domingo, 27 de dezembro de 2009

Entrevista com Gene Wolfe




Qualquer autor com uma obra como a de Gene Wolfe, poderia decidir que é hora de descansar sobre os louros, depois de uma carreira de escritor que se estende por décadas.

Mas não Gene Wolfe.

Este homem de muitas histórias começou a escrever ficção científica na década de 1950 e vendeu sua primeira história, "The Dead Man" em 1965. Desde então, escreveu mais de 20 romances, e algo em torno de 250 contos. Wolfe deixou sua marca no campo da ficção científica e da fantasia.

Ele ganhou quase todos os prêmios que um escritor de ficção científica pode ganhar, com exceção do Hugo. Sobre o seu trabalho, ele diz: "Apesar de nunca ter vencido o Hugo, fui indicado oito vezes. Até agora. "



Pergunta: O que você acha da Internet?

Wolfe: Eu acho todo este rebuliço exagerado. Certamente tem um grande potencial. Parece ser útil em muitos aspectos. Bem, é um milagre tecnológico, vamos colocá-lo assim. Eu não acho que ela poderá fazer muitas das coisas que estão sendo ditas. Deixe-me dizer o seguinte: Não há ninguém no mundo que sabe menos sobre computadores do que eu. Crianças pequenas sabem mais sobre a manipulação de um computador caseiro do que eu.


P: Bem, elas cresceram com ele.

Wolfe: Eu fui conhecê-los basicamente na velhice. Eu tinha 70 anos quando comprei meu primeiro computador. Eu não sou um expert e eu nunca serei um perito.


P: Você tem uma história chamada "Copperhead" na SCIFI.com. Você está de olho no mercado de publicação on-line como uma saída para suas histórias, certo?

Wolfe: Claro, claro. Você tem que olhar para as áreas onde você possa vender seu trabalho. Certamente.


P: Você prevê que o mercado on-line vai substituir a publicação tradicional?

Wolfe: Não no nosso tempo. Não no meu e não acho que no seu também. Acabará por acontecer, penso eu, surgirá uma terceira coisa que vai substituir ambas. Pode ser algo entre computadores e o papel impresso a tinta, mas eu não sei. Não vou tentar prever o que poderia ser. O que estamos vendo é que a imprensa tem algumas desvantagens, como a lentidão. O computador tem também algumas desvantagens, não dá para colocar no bolso do casaco ou ler na banheira. E eu acho que precisamos de algo que vai ser entre esses dois. Eu poderia especular, mas seria apenas uma especulação do tipo que encontramos em uma história de ficção científica.


P: Bem, nós começamos a falar sobre computadores antes do que eu estava planejando.

Wolfe: Sei muito pouco sobre eles. Eu definitivamente estou por fora deste mundo. Você sabe, eu nunca criei meu próprio site e acho que eu nunca o farei, porque realmente não quero aprender muito sobre isso. Muitas pessoas são fascinadas por eles e isso é bom, mas eu não sou uma dessas pessoas. Há um monte de gente que é fascinada por cavalos. Eu costumava andar a cavalo. Eu gosto de cavalos. Mas não sou fascinado por eles.


P: Em alguns aspectos, a Internet é a maior biblioteca do mundo. Eu descobri muito sobre você através dela. Sobre as batatas fritas Pringles por exemplo, mas não precisamos falar sobre isso.

Wolfe: [risos] Bem, é talvez a maior biblioteca do mundo em alguns aspectos. Você poderia dizer que sou um mau pesquisador. Mas para mim, depende muito do que eu estou procurando. Para algumas coisas deparamos com uma parede, ao tentar pesquisá-las na Internet. Para outras coisas é incrível. Você entra e brinca por 15 ou 20 minutos e tem a informação que procura. Eu nem sequer sabia se o nome do capitão do "Mayflower" era conhecido. E em 15 ou 20 minutos na Internet, eu tinha o nome do capitão do Mayflower. Isso é muito bom. Eu tentei pesquisar sobre algumas outras coisas sobre a mitologia clássica, e encontrei fontes que foram muito superficiais e pouca documentação.


P. Às vezes, quanto mais específica sua busca, melhor.

Wolfe: Bem, eu estava tentando encontrar alguns pontos específicos sobre a mitologia clássica. Eu estava escrevendo uma história chamada 'The Lost Pilgrim', sobre um viajante do tempo que pretende voltar a navegar no Mayflower para o Novo Mundo. Ele podia falar dialetos indígenas e sua idéia é certificar-se de que tudo fosse pacífico entre os peregrinos e os índios. Sua viagem no tempo dá errado, e ele acaba em uma ilha do Mediterrâneo, pouco antes da Argo chegar. E na esperança de visitar vários portos e recuperar o atraso com o Mayflower, ele embarca na Argo e se junta com Jasão e Hércules e um monte de gente assim. Era o que estava fazendo e é por isso que eu queria saber quem era o capitão do Mayflower, assim eu poderia usá-lo em minha história. Eu também queria pesquisar vários pontos sobre a Argo e o que aconteceu foi que estava perdendo meu tempo Gastei cerca de, eu não sei, uma hora provavelmente e não encontrei nada que fosse de valor.


P. Além dos computadores, qual é a melhor invenção? Qual é a coisa mais incrível?

Wolfe: A coisa mais surpreendente são as primeiras viagens espaciais. Quando eu era pequeno, que foi quando eu comecei a ler ficção científica,qualquer adulto responsável diria que as viagens espaciais nunca poderiam ocorrer. É a mesma coisa de que eu estava falando ... A terceira coisa que irá substituir os livros. É exatamente o tipo de coisa que muita gente diz hoje sobre a viagem interestelar. E eles estavam errados. Eles estavam absurdamente errados.


P. Você está pronto para comprar um bilhete no ônibus espacial?

Wolfe: Não. Não tenho nenhum desejo de ir ao espaço, apenas por ir. Parece-me como velejar no Atlântico. Eu não estou muito interessado em velejar. Estou interessante em ir para a França ou para algum lugar. Estou interessante em alcançar um destino. Acho muito interessante o fato de que as gerações, milhares de gerações, viram como uma lâmpada o que é visto hoje como uma ilha. Refiro-me à lua. O mesmo está em vias de se tornar verdade, com Marte e Vênus. Eventualmente vai acontecer. A questão é como e quando.


P. Portanto você quer um bilhete para Marte?

Wolfe: Se eu pudesse obter um bilhete para Marte hoje, não iria querer. Vou esperar até que ele tenham bons restaurantes [risos]. Você sabe, Woody Allen disse: "Tem que haver vida inteligente no espaço. A questão é se eles têm bons restaurantes chineses e se eles entregam? É uma piada, mas é também uma observação muito profunda. Quando você pergunta se eles têm bons restaurantes chineses, o que você está realmente dizendo é: "O quanto eles são parecidos conosco?" E quando você diz: "Será que eles entregam? Você está dizendo, "Eles podem vir até aqui?" Ambas são questões profundas. E no presente, não temos as respostas.


P. Eu queria perguntar-lhe sobre a sua série Sun. Ela terminou?

Wolfe: Sim, creio que sim. Sim. Obviamente não vou ser um idiota e dizer: "Não, eu nunca vou voltar a isso. Eu não me importo. Mas não tenho planos para voltar a ela.


P. Como resumiria a série? Saiu como queria?

Wolfe: Ah, foi algo muito maior do que inicialmente havia previsto, se é isso que você quer dizer. Quando comecei a escrever o que se tornou 'The Shadow of the Torturer', eu ia escrever um conto apenas. Estou falando sério. Posso contar-lhe sobre o que eu tinha planejado fazer. Eu comecei a escrever e fiquei pensando, puxa, há tanta coisa boa aqui para fazer, e assim eu continuei ampliando-a. Eu pensei, bem, isso vai ser um romance, em vez de um conto. Então eu pensei, bem, isso vai ser uma trilogia. E quando eu li a trilogia, o terceiro livro foi 50 por cento mais grosso do que os dois primeiros. Os dois primeiros tinham o mesmo tamanho. Então eu dividi o terceiro em dois. Em vez de cortar, eu embelezei-o um pouco mais. E acabei com quatro livros de tamanho aproximadamente igual. Então David Hartwell veio e disse: "Temos que colocar um ponto final. Ele disse: 'Olha, a propósito, Severian pega um buraco branco e ele volta e o enfia em nosso sol e esconde o universo "[risos]. E eu disse: "Isso é bem mais do que um parágrafo." Assim, acabamos com um acordo que ele iria publicar os quatro livros que eu tinha escrito, desde que eu escrevesse um quinto livro em que o buraco branco foi inserido no sol e todas essas coisas, o que eu fiz. Este é 'The Urth of the New Sun'.


P. De todos os romances e contos que você escreveu, quais são seus favoritos?

Wolfe: Isso muda de tempos em tempos.


P. Quais são hoje?

Wolfe: Isso é algo que eu não tinha pensado muito [risos]. Deixe-me pensar. Deixe-me pensar ... Eu sei que [depois] eu vou dizer: "Maldição, eu não deveria ter dito isso."


P. Bem, quais eram ontem?

Wolfe: Você está fazendo de propósito [risos] ... Acho que tudo isso é algum tipo de um impulso sádico... Eu diria que, entre os romances o meu favorito é provavelmente 'There are Doors'. Você leu por acaso?


P. Ainda não.

Wolfe: Ah ha, agora é minha vez. Ok, posso dizer-lhe coisas sobre o enredo e sobre os personagens e não saberá se estou mentindo ou não ... Eu acho que é o livro que tem coisas profundas a dizer sobre a condição humana e em particular, sobre a natureza do amor.


P. E entre os contos?

Wolfe: Agora eu estou tentando lembrar... Veja, são quase 250 contos. E alguns deles me parece que ninguém prestou muita atenção a eles.


P. Você poderia dizer aos seus fãs para procurarem ler estes contos.

Wolfe: Se pudessem encontrá-los, porque alguns deles foram publicados em lugares obscuros. Eu escrevi uma pequena história chamada "The Wrapper", sobre um homem que pode ver um outro universo, olhando através da embalagem de celofane de um doce. Você sabe, ninguém nunca prestou atenção para a história, e eu realmente gosto dela. Acho-a muito boa.


P. Como você lida quando você escreve algo que você acha que é especial e torna-se ignorado?

Wolfe: Se é um conto, você já espera por isso. Escrever contos é como ... Eu acho que foi Ray Lafferty que disse, atirar pétalas de rosa no Grand Canyon e em seguida, esperar ouvir o baque quando batem no fundo. Você aprende a esperar por isso. De vez em quando, raramente, alguém te escreve 20 anos mais tarde e diz: "Oh, você não sabe que história maravilhosa você escreveu" ou "Acabo de descobri-la e eu acho que é tremenda", ou "Eu li há 20 anos atrás e nunca esqueci desde então", ou algo parecido. Então você se sente muito, muito bem, mas você não espera que coisas assim aconteçam. Você sabe que geralmente não vai acontecer. Eu escrevi uma pequena história chamada "The Death of the Island Doctor", e que eu gosto muito, e ninguém prestou a mínima atenção.


P. Essa história não está em uma de suas primeiras antologias?

Wolfe: Eu acho que você está pensando provavelmente em "The Death of Doctor Island." Essa é uma história diferente. Eu escrevi uma história chamada "The Island of Doctor Death and Other Stories". Foi para o Nebula. Isaac Asimov a anunciou como a vencedora. Eu fui até receber o troféu. A comissão levantou-se pálida. Isaac na leitura de sua lista cometeu um engano ... o nome do vencedor. Um erro inocente e ele sentiu-se horrível sobre isso.

Então, voltei para casa e contei a alguém sobre isso, eu acho que foi provavelmente para Joe Hensley, um escritor de mistério. Joe disse: "Bem, bem, Gene, tudo que você tem a fazer agora é escrever" The Death of Doctor Island, e todos se sentirão tão culpados, que eles vão votar em você e você vai ganhar o prêmio". [Risos]. E eu pensei, "Ok Joe, Ok, você acha que eu não posso fazer isso. Sou capaz de escrever uma história chamada "The Death of Doctor Island," e eu fiz, e por Deus, ele estava certo! Ela ganhou o Nebula. Então as pessoas continuavam me trazendo títulos assim. E eu escrevi um outro chamado "The Doctor of Death Island", que ninguém gosta muito, inclusive eu, para ser honesto. E mais tarde, eu escrevi um que eu gosto muito chamado de "The Death of the Island Doctor", que é sobre um professor universitário. E é sobre a maneira que ele morre e o efeito que sua morte tem sobre seus alunos, eu acho que é uma história adorável, e eu sou o único que acha isso.


P: Você já tentou juntá-los numa coletânea?

Wolfe: Eu vou tentar. Não acho que tenha sido incluído em uma coletânea. Eu tenho uma enorme quantidade de material não publicado. Você sabe, David Hartwell, meu editor, veio recentemente e me disse: "Nós devemos fazer uma outra coletânea. Deve haver bastante material por aí para outra."


P: Parece uma trilogia de coletâneas.

Wolfe: Sim [risos] ... Coletâneas não vendem tanto. Os editores costumam fazê-las acompanhando os lançamentos de livros de sucesso, e a menos que seu nome seja Harlan Ellison, é muito difícil de conseguir publicá-las.


P: Quando você está trabalhando em um novo livro, qual é o processo que você atravessa para desenvolvê-lo?

