
Rudolf von Bitter Rucker (22 de Março de 1946) nascido em Louisville, Kentucky (EUA) é baixarel em Matemática e ciência da computação e autor de Ficção Científica - foi um dos fundadores do movimento literário Ciberpunk.
Publicou 29 livros, sendo seu trabalho mais conhecido a tetralogia Ware - Realware, Freeware, Software e Wetware - sendo que os dois últimos receberam o Prêmio Philip K. Dick.
Rudy também possui diversos trabalhos publicados de Geometria e Estudo da Relatividade. Trabalhou como professor de matemática em várias universidades pelo mundo, antes de se aposentar em 2004.
Rudy elaborou um estilo próprio dentro do ciberpunk, que batizou de 'Transrealismo', uma espécie de FC baseada na vida do autor, nas suas percepções, misturada com elementos fantásticos psicológicos e que estão no seu ensaio 'Manifesto Transrealista', de 1983.
Em sua ficção, Rudy utiliza com liberdade, elementos surreais e metafísicos. Seu futuro frequentemente é uma terra de fantasia onde a ciência surge como metáfora. Com suavidade, invoca a tecnologia, sem necessidade de racionalizar este mundo.
Ele também é editor do ezine de FC, 'FLURB', junto com Marc Laidlaw.
Atualmente se dedica a escrever uma série sobre nanotecnologia, sendo que o primeiro livro desta trilogia, lançado em 2007, chama-se 'Postsingular'.
Blog de Rudy Rucker
Site oficial
Rudy Rucker (Inside out, Master of space and time, Soft death, Realware, Freeware, Software, Wetware, Chu and the Nants, Guadalupe and Hieronymus Bosch, Hieronymus Bosch's apprentice, Postsingular, Spaceland, The imitation game, The man who ate himself, The man in the back room at the Country Club, The secret of life, Hormiga Canyon (com Bruce Sterling), Pockets (com John Shirley), The perfect wave (com Marc Laidlaw), Junk DNA (com Bruce Sterling), Elves of the Subdimensions (com Paul Di Filippo)) [ Download ]
domingo, 10 de maio de 2009
Rudy Rucker
Manifesto Transrealista - Rudy Rucker

Eu gostaria de defender aqui um estilo de Ficção Científica que eu chamo de Transrealista.
Transrealismo não tem muito de FC de verdade, é um tipo de literatura avant-garde.
Sinto que o Transrealismo é a única percepção válida na literatura atualmente.
O Transrealismo escreve sobre percepções imediatas de um jeito fantástico. Qualquer literatura que não seja sobre a realidade atual é enervante e vazia. Mas o gênero de realismo franco e direto já se consumiu por completo. Quem precisa de mais romances realistas assim?
O ferramental da Fantasia e da Ficção Científica, oferece meios de tornar mais consistente e intensa a 'ficção realista'. Utilizando de dispositivos do fantástico, é possível se manipular o subtexto. O ferramental familiar da FC - viagem no tempo, antigravidade, mundos alternativos, telepatia, etc. - são de fato arquétipos simbólicos da percepção; viagem no tempo é memória, o vôo é iluminação, mundos alternativos simbolizam a grande variedade de visões particulares do mundo, e telepatia nada mais é do que a capacidade de comunicação plena.
Este é o aspecto 'trans' da coisa.
O aspecto 'realismo' tem a ver com o fato de que um trabalho de arte para ser válido, deve tratar do mundo do jeito que ele é.
Transrealismo tenta então não somente tratar da realidade imediata, mas também de uma realidade superior, na qual a vida está embutida.
Os personagens devem ser baseados em pessoas de verdade.
O que torna a ficção comum tão insípida, é que os personagens são obviamente marionetes para a vontade do autor. As ações se tornam previsíveis e no diálogo é difícil dizer qual personagem supostamente está falando. Na vida real, as pessoas que você encontra, quase nunca dizem aquilo que você espera que elas digam. Ao longo do tempo e de forma contundente, você traz simulações de seus conhecimentos consigo, na sua cabeça. Estas simulações são impostas para você de fora para dentro; e elas não reagem a situações imaginadas como você poderia desejar. Se deixarmos estas simulações levarem os personagens, você pode evitar desligar o mecanismo de satisfação. É essencial para isso, que os personagens se encontrem de certa forma fora de controle, como as pessoas reais - afinal, o que se pode aprender ao ler sobre pessoas de mentira?
Em um romance transrealista, o autor freqüentemente aparece como personagem, ou a sua personalidade está dividida entre vários personagens. Dizendo assim parece até egoísta. Mas posso argumentar que usar a si mesmo como personagem não é egoísmo de verdade. É simplesmente uma necessidade. Se, de fato, você está escrevendo sobre percepções imediatas, então que outro ponto de vista senão o seu é possível?
É bem mais egoístico utilizar uma versão idealizada de si mesmo, fantasiando-a, e tendo este 'para-você' desabafando a sua vontade através de embalagens flexíveis escravas.
O protagonista transrealista não é apresentado como um tipo de super-herói.
O protagonista transrealista é um neurótico inútil, como nós mesmos sabemos ser.
O artista transrealista não pode predizer a forma final de seu trabalho.
O romance transrealista cresce organicamente, como se tivesse vida própria. O autor pode apenas escolher personagens e cenários, introduzir este ou aquele elemento fantástico e direcionar para certas cenas chaves.
Em condições ideais, o romance transrealista é escrito na obscuridade, sem uma linha geral ou esboço. Se o autor sabe precisamente como seu livro irá se desenvolver, então o leitor irá advinhá-lo também. E um livro previsível não nos interessa.
Todavia o livro deve ser coerente. Concorde comigo - a vida quase sempre não faz sentido.
Mas as pessoas não irão ler um livro que não tem enredo. E um livro sem leitores não é efetivamente um trabalho de arte.Um romance de sucesso, de qualquer tipo, deve carregar seus leitores consigo.
Como é possível escrever tal livro sem um esboço?
É semelhante a desenhar um labirinto.
Para desenhar um labirinto precisamos de um inicio (personagens e cenário) e alguns objetivos (cenas chaves). Um bom labirinto força-o a percorrer objetivos de uma forma coerente. Quando você desenha um labirinto, você começa com um caminho, mas deixa um monte de outros caminhos por percorrer. Escrevendo um romance transrealista coerente, você inclui um certo número de acontecimentos sem explicação através de seu texto. Coisas para as quais você não sabe a razão. Mais tarde você amarra estas pontas soltas, das narrativas ramificadas. Se nenhuma ligação está disponível, você volta atrás e a reescreve (como se apagando uma parede do labirinto). Apesar de a leitura ser linear, escrever não o é.
Transrealismo é uma forma de arte revolucionária.
A principal ferramenta no controle do pensamento de massa, é o mito da realidade consensual. De mãos dadas a este mito está a noção da 'pessoa normal'. Não existe a 'pessoa normal' - basta olhar seus parentes, as pessoas que você está em condições de conhecer bem. São todos esquisitos, em certo nível abaixo da superfície. Ainda assim, a ficção convencional muito comumente nos mostra pessoas normais em um mundo normal. Conforme você trabalha sob o sentimento de ser o único estranho, então você passa a se sentir fraco e apologético. Se você está ávido para seguir o establishment, e com medo de fazer marolas - é melhor ficar de fora.
As pessoas hoje são esquisitas e imprevisíveis, por isso é tão importante usá-las como personagens, ao invés dos bonecos de papel do bem e do mal, da cultura de massa.
A idéia de quebrar o consenso da realidade é ainda mais importante. É ai que o ferramental da FC é particularmente útil. Cada mente é uma realidade em si. Enquanto as pessoas estiverem enganadas, acreditando na realidade do noticiário das 6:30, elas andarão em rebanhos, como ovelhas.
O 'presidente' nos assusta com a 'guerra nuclear' e nos leva a loucura, e pelo medo da 'morte' corremos para 'comprar bens de consumo'. Quando de fato, o que é realmente preciso é que você desligue a televisão, coma alguma coisa e saia para dar uma volta, com pensamentos infinitos, misturando-se com infinitas percepções.
Sempre haverá lugar para a literatura de Ficção Científica. Mas não há razão para deixar que a condução de toda nossa escrita, seja de modo limitada e reacionária.
Transrealismo é o caminho para a verdadeira Ficção Científica artística.
Rudy Rucker
- O Manifesto Transrealista apareceu no Boletim número 82 da SFWA (1983) e foi republicado na antologia 'Transreal' (1991) de Rucker e em Seek! (Four Walls Eight Windows, 1999).
Foto: Santa Cruz Rollergirls - de Rudy Rucker.
sábado, 9 de maio de 2009
O Ciberpunk nos anos 90 - Bruce Sterling

Esta é minha sexta e última coluna para a INTERZONE, como prometi um ano atrás quando comecei esta série. Adorei escrevê-la e gostaria de agradecer ao meu enérgico editor e aos indulgentes leitores da INTERZONE. Um agradecimento especial para aqueles que contribuíram para o projeto 'The SF Workshop Lexicon' que ainda continuará. Aqueles leitores que tiverem bala na agulha para comprar THE SIGNAL serão bem recompensados, eu acredito.
Nesta coluna final eu gostaria de falar francamente sobre o 'ciberpunk', não o sinônimo para o crime digital, mas o movimento literário.
Anos atrás, no frio inverno de 1985 (costumávamos ter invernos frios, antes do buraco na camada de ozônio) um artigo apareceu na INTERZONE, chamado 'THE NEW SCIENCE FICTION' (A Nova Ficção Científica), o primeiro manifesto do movimento 'ciberpunk'.
O artigo era uma análise da história e dos princípios dos gêneros da Ficção Científica, mas a palavra ‘ciberpunk’ não aparecia nele. 'A NOVA FC' apareceu em uma edição trimestral britânica escrita sob pseudônimo, cuja pequena circulação não refreava a sua grande ambição. Para o prazer de uma dúzia, tinha recentemente ganho uma capa colorida. Um ótimo lugar para um manifesto.
Vamos comparar este humilde acontecimento ao artigo recente 'CONFISSÕES DE UM EX-CIBERPUNK' do meu amigo e colega Mr.Lewis Shiner. Esta foi outra tentativa honesta, feita por alguém que esteve lá, de poder declarar que o ciberpunk está morto. O artigo de Shiner aparece no The New York Times de 7 de Janeiro de 1991.
