domingo, 13 de dezembro de 2009
R. A. Lafferty
Raphael Aloysius Lafferty (7 de Novembro de 1914 - 18 de Março de 2002) nasceu em Neola, Iowa (EUA).
Começou a escrever ficção relativamente tarde, aos 43 anos, e o faria por mais 40, parando somente devido a um derrame. Neste intervalo escreveu mais de trinta romances e uma centena de contos. Seu primeiro conto de FC publicado, 'Day of the Glacier'(1960), logo chamou a atenção da crítica, e oito anos depois publicaria seu primeiro livro, 'Past Master'.
Dedicado principalmente a Ficção Científica e Fantasia (também escreveu romances autobiográficos e romances históricos), Lafferty ficou famoso pelo uso incomum da linguagem, e por suas escolhas narrativas inovadoras.Sem almejar a polêmica, sua literatura dividiu opiniões e rompeu barreiras.
Lafferty, que nunca se casou, permaneceu até a aposentadoria trabalhando como engenheiro elétrico, profissão que aprendeu servindo nas forças armadas (durante a Segunda Grande Guerra serviu na Austrália, Nova Guiné e Filipinas) .
Apesar de muitos considerarem seu trabalho 'inqualificável', recebeu diversas indicações para prêmios como o Nebula e o Hugo, chegando a ganhar este último em 1973, com "Eurema's Dam". Em 1990 recebeu o prêmio World Fantasy Lifetime Achievement Award, e em 2002, pela Cordwainer Smith Foundation, o Rediscovery Award.
Esta última honraria veio de encontro ao movimento, a princípio acadêmico, que nos últimos anos tem se voltado ao estudo de sua obra, principalmente de seus romances históricos, fieís à maneira com que a História era tratada na antiguidade.
Dizer que "nunca na FC existiu um escritor como Lafferty" não é apenas uma frase de impacto. Sua obra ajudou a sedimentar um nicho dentro da própria FC, rotulado como 'The Oddball Stylists' (Os estilistas excêntricos), junto com escritores do calibre de Gene Wolfe, Avram Davidson e outros. Em comum, a admiração da crítica especializada e o pouco apelo junto ao público de FC, acostumado a enredos fáceis e de temática rala.
R. A. Lafferty (The primary education of Camiroi, The configuration of North Shore, Coleção de contos (5 livros), Past Master, Sky, Narrow Valley, série Melchisedek, Entire and perfect Chrysolite, Continued on the next rock, Among the hairy earthmen, Salomas del espacio, Novecientas abuelas, Mucho mucho tiempo, Los escaladores, Llegada a Easterwine, Lenta noite del Martes, La maldicion de Eurema, Esta gran carrona, Entra en una lata, En nuestra manzana, El senor del pasado, El hombre que nunca existio, Cielo, Asi burlamos a CarloMagno ) [ Download ]
sábado, 12 de dezembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 7
CAPÍTULO 7
Este capítulo é dedicado a Books of Wonder de Nova Iorque, a mais antiga e maior livraria infantil de Manhattan. Fica a poucas quadras do escritório da Tor Books no Flatiron Building e toda vez que vou conversar com o pessoal da Tor, dou uma xeretada no estoque de novidades da Books of Wonder, em seus livros para crianças usados e raros também. Sou um grande colecionador de edições raras de Alice no País das Maravilhas e a Books of Wonder nunca deixou de me excitar com algumas belas edições limitadas de Alice. Eles têm toneladas de eventos para crianças e uma das mais convidativas atmosferas que já experimentei em uma livraria.
Books of Wonder: 18 West 18th St, New York, NY 10011 USA +1 212 989 3270
Me levaram para fora e para a esquina, onde um carro de polícia sem identificação me esperava. Não era como alguém das vizinhanças levando uma dura num carro de polícia, pensei. Somente policiais dirigiam grandes Crown Victorian agora que a gasolina chegava a sete mangos o galão. E mais, só policiais podiam parar em fila dupla no meio da Van Ness sem serem rebocados pelos operadores predatórios de guinchos que circulavam eternamente, prontos para impingir as regulamentações de trânsito incompreensíveis de São Francisco e arranjar um troco por seqüestrar seu carro.
Este capítulo é dedicado a Books of Wonder de Nova Iorque, a mais antiga e maior livraria infantil de Manhattan. Fica a poucas quadras do escritório da Tor Books no Flatiron Building e toda vez que vou conversar com o pessoal da Tor, dou uma xeretada no estoque de novidades da Books of Wonder, em seus livros para crianças usados e raros também. Sou um grande colecionador de edições raras de Alice no País das Maravilhas e a Books of Wonder nunca deixou de me excitar com algumas belas edições limitadas de Alice. Eles têm toneladas de eventos para crianças e uma das mais convidativas atmosferas que já experimentei em uma livraria.
Books of Wonder: 18 West 18th St, New York, NY 10011 USA +1 212 989 3270
Me levaram para fora e para a esquina, onde um carro de polícia sem identificação me esperava. Não era como alguém das vizinhanças levando uma dura num carro de polícia, pensei. Somente policiais dirigiam grandes Crown Victorian agora que a gasolina chegava a sete mangos o galão. E mais, só policiais podiam parar em fila dupla no meio da Van Ness sem serem rebocados pelos operadores predatórios de guinchos que circulavam eternamente, prontos para impingir as regulamentações de trânsito incompreensíveis de São Francisco e arranjar um troco por seqüestrar seu carro.
O melequento assoou o nariz. Eu estava sentado no banco de trás com ele. Seu parceiro sentara na frente digitando com um dedo um antigo e frágil laptop que parecia ter pertencido a Fred Flintstone.
Melequento olhou de perto minha identificação de novo. “Só queremos fazer algumas perguntas de rotina.”
“Posso ver seus distintivos?” eu disse. Estes caras eram claramente policiais, mas não faria mal a ninguém deixar que soubessem que eu conhecia meus direitos.
O melequento exibiu seu distintivo rapidamente, rápido demais para poder dar uma boa olhada, mas o espinhoso no banco da frente deixou-me dar uma boa olhada no seu. Memorizei o número da sua divisão e os quatro dígitos de seu distintivo. Fácil, 1337 era como os hackers escreviam ‘leet’ ou ‘elite’.
Estavam sendo bastante educados e nenhum dos dois tentava me intimidar daquele jeito que o DHS fez quando eu estava sob custodia.
“Estou sendo preso?”
“Você está momentaneamente detido para que possamos assegurar sua segurança e a segurança do publico em geral.” disse o melequento.
Estavam sendo bastante educados e nenhum dos dois tentava me intimidar daquele jeito que o DHS fez quando eu estava sob custodia.
“Estou sendo preso?”
“Você está momentaneamente detido para que possamos assegurar sua segurança e a segurança do publico em geral.” disse o melequento.
Ele passou minha licença de motorista para o espinhento, que a olhou e lentamente a digitou no computador. Eu o vi cometendo um erro e quase o corrigi, mas achei melhor ficar com a boca fechada.
“Tem algo que queira me contar, Marcus? Eles te chamam de Marc?”
“Marcus está bom.” eu disse. Melequento parecia ser um cara legal. A não ser pela parte de me raptar para o seu carro, é claro.
“Marcus. Alguma coisa que queira nos contar?”
“Como o quê? Estou sendo preso?”
“Você não está sendo preso neste momento’ disse o melequento. ‘Você gostaria de ser?”
“Não.” Eu disse.
“Bom. Estamos olhando você desde que saiu da BART. Seu passe rápido diz que você esteve em um monte de lugares estranhos por várias horas.”
“Tem algo que queira me contar, Marcus? Eles te chamam de Marc?”
“Marcus está bom.” eu disse. Melequento parecia ser um cara legal. A não ser pela parte de me raptar para o seu carro, é claro.
“Marcus. Alguma coisa que queira nos contar?”
“Como o quê? Estou sendo preso?”
“Você não está sendo preso neste momento’ disse o melequento. ‘Você gostaria de ser?”
“Não.” Eu disse.
“Bom. Estamos olhando você desde que saiu da BART. Seu passe rápido diz que você esteve em um monte de lugares estranhos por várias horas.”
Senti algo em meu peito. Não se tratava da Xnet de qualquer maneira, não realmente. Estavam observando meu uso do metrô e querendo saber por que o usara tão tarde. Que estúpido.
“Então vocês seguem todos que saem da estação BART com um histórico de paradas estranhas? Vocês devem ser bem ocupados!”
“Não todo mundo, Marcus. Nós recebemos um alerta quando qualquer um com o perfil de um uso incomum do metrô aparece e isso nos ajuda a avaliar qualquer um que queremos investigar. No seu caso, nos queremos saber por que um garoto aparentemente esperto como você tem um perfil desses?”
“Então vocês seguem todos que saem da estação BART com um histórico de paradas estranhas? Vocês devem ser bem ocupados!”
“Não todo mundo, Marcus. Nós recebemos um alerta quando qualquer um com o perfil de um uso incomum do metrô aparece e isso nos ajuda a avaliar qualquer um que queremos investigar. No seu caso, nos queremos saber por que um garoto aparentemente esperto como você tem um perfil desses?”
Agora eu sabia que não iria para a cadeia. Comecei a ficar com raiva. Estes caras não tinham nada que me espionar - Cristo, a BART não tinha nada que ajudá-los a me espionar. Por que diabos meu passe de metro tinha que ser usado para me apontar como tendo um “padrão de uso não convencional”.
“Acho que eu gostaria de ser preso.” eu disse.
Melequento encostou e ergueu uma sobrancelha para mim.
“Realmente? Com que acusação?”
“Oh, quer dizer que usar o sistema público de trânsito de uma maneira não convencional não é crime?”
Espinhento fechou os olhos e os esfregou com os polegares.
Ele fez um sinal com o dedo para cima.
“Preste atenção, Marcus, estamos do mesmo lado aqui. Usamos este sistema para pegar caras maus. Para pegar terroristas e vendedores de drogas. Talvez você seja um vendedor de drogas. É a melhor maneira de andar pela cidade, um passe rápido anônimo.”
“O que há de errado com o anonimato? Era bom o bastante para Thomas Jefferson. Estou sendo preso?”
“Vamos levá-lo para casa.” Disse espinhento. “Podemos falar com seus pais.”
“Acho que é uma grande idéia. Estou certo que meus pais estão ansiosos em ouvir como os dólares que pagam em impostos estão sendo gastos.”
“Acho que eu gostaria de ser preso.” eu disse.
Melequento encostou e ergueu uma sobrancelha para mim.
“Realmente? Com que acusação?”
“Oh, quer dizer que usar o sistema público de trânsito de uma maneira não convencional não é crime?”
Espinhento fechou os olhos e os esfregou com os polegares.
Ele fez um sinal com o dedo para cima.
“Preste atenção, Marcus, estamos do mesmo lado aqui. Usamos este sistema para pegar caras maus. Para pegar terroristas e vendedores de drogas. Talvez você seja um vendedor de drogas. É a melhor maneira de andar pela cidade, um passe rápido anônimo.”
“O que há de errado com o anonimato? Era bom o bastante para Thomas Jefferson. Estou sendo preso?”
“Vamos levá-lo para casa.” Disse espinhento. “Podemos falar com seus pais.”
“Acho que é uma grande idéia. Estou certo que meus pais estão ansiosos em ouvir como os dólares que pagam em impostos estão sendo gastos.”
Eu tinha longe demais. Melequento que estava quase pegando na maçaneta da porta voltou-se para me encarar, todo HULKficado e com as veias batendo fortes. “Por que não cala a boca agora mesmo, enquanto ainda tem chance? Depois de tudo que aconteceu nestas últimas duas semanas não te mataria cooperar conosco. Sabe o que mais, deveríamos prender você. Poderia passar uma noite ou duas numa cela enquanto seu advogado procura por você. Um monte de coisas pode acontecer neste meio-tempo. Um monte. Você ia gostar disso?”
Eu não disse nada. Estava agindo irrefletidamente, zangado. Agora estava assustado.
“Desculpe.” Eu disse odiando a mim mesmo por dizer isso.
Melequento passou para o banco da frente e Espinhoso colocou o carro em movimento, cruzando a rua 24 e em direção a Potrero Hill. Eles tinham meu endereço da identidade.
Mamãe atendeu a porta depois deles tocarem a campainha, deixou a corrente de segurança. Ela olhou ao redor e me viu e disse “Marcus? Quem são estas pessoas?”
“Polícia” disse o melequento. Mostrou seu distintivo, deixando-a dar uma boa olhada nele - não de relance como tinha feito comigo. “Podemos entrar?”
“Desculpe.” Eu disse odiando a mim mesmo por dizer isso.
Melequento passou para o banco da frente e Espinhoso colocou o carro em movimento, cruzando a rua 24 e em direção a Potrero Hill. Eles tinham meu endereço da identidade.
Mamãe atendeu a porta depois deles tocarem a campainha, deixou a corrente de segurança. Ela olhou ao redor e me viu e disse “Marcus? Quem são estas pessoas?”
“Polícia” disse o melequento. Mostrou seu distintivo, deixando-a dar uma boa olhada nele - não de relance como tinha feito comigo. “Podemos entrar?”
Mamãe fechou a porta, tirou a corrente e deixou-nos entrar. Mamãe deu para nós três um daqueles seus olhares.
“Do que se trata?”
Melequento apontou para mim. “Nós queríamos fazer algumas perguntas para seu filho sobre seus movimentos, mas ele recusou em responder. Nós achamos melhor trazê-lo aqui.”
“Ele está sendo preso?” O sotaque de mamãe começava a aparecer forte. A velha e boa mamãe.
“A senhora é cidadã Americana, madame?” perguntou Espinhento.
Ela lhe deu um olhar que podia arrancar tinta. “Eu garanto que sou” disse com amplo sotaque sulista. “Eu estou sendo presa?”
Os dois tiras trocaram um olhar.
Espinhento falou primeiro.
“Parece que começamos com o pé esquerdo. Nós identificamos seu filho como alguém com um padrão de uso de transporte público não convencional, dentro do novo programa de coerção proativa. Quando o comportamento da pessoal não é comum, ou combina com um perfil suspeito nós investigamos.”
“Espere.” disse mamãe. “Como sabem que meu filho usa o Muni?”
“O passe rápido” disse. “Ele rastreia as viagens.”
“Sei.” disse mamãe cruzando os braços. Cruzar os braços era um péssimo sinal. Tão mal quanto não ter lhes oferecido ainda uma xícara de chá - na terra da minha mãe, era praticamente o mesmo que deixá-los falando pelo buraco de cartas da porta - mas uma vez que ela cruzava os braços, a coisa não terminaria bem para eles. Naquele momento, eu queria sair e lhe comprar um grande buquê de flores.
“Marcus se recusou a nos dizer o porquê de seus movimentos serem daquele jeito.”
“Vocês estão dizendo que meu filho é um terrorista por conta de como ele usa o ônibus?”
“Terroristas não são os únicos sujeitos maus que capturamos deste jeito” disse o espinhento. “Traficantes. garotos de gangues. Até ladrões de lojas espertos o bastante para escolher sempre uma vizinhança diferente para cada roubo.”
