domingo, 15 de novembro de 2009
Samuel R. Delany
Samuel Ray Delany Jr. (1 de Abril de 1942) nasceu em New York (EUA). Apesar de ter crescido no Harlem, seu pai era um bem sucedido proprietário de uma casa funerária, o que possibilitou a Samuel estar cercado de livros, frequentar teatros e cultivar interesses como a ciência e as artes, principalmente a música. Aos treze anos já havia escrito um romance e uma peça para violino. Aos vinte anos publicaria seu primeiro livro de ficção científica, The Jewels of Aptor, ao mesmo tempo que se iniciava na carreira de cantor folk.
Entre 1962 e 1974, Samuel publicou uma série de livros, bem recebidos pela crítica em geral, como a série Dhalgren e Hogg. Nesta fase de sua vida, o ex-menino prodígio da FC, começava a ganhar notoriedade, não somente por seu talento. Além do fato de ser um dos poucos escritores de Ficção Científica negro, ( o que já seria o bastante para atrair o interesse da imprensa) Delany se declarava publicamente como bisexual.
Identificado com a New Wave, alguns de seus trabalhos, exploravam com sofisticação, temas sexuais de maneira explícita. Dhalgren e Stars in my pocket like grains of sand, incluem várias passagens eróticas e alguns de seus livros, como Equinox, The Mad man e Hogg, são catalogados nos Estados Unidos como literatura pornográfica.
Delany logo se tornaria um sinônimo de uma nova FC, menos voltada para a ciência, o espaço e raças alienígenas, mas explorando os limites sociais e sexuais, daquilo que chamamos de relacionamentos 'normais'. Ele mergulhava fundo no erotismo, na bisexualidade, indo aos extremos do sadomasoquismo.
Um dos dois prêmios Hugo que recebeu, veio através de sua autobiografia, The Motion of Light in Water.
Seus livros mais famosos, como Einstein Intersection, Nova, Dhalgren, Babel-17 e Triton, assim como a antologia de contos Driftglass, lhe renderiam mais prêmios, incluindo quatro prêmios Nebulas
Delany é professor de Inglês e Literatura na Temple University, crítico literário e ainda escreve ensaios e crônicas para diversos jornais americanos.
Site de Samuel R. Delany
Samuel R. Delany ( Balada de Beta-2, Nova, Por siempre y Gomorra, Triton, Babel-17, Time considered as a helix of semi-precious stones, The fall os the towers series, Corona, Dhalgren, Flight for Neveryon, High Weir, Though the valley of the nest of spiders, Tales of Neveryon, The Einstein Intersection, The Star pit, The tales of dragons and dreamers, En Ciron vuelan) [ Download ]
sábado, 14 de novembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 3
Este capítulo é dedicado a Bordlands Books de São Francisco, uma magnífica loja independente de livros de ficção científica. Bordelands se situa do outro lado da rua onde fica a fictícia escola Cesar Chávez, que aparece em Pequeno Irmão. Ela não é notória somente por seus eventos, noites de autógrafos, clubes do livro e coisas assim, mas também por seu incrível gato egípcio careca chamado Ripley, que vive empoleirado como um gárgula no computador da loja. Bordelands é a livraria mais amigável que você pode encontrar, cheia de recantos confortáveis para sentar-se e ler, com atendentes maravilhosos e conhecedores de tudo que se pode saber sobre ficção cientifica. Melhor ainda, aceitam encomendas do meu livro (pela internet ou por telefone) e mantêm alguns por lá para eu assinar, quando passo pela loja e enviam para os Estados Unidos inteiro sem custo.
Borderlands Books: 866 Valencia Ave, São Francisco CA USA 94110 +1 888 893 4008
Passamos por muita gente no caminho da estação Bart na rua Powell. Corriam ou caminhavam, os rostos pálidos e silenciosos, ou gritando em pânico. Sem-teto agachados nas entradas dos prédios olhando com medo para tudo, enquanto uma prostituta negra e alta gritava algo para dois caras de bigodes. À medida que ficávamos mais próximos da Bart, aumentava o número de pessoas. Quando chegamos aos degraus da estação já era uma cena de multidão, as pessoas lutavam tentando subir as escadas estreitas. Alguém acertou minha cara e outro alguém me empurrava pelas costas.
Darryl ainda estava do meu lado - ele era grande o bastante, difícil de ser empurrado e Jolu bem a direita dele, meio que se segurando nele. Consegui ver Vanessa a poucos metros dali, presa no meio do povo. “Se dana!” Eu ouvi Van gritando. “Seu tarado! Tira as mãos de mim!”
Consegui me mexer e vi Van olhando feio para um cara mais velho de terno e que ria para ela. Ela mexia em sua bolsa e eu sabia o que ela estava procurando.
“Não jogue o spray paralisante nele!” Gritei acima da zoeira. “Vai acertar a gente também”.
Bastou a menção da palavra “paralisante” para que o cara fizesse uma careta de horror e recuasse, sumindo em meio a multidão que continuava a avançar. Acima das cabeças, consegui ver uma dona de meia-idade num vestido hippie vacilar e cair. Ela gritou enquanto caía e vi que lutava para tentar ficar de pé, mas não podia, a pressão da multidão era mais forte. Assim que consegui chegar perto dela, eu me curvei para ajudá-la e quase caí sobre ela. Acabei pisando em seu estômago quando a multidão me empurrou, mas não vi se ela sentiu algo. Eu estava mais assustado do que nunca. Havia gente gritando por toda parte e mais corpos no chão e a pressão que vinha trás era impiedosa como a de um trator. A única coisa que eu podia fazer era ficar em pé.
Nós estávamos na área de acesso onde ficavam as catracas de entrada. De qualquer forma era melhor ali - o espaço enclausurado ecoava as vozes ao redor como um rugir que fazia minha cabeça doer e o cheiro de todos aqueles corpos fez com que me sentisse claustrofóbico como nunca imaginei.
O povo ainda se comprimia nas escadas e mais gente estava sendo espremida nas roletas e além, pelas escadas rolantes que levavam às plataformas, e estava claro para mim que aquilo não acabaria bem.
“Vamos tentar sair daqui?” Eu disse para Darryl.
“Sim, aqui tá brabo!” Ele disse.
Olhei para Vanessa, mas não havia como ela me ouvir. Consegui pegar meu telefone e enviei uma mensagem de texto para ela.
>Estamos indo embora.
Vi que ela sentiu o vibrador de seu telefone e olhou para baixo e então para mim e concordou vigorosamente. Darryl, neste meio tempo, já tinha avisado Jolu.
“Qual é o plano?” gritou Darryl no meu ouvido.
“Temos que voltar!” eu gritei, apontando para a desumana massa de corpos que se empurrava.
“Não dá!” Ele disse.
“Vai ficar pior se a gente esperar mais!”
Ele deu de ombros. Van batalhava para chegar perto de mim e me agarrou pelo pulso. Eu peguei Darryl e Darryl agarrou a mão de Jolu, e juntos nós avançamos empurrando a multidão.
Não foi fácil. Nos movíamos a três centímetros por minuto no início, depois mais lentamente e daí mais lento ainda quando chegamos às escadas. As pessoas pelas quais passamos não se mostravam muito felizes com o empurra-empurra. Um casal nos xingou e um cara me olhou como se estivesse prestes a me socar se conseguisse libertar os braços. Passamos por mais pessoas caídas, mas não havia como ajudar. Naquele momento eu nem pensava em ajudar alguém. Tudo que eu pensava era arranjar espaço na nossa frente para poder nos mover, com Darryl apertando meu pulso e eu trazendo Van agarrada atrás de mim.
