sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Frank R. Paul


Talvez o que Isaac Asimov significou para a Ficção Científica como escritor, Frank R. Paul o foi como desenhista, capista e ilustrador.

É impossível falar do surgimento da FC nos Estados Unidos, através das pulp magazines (revistas populares) da primeira metade do século XX, sem utilizar uma ilustração feita por este arquiteto vienense que, antes de ser descoberto por Hugo Gernsback, trabalhava em um pequeno jornal em Nova Jersey.

Para Gernsback, Paul criou quase duzentas capas, fazendo inclusive ilustrações internas.
É creditado a 'FRP', como é também conhecido, o primeiro desenho de uma estação espacial, além de ter desenhado as primeiras capas dos livros de escritores famosos como Bradbury, de quem foi amigo.

Pertence a Paul, grande parte do mérito de povoar o imaginário de uma nação (e por que não dizer do mundo), com alienígenas, robôs e foguetes espaciais, em um tempo em que o americano médio sequer possuia um telefone.






















Frank R.Paul Gallery

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Fanderson, Eagle Transporter.com e Project 21


Sites obrigatórios para quem tem Gerry Anderson como um Deus.









quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Steampunk você já conhece, mas e GREENPUNK ?


Assim como o Ciberpunk e o Steampunk, o GREENPUNK é também um movimento, uma filosofia e um gênero literário que, ao invés de focar em um futuro distópico ou tecno-vitoriano, especula a partir da consciência ecológica dos nossos dias - tanto para o bem, através da busca e da discussão de estratégias - quanto para o mal, pintando cenários catastróficos.

A utilização de energia limpa, como o reaproveitamento de energia cinética e veículos que geram seu próprio combustível, é apenas um dos temas mais comuns deste tipo de literatura.

No Greenpunk, ecopatrulheiros e petrocriminosos estão disputando o futuro do nosso planeta.
Nada mais condizente com a atualidade. Na luta contra as mega-corporações agressoras e poluentes, saem os hippies abraçadores de árvore e entram os ecologistas radicais do Greenpeace.

Dois nomes do 'movimento' ? Paolo Bacigalupi e Matt Staggs.

Greenpunk.net e Manifesto Greenpunk

Leia talvez o primeiro conto assumidamente Greenpunk (e assim se faz História)

... e aguardem uma coletânea Greenpunk para os próximos meses...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dubai do futuro

É apenas um falso trailer de um filme futurista... mas muito bem feito...


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Christmas on Mars

Christmas on Mars é um musical natalino de Ficção Científica recheado de humor negro.

Parece estranho?



O grupo de rock Flaming Lips lançou em 2008 esta produção de orçamento limitado e que praticamente só foi exibido em alguns festivais.




Apesar disso, tem tudo para se tornar um cult-movie.




A trama do filme se passa numa colônia em Marte. Para combater a depressão (e o suicídio), o Major Syrtis (Steven Drozd) resolve celebrar o Natal e o nascimento do primeiro humano em Marte.




Quem acompanha filmes de FC vai reconhecer facilmente diversas influências de outros filmes famosos (como Dark Star e Solaris), entre homenagens (2001) e paródias (Eraserhead).

Christmas on Mars [ Download via torrent ]

domingo, 18 de outubro de 2009

Entrevista com Jeff VanderMeer sobre o lançamento da antologia Steampunk



Então, o que é "steampunk"?

"Algo cool, com uma linguagem elaborada. Ciência inventada - reinventada" disse James Blaylock, um pioneiro do steampunk e autor do livro Lord Kevlin's Machine.

"Steampunk (um sub-gênero da ficção científica) oferece em quantidade, aquilo que é mais visualmente excêntrico e aventureiro, sobre a época vitoriana e suas especulações científicas."

A antologia Steampunk editada por Ann e Jeff VanderMeer, faz barulho e cliques com engenhocas, dirigíveis e robôs a vapor de doze metros de altura.

As treze histórias contidas nesta coleção são reforçadas por um prefácio, uma introdução e dois ensaios. Os editores não são novatos neste tipo de ficção. Ann VanderMeer é editora da Weird Tales e Jeff VanderMeer é vencedor do prêmio World Fantasy, autor de Shriek: bem como de uma coleção de histórias conectadas, situadas no mundo imaginário de Ambergris.