“Você pensa que meu filho é um vendedor de drogas?”
“Não estamos dizendo isso...” começou a falar Espinhento. Mamãe bateu as mãos fazendo-o calar-se.
“Marcus, por favor, me dê sua mochila.”
“Do que se trata?”
Melequento apontou para mim. “Nós queríamos fazer algumas perguntas para seu filho sobre seus movimentos, mas ele recusou em responder. Nós achamos melhor trazê-lo aqui.”
“Ele está sendo preso?” O sotaque de mamãe começava a aparecer forte. A velha e boa mamãe.
“A senhora é cidadã Americana, madame?” perguntou Espinhento.
Ela lhe deu um olhar que podia arrancar tinta. “Eu garanto que sou” disse com amplo sotaque sulista. “Eu estou sendo presa?”
Os dois tiras trocaram um olhar.
Espinhento falou primeiro.
“Parece que começamos com o pé esquerdo. Nós identificamos seu filho como alguém com um padrão de uso de transporte público não convencional, dentro do novo programa de coerção proativa. Quando o comportamento da pessoal não é comum, ou combina com um perfil suspeito nós investigamos.”
“Espere.” disse mamãe. “Como sabem que meu filho usa o Muni?”
“O passe rápido” disse. “Ele rastreia as viagens.”
“Sei.” disse mamãe cruzando os braços. Cruzar os braços era um péssimo sinal. Tão mal quanto não ter lhes oferecido ainda uma xícara de chá - na terra da minha mãe, era praticamente o mesmo que deixá-los falando pelo buraco de cartas da porta - mas uma vez que ela cruzava os braços, a coisa não terminaria bem para eles. Naquele momento, eu queria sair e lhe comprar um grande buquê de flores.
“Marcus se recusou a nos dizer o porquê de seus movimentos serem daquele jeito.”
“Vocês estão dizendo que meu filho é um terrorista por conta de como ele usa o ônibus?”
“Terroristas não são os únicos sujeitos maus que capturamos deste jeito” disse o espinhento. “Traficantes. garotos de gangues. Até ladrões de lojas espertos o bastante para escolher sempre uma vizinhança diferente para cada roubo.”
“Você pensa que meu filho é um vendedor de drogas?”
“Não estamos dizendo isso...” começou a falar Espinhento. Mamãe bateu as mãos fazendo-o calar-se.
“Marcus, por favor, me dê sua mochila.”
Eu dei.
Mamãe abriu o zíper e olhou dentro, virando-se de costas para nós primeiro.
“Oficiais, eu posso afirmar agora que não há narcóticos,explosivos ou bugigangas roubadas na mochila do meu filho. Acho que terminamos aqui. Gostaria do número de seus distintivos antes de saírem, por favor.”
Melequento em tom de zombaria respondeu: “Senhora, a ACLU está processando trezentos policiais da polícia de São Francisco, você vai ter que entrar na fila.”
Mamãe abriu o zíper e olhou dentro, virando-se de costas para nós primeiro.
“Oficiais, eu posso afirmar agora que não há narcóticos,explosivos ou bugigangas roubadas na mochila do meu filho. Acho que terminamos aqui. Gostaria do número de seus distintivos antes de saírem, por favor.”
Melequento em tom de zombaria respondeu: “Senhora, a ACLU está processando trezentos policiais da polícia de São Francisco, você vai ter que entrar na fila.”
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Mamãe me fez um copo de chá e então me fez salivar pelo jantar quando soube que ela estava fazendo falafel. Papai chegou e nós ainda estávamos na mesa e mamãe então virou-se para contar a história. Ele balançou a cabeça.
“Lilian, eles estão apenas fazendo o trabalho deles.” Ele vestia ainda o blazer azul e cáqui que vestia nos dias que fazia consultoria no Vale do Silício. “O mundo não é mais o mesmo desde a semana passada.”
Mamãe baixou a xícara. “Drew, você está sendo ridículo. Seu filho não é um terrorista. Seu uso do sistema de transporte público não é causa para uma investigação policial.”
Mamãe baixou a xícara. “Drew, você está sendo ridículo. Seu filho não é um terrorista. Seu uso do sistema de transporte público não é causa para uma investigação policial.”
Papai tirou o blazer. “Nós fazemos isso o tempo todo no trabalho. É como os computadores podem ser usados para encontrar todo tipo de erros, anomalias e resultados. Você pode ao computador para criar um perfil de um registro na média de um banco de dados e pede para que encontre quais registros estão longe da margem. É algo chamado análise Bayesiana e existe há séculos. Sem isso não poderíamos ter filtros de spam...”
“Então você está dizendo que você pensa que a polícia pode agir tão rígida quanto meu filtro de spam?” eu perguntei.
“Então você está dizendo que você pensa que a polícia pode agir tão rígida quanto meu filtro de spam?” eu perguntei.
Papai nunca ficaria bravo comigo por fazer uma pergunta dessas, mas naquela noite eu pude ver que ele estava ficando irritado. Ainda assim, eu não conseguia resistir. Meu próprio pai, ficando do lado da polícia!
“Estou dizendo que é perfeitamente razoável para a polícia conduzir suas investigações começando por data-mining (processo de vasculha de informações escondidas em um banco de dados) e então seguir adiante com trabalho de campo onde um ser humano intervêm para ver o porquê daquela anomalia. Eu não acho que um computador pode dizer para a polícia quem prender, mas ajudá-los a procurar pela agulha no palheiro.”
“Mas eles tirando estes dados do sistema de trânsito eles estão criando o palheiro. É uma gigantesca montanha de dados e quase nada que valha a pena ser visto do ponto de vista da polícia. É uma perda de tempo.” eu disse.
“Eu entendo que você não goste de que este sistema lhe cause alguns inconvenientes, Marcus. Mas você, entre todas as pessoas, deveria entender a gravidade da situação. Ninguém foi ferido, foi? Eles até te deram uma carona para casa.”
“Estou dizendo que é perfeitamente razoável para a polícia conduzir suas investigações começando por data-mining (processo de vasculha de informações escondidas em um banco de dados) e então seguir adiante com trabalho de campo onde um ser humano intervêm para ver o porquê daquela anomalia. Eu não acho que um computador pode dizer para a polícia quem prender, mas ajudá-los a procurar pela agulha no palheiro.”
“Mas eles tirando estes dados do sistema de trânsito eles estão criando o palheiro. É uma gigantesca montanha de dados e quase nada que valha a pena ser visto do ponto de vista da polícia. É uma perda de tempo.” eu disse.
“Eu entendo que você não goste de que este sistema lhe cause alguns inconvenientes, Marcus. Mas você, entre todas as pessoas, deveria entender a gravidade da situação. Ninguém foi ferido, foi? Eles até te deram uma carona para casa.”
Eles me ameaçaram me jogar na cadeia, pensei, mas vi que não havia motivo de contar sobre isso.
“Além do mais, você ainda não nos falou o que diabos você estava fazendo para criar tal padrão não usual de trânsito.”
Isso me trouxe rápido de volta à realidade.
‘Achei que confiava em mim. Você quer mesmo que eu conte cada viagem que fiz?”
“Além do mais, você ainda não nos falou o que diabos você estava fazendo para criar tal padrão não usual de trânsito.”
Isso me trouxe rápido de volta à realidade.
‘Achei que confiava em mim. Você quer mesmo que eu conte cada viagem que fiz?”
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Agarrei meu Xbox assim que cheguei no quarto. Tinha preso o projetor no teto, de maneira que podia projetar na parede sobre minha cama. (Eu havia arrancado meu fantástico mural com adesivos de punk rock que descolara de postes telefônicos e colado em grandes folhas de papel branco.)
Liguei o Xbox e aguardei o surgimento da tela. Eu ia mandar um email para Van e Jolu para contar-lhes sobre o lance com os tiras, mas assim que pus os dedos ao teclado, parei.
Uma sensação de medo me envolveu, não como aquele que tive quando percebi que haviam transformado o pobre e velho Salmagund num traidor. Desta vez, foi a sensação de que minha amada Xnet poderia estar entregando a localização de cada um de seus usuários para a DHS.
Uma sensação de medo me envolveu, não como aquele que tive quando percebi que haviam transformado o pobre e velho Salmagund num traidor. Desta vez, foi a sensação de que minha amada Xnet poderia estar entregando a localização de cada um de seus usuários para a DHS.
Foi o que meu pai havia dito: Você pede para o computador criar um perfil de um registro médio de um banco de dados e então pede a ele que encontre registros no banco de dados que fogem desta média.
O Xnet era seguro por que os usuários não estavam diretamente conectados a internet. Eles pulam de um Xbox para outro, até encontrarem um que esteja conectado a internet, então ele injeta seu material indecifrável de dados criptografados. Ninguém consegue dizer qual dos dados que viajam pela Internet são de um Xnet e quais são de um simples acesso a banco, ou comércio eletrônico ou outro dado criptografado qualquer. Não dá pra descobrir quem está utilizando a Xnet.
Mas e quanto às “estatísticas Bayesianas” de papai? Eu já tinha brincado com matemática bayesiana antes. Darryl e eu já tínhamos tentado escrever nosso próprio e aperfeiçoado filtro contra spam e quando você filtra spam, você precisa de matemática bayesiana. Thomas Bayes tinha sido um matemático inglês do século 18 sobre o qual ninguém ouvira falar, até uns duzentos anos depois de sua morte, quando os cientistas da computação se deram conta que suas técnicas para analisar estatisticamente montanhas de dados eram super úteis para o moderno mundo de info-himalaias.
É assim que a estatística bayesiana funciona. Digamos que você tem um monte de spam. Você pega cada palavra que existe no spam e conta quantas vezes ela aparece. Isso se chama “histograma de freqüência de palavra” e diz qual q probabilidade de qualquer grupo de palavras ser como um spam. Agora, pegue uma tonelada de emails que não são spam - no meio, eles chamam isso de ‘ham’(presunto) - e faça a mesma coisa.
Espere até um novo email chegar e conte as palavras que aparecem nele. Então use o ‘histograma de freqüência de palavra’ naquela mensagem para calcular a probabilidade de pertencer a pilha de spam ou a pilha de ‘ham’ . Se apontar ser um spam, você ajusta o histograma de spam de acordo. Existem várias maneiras de refinar a técnica... olhando por palavras em pares, descartando dados antigos... mas no grosso é como a coisa funciona. É uma destas grandes e simples idéias que parecem obvias depois que você a ouve.
E tem um monte de aplicações - você pode pedir ao computador para contar as linhas de uma imagem e ver se é mais como a linha de freqüência do histograma de um cachorro ou a linha de freqüência do histograma de um gato. Se quiser, pode procurar pornô, fraude bancária, e insultos. Muito útil.
E isso era péssimo para a Xnet. Digamos que você tem toda a internet grampeada - o que era claro que a DHS tinha. Você não pode dizer quem está passando dados Xnet apenas olhando o conteúdo, graças a cripto.
E tem um monte de aplicações - você pode pedir ao computador para contar as linhas de uma imagem e ver se é mais como a linha de freqüência do histograma de um cachorro ou a linha de freqüência do histograma de um gato. Se quiser, pode procurar pornô, fraude bancária, e insultos. Muito útil.
E isso era péssimo para a Xnet. Digamos que você tem toda a internet grampeada - o que era claro que a DHS tinha. Você não pode dizer quem está passando dados Xnet apenas olhando o conteúdo, graças a cripto.
O que você pode descobrir é quem está mandando mais dados criptografados do que os outros. Para alguém usando a Internet normalmente, uma sessão online é provavelmente 95% de texto aberto e 5% de texto cifrado. Se alguém está mandando 95% de texto cifrado, talvez você possa enviar a este computador algo equivalente ao Melequento ou ao Espinhento para perguntar se ele é um terrorista vendedor de drogas usuário de Xnet.
Isso acontece o tempo todo na China. Algum dissidente esperto resolve burlar a Grande Muralha de fogo (trocadilho com Firewall) da China, que é usada para censurar toda conexão com a internet do país, usando de uma conexão criptografada por um computador de outro país. Agora, o Partido lá que não pode dizer o que o dissidente está fazendo, pode ser pornô, instruções para fazer uma bomba, uma carta maliciosa para sua namorada nas Filipinas, material político ou notícias sobre a Cientologia. Eles não têm como saber. Tudo que sabem é que este cara demanda mais tráfego criptografado do que seus vizinhos. Então, eles o mandam para um campo de trabalhos forçados para servir de exemplo para que todos vejam o que acontece com espertinhos.
Até agora, eu estava disposto a apostar que a Xnet estava fora do radar da DHS, mas poderia não ser o caso. Após aquela noite, eu não estava mais certo de estar em melhor situação do que um dissidente chinês. Estava colocando todos os usuários da Xnet em perigo. A lei não quer saber se você está realmente fazendo algo errado, eles te botam debaixo do microscópio apenas por ser estatisticamente fora do normal. E eu nem sequer conseguiria parar com isso - uma vez que a Xnet estava sendo executada por aí, com vida própria.
Eu tinha que dar um jeito nisso.
Eu tinha que dar um jeito nisso.
Desejei poder falar com Darryl sobre isso. Ele tinha trabalhado em um provedor de internet chamado Porco Melancólico que o contratara quando tinha doze anos; ele conhecia mais sobre rede do que eu. Se alguém sabia como livrar nossos traseiros da cadeia, este seria ele.
Por sorte, Van, Jolu e eu planejamos nos encontrar para um café na noite seguinte, após a aula, em nosso local favorito na Missão. Oficialmente, era o ponto de reunião semanal do time de Harajuku Fun Madness, mas com o jogo cancelado e Daryl desaparecido, era mais como um lugar na semana para chorarmos nossas mágoas, suplementando umas seis ligações por dia e alguns IMs. Seria bom ter mais alguém com quem falar a respeito.
Por sorte, Van, Jolu e eu planejamos nos encontrar para um café na noite seguinte, após a aula, em nosso local favorito na Missão. Oficialmente, era o ponto de reunião semanal do time de Harajuku Fun Madness, mas com o jogo cancelado e Daryl desaparecido, era mais como um lugar na semana para chorarmos nossas mágoas, suplementando umas seis ligações por dia e alguns IMs. Seria bom ter mais alguém com quem falar a respeito.
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"Você tá louco!" disse Vanessa. “Você está realmente, totalmente, absurdamente fora de si ou o que?”
Ela tinha vindo em seu uniforme escolar feminino porque não estava a fim de ir até sua casa, lá na ponte San Marteo e voltar para a cidade no serviço de ônibus que sua escola operava. Ela odiava ser vista em publico com aquelas ‘roupitas’, total Sailor Moon - uma saia de pregas, camisa de manga curta e meias até o joelho.
Ela tinha vindo em seu uniforme escolar feminino porque não estava a fim de ir até sua casa, lá na ponte San Marteo e voltar para a cidade no serviço de ônibus que sua escola operava. Ela odiava ser vista em publico com aquelas ‘roupitas’, total Sailor Moon - uma saia de pregas, camisa de manga curta e meias até o joelho.
