos foguetes de SPACE CADET de Heinlein ou pelo Polaris de TOM CORBETT? Mas serão estes foguetes possíveis ?
Este site foi feito principalmente para autores de ficção científica que querem um pouco de precisão nas informações científicas.
Atomic Rockets
Michael Swanwick

Michael Swanwick (18 de November, 1950), escritor de Ficção Científica(FC) e Fantasia. nascido em Schenectady, NY(EUA), começou a ter seus livros publicados nos anos 80.
Seus primeiros livros, In the Drift (1985), Vacuum Flowers (1987), Stations of the Tide (1991) e The Iron Dragon's Daughter (1993) chamaram a atenção da crítica por seu estilo recheado de imaginação e ironia, fugindo um pouco da FC convencional de então. Em The Iron Dragon's Daughter, um conto com elementos de fantasia, Swanwick veste elfos com ternos Armani e dragões são caças a jato; Jack Faust (1997), reconta a lenda de Fausto a partir da tecnologia moderna e Bones of the Earth (2002), trata-se de uma viagem temporal envolvendo dinossauros, só que de uma maneira bem diferente...
Seus contos também aparecem em diversas revistas e coletâneas, como Gravity's Angels (1991), Moon Dogs (2000) e Tales of Old Earth (2000), entre outras. Além disso, tem diversos trabalhos fruto de colaborações com outros escritores, como Gardner Dozois ("Ancestral Voices", "City of God" e "Snow Job") e William Gibson ("Dogfight").
Ao longo de quase trinta anos, acumulou diversos prêmios, como 5 Hugos, 1 Nebula, 1 World Fantasy, 1 Sturgeon, 3 Locus, 4 prêmios Asimov pela escolha do público e 2 SF Chronicle.
Swanwick também se dedica a escrever sobre a profissão que escolheu. Publicou dois ensaios, sobre FC (The User's Guide to the Postmoderns, 1986) e Fantasia ("In the Tradition...", 1994), em que, de maneira controversa, categoriza os novos escritores de FC em dois grupos: 'ciberpunk' e 'humanistas'.
Nas palavras de Swanwick:
"Quando escrevi User's Guide to the Postmoderns, eu implicitamente me coloquei no meio do caminho entre o que chamei de escritores de ciberpunk e escritores humanistas. Ambos mostram tendências que vejo no meu trabalho, então eu os defino por estarem um pouco a direita, ou um pouco à esquerda. Se pudesse sintetizar todos estes autores em um só, provavelmente o escritor resultante disso, seria eu.
Michael Swanwick online
52 títulos de Michael Swanwick (Periodic table of Science Fiction, The Iron Dragon's Daughter, Ancestral voices, Hello, said the Stick, A Midwinters tale, A small room in Koboldtown, After Science Fiction died, Ancient engines, Bones of the Earth, Cold Iron, Congratulations from the future, Dogfight, Dragons of Babel, Girls and boys come out to play, Griffin 's egg, Hunting the great white, Legions in time, Lord Weary's Empire, Minor planets Phoebe, Moondogs, Mother Grasshoper, Radiant doors, Radio Waves, Riding the Gigantosaur, Scherzo with Tyrannosaur, Slow life, Stations of the tide, Teller, The changeling's tale, The dead, The dog said Bow-Wow, The Dragon Line, The edge of the world, The feast of Saint Janis, The madness of Gordon van Gelder, The Raggle Taggle Gypsy, The Scarecrow's boy, The sleep of reason, The very pulse of the machine, The wireless folly, The Wisdom of Old Earth, The wreck of the River of Stars, Tin Marsh, Triceratops Summer, Trojan Horse, Urdumheim, Vacumn Flowers, Walking out, Wild minds, Shed that guilt ) [ Download ]
sábado, 11 de abril de 2009
Antigas máquinas - Michael Swanwick

‘Planejando viver para sempre, Tiktok?’
As palavras interromperam a conversa de bar e trouxe silêncio com elas.
Um silêncio quase infinito e então ‘Acredito que está falando comigo?’ disse o mecanizado.
O bêbado riu. ’Tem mais alguém aqui enfiando agulhas na cara?’
O velho viu tudo. De leve tocou na mão da jovem sentada ao lado dele e disse: ’Observe isso.’
Cuidadosamente o mecânico baixou sua seringa junto de uma garrafa de colágeno liquido sobre um pedaço de tecido aveludado.
Desconectou-se do recarregador, deixando o plugue ao lado da seringa.
Quando ergueu o rosto novamente, sua face era calma e rígida. Parecia com um jovem leão.
O bêbado riu-se desdenhoso.
O bar ficava bem no canto distante da entrada. Um refúgio à prova da irritação das ruas, todo de latão e espelhos e painéis de madeira, aconchegante como o interior de uma noz. Uma luz suave espalhava-se preguiçosa pela sala, criando uma variação de detalhes como nuvens cobrindo um dia de verão, mas longe de obscurecê-la.
O bar, as garrafas por detrás do bar, e as prateleiras sob as garrafas por detrás do bar, era tudo bastante real. Se havia algo virtual, estava longe dali, onde não poderia ser tocado.
‘Se isso foi um desafio’ disse o mecanizado ‘ficarei mais do que contente em encontrá-lo lá fora’.
‘Ah, não’ respondeu o bêbado, sua expressão revelava a mentira em suas palavras ‘eu só vi você injetando esta meleca na cara, oh, tão delicado, parecia uma velha se enchendo de antioxidantes. Então pensei... ’ ele colocou uma mão sobre a mesa para se segurar ‘...pensei que você esperasse viver para sempre.’
A garota olhou para o velho como se fosse perguntar algo. Ele colocou um dedo sobre os lábios.
‘Bem, você está certo. Você tem... o que? Uns cinquenta anos? Mal começou a envelhecer e tornar-se decadente. Logo, logo seus dentes estarão podres e vão cair e seu cabelo vai desaparecer, sua face vai se encher com milhões de rugas. Sua audição e sua visão irão embora e não será capaz de lembrar-se de quando as possuía. Terá sorte se não precisar usar fraldas antes do fim. Enquanto eu... ’ ele espirrou um filete do fluido de sua seringa e deu um tapinha na garrafa e bolhas subiram à superfície... 'tudo que puder falhar eu irei simplesmente repor. Então, sim, eu planejo viver para sempre, enquanto você, bem, suponho que esteja planejando morrer. Logo, eu espero. ’
O rosto do bêbado torceu-se e com um incoerente rugido de raiva atacou o mecanizado.
