sexta-feira, 27 de novembro de 2009
A pátria de chuteiras e O Futuro à janela
Pátrias de Chuteiras é uma noveleta sobre futebol.
Como é? Não é história alternativa? Sim, também é. Mas, antes de tudo, é a história de uma partida de futebol. No caso, a final de uma Copa do Mundo.
A proposta era escrever um trabalho de ficção que fundisse o assunto futebol aos te-mas típicos da fantasia, do horror, da ficção científica ou da história alternativa. Caso apro-vado, o trabalho integraria a antologia temática que a Editora Ano-Luz estava organizando no início de 1998, a Outras Copas, Outros Mundos.
Neste sentido, Pátrias de Chuteiras é o trabalho mais fiel ao propósito precípuo da antologia, pois toda a ação da noveleta se passa dentro de um estádio de futebol, No fundo, a noveleta mostra o que acontece durante essa partida, intercalando à trama futebolística em si, o dilema do técnico de uma das seleções, dividido entre dois sentimentos de lealdade antagônicos: o patriotismo que nutre pelo Brasil e a vontade de defender os interesses da raça negra, discriminada no Brasil e discriminadora em Palmares.
Isto posto, é de todo provável que o leitor pouco afeito ao "rude esporte bretão" não se entusiasme muito com Pátrias de Chuteiras. Paciência. Em minha defesa, só posso apresen-tar a alegação de que, assim como a ficção científica não se limita a robôs, naves estelares e pistolas-laser, a história alternativa não se limita aos grandes efeitos de decisões militares, que mudam o curso de batalhas decisivas e, portanto, da história como conhecemos.
Em termos de história alternativa, Pátrias de Chuteiras insere-se na linha histórica dos Três Brasis, em tudo idêntica à nossa até 1647, ano em que Maurício de Nassau decide re-gressar ao nordeste brasileiro para reassumir o governo de Nova Holanda. Nassau estabele-ce uma aliança com a Confederação de Palmares. Juntas, Nova Holanda e Palmares, conse-guem derrotar a Coroa Portuguesa e, como resultado, Palmares torna-se a primeira nação independente da América, cerca de um século antes dos Estados Unidos.
É provável que alguns de vocês já conheçam esta linha histórica alternativa, da leitura das noveletas O Vampiro de Nova Holanda e Assessor Para Assuntos Fúnebres. A maior diferença é que, ao contrário daqueles trabalhos, em Pátrias de Chuteiras o filho-da-noite que atende pela alcunha de Dentes Compridos não dá o ar de sua graça.
A noveleta é o que os estudiosos do gênero da história alternativa — ou ficção alterna-tiva, como preferem alguns — costumam designar como "presente alternativo", ou seja, uma história cuja ação se passa nos dias de hoje, ou bem próximo disso. A decisão da Copa do Mundo dos Estados Unidos se dá em 1986, o ano da passagem do cometa de Halley, e também o ano em que os cientistas de Palmares divulgam para o mundo uma descoberta que mudará os rumos da civilização... Contudo, nada disso é importante para a história da partida. O drama do técnico Nascimento dos Santos me foi inspirado pelo jogador e técnico Didi.
Para quem não sabe, esse jogador eminentemente técnico foi um dos heróis da vitória da seleção brasileira no Mundial de 1958 na Suécia. Mais tarde, Didi tornou-se técnico da seleção peruana, conseguindo classificá-la para a Copa do Mundo do México, em 1970. Por ironia do destino, as seleções brasileira e peruana se enfrentaram nas quartas-de-final. Antes da partida, discutiu-se muito no Brasil (e provavelmente, também no Peru), como o técnico brasileiro da seleção peruana se comportaria. Ele cantaria o hino nacional brasileiro? Colo-caria a mão no peito durante sua execução? E durante a partida em si? Torceria pelo Brasil? Ou pelo Peru?
A ficção exagera a realidade. Em Pátrias de Chuteiras, o negro brasileiro Nascimento dos Santos, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, torna-se técnico da seleção palmarina. Só que Palmares e Brasil são os piores inimigos. Ao longo de suas histó-rias, as duas nações já travaram cerca de uma dezena de guerras e conflitos menores. Con-flitos onde Palmares quase sempre se saiu vitorioso; a ponto do território brasileiro nessa linha histórica alternativa ter se reduzido aos estados das regiões sul, sudeste e metade da centro-oeste. Como se isto não bastasse, além deste antagonismo histórico, ambas as sele-ções já se sagraram campeãs mundiais duas vezes e, pelo regulamento da FIFA, a primeira seleção nacional a se sagrar tricampeã mundial conquistará a posse definitiva da Taça Jules Rimet, um troféu de ouro maciço que, muito mais que seu valor material, trará consigo imenso prestígio político ao país que conseguir levá-lo para casa.
Se mesmo em nossa linha histórica, futebol no Brasil já é coisa séria, na LHA descrita, essa partida se desenrola como autêntica batalha campal - reflexo não só da rivalidade de mais de três séculos entre brasileiros e palmarinos, como do choque entre duas visões de mundo muito diferentes, e de dois ideais de superioridade racial incompatíveis.
Na época em que a antologia Outras Copas, Outros Mundos foi publicada, alguns lei-tores me perguntaram se Nascimento dos Santos seria um "Pelé Alternativo". A resposta é depende. Depende do que se entenda por "Pelé Alternativo". Em termos estritos, não. É inconcebível imaginar a existência do futebolista Edson Arantes do Nascimento numa LHA que já divergiu da história que conhecemos há mais de três séculos. Não obstante, alguns paralelismos histórico-pessoais que, por capricho, decidi introduzir no enredo.
Em termos genéricos, eu diria que sim. Embora não seja o Pelé, o personagem Nascimento dos Santos foi livremente inspirado nessa grande figura da história esportiva, e foi idealizado como uma homenagem ao Pelé de NLH.
Gerson Lodi-Ribeiro, Março de 2002
A pátria de chuteiras - Gerson Lodi-Riberio [ Download ]
Muitos anos me separam agora desta obra.
Quando escrevi as primeiras linhas (de qual dos contos, não tenho mais memória) decorria o ano de 1990, um ano pessoalmente mágico e terrível em iguais proporções, cheio de grandes sucessos e enormes desalentos, marcado por aquela forma peculiar que a juventude confere aos acontecimentos da nossa vida, tornando-se intensos e imensos, transformando o banal em épico, embora só bem mais tarde os recordemos assim.
Nesse ano estava aberto o concurso da Caminho para recepção de originais de ficção científica, cujo vencedor e menções honrosas estariam destinados a publicação nos livros de bolso azuis de uma colecção que alternava com o género policial, na época em que ambas as manifestações de literatura popular tinham no nosso país e junto das editoras uma conotação semelhante e seguiam de mãos dadas nas colecções alternativas e baratas. Recordo-me ainda de receber o regulamento (que já antecipava, uma vez que se tratava de um prémio bienal) das mãos de um colaborador do stand da editora na Feira do Livro, numa quente tarde de Maio, após a faculdade.
Nos dois anos precedentes habituara-me a colaborar esporadicamente com os suplementos literários do Diário Popular (a secção policiária dos sábados) e do Diário de Notícias (o extinto DN Jovem). Este último em particular havia-se tornado num campo de treinos particularmente exigente, mas que finalmente conquistara com a publicação de um texto muito pessoal – sobre um autor de Ficção Cientifica, o Theodore Sturgeon – publicado no mês de Fevereiro desse mesmo ano. A conquista surgiria a tempo de ser incluído na selecção exclusiva da dúzia e meia de autores que constaram da única Antologia DN Jovem em formato livro (e com capa dura), lançada em Setembro desse mesmo ano, onde surgiria precisamente com um conto de Ficção Científica.
Corria-me por isso a confiança nas veias e muita vontade de arriscar. E, graças à publicação regular do suplemento e à minha vontade de contribuir, conseguira um ritmo de escrita, uma rotina de me sentar à máquina de escrever (este livro foi todo escrito antes dos computadores, àparte o presente prefácio), que é imprescindível a qualquer escritor. Tinha textos por recolher, tinha um objectivo em mente. Tinha na memória a qualidade da Espinha Dorsal da Memória, do brasileiro Bráulio Tavares, último galardoado com o prémio (em 1989). Tinha, finalmente, muitas leituras em português e inglês, de histórias de ficção científica, livros de
física e astronomia, e algumas opiniões, então bem vincadas, sobre o que considerava formas correctas e erradas de escrever ou abordar determinados temas. O terreno estava propício à fecundação.
O livro demorou-me o resto do ano a preparar, e pelo meio tive ainda tempo de recolher uma magra antologia de textos dispersos, denominá-la A Arquitectura do Possível, e enviá-la para um concurso do Instituto Português da Juventude (não me lembro bem do que sucedeu posteriormente, àparte ser contactado para o que seria uma proposta de Associação de Jovens Escritores Portugueses, que de logo me desagradou pelo elevado nível de demagogia política envolvida e escândalos públicos que inevitavelmente a acompanharam). Foi um ano de bastante escrita, e não só. Mesmo assim ficaram histórias por escrever ou por acabar, que tinha intenção de incluir. Outras tiveram de ser recuperadas da gaveta, desenvolvidas e acabadas (salvoerro, «A Última Tarde», e talvez «Também Há Natal em Ganímedes») porque o prazo se aproximava e era necessário preencher um mínimo de páginas, diversidade e estrutura.
Se tivesse tido mais tempo ou energia, teria resultado num livro ligeiramente diferente – embora, estou em crer, não muito. Os temas que me preocupavam então eram bastante uniformes, mais do que julgara a início, do que resultou numa colectânea tematicamente mais coesa do que imaginara.
E foi assim que nos últimos dias do ano de 1990, o Natal já ido, preparava as quatro colecções de duzentas e tal fotocópias exigidas pelo regulamento, as enviava para encadernar, e as iria entregar em mãos, no dia 31, à sede da editora (sem antes me ter preocupado em confirmar se a recepção da empresa estaria aberta, e até que horas, tal era a minha inocência dos assuntos empresariais). E assim foi. Uma lenta espera até ao dia 17 de Junho do ano seguinte, em cuja quente tarde tardei a chegar a casa e a receber a notícia que alguém da Caminho me telefonara para casa. Telefonei de volta, de imediato, e falei pela primeira vez com o Belmiro Guimarães, que me anunciou a conquista do primeiro prémio. Agendámos logo uma reunião, uma preparação dos próximos passos. Ao conhecê-lo, perguntou-me se desejava manter a Introdução. Parecia-lhe uma justificação dispensável do livro. Ponderei então, como ainda pondero hoje, e continuo a sentir que o livro sem esta contextualização, sem este entendimento, acontece abruptamente. Está na natureza das antologias e colectâneas serem explicadas, embora não no romance nem na novela individual. O grupo tem de fazer sentido.
