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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
domingo, 20 de setembro de 2009
Uma avalanche de invenções - Entrevista com Walter Jon Williams
Walter Jon Williams vive no Novo México,e é autor de mais de 20 livros.
Ele acumula indicações para prêmios Nebula, Hugo e Philip K. Dick, embora não tenha sido ainda honrado com um. Seu estilo é influenciado pelo trabalho de Roger Zelazny, pela sua hábil mistura de ficção científica tradicional e fantasia contemporânea.
Pergunta: Muitos fãs e críticos concordam que ciberpunk revitalizou a FC durante a década de 1980, mas você acha que isso ainda tem qualquer relevância hoje?
WJW: Acho que o ciberpunk evoluiu. As pessoas tinham a idéia em um certo ponto, que o ciberpunk era sobre computadores e distopia, mas acho que o ciberpunk foi uma série de estratégias para se pensar o futuro. Mostrou um futuro pós-capitalista saturado pela midia, em que as mudanças tecnológicas vieram através de todos os níveis da sociedade numa velocidade vertiginosa. Uma vez que este é o futuro que realmente temos hoje, não posso ver que ciberpunk possa ser menos relevante do que é agora.
P: Seu romance de 1989, Solip:System está sendo republicado como parte da nova coleção Frankensteins And Foreign Devils. Quão importante é Solip:System como elo entre seus romances Hardwired e Voice of the Whirlwind?
WJW: Infelizmente isto nos leva lamentavelmente para uma questão mundana, de como Voice Of The Whirlwind teve que ser uma sequência de Hardwired. Em primeiro lugar ela foi originalmente escrita como um romance isolado, mas minha editora me perguntou se eu poderia fazer uma sequência. E eu perguntei por quê? Sequências vendem melhor, ela disse.
Isto parecia ser uma razão moralmente justificável para fazer algumas mudanças cosméticas e transformar o romance em uma sequência, mas nunca explicou como um futuro evoluiu para o outro. Depois eu comecei a pensar como é que a mudança ocorreria e Solip:System surgiu.
Então, para retornar, após esta longa digressão à sua pergunta, Solip:System é um recurso valioso se você realmente se importa com o mundo da Hardwired. E se você não se importa, bem, deve ler de qualquer maneira, porque eu acho que é bastante provocante.
P: Seu trabalho ciberpunk é caracterizado por um turbilhão de idéias que às vezes corre o risco de sobrecarregar o enredo. Você se preocupa com este grau extremo de criatividade?
WJW: Leitores de ficção científica provavelmente têm o gene para a novidade, e parecem gostar de uma avalanche de invenções, tanto quanto um escritor gosta de fazê-lo. De qualquer forma, ninguém nunca me disse que meu problema é que tenho ideias demais.
P: A space-opera se apropriou de elementos marítimos para extrapolar aventuras no espaço, apesar da maioria dos astronautas pertencer a Força Aérea, e não a Marinha. Como um escritor de 'ficção náutica' com um dom para a línguagem, porque você acha que esta curiosidade aconteceu com a FC, e porque os termos navais ainda são usados hoje em dia?
WJW: O modelo 'Air Force' funciona bem para caças de batalha de um único assento, ou pequenas tripulações de transporte ou bombardeiros, mas quando você tem uma nave espacial, de verdade, com uma tripulação de 300 ou 1.000 pessoas, sua mente naturalmente começa a olhar para o modelo da vida real, para esse tipo de coisa, e isso é a Marinha. Além disso a Marinha tem o conjunto inteiro pronto, tradição, valores, belos uniformes, e o vocabulário perfeito para as peças do navio que, quando implementado por um autor, faz parecer que ele sabe o que está falando.
Gostaria de salientar que eu tentei excluir o que pude disto em Praxis. Porque eu não podia pensar em nenhuma razão para que uma raça de conquistadores alienígenas devessem incorporar as tradições da Marinha Real. Mas o idioma naval é tão intenso que muito dele se entranhou no livro, apesar dos meus esforços.
P: As características de Praxis são emocionantes, batalhas espaciais na velocidade sub-luz usando mísseis guiados. Como você planeja essas batalhas? Será que a matemática e a física envolvidas (em cálculos de aceleração e desaceleração) sempre causam problemas na história?
WJW: Tenho mapas. Tenho gráficos mostrando quanto tempo leva para acelerar de x para y. Tenho páginas rabiscadas de cálculos. Eu conheço peritos que posso chamar de amigos, que fazem ciência muito melhor do que eu jamais poderia. E sim, apesar de tudo isso, a maldita física fica no caminho da história.
Na metade de Praxis comecei a ver porque praticamente todo mundo que escreve esse tipo de coisa, invoca uma coisa chamada Drive Inertialess. Passei muitas horas sonhando com o Drive Inertialess. Depois de um tempo a unidade Inertialess começou a parecer muito erótica. Eu ansiava com todo o meu ser por uma unidade Inertialess. Mas então eu voltei para a danada da física, e fiz o que me disseram para fazer.