Mais uma vez, uma oportuna, mas ilustrativa prova dos perigos paradoxais dos 'movimentos'. Uma avalanche que começou com um grito, em algum lugar das alturas, não pode ser contida pelas mãos daquele responsável por iniciá-la.
'Ciberpunk', antes de adquirir este rótulo e a sinistra repercussão, era generosa e aberta para todos, bem acessível e anárquica, com uma atitude do tipo 'faça-você-mesmo', um etos compartilhado com a música de garagem das bandas punk dos anos 70. O órgão de propaganda do ciberpunk, 'CHEAP TRUTH' (verdade barata) era distribuído gratuitamente para qualquer um que pedisse. Nunca teve copyright, a fotocópia pirata era ativamente encorajada. Todos os contribuintes de CHEAP TRUTH tinham sempre pseudônimos, uma tentativa igualitária de evitar qualquer culto a personalidade. CHEAP TRUTH deliberadamente batia nos gurus do establishment e conclamava a qualquer um que soubesse usar um processador de textos a se juntar à causa. Para estes padrões ingênuos, a FC tinha que ser simplesmente 'boa', 'viva' e 'legível'. Mas quando colocadas em prática, estas supostas qualidades se tornavam outra coisa.
A fumaça da batalha obscurecia os grandes ideais.
CHEAP TRUTH teve um relativo sucesso. Tínhamos uma compreensão salutar do básico: Os escritores de FC deviam trabalhar duro e se livrar de toda aquela porcaria batida do gênero, se queriam ganhar respeito de verdade. Muitos concordam que esta era uma ótima descrição - para os outros.
Em FC sempre foi fácil esquecer-se de alguns truísmos para enfatizar algumas trivialidades da FC como uma carreira: O duro trabalho diário na Velha Fábrica de Besteiras. Slogans como 'Concentração imaginativa' e 'literalidade tecnológica' são tratadas com a mesma indiferença. Aliais, se repetir um mantra fosse suficiente para reformular o gênero, o mundo teria estremecido certamente quando Aldiss e Knight propuseram o mesmo em 1956.
A luta da FC por qualidade era de fato notícia velha, exceto pela CHEAP TRUTH, cujos escritores eram jovens demais e limitados demais para saberem disso.Mas o terreno cultural tinha mudado, o que fazia muita diferença. A honesta 'literalidade tecnológica' dos anos 50, regozijava inquieta - nos anos 80 high-tech. Ela significava exatamente 'êxtase e medo'. O ciberpunk era 'esquisito', o que obscurecia a simplicidade básica de sua teoria-e-prática.
Quando os escritores ciberpunk começaram a ganhar real notoriedade, a idéia dos princípios do ciberpunk, de ser aberta e acessível para qualquer um, tinha se perdido nas trevas. Ciberpunk tornou-se um 'Cult' instantâneo, talvez o primeiro da Ficção Científica moderna. Mesmo aqueles que simpatizam com a retórica CHEAP TRUTH, não confiavam no culto em si, simplesmente por eles mesmos terem se tornado 'gurus do gênero'.
Precisa-se de pouco para se tornar um ‘guru do gênero’.
Basicamente é fácil como se virar na cama. Questionável é o que se ganha com isso.
Afinal, quem acredita em gurus?
CHEAP TRUTH nunca acreditou. Foram necessários 3 anos para o movimento hastear sua bandeira. CHEAP TRUTH fechou as portas em 1986.
Gostaria de poder pensar que isso serviria de lição, mas tenho minhas dúvidas.
Rucker, Shiner, Sterling, Shirley e Gibson -- os maiores 'gurus' do movimento, são citados no valioso artigo de Shiner para o NY TIMES - eles são os 'ciberpunks'.
Outros ciberpunks, como aqueles que contribuíram para a MIRRORSHADE - THE CIBERPUNK ANTHOLOGY, podem de certo modo também chegar a serem assim taxados, mais ou menos. Mas a aterrorizante palavra que começa com 'C', provavelmente estará gravada em nossas lápides.
Desaprovar publicamente não serve para nada, até seria pior. Mesmo a menor mudança em nossa filosofia como escritores, talvez por uma estranha crise de meia idade ou conversão ao Islamismo ou a Santeria, não vai apagar esta mancha.
Visto por esta perspectiva, 'ciberpunk' significa simplesmente 'tudo que um ciberpunk escreve'.
O que cobre uma área bem grande. Sempre tive um fraco por fantasias históricas e Shiner também escreve romances populares e de mistério. Shirley escreve histórias de terror. Rucker escreveu algo sobre Hollow Earth e Gibson - surpresa ! - é conhecido por escrever contos curtos engraçados. Mas tudo isso não significa nada.
'Ciberpunk' não será considerada extinta, até que o último de nós seja enterrado. Demograficamente isso sugere que ainda vai levar algum tempo.
Os princípios da CHEAP TRUTH tiveram um uso dúbio - mesmo quando sustentadas bravamente pela INTERZONE.
Talvez fossem nebulosos demais e abstratos demais, misteriosos demais e inalcançáveis, o contrário da facilidade de se reconhecer os símbolos por trás daquela palavrinha que começa com 'C', tais como roupas de couro e dependentes de anfetaminas. Mas mesmo hoje, pode não ser tarde para dar um exemplo concreto da 'visão do mundo ' por um genuíno ciberpunk.
Pense em FRANKENSTEIN de Mary Shelley como sendo a nascente da FC como gênero literário. Por uma análise ciberpunk, FRANKENSTEIN é FC 'Humanista'. Ela promove e atesta romanticamente, que existem coisas que o homem não deve saber. Não são apenas mecanismos físicos que permeiam esta lição moral - ela trabalha com a compreensão transcendente da nossa mortalidade, algo que se relaciona com a vontade divina.
O excesso de confiança, a arrogância, precisa encontrar sua nêmeses.
Simplesmente é a natureza de nosso universo.
O Doutor Frankenstein comete uma transgressão, uma afronta contra a alma humana, e com memorável justiça poética ele é punido por sua própria criatura, o Monstro.
Agora imagine uma versão ciberpunk de FRANKENSTEIN. Em um mundo imaginário, o Monstro será o resultado de um bem organizado projeto de uma Corporação Global. O Monstro também fará um monte de estragos, de uma maneira quase casual. Mas por conta disso ele não será mandado para vagar no Pólo Norte, 'byronescamente'. Os Monstros ciberpunks não desaparecem assim tão convenientemente. Eles estão nas ruas, entre nós. Quase como se nós os fossemos. O Monstro com o copyright das novas leis genéticas é fabricado mundialmente aos milhares. Logo eles terão empregos noturnos em cadeias de fast-food.
No universo moral do ciberpunk, nós já sabemos aquilo que não deveríamos saber. Nossos avós já sabiam, Robert Oppenheimer em Los Alamos tornou-se o Destruidor de Mundos, antes mesmo de aparecermos em cena. No ciberpunk, a idéia de que existem limites sagrados para a ação do homem é uma desilusão. Não existe nada de sagrado para nos proteger de nós mesmos.
Nosso lugar no universo é puramente acidental. Somos fracos e mortais e não existe a vontade divina dos deuses. E isso é radicalmente insatisfatório, não por perdermos a proteção da deidade, mas por que olhando objetivamente o valor do sofrimento humano é basicamente nulo.
A condição humana pode ser mudada e sendo alterada, a única questão é como, e para que.
Esta convicção anti-humanista no ciberpunk não se trata de simplesmente um maneira literária de ultrajar a burguesia, é um fato objetivo sobre a cultura do final do século vinte.
O ciberpunk não inventou a situação, mas a refletiu.
Hoje em dia é quase comum ver respeitáveis cientistas expondo terríveis e radicais idéias; nanotecnologia, inteligência artificial, suspensão criogênica da morte, download de memórias...
A arrogância está solta nos corredores acadêmicos, onde todos e qualquer um, parece ter um plano para revirar o cosmos. A severa indignação moral ficou para os fracos.
Se existisse uma droga que pudesse expandir nossa sagrada (e dádiva de Deus) expectativa de vida, em pelo menos cem anos, o Papa seria o primeiro da fila.
Nós já vivemos, todos os dias, cometendo ações ultrajantes com conseqüências imprevisíveis para o mundo. A população mundial dobrou desde 1970, o mundo natural que costumava cercar a humanidade em seus mistérios, é agora algo catalogável e controlado.
Não somos bons o bastante para recusar coisas que não parecerem apropriadas. Como sociedade, sequer conseguimos banir ameaças abismais, como heroína e a bomba de hidrogênio. Como cultura gostamos de brincar com fogo, apenas por sua sedução, e se tiver dinheiro nisso, não existem barreiras que nos segurem.
Passar por cima dos cadáveres de Mary Shelley é o menor dos problemas, algo muito além desta linha acontece intensamente todos os dias.
A humanidade pensa em si mesma, de uma maneira sem precedentes, assim como um software de computador, que começa a se cristalizar, replicável como um produto de consumo.
Mesmo o interior de nossos cérebros não é mais sagrado, ao contrário, o cérebro humano é o primeiro alvo de pesquisas bem sucedidas, perguntas ontológicas e espirituais estão de fora! A idéia de que sob estas circunstâncias, a natureza humana está de algum modo destinado a prevalecer sobre a grande máquina, é infantil. É como se um roedor em sua jaula de laboratório filosofasse que, ter seu cérebro perfurado e ligado a fios em nome da Grande Ciência, fosse ao final, o triunfo da Natureza Roedora.
Tudo que pode ser feito a um rato pode ser feito a um ser humano.
E podemos fazer de tudo com um rato.
É difícil pensar que sim, mas é verdade. Não vai deixar de ser assim apenas cobrindo os olhos.
“ISSO” É CIBERPUNK.
Isso explica, espero que sim, o por que da ficção cientifica padrão ter falhado, azedado, em não corresponder às exigências. Lewis Shiner simplesmente perdeu a paciência com escritores que oferecem uma ficção banal e corriqueira ('sci-fiberpunk').
Estes escritores que 'transformaram o formato em fórmula' , queixa-se no artigo do NY TIMES, 'nos dão o mesmo tipo de ação que temos nos videogames e nos blockbusters de Hollywood'. Shiner não acrescenta muito, mas condena aquilo que a maioria chama de 'ciberpunk' e que não reflete os ideais do movimento.