Wolfe: Bem, normalmente eu tenho um monte de idéias se esgueirando na minha cabeça. As pessoas sempre dizem que é a idéia original. Geralmente eu tenho um monte delas. Posso dizer-lhe como Severian começou? Este é talvez um bom exemplo de como a coisa acontece. Como lhe disse, essa coisa ia ser um conto. Eu estava em uma Convenção de Fantasia, destas de fãs, com Bob Tucker, e Bob eu acho, era o convidado de honra ou algo assim. Ele achou que tinha que ir para a apresentação de casaca, porque alguns de seus bons amigos vestiam-se assim nesta apresentação. E ele disse: "Gene, venha sentar-se comigo, assim eu vou ter alguém para conversar." E eu disse OK. Então, eu estou sentado ali com Bob ouvindo as pessoas falarem de trajes de mascarados, e comecei a me dar conta de que nunca fiz um personagem do tipo que resulta em uma boa fantasia para se vestir. E eu disse: "Puxa, isso não é justo, por Deus, sabe, eu vou reclamar para o meu deputado no congresso. Deve haver algum tipo de lei sobre isso. " E depois de algum tempo, percebi que eu nunca tinha escrito, até aquele momento, um personagem que desse uma boa fantasia de mascarado.

Assim, enquanto eles estavam dizendo todas essas coisas, eu estava sentado lá pensando: "Vamos ver. Vamos criar um personagem que possa dar uma boa e dramática fantasia de mascarado e em seguida, alguém poderá fazer o meu personagem em um evento destes. Então eu pensei, botas pretas, calças pretas capa preta, porque preto é uma cor muito dramática e mascarados sempre querem ter capas, se possível. Uma máscara, porque muitos fãs parecem bobos sem elas, e as fantasias funcionam muito melhor se você pode cobrir seu rosto. Então eu tinha esse cara e ele tinha a calça preta e as botas pretas e essa capa preta e estava usando uma máscara preta, e eu pensei: "Quem é ele? De onde ele veio? Como ele se tornou aquilo que é? Oh, espere um minuto. Vamos dar-lhe uma espada, porque mascarados amam espadas ". Então, eu dei-lhe uma espada grande e percebi que ele era provavelmente o carrasco público. E então eu pensei: "Como é que ele conseguiu este emprego? De onde ele veio? O que o trouxe até aqui? "

Então eu planejei esse conto, que ia ser sobre um carrasco torturador que se apaixona por uma mulher que está sendo torturada. Ela morre. Ele chora a morte dela e depois recebe uma carta que diz: "Eu estou viva. Fui salva pelos meus amigos e a coisa toda era basicamente uma farsa, e eu adoraria que viesse visitar-me em tal lugar ". Que é na verdade uma armadilha, e ele sai à procura de seu amor. E claro, ela não está lá. Essa foi minha idéia original. Então como eu disse, a história foi ficando maior e maior e maior e se transformou em uma trilogia e acabou como uma pentalogia.

Você vai tendo um monte de idéias que vêm junto. Você diz: "Puxa, estive pensando sobre esse personagem. E eu poderia colocar dois desses personagens juntos, o que faria voar faíscas! " Eu escrevi uma pequena história sobre uma princesa em uma torre de vidro. Tipo coisa de conto de fadas. Um cavaleiro vem para resgatá-la, mas ela sofreu uma lavagem cerebral, de tal forma que consegue falar sua língua mas na verdade ela é uma jovem e bela chinesa, com todo um conjunto de conceitos bem diferentes. Você tenta e acaba por fazer bastante coisas assim, deste jeito. Acabei de escrever uma história de terror sobre um irmão e uma irmã. O irmão e irmã são praticamente os únicos personagens da história. Eu o escrevi para a Word Horror Convention. O irmão é aventureiro, um pouco bruto, um pouco paternalista a respeito de sua irmã mais nova, que é um pouco mais tímida do que ele, mas é também uma pessoa sensata. Então eles são dois bons personagens, e existe este atrito entre eles. Ele tende a andar em todas as direções e ela tende a se sentar e pensar sobre as coisas, e talvez fique um pouco perdida em pensar em como as coisas deveriam ser e da maneira que eles são. Então você pensa em situações em que você quer ver alguém dentro dela.


P: Qual é o nome desta história?

Wolfe: "Mute" (mudo) ... Você pega alguns desses personagens e coloca-os em uma situação, e talvez você esteja preocupado com o que realmente significa a lealdade, o que realmente significa o amor, o que realmente se entende por honra, e assim por diante. Como o ser humano enfrenta a morte e a perda, e assim por diante. E tudo começa para ele.

Quando começo a escrever, eu preciso saber quem é o personagem central. Em segundo lugar eu quero saber para onde a história está indo. Qual é o destino. Agora, posso mudar esse destino, enquanto estou escrevendo. Eu não começo sem isso, não vou só escrevendo e esperando que algo me ocorra. Tenho lido muitas histórias que foram escritas claramente desta forma.


P: Qual é o segredo para continuar a escrever bem depois de tantas histórias, tantos mundos e tantos personagens?

Wolfe: Bem, eu acho que as pessoas caem na armadilha de estarem escrevendo a mesma coisa repetidamente. Eu poderia citar autores, mas não vou fazê-lo, porque eu não tenho nenhum desejo de ferir as pessoas. Mas tem um monte de gente que já escreveu um bom livro, mas eles já o fizeram seis ou sete vezes. Em alguns casos, eles estão presos a isso. Eu tive uma aluna... Isso foi quando eu estava ensinando no Clarion, essa jovem era muito inteligente e muito criativa e ela era jovem e estava começando a menstruar. Aparentemente isso tinha sido um acontecimento crucial em sua vida, que a tinha afetado profundamente, e ela continuou a escrever histórias sobre o início da menstruação. E eu lhe disse: "Sim, vá em frente e faça-o. Tire do seu sistema. Escreva sobre isso até você achar ter dito o que você precisava dizer sobre isso. " E há pessoas, penso eu, que nunca, jamais, conseguirão tirar isso de si, e eles continuam a escrever sobre esta coisa, seja ela o que for, mais uma e outra vez. Lamento dizer que muitas vezes essas pessoas tem 40 e 50 anos, e eles ainda estão tentando, mesmo já como mães ou pais. E eu fico realmente triste por isso.


P: Você acha que muitas pessoas estão hoje, reescrevendo velhas histórias de ficção científica?

Wolfe: Com certeza. Muitas pessoas estão escrevendo histórias que Isaac Asimov escreveu muito melhor nos anos 50. É como no cinema. Os filmes são geralmente de uma rotina terrível, porque eles estão sendo feitos por pessoas que não sabem nada exceto cinema, e eles querem sempre ser o diretor ou o produtor de 'Some Like It Hot', ou o que for. Clássicos do cinema de 20 ou 30 ou 40 ou 50 anos atrás.


P: Quem é seu autor favorito? E quem, entre os novos, te impressiona?

Wolfe: Patrick O'Leary, é um deles. E parece que ele está escrevendo algo que é melhor do que qualquer coisa que ele escreveu antes. E ele tem escrito algumas coisas muito, muito boas. O nome do seu livro é 'The Impossible Bird', publicado pela Tor. Kathe Koja, estou lendo um monte de contos de Koja. Eu não li seus romances. Alguns dos contos são maravilhosos e eu não uso essa palavra levianamente. Alguém com quem eu estou muito impressionado, embora ela definitivamente precise de mais tempo, é Kelly Link. Há muita coisa boa nela e eu acho que ela está melhorando rapidamente. Acho que a melhor coisa que eu li dela foi "The Detective Girl", que eu acho maravilhoso. Algumas outras coisas dela são realmente muito, muito boas, mas eu posso ver algumas falhas e eu desejava ter lido antes o manuscrito e ser capaz de falar com ela um pouco antes dela publicar. Mas ela tem um monte de idéias novas e é talentosa.


P: Afinal você está feliz com o nível da ficção científica atual? Você acha que os escritores estão trabalhando duro o suficiente para serem criativos?

Wolfe: Eu certamente não estou satisfeito com o nível global do gênero. Eu acho que nunca estive. Não tenho certeza de que o problema seja que as pessoas não estão trabalhando duro o suficiente para serem criativas, embora possa ser isso. Eu acho que um monte de pessoas tem essa ideia de que se você contar uma boa história, não importa como você vai dizer isso. E eu não acho que isso seja verdade. Em segundo lugar, o fato de que esta era uma boa história, quando Robert A. Heinlein a escreveu, não significa que seja uma boa história hoje.


P: Então que conselho você daria para os novos escritores que estão começando e estão tentando ser publicados?

Wolfe: Oh, toneladas deles. Como eu disse, eu dei vários cursos de como escrever e é muito difícil dar conselhos gerais porque você precisa saber o que as pessoas estão fazendo, o que fizeram, e o que eles estão tentando fazer. Em primeiro lugar, eles precisam ler o tipo de material que eles estão tentando escrever, escritos por bons escritores. Em outras palavras, se eles estão tentando escrever contos, e eu acho que todo o escritor deve escrever novos contos, então eles devem encontrar bons contos e ler um monte deles e continuar a lê-los. Em segundo lugar, talvez a maioria, obviamente, precisam escrever e reescrever e revisar. Acho que os novos escritores têm freqüentemente a idéia de que o primeiro esboço é o que vale. Uma coisa que acontece sempre com os novos escritores, escritores que estão começando, é que eles escrevem uma história e quando chegam ao final dela, eles acham que a terminaram. Então eles pegam uma coleção de Neil Gaiman, digamos 'Smoke and Mirrors', que é repleta de contos. Gaiman é um escritor fantástico. E eles comparam o que eles têm escrito com o que Gaiman escreve, e percebem que a deles não é tão boa assim.

Bem, em primeiro lugar Neil Gaiman tem feito isso por 20 anos, talvez mais. Eu não sei. Em segundo lugar, o que você está lendo é provavelmente a quinta versão de Neil Gaiman. Eles têm que perceber que só em filmes ruins que alguém se torna um sucesso da noite para o dia, sem qualquer preparação, sem nada. Eu gostaria de lembrar do ator entrevistado, que eu vi na TV. O entrevistador estava dizendo, "Bem, você virou um sucesso da noite para o dia." E ele disse: "Sim, da noite para o dia levou 15 anos para acontecer." Você se esforça por 15 anos ou mais, e de repente você faz algo que realmente é excelente e todo mundo diz, "Quem é este sujeito novo?" O sujeito novo é um rapaz ou moça, que esteve na luta por 15 anos. Falando de um modo geral.

Você tem que pensar sobre o que você está escrevendo. Tantas vezes eu leio coisas de pessoas que não pensam sobre o que escrevem e eu me surpreendo. Eu conheço uma moça de 19 anos, muito inteligente, que escreve desde que ela tinha 12 anos, que ocasionalmente envia-me histórias suas e coisas para eu ler. E frequentemente eu lhe digo coisas do tipo "Mas você tem este cara que está cercado por arqueiros, numa chuva torrencial. Em 30 segundos estarão todos molhados e seus arcos serão inúteis. E ela diz: "Ah, eu não pensei nisso." Você tem que pensar nisso. Você tem que pensar nestas coisas.

Eu li uma história muito agradável um tempo atrás, que se passava na Paris do século 19. Parte da coisa se passa sobre um punhal de palco, destes com sangue falso escondido no cabo, de modo que quando um ator esfaqueia um outro ator, o sangue parece sair e funciona bem no palco. E um personagem diz para outro que há meio litro de sangue no punhal. Em primeiro lugar, você não pode colocar meio litro de líquido nenhum no punho do punhal. É completamente irreal. E em segundo lugar, um francês do século 19 em Paris, não vai medir as quantidades de líquidos em litros. Ele iria dizer tantos centímetros cúbicos de sangue. Assim quando o escritor escreve esse tipo de coisa, eu estou pronto para largar o livro e chutá-la por toda a sala, porque ele não está pensando sobre o que está fazendo. Não é uma questão de pesquisa. Qualquer um pode olhar para um punhal em um museu e ver que não vai caber meio litro. E qualquer pessoa com alguma inteligência deve saber que eles usam o sistema métrico na Europa continental.

Você precisa pensar direito no que quer (tentar] fazer. Você precisa entender que a idéia para uma história é basicamente uma idéia para um fim.

Provavelmente, há 10 anos atrás, eu estava em uma Convenção em Michigan, em algum lugar, e eu estava em uma festa, com uma garrafa de cerveja na mão e conversando em um círculo de amigos. E as pessoas vinham até mim, várias pessoas diferentes, me oferecer ideias para uma história. Não só nenhuma destas ideias eram originais, e acreditem, não eram mesmo, mas não eram realmente ideias para uma história. Eram situações em aberto. Você não pode começar a escrever, ou você não deve começar a escrever, com apenas uma situação em aberto. Sim, seria interessante se alguém fizesse um pacto com o diabo que lhe permitisse que qualquer pessoa acreditasse naquilo que dizesse, desde que fosse dito entre meia-noite e uma da manhã, mas essa é apenas uma situação. Para se ter uma ideia de verdade, você tem que dizer onde isso tudo acaba. E isso é o que [essas pessoas] não tinham. Note que eu não levaria estas ideias em conta, porque como eu disse, não eram originais. Uma vez que você está acostumado a ter ideias, é uma questão de selecionar aquelas que você tem tempo suficiente para trabalhar e não de tentar obter novas. O enredo não é uma ideia. É o que acontece no curso da história. A ideia é sobre do que se trata a história.

Eu fiz uma grande coisa para a última aula que dei, sobre como desenvolver o enredo de Cinderela, e como trabalhar no processo. Você sabe que o príncipe está indo salvá-la. Mas para resgatá-la do quê? Bem, de sua família. Ela era desprezada por sua família, e assim por diante. E nós trabalhamos com ele e conseguimos todo o enredo da Cinderela, como se alguém fosse contá-lo para um amigo. A coisa assim fica fácil, porque você olha para o que é, do que precisa, e o que eles estão tentando fazer, seja isso o que for. E o que pode dar errado.

OK, temos um cientista louco em um castelo na Europa e ele descobriu um jeito de reanimar carne morta. OK, o que é que ele vai fazer? Como ele demonstrará esta grande descoberta para o mundo? Bem, ele tem um pedaço de carne reanimada, mas ele pode fazer algo muito mais sofisticado do que isso. Ele pode fazer um indivíduo das peças reanimadas. OK, agora o que pode dar errado com isso? Agora você está indo na direção certa. O que pode dar errado? Obviamente, quando ele tem essa nova pessoa que ele reanimou, esta pode não ser tão cooperativa quanto ele pensava. E assim por diante ... A caracterização é absolutamente essencial. Todas essas coisas são realmente absolutamente essenciais. As pessoas pensam que isso é difícil, e por conta disso não irão fazê-lo. Já reparou?


