sábado, 2 de janeiro de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 10
CAPÍTULO 10
Este capítulo é dedicado à Anderson’s Bookshops, uma lendária livraria infantil de Chicago. A Anderson’s é uma antiga empresa familiar, que começou como um mercado de outros tempos: além de outras coisas, também vendia livros. Hoje é um império de sucesso em livros infantis e com incríveis e inovadoras práticas de venda que unem crianças e livros de maneira realmente excitante. A melhor delas são as feiras móveis de livros, quando eles enviam enormes caminhões abarrotados de livros diretamente para as escolas das crianças - voilá, feira de livros instantânea!
Anderson's Bookshops: 123 West Jefferson, Naperville, IL 60540 USA +1 630 355 2665
O que você faria se descobrisse que tem um espião no seu meio? Você poderia denunciá-lo, colocá-lo contra a parede e obrigá-lo a confessar. Mas você terminaria com outro espião e o novo espião seria mais cauteloso do que o anterior e talvez não pudesse ser descoberto tão fácil.
Aqui está uma idéia melhor: comece interceptando as comunicações do espião e passando-lhe informações erradas. Vamos dizer que os superiores dele o instruíram para obter informações sobre seus movimentos. Deixe o espião lhe seguir à vontade e tomar todas as notas que quiser, porém quando ele for enviar as informações ao Quartel General, substitua estas informações por falsas. Se quiser, mande informações erradas e estranhas para que ele seja desacreditado.Você pode fabricar uma crise de modo a fazer com que o outro lado revele a identidade de seus espiões. Resumindo, você os controlaria.
Isso se chama ataque do homem-no-meio; se você parar para pensar é bem assustador. Alguém que fique nesta posição pode te prejudicar de muitas maneiras.
É claro, tem um jeito sensacional de escapar do ataque do homem-no-meio: Usando cripto. Com criptografia, não importa se o inimigo pode ver suas mensagens, porque ele não pode decifrá-las, alterá-las e reenviá-las. Esta é uma das principais razões para usar criptografia.
Mas lembre-se: para a criptografia funcionar, você precisa ter chaves para as pessoas com quem você quer falar. Você e seu parceiro precisam compartilhar este segredo, ter algumas chaves para que possam criptografar e descriptografar mensagens de modo que o homem-do-meio fique de fora.
É onde reside a idéia da chave pública. É um pouco trabalhosa, mas é inacreditavelmente funcional também.
Em criptografia de chave pública, cada usuário fica com duas chaves. São longas cadeias matemáticas ininteligíveis, e possuem uma propriedade quase mágica. Qualquer coisa que você embaralhe com uma chave o outro poderá entender e vice-versa. E são as únicas chaves com as quais você poderá fazer isso - se você pode desembaralhar uma mensagem com uma chave, você sabe que pode embaralhar com a outra (e vice-versa).
Então você usa uma destas chaves (não importa qual) e você a publica. Deste modo ela não é mais secreta. Qualquer um no mundo poderá conhecê-la. Por este motivo, obviamente, ela se chama “pública”.
A outra chave você guarda no canto mais longínquo do seu cérebro. Protege-a com a sua própria vida. Não deixa que outra pessoa fique sabendo dela. É chamada chave privada (Duh!)
Agora digamos que você é um espião e quer falar com seus chefes. Suas chaves públicas são conhecidas por todos. Ninguém conhece a sua chave privada, só você. Ninguém sabe a chave privada deles a não ser eles.
Você quer mandar uma mensagem. Primeiro você a criptografa com sua chave privada. Você poderia mandar a mensagem deste jeito, e funcionaria bem, desde que eles soubessem quando a mensagem chegasse e foi você que a mandou. Como? Porque se eles podem decriptografá-la com sua chave pública, significa que só pode ter sido criptografada com sua chave privada. É o equivalente a pôr seu selo ou assinatura no fim da mensagem. Isso diz “Eu escrevi isso e ninguém mais. Ninguém a adulterou ou alterou.”
Na verdade, isso infelizmente não mantém sua mensagem secreta, porque sua senha pública é bem conhecida (e tem que ser, ou você estaria limitado a mandar mensagens para as poucas pessoas que têm sua chave pública). Qualquer um que interceptar a mensagem vai poder lê-la. Eles não podem mudá-la e fazer parecer que veio de você, mas se você não quiser que qualquer um saiba o que está dizendo, então precisa de uma solução melhor.
Então, ao invés de só criptografar a mensagem com sua chave privada, você também a criptografa com a chave pública de seus chefes: agora ela está duplamente fechada. A primeira criptografia- a chave pública de seus chefes - só pode ser aberta com a chave privada de seus chefes. A segunda criptografia- sua chave privada - só é aberta com sua chave pública. Quando seus chefes receberem a mensagem, eles a abrirão com ambas as chaves e agora eles terão certeza de que a) você a escreveu e b) apenas eles podem ler.
Muito legal! O dia que eu descobri isso, Darryl e eu imediatamente trocamos chaves e passamos meses trocando mensagens como se fossem altos segredos militares sobre onde iríamos nos encontrar após a escola ou onde quer que Van pudesse nos encontrar.
Mas se você quer entender sobre segurança, você precisa considerar as possibilidades mais paranóicas. Do tipo, o que aconteceria se eu te enganasse pensando que minha chave pública é a chave pública de seu chefe? Você poderia criptografar a mensagem com sua chave privada e minha chave pública. Eu descriptografaria a mensagem, leria, criptografaria novamente com a chave pública verdadeira do seu chefe e a mandaria. Assim o seu chefe saberia que ninguém, a não ser você, poderia ter escrito a mensagem e ninguém, a não ser ele, poderia ter lido.
E eu ficaria no meio, como uma aranha gorda na teia, e todos seus segredos me pertenceriam.
Agora, a maneira mais fácil de consertar isso é anunciar amplamente sua chave pública. Se for realmente fácil para qualquer um saber qual é sua verdadeira chave, as coisas para o homem do meio ficam muito, muito difíceis. Mas sabe o que mais? Fazer as coisas serem bem conhecidas é tão difícil quanto guardar um segredo. Pense nisso - quantos bilhões de dólares são gastos em comerciais de xampu e outras porcarias apenas para fazer com que muitas pessoas conheçam o que algum anunciante quer que elas saibam?
Tem um jeito mais barato de fazer isso: A rede de confiança. Digamos que, depois de sair do Quartel General, você e seus chefes sentem para um café e um conte ao outro suas chaves. Nada mais de homem-do-meio! Você tem certeza das chaves que possui porque foram todas colocadas em suas mãos.
Até aí, tudo bem. Mas existe um limite natural para se fazer isso: com quantas pessoas você consegue encontrar-se fisicamente e trocar chaves? Quantas horas do dia você quer se dedicar a escrever o equivalente a seu próprio catalogo telefônico? Quantas destas pessoas estão dispostas a fazer o mesmo por você?
Pense nisso como um auxílio à lista telefônica. O mundo é um lugar com várias listas telefônicas e quando você precisa de um número, você pode procurar na lista. Mas muitos destes números você já conhece ou pode perguntar a alguém. Hoje, quando estou na rua com meu telefone celular, eu perguntaria a Jolu ou Darryl se eles têm o número que eu procuro. É mais rápido e fácil do que procurar online e eles também são mais confiáveis. Se Jolu tem o número e eu confio nele, então confio também neste número. Isso se chama “confiança transitiva” - a confiança que se move através da rede de nossos relacionamentos.
Uma rede de confiança é uma versão maior que isso. Digamos que eu encontre Jolu e pegue sua chave. Posso colocá-la no meu “chaveiro” - uma lista de chaves que eu assino com minha chave privada. Isso significa que você não pode abri-la com minha chave pública e fica claro para mim - ou alguém com minha chave, enfim - diz que “essa chave pertence a este cara.”
Então eu te passo meu “chaveiro” e a confiança de que eu pessoalmente verifiquei cada chave nele, você pode então acrescentá-lo ao seu “chaveiro”. Agora você encontra alguém e lhe passa seu “chaveiro”. O chaveiro começa então a ficar maior e maior, e determina que você confia no cara seguinte na corrente e ele confia no cara seguinte e assim vai, você está assim bastante seguro.
O que me traz de volta às festas de assinatura das chaves. Isso significa exatamente o que quer dizer, uma festa onde todos se encontram e assinam um as chaves dos outros. Quando Darryl e eu trocamos chaves foi tipo uma mini festa de assinatura de chaves, uma festa com apenas dois tristes geeks. Mas, com mais gente, está criada a semente da rede de confiança, e a rede se espalha a partir daí. Assim que qualquer um com seu “chaveiro” sai pelo mundo e encontra outras pessoas, acrescentam mais e mais nomes as suas chaves. Você não precisa encontrar gente nova a partir daí, apenas acreditar que a chave que você pegou das outras pessoas de sua rede é válida.
Por isso, rede de confiança e festas particulares são como arroz e feijão.
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‘Diz ao pessoal que é uma festa super-privada, somente convidados. É para não trazer ninguém de fora ou eles não serão admitidos!’ Eu disse.
Jolu me olhou sobre seu café. “Tá brincando não é? Se você disser isso, todo mundo vai trazer amigos de fora.”
“Argh” eu disse. Eu passava uma noite por semana com Jolu, atualizando o código do indienet. O Porco Melancólico pagava por isso, o que era realmente bizarro. Eu nunca tinha sido pago para escrever programas.
“Então o que a gente faz? Só queremos pessoas em quem confiamos de verdade, e não queremos dizer o motivo até ter as chaves de todos e então poder mandar uma mensagem em segredo para eles.”
Jolu reescrevia e eu olhava sobre seu ombro. Isso se chamava “Programação extrema” o que era um pouco embaraçoso. Nós chamávamos apenas “programação”. Duas pessoas conseguem visualizar erros melhor do que uma. Como diz o clichê “duas cabeças...”.
Estávamos acabando a última lista de erros e prestes a acabar uma nova versão. Tudo gravado em background, assim nossos usuários não precisariam fazer nada, eles acordariam com um programa melhor esperando por eles. Era muito louco saber que o código que eu escrevi seria usado por centenas de milhares de pessoas, amanhã.
“O que faremos? Eu não sei! Acho que teremos que viver com isso…”
Lembrei dos nossos dias de Harajuku Fun Madness. Desafios sociais envolvendo grande número de pessoas como parte de um jogo.
“OK, você está certo. Mas vamos ao menos tentar manter em segredo. Diga-lhes que podem trazer no máximo uma pessoa e tem que ser alguém que conheçam pessoalmente, no mínimo por uns cinco anos.”
Jolu olhou para a tela. “Hei, isso vai dar certo. Já posso ver. Quero dizer, se você me diz para não trazer ninguém, todos dirão ‘Quem diabos ele pensa que é?’ Mas quando você põe desta maneira, parece algo do tipo 007.”
Eu encontrei um erro. Bebemos mais café. Fui para casa e joguei um pouco de Clockwork Plunder, tentando não pensar em donos de chaves com perguntas estúpidas e dormi como um bebê.
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Sutro Baths era uma autêntica ruína romana de mentira, em São Francisco. Quando abriu em 1896, era a maior casa de banhos do mundo, um gigantesco solarium de vidro vitoriano repleto de piscinas e banheiras e até uma queda d’água. O declínio começou nos anos 50 e os proprietários a incendiaram em 1966 para receber o seguro. Tudo que restou foi um labirinto de pedra desgastada pelo tempo próximo às bordas de um penhasco em Ocean Beach. Se parece com uma ruína romana, desmoronada e misteriosa e além estão algumas cavernas que vão dar no mar. Quando o mar está alto e bravo, as cavernas se inundam e invadem as ruínas - são conhecidos casos ocasionais de turistas que se afogaram por lá.
Ocean Beach fica um pouco depois do parque Golden Gate, uma linha de precipícios com caríssimas residências abandonadas sobre o abismo de uma praia estreita e infestada por águas-vivas e surfistas malucos. Há uma pedra enorme e branca que se sobressai na praia rasa, chamada Seal Rock e costumava ser o lugar onde os leões marinhos se juntavam até que foram realocados para um ambiente mais propício para os turistas, em Fisherman Wharf.
