
De certo que nada posso ensinar sobre escrever Ficção Cientifica(FC), ainda que muitas vezes tentamos.
Escrever ficção é uma atividade acumulativa, pelo hábito de escrever se vai dominando as técnicas narrativas e se obtêm melhores resultados.
Existem aqueles especialmente dotados que de forma natural e espontânea são capazes de escrever muito bem desde o primeiro instante. São pouquíssimos, a maioria dos escritores passam por muitas dificuldades até conseguir resolver os diversos problemas que abrangem o oficio de escrever e entreter os leitores.
Apesar disso, recentemente temos visto surgir um grande número de livros, cursos e artigos que se prepõe a ensinar, e que na realidade podem evitar que a pessoa perca tempo em suas primeiras tentativas.
Trata-se, no entanto de dar ao escritor iniciante, a possibilidade de conhecer alguns dos métodos utilizados por escritores de maior experiência. Mas não se tratam de receitas seguras.
É necessário escrever e se por a prova, mais uma vez tentar e ainda voltar a fazê-lo.
Porém, esta é uma daquelas vezes em que dar conselhos resulta num risco e agora que me pretendo a tal coisa, me recordo da famosa frase atribuída a Napoleão:
"Não me dêem conselhos, pois já sou capaz de me equivocar sozinho".
Outra advertência antes de começar. Pretendo falar sobre narrativa tradicional.
Na FC existem outras formas, como a experimental, porém não a recomendo para um escritor no inicio de carreira.
Um editor de FC italiano, me disse alguns anos atrás que a maioria dos jovens autores italianos que o procuravam, definiam suas primeiras histórias como sendo 'a novela definitiva de sua vida', aquela que haviam sido bem sucedidas em incorporar toda a mensagem temática e estilística que foi pretendida.
Não é este o ponto de vista que pretendo discutir.
Meu enfoque aqui tem mais relação com a narração bem entendida como um ofício e não como arte.
Os ofícios podem ser aprendidos enquanto que para a arte são imprescindíveis outras qualidades especiais e não somente a habilidade.Por isto, creio não ser possível ensinar-las.
Na literatura existem obras que são de arte e outras não. Se seu objetivo é escrever obras de arte, nada posso ensinar, apenas você pode ter êxito em expressar o que lhe passa internamente.
Então aqueles com pretensão artística não devem continuar lendo. Mas se o que pretende é entreter e interessar aos leitores (o que não é pouca coisa) talvez possa seguir lendo o que tenho a dizer.
Na realidade ainda que tentemos generalizar e fazer piada, escrever best-sellers é uma habilidade que se pode aprender, ainda que um fator importante é que quase sempre precisamos de um editor que aceite fazer de sua obra um best-seller... ainda que ele só o aceitará fazê-lo, se esta satisfizer alguns requisitos mínimos.
Mas comecemos.
É imprescindível saber captar e manter a atenção do leitor.
Se você é uma daquelas pessoas que sabem contar uma piada ou que quando falam sobre um filme aos amigos é capaz de fazer com que estes sintam estar vendo as imagens, então tudo está bem para você. Se é assim com você, significa que você é capaz de explicar a história e é do que se trata escrever narrativas, como no caso da FC que tratamos aqui.
Se você não é um 'narrador natural', existem quatro ou cinco coisas que pode aprender e é isto que eu vou tentar lhe mostrar a partir de agora.
A primeira coisa que deve ter em conta, ainda mais nos tempos modernos, é que apesar de você querer ser um escritor, vai encontrar pela frente pessoas que não vão estar interessadas no que você escreve. Devemos lembrar sempre que o leitor está cercado de outras atividades recreativas, como a televisão, o cinema, os jogos, esportes, artes, etc.
Se o leitor for utilizar seu precioso tempo para ler sua história, deve ser algo que vai ser recompensador, afinal trocar seu tempo pela leitura.
Os elementos narrativos.
Se pode interessar ao leitor descrevendo um ambiente novo e surpreendente, uma nova sociedade, uma tecnologia diferente, alguns seres fascinantes, roupas estranhas, etc.
Na Ficção Científica este é um elemento com muitas e ricas possibilidades, e na realidade o chamado 'sense of wonder' que se aponta como característico do gênero, reside nesta 'ambientação' que os americanos chamam de 'background' (pano de fundo).
Também se pode captar o interesse do leitor com a idéia central da história.
As vezes a idéia reside precisamente nesta ambientação, em que transcorre a narrativa, e se a FC é realmente uma literatura de idéias, como dizem alguns, muitas vezes tudo começa a partir de uma idéia.
Vejamos um exemplo famoso: O que ocorreria se o sexo de uma pessoa não fosse estável, se durante a vida de uma pessoa, ela pudesse ser tanto homem quanto mulher? Uma resposta a isso podemos encontrar em 'The left hand of darkness' ('A mão esquerda da Escuridão') de Ursula K. Le Guin, uma história clássica de Ficção Cientifica.
Na Ficção Cientifica, a principio (ainda que não sempre) é a idéia o motor principal da narrativa, ou em todo caso, da vontade do escritor em contar a história.
Outra possibilidade de atrair o leitor é através dos personagens.
Podem ser tanto atrativos quanto repulsivos, mas em qualquer um dos casos, não devem deixar o leitor indiferente. Por exemplo, os vilões: JR de Dallas era suficientemente malvado para interessar aos espectadores, como também por outras razões, são os heróis. Os leitores vão se identificar com o personagem e este é o meio mais antigo e mais seguro de atrair o interesse do leitor.
Para tal, os personagens devem reagir como faria um ser humano, com seu conhecimento, seu caráter, como o escritor imagina que ele deve ser.
E o mais importante de tudo, o personagem principal ou protagonista, deve mudar em conseqüência daquilo que ocorre. Todos sabemos que a vida nos faz mudar, as vezes pouco ou muito, e não seria verossímil que este personagem importante passasse por desventuras sem 'evoluir'.
Na prática, muitas histórias de FC tem pouco ou quase nenhum prestigio literário ou narrativo devido a personagens que são caricatos e não reagem como se pode esperar logicamente como conseqüência do que lhes ocorre. Pense por exemplo nos personagens de Han Solo de Star Wars ou James T Kirk de Star Trek ou ainda com Harrison Ford, o aventureiro arqueólogo Indiana Jones. Para eles, a aventura não significa nada, pois são sempre os mesmos. Procure evitá-los.
Mesmo assim, as vezes criamos personagens que não evoluem, com toda certeza por que a trama da história resulta em ser tão interessante que é o bastante pata prender a atenção do leitor/espectador. As aventuras de Indiana Jones ou de James Kirk são por si só eficientes para manter o espectador preso a ela.
Aqui vai então outro conselho: Nunca conte tudo.
Deixe que o leitor fique intrigado por algo que o motive a virar uma página após a outra. Qual os vilões tradicionais, que vão amarrando aos poucos seus argumentos. Ainda que torne a trama mais complexa, devemos ser capazes de juntar todas as pontas de forma que o leitor não se sinta enganado ao fim. Nunca duvide do poder de um mistério, ele é praticamente imprescindível.
Imagine a pobreza temática de uma saga como Star Wars sem a 'força'!
Para mantermos uma trama eficiente, precisamos de conflitos.
Os personagens devem passar por problemas, e a narrativa deve explorar como eles fizeram para solucioná-los ou como fracassaram.
Os problemas ou conflitos, devem ser grandes (o centro da história) e pequenos (que dão vida e mantêm a ação em movimento). É conveniente que haja um grande clímax que solucione a história, mas devem também ocorrer outros pequenos climaxes que resolvam os conflitos menores e preparem o caminho para o final.
É claro que tudo isto depende do tamanho da história e como disse, não existem receitas únicas.
Em todo caso, é conveniente destacar aqui que personagens distintos devem resolver de forma diferente os mesmos problemas, ou melhor, para personagens diferentes, o mesmo fato deve gerar conflitos distintos.
Um breve resumo.
Já temos cinco elementos que podem manter o leitor interessado em nossa história.
Há outros além destes, mas estes são os principais na maior parte das vezes.
É lógico que em cada narrativa, um pode se sobressair em relação ao outro.
Nas histórias de aventura, são os conflitos, a trama e os perigos que enfrentam os personagens são o aspecto dominante. Em contos curtos, a idéia é tudo.
Nas narrativas mais longas é possível se organizar histórias centrais, cercada por outras menores, que a complementam, cuidando sempre para que estas não sejam gratuitas e tenham fácil e compreensível relacionamento com o eixo principal.
Para sintetizar, poderia dizer que:
A trama é o que se sucede, o conflito é a razão final do que se sucede, o motor da trama, o pano de fundo é a circunstância ou o lugar onde ocorre a trama e os personagens são aqueles aos quais as coisas acontecem e que desejam solucionar os problemas e que acabam mudando em conseqüência disso.
A idéia, se existe explicita como elemento central, é o que move o escritor, porém, isto é muito importante, deve ser mostrada de forma indireta por meio dos elementos discutidos anteriormente.
Convém lembrar que é imprescindível ter a atenção do leitor enquanto este está lendo e também depois de terminar a leitura. O leitor deve poder pensar que o tempo gasto na leitura foi bem usado. Deve pensar que se tratou de um bom entretenimento e inconscientemente também propor uma reflexão a partir da idéia apresentada e da sua especulação. Deve sentir-se maravilhado e satisfeito pelo que encontrou ao ler, para que possivelmente o personagem principal, por algum tempo permaneça em sua memória.
Inventando histórias.
Parece que o principal problema para os jovens escritores é encontrar uma boa história.
Muitos autores de livros e palestrantes em cursos se vêem constantemente diante da pergunta:
'De onde os escritores tiram suas histórias?'
Novamente não há uma receita fácil nem única.
Graham Greene fala sobre a necessidade um bom narrador ser também um bom observador e creio que isto também vale para escritores de FC.
Exagerar alguma característica social, tecnológica ou econômica observável, colocar um personagem em um ambiente exótico, ou em uma situação imprevista, inventar o que ocorreria se...etc.
Os caminhos para se encontrar uma história são os mais variados e sempre podemos encontrar novos caminhos.
De fato, devido a anos e anos de Ficção Cientifica, a maior parte das histórias que se podem inventar, muito provavelmente já foram exploradas.
Orson Scott Card, aconselha que não devemos nos preocupar com isso. É difícil ter idéias verdadeiramente novas e que não tenham sido exploradas. Porém, mesmo que repita uma história (é óbvio, evitando sempre o plágio) pode se dar um enfoque diferente, um ponto de vista novo.
Pensemos no exemplo de 'AVISO' de Cristobal Garcia, que ganhou um prêmio UPCF em 1993.
A história que nos narra Cristobal, possivelmente não é nova, porém a escolha da forma narrativa se tornou interessante. As vezes quando se carece de novas idéias, podemos praticar sobre um conto velho, ou algo que foi lido algum tempo atrás e que nos recordamos.
Sem o reler, tão somente através da nossa lembrança, podemos escrever uma nova versão e depois disso, comparar ao conto original, e reparar nas diferenças.