Muitas portas se abriram, então, embora, olhando para trás, nem todas viessem a revelar-se a caminhos válidos. Recordo-me de jornalistas me ligarem para casa, em particular o Zé Pedro, com quem continuaria a contactar ao longo dos anos vindouros, que me apontou uma falha importante no livro (corrigida na edição do Círculo de Leitores, na qual esta se baseia), e que colocaria uma das perguntas mais interessantes de todas as entrevistas que concedi: se havia uma intenção consciente na ordenação dos contos (sim, há). Recordo-me da sessão de entrega do prémio na York House, onde conheci o João Barreiros e o José Manuel Morais, que me convidou então a participar na Omnia. Recordo-me do João me telefonar no dia 20 de Dezembro para me dizer que a sua crítica ao livro fora publicada no Público (e eu, fiel atento do suplemento literário-cultural das sextas-feiras, no qual o João costumava participar com artigos extensos e críticas acérbicas, já o conhecia de reputação bem à famosa caneta de aparo de titânio): não tenho mais a totalidade do texto, mas lembro-me que destacava a «Série Convergente», também um dos meus contos preferidos, e a «Criança Entre as Ruínas», cujo ambiente comparava a Stephan Wul (cujos livros eu só viria a encontrar depois das minhas primeiras idas a França).
Recordo-me das menções simpáticas no semanário Independente da Sarah Adamopoulos (que nunca conheci). Recordo-me dos encontros «Palarvas Para Quê?», que tiveram lugar na livraria São Bento 34 – uma das primeiras que misturava prateleiras com livros, espaço para café e um poço verdadeiro (sim, um poço) –, que eram organizados pelo Nuno Artur Silva, o Rui Zink e o Alberto Oliveira Pinto, e cujo propósito era de reunir os jovens autores de então para, durante três sextas-feiras consecutivas, se debater literatura e ler-se excertos das respectivas obras por actores profissionais (no meu caso, foi o António Feio, que escolheu o segmento «Jean-Luc Armand» do «Poetas da Rua»). Recordo-me da leitura na rádio, pelo prestigiado Rui de Carvalho, da secção inicial do «Jogo do Gato e do Rato». Recordo-me da reportagem na revista Ler, e de como desta surgiu ao Círculo de Leitores a ideia de constituir uma colecção temática de obras de jovens autores portugueses, na qual O Futuro à Janela ganharia uma reedição em capa dura, em 1998, sete anos depois da edição original.
Estávamos contudo, noutro século, noutro universo. Escrevia-se sem recurso da Internet, apenas das bibliotecas pessoais e públicas. A divulgação era mínima, e a capacidade de intervenção individual muito mais limitada do que o é neste final de primeira década do século XXI. As editoras não tinham ainda descoberto o filão de ouro da fantasia para jovens, e este género, embora tolerado, não era acarinhado como devia. O valor do prémio (300 mil escudos, que representava a totalidade da edição) continua a ser, ainda a esta data, o maior volume financeiro de royalties que recebi por uma obra minha 2 . A edição da Caminho saiu cheia de gralhas e com alguns cortes acidentais no texto que lhe alteravam o sentido, o que obviamente me entristeceu – só na edição do Círculo de Leitores conseguiria finalmente recuperar o sentido original do livro. E por fim, o tratamento dos livreiros face ao género, escondendo literal e envergonhadamente a Ficção Científica nas prateleiras mais recônditas, enquanto que os restantes jovens autores portugueses eram expostos com pompa e glória nas mesas de destaque ao público, o silêncio relativo de fãs (àparte os conhecidos e contactos esporádicos) e críticos, a inexistência de clubes e movimentos associativos, a falta inclusive de outros autores, começou a ensinar-me como escrever neste mercado, nesta língua e nesta época se tratava mais de um custo efectivo do que um benefício.
Isto até ao advento da Internet. Tratando-se de uma ferramenta de verdadeira democracia, talvez a primeira, quase mais importante que o direito ao voto, tem permitido a expressão individual e a divulgação mais ou menos facilitada de autores e obras (e não só) até agora de difícil acesso ou presentes somente nas listas especializadas de alguns entusiastas.
Apenas o futuro dirá se esta forma de estar no mundo virtual irá permanecer ou se não passa de um sintoma de uma tecnologia/sistema cultural ainda não completamente interiorizado e legislado que rapidamente terá os grilhões do controlo autocrático firmemente cravados – não interessa, há que aproveitar. Muitos autores internacionais o têm feito, com alguma polémica envolvida, para se auto-promover mediante iniciativas de divulgação, entre as quais figura a disponibilização gratuita das suas obras.
Eis o enquadramento desta ideia de colocar online O Futuro À Janela, quase vinte anos após a sua concepção. Tanto quanto saiba, é a primeira obra a ficar assim disponível ao grande público deste território virtual que teve uma existência física e um currículo apreciável na área da ficção científica portuguesa. Se me perguntarem sobre perdas eventuais desta iniciativa, creio que me vou limitar a devolver-vos um sorriso simpático – seguramente que ninguém se lembrará mais de um prémio há muito atribuído, em particular de um livro que dificilmente se encontrará nas livrarias ou poderá ser encomendado, e decerto que não corro o risco de não enriquecer com a perda de vendas. Por outro lado, quem sabe se desta forma ganhe um pequeno novo alento e encontre leitores que não teria oportunidade de conhecer?
Fica disponível para vossa leitura, impressão, distribuição, e talvez crítica. Apenas peço que sigam as orientações de direitos reservados indicada no fim do livro.
Façam o favor de abrir a janela. Lá fora, é já amanhã.
Luís Filipe Silva - 25 de Junho de 2007
Email: contacto@TecnoFantasia.com
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O Passado do Futuro
O futuro também tem um passado.
Quando vemos um filme de ficção científica de décadas atrás, o ar retrô das roupas, do design dos robôs e naves espaciais e do próprio comportamento dos astronautas salta à vista.
Até as supostas fotos de UFOs ilustram o estilo de sua época. Os discos-voadores dos anos 50 pareciam (ou eram) calotas de Cadillacs e caixas de aspiradores de sua época.
Os mais recentes atestam que os cromados saíram de moda também no espaço interestelar.
No final do século XIX, a ciência e a tecnologia eram representadas por engenhocas pesadas e fumegantes.
As obras mais conhecidas de Júlio Verne estão repletas de máquinas às vezes surpreendentemente proféticas, mas também curiosamente antiquadas. Como em 20.000 Léguas Submarinas: só 80 anos depois os submarinos nucleares reais igualariam a capacidade de submersão e navegação da criação do Capitão Nemo – mas seu recurso militar mais sofisticado era abalroar o inimigo, como as galeras faziam 2.500 anos atrás.
O futuro, para o século XIX, era a ampliação de um presente em que o progresso se media por toneladas de aço e carvão. Verne imaginou navios a vapor de quilômetros de comprimento e um canhão de 270 metros, capaz de disparar uma bala com a qual seus heróis se adiantaram 106 anos ao projeto Apolo.
Na vida real, é claro, teriam sido reduzidos a patê.
Quando Verne vai além das viagens fantásticas para antecipar o futuro da sociedade, como em Paris no século XX, a mistura de profecia e anacronismo é ainda mais deliciosa. Na França de 1960, sob o reinado de Napoleão V, a obsessão com a produtividade, o lucro e a eficiência haviam levado a cultura humanista à extinção. Uma brilhante antecipação em meio a valores e cenários curiosamente vitorianos.
Circulam nas ruas carros a hidrogênio (é verdade que de 1 hp), mas o banco de dados do tio bilionário era mantido num livro-caixa de seis metros de altura. O poético sobrinho morre de fome e frio depois de desistir de escrever para o “Grande Armazém Dramático”, uma antecipação de Hollywood que produzia em série peças banais, tornando a censura desnecessária.
Melhor ainda é O dia de um jornalista americano em 2889. Há mísseis munidos de micróbios da peste e da cólera, aeroônibus cruzam os céus e pessoas se vêem e falam através de “fonotelefotos”, uma espécie de videofone. Um bilionário norte-americano dá ordens a potentados estrangeiros como o czar da Rússia e o Imperador da China e exige que acabem uma guerra que lhe prejudica os negócios.
A Inglaterra virou colônia dos EUA. Não, Verne não cita Tony Blair.
A ficção científica muda nitidamente de sabor a partir da década de 1930. O cenário social às vezes nos parece muito menos realista do que nas obras de Verne. Não é por acaso: o capitalismo liberal de fins do século XIX foi, sob muitos aspectos, mais parecido com o dos dias de hoje do que as sociedades de meados do século XX, que se debatiam entre o welfare state, o fascismo e o stalinismo, mas sempre tinham em alta conta o planejamento racional e a engenharia social.
O pano de fundo tecnológico foi em grande parte pintado por Nikola Tesla, que nos anos 20 previu inúmeras invenções revolucionárias no campo do eletromagnetismo, incluindo motores antigravitacionais, transmissão de energia elétrica sem fio, campos de força e raios da morte capazes de abater aviões a centenas de quilômetros. Era excêntrico, mas não charlatão. Cientista e inventor respeitado, havia descoberto o campo magnético giratório e com ele inventou, no final do século XIX, os dínamos, os motores e os transformadores de corrente alternada, sem os quais teria sido impossível usar a energia elétrica em grande escala.
Agora acreditava na possibilidade de um campo escalar de “energia cósmica” – uma onda eletromagnética sem freqüência – e, em busca de recursos para pesquisá-lo, procurava desesperadamente chamar a atenção do público falando de vagas intuições como invenções prestes a se concretizar. Desta vez, suas teorias não se comprovaram, mas ainda são levadas a sério por ufologistas, teóricos da conspiração e inventores obstinados.
Essas e outras fantasias tecnológicas podem ter ajudado a criar o clima de euforia especulativa que explodiu na crise de 1929. Foram divulgadas por jornais sensacionalistas, novelas de rádio, quadrinhos e por Amazing Stories, a primeira revista regular de ficção científica, criada em 1926 pelo escritor e radialista Hugo Gernsback, inventor visionário e fracassado nas horas vagas. Sua influência no imaginário norte-americano e ocidental foi surpreendente. Os discos voadores são um exemplo impressionante. Associados ao seqüestro de humanos por alienígenas, surgiram nas suas capas em 1946 e elevaram a circulação de 25 mil para 250 mil. No ano seguinte, as pessoas começaram a ver discos no céu e nunca mais pararam.
Algumas idéias dessa ficção se realizaram, ainda que bem mais tarde e nem sempre da forma prevista, como a televisão, o computador, os foguetes interplanetários e os raios de calor (lasers). Outras, ainda que possíveis, se mostraram antieconômicas ou pouco práticas, como as calçadas rolantes, os carros voadores, os jatos pessoais, os robôs domésticos e os videofones.
Salta à vista nessa concepção do futuro a obsessão com a velocidade. Não só veículos de ficção e projetos futuristas divulgados nas páginas de Mecânica Popular, como também automóveis de luxo e utilidades domésticas das mais prosaicas pareciam desenhadas para voar a velocidades supersônicas.
As mudanças nos ritmos sociais trazidas pelo rádio e pelo avião eram mecanicamente extrapoladas ad absurdum. Temporão e quase abortado, o supersônico Concorde pode ser considerado um dos últimos filhos desse sonho. Ainda mais característica é a certeza da vitória e da validade eterna dos valores sociais e morais da classe média interiorana dos EUA de meados do século XX.