À noite é difícil encontrar alguém por lá. É muito frio, com o spray de sal que impregna seus ossos se você deixar. As rochas são pontiagudas e há sempre vidro quebrado e de vez em quando, agulhas deixadas por viciados.
Um lugar sensacional para uma festa.
Minha idéia era espalhar alguns panos encerados no chão e alguns aquecedores químicos. Jolu sabia onde conseguir a cerveja - seu irmão mais velho, Javier, tinha um contato que tinha um lance de venda de bebidas para menores de idade, o que pagava bem e iria providenciar para nossa festinha privada, barris com gelo e quanta cerveja nós quiséssemos. Usei uma parte da grana que ganhei com a programação da indienet e o cara ficou de aparecer na hora, 8 da noite, uma hora após o pôr do sol e trazer seis barris de gelo em sua picape até as ruínas dos Banhos. E trouxe até um barril vazio.
“Vocês meninos, brinquem direito!” ele disse ajeitando seu chapéu de cowboy. Ele era um samoano gordo com um enorme sorriso e uma pavorosa camisa sem manga dando para ver os pêlos saindo do sovaco e da barriga. Tirei vintinho da minha grana e passei para a sua mão - sua margem de lucro era de 150%. Nada mal.
Ele olhou para a minha grana e disse “Você sabe, eu poderia tirar isso de você.” disse sorrindo. “Afinal de contas eu sou um criminoso.”
Guardei o dinheiro no bolso e olhei francamente nos olhos dele. Eu tinha sido estúpido de mostrar quanto dinheiro eu estava carregando, mas eu sabia que algumas vezes você tem que se garantir.
“Tô só de brincadeira contigo!” ele disse, finalmente. “Mas toma cuidado com este dinheiro. Não sai mostrando ele por aí.”
“Valeu!” eu falei. “Onde está a DHS quando se precisa dela?”
Seu sorriso ficou ainda maior. “Há! Eles nem são tiras de verdade. Aqueles pica-paus não sabem de nada.”
Olhei para sua picape. Bem em seu quebra-vento havia um passe rápido. Pensei quanto tempo demoraria até pegarem ele.
“Vai ter garotas aqui esta noite? É pra isso que você pediu tanta cerveja?”
Eu sorri e acenei para ele como se me despedindo. Ele entendeu a dica e foi embora. Seu sorriso nunca se abalava.
Jolu me ajudou a esconder as geladeiras nos entulhos, trabalhando à luz de pequenas lanternas de LED branco presas a nossas testas. Uma vez que estavam no lugar, jogamos pequenos porta-chaves com LEDs dentro dos isopores para facilitar encontrá-los depois.
Era uma noite sem lua e com neblina, e as luzes de rua distantes nos iluminavam. Eu sabia que pareceríamos labaredas à mira infravermelha, mas não há como juntar um monte de gente sem ser visto. Eu estava preparado para ser mandado embora dali, como se fosse uma pequena festa de bêbados na praia.
Eu não bebia muito. Sempre tinha cerveja, maconha e ecstasy nas festas que ia desde que tinha 14 anos, mas eu odiava fumar (contudo sou meio favorável a um brownie de haxixe às vezes), ecstasy tem um efeito muito prolongado - leva um final de semana para ficar no barato e outro para voltar ao normal - e cerveja, bem, é legal, mas eu ainda não entendo o que tem de tão bom. Meu favorito são grandes e elaborados coquetéis, do tipo servido em uma réplica de vulcão de cerâmica, com seis camadas, em fogo e um macaco de plástico na beirada, mas isso tudo é mais teatral do que qualquer outra coisa.
Eu gosto de ficar bêbado. Só não gosto da ressaca, e cara, eu sempre fico de ressaca. Provavelmente isso deve ter a ver com o tipo de drinques que são servidos em um vulcão de cerâmica.
Mas não dá pra dar uma festa sem colocar um tonel ou dois de cerveja no gelo. É o esperado. Faz a coisa toda funcionar. As pessoas fazem coisas bem estúpidas depois de muitas cervejas, mas não como meus amigos, e sim aqueles que têm carros. E pessoas fazem mesmo coisas estúpidas, não importa - cerveja ou maconha ou o que for, são todas secundárias ao fato principal.
Jolu e eu abrimos cada qual uma cerveja - Anchor Steam para ele e Bud Lite para mim - brindamos batendo as garrafas e sentamos numa pedra.
“Você disse para eles 9 da noite?”
“Sim!” ele disse.
“Eu também.”
Bebemos em silêncio. A Bud Lite era a coisa menos alcoólica no gelo. Eu precisava ter as idéias bem claras mais tarde.
“Você ficou com medo alguma vez?” eu disse ao fim.
Ele se virou para mim. “Não, cara, não fiquei. Eu sempre estou com medo. Tenho medo desde o minuto que as explosões ocorreram. Tenho tanto medo as vezes que não quero nem sair da cama.”
“Então por que está fazendo isso?”
Ele sorriu e disse:
“Talvez eu não faça isso por muito tempo. Quero dizer, é ótimo te ajudar. Legal mesmo! Não me lembro de ter feito algo assim tão importante. Mas, Marcus, meu camarada, tenho que te dizer...” e sua voz se arrastou até sumir.
“O quê ?” Eu sabia o que viria em seguida.
“Não posso fazer isso para sempre” disse, finalmente. “Talvez nem mais um mês. É muito arriscado. O DHS, não dá para brigar contra eles. É loucura. De verdade.”
“Você parece aVan.” eu disse. Minha voz soou mais amarga do que eu pretendia.
“Não estou te criticando, cara. Acho muito bacana você ser tão corajoso e fazer tudo isso. Mas não dá. Não posso viver minha vida o tempo todo apavorado.”
“O que está dizendo?”
“Estou dizendo que estou fora. Eu vou ser uma destas pessoas que agem como se tudo estivesse bem, como se tudo fosse voltar ao normal algum dia. Vou usar a internet como sempre usei e somente usarei a Xnet para jogos. Eu vou parar com tudo isso, é o que estou dizendo. Nunca mais vou fazer parte dos seus planos.”
Eu não disse nada.
“Eu sei que estou te deixando sozinho. E não queria isso, acredite. Não gostaria que você desistisse de mim. Você não pode declarar guerra ao governo dos EUA. Não é uma briga que alguém possa vencer. Ver você tentar é como assistir um pássaro se jogando contra o vidro de uma janela, de novo e de novo.”
Ele esperava que eu dissesse algo. O que eu queria dizer era, Jesus Cristo, Jolu, muito obrigado por me abandonar! Você se lembra como foi quando eles nos soltaram? Você se lembra como era o nosso país antes deles tomarem conta de tudo? Mas não era o que ele queria que eu dissesse. O que ele queria era:
“Eu entendo, Jolu. Eu respeito a sua escolha.”
Ele virou o resto da garrafa, puxou outra e arrancou a tampinha.
“E tem mais uma coisa...” ele falou.
“O quê?”
“Eu não ia dizer isso, mas quero que entenda o motivo de estar fazendo isso.”
“Caramba, Jolu, o que?”
“Eu odeio dizer isso, mas você é branco. Eu não sou. Gente branca pode ser pega com cocaína e só precisam passar pelo tratamento de reabilitação. Pessoas de cor são pegas com crack e vão para a prisão por vinte anos. Pessoas brancas vêem a polícia na rua e se sentem seguras. Pessoas de cor vêem os policiais na rua e pensam que estão ali pra te prender. Sabe o modo que o DHS está lidando com você? A lei deste país sempre foi assim conosco.”
Aquilo era injusto. Eu não pedi para ser branco. Eu não pensava que podia ser corajoso apenas por ser branco. Mas eu sabia o que Jolu estava dizendo. Se os policiais paravam alguém na Missão e pediam para ver a identidade, havia grande chance desta pessoa não ser branca. Qualquer risco que eu estivesse correndo, o de Jolu era maior ainda. Qualquer penalidade que eu tivesse que pagar, Jolu pagaria mais.
“Não sei o que dizer.” falei.
“Não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse, para que pudesse entender.”
Vi algumas pessoas vindo pelo caminho na nossa direção. Eram amigos de Jolu, dois mexicanos e uma garota que eu conhecia de vista, pequena e engraçada, sempre com óculos escuros tipo Buddy Holly que a faziam parecer uma estudante de artes rebelde que sempre conseguia alcançar o sucesso nos filmes para adolescentes.
Jolu nos apresentou e demos cervejas para eles. A garota não quis e tirou da bolsa uma garrafinha pequena e prateada de vodka e me ofereceu. Tomei um gole - vodka quente requer um paladar apurado - e devolvi o frasco que era decorado com Parappa o Rapper.
“É japonesa” ela disse. “Eles têm estas garrafinhas para birita baseadas em jogos infantis. Totalmente demais!”
Eu me apresentei e ela se apresentou como ‘Ange’, e apertamos as mãos um do outro - sua mão era quente e seca com unhas curtas. Jolu apresentou seus camaradas, que eram seus conhecidos desde um acampamento de computadores na quarta série. Mais gente foi surgindo - cinco, então dez, e então vinte. Já era um grupo bem grande.
Tínhamos dito para que chegassem as 9:30 em ponto e aguardamos até as 9:45 para ver quem ainda apareceria. Quase 3/4 dos amigos de Jolu estavam presentes. Eu havia convidado todas as pessoas que realmente eu confiava. Ainda assim, eu era mais discriminador que Jolu, ou menos popular. Agora que ele me contou que estava saindo fora, me fez pensar que ele era menos discriminatório. Eu estava bravo com ele, mas tentava não demonstrar, concentrando-me em socializar com os outros. Mas ele não era estúpido. Ele sabia o que estava rolando. Eu podia ver que estava realmente deprimido. Bom.
“OK!” eu disse subindo em uma ruína. “OK, EI, ALÔ?” Alguns poucos mais próximos prestaram atenção em mim, mas aqueles ao fundo continuavam conversando. Levantei os braços como um juiz de futebol, mas estava escuro demais. Ao final tive a idéia de usar a lanterna LED do chaveiro para apontar cada um deles que ainda conversavam e atrair a atenção para mim. Aos poucos, a turma se aquietou.
Saudei a todos e agradeci por terem vindo e pedi que se aproximassem para que eu pudesse explicar o motivo de estarem ali. Podia dizer que estavam cientes da discrição da coisa, intrigados e um pouco calorentos por conta da cerveja.
‘É o seguinte. Todos vocês usam o Xnet. Não foi uma coincidência a Xnet ter sido criada logo apos a DHS tomar conta da cidade. As pessoas que a criaram são parte de uma organização devotada à liberdade individual, e criaram a rede para nos manter a salvo da DHS.”Jolu e eu já tínhamos trabalhado naquele discurso com antecedência. Nós não iríamos contar que estávamos por detrás disso tudo, não para todos.
Era muito arriscado. Ao invés, iríamos nos colocar como meros tenentes do exército de “M1k3y”, agindo para organizar a resistência local.
“A Xnet não é pura. Ela pode ser usada pelo outro lado, assim como nós. Sabemos que existem espiões da DHS que também a utilizam. Eles usam truques de engenharia social para tentar que nós nos revelemos, para poderem vir nos prender. Para que a Xnet tenha sucesso, precisamos pensar numa maneira de evitar que eles nos espionem. Precisamos de uma rede dentro da rede.”
Parei e esperei que entendessem. Jolu havia sugerido que poderia ser um pouco pesado para alguns entender que eles estavam sendo recrutados para uma célula revolucionária.
“Prestem atenção, não estou pedindo que façam nada. Vocês não precisam sair por ai causando interferência ou coisa assim. Vocês foram convidados para vir por serem pessoas legais e sabemos que podemos confiar em vocês. É com esta confiança que eu espero que contribuam esta noite. Alguns de vocês já conhecem a rede de confiança e as festas de assinatura de chaves, mas para o resto de vocês, eu vou explicar bem devagar como isso funciona...’ E foi o que fiz.