É um bom exercício!
Como a memória é sempre seletiva, pode ocorrer de o novo conto resultar em algo totalmente diferente do original e bastante razoável para utilizarmos.
Robert A. Heinlen, um dos escritores mais admirados nos EUA, costuma chamar atenção de três temas centrais nas histórias.
Homem encontra mulher, uma história de amor ou de uma busca e do seu fracasso.As variações são infinitas. O mocinho valente ou o contrário. O personagem que evolui, aprende. A história de alguém que pensa de uma maneira ao iniciar a narração e por conseqüência dos conflitos, muda sua forma de pensar.
É claro que são muitas as variáveis, mas se Heinlein conseguiu construir uma carreira de êxito com isso, talvez você também possa. Lembre que Heinlein foi o primeiro que conseguiu viver de sua profissão, como escritor de Ficção Cientifica. Em nosso país, por enquanto isto não é possível, mas talvez quem sabe no futuro?
Alguém deveria começar a tentar.
Um caminho para construir histórias.
Para concluir uma compilação de conselhos, da minha maneira resumida, a partir das dicas passadas pelos editores da revista Asimov Science Fiction, e que me parece bastante razoável.
Comece com uma idéia.
Leve esta idéia para a vida, através de um conflito. Utilize o personagem que possa melhor 'dramatizá-la', e faça com que este seja afetado pelos eventos que vão se suceder.
Estabeleça uma seqüência de fatos, uma trama, que pode mostrar os passos principais através dos quais os seus personagens detectam o problema ou os problemas, buscam as soluções possíveis e procuram levar a pratica estas soluções.
Prepare uma ambientação para envolver tudo que vai se suceder na história. Faça que seja razoável, Não é necessário que a explique detalhadamente mas também, como um futuro escritor, deve ter tudo muito claro em sua imaginação.
Se for possível, inicie a história da metade, já apresentando o conflito, de modo a atrair o leitor.
Na maioria dos casos, o escritor deve ter domínio sobre a estrutura geral da trama, inicio , meio e fim, segundo estabelece a tradição clássica, mas nada o obriga a manter uma narrativa linear.
Busque um bom ponto de vista para explicar a história (convêm dizer que esta é uma tarefa bastante complexa, e que merecia um tratamento a parte para o qual não é possível no momento.)
Mas, vamos deixar de teorias...escreva!
Advertência Final. Tudo isto deve resultar evidentemente insuficiente para se escrever profissionalmente, mas não para se começar!
Talvez fosse interessante estudar alguns contos, analise-os como foram feitos e encare como exercício, reconhecer nele os elementos que discutimos, identificar os conflitos (principais e secundários), analisar a trama, localizar o ponto de vista sob o qual está sendo narrado, veja como os personagens sofrem mudanças, estude a harmonia do ambiente criado e identifique a idéia central.
A maioria dos cursos de literatura nos faz realizar estas abordagens, as vezes com mais ou menos teoria.
A prática é em definitivo, a única que encerra a verdade.
Comece analisando como se faz porém pratique você também.
O caminho não é curto, mas vale a pena.
Conselhos para escrever FC - Bruce Sterling (da versão de Miguel Carqueija)
terça-feira, 21 de abril de 2009
Conselhos para escrever Ficção Científica - Bruce Sterling
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Marte Vermelho, Marte Verde e Marte Azul - Kim Stanley Robinson

("Mars was empty before we came.
That’s not to say that nothing had ever happened. The planet had accreted, melted, roiled and cooled, leaving a surface scarred by enormous geological features: craters, canyons, volcanoes. But all of that happened in mineral unconsciousness, and unobserved. There were no witnesses—except for us, looking from the planet next door, and that only in the last moment of its
long history. We are all the consciousness that Mars has ever had.
Now everybody knows the history of Mars in the human mind: how for all the generations of prehistory it was one of the chief lights in the sky, because of its redness and fluctuating intensity, and the way it stalled in its wandering course through the stars, and sometimes even reversed direction. It seemed to be saying something with all that. So perhaps it is not surprising that all the oldest names for Mars have a peculiar weight on the tongue—Nirgal, Mangala, Auqakuh, Harmakhis— they sound as if they were even older than the ancient languages we find them in, as if they were fossil words from the Ice Age or before. Yes, for thou sands of years Mars was a sacred power in human affairs; and its color made it a dangerous power, representing blood, anger, war and the heart.
...
And Mars has never ceased to be what it was to us from our very beginning—a great sign, a great symbol, a great power.
And so we came here. It had been a power; now it became a place.)
Red Mars - Kim Stanley Robinson [ Download ]
The point is not to make another Earth. Not another Alaska or Tibet, not a Vermont nor a Venice, not even an Antarctica. The point is to make something new and strange, somethingMartian.
In a sense our intentions don’t even matter. Even if we try to make another Siberia or Sahara, it won’t work. Evolution won’t allow it, and at its heart this is an evolutionary process, an endeavor driven at a level below intention, as when life made its first miracle leap out of matter, or when it crawled out of sea onto land.
Again we struggle in the matrix of a new world, this time truly alien. Despite the great long glaciers left by the giant floods of 2061, it is a very arid world; despite the beginnings of atmosphere creation, the air is still very thin; despite all the applications of heat, the average temperature is still well below freezing. All these conditions makesurvivalfor living things difficult in the extreme. But life is tough and adaptable, it is the green force viriditas, pushing into the universe. In the decade following the catastrophes of 2061, people struggled in the cracked domes and torn tents, patching things up and getting by; and in our hidden refuges, the work of building a new society went on. And out on the cold surface new plants spread over the flanks of the glaciers, and down into the warm low basins, in a slow inexorable surge.
Of course all the genetic templates for our new biota are Terran; the minds designing them are Terran; but the terrain is Martian. And terrain is a powerful genetic engineer, determining what flourishes and what doesn’t, pushing along progressive differentiation, and thus the evolution of new species. And as the generations pass, all the members of a biosphere evolve together, adapting to their terrain in a complex communal response, a creative self-designing ability. This process, no matter how much we intervene in it, is essentially out of our control. Genes mutate, creatures evolve: a new biosphere emerges, and with it a new noosphere. And eventually the designers’ minds, along with everything else, have been forever changed.
This is the process of areoformation.
Green Mars - Kim Stanley Robinson [ Download ]
Mars is free now. We’re on our own. No one tells us what to do.
Ann stood at the front of the train as she said this.
But it’s so easy to backslide into old patterns of behavior. Break one hierarchy and another springs up to take its place. We will have to be on guard for that, because there will always be people trying to make another Earth. The areophany will have to be ceaseless, an eternal struggle. We will have to think harder than ever before what it means to be Martian.
Her listeners sat slumped in chairs, looking out the windows at the terrain flowing by. They were tired, their eyes were scoured. Red-eyed Reds. In the harsh dawn light everything looked new, the windswept land outside bare except for a khaki scree of lichen and scrub. They had kicked all Earthly power off Mars, it had been a long campaign, capped by a burst of furious action following the great flood on Terra; and they were tired.
We came from Earth to Mars, and in that passage there was a certain purification. Things were easier to see, there was a freedom of action that we had not had before. A chance to express the best part of ourselves. So we acted. We are making a better way to live.
Blue Mars - Kim Stanley Robinson [ Download ]
Marte na imaginação dos escritores de Ficção Científica e a Terraformação de Marte

Marte é o astro que mais impressionou as mentes primitivas em virtude de sua coloração avermelhada, que fez com que fosse associado às divindades guerreiras em quase todas as mitologias.
Houve um momento na História da Astronomia em que a imaginação e a criação do cientista muito se aproximaram da do escritor de ficção científica.
Nessa época, fins do século XIX e início deste, as interpretações das observações realizadas pelos astrônomos constituíram o elemento principal das motivações para as histórias de marcianos. Tudo começou durante a posição periélica de 1877, em três países: Brasil, Estados Unidos e Itália. De fato, quase que simultaneamente os estímulos surgiram, inclusive no Brasil, talvez para espanto daqueles que pouco conhecem a memória nacional. Em nosso país, enquanto o astrônomo brasileiro de origem belga Louis Cruls (1848-1908) observava e determinava o período de rotação do planeta Marte, o seu colega francês, Emmanuel Liais (1826-1900), na época diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, emitia a hipótese de que as variações de coloração das manchas escuras da superfície marciana estavam associadas às mudanças climáticas (períodos de seca e umidade) reinante na atmosfera do planeta ao longo das quatro diferentes estações do ano marciano. Na Itália, o astrônomo milanês Giovanni Schiaparelli (1835-1910), no Observatório de Milão, desenhava uma rede de canais na superfície do planeta vermelho, que os astrônomos logo em seguida iriam, com entusiasmo, supor serem canais artificiais de irrigação num planeta árido. Por outro lado, nos EUA, o astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829-1907), ao lado de sua esposa Angelina, no Observatório Naval, em Washington, descobriu os satélites Fobos e Deimos. A descoberta desses satélites, previstos anteriormente por Kepler em carta a Galileu, pelo escritor inglês Jonathan Swift (1667-1745) e, pelo filósofo e escritor Voltaire (1694-1778), serviu de grande estímulo para os que desconheciam as razões científicas destas previsões, não só entre o povo, mas também entre os escritores de ficção-científica.
Assim, constituía-se a primeira cena que os anos seguintes iriam teatralizar na forma de um planeta com uma civilização ultra-avançada e povoado por marcianos belicosos, talvez em razão de Marte, desde a Antigüidade, estar associado à guerra.
As observações de Marte passaram a ser cada vez mais ricas em detalhes sobre os canais de Schiaparelli e as vegetações de Liais. Elas evidenciaram, de modo eloqüente para a época, que os marcianos existiam de fato. Lá estariam os canais artificiais de irrigação, capazes de levar a água proveniente do degelo das calotas polares ao equador, provocando as alterações cromáticas da vegetação. Para confirmar, era suficiente ler os livros dos mais importantes astrônomos da época, dentre eles os norte-americanos Percival Lowell (1855-1916) e William Pickering (1858-1938).
Começaram a surgir os livros de ficção científica com os marcianos em ação.
Ao lê-los, era possível sentir como foi forte e decisiva a influência dos astrônomos.
O primeiro escritor a dedicar um livro a Marte e seus habitantes foi o historiador e poeta inglês Percy Gregg (1836-1889), em Across the Zodiac (Através do Zodíaco, 1880)[ Download ].
Uma década depois surge o relato de Hugh Mae Coil, em Mr. Stranger´s Sealed Packet (1889), com um herói que defende a paz contra o ataque de uma raça mais agressiva. Logo em seguida, duas histórias de amor (love story) interplanetário; a primeira foi A Plunge in to Space (1890), de Robert Cromie, e, a segunda, A Journey to Mars (1894), de W. Pope, com maiores detalhes sobre o planeta vermelho. Três anos mais tarde surge a antecipação romanceada do escritor alemão Kurd Lasswitz (1848-1910), com a obra Auf Zwei Planeten (O segundo planeta, 1887) e a breve visão de Marte em The Cristal Egg (1897), daquele que seria sem dúvida o escritor a utilizar o planeta Marte com o máximo impacto na ficção científica - o escritor inglês H.G . Wells. De fato, no ano seguinte, apareceu o mais notável romance sobre os marcianos - A Guerra dos Mundos (1898).
