sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Copiar e Compartilhar em Legítima Defesa



 
do site FSF America Latina


Baseado nos direitos humanos largamente reconhecidos e raramente desrespeitados de apreciar e memorizar obras de arte a que se tenha acesso e de conceder e aceitar acesso a elas, este artigo afirma os direitos de preservar acesso a obras, de convertê-las para diferentes formatos e suportes físicos, para baixar e subir obras na Internet, e para receber e compartilhar obras em redes P2P. O pleno gozo desses direitos constitui legítima defesa contra os constantes ataques a eles.


Não devemos nos sentir culpados ou envergonhados por compartilhar e baixar arquivos digitais. No entanto, a lavagem cerebral promovida pelas indústrias editoriais de música, cinema e software distorce nossas noções de certo e errado. Confusos e assustados, abrimos mão de direitos e aceitamos leis restritivas que servem à sua ganância, em detrimento da sociedade. Argumentando que leis assim distorcidas nos provam errados e culpados, elas buscam ainda mais poder legal sobre nós, enquanto fingem já tê-lo. Mas não têm e não podem ter, enquanto houver respeito aos nossos direitos humanos.

Nota: o autor não é advogado. Nada neste artigo deve ser tomado como aconselhamento legal. Porém, se você for um dia ameaçado ou processado pelas indústrias editoriais ou pelas forças policiais anti-cópias que elas têm instituído, mostre este artigo ao seu advogado.


O direito de apreciar

    Artigo 27º. (1) Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
    – Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948


Se você estiver andando na rua e encontrar uma carteira no chão, você provavelmente a pegará e tentará encontrar seu dono para devolvê-la. Se, ao procurar documentos que o identifiquem, você encontrar um pedaço de papel com um poema, é direito lê-lo. Você não precisa pedir permissão (licença) do autor do poema, nem do dono da carteira: você tem o direito de lê-lo e apreciá-lo. Desde que o devolva ao lugar, não terá tirado nada de ninguém. Por outro lado, pegar dinheiro da carteira não seria direito, pois privaria dele seu legítimo dono. Indústrias editoriais tentam nos confundir escondendo essa diferença crucial.

Se você caminha mais um pouco e escuta um vizinho cantar uma música no chuveiro, está no seu direito. Você não tem de pedir permissão (licença) do compositor da música, nem do artista que a executa: você tem o direito de escutá-la e apreciá-la, e até de memorizá-la para cantar para si mesmo e para seus amigos mais tarde.

Você escuta os sinos da igreja e sabe que nessa hora seu vídeo-cassete estará se desligando, depois de gravar seu programa favorito na TV aberta, para que você possa assistir-lhe quando chegar em casa depois do trabalho. Você não precisa pedir permissão (licença) do diretor, do estúdio ou da transmissora do canal de TV: você tem o direito de gravar e assistir ao programa mais tarde, com sua família e seus amigos.

Você chega em casa, liga seu computador portátil e põe em seu leitor um DVD que alugou. Você não tem de pedir permissão (licença) do diretor, do estúdio, do distribuidor ou da locadora para assistir ao filme, e isso envolve tarefas como copiá-lo do DVD pra memória do computador, desembaralhar a codificação regional, descomprimir o vídeo e o áudio, copiar o vídeo pra memória do monitor digital e convertê-lo para padrões de pontos na tela e depois ondas luminosas, copiar o áudio para o amplificador digital e convertê-lo para vibrações mecânicas e depois ondas sonoras e por fim converter isso tudo em impulsos neurais e em memórias temporárias ou permanentes. Como você tem o direito de assistir ao filme, pode copiar, converter, memorizar e repetir o todo ou as partes, sem depender de permissão de ninguém.

O direito de apreciar uma obra artística a que se tenha acesso é uma questão prática. Seria ridículo ter de pedir permissão antes de ler um pedaço de papel, para, uma vez a tendo obtido, descobrir que a permissão já estava explícita no papel. Seria ridículo ter, de alguma forma, de deixar de ouvir uma música que está tocando ao seu redor. Seria ridículo ser privado de um programa de TV só porque ele vai ao ar, para todos, num horário inconveniente. Seria insano ter de pedir permissão para cada um dos passos de conversão e cópia envolvidos na apreciação de uma obra artística. Seria insano ter de pedir permissão para reter a obra na memória, ou forçar-se a esquecer caso não encontre quem a pudesse e quisesse conceder.

Ainda bem que não é assim! Não há nada de errado em fazer tudo isso, e não há lei que o impeça de fazê-las. Não deve haver: seria injusta e violaria direitos humanos fundamentais. Você tem o direito de apreciar obras artísticas a que tenha acesso, e de tomar parte na vida cultural de sua sociedade. Lei alguma jamais deve tirar-lhe esse direito.


O direito de compartilhar

    Artigo 19º. Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
    – Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948


Digamos que você tenha uma vasta coleção de livros e fique desapontado porque poucas pessoas têm chance de lê-los. Decide doá-los a uma biblioteca pública. Não precisa pedir permissão de ninguém para fazer a doação, e a biblioteca não precisa pedir permissão de ninguém para emprestar os livros a quem quer que tenha interesse neles.

Se fosse do jeito que as indústrias editoriais querem, você teria de trancar suas coleções de CDs, fitas, DVDs e livros em cofres quando tivesse visitas, temendo que tomassem alguns deles emprestados. Ao invés disso, você tem o direito não só de mostrá-los, mas também de executá-los para seus visitantes e deixar que levem emprestadas as suas cópias e as escutem, vejam ou leiam quando e onde queiram.

Leis que proibissem recepção e difusão de informações e idéias violariam direitos humanos fundamentais.

O direito de preservar

    Artigo 28º. Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
    – Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948

Quando você compra CDs, DVDs, livros, etc, o que você compra é o acesso à obra, não seu suporte físico nem uma suposta licença para apreciá-la: você não precisa de licença para isso. De fato, se o suporte físico for danificado, qualquer editora decente vai substituir a cópia danificada da obra, por não mais que uma taxa nominal que cubra custos do suporte físico, do empacotamento e do envio, de modo que você possa manter o acesso pelo qual pagou.

Se a editora for à falência ou não tiver mais cópias, você não precisa deixar sua única cópia da obra se degradar até perder acesso a ela. Se a editora não for decente, pode até planejar a degradação das cópias, de modo a vender acesso repetidamente até passar a negar acesso à obra, indefinidamente, a toda a sociedade. Um plano assim não deve funcionar. De fato, diversas jurisdições permitem explicitamente, sem sombra de dúvida, cópias de reserva e cópias para uso pessoal, a despeito de quaisquer direitos exclusivos de cópia de uma obra artística que a sociedade possa haver concedido a outros.