P. Sim.

Wolfe: Você pode caracterizar com poucas palavras, mostrando como o personagem age, fala ou pensa, de uma forma característica. E você não deve fazer dizendo para o leitor que esta pessoa é corajosa ou tola. Você mostra a pessoa desta forma. E você nunca diz tudo. É fácil falar isso, mas é quase impossível conseguir que as pessoas que estão tentando escrever, realmente o façam. Quando eu ensinei na Clarion West, em Seattle, havia um cara lá que eu chamarei Bob. Acredite em mim, seu nome não era Bob. Ele deveria ser o melhor escritor do grupo. Ele já tinha passado pela Clarion. Tinha uns 30 e pouco. Já escrevi há bastante tempo e você pensaria que este seria um dos melhores. Ele não era, e a razão era que, quando escreveu uma história e teve de introduzir um novo personagem, parou tudo e ficou por três páginas falando sobre este personagem. Quem ele era, de onde ele veio, como ele era, o que ele gostava de comer, o seu relacionamento com os outros personagens no passado, suas motivações, como se vestia. No final, eu era o último instrutor daquele período na Clarion e eu peguei a última história do Bob, e a li completamente, e ele estava fazendo a mesma coisa. De novo. Ele usava isso para dizer ao leitor como deveria se sentir, na sua opinião, sobre este personagem. E eu disse: "Olha, Bob, eu estou aqui há uma semana. Eu conheço os cinco instrutores. Eu sei que são todos bons escritores, e eu sei muito bem que todos esses cinco lhe disseram para não fazer isso. E eu sei que tenho lhe dito para não fazer isso durante toda a semana. Agora é sexta-feira e é o último dia do curso, e você ainda está fazendo isso. Por que você está fazendo?" E ele disse: "Bem, eu acho que precisamos disso." Bem, o que você faria?


P: Parece que ele não estava ouvindo.

Wolfe: Não, ele estava ouvindo. Ele não estava concordando. Ele sabia o que todo mundo estava dizendo para ele, mas ele tinha uma certeza interior que lhe dizia o que devia ser feito. E você não pode fazer nada a respeito disso.

P: Desiludiu-o então?

Wolfe: Não, ele me fez perceber que é fácil dizer às pessoas como escrever e extremamente difícil fazê-los acreditar em você. A classe mais recente onde ensinei, um ano e meio atrás talvez, dei duas palestras para gente muito rica de Chicago, pessoas que queriam escrever. Bem-educados e principalmente com tempo livre. No final nós trabalhamos em algumas histórias, e eu lhes dei uma das minhas histórias para analisar. Alguns vieram dizendo: "Olha, você não disse para não fazer isso e assim e assim, mas fez isso nessa história, então por que não posso fazer isso?" O que eles queriam era, basicamente, a minha permissão para escrever mal. Podemos vender uma história por qualquer motivo que seja. Talvez dormindo com o editor. Talvez a história fosse boa o bastante em outros aspectos, e o editor a compraria de qualquer maneira. Mas o que servirá para você, se eu lhe disser: "Olhe, pode fazer todas essas coisas ruins com a sua história." Você vai mandar sua história para o editor, dizendo: "Eu tenho a permissão do Gene Wolfe para escrever mal." [risos]. O editor vai dar uma gargalhada e jogá-la no lixo e provavelmente vai depois dizer que ele nunca a recebeu, quando você escrever pedindo-a de volta.

É muito difícil dizer às pessoas, para que acreditem que se você quiser fazer isso com sucesso, estas são as coisas que tem que fazer. É como alguém que entra numa loja e compra um violino e decide tocar do seu jeito. Não dá. Existem milhares de músicos talentosos que tocam violino e eles têm trabalhado para tocar um violino, tocar bem, e serem capazes de produzir todas as notas que desejam, de maneira rápida e pura. E se você diz não, eu só quero sentar-me com o meu violino em meu colo, e não me preocupar em passar resina no arco, OK. Você pode fazer isso. Mas você nunca vai conseguir um emprego como violinista.



Entrevista concedida a Kathie Huddleston (Science Fiction Weekly)

Gene Wolfe



Gene Rodman Wolfe (7 de maio de 1931) nasceu em Long Island, New York (EUA), mas cresceu entre  Houston e North Carolina.

Um dos mais prolíficos escritores de contos de ficção científica e fantasia, várias vezes premiado (Grand Master inclusive), conhecido por sua prosa densa e rica de detalhes, assim como pela sua forte influência católica.

Wolfe interrompeu seus estudos na Universidade do Texas, para lutar na Guerra da Coréia, e depois de voltar para os Estados Unidos, concluiu seu curso e tornou-se um engenheiro industrial. Por muitos anos editou revistas especializadas em engenharia mecânica, antes de aposentar-se e passar a escrever em tempo integral. Uma realização de engenharia pouco conhecida de Wolfe é que ele ajudou a projetar a máquina usada para fazer as batatas fritas Pringles, especificamente a parte que molda-as.

O trabalho mais conhecido e respeitado de Wolfe é a série New Sun, uma saga sombria dos destinos da humanidade no espaço, em um futuro distante.


Gene Wolfe (Mary Beatrice, A fish story, Against the Lafayette escadrile, At the point of Capricorn, Bea and her Bird brother, Castaway, Comber, Como perdi la Segunda Guerra Mundial, Copperhead, Cpunting cats in Zanzibar, Detective of dreams, Easter Sunday, Endagered species, Green grass, John Kinder Price, La befana, Memorare, Morning Glory, Paul's treehouse, Peritonitis, Petting zoo, Queen v1.0, Seven american nights, Short sun 01, Talk of Mandrakes, The arimaspian legacy, The boy Who hooked the Sun, The case of the vanishing ghost, The dead man, The death of dr.Island, The eyeflash miracles, The fifth head of Cerberus, The Horars of war, The island of dr.Death, The lost pilgrim, The man in the pepper mill, The other dead man, The waif, The ziggurat, There are doors, Under hill, Viewpoint, War beneath the tree, Long Sun series, New Sun series, Creacion, Soldier of the mist ) [ Download ]

sábado, 26 de dezembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 9


CAPÍTULO 9
Este capítulo é dedicado à Compass Books/Books Inc,  a livraria independente mais antiga do oeste dos EUA. Eles têm lojas por toda Califórnia, em São Francisco, Burlingame, Mountain View e Palo Alto, mas o mais legal é que eles têm uma livraria no meio da Disneylândia em Anaheim. Sou maluco por parques da Disney (como podem ver no meu primeiro livro, Down and Out in the Magic Kingdom, se não me acreditam) e sempre quando morei na Califórnia, eu comprava um passe anual para a Disneylândia e praticamente em cada visita eu passava na Compass Books da Disney. Eles possuem um estoque sensacional de livros não-autorizados  sobre Disney (e são até criticadas por isso), bem como uma grande variedade de livros infantis e ficção cientifica; e a loja ao lado faz um cappuccino inesquecível.
Compass Books/Books Inc




Ele estava furioso. Pensei que fosse explodir. Sabe quando disse que raramente eu vejo meu pai perder o controle? Aquela noite ele perdeu mais do que nunca.
‘Vocês não acreditariam. Esse policial devia ter uns 18 anos e ficava falando “Mas senhor, por que o senhor esteve em Berkeley ontem se os seus clientes ficam em Mountain View?” E eu ficava explicando que eu ensino em Berkeley e então ele disse “Pensei que fosse um consultor” e começávamos tudo novamente. Parecia uma destas comédias de televisão onde os tiras são atingidos pelo raio da estupidez.”
“O pior foi que ele insistia que eu tinha estado em Berkeley e eu dizia que não, eu não tinha mesmo ido lá e ele dizia que sim. Então ele me mostrou o histórico do meu passe rápido e ele dizia que eu tinha atravessado a ponte San Mateo três vezes naquele dia.”
“E não é tudo!” disse, e respirou profundamente, o que me fez ver que ele realmente estava de cabeça quente. “Eles tinham informações sobre eu ter estado em lugares onde sequer possuem pedágios. Eles estiveram rastreando meu passe nas ruas. Isso é errado! Santo Deus, quero dizer, eles estão nos espionando e sequer conseguem ser competentes nisso.”
Eu tinha entrado na cozinha seguindo-o e agora eu olhava para ele da porta. Mamãe me viu ali e nós dois erguemos nossas sobrancelhas como se dizendo “E agora? Quem vai dizer a ele ‘Eu te disse’?” Eu fiz sinal para que ela o fizesse. Ela podia usar de seus poderes de esposa para anular a raiva de papai de uma maneira que estava além do meu alcance de mera unidade filial.
“Drew...” ela disse segurando-o pelo braço para que parasse de andar de um lado para o outro feito um pregador das ruas.
“O quê?” ele disse.
“Acho que você deve um pedido de desculpas a Marcus.” Ela manteve a voz baixa a calma. Papai e eu éramos os trouxas da casa. Mamãe mandava ver!
Papai olhou para mim. Seus olhos se estreitaram enquanto pensava por um minuto. “Tudo bem” disse ao fim. “Você está certo. Eu falava sobre vigilância competente. Esses caras são amadores. Desculpe, filho. Você estava certo. Aquilo foi ridículo.” Ele estendeu a mão e segurou a minha e então me deu um abraço inesperado e forte.
“Deus, o que estamos fazendo com este país, Marcus? Sua geração merece herdar algo melhor do que isso.” Então me soltou e pude ver profundas rugas que nunca notara antes em seu rosto.
Voltei ao quarto e joguei um pouco no Xnet que era bom para coisas para multi-jogadores, tinha um game de piratas onde você tinha que fazer coisas que iriam aos poucos aperfeiçoando sua tripulação, até poder sair saqueando e pilhando por aí. Era o tipo de jogo que eu odiava, mas não conseguia parar de jogar: Não era totalmente satisfatório, com pouco combate jogador contra jogador (lutando para ver quem seria o capitão do barco), e não tinha tantos quebra-cabeças legais para resolver . Na maioria das vezes, jogar este game me deixava com saudades de HFM, que misturava sair por aí no mundo real, resolver desafios online e criar estratégias com seu time.
Mas hoje aquilo era o que eu precisava, diversão sem necessidade de pensar.

Meu pobre pai.
Eu tinha feito aquilo com ele. Ele era feliz antes, confiante de que os dólares de impostos eram usados para mantê-lo seguro. Eu destruí esta confiança. Era uma confiança falsa, de qualquer maneira, mas o mantinha satisfeito. Olhando para ele agora, quebrado e desanimado, pensei se era melhor ter os olhos abertos e sem nenhuma esperança ou viver no paraíso dos bobos. Aquela vergonha - a vergonha que eu sentia por ter dado minha senha, desde que eles me quebraram retornara, deixando-me apático e querendo largar tudo.

Meu personagem era um marinheiro do navio pirata Embarcação Zumbi, e ele foi ferido enquanto estive fora. Tinha que chamar pelo IM todos os outros jogadores do meu navio até achar um que quisesse me ajudar. Isso me manteve ocupado. Isso era legal, havia algo de mágico em um total estranho fazer-lhe um favor. E sendo na Xnet, sabia que todos os estranhos eram amigos, de certo modo.

>Onde vc está?
O personagem que iria me ajudar chamava-se Lizanator, uma mulher, o que não significava que fosse uma garota de verdade. Alguns caras tinham alguma estranha relação com personagens femininos.
>São Francisco.
 Eu disse:
>Não mané, onde em San Fran?
>Por quê? Você é um pervertido?
Aquela pergunta normalmente encerraria a conversa. É claro que todo jogo online estava cheio de pedófilos e pervertidos e tiras se fazendo passar por pedófilos e pervertidos (contudo, eu esperava que não tivesse nenhum policial na Xnet!). Uma acusação como esta era o bastante para derrubar a conversa em nove entre dez vezes.
>Missão? Potrero Hill? Noe? East Bay?
Ela parou por um instante.
> Está com medo?
> Estou tranqüilo - por quê?
> Só curiosidade.
Senti uma má vibração sobre ela. Era mais do que curiosa. Pode chamar isso de paranóia. Desconectei e desliguei meu Xbox.

#

Papai olhou para mim na mesa de refeições na manhã seguinte e disse: “Parece que enfim as coisas vão melhorar.” Ele estava com o Chronicles aberto na terceira página.

(Um porta-voz da DHS confirmou que o escritório da DHS em São Francisco fez a requisição de um aumento de 300 por cento no orçamento para treinamento de pessoal a Washington D.C.)

O quê?

(O General Graeme Sutherland, oficial comandante para as operações do DHS no norte da Califórnia, confirmou a requisição em uma conferência de imprensa ontem, apontando que a atividade suspeita na área da baía justificava a requisição. ‘Nós estamos averiguando as atividades e acreditamos que os sabotadores estão deliberadamente criando falsos alarmes de segurança para minar nossos esforços’)

Não era possível.

 (“Estes alarmes falsos são armadilhas de radar em potencial, com a intenção de mascarar ataques verdadeiros. O único e efetivo modo de combatê-los é indo além, aumentando nosso pessoal e também o nível de analise de maneira a poder investigar cada indício.”)

(Sutherland afirmou que os incidentes experimentados por toda a cidade eram “infelizes” e que iriam ser eliminados.)