‘Agora o que eu quero de vocês esta noite é que encontrem aqui as pessoas e pensem o quanto podem confiar nelas. Nós ajudaremos a vocês a gerar chaves e compartilhar elas com os outros.’
Esta parte era complicada. Pedir para que trouxessem seus laptops não funcionaria, mas ainda precisávamos fazer algo muito complicado e que não funcionaria muito bem com papel e caneta.
Eu havia trazido um laptop que eu e Jolu montamos na noite anterior quase que a partir do zero. “Eu trouxe este laptop de confiança. Cada componente foi colocado dentro dele com nossas próprias mãos. Está executando uma versão não padrão de ParanoidLinux, a partir de um DVD. Se existe uma máquina confiável neste mundo, com certeza é esta aqui.”
“Eu tenho um gerador de chaves nela. Vocês vão vir aqui e fazer uma entrada aleatória - apertar as teclas, mexer o mouse - e isso será usado para criar uma chave aleatória pública e privada para você. Essa chave aparecerá na tela. Vocês poderão tirar uma foto dela com o celular e apertar qualquer tecla para que ela desapareça para sempre - ela não será guardada neste computador. Então o programa irá te mostrar a sua chave pública. Neste instante, você vai chamar todas as pessoas daqui em quem confiam e que confiam em você e eles vão tirar uma foto da tela com você junto dela, assim eles saberão de quem é a chave.”
“Quando vocês chegarem em casa, vão precisar converter as fotos em chaves. Isso vai dar um pouco de trabalho, eu receio, mas só precisarão fazer isso uma vez. Vocês precisam ser super cuidadosos ao digitar - um erro e estarão ferrados. Felizmente temos um jeito de dizer se deu certo; debaixo da chave tem um número menor, chamado “impressão digital”. Uma vez que você tenha digitado a chave, você pode gerar uma “impressão digital” dela. É só comparar. Se forem iguais, você está digitando certo.”
Todos estremeceram. OK, eu estava pedindo para fazer algo bem estranho, mas ainda assim era preciso.
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Os melhores livros de Ficção Científica e Fantasia (2000 a 2009)
Declare (2001) é um romance de fantasia de Tim Powers, uma versão inovadora para o gênero espionagem.
O reino mundano da biologia, se rende ao domínio das forças sobrenaturais que manipulam nossa vida à sua vontade, e alguns seres humanos são cúmplices das entidades e djinns. Os soviéticos aceitam, com fatalismo, uma poderosa rainha djinn como patronesse, zelando pela manutenção e expansão das fronteiras da URSS e do comunismo, implicando que para isso, agentes russos devam ser enviados para o Monte Ararat, local onde a aliança será firmada. Contra esta perspectiva apocalíptica, as potências ocidentais mobilizam seus serviços secretos para uma uma missão com o objetivo de manter fechada a rolha na garrafa do gênio.
O livro ganhou o World Fantasy Award e o International Horror Guild, e foi indicado para o Prêmio Locus.
Cloud Atlas (2004), o romance do autor britânico David Mitchell, ganhou o British Book Awards Literary Fiction Award e o Richard&Judy de Livro do Ano, e foi pré-seleccionados para o Booker Prize, Nebula, Arthur C. Clarke Award, e outros prêmios, colocando-o entre os mais premiados na história recente da FC.
O virtuoso Mitchell evoca uma variedade de gêneros, de Melville ao noir californiano, até a fantasia distópica. Temos um funcionário ingênuo, numa viagem à Polinésia do século XIX, uma aspirante a compositora que se insinua na casa de um gênio sifilítico; um jornalista que investiga uma usina nuclear, uma editora com um perigoso best-seller em suas mãos, e um humano clonado que está sendo criado para o trabalho escravo.
Estas histórias são divididas e organizadas em torno de uma sexta história, de um narrador em uma ilha pós-apocalíptica, que constitui o cerne do romance.
Mélusine (2005) é um romance de fantasia de Sarah Monette.
A história gira em torno de duas personagens: Félix Harrowgate, um mago e membro da alta sociedade da Magia, e o ladrão Mildmay, a Raposa, que vivem em regiões muito diferentes da cidade de Melusina.
O destino os reune quando Félix é acusado de destruir o cristal Virtu, uma esfera que canaliza a energia mágica em Melusina. Mildmay, por outro lado, compromete-se por um furto menor. O roubo abre o caminho para uma série de acontecimentos infelizes, que forçam Felix e Mildmay, à uma parceria que nenhum deles poderia ter previsto ou desejado.
Burn (2005) é um romance de ficção científica de James Patrick Kelly, e recebeu um prêmio Nebula.
Prosper Gregory Leung é um agricultor que foi recrutado para ajudar a combater os incêndios florestais em seu planeta natal de Walden. Após ser ferido no cumprimento do dever, ele é enviado para recuperar-se em um hospital, onde acaba por entrar em contato com um jovem governante do planeta Kenning.
Kelly extrapola intrigantes aspectos humanos ao nos apresentar uma colônia de "humanos verdadeiros", que rejeitara a tecnologia avançada, em troca de uma vida de simplicidade voluntária.
Natural History (2004) de Justina Robson é um romance ousado e original de FC, uma obra impressionante, de idéias arrojadas e personagens inesquecíveis.
Retrata um mundo do futuro, em que criaturas especiais e sensíveis, chamadas forged (forjados), foram criadas para funções específicas. Quando crianças, elas vivem uma vida rica em realidade virtual, onde desenvolvem suas funções biológicas. No entanto, quando adultos recebem órgãos e personalidades que são projetadas para atender a finalidades específicas. Já não são permitidas no espaço virtual, e estão presos em corpos mecânicos, desprovidos das ricas experiências e das relações com os quais foram criados.
Embora a ideia de híbridos da engenharia genética não seja em nada nova, a forma com que Robson dá vida aos forged é deslumbrante, e Robson não deixa o leitor ignorar as implicações sexuais, biológicas e éticas.
Camouflage (2004), o romance de ficção científica escrito por Joe Haldeman, ganhou os prêmios Nebula e o Tiptree James, Jr.
Um milhão de anos antes da aurora do Homo sapiens, dois imortais alienigenas vagam pela Terra, desmemoriados de sua origem ou finalidade. Mais tarde, no ano de 2019, um artefato em formato de ovo, é descoberto ao largo da costa de Samoa, enterrado nas profundezas do oceano.
O misterioso artefato faz com que os dois seres alienígenas se questionem sobre o significado do objeto e sua relação com ambos.
Seeker (2005) é um romance de ficção científica de Jack McDevitt e recebeu o prêmio Nebula, além de ter sido indicado ao John W. Campbell Award.
A história se passa cerca de 10.000 anos no futuro, após a raça humana ter se expandido a ponto de habitar incontáveis mundos.
Alex Bento e seu parceiro Chase Kolpath, se especializaram em um novo tipo de arqueologia espacial, envolvendo vasculhar bases abandonadas e espaçonaves desertas, em busca de itens valiosos.
Porém um dia se aproxima de Alex uma misteriosa mulher, que pede a ele para verificar o valor de um copo cheio de símbolos estranhos. Depois de alguma pesquisa, descobrem que a taça é uma relíquia de 9.000 anos de idade, de um dos primeiros veículos FTL (mais rápido que a luz), o Seeker.
Seeker era uma nave-colônia, tripulada por uma facção conhecida como Margolians, que estavam fugindo de uma sociedade opressora, na esperança de se estabelecer em um mundo livre.
Mal sabem eles que este é apenas o começo de uma aventura que os levará aos confins do Universo.
Hominids (2003) de Robert J. Sawyer, ganhou o Hugo e foi indicado para receber o Nebula, devido a sua originalidade e extrapolação científica única.
Hominids é um romance de ficção especulativa, e também o primeiro livro da série Neanderthal Parallax, uma trilogia que analisa duas espécies estranhas uma para a outra, e unidas na busca incessante do conhecimento.
Nós somos uma dessas espécies, a outra é a do Homem de Neandertal, de um mundo paralelo, onde eles, e não o Homo sapiens, tornaram-se a inteligência dominante. Nesse mundo, a civilização Neanderthal alcançou status de cultura e possui uma ciência comparável à nossa, mas diferentes em sua história, sociedade, filosofia, etc.
Durante um experimento em uma mina no Canadá, Ponter Boddit, um físico Neanderthal, acidentalmente perfura a barreira entre os mundos, e é transferido para o nosso universo.
Ele é capturado e estudado, sozinho e confuso, um estranho em uma terra estranha.
O contato entre humanos e neandertais cria um relacionamento cheio de conflitos, um desafio filosófico que ameaça a existência das espécies, mas igualmente rico em possibilidades de cooperação e de crescimento em vários aspectos científicos e até espiritual.
Never let me go (2005) é um romance de ficção especulativa do escritor britânico Kazuo Ishiguro.
O livro foi indicado para os prêmios Booker Prize, Arthur C. Clarke e o National Book Critics Circle Award e a revista Time nomeou-o como melhor romance de 2005 e o incluíu na lista dos 100 melhores em língua inglesa (1923-2005). Ele também recebeu uma ALA Alex Award.
A história se passa em uma Inglaterra distópica, em que os seres humanos são clonados para fornecer órgãos para transplante, e Kathy, uma jovem de 31 anos, e seus amigos, foram criados para serem doadores.
Mortal Engines (2004) é o primeiro romance de Philip Reeve, da série steampunk Hungry City Chronicles.
O livro, que ganhou o prêmio Nestlé Smarties Book Prize, e foi indicado para o Whitbread, é ambientado em um mundo pós-apocalíptico steampunk, devastado em eras passadas por um holocausto nuclear conhecido como "Sixty Minute War".
Para fugir dos terremotos, vulcões e outras instabilidades geológicas, um homem chamado Nikola Quercus, projetou um sistema que permite que cidades inteiras se tornem veículos imensos, conhecidos como Traction Cities, e que devem consumir umas as outras, a fim de sobreviver em um mundo privado da maior parte dos recursos naturais.
A Europa, parte da Ásia, o norte da África, a Antártida e o Ártico, são habitadas por Traction Cities, e a América do Norte tornou-se um deserto radioativo. As nações deixaram de existir, sendo cada cidade um Estado.
Londres é a Traction Cities principal do livro.
Em Londres os Engenheiros são responsáveis por manter as máquinas. Os Historiadores são responsáveis por recolher e preservar artefatos antigos, altamente valorizados. Os Navegadores são responsáveis pela direção e por traçar o curso de Londres. Os Comerciantes são responsáveis pela economia.
Uma aventura excitante, violenta e tremendamente cativante.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Os melhores livros de Ficção Científica e Fantasia (2000 a 2009)
Look to Windward (2000) é uma space-opera do escritor escocês Iain M. Banks, parte da série conhecida como Culture.
A civilização Chelgrian entrou em colapso graças a uma guerra civil que matou cinco bilhões de Chelgrianos.
O Major Quilan ainda sofre pela morte de sua esposa durante a guerra civil Chelgrian, quando ambos eram soldados. Oferecida a oportunidade de vingar-se, Quilan recebe a mente de um general morto, através de um 'soulkeeper', um dispositivo normalmente usado para armazenar a personalidade de seu dono em caso de morte. Quilan é então enviado para Masaq Orbital (um gigantesco anel espacial, frequentado por diversas culturas alienígenas, por se tratar de um paraíso de prazer e diversão).
Para protegê-lo, sua memória original é inibida, até que ele atinja seu alvo.
No entanto, ele agora possui memórias que remontam à Guerra, e precisa lutar com seus próprios demônios, sobre o seu papel naquela missão.
Look to Windward pode ser considerado a última peça do quebra-cabeças montado por Banks, um romance maduro, com doses de terror, por vezes com passagens hilariantes. Observações sociais elaboradas, seqüências de ação e intriga intensas, são as marcas do equilíbrio conseguido por Banks, e que tornaram Look to Windward um dos romances mais importantes de FC mundial.