Essa permissão explícita, mesmo bem-vinda, não é estritamente necessária. É direito recordar obras a que tenha tido acesso. Porém, poucos têm memória perfeita ou fotográfica, então somos ensinados a usar memória auxiliar para guardar coisas relevantes: tomar notas de aulas, reuniões e descobertas, tirar fotos e gravar filmes de eventos importantes de nossas vidas, e até mesmo fazer cópias de reserva de informação que armazenamos em memória principal e auxiliar.

Uma cópia de reserva de uma obra nada mais é que uma extensão de memória, para que você possa se lembrar mais precisamente e melhor da obra, para recordá-la e apreciá-la mais tarde.

Nenhuma lei pode ou deve impedir você de manter memórias e apreciá-las, pois sem memória, os direitos de apreciar e de compartilhar não podem ser plenamente realizados.

O direito de converter


Na mesma linha, se seus velhos LPs e fitas cassete estão estragando e você se preocupa em conseguir agulhas, ímãs e motores para consertar os aparelhos que os tocam, caso quebrem, você pode encontrar conforto no seu direito de preservar seu acesso às obras, mesmo que isso exija sua conversão para outro formato e sua armazenagem noutras formas de memória auxiliar.

Digamos, você pode tocá-las para seu computador e registrá-las em memória eletrônica, magnética, ótica ou de qualquer outro tipo, para estender para o futuro a sua possibilidade remanescente de executar as obras tanto quanto queira.

Você pode ainda converter as obras para formatos de codificação diferentes, se é disso que precisa para poder apreciá-las dirigindo seu carro, caminhando na rua ou sentado num ônibus ou trem, com um reprodutor portátil de música ou vídeo, ou outro tipo de computador.

Lembre-se: não há, e não deve haver, qualquer lei que o impeça de copiar e converter obras como passos acessórios no processo de apreciá-las, ou de fazer cópias de reserva dos resultados desses passos acessórios para uso futuro. Você não deve ficar sujeito às limitações de meio, formato e reprodutores selecionados por quem lhe tenha dado acesso a uma obra: uma vez que você ganhe acesso a ela, você tem o direito de apreciá-la como quiser.

O direito combinado de compartilhar e preservar

Digamos que uma amiga quer tomar um DVD emprestado de você, mas o cachorro dela é famoso por seu gosto por DVDs. Você pode considerar negar o pedido da sua amiga, mas por que deveria? Você pode muito bem fazer uma cópia de reserva do DVD, para preservar seu acesso à obra, e então deixá-la levar pra casa a cópia "original", ou a cópia de reserva que você fez.

Sua amiga, por sua vez, pode não conseguir assistir ao filme antes da hora em que combinou devolvê-lo, ou querer assistir-lhe mais algumas vezes. Para preservar seu acesso, estendendo sua memória e deslocando no tempo sua possibilidade de apreciar a obra tantas vezes quantas quisesse, ela poderia devolver-lhe a cópia depois de fazer sua própria cópia de reserva. Ou ligar pra perguntar-lhe se pode ficar com ela. Ela pode até deixar de ligar, se souber que você vai ligar pra ela se um dia precisar.

De fato, você pode até ter um acordo com ela, para manterem cópias de reserva um para o outro. Até mesmo através da Internet! Apesar de cada um de vocês manter outras cópias de reserva em casa, isso não protegeria os arquivos em caso de incêndio, por exemplo.

Então, ela reserva parte do espaço em disco no computador dela para você fazer suas cópias de reserva, e você reserva parte do seu para ela. Vocês confiam o suficiente um no outro para não se preocuparem com questões de privacidade, mas também sabem que estão copiando as coleções de fotos, músicas e filmes um do outro, e que isso é tão direito como se as fotos, músicas e filmes tivessem cópias de reserva noutro endereço em CDs, DVDs, fitas, o que fosse.

E aí, como você não é obrigado a policiar o acesso às obras (de fato, vimos que tem o direito compartilhá-lo com seus amigos), você não precisa criptografar os dados ou exigir que ela concorde em nunca acessar aqueles arquivos.

Seu acordo pode até incluir um entendimento de que vocês concordam que um acesse fotos, músicas e filmes nas cópias de reserva mantidas para o outro. Nenhuma permissão adicional se faz necessária.

Os direitos de baixar e subir arquivos

Digamos que você vai sair de viagem, levando no computador portátil uns textos que quer ler. Preocupado com furto e perda, coloca os arquivos no seu sítio na Internet também, de modo que possa ter acesso a eles em qualquer cibercafé. Não precisa de permissão de ninguém pra fazer isso: você está apenas preservando seu acesso a eles.

Os arquivos estão lá para uso pessoal, então a princípio você não diz as URLs a ninguém. Porém, durante a viagem, você recebe um correio eletrônico de uma amiga, perguntando sobre um artigo que você uma vez mencionou. É um dos artigos que você colocou no sítio, então você lhe manda a URL. Você tem o direito de compartilhar obras a que você tenha acesso com amigos. O fato de você não poder encontrá-los pessoalmente para lhes entregar cópias em mãos, em meio físico, não deve ser impedimento. Seus amigos, por sua vez, têm o direito de apreciá-las e preservá-las uma vez que você lhes conceda acesso. Nenhum de vocês precisa pedir permissão pra ninguém.

Sua amiga repassa a URL pra um amigo, que então a envia para uma lista de e-mail privada, e a mensagem acaba sendo repassada para uma lista pública. Gente de todo canto começa a baixar o arquivo do seu sítio. Tudo bem, você tem o direito de compartilhar a obra com cada um deles. Mesmo que não tivesse, você não é obrigado a policiar o acesso ao sítio, assim como não é obrigado a esconder sua coleção de DVDs quando recebe visitas. Da mesma forma, aqueles que baixam o arquivo não são obrigados a policiar se você tem quaisquer permissões que poderia precisar para lhes conceder acesso à obra, assim como não teriam de verificar se você tem o direito de lhes emprestar um DVD.

O direito de P2Preservar

Seu arranjo de cópias de reserva cruzadas funciona tão bem que, quando você lê a respeito de um sistema distribuído par-a-par de cópias de reserva, você entra com entusiasmo. Como antes, cada par oferece parte de seu disco rígido para armazenar cópias de reserva para os outros, e por sua vez ganha cópias de reserva de porções de seus discos na rede.