P: Sua história, Elegy For Angels And Dogs foi uma seqüência de The Graveyard Heart de Roger Zelazny, e seus romances Knight e Aristoi têm sido descritos como 'Zelaznyesque'. O que o atraiu para o trabalho de Zelazny, e quais são suas outras influências literárias?
WJW: Eu cresci lendo a New Wave dos anos 60, Zelazny e Delany e Le Guin e Moorcock e Russ e Disch. Acho que Roger se destacou por sua voz única, coloquial e norte-americano, ele era um poeta que sabia quando não usar palavras. Sem dúvida, eu absorvi boa parte disso lendo-o. Eu não tinha a intenção de que meu trabalho fosse ser especificamente Zelaznyesque, mas duvido que eu algum dia vou me cansar de elogiá-lo.
P: Seu livro Metropolitan apresenta-nos a uma explicação aparentemente racional para a magia, explorando a ideia da fantasia em termos de ficção científica, com grande convicção e plausibilidade. Você acha que os rótulos podem ser ofensivos, especialmente se são aplicados aos seus livros?
WJW: Rótulos são úteis apenas na medida em que o ajuda a encontrar uma audiência. Nos demais casos, não são ofensivos, mas sim opressivos, uma advertência constante que deve ficar dentro das linhas. Metropolitana e City On Fire foi um esforço para me livrar desta coisa de gêneros, de uma maneira diferente. Tanto quanto eu posso ver, a maioria das pessoas os lê como FC e não percebe isso.
P: Quão importante são os temas de horror (real ou imaginário) para a FC e a Fantasia?
WJW: O horror não funciona comigo. Eu não tenho medo de lobisomens ou vampiros ou hotéis assombrados, eu estou com medo do que seres humanos reais podem fazer com outros seres humanos reais. A FC absorve todas as influências literárias, e absorve o horror também, e produziu algumas histórias absolutamente arrepiantes ao longo dos anos, Darker than you think de Jack Williamson, Sandking de George RR Martin. Quando eu me exponho a fazer horror, como em Erogenoscape ou Solip:System, foram histórias que me arrastaram para lá e todas se encaixam na categoria "seres humanos contra outros seres humanos".
Talvez o horror não seja um dos tópicos principais da Ficção Científica, já que uma história de FC na maioria não é de toda terrível, mas ele está lá o tempo todo.
P: Há uma notável pitada de humor irônico em seu trabalho, especialmente no que diz respeito a algumas das suas personagens femininas. Você acha que estas partes hilariantes, são muitas vezes as partes mais fáceis de escrever?
WJW: Muito fácil, eu receio. Eu procuro reprimir minha tendência natural, procuro evitar que todos os diálogos não acabem em piadas.
P: Você cresceu no Reino Unido. Você é um fã da FC britânica? Você tem algum autor favorito não-americano?
WJW: Na verdade eu cresci nos Estados Unidos. Eu estava bem grandinho quando freqüentei a escola na Grã-Bretanha. Cresci lendo FC inglesa, na maioria Moorcock, Roberts, Aldiss, Ballard, Brunner, e pessoas como Sladek e Disch, que se não foram tecnicamente ingleses, certamente pareciam ser britânicos na época. Eu continuo a ler todos estes escritores. Escritores novos como Ken MacLeod e Miéville China são descobertas fantásticas.
P: Como um autor de ficção científica, qual a importância de manter uma presença online, com o seu próprio site e com histórias disponíveis para download e para comprar? É principalmente para a publicidade, ou (para escritores de FC, principalmente) existe um elemento de credibilidade envolvido?
WJW: A credibilidade está nos livros, ou não, e é aí que reside a minha atenção. A Internet oferece uma combinação interessante de publicidade e comunidade - participar de uma comunidade pode tornar-se uma propaganda de si mesmo.
Infelizmente o tempo disponível para a auto-propaganda é inexistente. Eu não sei como é possível escrever e passar horas publicando ensaios longos e participando de bate-papo, e se alguém tem o segredo, eu gostaria que me contasse.
P: O que você pode nos contar sobre seu romance de Star Wars, Way Destiny's? Você achou que trabalham neste meio já estabelecido impediu a sua criatividade, especialmente no que diz respeito à continuidade?
WJW: Eu sabia que este projeto seria um esforço colaborativo, e que eu não ia ter a última palavra. Esta situação não era totalmente estranha para mim, pois eu também já fiz filmes e programas de televisão, e estes são os meios de comunicação em que o escritor tem muito pouco a dizer como as coisas devem ser. Não tenho nenhum problema com essa situação, se as regras são claras.