Perdido Street Station (2001) escrito por China Miéville, explora um mundo fictício, industrial e capitalista, habitado por humanos e xenians, seres humanóides parte inseto, ou parte pássaro, ou cactus, etc, onde a magia e a tecnologia co-existem, apesar desta última não ter evoluido da maneira tradicional, uma combinação de alquimia, ciência vitoriana steampunk.
O romance foi indicado para o Nebula e o Hugo, e recebeu os prêmios British Society Derleth Fantasy, o Arthur C. Clarke, o Ignotus e Kurd Laßwitz Award.
Isaac Dan der Grimnebulin é um cientista excêntrico e corpulento que vive com sua namorada Lin, de uma raça de insectóides. Enquanto ela é uma artista, Isaac, que é visto como um pária pelos acadêmicos devido ao seus métodos pouco conformes, se vê diante de um desafio. Restabelecer as asas do multilado garuda Yagharek, cortadas por sua tribo, como castigo por um crime que ele alega não ter equivalente entre os humanos. Isaac é provocado pela natureza aparentemente impossível da tarefa, e reúne todos os animais voadores para estudar em seu laboratório - incluindo uma larva multicolorida não identificável, obtida através de meios ilícitos.
Isaac descobre que a lagarta se alimenta de uma droga alucinógena chamada "dreamshit", e começa a alimentá-la, involuntariamente assim estimulando sua metamorfose em uma borboleta incrivelmente perigosa, hipnótica e que se alimenta dos sonhos das pessoas, deixando-as catatônicas.
Quando a criatura escapa, toda a cidade corre perigo, e apenas Isaac pode encontrar um jeito de salvá-los.
Oryx and Crake (2003) é uma ficção científica distópica da autora canadense Margaret Atwood.
Oryx e Crake foi selecionada para o Man Booker Prize.
Oryx e Crake analisa criticamente a evolução científica e tecnológica, tais como o xenotransplante e a engenharia genética, principalmente a criação de animais híbridos como "wolvogs (cruzamento de lobos e cães)," rakunks "(quati e gambá), e" pigoons "(suínos e babuínos, para fornecer orgãos para transplantes).
Esta sociedade, que não só tolera mas favorece a comercialização tão extrema e a mercantilização da vida, também produziu uma diferença agravada entre ricos e pobres, bem como pornografia infantil on-line.
Oryx and Crake não procura imaginar novas descobertas; o romance extrapola apenas com base em tecnologias que estão, em princípio, disponíveis atualmente, e através de evoluções sociais e econômicas, questiona suas escolhas éticas, chegando a conclusões radicais.
Rainbows End (2006) é um romance de ficção científica de Vernor Vinge e foi premiado com o Hugo de Melhor Romance. O livro é ambientado em San Diego, Califórnia, em 2025.
Os avanços tecnológicos retratados no livro, sugerem que o mundo está passando por crescentes mudanças, talvez destinadas a uma singularidade tecnológica, um tema recorrente de Vinge (também em não-ficção).
Robert Gu é um homem que lentamente se recupera da doença de Alzheimer, graças aos avanços da tecnologia médica. Robert (que sempre foi ligeiramente tecnofóbico) deve se adaptar a um mundo onde quase tudo está conectado em rede, e a convivência com a tecnologia é constante.
Ao mesmo tempo Robert e sua neta Miri, se veem envolvidos numa trama complexa sobre um oficial de inteligência traidor, um intelecto escondido (e possivelmente sobre-humano) por trás de um avatar de um coelho antropomórfico, e uma sinistra tecnologia de controle da mente com graves implicações.
Como em outros trabalhos de Vinge, a discussão da segurança e da privacidade, em um mundo cada vez mais digital/virtual, é um dos principais temas do livro. À sua maneira, ele analisa as implicações da rápida evolução tecnológica que potencializa perigosamente tanto indivíduos descontentes que ameaçam perturbar a sociedade, quanto aqueles que procuram impedí-los de todas as formas.
Uma história de amor entre um homem com uma doença genética (crono-deslocamento), que faz com que o tempo se comporte de maneira imprevisível, e sua esposa, uma artista que tem que lidar com suas ausências freqüentes e perigosas.
Niffenegger escreveu a história como uma metáfora para relacionamentos fracassados.
O romance examina questões sobre o amor, a perda e o livre-arbítrio, utilizando as viagens no tempo para explorar as falhas de comunicação nas relações, enquanto também investiga questões existenciais mais profundas.
O livro se tornou um best-seller e até Março de 2009 tinha vendido cerca de 2,5 milhões de cópias nos Estados Unidos e no Reino Unido, ganhando o Exclusive Books Boeke Prize e um British Book Award e logo terá uma adaptação para o cinema.
Stories of Your Life And Others (2002) é uma coleção de contos do escritor Ted Chiang, e com exceção de "Liking What You See: A Documentary", foram todos publicadas anteriormente.
Uma maravilhosa coletânea para um dos escritores mais imaginativos da ficção científica, um livro obrigatório para quem aprecia ficção científica (ou mesmo quem não gosta de FC).
Chiang adquiriu uma enorme reputação através dos contos reunidos neste livro.
Contos vencedores de prêmios desejados, como o Hugo, Nebula, Theodore Sturgeon Memorial, Sidewise.
É raro um escritor tornar-se tão proeminente tão rapidamente. Neste caso porém, é merecido.
Como um hábil malabarista, Chiang trabalha com múltiplas concepções do que é normal, nos deixando maravilhados com sua destreza. Provavelmente este tipo de distorção da realidade, só poderia ser feita com tal intensidade, somente em histórias curtas. Ainda assim, a coisa mais surpreendente é o sentimento impregnado em seu trabalho, sempre acompanhado pelo exercício intelectual.
Suas histórias são audaciosas, desafiadoras, e ao mesmo tempo comoventes.
Talvez o maior elogio que se possa fazer a Ted Chiang, seja compará-lo com outros dois grandes escritores, como Philip K. Dick e Borges, porém, com mais embasamento científico.
Nekropolis (2001) é um romance escrito por Maureen F. McHugh, que oferece uma visão extraordinária, de um mundo futuro, mal tocado pelo passar dos séculos, ainda cravado nas raízes do passado.
Hariba passou sua juventude entre as coroas de flores de papel que sua mãe meticulosamente construía, brincando com outras crianças entre fileiras de prédios antigos em ruínas. Mas quando uma indiscrição de seu irmão mais velho, tira de Hariba, qualquer possibilidade de vir a casar-se, ela concorda em submeter-se a um processo de tecnobiologia, destinado a tornar-la dócil e subserviente (e menos humana) a quem queira pagar por seus serviços. Desta forma ela poderia escapar da vida limitada e da desesperança quanto ao seu destino... embora sem nunca poder voltar a ser verdadeiramente livre.
Vencedora de um Hugo, McHugh possui um estilo provocador e deslumbrante, tão cativante que conquistou leitores de autores aclamados de fantasia, como Ursula K. Le Guin e Margaret Atwood.
City of Saints and Madmen (2006) é uma coleção de contos de fantasia do escritor Jeff Vandermeer.
As histórias de City of Saints and Madmen se passam em Âmbar, uma cidade povoada por seres humanos, depois que seus habitantes originais, uma raça de cogumelos humanóides, foram violentamente expulsos para as profundezas da terra. Essas criaturas, embora longe da vida cotidiana em Âmbar, continuam a interferir na vida da cidade, em suas sinistras e secretas atividades noturnas.
VanderMeer é um mestre de situações inusitadas, capaz de criar cenários fabulosos e divertidos personagens bizarros. Dono de uma prosa sofisticada e hipnótica, um dos melhores escritores de fantasia pós-moderna.
Pushing Ice (2005) é uma space-opera do autor galês Alastair Reynolds.
Pushing Ice começa em um futuro distante, onde os governadores eleitos da humanidade se reúnem para decidir sobre uma cerimônia para homenagear uma mulher que consideram responsáveis pelo avanço tecnológico e pela expansão territorial da raça humana, Bella Lind.
Para explicar o seu papel, a história volta aos primórdios da exploração do sistema solar, onde Lind é o capitão da Rockhopper, uma nave usada para a mineração de cometas de gelo.
Em uma missão de rotina, Lind é informada de que lua de Saturno, Janus, se desviou da sua órbita normal, e está acelerando para fora do sistema solar. A Rockhopper, única nave capaz de capturar Janus, assume a tarefa, apesar de suas limitações de combustível e suprimentos.
No entanto, em sua abordagem, Janus revela-se não ser um satélite desgarrado...
The Yiddish Policemen's Union (2007), do autor americano Michael Chabon, é um romance de ficção alternativa, baseado na premissa de que, durante a II Guerra Mundial, a solução para proteger os refugiados judeus foi a de estabelecê-los no Alasca.
O livro ganhou os principais prêmios de ficção científica como o Nebula, o Locus, o Hugo e o Sidewise,
e foi indicado para o British Science Fiction Association Award, e o Edgar Allan Poe Award.
Em 1940, durante a II Guerra Mundial, os Estados Unidos implementaram a oferta de terras no Alasca, para a ocupação temporária dos refugiados judeus europeus, que estavam sendo perseguidos pelos nazistas.
Sitka é o centro do assentamento judaico no Alasca e agora uma grande metrópole de língua iídiche.
As terras além da fronteira de Sitka são povoadas principalmente por nativos do Alasca, em constante atrito com os judeus, mas há também casamentos inter-raciais e trans-culturais.
A independência de Sitka nos últimos sessenta anos se vê ameaçada quando o presidente (cristão evangélico) dos Estados Unidos, propõe a 'reversão' de Sitka para os Estados Unidos.
Mas isso não parece preocupar Meyer Landsman, um policial desonesto e alcoolatra, ocupado em investigar um estranho assassinato. Com a seu parceiro meia-nativo, meio-judeu, e seu chefe (que é também sua ex-esposa), Landsman perambula entre perigosas gangues de ortodoxos e rabinos criminosos.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Os melhores livros de Ficção Científica e Fantasia (2000 a 2009)
The Years of Rice and Salt (2002) é um romance de história alternativa, utilizando-se dos principais elementos religiosos do budismo e do islamismo, escrito pelo consagrado autor Kim Stanley Robinson.
Uma experiência em pensar sobre um mundo onde, nem o cristianismo, nem as culturas europeias, tiveram parte significativa da História.
Lugares conhecidos recebem novos nomes, a maioria de origem árabe ou chinês. Por exemplo, a Europa torna-se Firanja, Grã-Bretanha e Irlanda se tornam o Sultanato Keltic e a Espanha torna-se Al-Andalus, enquanto o Oceano Pacífico e Austrália são chamados por nomes chineses e a América do Norte se torna Yingzhou, a terra do mito chinês.
Ganhou o Prêmio Locus de Melhor romance de ficção científica.
Acácia (2007) é um romance de fantasia-épica, escrito por David Anthony Durham.
Leodan Akaran, governante do Mundo Conhecido, herdou gerações de aparente paz e prosperidade, conquistada há séculos por seus antepassados. De seus quatro filhos ele esconde a realidade negra do tráfico de drogas e de vidas humanas, da qual depende a sua prosperidade. Ele espera poder mudar isso, mas forças poderosas estão em seu caminho. Um assassino enviado por uma raça chamada de Mein, exilado há muito em uma fortaleza de gelo no norte gelado, ataca Leodan no coração de Acacia, enquanto outros inimigos desencadeam ataques de surpresa por todo o império. Em seu leito de morte, Leodan põe em execução um plano para permitir que seus filhos consigam escapar, cada um com seu destino em separado. Seus filhos começam uma jornada para vingar a morte de seu pai e restaurar o império, desta vez sobre a base da liberdade universal.
O romance é notável pela complexidade do mundo imaginado por Durham, no qual forças políticas, econômicas, mitológicos e moralmente ambíguas, influenciam os destinos da população étnica e culturalmente diversa.
Air ou Air:Or Have not Have (2005) é um romance de Geoff Ryman, que ganhou os prêmios British Science Fiction Association Award, o Tiptree James, Jr. Award, e o Arthur C. Clarke Award, além de ser indicado para os prêmios Philip K. Dick Award, Nebula e John W. Campbell Memorial Award.