Na minha opinião, as tolices derivadas disso são um problema menor.
A questão é a palavra 'ciberpunk'.
Vejo que é cada vez mais difícil escrever um livro qualquer e colocar a palavra 'ciberpunk' nele e esperar vendê-lo. Com esta palavra começada com 'C' desacreditada pela maioria das pessoas, qualquer um que se defina como 'ciberpunk' terá que se garantir sozinho. E não será fácil. Rótulos não garantem sua integridade própria, escritores sim, e principalmente os bons.
Tem outro ponto e que acredito ser importante para se entender realmente o movimento. Ciberpunk, assim como a New Wave antes dele, era a voz da boêmia. Veio do underground, de fora, dos jovens e sem franchise. Veio das pessoas que desconheciam seus limites próprios e se recusavam a aceitar os limites oferecidos a eles por mero costume ou hábito.
A FC não é muito boêmia na verdade, e a maioria dos boêmios tem pouco a ver com ela, mas há muito a se ganhar com o encontro dos dois. A FC como gênero, mesmo a mais convencional, pertence a um underground cultural. A influência da FC na sociedade, assim como a dúbia influência dos beatniks, hippies e punks, é limitada. A FC, como a boêmia, é um lugar onde se pode colocar uma grande variedade de pessoas, onde suas idéias e ações podem ser examinadas, sem o risco de colocar estas idéias e ações, diretamente em prática. A boêmia serviu para esta função desde o início da revolução industrial. Ciberpunk era a voz da boêmia dos anos 80.
Mudanças tecno-sociais dentro da sociedade contemporânea afetavam a contracultura e o ciberpunk era a encarnação literária deste fenômeno.
Mas hoje temos que admitir que os ciberpunks - veteranos da FC em seus quarenta anos ou perto disso, pacientemente refinando sua arte e recebendo seus cheques de pagamento - não pertencem mais ao underground boêmio. E isso é algo comum à respeito da boêmia; esta é a punição padrão para o sucesso. Um ‘underground popular’ é uma contradição em si.
E respeitabilidade não se possui simplesmente, ela aprisiona.
Neste sentido, ciberpunk é ainda mais perigosa do que Shiner admite.
O tempo e as oportunidades foram gentis para os ciberpunks, mas com o passar dos anos, eles próprios decidiram por mudar. Uma das doutrinas no núcleo teórico do movimento, consiste de 'intensidade visionária'. Mas faz algum tempo desde que algum ciberpunk escreveu algo realmente explosivo para as mentes, algo que nos fizesse uivar, alucinar e quebrar a mobília.
Nos últimos trabalhos destes veteranos, vemos enredos bem construídos, personagens aprimorados, prosa fina e mergulhos mais sérios e introspectivos no 'futurismo'. Mas vemos menos espontaneidade e menos loucura dançando encima das mesas. Os cenários são cada vez mais próximos dos dias atuais, perdendo os adornos rocambolescos barrocos da fantasia desatada; os problemas começaram a se parecer horrivelmente com as preocupações comuns da responsabilidade da meia idade. Isso pode ser bom, mas não é espetacular.
O aspecto vital da FC tem sido abdicado.
O ciberpunk simplesmente não está mais lá.
Mas a FC ainda está viva e se desenvolvendo. E a boêmia não vai desaparecer, e como a FC, ela não é uma moda passageira, embora alimente modas. Como a FC ela é antiga, antiga como a sociedade industrial da qual ambas são partes integrantes. Boêmia cibernética não é um evento bizarro, e quando os boêmios cibernéticos proclamam estar fazendo algo totalmente novo, estão inocentemente enganando a si mesmos, apenas por que são jovens.
Ciberpunks escrevem sobre o êxtase, sobre os perigos de se voar pelo ciberespaço e Verne escreveu sobre o êxtase e os perigos em 'Cinco semanas em um balão', e se você se afasta um pouco da circunstância histórica, verá que ambos servem à mesma função básica social. É claro que Verne, grande mestre, ainda é publicado, enquanto que o veredicto para o ciberpunk não é favorável. E é claro, Verne previu um futuro totalmente diferente, ele errou, exceto por alguns palpites de sorte, mas quem pode dizer que os ciberpunks não farão o mesmo.
Quando os praticantes do ciberpunk se regozijam com sua legitimidade não desejada, se torna mais difícil fingir que o ciberpunk era algo bizarro ou extravagante; é fácil ver hoje de onde isso veio e onde acabou. Ainda assim pode-se pensar que esta fidelidade a Jules Verne seja uma estranha declaração para um ciberpunk. Pode ser dito, por exemplo, que Jules Verne era um cara legal, que amava sua mãe, enquanto que os antihumanos ciberpunks são a favor das drogas, da anarquia, de plugues no cérebro e da destruição de tudo que é sagrado.
Esta objeção é falsa. Capitão Nemo era um anarco-terrorista tecnológico. Jules Verne distribuía panfletos radicais em 1848, quando as ruas de Paris estavam tomadas por cadáveres. E Jules Verne ainda assim é considerado um otimista vitoriano (aqueles que o leram devem duvidar disso) enquanto os ciberpunks são sempre vistos como niilistas. Por quê ? Talvez uma tendência da época em que surgiram, eu acho.
Existe bastante depressão no ciberpunk, mas ela é honesta. E êxtase, mas também medo. Sentado aqui, com um ouvido ligado nas noticias da televisão, ouço o senado americano debatendo sobre a guerra. Por trás destas palavras existem cidades em chamas e multidões sendo massacradas por ataques aéreos, soldados em choque por gás mostarda e Sarin.
Esta geração terá que assistir um século de destruições e desabandono batendo à porta e nós sabemos disso. Teremos sorte se não sofrermos muito devido aos danos ecológicos já cometidos; seremos extremamente sortudos se não assistirmos pela televisão, dezenas de milhares de seres humanos morrendo horrivelmente, enquanto nós ocidentais, sentamos nas nossas salas mastigando nossos cheeseburgers. E isso não é lamentação de um boêmio maluco, é uma observação objetiva sobre a condição do nosso mundo, facilmente confirmável por qualquer um com coragem de olhar para os fatos.
Isto deve e irá afetar nossa forma de pensar e expressar e sim, nossas ações; e se os escritores fecharem seus olhos para isso, poderão ainda fornecer entretenimento, mas não poderão se chamar de escritores de Ficção Científica. E ciberpunks são escritores de Ficção Científica - não um subgênero ou um culto, mas a coisa em si. Merecemos este titulo e não devemos ser privados disso.
Os anos 90 não serão dos ciberpunks. Nós estaremos lá trabalhando, mas não seremos 'O Movimento', não seremos nem mesmo 'nós' nunca mais. Os anos 90 pertencerão às gerações que cresceram nos anos 80. Todo o poder e a melhor das sortes para o Underground dos anos 90.
Eu não conheço você, mas sei que você estará lá. Levante-se e encare a vida. Dance em cima das mesas. Faça a coisa acontecer, e pode ser feito. Eu sei, eu estive lá.
Bruce Sterling (bruces@well.sf.ca.us)
Sixth INTERZONE column.
Imagens Virtual Neko in Second Life
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Cyberpunk, Feitiçaria e Paranóia - Novas Tecnologias e Subjetividade no RPG

[...Douglas Kellner (2001) recorre ao rádio, televisão, cinema e outros produtos da indústria
cultural como fornecedores de modelos sociais. Ele defende que é nesses elementos que se
encontra hoje a forma dominante de cultura, forma que nos socializa e nos fornece material de
identidade, tanto em termos de reprodução, quanto de mudança da sociedade.
Scott Bukatman (1998), por sua vez, considera a ficção científica vital para se compreender o presente momento cultural, pois ela freqüentemente narra as ambigüidades que marcam os contornos tecnológicos da cultura contemporânea com mais propriedade do que os textos de intelectuais pós-modernos.
Em sua análise, Bukatman recorre não só a livros de ficção científica, mas também a
quadrinhos, cinema, jogos e outras mídias. Este trabalho parte do pressuposto de que o RPG
também constitui um importante objeto de análise.]
Cyberpunk, Feitiçaria e Paranóia - Claudio Faria Marques [ Download ]
Claudio Faria Marques - Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
quinta-feira, 7 de maio de 2009
We are Borg
[...Cognitive integration may be an important subspecies of cyborghood, but certainly not the only one. Criteria for cyborghood should not exclude technologies that play noncognitive roles in our lives, such as pacemakers or mechanized limbs, for this type of biological/technological synthesis is paradigmatic for cyborgs. Still, not everything that plays a causal or even
interactive role in the life of an organism should be sufficient to ground an argument for cyborghood.]
We are Borg - review of Andy Clark’s Natural Born Cyborgs - Adina Roskies [ Download ]
Golem, homunculus, robôs, andróides e cyborgs: o imaginário cinematográfico na era da cibercultura

[...Em 1916, a indústria cinematográfica alemã lançará o primeiro de uma série de seis filmes sobre “Homunculus”, outra criatura artificialmente produzida, considerada por Sigfried Kracauer como a verdadeira antecessora de Frankenstein. Gerado num tubo de laboratório por um famoso cientista, Homunculus torna-se um homem “de intelecto acurado e desejo indomável” (Krakauer, 1988, p. 46) que, entretanto, será tomado pela revolta ao descobrir sua origem. Como o Golem, ele deseja o amor, mas será rejeitado e acabará desprezando raivosamente toda a humanidade. A criatura pressagia o próprio Hitler magistralmente: torna-se ditador de um país, incita greves que esmaga violentamente e chega a provocar um conflito bélico de caráter mundial, sendo finalmente destruída pela força natural (diríamos, também sagrada) de um raio.
Apesar desse final, Homunculus (exatamente como Frankenstein) é fruto de uma ciência sem limites morais e éticos. O foco de poder já se desloca, conforme a ênfase moderna na racionalidade – instrumental, diria Theodor Adorno –, para os prodígios de uma ciência que, no entanto, afastada da religião (e de seus valores), mostra-se uma ameaça nas mãos de homens ambiciosos e inescrupulosos.
Serão necessários mais de dez anos para que o imaginário germânico consagre a figura do robô (de uma ameaçadora mulher-robô, não se deve esquecer), em “Metropolis” (1928).