Tive uma visão da cidade tomada por quatro ou cinco vezes mais investigadores e policiais, graças às minhas idéias estúpidas. Van estava certa. Quanto mais eu os combatia, pior a situação.
Papai apontou para o jornal. “Esses caras podem ser uns tolos, mas são tolos metódicos. Eles estão só direcionando recursos para este problema até resolvê-los. A situação tem solução, você sabe. Filtrando todos os dados na cidade, seguindo cada indicio, eles vão pegar os terroristas.”
Eu tinha perdido. “Pai! Você está ouvindo o que está dizendo? Eles estão querendo investigar praticamente todas as pessoas de São Francisco!”
“Sim, está certo. Vão pegar todos aqueles que devem pensão alimentar, cada vendedor de drogas, cada mendigo e cada terrorista. Espere para ver. Isso pode ser a melhor coisa que já aconteceu a este país!”
“Me diz que você está brincando! Eu te imploro. Você acha que era essa a intenção quando eles escreveram a constituição? E quanto aos direitos civis?”
“Os direitos foram escritos antes de existir pesquisa em bancos de dados.” Ele estava espantosamente calmo, convicto de sua certeza. “O direito à liberdade de associação é bom, mas por que os policiais poderiam ter a permissão de vasculhar sua malha social para descobrir se você anda saindo com membros de uma gangue ou terroristas?”
“Por que é invasão da minha privacidade!” eu disse.
“Qual o problema? Você prefere ter sua privacidade ou terroristas?”
Ahhh! Eu odiava discutir com meu pai assim. Precisava de café. “Pai, fala sério!. Tirar nossa privacidade não é agarrar terroristas, são só pessoas normais e inconvenientes.”
“Como sabe se não vão pegar terroristas?”
“Onde estão estes terroristas que capturaram?”
“Estou certo de que veremos prisões sendo feitas no tempo certo. É só esperar para ver.”
“Pai, o que aconteceu com você desde a noite passada? Você estava pronto para explodir com os policiais que te fizeram parar...”
“Não use este tom de voz comigo, Marcus. O que aconteceu na noite passada foi que eu pude pensar e ler isso aqui” ele mostrou o jornal. “A razão pela qual eu fui pego foi que os caras do mal que andam por aí fazendo este tipo de interferência eletrônica. Precisamos ajustar nossos aparelhos para não sermos enganados por eles. Mas eles chegam lá. Enquanto isso, uma parada na estrada ocasional é um preço justo a pagar. Esta não é a hora para dar uma de legislador dos direitos civis. É tempo de fazer alguns sacrifícios para manter a cidade segura.”
Não consegui terminar minha torrada. Coloquei o prato no lava louças e fui para a escola. Tinha que sair dali.

#

Os Xnetters não estavam contentes com o aumento da vigilância policial, mas não iriam desistir.Alguém ligou para um programa de radio ao vivo na KQED e disse que a polícia estava perdendo tempo, que eles não conseguiriam sabotar o sistema mais rápido que eles conseguiriam consertar. Foi a gravação mais ouvida na Xnet aquela noite.
“Aqui é Califórnia ao vivo e estamos com um ouvinte anônimo ligando de um telefone pré-pago em São Francisco. Ele tem informações sobre os problemas que estivemos enfrentando pela cidade esta semana. Ouvinte, você está no ar.”
“É isso ai, isso é só o começo, sacou? Quero dizer, tipo, estamos só começando. Deixe que eles contratem um bilhão de porcos e coloquem um posto de checagem em cada esquina. Nós vamos bagunçar com eles todos! E tipo, toda esta besteira sobre terrorismo. Nós não somos terroristas! Dá um tempo! Nós estamos interferindo no sistema por que a gente detesta a DHS e por que amamos nossa cidade. Terroristas? Eu não sei nem soletrar ‘JIHAD’. Fiquem em paz!”
Ele soava como um idiota. Não somente pelas palavras incoerentes, mas pelo tom arrogante. Parecia um garoto que estava indecentemente orgulhoso de si mesmo. Ele era mesmo um garoto indecentemente orgulhoso de si mesmo.
A Xnet bombou depois disso. Várias pessoas pensavam que o cara era um idiota por ligar, enquanto outras que ele era um herói. Eu estava preocupado com a possibilidade de ter uma câmera no telefone publico que ele usou. Ou que um leitor de arphid tivesse lido seu passe rápido. Esperava que fosse esperto o bastante para limpar suas digitais, mantido o capuz do agasalho cobrindo a cabeça e deixado todos seus arphids em casa. Mas eu duvidava. Pensei que ele poderia se ferrar logo, logo.
A maneira que eu sei que aconteceu algo grande na Xnet era que de uma hora para outra eu recebia um milhão de emails de pessoas que queriam que M1k3y soubesse dos últimos acontecimentos. Assim que eu li sobre o Mister-não-sei-nem-soletar-jihad minha caixa de entrada enlouqueceu. Todo mundo tinha uma mensagem para mim, um link para um jornal ao vivo na Xnet - um dos muitos blogs anônimos baseados em Freenet, um sistema de publicação de documentos, que também era usado pelos defensores da democracia na China.
> Estamos agindo em Embarcadero esta noite e fazendo alguma confusão, dando aos carros novas chaves ou embaralhando passes rápidos, espalhando um pouco de pólvora de mentirinha. Tem policia por toda parte, mas nós somos mais espertos do que eles, fazemos só um pouquinho todas as noites e assim eles não nos pegam.
>Fomos pegos esta noite. Foi um erro idiota e fomos agarrados. Um sujeito disfarçado pegou meu companheiro e então o resto de nós foi pro buraco. Eles estavam observando a multidão por um bom tempo e tinham um desses caminhões por perto e eles capturaram quatro de nós, mas perderam os outros.
>O caminhão parecia uma lata de sardinha com todo tipo de gente dentro: velhos, jovens, negros, brancos, ricos e pobres, todos suspeitos. E tinha dois policiais nos fazendo perguntas e o sujeito disfarçado continuava a trazer mais e mais gente. Muitos tentavam alcançar a frente da fila para o interrogatório, mas nós íamos para trás e demorou horas lá e era quente à beça e cada vez tinha mais gente e não menos.
>Lá para as 8 da noite eles trocaram de turno e dois policiais novos e tomaram o lugar dos dois outros policiais que estavam lá com aquele papo furado. Eles tiveram uma briga feia e então dois policiais das antigas saíram e os novos policiais sentaram na mesa e sussurram entre eles um pouco.
>Então um policial ficou de pé e começou a gritar TODO MUNDO VAI PARA CASA; JESUS CRISTO. NÓS TEMOS COISAS MELHORES PARA FAZER DO QUE ENCHER O SACO DE VOCÊS COM MAIS PERGUNTAS. SE VOCÊS FIZERAM ALGO ERRADO, SÓ NÃO FAÇAM DE NOVO E ESTE É UM AVISO PARA TODOS VOCÊS.
>Um bando de gente ficou irritada o que foi hilário porque dez minutos antes eles estavam falando sobre prender todo mundo e agora estavam mandando todos embora, tipo, dando conselhos!
>Nós nos separamos e viemos para casa para escrever isso. Tem gente disfarçada por toda parte, acreditem, se vocês estão zoando por aí, fiquem de olhos abertos e preparados para correr quando o problema aparecer. Se te pegarem, tente esperar até eles estarem tão cheios que vão mandar todos embora.
>Nós fizemos com que eles ficassem assim tão cheios. Todas aquelas pessoas no caminhão estavam lá por que nós zoamos com eles, espalhando interferência, bagunçando. Zoando eles!
Senti como se fosse vomitar. Aquelas quatro pessoas - garotos que nunca conheci - quase tinham desaparecido para sempre por causa de algo que eu comecei.
Por causa de algo que eu disse para eles fazerem. Eu não era melhor do que um terrorista.

#

A DHS teve seu requerimento aprovado. O Presidente foi na televisão com o governador, dizer-nos que nenhum preço era alto o bastante quando se tratava de segurança. Tivemos que assistir isso no dia seguinte numa assembléia escolar. Meu pai comemorou. Ele odiava o Presidente desde o dia em que ele fora eleito, vivia dizendo que ele não era melhor do que o anterior e o último fora um desastre completo, mas agora tudo que ele fazia era falar sobre como aquele novo Presidente era direto e dinâmico.
 “Você precisa pegar leve com o seu pai.” minha mãe me disse na noite seguinte, depois que cheguei em casa da escola. Ela estava trabalhando em casa o máximo que podia. Mamãe era uma especialista freelancer em realocação, que ajudava ingleses a se estabelecerem em São Francisco. Ela era paga pelo governo britânico para responder emails de ingleses perdidos pelo país, totalmente assustados sobre como os Americanos eram esquisitos. Ela explicava sobre os Americanos e disse que naqueles dias era melhor fazer isso de casa, onde ela não precisava na verdade ver Americanos ou falar com eles.
Eu não tinha nenhuma ilusão sobre a Grã Bretanha. A América podia atirar no lixo sua constituição cada vez que um árabe olhasse enfezado para nós, mas eu aprendera durante meu projeto de estudos sociais na nona série que os britânicos sequer tinham uma constituição. Eles tinham leis por lá que eram de arrepiar os cabelos da nuca. Eles podiam colocar você na cadeia por um ano inteiro se estivessem certos de que você é um terrorista, mesmo sem ter evidências para provar. Como eles podiam ter tanta certeza sem ter provas? Como tinham esta certeza? Será que eles podiam ver você cometendo atos de terrorismo enquanto sonhavam?
E a vigilância na Grã Bretanha fazia a América parecer amadora. Em média, um londrino é fotografado 500 vezes por dia, somente ao andar pelas ruas. Cada placa de automóvel é fotografada em cada esquina do pais. Todo mundo, de bancos à companhia de trânsito público é entusiasta de rastrear seus movimentos e bisbilhotar você se eles pensarem que você é, mesmo remotamente, suspeito.
Mas mamãe não via deste jeito. Ela tinha deixado a Inglaterra na metade do ginásio e nunca se sentiu em casa aqui, não importa se ela casou com um cara de Petaluma e teve um filho aqui. Para ela, isso aqui será sempre a terra dos bárbaros e a Grã-Bretanha será sempre seu lar.
“Mãe, ele está errado. Você, entre todas as pessoas, deveria saber disso. Tudo que faz este país ser maravilhoso está sendo jogado na privada e nós indo junto. Já notou que eles não pegaram nenhum terrorista até agora? Papai fica dizendo ‘Nós precisamos de segurança’ mas ele tem que saber que a maioria de nós não se sente segura. Nós nos sentimos ameaçados o tempo todo.”
“Sei disso tudo, Marcus. Acredite em mim.Não sou a favor do que está acontecendo neste pais. mas seu pai é... quando você não voltou para casa após o ataque, ele pensou...”
Ela se levantou e preparou uma xícara de chá, algo que sempre fazia quando estava desconfortável ou desconcertada.
“Marcus,”  ela disse, “nós pensamos que você tinha morrido. Entende o que isso significa? Ficamos chorando por sua causa durante dias. Ficávamos imaginando você em pedaços, no fundo do oceano. Morto porque algum bastardo decidiu matar centenas de estranhos para provar um ponto de vista.”
Aquele me tocou fundo. Quero dizer, eu entendi que eles tinham se preocupado comigo. Muita gente morreu nas explosões - 4 mil era a estimativa atual - e praticamente todo mundo conhecia alguém que não voltou para casa naquele dia. Duas pessoas da minha escola estavam desaparecidas.
“Seu pai estava prestes a matar alguém. Qualquer um. Ele perdeu o controle. Você nunca o viu assim. Eu também nunca tinha visto ele assim. Fora de controle. Ele ficava sentado nesta mesa, amaldiçoando e xingando. Palavras terríveis, palavras que eu nunca o tinha ouvido dizer. Um dia - no terceiro dia - alguém ligou e ele estava certo de que era você. Mas era engano, número errado, e ele bateu o telefone com tanta força que o aparelho ficou em pedaços.” Eu já tinha reparado no telefone novo da cozinha.
“Algo se partiu dentro dele. Ele te ama. Nós te amamos. Você é a coisa mais importante das nossas vidas. Acho que você não se dá conta disso. Você se lembra quando tinha dez anos e eu fui para Londres e fiquei aquele tempo todo fora? Lembra?”
Eu disse que sim.
“Nós estávamos quase nos divorciando, Marcus. Oh, não importa mais o porquê. Foi apenas uma fase ruim, o tipo de coisa que acontece quando pessoas que se amam param de prestar atenção uma na outra por algum tempo. Ele me convenceu a voltar por você. Não conseguíamos pensar em estar fazendo aquilo com você. Nós nos apaixonamos novamente por sua causa. Estamos juntos, hoje, por você.”
Eu tinha um nó na garganta. Nunca tinha sabido disso. Ninguém nunca me contou.
“Então seu pai está passando por um momento difícil. Ele não está raciocinando direito. Vai levar algum tempo até que ele volte a ser aquele homem que eu amo. Até lá ele precisa de compreensão.”
Ela me deu um abraço demorado e reparei em como seus braços estavam finos, a pele do pescoço frouxa. Eu sempre pensei nela como uma jovem pálida de bochechas rosadas e bastante astuta, atrás de seus óculos de aros metálicos. Agora ela parecia mais como uma senhora. Eu tinha feito isso com ela. Os terroristas tinham feito isso com ela. O DHS tinha feito isso com ela. De uma maneira estranha, nós estávamos todos do mesmo lado, enquanto mamãe e papai e todas as pessoas amedrontadas estavam do outro.

#

Não consegui dormir aquela noite. As palavras de mamãe ficaram na minha cabeça. Papai estava tenso e calado no jantar e conversamos pouco, porque eu não confiava em mim mesmo: eu podia falar a coisa errada; ele estava amargurado devido às últimas notícias, que o Al Queda tinha se responsabilizado pelo atentado. Seis grupos terroristas diferentes tinham reclamado a responsabilidade do ataque para si, mas apenas o vídeo do Al Qaeda na internet revelava fatos que a DHS não havia revelado para ninguém.
Deitado na cama eu prestava atenção no programa ao vivo de radio tarde da noite. O tópico era problemas sexuais, com um sujeito gay que eu normalmente adorava ouvir, que dava duros conselhos para as pessoas, mas eram bons conselhos e ele era realmente engraçado e extravagante.
Nesta noite eu não conseguia rir. A maioria dos ouvintes que ligavam para o programa queria saber o que fazer quanto ao fato de estarem tendo dificuldades com os parceiros desde o ataque. Mesmo num programa de radio sobre sexo eu não conseguia me livrar do assunto.