Ela estava de mau humor desde que chegara ao café, que estava cheio de velhos, maneiros, ‘emos’, estudantes de arte deprimidos, debruçados em seus café-expressos com creme.
“O que você quer que eu faça, Van?” Eu disse. Eu estava ficando exasperado. A escola estava se tornando insuportável agora que o jogo estava fora do ar, agora que Darryl tinha sumido. Durante o dia, na sala de aula, eu me consolava em pensar em encontrar minha gangue, fora dali. Agora nós brigávamos.
“Quero que pare de se colocar em risco, M1k3y.” Os cabelinhos na minha nuca se arrepiaram todos. É claro que a gente sempre usou nossos apelidos nos encontros do time, mas agora ele estava associado ao meu uso da Xnet, me apavorava ouvi-lo ser dito em publico em alto e bom som.
“Não use este nome em público, nunca mais!” eu a repreendi.
“O que você quer que eu faça, Van?” Eu disse. Eu estava ficando exasperado. A escola estava se tornando insuportável agora que o jogo estava fora do ar, agora que Darryl tinha sumido. Durante o dia, na sala de aula, eu me consolava em pensar em encontrar minha gangue, fora dali. Agora nós brigávamos.
“Quero que pare de se colocar em risco, M1k3y.” Os cabelinhos na minha nuca se arrepiaram todos. É claro que a gente sempre usou nossos apelidos nos encontros do time, mas agora ele estava associado ao meu uso da Xnet, me apavorava ouvi-lo ser dito em publico em alto e bom som.
“Não use este nome em público, nunca mais!” eu a repreendi.
Van balançou a cabeça. “É justamente isso que estou dizendo. Você vai acabar na cadeia por isso, Marcus, e não apenas você. Um monte de gente vai junto com você. Depois do que aconteceu com Darryl...”
“Eu estou fazendo isso por Darryl!”
Os estudantes de artes nos olharam e eu baixei minha voz.
“Estou fazendo isso por que a alternativa é deixá-los levar tudo isso embora.”
“Você acha que vai detê-los? Está fora de juízo. Eles são o Governo!”
“Ainda é o nosso país. Nós ainda temos o direito de fazer isso.” Eu disse.
“Eu estou fazendo isso por Darryl!”
Os estudantes de artes nos olharam e eu baixei minha voz.
“Estou fazendo isso por que a alternativa é deixá-los levar tudo isso embora.”
“Você acha que vai detê-los? Está fora de juízo. Eles são o Governo!”
“Ainda é o nosso país. Nós ainda temos o direito de fazer isso.” Eu disse.
Van parecia que ia chorar. Tomou ar e disse: “Não posso fazer isso. Desculpe. Não posso ver você fazendo isso. É como ver uma batida de carro em câmera lenta. Você vai se destruir e eu te amo muito para ficar vendo acontecer.”
Ela se inclinou e me deu um abraço apertado e um beijo seco na bochecha, pegando o canto dos meus lábios. “Se cuida, Marcus.” Minha boca queimava onde seus lábios tinham tocado. Ela deu a Jolu o mesmo tratamento, mas bem no meio da sua bochecha. E saiu.
Jolu e eu nos olhamos depois que ela se foi.
Jolu bateu nas minhas costas e pediu outro café. “Vai ficar tudo bem.” ele disse.
“Eu pensava que Van, mais do que qualquer pessoa, fosse compreender.” Metade da família de Van vivia na Coréia do Norte. Seus pais nunca a deixaram esquecer que haviam todas aquelas pessoas vivendo sob as ordens de um ditador maluco sem poder fugir para a América, como seus pais fizeram.
Jolu sorriu: “Talvez ela esteja tão perturbada assim por saber como isso pode ser perigoso.”
Eu sabia sobre o que ele estava falando. Dois tios de Van tinham desaparecido na cadeia.
“É.” Eu disse.
“Então, como você não entrou na Xnet noite passada?”
Jolu e eu nos olhamos depois que ela se foi.
Jolu bateu nas minhas costas e pediu outro café. “Vai ficar tudo bem.” ele disse.
“Eu pensava que Van, mais do que qualquer pessoa, fosse compreender.” Metade da família de Van vivia na Coréia do Norte. Seus pais nunca a deixaram esquecer que haviam todas aquelas pessoas vivendo sob as ordens de um ditador maluco sem poder fugir para a América, como seus pais fizeram.
Jolu sorriu: “Talvez ela esteja tão perturbada assim por saber como isso pode ser perigoso.”
Eu sabia sobre o que ele estava falando. Dois tios de Van tinham desaparecido na cadeia.
“É.” Eu disse.
“Então, como você não entrou na Xnet noite passada?”
Estava agradecido por mudarmos de assunto. Expliquei tudo para ele, a coisa Bayesiana e do meu temor que não pudéssemos continuar a usar a Xnet e como poderíamos ser pegos. Ele ouviu pensativo.
“Entendo o que você diz. O problema é se ocorrer muita cripto na conexão de alguém, vão achar aquilo anormal. Mas se você não usar a cripto, vai tornar fácil para os caras do mal te grampearem.”
“É isso mesmo. Pensei nisso o dia todo. Talvez a gente possa a conexão mais lenta, distribuir por mais pessoas...”
“Não funciona.” Ele disse. “Se tornarmos lento o bastante para desaparecer no ruído, vamos praticamente inutilizar a rede, o que não é uma opção.”
“Você está certo. Mas o que mais podemos fazer?”
“E se nós mudássemos a definição do que é normal?”
“Entendo o que você diz. O problema é se ocorrer muita cripto na conexão de alguém, vão achar aquilo anormal. Mas se você não usar a cripto, vai tornar fácil para os caras do mal te grampearem.”
“É isso mesmo. Pensei nisso o dia todo. Talvez a gente possa a conexão mais lenta, distribuir por mais pessoas...”
“Não funciona.” Ele disse. “Se tornarmos lento o bastante para desaparecer no ruído, vamos praticamente inutilizar a rede, o que não é uma opção.”
“Você está certo. Mas o que mais podemos fazer?”
“E se nós mudássemos a definição do que é normal?”
E este era o motivo de Jolu ter sido contratado para trabalhar no Porco Melancólico quando tinha 12 anos. Dê para ele um problema com duas soluções ruins e ele encontrava uma terceira totalmente diferente baseada em desprezar todas as suposições. Concordei com veemência.
“Como faremos?”
“O que aconteceria se o usuário médio da internet de São Francisco tivesse mais cripto na sua media diária na internet? Se conseguíssemos dividir algo como meio a meio, entre texto aberto e cifrado, então os usuários de Xnet iriam parecer normais.”
“Mas como fazemos isso? As pessoas não se importam muito com privacidade para surfar pela rede com um link criptografado. Eles não percebem a importância se alguém bisbilhota o que ele está gogglando.”
“Sim, mas páginas da web são bem pequenas dentro do tráfico. E se tivéssemos pessoas baixando rotineiramente arquivos criptografados gigantescos todos os dias? Isso iria criar mais texto cifrado do que milhares de paginas web.”
“Você está falando de indienet.” Eu disse.
“Você sacou.”
“indienet” - em letras minúsculas, sempre - era o que tinha feito o Porco Melancólico, um dos provedores independentes de maior sucesso no mundo. No passado, quando as grandes empresas de disco começaram a processar os fãs por baixarem suas músicas, um monte de selos independentes e seus artistas foram contra. Como você ganha dinheiro processando seus consumidores?
O fundador do Porco Melancólico tinha a solução: ele fez um acordo com aqueles que queriam trabalhar com seus fãs, ao invés de brigar contra eles,.dando ao Porco Melancólico uma licença para distribuir suas músicas aos seus consumidores e eles lhe pagavam por quão popular sua música era. Para um artista independente (indie) o grande problema não é a pirataria, mas a obscuridade - quando ninguém sequer se importa com você o bastante para baixar suas musicas.
E funcionou. Centenas de independentes e produtoras assinaram com a Porco Melancólico e quando mais música eles disponibilizavam, mais fãs trocavam seus provedores par ao serviço da Porco Melancólico e mais dinheiro ia para o artista. Em um ano, ela tinha cem mil novos consumidores e agora tem um milhão - mais da metade das conexões da cidade.
“Uma revisão do código da indienet esteve comigo por meses.” Disse Jolu, “Os programas originais foram escritos rapidamente, com sujeira, e eles podiam ser mais eficientes com um pouco de trabalho. Mas eu nunca tive tempo para isso. Um dos itens prioritários da minha lista de coisas por fazer era criptografar as conexões, por que Trudy queria assim.” Trudy Doo era o fundador da Porco Melancólico. Ela era uma lenda do punk na São Francisco dos velhos tempos, cantora e líder de uma banda anarco-feminista chamada Putas Velozes e era maníaca por privacidade. Eu posso acreditar que ela vai querer seu serviço de musica criptografado.”
“E será difícil? Quero dizer, quanto tempo vai levar?”
“Bem, são toneladas de código criptografado no online gratuito, é claro.” disse Jolu. Ele estava fazendo o que sempre faz quando está remexendo num código cabeludo – ficou com seu olhar distante, batendo a palma das mãos na mesa, fazendo o café transbordar no pires. Eu queria rir - tudo poderia ser destruído e virar lixo e coisa e tal, mas Jolu escreveria o código.
“Posso ajudar?”
Ele olhou para mim. “O quê, tá achando que eu posso fazer isso?”
“O quê?”
“Quer dizer, você fez todo este negocio da Xnet sem falar comigo. pensei que não precisasse de mim.”
“O quê?” Eu disse de novo. Jolu estava me olhando realmente contrariado. Ficou claro que já estava magoado com isso há muito tempo. “Jolu...”
Ele me encarou e pude ver que estava furioso. Como eu não tinha percebido? Deus, que idiota eu sou às vezes. “Olha, camarada, isso não é grande coisa...” dizendo isso ele queria dizer na verdade o contrário. “...sabe como é, você nunca me chamou. Eu odeio o DHS. Darryl era meu amigo também. Eu podia ter te ajudado.”
“Como faremos?”
“O que aconteceria se o usuário médio da internet de São Francisco tivesse mais cripto na sua media diária na internet? Se conseguíssemos dividir algo como meio a meio, entre texto aberto e cifrado, então os usuários de Xnet iriam parecer normais.”
“Mas como fazemos isso? As pessoas não se importam muito com privacidade para surfar pela rede com um link criptografado. Eles não percebem a importância se alguém bisbilhota o que ele está gogglando.”
“Sim, mas páginas da web são bem pequenas dentro do tráfico. E se tivéssemos pessoas baixando rotineiramente arquivos criptografados gigantescos todos os dias? Isso iria criar mais texto cifrado do que milhares de paginas web.”
“Você está falando de indienet.” Eu disse.
“Você sacou.”
“indienet” - em letras minúsculas, sempre - era o que tinha feito o Porco Melancólico, um dos provedores independentes de maior sucesso no mundo. No passado, quando as grandes empresas de disco começaram a processar os fãs por baixarem suas músicas, um monte de selos independentes e seus artistas foram contra. Como você ganha dinheiro processando seus consumidores?
O fundador do Porco Melancólico tinha a solução: ele fez um acordo com aqueles que queriam trabalhar com seus fãs, ao invés de brigar contra eles,.dando ao Porco Melancólico uma licença para distribuir suas músicas aos seus consumidores e eles lhe pagavam por quão popular sua música era. Para um artista independente (indie) o grande problema não é a pirataria, mas a obscuridade - quando ninguém sequer se importa com você o bastante para baixar suas musicas.
E funcionou. Centenas de independentes e produtoras assinaram com a Porco Melancólico e quando mais música eles disponibilizavam, mais fãs trocavam seus provedores par ao serviço da Porco Melancólico e mais dinheiro ia para o artista. Em um ano, ela tinha cem mil novos consumidores e agora tem um milhão - mais da metade das conexões da cidade.
“Uma revisão do código da indienet esteve comigo por meses.” Disse Jolu, “Os programas originais foram escritos rapidamente, com sujeira, e eles podiam ser mais eficientes com um pouco de trabalho. Mas eu nunca tive tempo para isso. Um dos itens prioritários da minha lista de coisas por fazer era criptografar as conexões, por que Trudy queria assim.” Trudy Doo era o fundador da Porco Melancólico. Ela era uma lenda do punk na São Francisco dos velhos tempos, cantora e líder de uma banda anarco-feminista chamada Putas Velozes e era maníaca por privacidade. Eu posso acreditar que ela vai querer seu serviço de musica criptografado.”
“E será difícil? Quero dizer, quanto tempo vai levar?”
“Bem, são toneladas de código criptografado no online gratuito, é claro.” disse Jolu. Ele estava fazendo o que sempre faz quando está remexendo num código cabeludo – ficou com seu olhar distante, batendo a palma das mãos na mesa, fazendo o café transbordar no pires. Eu queria rir - tudo poderia ser destruído e virar lixo e coisa e tal, mas Jolu escreveria o código.
“Posso ajudar?”
Ele olhou para mim. “O quê, tá achando que eu posso fazer isso?”
“O quê?”
“Quer dizer, você fez todo este negocio da Xnet sem falar comigo. pensei que não precisasse de mim.”
“O quê?” Eu disse de novo. Jolu estava me olhando realmente contrariado. Ficou claro que já estava magoado com isso há muito tempo. “Jolu...”
Ele me encarou e pude ver que estava furioso. Como eu não tinha percebido? Deus, que idiota eu sou às vezes. “Olha, camarada, isso não é grande coisa...” dizendo isso ele queria dizer na verdade o contrário. “...sabe como é, você nunca me chamou. Eu odeio o DHS. Darryl era meu amigo também. Eu podia ter te ajudado.”
Eu queria enfiar minha cabeça num buraco. “Ouça Jolu, isso foi realmente estupidez minha. Eu pensei nisso às duas da manha. Eu estava ficando maluco quando isso me veio. Eu...” não dava para explicar de fato. Ele estava certo e este era o problema. Eram duas das manha mas eu podia ter ligado para Jolu e falado a respeito no dia seguinte. Eu não fiz isso por que sabia o que ele iria dizer... que era uma ação ruim, que eu precisava pensar melhor. Jolu sempre conseguia transformar minhas idéias das 2 da manhã em código real, mas aquela coisa era um pouco diferente do que eu estava acostumado. Eu queria o projeto para mim. Era coisa do M1k3y.
“Desculpa!” eu disse ao final. “Me desculpa mesmo! Você está totalmente certo. Eu pirei e fiz besteira. Eu preciso muito da sua ajuda. Não posso fazer isso sozinho.”
“Você tem certeza?”
“É claro que sim. Você é o melhor codificador que conheço. Você é um gênio filho da mãe, Jolu. Eu ficaria honrado se você me ajudasse.”
“Desculpa!” eu disse ao final. “Me desculpa mesmo! Você está totalmente certo. Eu pirei e fiz besteira. Eu preciso muito da sua ajuda. Não posso fazer isso sozinho.”