Saltamos livres como rolhas de champanhe uma eternidade depois, piscando em meio à luz esfumaçada e cinza. As sirenes de ataque aéreo ainda berravam e o choro das sirenes dos veículos de emergência rasgando a rua do Mercado eram ainda mais altas. Já não havia quase ninguém nas ruas - apenas o povo desesperançado que tentava chegar aos abrigos. Muitos choravam. Apontei para alguns bancos vazios - que usualmente ficavam cheios de mendigos bêbados de vinho.
Fomos até lá, com a fumaça e as sirenes nos fazendo arquear e segurar uns nos ombros dos outros. Assim que chegamos aos bancos, Darryl desmaiou.
Todos gritamos e Vanessa o segurou e o virou. Sua camisa estava vermelha na lateral e a mancha se alargava. Ela levantou a camisa, revelando um corte profundo e longo.
“Algum maluco o esfaqueou!” Jolu disse com os punhos cerradas. “Deus, isso é loucura!”
Darryl gemeu e olhou para nós, para o seu lado e sua cabeça pendeu.
Vanessa tirou a jaqueta jeans e a camisa de algodão que estava por baixo. Com ela pressionou o lado do corpo de Darryl.
“Pegue a cabeça dele” ela disse para mim “Deixe ela levantada.” E disse para Jolu: “Levante seus pés - arranje alguma coisa, um casaco, para pôr embaixo.” Jolu obedeceu rápido.
A mãe de Vanessa era enfermeira e ela tinha passado por treinamento de primeiros socorros em um acampamento de férias. Ela gostava de fazer piada das pessoas que prestavam socorros ruins nos filmes. Eu estava muito feliz em tê-la conosco.
Ficamos sentados durante bastante tempo, segurando a camisa contra a lateral do corpo de Darryl. Nós continuávamos insistindo em que ele estava bem e que nós o levaríamos dali e Van continuava nos mandando calar a boca e ficar quietos antes que ela nos batesse.
“Que tal ligarmos para 911 (emergência)?” Jolu perguntou.
Eu me senti como um idiota. Peguei o telefone e teclei 911. O som de resposta sequer foi de ocupado - mas como uma lamento de dor vindo do sistema telefônico. Não se consegue sons como este a não ser que três milhões de pessoas estejam ligando para o mesmo número ao mesmo tempo. Quem precisa de botnets quando se tem terroristas?
‘E a Wikipédia? ‘ Perguntou Jolu.
‘Sem telefone, sem dados.’ Respondi.
‘E quanto a eles?’ Darryl disse apontando para a rua. Eu olhei para onde apontava pensando se ele delirava, vendo um policial ou um paramédico que não estava lá.
“Tá tudo bem, camarada, descanse.” Falei.
“Não, seu idiota, os tiras nos carros. Lá!”
Ele estava certo. A cada cinco segundos um carro de polícia, uma ambulância ou um caminhão de bombeiros passava. Com Van, colocamos Darryl de pé e caminhamos até a rua do Mercado.
O primeiro veiculo a passar com a sirene berrando - uma ambulância - sequer diminuiu a velocidade. Nem o carro da polícia que passou ou o caminhão de bombeiros, e nenhuma das três viaturas da polícia seguintes. Darryl não estava bem - o rosto estava pálido e o suéter de Van estava empapado de sangue.
Eu estava cheio destes carros passando sem parar. Quando o carro seguinte apareceu na rua, eu caminhei para o meio da rua, balançando os braços acima da cabeça, gritando “PARE”. O carro sacolejou freando e somente então eu percebi que não se tratava de um carro da polícia, ambulância ou de bombeiros.
Era um jipe militar, como um Hummer blindado, só que sem insígnias militares nele. O carro parou bem na minha frente, e eu saltei para trás e perdi meu equilíbrio e acabei caindo. Senti que as portas se abriram e então foi uma confusão de botas movendo-se perto de mim. Olhei para cima e vi um bando de sujeitos parecendo militares em macacões, carregando grandes e enormes rifles e usando máscaras contra gases. Tinham os rostos pintados.
Quase não tive tempo de olhar para eles antes dos rifles estarem apontados para mim. Nunca tinha olhado para a mira de uma arma antes, mas tudo que ouviu falar a respeito é verdade. Você congela, o tempo pára e seu coração começa a bater em seus ouvidos. Abri a boca e a fechei e então lentamente eu ergui as mãos.
O homem sem rosto e sem olhos acima de mim continuava a manter sua arma apontada. Eu nem respirava. Van gritava algo e Jolu estava berrando e eu olhei para eles num segundo e foi quando alguém colocou um saco na minha cabeça e o amarrou apertado sobre minha traquéia, tão rápido e com tanta força que mal pude respirar antes. Fui empurrado rudemente e algo me prendeu os pulsos juntos e apertados, como se fosse um fio para empacotar, quase cruelmente. Gritei e minha voz foi abafada.
Estava numa escuridão total e tentava ouvir o que estava acontecendo com meus amigos. Ouvi-os gritando através do tecido de camuflagem do saco e então estava sendo colocado de pé pelos pulsos, os braços levados as costas, meus ombros doendo.
Tropecei, então uma mão empurrou minha cabeça para baixo e fui colocado dentro do Hummer. Outros corpos eram empurrados para dentro junto de mim.
“Pessoal?” gritei, e ouvi uma pancada na minha cabeça . Ouvi Jolu responder, e ouvi a pancada como se ele fosse punido também. Minha cabeça parecia um gongo.
“Ei!”Eu disse para os soldados. “Ei, me ouçam! Nós somos apenas estudantes.
Eu fiz sinal para vocês porque meu amigo estava sangrando. Alguém o esfaqueou!”
Eu não tinha idéia do quanto eles estavam conseguindo me ouvir através do saco camuflado. Eu continuei falando: “Ouçam - isso é algum tipo de mal-entendido. Nós estávamos levando nosso amigo para o hospital...”
Alguém me acertou na cabeça novamente. Senti algo como um bastão ou parecido - fui mais duro do que qualquer coisa que já me tivessem batido antes. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu literalmente perdi a respiração por causa da dor. Um momento depois, recuperei a respiração, mas não disse mais nada. Aprendera a lição.
Quem eram estes palhaços? Eles não usavam insígnias. Talvez fossem terroristas. Eu nunca tinha acreditado antes nesta historia de terroristas - quer dizer, eu sabia de forma abstrata que existiam terroristas em alguma parte do mundo, mas não que representassem um risco para mim. Havia milhares de maneiras de ser morto - começando por ser atropelado por alguém dirigindo bêbado e velozmente a caminho de Valencia - o que era infinitamente mais possível do que terroristas. Terroristas matavam menos gente do que quedas no banheiro e eletrocuções acidentais. Me preocupar com eles sempre me pareceu tão útil quanto ter medo de ser atingido por um raio.
Sentado na traseira do Hummer, com minha cabeça num saco, minhas mãos presas atrás das costas, enquanto era jogado de um lado para outro com machucados na cabeça, terrorismo de repente me pareceu um risco maior.
O carro acelerava e freava e saltava colina acima. Imaginei que estávamos indo para Nob Hill, e pelo ângulo de subida, parecia que íamos pelo pior caminho – pela rua Powell, pensei.