Desliguei o rádio e ouvi um ruído de motores na rua.
Meu quarto ficava no último andar da casa, uma daquelas damas maquiadas. O teto do sótão era inclinado e com duas janelas laterais - uma para a Missão e outra para a frente de casa. Havia sempre carros passando de lá para cá a noite toda, mas tinha algo diferente naquele som.
Fui até a janela da rua e levantei a persiana. Na rua embaixo havia uma van branca sem qualquer identificação, cujo teto estava infestado com antenas de radio, mais antenas do que já vira em um carro. Estava passando bem devagar pela rua, uma antena tipo prato, girando e girando.
Assim que a vi, a van parou e uma das portas traseiras se abriu. Um cara num uniforme da DHS - podia reconhecê-los de uma distância de centenas de metros - pulou para a rua. Tinha algum tipo de equipamento de mão e que projetava uma luz azul em seu rosto. Foram para frente e para trás, primeiro nos meus vizinhos, mexendo no aparelho, então na minha direção. Tinha algo de familiar na maneira que ele andava, olhando para baixo...
Ele estava usando um rastreador WiFi! O DHS estava procurando pelas conexões de Xnet. Larguei a persiana e corri através do quarto até o meu Xbox. Tinha deixado ligado enquanto baixava algumas animações bacanas que um dos Xnetters tinha feito a partir do discurso nenhum-preço-é-alto-o-bastante do Presidente. Arranquei o plug da parede então voltei à janela e afastei a persiana apenas algumas frações de centímetro.
O cara estava olhando para baixo, para o buscador de WiFi novamente, andando para lá e para cá na frente da nossa casa. Então voltou e entrou na van e partiu.
Eu tinha a câmera por perto e tirei varias fotos da van e suas antenas. Então as abri num editor de imagem gratuito chamado The Gimp e editei retirando da imagem tudo menos a van, apagando minha rua e qualquer coisa que pudesse me identificar.
Postei-a então na Xnet e escrevi embaixo tudo que podia sobre ela. Estes caras estavam realmente procurando pela Xnet, com certeza.
Agora mesmo é que eu não conseguia mais dormir.

Fui jogar então o jogo dos piratas. Muitos jogadores online mesmo àquela hora. O nome do jogo era Clockwork Plunder e era um hobby-projeto criado por uns adolescentes doidos por death-metal da Finlândia. Era totalmente gratuito para jogar e tão divertido quanto qualquer outro serviço de 15 dólares do tipo Elder’s Universe e Middle Earth Quest e Discworld Dungeons.
Me loguei e já estava lá, no deque da Embarcação de Zumbis, esperando alguém que me desse vida. Eu odiava esta parte do jogo.
>Alô você!
Digitei para um pirata que passava próximo.
>Me dá vida?
Ele parou e olhou para mim.
>Por que deveria?
>Estamos no mesmo time. Além disso você ganha pontos de experiência.
Que mané.
>Onde você está?
>São Francisco.
Aquilo começava a me parecer familiar.
>Onde em São Francisco?

Desloguei. Tinha algo de errado acontecendo neste jogo. Passei para os live journals e então fiquei saltando de blog para blog. Tinha passado por uma dúzia até achar algo que fez meu sangue congelar.
O pessoal adorava quiz. Que tipo de hobbit você é? Você é um bom amante? De que planeta você parece ter vindo? Que personagem de filme você é? Qual é seu tipo emocional? Eles preenchem as respostas e seus amigos também e então todos comparam seus resultados. Diversão inocente.
Mas o quiz que tinha sido colocado nos blogs da Xnet naquela noite foi o que me assustou, por que podia ser tudo menos inofensivo.

- Qual o seu sexo?
- Qual a sua série escolar?
- Qual a sua escola?
- Em que cidade você mora?

O resultado aparecia em um mapa com pontos coloridos por escolas e vizinhanças e com recomendações marcadas para lugares para comprar pizza e coisas assim.
Mas olhei para aquelas perguntas. Pensei nas minhas respostas:

- Masculino
- Dezessete.
- Chávez High
- Potrero Hill

Só duas pessoas em toda a minha escola tinham aquele perfil. Para muitas escolas deveria acontecer o mesmo. Se você quer descobrir quem os Xnetters são, você pode usar de um Quiz para achá-los.
Aquilo era terrível o bastante, mas o pior era o que estava implícito: Alguém do DHS estava usando o Xnet para nos pegar. O Xnet tinha se rendido a DHS.
Tínhamos espiões em nosso meio.

#

Eu tinha dado discos de Xnet para centenas de pessoas e eles fizeram o mesmo. Eu sabia para quem tinha dado os discos. Alguns eu conhecia muito bem. Eu morava na mesma casa toda minha vida e tinha feito centena de amigos ao longo de anos, desde gente que foi para a creche comigo até quem jogava futebol e LARP comigo, que encontrava nos clubes, que conhecia da escola. Meu time de ARG eram os mais íntimos, mas havia vários que eu conhecia e confiava o bastante para dar um disco de Xnet.
Eu precisava deles agora.
Acordei Jolu ligando para seu celular e desligado após o primeiro toque, por três vezes em seqüência. Um minuto depois ele estava na Xnet e podíamos conversar com segurança. Mostrei-lhe meu blog com as fotos da rádio-van e ele pirou.

>Tem certeza de que estão procurando por nós?
Em resposta, mandei para ele o quiz.
>OMG (Oh My God = Oh meus Deus) estamos ferrados!
>Não. Não é tão ruim assim, mas precisamos saber em quem podemos confiar.
>Como?
>É isso que eu queria te perguntar - quantas pessoas você confiaria de verdade, em todo o mundo?
>Umas 20 ou 30.
>Quero juntar um bando de pessoas realmente confiáveis e fazer uma espécie de key-exchange de web-confiança.
Web-confiança é uma destas coisas legais sobre criptografia que eu li, mas nunca tinha tentado. Era uma maneira quase à prova de falhas de conversar com alguém que você confiava, de modo que ninguém mais pudesse ouvir. O problema é que requeria que você se encontrasse fisicamente com a pessoa na web, pelo menos uma vez para começar.
>Entendo. Não é uma idéia ruim. Mas como vai fazer para reunir todas as pessoas para criar a chave?
>É sobre isso que eu quero te perguntar - como fazemos isso sem que nos peguem?
Jolu digitou algumas palavras e então as apagou e digitou e apagou de novo.
>Darryl saberia como.
Eu digitei.
>Caramba, ele era bom nisso.
Jolu não teclou nada e então:
>Que tal uma festa?
Ele teclou
>E se a gente juntasse todos em algum lugar como se fosse apenas um bando de adolescentes fazendo uma festa? Assim teríamos uma desculpa se alguém nos perguntasse o que a gente estava fazendo lá.
>Isso funcionaria! Você é um gênio, Jolu.
>Eu sei disso. E você vai adorar: Eu também sei exatamente onde fazer isso.
>Onde?
>Sutro Baths!



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 9 [ Download ]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Listas de FC e Fantasia



Além de resenhas sobre livros, filmes e séries de TV de Ficção Científica, o SCI-FI Lists dispõe de um pool onde se pode votar em seu livro/filme predileto e acompanhar as listas dos 100 mais votados pelo público, em resumos das principais listas online de votação.




Listology. O nome já diz tudo. Listas sobre assuntos variados, inclusive a lista do escritor, crítico de FC, biografo e editor da Interzone, David Pringle, apontando os 100 melhores livros de FC e Fantasia de todos os tempos.

Ainda...




















 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ficção Científica, Direito e Ética




É muito provável que, numa primeira análise, o primeiro elemento do título que escolhemos para o presente artigo pareça praticamente irreconciliável com os demais, descontada que seja qualquer tentativa fantasiosa de criar uma ponte discursiva entre realidades só artificialmente relacionáveis.

Esperamos todavia que, chegados à última linha, possamos já ter adiantado pelo menos um vislumbre da efectiva e frutuosa ligação entre o género literário comummente denominado ficção científica e aquelas duas áreas do conhecimento e da reflexão humanas.

Tentaremos, numa primeira abordagem, uma aproximação a uma definição do que seja essa ficção científica cujas virtualidades pretendemos pôr a descoberto. Trata-se, como depressa compreenderemos, de uma tarefa mais complexa do que a priori se poderia pensar. De seguida, tentaremos revelar aquelas específicas características deste género literário que o transformam num meio privilegiado para a abordagem das
grandes questões do Homem, em geral, e dos problemas legais e éticos, em particular.

Veremos, nomeadamente, como a própria base, a matéria-prima de que parte a ficção científica atinge o cerne de tais questões e nos conduz a uma reflexão ainda mais profunda e mais próxima da essência quer da ética, quer do Direito, do que aquela que qualquer problema concreto, real, das nossas quotidianas vivências nos poderia proporcionar.

Partiremos daí para uma exploração de alguns dos contributos valiosos que a este nível de pensamento a ficção científica tem oferecido ao longo das últimas décadas. Adiantaremos para tal alguns dos temas recorrentes da ficção científica, temas esses partilhados pelos mais divulgados autores do género e pelos mais autorizados pensadores do campo da filosofia, da religião, da política ou da sociologia, sem deixar de ilustrar as considerações entretanto tecidas com exemplos concretos de obras mais ou menos largamente divulgadas entre o público.



Índice
Introdução
I - Uma aproximação à própria noção de ficção científica 
II - A ficção científica como meio privilegiado para abordagem das questões filosóficas em geral e dos problemas legais e éticos em particular
III - Alguns dos temas mais frequentemente explorados pelos autores
IV - Ficção Científica e Política. A ficção científica como futurologia?
Conclusão
Bibliografia


Ficção Científica, Direito e Ética - Sandra Mónica Martins Reis Pinto [ Download ]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Imagination Fully Dilated: Science Fiction





Literate v.—to elucidate or enlighten with words or phrases.

The definition above doesn’t appear in any dictionary, but it is useful here.
Audience participation has always been important to me, but I’m not talking about just a reaction to the
colors, the composition, the technique, the subject matter of a piece of art. No, I want the audience
involved in the “telling” of the image. My artwork tells stories, and just as with a piece of fiction in which
the writer doesn’t “tell” everything, the audience has work to do. I want my audience to bring their own
emotional experience to the viewing of my images. This seems to make it a memorable experience.

That this was important to me was not something I appreciated consciously until I began to meet writers
in the mid-’90s who had written stories or scenes in novels based on pieces of my artwork. They had
seen a piece in an art show or bought a piece that inspired them. After this had happened four or five
times the idea was hatched to do an anthology of these stories and include the artwork.

The process was fairly simple. For each volume a Web page was created containing about forty pieces
of my artwork. Writers were invited to go look at the images and if they were inspired by one of them
and wanted to participate in the anthology, they were given a high resolution print of the image to
consider while they worked. The only rules for this particular volume were a limit of 7,000 words and
that the stories should be Science Fiction.

Always fascinated to hear reactions to my work, I’ve had a tendency to eavesdrop on people looking at
my paintings in art shows. They often take the suggestion of a story contained in a piece and elaborate on
it, coming up with wonderful ideas. These are most often completely different and sometimes
immeasurably more delightful than what I’d had in mind.

The writers in this and the preceding two volumes have done this with incredible results. Being a part of
the editorial team for each of theImagination Fully Dilated volumes has been the ultimate exploration
into this process of audience participation. The writers have brought to it a wealth of imagination and
storytelling ability. I am very proud to be a part of it.

Before reading these stories, you might flip through the book and look at the pieces of art. If they begin
to suggest stories, allow yourself to add to them. Then when you are reading, see how this experience
compares to what has been written.
I hope you will be as fascinated as I have been.
Alan M. Clark


“Introduction” - Alan M. Clark
“A Word of Appreciation” - Robert Kruger
“A Fully Dilated Introduction” - Patrick Swenson
“The Sweet Not-Yet” - Melissa Scott
“Threesome” - Leslie What
“Area Seven” - Robert Onopa
“The Dream of Vibo” - Patrick O’Leary
“The Artist Makes a Splash” - Jerry Oltion
“Fired” - Ray Vukcevich
“Nohow Permanent” - Nancy Jane Moore
“By Any Other Name” - Steve Beai
“Stately’s Pleasure Dome” - Syne Mitchell
“Between the Lines” - Arinn Dembo
“Dilated” - Robert E. Furey
“Let My Right Hand Forget Her Cunning” - Tom Piccirilli
“Cleave” - Therese Pieczynski & A. Alicia Doty
“Out of the Fire” - Elisabeth DeVos
“Legacy” - David Levine
“Lashawnda at the End” - James Van Pelt
All illustrations - Alan M. Clark, except for
“Chattacon Collaboration” - Alan M. Clark and Kevin Ward

Imagination Fully Dilated: SF [ Download ]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

The World without us






Alan Weisman oferece uma visão do que aconteceria ao planeta com a nossa ausência, o que aconteceria ao mundo, se todos desaparecessemos de um segundo para outro.

Como se daria o colapso das cidades, o desaparecimento dos sinais da humanidade por completo, e que itens do nosso dia-a-dia, se tornariam imortalizados como fósseis. Plástico, bronze, ondas de rádio e algumas moléculas manufaturadas pelo homem, seriam nossos presentes à eternidade do universo?

The World Without Us revela como, apenas alguns dias depois que os humanos desaparecem, as inundações nos metrôs de Nova York iriam começar a minar a cidade e suas fundações, a selva de asfalto daria lugar a selva de verdade. Fábricas antes poluentes se converteriam em santuários silvestres e bilhões de aves surgiriam, e as baratas, em cidades não aquecidas, pereceriam.

Com base na experiência de engenheiros, cientistas atmosféricos, artistas, zoólogos, engenheiros de petróleo,  biólogos marinhos, astrofísicos, líderes religiosos de rabinos ao Dalai Lama, e paleontólogos que descrevem o mundo pre-humano da megafauna, com preguiças gigantes que eram mais altas que mamutes, Weisman ilustra o que o planeta pode vir a se tornar, revelando a tremenda capacidade da Terra para se curar sozinha.