Uma das maiores vantagens é que as cópias são replicadas entre vários pares, de forma que, mesmo que alguns saiam da rede, os arquivos de reserva permaneçam disponíveis. O sistema também é inteligente o suficiente para perceber quando vários usuários querem fazer cópia de reserva do mesmo arquivo, evitando desperdícios.

É claro que você mantém seus arquivos pessoais criptografados numa rede como essas, pois você não confia em todos tanto quanto na sua amiga. Mas para arquivos que você normalmente compartilharia com amigos, por que impediria a redução de desperdício?

Um dia chega um correio eletrônico de uma participante da rede P2P, perguntando se você tem alguma objeção a ela manter uma cópia de uma música que descobriu estar guardando de reserva para você. Que pergunta boba! Ela já estava mantendo aquela cópia, e ela evidentemente já tinha ganho acesso à música, então é óbvio que ela poderia preservá-lo. Mas ela achou que não faria mal perguntar. Não fez: deu início a uma bela amizade.

O direito de P2Participar

Um dia, você remove acidentalmente um arquivo de seu computador. Pede pra rede restaurar a cópia de reserva, e vê que ela é restaurada tão depressa que mal pode acreditar! Por coincidência, outro par tinha acabado de fazer uma cópia de reserva do arquivo na rede, e aconteceu de ela ter sido transferida pro seu computador pouco antes de você pedir a restauração.

Pois essa pessoa parece gostar das mesmas músicas que você. Você reconhece a maioria delas, mas parece que há algumas que você não tinha ouvido antes, e são justamente do tipo que você adora! Então você faz uma cópia das músicas que esse novo amigo compartilhou com você. Você também lhe manda uma mensagem de agradecimento, com algumas dicas musicais, e vocês se tornam bons amigos.

Hoje em dia, sempre que você compra um CD ou DVD que gosta, você o preserva na pasta de cópias de reserva por P2P. Não há nada que o impeça de usar a rede como memória para preservar seu acesso às obras, nem de permitir que seus amigos tenham acesso a elas. Volta e meia você recebe um correio de um novo amigo lhe agradecendo por isso.

Um aspecto interessante da rede é que, quando cai um par, ela compensa a falta criando mais réplicas dos arquivos que estavam lá. Você não precisa pedir permissão a ninguém para transferir os arquivos que hospeda para outros pra lá e pra cá, assim como um provedor não precisa pedir permissão a ninguém para transferir os arquivos que você tenha solicitado de terceiros, ou para mantê-los em cache.

Quando você entra numa rede P2P só para baixar um arquivo, a situação é um pouco diferente, pois você tem uma noção muito mais precisa sobre o que está baixando e transmitindo. Porém, como vimos antes, é direito baixar uma obra artística e compartilhar o acesso a ela com um amigo. Se alguém que tem o direito de compartilhar o acesso obra com você e com outros pede sua ajuda para estendê-lo aos outros, por que não ajudar?


Mas e a pobre indústria editorial?

    Artigo 27º. (2) Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
    – Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948

Sob o falso pretexto de ajudar os autores, que a desumana indústria editorial explora tanto quanto a nós, vai continuar tentando limitar o que as pessoas podem fazer, através de medidas técnicas e jurídicas, inventando barreiras tecnológicas para negar direitos fundamentais, ameaçando processar e jogar pessoas na cadeia por exercê-los, e contratando legisladores para aprovar leis nos tiram ainda mais direitos.

Por que deveria a sociedade aceitar leis que minam direitos humanos fundamentais, além de bases da sociedade tais como amizade e compartilhamento? Compartilhar com amigos não produz interesses materiais, logo nem mesmo um autor poderia invocar o direito humano à proteção de interesses materiais para se opor.

Tele-revolução

Se um dia desenvolvêssemos o tele-transporte, e a tecnologia se tornasse largamente disponível a baixos custos, empresas que dependessem da dificuldade de transportar pessoas ou bens de um lugar a outro teriam de rever suas estratégias. Algumas poderiam se adaptar e encontrar outras formas justas de ganhar dinheiro; outras pressionariam para preservar seus modelos de negócios obsoletos.

Mas imagine se o telégrafo houvesse sido proibido, por receios da indústria postal. Se o telefone, o e-mail e as mensagens instantâneas houvessem sido proibidos, por receios da indústria de telégrafo. Se telefones celulares e chamadas via Internet fossem proibidos, por receios da indústria de telefonia fixa.

Não faz sentido a sociedade proibir ou limitar o uso de tele-transporte apenas para manter a escassez que permitia às empresas de transporte lucrar; certamente não sem que essa privação traga, de alguma forma, um bem maior à sociedade em geral.

Multi-revolução

Se um dia desenvolvêssemos a tecnologia da multiplicação de objetos, e ela se tornasse largamente disponível a baixos custos, empresas que dependessem da dificuldade de produzir objetos e substâncias replicáveis teriam de rever suas estratégias. Algumas poderiam se adaptar e encontrar outras formas justas de ganhar dinheiro; outras pressionariam para preservar seus modelos de negócios obsoletos.

Mas imagine se a indústria panificadora tentasse proibir a multiplicação de pão para quem tem fome. Se a indústria de moda tentasse proibir a replicação de agasalho para quem tem frio. Se a indústria de medicamentos tentasse proibir a cópia de remédios para quem tem doenças. Se as indústria agropecuárias e de sementes tentassem proibir a reprodução de soja, milho, batata, trigo, arroz, feijão e outros alimentos. Absurdo! Não surpreende que alguns achem tão difícil de acreditar que pessoas inteligentes tenham sido induzidas a crucificar alguém por multiplicar e compartilhar peixe e pão, e por ensinar aos outros como realizar esses milagres.

Não faz sentido a sociedade proibir ou limitar o uso da multiplicação apenas para manter a escassez que permitia às empresas de manufatura lucrar; certamente não sem que essa privação traga, de alguma forma, um bem maior à sociedade em geral.


Inter-revolução

Acontece que computadores ligados à Internet são capazes de efetuar multiplicação de obras digitais à distância. Empresas que dependem da dificuldade de replicar e transportar essas obras têm de rever suas estratégias urgentemente. Algumas já se adaptaram e encontraram outras formas justas de ganhar dinheiro; outras têm pressionado para preservar seus modelos de negócios obsoletos.

Não faz sentido a sociedade proibir ou limitar o uso da multiplicação digital, local ou à distância, apenas para restaurar a escassez que permitiu aos editores lucrar antes desse avanço; certamente não sem que essa privação traga, de alguma forma, um bem maior à sociedade em geral.