A partir da grande obra de Fritz Lang, o cinema terá cada vez mais presentes as imagens que evocam os autômatos, “animados pela força da mecânica, pelos paradigmas newtonianos de energia, força, movimento, regularidade”, conforme André Lemos.
A fronteira entre o artificial e o natural está aqui preservada de uma maneira marcante. Um sistema que se utiliza da técnica para uma produtividade ou eficiência cada vez maior passa a ser o “pai/carrasco” dessas criaturas reguladas e escravizadas. Os robôs clássicos, entretanto, mantêm ainda, nesses tempos marcados pela emergência do imaginário da cyborg society, seu apelo junto às grandes platéias. Como esquecer as simpáticas criaturas da trilogia produzida nos anos 1980 “Guerra nas Estrelas”, relançada – em nova versão – com inusitado sucesso na segunda metade da década de 1990? ]
Golem, homunculus, robôs, andróides e cyborgs - Adriana Schryver Kurtz [ Download ]
Adriana Schryver Kurtz- Escola Superior de Propaganda e Marketing - ESPM.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Cyberculture, cyborgs and Science Fiction - William S.Haney II
[...beginning with Mary Shelley’s Frankenstein. As the fifth chapter argues, Victor’s monster as a “composite body” would never qualify as a human, even though it manages to acquire a socially constructed identity.
Chapter Six argues that William Gibson’s Neuromancer, which takes a playful yet distinctly ambivalent attitude toward technology, demonstrates that the world of cyborgs poses a clear threat for human consciousness. Similarly, Neal Stephenson’s Snow Crash, as maintained in Chapter Seven, suggests that humans, always vulnerable to viruses, will now be exposed through posthuman biotechnology to infection by computer viruses. Snow Crash also supports the argument that machines will never be able to develop consciousness made by neuroscientists such as Gerald Edelman.
The next two chapters deal with Hariku Murakami’s Hard-Boiled Wonderland and the End of the World and Marge Piercy’s He, She and It respectively. Murakami’s novel explores the inner depth of the mind and suggests that in a posthuman context, any attempt to enhance brain functioning by technologically interfering with consciousness may have devastating consequences for human identity and survivability.
Piercy extends this theme by considering the implications for consciousness of an entirely artificial being. She suggests that as humans become ever more fascinated with transforming themselves into radical cyborgs, pure consciousness may some day become nothing more than a vague memory.]
Preface
Chapter 1:
Consciousness and the Posthuman
Chapter 2:
The Latent Powers of Consciousness vs. Bionic Humans
Chapter 3:
Derrida’s Indian Literary Subtext
Chapter 4:
Consciousness and the Posthuman in Short Fiction
Chapter 5:
Frankenstein: The Monster’s Constructedness and
the Narrativity of Consciousness
Chapter 6:
William Gibson’s Neuromancer: Technological Ambiguity
Chapter 7:
Neal Stephenson’s Snow Crash: Humans are not Computers
Chapter 8:
Haruki Murakami’s Hard-Boiled Wonderland and the End of the
World: Unicorns, Elephants and Immortality
Chapter 9:
Cyborg Revelations: Marge Piercy’s He, She and It
Chapter 10:
Conclusion: The Survival of Human Nature
Works Cited
Index
Cyberculture, cyborgs and Science Fiction - William S.Haney II [ Download ]
A metrópole e o triunfo distópico — a cidade como útero necrosado na ficção cyberpunk

[...A questão do espaço urbano tem sido apontada como central na ficção científica e, em um de seus subgêneros, o ciberpunk. A figura da metrópole urbana, apresentada como caótica, sombria, poluída e desorganizada em sua arquitetura gigantesca e claustrofóbica, aparece em diversas obras e tem suas origens no imaginário do romantismo gótico4 em que os autores decadentistas se inspiraram para buscar a atmosfera de pavor através das construções e edifícios, com o intuito de produzir um efeito no leitor. A cidade torna-se um palco no qual acontece a ação das obras (literárias, cinematográficas, etc). Ela sofre constantes transformações, rupturas e também continuidades ao longo dos séculos e durante os distintos períodos da FC, até chegar, no domínio do cyberpunk...]
A metrópole e o triunfo distópico - Adriana Amaral [ Download ]
Adriana Amaral - Professora e pesquisadora do Mestrado em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná. Doutora em Comunicação Social pelo PPGCOM/ PUCRS.
Weblog: <www.palavrasecoisas.blogspot.com>
terça-feira, 5 de maio de 2009
The Postmodern Imaginary in William Gibson's Neuromancer - Tony Myers

Much of William Gibson's novel Neuromancer is centered around cyberspace, or the matrix as it is alternatively called, the representational innovation for which his work has become famous. It is first defined for the reader via the narration of a children's educational program:
"Cyberspace. A consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts . . . . A graphic representation of data abstracted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable
complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights receding . . ."
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Ciberpunk, uma palavrinha por Bruce Bethke

Na primavera de 1980 eu escrevi uma pequena história sobre um bando de hackers adolescentes.
Desde o rascunho esta história tinha um título, que era...
E pode apostar o que você tem de mais precioso, que se eu tivesse a menor ideia, de que tantos anos depois, ainda estaria respondendo perguntas sobre ela, eu a teria registrado!
No entanto eu não registrei e como você já deve saber, esta palavra que começa com 'C', mais tarde ganhou toda uma fascinante vida própria.
Não estou tardiamente tentando conseguir algum crédito ou roubar a glória de alguém (francamente, eu preferiria que alguém me desse atenção pelo que escrevo hoje, como por exemplo meu romance 'Headcrash', premiado com o P.K.Dick), mas para aquelas pessoas que são obcecadas com esta coisa, de forma resumida, esta é a história por trás da história:
A invenção desta palavra que começa com 'C' foi um ato consciente e deliberado de criação de minha parte. Eu escrevi esta história no começo da primavera de 1980 e desde o primeiro rascunho, tinha o título 'CIBERPUNK'.
Chamei-a assim tentando inventar um termo novo que unisse a atitude punk com a alta tecnologia. Minhas razões foram puramente egoístas e voltadas para o mercado; queria um nome curto que os editores pudessem gostar.
Honestamente, posso dizer que consegui.
Mas como eu cheguei nesta palavra? Do jeito que qualquer palavra nova aparece, imagino: pura síntese. Peguei várias raízes... ciber, tecno e coisa e tal, misturei com outros termos jovens e tentei várias combinações até que uma soasse bem.
Um ponto importante! Nunca disse ter inventado a ficção ciberpunk! Esta honra primeiramente se deu a William Gibson, em seu livro 'Neuromancer' de 1984, que realmente definiu o 'Movimento'.
(Na época, Mike Swanwick disse que os escritores deste movimento deviam se chamar 'neuromânticos', já que o que faziam era claramente uma imitação de 'Neuromancer').
É claro que Gibson não pode receber sozinho os créditos disso. Pat Cadigan com 'Pretty boy crossover', Rudy Rucker com 'Software', W.T. Quick e seu 'Dreams of Flesh and Sand', Greg Bear com 'Blood Music', Walter Jon Williams e 'Hardwired', Michael Swanwick 'Vacuum Flowers'... uma lista dos primeiros escritores dos anos 80 com contribuições importantes para esta definição e que desafiam minha habilidade de relembrar seus nomes.
Não que se trate de uma concepção imaculada: John Brunner havia escrito 'Sockwave Rider', Anthony Burgees com seu 'A Clockwork Orange' e talvez Alfred Bester e 'The stars my destination', foram todos importantes para o que seria depois chamado de ficção ciberpunk.
Quanto a mim? Posso dizer que minha principal contribuição foi ter inventado o estereótipo do hacker punk com um cabelo moicano. Isso e por ter dado o nome à besta, é claro.
Ciberpunk - Bruce Bethke [ Download ]
Headcrash - Bruce Bethke [ Download ]
Neuromancer - William Gibson [ Download ]
Pretty boy crossover - Pat Cadigan [ Download ]
Software - Rudy Rucker [ Download ]
Dreams of Gods and Men- W.T.Quick [ Download ]
Blood Music - Greg Bear [ Download ]
Hardwired - Walter Jon Williams [ Download ]
Vacuum Flowers - Michael Swanwick [ Download ]
The Sockwave Rider - John Brunner [ Download ]
A Clockwork Orange - Anthony Burgees [ Download ]
The stars my destination - Alfred Bester [ Download ]
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Ciberpunk, biopunk, mannerpunk, splatterpunk, steampunk, pós-ciberpunk...

Trinta anos atrás ou quase, um sujeito chamado Bruce Bethke escrevia uma história sobre hackers adolescentes e a batizou de 'Ciberpunk'... de lá para cá, muita coisa aconteceu, livros foram escritos, filmes levaram para a telona (e para as grandes platéias) ideias perturbadoras sobre um futuro distópico tecnológico.
Ciberpunk
União de 'cibernética' e 'punk', um sub-gênero da Ficção Cientifica com foco em tecnologia avançada, usualmente associada a ruptura da ordem social.
Em um conto ciberpunk encontramos hackers, inteligência artificial e mega-corporações, sendo uma tendência localizar a ação em um futuro próximo.
No meio da década de 80, o ciberpunk se tornou um tópico nos círculos acadêmicos e objeto de estudo e investigação dos pós-modernos, na mesma época, chegou até Hollywood e se estabeleceu como um estilo cinematográfico. Filmes como Blade Runner e Matrix foram concebidos dentro da estética visual apregoada pelo movimento.
No início dos anos 90, seus reflexos já eram visiveis nos games e também na música. Uma larga variedade de escritores inicialmente dentro dos conceitos do ciberpunk, começaram a expandi-lo, gerando outros sub-gêneros como o Steampunk.
O mundo distópico é a antítese às visões utópicas dos anos 40 e 50 (Gibson definiu que o ciberpunk antipatiza com a Ficção Científica utópica, como em 'The Gernsback Continuum', onde ele de certa forma, condena a antiga FC).
"Tudo que os cientistas podem fazer a um rato, pode ser feito a um ser humano. E fechar os olhos não vai tornar as coisas mais fáceis. Isso é ciberpunk!" (Bruce Sterling)
Muito da literatura ciberpunk se concentra em ações no espaço virtual, confundindo realidade com virtualidade. Outro aspecto característico é a interface cérebro humano e máquina, através da ciência. O cibermundo é sombrio, redes de computadores dominam todos os aspectos da vida.