C O N T E N T S
Prelude: A Monkey Koan

P A R T I
1 A Lingering Scent of Eden 
2 Unbuilding Our Home 
3 The City Without Us 
4 The World Just Before Us 
5 The Lost Menagerie 
6 The African Paradox 

P A R T II
7 What Falls Apart 
8 What Lasts 
9 Polymers Are Forever 
10 The Petro Patch 
11 The World Without Farms 

P A R T III
12 The Fate of Ancient and Modern Wonders of the World 
13 The World Without War
14 Wings Without Us
15 Hot Legacy
16 Our Geologic Record

P A R T IV
17 Where Do We Go from Here?
18 Art Beyond Us
19 The Sea Cradle

Coda: Our Earth, Our Souls
Acknowledgments
Select Bibliography
Index

The world without us - Alan Weisman [ Download ]

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Voyages Extraordinaires








Voyages Extraordinaires é um blog para pessoas que gostam de romances científicos Eduardianos, retro-futurismo, Neo-vitorianismo, romances de horror gótico, filmes silenciosos da Época de Ouro de Hollywood, e aventuras da vida real em lugares exóticos e históricos, segundo o próprio autor.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ted Chiang



Ted Chiang nasceu em 1967, em Port Jefferson, New York e formou-se pela Universidade Brown em Ciência da Computação.

Ted Chiang é um caso incomum na literatura de FC e Fantasy em lingua inglesa.

Sem ter escrito ainda sequer um romance e com pouco mais de uma dúzia de contos curtos escritos, já vencera os principais prêmios de FC e Fantasy, além de inúmeras indicações.

Seu conto de estreia, Tower of Babylon, de 1990, o colocou imediatamente sob os holofotes, o que se concretizou ao receber o prêmio John W.Campbell como autor revelação dois anos depois.

Diferente de escritores de FC e Fantasy novatos e que ganham destaque rapidamente, Chiang não tem pressa em construir uma carreira na literatura.

Apesar de despretensioso, e de ser um autor muito pouco prolífico, suas histórias curtas transcendem a realidade utilizando, de maneira não habitual, abordagens imaginativas e divertidas de temas científicos (até religiosos), tornando-o um autor diferenciado dos demais e conferindo-lhe tanto sucesso.

A seu respeito, Chiang declarou:

"Sou um escritor ocasional, por que não tenho tantas ideias assim para contar. Acho que estou longe de me assumir como um escritor. Quando tento me forçar a escrever, não funciona. Eu teria que alcançar um novo nível de proficiência para me tornar mais prolífico. Seria ótimo se isso acontecesse.

Eu comecei a escrever contos, pela mesma razão que a maioria dos escritores fazem - eles são vistos como uma fase anterior para as novelas. Naturalmente alguns escritores são romancistas naturais.

Até agora eu só tive vontade de fazer trabalhos curtos. Acho que é porque estou mais interessado em escrever sobre personagens vivendo o momento, buscando compreensão dele. Às vezes é um grande avanço conceitual, às vezes é apenas um flash de iluminação. Para esse tipo de história, o conto é perfeito.

Gostaria de saber gerar um sentimento de estupefação no leitor, mas eu não conheço nenhuma maneira de fazê-lo. Então eu simplesmente escrevo sobre o que me interessa."

Chiang vive em Seattle e trabalha na indústria de computadores.


Ted Chiang ( Tower of Babylon, The merchand and the alchemist, Seventy-two letters, Division by zero, Hell is the absence of God, Understand, Story of your life, What's expected of us  ) [ Download ]

Diário de Charles Stross - A vida de um escritor





Ser um escritor autônomo não é um estilo de vida para qualquer pessoa. 


Na verdade há uma série de equívocos sobre o que o trabalho exige. Eu estive fazendo isso em tempo integral por mais de seis anos, então posso não ser ainda um especialista no assunto, mas ao menos posso dar minha perspectiva pessoal sobre isso.

Em primeiro lugar, esqueça aquela história de estilo de vida dos escritores e da beleza estética de ter uma vocação que convida você para criar arte superior e coisa e tal. É tudo conversa.

Qualquer representação da maneira de viver e trabalhar dos escritores que você vê na mídia está errada.

É uma armadilha.

Aqui está a verdade:

Você é um empresário autônomo. Ocasionalmente você pode até trabalhar em parceria - Conheço muitas equipes tipo marido-e-mulher - mas em geral os escritores são criaturas solitárias. Você trabalha em uma indústria de serviços, seu produto é proporcional às horas de trabalho gasto por pessoa, e onde é muito difícil de subcontratar outros para fazer seu serviço, a menos que você seja rico, famoso, e tiver trinta anos de carreira, e já tiver construído uma relação de fidelidade com seus clientes.

Então você come ou passa fome, dependendo de sua capacidade de colocar o rabo na cadeira e escrever.

É BIC ou morra, esta é a primeira regra. 

Questões de estilo de vida vem num distante segundo lugar.

Você é um prestador de serviço. Você apresenta uma proposta e, se eles gostarem, vão te dar um adiantamento. Muitas vezes você vai descobrir nas pequenas linhas do contrato, que se você não entregar os resultados a tempo, aquele adiantamento que você está usando para pagar suas contas, terá que ser reembolsado em sua totalidade.

Se você acha que NÃO pode fazer o trabalho, NÃO deve pegar o dinheiro.

Os editores são geralmente razoáveis sobre percalços do lado da produção, especialmente se você lhes dá avisos prévios, e se você é normalmente confiável, mas eles não precisam ser assim.
Se você pisar na bola, eles não vão te apoiar.
É um mundo pequeno, e as pessoas falam umas com as outras.
Vacile com um ou dois e as pessoas vão começar a resmungar.

Agir como uma prima donna não é um recurso para sua sobrevivência. (Ser profissional e amigável... bem, isso é outro assunto.)

Você quase sempre será mal pago. Um primeiro livro típico de Ficção Científica ou Fantasy, recebe um adiantamento em média de apenas 5 mil dólares no mercado americano. Se você já tem alguma visibilidade e está no negócio, e a carreira está indo bem, pode receber de 15 a 20 mil dólares. E se as vendas são boas e você vende os direitos para o estrangeiro, este número pode dobrar. Mas você não pode fazer um planejamento de longo prazo, achando que irá vender feito água no Japão. Muitas vezes sua carreira irá estagnar devido a circunstâncias fora de seu controle, e você pode se ver descendo a ladeira.

Ouvi dizer que cerca de 2000 escritores no Reino Unido ganham em média 4.500 libras por ano. O que é ainda pior quando você lembra que neste mercado tem gente que puxa pro alto, como Terry Pratchett e JK Rowling.

(Não se desespere ainda. Há um monte de gente que escreve semi profissionalmente, um romance a cada 2-3 anos, enquanto mantém um outro trabalho. Eles tendem a arrastar esta média para baixo, e não estão passando fome porque têm outro ganha-pão. Mas escrever não é um caminho fácil para a fama e a fortuna, e se você quer ganhar muito dinheiro, você deve estudar contabilidade ou medicina).

Seu estilo de vida será este, cedo ou tarde (geralmente tarde) você acorda, faz o habitual quando se acorda, em seguida anda três metros até seu escritório, onde você senta-se por várias horas concentrado, esperando que o telefone não toque porque vai quebrar sua concentração, isso se tiver sorte.

Em meio a estas horas todas você espera conseguir escrever algo.
A menos que você seja um escritor classe A, que recebe adiantamentos de 50 mil dólares, é melhor que consiga botar no papel uma média de 1.000 palavras por dia útil, ou procure outro emprego.

Há aproximadamente 250 dias úteis do ano (estou supondo que você passa um par de dias por semana fora, e tem férias e licença médica), de modo que 250 mil palavras são dois romances de tamanho normal e alguns contos. Alguns escritores fazer muito mais do que 1.000 palavras por dia, alguns fazem menos. Se você fizer menos e não estiver no Olimpo dos escritores, você não será capaz de ganhar a vida nesta carreira.
Muitos escritores escrevem 250 mil palavras por ano e ainda assim não conseguem levar uma vida escrevendo somente. Eles geralmente tem empregos de meio período, para cobrir as despesas, ou um emprego em tempo integral e escrevem à noite e nos fins de semana.
É uma tarefa monótona e árdua.

Além de escrever você irá:
# Trabalhar os manuscritos editados, corrigindo-os
# Escrever
# Rastejar sobre provas para impressão, à procura de erros de digitação
# Escrever
# Manter o controle de seus gastos e as 1001 coisas que qualquer autônomo precisa fazer, como não deixar o Imposto de Renda te pegar
# Escrever
# Lidar com entusiasmo com a imprensa e os entrevistadores, não importando quão pequeno ou obscuro seja o resultado - publicidade é sempre uma prioridade, a não ser que você seja importante o suficiente para contratar um gerente de RP
# Escrever
# Lidar com a correspondência de seu(s) editor(es) e agente, de uma maneira rápida e profissional, porque se você começar a criar uma reputação de ser difícil de trabalhar, então ferrou... (felizmente editores e agentes sabem que só loucos e excêntricos querem ser escritores em tempo integral, de maneira que farão o possível para preservá-lo do assédio de outros)
# Escrever
# Convencer o banco a aceitar cheques em moedas que nunca ninguém ouviu falar
# Escrever
# Saber mais do que você sempre quis saber sobre tratados internacionais de dupla tributação e os formulários de isenção associados
# Escrever
# Responder e-mails de fãs (se você tiver a sorte de ter fãs)
# Eu disse "escrever" o suficiente? Eu quis dizer "escrever, mesmo quando você está doente pra caramba, quando o projeto atual é um arrastar interminável, quando você não conseguir se lembrar por que você nunca concordou em escrever este livro estúpido, quando suas mãos doem de LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e seu gato esquecer quem é você, e seu cônjuge está pedindo divórcio alegando negligência.

E isso é só o começo.

O mais útil conselho para preservação de sua sanidade que recebi, veio de outro escritor (não sei quem, mas acho que pode ter sido Maria Gentil), que anos atrás me explicou que se você trabalhar em tempo integral como um autor, você aprende a manter sua vida social em primeiro lugar e agendar sua vida profissional ao redor dela.

Isto pode inicialmente parecer uma contradição do que eu dizia antes sobre a BIC (BIC ou morra), mas é importante ter isso em mente: nós, seres humanos somos animais sociais. O escritor trabalha dentro de si mesmo, fechado em uma cela em algum lugar, com tão pouco contato humano. Dai resulta que eventualmente você precisa fazer este contato humano. E você vai receber um choque desagradável se você insistir em escrever à noite e nos fins de semana: quando for procurar alguém, a maioria de seus amigos estará indisponível. Todos eles têm empregos diários e tem pouco tempo livre. Se o seu tempo livre não coincide com o tempo livre deles, você não irá vê-los. Assim, apesar de ser livre para trabalhar quando quiser, este é um argumento bastante forte para o autor que valoriza sua sanidade, manter noites e fins de semana livres.

Não esquecendo daqueles que tem filhos pequenos e tem de lidar com as exigências das escolas, creches, e às mil e uma outras instituições, que parecem assumir que os pais estão disponíveis das 6 da manhã às 9 da noite.

Então quais são as vantagens?

Bem, se você for bem sucedido, as pessoas vão querer vê-lo e falar com você. As pessoas que leram seus livros. Às vezes vão te parar para apertar sua mão, quando você estiver em público. Muitas vezes os leitores assumem que te conhecem porque leram seu trabalho, então a abordagem é fraternal, como se eles já te conhecessem. Isto pode ser realmente desconcertante, para não dizer constrangedor, se você tem uma má memória para rostos e nomes (como eu): Essa pessoa é um completo estranho ou um amigo que não vejo faz tempo?

Se você conseguir ganhar a vida escrevendo, vai ganhar dinheiro suficiente para comer fora de vez em quando, de repente você vai descobrir que possui um bônus maravilhoso, que ninguém com um trabalho normal tem - você pode ficar de bobeira sempre que você quiser!

Eventualmente, a novidade acaba (não há nada pior que lidar com o jet lag em um aeroporto estranho, uma hora após o último ônibus para a cidade ter partido, quando se está fora em uma viagem), mas se você tem um iene para visitar lugares estranhos você pode satisfazê-la. (Inferno, se você escrever sobre isso você deveria poder até mesmo torná-lo um gasto dedutível - pelo menos na medida em que seu contador ou o senso comum, diz que você pode justificar tal gasto para uma auditoria.)

Se você é um escritor de Ficção Científica, pode encontrar admiradores nas convenções, que vão querer te pagar bebidas e jantares em prol da sua companhia. Por outro lado, se (como eu) você não consegue trabalhar enquanto viaja, isso pode colocar um pouco de um freio na sua volta ao mundo.

O que você não vai ter: excursões de divulgação, limusines, recepções com champanhe. Não a menos que seu livro venda muito: estas coisas custam dinheiro para sua editora, e eles não vão gastar, a menos que você esteja se dando muito bem.

Se você acha que eu estou sendo um pouco pessimista, considere o que implica uma turnê de autógrafos: você, o autor, precisa reservar espaço de pelo menos duas livrarias em um dia - de preferência mais - e provavelmente, duas cidades por dia, em geralmente, de cinco a dez dias. Isto envolve custos de transporte elevados, para não mencionar de cinco a dez pernoites em hotéis diferentes. Seu editor provavelmente colocará alguém na gestão de sua turnê, em tempo integral, de modo que terá que cobrir a acomodação e as despesas de viagens de duas pessoas. Nos EUA isso custaria 5 mil dólares por pessoa, para uma excursão de 10 dias (provavelmente o dobro, fácil) para que a sua presença na turnê impulsione as vendas em torno de 15 mil, por baixo. A probabilidade é que você vai assinar seu nome mais de 150 vezes por dia para atingir essa meta. E quando você estiver fazendo isso, você não estará escrevendo seu próximo livro, que eles esperam que faça ainda mais dinheiro.