"Em Steampunk", escrevem os VanderMeers em seu prefácio, "nós tentamos fornecer uma mistura do tradicional e do idiossincrático, o novo e o velho, mantendo-se fiel à idéia de steampunk como uma diversão pseudo-vitoriana sombria. Você vai encontrar histórias sobre golens mecânicos, máquinas infernais, os personagens de Júlio Verne e é claro, dirigíveis."

A antologia resultante é tanto prazeirosa como um alívio, já que os VanderMeers encontraram uma maneira de reforçar o gênero sem sugerir (ou impor) um conjunto restrito de parâmetros.

"Steampunk", diz Magpie Killjoy, editor da SteamPunk Magazine, "é uma forma filosófica de reanalisar nossas interações com as máquinas. Para este fim, encontramos na era dos motores a vapor, as promessas, verdadeiras e falsas, que nos foram oferecidas por volta do século 19. Assim steampunk é uma estética, um gênero, uma subcultura, e uma filosofia que gira em torno deste entendimento. "

No coração do steampunk, como um ethos, diz Paul DiFilippo, autor dos romances Joe's Liver e Fuzzy Dice, existe o desejo de "voltar a uma época em que a tecnologia e o artesanal ainda não tinham sido separados, quando partes do nosso mundo permaneciam inexploradas, onde o heroísmo individual vinha antes de tudo, quando a linha entre o bem e o mal era clara, e você poderia vestir-se bem. "



Pergunta: Você tem uma estratégia como antologista?

Jeff VanderMeer: Procuramos [Ann e eu] trabalhar como uma equipe, a partilhar tarefas e dividi-las conforme nossas outras atividades de trabalho permitam. Temos uma abordagem consistente contudo, de querer que nossas antologias sejam bem organizadas, abrangentes e não apenas profundas, mas também surpreendentes de alguma forma. Se um leitor ao ler nossas antologias, não encontrar algo de muito diferente e maravilhoso, talvez então não estejamos fazendo bem nosso trabalho.

Pergunta: Que desafios você enfrenta como um antologista em geral e em particular com o steampunk?

JV: Não é só escolher a combinação certa de material, mas ser capaz de adquiri-la para a reedição nas antologias. Para as antologias originais, certificamos de torná-las as mais abertas possíveis aos novos escritores.

Pergunta: Quais são os prós e os contras de trabalhar em conjunto?

JV: Eu não escuto muito bem às vezes. Mas nós raramente discutimos. Acho que em geral, trabalhar juntos nos aproxima.

Pergunta: Houve algo engraçado e/ou frustrante durante este processo?

JV: Em Steampunk não. Em New Weird tivemos Clive Barker que nos telefonou para dizer que seu conto fora publicado com erros tipográficos. Realmente não é o que se espera para a primeira conversa por telefone com alguém. Mas ele disse que gostou muito da antologia e era um erro de digitação que o perseguia por dezoito anos.

Pergunta: Num programa de rádio recentemente você falou sobre "tecnologia verde" em relação ao steampunk. Pode explicar melhor?

JV: Embora possa não ser verdade para a indústria da era vitoriana, eu sinto que um segmento da cultura moderna steampunk vê a re-mecanização da tecnologia, como uma maneira de nos mover em direção ao pensamento ecológico. No sentido de que poderiamos ser capazes de consertar as coisas (quem realmente pode, hoje em dia, consertar seu próprio carro, já que está tudo computadorizado?), o primeiro passo para ser verdadeiramente independente, plantar sua própria comida, etc. Um futuro de sustentabilidade exige que tomemos esta medida em um nível individual.

Pergunta: Nas duas últimas décadas você produziu uma grande variedade de trabalhos de edição, blogs para a Amazon.com, jornalismo para lugares como o The Washington Post e Publisher's Weekly e, claro, escreveu contos e romances. Será que aquilo que você escreve, que não é ficção, inspira você para escrever ficção?

JV: Não-ficção sob a forma de entrevistas e opiniões me expõe a outras formas de pensar a escrita. Eu também, muitas vezes, uso da não-ficção na minha ficção, para soar irônico ou absurdo.