Gigantescas corporações tomaram o lugar de governos, economicamente, politicamente e militarmente falando. A batalha contra o autoritarismo é um tema comum na ciberficção em particular, ao invés da FC convencional, onde os estados totalitários tendem a ser estéreis, ordenados e controladores.
Na visão ciberpunk, o hacker é o herói solitário, lutando contra as injustiças do mundo.
Um destes tipos mais significativos é Case, de Neuromancer. Um 'cowboy de console', brilhante hacker, que é traido por seus parceiros da organização criminal. Como Case, os protagonistas são manipulados e se encontram em situações onde suas chances de sobreviver são poucas, são anti-heroís, se parecem mais com os detetives de romances, envolvidos em complicados casos e quase sempre terminam sem uma recompensa justa.
Esta ênfase que Thomas Pynchon chamava de 'preteridos' e Frank Zappa, 'os esquecidos pela Grande Sociedade' , é o elemento punk.
Ciberpunk é uma metáfora dos dias modernos, sobre governos corruptos e mega-impérios financeiros, alienação e subjulgação à tecnologia, expressando um senso de rebelião.
'O Ciberpunk é a Ficção Científica da contra-cultura.' (David Brin)
O editor Gardner Dozois é reconhecido como a pessoa que popularizou o termo 'ciberpunk'.
Entre as obras mais representativas, encontramos 'Mirrorshades' de Bruce Sterling, 'Splendid Chaos' de John Shirley, 'Neuromancer' de William Gibson, 'Spaceland' de Rudy Rucker e 'Metrophage' de Richard Kadrey.
O escritor David Brin descreveu o ciberpunk como "a mais elaborada campanha de promoção vinculada ao gênero Ficção Científica".
Aos poucos, estes escritores perceberam que o ciberpunk não era uma revolução, ou algum tipo de filosofia que invadia a FC, mas apenas outro 'sabor' da FC.
Ciberpunk (The Gernsback Continuum, Neuromancer, Mirrorshades, Splendid Chaos, Spaceland e Metrophage)
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Biopunk
Uma combinação de 'Biologia' e 'Punk', Biopunk é um sub-gênero da Ficção Cientifica que utiliza elementos que vão desde os romances 'noir' de detetives ao anime (desenhos animados japoneses).
Descreve a face mais underground da sociedade bio-tecnológica, que começou a surgir na primeira década do século 20.
Ao contrário do ciberpunk, não se interessa por tecnologias de informação, mas por biologia, individuos que são aprimorados, mas não por partes mecânicas, mas por engenharia genética.
Um dos mais proeminentes escritores deste campo é Paul Di Dilippo, famoso pela sua coletânea 'Ribofunk', nome retirado de um dos elementos do ARN (ácido ribonucléico).
Os livros de S.Andrew Swann, com sua série 'Moreau' são um bom exemplo, onde através da engenharia genética, seus personagens são seres do submundo, na linha detetivesca de Raymond Chandler. O conto 'Eyes of Heisenberg' de Frank Herbert trata de cidadãos controlados pelo 'OPTIMEN' ou líderes geneticamente elaborados e que vivem centenas de anos.
Os filmes Gattaca, Innerspace e os trabalhos de David Cronenberg (Videodrome) e Koichi Ohata (Genocyber) podem ser exemplos do cinema biopunk.
Biopunk (Ribofunk, Moreau e Los ojos de Heinsenberg) [ Download ]
Mannerpunk
Apesar do nome 'mannerpunk' ser uma alusão ao ciberpunk, trata-se de um sub-gênero da literatura de fantasia. O termo foi primeiro usado pelo critico Donald G.Keller em um ensaio 'The manner of Fantasy' em Abril de 1991.
Ellen Kushner talvez seja o nome que melhor define o mannerpunk. Quase todos seus romances podem ser considerados como ficção histórica, e o seu livro 'Swordpoint' (1987) é a síntese do gênero.
Entre outros, vale a pena destacar 'The Anvil of the world' de Kage Baker, 'To reign in Hell' de Steven Brust e 'War for the oaks' de Emma Bull.
A típica história de fantasia mannerpunk envolve uma aventura romântica que em algum ponto se torna uma crítica social. Magia, criaturas legendárias, outras raças, não são o ponto principal do gênero, apesar de fazer parte (ou não). Por este motivo, algumas vezes os livros de mannerpunk são chamados de ficção histórica.
Mannerpunk (Swordpoint, The Anvil of the world, To reign in Hell, War for the Oaks) [ Download ]
Splatterpunk
Splatterpunk é um neologismo que descreve um sub-gênero da ficção de terror, distinta pela exarcebação da violência.
O termo foi criado pelo crítico de pop-cultura David J.Schow nos meados dos anos 80.
Clive Barker é comumente citado como o escritor mais conhecido por sua série 'Books of blood'. Outros livros fundamentais são 'Scream' de John Skipp e Craig Spector, 'Pas de Deux' de Kathe Koja e 'Darkness divided' de John Shirley.
As histórias possuem uma caracteristica comum, de serem intensamente perturbantes e as vezes até desagradaveis, diferenciando-se do terror clássico de autores como Stephen King, Dean Koontz e John Saul.
O splatterpunk é mal-comportado, quer chocar, não é complacente às fórmulas financeiramente bem sucedidas e seguras da ficção de terror. Ele é mais influenciado pelos rebeldes e marginais. por mestres do rock-horror como Alice Cooper, o punk rock dos Sex Pistols e filmes como 'O massacre da serra elétrica'.
Splatterpunk (Weaveworld e Books of blood, Darknes Divided, Paux de Deux e The Scream) [ Download ]
Steampunk
(Steam = Vapor)
Steampunk é um sub-gênero da FC, onde as histórias se passam em um mundo aparentemente alternativo do nosso passado, semelhante historicamente à era Vitoriana.
Como no ciberpunk, a sociedade Steampunk é tipicamente distópica, com elementos noir e da ficção 'pulp'.
Sociedades secretas e teorias conspiratórias são usualmente apresentadas e ainda podem incluir elementos de fantasia. Frequentemente encontramos o horror lovecraftiano, o oculto e o gótico como influências.
O atual crescimento da popularidade do gênero se deve principalmente aos filmes e revistas em quadrinhos (comics), aos trabalhos de artistas como Hayao Miyazaki e Alan Moore/Kevin o'Neill (League of Extraordinary Gentlemen).
Alguns dos titulos mais conhecidos são: 'The Difference Engine' de William Gibson & Bruce Sterling, 'The Light Ages' de Ian R. MacLeod, 'Automated Alice' de Jeff Noon, 'Iron Council' de China Miéville, a série 'Age of Unreason' de Gregory Keyes, 'Homunculus' de James Blaylock, 'Anti-Ice' de Stephen Baxter, 'Souls in the great machine', de Sean McMullen, 'The Anubis Gates' de Tim Powers e 'Titus Groan' de Mervyn Peake
Uma vertente muito comum é o 'Western Steampunk', uma cientificação ficcional do western americano, vistos em 'The Wild Wild West' e 'Adventures of Brisco County'. Outra é a Fantasia Steampunk de China Mielville, combinando magia e tecnologia à vapor.
Steampunk (Automated Alice, Age of unreason, Homunculus, The Anubis Gates, The Light Ages, The Difference Engine, Iron Council, Anti-Ice, Souls in the Great Machine, Titus Groan) [ Download ]
Pós-ciberpunk
O Pós-ciberpunk, como seu predecessor ciberpunk, se concentra no desenvolvimento tecnológico em um futuro próximo, onde vemos os efeitos da dinamização das telecomunicações, da engenharia genética e da nanotecnologia.
A principal diferença em relação ao ciberpunk, está na atitude dos protagonistas, que defendem a união harmônica (utópica) com a tecnologia.
Exemplos de literatura pós-ciberpunk: 'Down and Out in the Magic Kingdom' de Cory Doctorow, 'Permutation City' de Greg Egan, 'Beggars in Spain' de Nancy Kress, 'Fairyland' de Paul J. McAuley, 'Market Forces' de Richard K. Morgan, 'Singularity Sky' de Charles Stross e a série 'Otherland' de Tad Williams.
O termo foi usado pela primeira vez em 1991, para descrever o romance 'Snow Crash' de Neal Stephenson. Em 1998, Lawrence Person publicava o artigo chamado 'Notes toward a postcyberpunk manifesto' em uma revista de pouca circulação chamada Nova Express, e no ano seguinte o mesmo artigo chegava ao popular site Slashdot. O artigo defendia a necessidade do gênero, assim como o ciberpunk já fora uma resposta à Space-Opera e a FC dos anos 70 e 80.
Notes toward a postcyberpunk manifesto
Pós-ciberpunk (Singularity sky, Down and out in the magic Kingdom, Permutation City, Fairyland, Beggars in Spain, Snow Crash, Otherland, Market Forces) [ Download ]
domingo, 3 de maio de 2009
Stanislaw Lem
Stanislaw Lem (12 de setembro de 1921 - 27 de Março de 2006) nasceu em Lviv, Ucrânia. Filósofo, ensaísta, poeta e escritor de Ficção Científica, sua obra (mais de 27 milhões de livros vendidos) foi traduzida para 41 línguas, algo notável para um autor que não escrevia em inglês.
Lem (que possuia um QI de 180) estudou medicina na Universidade de Lviv e na Universidade de Cracóvia, mas seus estudos foram interrompidos devido a Segunda Grande Guerra.
Durante a guerra e a ocupação nazista da Polônia, Lem trabalhou como mecânico de automóveis e soldador, foi membro da resistência, lutando contra os alemães, com documentos falsificados que escondiam sua origem judia, o que o livrou dos campos de concentração.
Em 1946 Lem mudou-se para Cracóvia e trabalhou como assistente de pesquisas em uma instituição científica e começou a escrever ficção em seu tempo livre. Também escrevia artigos científicos para a imprensa especializada.
Seu estilo, repleto de humor e inteligência, trocadilhos e neologismos, não poupava críticas (mesmo que indiretas) ao comunismo e ao progresso desenfreado.
Lem escrevia basicamente sobre sua permanente preocupação com o futuro da humanidade. Suas descrições de sociedades utópicas são marcadas por doses de ironia e a sensível impotência de seus protagonistas.