As roupas do futuro seriam pudicas, simples, funcionais e quase uniformes. Os adolescentes não procurariam nada mais perigoso e excitante que um milk-shake na lanchonete da esquina, suas mães adorariam ser boas donas-de-casa e seus pais continuariam a perseguir o sonho americano com inabalável otimismo.
As minorias e as classes oprimidas estavam ausentes desses cenários. Robôs reluzentes e trabalhadores desempenhariam o papel de escravos sem reclamar nem criar problemas de consciência para seus proprietários. Foi exemplar a Rosie dos Jetsons, variante metálica e idealizada da empregada doméstica negra.
Fora dos EUA, esse futuro elétrico e supersônico, planejado por tecnocratas, foi temperado por pitadas de realismo e ironia, mas até a contracultura acreditava que esse futuro era possível e mesmo inevitável. Ainda que não estivesse igualmente entusiasmada com ele, como mostrou Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.
Na União Soviética, o desaparecimento das classes e a igualdade das raças e dos sexos faziam, naturalmente, parte do futuro oficial. Na prática, porém, a fórmula de Lênin segundo a qual comunismo seria igual a socialismo mais eletricidade deu prioridade cada vez maior à segunda parcela dessa equação simplista, como se a vitória do marxismo sobre o capitalismo pudesse ser definida pela capacidade de colocar Sputniks em órbita ou astronautas na Lua.
Até fins dos anos 60, o sonho de progresso e consumo sem limites não havia sido seriamente abalado. Enquanto Leonid Brezhnev prometia para breve a concretização da sociedade sem classes, o governo norte-americano, assessorado pelo Hudson Institute e seu famoso futurólogo Hermann Kahn, afirmava que no início do século XXI a jornada de trabalho seria de 28 horas semanais e as pessoas poderiam se aposentar com 38 anos de idade, não de serviço!
Quem dera. Assim como as viagens rotineiras à Lua, as viagens tripuladas a Júpiter e as inteligências artificiais previstos por Stanley Kubrick para 2001, essas promessas foram adiadas sine die.
Poucos até então perguntavam como o consumo desenfreado de combustíveis e de energia nuclear, pressupostos nesse modelo de futuro, poderia ser generalizado a todo o mundo sem transformar o planeta numa sarjeta radioativa.
Mas, nos anos 70, o questionamento dos valores norte-americanos pelos movimentos das minorias e pelos protestos contra a guerra do Vietnã vieram se somar a crise da energia, a estagnação do crescimento econômico na maior parte do mundo, a explosão demográfica e o agravamento dos problemas ambientais. Do outro lado do muro de Berlim, o ceticismo e mesmo o cinismo em relação aos velhos ideais bolcheviques também já cresciam.
O modelo do futuro passou a ser mesmo a tal sarjeta radioativa, parcialmente contrabalançada a partir dos anos 80 pela mitologia do computador pessoal. Na imaginação de alguns pioneiros, as maquininhas da Apple tornariam o Estado e o capitalismo tão obsoletos quanto os grandes computadores da IBM.
A possibilidade de personalizar e programar seu próprio computador tornaria o trabalho flexível e divertido e acabaria com a necessidade de patrões e de outros intermediários. O surgimento de redes horizontais de comunicação como as BBS acabaria com as hierarquias e democratizaria o conhecimento, a informação e a propriedade. O embrionário ciberespaço abriria uma nova fronteira ao individualismo e à liberdade.
A ficção científica passou a retratar um futuro horripilante, mas que ao menos tinha algum estilo. O hacker tomou o lugar do astronauta e os adereços punk substituiram os alegres uniformes de Jornadas nas Estrelas. Convencionou-se chamar de cyberpunk esse novo gênero, prenunciado em Laranja Mecânica e Robocop e desenvolvido em Blade Runner, Max Headroom e Matrix.
Se alguns entusiastas confundiram a ficção com a realidade, o mesmo pode-se dizer do Estado. Em março de 1990, agentes do Serviço Secreto dos EUA invadiram a editora SJ Games para apreender material destinado a um roleplaying game que simulava esse imaginário. Para eles, era um “manual de crime de computador”, embora não contivesse uma só linha de programação real. Algo como pensar que alguém poderia aprender artes marciais ao jogar Street Fighter.
O capitalismo e as bolsas de valores também não souberam fazer essa distinção. Se no final do século XIX acreditava-se que a força do vapor era capaz de tudo e nos anos 20 se esperava da eletricidade e do magnetismo todo tipo de milagres, nos anos 90 supunha-se que a realidade virtual e a Internet aboliriam as leis da economia, libertariam o crescimento econômico das limitações da vil matéria, acabariam com as crises e abririam as portas do Paraíso.
Desde, é claro, que os empresários da nova economia estivessem livres de sindicatos, de regulamentos, de impostos e de auditorias. Bill Gates parecia acreditar que era possível e muitos pensavam que alguém tão rico não podia estar errado.
Antes que o colapso da Nasdaq, em março de 2000, relegasse também esse estranho futuro para o arquivo das ilusões perdidas, os aspectos mais divertidos do imaginário cyberpunk já haviam adquirido um tom retrô.
Através de suas redes internas, as empresas retomaram o controle dos métodos e dos ritmos de trabalho, numa forma ainda mais rígida e totalitária que antes da introdução do computador pessoal. Mesmo dentro de casa, a padronização dos computadores e dos sistemas operacionais pelo monopólio Intel-Microsoft acabou com as veleidades de independência e criatividade dos usuários de computador.
Rapidamente dominada pela lógica do comércio e do copyright, a Internet, antes imaginada como um novo faroeste, como um espaço infinito aberto ao arrojo dos cibernautas, ou como a ágora de uma democracia direta e instantânea, tornou-se um imensamente prosaico shopping center. Na opinião de Thomaz Wood, um vasto penico digital.
Seja qual for a metáfora mais adequada, a Web se tornou um espaço cada vez mais apropriado por monopólios como a AOL-Time-Warner, vigiado por empresas ansiosas para descobrir nossos hábitos de consumo e policiado por agências de Washington preparadas para detectar e registrar e-mails, consultas e compras que possam despertar suspeitas de conexões com o terrorismo.
Não faltam sonhos comparáveis às fantasias mais ousados de Tesla. A ficção científica ainda se alimenta de especulações sobre modificações do corpo humano por dispositivos cibernéticos e engenharia genética, bem como a criação inteligências artificiais superiores à humana e de robôs microscópicos capazes de fazer e desfazer quase tudo.
Algumas são mais ou menos plausíveis e talvez venham a se concretizar de alguma forma.
Provavelmente, como de hábito, num contexto bem diferente daquele que seus autores imaginaram.
Luiz M.C. Costa
terça-feira, 24 de novembro de 2009
As duas primeiras obras brasileiras de Ficção Científica
As duas primeiras obras de ficção científica escritas por brasileiros foram publicadas como folhetins.
A primeira, inacabada, intitula-se Páginas da História do Brasil Escrita no Ano de 2000.
Mais conhecida como As Páginas do Ano de 2000 (1868-72),, teve como autor o historiador, romancista e senador Joaquim Felício dos Santos (1828-1895), responsável pela divulgação da história e pela consolidação do mito de Chica da Silva, em seu livro Memórias do Distrito Diamantino (1868).
Nesse mesmo ano saiu o primeiro capítulo das Páginas no jornal Jequitinhonha, da cidade mineira de Diamantina. Publicação republicana de propriedade do próprio Joaquim Felício dos Santos, abrigou o folhetim de forma descontínua, até 1872.
Mais do que fazer literatura, Joaquim Felício visava criticar o imperador D. Pedro II com os lances surpreendentes de sua história. Segundo um artigo de Braulio Tavares publicado no jornal O Estado de São Paulo de 29 de julho de 2000, a trama centrava-se na viagem do imperador para o futuro.
O médium Tsherepanoff, baseando-se em estudos da “neuripnologia”, consegue transportar D. Pedro II para o dia 1º de janeiro de 2000. Algumas surpresas reservadas ao (ex-)imperador:
A capital do Brasil é a cidade mineira de Guaicuí, com 2 milhões de habitantes.
A ex-capital, o Rio de Janeiro, conta com apenas 12 mil habitantes.
O Brasil é um país republicano, com 122 Estados e 142 milhões de habitantes.
As principais monarquias da época de Pedro II (China, Inglaterra e Rússia) também se tornaram repúblicas. A China, justamente no dia da chegada do imperador ao futuro. O folhetim foi descoberto por Alexandre Eulálio, que o publicou na Revista do Livro da Biblioteca Nacional, no número 6, de junho de 1957 (pp. 103-175).
O Doutor Benignus(1875), de Zaluar, a segunda obra de ficção científica brasileira foi também o primeiro romance científico brasileiro e saiu no formato de livro em 1875, em dois volumes, três anos depois do final da publicação de As Páginas do Ano 2000. Seu autor é Augusto Emilio Zaluar, jornalista e escritor português (1826) naturalizado brasileiro (1856). O Doutor Benignus foi publicado inicialmente em capítulos no jornal Globo.
A história relata uma fictícia expedição científica pelo interior do Brasil, motivada por uma misteriosa mensagem indígena que sugere haver habitantes no Sol. O Doutor Benignus, médico formado e
cientista amador, apaixonado especialmente pela ciências naturais (os pés na terra) e pela Astronomia (a cabeça nas estrelas), parte então com mais de 20 acompanhantes, à procura da solução do mistério e também em busca de um inglês capturado por indígenas, pai de um dos companheiros de jornada.
As duas primeiras obras brasileiras de Ficção Científica
Conteúdo
1. As Páginas do Ano de 2000 (1868-72), de Felício dos Santos.
Lenda da cayaca
2. O Doutor Benignus, de Zaluar (1875) – apresentação
3. O Doutor Benignus: Resumo da obra
Capítulo I – Resolução Singular
Capítulo II – Banquete Egipcíaco
Capítulo III – Carta do Dr. Benignus ao Sr. Camilo Flammarion
Capítulo IV – Um Verdadeiro Filósofo
Capítulo V – Dentro da Mata Virgem
Capítulo VI – As Cidades do Povo Tanajura
Capítulo VII – A Pora
Capítulo VIII – Preparativos de Viagem
Capítulo IX – Mãe e Filhos Capítulo X – Consórcios com as Estrelas
Capítulo XI – A Caminho
Capítulo XII – O Primeiro Pouso
Capítulo XIII – Os Campos de Minas Gerais
Capítulo XIV – O Ouro e o Ferro
Capítulo XV – O Dr. Lund
Capítulo XVI – Estrelas Cadentes
Capítulo XVII – Tempestade em uma Floresta
Capítulo XVIII – Deus! Capítulo XIX – Em Uberaba
Capítulo XX – Quarenta Léguas
Capítulo XXI – Santa Rita de Paranaíba
Capítulo XXII – O Tigre Preto
Capítulo XXIII – Enterro na Caverna
Capítulo XXIV – Primeiras observações
Capítulo XXV – Heroísmo de Jaime River
Capítulo XXVI – Teorias Fisiológicas de Katini
Capítulo XXVII – As Manchas do Sol
Capítulo XXVIII – Goiás
Capítulo XXIX – Jurupensém Capítulo XXX – A Queda de um Aerólito
Capítulo XXXI – Habitante Imaginário dos Espaços Interplanetários
Capítulo XXXII – Embarque em Leopoldina
Capítulo XXXIII – Na Foz do Tapirapé
Capítulo XXXIV – O Chefe Koinaman
Capítulo XXXV – Viagem Aérea
Capítulo XXXVI – Condições de Resgate
Capítulo XXXVII – Conclusão Referência
As duas primeiras obras brasileiras de Ficção Científica
Apresentação e resumo das obras de Joaquim Felício dos Santos e Augusto Emilio Zaluar de Sérgio Barcellos Ximenes. (Ler ) [ Download ]
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
El Eternauta no cinema
Os boatos desta vez parecem ser verdade. El Eternauta, que estaria chegando aos cinemas em 2010, aparentemente foi cancelado.