Agora estávamos descendo. Se meu mapa mental estava certo, íamos em direção ao Embarcadouro dos Pescadores. Você consegue barcos por lá, para escapar. Isso batia com a hipótese do terrorismo. Mas por que diabos terroristas iriam raptar um bando de estudantes?
Paramos no meio de uma descida. O motor morreu e as portas se abriram. Alguém me arrastou pelos braços para a rua, então me soltou no chão pavimentado. Segundos depois, eu estava sendo levado por uma escada de metal, que batia em meus joelhos. As mãos nas minhas costas me deram outra sacudida. Fiquei de pé cauteloso, sem poder usar as mãos. Estava no terceiro degrau, indo para o quarto, mas não havia quarto degrau. Caí de novo, mas outras mãos me pegaram puxando-me por um piso de aço e então me forçaram a ficar de joelhos e prenderam minhas mãos em alguma coisa atrás de mim.
Outros movimentos e a sensação de que corpos eram colocados ao meu lado. Murmúrios e gemidos. Então um longo silêncio, uma eternidade nas trevas dentro do saco, respirando meu próprio exalar, ouvindo minha própria respiração.
#
De alguma forma consegui dormir lá, de joelhos e com a circulação das pernas cortada, minha cabeça na penumbra do tecido de lona. Meu corpo havia disparado um ano do suprimento de adrenalina na minha corrente sanguínea no espaço de trinta minutos, e quando aquela coisa lhe dava a força para virar automóveis e saltar prédios altíssimos o preço era sempre alto.
Acordei com alguém puxando o capuz da minha cabeça. Eles não eram nem grosseiros nem cuidadosos - apenas impessoais. Como alguém do Mcdonalds colocando os hambúrgueres juntos.
A luz na sala era tão brilhante que tive que fechar os olhos, mas lentamente pude abri-los aos poucos e então olhar ao redor.
Estávamos na traseira de um grande caminhão de 16 rodas. Pude ver o lugar dos eixos e o intervalo regular entre eles. Mas a traseira do caminhão tinha sido modificada para ser alguma coisa entre posto de comando e cárcere. Mesas de aço seguiam as paredes e painéis de instrumentos e monitores finos presas a braços articulados que os permitiam ser posicionados em semicírculo ao redor dos operadores. Cada mesa possuía uma bela cadeira de escritório em sua frente, enfeitadas com manoplas para ajuste milimétrico do assento assim como inclinação. E havia a parte das celas, na frente do caminhão, do lado mais distante das portas, grades de aço de um lado a outro do veiculo, e dentro destas jaulas estavam os prisioneiros.
Encontrei Van e Jolu bem à direita. Darryl poderia estar entre os outros algemados na traseira, mas era impossível ter certeza - haviam muitas pessoas bloqueando minha visão. Aquilo fedia a suor e medo.
Vanessa olhou para mim e mordeu o lábio. Estava apavorada. Eu também estava. E Jolu também, seus olhos não paravam de um lado para outro. E não era só isso, eu precisava mijar logo!
Procurei ao redor por nossos raptores. Até então eu tinha evitado olhar diretamente para eles, do mesmo jeito que você não olha para a escuridão de um armário, quando sua mente lhe diz ter visto um monstro lá dentro. Você não quer saber se você está certo.
Mas eu precisava dar uma olhada melhor nos panacas que nos seqüestraram. Eu precisava saber se eram terroristas. Eu não sabia como um terrorista se parecia, apesar dos programas de tevê se esforçarem para fazê-los parecidos com árabes de pele morena, barbudos e roupas de algodão que ficavam quase penduradas aos ombros.
Nossos capturadores não eram assim. Eles poderiam estar se exibindo no show de intervalo do Superbowl. Pareciam Americanos comuns, de um jeito difícil de definir exatamente. Queixudos, baixos, cortes de cabelo que não eram militares. Brancos e negros, homens e mulheres, e sorriam livremente uns para os outros sentados na traseira do caminhão, brincando e bebendo café em copos descartáveis. Eles não eram árabes vindos do Afeganistão, pareciam mais turistas do Nebraska.
Olhei para um deles, uma jovem branca com cabelo castanho e que parecia um pouco mais velha do que eu, do tipo atraente, de uma maneira poderosa. Se você olha para alguém por muito tempo, essa pessoa eventualmente irá olhar para você. Ela o fez e seu rosto mudou totalmente de configuração, para uma maneira desapaixonada, quase um robô. O sorriso desapareceu em um instante.
“Ei!” eu disse. “Olhe, eu não entendo o que está se passando aqui, mas eu realmente preciso urinar, sabe?”
Ela olhou direto através de mim, como se não ouvisse.
“Estou falando sério, se não for ao banheiro logo, vamos ter um acidente horrível. Vai começar a cheirar muito mal isso aqui, tá sabendo?”
Ela se virou para os colegas, um grupinho de três deles, e começaram a conversar baixo. Não dava para ouvi-los devido ao barulho dos ventiladores dos computadores.
Ela então se virou para mim e disse: “Segure por mais dez minutos e você vai poder mijar.”
“Acho que não vou conseguir segurar mais dez minutos.” eu disse demonstrando mais urgência do que era verdade, fazendo uma voz sofrida. “É sério, senhorita, é agora ou nunca.”
Ela balançou a cabeça e me olhou como se eu fosse um idiota patético. Ela e seus amigos trocaram mais algumas palavras e então um deles veio dos fundos. Era velho, talvez uns trinta anos e bem grande, como se malhasse. Ele parecia chinês ou coreano - mesmo Van não sabia dizer a diferença muitas vezes - mas com aquele comportamento que eu não podia deixar de reconhecer que era de Americano.
Ele tirou a jaqueta e pude ver seus apetrechos. Reconheci uma pistola, um tazer e uma lata que podia ser spray de pimenta ou gás paralisante.
“Não me arranje problemas.” ele disse.
“Nenhum problema.” eu concordei.
Ele tocou alguma coisa no cinto e as algemas que me prendiam à parede nas minhas costas se abriram, meus braços subitamente caíram frouxos atrás. Era como se ele usasse um cinto de utilidades do Batman - controle remoto sem fio para as algemas! Fazia sentido, pensei, você não quer se debruçar sobre seus prisioneiros com todo aquele armamento mortal ao alcance dos olhos - eles poderiam agarrar sua arma com os dentes e puxar o gatilho com a língua ou algo assim.
Minhas mãos ainda estavam presas atrás por tiras de plástico e agora que eu não estava seguro pelas algemas, senti como se minhas pernas tivessem virado papa devido ao fato de terem ficado muito tempo naquela posição. O que se seguiu foi longo, mas breve também, basicamente eu caí de cara ao chão, mexendo as pernas fracas enquanto tentava ficar de pé.
O cara então me agarrou, me colocando de pé e eu andei feito um palhaço para um pequeno reservado em formato de caixa logo ali. Tentei enxergar Darryl nos fundos, mas ele podia ser qualquer um dos cinco ou seis desmoronados ali. Ou nenhum deles.
“Entre ai” disse o sujeito.
Mostrei os pulsos. “Por favor, pode tirar?”. Meus dedos pareciam salsichas púrpuras devido às horas amarrados pelas tiras de plástico.
Ele não fez nada.