Anti-revolução

Todas as leis numa sociedade democrática devem trazer benefício à sociedade. Direito autoral, por exemplo, é um monopólio limitado concedido pela sociedade a título de incentivo à publicação de obras artísticas, de forma que possam ser apreciadas e usadas por todos, ainda que alguns usos limitados, que seriam impossíveis sem a publicação, tenham de aguardar a expiração do monopólio.

Não há indícios de que conceder aos editores mais poder sobre autores e sobre nós vá trazer mais benefício a todos. Criminalizar supostas violações de direitos autorais não tem melhorado a qualidade cultural das obras publicadas. Estender a duração do direito autoral retroativamente, toda vez que Mickey Mouse está para finalmente cair no domínio público, não nos tem proporcionado mais obras de Walt Disney, nem novas (como poderia?) nem as já bem conhecidas. Conceder aos editores poderes de legisladores e juízes, aprovando leis que nos proíbam de contornar limitações tecnológicas deliberadas em seus produtos, mesmo para praticar atos a que temos direito, negaria à sociedade o próprio benefício que justifica o monopólio: permitir a todos a apreciação e o uso de obras, ainda que após um curto atraso.

Devemos manter em mente que o direito autoral foi projetado de modo a permitir apreciação privada, execução privada e compartilhamento e preservação da cultura, e que precisaríamos de razões muito boas para todos para nos privarmos disso. Devemos combater tentativas de virar essas leis do avesso, pois elas beneficiariam poucos em detrimento da maioria.


Direitos fundamentais e legítima defesa

    Artigo 10º. Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
    – Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948

Quando alguma provisão legal ou projeto de lei parecerem entrar em conflito com direitos fundamentais, podemos e devemos defender nossos direitos, nos opondo a leis que os neguem ou os ponham em dúvida.

Como são direitos fundamentais, não devem ser tornados ilegais. Tratando-se de direitos, mesmo que haja provisões criminais que os pareçam cobrir, num estado de direito o exercício regular de direitos civis não pode ser considerado crime.

Quanto a outros meios privados de ataque a direitos fundamentais, a que a indústria freqüentemente recorre para impor restrições que violam direitos humanos, resistir ao ataque para se valer dos direitos civis significa agir em legítima defesa, o que, num estado de direito, também não pode ser considerado crime.

Escrito para os anais do Primeiro Congresso Estadual de Software Livre do Ceará, CESoL-CE, realizado em Fortaleza, Ceará, Brasil, de 18 a 23 de agosto de 2008.

Copyright 2008 Alexandre Oliva
Copyright 2008 FSFLA

Cópia literal, distribuição e publicação da íntegra deste artigo são permitidas em qualquer meio, em todo o mundo, desde que sejam preservadas a nota de copyright, a URL oficial do documento e esta nota de permissão.

http://fsfla.org/texto/copying-and-sharing-in-self-defense
---------------
Alexandre Oliva

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O prazer de compartilhar



do site Qprocura

 Eles não têm olho de vidro, perna-de-pau e nem andam com um papagaio no ombro. Mesmo assim a indústria da música e do cinema insiste em chamá-los de piratas e em afirmar que são os grandes vilões da internet. Mas um estudo publicado neste mês pela revista eletrônica /First Monday/ mostra justamente o contrário. A motivação dos usuários de programas de compartilhamento de arquivos como o Kazaa e o SoulSeek - que permitem que você baixe os arquivos de música e vídeo de outros e ofereça os seus - não estaria só em pegar arquivos de graça mas também em "presentear", em compartilhar seu acervo com outras pessoas. Por isso, não basta que a indústria crie mecanismos tecnológicos para que as pessoas usufruam legalmente de bens culturais na Internet; será preciso também levar em conta o desejo que elas têm de ajudar e oferecer arquivos a outros.

A conclusão é de Kevin McGee e de Jorgen Skageby, pesquisadores da Universidade de Linkoping, na Suécia, e autores do artigo "Gifting Technologies". Por seis meses, ambos frequentaram e analisaram listas de discussão de usuários dos sistemas P2P - sigla para ponto-a-ponto, a tecnologia que permite a troca direta de arquivos na internet - e entrevistaram mais de 100 desses usuários. O objetivo era buscar entender o fenômeno da troca de arquivos na rede a partir da perspectiva da dádiva, ou seja, de trabalhos anteriores que falam da troca ou do ato de dar presentes como um fenômeno social. O que os autores descobriram é que não é possível reduzir a ocorrência da dádiva na internet - que acontece nos programas de P2P - nem a um "roubo", em que as vítimas são os detentores dos direitos autorais, nem meramente a uma troca interessada, em que os sujeitos só compartilham porque estão interessados também em baixar arquivos.

Indústria age com truculência

Nos últimos dois anos, a indústria do entretenimento tem promovido uma verdadeira cruzada contra os usuários dos programas de P2P. As ações vão desde multas até a prisão e os métodos incluem a espionagem eletrônica de usuários. A onda de processos movida pela indústria da música começou em setembro de 2003 e, até agora, pelos cálculos da EFF (Fundação da Fronteira Eletrônica, entidade que luta pela legalização do compartilhamento de arquivos) já são mais de 6 mil ações legais. No início deste mês, a indústria do cinema anunciou que deverá seguir os passos das gravadoras e também iniciará uma onda de processos. "Ações contra os usuários não significam o pagamento de direitos aos artistas. Nós precisamos de uma solução construtiva. Os compartilhadores são mais de 60 milhões, só nos EUA, um número maior de pessoas do que o que elegeu o atual presidente", diz a EFF.

Os efeitos dos processos movidos pela indústria puderam ser sentidos pelos pesquisadores suecos. Ao tipificar os diversos grupos de compartilhadores ele encontraram a figura do que chamaram de "presenteadores amedrontados". Esse grupo ofereceria seus arquivos de uma forma mais selecionada, escolhendo aqueles que podem receber ou quais arquivos serão compartilhados. "O mais surpreendente é que esse tipo de ação não seria motivado pelo medo de serem pessoalmente alvo de processo mas pelo medo de que os mecanismos de compartilhamento sejam ameaçados", dizem os pesquisadores. Eles encontraram casos de pessoas que deixaram de compartilhar arquivos sujeitos aos direitos autorais da indústria.