Rápido demais para poder ser visto, o mecanizado afastou-se, agarrou o bêbado e o ergueu por sobre sua cabeça. Uma de suas mãos pressionava a garganta do homem de modo que não podia falar. A outra mão juntava seus punhos presos por trás dos joelhos, e o bêbado não tinha como escapar.
‘Poderia quebrar sua espinha fácil’ disse sem emoção ‘se quisesse poderia romper cada órgão interno de seu corpo. Sou dois ponto oito vezes mais forte do que um homem jovem e três ponto cinco vezes mais rápido. Meus reflexos só estão abaixo da velocidade da luz e acabei de ser regulado. Você não poderia ter escolhido uma pessoa pior para começar uma briga.’
Então o bêbado foi solto e colocado de pé, tossindo procurando ar.
‘Mas também sou um homem misericordioso, e pedirei gentilmente que vá embora.’
O mecanizado empurrou o bêbado na direção da porta. O homem saiu correndo por ela.
Todos no local – e não eram muitos – estavam observando. Então se lembraram de seus drinques e a conversa voltou a encher o bar novamente. O barman guardou algo debaixo do balcão e voltou ao serviço.
Deixando sua recarga incompleta, o mecanizado guardou o kit de lubrificação em um bolso. Pagou e estava saindo, quando o homem velho se aproximou e disse: ‘Ouvi dizer que espera viver para sempre, é verdade?’
‘Quem não espera?’ respondeu curto e grosso.
‘Então sente-se. Gaste alguns poucos minutos dos abundantes minutos que os séculos à sua frente lhe reservam e divirta um homem velho. O que é tão urgente para que você não possa gastar algum tempo?’
O mecanizado hesitou. Então, quando a jovem sorriu para ele, ele se sentou.
‘Obrigado. Meu nome é...’
‘Eu sei quem é você, Mister Brandt.' Disse o mecanizado interrompendo-o. 'Não há nada de errado com minha eidética (faculdade de evocar visualmente eventos passados.)
Brandt sorriu: ‘É por isso que gosto tanto de vocês. Não preciso ficar lembrando-os das coisas.’ Fez um gesto em direção da jovem.
‘Esta é minha neta.’ A luz se intensificara onde ela estava sentada, fazendo seu cabelo ruivo brilhar. Ela sorriu graciosa.
‘Sou Jack.’ O jovem puxou uma cadeira. ‘Navegador-Fuego Quimera, modelo número...’
‘Por favor... Eu fundei a Quimera. Acha que não reconheço uma das minhas crianças?’
Jack ficou vermelho. ‘Sobre o que quer falar comigo Mister Brandt?’ sua voz era bem menos hostil agora, contra-hormônios sintéticos agiam para refrear suas emoções.
‘Imortalidade. Achei sua ambição bastante intrigante.’
‘O que posso dizer? Eu me cuido, invisto cuidadosamente, compro meus upgrades. Não vejo razão pela qual não deveria viver para sempre.’ E desafiadoramente continuou: ‘Espero que isso não o ofenda.’
‘Não, não, é claro que não. Porque deveria? Alguns homens procuram a imortalidade através do seu trabalho e outros através de seus filhos. Como eu poderia ser mais feliz do que ter a ambos? Mas me diga, realmente espera viver para sempre?’
O mecanizado nada disse.
‘Lembro de um incidente que ocorreu com meu falecido sogro, William Porter. Era um grande sujeito, Bill, e quem se lembra dele? Apenas eu. Mas ele era um pouco sem noção, um dia ele estava em uma excursão num museu de ciência que incluía uma antiga e magnífica locomotiva a vapor. Isso foi no século passado. Bem, ele estava ouvindo admirado a guia falar sobre as virtudes desta antiga máquina, quando ela mencionou sua data de fabricação e ele percebeu que era mais velho que ela. Neste ponto o velho Bill deu uma risada. Mas não havia nada para rir, certo?’
‘Não.’
A neta estava sentada quieta prestando atenção e comendo aperitivos de uma vasilha.
‘Quantos anos você tem Jack?’
‘Sete anos.’
‘Eu tenho oitenta e três. Quantas máquinas você conhece tão velhas quanto eu? Oitenta e três anos e ainda funcionando?’
‘Eu vi um carro outro dia’ disse a neta ‘Um Dusenberg. Vermelho.’
‘Maravilhoso. Mas ele não é mais usado para transporte, não é mesmo? Temos calçadas rolantes agora. Eu ganhei um prêmio certa vez, feito da válvula de um Univac. Ele foi o primeiro e verdadeiro computador. Apesar de toda a fama e importância histórica não passava de ferro velho.’
‘O Univac’ disse o jovem ‘não podia agir por conta própria. Se pudesse talvez estivesse vivo hoje.’
‘Peças se quebram.’
‘Peças novas podem ser compradas.’
‘Sim, enquanto existe mercado para elas. Mas existem tão poucas pessoas mecânicas do seu modelo. E muitos de vocês estão em profissões de risco. Acidentes acontecem e a cada acidente, o mercado de consumo diminui.’
‘Pode-se comprar peças antigas. E pode pedir que alguém as fabrique.’
‘Sim, se puder pagar por isso. Mas e se não puder?’
O jovem ficou calado.
‘Filho, você não irá viver para sempre. Precisamos estabelecer isso. Então, quando admitir que morrerá algum dia, você deve admitir tsmbém que será mais cedo do que tarde. As pessoas mecânicas estão em sua infância. E ninguém pode transformar um modelo T numa esteira rolante, concorda?’
Jack fez que sim.
‘Você já sabia disso.’
‘Sim.’
‘É por causa disso que você agia daquele jeito.’
‘Sim.’
‘Vou ser direto aqui Jack – você provavelmente não vai viver oitenta e três anos. Você não tem as vantagens que tenho.’
‘E quais são elas?’
‘Bons genes. Eu escolhi meus ancestrais muito bem.’
‘Bons genes’ disse Jack amargamente. ‘Você recebeu bons genes e o que o que diabos eu recebi no lugar disso?’
‘Juntas de molibdênio e aço inoxidável. Chips de rubi de zircônio – ora, fizemos tudo de melhor para vocês garotos.’
‘Mas não o bastante!’
‘Não. Não é. Apenas o melhor que podíamos.’
‘Qual a solução então?’ perguntou a neta sorrindo.
‘Eu os aconselharia a tomar o caminho mais longo. Foi o que eu fiz.’
‘Tolices!’ disse o mecanizado.’ Você foi do movimento extensionista quando jovem. Eu baixei a sua biografia. Me parece que queria a imortalidade tanto quanto eu.’