“Olhe” falei tentando não parecer sarcástico ou irritado (o que não era fácil). “Olhe, você libera meus pulsos ou vou precisar de sua ajuda. Uma visita ao banheiro não é algo que possa ser feito com as mãos amarradas.” Alguém no caminhão riu baixo. O cara não gostava de mim, eu podia dizer isso pelo jeito que os músculos de seu maxilar se retesavam. Cara, este pessoal não estava para brincadeiras.
Ele mexeu no cinto e pegou um pequeno estojo de mil e uma utilidades. Puxou dele algo como uma faca e cortou o plástico e minhas mãos ficaram livres.
“Obrigado” Falei.
Ele me empurrou para dentro do banheiro. Minhas mãos estavam imprestáveis, como bolos de barro na ponta dos pulsos. Quando estiquei os dedos, eles latejaram de um jeito que quase chorei de dor. Baixei o assento, baixei as calças e sentei nele. Não confiava em mim o bastante para ficar de pé.
Esvaziei a minha bexiga e chegou a vez dos meus olhos. Curvei-me chorando silenciosamente e indo para frente e para trás enquanto as lagrimas rolavam sem parar. E tudo que eu podia fazer era continuar chorando - cobrei minha boca e abafei os sons. Não queria dar a eles esta satisfação.
Por fim, acabei de mijar, gritei e o cara começou a bater na porta. Limpei meu rosto o melhor que pude com a toalha de papel, enfiei tudo na privada e dei descarga, então olhando a volta procurando uma pia achei apenas uma embalagem de pressão de um higienizador de mãos coberta com uma lista dos bio-agentes que continha. Joguei um pouco nas mãos e saí.
“O que você estava fazendo lá?” o cara disse.
“Usando o banheiro” eu disse. Ele me virou e prendeu minhas mãos com um novo par de tiras. Meus pulsos haviam inchado desde que o último par havia sido tirado e as novas doeram muito mais na pele macia, mas eu me recusei a dar a ele o prazer de me ver gritar.
Ele me empurrou de volta ao meu lugar e prendeu-me junto da pessoa mais próxima, que, eu via agora, era Jolu. Seu rosto estava inchado e com uma feia mancha roxa na bochecha.
“Você está bem?” perguntei para ele, e meu amigo do cinto de utilidades colocou abruptamente a mão na minha testa e empurrou com força, batendo minha cabeça na parede de metal do caminhão com um som de algo se quebrando. “Sem conversa” disse enquanto eu me esforçava para conseguir enxergar.
Eu não gostava dessa gente. Decidi bem ali que eles iriam pagar um preço alto por aquilo.
Um por um, todos os prisioneiros foram para o reservado e voltaram e quando acabou, meu guarda voltou para seus amigos e tomou outro copo de café - eles bebiam de uma grande embalagem para viagem da Starbucks, eu vi - e começaram a conversar algo que terminou com risos.
Então a porta dos fundos do caminhão se abriu e ar fresco entrou, não o ar enfumaçado de antes, mas marcado por ozônio. Antes que a porta se fechasse, eu vi que estava escuro e chuviscando, aquela chuvinha característica de São Francisco que era em parte névoa.
O homem que entrou vestia uniforme militar. Um uniforme militar Americano. Saudou os nossos raptores e eles o saudaram de volta e foi então que eu soube que não era prisioneiro de alguns terroristas - eu era prisioneiro dos Estados Unidos da América.
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Eles prenderam uma pequena tela no final do caminhão e passaram a vir nos pegar um por um, nos empurrando e levando-nos para lá. O mais perto que podia chegar de mentalmente contar segundos - um hipopótamo - dois hipopótamos - era que as entrevistas duravam por volta de sete minutos cada. Minha cabeça estava confusa por conta da desidratação e da falta de cafeína.
Eu fui o terceiro, fui levado por uma mulher com um corte de cabelo militar. Olhando rapidamente, ela parecia cansada, com bolsas sob os olhos e linhas de preocupação nos cantos da boca.
“Obrigado” eu disse automaticamente quando ela desligou remotamente minhas algemas e me colocou de pé.
Eu odiava a mim mesmo por conta desta cortesia, mas estava dentro de mim.
Ela não piscou um olho. Eu segui a sua frente para o fim do caminhão e além da tela de segurança. Havia uma cadeira lá e me sentei nela. Dois deles - a mulher do cabelo raspado e o homem do cinto de utilidades - olharam para mim do alto de suas cadeiras super-ergonômicas.
Tinham entre eles uma pequena mesa, onde estavam os conteúdos de minha mochila e de minha carteira.
“Olá, Marcus.” Disse a mulher. “Temos algumas perguntas para você.”
“Estou sendo preso?” Perguntei. Não era uma pergunta sem propósito. Se você não está sendo preso, existem limites sobre o que os tiras podem ou não podem fazer com você. Para começar, eles não podem te deter indefinidamente sem prender você, precisam lhe dar o direito de fazer um telefonema e deixar que você converse com um advogado. E pode acreditar, eu tinha muito pra falar pra um advogado.
“Pra que serve isso?” ele disse com meu telefone em sua mão. A tela exibia uma mensagem de erro que você normalmente recebe quando tenta usar sem dar a senha correta. Era uma mensagem bem rude - uma animação de uma mão fazendo um gesto universalmente conhecido - porque eu gostava de customizar meus aparelhos.
“Eu estou sendo preso?” Eu repeti. Eles também não podem lhe obrigar a responder qualquer pergunta se você não estiver sendo preso e se você pergunta se está sendo preso, eles são obrigados a responder. São as regras.
“Você está sendo detido pelo Departamento de Segurança do Estado.” disse a mulher.
“Estou sendo preso?”
“Você precisa ser mais cooperativo Marcus, é melhor começar agora.” Ela não disse “senão...” mas estava implícito.
“Eu gostaria de contatar um advogado.” Eu disse. “Gostaria de saber do que estou sendo acusado. Gostaria de ver algum tipo de identificação de vocês dois.”
Os dois agentes se entreolharam.
“Acho que você deveria realmente reconsiderar sua atitude diante desta situação.” Disse a mulher de cabelo raspado. “Eu acho que deveria começar agora mesmo. Encontramos vários mecanismos suspeitos com você. Encontramos você e seus camaradas próximos do local do pior atentado terrorista que este país já viu. Coloque estes dois fatos juntos e as coisas não ficam boas para você, Marcus. Você pode cooperar ou pode lamentar muito, muito mesmo. Agora, o que vai ser?”
“Você pensa que eu sou um terrorista? Eu tenho dezessete anos!”
“A idade certa – A Al-Qaeda adora recrutar garotos impressionáveis e idealistas. Nós googlamos você, você sabe. Você postou um monte de coisas ruins na internet pública.”
“Eu gostaria de falar com um advogado.” eu disse.
A mulher olhou seria para mim. Eu era um inseto. “Você está achando erroneamente que foi pego pela polícia devido a um crime. Esqueça tudo isso. Você está sendo detido como um inimigo em potencial do governo dos Estados Unidos. Se eu fosse você, eu pensaria bastante em como nos convencer que você não é o inimigo. Muito mesmo. Por que existem alguns buracos escuros em que os inimigos podem desaparecer, buracos bem escuros e profundos, buracos onde tudo desaparece. Pra sempre. Está me ouvindo, meu jovem? Quero que desbloqueie o telefone e então descriptografe os arquivos da memória. Quero que diga o que você estava fazendo na rua. O que você sabe sobre o ataque a esta cidade?”