Apesar de todos os motivos mercenários, no entanto, eu não teria feito o projeto, se não achasse que eu tinha algo a contribuir.
P: Você tem algum conselho para os novos escritores?
WJW: A Grande Rede. Preste atenção ao que os editores lhe dizem. E leia tudo. Um autor de ficção científica que lê apenas FC terá pouco com que contribuir, mas alguém com uma ampla experiência, vai saber tornar o jogo mais interessante.
Entrevistado por Christopher Geary (jan/2003)
Walter Jon Williams

Walter Jon Williams (15 de Outubro de 1953) nasceu em Duluth, Minnesota (EUA).
Jon teve seu nome de escritor no início de carreira, ligado ao subgênero da Ficção Científica conhecido como ciberpunk. Muitos de seus livros exploram este universo, principalmente aquele que o tornou conhecido, Hardwired (uma homenagem a Damnation Alley de Roger Zelazny), além do premiado Voice of the Whirlwind.
Contudo, Walter Jon Williams escreve também outros gêneros, com história alternativa ( Wall, Stone, Craft), Fantasia científica (Metropolitan e City on Fire), thriller de ação (The Rift), aventura história ( Privateers e a série Gentleman) e space-opera (a série Dread Empire).
Site de Walter Jon Williams e blog
Walter Jon Williams (Argonautica, Aristoi, City on Fire, Consequences, Daddy's world, Dead Empire's Fall série, Dinosaurs, Flatline, Hardwire, House of Shards, Implied Spaces, Knight moves, Lethe, Logs, Metropolitan, No spot of ground, Prayers on the wind, Send them flowers, Surfacing, The Bob Dylan Solution, The Crown Jewels, The green Leopard Plague, The last ride of german Freddie, The Tang Dinasty Underwater Pyramid, Videostar, Voice of Whirlwind, Wall, stone, craft, Witness, Wolf time, Woundhealer ) [ Download ]
sábado, 19 de setembro de 2009
Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 2 de 6

SEGUNDA PARTE
A neblina se foi.
À esquerda do aterro o horizonte, uma planície acidentada, sem qualquer sinal de vida, mergulhada em sombras verdes. Mas sobre o horizonte, espalhando-se no céu claro, despontava um brilho esmeralda, puro como as cores do arco-íris: a aurora própria da Zona.
E depois a cadeia de montanhas negras sob o sol verde, quebrada em pedaços desiguais.
- Vim até aqui por isso também… disse o Escritor com a voz rouca.
Seu rosto estava verde como o do Professor em silêncio.
- Não olhem para lá, disse o Stalker. Olhem aqui.
O Escritor e o Professor se viram.
À direita do terreno uma planície também acidentada, com postes visíveis à distância e a armação retorcida de uma linha de energia de alta voltagem.
Podia se ver uma estrada entre as montanhas.
Aqui o terreno descreve um arco largo, e é possível ver um comboio que trouxe até ali, há algum tempo atrás, uma unidade de tanques do exército. Mas algo havia acontecido, logo adiante.
A locomotiva e os primeiros vagões haviam descarrilado. Vários vagões estavam atravessados no terreno, os tanques tombados e virados de lado, expondo as lagartas ao ar.
Pelo visto haviam conseguido baixar vários tanques ao terreno e alguns conseguiram chegar quase até a estrada, mas não avançaram muito além, parados entre o terreno e a estrada, em grupos pequenos, com os canhões apontando para direções diversas.
Alguns deles, não se sabe por que, sem as lagartas, outros fundidos ao chão até a altura das torres, outros fechados hermeticamente e outros deixados com as escotilhas abertas.
- Onde estão… as pessoas? Perguntou em voz baixa o Escritor – Havia gente ali.
- Penso a mesma coisa sempre que venho aqui, respondeu o Stalker falando baixo. -Por que eu os vi quando embarcaram na nossa estação de trem, eu era um menino. Na época todos achavam que se tratava de um inimigo que queria nos conquistar. Por isso enviaram estes tanques… estratagemas - cuspiu – Ninguém nunca voltou. Nem uma alma viva. Bom, chega. Nossa direção será aquele poste que se vê ali… - estendeu o braço demonstrando – mas não olhem para o poste. Olhem para seus pés. Já disse e repito. Vocês são uns merdas! Novatos! Sem mim não valem nada, estarão perdidos como coelhos. Por este motivo seguirei atrás, iremos em fila indiana. Mudaremos o cabeça da fila por turnos. Primeiro será o Professor. Indicarei a direção e não se afastem, porque será pior para vocês. Peguem suas mochilas!
O professo se abaixa e joga a mochila ao ombro.
- Professor, a primeira direção será aquela pedra branca. Vê? Vamos andando… ordena o Stalker.
O professor começa a atravessar o terreno primeiro. Depois de uns cinco passos, o Stalker ordena:
- Escritor, é tua vez, siga-o.