‘Ah sim, fui um membro do movimento pela extensão da vida. Não pode imaginar as porcarias que colocávamos em nossos corpos. Mas um dia eu desisti. O problema é que a informação se deteriora com o tempo, na medida em que a célula humana se reproduz. A morte é inerente para pessoas de carne. Parece ter sido escrita em nosso programa básico, um meio talvez de manter o universo livre de velhos.’
‘E idéias velhas’ disse a neta maliciosamente.
‘Touché! Percebi que estender a vida era um erro. Então decidi que meus meninos poderiam ter sucesso onde eu fracassei. Que vocês iriam... ’
‘Você falhou.’
‘Mas não parei de tentar.’ O velho socou a mesa ao mesmo tempo em que disse a frase. ‘Vamos pensar no que eu deveria ter feito. Como seria um verdadeiro imortal? Que instruções eu deveria ter dado ao meu time de desenhistas? Vamos fazer um homem mecânico que irá viver para sempre!’
Com cuidado o mecanizado disse: ‘Era o jeito óbvio de começar. Ele deveria ser capaz de poder comprar partes novas quando estivessem disponíveis. Deveriam haver adaptadores para tornar fácil ajustar-se tecnologicamente. Deveria poder viver sob condições de extremo calor, frio ou umidade e... ’ fez um gesto com a mão sobre o rosto ‘...não deveria ser tão feio.’
‘Acho você bonito’ disse a neta.
‘Tá, mas isso aqui deveria se passar por carne.’
‘Então seu hipoteticamente imortal deveria... um, poder receber upgrades infinitos, dois, capacidade de se adaptar a um vasto espectro de condições e três, ser discreto. Algo mais?’
‘Acho que ela deveria ser charmosa’ disse a neta.
‘Ela?’ perguntou o mecanizado.
‘Por que não?’
‘Não seria ruim ‘ disse o velho. ‘O organismo que sobrevive às forças evolucionárias é aquele melhor adaptado do nicho ambiental. O nicho ambiental em que vivem as pessoas é feito pelo homem. Qual o traço mais útil para um sobrevivente do que provavelmente a habilidade de se relacionar bem com os homens. O que seria melhor que uma mulher?’
‘Oh, ele não gosta de mulheres. Posso ver pela sua expressão corporal’ disse a neta.
O jovem ficou corado.
‘Não se ofenda’ disse o velho. ‘Você nunca deveria se ofender com a verdade. E quanto a você...’ virou se para a jovem – ‘se não passar a tratar as pessoas melhor, não a levarei mais a lugares assim.’
Ela abaixou a cabeça e pediu desculpas.
‘Desculpas aceitas. Mas podemos voltar ao assunto? Nosso hipotético imortal pareceria com uma mulher, de várias maneiras. Poderia se auto-regenerar. Fazer crescer partes de reposição sozinha. Poderia usar quase tudo como combustível. Um pouco de carbono, água... ’
‘Álcool seria uma excelente idéia’ disse a neta.
‘Seria capaz de mimetizar efeitos superficiais de envelhecimento’ disse o mecanizado. A vida biológica evolui através das gerações. Quero que ela possa ser capaz de se desenvolver ao longo dos upgrades.’
‘É justo. O que eu faria seria acabar com os upgrades inteiramente, e daria a ela controle consciente de seu corpo todo. Assim ela poderia mudar e evoluir à vontade. Ela precisaria disso para sobreviver ao colapso da humanidade.’
‘O colapso da humanidade? Acho que vai acontecer?’
‘Em um longo tempo? É claro. Se for olhar para o futuro parece inevitável. Tudo parece inevitável. Para sempre é um longo tempo, lembre-se. Tempo suficiente para absolutamente tudo poder acontecer.’
Por um momento ninguém falou.
Então o velho bateu as palmas das mãos uma contra a outra. ‘Bem, criamos nossa Nova Eva. Vamos então soltá-la ao vento e ver até onde ela poderá ir. Ela poderá viver quanto tempo?’
‘Para sempre’ disse o mecanizado.
‘Para sempre é muito tempo. Vamos partir em unidades menores. No ano 2500 ela estará fazendo o que?’
‘Trabalhando em um emprego’ disse a neta. ‘Design de moléculas artísticas, talvez, ou escrevendo alucinações recreativas. Estará intensamente envolvida com a cultura. Terá muitos amigos dos quais cuidará com carinho e talvez um marido ou uma esposa ou duas.’
‘’Que envelhecerão’ disse o mecanizado ‘e morrerão.’
‘Ela irá lamentar-se por eles e seguir vivendo.’
‘No ano 3500. O Colapso da civilização.’ Anunciou o velho com prazer. ‘Então o que ela fará?’
‘Ela irá se preparar, é claro, se houver radiação ou toxinas no meio-ambiente, irá tornar seu sistema imune contra os efeitos. E se tornará útil para os sobreviventes. Como mais velha poderá ensinar as artes de cura. Irá aos poucos ensinando-os isso ou aquilo. Ela terá uma base de dados contendo tudo que eles perderam. Aos poucos, elas os guiará de volta a civilização. Mas para uma civilização pacífica desta vez. Uma que não irá querer se destruir.
‘Ano um milhão. A humanidade evolui para um estado que não podemos hoje imaginar. Como ela responde a isso?’
‘Ela acompanha a evolução – Não. Ela dá forma à evolução da humanidade. Ela vai optar por um método livre de riscos para alcançar as estrelas, então ela irá encorajar um tipo de ser que desejará fortemente tal coisa. Ela não estará entre os primeiros a fazê-lo, penso. Esperará algumas centenas de gerações para experimentar.’
O mecanizado que tinha estado ouvindo fascinado em silêncio agora disse: ‘Suponha que nunca aconteça? O vôo estelar será sempre difícil e perigoso? Então o que acontece?’
‘Antigamente diziam que o homem nunca voaria. Muita coisa que parece impossível se torna simples se você puder esperar por ela.’
‘Quatro bilhões de anos. O sol queima todo seu hidrogênio, a atmosfera entra em colapso, fusões de hélio se iniciam e o sol se torna uma gigante vermelha. A Terra é vaporizada.’
‘Ela estará em alguma parte então. Fácil.’
‘Cinco bilhões de anos. A Via Láctea colide com a galáxia de Andrômeda e toda vizinhança de torna altamente radioativa e as estrelas explodem.’
‘Esta é mais interessante. Ela já tinha previsto e estará a alguns milhões de anos luz distante em uma galáxia amigável. Ela terá tempo bastante para se preparar. Tenho fé que provará estar preparada para tal.’
‘Um trilhão de anos. A última estrela se apaga. Restarão apenas buracos negros.’
‘Buracos negros são uma fonte espetacular de energia. Nenhum problema.’