“Você tem certeza?”
“É claro que sim. Você é o melhor codificador que conheço. Você é um gênio filho da mãe, Jolu. Eu ficaria honrado se você me ajudasse.”
Ele bateu os dedos na mesa mais uma vez. “É só... você sabe. Você é o líder. Van é a esperta e Darryl era... seu braço direito, o cara que organizava tudo, que via os detalhes. Ser o programador, essa era a minha especialidade. Eu senti como se você estivesse dizendo que não precisava de mim.”
“Que isso cara, eu sou mesmo um idiota, Jolu, você é a pessoa mais qualificada que eu conheço para fazer isso. Eu peço perdão, realmente...”
“Tudo bem, tudo bem. Pare. Tá legal! Eu acredito em você. Nós já nos entendemos. E sim, é claro que vou te ajudar. Nós podemos até te pagar... eu tenho um orçamento pra contratar programadores.”
“Sério? Ninguém nunca me pagou para escrever código.”
“Sério. Você é bom o bastante para isso.” Ele riu e me acertou no ombro. Jolu era um cara fácil de se lidar a maioria do tempo.
“Que isso cara, eu sou mesmo um idiota, Jolu, você é a pessoa mais qualificada que eu conheço para fazer isso. Eu peço perdão, realmente...”
“Tudo bem, tudo bem. Pare. Tá legal! Eu acredito em você. Nós já nos entendemos. E sim, é claro que vou te ajudar. Nós podemos até te pagar... eu tenho um orçamento pra contratar programadores.”
“Sério? Ninguém nunca me pagou para escrever código.”
“Sério. Você é bom o bastante para isso.” Ele riu e me acertou no ombro. Jolu era um cara fácil de se lidar a maioria do tempo.
Paguei pelos cafés e saímos dali. Liguei para meus pais para que soubessem o que estava fazendo. A mãe de Jolu insistiu em nos fazer sanduíches. Nos fechamos em seu quarto com seu computador e o código da indienet e embarcamos numa maratona de programação. Quando sua família foi se deitar as 23:30h, pudemos seqüestrar a maquina de café para seu quarto e mandamos ver no nosso suprimento de grãos mágicos de café.
Se você nunca programou um computador, você deveria. Não há nada como isso em todo o mundo. Quando você está programando um computador, ele faz exatamente aquilo que você disse que ele devia fazer. É como projetar uma máquina - qualquer máquina, um carro, uma torneira, uma dobradiça pneumática para portas - usando matemática e instruções. É maravilhoso no sentido mais verdadeiro: pode te levar às alturas.
Um computador é a máquina mais complexa que você irá usar. Ela é feita de bilhões de transistores micro-miniaturizados que pode ser configurado para executar qualquer programa que você imaginar. Mas quando você se senta em frente ao teclado e escreve uma linha de código, estes transistores vão fazer aquilo que você disser para fazer.
A maioria de nós nunca construiu um carro. Nem criou um sistema de aviação. Desenhou um prédio. Governou uma cidade. Essas coisas são complicadas, estão além dos limites de pessoas como eu ou você.
Mas um computador é tipo, dez vezes mais complexo que tudo isso, e ele irá dançar conforme a música que você tocar. Você aprende a escrever um código simples em uma tarde. Comece com uma linguagem como Python, que foi feita para que não-programadores possam com facilidade fazer a máquina dançar conforme sua música. Mesmo se for codificar por apenas um dia, uma tarde, você deve fazê-lo. Os computadores podem te controlar ou tornar o seu trabalho mais simples - se você quiser estar no controle de suas máquinas, deve aprender a codificar.
Escrevemos um monte de código naquela noite.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O Mundo Fantasmo de Braulio Tavares
O Mundo Fantasmo é o blog onde o escritor de FC, poeta, compositor, roteirista e especialista em cordel e cultura nordestina, o paraibano Braulio Tavares, divulga seus artigos, originalmente publicados em sua coluna diária no Jornal da Paraíba desde 2003.
Braulio (autor de 'A espinha dorsal da memória', entre outros livros), fala um pouco de tudo em seus textos. De ciência e arte, cinema e literatura, cotidiano e personalidades, dividindo conosco suas observações precisas e enriquecedoras, através de seu excepcional talento para com as palavras.
É leitura obrigatória !
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
American Science Fiction Film and Television
Contents
Acknowledgements
Introduction: American Science Fiction Culture
1- Conflict and Consensus: The Cold War and the Space Race
Invasion of the Body Snatchers (1956)
The Twilight Zone (1959 –1964)
2- Pushing the Frontiers of Reality: Science Fiction and the Counterculture
2001: A Space Odyssey (1968)
Star Trek (1966–1969)
3- Unsettling Visions of America’s Future Present: Dystopian Science Fiction
Soylent Green (1973)
The Six Million Dollar Man (1974–1978)
4- Hopes and Fears: Aliens, Cyborgs and the Science Fiction Blockbuster
*batteries not included (1987)
Star Trek: The Next Generation (1987–1994)
5- Beyond Truth and Reason: Politics and Identity in Science Fiction
The Matrix (1999)
The X-Files (1993–2002)
6- American Science Fiction Post-9/11
Transformers (2007)
Battlestar Galactica (2003–2009)
Epilogue: The Repeated Pleasures of Science Fiction Film and Television
Bibliography
Film and Videography
Index
American Science Fiction Film and Television [ Download ]
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Across the wounded galaxies - Interviews with contemporany american SF writers
Big Science. Hallelujah. Big Science.Yodellayheehoo.
-Laurie Anderson", Big Science"
A new world is only a new mind.
-William Carlos Williams, "To Daphne and Viryinia"
Surely, it's apparent by now that science fiction writers are producing some of the most significant art of our times. Equally apparent is the pervasive influence of science fiction (henceforth, SF) on other fictional forms as well as on television, the cinema, advertising (television advertising in particular), rock and electronic music, and numerous hybrid forms.
We see its influence in the clothes we wear and the architectural features of the shopping malls we walk through. We hear its effect in the slang we use and in the white noise hovering constantly in the airwaves just beneath perceptibility. In short, we are already living out the existences predicted by earlier generations of SF authors.
Much of the artistic energy apparent in contemporary American SF is obviously the same energy that is rapidly transforming American lfe today into the materials of an SF novel. Still, it's difficult to account for American SF s rapid transformation from its despised, ghettoized subgrenre into an art form of considerable sophistication. Critics specializing in SF have already begun extensively exploring the subgenre's literary history the political and cultural contexts that produced so many disruptive and decisive changes within and outside SF during the '60s, and SFs relationship to popular culture and "serious art." (For a good overview of these studies, see Neil Barron's exhaustive annotated bibliographical guide to SE Anatomy of Wonder.) ... Some critics acknowledge the centrality of SF more indirectly as they examine the chief issues of postmodernism, twentieth-century history and politics, and the history of ideas.
For example, Fredric Jameson's various discussions of modernism and postmodernism (notably in The Political Unconscious and "Postmodernism, or the Cultural Logic of Late Capitalism") have been widely used to account for specific SF themes and stylistic tendencies; the poststructuralist analyses of Jean-Frangois Lyotard, Arthur Kroker, and Jean Baudrillard are central to the current cyberpunk controversy; Thomas Kuhn's Structure of Scientffic Revolutions, Alvin Toffler's Third Wave, and the anthropological investigations of Claude Levi-Strauss and Margaret Mead are now regularly cited in serious discussions of SF.
...A natural dialogue emerges as these writers discuss common or divergent goals, formal methods, thematic treatments, views about their genre. The main focus here is not on personality issues-the numerous SF specialty magazines and fanzines provide plenty of that. Nor am I tryrng to convince people of SF's cultural and artistic significance, or to draw converts. The time for defensive posturing about SF has passed, just as similar arguments concerning the cinema became superfluous in the early '60s, and just as parallel discussions about rock music will eventually seem anachronistic. Across the Wounded Galaxies takes it for granted that SF deserveso ur seriousa ttention, that the issues being examined by contemporary SF authors are absolutely central to late twentieth-century life and art. My premise is that SFs formal and thematic concerns are intimately related to characteristics of other postmodern art forms, that SF has been influencing and influenced by these forms.
Science fiction can, in fact, be seen as representing an exemplar of postmodernism because it is the art form that most directly reflects back to us the cultural logic that has produced postmodernism.
What has been occurring within SF is also important because it has had the effect of promoting an active engagement between science and the arts-an interaction that has been badly (and sadly) undernourished, especially in the United States. While SF has long been a "respectable" and perfectly "legitimate" endeavor in Europe-witness the tradition of H.G.Wells, Karel Capek, Olaf Stapledon, Aldous Huxley, and George Orwell, right up through Vladimir Nabokov, Italo Calvino, and Stanislaw nom-American SF has, almost since its inception, been stigmatized as low-brow, adolescent fare.
Ironically, the country that first placed a man on the moon, that has probably contributed most to the development of this century's technological wonders (and horrors), is also a country where SF has only recently begun to attract the attention of major artists.
Clearly this wedding of science and the arts is a welcome development.
Science needs our most active and wide-ranging imaginations.
It needs humanistic insights, perspectives that derive from our hearts and our ethical sensibilities as much as from logic and calculation.
It needs science fiction.
Contents
Introduction
An Interview with
Gregory Benford
William S. Burroughs
Octavia E. Butler
Samuel R. Delany
Thomas M. Disch
William Gibson
Ursula K. Le Guin
Joanna Russ
Bruce Sterling
Gene Wolfe
Index
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Destino, o vazio - Frank Herbert
PRÓLOGO
Esse era o quinto navio tripulado por clones que saía da Base Lunar dentro do Projeto Conscientiza e, cumprindo com as exigências de seu dever, inclinou-se para o monitor para observá-lo atentamente. Na imagem o via transbordando a órbita de Plutão e nesses momentos, como ele sabia, a tripulação já se teria encontrado com as frustrações programadas de costume, e possivelmente, inclusive com alguns mortos e feridos graves. Mas esse era o plano.
Chamava-se Terrestre Número Cinco.
O navio tinha a forma de um ovo gigantesco, uma de cujas metades se estendia como uma negra sombra recortada na cortina de fundo das estrelas em tanto que a outra metade refletia os brilhos chapeados do longínquo sol.
Uma tosse nervosa ressonou na escuridão detrás dele, mas conseguiu sufocar o reflexo de tossir a sua vez. Outros careciam de seu autocontrole. Para quando se apagaram as tosses a nave já tinha começado a girar. O movimento era impossível…, mas não havia forma de negar o que todos estavam vendo. Deu uma volta de cento e oitenta graus invertendo seu curso e voltando a empreender o atalho que seguia antes.
— Alguma pista sobre como o têm feito? — perguntou.
— Não, senhor. Nenhuma.
— Quero que revise de novo a cápsula de mensagens — disse —. Há algo que nos escapa.
— Sim, senhor — parecia mas bem um suspiro de resignação.
— Preparando-se para o lançamento da cápsula… — disse uma voz na escuridão.
Sim, todos o viram o número suficiente de vezes para predizer a seqüência.
A cápsula era uma agulha chapeada que aparecia da popa da nave e se mantinha aderida a seu ponto cego - pois, quem sabia que tipo de armas era capaz de ter uma nave semelhante? - até que se perdesse entre as estrelas.
Em algum lugar sob seus pés houve um breve brilho chamejante… o relé laser com sua mensagem: destruir. Uma luz purpúrea lambeu o bulboso nariz da nave. manteve-se durante o breve tempo de três pulsados de seu coração e a nave estalou formando uma cegante flor alaranjada.
— Certamente, esse modelo Flattery é digno de toda confiança — disse alguém.
A habitação se encheu de risitas nervosas, mas ele as ignorou, concentrando-se no monitor. Diabos, por que pensavam sempre no modelo Flattery? Podia ser qualquer da tripulação.
A imagem se enfocou sobre a bola de luz com a avassaladora velocidade do lapso temporário, fazendo que o brilho alaranjado da explosão parecesse piscar de um modo antinatural. Finalmente o movimento se fez mais lento, e a imagem mostrou os restos da nave e as breves exploda de luz procurando seu objetivo, a caixa de gravação. Isso e a cápsula de mensagens era o mais importante que perdurava depois de cada fracasso.
Viu como os retractores em forma de garra agarravam a caixa de gravação, fazendo-a desaparecer do campo visual. A luz cristalina seguiu iluminando os restos, procurando: tudo o que vissem podia ser valioso. Mas a luz só revelava metal retorcido, farrapos de plástico e, de vez em quando, os membros destroçados de algum tripulante. Houve uma imagem, breve e particularmente brutal, uma cabeça entrevista fugazmente, com parte do ombro e um braço que tinha sido amputado justo sob o cotovelo. Um halo de glóbulos sanguinolentos rodeava a cabeça, mas ainda era reconhecível.
— Tim! — disse alguém.
— Merda… merda… merda… — começou a repetir uma voz feminina na parte traseira da habitação, até que alguém a fez calar.
A imagem desapareceu e ele se reclinou em seu assento, sentindo a pontada de dor entre os ombros. Teria que identificar a essa mulher e fazer que a transferissem, sabia. Era impossível não reconhecer o matiz de histeria que havia em sua voz. O mais indicado seria alguma forma de catarse, e o mais dura possível. Desconectou o holovisor e acendeu as luzes da habitação. Logo ficou em pé e se voltou para eles, enfrentando-se à repentina e cegadora claridade.
— São clones — disse, mantendo deliberadamente fria sua voz —. Não são seres humanos; são clones, tal e como o indica o que todos levem como segundo nome «Lon». São objetos, propriedades! Quem se esqueça disso sairá da Base Lunar na próxima lançadeira. O pôster que há em minha porta diz «Morgan Hempstead, Diretor». Não haverá mais estalos emocionais nesta habitação enquanto eu siga sendo-o.
Destino, o vazio (Destination:Void) - Frank Herbert [ Download ]
domingo, 6 de dezembro de 2009
C. M. Kornbluth
Cyril Michael Kornbluth (23 de Julho de 1923 – 21 de Março de 1958) nasceu em New York (EUA).
Aos 15 anos entrou para o Futurians, o fã-clube de Ficção Científica novaiorquino, do qual fizeram parte escritores como Isaac Asimov, Frederik Pohl, Damon Knight, James Blish, Donald A. Wollheim, David Kyle, Larry Shaw, Richard Wilson, Robert A.W. Lowndes, entre outros.
Recrutado aos 19 anos, foi mandado para a Europa, tendo recebido uma medalha por valor patriótico na Batalha de Bulge. Ao final da Segunda Grande Guerra voltou para Chicago, onde formou-se jornalista.Trabalhou em jornal até 1951, quando decidiu seguir na carreira de escritor.
Em seus primeiros trabalhos como escritor profissional, Kornbluth utilizava-se de uma prática comum naquela época, o de escrever sob diversos pseudônimos, na esperança de poder assim vender mais contos. Alguns deles eram Cecil Corwin, S. D. Gottesman, Edward J. Bellin, Kenneth Falconer, Walter C. Davies, Simon Eisner e Jordan Park.