A arte também sofreu tal influência, em particular os artistas que se dedicaram à antecipação científica, como é o caso do brasileiro Henrique Alvim Corrêa (1876-1910), um dos mais notáveis ilustradores da obra de Wells e, sem dúvida, um dos mais importantes desenhistas da difícil arte que é a ilustração científica de antecipação. Confirmando esta nossa ilação da ação pragmática dos astrônomos, é suficiente verificar que Wells citou em sua obra diversos astrônomos, Schiaparelli e o francês Henri Perrotin (1845-1904), do Observatório de Nice, como se quisesse dar maior base científica ao seu relato. Apresentando-os como personagens, vivas caricaturas de alguns astrônomos contemporâneos, podemos melhor compreender o clima que imperou no mundo durante os primeiros decênios do século XX.
No começo do século, o escritor francês Gustave le Rouge (1867-1938) publicou Les naufragés de l'espace (Os náufragos do espaço, 1908). A bem da verdade, a obra tem uma continuação. L´Astre d'épouvante (O astro do terror, 1909). Conta-se a história do cientista Robert Darvel, que é enviado a Marte por energia mental. Lá encontra uma civilização antropomorfa, mas não primata, isto é, outros mamíferos e moluscos é que assumiram o aspecto humanóide. Em Marte, Darvel encontrou a explicação para os canais schiaparellianos que sulcam a superfície do planeta de forma tão retilínea. Seu construtor é uma espécie de herbívoro fossador, no gênero da toupeira terrestre, mas que atingiu dimensões gigantescas. Depois de várias peripécias, arriscando a vida muitas vezes, Darvel é mandado de volta à Terra, também por energia mental.
Mais, tarde, em 1917, o escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950) transporta para o espaço a Primeira Guerra Mundial em sua obra A Princess of Mars (Uma princesa de Marte)[ Download ], onde marcianos vermelhos e verdes viajaram em veículos de forma de banheiras propulsionadas por raios e atirando balas de rádio com fuzis equipados por radar.
De todas as obras de ficção escritas sobre Marte, a que maior sucesso obteve foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, sem dúvida o romance que mais contribuiu para popularizar os marcianos, transmitindo ao leigo a concepção de que Marte possuía a mais avançada civilização, o que conseguiu divulgar todas as notícias sobre as descobertas acerca do planeta. Baseado na obra de Wells, o norte-americano George Pal (1908- ) produziu um dos melhores filmes de ficção-científica desde século. Analogamente, uma radiofonização da Guerra dos Mundos, por Orson Welles, em 1938, provocou terror e pânico em cidades dos EUA. Apesar das explorações das sondas espaciais e das conclusões dos astrônomos sobre a não-existência dos marcianos, a sua existência na ficção é real, como determinados mitos que povoam a mente primitiva do homem.
É conveniente lembrar que os escritores de ficção-científica criaram um mundo marciano que existia em sua mente... E, no entanto, os astrônomos viram os canais artificiais que os marcianos "construíram".
(...)
A terraformação de Marte na ficção científica
A idéia da terraformação do planeta vermelho em um astro habitável encontra-se no filme de ficção científica, Vingador do Futuro (Total Recall , EUA, 1990) de Paul Verhoeven, uma adaptação do romance de Philip K. Dick, no qual o planeta não ocupa um papel muito importante. Ao contrário, no filme ele é apenas o cenário central da trama que envolve Douglas Quaid, seu herói principal, representado pelo ator Arnold Schwarzenegger que, na cena final, deveria morrer na superfície desolada de Marte, quando é salvo pela brutal erupção de uma atmosfera respirável: Marte se torna habitável em alguns segundos. Na realidade, séculos e milhares de anos seriam necessários. Mas, na imaginação da ficção-científica tudo é possível.
Mais cautelosos são os três livros de ficção-científica escritos por Kim Stanley Robinson: Marte vermelho, Marte verde e Marte azul; todos eles inspirados nas idéias de Robert Zubrin. Com efeito, os seus títulos exprimem as diferentes etapas da terraformação de Marte e do seu povoamento de Marte pelo homem.
Outro notável filme a utilizar as idéias de Robert Zubrin é o Red Planet, de Anthony Hoffman (EUA, 2000), no qual uma equipe de astronautas é enviada ao planeta vermelho para investigar o que não deu certo no projeto de terraformação de Marte, descobrindo que existia uma atmosfera respirável e um tipo de inseto vivo gerado pelas algas lançadas no programa de terraformação do planeta. Tais insetos, além de terem destruído a base lançada anteriormente, constituíam uma ameaça aos astronautas.
Na atualidade, um dos grandes defensores dos ciclos ecológicos fechados e da exploração dos recursos extraterrestres é o engenheiro norte-americano Robert Zubrin, principal líder do movimento espacial norte-americano, depois do desaparecimento de Gerard O'Neill, e um dos fundadores da Mars Society, criada com objetivo de promover uma conquista rápida de Marte. Para Robert Zubrin, será possível enviar astronautas para o planeta Marte nos próximos dez anos, com um custo de 50 bilhões de dólares, despesa inferior à da Estação Espacial Internacional.
Zubrin planejou uma reduzida expedição a Marte com um modesto veículo espacial que utilizasse quase somente recursos recicláveis. Uma das propostas mais avançadas é a exploração das fontes marcianas capazes de produzir os combustíveis necessários às naves de regresso à superfície terrestre.
Imagina-se que esta técnica poderá ser rapidamente desenvolvida, podendo servir, desde os primeiros anos do século XXI, para as próximas missões automáticas de reconhecimento da superfície do planeta vermelho.
Zubrin não é um mero visionário: as suas exposições vêm sendo confirmadas por experiências realizadas em seu laboratório do Colorado, onde testou um aparelho capaz de fabricar propergóis a partir dos gases existentes na atmosfera marciana. Tal sistema poderá ser colocado na superfície do planeta Marte e, deste modo, reabastecer as sondas que deverão trazer as amostras para a Terra nos próximos anos. Uma versão maior deverá ser utilizada mais tarde pelos veículos que transportarão os primeiros exploradores humanos do solo de Marte à superfície terrestre. Para reduzir os gastos durante essas viagens, será possível também fazer uma escala de ida-e-volta a Fobos - um dos dois pequenos satélites de Marte - de onde serão extraídas água e matérias orgânicas, importantes para a vida dos eventuais astronautas assim como para a produção dos combustíveis no próprio local.
Hoje, quando alguém descobre que está ao lado de um astrônomo, invariavelmente pergunta se ele acredita ou não em discos voadores. Tal pergunta surgiu após os anos 1960, pois antes, em particular desde 1880, a indagação normal aos astrônomos era sobre os marcianos: Há ou não habitantes no planeta Marte? A resposta variava muito, na realidade dependia da inclinação pessoal do astrônomo. Assim, até os anos 1920, a maior parte dos astrônomos afirmaria que alguns dos seus colegas acreditavam na existência dos marcianos; uma civilização muito avançada tecnologicamente em relação à nossa. Entre 1920 e 1935, a resposta predominante seria que existe uma dúvida muito grande com referência aos marcianos inteligentes. Depois de 1935, começou a se reduzir o número de defensores da idéia de ser Marte habitado por uma civilização muito avançada. As dúvidas eram cada vez maiores. Todavia as novelas de ficção tendo como personagem os marcianos e como cenário a superfície marciana continuaram a surgir no mundo, independentemente da verdade científica e, em muitos casos, com visível verossimilhança e grande beleza poética.
(Do original 'Marte - da exploração à colonização' - Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.)
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão - Doutor pela Universidade de Paris (Sorbonne), é membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB); astrônomo e pesquisador titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, do qual foi o criador e primeiro diretor. Primeiro Prêmio José Reis do CNPq (1979) é autor de mais de 70 livros, dentre eles o Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica - 2ª edição revista e ampliada -, o único dessa especialidade no mundo com mais de 30.000 verbetes.
domingo, 19 de abril de 2009
Ursula K. Le Guin

Ursula Kroeber Le Guin (21 Outubro de 1929) nasceu em Berkeley, California (EUA). Autora de romances, poesia, livros infantis, ensaios, mais conhecida por seus livros e séries de Ficção Científica e Fantasia e por seu estilo preciso e didático, abrangendo temas como taoísmo, anarquia, psicologia feminista e temas sociológicos.
Seu primeiro livro (de poesias) foi publicado em 1960 (quando lecionava francês) e atualmente é considerada como uma das melhores autoras de Ficção Científica moderna, tendo recebido 5 prêmios Hugo e 6 prêmios Nebula, além dos títulos de Mestre em Fantasia (Gandalf Grand Master em 1979) e Ficção Científica (Science Fiction and Fantasy Writers of America Grand Master Award em 2003).
Seu pai, Alfred Kroeber, um imigrante alemão, fundou o departamento de antropologia da faculdade de Berkeley. Sua mãe, Theodora, dividia sua fascinação pela vida nos americanos nativos, e escreveu 'Ishi in two worlds' (1961), um encontro dos indios Yahi com a civilização. 'Nos tinhamos uma casa cheia de folclore', diz Le Guin que vê a fronteira entre a civilização e a barbárie como os 'confins de uma mente solitária'.
Durante os verões no rancho da familia em Napa Valley, seus 'tios' nativo americanos lhe apresentaram ao rico mundo de sua cultura oral e o fanatismo que enfrentavam. Eles e o vale inspiraram 'Always comimg home' (1985), sobre um holocausto californiano, pós-nuclear.
'O homem branco não é pra mim o equivalente ao ser humano, como na maioria da fantasia que li', ela diz, 'Fiz uma escolha consciente para fazer a maior parte de meus personagens, pessoas de cor.'
Na saga 'Earthsea', Ged é moreno, cor de cobre avermelhado e seu amigo Vetch é negro.
'Estive em batalhas intermináveis com o departamento responsável pelas capas. Gradualmente as pessoas nos livros vão 'escurecendo'. Os primeiros livros deixaram de ser adaptados para a televisão no formato de mini-series para o canal Sci-fi no passado, mas isto já foi motivo de confusão e merece ser deixado em paz', diz Le Guin.
Seu roteiro para a tv foi esquecido ('eles disseram que não era o momento para 'fantasia' em Hollywood').
'De JRR Tolkien eu aprendi o truque de construir um ambiente com muito pouco, de modo que você se sente no mundo real, não em uma fantasia. '
Mas ela encontraria pela frente muito de C.S. Lewis 'simples apologia cristã, cheia de ódio e condenação àqueles que não se submetiam.'
'A divisão entre bem e mal era algo diferente em Tolkien, onde os seres maus eram apenas uma metáfora do mal em nossas vidas; ele nunca lançou a maldade como sendo algo externo, como C S Lewis gostava de fazer'.