‘1,06 googol anos.’
‘Googol?’
‘É dez elevado a centésima potência – um, seguido de cem zeros. A morte do universo. Como ela poderia sobreviver a isso?’
‘Ela já teria percebido que isso se aproximava’ disse o mecanizado.
‘Quando o último buraco negro desaparecer, não haverá mais energia disponível. Talvez ela precise reescrever sua personalidade pelas constantes físicas do universo moribundo
‘Seria possível?’
‘Oh, talvez. Mas eu realmente penso que a vida do universo é algo longa o bastante para qualquer um.’ Disse a neta. ‘Ela não seria gananciosa.’
‘Talvez sim’ disse pensativo o velho. ‘Talvez não’ e então disse ao mecanizado: ‘Então ai está, uma espiadela no futuro e uma breve biografia do primeiro imortal, que termina, aliaís, com sua morte. Agora me diga, sabendo que contribuiu com algo, mesmo que pequeno, para esta realização – isso não seria o bastante?’
‘Não’ disse Jack. ‘Não seria.’
Brandt fez uma careta. ‘Bem, você é jovem. Deixe-me perguntar isso: Tem sido uma boa vida?’
‘Não tão boa. Não boa o bastante.’
Por um longo tempo o velho ficou em silêncio, então disse: ‘Obrigado. Apreciei nossa conversa. ‘
O interesse se fora de seus olhos e ele desviou sua atenção.
Sem saber o que fazer Jack olhava para a neta, que sorriu e deu de ombros: ‘Ele é assim mesmo. Ele é velho. Seu entusiasmo varia de acordo com seu equilíbrio químico. Espero que não se importe.’
‘Entendo’ disse o jovem ficando de pé e depois seguiu para a porta.
Chegando à porta, olhou para trás e viu a neta rasgando o guardanapo de linho em pequenas tiras e comendo os retalhos delicadamente com a ajuda de pequenos goles de vinho.
Ancient Engines (1999) - Michael Swanwick
Indicado a melhor conto de FC de 2000, para os prêmios Nebula, Locus, Hugo e vencedor do prêmio de melhor conto de FC de 2000 na escolha dos leitores da Asimov SF.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
How to write Science Fiction and Fantasy - Orson Scott Card

How to Write Science Fiction and Fantasy was published in 1990 by Orson Scott Card. Card is an American sci-fi and fantasy author probably best known for his story Ender's Game.
The advice in the book is based on his own experiences and he clearly knows something because he's written numerous novels and been very successful as a writer.
This book is an excellent guide for those who wish to write stories in the science fiction and fantasy genres. The book is intended for those writing speculative fiction (a different term for 'science fiction and fantasy'). While it includes some general information for writers, it mostly focuses on things that are an issue only in these genres, such as world building, coming up with plausible alien cultures and working out rules for magic. There are a lot of good books out there for writing fiction in general, so Card recommends a few for things like plotting and perspective, which any writer has to deal with.
The writing style is entertaining and easy. Card uses examples from his own experience and other works of fiction. He also raises the point, which I've seen in other books, that every writer is different. There is one point where he does give rules to be followed, but the final rule is to be prepared to break them. I think the advice given in this book should be seen as a guideline, from which a writer can develop his or her own style and techniques.
About the Author
No one had ever won both the Hugo and the Nebula Award for best science fiction novel two years in a rowuntil 1987, when Speaker for the Dead won the same awards given to Ender's Game. But Orson Scott Card's experience is not limited to one genre or form of storytelling. A dozen of his plays have been produced in regional theatre; his historical novel, Saints (alias Women of Destiny) has been an underground hit for several years; and Card has written hundreds of audio plays and a dozen scripts for animated videoplays for the family market.
He has also edited books, magazines, and anthologies; he writes a regular review column for The Magazine of Fantasy and Science Fiction; he publishes Short Form, a journal of short-fiction criticism; he even reviews computer games for Compute! Along the way, Card earned a master's degree in literature and has an abiding love for Chaucer, Shakespeare, Boccaccio, and the Medieval Romance.
He has taught writing courses at several universities and at such workshops as Antioch, Clarion, Clarion West, and the Cape Cod Writers Workshop. It is fair to say that Orson Scott Card has examined storytelling from every angle.
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
Querem escrever horror? - Tim Waggoner

Querem escrever horror?
Muitas pessoas querem.
A grande indústria editorial pode ter momentaneamente virado as costas ao gênero, mas o mercado das pequenas editoras está a prosperar nos EUA, já para não mencionar o número crescente de fanzines de horror na Internet.
Infelizmente, muitas das histórias publicadas nestes mercados não são muito inspiradoras (para o dizer de uma forma amável) e são simplesmente más (para o dizer de forma honesta).
Querem que o seu trabalho sobressaia do resto da alcateia licantrópica?
Querem começar a vender obras para mercados maiores e mais prestigiosos?
Querem que as suas histórias de horror sejam tão boas que as pessoas corram sem fôlego ao longo da prosa, e mal sejam capazes de sussurrar um exausto, "Caramba!" quando terminam leitura?
Não é fácil. Mas eu tenho três dicas para oferecer que aumentarão as suas hipóteses de se juntar ao panteão de escritores de horror de sucesso:
1. Cuidado com os clichés.
Leiam amplamente, tanto dentro como fora do gênero de horror, para que possam reconhecer enredos já usados até à exaustão (e para além dela). Ficarão sabendo como fazer melhor do que escrever histórias que terminam em "E era tudo um sonho," ou "E então ela apercebeu-se, enquanto o seu amante enterrava as presas no pescoço dela, de que ele... era... um...VAMPIRO!"
Quando eu era adolescente, escrevi uma história de horror com o título embaraçoso de "Natal
Assustador". Nela, um jovem delinquente atormenta e mata um homem idoso cujo fantasma volta, buscando uma vingança Natalícia. Pelo menos tive o bom senso de nunca enviar este pedaço de porcaria a ninguém.
Histórias de vingança são um dos maiores clichés da ficção de horror e, além disso, não existe tensão nelas. Os leitores sabem sempre exatamente como elas vão terminar.
Mesmo assim, podem usar os clichés para vosso proveito.
Na minha história, "Blackwater Dreams", publicada na antologia Bruce Coville's Book of Nightmares 2, voltei a tentar criar outra história de vingança fantasmagórica. Só que, desta vez, agarrei no cliché e retorci-o. O personagem principal, um jovem rapaz que se culpa pelo afogamento de um amigo, é visitado nos seus sonhos pelo fantasma do afogado. O rapaz teme que
o espírito tenha vindo em busca de vingança, mas o amigo não está zangado - ele está só.