Muito mais do que uma troca interessada

As características dos diversos grupos de compartilhadores permitem dizer que a atividade vai muito além do "é dando que se recebe". Vários teriam motivações ideológicas, acreditando não só que a "informação tem que ser livre", mas em um certo "espírito do compartilhamento". Os pesquisadores afirmam também que muitos dos que aparentemente oferecem seus arquivos apenas para poderem conseguir músicas ou filmes de outros (a chamada pseudo-dádiva), na verdade são bastante benevolentes com aqueles que não compartilham nada. Ou seja, depois de bloquearem aqueles usuários que claramente não oferecem nada em troca - os chamados de sangue-sugas - os compartilhadores voltam a oferecer seus arquivos para a comunidade.

Foram encontrados, inclusive, alguns usuários que ajudam outros que tenham um gosto parecido com o do compartilhador ou que estão em dificuldades. Quando encontram alguém que tem uma conexão muito lenta e que vai levar muito tempo para conseguir um arquivo, eles deixam seus computadores ligados por horas, só para que a conexão do receptor não seja cortada. Ou ainda oferecem a quem está baixando uma música, por exemplo, outros arquivos de estilo semelhante ao que está sendo enviado.

"Quando você compartilha algo com alguém você o faz não porque espera algo em de volta... Quando você quer algo do outro isso é uma troca", declarou um dos entrevistados. Para os pesquisadores, há nos mecanismos de oferecimento de arquivos algo que vai além do que tem sido notado até hoje e que mistura altruísmo e ideologia. Mesmo que a indústria crie mecanismos poderosos e acessíveis para que bens digitais sejam adquiridos, essas iniciativas falharão se o espírito do compartilhamento não for levado em conta.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Compartilhar conhecimento traz mais crescimento do que se imagina



do blog Baguete

Compartilhar é uma palavra intrigante.

Por que? Porque significa que algo que você considera seu poderá ser utilizado por outra pessoa, e com a sua permissão.

Além de identificar uma atitude altruísta, o que sempre é positivo, significa estar disposto a contribuir para o crescimento do outro, que sempre está atrelado ao seu próprio crescimento.

Quando você compartilha o seu conhecimento, você não está apenas dividindo ou repassando informação, você está abrindo espaço para a troca e para o crescimento como pessoa e profissional. Seu e do outro.

Muitas pessoas persistem no equívoco de que conhecimento deve ser tratado como um nicho, em que um único dono deve ser o tratado como o “imperador da informação”. Completamente errado. Compartilhar faz com que você se direcione a buscar mais, e faz com que os outros também busquem mais como você.

Esta atitude faz com que o que era considerado complexo ou único passe a fazer parte da rotina e todos tem de encontrar novos desafios para enxergar novas perspectivas para si próprio.

No mundo dos negócios, ganha mais quem mais compartilha conhecimento. Porque todos querem saber, todos querem comprar, todos querem crescer.

Se você está disposto a crescer e fazer de seu negócio ou carreira um sucesso, não se limite ao seu mundo. Compartilhe com seus aliados, com a sua equipe ou com seus colegas o seu conhecimento. Este é o verdadeiro sentido do crescimento.

Quando lhe perguntarem se você teme repassar conhecimento, não exite em dizer que o conhecimento precisa ser compartilhado, pois você pensa no outro como se fosse você mesmo.

Na verdade, saber compartilhar é evoluir, mais que qualquer coisa. É não se limitar, mas expandir os limites, até onde você desejar, que pode significar aboli-los.

Saiba que o único limite possível é apenas o seu entendimento a este respeito.

Compartilhe.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Compartilhar para crescer: O valor da reciprocidade




do blog Criatividade Aplicada

Lendo o artigo Por uma blogosfera solidária de Ricardo Cabianca, me lembrei de outro artigo lido há tempo e resolvi fugir um pouco do assunto deste blog e dar meu palpite.

James Bender, em seu livro How to Talk Well (New York: McGraw-Hill Book Company, Inc., 1994), relata a história de um fazendeiro premiado pela qualidade de sua lavoura de milho. Todo ano seu milho recebia o primeiro prêmio na exposição de seu estado. Uma vez um jornalista o entrevistou e conheceu algo interessante sobre como ele cultivava seu milho.

O jornalista descobriu que o fazendeiro fornecia suas sementes para os fazendeiros vizinhos. “Como você se permite compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos, se eles competirão com você todos os anos?” o jornalista perguntou.

“Bem senhor”, respondeu o fazendeiro, “você não sabe? O vento pega o pólen do milharal e o espalha de lavoura para lavoura. Se meus vizinhos cultivarem milho inferior, a polinização cruzada vai certamente degradar a qualidade de meu milho. Se pretendo cultivar um milho de qualidade, eu tenho de ajudar meus vizinhos a cultivar um bom milho”.

Este fazendeiro está muito ciente das conexões da vida. Seu milho não pode melhorar a não ser que o milho de seus vizinhos também possa melhorar. A mesma coisa ocorre em outras situações e dimensões. Aqueles que escolhem viver em paz devem ajudar seus vizinhos a ter paz. Aqueles que querem viver felizes devem ajudar os outros a encontrar a felicidade, pois o bem estar de cada um está firmemente ligado ao bem estar de todos.

O mesmo se pode dizer de uma comunidade dedicada ao intercâmbio de conhecimento e que compartilha um mesmo recurso tecnológico como a blogosfera. À medida que cada um contribui com o melhor de sua experiência, cada membro tem a oportunidade de se aperfeiçoar e melhorar continuamente suas próprias contribuições à comunidade. À medida que cada um se fortalece, a comunidade se torna mais forte, mais dinâmica e prestigiada.

Não se trata de assumir uma posição ingênua e ignorar a competição que existe dentro de toda comunidade, mas do reconhecimento de que uma comunidade forte tem um valor maior para ser compartilhado. Ela oferece mais possibilidades, opções e criatividade para todos. Cada um colherá sua parte conforme seus talentos e capacidade, mas certamente colherá uma parcela maior com uma mentalidade de abundância do que com uma mentalidade de escassez.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Início de um novo ano, tempo propício para reflexões e mudanças



A passagem de ano deveria servir para algo mais do que festas e trocarmos a folhinha do calendário, ao menos é o que pensamos aqui no Capacitor Fantástico.

O início de um novo ano nos leva a avaliar o que fizemos nos dias passados, e por consequência disso, escolher outros rumos, ou reafirmar nossas convicções e intenções.

Recentemente fomos duramente massacrados, via email, por algumas 'pessoas' que, apesar de se dizerem fãs do blog, nos criticaram 'sem-dó-nem-piedade', por estarmos divulgando ebooks que, segundo eles, iriam 'bombar' nos sites deles, pois eram raros e iriam garantir um bom número de acessos e consequentemente, 'din-din' na conta.