Não, a sério: turnês de divulgação não fazem sentido, e não vão acontecer, a menos que você faça grande sucesso. Esqueça a champanhe. A cada vez que for encontrar seu editor (uma vez por ano ou quase), seu editor (se tiver sorte) irá levá-lo para almoçar ou jantar por conta da editora, mas isso é para poucos.

Assim, para resumir: você é mal remunerado, as horas de trabalho são estranhas, o ambiente do escritório pode ser claustrofóbico, você não encontra seus amigos, você está vendendo seus produtos para grandes corporações que podem tirar seu sono e esmagá-lo, se você não fizer bonito, ninguém vai lhe dar uma recepção com champanhe, uma limusine ou turnês de divulgação, e há muitos aspectos administrativos, de negócios, com que terá que lidar, e ainda tem de levar uma vida social normal para não ficar louco .

Por outro lado você está fazendo exatamente o que você sempre quis fazer (ou se sentiria frustrado e iria procurar outra coisa para fazer).

E o que poderia ser melhor do que isso?

- x -

Charles Stross nasceu em 1964 em Leeds, Inglaterra, e atualmente mora em Edimburgo na Escócia, onde escreve em tempo integral. Graduou-se em Ciência da computação e trabalhou em uma variedade de empregos (que às vezes ele descreve como "tráfico de drogas e hacking"). 

Embora esteja escrevendo e publicando contos desde meados da década de 1980, ele só começou a escrever em tempo integral quando se viu desempregado, devido ao estouro das dot.com em 2000 - o que ironicamente, foi responsável por sua carreira deslanchar.

Stross definiu-se assim: "Além de escrever, sou só um cara meio chato, apenas outro geek escritor obsessivo, com um fetiche por gadgets, dois gatos e uma barriga de cerveja".

sábado, 19 de dezembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 8


CAPÍTULO 8
Este capítulo é dedicado a Borders, a gigantesca vendedora de livros global que você pode encontrar em toda parte do mundo. Eu nunca esquecerei de ter entrado na gigantesca Borders de Orchard Road em Singapura e descobrir uma prateleira cheia com meus livros. Por anos a Borders em Oxford Street em Londres teve noites de leituras mensais de ficção científica, organizadas por Pat Cadigan, onde autores visitantes liam seus trabalhos, conversavam sobre ficção cientifica e encontravam os fãs. Quando estou numa cidade desconhecida (o que acontece muito) e preciso de um bom livro para o vôo seguinte, parece que sempre encontro uma Borders com ótimas seleções - em particular a Borders da Union Square em São Francisco.
Borders ao redor do mundo


Eu não fui o único a me ferrar com os histogramas. Um monte de gente tem padrões anormais de tráfego. Anormal é tão comum que é praticamente normal.
A Xnet estava cheia de histórias assim e agora chegava a vez dos jornais e dos noticiários de TV. Maridos eram flagrados traindo esposas, esposas flagradas traindo maridos, garotos eram pegos com a namorada ou o namorado alheio. Um garoto que não tinha contado aos pais que tinha AIDS foi flagrado indo para a clínica para pegar seus remédios.

Eram pessoas com algo às escondidas - não eram pessoas culpadas, mas pessoas com segredos. E havia ainda mais pessoas sem nada a esconder, mas que  se ressentiam em ser bisbilhotadas e questionaram também. Imagine se alguém te coloca no banco de trás de um carro e peça que você prove que não é um terrorista.

Não era somente o sistema público de trânsito. A maioria dos motoristas na área da baía tinha um passe rápido preso ao para sol dos carros. Era um pequeno passe que se encarregava de pagar o pedágio por sinal de rádio ao atravessar a ponte, evitando assim que você tivesse que ficar numa fila por horas. Atravessar a ponte pagando em dinheiro era o triplo do preço (acho que eles mentiam a respeito disso, dizendo que o passe rápido era mais barato, não que utilizar dinheiro anônimo era mais caro). Ainda assim, uma vez que depois as cabines de espera desapareceram, as pistas para quem pagava em dinheiro foram reduzidas a somente uma por ponte, então as filas de pagantes em dinheiro ficaram ainda maiores.

Se você é de São Francisco ou se você está dirigindo um carro alugado de uma agência local, você tem um passe rápido. Sem contar que os passes rápidos não são somente ‘lidos’ nas pontes. O DHS tinha posto leitores por toda a cidade - quando você passa dirigindo por um deles, eles gravam a hora e o número do passe, construindo assim uma imagem perfeita de quem foi para onde e quando, num banco de dados que era  acrescido das câmeras de velocidade, câmeras nos sinais e todas as câmeras que registravam a placa do carro e que pululavam como cogumelos.

Ninguém tinha dado muita bola para isso na época. E agora o povo começava a prestar atenção, todos começaram a perceber pequenas coisas, como o fato do passe rápido não ter um botão de desliga.
Então quando você dirige um carro, voe pode ser encostado por um carro da polícia de São Francisco querendo saber por que voe está fazendo tantas idas ao Home Depot (loja de produtos para casa) ultimamente e o que você foi fazer à meia noite em Sonoma na semana passada.

Pequenas demonstrações de descontentamento começaram a crescer pela cidade nos finais de semana.
Cinqüenta mil pessoas marcharam pela Market Street depois de uma semana deste monitoramento. Aqueles que tinham ocupado minha cidade não se importavam com o que as pessoas daqui queriam. Eram um exército de ocupação. Eles sabiam como nos sentíamos a respeito.
Uma manhã eu tomava café da manhã a tempo de ouvir meu pai dizer para minha mãe que as duas maiores companhias de táxi locais iriam passar a dar desconto para quem escolhesse pagar a corrida com cartões especiais, o que supostamente serviria para deixar os motoristas mais seguros por causa da quantidade de dinheiro que tinham que carregar. Eu pensava o que aconteceria com a informação sobre quem levou qual táxi para onde.

Percebi o quão perto eu estava. A nova indienet tinha colocado sua atualização automática assim que as coisas começaram a ficar pretas e Jolu me contou que 80% do tráfego que passava agora pela Porco Melancólico era agora criptografada. A Xnet estava salva.
Contudo, papai estava me levando à loucura.
“Você está sendo paranóico, Marcus” ele me disse um dia no café da manhã quando eu falei sobre uns caras que os tiras pegaram na BART no dia anterior.
“Pai, isso é ridículo. Eles não estão capturando terroristas, estão? Só estão deixando as pessoas assustadas.”
“Podem não ter capturado nenhum até agora, mas tiraram vários vigaristas das ruas. Olhe, por exemplo, os traficantes - foram tirados dezenas das ruas desde que tudo começou. Lembra quando uns drogados te roubaram? Se a gente não se encarrega dos traficantes a coisa só fica pior.”  Eu havia sido roubado no ano passado. Eles tinham sido bastante civilizados. Um careca fedido me disse que tinha uma arma com ele, o outro me pediu a carteira. Me deixaram tirar a identidade, mas levaram meu cartão de crédito e o passe rápido. Isso me deixou confuso e paranóico e olhando por sobre o ombro durante semanas.
“Mas a maioria das pessoas que eles detêm não está fazendo nada errado, Pai!” Eu disse. Isso me deixava fora de mim. Meu próprio pai! “É loucura! Para cada culpado eles punem milhares de inocentes. Isso não esta certo.”
“Inocentes? Sujeitos que traem as esposas? Vendedores de drogas? Você está defendendo essa gente, mas e quanto aqueles que morreram? Se você não tem nada a esconder...”
“Então você não se importaria de ser detido?” Os histogramas de meu pai deviam ser depressivamente normais.
“Eu consideraria isso meu dever.” Ele disse. “Teria orgulho. Faria com que me sentisse mais seguro.”
Era fácil para ele dizer.

#

Vanessa não gostava que eu falasse da coisa, mas ela era esperta o bastante para ficar longe do assunto por tanto tempo. Nós estávamos juntos o tempo todo e ficar falando sobre o tempo ou da escola e coisas assim, de alguma forma, me levaria de volta a este assunto. Vanessa estava bem quando isso aconteceu - ela não se HULKanizou de novo - mas dava para ver que isso a aborrecia.
Ainda.
Ainda.
“Então meu pai falou que considerava um dever. Pode acreditar nisso? Quer dizer, Deus! Eu quase tinha contado sobre ter sido preso, será que ele pensaria que era nosso ‘dever’?”
Estávamos sentados na grama do parque Dolores após a escola, vendo os cães perseguindo frisbees.

Van tinha parado em casa e se trocado, colocado uma camisa velha de sua banda tecno-brega brasileira predileta “Carioca Proibidão” - o cara proibido do Rio. Ela conseguira a camisa em um show que fomos dois anos atrás, procurando por diversão lá no Cow Palace e ela tinha crescido alguns centímetros desde então e a camisa esta apertada e deixava de fora seu pequeno umbigo chato.

Ela olhou para o sol fraco e fechou os olhos por trás das lentes dos óculos escuros, os dedos dos pés se mexendo nas sandálias de dedo. Eu conhecia Van desde sempre, e quando pensava nela eu normalmente me pegava pensando na criança que conheci chacoalhando centenas de braceletes feitos com tampinhas de latas de refrigerante, uma menina que tocava piano e não poderia dançar mesmo para salvar sua vida. Sentado no parque Dolores eu de repente a vi como ela era.
Ela era totalmente h4wt - quer dizer, excitante. Era como olhar para a pintura de um vaso e perceber que tinha também duas faces. Eu podia ver que Van era só Van, mas podia ver também que ela era muito linda, algo que nunca tinha reparado.

É claro que Darryl já tinha reparado isso faz tempo, e não pense que não fiquei incomodado com isso.
“Você não pode contar para o seu pai, você sabe. Você nos colocaria em risco.” Seus olhos estavam fechados e seu peito subia e descia com sua respiração, o que me distraiu da forma mais embaraçosa.
“Sim.” Eu, disse mal humorado. “Mas o problema é que eu sei que ele está cheio disso tudo. Se você levar meu pai ao ponto dele ter que provar que não é um molestador de crianças ou um traficante, ele ficará furioso. Totalmente fora dos trilhos. Ele odeia ser colocado em espera quando ele liga para alguém sobre a conta de seu cartão de crédito. Ser trancado no banco de trás de um carro e questionado por uma hora faria com que ele tivesse um aneurisma.”
“Ele somente está agindo assim por que as pessoas normais se sentem superiores àquelas anormais. Se todo mundo for detido, será um desastre. Ninguém vai mais sair para parte alguma, esperando que todos sejam questionados pelos tiras. Vai parar tudo.”
UAU!
“Van, você é genial!” eu disse.
“Me diga porquê.” ela disse com um sorriso malandro e me deu um olhar com os olhos semi-fechados, quase romântico.
“Sério. Nós podemos fazer isso. Podemos facilmente bagunçar com os perfis.”
Ela se sentou, tirou o cabelo do rosto e olhou para mim. Senti algo em meu estômago, ao pensar que ela era estivesse realmente interessada em mim.
“Arphids clonados!” falei. “São fáceis de fazer. Basta gravar o firmware num leitor/gravador de dez dólares da Radio Shack e pronto. O que precisamos fazer é sair por aí prendendo aleatoriamente estas etiquetas nas pessoas, sobrecarregando os leitores de passes com o código de outras pessoas. Isso fará com que todo mundo se torne anormal e pareça culpado. Uma parada geral!”

Van apertou os lábios e baixou os óculos escuros; vi que estava brava, tão brava que não conseguia falar.
“Adeus, Marcus.” Ela disse, ficando de pé. E antes que eu me desse conta, ela já ia longe, tão rápido que praticamente corria.
“Van!” gritei, ficando de pé e indo atrás dela. “Van! Espere!”
Ela apressou o passo me fazendo ter que correr para alcançá-la.
“Van, que diabo!” Segurei seu braço. Ela se desvencilhou tão violentamente que acertei meu rosto.
“Você é um psicopata, Marcus. Você vai colocar todos seus amiguinhos de Xnet em perigo e para completar vai colocar a todos como suspeitos de terrorismo. Não pode parar antes de machucar estas pessoas?”
Eu abri e fechei a boca algumas vezes. “Van, eu não sou o problema, eles sim. Não estou prendendo gente, colocando-as em celas, fazendo-as desaparecer. O DHS é que está fazendo isso. Eu estou lutando para que eles parem.”
“Como, fazendo algo ainda pior?”
“Talvez tenha que piorar antes de melhorar, Van. Não é isso que está dizendo? Se todo mundo for detido...”
“Não é o que eu quis dizer. Não significa que todos precisam ser presos. Se quer protestar, junte-se ao movimento de protesto. Faça algo positivo. Não aprendeu nada com Darryl? Nada?”
“Você está certa pra cacete!” falei, perdendo o humor. “Eu aprendi que não posso confiar neles. Que se você não está os combatendo, então está ajudando. Que eles transformarão o país numa prisão se você deixar. O que você aprendeu, Van? A sentir medo o tempo todo, a sentar e ficar de cabeça baixa e esperar não ser notada? Acha que as coisas vão melhorar? Se não fizermos nada, mereceremos o que temos. Só vai ficar pior e pior a partir de agora. Quer ajudar Darryl? Me ajude então a acabar com eles!”

Meu juramento. Não libertar Darryl, mas derrotar a DHS inteira. Isso era loucura, eu sabia. Mas era o que eu planejei fazer. Sem questionar.
Van me empurrou com as duas mãos. Ela ficara forte de tanta atividade atlética na escola - esgrima, lacrasse, hockey de campo, todos os esportes de garotas - e eu terminei com o traseiro na repulsiva calçada de São Francisco. Ela se foi e eu não a segui.