Pergunta: O que você mais gosta em escrever?

JV: O ato físico da escrita - à mão ou teclando, perder-se neste processo. Envolver-se numa situação e com o personagem. Escrever um livro é um ato de imersão.

Pergunta: Onde uma história começa para você?

JV: No final. Até que eu saiba onde termina uma história ou um romance, na minha cabeça, eu não consigo começar. Até lá não posso colocar nada no papel. O fim geralmente muda quando eu chego nele, mas deve ter algum sentido antes de eu começar.

Pergunta: Você surpreendeu - e espantou - um bom número de fãs seus, por ter escrito Predator: South China Seas.

JV: Trabalhando em um mundo compartilhado, como o universo de Predator, eu tinha muita preocupação com o público. Eu estava interessado em escrever um romance que iria satisfazer o público de Predator primeiro, e se pudesse satisfazer também meus leitores, tudo bem. Mas esse não era o objetivo.

Eu acho que com mundos compartilhados você tem que respeitar o público específico dele, enquanto que para os meus romances, a melhor maneira de servir ao meu público é ignorá-lo. Satisfazer-me em primeiro lugar. Isso significa, claro, que o livro Predador é muito menos pessoal e também muito diferente do meu trabalho habitual. Estou feliz com os resultados, mas não tenho ideia do que o meu público vai pensar. Eu só espero que os fãs de Predator gostem.

Pergunta: E onde se inicia uma antologia para você?

JV: Isso realmente depende da antologia. Primeiro, qualquer antologia que eu faço é uma colaboração com minha esposa Ann, que atua como co-editora. Depende do projeto e de outras limitações de tempo. Às vezes uma editora nos procura, como foi o caso de New Weird e de Steampunk. Em outros casos temos uma idéia e buscamos uma editora.

A chave, no início, é tentar certificar-se do projeto da editora e do formato (capa dura ou não) se adequa corretamente. É também um desafio inicial de pensar a antologia em termos de restrição e oportunidade. O que significa dizer que você pretende explorar a idéia da forma mais completa e profunda possível, mantendo um foco que vai dar a forma da antologia.

Pergunta: Que história da antologia Steampunk realmente te ganhou?

JV: Eu amo "The Minutes of the last Meeting' de Stephan Chapman. Ela tem uma bela estrutura experimental e acessível. Eu também amo a maneira perversa que só Joe R.Lansdale dá ao gênero steampunk, como uma espécie de Deus impaciente.


Texto original

sábado, 17 de outubro de 2009

Jeff VanderMeer


Jeffrey Scott VanderMeer (7 de Julho de 1968) nasceu na Pennsylvania (EUA) e viveu sua infância nas Ilhas Fiji, onde seus pais trabalhavam para a Peace Corps. Por conta disso, grande parte de sua vida foi passada entre Ásia, Europa, Africa e Estados Unidos. Esta experiência, como não poderia deixar de ser, acabou influenciando-o profundamente.

Jeff iniciou sua carreira de escritor nos anos 80 e logo se tornou uma espécie de porta-voz do sub-gênero literário steampunk, embora se defina como um escritor de realismo mágico, um explorador do surreal e do fantástico.

Em 2001 foi relacionado pela Locus, como um dos dez mais promissores escritores de ficção especulativa.

Ganhou o Prêmio World Fantasy de 2000( seis vezes finalista deste prêmio) com o romance 'The Transformation of Martin Lake'. E em 2003 dividiu a premiação por ser também editor da antologia Leviathan 3.
Fundou sua própria (pequena) editora, Ministry of Whimsy, onde lança novos talentos do gênero fantástico.

Mais recentemente, Jeff passou a explorar outras mídias. Um de seus contos, 'A new face in Hell', foi transformado em animação por Joel Veitch, e Jeff foi responsável por escrever para a famosa editora de quadrinhos Dark House, o tie-in 'Predator: The South China Seas'.

Jeff mora na Florida, é casado com Ann Kennedy, escritora e editora da Buzzcity Press e das revistas Silver Web e Weird Tales.