Francamente, tem gente que ainda não entendeu como a coisa funciona.
Entrou em uma festa onde se ouve chorinho e insiste em dançar rumba...

Poderíamos responder perguntando se já viram algum anúncio de produtos à direita ou à esquerda, ou se repararam que, ao clicar em algum link indicado por nós para Download, se havia um esquema de monetização embutido.

Mas responderemos de outra forma..

Para aqueles que ainda não 'prestaram atenção na música', resolvemos fazer uma Semana de conscientização (gostamos da pompa), sem link para download... 'nenhunzinho'.

(Ok, não será exatamente uma semana, apenas até sexta.)


Bom proveito a todos ( com muita calma pra pensar ) !

domingo, 10 de janeiro de 2010

Poul Anderson



Poul William Anderson (25 de novembro de 1926 - 31 de Julho de 2001) nasceu em Bristol, Pensilvânia (EUA), mas passou a infância no Texas. Após a morte de seu pai, sua família mudou-se para a Dinamarca, voltando aos Estados Unidos com o agravamento da Segunda Guerra Mundial na Europa, estabelecendo-se em Minnesota.

Anderson formou-se em física na Universidade de Minnesota em 1948 e, embora bacharelado com honras, não fez nenhuma tentativa para trabalhar como físico.

Começou a escrever ficção científica em 1937, enquanto estava convalescente de uma doença. O seu primeiro conto, publicado na revista Astounding em Setembro de 1944, foi 'A matter of relativity'.
Em 1947 publicou a sua primeira obra de envergadura: 'Tomorrow's children', na mesma revista, com apenas 20 anos, ainda um estudante.

Poul Anderson é lembrado como um dos mais criativos e altamente prolíficos autores de ficção científica da Golden Age (Época de Ouro). Escreveu cerca de 70 romances e mais de 100 contos, que apareceram em dezenas de antologias. 

Anderson é provavelmente mais celebrado pelas suas narrativas de aventuras, (pouco se dedicava a esforços na análise psicológica dos personagens) especialmente ao imaginar planetas cientificamente plausíveis e diferentes da Terra. Suas histórias freqüentemente mostravam heróis confrontados por um mundo alienígena.

Ele firmemente acreditava que uma condição para a continuação da raça humana, implicava na expansão para o espaço, razão pela qual sempre foi opositor das ideias de que a exploração do espaço seria um desperdício de dinheiro e um luxo desnecessário.

Esta conexão entre espaço e liberdade é claramente uma extensão do conceito americano da fronteira, onde os descontentes podem reivindicar por novas terras, como os pioneiros que levam a vida para asteróides mortos (Tales of the Flying Mountains), ou se instalam em planetas semelhantes à Terra, cheios de vida (Star Fox).

Poul Anderson recebeu todos os principais prêmios para um autor de FC e Fantasia, como o Gandalf Grand Master, o Hugo Award (sete vezes), John W. Campbell, Memorial Award , Locus Award (41 nomeações e uma vitória ), o Prémio Nebula (por três vezes), o Pegasus Award, Prémio Prometheus (quatro vezes, incluindo a especial Prometeu Lifetime Achievement Award em 2001) e o Grand Master Award pela SFWA.

Recentemente Poul Anderson voltou a ser debatido na internet, após vários fãs perceberem similaridades de seu conto 'Call Me Joe', com o filme ‘Avatar’, de James Cameron. No conto, cientistas em uma estação orbital, utilizam de "tecnologia psíquica' para assumir o controle da mente de um 'autômato biológico' (o Joe do título), que está sendo usado para estudar a superfície de Júpiter. O cientista que está fazendo este trabalho, um paraplégico mal-humorado, é capaz de viver - por "procuração" – na superfície de Júpiter. Os problemas começam a surgir quando fica evidente que o meio ambiente alienígena moldou uma personalidade que não deseja mais viver sob a ‘limitação humana’.  Em ‘Call me Joe’, Anderson lida com questões que apenas a FC consegue explorar com tanta propriedade, como a eterna pergunta sobre o que nos define como seres humanos.

Em entrevista para a Locus em 1997, Anderson disse que gostaria de ser lembrado por ‘Tau Zero’, ‘Midsummer Tempest’,’The boat of Million Years’ (limítrofe entre a ficção científica e fantasia), ‘Three Hearts and Three Lions’ e ‘The Enemy Stars’.

Sobre a FC americana, ele disse na época: "Tanta coisa na ficção científica norte-americana é provinciana... como essa suposição de que haverá no futuro uma cultura mais ou menos como a nossa, e com os mesmos ideais e as mesmas noções de como fazer as coisas, apenas com uma tecnologia mais aprimorada. Não funciona desta maneira..."



Poul Anderson ( Essas estrelas são nossas, A mágoa de Odin, O avatar, Os guardiões do tempo, Tau zero, Queen of air and darkness, Atraves de los tiempos, Brain Wave, Carne Compartida, Gitanos del espacio, Conan el rebelde, Cosecha de estrellas, Cuidado Terrestre, Delenda est, The dipteroid phenomenon, Duelo en Sirte, El xerife del canyon gulch, El avatar, El barbaro, El camarada, El campamento, El canto del chivo, El cielo en desintegracion, El crepusculo del mundo, El mundo del Satán, El pueblo del aire, El pulgar verde, El unico juego entre los hombres, El viaje mas largo, En orbita, We have fed our seas, Epilogo, Escudo invulnerable, Estado de emergencia, Eutopia, Fantasmas, Fin del capitulo, Fire time, War of the wing-men, Gheto, Guardiones del tiempo, Guerra de alados, The high crusade, High treason, In Memoriam, La espada rota, Le fiera y la bella, La gran cruzada, La luz, La nave de un millon de anos, La onda cerebral, La reina del aire y la oscuridad, La ultima medicina, Las estrellas son de fuego, Lo mejor de Poul, Los corredores del tiempo, Mesajero del futuro, Mirkleim, Ningun hombre escapa a su destino, No habra tregua para los Reyes, Operation Chaos, Operation Luna, Punto decisivo, Satan's world, Saturn game, Sin mundo propio, Star Ways, Starfares, The martian crown jewels, There will be time, Three hearts and three lions,  Tres corazones y tres leones, Valiente para ser Rey, The unicorn trade, The boat of a million years, The midsummer tempest, A shrine for lost children, A world named Cleopatra, Birthright, Broken sword, Call me Joe, Cold Victory, Corridors of time, Explorations, Eutopia, Flandry series, Fleet of stars, For love and glory, Genesis, Goat boy, Goat song, Harvest of stars series, Hokas Pokas, How to be ethnic, Inheritors of Earth, Margin of profit, Maurai and Kith, Murasaki, No truce with kings, Operation Luna, Plato's cave, Shield, Sky people, The Van Rijn method, The byworlder, The dancer from Atlantis, The demon of scattery, The Earth book of Stormgate, The enemy stars, The game of empire, The high crusade, The long night, The long way home, The makeshift rocket, The man who counts, The merman's children, The people of the wind, The problem of pain, The psychotechnic League, The season of forgiveness, The star fox, The tale of Hauk, The valor of Cappen Varra, Three worlds to conquer, Time patrol series, Time patrolman, Trade to stars, Two in time, Vault of the ages, Virgin planet, Wings of victory, Hoka!Hoka!Hoka! ) [ Download ]