E pouco depois ele mesmo o faz.
A manhã esverdeada da Zona havia se diluído com a luz habitual do sol.
Depois de percorer o aterro, agora subiam devagar, em fila única, pela suave encosta de uma colina. A partir dali é possível ver o aterro como a palma da mão. Algo estranho está acontecendo sobre os tanques tombados, parecem jorros de ar quente subindo, sobre este lugar, de tempos em tempos, as luzes iridescentes neles formam um arco-íris brilhante.
Mas eles não olham para lá. O Professor vai na frente e antes de cada etapa, examina suspeitando de onde pisa. O Escritor segue atrás, sem se importar tanto onde pisa.
O Stalker está calado. Seu olhar vai dos pés rápidos e de passos automáticos, acostumados com o lugar, até a nuca do Escritor e da nuca do Professor para a direita do Professor e a esquerda do Professor, e de novo aos seus pés.
O Professor alcança o topo e o Stalker ordena:
- Pare!
O Professor para obediente, mas o Escritor dá outros passos e se volta descontente.
O Stalker está imóvel, de olhos semicerrados e move os dedos da mão estendida como se apalpasse algo no ar.
- O que é? Pergunta com irritação o Escritor.
O Stalker baixa a mão lentamente e se aproxima do Professor. Seu rosto está pleno de tensão e perplexidade.
- Não se movam! Diz com a voz rouca.
O Escritor olha ao redor assustado.
- Não se mova imbecil – ordena o Stalker.
Estão imóveis como estátuas, cercados pelo mato verde, e os arbustos ondulam vagarosamente ao vento e um sol os ilumina gentilmente. Logo o Stalker diz de súbito:
- Acabamos de sair de um mau caminho… vamos andando. Não! Aguardem, vamos fumar um cigarro.
Senta-se de cócoras e retira do bolsinho um maço de cigarros. Tira um com os lábios e oferece-a para o Professor, que se põe ao seu lado. O Escritor pergunta com irritação:
- Bem, posso ao menos ficar com vocês?
- Sim. Responde o Stalker. - Pode se aproximar. Sua voz endurece – O que foi que eu te disse?
O Escritor se detém na metade do caminho.
- O que foi que eu te disse desgraçado? Eu disse ‘Pare’ e você seguiu andando, e eu disse ‘Não se mova’ e você se moveu. Assim ele não vai chegar ao final, diz o Stalker ao Professor.
- O que posso fazer? Sou lento para reagir, queixou-se lamentando o Escritor – Me dê um cigarro, por favor…
- Se tem problemas devia ter ficado em casa, disse o Stalker tirando do bolso um punhado de porcas de diversos tamanhos. Começa a “tatear” o caminho.
Atira a porca adiante dele. Para. Vai até onde a porca caiu. Joga outra. E assim vai, de uma porca até outra. Chama o Professor.
- Venha. Parece que saímos do caminho.
Avançam com passos de passarinho. O professor, depois o Escritor e o Stalker.
O sol está no alto e no céu não há uma nuvem sequer.
À esquerda um aclive, à direita um açude cheio de água negra parada.
Um silêncio profundo, não se ouvem pássaros nem insetos, apenas o som da vegetação sob os pés. Poucos passos depois o Escritor começa a cantar uma musiqueta. Dá alguns passos, se agacha, pega uma varinha e com ela começa a golpear a perna da calça.
O Stalker observa sério suas ações. E quando o Escritor põe-se a quebrar com a vareta as florezinhas à direita e à esquerda, o Stalker tira do bolsinho uma tarraxa e com boa pontaria acerta a nuca do escritor. Um repentino grito interrompe sua musiqueta alegre.
Ele leva as mãos à cabeça e se senta de cócoras, encolhendo-se. O Stalker para a seu lado.
- É assim que vai ser, diz. – Não temos tempo para reclamações… Não fez nas calças, fez?
O escritor se endireita lentamente.
- O que foi que eu fiz de errado? Pergunta assustado, apalpando a nuca.
- Quis te mostrar o que vai lhe acontecer se continuar agindo assim na Zona – explica o Stalker – Você é um suicida.
- Está bem, está bem, responde o Escritor umedecendo os lábios com a língua. – Eu entendi.
Atravessam um terreno baldio. Brilham vidraças quebradas, um chaleira velha, uma boneca com as pernas arrancadas, trapos, montes de latas de conservas oxidadas.
O Escritor vai na frente, tem o rosto tenso e uma expressão malévola.
Chegam a uma vala enorme. Dentro, o corpo desinflado de um balão para defesa antiaérea. Seguem pisando com cuidado a superfície que cede abaixo dos pés, e logo o Escritor solta um grito, parecido mais com o grasnado de um corvo, e se detém.