A magnífica série de quadrinhos de Oesterheld e Solano, teria sua versão para as telonas dirigida por Lucrecia Martel, pela K&S Films e co-produção espanhola. Testes de filmagem começaram no mês de Setembro e estavam previstos muitos efeitos especiais, como se percebe pelos testes que vazaram para a internet.
Diz-se, não oficialmente, que a família de Oesterheld impôs condições que tornaram o projeto inviável.
Uma pena, pois se existe uma obra que daria um ótimo filme, com certeza é El Eternauta.
Já não é a primeira vez que a série quase ganha uma adaptação. Quatro anos atrás, o diretor italiano Felippe Josetti, anunciou que estaria negociando com um grande estúdio americamo, a produção do filme.
Enquanto esperamos, torcendo que a situação se resolva, conheça um pouco mais sobre EL Eternauta.
domingo, 22 de novembro de 2009
Theodore Sturgeon
Edward Hamilton Waldo (26 de fevereiro de 1918 - 8 de maio de 1985) nasceu em Staten Island, Nova York (EUA).
Em 1929, depois de um divórcio, sua mãe casou-se com William Sturgeon, e Edward mudou seu nome para Theodore, para melhor para combinar com seu apelido, "Ted".
Aos vinte anos vendeu seu primeiro trabalho para um jornal, mas somente um ano depois, passaria a dedicar-se a Ficção Científica, gênero que o consagrou como escritor. Theodore escrevia pequenos contos, com que conseguia alguma remuneração e reconhecimento popular, principalmente através das revistas populares como a Astounding Science Fiction. Por um tempo, utilizaria o pseudônimo "E. Waldo Hunter", conseguindo assim, vender dois trabalhos para uma mesma edição, como se fosse de autores diferentes.
A prosa de Sturgeon é marcada pela qualidade poética e uma elegância estilística.
Sturgeon escrevia também para televisão. São dele os roteiros para os episódios "Shore Leave" (1966) e "Amok Time" (1967) de Star Trek, a série original. Este último em especial, ficou famoso pelo ritual de acasalamento Vulcano (Pon farr). Vários episódios de Star Trek escritos por ele, nunca foram produzidos.
Apesar de marcar presença em muitas antologias de FC (no auge de sua popularidade na década de 1950 ele foi o autor vivo com o maior número de participações em antologias), e também ser bastante respeitado pelos críticos da época, Sturgeon é pouco conhecido do público e ganhou relativamente poucos prêmios.
Foi considerado uma influência primordial de escritores mais famosos, como Bradbury e Vonnegut.
Vonnegut inclusive declarou que seu personagem Kilgore Trout, foi baseado em Theodore Sturgeon, e John Clute escreveu sobre ele: "Sua influência sobre escritores como Harlan Ellison e Samuel R. Delany foi seminal."
Sturgeon foi responsável por adágios como: "Nada é absolutamente sempre assim."
E a chamada Lei de Sturgeon: "Noventa por cento de tudo que é produzido é lixo."
Corolário 1: "A existência de imensas quantidades de lixo na ficção científica é admitida e é lamentável, mas não é mais anormal do que a existência de lixo em qualquer lugar."
Corolário 2: "A melhor ficção científica é tão boa quanto a melhor ficção em qualquer campo."
Theodore Sturgeon ( Cuerpo divino, The synthetic man, Some of your blood, Voyage to the bottom of the sea, Venux plus X, The stars are the styx, The sky was full of ships, The skills of Xanadu, The sex opposite, The perfect host, The man who lost the sea, The girl had guts, The dreaming jewels, That low, Slow sculpture, Shottle Bop, Poker face, More than human, Microscomic God, La navaja de Occam, Killdozer, It's you, Fluffy, Ether Breather, El monstruo, Sombras chinescas, Y atrapar al unicornio, Y ahora las noticias, Violacion Cosmica, Un plato de soledad, Un camino a casa, Regreso, Prodigio, Nuevamente Sturgeon, Los ninos del apacible comediante, La fuente del unicornio, Extrapolacion, El tio fremmis, El mundo bien perdido, El Hurkle es un animal feliz, El hombre que aprendio a amar, El esquema de Dorne, El cuisco, el cuasco y Boff, El corazon, Cuando ha interes, cuand hay amor ) [ Download ]
sábado, 21 de novembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 4
Este capítulo é dedicado a Barnes and Noble, uma cadeia de livrarias Americana. Quando as antigas livrarias de controle familiar desapareceram, a Barnes and Noble começou a construir seus gigantescos templos para a leitura por todo o país. Com estoque de dezenas de milhares de títulos (as livrarias em shoppings e mercearias estocam uma pequena fração disso em suas prateleiras) e estando abertas em horários convenientes para famílias, trabalhadores e outros leitores em potencial, as lojas da BN conseguiram salvar a carreira de muitos escritores, estocando títulos que lojas menores não poderiam manter em suas limitadas estantes. BN sempre possuiu fortes programas comunitários e eu fiz algumas das minhas melhores e mais bem organizadas sessões de autógrafos em suas lojas, incluindo ótimos eventos na (infelizmente fechada) BN da Union Square, Nova Iorque, onde houve uma festa de autógrafos após a entrega do Prêmio Nebula (uma das mais conceituadas premiações para o gênero Ficção Científica Americana) e na BN em Chicago, onde ocorreram alguns Prêmios Nebula, anos depois. O melhor é que na BN os compradores realmente conseguem tudo sobre ficção científica, comics (quadrinhos) e mangá (quadrinhos japoneses), games e similares. Eles são entusiasmados e conhecem o assunto, e isso se reflete na excelente seleção exibida em suas lojas.
Barnes and Noble, por todo os EUA.
Eles recolocaram as minhas algemas e o capuz e me deixaram lá.
Muito tempo depois, o caminhão começou a se mover, descendo e imediatamente eu caí. Minhas pernas estavam adormecidas e pareciam blocos de gelo, com exceção dos joelhos, que estavam inchados devido a estar ajoelhado por horas.
Mas me agarraram pelos ombros e pés e eu fui levado como um saco de batatas. Havia vozes indistintas ao meu redor. Alguém chorava. Alguém praguejava.
Fui carregado por uma curta distância e colocado sentado, novamente algemado a outra barra. Meus joelhos já não me suportavam mais e caí de costas, acabando caído de lado e torcido como um pretzel, sustentado contra as correntes que seguravam meus pulsos.
Movíamo-nos novamente, e desta vez não parecia ser um caminhão. O chão debaixo de mim tremia e vibrava com um motor diesel potente e percebi que estava em um barco. Meu estomago se transformou em gelo. Eu estava sendo levado para fora do país para algum lugar e quem sabe para onde? Eu estava assustado antes, mas aquilo me apavorou, deixou-me paralisado e sem palavras de tanto medo. Percebi que nunca mais veria meus pais de novo e experimentei um pouco de vomito queimando minha garganta. O saco ao redor da minha cabeça fechava minha boca e mal podia respirar.
Mas felizmente não ficamos na água por muito tempo, talvez uma hora, e em quinze minutos estávamos aportando; senti os passos no deque ao meu redor e senti outros prisioneiros estavam sendo libertados das algemas e sendo levados dali. Quando vieram me pegar, tentei ficar de pé, mas não pude, então me carregaram de novo, daquele jeito impessoal e ríspido.
Quando me tiraram o capuz de novo, estava numa cela.
A cela era antiga e parecia ruir e cheirava a maresia. Havia uma janela bem alta com barras. Lá fora estava ainda escuro. Um cobertor no chão e uma pequena privada de metal sem assento, presa a parede. O guarda que me arrancara o capuz riu de mim e fechou a sólida porta de ferro atrás dele.
Gentilmente massageei as pernas, tentando fazer o sangue voltar a circular nelas e nas mãos. Depois de um tempo eu já podia ficar de pé e caminhar. Ouvi outras pessoas falando, chorando e gritando. Também gritei: “Jolu! Darryl! Vanessa!” Outras vozes do bloco de celas começaram a gritar nomes também, inclusive obscenidades. As vozes mais próximas soavam como bêbados zoando na esquina. Talvez eu também soasse daquele jeito.
Guardas gritaram conosco para que ficássemos quietos e aquilo fez com que todos se calassem.
Depois de algum tempo, todos nós gritávamos com todas nossas forças, chorávamos até a garganta doer. Por que não? O que tínhamos a perder?
#
Na vez seguinte em que fui interrogado, eu estava imundo e cansado, com sede e faminto. A mulher do corte de cabelo militar estava de volta na festa e também três caras grandes que me carregavam como um corte de carne. Um deles era negro, os outros dois brancos e um destes devia ser hispânico. Todos armados. Parecia um cruzamento de um comercial da Benneton com o game Counter-Strike.
Eles me tiraram da cela e acorrentaram meus pulsos e tornozelos juntos. Prestei bastante atenção ao meu redor enquanto andávamos. Ouvi água do lado de fora e pensei que pudéssemos estar em Alcatraz - era uma prisão, afinal, mesmo que durante gerações tivesse se transformado em atração turística, um lugar onde íamos ver onde a gangue de Al Capone e os gângsteres contemporâneos haviam estado. Eu visitara Alcatraz durante um passeio escolar. Era velha, ruída e medieval.Este lugar lembrava a segunda guerra mundial, não os tempos coloniais.
Cada porta de cada cela tinha um código de barra impresso a laser estampado, e números, mas, além disso, não havia como dizer quem estava por detrás de cada uma.
A sala de interrogatório era moderna, com luzes fluorescentes e cadeiras ergonômicas - mas não para mim, eu tinha que sentar numa cadeira dobrável de jardim - e uma grande mesa de madeira. Uma das paredes era um grande espelho, como aqueles que vemos nos programas de televisão sobre policiais e eu imaginei se havia alguém olhando por detrás. A mulher do corte de cabelo raspado e seus amigos se serviam de café de uma caixa (eu queria arrancar seu pescoço com meus dentes e pegar seu café) e então colocaram um copo de plástico com água perto de mim - sem soltar meus pulsos de modos que não podia segurá-lo. Muito engraçado.