#

>A coisa mais importante sobre sistemas de segurança não é como eles funcionam, mas como eles falham.
Esta foi a primeira frase de meu primeiro blog postado no Revolta Aberta, meu site da Xnet. Escrevia como M1k3y e estava pronto para a guerra.
>Talvez toda esta classificação automática supostamente possa agarrar terroristas. Talvez consiga um, cedo ou tarde. O problema é sermos detidos também, mesmo se não fizermos nada de errado.
 > Quanto mais pessoas, mais sensível isso fica. Se isso capturar pessoas demais então vai acabar.
>Pegou a idéia?

Coloquei meu COMOFAZER sobre como construir um clone de arphid e algumas dicas o bastante para as pessoas lerem e aprenderem como fazer suas etiquetas. Eu pus o meu clonador dentro do bolso da minha jaqueta para motocross, de couro e fui para a escola. De casa até a Chávez eu iria clonar pelo menos seis etiquetas.
Se era guerra que eles queriam, era guerra que iriam ter.

#

Se algum dia você se decidir a fazer algo tão estúpido quanto construir um detector automático de terroristas, aqui vai uma aula de matemática que você precisa ter antes. É chamada “o paradoxo do falso positivo” e é bizarro!
Digamos que voe tenha uma nova doença, chamada super-aids. Apenas um em um milhão a tem. Você desenvolve um teste para a super-aids que tem precisão de 33%. Ou seja, 99% das vezes ela dá o resultado correto - verdadeiro se infectado e falso se saudável. Você aplica o teste em um milhão de pessoas. Um em um milhão tem a super-aids. Um em uma centena testada irá gerar um ‘falso positivo’ - o teste dirá que tem a doença mesmo que não a tenha. Porque o teste tem 99% de precisão, ou seja, 1% de erro.
Quanto é um 1% de 1 milhão?
1.000.000 / 100 = 10.000
Um em um milhão tem a doença. Se você testar aleatoriamente, você vai encontrar apenas um caso de super-aids verdadeira. Mas seu teste não identificará esta pessoa, ele identificará 10.000 pessoas.
Seu teste de 99% de precisão irá gerar 99,99% de imprecisão.
Este é o paradoxo do falso positivo. Quando você tenta encontrar algo realmente raro, a precisão de seu teste deve bater com a raridade do que está procurando. Se você tentar apontar um único pixel da sua TV, usando a ponta fina de um lápis, a ponta é bem menor (mais precisa) do que um pixel. Mas o lápis não é bom o bastante para apontar um único átomo da tela. Para isso, você precisa de um indicador - do tamanho de um átomo ou menor.
Este é o paradoxo do falso positivo, e assim é que o aplicamos ao terrorismo.
Terroristas são raros. Numa cidade de 20 milhões de pessoas como Nova Iorque, talvez existam um ou dois. Quem sabe dez deles.
10 / 20.000.000 = 0.00005%
Isso é bem raro mesmo. Agora, digamos que com um programa você possa filtrar através de todos os registros bancários ou registros de pedágio ou registros do trânsito público ou chamadas telefônicas da cidade e encontrar terroristas 99% das vezes.

Em 20 milhões de pessoas, uma precisão de 99% irá identificar duzentos mil como terroristas. Mas apenas 10 serão terroristas de verdade. Para pegar 10 caras do mal, você terá que deter e investigar 200 mil pessoas inocentes.
Advinha? Testes para identificar terroristas não chegam sequer perto de 99% de precisão. Mais ou menos uns 60%, até 40% algumas vezes.
Isso tudo significa que o DHS vai errar feio. Estão tentando indicar eventos raros - que uma pessoa é um terrorista - com um sistema impreciso.
É de se admirar que possamos fazer tal bagunça?

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Sai de casa assoviando numa manhã de terça feira, uma semana após colocar em prática a Operação Falso Positivo. Eu estava ouvindo algumas músicas novas que tinha baixado da Xnet na noite anterior - muita gente tinha enviado para M1k3y pequenos presentinhos digitais para agradecer por lhes dar esperança.

Virei na rua 23 e cuidadosamente peguei o caminho estreito de degraus de pedra que subia a colina. Quando descia, passei por Mr.Salsicha. Não conhecia o nome verdadeiro de Mr.Salsicha , mas eu o via todos os dias andando com seus três daschound, das escadas até o pequeno estacionamento. Era difícil passar por eles devido à estreiteza e eu sempre acabava levando a pior.

Mr.Salsicha era claramente alguém importante. Tinha um relógio caro e sempre se vestia bem. Eu achava que ele devia trabalhar lá no distrito financeiro.
Desta vez quando passei me espremendo por eles, eu disparei meu clonador de arphids e que já estava pronto no bolso da jaqueta de couro. O clonador puxou os números de seus cartões de crédito, das chaves de seu carro, do passaporte e os cem dólares em sua carteira.
Enquanto ia fazendo aquilo, ia também gravando novos números para eles, tirados de outras pessoas de quem me aproximei antes. Era como trocar as placas de vários carros, mas de forma invisível e instantânea. Sorri como se me desculpasse para Mr.Salsicha e continuei descendo as escadas. Parei junto de uns carros, o bastante para puxar as etiquetas de passe rápido com números identificadores tirados de outros carros do dia anterior.

Você pode pensar que eu estava sendo um pouco sacana, mas era conservador se comparado com muitos dos Xneters. Algumas garotas do programa de engenharia química da universidade de Berkeley tinham bolado um jeito de fazer uma substância inofensiva a partir de produtos de cozinha que faria disparar qualquer detector de explosivos. Elas tinham se divertido espalhando este liquido nas pastas e nos casacos dos professores, e se escondiam e para observar estes professores tentando entrar em auditórios e bibliotecas do campus e serem apanhados pelos novos esquadrões de segurança que brotavam por toda parte.

Outros queriam saber como fazer envelopes que dariam positivo em testes de anthrax, mas todo mundo achou que estavam ficando loucos. Felizmente, parece que não foram capazes de saber como.

Passei pelo hospital Geral de São Francisco e fiquei satisfeito ao ver as enormes filas nas portas da frente. Eles tinham um posto de checagem policial também, é claro, e havia muitos Xnetters trabalhando como internos e na cafeteria do hospital e por que não confundir e bagunçar os crachás eletrônicos? Eu tinha lido que as checagens de segurança levavam uma hora do dia de trabalho de todos e os sindicalistas estavam ameaçando ir embora a menos que o hospital fizesse algo a respeito.

Alguns quarteirões depois, vi uma fila ainda maior no BART. Tiras andavam para cima e para baixo da fila apontando para pessoas e os retirando dela para verificar bolsas e pastas. Eles continuavam a ser processados por este procedimento, mas não parecia que isso os faria desistir.
Cheguei à escola um pouco antes do horário e decidi descer a rua 22 e pegar um café - passei por um posto de checagem da polícia onde eles estavam mandando carros encostarem para inspeção secundária.

Na escola as coisas não estavam menos confusas - guardas da segurança estavam passando detectores de metal em nossas identificações escolares e parando estudantes com movimentos suspeitos para averiguação. Não é preciso dizer que todos nós tínhamos movimentos bem esquisitos. Não é necessário dizer que as aulas estavam começando com uma hora de atraso ou mais.
As turmas estavam enlouquecidas. Acho que ninguém conseguia se concentrar. Ouvi por alto dois professores falando sobre quanto demoraram para chegar em casa do trabalho o dia anterior e planejavam sair mais cedo naquele dia.

Tudo que eu fazia era rir. O paradoxo do falso positivo atacava de novo!
É claro que deixavam a gente sair mais cedo e eu segui para casa pelo caminho mais longo, pela Missão, para ver o caos. Longas filas de carros. As estações BART com filas dobrando as esquinas. Pessoas amaldiçoando os caixas eletrônicos porque não conseguiam sacar seu dinheiro: suas contas estavam congeladas por atividade suspeita (este é o perigo de deixar que os pagamentos dos passes livres fossem realizados direto nas contas bancárias.)

Fui para casa e fiz um sanduíche e me loguei à Xnet. Tinha sido um bom dia. Pessoas de todas as partes da cidade estavam comemorando seus sucessos. Tínhamos paralisado a cidade de São Francisco. Os noticiários confirmavam isso - diziam que a DHS tinha perdido o controle, punindo indiscriminadamente a todos com uma segurança de merda que supostamente deveria estar nos protegendo do terrorismo. A seção de negócios do São Francisco Chronicle dera na primeira página o custo econômico estimado, devido à segurança da DHS, por conta das horas perdidas de trabalho, reuniões, e por aí vai. De acordo com o economista do Chronicles, uma semana de confusão como aquela, custara à cidade mais do que a explosão da Bay Bridge.
Uha-há-há.
A melhor parte foi que papai só chegou em casa bem tarde. Tarde mesmo, umas três horas de atraso. Por quê? Por que ele foi parado e vasculhado e averiguado. Por duas vezes.
Duas!


Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 8 [ Download ]

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Incredible Science Fiction





 

 


Incredible Science Fiction comics (n.8, 9, 10 e 11) [ Download ]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Lançamento do livro FC do B - Ficção Científica Brasileira - Panorama 2008/2009





Fernando Vicente



 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

The Lone Star Stories Reader

A antologia The Lone Star Stories Reader é mais uma prova da ruptura de antigos paradigmas em todo o mundo. Ao longo de quase 5 anos, o webzine amador Lone Star Stories recebeu contos de diversos autores, agora apresentados na forma de uma antologia. Estes mesmos autores, em grande parte, deixaram o rótulo de "promissores", para integrar-se ao cenário da ficção especulativa como "autores da atualidade".

 




Como diz Sherwood Smith na introdução...

"Este livro é a prova de mudanças tectônicas alterando o panorama do mercado de livros.

Cinqüenta anos atrás, as histórias desta antologia poderiam fazer parte de qualquer uma das numerosas revistas encontradas em prateleiras de mercados e estações de trem e bancos de engraxate.

Ao longo dos últimos cinqüenta anos, as revistas impressas têm diminuído cada vez mais, pois as pessoas passaram a assistir televisão durante seu tempo de lazer. Apesar dos prognósticos terríveis, no entanto, a leitura não desapareceu. Junto ao crescente desenvolvimento da Internet, os 'zines começaram a proliferar.

Lone Star Stories fez sua primeira aparição no primeiro dia de fevereiro de 2004. Gratuita para os leitores, embora os autores fossem pagos por uma uma pequena soma vinda do bolso do editor, Eric Marin.
Sempre com histórias do gênero especulativo (ou fantástico), por vezes experimental, muitas vezes estranhas, e nunca previsíveis, o zine também trazia poesia; já que o próprio Marin é um poeta.
Se há algo que independe do tamanho do mercado, são bons escritores, e Marin sempre foi exigente.
Nos velhos tempos, você conhecia novas revistas olhando as capas, através da mídia impressa e, naturalmente, de boca em boca. Atualmente, o que temos é uma rede crescente de pessoas com os mesmos gostos e interesses que podem ser facilmente compartilhados com um único clique.
...
O único elemento que todas as histórias da coletânea tem em comum é a força de sua natureza transformadora. A força que reside na sua capacidade para redefinir os limites da realidade... ao leitor é dada a oportunidade de examiná-las. O reconhecimento das leis de que queremos nos desfazer, ao contrário daquelas que valem a pena lutar, pode ser transformadora, redentora, regenerativa.

É assim que vamos mudar o mundo, enquanto nos divertimos.
É ler, pensar e desfrutar.
 

CONTENTS

Introduction - Sherwood Smith
Wolf Night - Martha Wells
Seasonal Work - Nina Kiriki Hoffman
“Janet, Meet Bob” - Gavin J. Grant
The Great Conviction of Tia Inez - M. Thomas
Angels of a Desert Heaven - Marguerite Reed
The Disemboweler - Ekaterina Sedia
A Night in Electric Squidland - Sarah Monette
Thread: A Triptych - Catherynne M. Valente
The Frozen One - Tim Pratt
Dragon Hunt - Sarah Prineas
Manuscript Found Written in the Paw Prints of a Stoat - Samantha Henderson
Giant - Stephanie Burgis
When the Rain Comes - Josh Rountree
The Hangman Isn’t Hanging - Jay Lake
The Oracle Opens One Eye - Patricia Russo
About the Authors
A Note from the Editor

The Lone Star Stories Reader [ Download ]

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mysterious Creatures - A Guide to Cryptozoology



Preface

(“Why are so few students interested in science?”
This commonly posed question reflects a continuing worry among educators and cultural pundits. Here is a slight paraphrase: “Why do so few youngsters want to become biologists, when so many are interested in cryptozoology?”

The purpose of my paraphrase is to suggest that such matters as Loch Ness monsters—or unidentified flying objects (UFOs) or psychic phenomena—offer a way of getting students interested in science. These topics are mysteries, and human beings are naturally curious about mysteries. In trying to get to the bottom of them, we find ourselves learning about science along the way. Moreover, we learn about it in a way that shows science not to be a boring, cutand-dried subject as it is sometimes portrayed in popular culture.

One doesn’t need to be a formal student, of course. I was already a teacher when I became curious about whether Loch Ness monsters could be real, and my curiosity led me to learn about—among other things—biology and geology and the history, philosophy, and sociology of science. The latter interests eventually led to fruitful changes of career and intellectual activity, for which I have long been grateful. So one value of cryptozoology lies in its ability to stimulate curiosity and the good things that tend to follow on that.

Cryptozoology also has value for science itself. Though most cryptozoological claims may never be validated, the few that are vindicated are likely to be of exceptional interest, as is the case with the now accepted Giant squid (Architeuthis) that was long regarded as a purely mythical creature (the KRAKEN) or the almost certainly existing GIGANTIC OCTOPUS for which we have only historical evidence and a few bits
of preserved tissue...)



Preface, Henry Bauer 
How to Use This Book 
Introduction: If We Don’t Search, We Shall Never Discover, Loren Coleman 
Native and Western Eyewitness Testimony in Cryptozoology, Jack Rabbit 
Geologic Timescale 
Defining the Field 



Mysterious Creatures - A Guide to Cryptozoology - George M.Eberhart [ Download ]