E começa a ensopar. O liquido brota de seu corpo atravessando a roupa, goteja pela cara, dos dedos esticados jorram esguichos, e os cabelos se agarrando ao rosto e bochechas e depois começam a escorrer pelo peito e ombros.
- Calma pessoal – diz o Stalker – Nos pegaram! Pro chão – grita para o Escritor – Jogue-se ao chão! E você também Professor! Pro chão!
O Stalker e o Professor agora estão deitados, mas o Escritor não. Câimbras estremecem seu corpo. Mas logo tudo cessa inesperadamente. O liquido vai secando a olhos vistos. O Escritor está tão seco quanto antes, a não ser por tufos de seu próprio cabelo que estão por sobre ele.
Ele desfalece e tomba de costas.
O Stalker e o Professor se levantam e cautelosamente vão até o Escritor.
- Não é nada, não é nada – diz o Stalker. – Logo ele vai se levantar. Mas para falar a verdade, o maldito teve sorte… Aqui mesmo, pessoas boas tiveram os olhos arrancados, e ele não perdeu mais do que cabelo… Está bem, levante-se, levante-se… saia do chão!
O Escritor se põe de pé com dificuldade. Apalpa a cabeça e olha os cabelos em suas mãos.
- Vamos – diz o Stalker. – Não vai poder contá-los mesmo. Professor, siga na frente!
Entram por debaixo de uma rede de camuflagem apodrecida pelo tempo.
Percebe-se que ali haviam, em outros tempos, nichos para metralhadoras. Vêem caixas de munição, metralhadoras fundidas com o terreno, capacetes e antigas máscaras cobertas de areia.
- Vamos fazer uma parada – anuncia o Stalker.
Todos permanecem de pé, imóveis. O silêncio os envolve e apenas o vento sibila num jornal sujo e rasgado, que se enrolou na perna do Professor.
- Esperem – diz o Escritor – Não sei o que há com minhas pernas… não funcionam.
- O que foi? Pergunta o Professor sem se virar.
O escritor solta uma risada nervosa e diz:
- Não sei… já passou, graças a Deus – e olhando para os lados grunhe – Que lugar infeliz!
Acomodam-se à sombra da rede. O Stalker derrama bebida nos copos de cada um. Eles bebem.
- Está com fome Professor? Pergunta o Escritor mordendo com asco um ovo cozido.
- Para falar a verdade, não estou bem – responde o outro.
- Uma cerveja cairia bem – suspira o Escritor. - Bem gelada! Minha garganta está seca.
O Stalker serve mais uma dose para cada um. O Professor pergunta apreensivo:
- Ficaremos muito tempo aqui?
- Não sei - o Stalker responde sombrio.
- O que diz o mapa?
- O que poderia dizer um mapa? E para que serve um? Não há escala. É verdade que o Raposa retornou em dois dias, mas era o Raposa.
- Quem é o Raposa? Pergunta o Escritor.
O Stalker sorri dissimulado, acende vagarosamente um cigarro.
- O Raposa, meu amigo, não era como nós. Ele começou nos primeiros dias, me trouxe até aqui quando eu cresci. Era um grande homem. Um que…
- E por que era? Perguntou o Escritor – Ele…?
- Sim, isso mesmo que está pensando. Ele saia com um ou dois e voltava sozinho. Vocês tinham que ter ido com ele... -riu de modo desagradável olhando para o Professor e o Escritor – Mas chegariam até aqui com ele também. Bom – interrompe-se – Façam o que quiserem, que eu vou tirar uma soneca. Só não façam barulho... e nem pensem em sair andando por aí...
O Stalker se preparou para dormir, colocando a cabeça sobre a mochila.
O Professor e o Escritor se recostaram contra o declive argiloso. Fumam e conversam.
- E o que aconteceu com este sujeito, o Raposa? Perguntou o Escritor.
- Foi o único que chegou ao centro da Zona e retornou – respondeu o Professor - Voltou e dois dias depois estava rico... fabulosamente rico. O Professor calou-se.
- E o que mais?
- Uma semana depois ele se enforcou.
- Por quê?
O Professor fez que não sabia com os ombros.
- Um caso pouco comum. Pensei que poderíamos ir ao tal lugar com o nosso Stalker. Ele foi ver o Raposa e o encontrou pendurado pelo pescoço. Numa mesa havia um mapa e um bilhete de despedida, desejando-lhe sorte.
- E o nosso guia não teria lhe...?
- Sim, pode ser, assentiu o Professor.
Fumaram calados por um momento.
- E o que lhe parece Professor? Será verdade que este lugar existe? O lugar onde os desejos se realizam?
- O Raposa ficou rico. Toda sua vida ele sonhou em ser rico.
- E se enforcou.