Seu livro Solaris de 1961, provavelmente seu trabalho mais conhecido, descreve um planeta-oceano consciente e a impossibilidade de comunicação (um de seus temas prediletos) entre os exploradores humanos e a entidade. O diretor russo Andrei Tarkovsky faria em 1972 uma versão poética e intimista do livro e posteriormente também o diretor Steven Soderbergh em 2002. Lem desaprovou as adaptações e se recusou a assistir a última.
A carreira de Lem ficou marcada também por polêmicas.
Em boa parte de sua vida, Stanislaw Lem teve que lidar com a censura. Vários trabalhos do início da carreira de Lem, tiveram sua publicação impedida ou retardada.
Em 1973, Lem foi homenageado pela SFWA (Science Fiction and Fantasy Writers of America), recebendo o título de membro honorário por sua obra. Contudo, Lem nunca teve ou demonstrou uma opinião favorável à Ficção Científica americana, descrevendo-a como literalmente medíocre, mais preocupada em ganhar dinheiro do que com novas ideías.
Devido a comentários como este, seu título foi revogado três anos depois.
Em seu último romance, Fiasco, de 1988, uma expedição da Terra tenta se comunicar com os habitantes do remoto planeta Quinta, porém estes se recusam terminantemente a permitir o contato. Por mais fortuito que pareça, este livro parece sumarizar com amargura, seus pensamentos nos últimos anos de vida.
Lem se afastaria do gênero, dedicando-se a escrever ensaios criticando o progresso tecnológico, extremamente pessimista quanto ao futuro da humanidade.
Site oficial - Stanislaw Lem
Vitrifax - Resenhas e ensaios
Coleção Stanislaw Lem (Automatthews Friend, Chain of chance, De como Ergio el autoinductivo mato a un carapalida, De impossibilitate Vitae, Eden, El electrobardo de Truri, Existe verdadeiramente Mr.Smith, Fabulas de robots, Fiasco, Gigamesh, Highcastle, Peace on Earth, La Albatros, La febre del hierro, La gran paliza, One human minute, Philip K Dick - el visionario entre charlatones, Return from the stars, Salvemos el espacio, Seventh voyage, Solaris, Star diaries 23 voyage, Tales of Pirx the pilot, The cyberiad, The futurological Congress, The investigation, The invencible, The offer of King Krool, The star diaries - memoirs of a space traveller, un valor imaginario -prólogos imaginários 1,, vacio perfecto, viaje septimo, Diários de las estrelas 1, Non Serviam, His Master voice, Provocacion, Love and tensor algebra) [Download]
sábado, 2 de maio de 2009
Diários estelares - 23° viagem - Stanislaw Lem

Da conhecida Cosmozoologia do professor Tarantoga, li sobre um planeta que orbita ao redor da estrela dupla Erpeya, que é tão pequeno que se todos seus habitantes saíssem de suas casas ao mesmo tempo, a única maneira de poderem caber na superfície seria levantando uma das pernas.
A despeito da enorme reputação do professor Tarantoga, contudo parece ter exagerado um pouco neste ponto, então decidi que iria determinar a veracidade pessoalmente.
Minha viagem foi confusa, na variável Cefeida-443 meu motor falhou e o foguete começou a cair em direção da estrela, o que me deixou alarmado, já que a temperatura da coisa era de seis mil graus centígrados. O calor aumentava a cada minuto e ficou de tal forma que precisei me espremer dentro do pequeno congelador onde usualmente eu guardava a comida – certamente uma tremenda falta de sorte, pois nunca antes tal coisa me havia acontecido .
Com sucesso reparei o problema e voei para Erpeya sem mais incidentes.
A estrela dupla era constituída de uma gigante vermelha, vermelha como uma fornalha, mas não tão quente, enquanto a outra era uma pequena azul que emitia um calor terrível.
O planeta em si era de fato bem pequeno, só o encontrei após percorrer a vizinhança inteira. Seus habitantes, os Whds, receberam-me muito cordialmente.
Excepcionalmente belos eram os sucessivos ocasos e auroras, os eclipses também forneciam visões espetaculares. Por metade do dia, brilhava o sol vermelho e todos os objetos pareciam mergulhados em sangue, na outra metade do dia surgia o sol azul, poderoso, e era preciso andar com os olhos fechados, apesar de disso, era quase tolerável. Sem saber o que era a noite, os Whds chamavam o sol azul de dia e o vermelho de noite.
Suas casas, e isso era verdade, eram incrivelmente minúsculas, mas os Whds sendo bastante inteligentes e possuindo grande conhecimento particularmente da física, haviam superado esta dificuldade através de uma idéia engenhosa, contudo admiravelmente singular.
Usavam de um aparato altamente preciso de raios-x com o qual tiravam o que chamavam de perfil atômico, que era um diagrama exato, mostrando cada molécula de proteína e seu elo químico, do qual seus corpos eram feitos. Então, quando chegava a hora de entrar para passar a noite, os Whds atravessavam por uma pequena porta que possuía dentro um mecanismo que os reduzia individualmente a átomos. Desta forma ocupavam pouco espaço e assim passavam a noite, então de manhã, um alarme ligava o mecanismo que seguindo os perfis atômicos, colocava de volta as moléculas na ordem e sequência apropriadas, a porta se abria e os Whds voltavam à vida, bocejavam e iam trabalhar.
Os Whds me falavam sobre as vantagens deste modo de vida, observando que deste jeito nunca tinham insônia, pesadelos, noites mal dormidas, já que a máquina os reduzia a átomos privando-os de vida e consciência. Eles utilizavam tal expediente em outras situações, como por exemplo nas salas de espera de médicos e escritórios do governo, que ao invés de cadeiras tinham pequenas caixas, pintadas de rosa e azul, com aquelas máquinas dentro e em certos encontros e conferências – quando um homem ficava por demais enfadado e sem nenhuma utilidade, simplesmente ocupando espaço pelo fato de sua existência.
Desta mesma forma os Whds estavam habituados a viajar. Se queriam ir a algum lugar, escreviam o endereço em um cartão e o colavam num cilindro pequeno que era colocado então sob a máquina, e então eram atomizados para dentro do cilindro. Havia uma instituição especial, semelhante ao nosso serviço de correios que enviava o cilindro para o respectivo endereço.
Se alguém estivesse com pressa, seu perfil atômico podia ser transmitido por telégrafo ao local designado e lá eles o recriavam através da máquina. O Whd original, enquanto pulverizado, ficaria nos arquivos. Este modo de viagem telegráfica era simples e rápida, consideravelmente atraente, apesar de conter certos riscos. Pouco depois da minha chegada, os jornais noticiaram um desagradável acidente. Parecia que um jovem Whd de nome Thermopheles, deveria supostamente ir até uma cidade situada no outro hemisfério do planeta, para se casar. Estando apaixonado, era naturalmente impaciente e desejando estar junto de seu par o mais rápido possível, foi até um posto e telegrafou a si mesmo. Naquele mesmo momento, o operador do telégrafo foi chamado por conta de um assunto urgente e seu substituto, sem saber que Thermopheles já fora enviado, submeteu seu perfil novamente, e eis que diante da ansiosa quase-noiva estavam dois Thermopheles, como duas ervilhas em uma vagem. Difícil imaginar o choque, a confusão, e a angústia da pobre garota, sem falar dos convidados da festa. Tentou-se então convencer a um dos Thermopheles a se submeter a atomização e então assim acabar com tal desagradável incidente, mas a tentativa falhou por completo, pois cada qual acreditava ser o verdadeiro e único Thermopheles.
O caso foi levado ao tribunal e passou por muitas apelações. Foi só após a minha partida que se deu o veredito, contudo não posso dizer como o caso foi resolvido.
(Nota do editor: O veredito obrigou ambos os noivos a serem atomizados e a subseqüente reconstrução de apenas um, o que foi verdadeiramente salomônico.)
Os Whds queriam a todo custo que eu experimentasse seus métodos de viagem, garantindo que erros como aquele eram extremamente raros e que o processo em si de nada tinha de misterioso ou sobrenatural. Como todo mundo sabe, organismos vivos são feitos da mesma matéria que tudo ao nosso redor, planetas e estrelas inclusive, a única diferença estava na interconexão e arranjo das partes que os constituem. Estes argumentos eu compreendia perfeitamente, mas me recusei terminantemente a entrar na máquina.
Certa tarde uma coisa muito curiosa me aconteceu. Fui me encontrar com um Whd que conhecia, sem ter antes telefonado para ele. Ninguém estava em casa quando cheguei. Procurando por ele, abri várias portas, uma por uma (os quartos eram extremamente apertados) até que finalmente depois de abrir uma porta que era menor do que as outras, vi que seu interior parecia com o de um refrigerador, completamente vazio com exceção de uma prateleira na qual havia uma caixa cheia de um pó cinzento. Sem pensar, peguei um pouco daquele pó, então ouvi o barulho de uma porta se abrindo e larguei o pó ao chão.
‘O que você está fazendo, honorável alienígena?’ disse o filho do Whd que eu procurava. ’Preste atenção, você está derramando o meu pai!’
Ao ouvir estas palavras, fiquei aterrorizado em pavor, mas o jovem disse:
‘Não foi nada, não se preocupe!’
Saiu e voltou pouco depois carregando uma quantidade considerável de carvão, um saco de açúcar, uma pitada de enxofre e um punhado de areia comum. Ouvi algo parecido com um profundo suspiro e um engolir, a porta se abriu e lá estava meu amigo Whd, rindo da minha cara, são e salvo. Perguntei para ele depois, durante nossa conversa, se eu não havia lhe causado algum mal, por ter pego parte de seu material corpóreo, e também como seu filho fora capaz de consertar meu desastrado ato.