Site de Jeff VanderMeer

Jeff VanderMeer (A heart for Lucretia, Balzac's War, Dradin in Love, Flight is for those who have not yet crossed over, Ghost in the machine, Mahout, Quin's Shangai Circus, The secret life of Dave Driscoll, The third bear, Three days in a border town, The surgeon (com Cat Rambo), Veniss Underground) [ Download ]

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 6 de 6




SEXTA PARTE



Outra vez no bar.
O lugar está vazio. Atrás do balcão o corpulento atendente com o avental manchado.

Nossos personagens estão sentados na mesa do canto, sujos, maltrapilhos, com a barba de vários dias por fazer. À frente de cada um, há uma caneca de cerveja meio vazia.

O Escritor começa um discurso:
- …imagino este prédio como um gigantesco templo. Tudo que a imaginação já criou, a fantasia e o pensamento ousado do homem são tijolos de ouro, com que foram levantadas as paredes deste templo. Filosofia, livros, pinturas, teorias éticas, tragédia, sinfonias... até mesmo, porque não, as ideias científicas fundamentais. Tudo isso se deve a vossa tecnologia, os altos fornos, as colheitas… tudo para que se trabalhasse menos e se devorasse mais. As ideias científicas são os andaimes, guindastes... naturalmente necessários para se construir o templo, sem eles o templo seria impossível, mas eles cedem e desmoronam, e são erguidos de novo. Primeiro de madeira, depois pedra, de aço e plástico finalmente, mas não passam de guindastes e andaimes para se levantar o grande templo da cultura, objetivo maior e infinito da humanidade. Tudo morre, tudo é esquecido e desaparece, fica somente este templo... falando com franqueza, a humanidade existe unicamente para...

O Professor toma um gole da caneca e grunhe:
- Você se atreve a responder... para que serve a humanidade?
- Não me interrompa – diz o Escritor – é pouco educado! Existe unicamente – continua – para produzir obras de arte! Imagens da verdade absoluta.
Pausa.

O Escritor sorri irônico.
- É uma piada – acrescenta – Olhe aqui a cerveja... é cerveja isso não? Que tal tomarmos outra rodada?
- Não tenho mais dinheiro, fala o Professor.
- Eu tampouco, profere abatido o Escritor.
- Você acha mesmo que em toda parte vão te fazer fiado – diz irritado o Professor para o Escritor.
- Sim, menos aqui...

O Stalker deixa sobre a mesa várias moedas pequenas, junto com lixo, e move as moedas com um dedo contando-as.
- Aqui está – diz ele – tem o bastante para outras canecas.

Junto da mesa aparece o atendente, coloca com destreza as canecas entre eles, cheias de cerveja e cobertas de espuma. Retira aquelas vazias. O Stalker com ar compungido, observa o atendente e acerta a pilha exigua de moedas. O atendente faz um gesto tranquilizador e desaparece.

- É um leitor meu – diz o Escritor com ares de superioridade – ele me reconheceu!
O Stalker e o Professor olham para o sembante sujo do Escritor, para o enorme hematoma do seu olho direito, e o trapo ensanguentado sobre ele, olham e depois sem dizer uma palabra, bebem um grande gole das canecas.

- Não – diz o Stalker – isso não é beber de verdade camaradas! Vou telefonar agora mesmo para minha mulher e ordenar que me traga dinheiro.
O Escritor o segura pela manga.
- Para que? Telefonarei para qualquer redação.
O Stalker o rechaça.
- Calma ai... fui eu quem os convidou, e não você. Fique quieto ai!

Vai até o telefone público, marca um número e neste momento enxerga pela janela suja sua mulher chegando ao Bar. Desliga e retorna para a mesa.

Sua mulher vai até eles e diz ao marido:
- O que faz aqui sentado? Vamos embora!
- Agora mesmo – diz – mas sente-se um pouquinho. Sente conosco. Por que está com pressa?