- Mas você tem certeza que ele queria mesmo a riqueza, o Raposa? Por isso pergunto, para que alguém iria querer ir até a Zona? O que acontece é que a gente nunca sabe realmente o que deseja. É complicado. A cabeça quer uma coisa, a medula outra e a alma outra ainda. É um problema sem solução. Em todo caso, estou aqui por um motivo intimo, compreende? Um desejo intimo.
- Certo – concorda o Escritor – você explicou muito bem. Antes eu disse que vinha até aqui em busca de inspiração. Mentira. Não dou a mínima para a inspiração…
O Professor o olha curioso.
O Escritor continua depois de uma pausa.
- Mesmo que seja verdade, e que busque inspiração… como vou saber chamar aquilo que desejo? E como vou saber se quero aquilo que quero? São coisas incompreensíveis, basta dizer e seu sentido se perde, se dilui. Como uma água viva ao sol. Já viu uma?
O Professor baixa os olhos e passa a observar suas unhas sujas e ruídas.
- Tá bom, tá bom. A propósito, devo dizer-lhe que para você é contraproducente ir até lá…
O escritor concorda hipocritamente.
- Sim claro, sim,… e vou logo dizendo, não sou um cientista… você é diferente! É um cientista de verdade? Então está claro! Trata-se de um experimento… a verdade em última instância. Mas, acredito eu, não existem provas. Tudo pode ter sido inventado por alguém, é o que acha? Tudo isso é uma invenção idiota! Estão enganando a todos nós, mas quem? Não se sabe quem. E para que? Tampouco se sabe…
- Apesar de tudo seria interessante saber quem e por que.
- Não é nada disso! 'Quem e para que’! Para que servem seus conhecimentos? Que consciência poderá ser mais pura? Qual consciência irá doer? A minha? Eu não tenho uma, não tenho nada além de nervos. Quando critico algum canalha, eu sofro. Elogio outro canalha, mais uma ferida. Para eles tanto faz o que eu escrevo. Engolem qualquer coisa. Coloque sua alma e seu coração e eles engolirão também. Tanto faz a porcaria que eu escrevo. Todos, sem exceção, são gente instruída, e tem fome sensorial, e todos ronroneiam ao meu redor, jornalistas, redatores, críticos e damas da sociedade sem fim… mas logo elas se gabam diante dos maridos, que eu me dignei a dormir com elas! E todos exigem, me dá me dá! E eu dou, e sinto asco, faz tempo que deixei de ser um escritor. Que escritor dos infernos sou eu que odeio escrever, se para mim escrever é um martírio, uma ocupação desagradável e vergonhosa, algo como uma dolorosa função fisiológica.
Calou-se subitamente e permaneceu por um pouco com os olhos fechados. Um tique nervoso contraiu a musculatura do seu rosto.
- Antigamente eu achava que eu era necessário para eles – prossegue em voz baixa – Achava que alguém podia se tornar melhor e mais honrado por haver lido meus livros. Mais puro… não sou necessário para coisa alguma! A única coisa que tenho é minha casa. Com piscina. Quando morrer, dois dias depois terão me esquecido e começarão a devorar outro qualquer. Queria fazê-los à minha imagem e semelhança. Mas eles me transformaram à maneira deles. Antes o futuro era só uma repetição do presente, e todas as mudanças se vislumbravam no horizonte. Agora não há mais futuro. Uniu-se ao presente. Mas será que estamos preparados para isso? Eu tentei prepará-los, mas eles não querem se preparar. Tanto faz para eles, não fazem mais do que engolir a tudo.
- Quanta veemência – disse devagar o Professor – muita veemência... você está disposto a salvar a todos, Senhor Escritor!
- Me deixe em paz! Responde o outro sem abrir os olhos.
- Não, não mesmo, isso é muito perigoso, não percebe? Um benfeitor veemente!
O Escritor se senta de frente ao Professor e o encara furioso.
- Quem é perigoso? Quem? Eu quero tranqüilidade, entende? A Paz!
- Entendo! Mas você não vai para o deserto e busca uma vida tranqüila. Você vai para a Zona
O escritor se põe novamente de costas ao barranco e tapa os olhos com as palmas das mãos.
- Ouça, não quero discutir com você! Da discussão nasce a luz... maldita seja!
FIM DA SEGUNDA PARTE
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Do Androids Dream of Eletric Philip K. Dick (ou o andróide perdido de PKD)

Philip Kindred Dick foi trazido de volta ao nosso convívio no corpo de um andróide interativo.
Parece, por si só, o enredo de um conto do próprio PKD.
Uma equipe de roboticistas, cientistas da computação, designers e fãs de Ficção Científica, construiram em um esforço conjunto, um andróide para demonstrações baseado na figura do genial autor de FC.
O projeto foi uma colaboração entre a Hanson Robotics, a Universidade de Memphis e o Robotics Research Institute (ARRI) da Universidade do Texas em Arlington.