Fantasia é quase sempre confundida com escapismo, para Le Guin, ela é a linguagem natural da jornada espiritual e da luta entre o bem e o mal na alma humana. E se assemelha ao sonho, 'os símbolos parecem ser universais e acessíveis para todos. São os mesmos através das épocas. Lemos sobre o épico de Gilgamesh e lá está. A linguagem simbolica é básica, mas não primitiva, nem infantil, é uma profunda gramática da compreensão'.
Ela preenche uma linhagem da fantasia, de Frankenstein a PKD, abarcando Borges, Calvino, Saramago e Gabriel Garcia Marquez. mas também se inspirou em outras tradições, de Dickens e Tolstoy.
'Você tem que mirar tão alto quanto você possa!'.
Le Guin abandonou o 'hardware e soldados' da Ficção Científica da sua adolescência.
'Eram concepções conservadoras, homem branco vai e conquista o universo. Como filha de um antropologista você começa a olhar pelo lado do conquistado. Eu costumava assistir Jornada nas Estrelas (Star Trek), até que o programa saiu dos trilhos com a Voyager. Não há muito para se ver na televisão americana, a não ser que você esteja viciado em violência e risadas enlatadas. Você sabia que a maioria das risadas destes programas são tão antigas que as pessoas que você ouve rindo do sitcom já estão mortos?'
Nos anos 60 ela tornou-se parte de uma geração 'não interessada na conquista do espaço, mas em usar a forma como uma caixa para metáforas, com que você pode brincar sem limites, como o músico faz com uma sonata.
Seus planetas alternativos relatados pelos emissários, como antropologistas da era espacial, são experimentos do pensar, assinalando o tempo presente e não predizendo ou extrapolando com o futuro. O romance retira o essencial da natureza humana, do mutável.
'Mudar é a palavra chave', você está abrindo a porta para a imaginação e para a possibilidade das coisas serem outras, diferentes do que são.
Ela também alimenta um interesse em gênero e sexualidade.
'É um tremendo playground, e não há prejuizo para a cabeça das pessoas quando as fazemos pensar. Faço o meu pensar de forma narrativa'.
No princípio de 'A mão esquerda da escuridão', era uma sociedade que nunca conheceu uma guerra. Mas todos são andróginos e o Rei está grávido.
'Eu eliminei o gênero para ver o que sobrava. Algumas feministas não aprovaram.'
'Enquanto que com a FC eu destrui o gênero, minha imaginação para a fantasia foi mais tradicional. '
Site de Ursula K.Le Guin
Ursula K.Le Guin ( Buffalo Gals, Day before the revolution, Dia del perdon, El nombre del mundo es bosque, El poder de los nombres, Abril em Paris, The Dispossessed, Seleção Amazing Stories, Hainish séries, Terramar séries, City of ilusion, The Telling, Darkrose and diamonds, Dragonfly, El mundo del Rocannon, Exile, Ways to forgiveness, Solitude, The flyers of Gy an interplanetary tale, The visionary, The word for world is forest, Unlocking the air, 10 books and short stories )
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sábado, 18 de abril de 2009
Top 10 da Ficção Científica escrita por mulheres

1. The Left Hand of Darkness -Ursula K. Le Guin [ Download ]
Uma aventura politicamente sofisticada sobre sexo e sociedade, na qual os nativos (que podem escolher em seu período fértil, serem do sexo masculino ou feminino) são moralmente complexos. Algumas das passagens do livro, como a travessia através do gelo de Gobrin e a impossível amizade entre o humano Genly Ai e Estraven, são memoráveis.
2. Where Late the Sweet Birds Sang - Kate Wilhelm [ Download ]
Quando a primeira brisa pós-apocalipse chega ao vale de Shenandoah, encontra os Sumners prontos. Isolados em sua cidadela, a família e seus descendentes têm tudo aquilo que precisam para sobreviver, graças à avançada tecnologia. Contudo a família é vítima de uma praga que os torna estéreis e a clonagem se torna a única solução. E os últimos representantes da antiga civilização perdem aquilo que os tornavam humanos, seu espírito.
Considerada a melhor história já escrita sobre clonagem.
3. Love is the Plan, the Plan is Death - James Tiptree Jr [ Download ]
James Tiptree Jr (ou Alice Sheldon) era famosa pelo estilo inteligente, áspero e ousado de suas histórias psicosexuais, como Love is the Plan, the Plan is Death, saudado como 'irresistivelmente masculino", antes de ser desmascarada. Outra de suas características mais notáveis está na sua habilidade incomum de criar personagens alienígenas não-humanoídes inesquecíveis.
4. The Female Man - Joanna Russ [ Download ]
Considerado até hoje como um divisor de águas na FC, uma revelação na época de sua publicação, The Female Man é genuinamente experimental, inteligente, divertido, violento e profético. Fonte também para ideias de uma eco-utopia tecnológica.
5. Cyteen - C.J. Cherryh [ Download ]
C.J. Cherryh é uma das maiores autoras dentro da chamada Space Opera. Impressionante pelo realismo com que elabora suas gigantescas espaçonaves e complexos universos, além de criar personagens tecnologicamente modificados. Cyteen é uma série sobre a fragmentação de impérios, humanos em sua origem, diferentes em seus métodos, mas semelhantes na sua volúpia por poder. Dominação e escravidão, um espelho sombrio da guerra fria e uma assustadora obra de FC.
6. Grass - Sheri Tepper [ Download ]
Os romances de Sheri Tepper fazem grande sucesso junto ao público, o que poderia ser a princípio preocupante, mas Grass é diferente de tudo. A história se passa em um espantoso mundo de campos verdes. A dura realidade da destrutiva e agressiva cultura de expansão colonial do homem dá o tom moral, mas no centro do livro está o personagem de Marjorie Westriding, e sua descoberta do sublime. Fabuloso!
7. Lunatic Bridge - Pat Cadigan [ Download ]
Batizada pelo jornal Guardian como a Rainha do Ciberpunk, Pat leva o casamento entre mente e tecnologia, para onde ninguém se atreve a ir. Apesar de ignorada pelos críticos e desconhecida pelos leitores em geral, ela é essencial para se entender o que é ciberpunk.
8. Praxis - Karen Joy Fowler [ Download ]
Seus livros são sempre recheados de temas pouco plausíveis e quase surreais, porém contados através de personagens cativantes. A história de Praxis se passa em um mundo no futuro, repleto de intrigas, tendo 'cibernéticos' como escravos e uma peça de Shakespeare que termina em assassinato. Ou não. Karen brinca com o mistério e a realidade de uma forma que lembra o melhor de Philip K.Dick.
9. Nanotech - Queen City Jazz - Kathleen Ann Goonan [ Download ]
De certa maneira, Nanotech é uma série pós-apocalíptica, onde os personagens se deparam com um mundo transformado por uma bizarra praga cósmica. Mais do que isso, trata-se de uma tour pelas consequências do pensamento evolutivo radical. É como enxergar a nós mesmos, livres da escravidão darwiniana. O que aconteceria se nossos organismos se transformassem em dados nas redes de DNA-informação, tão penetrante ao mundo real que nos tornássemos parte do software?
10. Natural History, Mappa Mundi e Silver Screen - Justina Robson [ Download ]
Houve um tempo, não muito distante, quando haviam poucas escritoras britânicas de Ficção Científica. Tal qual Mary Shelley foi avis rara na sua época, Justina Robson era uma destas veteranas, com várias indicações para o prêmio Arthur C.Clarke (por Silver Screen e Mappa Mundi.)
Natural History mergulha em direção ao espaço profundo, permeado por ciência esotérica e conduzida com humor e pontadas políticas. Foi considerado um dos melhores livros de Ficção Científica do Reino Unido na época de seu lançamento.
Mappa Mundi é FC hard, explora a essência da identidade tanto herdada quanto construída tecnologicamente. Em um futuro próximo, quando a nano-medicina torna capaz criar-se um modelo mapeado de um cérebro humano vivo, a psicóloga Natalie Armstrong vê seu trabalho se tornar crucial para o aprimoramento de um projeto militar de controle da mente.
Em seu primeiro e supreendente livro, Justina oferece ao leitor um envolvente cenário, povoado por amistosas Inteligências artificiais (IA) no ciberespaço. A insegura e um pouco-acima-do-peso-ideal heroína da história, Anjuli O'Connell, se vê em apuros devido a sua memória fotográfica, e seu melhor amigo, além disso, é uma IA chamada 901, que parece estar envolvido na morte de um humano que realizou um upload de sua mente para o ciberespaço. O livro trata com dinamismo e de forma envolvente, o velho dilema comum na FC: "Onde termina a vida e onde começa a máquina."
(adaptado a partir de "Gwyneth Jones: top 10 science fiction by women writers")
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Ficção Científica, Ciências Ocultas e Mitos Nazistas

Não é minha intenção fazer pouco do nacional-socialismo interpretando-o em termos de fantasias pitorescas. Todavia, negligenciar e ver como inofensivos os elementos totalmente irracionais do nazismo, evidentes desde sua primeira origem, têm ao menos ajudado parcialmente à conjurar uma aparentemente "natureza incompreensível" das ações nazistas.
No nacional-socialismo, as contradições e irracionalidades de um sistema sócio-econômico clássico capitalista e suas estruturas de poder, foram transmutadas em uma ideologia e apologia aparentemente "naturais".
O poder explorador e limitador de classes tornou-se racismo, com uma raça de senhores e sua liderança mística; ciclos de crise econômica e outros direcionamentos tornaram-se a lei cósmica de ciclos recorrentes; o caráter alienante da ciência e tecnologia usados indevidamente como meios para dominação, tornaram-se os conceitos centrais de cultos secretos pseudo-religiosos; o atraso da economia e tecnologia assim como as prevalecentes condições sociais tornaram-se uma obscura mistura de industrialismo enfurecido com uma teoria de "Sangue e Solo".
O continuísmo das classes governantes obsoletas era salvaguardada por mitos de "conspirações", enquanto às massas oprimidas eram oferecidos bodes expiatórios como um escoadouro para agressões reprimidas.
Qualquer um que se negue à identificar as justificativas para a irracionalidade na filosofia "séria" (de Schopenhauer e Nietzsche à Spangler ou Jung) como conduzindo ao obscurantismo, naturalmente ficará impressionado em ver que tais fantasias são subitamente e de fato, tomadas muito seriamente quando o fascismo chega ao poder.
Em 1919, a burguesia alemã precisava experimentar quaisquer meios que justificassem a defesa do seu poder. Nesta época, mitos e mágica mudaram-se das salas de visita e cafeterias para lutar contra razão e revolução. A enchente de panfletos e dissertações pseudo-científicas tornou-se devastadora.
A Ficção Científica lida pelas classes sociais que não eram atingidas pelos panfletos pseudo-científicos e filosóficos, também sucumbiu à esta irracionalidade. A idéia de que o tempo estava maduro para uma "reorientação espiritual" também na literatura, era persistentemente sugerido por tais autores. Eles clamavam por sensações e fantasias imaginativas que ajudariam a conquistar o "materialismo" bruto e sua contraparte, o realismo.