“Olá, Marcus. Como está a sua atitude hoje?” disse a mulher.
Eu não disse nada.
“Não é tão ruim assim” ela disse. “As coisas podem ficar melhores. Desde que nos diga o que queremos saber, mesmo se nos convencer que você estava no lugar errado na hora errada, você está marcado. Nós estaremos vigiando você onde quer que vá e o que quer que faça. Você agiu como se quisesse esconder algo e não gostamos disso.”
Era patético, mas tudo que meu cérebro conseguia pesar era a frase “nos convença que estava no lugar errado na hora errada”. Esta era a pior coisa que já me acontecera. Eu nunca tinha me sentido tão mal ou tão assustado antes. Estas palavras “lugar errado na hora errada”, estas cinco palavras, eram como uma linha salva-vida suspensa diante de mim enquanto eu tentava me manter na superfície.
“Olá... Marcus?” Ela estalou os dedos a minha frente. “Olhe para cá, Marcus” Havia um pequeno sorriso em seu rosto e me odiei por deixar que visse o medo em mim. “Marcus, a coisa pode ainda ficar pior do que já está. Este não é o pior lugar em que podemos te colocar”. Ela se abaixou e trouxe de baixo da mesa uma pasta, que abriu. Dela, retirou meu telefone, meu arphid sniper/cloner, meu buscador de WiFi e alguns cartões de memória. Colocou-os na mesa, um ao lado do outro.
“Aqui está o que queremos de você. Desbloqueie hoje o telefone. Se fizer isso, vai ganhar privilégios especiais, como passear lá fora e usar o banheiro. Vai poder tomar um banho de chuveiro e poderá andar e se exercitar na quadra. Amanhã, trazemos você de volta e você descriptografa os dados dos cartões de memória. Fazendo isso, poderá comer na cantina. No dia seguinte, vamos querer suas senhas de email e você ganhará o privilégio de ir à biblioteca.”
A palavra “Não" estava em meus lábios, como um arroto querendo escapar, mas não sairia. Ao invés dela, “Por quê?’ foi o que saiu.
“Queremos estar certos que você é aquilo que parece ser. Isso é sobre segurança, Marcus. Você diz que é inocente. Você pode ser. Porém, por quê um homem inocente agiria como se tivesse muita coisa a esconder está além da minha compreensão. Mas vamos dizer que você estivesse naquela ponte quando a coisa aconteceu. Seus pais poderiam estar lá. Seus amigos. Não gostaria que pegássemos as pessoas que atacaram seu lar?”
Era engraçado, mas quando ela estava falando sobre me dar alguns privilégios, me espantou como funciona a submissão. Senti como se tivesse feito algo para vir parar aqui, como se fosse um erro meu, como se pudesse fazer alguma coisa para mudar isso.
Mas assim que ela ligou o modo ‘enrolação’, com toda aquela besteira de “segurança”, minha verve voltou. “Senhora”, eu disse “você está falando sobre atacar minha casa, mas pelo que sei, vocês foram os únicos que me atacaram recentemente. Eu pensava que vivia num país com uma Constituição. Pensei que vivia em um pais onde eu tinha direitos. Você está falando sobre defender minha liberdade enquanto está rasgando a “Declaração de Direitos” (as dez primeiras emendas da Constituição Americana, que garantem os direitos básicos do cidadão).
Um leve aborrecimento passou por seu rosto e então se foi. “Tão melodramático, Marcus. Ninguém lhe atacou. Você foi detido pelo governo do seu país enquanto investigávamos detalhes sobre o pior ataque terrorista já perpetrado em solo nacional. Está dentro de você o poder para nos ajudar a combater esta guerra contra os inimigos da nossa nação. Você quer reservar a Declaração de Direitos? Ajude-nos então a parar as pessoas malvadas que destruíram sua cidade. Agora, você tem exatos 30 segundos para desbloquear este telefone antes que te mande de volta para sua cela. Temos muitas pessoas para entrevistar ainda hoje.”
Ela olhou seu relógio. Eu agitei os pulsos, agitando as correntes que me mantinham fora do alcance do telefone. Sim, eu iria fazê-lo. Ela havia me dito que eu iria ser libertado - que voltaria ao mundo, para meus pais - e isso me dera esperanças. Agora ela me ameaçava tirar a minha liberdade e minha esperança se desfazia e tudo que podia pensar era como ter isso de volta.
Então, quis pegar meu telefone e desbloqueá-lo para ela, e ela apenas me olhou friamente, conferindo o relógio.
“A senha.” eu disse, finalmente entendendo o que ela queria de mim. Queria que eu dissesse, alto, ali, onde podia gravar, onde seus amigos poderiam ouvir. Não queria somente que eu desbloqueasse o telefone. Queria que eu me submetesse a ela. Ficasse sob seu comando. Tornasse conhecido cada segredo meu, toda minha privacidade. “A senha”, eu disse de novo e então revelei a senha. Deus me ajude, tinha me submetido a sua vontade.
Ela sorriu um sorrisinho hipócrita, o que para aquela rainha gelada o equivalente a uma dancinha de vitória, e os guardas me deixaram. Assim que a porta fechou, eu a vi se inclinar sobre o telefone e digitar a senha.
Quem me dera pudesse ter me antecipado a esta possibilidade e ter criado uma falsa senha que abriria uma parte completamente inócua do meu telefone, mas eu nunca fora tão paranóico (ou esperto) assim.
Você deve estar imaginando a esta altura quais eram estes segredos obscuros. Eu tinha bloqueado mensagens de email na memória de meu telefone. Eu sou só uma criança, afinal.
A verdade era que eu tinha tudo e nada para esconder. Entre meu telefone e a memória, você poderia ter uma boa idéia de quem eram meus amigos, o que eu pensava sobre eles, todas as coisas legais que a gente fizera. Poderia ler a transcrição eletrônica das brigas que tivemos e das reconciliações a que chegamos.
Veja, eu não apago. Por que deveria? Memória é barata, e você nunca sabe quando vai precisar daquelas coisas. Principalmente as coisas mais estúpidas. Sabe quando voe está no metrô sozinho e sem ninguém para conversar e você se lembra então de uma discussão amarga, alguma coisa terrível que você disse? Bem, quase sempre nunca foi tão ruim quanto você se lembra. Sendo capaz de voltar atrás e ler novamente, é uma maneira legal de se lembrar que você não é uma pessoa tão má quanto você pensa que é. Darryl e eu já tivemos mais brigas do que podemos contar.
E mesmo que não fosse assim. Sei que meu telefone é particular. Sei que minhas memórias são particulares. É para isso que existe a criptografia - embaralhando a mensagem. O objetivo por detrás da criptografia é bom e justo e você e eu temos o acesso à mesma criptografia usada em bancos e na Agência de Segurança Nacional. Só existe um tipo de criptografia que é pública, aberta e pode ser utilizada por qualquer um. É como você sabe que a coisa funciona.
Existe algo realmente liberador em ter um canto da sua vida que é somente seu, ninguém pode ver a não ser você. É como ficar nu ou cagar. Todo mundo fica nu alguma vez. Todo mundo tem que se agachar no banheiro. Não há nada de vergonhoso, depravado ou esquisito em um e outro. Mas o que aconteceria se toda vez que você precisasse “soltar um barro”, tivesse que fazê-lo numa sala de vidro suspensa no meio da Times Square (principal região de NYC), com a bunda de fora?
Mesmo que não tivesse nada de errado ou esquisito com seu corpo - e quantos de nós podem falar isso? - você se sentiria um pouco estranho. Alguns de nós correriam gritando. Alguns de nós prenderiam, até explodir!
Não era sobre fazer algo vergonhoso. Era sobre fazer algo com privacidade. Sobre a sua vida pertencer a você.
Estavam tirando isso de mim, pedaço por pedaço. Quando voltei a minha cela, aquela sensação de merecer isso me voltou. Eu tinha quebrado um monte de regras toda a minha vida e vivia com isso. Talvez isso fosse justiça. Talvez fosse o passado vindo atrás de mim. Afinal, eu estava onde estava por ter fugido da escola.
Eu tinha meu chuveiro. Podia andar pelo pátio. Havia um pedaço de céu acima da minha cabeça e eu sentia os cheiros da área da baía, mas, além disso, não tinha idéia de onde estava sendo mantido preso.
Nenhum dos outros prisioneiros ficava à vista durante meu período de exercício e eu ficava bem aborrecido por andar em círculos. Eu aguçava os ouvidos esperando ouvir algum som que pudesse me ajudar a entender que lugar era esse, mas tudo que conseguia ouvir eram veículos eventuais, alguma conversa distante e um avião pousando perto dali.
Trouxeram-me de volta a cela e me alimentaram, metade de uma pizza de peperoni da Goat Hill Pizza, que eu conhecia bem, lá pros lados de Potrero Hill. A embalagem de papel cartão com os desenhos familiares e o número de telefone para entregas a domicilio era uma lembrança de que apenas um dia atrás eu era um homem livre em um país livre e que agora eu era um prisioneiro. Eu me preocupava constantemente sobre Darryl e aflito com os outros amigos. Talvez eles tivessem sido mais cooperativos e tivessem sido soltos. Talvez tivessem contado aos meus pais, e ele estavam agora por ai, frenéticos, ligando para todo mundo.
Talvez não.
A cela era fantasticamente pequena e vazia como minha alma. Eu fantasiava que a parede oposta ao meu estrado era uma tela e que eu poderia estar hackeando agora mesmo, abrindo a porta da cela. Imaginava que minha bancada e as coisas sobre ela - latas velhas que eu estava trabalhando para criar um som, a fotografia aérea eu estava fazendo de laptop caseiro.
Eu queria sair dali. Queria ir pra casa e encontrar meus amigos, minha escola, meus pais e minha vida de volta. Queria poder ir para onde quisesse e não preso andando de uma parede a outra.
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Eles pegaram as senhas dos meus pendrives USBs em seguida. Dentro deles, havia algumas mensagens interessantes que eu baixei de um grupo de discussão online ou outro, algumas conversas transcritas, coisas que outras pessoas haviam me ajudado em obter o conhecimento para fazer coisas que eu precisava fazer. Nada que você não pudesse encontrar no Google, é claro, mas não acho que poderia contar a meu favor.
Pude exercitar-me de novo naquela tarde, e desta vez haviam outros no pátio quando cheguei lá, quatro sujeitos e duas mulheres, de todas as idades e de todas as raças. Supus que outros também estavam fazendo coisas em troca de ‘privilégios’.
Me deram meia hora e eu tentei conversar com aquele que me pareceu mais normal, um cara negro de cabelo afro curto. Mas quando eu me apresentei e ofereci a mão, ele virou os olhos para as câmeras montadas nos cantos do pátio e continuou andando sem mudar sua expressão facial.