O romance inicialmente nasceu como um conto, publicado na revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction, intitulado Have not Have ("Já não temos") em 2001.
É a história de Chung Mae, uma mulher inteligente mas analfabeta, nascida de uma pequena aldeia no país fictício do Karzistan (vagamente baseado no Cazaquistão), e seu papel de liderança na reação às dramáticas experiências em todo o mundo, com uma nova tecnologia de informação chamada AIR.
AIR é o intercâmbio de informações (semelhante a Internet), que ocorre de um cérebro para outro, destinado a conectar todo o mundo. Um teste do AIR é realizado na cidade de Mae, nas montanhas, e tudo derrepente se transforma, especialmente para Mae, que foi afetada mais do que qualquer outra pessoa.
The Secret History of Moscow (2007) é um extraordinário romance de fantasia escrito por Ekaterina Sedia.
Cada cidade tem seus lugares secretos e Moscou não é diferente.
Galina é uma mulher jovem, presa como muitos de seus contemporâneos, na incerteza econômica e aparente ilegalidade do seu país. No meio a todo este caos, sua irmã Maria se transforma em uma gralha e voa para longe... Galina busca ajuda em Yakov, um policial investigando uma onda de desaparecimentos recentes.
Sua busca irá levá-los para um reino subterrâneo de magia, cavernoso e sombrio, onde divindades pagãs vivem exiladas e criaturas de contos de fadas ainda sussurram histórias para quem quiser ouvir.
City at the End of Time (2008) é um romance de ficção científica escrito por Greg Bear.
Um grupo de vagabundos desajustados na moderna Seattle; Ginny, Jack, e Daniel, são atormentados por estranhas visões, de um lugar chamado "Kalpa". Este é o nome da cidade que dá o título ao livro, cem trillões de anos no futuro, Kalpa permanece como o último bastião da realidade, contra um inexplicável fenômeno que destruiu todas as leis da física, destruindo o resto do antigo universo.
Uma experiência visceral da teoria cosmológica, desafiador e imaginativo.
City at the End of Time foi indicado para os prêmios Locus e W. John Campbell Memorial Awards.
In the Courts of the Crimson Kings (2008) é um romance de ficção alternativa do escritor S.M.Stirling, que se passa no planeta Marte, em um universo alternativo similar ao nosso, em que as sondas americanas e soviéticas encontraram vida inteligente e civilizações em Vênus e Marte.
Influenciado pelas obras de escritores como Ray Bradbury, a história se inicia em 1962, quando vários e famosos autores de ficção científica estão assistindo uma sonda espacial norte-americana pousar em Marte.
...E vêem os marcianos chegarem em um veículo e carregar a sonda com eles...
Stirling, com muito estilo e imaginação, faz um vigoroso pastiche dos contos de ficção científica do passado, evocando a Marte de Edgar Rice Burroughs.
Spin State (2003) é um romance de FC hard, de Chris Moriarty, e foi finalista dos prêmios Philip K. Dick, John Campbell, Spectrum e Prometeu.
Na melhor tradição ciberpunk, a Major Catherine Li, com trinta e sete viagens pelo espaço em velocidade mais rápida que a luz, possui um backup de quinze anos de sua memória. Mas nenhum implemento cibernético pode prepará-la para o que ela encontra no planeta Compson: uma colônia de mineração que uma vez ela chamou de lar, e para a qual é enviada após uma malfadada missão.
Intrigas interestelares, assassinatos, perseguições à milhares de quiôometros debaixo da superfície de um mundo alienígena, os becos escuros da espionagem e uma conexão com uma AI que pode literalmente fundir sua mente, a aguardam em Compson.
Blindsight (2006) é um romance de ficção científica hard de Peter Watts. indicado para o prêmio Hugo na categoria de melhor novela.
Oitenta anos no futuro, a Terra se torna consciente de uma presença alienígena, quando centenas de micro-satélites de vigilância, detectam uma nave alienígena se aproximando e a nave Teseu, com uma inteligência artificial no comando e a tripulação de cinco passageiros, é enviada para realizar o primeiro contato com a gigantesca nave alienígena chamada Rorschach.
Blindsight se concentra nos conceitos de identidade, cognição e os problemas da inteligência, inovando com sua visão desconcertante, a familiar história na FC, do primeiro contato com vida extraterrestre.
Glasshouse (2006) é um romance de ficção científica do britânico Charles Stross e pode ser considerado como uma sequência de Accelerando, embora possa também ser lido isoladamente.
A humanidade espalhou-se por toda a galáxia no século 27, utilizando-se da tecnologia dos buracos-de-minhoca, adquirida de alienígenas.
Robin, um orto-humano do sexo masculino, está se recuperando de um processo de amputação de memória em um centro de reabilitação. Embora ele não se lembra de sua vida passada, suspeita que viveu momentos traumáticos como um participante de uma série de guerras que duraram muitos anos.
Suspeitando que pessoas desconhecidas querem lhe matar, ele concorda em participar de um experimento radical, que tentará recriar as "Eras Negras", o final do século 20 e início do século 21.
Conforme a experiência se desenrola, ele começa a suspeitar que tudo não é o que parece ser, e que os criadores do experimento estão envolvidos em uma sinistra conspiração.
No contexto do romance, "glasshouse" refere-se a uma prisão militar. Stross também se refere a Glasshouse como uma espécie de pan-óptico, uma prisão construída de tal forma que os guardas no centro pode ver tudo o que os presos estão fazendo, mas os presos nunca podem saber se os guardas os estão assistindo.
Glasshouse foi indicado para os prêmios Hugo, Campbell e Locus Awards.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Os melhores livros de Ficção Científica e Fantasia (2000 a 2009)
Mordidos pelo mosquitinho do fim de ano, não podíamos deixar de fazer a nossa lista, com o que de melhor foi publicado em Ficção Científica e Fantasia estrangeira nos últimos dez anos.
Para uma tarefa como esta, coletamos indicações de outras listas, além daqueles livros que incluímos por que gostamos. E como não poderia deixar de ser, tivemos que bolar um critério para explicar por que deixar fulano ou ciclano de fora dela. Bem, deixamos de fora algumas continuações de séries, de space-operas e semelhantes, por achar que não representaram nada de novo, apenas mais-do-mesmo.
Deixamos de fora também nomes do calibre de Gaiman e Rowling, por pensar que já obtiveram exposição o suficiente (e convenhamos, nem sempre por merecimento).
Dos autores com mais de um livro selecionado, escolhemos aquele mais citado, e não incluímos também, livros lançados no segundo semestre de 2009.
Lamentamos somente que não exista, para a maioria destes títulos, qualquer previsão de lançamento no Brasil. Vale lembrar que estamos disponibilizando Little Brother (Pequeno Irmão) de Cory Doctorow, em uma versão própria nossa, um capítulo a cada sábado.
Portanto de hoje até o último dia do ano, estaremos trazendo aqueles que foram os melhores livros de FC e Fantasia na nossa opinião. Esperamos que gostem!
Bones of the Earth (2002) é um romance de ficção científica de Michael Swanwick. Indicado para o Prêmio Nebula, o Hugo, o Campbell, e o Locus Awards.
O paleontólogo Richard Leyster atingiu o auge de sua profissão: uma posição no Museu Smithsonian mais um novo sítio com fósseis de dinossauro para pesquisar, publicar seus trabalhos e aprender. Nada poderia ser melhor - até que um estranho chamado Harry Griffin entra no escritório de Leyster com uma oferta de emprego e uma geladeira portátil.
Nela está a cabeça de um estegosauro recém abatido. A Griffin foi confiado um extraordinário presente; uma tecnologia mantida escondida da humanidade, para uma finalidade não revelada pelos seres conhecidos por alguns poucos como os Imutáveis. A única condição é não alterar a história conhecida. Se o pacto for quebrado, o contrato se torna nulo.
A viagem no tempo se tornou uma realidade, milhões de anos antes do que racionalmente poderia acontecer. Richard Leyster e seus colegas tornam realidade as suas fantasias mais desejadas. Eles estudam os dinossauros de perto, em seu próprio tempo e ambiente. Porém uma palavra errada, um único ato errado, poderia ser desastroso para o projeto e para o mundo. O trabalho de Griffin é fazer tudo dar certo, tudo que supostamente deveria acontecer deve acontecer, não importando quem seja magoado... ou morto.
The Magician's Apprentice (2009) é um romance de fantasia de Trudi Canavan. É o início da história que ocorre centenas de anos antes da trilogia The Black Magician.
Na remota aldeia de Mandryn, Tessia serve como assistente para seu pai, o curandeiro da aldeia - para a frustração de sua mãe, que preferia que ela encontrasse um marido. Apesar de saber que as mulheres não são bem aceites pelo Sindicato dos Curandeiros, Tessia está determinada a seguir os passos do pai. Ao tratar uma paciente na residência do mago local, Senhor Dakon, Tessia é forçada a lutar contra os avanços de um mago visitando Sachakan, e instintivamente usa sua mágica. Como um mágico natural, cujos poderes se manifestam sem serem invocados, o Senhor Dakon legalmente deve levá-la como aprendiz e treiná-la.
Apesar das muitas horas de estudo e auto-disciplina, a vida nova de Tessia também oferece mais oportunidades do que ela jamais esperaria, e um excitante novo mundo se abre para ela. Há roupas finas e servos e viagens regulares para a cidade de Imardin.
Mas junto com o privilégio, Tessia está prestes a descobrir que seus dons mágicos trazem consigo uma grande responsabilidade. Eventos conduzirão as nações para a guerra, magos rivais entrarão em conflito, e um ato inesperado de feitiçaria ocorrerá, tão brutal que seus efeitos serão sentidos por séculos...
Little Brother (2008) de Cory Doctorow é um romance de ficção especulativa, que se passa nos dias atuais. Indicado a diversos prêmios de Ficção Científica, o livro discute com inteligência e linguagem fácil, os impactos do governo em nossas vidas e o preço que estamos dispostos a pagar em nome da segurança.
Na história, um grupo de jovens se vê no centro de um incidente que abalaria o mundo (semelhante ao 11/9), a explosão da ponte da Baia de San Francisco por terroristas. Os jovens são levados presos e submetidos a interrogatórios. Mais tarde, já libertos porém traumatizados pelo desaparecimento de um deles, os jovens percebem que o pesadelo não se limitava ao interior das celas do centro de detenção, mas espreita as esquinas de sua cidade, tomada agora pela polícia e por medidas severas de segurança. O que fazer para garantir que seus direitos não sejam desrespeitados? Como vencer aquilo que não pode ser vencido? A resposta está nas páginas deste ótimo livro de Cory Doctorow e que o Capacitor Fantástico vem trazendo na forma de capítulos (Pequeno Irmão), a cada sábado.
Black Man (2006) de Richard Morgan, é thriller-noir-futuristico, e que levanta questões sobre a natureza da humanidade. Conta a história de Carl Marsalis, uma variante genética conhecida como um "treze" (thirteen), caracterizado pela alta agressividade e baixa sociabilidade.
Criados inicialmente para uso militar, os 'trezes' mais tarde foram confinados em reservas ou exilados para Marte. Carl, tendo vencido por sorteio e ganho o direito de regressar de Marte, trabalha secretamente rastreando 'trezes' renegados. Morgan vai além do clichê do super-homem geneticamente melhorado, para examinar como a personalidade é moldada.
Anathem (2008) é um romance de ficção especulativa de Neal Stephenson que se passa no planeta Arbre. Milhares de anos antes dos acontecimentos do romance, a sociedade estava à beira do colapso. Os intelectuais (filósofos e cientistas) foram viver protegidos em conventos, em comunidades monásticas, mas sem os elementos religiosos. Com um acesso limitado a ferramentas e a tecnologia, eles são vigiados por agentes que servem aos poderosos no mundo exterior (conhecidos como o Poder Secular).