Ela se senta satisfeita, pega-o pelo braço e olha para o Escritor e o Professor.
- Sabem que minha mãe era contra meu casamento com ele? Por que ele era um bandido de verdade. Metia medo a toda comarca! Era jovem e ágil como... bem, minha mãe dizia: É um stalker, um suicida, vai passar a vida na cadeia... e os filhos? Lembra, ela dizia, como são os filhos de um stalker... eu não discutia, eu sabia perfeitamente que era um suicida, que passaria a vida na cadeia e sabia quanto aos filhos. Mas o que eu podia fazer? Estava certa que seria feliz com ele. Sabia também, é claro, que passaria por maus momentos, porém mais vale uma felicidade amarga que uma vida apagada. Mas pode ser que tudo isso só tenha me ocorrido agora. Ele chegou junto de mim e disse carinhosamente ‘Vem comigo!’ e eu fui. E nunca me arrependi. Nunca! Passamos maus momentos. Tive que superar o medo. Passei vergonha, mas nunca me arrependi e nunca invejei a ninguém. Ele tampouco. O destino é assim. A vida é assim, somos como somos. E se não existissem tristezas na vida, não existiriam as alegrias. Seria muito pior. Nem haveria esperança. Assim é. Agora temos que ir. Vamos! Deixei a bebê sozinha.

Levantam.

- Estes são meus amigos – diz o Stalker – Até agora não consegui nada melhor...

Se vão.

O Escritor e o Professor observam o casal se afastar.




FIM













sexta-feira, 16 de outubro de 2009

As capas e Andre Norton


Andre Norton ao final de sua vida, declarou que gostaria de ter queimado alguns de seus livros. Muito provavelmente The Sioux Spaceman devia ser um destes, ao menos pela capa.

Capas de livros de Norton ilustrados por gente como Ed Valigursky, Ed Emshwiller, Jack Gaughan, Alex Schomburg, Gray Morrow e Jeff Jones.













quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Fuga de Rigel - Diogo de Souza


Um dos maiores telecinéticos do planeta, aluno prodígio da Fundação Cosmos, o pequeno Rigel descobre que sua família ainda está viva, que seu pai o tinha como morto, e toda a vida que conheceu foi calcada em mentiras.

Poderia escapar à telepatia de seus professores ou à clarividência dos amigos? Só há uma forma de evadir um paranormal: Teria de perder a si mesmo para reencontrar sua família.

Seu pai não o compreenderia. Seus mestres o perseguiriam. Seus amigos seriam deixados para trás. Mas quando se viu cara a cara com aquela fotografia, sabia que havia apenas uma coisa a ser feita.

Precisava fugir.

Fuga de Rigel é um romance paranormal escrito por Diogo de Souza para você devorar... ou ser devorado!


Faça o download do primeiro capítulo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 5 de 6



QUINTA PARTE


O Stalker ouvia com a boca aberta o Escritor falar.
- Eu achava estar jogando um jogo novo e interessante – confessa o Escritor – Pensei na coisa como uma aventura. Logo compreendi amigo, que não seria fácil. E para dizer a verdade, não acredito muito nestas maravilhas todas. Pensei que se tivesse que pedir algo, seriam histórias e eu escreveria sobre elas. Por que nunca se escreveu sobre isso antes… todavia… Não, Olho de Lince, meu amigo, estes jogos eu não jogarei…
- Olha Professor, diz o Stalker desconcertado – o que se passa? Diga algo!
O Professor deu de ombros.
- Como é? Pergunta o Stalker -Estou indo em busca de saúde para minha filha, para minha desafortunada filha, e vou receber... sei lá o que?
- Sabe sim – disse carinhosamente o Professor – todos sabem perfeitamente bem.
- Deixe-o –interrompe o Escritor, e se faz um novo e embaraçoso silêncio.

Depois o Stalker diz com raiva:
- Já chega! Todos de pé!
O Professor vai taciturno e atrás o Escritor e, quase pisando-lhe nos calcanhares, o Stalker.

-Bom, não vou mentir – diz ele – quando vim para cá eu não pensava na minha filhinha, está bem… Mas agora, por ela sou capaz de qualquer coisa! E você me diz que…
-Olhe, pare de reclamar – diz o Escritor sem se virar – Por que me perturba? Eu não sei de verdade o que você deseja. Nem você sabe! E por Deus, não se distraia! Preste atenção no caminho… tudo que não precisamos agora é de você nos espancando…
Diante deles na trêmula névoa se vê erguida a caçamba de uma escavadora enferrujada e ao final eles param frente à suave descida que leva ao mesmo lugar de antes.
Param para olhar enfeitiçados o vale mágico.