Uma articulação aparentemente não-política destas tendências, estendia-se como se segue:
Existem muitos indícios de que o materialismo mecanicista - derivado das ciências exatas que imprimiram sua marca na última década, está finalmente agonizando, devido à recente revolução espiritual. Obviamente, as saudades transcendentais da maioria da humanidade não podem ser suprimidas à longo prazo... Em primeiro lugar, chegamos novamente ao ponto de vista do "assombro" - isto é, nós não mais desprezamos como tolices todas as coisas que não são explicáveis em termos das leis conhecidas da física.
Misteriosas conexões entre os seres humanos, independentes de separação espacial e temporal, espectros, a aparição de fantasmas, estão todos novamente no reino do possível.(1)
(...A crença na Atlântida e na Cosmogonia Glacial também inspiraram os cerca de 600 membros da "Sociedade para o Vôo Espacial"(15), que desejavam escapar da miséria alemã por meio de espaçonaves.
Eles queriam descobrir "novos mundos, como conquistadores modernos"(16); eles planejavam aumentar a grandeza da Alemanha construindo uma estação espacial cujo "valor estratégico", entre outras coisas, consistia, como Willy Ley escreveu, em "criar tornados e tempestades, destruindo exércitos em marcha e suas linhas de suprimentos, e queimando cidades inteiras" (17).
Graças à ativa propaganda desta sociedade, a idéia da viagem espacial tornou-se tão popular que foguetes lunares tornaram-se um item regular em desfiles carnavalescos, e Fritz Lang foi estimulado a fazer o filme A Mulher na Lua (1928), para o qual ele recorreu à consultoria especializada da Sociedade..." )
Ficção Científica, Ciências Ocultas e Mitos Nazistas - Manfred Nagl [Download ]
NOVA Fantasia (tradução de Alexis Lemos)
Nazi UFOS -Hitler's Flying Saucers - A Guide to German Flying Discs of the Second World War
Science Fiction Awards Watch
Quer ficar atualizado sobre as premiações mais importantes da Ficção Científica/Fantasia mundial?
Science Fiction Awards Watch
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Novel, Novella, Novelette, Short Story ? Uma explicação.
Quem vê a divulgação de prêmios literários como o Hugo, Nebula, Locus, etc, fica quase sempre sem entender a diferença entre 'novel' (novela) e 'novella' (romance), entre 'novelette' (romance curto) e 'short story' (conto).
A SFWA (Science Fiction Writers of America) se utiliza do seguinte critério:
Novel: obras com 40.000 palavras ou mais.
Novella: obras entre 17.500 e 40.000 palavras.
Novelette: entre 7.500 e 17.500 palavras.
Short story: menos de 7.500 palavras.
Se levarmos em consideração que uma página (utilizando tamanho de fonte 12pt e espaço duplo) tem aproximadamente 300 palavras, faz com que:
Uma 'novel' tenha mais de 133 páginas, aproximadamente, a 'novella' entre 60 e 130 páginas, 'novelette' entre 25 e 60 páginas e 'short story' menos de 25.
2009 World Science Fiction Convention e Prêmio Hugo

A Convenção Mundial de Ficção Científica de 2009 ocorrerá de 06 a 10 de Agosto em Quebec, Montreal, atraindo milhares de fãs de todo o mundo, como todos os anos.
A programação completa, no site oficial.
Os candidatos para 2009:Best Novel
Anathem by Neal Stephenson (Morrow; Atlantic UK)
The Graveyard Book by Neil Gaiman (HarperCollins; Bloomsbury UK)
Little Brother by Cory Doctorow (Tor Teen; HarperVoyager UK)
Saturn’s Children by Charles Stross (Ace; Orbit UK)
Zoe’s Tale by John Scalzi (Tor)
Best Novella
The Erdmann Nexus by Nancy Kress (Asimov’s Oct/Nov 2008)
The Political Prisoner by Charles Coleman Finlay (F&SF Aug 2008)
The Tear by Ian McDonald (Galactic Empires)
True Names by Benjamin Rosenbaum & Cory Doctorow (Fast Forward 2)
Truth by Robert Reed (Asimov’s Oct/Nov 2008)
Best Novelette
Alastair Baffle’s Emporium of Wonders by Mike Resnick (Asimov’s Jan 2008)
The Gambler by Paolo Bacigalupi (Fast Forward 2)
Pride and Prometheus by John Kessel (F&SF Jan 2008)
The Ray-Gun: A Love Story by James Alan Gardner (Asimov’s Feb 2008)
Shoggoths in Bloom by Elizabeth Bear (Asimov’s Mar 2008)
Best Short Story
26 Monkeys, Also the Abyss by Kij Johnson (Asimov’s Jul 2008)
Article of Faith by Mike Resnick (Baen’s Universe Oct 2008)
Evil Robot Monkey by Mary Robinette Kowal (The Solaris Book of New Science Fiction, Vol.2)
Exhalation by Ted Chiang (Eclipse Two)
From Babel’s Fall’n Glory We Fled by Michael Swanwick (Asimov’s Feb 2008)
A lista completa dos indicados no site Hugo Awards
Existe vida inteligente... na Ficção Científica?

Os romances de Ficção Científica(FC) são provavelmente a segunda maior causa de urticária em intelectuais e acadêmicos, só perdendo, por muito pouco, para os livros de auto-ajuda.
À simples menção do termo ou da sigla “FC” seguem-se, invariavelmente, discretos acenos de cabeça, resmungos e uma sensação de desconforto. Dores de barriga, crises de enxaqueca e “calores”, seguidos das necessárias seções de descontaminação por exposição aos programas eleitorais gratuitos, são recomendadas para todos aqueles que se sintam ofendidos com a perspectiva de... sonhar livremente.
Olhar só para trás é reducionista e perigoso. De onde será que vem a idéia de que um romance só é confiável, bom e recomendável se for situado no presente ou no passado? Por que o passado é mais confiável? Por que o presente é mais criticável? Por que o futuro é inaceitável?
Medo. O ser humano tem um receio atávico do que não conhece, do que não domina e do que não consegue prever. Se um evento está, fisicamente, “virando a esquina”, isto já constitui um problema. E se, então, está longe o suficiente para ser classificado como algo que está relacionado ao “amanhã”, então é melhor chamar o médico da família. E que ele traga os nossos sais!
Crescemos ouvindo o ditado: o futuro a Deus pertence. Concordo. Mas quem tenta descrever o que Deus planejou para a humanidade, são os autores de ficção científica. Estes artistas da possibilidade mostraram que muitas vezes seus exercícios intelectuais podem mudar de categoria: se transformam em probabilidades. Cinturões de satélites para comunicação, veículos espaciais reutilizáveis, cirurgias oculares à laser, estações orbitais, pousos em outros planetas, clonagem, vôos supersônicos, computadores pessoais, dispositivos portáteis de comunicação interpessoal... perdão, eu quis me referir aos nossos pequenos e eficientes telefones celulares.
Não importa se o nome dado a um objeto há 60 anos atrás por um escritor, não é o mesmo que o departamento de marketing de uma indústria atual resolveu adotar como o melhor. Existiu a necessidade de um determinado equipamento (lentes de contato, ar condicionado, agenda eletrônica ou descascador de batatas), esta necessidade foi detectada pela indústria e ela foi atendida. O interessante é que este tipo de necessidade foi previsto com antecedência e o respectivo equipamento foi descrito, muitas vezes com anos de antecedência, por autores de FC.
Não quero aqui fazer uma apologia aos poderes sobrenaturais de presciência deste gênero de escritor, só quero deixar claro que existe mérito, inclusive mérito social, neste tipo de obra. Pensar uma sociedade diferente, criar equipamentos para resolver problemas, imaginar para as pessoas o desenvolvimento de novas habilidades, ou novas dificuldades, tentar criar realidades paralelas, melhores, piores, intercaladas, intermitentes ou, meramente diferentes, é o tipo de exercício a que este tipo de autor se entrega. De corpo e alma. Existem grandes autores neste gênero e existem obras que já deveriam fazer parte daquelas relações de livros que todos nós fazemos e cujo título é: tenho que ler. A propósito, se você não tem uma lista assim, já está na hora de fazer.
Definições
Mas o que pode ser considerado ficção científica? Muitos acadêmicos e intelectuais vêm tentando definir este gênero literário, mas só produziram complicações que tendem, quase como uma regra, a ser pejorativas. Exemplo: “FC é a vulgarização e antecipação de grandes descobertas científicas ou então conjecturas sobre o relacionamento entre o homem e a tecnociência”.
Até agora, quem melhor conseguiu definir FC, são seus próprios autores. Com definições que variam do cômico ao ofensivo, passando pelo razoável e o consciente, encontramos coisas assim: uma charmosa união entre fatos científicos e visão profética (anônimo); gênero literário que induz à voluntária suspensão da realidade em seus leitores utilizando uma atmosfera de credibilidade científica para suas especulações (anônimo); história sobre seres humanos, com problemas humanos e soluções humanas em torno de especulações científicas (Theodore Sturgeon); o ramo da literatura que aborda o impacto dos avanços científicos na vida das pessoas (Isaac Asimov); FC administra possibilidades improváveis fantasiando impossibilidades plausíveis (Miriam deFord); FC é difícil de definir pois é um gênero literário que aborda a evolução e que evolui enquanto se tenta defini-la (Tom Shippey); e a mais simplista de todas, a minha: uma história de ficção científica é aquela que faz o leitor viajar, no tempo e no espaço, sem medo, sem perigo mas o tempo inteiro com um friozinho na barriga.
Mas se a FC é tão rica, tão gostosa, tão criativa e variada, por que é vista como a prima pobre, inculta, burra, infantil e rampeira da literatura de proposta? Os únicos culpados são os próprios autores. Para demonstrar uma sociedade diferente, uma tecnologia avançada, um tempo futuro, não é necessário ter um complexo equipamento na parede do banheiro do personagem principal que receba o sugestivo nome de “pente mecânico”. Ao longo da história da humanidade muitos artefatos tiveram suas formas determinadas pela sua função original e, dificilmente podem ser melhoradas. Desde os tempos das cavernas os homens usam seus dedos para desfazer os nós de seus cabelos e um pente é uma evolução perfeita. Não se mexe em time que está ganhando. Ou existe uma forma melhor de prender papéis do que um clipe? Quando autores assim perdem a noção do ridículo, fazem um desserviço ao gênero literário que produzem.
A ficção científica de qualidade está muito além da cor verde (ou cinza, como querem alguns) dos seres alienígenas, dos cativantes olhos azuis do ET de Steven Spielberg ou de canudinhos para tomar refrigerantes que esguicham a bebida na boca de uma mulher com pele de onça, três seios enormes, uma cauda preênsil e saltos altos. Escrever algo com um pé na realidade e outro na ciência é o verdadeiro desafio, é a diferença entre boa e a má ficção. É o pé na realidade que confere credibilidade ao texto. É a verossimilhança que arrebanha leitores e adeptos. Não existem super-velocidades, as leis da física e da química continuam vigentes, até prova em contrário a gravidade existe e não é a “cor” do Sol que vai permitir que qualquer um de nos vista um pijama azul, uma capa e botas vermelhas e saia por aí voando e combatendo o crime.