sábado, 9 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 11



CAPÍTULO 11

Este capítulo é dedicado à livraria University da Universidade de Washington, cuja seção de Ficção Científica se compara às melhores que existem, graças ao olhar aguçado e dedicado de seu responsável por compras, Duane Wilkins. Duane é um verdadeiro fã de Ficção Científica - eu o encontrei pela primeira vez na Convenção Mundial de Ficção Cientifica em 2003 em Toronto - e isso se mostra na vitrine eclética e atualizada de sua loja. Um dos indicadores de uma grande livraria está na qualidade de suas resenhas próprias - pequenos cartões presos às prateleiras (geralmente escritos a mão) exortando as virtudes dos livros que de outra forma você não conheceria. O pessoal da University é claramente beneficiado graças à tutela de Duane.  
The University Bookstore 4326 University Way NE, Seattle, WA 98105 USA +1 800 335 READ

Jolu ficou de pé, tomando a palavra:
“É assim que a coisa começa, pessoal. Assim é que ficamos sabendo de que lado vocês estão. Vocês podem não querer ser parados nas ruas e ser presos por suas crenças, mas se vocês possuem crenças, isso nos deixara saber isso. Isso irá criar a rede de confiança que nos dirá quem está dentro e quem está fora.. Se formos pegar nosso pais de volta, precisamos fazer isso. Nós precisamos fazer algo assim.”
Alguém na audiência - foi Ange - levantou a mão segurando uma garrafa de cerveja.
“Pode me chamar de burra, mas eu não entendi isso tudo. Por que vocês querem que a gente faça isso?”
Jolu olhou para mim e eu para ele. Parecia tão óbvio quando nós organizamos aquilo.
“A Xnet não é só uma maneira de jogarmos games de graça. É a última rede de comunicação livre da América. É a única maneira de nos comunicarmos sem sermos espionados pela DHS. Para que isso funcione, precisamos saber que a pessoa com quem falamos não é um espião. Isso quer dizer que precisamos saber com quem trocamos mensagens são as pessoas que pensamos ser.”
“É ai que vocês entram. Vocês estão aqui por que acreditamos em vocês. Acreditamos de verdade. Acreditamos o bastante para arriscar nossas vidas.”

Alguns vaiaram. Isso pareceu melodramático e estúpido.
Eu voltei ao meu discurso.
“Quando as bombas explodiram” eu disse e algo perfurou meu peito, algo doloroso. “Quando as bombas explodiram, haviam quatro de nós na Rua do Mercado. Por algum motivo, o DHS decidiu que isso nos fazia suspeitos. Colocaram sacos em nossas cabeças, nos levaram para um barco e nos interrogaram por dias. Eles nos humilharam. Mexeram com nossas cabeças. E então nos deixarão ir embora.”
“Todos saímos, exceto uma pessoa. Meu melhor amigo. Ele estava conosco quando eles nos prenderam. Ele tinha sido ferido e precisava de cuidados médicos. Ele nunca mais foi visto. Eles disseram que se nós contássemos para alguém o que aconteceu, eles nos prenderiam e sumiriam com a gente para sempre.”
“Para sempre.”

Eu tremia. A vergonha. A maldita vergonha..Jolu tinha apontado a luz em mim.
“Deus do céu!” eu disse. “Você são os primeiros a saber dessa história. Se ela se espalhar, podem apostar que eles saberão quem contou. Podem apostar que eles virão bater na minha porta.” Respirei fundo. “É por este motivo que me ofereci para trabalhar pela Xnet. Este é o motivo da minha vida, a partir de agora, servir para combater a DHS. Cada respiração minha, todos os dias. Até que fiquemos livres novamente. Qualquer um de vocês pode me mandar para a cadeia agora, se quiser.”
Ange levantou a mão de novo. “Nós não vamos trair você.” ela disse. “Não mesmo. Eu conheço bem cada um aqui e posso prometer isso. Eu não sei dizer em quem eu posso confiar, mas eu sei em quem não posso confiar: gente velha. Nossos pais. Adultos. Quando eles pensam que alguém pode ser espionado é sempre um outro alguém, um sujeito ruim. Quando pensam em alguém sendo preso e mandado para uma prisão secreta, é sempre um outro alguém - alguém de cor, alguém jovem, alguém do estrangeiro.”
‘Eles se esqueceram de como é ter a nossa idade. Ser objeto de suspeita o tempo todo. Quantas vezes vocês já subiram num ônibus e cada pessoa nele deu para você aquele olhar como se você estivesse gargarejando com merda e arrancando a pele de animaizinhos? E o que é pior, eles estão se tornando adultos cada vez mais cedo. Antigamente costumava-se dizer que não se podia acreditar em ninguém com mais de 30. Eu digo, não confie em ninguém com mais de 25!”

Isso fez com que todos rissem, e ela riu também. Ela era pequena, de uma maneira bem esquisita de ser, como um jóquei de cavalos, com uma cara longa e queixo cumprido. “Eu não estou brincando, sabe? Quer dizer, pense nisso. Quem é que elege todos estes palhaços? Quem deixa que eles invadam nossa cidade? Quem votou para que colocassem câmeras nas salas de aula e nos seguissem por aí com estes assustadores chips espiões nos nossos passes de trânsito e nos carros? Não foi alguém de 16 anos. Podemos ser bobos, podemos ser jovens, mas não somos escória.”
“Eu quero uma camisa dizendo isso!” falei.
“Seria uma boa.” ela disse. Nós sorrimos.
“Onde preciso ir para conseguir minhas chaves?” ela perguntou e puxou seu telefone.
“Vamos fazer isso logo ali, num lugar isolado nas cavernas. Eu te levo até lá e preparo para você. Então você vai poder fazer o que precisa e vai deixar a máquina para seus amigos tirarem fotos de sua chave pública e eles poderão assiná-la quando chegar em casa”.