“Não irei desproteger meu telefone para você” eu disse indignado. A memória do meu telefone tinha todo tipo de coisas privadas nela: fotos, emails, pequenos hacks e mods que eu instalei.
“É coisa particular.”
“O que você tem a esconder?”
“Tenho direito a privacidade. E quero falar com um advogado.”
“Esta é a sua última chance, garoto. Gente honesta não tem nada a esconder.”
“Eu quero falar com um advogado.” Meus pais pagariam por isso. Todas os guias sobre ser preso eram claros neste ponto. Continue pedindo para falar com um advogado, não importa o que lhe digam ou façam.
Não há nenhuma vantagem para você ao conversar com um tira sem seu advogado presente. Estes dois diziam que não eram policiais, mas se isso não era ser preso, então o que era?
Em retrospecto, talvez eu devesse ter desbloqueado meu telefone para eles.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Tecnovelgy
Um dos sites mais interessantes para quem gosta de literatura de Ficção Científica.
Muitas das ideias e invenções encontradas nos livros de FC, estão catalogadas de diversas formas, facilitando a consulta. É possivel pesquisar por autor, por título do livro, período (1600 até os dias de hoje), categoria (armamento, inteligência artificial, comunicação, computadores, vida no espaço, medicina, robótica, transportes, estilo de vida, cultural, etc) e ainda conta com um glossário e uma linha de tempo!
Para ilustrar, vamos supor que você procure por Stanislaw Lem. Além de uma pequena biografia, você encontrara uma lista de invenções tecnológicas encontradas em alguns livros de Stanislaw Lem, como por exemplo:
Betrization
Calster - portable cash printer
Crystal Corn - tiny crystal books
Electronic Bard
Electronic Book Store
Gigagnostotron
Gnostotron
Handbag Computer
Inorganic Evolution
Interactive Map - very early concept
Kingdom in a Box
Lecton - be read to
Metal Insects
Nanomachine Swarm (Black Cloud) - tiny machines work together
Opton - electronic book
Parastatics
Reciprocal Name - cellphone nickname
Repair Robots - helpful droids
Sky Ceiling - long before Hogwarts
Spray-On Clothing - dresses in a can
Eletronic Book Store ? Sim, Return from the Stars, de 1961...
I spent the afternoon in a bookstore. There were no books in it. None had been printed for nearly half a century. And how I have looked forward to them, after the micro films that made up the library of the Prometheus! No such luck. No longer was it possible to browse among shelves, to weigh volumes in hand, to feel their heft, the promise of ponderous reading. The bookstore resembled, instead, an electronic laboratory. The books were crystals with recorded contents. They can be read the aid of an opton, which was similar to a book but had only one page between the covers. At a touch, successive pages of the text appeared on it. But optons were little used, the sales-robot told me. The public preferred lectons - like lectons read out loud, they could be set to any voice, tempo, and modulation.
Além disso o site ainda publica links com as mais novas descobertas científicas.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Smack Jeeves Webcomic hosting
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
William Shatner Star Trek memories
Talvez o documentário mais interessante já feito sobre a série original.
William 'Kirk' Shatner em 60 minutos, faz aquilo que mais gosta, falar sobre si mesmo...
e um pouco também sobre os bastidores de Star Trek.
Obrigatório para fãs, mais obrigatório ainda para quem não gosta tanto assim da famosa série.
Shatner revela aspectos 'picantes' e acentua aqueles politicamente corretos, a preocupação em passar certas mensagens e 'entrega' atores e roteiristas, mas poupa os fãs mais apaixonados de suas (controversas) interpretações sobre os episódios.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Ikarie XB 1
Pouco conhecido mas fonte de inspiração para filmes clássicos da ficção científica como 2001, o tcheco Ikarie XB1 ou Icarus XB1 ou Voyage to the end of the universe, de 1963, narra a missão da gigantesca nave Ikaria XB1, em sua viagem ao sistema estelar Alpha Centauri, (100 anos no futuro, 2163).
É possível assistir neste filme, muito sofisticado em comparação aos filmes americanos deste mesmo período, discussões sobre dilatação do tempo, protocolos de contato com formas de vida alienígenas, ciência da longevidade, inteligência artificial, robôs socialistas...
Baseado no romance "Magellan Cloud" de Stanislav Lem (mesmo autor de Solaris).
Ikarie XB1 (uncut) [ Download torrent ]
domingo, 8 de novembro de 2009
Jeronymo Monteiro
Jeronimo Monteiro (1908 - 1970), paulista, é conhecido como o pai da ficção científica brasileira.
Jeronimo (ou Jeronymo), começou a ficar conhecido através de seu romance policial, 'O colecionador de mãos' (nos anos 30), assinando com o pseudônimo Ronnie Wells. A partir daí se iniciaria uma série de livros de ação (com pitadas de FC), com as aventuras do investigador Dick Peter em Nova Iorque, e que o levaria posteriormente a ganhar um programa na Rádio Difusora, em 1937. A ótima repercussão de suas rádio-novelas, logo lhe presenteariam com a direção e produção de programas semelhantes, nas rádios Cosmo e América.
A partir de 1947, Monteiro publicou uma série de romances de FC e editou uma antologia: “O Conto Fantástico”, Civilização Brasileira, 1959.
Homem de muitos talentos, Jerônimo foi o primeiro editor da revista O Pato Donald (Editora Abril). Traduzia os quadrinhos de Walt Disney, inventando nomes de personagens que ficaram famosos, como Tio Patinhas e Huguinho, Zezinho e Luizinho, entre outros.
Em 1964 fundou a Sociedade Brasileira de Ficção Científica, que reunia escritores como André Carneiro e Rubens Teixeira Scavone. No início da década de 1970, tornou-se editor do Magazine de Ficção Científica, edição brasileira do The Magazine of Fantasy and Science Fiction.
Através de sua coluna no jornal Tribuna de Santos, Monteiro divulgava o gênero, e talvez esta tenha sido sua contribuição mais importante para a FC nacional, sua luta incessante pela 'profissionalização' da FC e pelo distanciamento dos modelos importados do estrangeiro.
Quando publicou 'A Cidade Perdida', em 1948, Monteiro não era um novato, nem nas letras, nem no gênero literário que o consagrou. No volume constam, como “obras do mesmo autor”: o País das Fadas [1930 - Cia. Melhoramentos de São Paulo], O Irmão do Diabo (narrativa da aventura de Walter Baron) [1937 - Cia. Editora Nacional], O Homem da Perna-Só [1943 - Anchieta Editora], O Tesouro do Perneta [1943 -Anchieta Editora], A Ilha do Mistério [1943 - Anchieta Editora], Os azi na Ilha do Mistério [1943 - Anchieta Editora], O Palácio Subterrâneo nas Antilhas [1943 -Anchieta Editora] e 3 Meses no Século 81 [1947 - Livraria do Globo].
(...)