Mas então, pouco antes deles me chamarem de volta ao prédio, a porta abriu e dela saiu Vanessa! Nunca fiquei tão contente em ver uma face amiga. Ela parecia cansada e irritada, mas não ferida e quando me viu, gritou meu nome e correu para mim. Abraçamo-nos com força e eu tremia. Então percebi que ela também.
“Você tá legal?” ela disse segurando os meus braços.
“Tô” respondi. “Eles me disseram que me deixariam ir se eu entregasse minhas senhas.”
“Eles vivem me perguntando sobre você e Darryl.”
Uma voz veio dos alto-falantes gritando para que parássemos de falar, mas nós a ignoramos.
“Responda” eu disse instantaneamente. “Tudo que perguntarem, responda. Se isso for tirar você daqui!”
“Como estão Darryl e Jolu?”
“Não os vi.”
A porta se abriu e quatro guardas grandalhões pularam para fora. Dois me pegaram e dois pegaram Vanessa. Eles forçaram minha cabeça contra o chão e a viraram na direção contrária a Vanessa, mas eu ouvi que ela recebia o mesmo tratamento. Tiras de plástico fecharam-se ao redor dos meus pulsos e fui erguido e arrastado até a minha cela.
Fiquei sem jantar aquela noite. Sem café da manha no dia seguinte. Ninguém veio me levar até a sala de interrogatórios para extrair meus segredos. Não tiraram as algemas de plástico e meus ombros queimavam, então começaram a doer e ficaram dormentes e recomeçaram a queimar. Eu não sentia mais as mãos.
Tinha que urinar. Não podia fazer nas calças. Eu realmente precisava urinar. Muito.
Acabei me urinando.
Eles vieram um pouco depois, quando a urina quente esfriara, fazendo meu jeans já imundo grudar nas pernas. Vieram e me levaram por um corredor longo, com portas, cada porta com seu código de barras, e cada código de barra era um prisioneiro como eu. Ao final do corredor, me deixaram numa sala de interrogatório e era como um planeta diferente, um mundo onde as coisas eram normais, onde tudo não cheirava a urina. Senti-me tão envergonhado e embaraçado e todos estes sentimentos de merecer o que estava tendo voltaram.
A mulher de corte militar já estava lá sentada. Ela era perfeita; cabelo bem cortado e pouca maquiagem. Aquela coisa em seu cabelo cheirava forte. Ela enrugou seu nariz para mim. Senti-me mais envergonhado.
“Bem, você tem sido um garoto bem levado, não? Você é uma coisinha asquerosa, não é?”
Vergonha. Olhei para baixo da mesa. Não conseguiria olhar para cima. Eu queria contar minha senha de email e ir embora.
“O que foi que você e sua amiga conversaram no pátio?”
Eu segurei a risada. “Eu disse a ela para responder as suas perguntas. Disse para ela cooperar.”
“Então você deu ordens para ela?”
Senti o sangue subir. “Ah, por favor! Nós jogamos este jogo juntos, chama-se Harajuku Fun Madness. Eu sou o líder do time. Não somos terroristas, somos estudantes. Eu não dei ordens para ela. Eu disse para ela que precisávamos ser honestos com vocês de maneira que qualquer suspeita fosse eliminada e que pudéssemos sair daqui.”
Era não disse nada por um tempo.
“Como está Darryl?” eu perguntei.
“Quem?”
“Darryl. Vocês nos pegaram juntos. Meu amigo. Alguém o esfaqueou na estação da Powell Street. Era por este motivo que estávamos lá. Para conseguir ajuda para ele.”
“Tenho certeza de que está bem, eu acho” ela disse.
Meu estômago doeu e eu quase vomitei. “Você não sabe? Vocês não estão com ele aqui?”
“Quem nós temos aqui e quem não temos é algo que não iremos nunca discutir com você. Não é algo que você vai saber. Marcus, você já viu o que acontece quando não coopera conosco. Já viu o que acontece quando desobedece nossas ordens. Você tem sido um pouquinho cooperativo, e está quase no ponto onde poderá ser livre de novo. Se quer transformar esta possibilidade em realidade, deverá responder as minhas perguntas.”
Eu não disse nada.
“Você está aprendendo, isso é bom. Agora, as senhas dos seus e-mails, por favor.”
Eu estava pronto para isso. Dei a eles tudo, endereço do servidor, chave e senha. Isso não importava. Eu não guardava emails no servidor. Eu baixava tudo e mantinha no laptop de casa, que baixava e apagava os emails do servidor a cada sessenta segundos. Não pegariam nada nos meus emails - tinham sido limpos do servidor e salvos no meu laptop de casa.
De volta à cela, eles libertaram as minhas mãos e me deixaram tomar um chuveiro e me deram um par de roupas laranja-cadeia para vestir. Eram grandes demais para mim e ficavam caindo da cintura, como um garoto de uma gangue da Missão. Era de onde vinham estas calças tipo baggy que deixavam o rabo de fora. Da prisão. Vou te dizer, não tem nenhuma graça quando não é apenas mais uma moda.
Eles levaram meus jeans e passei o dia na cela. As paredes eram de cimento injetado em malha de aço. Você podia perceber isso por que o aço estava enferrujando devido à brisa marinha e a malha metálica brilhava por baixo da tinta verde em vermelho-alaranjado. Meus pais estavam além daquela janela, em algum lugar.
Eles voltaram a me buscar, no dia seguinte.
‘Estivemos lendo seus emails. Nós mudamos sua senha para que seu computador de casa não possa baixá-las.’
Bem, era claro que sim. Eu faria o mesmo, agora que pensei nisso.
“Temos o bastante sobre você para mantê-lo preso por um longo tempo Marcus. A posse destas coisas” -- ela gesticulou para os meus brinquedinhos -- “e os dados que recuperamos de seu telefone e das memórias, assim como o material subversivo que ,eu não tenho dúvidas, encontraríamos se vasculhássemos sua casa e pegássemos seu computador. É o bastante para deixá-lo fora da ativa até que você fique velho. Entende isso?”
Não acreditei nem por um segundo. Não tinha como um juiz dizer que todas as minhas coisas constituíam um crime de verdade. Era liberdade de expressão, era papo eletrônico. Isso não era crime.
Mas quem disse que estas pessoas me levariam a frente de um juiz?
“Sabemos onde mora, sabemos quem são seus amigos. Sabemos como opera e como pensa.”
Eu me toquei com essa! Iriam me libertar. A sala parecia mais brilhante. Ouvia minha respiração, respiração curta.
“Só queremos saber uma coisa: Que mecanismo foi usado para as bombas na ponte?”
Parei de respirar. A sala escureceu de novo.
“O quê?”
“Havia dez cargas na ponte, ao longo do comprimento. Não foram carros bomba. Estavam colocadas nela. Quem as colocou lá e como chegaram lá?”
“O quê?” eu disse de novo.
“Esta é sua última chance, Marcus.” Ela disse. Parecia triste. “Você estava indo tão bem até agora. Nos diga isso e você poderá ir para casa. Poderá ter um advogado e se defender num tribunal. Existem circunstâncias atenuantes que poderá usar para explicar suas ações. Só precisa nos dizer isso e você poderá ir.”
“Eu não sei do que você está falando!” Eu chorava, mas não me importava. Chorando e fungando. “Eu não tenho idéia do que você está falando!”
Ela balançou a cabeça. “Marcus, por favor. Deixe-nos te ajudar. Você sabe que sempre conseguimos aquilo que queremos.”
Havia um som atrás dentro da minha cabeça. Eles eram loucos. Tentei me recompor e parar de chorar. “Ouça senhora, isso é doideira. Vocês têm as minhas coisas, vocês viram tudo. Sou um estudante de dezessete anos da escola secundária, não um terrorista. Vocês não podem pensar seriamente que...”
“Marcus, você ainda não percebeu a seriedade da coisa ainda?” Ela balançou a cabeça. “Você é mais esperto que isso.” Ela fez um gesto e os guardas me levantaram pelas axilas.
De volta à cela, uma centena de discursos me ocorreu. Os franceses chamavam isso de "esprit d'escalier" (espírito da escada), aquelas respostas brilhantes que só lhe vem quando você já saiu do quarto e está nas escadas. Na minha cabeça, eu dizia a ela que eu era um cidadão que amava minha liberdade, o que me fazia um patriota e dela uma traidora. Na minha cabeça, eu a condenava por transformar meu país em um campo de concentração. Na minha cabeça eu era eloqüente e brilhante e a reduzia a lágrimas. Mas sabe o quê? Nenhuma destas belas palavras me vieram quando eles me pegaram no dia seguinte. Tudo que conseguia pensar era em liberdade. E meus pais.
“Olá, Marcus” ela disse. “Como está se sentindo?”
Olhava para baixo da mesa. Ela tinha na frente dela uma pilha perfeita de documentos, e seu sempre presente copo para viagem da Starbucks. De alguma forma achei isso reconfortante, a lembrança de que havia um mundo de verdade fora dali, atrás das grades.
“Nós acabamos de investigar você, por agora.” Ela disse e deu uma pausa. Talvez quisesse dizer que ela estava me deixando ir. Talvez quisesse dizer que ela me jogaria em um buraco e esqueceria que eu existo.
“E?” Eu perguntei ao fim de um tempo.
“E eu quero deixar claro para você de novo que somos muito sérios a respeito disso. Nosso país experimentou o pior ataque já cometido em nosso solo. Quantos Onze de Setembro teremos que sofrer antes de você aceitar cooperar? Os detalhes de nossa investigação são secretos. Não vamos interromper nossos esforços enquanto não trouxermos os perpetradores destes crimes odiosos à justiça. Você entende isso?”
“Sim.” murmurei.
“Vamos mandar você para casa hoje, mas você é um homem marcado. O que achamos não livra você da suspeita - só estamos te libertando por que terminamos com as perguntas por enquanto. Mas a partir de agora, você nos pertence. Estaremos te observando. Estaremos esperando que cometa um deslize. Entende que nós podemos observar você de perto, o tempo todo?”
“Sim.” murmurei.
“Ótimo. Você nunca falará para ninguém o que aconteceu com você aqui, nunca. É uma questão de segurança nacional. Você sabe que a pena de morte ainda está vigorando em tempos de guerra?”
“Sim.” murmurei.
“Bom garoto.” ela disse baixo. “Temos alguns papeis para você assinar.” Ela me empurrou a pilha de papéis atravessando a mesa até mim. Pequenos post-its onde se lia, “Assine aqui” tinham sido colocados neles. Um guarda retirou minhas algemas.
Eu folheei alguns papéis e meu olhos se encheram de lágrimas. Não conseguia entende-los. Eu tentava decifrar o legalês. Parecia que eu estava assinando uma declaração de que fora voluntariamente detido e submetido voluntariamente a questionamento, por minha própria vontade.
“O que acontece se eu não assinar?” perguntei.
Ela puxou os papéis e fez aquele gesto de novo. Os guardas me levantaram de pé.
“Espere” gritei. “Por favor! Eu vou assiná-los!” Eles me levaram pela porta. Tudo que podia ver era a porta, e tudo que podia pensar era nela se fechando atrás de mim.