O narrador e protagonista é Erasmas Fraa. Sua professora, Orolo, descobre que seres extraterrestres estão orbitando Arbre, fato que o Poder Secular está tentando encobrir. Orolo secretamente observa os estrangeiros ilegalmente e Erasmas pede para ajudar a recolher estes dados.
Após o banimento de Orolo, o Poder Secular, juntamente com vários outros membros do governo, exigem que Erasmas ajude com um projeto secreto, quando a presença da nave alienígena se torna de conhecimento público.
Grande parte do livro é dedicado a discussões de matemática, física e filosofia.
Um livro singular, um desafio ao leitor que penetra o mundo labirintico e erudito deste premiado autor.
The Road (2006) é um romance pós-apocalíptico de Cormac McCarthy. Uma viagem empreendida por um pai e seu filho, durante um período de vários meses, através de uma paisagem devastada por um cataclisma sem nome, que destruiu toda a civilização e quase toda a vida na Terra.
O romance foi premiado com o Pulitzer de Ficção e o James Tait Black Memorial Prize.
O cenário é sombrio, o sol é obscurecido por uma camada de cinzas tão grossa que respiram através de máscaras, e as plantas não crescem. Os sobreviventes vivem em meio a violência e ao canibalismo. Percebendo que não vão sobreviver mais a um inverno na cidade, o pai leva-os por uma paisagem desolada para o litoral, sustentado por uma vaga esperança de encontrar outras "pessoas boas".
Em face de todos estes obstáculos, o homem e o menino tem apenas um ao outro. O homem mantém a pretensão, de que existe um núcleo de ética em algum lugar na humanidade.
Old Man's War (2005) é um romance de ficção científica militar de John Scalzi, indicado para o Prêmio Hugo de melhor romance.
A narrativa em primeira pessoa é sobre um velho soldado aposentado chamado John Perry e suas façanhas no CDF (Colonial Defense Forces).
E em um universo densamente povoado por diversas formas de vida, os colonos da Terra devem lutar para conseguir seu sustento.
Old Man's War introduz uma nova forma de viagem interestelar mais-rápida-que-a-luz, chamada Skip Drive. Este mecanismo simplesmente pega um objeto, como uma nave espacial, e cria um buraco no universo e coloca o objeto em seu destino, só que em um universo novo, essencialmente idêntico.
Pattern Recognition (2003), é um thriller de ficção científica de William Gibson, que se passa no mundo contemporâneo. A história segue Cayce Pollard, um consultor de marketing de 32 anos, que tem uma sensibilidade psicológica para símbolos corporativos.
O romance analisa o desejo humano em buscar padrões, ou o significado e os riscos de encontrar padrões em dados sem sentido. Outros temas incluem métodos de interpretação da história, a familiaridade cultural com nomes de marcas, e as tensões entre a arte e a comercialização.
O livro foi indicado para receber o maior prêmio de FC britânica, assim como o prêmio Arthur C. Clarke e Locus.
Evolution (2004) é uma coleção de contos de ficção científica hard de Stephen Baxter, que poderia ser definida no conjunto, como uma saga que conta em episódios a história da humanidade, do início ao fim (?),
de 565 milhões de anos atrás, de proto-mamíferos até 500 milhões de anos no nosso futuro.
O protagonista principal do livro é a evolução em si (apesar dos primatas como grupo, constituirem um outro protagonista). Do aparecimento das primeiras civilizações até a extinção humana (ou a extinção da cultura humana), assim como o fim do planeta Terra e o renascimento da vida em outro planeta.
Spin (2005) é um romance de ficção científica de Robert Charles Wilson, e ganhou o Prêmio Hugo de melhor romance. É o primeiro livro de uma trilogia.
Uma membrana artificial (Spin) foi colocada ao redor do planeta Terra, bloqueando e filtrando radiações e bloqueando a visão das estrelas. A história segue quatro protagonistas principais, cada um dos quais lida, de maneiras distintas, com a certeza de que a humanidade está condenada.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Entrevista com Gene Wolfe
Qualquer autor com uma obra como a de Gene Wolfe, poderia decidir que é hora de descansar sobre os louros, depois de uma carreira de escritor que se estende por décadas.
Mas não Gene Wolfe.
Este homem de muitas histórias começou a escrever ficção científica na década de 1950 e vendeu sua primeira história, "The Dead Man" em 1965. Desde então, escreveu mais de 20 romances, e algo em torno de 250 contos. Wolfe deixou sua marca no campo da ficção científica e da fantasia.
Ele ganhou quase todos os prêmios que um escritor de ficção científica pode ganhar, com exceção do Hugo. Sobre o seu trabalho, ele diz: "Apesar de nunca ter vencido o Hugo, fui indicado oito vezes. Até agora. "
Pergunta: O que você acha da Internet?
Wolfe: Eu acho todo este rebuliço exagerado. Certamente tem um grande potencial. Parece ser útil em muitos aspectos. Bem, é um milagre tecnológico, vamos colocá-lo assim. Eu não acho que ela poderá fazer muitas das coisas que estão sendo ditas. Deixe-me dizer o seguinte: Não há ninguém no mundo que sabe menos sobre computadores do que eu. Crianças pequenas sabem mais sobre a manipulação de um computador caseiro do que eu.
P: Bem, elas cresceram com ele.
Wolfe: Eu fui conhecê-los basicamente na velhice. Eu tinha 70 anos quando comprei meu primeiro computador. Eu não sou um expert e eu nunca serei um perito.
P: Você tem uma história chamada "Copperhead" na SCIFI.com. Você está de olho no mercado de publicação on-line como uma saída para suas histórias, certo?
Wolfe: Claro, claro. Você tem que olhar para as áreas onde você possa vender seu trabalho. Certamente.
P: Você prevê que o mercado on-line vai substituir a publicação tradicional?
Wolfe: Não no nosso tempo. Não no meu e não acho que no seu também. Acabará por acontecer, penso eu, surgirá uma terceira coisa que vai substituir ambas. Pode ser algo entre computadores e o papel impresso a tinta, mas eu não sei. Não vou tentar prever o que poderia ser. O que estamos vendo é que a imprensa tem algumas desvantagens, como a lentidão. O computador tem também algumas desvantagens, não dá para colocar no bolso do casaco ou ler na banheira. E eu acho que precisamos de algo que vai ser entre esses dois. Eu poderia especular, mas seria apenas uma especulação do tipo que encontramos em uma história de ficção científica.
P: Bem, nós começamos a falar sobre computadores antes do que eu estava planejando.
Wolfe: Sei muito pouco sobre eles. Eu definitivamente estou por fora deste mundo. Você sabe, eu nunca criei meu próprio site e acho que eu nunca o farei, porque realmente não quero aprender muito sobre isso. Muitas pessoas são fascinadas por eles e isso é bom, mas eu não sou uma dessas pessoas. Há um monte de gente que é fascinada por cavalos. Eu costumava andar a cavalo. Eu gosto de cavalos. Mas não sou fascinado por eles.
P: Em alguns aspectos, a Internet é a maior biblioteca do mundo. Eu descobri muito sobre você através dela. Sobre as batatas fritas Pringles por exemplo, mas não precisamos falar sobre isso.
Wolfe: [risos] Bem, é talvez a maior biblioteca do mundo em alguns aspectos. Você poderia dizer que sou um mau pesquisador. Mas para mim, depende muito do que eu estou procurando. Para algumas coisas deparamos com uma parede, ao tentar pesquisá-las na Internet. Para outras coisas é incrível. Você entra e brinca por 15 ou 20 minutos e tem a informação que procura. Eu nem sequer sabia se o nome do capitão do "Mayflower" era conhecido. E em 15 ou 20 minutos na Internet, eu tinha o nome do capitão do Mayflower. Isso é muito bom. Eu tentei pesquisar sobre algumas outras coisas sobre a mitologia clássica, e encontrei fontes que foram muito superficiais e pouca documentação.
P. Às vezes, quanto mais específica sua busca, melhor.
Wolfe: Bem, eu estava tentando encontrar alguns pontos específicos sobre a mitologia clássica. Eu estava escrevendo uma história chamada 'The Lost Pilgrim', sobre um viajante do tempo que pretende voltar a navegar no Mayflower para o Novo Mundo. Ele podia falar dialetos indígenas e sua idéia é certificar-se de que tudo fosse pacífico entre os peregrinos e os índios. Sua viagem no tempo dá errado, e ele acaba em uma ilha do Mediterrâneo, pouco antes da Argo chegar. E na esperança de visitar vários portos e recuperar o atraso com o Mayflower, ele embarca na Argo e se junta com Jasão e Hércules e um monte de gente assim. Era o que estava fazendo e é por isso que eu queria saber quem era o capitão do Mayflower, assim eu poderia usá-lo em minha história. Eu também queria pesquisar vários pontos sobre a Argo e o que aconteceu foi que estava perdendo meu tempo Gastei cerca de, eu não sei, uma hora provavelmente e não encontrei nada que fosse de valor.
P. Além dos computadores, qual é a melhor invenção? Qual é a coisa mais incrível?
Wolfe: A coisa mais surpreendente são as primeiras viagens espaciais. Quando eu era pequeno, que foi quando eu comecei a ler ficção científica,qualquer adulto responsável diria que as viagens espaciais nunca poderiam ocorrer. É a mesma coisa de que eu estava falando ... A terceira coisa que irá substituir os livros. É exatamente o tipo de coisa que muita gente diz hoje sobre a viagem interestelar. E eles estavam errados. Eles estavam absurdamente errados.
P. Você está pronto para comprar um bilhete no ônibus espacial?
Wolfe: Não. Não tenho nenhum desejo de ir ao espaço, apenas por ir. Parece-me como velejar no Atlântico. Eu não estou muito interessado em velejar. Estou interessante em ir para a França ou para algum lugar. Estou interessante em alcançar um destino. Acho muito interessante o fato de que as gerações, milhares de gerações, viram como uma lâmpada o que é visto hoje como uma ilha. Refiro-me à lua. O mesmo está em vias de se tornar verdade, com Marte e Vênus. Eventualmente vai acontecer. A questão é como e quando.
P. Portanto você quer um bilhete para Marte?
Wolfe: Se eu pudesse obter um bilhete para Marte hoje, não iria querer. Vou esperar até que ele tenham bons restaurantes [risos]. Você sabe, Woody Allen disse: "Tem que haver vida inteligente no espaço. A questão é se eles têm bons restaurantes chineses e se eles entregam? É uma piada, mas é também uma observação muito profunda. Quando você pergunta se eles têm bons restaurantes chineses, o que você está realmente dizendo é: "O quanto eles são parecidos conosco?" E quando você diz: "Será que eles entregam? Você está dizendo, "Eles podem vir até aqui?" Ambas são questões profundas. E no presente, não temos as respostas.
P. Eu queria perguntar-lhe sobre a sua série Sun. Ela terminou?
Wolfe: Sim, creio que sim. Sim. Obviamente não vou ser um idiota e dizer: "Não, eu nunca vou voltar a isso. Eu não me importo. Mas não tenho planos para voltar a ela.
P. Como resumiria a série? Saiu como queria?
Wolfe: Ah, foi algo muito maior do que inicialmente havia previsto, se é isso que você quer dizer. Quando comecei a escrever o que se tornou 'The Shadow of the Torturer', eu ia escrever um conto apenas. Estou falando sério. Posso contar-lhe sobre o que eu tinha planejado fazer. Eu comecei a escrever e fiquei pensando, puxa, há tanta coisa boa aqui para fazer, e assim eu continuei ampliando-a. Eu pensei, bem, isso vai ser um romance, em vez de um conto. Então eu pensei, bem, isso vai ser uma trilogia. E quando eu li a trilogia, o terceiro livro foi 50 por cento mais grosso do que os dois primeiros. Os dois primeiros tinham o mesmo tamanho. Então eu dividi o terceiro em dois. Em vez de cortar, eu embelezei-o um pouco mais. E acabei com quatro livros de tamanho aproximadamente igual. Então David Hartwell veio e disse: "Temos que colocar um ponto final. Ele disse: 'Olha, a propósito, Severian pega um buraco branco e ele volta e o enfia em nosso sol e esconde o universo "[risos]. E eu disse: "Isso é bem mais do que um parágrafo." Assim, acabamos com um acordo que ele iria publicar os quatro livros que eu tinha escrito, desde que eu escrevesse um quinto livro em que o buraco branco foi inserido no sol e todas essas coisas, o que eu fiz. Este é 'The Urth of the New Sun'.