Marco A. M. Bourguignon, em Um Pequeno Resgate da História da Ficção Científica Brasileira [www.scarium.com.br/artigos/hfc.html], registra:
“Foi com o paulista Jeronymo Monteiro (1908-1970) que a “ficção científica brasileira” passou a existir como universo literário à parte da literatura, criando regras e métodos próprios, além de formar um público específico. Em 1947, Monteiro publicou, “Três Meses no Século 81” e, em 1948, “A Cidade Perdida”. Antes disso, até o final da década de 30, não existia no Brasil um movimento literário em prol da ficção científica, envolvendo escritores e leitores. Antes havia surgido alguns textos casuais de autores da literatura, como: Gastão Cruls, Menotti del Picchia, Érico Veríssimo, Adazira Bittencourt e Monteiro Lobato. Mas ainda não havia uma tradição literária em ficção científica. Eram apenas ambientados em universos remotos habitados por seres fantásticos além, é claro, de ambientes utópicos e de aventuras.”
Seu último trabalho, publicado na época do AI-5, seria uma coletânea de contos de FC sob o sugestivo título de 'Tangentes da realidade'.
Na década de 90, foi criado em sua homenagem, o Prêmio Jeronymo Monteiro, pela edição brasileira da revista Asimov's Science Fiction.
Fontes: Teotonio Simões eBooksBrasil , UniversoHQ, Fábio Fernandes.
A Cidade Perdida - Jeronymo Monteiro [ Download ] - Edição comemorativa (eBook)
sábado, 7 de novembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 2
CAPÍTULO 2
Este capítulo é dedicado à Amazon.com, o maior site de vendas de livros pela internet do mundo.
A Amazon é uma loja fantástica onde você pode conseguir praticamente qualquer livro já publicado (e tudo mais, desde laptops até grelhas), onde as recomendações foram levadas ao seu ponto mais alto, eles permitem que os clientes se comuniquem diretamente com outros clientes, e constantemente inventam novas e melhores maneiras de conectar livros e leitores. A Amazon sempre me tratou como ouro - o fundador, Jeff Bezos, até colocou uma nota sua em uma revisão para meu primeiro romance - e eu compro neles adoidado (olhando minha lista de compras, parece que eu compro algo lá a cada seis dias, aproximadamente.).
A Amazon reinventou o processo de venda de livros no século vinte e não consigo pensar em um grupo melhor de pessoas para encarar esta espinhosa tarefa.
“Estou pensando em estudar física quando for para Berkeley” disse Darryl. Seu pai ensinava na Universidade da Califórnia em Berkeley,o que significa que ele ganharia uma bolsa de estudos quando fosse para lá. E nunca houve nenhuma dúvida na família de Darryl sobre em que faculdade ele iria estudar.
“Legal, mas você não podia pesquisar online?”
“Meu pai disse que eu deveria ler este livro. Além disso, eu não planejei cometer nenhum crime hoje.”
“Escapar da escola não é crime. É uma infração. São coisas totalmente diferentes.”
“Marcus, o que vamos fazer?”
“Bem, se eu não consigo esconder o livro, então vou precisar detoná-lo!”
Matar arphids era uma arte pouco conhecida. Nenhum comerciante queria que fregueses maliciosos andassem pelo shopping deixando para trás um monte de mercadorias lobotomizadas sem seu código em barra invisível, então a indústria havia se recusado a criar um ‘sinal assassino’, com o qual você poderia desligar um arphid. Com a ferramenta certa era possível reprogramá-lo, mas eu odiava fazer isso com os livros da biblioteca. Não era como arrancar páginas de um livro, mas ainda assim era ruim, pois um livro com o arphid reprogramado não poderia voltar à biblioteca, pois não poderia ser mais encontrado. Seria como transformá-lo numa agulha em um palheiro.
Aquela situação só me deixou com uma saída: detonar a coisa. Literalmente, 30 segundos em um forno de microondas acabariam com qualquer arphid no mercado. Como o arphid não responderia quando fosse checado de volta na biblioteca, então eles simplesmente mandariam imprimir um novo para o livro, o recodificariam no catálogo informativo de livros e ele voltaria para as prateleiras.
Tudo que precisávamos era de um forno de microondas.
“Espere uns dois minutos e a sala dos professores estará vazia”, eu disse.
Darryl agarrou o livro e seguiu para a porta: “Esqueça, nem pensar. Vou para a aula.”
Agarrei-o pelo ombro, forçando-o a ficar. “Vamos lá D, calma. Vai dar tudo certo!”
“A sala dos professores? Se liga, Marcus. Se me pegarem mais uma vez, sou expulso. Me ouviu? Expulso.”
“Não vão te pegar!”, eu disse. Se havia um lugar onde você não acharia um professor era a sala dos professores.
“Vamos lá na volta.” A sala tinha uma pequena cozinha em um dos lados, com sua entrada particular para aqueles que queriam apenas pegar uma xícara de café. O forno de microondas - que cheirava a pipoca e sopa pronta - ficava em cima de um frigobar.
Darryl suspirou e eu pensei rápido: “Olha, o sinal já vai tocar. Se você for para a sala de estudo agora, vai perder o barco. Melhor não aparecer por aí. Posso entrar e sair de qualquer sala no campus, Darryl. Você sabe que eu posso. Vou te proteger!”
Ele suspirou de novo. Esta era uma das “dicas” de Darryl: sempre que ele começava a suspirar,estava prestes a concordar.
“Simbora”, disse, e saímos
Foi perfeito. Passamos pelas salas, pegamos as escadas dos fundos para o porão e saímos pelas escadas da frente bem diante da sala dos professores. Nenhum som vinha de trás da porta; eu girei a maçaneta e empurrei Darryl para dentro antes de fechar a porta.
O livro coube direitinho dentro do microondas, que parecia mais sujo do que da ultima vez. Eu costumava vir ali para usá-lo. Cuidadosamente, embrulhei o livro em papel toalha antes de colocá-lo dentro. “Cara, estes professores são uns porcos”, falei.
Darryl, pálido e tenso, nada disse.
O arphid morreu soltando fagulhas, o que foi muito legal (Não tanto quanto o efeito que conseguimos quando se aquece um cacho de uvas congelado, que era algo realmente inacreditável.)
Agora podíamos escapar do campus em perfeito anonimato.
Darryl abriu a porta e saiu, comigo em seus calcanhares. Um segundo depois ele pisava meus tênis, me empurrando com os cotovelos, de volta para a pequena cozinha de onde tínhamos acabado de sair.
‘Volta, rápido! É o Charles!’ Sussurrou nervoso.
Charles Walker.
Estávamos na mesma série e eu o conhecia há tanto tempo quanto Darryl, mas as semelhanças acabavam por aí. Charles sempre fora grande para a sua idade, e agora que estava jogando futebol americano, ficara ainda maior. Ele tinha problemas sérios de controle de raiva: graças a ele, eu perdi um dente de leite na terceira série. Ele conseguia escapar das punições sendo o maior dedo duro da escola.
Era uma péssima combinação: um brigão que era também alcagüete, que tinha um enorme prazer em levar aos professores qualquer infração que encontrasse. Benson amava Charles. Charles havia deixado transparecer que tinha algum tipo de problema na bexiga, o que dava a ele a licença para andar pelos corredores da Chávez, durante as aulas, procurando alguém que pudesse delatar.
A última vez que Charles me arranjara problemas, tinha terminado comigo desistindo de uma partida de LARP. Não tinha a intenção de deixar que ele me pegasse de novo.
“O que ele está fazendo?”
“Ele está vindo para cá, é o que está fazendo.” Darryl disse tremendo.