‘Ora vamos, nem pense nisso! Você não me causou mal algum, que besteira! Certamente está ciente, meu querido amigo alienígena, das descobertas da moderna fisiologia, que diz que todos os átomos do nosso corpo são constantemente repostos por novos, alguns elos se partem, outros se formam, a perda é recuperada pela assimilação de alimentos e líquidos, e graças também ao processo respiratório – tudo isso junto é o que chamamos de metabolismo. Sendo assim, os átomos que compõe seu corpo, um ano atrás, agora estão vagando distantes, apenas a estrutura geral do organismo permanece inalterada, um sistema inter-relacionado constituído por partes materiais. Não há nada de estranho naquilo que meu filho fez, ele apenas repôs o suprimento de material necessário para minha recriação; afinal somos feitos de carbono, enxofre, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e traços de metais, e estas substâncias que ele trouxe, possuem todos os elementos necessários. Por favor, entre e experimente por você mesmo, verá como o processo não causa qualquer dor…’
Declinei graciosamente da oferta de meu anfitrião e por algum tempo fiquei relutante frente a convites semelhantes, porém ao fim, depois de uma longa reflexão, me convenci a fazê-lo.
Fui a um escritório de raios-x e eles registraram meu perfil atômico, então fui ver meu amigo. Espremer-me dentro daquela coisa não foi fácil, contudo meu anfitrião me auxiliou; a pequena porta só podia ser fechada depois que todos estivessem do lado de dentro.
A porta fechou com um clique e tudo ficou escuro. O que aconteceu então eu não me lembro.
Só senti que estava pouco confortável e que o topo da prateleira apertava minha orelha e antes que pudesse tentar mudar de posição a pequena porta se abriu e eu sai de dentro.
Minha primeira pergunta foi do motivo deles terem cancelado o experimento, mas meu anfitrião me informou, com um sorriso de prazer, que eu estava enganado. E para completar, uma rápida olhada no relógio da parede confirmava que vinte horas haviam se passado sem que eu tivesse a menor sensação disso. O único inconveniente estava que meu relógio de bolso indicava a hora em que eu entrara no mecanismo, a hora precisa em que eu fora reduzido a átomos, junto com ele.
Os Whds - com quem cada vez mais sentia se fortalecerem os laços de amizade - me disseram que ainda haviam outras aplicações para este método; eles tinham desenvolvido o costume de ao se verem diante de um problema sem solução, permanecerem dentro da máquina por décadas e então renasciam – voltando para o mundo perguntavam se o problema havia sido solucionado – se não, submetiam-se mais uma vez a atomização até que a solução viesse.
Após esta experiência bem sucedida tomei gosto pela coisa, por aquele jeito novo de descansar, de modo que não passava mais apenas as noites, mas cada minuto livre no estado atomizado, no parque, na rua, onde houvesse uma destas máquinas, que pareciam caixas postais com pequenas portas. Tudo que era preciso era lembrar-se de colocar o alarme para a hora certa; uma pessoa esquecida poderia passar a eternidade dentro da máquina, mas felizmente haviam os inspetores que a cada mês checavam os mecanismos.
Próximo do fim da minha estada naquele planeta, me tornei um entusiasta dos costumes dos Wdhs e o fazia como disse, sempre que podia.
Por esta temeridade eu iria pagar caro.
Aconteceu certa vez, que o mecanismo onde eu estava ter emperrado um pouco e naquela manhã, quando o alarme foi disparado, a coisa me reconstruiu não na minha forma habitual, mas como Napoleão Bonaparte em seu uniforme imperial, usando da faixa tricolor da legião de honra, o sabre ao lado, o chapéu com detalhes dourados na cabeça, e um orbe e um cedro em cada mão – e foi assim que eu apareci na frente de meu espantado anfitrião Whd.
Me aconselharam de imediato a procurar um mecanismo que não estivesse danificado, para me refazer, enquanto que meu perfil atômico verdadeiro estivesse gravado e disponível; assim mesmo não quis ouvi-los e contentei-me em trocar o chapéu por um boné com abas, o sabre por alguns talheres e o orbe e o cedro por um guarda-chuva.
Quando já sentado nos controles do meu foguete e com o planeta desaparecendo longe, atrás de mim, na escuridão da noite eterna, derrepente me dei conta de ter sido muito precipitado ao me desfazer daquelas provas tangíveis, que poderiam dar crédito à minha história.
Mas agora era tarde demais.
The Twenty-Third Voyage, The Star Diaries (1976) - trad.Michael Kandel
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Brasyl - Ian McDonald

Ian McDonald nos presenteia com seu mais recente trabalho, tão aguardado e já constante nas listas de indicados para a maioria dos prêmios da Ficção Científica de língua inglesa.
Ciberpunks, capoeiristas, dimensões paralelas, reality show, a Copa do Mundo de 1950, física, Coroa portuguesa, luta de espadas quânticas, travestis, Teoria da Gravidade, Gisele Bundchen, filosofia, favelas e terreiros...
Passado, presente e futuro se confundem em Brasyl.
Na São Paulo de um futuro próximo (2032), vive Edson, um empresário que venceu na vida graças a 'malandragem', em meio à riqueza e a pobreza extremas. Edson está envolvido com o perigoso submundo da computação quântica numa sociedade onde predomina a vigilância total.
No Rio de Janeiro dos dias atuais vive Marcelina, uma produtora ambiciosa que corre atrás da fama televisiva. Por fim temos Padre Luis, um missionário jesuíta no Brasil de 1732, atravessando o Amazonas em busca de um padre louco fugitivo.
Três personagens, todos linkados através do tempo e do espaço, numa ambiciosa história que vai mudar a maneira de você enxergar a realidade.
Brasyl - Ian McDonald [ Download ]
quinta-feira, 30 de abril de 2009
The Mammoth Book of Zombies - Stephen Jones
Dos túmulos e sepulturas levantam-se aqueles que não podem morrer. Histórias novas e antigas dos mestres do horror,incluindo Clive Barker, Robert Bloch, Graham Masterston, Ramsey Campbell, Hugh B. Cave e outros.
Clive Barker - Sex, Death and Starshine
Ramsey Campbell - Rising Generation
Manly Wade Wellman - The Song of the Slaves
R. Chetwynd-Hayes - The Ghouls
Edgar Allan Poe - The Facts in the Case of M. Valdemar
Karl Edward Wagner - Sticks
Charles L. Grant - Quietly Now
Basil Copper - The Grey House
M. R. James - A Warning to the Curious
Nicholas Royle - The Crucian Pit
Brian Lumley - The Disapproval of Jeremy Cleave
H. P. Lovecraft - Herbert West - Reanimator
Lisa Tuttle - Treading the Maze
David Riley - Out of Corruption
Graham Masterton - The Taking of Mr Bill
J. Sheridan Le Fanu - Schalken the Painter
David Sutton - Clinically Dead
Les Daniels - They're Coming for You
Hugh B. Cave - Mission to Margal
Michael Marshall Smith - Later
Peter Tremayne - Marbh Bheo
Dennis Etchison - The Blood Kiss
Christopher Fowler - Night After Night of the Living Dead
Robert Bloch - The Dead Don't Die!
Kim Newman - Patricia's Profession
Joe R. Lansdale On the Far Side of the Cadillac Desert with Dead Folks
The Mammoth Book of Zombies - Stephen Jones [ Download ]
quarta-feira, 29 de abril de 2009
The Mammoth Book Of Vampires - Stephen Jones
Os mestres do macabro ressuscitam em contos nunca antes publicados, histórias de vampiros, em todas suas assustadoras formas. Incluindo a primeira edição de RED REIGN de Kim Newman.
Clive Barker - Human Remains
Brian Lumley - Necros
Brian Stableford - The Man Who Loved the Vampire Lady
F. Marion Crawford - For the Blood is the Life
Ramsey Campbell - The Brood
Robert Bloch - Hungarian Rhapsody
Edgar Allan Poe - Ligcia
Richard Christian Matheson - Vampire
Hugh B. Cave - Stragella
David J. Schow A Week in the Unlife
Frances Garfield - The House at Evening
R. Chetwynd-Hayes - The Labyrinth
Karl Edward Wagner - Beyond Any Measure
Basil Copper - Doctor Porthos
Bram Stoker - Dracula's Guest
Dennis Etchison - It Only Comes Out at Night
Peter Tremayne - Dracula's Chair
Melanie Tern - The Better Half
M. R. James - An Episode of Cathedral History
Manly Wade Wettman - Chastel
Howard Waldrop - Der Untergang Des Abendlandesmenschen
E. F. Benson - The Room In the Tower
Graham Masterton - Laird of Dunain
F. Paul Wilson - Midnight Mass
Nancy Holder - Blood Gothic
Les Daniels - Yellow Fog
Steve Rasnic Tern - Vintage Domestic
Kim Newman - Red Reign
Neil Galman - Vampire Sestina
The Mammoth Book Of Vampires - Stephen Jones [ Download ]
terça-feira, 28 de abril de 2009
The Mammoth Book of Monsters - Stephen Jones

The Mammoth Book of Monsters traz o que há de melhor em matéria de histórias sobre Monstros, escritas por nomes consagrados do horror, como Ramsey Campbell, Kim Newman, Harlan Ellison, Joe R. Lansdale e muitos outros.
David J. Schow - Visitation
Ramsey Campbell - Down There
Scott Edelman - The Man He Had Been Before
Dennis Etchison - Calling All Monsters
R. Chetwynd-hayes - The Shadmock
Christopher Fowler - The Spider Kiss
Nancy Holder - Cafe Endless: Spring Rain
Thomas Ligotti - The Medusa
Gemma Files - In The Poor Girl Taken By Surprise
Sydney J. Bounds - Downmarket
Robert E. Howard - The Horror From The Mound
Jay Lake - Fat Man
Brian Lumley - The Thin People
Tanith Lee - The Hill
Joe R. Lansdale - Godzilla's Twelve Step Program
Karl Edward Wagner - .220 Swift
Robert Silverberg - Our Lady Of The Sauropods
Basil Copper - The Flabby Men
Robert Holdstock - The Silvering
Michael Marshall Smith - Someone Else's Problem
Clive Barker - Rawhead Rex
Kim Newman - The Chill Clutch Of The Unseen
The Mammoth Book of Monsters - Stephen Jones [ Download ]
segunda-feira, 27 de abril de 2009
The Mammoth Book Of Best New Horror - Stephen Jones

A nova edição do Mammoth Book dedicado ao horror e dark fantasy, traz algumas das melhores histórias dos mestres do macabro, incluindo Neil Gaiman,Brian Keene, Elizabeth Massie, Glen Hirshberg, Peter Atkins e Tanith Lee.