Mas o leitor desavisado não pode se deixar abater com expressões como “conselho de planetas” ou “a base da guarda espacial”. Às vezes expressões assim são necessárias para dar um contexto social e até mesmo político para a obra. “The Moon is a Harsh Mistress” de Robert Heinlein (não encontrei tradução em português) não pode nem deve ser lido simplesmente como a história de uma cidade na Lua. Existe aqui uma profunda análise dos problemas psicológicos, biológicos, políticos, sociais e tecnológicos que envolveriam uma empreitada assim. Este romance especificamente, é uma impressionante luta pela liberdade de decisão e expressão, uma revolta grupal contra a opressão, a dominação cultural e o poderio militar de outro grupo social. Dito assim fica parecendo muito mais sério não é? O que ocorre é que, como em qualquer outro gênero literário existem autores excelentes e aqueles que deveriam voltar aos seus empregos anteriores. E mesmo quando se analisa a obra completa de um autor, encontramos obras melhores e piores.
Se nos ativermos por exemplo à obra de três autores consagrados que andaram flertando com a ficção científica, o realismo fantástico e o horror, sendo eles Jorge Luiz Borges (O Aleph), José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira) ou Henry James (A Volta do Parafuso), percebe-se que eles, como qualquer outro autor, não foram brilhantes o tempo inteiro. E o mesmo acontece com todos os autores de qualquer outro gênero. A diferença é que os escritores de FC são sempre mais visados pois se expõe a riscos maiores.
Fantasia, horror e FC
Um erro comum é confundir ficção científica com dois outros gêneros próximos, o horror e a fantasia. O horror, como diz Freud em um de seus ensaios,é aquela “estranheza inquietante”. São conhecimentos biológicos ou antropológicos em torno dos padrões de “normalidade humana” e o que se afasta desta normalidade.
Apesar de existirem muitos autores excepcionais e romances consagrados como por exemplo “Frankenstein” (Mary Shelley), “Dracula” (Bram Stoker), "O Exorcista" (William Peter Blatty), “O Bebê de Rosemary” (Ira Levin), “O Iluminado” (Stephen King), provavelmente os dois autores de romances de horror que mantiveram uma consistência em termos de qualidade ao longo de toda sua obra, foram Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.
O gênero fantasia, provavelmente o ramo principal do qual a ficção científica e o horror derivaram, tornou-se mundialmente popular depois da publicação da obra suprema de J. R. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis” no final dos anos 60. Usualmente todos os romances que se referiam ou contenham animais falantes, mundos mágicos, “capa e espada”, feiticeiras, magos, unicórnios e outros seres mitológicos, estaremos transitando pelo mundo da fantasia que, também, é o mais amplo dos três gêneros pela sua variedade de temas. São mundos onde normalmente a ordem e as leis que mantêm esta ordem, não se aplicam ou são diferentes das que regem nosso próprio universo.
Mas independente de qualificações, e até como uma forma de afirmar sua rebeldia, inúmeros autores transitam de um gênero para outro, sem perder qualidade em sua obra. Cita-se como exemplo “O Homem Demolido”, de Alfred Bester, que é um policial ambientado no futuro, ou ainda “O Talismã” de Stephen King que é uma gigantesca história de fantasia.
Mas, como sempre, especialmente em um campo que envolve muita criatividade como a literatura, existem reações. E, sem se importar com urticárias, calores ou enxaquecas, a Universidade de Liverpool na Inglaterra, desde 1994, vem oferecendo um curso de Mestrado em Estudos de Ficção Científica, que abrange assuntos tão variados quanto utopias, FC e guerra fria, FC e sexo, bem como disciplinas dedicadas ao estudo de autores específicos, como Philip Dick, Isaac Asimov, Arthur Clarke e outros.
Já não era sem tempo. É necessário parar de encarar a FC como um gênero menor, descartável, especialmente se forem consideradas sua influência criativa em outras áreas como a televisão, o cinema e a própria ciência. Existe qualidade, profundidade e seriedade na FC. É preciso prender os cães de guarda lá na casinha no fundo do quintal, colocar a prataria e a melhor porcelana na mesa da sala se jantar e deixar a Ficção Científica (com letras maiúsculas) entrar na nossa casa e na nossa vida. Existe, sim, vida inteligente na FC. Basta saber onde procurar.
(Fábio Marchioro .2004)
Parágrafo - Manual de Sobrevivência do Novo Escritor
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O Futuro da Ficção Científica - Norman Spinrad (1980)

Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.
Era uma idéia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.
Vivemos ainda hoje do grande boom da Ficção Científica dos anos 70. O número de títulos de FC publicados a cada ano está subindo. Além disso, algo como 25% de toda a ficção publicada na forma de livro nos Estados Unidos é hoje de Ficção Científica (FC).
Títulos de FC fazem parte das listas de best-sellers nacionais.
A revista Isaac Asimov Science Fiction Magazine, em sua breve existência, chegou ao topo da circulação de 100 mil exemplares; a OMNI, com uma existência menor ainda, alcançou um milhão.
A ficção científica tem sido a grande esperança de Hollywood. Charles Brown, da Locus, estima que algo em torno de 75% de todos os romances de FC publicados até hoje estão, ainda, disponíveis. O que acontecerá? Isso vai continuar ou o colapso da bolha, como aconteceu em 1950, nos trará de volta a Terra, quando cada palavra pagava 50 cents e os adiantamentos eram de dois mil dólares?
A comunidade FC nunca viveu sem suas Cassandras e muitos, nesta área, cresceram na dificuldade, com pouco dinheiro e até com um pouco de auto-satisfação de viver sendo grotescamente sub-pago e sabendo disto, olhavam por sobre seus ombros, esperando o machado cair mais uma vez.
O boom dos anos 70 foi principalmente um produto da moda, impulsionado por grandes filmes, como 'Guerra nas Estrelas' e 'Contatos Imediatos', acrescido do instinto de alguns editores de FC que se encontrava em guerra pelas licitações. Quando Hollywood agarrar-se ao próximo modismo e deixar de lado os romances de FC, o ar se tornará pesado para os que estavam nesta bolha, cabeças rolarão e todos nós voltaremos ao nosso belo e pequeno recanto literário.
Bem, talvez, mas eu não penso assim.
O fenômeno comercial do atual boom da FC tem suas raízes históricas, culturais e até espirituais mais profundas do que campanhas de filmes de milhões de dólares ou adiantamentos de cem mil dólares para novos livros.
Estamos vivendo um momento crítico na evolução de nossa espécie e a Ficção Científica encabeça a cultura popular como uma parte forte de nossa cultura e está além de nosso controle.
Qualquer que seja a moda, ela não pode efetivamente, ser duradoura ou preencher por muito tempo um vácuo psicológico. A moda efetivamente envolve manipulação, deslocamento do imaginário, estruturas míticas e forças históricas e psicológicas que prevalecem na consciência da massa, que é o seu alvo. Talvez se possa vender gelo para esquimós, mas não se pode esperar que todos comprem. Então, enquanto o aspecto comercial do boom da FC da década de 70 estiver super valorizado pela moda em torno de 'Guerra nas Estrelas', 'Contatos Imediatos', 'Super Homem', 'Jornada nas Estrelas', 'Galáctica' e companhia, esta moda não pode ser tão bem sucedida, sem que a chave não fossem forças poderosas já existentes na psique coletiva.
Consideremos o - muito medíocre para ser caridoso - aspecto artístico desses filmes comerciais, que encheram o balão da FC. Assumindo que o povo não é composto de tolos - vamos admitir (é uma questão passível de debate em certos círculos) - que os épicos hollywoodianos de FC não são um sucesso por serem obras de arte do cinema, mas por serem ficção científica.
A verdade é que esta moda criou um novo público para a FC. Verdade também que a maioria dos beneficiários deste modismo não possuía a mesma fama e relevância artística comparável ao trabalho produzido pelos membros da SFWA ou de escritores premiados por seus livros.
Mas isso seria para sempre?
Quando o povo desenvolver um novo apetite, não haverá em curto prazo, aqueles que produzirão o próximo fast-food na área de FC? Isso é eterno, é parte da natureza da interface comercial.
Nada de novo, então. O que é novo é que esta fome permitirá que produtos medíocres faturem milhões através dos franchises da fast-food literária. Será que a natureza deste apetite mudará o futuro da FC e este relacionamento será recíproco? O que todo modismo faz é expor uma grande e nova platéia a algo semelhante à FC, poderíamos dizer, como se um pequeno restaurante de tacos pudesse expor ao paladar de seus inocentes fregueses, algo como a verdadeira comida mexicana e então aprimorar o seu gosto.
A questão principal é por quê.
Obviamente, a Ficção Científica de repente começou a alimentar uma fome que não estava satisfeita por nenhuma outra 'cozinha ficcional'. A viagem até o pato de Pequim começa pelo rolinho primavera.
A coisa mais importante sobre tudo é que o modismo não ficará sendo somente, a venda de junk food para a mente, mas também irá expor muitas pessoas a uma Ficção Científica que jamais puderam experimentar antes.
Na realidade estaremos expondo a Ficção Científica para pessoas que nunca a leram, inclusive, mas que desenvolveram uma fome por experiências psicológicas a partir disto.
Por quê? O que desejamos encontrar ao alimentar, nesta conjuntura, a evolução da cultura popular? Vamos pensar em alguns fenômenos colaterais.
O boom da FC nos anos 70 foi precedido por uma proliferação de novos cultos religiosos.
É um fato comum que a nossa corrida atrás da ciência e da tecnologia tem diminuído a credibilidade das religiões tradicionais.
É fato também que a visão de um mundo científico deveria prover uma nova fonte de nutrição espiritual que tomasse o lugar daquela desacreditada.
É fato que o espírito humano tem a necessidade de experimentar o transcendental. Todas as vezes que a ciência e a tecnologia tomaram conta da nossa cultura, presenciamos o renascimento de um misticismo atávico e da procura pelo espiritual, e o nascimento desses novos tipos de cultos religiosos, ou mais precisamente, a totalidade deste novo tipo de fenômeno tomava o nicho psicológico deixado vago pela religião tradicional.
Organizações como a Cientologia, a ARICA, Silva Mind Control, etc, etc, são tentativas de unir a experiência mística do oriente com os métodos científicos do mundo moderno segundo a visão ocidental.
Tipicamente um guru ou mestre perfeito, como o pináculo de uma hierarquia bem estruturada, um método ou um caminho que será seguido pelos seus crentes e uma visão de uma Nova Jerusalém ao final do arco-íris. Porém, mais do que uma moral teológica ou um livro de receitas de como chegar ao paraíso, esses grupos oferecem aos seus seguidores uma ciência ou um método quase científico de transcender a consciência aqui e agora.