“OK, tá na hora de contramedidas de emergência.” Peguei meu telefone. Tinha planejado isso com antecedência. Charles nunca me pegaria de novo. Passei um email para o servidor de casa e ele começou a agir. Segundos depois o telefone de Charles zuniu espetacularmente. Eu tinha toneladas de chamadas simultâneas aleatórias e mensagens de texto prontas para serem enviadas, causando gorjeios e trinares o bastante para obrigá-lo a desligar e continuar desligando sem parar. O ataque era acompanhado de um botnet, o que fazia com que me sentisse mal, mas era por uma boa causa.
Botnets infectaram computadores por toda a vida. Quando você pega um worm ou um vírus, seu computador manda uma mensagem para um canal de chat de IRC (Internet Relay Chat). A mensagem diz ao botmaster - o cara que soltou o vírus - que o computador está pronto para ser invadido por ele.
Botnets são extremamente poderosos, pois podem comprometer milhares e até centenas de milhares de computadores, espalhando-se por toda internet, pegando as conexões de banda-larga mais apetitosas nos PCs caseiros mais potentes. Estes PCs normalmente funcionam de acordo com a vontade de seus donos, mas quando um botmaster os aciona, eles surgem como zumbis prontos para obedecer a suas ordens.
Haviam tantos PCs infectados na internet, que o preço de usar seus serviços por uma hora ou duas em uma botnet caiu. A maioria destas coisas trabalhava para aqueles que espalhavam spam, distribuindo spambots e enchendo sua caixa de entrada de correio com anúncios de pílulas para os ossos ou novos vírus que podem te infectar e recrutar sua máquina para juntar-se à botnet.
Eu usei apenas 10 segundos do tempo de três mil PCs, ordenando que cada um mandasse uma mensagem de texto ou chamada de voz para o telefone de Charles, cujo número eu tirara de uma caderneta de notas fedorenta da mesa de Benson, durante uma visita infeliz ao seu escritório.
Não é preciso dizer que o telefone de Charles não estava equipado para lidar com isso. Primeiro a memória de seu telefone encheu-se de SMSes (torpedos), o que causou o acionamento das rotinas de operação que precisavam fazer coisas como controlar a campainha e registrar cada um dos números de retorno das chamadas fictícias (você sabe que é muito fácil gerar um número de retorno falso em uma chamada? Existem umas cinqüenta maneiras de se fazer isso - procure no Google ‘SPOOF CALLER ID’)
Charles parou embasbacado e passou a bater furioso no aparelho. Suas sobrancelhas finas se mexiam e contorciam como se estivesse lutando contra demônios que haviam se apoderado do seu aparelho mais querido. O plano estava funcionando bem, mas ele não estava fazendo o que eu achava que iria fazer em seguida - supostamente ele deveria ir para algum lugar se sentar e tentar consertar seu telefone.
Darryl bateu no meu ombro e eu me afastei da brecha aberta da porta.
“O que ele está fazendo?” Perguntou Darryl sussurrando.
“Eu zoei com o telefone dele, mas ele está só parado lá, ao invés de ir embora.” Não seria fácil colocar aquela coisa para funcionar de novo. Uma vez que sua memória estivesse completamente cheia, seria difícil recuperar o código para apagar as mensagens falsas e não havia jeito fácil de apagar as mensagens de texto naquele aparelho, o jeito era apagar uma por uma de milhares de mensagens.
Darryl assumiu meu lugar na porta, espiando pela brecha. Um segundo depois seus ombros começaram a tremer. Fiquei assustado imaginando que ele estava entrando em pânico; mas quando ele se voltou, vi que estava rindo tanto que lágrimas corriam em suas bochechas.
“Galvez acabou de ferrá-lo por ficar no corredor durante sua aula. Ela estava adorando”.
Apertamos as mãos solenemente e voltamos para o corredor, direto para as escadas, dando a volta e seguindo pela porta dos fundos, passando a cerca e saindo em direção ao sol maravilhoso naquela tarde na Missão. A rua Valencia nunca me pareceu tão linda. Olhei meu relógio e gritei:
‘Vambora! O resto da galera vai nos encontrar em vinte minutos.’
#
Van nos reconheceu primeiro. Ela estava no meio de um grupo de turistas coreanos, que era uma das suas maneiras prediletas de se camuflar quando fugia da escola. Desde que o monitoramento da cabulagem se tornou parte da internet, nosso mundo é cheio de donos de lojas intrometidos e xeretas que se encarregam de nos delatar na rede para os administradores escolares.
Ela saiu da multidão e se juntou ao bando. Darryl tinha uma queda por Van desde sempre, e ela era doce o bastante para fingir que não sabia disso. Ela me abraçou e foi em direção a Darryl, lhe dando um rápido beijo fraternal no rosto que o fez ficar vermelho até as orelhas.
Os dois faziam uma dupla engraçada. Darryl era um pouquinho gordo, mas nada demais, e ficava vermelho a cada vez que ficava excitado. Tinha barba desde 14 anos, mas graças a Deus ele começou a se barbear após um breve período chamado por nós de “Os anos Lincoln”. E ele era alto. Muito, muito alto. Alto como um jogador de basquete.
Van era quase meia cabeça mais baixa do que eu, magra com cabelos compridos negros elaboradamente loucos, cheios de tranças em penteados que ela pesquisava na rede. Sua pele era ligeiramente bronzeada, olhos negros e ela adorava anéis de vidro imensos, do tamanho de rabanetes, que faziam barulho quando ela dançava.
‘Cadê Jolu?’ Perguntou.
‘Como vai Van?’ Perguntou Darryl com uma voz esganada. Ele sempre estava um passo atrás na conversa, quando Van estava perto.
‘Tô legal D. Como vai o seu mundinho?’
Ohhh, ela era malvada, malvada mesmo. Darryl quase desmaiou.
Jolu o salvou de uma desgraça social prestes a ocorrer. Apareceu usando uma jaqueta de basquetebol vários números maior que o seu, tênis bacanas e um boné do seu lutador mascarado mexicano predileto. El Santo Junior, virado ao contrário. Jolu se chamava Jose Luis Torrez, e completava o quarteto. Ele vinha de uma escola católica super-restrita em Outer Richmond, então não tinha sido fácil escapar de lá. Mas ele sempre conseguia. Ninguém era tão bom em escapar da escola como nosso Jolu. Ele gostava da jaqueta, pois o fazia passar por gente comum - além de parecer estilosa em certas partes da cidade - e escondia seu uniforme escolar, que seria um alerta para os idiotas xeretas que tinham o número do serviço de caça-gazeteiros armazenado em seus telefones.
“Quem está pronto para ir?” perguntei e todos disseram ok.
Tirei o meu telefone e mostrei o mapa que eu havia baixado no BART.
“Assim que eu puder agir, voltamos para o Nikko e vamos ao O’Farrel, e seguimos pela esquerda até Van Ness. Lá, em algum lugar, vamos encontrar o sinal wireless.”
Van fez uma careta. “É uma parte asquerosa de Tenderloin.”
Eu não podia argumentar com ela. Aquela área de São Francisco era das mais nojentas - você vai para a entrada da frente do Hilton e encontra aquela coisa pra turista, como as estações finais dos bondes e restaurantes familiares. Na direção contrária vai parar no Loin, para onde vão todos os travestis e prostitutas, cafetões casca-grossa, vendedores de drogas e onde todos os sem-teto da cidade se concentram. Nenhum de nós tinha idade o bastante para fazer parte do que eles vendiam e compravam, apesar de haver várias prostitutas adolescentes batalhando em seus negócios pelo Loin.