Kornbluth era um homem dedicado a um objetivo que ia de encontro a sua grande e maior paixão: Ser um escritor de Ficção Científica respeitado. Dizem que leu toda uma enciclopédia, procurando adquirir conhecimento que lhe seria útil para suas histórias. Seus amigos o descreviam como um homem gentil, porém de hábitos estranhos, como o de nunca escovar os dentes ou forçar-se a beber café, pois segundo ele, era o elixir mágico dos escritores (mesmo detestando café).
Vários de seus contos acabariam suprindo séries de televisão. Adaptado por Rod Serling, 'The little black bag', se tornou um famoso episódio da série Night Gallery, onde Burgess Meredith interpreta um médico que perdeu sua licença por alcoolismo e que encontra uma valise contendo aparelhos médicos tecnologicamente avançados, vindos do futuro. O doutor os utiliza para voltar a medicar e assim se redimir de seus pecados. É claro que a história não termina bem...
Uma característica peculiar em suas histórias, era a de escavar o ser humano atrás daquilo que não aparecia à vista, seus segredos e temores, em meio a remorsos e culpa. Sobre estas fraquezas, Kornbluth construia uma história que não raramente terminava tragicamente.
Kornbluth morreu aos 34 anos (sem gozar da fama e do reconhecimento que tanto buscara), de um ataque de coração enquanto corria numa plataforma de estação, para alcançar um trem.
Sua morte prematura porém não impediu que muitos de seus trabalhos chegassem ao público através de seu amigo Frederik Pohl (com quem escreveu The Space Merchants, entre outros), que anos depois ainda trabalharia em seus contos inacabados, publicando-os postumamente (o que inclusive lhe rendeu um Hugo em 1973).
C. M. Kornbluth ( Interplane Express e The mask of Demeter (com Wolheim), Virginia, Time Burn, Thirteen o'clock, Theory of Rocketry, The words of guru, The silly season, The remorseful, The only thing we learn, The mindworm, The marching morons collection, The luckiest man in Denver, The little black bag, The Goodly creatures, The events leading down to tragedy, The education of Tigress Mccardle, The Cosmic Charge Account, The altar at midnight, The adventurer, That share of glory, Shark Ship, Ms Found in a chinese fortune cookie, Make mine Mars, Kazam collects, I never ask no favours, Gomez, Friend to man, Everybody knows Joe, Dominoes, A mile beyond the moon, Gunner Cade (com Judith Merril)) [ Download ]
sábado, 5 de dezembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6
CAPÍTULO 6
Este capítulo é dedicado a Powell’s Books, a legendária ‘Cidade dos livros’ em Portland, Oregon. A Powell é a maior livraria do mundo, um interminável, multi-andares, universo de aromas de papel e enormes estantes. Eles possuem livros novos e usados nas mesmas prateleiras - algo que eu sempre amei - e sempre que passo por lá, há sempre uma verdadeira montanha de meus livros que me pedem para autografar. Os atendentes são amigáveis, o estoque é fabuloso e existe até uma Powell no aeroporto de Portland, sendo a melhor livraria em aeroportos no mundo.
Powell's Books: 1005 W Burnside, Portland, OR 97209 USA +1 800 878 7323
Acreditem ou não, meus pais me fizeram ir para a escola no dia seguinte.
Só consegui cair no sono às três da manhã, mas às sete meu pai estava no pé da cama, ameaçando me puxar pelos tornozelos se eu não levantasse sozinho - algo parecia ter morrido na minha boca depois de colar minhas pálpebras - e fosse tomar banho.
Deixei minha mãe forçar um pedaço de torrada e uma banana pra dentro de mim, desejando fervorosamente que eles me deixassem beber café em casa. Podia arranjar algum no caminho da escola, mas ficar olhando eles beberem seus ouros negros enquanto eu me vestia e colocava meus livros na mochila era terrível.
Eu já caminhara para a escola milhares de vezes,mas naquele dia era diferente. Fui até o alto da colina e desci para a Missão e por todo lado via estes caminhões. Vi novos sensores e câmeras de trânsito instaladas em vários postes de trânsito. Alguém tinha um monte de equipamento de vigilância por aí, esperando para ser instalado na primeira oportunidade. O ataque a ponte de Bay Bridge tinha sido tudo que eles precisavam.
Isso tudo fazia a cidade parecer mais subjugada, como estar dentro de um elevador, embaraçado pelo escrutínio de seus vizinhos e das ubíquas câmeras.
O Café Turco da rua 24 deu um jeito em mim com um gostoso café num copo para viagem . Basicamente, café turco era uma lama que fingia ser café. Era denso o bastante para segurar uma colher parada no centro e tinha mais cafeína do que aqueles energizantes tipo Red Bull. Tinha ouvido de alguém que viu na Wikipédia que fora assim que o Império Otomano vencia as batalhas: cavaleiros enlouquecidos e abastecidos pelo letal café-de-lama-preta.
Puxei o cartão de credito para pagar e ele me fez uma careta. ‘Não cobro mais’, ele disse.
‘Huh? Por que não? Eu paguei pelo meu café habitual com meu cartão durante anos no Turco. Ele costumava brigar comigo, dizendo que eu era novo demais para beber aquela coisa e se recusava a me servir durante o período da aula, convencido que eu fugia da aula. Mas por anos, o turco e eu tínhamos desenvolvido um tipo grosseiro de entendimento.
Ele balançou a cabeça e disse tristemente: “Você não entenderia. Vá para a escola, menino.”
Não havia jeito mais certo de me fazer querer entender do que me dizer que eu não poderia. O chantageei, exigindo que me contasse. Me olhou como se fosse me atirar para fora mas quando eu perguntei se ele pensava que eu não era bom o bastante para comprar ali, ele confessou:
“A Segurança” ele disse olhando ao redor de sua lojinha com seus sacos de grãos secos e vagens, e estantes cheias de doces turcos. “O governo. Agora eles monitoram tudo, está nos jornais. ATO PATRIOTA II, o Congresso aprovou ontem. Agora eles podem monitorar cada vez que você usa seu cartão de crédito. Eu digo não. Eu digo, minha loja não vai ajudá-los a espionar meus fregueses.”
Meu queixo caiu.
“Você pode achar que não é grande coisa talvez. Qual é o problema com o governo saber quando você vende café? Por que é o único jeito deles saberem onde você está, onde esteve. Por que você pensa que eu saí da Turquia? Onde você tem sempre o governo espionando o povo, nada bom. Eu me mudei para cá vinte anos atrás por causa da liberdade - não ajudo eles a acabar com a liberdade.”
“Você vai deixar de fazer muitas vendas.” Eu disse. Eu queria dizer para ele que ele era um herói e apertar sua mão, mas o que saiu foi: “Todo mundo usa cartão de crédito.”
“Talvez não mais, nunca mais. Talvez meus fregueses passem a vir aqui porque sabem que eu amo a liberdade também. Vou colocar um cartaz na janela. Talvez outras lojas façam o mesmo. Eu ouvi dizer que a ACLU (Organização pró-direitos civis) vai processá-los por isso.”
“Você tem todo meu apoio” eu disse. Quis dizer. Procurei no bolso. “Hum, não tenho dinheiro.”
Ele franziu os lábios e concordou: “Muitos dizem a mesma coisa. Tudo OK. Você manda o dinheiro de hoje para a ACLU.”
Em dois minutos, o turco e eu havíamos trocado mais palavras do que todo o tempo que vim até sua loja. Eu não tinha idéia de que ele tinha toda aquela paixão. Pensava nele como meu vizinho amigável vendedor de cafeína. Agora eu apertei sua mão e quando deixei sua loja, senti como se ele e eu fossemos parte de um time. Um time secreto.
#
Tinha perdido dois dias de escola, mas não pareceu que tinha perdido muita coisa. Eles haviam fechado as escolas durante aqueles dias, enquanto a cidade se recuperava. O dia seguinte havia sido dedicado a lamentar aqueles que desapareceram ou presumidamente estavam mortos. Os jornais publicavam biografias dos desaparecidos. A Web estava cheia de pequenos obituários, milhares deles.
De forma embaraçosa eu era uma destas pessoas. Pisei no pátio da escola sem saber disso e então ouvi um grito e no momento seguinte havia uma centena de pessoas me cercando, de dando tapinhas nas costas, apertando minha mão. Duas garotas que eu nem conhecia me beijaram e foram beijos mais do que simplesmente amigáveis. Eu me senti como um astro do rock.
Meus professores, contudo, foram um pouco mais controlados. Senhorita Galvez chorou tanto quanto minha mãe tinha chorado e me abraçou por três vezes antes de me deixar sentar no meu lugar. Havia algo novo na frente da sala de aula. Uma câmera. Senhorita Galvez percebeu que eu olhava para ela e me passou um comunicado xerocado da direção da escola.
O Comitê das Escolas Unificadas do Distrito de São Francisco tinha se reunido numa sessão de emergência no fim de semana e, por voto unânime, pediram a cada pai das crianças da cidade a permissão para colocar circuitos de televisão em cada sala e corredor. A lei dizia que eles não podiam nos forçar a ir para escolas com câmeras por toda parte, mas não dizia nada sobre nós abrirmos mão voluntariamente de nossos direitos constitucionais. A carta dizia que o Comitê tinha total certeza que conseguiria a completa aquiescência dos pais desta cidade, mas eles fariam arranjos para ensinar também aquelas crianças cujos pais se objetassem, em salas separadas “desprotegidas”.
Por que tínhamos câmeras na sala de aula agora? Terroristas, é claro. Por que depois de explodir uma ponte, os terroristas haviam indicado que as escolas seriam as próximas. De alguma forma, esta fora a conclusão a que chegou o Comitê.
Li a nota por três vezes e então levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Senhorita Galvez, sobre esta nota?”
“Sim, Marcus?”
“O objetivo dos terroristas não é fazer com que fiquemos aterrorizados? Não é por isso que se chama terrorismo?”
“Suponho que sim.” A classe estava me olhando. E não era o melhor aluno da escola, mas era bom em debates na sala de aula. Eles esperavam para ouvir o que eu tinha para dizer em seguida.
“Então nós não estamos fazendo o que os terroristas queriam de nós? Eles não ganham se agimos todos com medo e colocamos câmeras nas sala e tudo isso?”
Houve um rumor nervoso. Um dos outros levantou a mão. Era Charles. Senhorita Galvez o deixou responder.
“Colocando câmeras nas salas ficamos mais seguros, o que faz termos menos medo.”
“Seguros contra o quê?” respondi antes dele acabar.
“Terrorismo” disse Charles. Os outros concordam.
“Como isso vai adiantar? Se um homem bomba entrar aqui e explodir com a gente...”
“Senhorita. Galvez, Marcus está violando a política da escola. Não podemos fazer piadas sobre ataques terroristas...”
“Quem está fazendo piada?”
“Obrigada, aos dois.” disse Senhorita Galvez. Ela parecia verdadeiramente triste. Senti-me mal por roubar a atenção da sua turma. “Acho que é uma discussão muito interessante, mas vamos deixar para uma próxima aula. Acho que estes assuntos podem ser bastante emocionais para nós termos uma discussão hoje. Agora, podemos voltar aos sufragistas?”
Então passamos o resto daquela hora falando sobre os sufragistas e de novas estratégias lobistas para conseguir colocar quatro mulheres em cada escritório de cada congressista para ensiná-los e deixar que soubessem o que significaria para seus futuros políticos se continuassem negando o direito de voto para as mulheres. Isso era normalmente algo que eu gostava - uns poucos fazendo muito e poderosamente honesto.
Mas hoje eu não conseguia me concentrar. Talvez fosse pela ausência de Darryl. Nós gostávamos de estudos sociais e nos sempre começávamos uma conversa pelo IM em nossos computadores escolares para falar sobre a lição.
Eu tinha gravado vinte discos com ParanoidXbox na noite anterior e eles estavam na mochila. Passei para aqueles que eu sabia que estavam por dentro da coisa. Todos tinham um Xbox Universal ou dois, do ano passado, ma a maioria tinha deixado de usá-los. Os jogos eram muito caros e nem um pouco divertidos. Eu os distribuía entre as aulas, no recreio, na sala de estudos e cantava as glórias dos jogos no ParanoidXbox. Diversão de graça - games sociais viciantes com um monte de gente bacana jogando por todo o mundo.
Dar uma coisa para vender outra é o que chamam de "negócio tipo navalha" -companhias como a Gillette dão para você um aparelho de barbear de graça e então ganham uma fortuna vendendo lâminas. Com os cartuchos de impressão é bem pior que isso - a mais cara champanhe do mundo é barata se comparada ao preço da tinta de impressora, que custa um centavo por galão no atacado.
Este negócio tipo navalha depende de você não ser capaz de conseguir “as lâminas” de outro lugar. Além disso, se a Gillette consegue nove em cada dez dólares gastos com trocas de lâminas, por que não começar como um competidor que cobra quatro mangos por uma lâmina idêntica? Uma margem de lucro de 80% é o tipo de coisa que faz qualquer sujeito do mundo dos negócios babar.
Então, empresas tipo a Microsoft, empregam um grande esforço para tornar ilegal ou difícil alguém competir com ela pelas lâminas. No caso da Microsoft, cada Xbox possui contramedidas para evitar que você o use com softwares feitos por pessoas que não pagaram uma boa grana à Microsoft pelo direito de vender jogos para Xbox.
As pessoas que conheço não pensam muito sobre isso. Eles se animam quando eu digo que os jogos não são monitorados. Nestes dias, qualquer jogo online que você joga é cheio de todo tipo de coisas nojentas. Primeiro tem os pervertidos que tentam convencê-lo a ir a algum lugar onde farão todo tipo de “Silêncio dos Inocentes” com você. E tem a polícia que finge que ser crianças ingênuas para poder pegar os pervertidos. E o pior de tudo isso são os monitores que passam o tempo espiando suas discussões e xeretando se alguém está violando os Termos do Serviço, o que significa nada de paquera, nada de palavrões, e nada de “linguagem de duplo sentido que insulte a qualquer aspecto de orientação sexual ou sexualidade.”
Eu não sou um cachorro no cio vinte e quatro horas, sete dias por semana, mas tenho dezessete anos. Sexo sempre aparece numa conversa e sempre aparecerá. Mas Deus te ajude se aparecer num chat enquanto você está jogando. Tá ferrado. Ninguém monitora os jogos do ParanoidXbox, pois não são executados por uma companhia mas são só jogos criados por hackers.
Então é assim, os maníacos por jogos adoram esta história. Eles pegam os discos com gratidão e prometem copiar para todos os seus amigos - afinal, os games são mais legais quando você joga com os seus camaradinhas.
Quando cheguei em casa li que um grupo de pais estava processando na justiça o Comitê escolar por conta das câmeras de vigilância nas salas de aula, mas já tinham perdido a injunção preliminar contra eles.