É claro que o budismo e o hinduísmo em sua pureza teórica fazem a mesma coisa, porém o que é novo nisto tudo é um tipo de culto religioso que atende à psique moderna, que se adaptou não ao culto de imagens de deuses e demônios, mas à metodologia e às armadilhas da pseudo-ciência.
Eles estão tentando reintroduzir experiências místicas transcendentais na cultura moderna através da ciência, não ao invés da ciência, mas transcender os parâmetros espirituais sob a ótica de um mundo científico, não o negando, mas se apropriando de sua metodologia com fins transcendentais.
Vinte anos atrás ou mais, os fãs da Ficção Científica já diziam que estavam tentando recapturar o 'sense of wonder'. Esta fome de experiências atrás de flashes de uma consciência transcendental e que não rivalize com o avanço da ciência e da tecnologia, sempre foi um ponto comum àquelas pessoas que liam FC. Aliás, a preocupação predominante da FC com viagens no espaço, outros mundos, alienígenas e criaturas superpoderosas sempre disse diretamente ao transcendentalismo científico.
O espaço, por si só, é uma experiência de um outro plano existencial; outros planetas são novos mundos desconhecidos, criaturas alienígenas são seres não humanos, sencientes como deuses e demônios e mutantes são homens que transcenderam os parâmetros de nossas atuais definições de humanidade, não através do mito, mas à verossimilhança plausível, possível cientificamente.
O que aconteceu nos anos 70 é que a história, o modismo e a perda da credibilidade lógica na perda das fontes tradicionais combinada com a experiência transcendental fornecida pela Ficção Científica (com a sua estética do 'sense of wonder'), agiu como um novo e moderno culto a preencher o vácuo psicológico de então.
A fome de parte desta platéia pelo que a Ficção Científica poderia fornecer era uma condição já preexistente. A moda meramente focalizou o público para isso.
E se você duvida, olhe para o tipo de Ficção Científica que construiu este grande boom, não somente em termos de mérito literário, mas em termos de conteúdo. 'Jornada nas Estrelas' se passava inteiramente no espaço, em outros mundos, e apresentava a figura mefistofélica e benevolente do Sr. Spock. A space opera 'Guerra nas Estrelas' tinha em seu centro a metafísica, a Força. Os adoráveis e benignos alienígenas de 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau' eram como deuses bondosos. As figuras messiânicas como Michael Valentine de 'O Estranho Numa Terra Estranha' e Paul Atreides de 'Duna'. Os super-heróis da Marvel. A fantasia metafísica de Tolkien.
Finalmente, emergindo ao mesmo tempo da grande bolha, nós tínhamos os fenômenos na FC do movimento L5 (Grupo não-governamental formado por cientistas para a criação de uma cidade no espaço) . O conceito, a construção de uma cidade auto-suficiente e permanente no espaço era algo totalmente novo, mas que nascera nos escritos de Gerard O Neill.
Nós todos sabemos que isso foi o tema comum da ficção científica por décadas.
E este é o ponto.
De fato, o movimento L5 não cresceu fora do fandom FC ou dos tradicionais leitores de Ficção Científica. Ele se desenvolveu colateralmente ao boom da FC, mas de forma independente em seu campo, aparentemente ignorante da maior parte do que concerne à Ficção Científica, porém com a força evolucionária que produziu o boom da FC.
Sem duvida, a visão de uma nova Jerusalém cientifica e tecnológica, no espaço, está no processo para gerar um movimento popular de massa. A NASA está se esforçando para isso também.
As primeiras raízes desta organização estão começando agora.
Finalmente este movimento acabará por invadir a FC, fazendo um circulo completo e que nos leva ao tema do ensaio, o Futuro da FC. Vai haver uma enxurrada de histórias usando a estação espacial da L5, talvez pela primeira vez na história, o gênero poderá se nutrir da vida real, a L5 vai finalmente unir escritores e leitores como aliados,
E o que tudo isso significa para o futuro da FC?
Significa que a FC está chegando ao centro da consciência popular ou melhor, o povo está indo para onde a FC sempre esteve, e por razões que transcendem o sucesso de alguns filmes, e é por isso que eu acho que a bolha não vai estourar desta vez.
É claro que não vai ser um caminho fácil , haverá escorregadelas e tropeços, a FC ainda alimentará novos e antigos escritores por mais duas décadas, que irão colaborar para tornar ainda mais rico este gênero, um amplo e mais preparado publico está por vir, talvez possamos dizer que a FC possa se tornar o principal gênero na America do Norte dominando a ficção.
Hoje a FC já é um grande negócio, tem importância em nossa cultura e junto à ciência, estaremos juntos com os grandes literatos, com certeza, em breve.
Somos os candidatos a gurus do que ainda está por ser feito e isto também é perigoso.
Assim como os combustíveis fosseis irão um dia acabar, as pessoas terão que perceber que o futuro será diferente dos dias atuais, nossas visões, nossa ficção, será parte de nossos desejos, estará nos programas de televisão, nos esforços para a colonização do espaço, não mais como apenas ficção, mas como prática e realidade.
Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.
Era uma ideia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.
terça-feira, 14 de abril de 2009
A Maga

Trinta anos antes de Harry Potter, Ursula K. LeGuin escrevia romances sobre uma escola para magos. Assim como seus romances tratavam do bem e do mal, também falavam sobre raça e gênero.
Ursula K.Le Guin encontra inspiração para criar seus mundos fantásticos, tanto na literatura quanto na paisagem. Sua casa nas colinas a oeste de Portland, acima do rio Willamette, tem uma vista espetacular para o Monte Helena, que entrou em erupção vinte e cinco anos atrás, mas agora repousa tranquilo. Neste paraíso privilegiado, sua casa por quase meio século, Le Guin escreveu os livros que a fizeram ganhar reconhecimento como 'Grand Master', tanto da Ficção Científica quanto da Fantasia.
Trinta anos antes de Harry Potter, em 'A Wizard of Earthsea' (1968), ela mandou Ged, também conhecido como Sparrowhawk, para uma escola de magos, em um arquipélago pre-industrial, repleto de dragões e feiticeiros, governado pela magia e pela morte. Le Guin também escreve ficção 'realística', poesia, ensaios e livros para crianças.
'Não tenho paciência com esta ideia de rotular o gênero como um sinônimo de falta de qualidade. Talvez se tivéssemos uma crítica menos ignorante, poderíamos fazer algo mais interessante'.
Ela credita a JK Rowlings ter dado à fantasia 'um grande empurrão' com certo remorso.
'Não penso que ela me plagiou, como alguns dizem, porém ela poderia ter sido mais gentil com seus predecessores. Minha incredulidade se limita aos criticos que acharam o primeiro livro dela maravilhosamente original.
Ela tem muitas virtudes, mas originalidade não é uma delas. Isto me revolta.'
Para Margareth Atwood, Le Guin representa a quintessência do escritor americano, de uma inquestionável qualidade literária, 'para aqueles que se perguntam para onde estamos indo'.
Seus mundos, diz Le Guin, não são inventados, mas sim descobertos.
'Eu paro para observar algo, uma pessoa numa paisagem, e tenho que descobrir o que é aquilo'.
Mas mesmo viajando por mundos internos ou externos, seus olhos permanecem no aqui e agora. Aos 76 anos, Le Guin fala sobre sua filiação aos movimentos pela paz e pelas mulheres ('Tenho o prazer perverso de chamar a mim mesma de feminista') e sobre o Taoismo ('profundo e subversivo').
Seus últimos romances, como 'Gifts', agora pela Editora Orion, começa uma nova série para 'jovens adultos', 'The annals of Western Shore'. O segundo, 'Voices', será publicado em Março.
'Escrever fantasia não é escrever para crianças, mas apaga as distinções, é inerentemente um gênero crossover.
Muito do escrever fantasia, é sobre o poder, veja Tolkien, por exemplo. Significa observar o que o poder faz com a pessoa que o tem e aos outros. Acredito, como Shelley, que "o grande instrumento da boa moral é a imaginação", se você não é capaz ou não imagina o resultado suas ações, não há como você agir moralmente ou com responsabilidade.'
'Crianças pequenas não conseguem fazê-lo, bebês são moralmente monstros - completamente ávidos. Sua imaginação tem que ser treinada para a observação e a empatia.'
Não é uma tarefa fácil, como uma vez ela escreveu:
'Claro, é simples, escrever para crianças é tão simples quanto tê-las.'
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Entrevista com Michael Swanwick

Ismo Santala: Você disse que quando decidiu ser um escritor, suas ambições literárias estavam entre ser um segundo JRR Tolkien ou James Joyce Júnior. Quando esta bifurcação teve lugar e como resolveu este dilema?
Michael Swanwick: Ah, isso foi nos tempos de colégio e da universidade, eu passava meu tempo escrevendo péssimas histórias de fantasia e coisas ainda piores. Tolkien e Joyce pareciam cada qual no topo de suas montanhas e era lá que eu queria estar, no topo. Minha lealdade a um ou outro mudava de tempos em tempos, dependendo do que minha caneta quisesse.
Para resumir... eu poderia ser um adulador e dizer que decidi por ser o próximo Vladimir Nabokov, pois todos meus primeiros heróis da literatura tendiam a ser grandiosos - mas a verdade foi que eu parei de tentar pular carniças nestes dez anos de crescimento literário e comecei a escrever narrativas simples que eu pudesse aprender com elas. Isso se deu aproximadamente no inicio dos 70 quando vim para Filadélfia e encontrei Gardner Dozois e Jack Dann e outros autores de FC e pude ver como autores de verdade trabalhavam. Escrever parece muito com arquitetura, pois existe muito deste trabalho pouco romântico, pouco glamoroso e que tem que ser feito antes de se obter grandes efeitos. Levantar uma parede requer trabalho braçal, o personagem precisa de uma motivação muito forte. Meus primeiros onze anos como escritor, eu escrevia constantemente e ainda assim não conseguia terminar as histórias. Quando aprendi o básico da coisa, eu consegui.
E é claro que a primeira boa história que você escreve é como vento nas velas, ela te leva à frente e dá seu curso. Você passa a querer escrever melhor.
Você vislumbra o horizonte.
Um inesperado benefício do meu começo foi que quando publiquei pela primeira vez, sabia mais sobre ficção do que a maioria dos autores iniciantes, então as minhas duas primeiras histórias a serem publicadas ('Gunungagap' e 'The feast of Saint Janis') apareceram relacionadas para concorrer ao Nébula. Isso chamou a atenção para mim. Mas não aconselho aqueles que querem se tornar escritores que se espelhem no meu início de carreira. É terrível chegar perto dos trinta anos sem ter escrito nada ainda e sem conhecer sobre sua habilidade para seguir esta carreira.
Quais são seus escritores prediletos? Novos, antigos, conhecidos ou emergentes?
Puxa! Poderíamos ficar uma semana falando deles. Estabelecidos eu diria: Gabriel García Márquez, Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Djuna Barnes, A. S. Byatt, Jorge Luis Borges, Joanna Russ, John Barth em seu inicio (particularmente The Sot-Weed Factor e Chimera), Julio Cortázar, Italo Calvino, John Fowles, Samuel R. Delany, Donald Barthelme, Muriel Spark, William S. Burroughs, e inevitavelmente Thomas Pynchon.