P. De todos os romances e contos que você escreveu, quais são seus favoritos?
Wolfe: Isso muda de tempos em tempos.
P. Quais são hoje?
Wolfe: Isso é algo que eu não tinha pensado muito [risos]. Deixe-me pensar. Deixe-me pensar ... Eu sei que [depois] eu vou dizer: "Maldição, eu não deveria ter dito isso."
P. Bem, quais eram ontem?
Wolfe: Você está fazendo de propósito [risos] ... Acho que tudo isso é algum tipo de um impulso sádico... Eu diria que, entre os romances o meu favorito é provavelmente 'There are Doors'. Você leu por acaso?
P. Ainda não.
Wolfe: Ah ha, agora é minha vez. Ok, posso dizer-lhe coisas sobre o enredo e sobre os personagens e não saberá se estou mentindo ou não ... Eu acho que é o livro que tem coisas profundas a dizer sobre a condição humana e em particular, sobre a natureza do amor.
P. E entre os contos?
Wolfe: Agora eu estou tentando lembrar... Veja, são quase 250 contos. E alguns deles me parece que ninguém prestou muita atenção a eles.
P. Você poderia dizer aos seus fãs para procurarem ler estes contos.
Wolfe: Se pudessem encontrá-los, porque alguns deles foram publicados em lugares obscuros. Eu escrevi uma pequena história chamada "The Wrapper", sobre um homem que pode ver um outro universo, olhando através da embalagem de celofane de um doce. Você sabe, ninguém nunca prestou atenção para a história, e eu realmente gosto dela. Acho-a muito boa.
P. Como você lida quando você escreve algo que você acha que é especial e torna-se ignorado?
Wolfe: Se é um conto, você já espera por isso. Escrever contos é como ... Eu acho que foi Ray Lafferty que disse, atirar pétalas de rosa no Grand Canyon e em seguida, esperar ouvir o baque quando batem no fundo. Você aprende a esperar por isso. De vez em quando, raramente, alguém te escreve 20 anos mais tarde e diz: "Oh, você não sabe que história maravilhosa você escreveu" ou "Acabo de descobri-la e eu acho que é tremenda", ou "Eu li há 20 anos atrás e nunca esqueci desde então", ou algo parecido. Então você se sente muito, muito bem, mas você não espera que coisas assim aconteçam. Você sabe que geralmente não vai acontecer. Eu escrevi uma pequena história chamada "The Death of the Island Doctor", e que eu gosto muito, e ninguém prestou a mínima atenção.
P. Essa história não está em uma de suas primeiras antologias?
Wolfe: Eu acho que você está pensando provavelmente em "The Death of Doctor Island." Essa é uma história diferente. Eu escrevi uma história chamada "The Island of Doctor Death and Other Stories". Foi para o Nebula. Isaac Asimov a anunciou como a vencedora. Eu fui até receber o troféu. A comissão levantou-se pálida. Isaac na leitura de sua lista cometeu um engano ... o nome do vencedor. Um erro inocente e ele sentiu-se horrível sobre isso.
Então, voltei para casa e contei a alguém sobre isso, eu acho que foi provavelmente para Joe Hensley, um escritor de mistério. Joe disse: "Bem, bem, Gene, tudo que você tem a fazer agora é escrever" The Death of Doctor Island, e todos se sentirão tão culpados, que eles vão votar em você e você vai ganhar o prêmio". [Risos]. E eu pensei, "Ok Joe, Ok, você acha que eu não posso fazer isso. Sou capaz de escrever uma história chamada "The Death of Doctor Island," e eu fiz, e por Deus, ele estava certo! Ela ganhou o Nebula. Então as pessoas continuavam me trazendo títulos assim. E eu escrevi um outro chamado "The Doctor of Death Island", que ninguém gosta muito, inclusive eu, para ser honesto. E mais tarde, eu escrevi um que eu gosto muito chamado de "The Death of the Island Doctor", que é sobre um professor universitário. E é sobre a maneira que ele morre e o efeito que sua morte tem sobre seus alunos, eu acho que é uma história adorável, e eu sou o único que acha isso.
P: Você já tentou juntá-los numa coletânea?
Wolfe: Eu vou tentar. Não acho que tenha sido incluído em uma coletânea. Eu tenho uma enorme quantidade de material não publicado. Você sabe, David Hartwell, meu editor, veio recentemente e me disse: "Nós devemos fazer uma outra coletânea. Deve haver bastante material por aí para outra."
P: Parece uma trilogia de coletâneas.
Wolfe: Sim [risos] ... Coletâneas não vendem tanto. Os editores costumam fazê-las acompanhando os lançamentos de livros de sucesso, e a menos que seu nome seja Harlan Ellison, é muito difícil de conseguir publicá-las.
P: Quando você está trabalhando em um novo livro, qual é o processo que você atravessa para desenvolvê-lo?
Wolfe: Bem, normalmente eu tenho um monte de idéias se esgueirando na minha cabeça. As pessoas sempre dizem que é a idéia original. Geralmente eu tenho um monte delas. Posso dizer-lhe como Severian começou? Este é talvez um bom exemplo de como a coisa acontece. Como lhe disse, essa coisa ia ser um conto. Eu estava em uma Convenção de Fantasia, destas de fãs, com Bob Tucker, e Bob eu acho, era o convidado de honra ou algo assim. Ele achou que tinha que ir para a apresentação de casaca, porque alguns de seus bons amigos vestiam-se assim nesta apresentação. E ele disse: "Gene, venha sentar-se comigo, assim eu vou ter alguém para conversar." E eu disse OK. Então, eu estou sentado ali com Bob ouvindo as pessoas falarem de trajes de mascarados, e comecei a me dar conta de que nunca fiz um personagem do tipo que resulta em uma boa fantasia para se vestir. E eu disse: "Puxa, isso não é justo, por Deus, sabe, eu vou reclamar para o meu deputado no congresso. Deve haver algum tipo de lei sobre isso. " E depois de algum tempo, percebi que eu nunca tinha escrito, até aquele momento, um personagem que desse uma boa fantasia de mascarado.
Assim, enquanto eles estavam dizendo todas essas coisas, eu estava sentado lá pensando: "Vamos ver. Vamos criar um personagem que possa dar uma boa e dramática fantasia de mascarado e em seguida, alguém poderá fazer o meu personagem em um evento destes. Então eu pensei, botas pretas, calças pretas capa preta, porque preto é uma cor muito dramática e mascarados sempre querem ter capas, se possível. Uma máscara, porque muitos fãs parecem bobos sem elas, e as fantasias funcionam muito melhor se você pode cobrir seu rosto. Então eu tinha esse cara e ele tinha a calça preta e as botas pretas e essa capa preta e estava usando uma máscara preta, e eu pensei: "Quem é ele? De onde ele veio? Como ele se tornou aquilo que é? Oh, espere um minuto. Vamos dar-lhe uma espada, porque mascarados amam espadas ". Então, eu dei-lhe uma espada grande e percebi que ele era provavelmente o carrasco público. E então eu pensei: "Como é que ele conseguiu este emprego? De onde ele veio? O que o trouxe até aqui? "
Então eu planejei esse conto, que ia ser sobre um carrasco torturador que se apaixona por uma mulher que está sendo torturada. Ela morre. Ele chora a morte dela e depois recebe uma carta que diz: "Eu estou viva. Fui salva pelos meus amigos e a coisa toda era basicamente uma farsa, e eu adoraria que viesse visitar-me em tal lugar ". Que é na verdade uma armadilha, e ele sai à procura de seu amor. E claro, ela não está lá. Essa foi minha idéia original. Então como eu disse, a história foi ficando maior e maior e maior e se transformou em uma trilogia e acabou como uma pentalogia.
Você vai tendo um monte de idéias que vêm junto. Você diz: "Puxa, estive pensando sobre esse personagem. E eu poderia colocar dois desses personagens juntos, o que faria voar faíscas! " Eu escrevi uma pequena história sobre uma princesa em uma torre de vidro. Tipo coisa de conto de fadas. Um cavaleiro vem para resgatá-la, mas ela sofreu uma lavagem cerebral, de tal forma que consegue falar sua língua mas na verdade ela é uma jovem e bela chinesa, com todo um conjunto de conceitos bem diferentes. Você tenta e acaba por fazer bastante coisas assim, deste jeito. Acabei de escrever uma história de terror sobre um irmão e uma irmã. O irmão e irmã são praticamente os únicos personagens da história. Eu o escrevi para a Word Horror Convention. O irmão é aventureiro, um pouco bruto, um pouco paternalista a respeito de sua irmã mais nova, que é um pouco mais tímida do que ele, mas é também uma pessoa sensata. Então eles são dois bons personagens, e existe este atrito entre eles. Ele tende a andar em todas as direções e ela tende a se sentar e pensar sobre as coisas, e talvez fique um pouco perdida em pensar em como as coisas deveriam ser e da maneira que eles são. Então você pensa em situações em que você quer ver alguém dentro dela.
P: Qual é o nome desta história?
Wolfe: "Mute" (mudo) ... Você pega alguns desses personagens e coloca-os em uma situação, e talvez você esteja preocupado com o que realmente significa a lealdade, o que realmente significa o amor, o que realmente se entende por honra, e assim por diante. Como o ser humano enfrenta a morte e a perda, e assim por diante. E tudo começa para ele.
Quando começo a escrever, eu preciso saber quem é o personagem central. Em segundo lugar eu quero saber para onde a história está indo. Qual é o destino. Agora, posso mudar esse destino, enquanto estou escrevendo. Eu não começo sem isso, não vou só escrevendo e esperando que algo me ocorra. Tenho lido muitas histórias que foram escritas claramente desta forma.
P: Qual é o segredo para continuar a escrever bem depois de tantas histórias, tantos mundos e tantos personagens?
Wolfe: Bem, eu acho que as pessoas caem na armadilha de estarem escrevendo a mesma coisa repetidamente. Eu poderia citar autores, mas não vou fazê-lo, porque eu não tenho nenhum desejo de ferir as pessoas. Mas tem um monte de gente que já escreveu um bom livro, mas eles já o fizeram seis ou sete vezes. Em alguns casos, eles estão presos a isso. Eu tive uma aluna... Isso foi quando eu estava ensinando no Clarion, essa jovem era muito inteligente e muito criativa e ela era jovem e estava começando a menstruar. Aparentemente isso tinha sido um acontecimento crucial em sua vida, que a tinha afetado profundamente, e ela continuou a escrever histórias sobre o início da menstruação. E eu lhe disse: "Sim, vá em frente e faça-o. Tire do seu sistema. Escreva sobre isso até você achar ter dito o que você precisava dizer sobre isso. " E há pessoas, penso eu, que nunca, jamais, conseguirão tirar isso de si, e eles continuam a escrever sobre esta coisa, seja ela o que for, mais uma e outra vez. Lamento dizer que muitas vezes essas pessoas tem 40 e 50 anos, e eles ainda estão tentando, mesmo já como mães ou pais. E eu fico realmente triste por isso.
P: Você acha que muitas pessoas estão hoje, reescrevendo velhas histórias de ficção científica?
Wolfe: Com certeza. Muitas pessoas estão escrevendo histórias que Isaac Asimov escreveu muito melhor nos anos 50. É como no cinema. Os filmes são geralmente de uma rotina terrível, porque eles estão sendo feitos por pessoas que não sabem nada exceto cinema, e eles querem sempre ser o diretor ou o produtor de 'Some Like It Hot', ou o que for. Clássicos do cinema de 20 ou 30 ou 40 ou 50 anos atrás.
P: Quem é seu autor favorito? E quem, entre os novos, te impressiona?