#
Não sei quem veio com o nome Xnet, mas pegou. Você ouvia as pessoas falarem sobre ela na Muni (apelido para o sistema publico de trânsito de São Francisco; ônibus, bondes,etc.). Van me ligou para perguntar se eu já tinha ouvido falar sobre ela e fiquei chocado quando me dei conta de que se tratavam dos discos que eu comecei distribuindo semana passada e que já se achavam até em Oakland, no espaço de apenas duas semanas. Isso me fez ficar cabreiro - como se tivesse quebrado uma regra e agora o DHS (Departamento de Segurança do Estado) viria e me levaria embora para sempre.
Estas seriam semanas difíceis. O sistema de trens e metrô tinha abandonado completamente a venda de passagens por dinheiro, trocando-a por cartões que você apenas aproxima das roletas para poder passar. Eles eram legais e bem convenientes, mas toda vez que você usava um, eu imaginava como estaria sendo seguido. Alguém na Xnet colocou um link para um documento da Eletronic Frontier Foundation que dizia que estas coisas poderiam ser usadas para seguir o povo e contava algumas pequenas historias sobre algumas pessoas que protestaram contra isso nas estações da BART.
Eu usava a Xnet para quase tudo agora. Criei um email com endereço falso através da Pirate Party, um partido político sueco que odiava vigilância na internet e que prometia manter suas contas de email em segredo - mesmo da polícia. Eu a acessava estritamente via Xnet, pulando de uma conexão de internet das vizinhanças para outra anonimamente - eu esperava - até a Suécia. Não mais usava ‘W1N5T0N’. Se Benson podia descobrir, qualquer um podia. Meu novo logon veio de um estímulo momentâneo, era M1k3y, e eu recebia um monte de email de pessoas que tinham ouvido em salas de discussão e quadros de mensagens que eu poderia ajudar a solucionar problemas das configurações e conexões de suas Xnet.
Sentia saudades de Harajuku Fun Madness. A companhia suspendera o jogo indefinidamente. Disseram que por ‘razões de segurança’ não seria uma boa idéia esconder coisas e então mandar pessoas as procurar. E se alguém pensasse que é uma bomba? E se alguém colocasse uma bomba no mesmo lugar?
E se eu fosse atingido por um raio enquanto andava com um guarda-chuva? Vamos proibir guarda-chuvas! Combata a ameaça do raio!
Continuei usando meu laptop, mas isso me dava arrepios. Quem quer que o tivesse grampeado poderia imaginar por que eu não o usava mais. Todos os dias eu fazia algum acesso randômico na rede, um pouco menos a cada dia, para que qualquer um que estivesse me vigiando achar que eu estava mudando meus hábitos, e não mudando repentinamente. Na maioria das vezes ficava lendo aquelas mensagens de óbito arrepiantes - milhares de amigos e vizinhos mortos no fundo da baía.
Verdade seja dita, eu fazia cada vez menos trabalho de casa. Tinha outros negócios para tratar. Todo dia gravava pilhas de discos com ParanoidXbox, cinqüenta ou sessenta discos, e os levava pela cidade para pessoas que queriam fazer sessenta copias para si mesmo ou amigos.
Não me preocupava em ser pego fazendo isso, por que eu tinha a boa e velha cripto ao meu lado. Cripto, ou criptografia, significa “escrita secreta” e existe desde os tempos de Roma (Augustus Cesar era um grande fã e inventava seus próprios códigos, alguns ainda usados hoje em dia na forma de piadas em email.)
Cripto é matemática. Matemática pura. Não vou tentar explicar em detalhes por que a coisa ainda não entrou na minha cabeça, mas olhe na Wikipédia se realmente quiser saber como funciona.
Mas aqui está a versão do Cliff’s Notes. Algumas das funções matemáticas são bem fáceis de fazer numa direção e realmente difíceis de fazer em outra direção. É fácil multiplicar dois grandes números primos e obter um número gigante. É enormemente difícil pegar qualquer número gigantesco e descobrir quais números primos multiplicados dão aquele número.
Isso significa que se você pode embaralhar algo baseado em multiplicação de grandes números primos, desembaralhar sem saber quais são estes números será bem difícil. Difícil mesmo! Tipo, todos os computadores do mundo trabalhando 24 horas por dia durante um trilhão de anos não conseguiriam.
Existem quatro partes de qualquer mensagem criptografada. A mensagem original, chamada texto limpo, a mensagem embaralhada, chamada texto cifrado. O sistema de embaralhamento, chamado código cifrador e finalmente a chave secreta que alimenta o código (logaritmo) para transformar o texto limpo em texto cifrado.
Eu era um desses caras que usam cripto para tudo. Toda agência do governo tem seus próprios códigos e suas próprias chaves. Os nazistas e os aliados não queriam que outros soubessem como eles embaralhavam suas mensagens e deixavam separadas as chaves que poderiam desembaralhá-las. Isso parece uma boa idéia, certo?
Errado.
A primeira vez que alguém me contou sobre como fatorar números primos eu imediatamente disse: “Nem vem, isso é besteira! Quer dizer, é lógico que é difícil fazer este fatoramento de primos, qualquer um vai te dizer isso. Mas também era impossível voar ou ir até a lua ou fazer um disco rígido com mais do que alguns kilobytes de armazenamento. Alguém deveria inventar um jeito de desembaralhar estas mensagens.” Eu tinha visões com uma montanha oca cheia de matemáticos da NSA (Agência de Segurança Nacional) lendo e bisbilhotando todos os emails do mundo.
De fato, isso se parece um pouco com o que aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Esta é a razão pela qual a vida não é mais como Castle Wolfenstein (game), onde eu passava os dias caçando nazistas.
O que acontece é que códigos são difíceis de manter em segredo. Existe muita matemática aplicada neles e se são largamente usados, então qualquer um que os utiliza tem que manter o segredo sobre eles. Também e se alguém muda de lado, você vai precisar de um novo código.
O código nazista chamava-se Enigma e ele usavam um pequeno computador mecânico chamado Máquina Enigma para embaralhar e desembaralhar mensagens. Cada submarino e navio e estação precisava de uma máquina dessas, então era inevitável que eventualmente os aliados conseguissem colocar as mãos em uma delas.
Quando o fizeram, eles quebraram o código. Este trabalho foi encabeçado pelo meu herói particular de todos os tempos, Alan Turing, que praticamente inventou os computadores como conhecemos hoje. Infelizmente para ele, ele era gay, então quando a guerra terminou, o estúpido governo Britânico o forçou a tomar injeções de hormônios para “curar” sua homossexualidade e ele se matou. Darryl me deu uma biografia de Turing no aniversário de 14 anos - e eu me tornei um apaixonado por Turing desde então.
Agora que os aliados tinham a Máquina Enigma e podiam interceptar as mensagens de rádio nazistas, que não deviam ligar para isso, pois cada capitão tinha sua própria chave secreta. Uma vez que os aliados não tinham estas chaves, ter a máquina não iria ajudá-los em nada.
Foi ai que descobriram o segredo que arruinou a cripto: o código Enigma era falho. Quando Turing atenciosamente estudou a máquina, percebeu que os criptografistas nazistas tinham cometido um erro matemático. Com a Máquina Enigma nas mãos, Turing poderia desvendar qualquer mensagem nazista, não importava que chave fosse usada.
Isso custou a guerra aos nazistas. Quero dizer, não me entenda mal. Isso foi bom. Dito por um veterano em Castle Wolfenstein. Você não iria querer os nazistas mandando em seu país.
Depois da guerra, os criptografistas passaram bastante tempo pensando sobre isso. O problema fora que Turing era mais esperto que o cara que pensou o Enigma. Toda vez que alguém criava um código, ficava vulnerável a alguém mais esperto que vinha com um jeito de quebrá-lo.
E quanto mais pensavam nisso, mais percebiam que qualquer um podia vir com um sistema de segurança que eles não saberiam como quebrar. Mas ninguém pode imaginar o que uma pessoa inteligente pode fazer.
Você tem que tornar um código conhecido para saber se este funciona. Tem que dizer a quantas pessoas for possível como funciona para que possam testá-lo com tudo que podem, colocando a sua segurança em prova. Quanto mais tempo você conseguir passar sem que se achem uma falha, melhor ele é.
É como funciona hoje. Se você quer ficar seguro, você não usa um cripto que algum gênio bolou semana passada. Você usa aquele que as pessoas vêm usando há muito sem que ninguém consiga quebrar. Não importa se você é um banco, um terrorista, o governo ou um adolescente, você utiliza o mesmo código.
Se você tentar usar seu próprio código, existe uma chance de que alguém por aí encontre uma falha nele e dê uma de Turing para cima de você, decifrando todas as suas mensagens secretas e rindo de suas fofocas idiotas, transações financeiras e segredos militares.
Então eu sabia que a criptografia podia me manter a salvo dos abelhudos, mas eu não estava pronto pra lidar com histogramas.
#
Sai na BART e balancei meu cartão sobre a roleta enquanto me encaminhava para a estação da rua 24. Como sempre havia um monte de esquisitos de bobeira na estação, bêbados e seguidores malucos de Jesus, e mexicanos e alguns garotos de gangues. Olhei direto através deles e quando cheguei às escadas e alcancei a superfície. Minha sacola estava vazia agora, não mais carregada de discos de ParanoidXbox que estivera distribuindo e que fazia me sentir leve enquanto caminhava para casa. Os pregadores, contudo, continuavam seu trabalho, exortando em espanhol e inglês sobre Jesus e por ai vai.
Os vendedores de óculos de sol falsificados tinham ido embora, mas substituídos por caras vendendo cachorrinhos robôs que latiam o hino nacional e levantavam as perninhas se você mostrava uma foto de Osama Bin Laden. Devia haver algo interessante em seus pequenos cérebros e fiz uma nota mental sobre comprar alguns para abri-los depois. Reconhecimento facial era relativamente uma novidade em brinquedos e apenas recentemente tinham feito a transição de assunto militar para aparecer nos cassinos, usado para identificar trapaceiros.
Desci a rua 24 em direção a Potrero Hill e meu lar, sentindo o aroma de burritos que escapava dos restaurantes e pensando na janta.
Não sei por que dei uma olhada por sobre o ombro, mas o fiz. Talvez tenha sido uma coisa subconsciente de sexto-sentido. Sabia estar sendo seguido.
Eram dois caras musculosos brancos com pequenos bigodes que podiam fazê-los passar por policiais ou ciclistas gays que vivem para cima e para baixo na rua Castro, mas os gays normalmente tem corte de cabelos melhores. Usavam agasalhos cor de cimento velho e jeans de cintura oculta. Pensei sobre todas as coisas que um tira pode usar em seu cinto, como um cinto de utilidades que os caras da DHS usavam no caminhão. Ambos usavam fones de ouvido Bluetooth.
Continuei andando, meu coração saltava no peito. Eu estava esperando por isso desde que comecei. Esperava pelo DHS percebesse o que eu estava fazendo. Eu tomei precauções, mas a mulher de cabelo militar tinha me dito que eles estariam me observando. Ela tinha me dito que eu era um homem marcado.
Percebi que estive esperando ser capturado e levado de volta à cela. Por que não? Por que Darryl podia continuar preso e eu não? O que será que tinham contra mim? Nem aos meus pais eu tinha contado - ou aos pais de Darryl - o que realmente aconteceu conosco.
Acelerei o passo e fiz um inventário mental. Não tinha nada que me incriminasse na minha bolsa. Não muito, de qualquer forma. Meu computador escolar estava executando um crack que deixava usar o IM e coisas assim, mas metade dos caras na escola fazia o mesmo. Eu tinha mudado a forma de bloquear meu telefone - agora eu tinha uma partição falsa que eu podia desfazer com uma senha, mas todas as coisas boas estavam escondidas e precisavam de outra senha para abri-las. A seção escondida parecia lixo aleatório - quando você criptografa dados, se torna indistinguível do lixo normal - e nunca saberiam que estava lá.
Não havia discos na minha bolsa. Meu laptop estava livre de evidências incriminantes. É claro: se fossem vasculhar meu Xbox, fim de papo.
Parei onde estava. Tinha feito um bom trabalho para me proteger. Era hora de encarar meu destino. Entrei na vendinha mais próxima e pedi um burrito com carnitas - porco fatiado - e salsa extra. Se eu iria ser preso seria com o estômago forrado. Peguei um copo de horchata também, um refresco gelado que era quase água, pudim de arroz meio doce (melhor do que parece).
Sentei-me para comer e uma calma profunda me envolveu. Estava prestes a ir para a cadeia por meus "crimes" ou não. Minha liberdade, desde que havia sido capturado tinha sido só um feriado temporário. Meu país não era mais meu amigo - estávamos de lados diferentes e eu sabia que nunca poderia vencê-lo.
Os dois sujeitos entraram no restaurante quando eu terminava o burrito e ia pedir uns churros - massa frita e coberto de açúcar com canela - para sobremesa. Acho que estavam esperando do lado de fora e se cansaram da minha vadiagem.
Ficaram atrás de mim no caixa, me cercando. Peguei o churro da pequena avozinha e paguei-a, dando algumas mordidas antes de me virar. Queria ao menos aproveitar um pouco a sobremesa. Podia ser a última que teria em muito tempo.
Então me virei. Estavam tão perto que dava para ver as espinhas na bochecha do cara à esquerda e a meleca no nariz do outro.
“Licença!” eu disse, tratando passar por eles. O da meleca se moveu me bloqueando.
“Senhor,” ele disse, “pode vir conosco?” fez um gesto para a porta do restaurante.
“Desculpe. Estou comendo.” disse e tentei sair de novo. Desta vez ele colocou a mão em meu peito. Ele estava respirando rápido através do nariz, fazendo a meleca seca se mexer. Acho que eu estava respirando rápido também, mas era difícil de saber além do martelar do meu coração.
O outro puxou a frente do casaco revelando uma insígnia da SFPD (Departamento de Polícia de São Francisco).
“Polícia.” disse. “Venha conosco!”
“Deixe-me pegar minhas coisas.” eu falei.
“Nós cuidaremos delas” disse. O melequento deu um passo a direita, com o pé entre os meus. Igualzinho como se faz em artes marciais. Deixa você saber se o outro cara está deslocando seu peso pronto para se mover.
Eu não ia correr. Eu sabia que não dava para correr do destino.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6 [ Download ]
Este capítulo é dedicado a Powell’s Books, a legendária ‘Cidade dos livros’ em Portland, Oregon. A Powell é a maior livraria do mundo, um interminável, multi-andares, universo de aromas de papel e enormes estantes. Eles possuem livros novos e usados nas mesmas prateleiras - algo que eu sempre amei - e sempre que passo por lá, há sempre uma verdadeira montanha de meus livros que me pedem para autografar. Os atendentes são amigáveis, o estoque é fabuloso e existe até uma Powell no aeroporto de Portland, sendo a melhor livraria em aeroportos no mundo.
Powell's Books: 1005 W Burnside, Portland, OR 97209 USA +1 800 878 7323
Acreditem ou não, meus pais me fizeram ir para a escola no dia seguinte.