“Olhe pelo lado positivo. A única vez que você precisa ir naquelas bandas é à luz do sol. Nenhum dos outros jogadores chegará perto de lá até amanhã de manhã. Isso, em termos de ARG, se chama uma vantagem inicial monstruosa.”
Jolu riu. “Você faz isso parecer como boa coisa.” Ele disse.
“Estamos nessa juntos”, eu disse.
“Vamos ficar falando ou vamos vencer?” disse Van. Depois de mim, ela era a jogadora mais durona do nosso grupo. Leva a sério a coisa de vencer.
Saímos dali, quatro bons amigos, em seu caminho para decodificar uma pista, ganhar o jogo - e perder para sempre tudo aquilo que estimávamos.
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O componente físico da pista de hoje era um grupo de coordenadas de GPS - haviam coordenadas para a maioria das grandes cidades onde HFM era jogado - onde encontraríamos um ponto com acesso ao sinal de WiFi. Aquele sinal estava sendo deliberadamente interferido por outro ponto de WiFi próximo, que estava escondido de maneira a não poder ser encontrado por buscadores de WiFi convencionais, pequenos o bastante para pendurar num chaveiro, e que diziam quando você estava dentro do alcance de um ponto de acesso aberto para uso gratuito.
Nós tínhamos que rastrear a localização do ponto de acesso escondido medindo a força da interferência sobre aquele ‘visível’, encontrando o ponto onde ele misteriosamente ‘enfraquecia’. Lá acharíamos outra pista - a última vez tinha sido um dia de graça no Anzu, o pretensioso restaurante de Sushi no hotel Nikko em Tenderloin. O Nikko pertencia à Japan Airlines, um dos patrocinadores da Harajuku Fun Madness, e o staff fez uma tremenda confusão conosco quando nós finalmente encontramos a pista. Deram-nos tigelas e mais tigelas de miso (sopa) e nos fizeram provar uni, que era sushi feito de ouriço do mar, que tinha textura de queijo derretido e um cheiro de cocô de cachorro. Mas o gosto era bom. Foi o que o Darryl me disse: eu não comeria aquela porcaria de jeito nenhum.
Encontrei o sinal do WiFi com o buscador de WiFi do meu telefone, três quadras subindo a O’Farrel, logo antes da rua Hyde, em frente ao suspeito Salão de Massagem Asiático, que tinha um sinal luminoso vermelho piscando “FECHADO” na janela. O nome da rede era HarajukuFM, então sabíamos que estávamos no caminho certo.
“Se estiver lá dentro, eu não vou entrar” disse Darryl.
“Vocês estão com seus varredores de WiFi?” eu perguntei.
Darryl e Van tinham eles internos aos telefones, enquanto Jolu, que era chique demais para carregar um telefone maior do que seu dedo mindinho, tinha um pequeno buscador direcional no chaveiro.
‘Ok, vamos entrar e ver o que achamos. Estamos procurando uma queda abrupta de sinal, que fica pior à medida que nos aproximamos.’
Dei um passo para trás e acabei pisando no pé de alguém. Uma voz feminina disse “cai fora” e me virei com medo de alguma viciada me esfaquear por ter quebrado seus saltos.
Ao invés disso dei de cara com alguém da minha idade. Ela tinha os cabelos cor-de-rosa-choque e uma cara de roedor, com enormes óculos de sol, que eram praticamente óculos de pilotos da força aérea. Vestia tiras rasgadas sobre um vestido preto vovozinha, decorado por montes de pequenos brinquedos de personagens de anime (desenho animado japonês) presos por alfinetes, velhos lideres mundiais e emblemas de Soda-pop estrangeiros.
Levantou a câmera e tirou uma foto minha e da turma.
“Sorria!” ela disse. “Você está no Candid Xereta Câmera.”
“Nem vem!” eu disse. “Você não vai...”
“Eu vou.” ela disse. “Vou mandar esta foto para o Caça-Gazeteiros em trinta segundos, a menos que vocês três larguem esta pista e deixem que eu e meus amigos continuemos daqui. Podem voltar em uma hora e ela será toda sua. Acho mais do que justo.”
Olhei para trás e vi outras três meninas no mesmo estilo - uma de cabelo azul, outra verde e outra púrpura. “Quem vocês pensam que são? O esquadrão Quatro-sabores?”
“Somos o time que irá chutar o traseiro do seu time no Harajuku Fun Madness” ela disse. “E eu sou aquela que está prestes a lhe trazer muitos problemas...”
Atrás de mim senti Van começar a recuar. Sua escola apenas para meninas era notória pelas brigas e eu tinha certeza de que ela estava prestes a partir para cima da guria.
Então, o mundo mudou para sempre.
Sentimos primeiro aquele movimento do cimento sob nossos pés, que todo californiano conhece instintivamente - terremoto. Minha primeira idéia, como sempre, foi a de fugir: “Quando estiver em apuros, corra e grite.” Mas o fato era que nós já nos encontrávamos no lugar mais seguro possível: não estávamos dentro de um prédio que poderia desabar, ou no meio da rua onde estilhaços poderiam nos atingir.
Terremotos são assustadoramente silenciosos - pelo menos a principio - mas este não. Foi alto, um inacreditável rugido mais alto do que qualquer coisa que eu tivesse ouvido antes.Tão doloroso que me fez cair de joelhos - e não fui o único.Darryl bateu no meu braço e apontou para os prédios e vimos uma gigantesca nuvem escura vindo da região nordeste, da baía.
Houve outro trovão e a nuvem nos alcançou, aquela coisa escura que crescemos vendo em filmes. Ouvimos mais trovões e sentimos mais tremores. Cabeças apareceram nas janelas por toda rua.
Olhávamos em silêncio para a nuvem em forma de cogumelo. Então começaram as sirenes.
Já tinha ouvido sirenes assim antes - eles testavam as sirenes da defesa civil nas tardes de terça. Mas só tinha ouvido sirenes fora de hora em filmes antigos sobre a guerra e em vídeo games, quando alguém está bombardeando do alto outro jogador. Sirenes de ataque aéreo. Aquele som woooooo fez tudo menos real.
“Sigam imediatamente para os abrigos.” Foi como a voz de Deus vindo de todas as partes. Havia alto-falantes em postes, algo que eu nunca tinha reparado, e todos foram acionados ao mesmo tempo.
“Sigam imediatamente para os abrigos.”
Abrigos? Olhávamos confusos uns para os outros. Que abrigos? A nuvem se expandia. Seria nuclear? Será que estávamos respirando pela ultima vez?
A garota de cabelo rosa agarrou suas amigas e partiu correndo rua abaixo de volta para a estação BART ao pé das colinas.
“SIGAM IMEDIATAMENTE PARA OS ABRIGOS.” Agora os alto-falantes berravam e um monte de turistas passou correndo. Você sempre pode identificar os turistas, aqueles que pensam CALIFÓRNIA = CALOR e passam seus feriados em São Francisco congelando em seus shorts e camisetas, correndo em todas as direções.
“Vamos embora!” Daryl gritou em meu ouvido, um pouco mais audível do que as sirenes, que se juntavam as tradicionais sirenes da polícia. Uma dúzia de carros da polícia local passou gritando por nós.
“SIGAM IMEDIATAMENTE PARA OS ABRIGOS.”
“Vamos para a estação BART” gritei. Meus amigos concordaram. Corremos.
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