O Stalker observa a encosta e nota algumas manchas negras.
- Bem, podem dizer que estão com sorte rapazes! Diz com a voz apagada – Ele se rendeu.
- Quem se rendeu? Pergunta passando por ele o Professor.
- O Açogueiro. Vêem as manchas pretas? O bandido entregou os pontos. Acabou! Podemos ir sem medo!
- Você enxerga um Açougue? Pergunta o Escritor e se senta ao chão – Bonito nome!
- Melhor não pode ser! Foi aqui que o Raposa usou de seu último coringa de carne e osso. Seu apelido era Kaschei o Imortal, um jovenzinho tonto...
- E você também me usou pra isso? Perguntou o Professor – Logo a mim? Nas mãos do Açougueiro?
- O que você pensa? O túnel e o Açougueiro valeram à pena! Só assim se pode seguir em frente. Uma chance em quatro... uma loteria! Mas na Zona não há jogos de azar...
- Isso é inconcebível! – disse o Escritor – Atravessar estes lugares mortais assassinando os amigos, e tudo por um saco de dinheiro...
- Em primeiro lugar – disse com firmeza o Stalker – não se vem até aqui com amigos. Além disso um Stalker não tem amigos. Seu amigo é ele mesmo, e em segundo lugar, por dinheiro se fazem coisas bem mais extremas. Será que você vive na lua?
- E se eu não tivesse ido? Pergunta o Professor.
- Chega! Grita o Stalker – Tivesse ido ou não... tivemos sorte e agora acabou. O túnel resultou em nada, o açougueiro se entregou. Acham que sou sádico? Pensam que fico feliz em ter que mandá-los para a morte? Bem, quer quer ir primeiro? Você? Perguntou ao Escritor – Você fez por merecer...
O Escritor balança a cabeça.
- Não! Já disse que não vou! Quero só olhar esta maravilha com meus próprios olhos. Sou um cético.
-Huh! Não tenha medo, eu disse que ele entregou os pontos. Mas se quer assim, eu vou primeiro. Que tal assim? Pergunta ao Professor.
- Vá, vá... só faltava isso, responde o Professor. Você nunca pensou em me perguntar antes...
- Como não? Perguntou o Stalker – Então para que veio aqui? Eu não precisei convencê-lo a vir... você mesmo pediu e me ofereceu dinheiro! Não?
Em vez de responder o Professor imitou o Escritor e sentou-se ao chão, colocando a mochila entre as pernas.

- Que barbaridade! Olhem os idiotas! Disse o Stalker desconcertado. – Arriscaram a vida, passaram por tudo isso para chegarem até aqui e vejam só o que fazem! Se sentam ai tranqüilos!
- E o fazemos acertadamente – diz o Escritor – você devia se sentar tambem. Precisamos descansar antes de regresar.
- Este bobalhão ficou careca e esse outro tem a polícia esperando por ele na cidade... peça ao menos que te devolvam o cabelo!
- Quem perde a cabeça não precisa de cabelo – disse o Escritor – deixa estar anjo da guarda, não se ofenda! Senta aqui com a gente, esperaremos um pouco e beberemos conhaque e então voltaremos para casa com a ajuda de Deus.
- Era só o que faltava! Para casa! Grita o Stalker fechando os pulsos.