O andróide 'Phil', como é chamado por seus criadores, se utiliza de câmeras para visualizar os visitantes e mexe o rosto na direção de quem fala com ele. Ele se utiliza de softwares de reconhecimento e simulação da fala, podendo assim ouvir, interpretar e responder, graças também a inteligência artificial, mantendo assim um diálogo natural com os visitantes.
Um projeto sem precedentes, mesclando alta tecnologia e arte para recriar a persona do autor, através de fatos de sua vida e obra. Ele ainda é capaz de identificar pessoas numa multidão, aumentando ainda mais a sensação de se estar diante de uma criatura inteligente.
Phil ganhou diversos prêmios, chamando a atenção da mídia sobre ele. Desde que deixou os laboratórios, se apresentou em diversos programas de televisão e feiras de tecnologia.
Conhecendo a obra de PKD, torna-se uma escolha óbvia homenagear o autor de FC que mais se preocupou e explorou as diferenças e relações entre homens, androídes, questionando aquilo que verdadeiramente nos torna humanos. Alguns de seus personagens eram andróides que pensavam ser gente e em outros era impossível se dizer quem era quem. Dick sempre foi fascinado pela possibilidade (por vezes assustadora) de máquinas pensantes humanoídes.
O projeto é um tributo a este escritor visionário.
Infelizmente no começo de 2006, durante uma viagem para San Francisco, California, onde o andróide faria uma apresentação especial para os empregados do Google, o andróide foi roubado e se encontra até o momento desaparecido.
(email para contato: pkd@pkdandroid.org)
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Androids, Humanoids and other Science Fiction Monsters

Androids, Humanoids, and Other Science Fiction
Monsters : Science and Soul in Science Fiction Films
1. Introduction
This Is a Book about Science Fiction Film
Assumptions and Methodology
Approaches to Folklore
The Films
Culture vs. Nature: Culture Is Assigning Meaning
Nature in the Cultural Script
Nature, Culture, and Folklore
The Umbilical Cord: Nature, Culture, and Christianity
Sf Soul Defined
2. Dangerous Science
What Is an Sf Movie?
The Sf Hero
The Scientist As Shaman, Superman, and Romantic Genius
The Evolution of the Sf Scientist
Mysterious Science
Sf Science Goals
Scientific Transgressions in Sf Films
A Monster Is Born
3. Meanwhile Back in the Kitchen; or, Women and Science
Female "Nature"
Gendered Science
Woman the Polluter
Stereotypes
Women from the Future and Androgynes
4. Humanoids in the Toolshed
Need Space, Will Travel
Living Things from Outer Space
Organisms Monstrosus
Invaded Minds
Alien Gods
5. In the Belly of the Beast
The Mechanical Landscape: Technologie Moralisée
Sexy Weapons
The Ghost in the Machine
6. Disembodied Brains
7. Docile Bodies
Rossum's Universal Robots
Meanwhile, in the Real World
Robotic Gadgets
Sf Robots: R2D2 to Johnny-5
8. Intrusive Media
Corporate Mind Control
Mediated Mind Control
9. The Dystopia
Bureaucratic Nightmares
Male Supremacy
10. The Human Form Submerged, Beleaguered, and Triumphant
Drugged Docility
Building Bodies
The Body-Beautiful Phenomenon
The Body-Clean Phenomenon
The Body-Perfect/Body-Immortal Phenomenon
11. Have Mind, Seek Soul: The Android's Quest
Deadly Docility
Womb-Envy
Perfect Mates
Soulful Machines
12. Conclusion
Bibliography
Filmography
Index
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terça-feira, 15 de setembro de 2009
Projeto Portal

Terceira edição do projeto de ficção-científica em portais impressos (o primeiro foi Solaris, o segundo Neuromancer) - Stalker.
O objetivo do projeto é aumentar a demanda por ficção-científica no país e tem coordenação de Nelson de Oliveira, autor de Geração 90 (Boitempo), Subsolo Infinito (Cia das letras), Algum Lugar em Parte Alguma (Record) e outros (http://urbanalenda.blogspot.com).
200 leitores formadores de opinião serão escolhidos para ler e resenhar os dez contos de diferentes autores, em sua maioria escritores e artistas já publicados.
No website existem vídeos, releases, resenhas, biografias, notas da imprensa e outras informações do gênero: http://projeto-portal.blogspot.com
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Mangue Negro

O sucesso (mesmo que restrito a festivais) de um filme brasileiro de horror é algo notável e que devia servir como exemplo para muitos artistas e diretores que insistem em comédias populares, de olho nas bilheterias, apelando para romances 'água-com-açucar' estrelados por globais, ao invés de ousar fazendo cinema de verdade.