Perdi. Chorei. Implorei que me deixassem assinar os papéis. Estar tão perto da liberdade e terem tirado ela de mim me fazia pronto para fazer qualquer coisa. E não podia contar o número de vezes que eu tinha ouvido alguém dizer: “Eu prefiro morrer o que isso ou aquilo” - eu mesmo tinha dito isso várias vezes. Mas agora eu entendia o que queria dizer realmente. Eu preferia morrer a voltar para minha cela.
Eu suplicava enquanto eles me carregavam pelo corredor. Dizia para eles que assinaria qualquer coisa.
Ela então chamou os guardas e eles pararam. Me trouxeram de volta e me sentaram lá. Um deles colocou uma caneta na minha mão.
É claro que eu assinei, assinei e assinei.
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Meus jeans e minha camisa estavam de volta na cela, lavados e passados. Cheiravam a sabão em pó. Eu os vesti e lavei minha cara e sentei no beliche e olhei fixamente para a parede. Tinham tirado tudo de mim. Primeiro minha privacidade, então minha dignidade. Eu estava pronto para assinar qualquer coisa. Eu teria assinado uma confissão dizendo ter assassinado Abraham Lincoln.
Tentei chorar sem conseguir, como se estivesse sem lágrimas.
Eles me pegaram de novo. Um guarda veio com um capuz, como aquele que me colocaram quando me raptaram, ou o que quer que fosse, dias atrás, semanas atrás.
O capuz envolveu minha cabeça e fechou em um aperto na garganta. Estava em escuridão total e o ar era pouco e fedia. Fui colocado de pé e caminhei por corredores, escadas e sobre cascalho. Depois para cima, uma rampa. Para o deque de um barco. Minhas mãos foram amarradas nas costas numa barra. Eu ajoelhei no deque e ouvi o barulho do motor a diesel.
O barco se movia. Um pouco do ar salgado atravessou o capuz.
Chuviscava e minhas roupas ficaram pesadas de água da chuva. Estava do lado de fora, mesmo com a cabeça num saco. Eu estava do lado de fora, no mundo, saboreando a minha liberdade.
Eles vieram e me tiraram do barco deixando-me em solo desconhecido. Subimos escadas de metal e meus pulsos foram soltos. Meu capuz foi removido.
Eu estava de volta ao caminhão. A mulher de cabelo de corte militar estava lá, sentada na mesinha como antes. Tinha um saco fechado a vácuo com ela, e dentro, meu telefone e os outros aparelhos, minha carteira e o dinheiro que estava nos bolsos
Ela os passou para mim, sem falar nada.
Enchi meus bolsos. Me senti tão estranho por ter as coisas de volta em seus lugares familiares, estar vestindo de novo minhas roupas de sempre. Fora do caminhão, pela porta aberta dos fundos, ouvia sons conhecidos da minha cidade.
Um guarda me deu minha mochila. A mulher esticou a mão para mim. Olhei para ela. Ela baixou a mão com um sorriso irônico. Então seus lábios selaram e apontou para mim a porta dos fundos.
Era dia lá fora, cinzento e chuvoso. Olhei em direção da rua e carros, caminhões e motos cruzavam a rua. Parei transfixado no degrau do caminhão, olhando para a liberdade.
Meus joelhos tremeram. Sabia que estavam brincando comigo de novo. Em um instante os guardas iriam me agarrar e jogar-me para dentro, um saco cobriria minha cabeça novamente e eu seria levado para um barco e daí para a prisão novamente, para intermináveis e irrespondíveis perguntas. Eu dificilmente me seguraria e acabaria falando alguma besteira.
Então me forcei a descer um degrau. Outro degrau. E então o último degrau.
Meus tênis fizeram um barulho ao pisar o lixo da rua, vidro partido, uma agulha, cascalho. Dei um passo. Outro. Cheguei ao final da rua e subi na calçada.
Ninguém me agarrou.
Eu estava livre.
Então braços fortes se lançaram ao meu redor. Eu quase chorei.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 4 [ Download ]
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Entrevista com Max Brooks, especialista em zumbis
Max Brooks, escritor e proeminente perito em mortos-vivos, vive em Nova York, mas está pronto para ir para um local mais remoto e defensável a qualquer momento.
Pergunta: Como você foi se interessar por zumbis e onde você fez seus estudos?
Max Brooks: Eu acho que o conceito de zumbis, cadáveres animados com nenhum outro objetivo senão o de devorar carne humana, sempre mexeu comigo. Minha pesquisa se serviu de uma grande variedade de fontes, de viajar para outros países, web, antigos textos esquecidos e de minhas próprias experiências particulares.
Pergunta: Como pode um leigo como eu, distinguir entre um zumbi e um burocrata?
Max Brooks: Simples, um zumbi vai tentar comer você, um burocrata vai tentar estragar o seu dia.
Pergunta: Adorei o livro (Zombie Survival Guide), muito divertido. Você mencionou nele um surto em 1965, em Montana (eu acho), mas não está listado nas seções de focos registrados. Por que?
Max Brooks: Eu coloquei um no topo de cada capítulo, para ilustrar um ponto (armas, defesa, fuga, ataque), mas não incluí-los depois, porque eu simplesmente não queria ser redundante .Fico feliz que tenha gostado do livro. Eu espero que você nunca tenha que usá-lo.
Pergunta: O que os zumbis fazem durante o dia?
Max Brooks: Atacam e matam, assim como a noite. Uma das razões que me assustam tanto é que eles não tem qualquer regulamentação.
Pergunta: Eu acho que qualquer ataque iminente será precedido por algum tipo de música. Para que músicas em especial eu deveria prestar atenção? Agradeço antecipadamente, na esperança de sobreviver, pelo menos o tempo suficiente para ler a sua resposta.
Max Brooks: Eu acho que se o seu rádio começar a tocar muito 'We interupt this broadcast' (Interrompemos esta transmissão - uma banda de rock americana), ou 'this is only a test' (Este é apenas um teste - uma música da banda Pennywise) ou simplesmente estática, é uma boa dica.
Pergunta: Se um Ph.D. e um cara que abandonou a escola, são transformados em zumbis, simultaneamente, o professor irá manter alguma inteligência? Em outras palavras, zumbis têm um QI variável ou é tipo 'modelo único'? Estou apavorada com a idéia de um zumbi me atacar enquanto discute por exemplo, Lacan, Mirror Stage.
Max Brooks: Lamentavelmente os zumbis são completamente desprovidos de inteligência. Se assim fosse, poderíamos comunicar-nos com eles, controlá-los, confundi-los, suborná-los. Infelizmente o cérebro zumbi tem apenas um programa em execução: Comer, comer, comer.
Pergunta: Eu tenho uma serra para trabalhos manuais, uma sandália de salto fino e um cortador de grama (para crianças). Como faço para me proteger?
Max Brooks: Esqueça a serra, tire o salto, jogue o cortador nos zumbis, e saia correndo!
Pergunta: Eu tenho uma Remington 870 calibre 12 na minha casa, carregada com chumbinho. Quantas balas deste tipo são necessárias para derrubar um zumbi em média? Assistindo Evil Dead (e usando o game Doom como guia), você diria que estou preparado contra os mortos-vivos, ou devo também manter algum tipo de água benta ou outras coisas também? Além disso, sou um aluno do primeiro ano de direito da Universidade Duke, é possível matar um zumbi lendo para ele um processo civil?
Max Brooks: O problema com chumbinho é que você vai ter que chegar muito perto para a penetração do crânio. Se você está decidido a furá-lo, eu usaria balas sólidas, um extensor de cano e uma mira laser.
Pergunta: Eu só assisti 28 Days Later. Parece que a resposta britânica a este tipo de invasão zumbi estava toda errada. Como você teria tratado esta situação? Poderia a propagação ter sido eficazmente mais controlada?
Max Brooks: Os zumbis em "28 Days", não eram realmente zumbis (não estavam tecnicamente mortos). Acho que o termo científico para eles é "crazies" (loucos). O bom disso é que eles morrem como seres humanos normais. Atirar-lhes no peito, facadas no coração, atropelá-los com o carro. Ou como no filme, fazendo com que morram de fome, parece ser uma solução muito boa.
Pergunta: Queiramos ou não, a maioria de nós irá precisar entrar em combate corpo a corpo com um zumbi em algum momento de nossas vidas. No entanto, parece não haver consenso quanto a melhor maneira de combater zumbis. George Romero claramente pensa que a resposta é um tiro de espingarda na cabeça, enquanto Lucio Fulci parece acreditar que você só pode derrotar um com o fogo. Qual é a melhor maneira de se eliminar um zumbi?
Max Brooks: Isso é bastante discutido hoje em dia. Pessoalmente eu iria com a solução de Romero. Tenha cuidado com o fogo, porque, como todos sabemos, leva um tempo para queimar um corpo humano até as cinzas. Nesse momento, tudo o que toca um zumbi em chamas poderia se inflamar também. Nunca utilize o fogo se você estiver dentro de casa.
Pergunta: Eu odeio o uso do termo "zumbi" para se referir aos mortos-vivos. Um zumbi é um termo muito específico, utilizado em algumas culturas do Caribe, para se referir a essas pessoas a quem são dadas certas drogas, cerimonialmente enterrados vivos e, em seguida, removidos de seus túmulos (ainda vivos, mas por causa das drogas, acreditando que estão mortos e sem vontade própria) para serem utilizados como escravos. Romero não usa o termo "zumbi" (Fulci sim), ele prefere "morto-vivo". Pessoalmente eu prefiro 'ghoul' (monstro canibal da mitologia árabe antiga), como termo mais preciso para o morto que come a carne dos vivos. Por que acha que 'zumbi' tornou-se o termo mais comum?
Max Brooks: Boa observação. Eu fico relutante também em utilizar este rótulo, culturalmente inadequado. Entretanto, como a maioria tem pouco ou nenhum conhecimento sobre mortos-vivos, o termo "zumbi" ainda é a palavra mais reconhecível. Tenho ouvido muitas teorias sobre por que a palavra ganhou preferência sobre os termos semelhantes, como ghoul ou morto-vivo. Essas teorias vão desde a presença de vodu na América (ainda estaria presente no subconsciente coletivo) ou sua utilização em filmes populares, até o simples fato de que "zumbi" possui um som exótico, de algum modo mais assustador do que "vampiro".
Pergunta: Eu tenho ouvido dizer que zumbis são desprovidos de inteligência, mas tenho visto ocasionalmente provas em contrário. Como você pode, por exemplo, explicar zumbis usando machados ou outros instrumentos? Isto certamente indica alguma inteligência residual na retenção do conhecimento do uso da arma. Você não concorda?
Max Brooks: Eu tenho ouvido também, mas não estou certo de que eu acredito. Isso não significa que eu desconsidero tais informações.
Pergunta: Você pode esclarecer as diferenças entre zumbi, fantasma, vampiro e ghoul - termos diferentes para os mortos-vivos. Eu acredito que eles variam, pelo menos, em termos de estilo de vida e preferências culinárias. Além disso, na tradição da Europa Oriental, temos alguns mortos-vivos, especialmente os vampiros, devido a falta de uma alma, seus corpos não podem entrar em um cemitério cristão (porque a terra sagrada os rejeita). Obrigado e Feliz Dia das Bruxas.