Esses são apenas aqueles que me vem mais rapidamente à cabeça. Mas existem estes escritores como Kafka e Salinger e Twain que me são tão familiares e que acabo por esquecer de citá-los.
Novos e emergentes: Greer Gilman, autor de um livro e dois contos de fantasia. China Mieville, que tem recebido muita atenção hoje em dia, e merece. Ellen Kushner e Delia Sherman autoras de The Fall of the Kings. Andy Duncan, chamado de Howard Waldrop da sua geração. Sherman Alexie ainda é novo? Ele é sensacional ainda assim.
Charlie Stross e seu livro Accelerando que me inspira com cada linha dele. Ian R. MacLeod. Geoff Ryman. Paul Park. Gwynneth Jones. Ken MacLeod. Michael Chabon, é claro. Kelly Link. Ted Chiang que consegue ser original e novo a cada história. Mas é claro, estou falando apenas de lembrança, o que vem à cabeça.
Estive em Helsinque recentemente onde fui entrevistado por um fanzine finlandês e meu entrevistador me perguntou se eu não pensava que este era uma época extraordinária para o gênero, comparável a New Wave, porêm maior, pois há tantos escritores fazendo trabalhos fantásticos, tanto na FC quanto na fantasia. E eu pensei: Sim! Com certeza! Foi um tipo de choque, um deja vu. Tive que viajar até a Finlândia para que alguém me apontasse o óbvio, mas a verdade. Existe um enorme número de ainda-não-conhecidos autores surgindo para a literatura, o que é totalmente sem precedentes, neste exato momento. Se eu me atrevesse a fazer uma lista dos melhores escritores atualmente escrevendo, você ficaria de saco cheio antes mesmo de eu terminar.
Deixei de fora todos da minha geração, contudo suas obras estão particularmente próximas do meu coração, porque sou amigo da maioria deles. Mas é uma competição. São os caras com quem eu tento conviver.
Um dos apelos da FC é que o gênero oferece um universo de conceitos que o escritor pode acentuar ou perverter, de acordo com seus desejos. Seria certo dizer que você estaria interessado também no lugar comum literário dos clichês pela mesma razão?
Como qualquer outra coisa, a caixa de ferramentas da FC prestasse como um bom criado para um pobre mestre. Minha série de histórias curtíssimas, The Periodic Table of Science Fiction, invoca fortemente aquele material preexistente na FC, algumas vezes tratado seriamente, outras vezes como brincadeira. Mas tem um lado ruim também. Muitos escritores procuram trabalhar na mudança de algumas alegorias existentes, como um mágico de palco irá superficialmente modernizar um dos números do Houdini, enquanto mantém a mecânica intacta.
Você encontra naves espaciais baseadas em navios da marinha mercante da Segunda Guerra Mundial e que fazem prospecção de minérios em asteróides igual à corrida pelo urânio dos anos 50, é uma ficção que nenhuma pessoa sã pode acreditar que algum dia poderá acontecer. Em casos extremos você encontra astronautas com armas laser, estes autores não percebem que eles há muito não escrevem Ficção Científica mas meramente ficção inexata dos dias atuais.
O verdadeiro desafio, o jogo de verdade, é desenvolver idéias originalmente genuínas. O escritor que inventou a máquina do tempo ou a nave das gerações, ou o ciberespaço, pensavam grande. Aquele que for fazer uma versão engraçadinha de uma destas coisas irá ser publicado e esquecido. São as regras do jogo. Se não pode aparecer com algo novo, se tudo que você tem é a força da sua prosa, então você deveria tentar escrever outra coisa qualquer.
Escrever coisas mais simples não basta. Você tem que trazer algo de novo, uma razão para alguém querer ler seu trabalho ao invés de usar este mesmo tempo para reler Proust.
Como você descreve a diferença entre seus contos e seus romances? Por exemplo, alguma idéia destes contos acaba se tornando um romance ou você sabe até onde a idéia pode ir?
Uma história curta é um objeto mental que pode ficar na mente por completo. Um romance é grande demais para isso. Parece mais como uma viagem. Você pode saber do inicio e do fim e ter o sentimento, mas os incidentes surgem separadamente. Um conto é como uma alucinação viva, mas um romance é imenso, algo que você pode se mudar para dentro e viver por uma temporada.
Quando tenho uma idéia, não sei se ela irá crescer o bastante para se tornar uma ficção, muito menos de que tipo. Mas vou brincar com ela e pensar sobre ela e fazer algumas anotações e eventualmente, se não for robusta o bastante, vai ficar claro para mim. Com a ocasional exceção da loucura, eu não começo nada até que eu tenha a linha inicial escrita e uma visão clara de como irá se desenvolver até o seu fim. O ultimo parágrafo essencialmente, o momento emocional onde tudo que foi escrito até então contribuiu para que ele existisse. Quando tenho isso, posso começar escrever e conduzir o enredo (não tenho idéia de onde vai parar, somente o que está estabelecido para que a história faça sentido) tão simples e certo em direção ao fim. Quando o leitor chega lá, saberá que é inevitável por que o trabalho todo foi dedicado a justificá-lo. Mas também pode ser surpreendente, por que sabendo do que se aproxima, posso acrescentar algumas distrações e desorientações, que manterá o leitor longe do que está por vir.
Nunca tive um conto que chegou a se tornar um romance. Seria violar o formato e o sentimento da idéia, como um oleiro sentar-se para fazer um pote e terminar com um camelo de cerâmica. Mas certa vez comecei um trabalho que era para ser um romance e terminei com um conto curto de 425 palavras. Cortei a história em tiras pequenas, colei sobre uma máscara com o rosto da minha esposa, feita de gaze cirúrgica, e pendurei na parede da sala de jantar.
A freqüência com que ocorrem colaborações literárias é um dos aspectos notáveis da FC/Fantasia. Você trabalhou com outros escritores em inúmeras ocasiões; como se compara com trabalhar sozinho? (e seu próximo trabalho em colaboração com Gene Wolfe.)
Cada colaboração é única. As histórias que escrevi com Jack Dann e Gardner Dozois, foram como parcerias de escola. Gardner e Jack sabiam tudo sobre como escrever e eu era um principiante. Foi uma oportunidade incrível para aprender. 'Green Fire' com Eileen Gunn, Pat Murphy e Andy Duncan era a criança dos olhos de Eileen desde o inicio. Ela possui um talento enorme e estranho e lamentavelmente pouco prolífico, então foi um privilégio trabalhar com ela e ver como sua mente funcionava. As duas histórias que fiz com Avram Davidson foram póstumas, pois trabalhei em histórias que ele deixou inacabadas. 'Apenas sobre seu corpo morto' eu disse para as pessoas 'era o único jeito dele deixar isso acontecer.'
'Dogfight' minha colaboração com William Gibson, eu vejo como um completo sucesso mas não acho que ele gostou. Possivelmente Bill não quisesse colaborar, pois sua visão era tão específica que as palavras de outra pessoa em sua ficção, mesmo boas, nunca iriam satisfazê-lo. Gene Wolfe é para mim, o maior escritor na língua inglesa vivo atualmente. Um editor que conheço pensa que ele irá ser um segundo Saul Bellow mas eu li Ravelstein e não vejo diferença.
Em seus dois maiores ensaios, 'In the tradition...' (Fantasia) e 'A user's guide to the Postmoderns' (FC) você mapeia certas tendências de cada gênero. O que pensa sobre o status acadêmico da Ficção Científica e da Fantasia?
Se você for procurar por ensaios criticas sobre a FC e a Fantasia você será soterrado com trabalhos sobre Stanislaw Lem, Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick e (sem brincadeira) Jane Austen. Por que infelizmente a maioria das pessoas no estudo destes gêneros são acadêmicos que não acreditam em seus gostos e julgamentos próprios. Eles não escrevem sobre Clifford Simak ou Leigh Brackett ou Jack Vance por que estes autores - cuja as obras são tremendamente importantes - não foram sancionados pelo consenso critico e podem parecer que não possuem literalidade afinal.
Existem exceções é lógico, e por que elas existem, eu devo dizer que meus próprios ensaios não possuem o rigor intelectual de trabalhos de crítica acadêmica. Foram escritos como propaganda. Eu queria promover alguns trabalhos que eu pensava não estar recebendo a devida atenção, e provocar as pessoas para argumentar sobre seus méritos.
A única coisa que eu já escrevi e que pode ser encarado como um resenha de um olhar rigoroso é 'Hope-in-the-mist', um ensaio biográfico de Hope Mirrlees (escritora de fantasia, cujo maior sucesso foi Lud in the mist de 1926) que apareceu em Foundation, um jornal britânico sobre estudo dos gêneros.
Por fim, para fechar como esperado, no que você está trabalhando atualmente?
Nunca tenho certeza absoluta. Dois livros, ou quase. Estou escrevendo uma fantasia que começa com um estilo meio guerra do Vietnam no reino das Fadas. O protagonista, Will, começa como um relutante criado de um dragão mecânico e em decorrência disso é levado de sua vila para um mundo maior e mais estranho, vitima de um destino inesperado que espera a maioria dos heróis das histórias de fadas. Pode ser que se passe, ou não, no mesmo universo de The Iron Dragon's Daughter. Certamente os dragões serão os mesmos. Mas num continente inteiramente diferente e abordando um reino diferente.
O outro - no qual ainda estou nos estágios iniciais de pesquisa - será sobre ficção cientifica pura, uma viagem de descobrimento em uma das luas do sistema solar, com Lizzie O'brien, o protagonista de 'Slow Life', indicado para o Prêmio Hugo. A graça desta história está em reimaginar que no futuro próximo, a exploração espacial será uma realidade, Por exemplo, no conto - que pretendo que não se torne um livro - o astronauta tem que passar muito do seu tempo dando resposta engraçadinhas para perguntas idiotas na internet. É óbvio que as primeiras pessoas a irem para Marte irão inevitavelmente ter que se render a isso. Mas eu espero tratar de coisas mais sérias também.
Também estou trabalhando em muitas, muitas histórias curtas. Tenho quarenta delas parcialmente escritas no meu computador e notas e idéias mais, e que não consigo dar conta. Algumas jamais serão finalizadas, outras serão, e não tem jeito de saber qual é qual até que aconteça. Ah, e alguns projetos estranhos, tanto de ficção quanto não, dos quais não posso falar porque se eu o fizer, jamais irei sentar para escrever sobre eles.
E a minha muito esperada primeira coleção de contos curtíssimos, Cigar-box Faust and Other Miniatures, está finalmente chegando este outono pela Tachyon, em tempo para a Convenção Mundial de Fantasia que se aproxima.
Então continuo ocupado. As idéias hoje chegam cada vez mais rápidas, mas escrever ainda é demorado como sempre foi, infelizmente.
(Ismo Santala - 2003)