No final da história, o meu protagonista tem que fazer uma escolha terrível: deixar o amigo entregue à sua solidão, ou o unir-se a ele, na sua úmida vida após a morte.
Na minha história "Alacrity's Spectatorium", voltei a trocar as voltas a outro cliché. Usei a noção de que vampiros não têm um reflexo e criei um espelho escuro que só mostra os reflexos de vampiros. Que preço pagariam os vampiros por um breve vislumbre seu nesse espelho sem igual? Mais, o que significaria para eles um tal vislumbre?
Em vez de terminar com um cliché, por que não começar com um?
Comecem com "Foi tudo um sonho," e construam a vossa história a partir daí. Por que não começar com um homem que descobre que a amante dele é uma vampira e descrever o que acontece depois disso? Ou então dêem a volta ao cliché. E se um vampiro descobrisse que o amante dele não era outro nosferatu mas sim (tremor!) um humano? E tentem evitar
o mais usado enredo na história da ficção de horror, que o autor o Gary A. Braunbeck (Time Was, Things Left Behind) descreve como uma história na qual o personagem principal só existe "para ser devorado pelo monstro". Histórias nas quais os personagens são apenas adereços serem comidos, sugados, estripados, rasgados, trucidados e transformados em geleía pelo seu monstro devorador, seja ele um vampiro, um lobisomem ou o omnipresente assassino-em-série.
Estas histórias não são apenas enfadonhas; elas são insultuosas para leitores que merecem melhor.
Provavelmente, o melhor modo de se evitarem clichés é aderir a um dos mais antigos: escrevam sobre aquilo que sabem. Busquem na vossa experiência ideias para histórias, escrevam sobre as coisas que os excitam e perturbam, as pessoas, os lugares e os eventos que tecem o tecido singular da vossa existência, que tornam a a vida diferente de qualquer outra vivida antes.
Se fizerem isto, não poderão evitar serem originais.
2. Há uma diferença entre perturbar os leitores e simplesmente os enojar.
Demasiados novatos pensam que escrever horror é escrever descrições detalhadas de estripamentos e de fluidos corporais a esguichar. Eles confundem o uso de tais elementos com audácia artística e escrita de vanguarda. A verdade é que, em vez disso, tais escritores são o equivalente literário da criança que enfia o dedo dentro do nariz e tira cá para fora um grande
macaco para poder acenar com ele em frente aos rostos dos amigos.
O bom horror - como toda a ficção que verdadeiramente importa - pretende afetar os leitores
emocionalmente. Claro, a repulsa é uma reação emocional, mas é uma bastante simplista, com um efeito limitado nos leitores. Eles terminam a história sobre um preservativo mastigador de pénis, e pensam, 'Puxa, isto é nojento', e imediatamente se esquecem de tudo.
Vocês falharam no objetivo de os tocar, de mexer com eles, exceto no menos profundo dos
níveis. Não estou a dizer que devem evitar escrever sobre o escuro e o perturbador.
É disso que trata o horror, da silenciosa sutileza de uma sombra semi-vislumbrada num dia que de outro modo seria de sol, até à revulsão "na-cara-do-leitor" do sangue a pingar do metal reluzente de uma lâmina de barbear.
Mas se optarem por irem atrás do "gross-out", como o Stephen King diz, ele tem que surgir naturalmente da própria história, ser uma parte tão integrante ao conto que estão a contar que não pode ser removido sem que a história sofra com isso.
No romance de Gary A. Braunbeck "Some Touch Of Pity" (mais um excelente exemplo de um escritor que pega num cliché - a história do lobisomem - e lhe dá uma forma original),
há um flashback que descreve a violação de uma das personagens. Não só o aspecto físico do acontecimento, mas também as emoções que o personagem sente enquanto a violação ocorre.
A cena é absolutamente brutal, mas também é completamente necessária à história.
Se a cena fosse menos marcante, ou pior, removida, a história seria muito menos potente em termos emocionais.
Na minha história, "Keeping It Together", publicada na primeira antologia da SFF Net, intitulada Between The Darkness And The Fire, escrevo sobre um homem gay que leva um estilo de vida heterossexual numa casa e com uma família que ele próprio criou a partir do seu desejo desesperado de ser aquilo que ele acha que é "ser normal".
Mas é uma ilusão que não pode ser sustentada, e à medida que a história progride, a casa, a esposa, a sua filha jovem, tudo se começa a deteriorar em seu redor. Numa cena, o personagem faz amor com a sua esposa por causa de um sentido de dever conjugal e, uma vez que a dissolução dela já se encontra adiantada nesta altura, o ato sexual. . .danifica-a.
Criei esta cena não somente para fazer os leitores dizerem "Ooooh, que nojo!" mas para
dramatizar ainda mais o impacto de uma negação tão profunda tanto no meu personagem principal como nos que o rodeiam.
Lembrem-se que elementos extremos, como qualquer outra coisa em ficção, são só ferramentas para vos ajudarem a contar vossas histórias da melhor maneira que vocês conseguem. Mas, como qualquer ferramenta poderosa, eles devem ser usados espaçada e cautelosamente, e sempre com uma boa razão.
3. Dêem-nos personagens com quem nos preocupemos.
Deixem-me dizer, antes de mais, que este conselho não significa que tenhamos de gostar dos seus personagens. Significa que os personagens devem ser tão desenvolvidos e interessantes que nos façam querer ler para descobrir o que lhes acontece.
Há personagens - Capitão Ahab, Sherlock Holmes, Hannibal Lector - que nem sempre são agradáveis (e que às vezes são completamente desprezíveis) mas que são tão singulares, tão completamente realizados, que não podem deixar de nos fascinar. É de personagens
carismáticos que a ficção memorável trata em todo o lado, qualquer que seja o meio onde o autor é publicado.
Na minha história, "Seeker", que apareceu na antologia da White Wolf Dark Tyrants, escrevo sobre um cruzado desiludido que perdeu a sua fé em Deus e foi procurar um ninho de vampiros para provar a si mesmo que há algum tipo de faceta espiritual na existência, mesmo se essa faceta é malévola. O enredo ocorre em dois planos distintos. O primeiro é a narrativa do cruzado
que penetra na floresta onde os vampiros vivem, sendo atacado por eles, e lidando finalmente com o seu líder (que eu tornei não apenas um vampiro mas um vampiro que se fundiu com o próprio bosque). O segundo plano é detalhado em vários flashbacks, sendo constituído
pelos eventos que causaram a perda da fé do cruzado e o deixaram tão desesperado por encontrar um sinal - qualquer sinal - de que há Algo Mais na vida.