Michael Marshall Smith - The Things He Said
Simon Kurt Unsworth - The Church On The Island
Christopher Fowler - The Twilight Express
Ramsey Campbell - Peep
Tim Pratt - From Around Here
Gary Mcmahon - Pumpkin Night
Simon Strantzas - The Other Village
Mike O'Driscoll - 13 O'Clock
Joel Lane - Still Water
Joe Hill - Thumbprint
Nicholas Royle - Lancashire
Marc Lecard - The Admiral's House
Tony Richards - Man, You Gotta See This!
David A. Sutton - The Fisherman
Reggie Oliver - The Children of Monte Rosa
Neil Gaiman - The Witch's Headstone
Joel Knight - Calico Black, Calico Blue
Steven Erikson - This Rich Evil Sound
Glen Hirshberg - Miss Ill-Kept Runt
Joe R. Lansdale - Deadman's Road
Mark Samuels - A Gentleman from Mexico
Tom Piccirilli - Loss
Christopher Harman - Behind the Clouds: In Front of the Sun
Caitlin R. Kiernan - The Ape's Wife
Conrad Williams - Tight Wrappers
Kim Newman - Cold Snap
The Mammoth Book Of Best New Horror - Stephen Jones [ Download ]
domingo, 26 de abril de 2009
Charles Stross - entrevista II

'Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.'
HardSF: O que inspira você a colocar ciência na sua ficção?
Charles Stross: Não estou certo se o faço. Você vai encontrar nas minhas histórias coisas como viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo, upload de mentes, nanotecnologia. Algumas destas coisas são mais plausíveis do que outras, de maneira que podem ser possíveis, mas não posso dizer que deliberadamente decido por incorporar a ciência na ficção de maneira sistemática.
HardSF: O quanto isso é importante para você, se no fim o leitor acaba aprendendo conceitos científicos através das suas histórias?
CS: Não é. Mais importante para mim é que eles não comecem a achar que certas coisas que são obviamente irreais, possam acontecer algum dia, mas isso não é exatamente o que eu pretendo fazer. Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.
HardSF: Você acha que as teorias científicas, por serem abastratas e intangíveis, afetam a sua habilidade em vender literatura baseada em FC Hard*?
CS: O que me afeta, em se tratando de trabalhar com literatura, é que de fato para cada livro vendido de Ficção Científica, são vendidos dois do gênero Fantasia, e para cada livro vendido de Fantasia, são vendidos cinco romances. Sendo assim, se eu escrevesse apenas Ficção Cientifica eu estaria, por vontade própria. reduzindo meu pagamento de royalties. Mais interessante do que isso, eu estou escrevendo para uma audiência que é ínfimamente pequena. 25% da população do planeta fala ou lê em inglês (e menos que isso tem o inglês como primeira língua) e 2% da ficção vendida é de FC. Então antes mesmo de começar, tenho que aceitar que não vou conseguir mover montanhas ou ter multidões me seguindo.
Afinal sou apenas um escritor de ficção, e não algum tipo de pregador vendendo a salvação eterna, não é mesmo?
HardSF: Você pensa que a FC Hard é o único tipo possível de FC? Ou tem espaço para a FC 'Soft'?
CS: Acho que toda esta distinção não faz sentido. Eu escrevo ficção, ponto. Se eu escolho falar sobre algum tipo de ciência dentro dela, tento então fazer da forma certa ou ao menos plausível. Mas a retórica da FC Hard versus FC 'soft' me parece pairar ridiculamente nas origens do gênero, criado por Hugo Gernsback no passado, quando havia toda esta agitação - tipo propaganda política - tipo o braço de um movimento, tecnocracia.
HardSF: Como se pode tornar a FC Hard mais agradável para o grande público?
CS: Acho que a FC Hard foi atropelada pela fantasia, basta ver Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas e os filmes com efeitos especiais, quase 30% de tudo que Hollywood vende como FC, e aquilo que você pode razoavelmente classificar como FC Hard é quase nada - dá para contar nos dedos de uma das mãos.
Se levarmos para este público potencial de leitores e espectadores, poderemos fazer com que se interessem. Mas francamente, acho que a onda da FC Hard já passou. A FC Hard surgiu em um contexto bem específico, durante os anos 30 - um tempo em que as pessoas que haviam cruzado as pradarias em carruagens, ainda estavam tentando descobrir como lidar com a eletricidade e máquinas voadoras, e daí os computadores, a energia nuclear e naves espaciais. Foi uma ferramenta educacional bastante útil, expandindo horizontes, mostrando que de certa forma aquilo seria relevante na vida das pessoas. Hoje estamos cercados de gizmos. Provavelmente há mais computadores no meu apartamento hoje, do que em todo este pais (Escócia) nos anos 60. A Ficção Científica implodiu com o presente; mudanças climáticas globais nos afetando diretamente, naves espaciais pousando nas luas de Saturno, transplantes de rosto na França (Ei, esta não era uma história do Fu Manchu, sessenta anos atrás?) e mundos virtuais com PIB maiores do que o da Áustria.
Acredito que o atual crescimento na procura pela Fantasia, comparativamente a FC, é o resultado sintomático deste nosso mundo, como se os leitores gritassem 'PAREM, POR FAVOR' e buscassem conforto em um tempo em que eles sabiam o que diabos estava acontecendo. Alvin Toffler acertou nos anos 70 - chama-se Choque do Futuro.
HardSF: Qual tópico científico você acha que será o mais falado nas próximas décadas?
CS: O de sempre - não há nada de novo na FC hoje. O Aquecimento global continuará sendo de nosso interesse, não importa se você acredita que é antropogênico ou natural - é o elefante na sala de estar, e temos que aprender a viver com isso. Até hoje, apenas Kim Stanley Robinson tem se agarrado a isso nos EUA, ele é um dos escritores de FC Hard mais interessante trabalhando por aí, mesmo estando em conflito ideológico com a velha guarda stalinista da Ficção Científica em geral.
Avanços na tecnologia médica é uma aposta certa, mas não sei se ainda há algo a ser dito e que Bruce Sterling já não o tenha feito em 'Holy Fire', quase dez anos atrás.
Nanotecnologia... cedo ou tarde passaremos deste estágio primitivo, onde nos encontramos presos à quase uma década. E então os prognósticos de Eric Drexler vão parecer tão ultrapassados quanto Jules Verne em 1890. Será como sermos cozidos lentamente, como o provérbio do sapo.
A física parece estar ainda em 1895, com tudo amarradinho, exceto por algumas pontas soltas, como o por que dos elétrons não se neutralizarem a si mesmos ou por que 70% de toda a massa do Cosmos estar oculta. Da primeira crise veio a mecânica quântica e a relatividade, a segunda nos trará... quem sabe? Estou quase certo de que não será a teoria das cordas, mas ainda não posso apostar...
HardSF: Você geralmente escreve sobre o que domina e conhece, ou intencionalmente procura por novos e incertos territórios?
CS: Quase sempre sobre aquilo que conheço, mas sou eclético, aleatório, e um entusiasta por aprender coisas novas (minha formação universitária cobre alguns assuntos úteis para mim; farmacologia, bioquímica, física, ciência computacional)
HardSF: Qual você considera ter sido a sua maior realização; sua contribuição na ciência ou na literatura?
CS: Para a literatura - por que não penso ter feito alguma coisa para a ciência! Poucas pessoas fazem. Mesmo a média das teses de doutorado é um simples pixel em um mosaico do tamanho da Grande Muralha da China. Ao menos na literatura é mais fácil de deixar sua marca.
HardSF: Está trabalhando em algo agora?
CS: Agora mesmo estou trabalhando em um romance de FC mundana*. É um movimento britânico pouco falado, que não se utiliza destas tralhas como alienigenas, viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo e coisas assim. Estou escrevendo uma história de detetive que se passa na Escócia daqui a uns 12-15 anos. É sobre um jogo de computador e a heroína é uma contadora. Parece bem louco pra mim.
(HardSF - 2006-06-28)
*FC Hard é uma modalidade da Ficção Científica que procura dar embasamento científico à história que está sendo contada e portanto exige mais conhecimento do autor. Arthur C.Clarke é um autor famoso de FC Hard.
*FC Mundana (ou terrestre) é um subgênero da Ficção Científica criado em 2002 pelo escritor Geoff Ryman e que se caracteriza por se utilizar de tecnologia atual ou derivada dela, de forma contida e apoiada na ciência. Na FC Mundana, o homem não alcança as estrelas, não existem civilizações de outros planetas, assim como as viagens no tempo, ou mais rápido que a luz e outras dimensões são impossíveis.
Site sobre FC Mundana
Charles Stross

Charles David George Stross (18 de Outubro de 1964) nasceu em Leeds, Inglaterra. Jornalista, formado em ciência computacional, escritor de Ficção Científica, Fantasia e Horror, editor e roteirista, atualmente vivendo na Escócia.
Stross faz parte da nova geração de escritores britânicos de Ficção Científica, especializados em FC hard e Space Opera, contemporâneo de Alastair Reynolds, Ken MacLeod e Liz Williams.
Antes de se tornar um escritor reconhecido, Stross esteve envolvido com RPGs, sendo editor e colaborador de diversas revistas como White Dwarf e Advanced Dungeons & Dragons, bastante populares entre os jogadores.
Seu primeiro conto, The Boys, foi publicado na revista Interzone em 1987 e o primeiro livro, Singularity Sky, foi indicado para receber o prêmio Hugo de 2003. A partir dai, Stross se tornou um nome constante entre os indicados para os prêmios mais importantes da FC de língua inglesa, acabando por ganhar o Hugo de 2005 (Concrete Jungle) e o Locus de 2006 (Accelerando) e 2007 (Missile Gap).
Blog de Charlie Stross
Coleção Charles Stross (A boy and his God, A colder war, Accelerando, Ancient of days, Concrete Jungle, Dechlorinating the moderator, Different flesh, Duat, Elector, Escape, Examination Night, Generation Gap, Glasshouse, Halo, Charlie Stross interviews, Iron Sunrise, Lobsters, Love me, Maxo Signals, Merchant Princes series, Message in a time capsule, Missile Gap, Nightfall, Red, hot and dark, Remade, Rogue Farm, Scratch Monkey, SEAQ and destroy, Singularity Sky, Tarkovisky's cut, The atrocity archives, The boys, The concrete jungle, The midlist bombers, Troubadour, Warcrime, Year Zero, Yellow Snow, Jury Service) - [ Download ]