Wolfe: Patrick O'Leary, é um deles. E parece que ele está escrevendo algo que é melhor do que qualquer coisa que ele escreveu antes. E ele tem escrito algumas coisas muito, muito boas. O nome do seu livro é 'The Impossible Bird', publicado pela Tor. Kathe Koja, estou lendo um monte de contos de Koja. Eu não li seus romances. Alguns dos contos são maravilhosos e eu não uso essa palavra levianamente. Alguém com quem eu estou muito impressionado, embora ela definitivamente precise de mais tempo, é Kelly Link. Há muita coisa boa nela e eu acho que ela está melhorando rapidamente. Acho que a melhor coisa que eu li dela foi "The Detective Girl", que eu acho maravilhoso. Algumas outras coisas dela são realmente muito, muito boas, mas eu posso ver algumas falhas e eu desejava ter lido antes o manuscrito e ser capaz de falar com ela um pouco antes dela publicar. Mas ela tem um monte de idéias novas e é talentosa.
P: Afinal você está feliz com o nível da ficção científica atual? Você acha que os escritores estão trabalhando duro o suficiente para serem criativos?
Wolfe: Eu certamente não estou satisfeito com o nível global do gênero. Eu acho que nunca estive. Não tenho certeza de que o problema seja que as pessoas não estão trabalhando duro o suficiente para serem criativas, embora possa ser isso. Eu acho que um monte de pessoas tem essa ideia de que se você contar uma boa história, não importa como você vai dizer isso. E eu não acho que isso seja verdade. Em segundo lugar, o fato de que esta era uma boa história, quando Robert A. Heinlein a escreveu, não significa que seja uma boa história hoje.
P: Então que conselho você daria para os novos escritores que estão começando e estão tentando ser publicados?
Wolfe: Oh, toneladas deles. Como eu disse, eu dei vários cursos de como escrever e é muito difícil dar conselhos gerais porque você precisa saber o que as pessoas estão fazendo, o que fizeram, e o que eles estão tentando fazer. Em primeiro lugar, eles precisam ler o tipo de material que eles estão tentando escrever, escritos por bons escritores. Em outras palavras, se eles estão tentando escrever contos, e eu acho que todo o escritor deve escrever novos contos, então eles devem encontrar bons contos e ler um monte deles e continuar a lê-los. Em segundo lugar, talvez a maioria, obviamente, precisam escrever e reescrever e revisar. Acho que os novos escritores têm freqüentemente a idéia de que o primeiro esboço é o que vale. Uma coisa que acontece sempre com os novos escritores, escritores que estão começando, é que eles escrevem uma história e quando chegam ao final dela, eles acham que a terminaram. Então eles pegam uma coleção de Neil Gaiman, digamos 'Smoke and Mirrors', que é repleta de contos. Gaiman é um escritor fantástico. E eles comparam o que eles têm escrito com o que Gaiman escreve, e percebem que a deles não é tão boa assim.
Bem, em primeiro lugar Neil Gaiman tem feito isso por 20 anos, talvez mais. Eu não sei. Em segundo lugar, o que você está lendo é provavelmente a quinta versão de Neil Gaiman. Eles têm que perceber que só em filmes ruins que alguém se torna um sucesso da noite para o dia, sem qualquer preparação, sem nada. Eu gostaria de lembrar do ator entrevistado, que eu vi na TV. O entrevistador estava dizendo, "Bem, você virou um sucesso da noite para o dia." E ele disse: "Sim, da noite para o dia levou 15 anos para acontecer." Você se esforça por 15 anos ou mais, e de repente você faz algo que realmente é excelente e todo mundo diz, "Quem é este sujeito novo?" O sujeito novo é um rapaz ou moça, que esteve na luta por 15 anos. Falando de um modo geral.
Você tem que pensar sobre o que você está escrevendo. Tantas vezes eu leio coisas de pessoas que não pensam sobre o que escrevem e eu me surpreendo. Eu conheço uma moça de 19 anos, muito inteligente, que escreve desde que ela tinha 12 anos, que ocasionalmente envia-me histórias suas e coisas para eu ler. E frequentemente eu lhe digo coisas do tipo "Mas você tem este cara que está cercado por arqueiros, numa chuva torrencial. Em 30 segundos estarão todos molhados e seus arcos serão inúteis. E ela diz: "Ah, eu não pensei nisso." Você tem que pensar nisso. Você tem que pensar nestas coisas.
Eu li uma história muito agradável um tempo atrás, que se passava na Paris do século 19. Parte da coisa se passa sobre um punhal de palco, destes com sangue falso escondido no cabo, de modo que quando um ator esfaqueia um outro ator, o sangue parece sair e funciona bem no palco. E um personagem diz para outro que há meio litro de sangue no punhal. Em primeiro lugar, você não pode colocar meio litro de líquido nenhum no punho do punhal. É completamente irreal. E em segundo lugar, um francês do século 19 em Paris, não vai medir as quantidades de líquidos em litros. Ele iria dizer tantos centímetros cúbicos de sangue. Assim quando o escritor escreve esse tipo de coisa, eu estou pronto para largar o livro e chutá-la por toda a sala, porque ele não está pensando sobre o que está fazendo. Não é uma questão de pesquisa. Qualquer um pode olhar para um punhal em um museu e ver que não vai caber meio litro. E qualquer pessoa com alguma inteligência deve saber que eles usam o sistema métrico na Europa continental.
Você precisa pensar direito no que quer (tentar] fazer. Você precisa entender que a idéia para uma história é basicamente uma idéia para um fim.
Provavelmente, há 10 anos atrás, eu estava em uma Convenção em Michigan, em algum lugar, e eu estava em uma festa, com uma garrafa de cerveja na mão e conversando em um círculo de amigos. E as pessoas vinham até mim, várias pessoas diferentes, me oferecer ideias para uma história. Não só nenhuma destas ideias eram originais, e acreditem, não eram mesmo, mas não eram realmente ideias para uma história. Eram situações em aberto. Você não pode começar a escrever, ou você não deve começar a escrever, com apenas uma situação em aberto. Sim, seria interessante se alguém fizesse um pacto com o diabo que lhe permitisse que qualquer pessoa acreditasse naquilo que dizesse, desde que fosse dito entre meia-noite e uma da manhã, mas essa é apenas uma situação. Para se ter uma ideia de verdade, você tem que dizer onde isso tudo acaba. E isso é o que [essas pessoas] não tinham. Note que eu não levaria estas ideias em conta, porque como eu disse, não eram originais. Uma vez que você está acostumado a ter ideias, é uma questão de selecionar aquelas que você tem tempo suficiente para trabalhar e não de tentar obter novas. O enredo não é uma ideia. É o que acontece no curso da história. A ideia é sobre do que se trata a história.
Eu fiz uma grande coisa para a última aula que dei, sobre como desenvolver o enredo de Cinderela, e como trabalhar no processo. Você sabe que o príncipe está indo salvá-la. Mas para resgatá-la do quê? Bem, de sua família. Ela era desprezada por sua família, e assim por diante. E nós trabalhamos com ele e conseguimos todo o enredo da Cinderela, como se alguém fosse contá-lo para um amigo. A coisa assim fica fácil, porque você olha para o que é, do que precisa, e o que eles estão tentando fazer, seja isso o que for. E o que pode dar errado.
OK, temos um cientista louco em um castelo na Europa e ele descobriu um jeito de reanimar carne morta. OK, o que é que ele vai fazer? Como ele demonstrará esta grande descoberta para o mundo? Bem, ele tem um pedaço de carne reanimada, mas ele pode fazer algo muito mais sofisticado do que isso. Ele pode fazer um indivíduo das peças reanimadas. OK, agora o que pode dar errado com isso? Agora você está indo na direção certa. O que pode dar errado? Obviamente, quando ele tem essa nova pessoa que ele reanimou, esta pode não ser tão cooperativa quanto ele pensava. E assim por diante ... A caracterização é absolutamente essencial. Todas essas coisas são realmente absolutamente essenciais. As pessoas pensam que isso é difícil, e por conta disso não irão fazê-lo. Já reparou?
P. Sim.
Wolfe: Você pode caracterizar com poucas palavras, mostrando como o personagem age, fala ou pensa, de uma forma característica. E você não deve fazer dizendo para o leitor que esta pessoa é corajosa ou tola. Você mostra a pessoa desta forma. E você nunca diz tudo. É fácil falar isso, mas é quase impossível conseguir que as pessoas que estão tentando escrever, realmente o façam. Quando eu ensinei na Clarion West, em Seattle, havia um cara lá que eu chamarei Bob. Acredite em mim, seu nome não era Bob. Ele deveria ser o melhor escritor do grupo. Ele já tinha passado pela Clarion. Tinha uns 30 e pouco. Já escrevi há bastante tempo e você pensaria que este seria um dos melhores. Ele não era, e a razão era que, quando escreveu uma história e teve de introduzir um novo personagem, parou tudo e ficou por três páginas falando sobre este personagem. Quem ele era, de onde ele veio, como ele era, o que ele gostava de comer, o seu relacionamento com os outros personagens no passado, suas motivações, como se vestia. No final, eu era o último instrutor daquele período na Clarion e eu peguei a última história do Bob, e a li completamente, e ele estava fazendo a mesma coisa. De novo. Ele usava isso para dizer ao leitor como deveria se sentir, na sua opinião, sobre este personagem. E eu disse: "Olha, Bob, eu estou aqui há uma semana. Eu conheço os cinco instrutores. Eu sei que são todos bons escritores, e eu sei muito bem que todos esses cinco lhe disseram para não fazer isso. E eu sei que tenho lhe dito para não fazer isso durante toda a semana. Agora é sexta-feira e é o último dia do curso, e você ainda está fazendo isso. Por que você está fazendo?" E ele disse: "Bem, eu acho que precisamos disso." Bem, o que você faria?
P: Parece que ele não estava ouvindo.
Wolfe: Não, ele estava ouvindo. Ele não estava concordando. Ele sabia o que todo mundo estava dizendo para ele, mas ele tinha uma certeza interior que lhe dizia o que devia ser feito. E você não pode fazer nada a respeito disso.
P: Desiludiu-o então?
Wolfe: Não, ele me fez perceber que é fácil dizer às pessoas como escrever e extremamente difícil fazê-los acreditar em você. A classe mais recente onde ensinei, um ano e meio atrás talvez, dei duas palestras para gente muito rica de Chicago, pessoas que queriam escrever. Bem-educados e principalmente com tempo livre. No final nós trabalhamos em algumas histórias, e eu lhes dei uma das minhas histórias para analisar. Alguns vieram dizendo: "Olha, você não disse para não fazer isso e assim e assim, mas fez isso nessa história, então por que não posso fazer isso?" O que eles queriam era, basicamente, a minha permissão para escrever mal. Podemos vender uma história por qualquer motivo que seja. Talvez dormindo com o editor. Talvez a história fosse boa o bastante em outros aspectos, e o editor a compraria de qualquer maneira. Mas o que servirá para você, se eu lhe disser: "Olhe, pode fazer todas essas coisas ruins com a sua história." Você vai mandar sua história para o editor, dizendo: "Eu tenho a permissão do Gene Wolfe para escrever mal." [risos]. O editor vai dar uma gargalhada e jogá-la no lixo e provavelmente vai depois dizer que ele nunca a recebeu, quando você escrever pedindo-a de volta.
É muito difícil dizer às pessoas, para que acreditem que se você quiser fazer isso com sucesso, estas são as coisas que tem que fazer. É como alguém que entra numa loja e compra um violino e decide tocar do seu jeito. Não dá. Existem milhares de músicos talentosos que tocam violino e eles têm trabalhado para tocar um violino, tocar bem, e serem capazes de produzir todas as notas que desejam, de maneira rápida e pura. E se você diz não, eu só quero sentar-me com o meu violino em meu colo, e não me preocupar em passar resina no arco, OK. Você pode fazer isso. Mas você nunca vai conseguir um emprego como violinista.
Entrevista concedida a Kathie Huddleston (Science Fiction Weekly)










