Se eu tiver feito o meu trabalho bem, não só os leitores se interessarão pela ação da história, mas também pelo próprio cruzado, de forma a que, quando história atinge o seu clímax e a busca do personagem é satisfeita de um modo que ele - e, esperançosamente, os leitores - nunca imaginara (não, ele não se torna um vampiro também; lembrem-se do que eu disse antes,
sobre evitar clichés? Tento fazer o que eu mesmo digo), não só existe uma recompensa emocional, como também os leitores, espera-se, deixarão a história pensando um pouco na sua própria espiritualidade.
Há muito mais para dizer sobre escrever bom horror, mas se pensarem nos três conselhos que lhes dei e os seguirem à risca, criarão histórias que não só serão algo mais do que os contos genéricos que por aí há de zumbis mastigadores de carne e assassinos-em-série sedentos de sangue, vocês criarão ficção que vale a pena ler - que vale a pena recordar.
site de Tim Waggoner
(Tradução Ricardo Madeira)
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Gêneros de ficção científica, fantástico, terror e policial perdem a função profilática (John Clute - 1999)

Nos últimos 20 anos, o Ocidente voltou-se para a leitura de gêneros que privilegiam a angústia e tudo indica que essa febre ganhará nova intensidade com a aproximação do fim do século.
Embora o número de anos de um século seja algo bem definido, entendendo-se por ano o tempo gasto por um planeta em sua órbita em torno do Sol , o clímax chamado Milênio, que construímos com base nesse acúmulo de órbitas, foi quase inteiramente urdido em sonhos e na numerologia. Milênio é o que acontece quando uma espécie com dez dedos decide usá-los.
É claro que a história não termina por aí.
O Milênio no qual estamos prestes a entrar não é simplesmente o desfecho arbitrário de um acidente biológico. Ele se tornou um símbolo poderoso de um momento o qual receamos que se tenha tornado grande demais, um abismo negro de futuridade no qual estamos nos lançando com rapidez para que possamos compreendê-lo.
Os símbolos, naturalmente, não são reais, porém, modelam as mentes que os criam. O Milênio é um símbolo ativo, poderoso, criado por uma espécie que conquistou o poder de fazer com que seus símbolos trabalhem para ela.
Somos uma espécie cujo nome é Frankenstein.
Essa febre de fim de século, portanto, tem substância.
Ela molda nossa imaginação e nossa imaginação forja o mundo. É, portanto, uma febre com pedigree. Por baixo do atual modismo febricitante acerca do Milênio, estendem-se dois séculos de obsessão com o tempo no mundo ocidental, uma obsessão de múltiplas raízes
(embora a Revolução Francesa assinale, talvez, seu primeiro momento histórico significativo) e cujas manifestações são praticamente infinitas.
Vamos nos deter aqui nas histórias que contamos para nós mesmos para nossa diversão e instrução, histórias que nos desviam das trevas que nos aguardam.
Foi pouco antes do ano de 1800 a primeira virada de século no Ocidente a ganhar atenção generalizada que o relógio do Manifesto do Tempo começou a bater, e o motor da história passou a funcionar de modo visível.
Os cidadãos do mundo ocidental começaram a duvidar das Escrituras quando diziam que não havia nada de novo sob o sol, que a humanidade não tinha outra alternativa a não ser repetir as grandes histórias que o Senhor idealizara para nós.
Novo ritmo - Começamos a sentir que o chão do mundo se movia, como se respondesse a um novo ritmo imposto por Deus. O tempo decorrido parecia imensuravelmente profundo.
O tempo presente era totalmente reescrito (pelos ideólogos da Revolução Francesa que, apagando o passado, recomeçaram a história do mundo com um calendário novo em folha). E o futuro era inventado: começávamos a crer que as coisas mudariam. À luz do dia, chamamos essa mudança de Progresso; mas não quando caem as sombras.
À noite, por volta do ano de 1800 em diante, os cidadãos do Ocidente começaram a ter pesadelos com uma existência vertiginosa. Nossos mestres e senhores responsáveis pelo script de nossas atividades diurnas, de nossos casamentos e trabalhos, guerras e os esporádicos momentos de paz não foram capazes de admitir a existência desses sonhos. (Até hoje, insistem ainda em não admitir que as pessoas do opulento mundo ocidental, a despeito dos milagres do Progresso, continuam a se comportar como se o mundo estivesse se desintegrando.) À noite, deixamos de crer nos mestres.
Mudança - Não é de espantar, portanto, que, por volta do ano de 1800, a literatura ocidental tenha começado a mudar. Foi aproximadamente nessa época, talvez uma década a mais ou a menos, que aquilo a que se pode chamar de gêneros de angústia surgiram. Esses gêneros
são geralmente conhecidos hoje como ficção científica, fantástico, terror e policial.
Eis aqui o instante para onde tudo converge: estamos no início de um romance. Uma estranha e assustadora figura mecânica é vista no momento em que se arrasta pela hediondez sublime do deserto ártico, oprimida por mais do que angústias humanas. Ele é uma criação. Seu mestre, o dr. Frankenstein, fê-lo com partes de corpos humanos.
O romance onde ele aparece, Frankenstein ou O Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley, é, portanto, um romance de ficção científica e, possivelmente, o primeiro. Mas a criação de Frankenstein é também um monstro, um espectro mecânico saído dos piores pesadelos do doutor (e do mundo), em que o inanimado se torna animado e rouba de nós nossa substância (e
nossas esposas), como nas histórias contemporâneas de E.T.A. Hoffmann.
Ele é uma visão precoce engendrada pela literatura de terror, um gênero assombrado por gêmeos perversos que brotam na consciência, oriundos das fissuras de um mundo que se tornou repentinamente mórbido. Ele é também uma criação mitológica, um embusteiro
deformado que traz um estranho fogo de presente dos novos mundos da futuridade; e, nesse sentido, Frankenstein é também um dos primeiros romances fantásticos escritos.
Ele cometeu crimes, está sendo perseguido; ele prefigura todos os vagabundos fantasmagóricos dos séculos 19 e 20, de Melmoth a Marlowe (personagens de Conrad e Chandler).
Narrativa perfeita - Frankenstein é um texto que transpira angústia em relação ao passado, presente e futuro. É a narrativa perfeita para marcar o início dos textos de angústia que nos têm encantado, tranqüilizado e desviado do temor da mudança, um temor que é natural à espécie, como todas as espécies da Terra que precisam aceitar o mundo à sua volta para que possam sobreviver.