Só consegui cair no sono às três da manhã, mas às sete meu pai estava no pé da cama, ameaçando me puxar pelos tornozelos se eu não levantasse sozinho - algo parecia ter morrido na minha boca depois de colar minhas pálpebras - e fosse tomar banho.
Deixei minha mãe forçar um pedaço de torrada e uma banana pra dentro de mim, desejando fervorosamente que eles me deixassem beber café em casa. Podia arranjar algum no caminho da escola, mas ficar olhando eles beberem seus ouros negros enquanto eu me vestia e colocava meus livros na mochila era terrível.
Eu já caminhara para a escola milhares de vezes,mas naquele dia era diferente. Fui até o alto da colina e desci para a Missão e por todo lado via estes caminhões. Vi novos sensores e câmeras de trânsito instaladas em vários postes de trânsito. Alguém tinha um monte de equipamento de vigilância por aí, esperando para ser instalado na primeira oportunidade. O ataque a ponte de Bay Bridge tinha sido tudo que eles precisavam.
Isso tudo fazia a cidade parecer mais subjugada, como estar dentro de um elevador, embaraçado pelo escrutínio de seus vizinhos e das ubíquas câmeras.
O Café Turco da rua 24 deu um jeito em mim com um gostoso café num copo para viagem . Basicamente, café turco era uma lama que fingia ser café. Era denso o bastante para segurar uma colher parada no centro e tinha mais cafeína do que aqueles energizantes tipo Red Bull. Tinha ouvido de alguém que viu na Wikipédia que fora assim que o Império Otomano vencia as batalhas: cavaleiros enlouquecidos e abastecidos pelo letal café-de-lama-preta.
Puxei o cartão de credito para pagar e ele me fez uma careta. ‘Não cobro mais’, ele disse.
‘Huh? Por que não? Eu paguei pelo meu café habitual com meu cartão durante anos no Turco. Ele costumava brigar comigo, dizendo que eu era novo demais para beber aquela coisa e se recusava a me servir durante o período da aula, convencido que eu fugia da aula. Mas por anos, o turco e eu tínhamos desenvolvido um tipo grosseiro de entendimento.
Ele balançou a cabeça e disse tristemente: “Você não entenderia. Vá para a escola, menino.”
Não havia jeito mais certo de me fazer querer entender do que me dizer que eu não poderia. O chantageei, exigindo que me contasse. Me olhou como se fosse me atirar para fora mas quando eu perguntei se ele pensava que eu não era bom o bastante para comprar ali, ele confessou:
“A Segurança” ele disse olhando ao redor de sua lojinha com seus sacos de grãos secos e vagens, e estantes cheias de doces turcos. “O governo. Agora eles monitoram tudo, está nos jornais. ATO PATRIOTA II, o Congresso aprovou ontem. Agora eles podem monitorar cada vez que você usa seu cartão de crédito. Eu digo não. Eu digo, minha loja não vai ajudá-los a espionar meus fregueses.”
Meu queixo caiu.
“Você pode achar que não é grande coisa talvez. Qual é o problema com o governo saber quando você vende café? Por que é o único jeito deles saberem onde você está, onde esteve. Por que você pensa que eu saí da Turquia? Onde você tem sempre o governo espionando o povo, nada bom. Eu me mudei para cá vinte anos atrás por causa da liberdade - não ajudo eles a acabar com a liberdade.”
“Você vai deixar de fazer muitas vendas.” Eu disse. Eu queria dizer para ele que ele era um herói e apertar sua mão, mas o que saiu foi: “Todo mundo usa cartão de crédito.”
“Talvez não mais, nunca mais. Talvez meus fregueses passem a vir aqui porque sabem que eu amo a liberdade também. Vou colocar um cartaz na janela. Talvez outras lojas façam o mesmo. Eu ouvi dizer que a ACLU (Organização pró-direitos civis) vai processá-los por isso.”
“Você tem todo meu apoio” eu disse. Quis dizer. Procurei no bolso. “Hum, não tenho dinheiro.”
Ele franziu os lábios e concordou: “Muitos dizem a mesma coisa. Tudo OK. Você manda o dinheiro de hoje para a ACLU.”
Em dois minutos, o turco e eu havíamos trocado mais palavras do que todo o tempo que vim até sua loja. Eu não tinha idéia de que ele tinha toda aquela paixão. Pensava nele como meu vizinho amigável vendedor de cafeína. Agora eu apertei sua mão e quando deixei sua loja, senti como se ele e eu fossemos parte de um time. Um time secreto.
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Tinha perdido dois dias de escola, mas não pareceu que tinha perdido muita coisa. Eles haviam fechado as escolas durante aqueles dias, enquanto a cidade se recuperava. O dia seguinte havia sido dedicado a lamentar aqueles que desapareceram ou presumidamente estavam mortos. Os jornais publicavam biografias dos desaparecidos. A Web estava cheia de pequenos obituários, milhares deles.
De forma embaraçosa eu era uma destas pessoas. Pisei no pátio da escola sem saber disso e então ouvi um grito e no momento seguinte havia uma centena de pessoas me cercando, de dando tapinhas nas costas, apertando minha mão. Duas garotas que eu nem conhecia me beijaram e foram beijos mais do que simplesmente amigáveis. Eu me senti como um astro do rock.
Meus professores, contudo, foram um pouco mais controlados. Senhorita Galvez chorou tanto quanto minha mãe tinha chorado e me abraçou por três vezes antes de me deixar sentar no meu lugar. Havia algo novo na frente da sala de aula. Uma câmera. Senhorita Galvez percebeu que eu olhava para ela e me passou um comunicado xerocado da direção da escola.
O Comitê das Escolas Unificadas do Distrito de São Francisco tinha se reunido numa sessão de emergência no fim de semana e, por voto unânime, pediram a cada pai das crianças da cidade a permissão para colocar circuitos de televisão em cada sala e corredor. A lei dizia que eles não podiam nos forçar a ir para escolas com câmeras por toda parte, mas não dizia nada sobre nós abrirmos mão voluntariamente de nossos direitos constitucionais. A carta dizia que o Comitê tinha total certeza que conseguiria a completa aquiescência dos pais desta cidade, mas eles fariam arranjos para ensinar também aquelas crianças cujos pais se objetassem, em salas separadas “desprotegidas”.
Por que tínhamos câmeras na sala de aula agora? Terroristas, é claro. Por que depois de explodir uma ponte, os terroristas haviam indicado que as escolas seriam as próximas. De alguma forma, esta fora a conclusão a que chegou o Comitê.
Li a nota por três vezes e então levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Senhorita Galvez, sobre esta nota?”
“Sim, Marcus?”
“O objetivo dos terroristas não é fazer com que fiquemos aterrorizados? Não é por isso que se chama terrorismo?”
“Suponho que sim.” A classe estava me olhando. E não era o melhor aluno da escola, mas era bom em debates na sala de aula. Eles esperavam para ouvir o que eu tinha para dizer em seguida.
“Então nós não estamos fazendo o que os terroristas queriam de nós? Eles não ganham se agimos todos com medo e colocamos câmeras nas sala e tudo isso?”
Houve um rumor nervoso. Um dos outros levantou a mão. Era Charles. Senhorita Galvez o deixou responder.
“Colocando câmeras nas salas ficamos mais seguros, o que faz termos menos medo.”
“Seguros contra o quê?” respondi antes dele acabar.
“Terrorismo” disse Charles. Os outros concordam.
“Como isso vai adiantar? Se um homem bomba entrar aqui e explodir com a gente...”
“Senhorita. Galvez, Marcus está violando a política da escola. Não podemos fazer piadas sobre ataques terroristas...”
“Quem está fazendo piada?”
“Obrigada, aos dois.” disse Senhorita Galvez. Ela parecia verdadeiramente triste. Senti-me mal por roubar a atenção da sua turma. “Acho que é uma discussão muito interessante, mas vamos deixar para uma próxima aula. Acho que estes assuntos podem ser bastante emocionais para nós termos uma discussão hoje. Agora, podemos voltar aos sufragistas?”
Então passamos o resto daquela hora falando sobre os sufragistas e de novas estratégias lobistas para conseguir colocar quatro mulheres em cada escritório de cada congressista para ensiná-los e deixar que soubessem o que significaria para seus futuros políticos se continuassem negando o direito de voto para as mulheres. Isso era normalmente algo que eu gostava - uns poucos fazendo muito e poderosamente honesto.
Mas hoje eu não conseguia me concentrar. Talvez fosse pela ausência de Darryl. Nós gostávamos de estudos sociais e nos sempre começávamos uma conversa pelo IM em nossos computadores escolares para falar sobre a lição.
Eu tinha gravado vinte discos com ParanoidXbox na noite anterior e eles estavam na mochila. Passei para aqueles que eu sabia que estavam por dentro da coisa. Todos tinham um Xbox Universal ou dois, do ano passado, ma a maioria tinha deixado de usá-los. Os jogos eram muito caros e nem um pouco divertidos. Eu os distribuía entre as aulas, no recreio, na sala de estudos e cantava as glórias dos jogos no ParanoidXbox. Diversão de graça - games sociais viciantes com um monte de gente bacana jogando por todo o mundo.
Dar uma coisa para vender outra é o que chamam de "negócio tipo navalha" -companhias como a Gillette dão para você um aparelho de barbear de graça e então ganham uma fortuna vendendo lâminas. Com os cartuchos de impressão é bem pior que isso - a mais cara champanhe do mundo é barata se comparada ao preço da tinta de impressora, que custa um centavo por galão no atacado.
Este negócio tipo navalha depende de você não ser capaz de conseguir “as lâminas” de outro lugar. Além disso, se a Gillette consegue nove em cada dez dólares gastos com trocas de lâminas, por que não começar como um competidor que cobra quatro mangos por uma lâmina idêntica? Uma margem de lucro de 80% é o tipo de coisa que faz qualquer sujeito do mundo dos negócios babar.
Então, empresas tipo a Microsoft, empregam um grande esforço para tornar ilegal ou difícil alguém competir com ela pelas lâminas. No caso da Microsoft, cada Xbox possui contramedidas para evitar que você o use com softwares feitos por pessoas que não pagaram uma boa grana à Microsoft pelo direito de vender jogos para Xbox.
As pessoas que conheço não pensam muito sobre isso. Eles se animam quando eu digo que os jogos não são monitorados. Nestes dias, qualquer jogo online que você joga é cheio de todo tipo de coisas nojentas. Primeiro tem os pervertidos que tentam convencê-lo a ir a algum lugar onde farão todo tipo de “Silêncio dos Inocentes” com você. E tem a polícia que finge que ser crianças ingênuas para poder pegar os pervertidos. E o pior de tudo isso são os monitores que passam o tempo espiando suas discussões e xeretando se alguém está violando os Termos do Serviço, o que significa nada de paquera, nada de palavrões, e nada de “linguagem de duplo sentido que insulte a qualquer aspecto de orientação sexual ou sexualidade.”
Eu não sou um cachorro no cio vinte e quatro horas, sete dias por semana, mas tenho dezessete anos. Sexo sempre aparece numa conversa e sempre aparecerá. Mas Deus te ajude se aparecer num chat enquanto você está jogando. Tá ferrado. Ninguém monitora os jogos do ParanoidXbox, pois não são executados por uma companhia mas são só jogos criados por hackers.
Então é assim, os maníacos por jogos adoram esta história. Eles pegam os discos com gratidão e prometem copiar para todos os seus amigos - afinal, os games são mais legais quando você joga com os seus camaradinhas.
Quando cheguei em casa li que um grupo de pais estava processando na justiça o Comitê escolar por conta das câmeras de vigilância nas salas de aula, mas já tinham perdido a injunção preliminar contra eles.
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Não sei quem veio com o nome Xnet, mas pegou. Você ouvia as pessoas falarem sobre ela na Muni (apelido para o sistema publico de trânsito de São Francisco; ônibus, bondes,etc.). Van me ligou para perguntar se eu já tinha ouvido falar sobre ela e fiquei chocado quando me dei conta de que se tratavam dos discos que eu comecei distribuindo semana passada e que já se achavam até em Oakland, no espaço de apenas duas semanas. Isso me fez ficar cabreiro - como se tivesse quebrado uma regra e agora o DHS (Departamento de Segurança do Estado) viria e me levaria embora para sempre.
Estas seriam semanas difíceis. O sistema de trens e metrô tinha abandonado completamente a venda de passagens por dinheiro, trocando-a por cartões que você apenas aproxima das roletas para poder passar. Eles eram legais e bem convenientes, mas toda vez que você usava um, eu imaginava como estaria sendo seguido. Alguém na Xnet colocou um link para um documento da Eletronic Frontier Foundation que dizia que estas coisas poderiam ser usadas para seguir o povo e contava algumas pequenas historias sobre algumas pessoas que protestaram contra isso nas estações da BART.
Eu usava a Xnet para quase tudo agora. Criei um email com endereço falso através da Pirate Party, um partido político sueco que odiava vigilância na internet e que prometia manter suas contas de email em segredo - mesmo da polícia. Eu a acessava estritamente via Xnet, pulando de uma conexão de internet das vizinhanças para outra anonimamente - eu esperava - até a Suécia. Não mais usava ‘W1N5T0N’. Se Benson podia descobrir, qualquer um podia. Meu novo logon veio de um estímulo momentâneo, era M1k3y, e eu recebia um monte de email de pessoas que tinham ouvido em salas de discussão e quadros de mensagens que eu poderia ajudar a solucionar problemas das configurações e conexões de suas Xnet.
Sentia saudades de Harajuku Fun Madness. A companhia suspendera o jogo indefinidamente. Disseram que por ‘razões de segurança’ não seria uma boa idéia esconder coisas e então mandar pessoas as procurar. E se alguém pensasse que é uma bomba? E se alguém colocasse uma bomba no mesmo lugar?
E se eu fosse atingido por um raio enquanto andava com um guarda-chuva? Vamos proibir guarda-chuvas! Combata a ameaça do raio!
Continuei usando meu laptop, mas isso me dava arrepios. Quem quer que o tivesse grampeado poderia imaginar por que eu não o usava mais. Todos os dias eu fazia algum acesso randômico na rede, um pouco menos a cada dia, para que qualquer um que estivesse me vigiando achar que eu estava mudando meus hábitos, e não mudando repentinamente. Na maioria das vezes ficava lendo aquelas mensagens de óbito arrepiantes - milhares de amigos e vizinhos mortos no fundo da baía.
Verdade seja dita, eu fazia cada vez menos trabalho de casa. Tinha outros negócios para tratar. Todo dia gravava pilhas de discos com ParanoidXbox, cinqüenta ou sessenta discos, e os levava pela cidade para pessoas que queriam fazer sessenta copias para si mesmo ou amigos.
Não me preocupava em ser pego fazendo isso, por que eu tinha a boa e velha cripto ao meu lado. Cripto, ou criptografia, significa “escrita secreta” e existe desde os tempos de Roma (Augustus Cesar era um grande fã e inventava seus próprios códigos, alguns ainda usados hoje em dia na forma de piadas em email.)