Max Brooks: Esta é uma questão complicada. Acho que devemos ser mais precisos para melhor ilustrar as diferenças entre os mortos-vivos. Os zumbis que abordo no meu livro são corpos humanos que foram reanimados por um vírus, não têm inteligência para falar e andam a procura de carne humana para se alimentar. Estes zumbis não morrem, não por algum tempo, pois a natureza tóxica do vírus repele a maioria das bactérias (incluindo aquelas que ajudam na decomposição de seus corpos).
Pergunta: Você acha que devemos ter em casa kits contra zumbis? Se assim for, o que devem ter esses kits?
Max Brooks: Sim, definitivamente. Ter um kit é obrigatório para todos os lares. Meu livro contém listas de vários kits (defesa, fuga, ataque). Um kit básico de sobrevivência zumbi pode ser encontrado na Amazon com dez itens que você precisa. Acho que a coisa mais importante a lembrar é, não economize nos detalhes. Ter sempre uma garrafa de água a mão (zumbis não desidratam, mas você sim!), E se você está fugindo em terreno molhado, frio, tenha sempre meias secas extras (mais uma vez, os zumbis não sentem frio nos pés, mas você talvez sinta).
Pergunta: Qual peça de literatura mencionou os zumbis pela primeira vez? Como o conceito de zumbis mudou ao longo do tempo?
Max Brooks: Cada cultura tem sua própria versão dos mortos voltando à vida. O zumbi clássico que conhecemos hoje (cadáveres saindo da sepultura para comer carne humana) surgiu pela primeira vez para o público, com George A. Romero em "Night Of The Living Dead". Desde então, a cultura pop-zumbi transformou-se de muitas formas. Você sabe, tem "Os comedores de cérebros", "Zombie Dogs (de Resident Evil)", "Crimson Heads". Eu mesmo ouvi falar de um filme que tem aves zumbis, embora eu não tenha visto ainda.
Pergunta: Se um zumbi é cortado em pedaços, cada uma das partes ainda tenta te pegar ou é o fim? Além disso, eles caçam em bandos ou geralmente por conta própria?
Max Brooks: Dois pontos importantes. Não, as partes de um zumbi não vão voltar a ficar juntas, mas a cabeça, se ainda estiver intacta, continuará a olhar para você e deve ser destruída. Além disso, o corpo do zumbi deve ser enterrado ou incinerado, assim como qualquer carne podre, seja de humanos, zumbis ou outros. É um sério risco a saúde.
Pergunta: Além de escrever este livro, o que mais você está fazendo para passar sua mensagem? Você já falou com o Presidente? A ONU?
Max Brooks: Eu tenho tentado, mas por alguma razão, a Casa Branca e a ONU não retornam minhas chamadas. Eu estou fazendo uma turnê de palestras em várias universidades americanas e parece estar indo tudo bem entre os estudantes.
Pergunta: Notei em seu site - muito informativo - um facão e uma carabina M1. Seriam estas sugestões ou apenas é desinformação do marketing da Random House? Penso que uma arma com um projétil mais potente (por exemplo: a Remington 870 ou a excelente Flammenwerfer) e ter por perto um bastão de basebol ou uma pá de coveiro, seriam instrumentos muito mais apropriados.
Max Brooks: Eu acredito que tanto o facão e a carabina M1 podem ser excelentes armas anti-zumbi. A carabina M1 é claro, precisa que esteja muito perto (se um zumbi está mais longe do que 100 metros, não é uma ameaça). Eu acho o facão apropriado, por razões semelhantes. É leve, forte, fácil de manusear, e o mais importante, quando for comprar um, você saberá que está pronto, ao contrário de uma espada samurai, que pode ser apenas para decoração.
Pergunta: Max, estou ansioso para ler seu livro. Entretanto estou surpreso que ninguém parece ter mencionado o método de defesa usando moto-serra (a la Bruce Campbell em Evil Dead). Você considera esta uma arma eficaz? E também, o que você recomenda quanto a ter armas em quartos de crianças menores de 6 anos?
Max Brooks: Eu tenho perguntado muito sobre a serra, e minha resposta padrão é essa: Não usá-la! A moto-serra é pesada, perigosa para o usuário, e precisa de combustível ilimitado. Há um monte de armas boas por aí.
Pergunta: O quanto forte/ágil são os zumbis? Nos filmes parecem não serem ágeis, embora a maioria parece razoavelmente forte. Parece que mesmo se a sua agilidade for pouca e sua força for normal, eles realmente não representam uma grande ameaça.
Max Brooks: Você tem razão, os zumbis são tão fortes como nós e muito menos ágeis. No entanto, eles não se cansam. Isto é importante porque eles são capazes de executar uma tarefa, digamos, batendo em uma porta, até que a porta se desfaça.
Pergunta: Eu nunca tive medo de zumbis, especialmente quando comparados com outras espécies de mortos-vivos. Na verdade, tampas de bueiro explodindo me assustam mais. Zumbis parecem lentos e pouco inteligentes. Posso estar subestimando o perigo e acabar tendo uma surpresa desagradável? Devo proteger meu cubículo?
Max Brooks: Muitos zumbis não parecem assustadores e naturalmente é um dos maiores problemas. Eles são lentos, eles são "burros", eles não aparecem uma grande ameaça. Precisam apenas que você tenha esta 'sensação de segurança'. Pense nisso como a tartaruga e a lebre, só que nesta história, a lebre pode ser comida viva pela tartaruga.
Pergunta: O que você sabe sobre possíveis aplicações militares para os zumbis? Parece que eles poderiam ser alternativas práticas (já que estão mortos, ou mortos-vivos, ou o que for) para alguns dos cenários de guerra atuais. Podem os zumbis servirem como soldados?
Max Brooks: Como cidadão não estou a par de informações sobre o uso militar de zumbis ou o vírus zumbi. No entanto, se há alguma coisa neste mundo que possa ser utilizado para ameaçar a humanidade, pode ser que, em algum lugar, alguém esteja tentando transformá-lo em uma arma.
Pergunta: Existe algum tipo de inoculação que eu possa começar agora mesmo a usar para me proteger das bactérias, e me prevenir de me transformar em um zumbi depois que eu morrer?
Max Brooks: Infelizmente não. Não há cura conhecida para o vírus zumbi. A melhor defesa é evitar todo o contato possível.
Pergunta: Eu pensei que zumbis só comessem cérebros, mas você disse carne humana.Huh?
Max Brooks: Eu sempre acreditei que zumbis comessem carne humana. Talvez eles comam cérebros, bem, talvez até mesmo uma outra parte do corpo humano. Não obstante, se um zumbi vem me atacar, assim com a boca aberta, ele vai atacar para baixo.
Pergunta: Alguma chance das tempestades solares que agora estão bombardeando o planeta Terra, façam com que os mortos se levantem de seus lugares de repouso e procurem carne viva? Talvez amanhã à noite?
Max Brooks: Essa é uma pergunta interessante, e achei bastante assustadora. Obrigado pela falta de sono à noite.
Pergunta: Vou soldar barras em todas as janelas do meu Ford Escursion, colocar armas nos buracos, um arado de neve espetado na frente do carro, e estou trabalhando em um mecanismo de lâminas giratórias que vão sair do carro para cortar zumbis abaixo dos joelhos quando atravessar uma turba errante de mortos-vivos. Mas aqui fica a minha pergunta: Estou pensando em cortar um buraco no teto e instalar uma tampa articulada e montar um lança-chamas lá em cima. Mas com todos os incêndios que estão acontecendo na Califórnia, estou preocupado que com o vento, acabe fazendo mais mal do que bem. Se eu for contra uma multidão de zumbis famintos por carne humana, e usar o lança-chamas sobre eles, eu vou apenas estar criando um enxame de fogo errante? Quanto tempo pode um zumbi em chamas vagar por ai, antes de desmoronar?
Max Brooks: Você respondeu sua própria pergunta. Sim, o fogo é um aliado perigoso. No entanto, cortar um furo na parte superior do seu veículo, é sempre uma boa idéia. Se você sofrer um acidente, ou estiver preso no carro, você sempre pode escapar pelo teto.
Pergunta: Eu chamo as pessoas que não concordam comigo de zumbis, posso estar certo afinal?
Max Brooks: Enquanto você não atacá-los com um facão, sinta-se livre para discordar tanto quanto você quiser.
Pergunta: Tenho certeza que há algumas pessoas no meu trabalho que posso contar para apoiar-me quando ocorrer um ataque de zumbis. É uma equipe forte. Quanto aos outros... seria errado usá-los para criar uma distração?
Max Brooks: Eu sempre digo 'Se organize antes que seja tarde!' A razão pela qual os seres humanos tenham passado a uma posição dominante sobre o planeta, é a nossa capacidade de cooperar. Tente não enfrentar zumbis sozinho. Conte com a ajuda de um amigo, comece um grupo de sobrevivência-zumbi. Faça reuniões periódicas, delegue responsabilidades. Uma equipe forte, de 5 de seres humanos, dá conta de mais de um milhão de zumbis desorganizados.
Pergunta: Vou fazer uma pergunta genérica. Como você conseguiu as ideias para este livro? O tema é ótimo e interessante. Uma pergunta agora sobre protecção contra zumbis... O Dia das bruxas é o dia certo para os zumbis sairem?" E como posso identificar um? Obrigado.
Max Brooks: Esta é a época do ano mais perigosa, pois pessoas podem ser confundidas com zumbis. Vamos ter cuidado lá fora, pessoal. Se você ver alguém tropeçando e gemendo, e sentir um cheiro desagradável, e talvez até mesmo tentando morder alguém, pode não ser um zumbi. Pode ser apenas um bêbado tentando chegar em casa.
Pergunta: Por que o jornal Washington Post insiste em enfiar todos os relatos de ataques de zumbis na última página, quando claramente a necessidade de estar preparado é tão óbvia? O interesse deles é manter-nos desinformados sobre zumbis?
Max Brooks: Eu sempre disse, o primeiro dever de qualquer governo é a preservação da Lei e da Ordem. Imagine com o que o nosso governo vai ter que lidar se admitirem os zumbis lá fora... Eu certamente não quero ter que pagar um imposto-zumbi, para manter-me seguro, quando nós, como cidadãos, podemos fazê-lo por conta própria.
Pergunta: Existem atualmente celebridades zumbis que nós simplesmente não reconhecemos como mortos-vivos?
Max Brooks: Eles podem não ser zumbis, mas isso não significa que são humanos.
Pergunta: Muito engraçado. Você está brincando, certo?
Max Brooks: Ria agora, sobreviva mais tarde! Obrigado a todos pelas perguntas. Eu gostaria de ter mais tempo para responder a todas elas. Você pode escrever para mim, zombiesurvivalguide.com. Se organizem antes que seja tarde!
Washingtonpost.com - outubro/2003
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