A ficção científica normaliza o mundo em mutação, quando afirma que é possível fazer com que as coisas funcionem, que existem meios de consertar o que está arruinado, que se mantivermos o equilíbrio e esperarmos pelo amanhã, sobreviveremos. Para os autores e leitores da ficção científica tradicional, a história dos dois últimos séculos é a história de como tomar posse da mudança.
Para eles, o Milênio desponta como o marco de julgamento do nosso sucesso ou fracasso na grande empresa humana da conquista. Para os autores de ficção científica de mente mais fecunda, dentre os quais figuram Kim Stanley Robinson, Neal Stephenson, Bruce Sterling e Gene Wolf, os obstáculos tecnológicos que a ficção científica apresenta parecem, na melhor das
hipóteses, dúbias; e, na pior das hipóteses, fatais à vida no planeta.
Esses autores, entretanto, parecem estar transcendendo o gênero no qual se formaram. O terror pacifica nossas angústias ao situá-las em histórias cujo propósito principal parece ser o de dar comichões na nossa nuca. Creio ser essa apenas uma pequena parte da empresa literária de terror. Os grandes romancistas de terror, como Shelley, Bram Stoker, Stephen King e Peter
Straub, lidam, meio secretamente, com algo mais profundo.
Caldeirão da história - Acho que estão tentando nos dizer que os gêmeos perversos vão nos assustar, que os segredos do passado, que sempre ameaçam nos aterrorizar e nos expor a violações eternas, nada mais são do que visões domesticadas saídas do caldeirão da história; que a verdade atrás das portas do ano 2000 (ou atrás de outras portas que possamos discernir) é
muito mais terrível do que qualquer coisa que o passado possa evocar.
O horror secreto que esses romancistas transmitem é a suspeita de que o gêmeo perverso não está atrás de nós, e sim na nossa frente. Que o mundo depois do Milênio talvez seja um mundo estilhaçado, uma casca de ovo que talvez não suporte nossa pisada aterradora.
O fantástico é mais franco que o terror. Escritores fantásticos como J.R.R. Tolkien, cujo O Senhor dos Anéis (1954-1955) é muito provavelmente a ficção de maior influência em língua inglesa do século 20, ou Steven Donaldson, John Crowley ou Robert Holdstockall deixam bastante claro que, em sua opinião, existe algo de muito errado no mundo.
Para os autores fantásticos, as mudanças desordenadas dos anos que se seguiram a 1800 são tão aflitivas quanto as visões apocalípticas que ganharam vida graças à nossa presente obsessão com o Ano 2000. Para eles, o século 20 está errado desde o início. Os maiores romances fantásticos pacificam nossas angústias pela criação de outros mundos que contradizem frontalmente as histórias oficiais que nossos mestres nos contam sobre o Progresso, a Velocidade e a Uniformidade.
Tecido do mundo - É fácil acreditar que o romance policial atinge seu apogeu nas comédias clássicas de detetives, de escritores como Arthur Conan Doyle, Agatha Christie ou Rex Stout. Nos milhares de histórias contadas por esses autores e seus colegas, o detetive é chamado a solucionar um crime que transtornou o mundo que pôs a nu o caos que subjaz às atividades da sociedade à luz do dia e que, quando esclarecido, recompõe o tecido do mundo.
Mas a verdadeira história do romance policial tem outros autores. Shelley, Edgar Allan Poe, Dostoievski, Kafka, Chandler, Ross MacDonald e suas melhores histórias chegam perigosamente perto da revelação do segredo. Macdonald, James Lee Burke ou um outro autor inglês menos conhecido (mas imensamente sombrio), o falecido Derek Raymond, quase nos dizem explicitamente que há, no fim das contas, algo de errado com o próprio sabor do mundo que tentamos identificar; que há algo de errado no modo como tentamos lidar com ele.
Os romances policiais nos dizem que as pegadas que deixamos na casca de ovo do nosso frágil mundo são as marcas do pecado. Praticamente tudo o que foi publicado em 1999, em qualquer um dos quatro gêneros de angústia é, naturalmente, lixo retrô.
Na verdade, qualquer obra em qualquer um dos quatro gêneros ao longo dos últimos 200 anos tem, é claro, em certa medida, um efeito narcótico. A ficção científica, o terror, o fantástico e as histórias policiais surgiram, no fim das contas, para lidar com nosso temor da mudança dos tempos e para nos tranqüilizar.
Os tempos estão mudando de fato. Estamos entrando em um mundo que simbolizamos pelo Milênio de tamanha mutabilidade e tensão que talvez venhamos a precisar de novos narcóticos para que possamos sobreviver às estranhas noites do amanhã. Pode ser que os gêneros em
si mesmos, que tanto fizeram para aliviar-nos a fronte, tenham chegado ao fim de sua utilidade.
Existem algumas indicações de que é isso o que se passa. A mania do retrô em todos os quatro gêneros é um sinal quase certo de morte. A fusão de gêneros destrói muito da função profilática do gênero. Talvez isso seja inevitável; na verdade, é mesmo.
Dois séculos é muito tempo.
Surgem perguntas para as quais não há respostas.
Que faremos quando nossas histórias estiverem mortas?
O que vamos contar a nós mesmos amanhã?
(The Washington Post - tradução de Antivan Guimarães Mendes)
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Capacitor Fantástico
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04:00
Tag: artigos, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Mistério/Policial
terça-feira, 7 de abril de 2009
Sookie Stackhouse (Vampiro Sulino) - Charlaine Harris

Sookie Stackhouse (Livro 1 -Morto até o anoitecer, 2 - Vivendo morto em Dallas, 3 - Clube dos Mortos, 4 - Morto para o mundo, 5 - Absolutamente morto) [ Download ]
Site sobre a série de tv True Blood
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Themepunks - Cory Doctorow

"We will explore the problem-space of capitalism in the twenty-first century. Our business plan is simple: we will hire the smartest people we can find and put them in small teams. They will go into the field with funding and communications infrastructure -- all that stuff we have left over from the era of batteries and film -- behind them, capitalized to find a place to live and work, and a job to do. A business to start. Our company isn't a project that we pull together on, it's a network of like-minded, cooperating autonomous teams, all of which are empowered to do whatever they want, provided that it returns something to our coffers. We will explore and exhaust the realm of commercial opportunities, and seek constantly to refine our tactics to mine those opportunities, and the krill will strain through our mighty maw and fill our hungry belly. This company isn't a company anymore: this company is a network, an approach, a sensibility."