Mangue Negro (Mud zombies) de 2008, foi dirigido e escrito por Rodrigo Aragão, e é um daqueles filmes que te prendem na cadeira do início ao fim, sem dever nada em qualidade às produções americanas que estamos acustumados.
O filme foi aplaudido de pé pelos festivais que passou, eventos prestigiados como o Montevideo Fantástico, Rojo Sangre de Buenos Aires e o já comentado neste site, SCI-FI London entre outros, arrebatando prêmios e audiências e surpreendendo os apreciadores do gênero ou não.
A história, que se passa obviamente em um mangue situado no Espírito Santo, mostra o dia-a-dia de uma comunidade de pescadores, ameaçada pela poluição que faz desaparecer a vida marinha do local. Dentro desse enredo ecológico, a ficção extrapola e do mangue surgem criaturas que começam a fazer vítimas nos lugarejos.
Um dos melhores títulos do cinema fantástico nacional, graças ao talento e o esforço deste novo diretor.
domingo, 13 de setembro de 2009
Arkady Strugatsky e o roteiro de Stalker

Julho de 1978.
Foram dias realmente terríveis.
A equipe estava entorpecida. Andrei andava sombrio como uma nuvem de chuva. Claro que eu também estava angustiado, pois eu presumidamente atribuia os problemas à má sorte habitual dos irmãos Strugatsky.
Ele (Andrei) entrou no meu quarto, colou-se à parede com as pernas, costas e cabeça - ele era a única pessoa que podia fazê-lo, eu tentei uma vez, mas cai - olhou para o teto e disse enfaticamente:
"Diga-me Arkady, você não está cansado de reescrever seu Piquenique (Roadside Picnic) pela décima vez?"
"Sim". Disse eu com cautela e muita sinceridade.
"Aí está" disse ele e balançou a cabeça gentilmente. "O que você diria se fizermos Stalker em duas partes ?"
Não consegui entender de imediato do que se tratava. Na verdade era muito simples. Ele tentaria conseguir mais dinheiro e filme, e transferir o prazo final para a segunda parte. Deixando para esta, aquilo que foi tirado do roteiro original. Assim seria possível salvar o dia.
"Será que eles permitiriam?" Perguntei quase num sussurro.
Andrei só olhou para mim e se afastou. Soube depois que alguns dias antes, ele havia enviado um pedido e eles, rangendo os dentes, deram a permissão.
"Agora então" disse ele com naturalidade "Volte para o seu Boris em Leningrado, e quero ter o novo roteiro em dez dias. Em duas partes. Não importa o ambiente. Apenas escreva os diálogos e comentários breves. E a coisa mais importante: Stalker deve ser completamente diferente. "
"Como deve ser?" Perguntei surpreso.
"Como vou saber? Mas eu não quero o bandido, como está no seu roteiro."
Suspirei e me recompus. O que eu poderia fazer? Eu não sabia como ele costumava trabalhar com outros autores, mas conosco foi assim. Trouxe um novo roteiro. Ele havia sido discutido no dia anterior.
"Eu não sei... você é o autor, não eu. Vá e revise-o."
Eu gostaria de revisá-lo. Tento pegar o tom e a intenção conforme eu a entendo. Eu suspiro e marcho para a máquina de escrever. Eu vou e reescrevo novamente.
Ele lê e relê por um longo tempo, seu bigode eriçado. Então diz hesitante:
"Bem, pelo menos temos algo para começar...depois podemos reescrever esse diálogo."
É como se eu tivesse um osso atravessado na minha garganta.
"O que você não gosta neste diálogo?"
"Eu não sei, só reeescreva. Apronte-o até amanhã à noite."
Foi assim que nós trabalhamos em um roteiro que há muito tempo foi aceito e aprovado em todos os níveis oficiais.
"Como deve ser Stalker no novo roteiro?"
"Eu não sei, você é o autor, não eu"
Sei. Na verdade eu não conseguia ver nada de errado, mas isso era normal. Mesmo antes de o trabalho começar, tinha ficado claro para meu irmão e eu que, se Tarkovsky comete erros, são erros brilhantes, e valem uma dúzia de decisões corretas de diretores comuns.
Em um súbito impulso perguntei:
"Ouça Andrei, pra que você precisa de ficção científica neste filme? Vamos tirar isso fora."
Ele sorriu como o gato que comeu o papagaio de seu dono.
"Pronto! Você sugeriu isso, não eu! Eu queria fazer isso há tempos, só tinha medo de sugerir achando que você iria se ofender. "
Trabalhando com Andrei (Tarkovsky) no roteiro de Stalker, por Arkady Strugatsky
(trecho publicado em 'Sobre Andrei Tarkovsky, memória e biografia', publicado pela Progress Publishers, Moscou (1990))





