Cripto é matemática. Matemática pura. Não vou tentar explicar em detalhes por que a coisa ainda não entrou na minha cabeça, mas olhe na Wikipédia se realmente quiser saber como funciona.
Mas aqui está a versão do Cliff’s Notes. Algumas das funções matemáticas são bem fáceis de fazer numa direção e realmente difíceis de fazer em outra direção. É fácil multiplicar dois grandes números primos e obter um número gigante. É enormemente difícil pegar qualquer número gigantesco e descobrir quais números primos multiplicados dão aquele número.
Isso significa que se você pode embaralhar algo baseado em multiplicação de grandes números primos, desembaralhar sem saber quais são estes números será bem difícil. Difícil mesmo! Tipo, todos os computadores do mundo trabalhando 24 horas por dia durante um trilhão de anos não conseguiriam.
Existem quatro partes de qualquer mensagem criptografada. A mensagem original, chamada texto limpo, a mensagem embaralhada, chamada texto cifrado. O sistema de embaralhamento, chamado código cifrador e finalmente a chave secreta que alimenta o código (logaritmo) para transformar o texto limpo em texto cifrado.
Eu era um desses caras que usam cripto para tudo. Toda agência do governo tem seus próprios códigos e suas próprias chaves. Os nazistas e os aliados não queriam que outros soubessem como eles embaralhavam suas mensagens e deixavam separadas as chaves que poderiam desembaralhá-las. Isso parece uma boa idéia, certo?
Errado.
A primeira vez que alguém me contou sobre como fatorar números primos eu imediatamente disse: “Nem vem, isso é besteira! Quer dizer, é lógico que é difícil fazer este fatoramento de primos, qualquer um vai te dizer isso. Mas também era impossível voar ou ir até a lua ou fazer um disco rígido com mais do que alguns kilobytes de armazenamento. Alguém deveria inventar um jeito de desembaralhar estas mensagens.” Eu tinha visões com uma montanha oca cheia de matemáticos da NSA (Agência de Segurança Nacional) lendo e bisbilhotando todos os emails do mundo.
De fato, isso se parece um pouco com o que aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Esta é a razão pela qual a vida não é mais como Castle Wolfenstein (game), onde eu passava os dias caçando nazistas.
O que acontece é que códigos são difíceis de manter em segredo. Existe muita matemática aplicada neles e se são largamente usados, então qualquer um que os utiliza tem que manter o segredo sobre eles. Também e se alguém muda de lado, você vai precisar de um novo código.
O código nazista chamava-se Enigma e ele usavam um pequeno computador mecânico chamado Máquina Enigma para embaralhar e desembaralhar mensagens. Cada submarino e navio e estação precisava de uma máquina dessas, então era inevitável que eventualmente os aliados conseguissem colocar as mãos em uma delas.
Quando o fizeram, eles quebraram o código. Este trabalho foi encabeçado pelo meu herói particular de todos os tempos, Alan Turing, que praticamente inventou os computadores como conhecemos hoje. Infelizmente para ele, ele era gay, então quando a guerra terminou, o estúpido governo Britânico o forçou a tomar injeções de hormônios para “curar” sua homossexualidade e ele se matou. Darryl me deu uma biografia de Turing no aniversário de 14 anos - e eu me tornei um apaixonado por Turing desde então.
Agora que os aliados tinham a Máquina Enigma e podiam interceptar as mensagens de rádio nazistas, que não deviam ligar para isso, pois cada capitão tinha sua própria chave secreta. Uma vez que os aliados não tinham estas chaves, ter a máquina não iria ajudá-los em nada.
Foi ai que descobriram o segredo que arruinou a cripto: o código Enigma era falho. Quando Turing atenciosamente estudou a máquina, percebeu que os criptografistas nazistas tinham cometido um erro matemático. Com a Máquina Enigma nas mãos, Turing poderia desvendar qualquer mensagem nazista, não importava que chave fosse usada.
Isso custou a guerra aos nazistas. Quero dizer, não me entenda mal. Isso foi bom. Dito por um veterano em Castle Wolfenstein. Você não iria querer os nazistas mandando em seu país.
Depois da guerra, os criptografistas passaram bastante tempo pensando sobre isso. O problema fora que Turing era mais esperto que o cara que pensou o Enigma. Toda vez que alguém criava um código, ficava vulnerável a alguém mais esperto que vinha com um jeito de quebrá-lo.
E quanto mais pensavam nisso, mais percebiam que qualquer um podia vir com um sistema de segurança que eles não saberiam como quebrar. Mas ninguém pode imaginar o que uma pessoa inteligente pode fazer.
Você tem que tornar um código conhecido para saber se este funciona. Tem que dizer a quantas pessoas for possível como funciona para que possam testá-lo com tudo que podem, colocando a sua segurança em prova. Quanto mais tempo você conseguir passar sem que se achem uma falha, melhor ele é.
É como funciona hoje. Se você quer ficar seguro, você não usa um cripto que algum gênio bolou semana passada. Você usa aquele que as pessoas vêm usando há muito sem que ninguém consiga quebrar. Não importa se você é um banco, um terrorista, o governo ou um adolescente, você utiliza o mesmo código.
Se você tentar usar seu próprio código, existe uma chance de que alguém por aí encontre uma falha nele e dê uma de Turing para cima de você, decifrando todas as suas mensagens secretas e rindo de suas fofocas idiotas, transações financeiras e segredos militares.
Então eu sabia que a criptografia podia me manter a salvo dos abelhudos, mas eu não estava pronto pra lidar com histogramas.
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Sai na BART e balancei meu cartão sobre a roleta enquanto me encaminhava para a estação da rua 24. Como sempre havia um monte de esquisitos de bobeira na estação, bêbados e seguidores malucos de Jesus, e mexicanos e alguns garotos de gangues. Olhei direto através deles e quando cheguei às escadas e alcancei a superfície. Minha sacola estava vazia agora, não mais carregada de discos de ParanoidXbox que estivera distribuindo e que fazia me sentir leve enquanto caminhava para casa. Os pregadores, contudo, continuavam seu trabalho, exortando em espanhol e inglês sobre Jesus e por ai vai.
Os vendedores de óculos de sol falsificados tinham ido embora, mas substituídos por caras vendendo cachorrinhos robôs que latiam o hino nacional e levantavam as perninhas se você mostrava uma foto de Osama Bin Laden. Devia haver algo interessante em seus pequenos cérebros e fiz uma nota mental sobre comprar alguns para abri-los depois. Reconhecimento facial era relativamente uma novidade em brinquedos e apenas recentemente tinham feito a transição de assunto militar para aparecer nos cassinos, usado para identificar trapaceiros.
Desci a rua 24 em direção a Potrero Hill e meu lar, sentindo o aroma de burritos que escapava dos restaurantes e pensando na janta.
Não sei por que dei uma olhada por sobre o ombro, mas o fiz. Talvez tenha sido uma coisa subconsciente de sexto-sentido. Sabia estar sendo seguido.
Eram dois caras musculosos brancos com pequenos bigodes que podiam fazê-los passar por policiais ou ciclistas gays que vivem para cima e para baixo na rua Castro, mas os gays normalmente tem corte de cabelos melhores. Usavam agasalhos cor de cimento velho e jeans de cintura oculta. Pensei sobre todas as coisas que um tira pode usar em seu cinto, como um cinto de utilidades que os caras da DHS usavam no caminhão. Ambos usavam fones de ouvido Bluetooth.
Continuei andando, meu coração saltava no peito. Eu estava esperando por isso desde que comecei. Esperava pelo DHS percebesse o que eu estava fazendo. Eu tomei precauções, mas a mulher de cabelo militar tinha me dito que eles estariam me observando. Ela tinha me dito que eu era um homem marcado.
Percebi que estive esperando ser capturado e levado de volta à cela. Por que não? Por que Darryl podia continuar preso e eu não? O que será que tinham contra mim? Nem aos meus pais eu tinha contado - ou aos pais de Darryl - o que realmente aconteceu conosco.
Acelerei o passo e fiz um inventário mental. Não tinha nada que me incriminasse na minha bolsa. Não muito, de qualquer forma. Meu computador escolar estava executando um crack que deixava usar o IM e coisas assim, mas metade dos caras na escola fazia o mesmo. Eu tinha mudado a forma de bloquear meu telefone - agora eu tinha uma partição falsa que eu podia desfazer com uma senha, mas todas as coisas boas estavam escondidas e precisavam de outra senha para abri-las. A seção escondida parecia lixo aleatório - quando você criptografa dados, se torna indistinguível do lixo normal - e nunca saberiam que estava lá.
Não havia discos na minha bolsa. Meu laptop estava livre de evidências incriminantes. É claro: se fossem vasculhar meu Xbox, fim de papo.
Parei onde estava. Tinha feito um bom trabalho para me proteger. Era hora de encarar meu destino. Entrei na vendinha mais próxima e pedi um burrito com carnitas - porco fatiado - e salsa extra. Se eu iria ser preso seria com o estômago forrado. Peguei um copo de horchata também, um refresco gelado que era quase água, pudim de arroz meio doce (melhor do que parece).
Sentei-me para comer e uma calma profunda me envolveu. Estava prestes a ir para a cadeia por meus "crimes" ou não. Minha liberdade, desde que havia sido capturado tinha sido só um feriado temporário. Meu país não era mais meu amigo - estávamos de lados diferentes e eu sabia que nunca poderia vencê-lo.
Os dois sujeitos entraram no restaurante quando eu terminava o burrito e ia pedir uns churros - massa frita e coberto de açúcar com canela - para sobremesa. Acho que estavam esperando do lado de fora e se cansaram da minha vadiagem.
Ficaram atrás de mim no caixa, me cercando. Peguei o churro da pequena avozinha e paguei-a, dando algumas mordidas antes de me virar. Queria ao menos aproveitar um pouco a sobremesa. Podia ser a última que teria em muito tempo.
Então me virei. Estavam tão perto que dava para ver as espinhas na bochecha do cara à esquerda e a meleca no nariz do outro.
“Licença!” eu disse, tratando passar por eles. O da meleca se moveu me bloqueando.
“Senhor,” ele disse, “pode vir conosco?” fez um gesto para a porta do restaurante.
“Desculpe. Estou comendo.” disse e tentei sair de novo. Desta vez ele colocou a mão em meu peito. Ele estava respirando rápido através do nariz, fazendo a meleca seca se mexer. Acho que eu estava respirando rápido também, mas era difícil de saber além do martelar do meu coração.
O outro puxou a frente do casaco revelando uma insígnia da SFPD (Departamento de Polícia de São Francisco).
“Polícia.” disse. “Venha conosco!”
“Deixe-me pegar minhas coisas.” eu falei.
“Nós cuidaremos delas” disse. O melequento deu um passo a direita, com o pé entre os meus. Igualzinho como se faz em artes marciais. Deixa você saber se o outro cara está deslocando seu peso pronto para se mover.
Eu não ia correr. Eu sabia que não dava para correr do destino.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6 [ Download ]
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
A Mile Beyond The Moon - Cyril M. Kornbluth
Coletânea de Ficção Científica do escritor americano Cyril Michael Kornbluth, publicada pela primeira vez em 1962, quatro anos após sua morte.
A maior parte da obra de Kornbluth foi escrita nos anos 50, frequentemente aparecendo em revistas populares como a Astounding Science Fiction.
Uma característica marcante deste escritor pouco conhecido (talvez por ter falecido antes de ter recebido o reconhecimento de um grande autor), é sua preferência pelo lado negro da humanidade, em detrimento da corrente vigente de explorar a diversão fácil ou a aventura vazia. Kornbluth gostava literalmente de enfiar o dedo na ferida cicatrizada e expor nosso lado mais secreto, revelando aquilo que, por vergonha ou medo, gostaríamos que ficasse escondido.
É identificável na curta obra de Kornbluth, as sementes da preocupação social e de crítica à sociedade, onde o homem comum é o objeto de trabalho, anunciando novos horizontes para a ficção, uma corrente chamada posteriormente de Ficção Científica Soft.
É claro que nesta coletânea não faltam as visões apocalípticas, os mocinhos e alienígenas, a busca pela justiça e a esperança... mesmo que ao estilo sombrio de C.M.Kornbluth.
Contents
MAKE MINE MARS
THE EVENTS LEADING DOWN TO THE TRAGEDY
THE LITTLE BLACK BAG
EVERYBODY KNOWS JOE
TIME BUM
VIRGINIA
KAZAM COLLECTS
THE LAST MAN LEFT IN THE BAR
THE ADVENTURER
THE WORDS OF GURU
SHARK SHIP
A Mile Beyond The Moon - C. M. Kornbluth [ Download ]
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
The Melancholy Android
(...recounts the lives of the technological visionaries responsible for blurring human and machine. Focusing on Descartes, la Mettrie, Jacques de Vaucanson, and Thomas Edison, Wood is keen on the bizarre details surrounding the concoction of humanoid machines, the habits of the men who have loved levers over limbs.
In her more intellectually ambitious study, Nelson examines how the androids of modern literature, cinema, and comics recall the ancient Hermetic idea that human icons are conductors of divine as well as demonic energy.
Her study evokes the religious impulse behind the creation of androids and shows how the quest for mechanistic efficiency is really a drive toward Edenic grace. Warner in her little encyclopedia of the invisible world focuses on technologies designed to record the currents of spirit. Though she does not emphasize the android as a vehicle of unseen life, she details other modes by which people have recorded the beyond: poetry, painting, photography, cinema, séances, the gathering of ectoplasm. Telotte in his examination of androids in science fiction cinema considers how artificial humans in film measure our stances toward technology, humanity, and cinema itself. While the book focuses on film, it also explores our enduring
fascination with androids—how we embrace the android as manifestation of our ability to shape our environment, how we fear the android as register of mechanistic threat to our humanity.
Without these books as catalysts, I could not have formulated my irrational drives into arguments. Still, I was in the end forced to explore a phenomenon beyond the scope of these studies: the chronic melancholia besetting the man fixated on androids. This sadness of the machine maker and of his products eludes the historical focus of Woods, the cultural emphasis of Nelson, the optical theories of Warner, the cinematic analyses of Telotte.
The psychological currents of my essay take me to vague regions of the mind, to thresholds between the unconscious and consciousness, to the dark unconscious itself. These spaces—gloomy and somber—are beyond chronology, representation, sight, and celluloid. Yet, though mysterious, these realms nonetheless originate the drives behind the android: ruinous love for Eden, relentless instinct for death. If writers such as Wood, Nelson, Warner, and Telotte—Virgilian guides—pointed my way to these terrible places, then more ponderous beings led me through the gray air: not only Ficino, Kleist, Freud, and Jung, but also Poe, Goethe, and Mary Shelley.)
Contents
Acknowledgments
Introduction
1. The Melancholy Android
2. The Mummy
3. The Golem
4. The Automaton
5. The Sadness of the Somnambulist
Conclusion
Notes
Bibliography
Index
The Melancholy Android - On the psychology of sacred machines - Eric G.Wilson [ Download ]
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