Themepunks - Cory Doctorow
domingo, 5 de abril de 2009
E de Espaço - Ray Bradbury

Indice
Introdução
Crisálida
Pilar de Fogo
Hora Zero
O Homem
Fuga no Tempo
O Pedestre
Saudações e Adeus
O menino invisível
Venha ao meu porão
O piquenique de um milhão de anos
A mulher gritando
O sorriso
Eles eram morenos e de olhos dourados
O Bonde
A máquina voadora
Ícaro Montgolfier Wright
E de Espaço - Ray Bradbury [ Download ]
Sobre a Digitalização desta Obra:
Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda
deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade é a marca da distribuição, portanto:
Distribua este livro livremente! Se você tirar algum proveito dessa obra considere seriamente a possibilidade
de adquirir o original: Incentive a publicação de novas obras e novos autores!
Boa Leitura!
Coletivo Adoramos Ler
Ray Bradbury

Ray Douglas Bradbury (22 de Agosto de 1920) nasceu na pequena cidade de Waukegan, USA, foi inúmeras vezes identificado como o poeta da Ficção Científica, graças a sua românticas descrições de ambientes e ricas e apaixonadas construções de personagens.
Junto com Arthur C. Clarke, Asimov, compõe a Santíssma Trindade da Ficção Científica, os três (assim como Robert Heinlein), foram os primeiros a receber o título de Grande Mestre, pela SFWA.
Bradbury preocupava-se mais com o lado humano e visionário de seus personagens do que com a descrição científica e tecnológica, o que era uma inovação para a época.
O seu estilo se tornou bastante peculiar, sendo dotado de um romantismo nostálgico.
Bradbury muitas vezes retrata o homem como refém de sua época.
Seres perplexos ante as maravilhosas mudanças que vão ocorrendo ao seu redor.
Seu livro The Illustrated Man (1951) está entre os 100 maiores livros da ficção de todos os tempos, sem esquecer de outros tantos já clássicos trabalhos, como The Martian Chronicles (1950), The Golden Apples of the Sun (1953), Fahrenheit 451 (1953) e Something Wicked This Way Comes (1962).
Ninguem melhor do que Ray Bradbury, para falar sibre ele mesmo:
Júlio Verne foi meu pai. H. G. Wells foi meu sábio tio.
Edgar Allan Poe foi o primo com asas de morcego que guardávamos lá em cima, na sala do sótão.
Flash Gordon e Buck Rogers foram meus irmãos e amigos.
Aí têm minha ascendência. Acrescentando, claro, o fato de que muito provavelmente Mary Wollstonecraft Shelley, autora de Frankenstein, foi minha mãe.
Com uma família dessas, eu não poderia deixar de ser outra coisa: um escritor de fantasia e de curiosíssimas histórias de ficção científica.
Vivi nas árvores com Tarzã uma boa parte de minha vida, com meu herói, Edgar Rice Burroughs. Quando desci da folhagem, pedi uma pequena máquina de escrever quando tinha doze anos, para o Natal. E matraqueando na máquina , escrevi meu primeiro seriado de imitação, John Carter, Condestável de Marte, e de cor, bati episódios inteiros de Chandu, o Mágico.
Mandei tampas de caixas pelo correio, e acho que juntei-me a todas as sociedades secretas do rádio que existiam. Guardei histórias em quadrinhos, a maioria das quais ainda tenho, em grandes caixas, no porão da minha casa, na Califórnia. Ia às matinês do cinema.
Devorava as obras de H. Rider Haggard e Robert Louis Stevenson.
Em meio aos verões de minha juventude, pulei alto e mergulhei bem fundo no vasto oceano do
Espaço, muito, muito tempo antes que a Era Espacial propriamente dita fosse mais do que um pontinho no telescópio de duzentas polegadas, de Monte Palomar.
Em outras palavras, eu me apaixonei por tudo o que fazia.
Meu coração não batia, explodia. Eu não me aquecia com um assunto; eu fervia.
Sempre corri e gritei quando se trata de uma lista de coisas grandes e mágicas que eu sabia que simplesmente não poderia viver sem elas.
Eu era um menino-mágico imberbe que puxava coelhos irritadiços de cartolas de "papier-mâché". Tornei-me um homem-mágico barbado que puxa foguetes de sua máquina de escrever e dos Ermos do Espaço, que se estendem tão longes quanto o olho e a mente podem ver
e imaginar.
Meu entusiasmo sustentou-me bem, através de anos.
Nunca me cansei dos foguetes e das estrelas.
Nunca cessei de gostar de me apavorar com algumas de minhas histórias mais exóticas e tenebrosas. Assim, aqui, nesta nova coleção de histórias, você encontrará não só E de Espaço, mas uma série de subtítulos que muito poderiam ser: T de Trevas, A de apavorar ou D de
deliciar. Aqui você vai encontrar quase todas as faces de minha natureza e minha vida que possa querer descobrir.
Minha capacidade de rir-me alto com a simples descoberta de que estou vivo num estranho,
selvagem, e estimulante mundo. Minha capacidade igualmente grande de pular e ir plantar groselhas quando sinto o cheiro de estranhos cogumelos crescendo em meu porão, à meia-noite, ou ouvir uma aranha cantarolando enquanto tece sua tapeçaria, no armário embutido, pouco antes do nascer do sol.
Você que está lendo, e eu, que escrevo, somos bastante iguais.
A pessoa jovem dentro de mim atreveu-se a escrever estas histórias para entretê-lo. Encontramo-nos no território comum de uma Era incomum, e compartilhamos nossos dons de sombra e luz, sonhos bons e maus, alegrias simples, e mágoas não tão simples.
O menino mágico fala de um outro ano. Fico de lado e deixo-o dizer o que mais precisa dizer. Escuto, e divirto-me. Espero que você, também.
RAY BRADBURY
Los Angeles, Califórnia -1o de Dezembro, 1965.
site oficial de Ray Bradbury
Livros de Ray Bradbury (Al Abismo de Chicago, Caleidoscopio, Cuento de navidad, Dandelion wine, Death is a lonely bussiness, El dragon, El flautista, El ordenador encantado y el papa androide, El pueblo donde nada baja, El robo sublime, En el expresso al norte, Encontro nocturno, End of the beginning, Eran morenos y de ojos dorados, Fabulas fantasticas, Fahrenheit 451, Fenix Brilhante, The foghorn, Icaro Montgolfier Wright, La tercera expediction, Las doradas manzanas del sol, Medicine for Melancholy, The october game, The pendulum, Quicker than the eye, Somethimh wicked this way comes, The sound of thunder, The illustrated man, The martian chronicles, The veldt, Tres x infinito, Unterderseaboat Doktor, When elephants last in the dooryard bloomed) [ Download ]
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Capacitor Fantástico
às
04:00
Tag: Biblioteca Fantástica, Bradbury, Fantasia, Fantástico, Ficção Científica