O Stalker dá meia volta e se encaminha para a encosta. Seus passos decididos em um primeiro momento, vão perdendo força até se deter sem saber o que fazer. Dá meia volta e com o mesmo passo decidido regressa até eles.
- Está bem, pode me explicar por que não quer ir ? pergunta ao Escritor – Mas fale a verdade e pare com charlatanice!
- Não me importa. Estou com medo. Não me conheço e eu não confio em mim. A única coisa que sei com segurança é que ao longo de minha vida minha alma se encheu com tudo que não presta. Não quero descarregá-la encima de gente que não conheço e logo depois, como o Raposa, meter o pescoço na corda. É melhor eu encher a cara tranquilo e pacificamente na minha asquerosa mansão. Vai! Mas não pense que por estarmos vivos você não nos matou. Você nos matou! Mesmo estando vivos! E não vá achando que sabe tudo! O que pode saber um ingênuo como você! Chora lágrimas de arrependimento pela filha… me perdoe, mas você é como aquele bandido que tinha sangue até os cotovelos e levava no peito uma tatuagem que dizia ‘Não esqueço o amor de minha mãe’. Fica calmo Stalker. Não estamos ainda no ponto para merecer o lugar, nem devíamos ter vindo em busca da felicidade.
- Se eu estivesse limpo do pó e sujeira, é possível que eu tampouco tivesse vindo! Grita com raiva o Stalker.
- Está falando como o burro de Balaam! Diz o Escritor.
- Nao compreendo! Reclama o Stalker balançando a cabeça – Não compreendo...
- Sorte sua não compreender! Vá até lá e então compreenderá... mas então estará perdido! Você sempre se viu nas alturas, como se fosse melhor que todos... como se fosse um homem de ferro, altivo e livre, mas na realidade é um jumento e nada mais! E vai voltar de lá feito um incapacitado, meio morto e coberto de vergonha. Em comparação contigo, o Raposa pareceria um anjo. Acabou! Deixa-me em paz!

Enquanto discutiam o Professor havia retirado da mochila um cilindro prateado que ao sol brilhava pálido.
O cilindro sem detalhes lembrava na parte superior, o disco do telefone do centro de controle.
- O que é isso Professor? Perguntou o Escritor.
- Uma bomba atômica.
- Atômica?
- Sim, vinte quilotons.
- De onde veio isso e para que?
- Eu e meus amigos a fizemos, quero dizer, meus ex-amigos. Decidimos que precisávamos destruir este lugar. Ainda acho isso. O lugar não traz felicidade para ninguém. Mas se cair nas mãos erradas… dá medo de pensar. Mas agora já não sei... eles começaram a falar que isso era uma maravilha e uma esperança, que não se deve matar uma maravilha destas, e que não devemos matar a esperança. Nos arrependemos. De uma forma que só os cientistas sabem como. E eles esconderam a bomba, mas eu a encontrei – ergueu os olhos – vocês compreendem? Ainda estou certo do que devo fazer. Basta marcar quatro números e dentro de uma hora... o fim, ninguém mais vai vir até aqui.
Calou-se um instante antes de completar:
- E jamais na Terra haverá um lugar como este novamente.
- Pobrezinho... disse baixinho o Escritor.
- Compreendem? Trata-se de um principio geral – diz o Professor – Não faça nunca algo que não pode ser reversível. Enquanto este lugar estiver acessível, não haverá descanso para ninguém, nem sossego... nem descanso nem sossego.
Neste momento o Stalker explodiu.
- Maditos sejam! Por que fui me juntar a vocês! - grita – Porcaria de intelectuais! Charlatões! Eu devia ter ido, devia ter aceito o dinheiro sem pensar em mais nada, viveria à toda, como todos vivem! E me arrumaram uma encrenca! Me corroeram a alma, parasitas! E o que eu faço agora? Hein ? Não posso fazer nada! Não posso ir até lá, nem ficar aqui... Quer dizer que tudo foi inútil e que nunca mais haverá coisa alguma?
O Stalker agarra o Professor pelos ombros.
-Então acabe com tudo! Não será então de todo inútil! Ao menos haverá um proveito!
Leva as mãos à cabeça agitado. E logo se torna imóvel.
- Olha – susurra ele na cara do Escritor – Eu não valho nada, mas e minha mulher? Por minha filha, que tal? Não por mim, por mim não, mas por minha mulher! Ela é uma santa! A única coisa que ela tem é o bebê. Por minha mulher, hein?
Agarra o Professor e o sacode.
- Não! Não faça isso! Não deve! Não toque nela! Não há outra esperança!

O Professor afasta suas mãos. O Escritor e o Stalker contemplam o Professor enquanto este desenrosca com esforço a parte superior do cilindro, a levanta e arranca alguns cabos que saem de dentro e começa a desmontá-la e arrancar peça após peça.

Neste instante o sol se põe e vem a escuridão.



FIM DA QUINTA PARTE