Levantei a voz e falei: “Mais uma coisa! Caramba, eu esqueci de dizer! Não acredito! Apaguem as fotos após terem entrado com as chaves. A última coisa que queremos são estas fotos num álbum no Flickr com todos nós aparecendo conspirando juntos.”
Houve um consentimento geral, risos nervosos e então Jolu apagou a lanterna e na súbita escuridão eu não pude ver mais nada. Aos poucos, meus olhos se ajustaram e fui até as cavernas. Alguém vinha atrás e era Ange. Virei-me e sorri para ela e ela sorriu de volta, com dentes luminosos na escuridão.
“Obrigada por dizer aquilo! Você foi demais!”
“Você passou mesmo por tudo isso? O saco na sua cabeça e tudo mais?”
“Sim. Aquilo aconteceu. Eu nunca contei para ninguém, mas aconteceu.” Pensei por um momento e disse: “Sabe, ficamos muito tempo sem falar sobre isso e começou a parecer como se tivesse sido apenas um pesadelo. Mas foi de verdade.” Parei e entrei na caverna. “Estou contente de poder finalmente contar para as pessoas sobre isso. Se tivesse demorado mais, eu acho que começaria a duvidar da minha própria sanidade.”
Coloquei o laptop sobre uma rocha seca e liguei-o inicializando a partir do DV nele enquanto ela observava. “Vou religá-lo para cada pessoa. Este é um disco ParanoidLinux padrão, acho que vai precisar confiar em mim.”
“Diabos!” ela disse. “Mas isso é mesmo sobre confiança, não é?”
“É. Confiança.”

Dei alguns passos me afastando enquanto ela executava o gerador de chaves, ouvindo-a teclar e mexendo o mouse para gerar o aleatoriamente, ouvindo as ondas quebrando longe e os ruídos de toda festa onde havia cerveja.
Ela saiu da caverna carregando o laptop. Nele, em letras brancas luminosas estava a sua chave pública, sua “impressão digital” e seu endereço de email. Ela segurou a tela junto do rosto enquanto eu puxava meu telefone.
 “Xis” ela disse. Eu tirei sua foto e devolvi o celular ao bolso. Ela foi até os outros e deixou-se ser fotografa com o laptop. Foi engraçado. Ela tinha bastante carisma, você não sentia vontade de rir dela, mas com ela. Enfim, foi divertido! Nós estávamos declarando uma guerra secreta à polícia secreta. Quem diabo a gente pensava que era?

E foi assim, na próxima hora e depois, todos tirando fotos e fazendo fotos. Encontrei todos por lá. E eu conhecia muitos deles - alguns eram meus convidados - e os outros eram amigos dos meus amigos ou amigos dos amigos de meus amigos. Devíamos ser todos amigos. E ficamos conforme a noite se ia. Eram todos gente boa.

Quando quase todos tinham ido embora, Jolu foi fazer sua chave e voltou de lá rindo encabulado. Minha raiva por ele tinha passado. Ele estava fazendo o que tinha que fazer. Sabia que não importava o que ele tinha dito, ele sempre estaria lá para me ajudar. Tínhamos ido para a cela da DHS juntos. Van também. Não importava, aquilo tinha nos unido para todo sempre.
Fiz minha chave e fui encontrar minha turma e deixei que tirassem fotos minhas, então subi na mesma ruína de antes e chamei a atenção de todos.
“Alguns de vocês perceberam que há uma falha vital no processo: o que aconteceria se este laptop não fosse confiável? Se secretamente gravasse nossas instruções? Se estivesse nos espionando? Se Jose-Luis e eu não fossemos confiáveis?”
Mais alguns risos, um pouco mais calorosos que antes, mais alcoólicos.
“Quer dizer, se nós estivéssemos do lado errado, isso aqui poderia a todos nós - todos nós! - em apuros. Provavelmente na cadeia.”
Os risos ficaram nervosos.
“É por isso que vou fazer isso!” disse, e peguei o martelo do meu pai, que havia trazido comigo.
Coloquei o laptop numa pedra e ergui o martelo, Jolu o seguiu com sua lanterna.
CRASH - sempre sonhei em acabar com um laptop com um martelo e finalmente consegui. Me senti pornograficamente bem. E mal.
A tela plana se partiu em milhões de pedaços. Continuei batendo nele até o teclado saltar, expondo a placa mãe e o HD. CRASH - mirei no HD e acertei com tudo que podia. Precisou de três porradas para o case se partir, expondo o interior frágil. Continuei até que não tivesse restado nada maior do que um isqueiro, então joguei tudo dentro de um saco de lixo. A platéia gritava loucamente - alto o bastante para eu ficar preocupado de que alguém longe dali pudesse ouvir e chamar a lei.
“OK! Agora se quiserem me acompanhar, vou até o mar e mergulhar isso em água salgada por dez minutos.”
A princípio ninguém se interessou, mas então Ange veio de trás e pegou meu braço com sua mão quente e disse no meu ouvido: “Isso foi lindo” e seguimos juntos para a praia.

O caminho até lá estava bem escuro e traiçoeiro, mesmo iluminado por nossas pequenas lanternas. Umas pedras lisas e pontudas que dificultavam nossa caminhada ainda mais carregando três quilos de componentes eletrônicos quebrados em um saco plástico. Quase caí e ia me machucar feio, mas ela me segurou com uma pegada surpreendentemente forte e me manteve firme de pé. Fui jogado contra ela, perto o bastante para sentir seu perfume, igual ao de um carro novo. Eu adorava este cheiro.
“Obrigado.” consegui dizer, encarando seus olhos enormes que pareciam ampliados ainda mais por seus óculos masculinos e pretos. Não conseguia saber de que cor eles eram no escuro, mas eu apostava que eram negros, baseado no seu cabelo negro e complexão azeitonada. Parecia mediterrânea, talvez grega, espanhola ou italiana.

Me curvei para mergulhar o saco na água salgada do mar, deixando se encher. Uma onda veio e ensopou meus sapatos e ela riu. Mal falávamos diante do mar. Tinha algo de mágico neste silêncio sem palavras.
Até aquele momento eu tinha beijado um total de três garotas em toda minha vida, sem contar aquela vez que voltei para a escola e fui recebido como um herói. Não era um número gigantesco, mas também não era pouco. Eu tinha um radar muito bom para garotas, e achei que deveria beijá-la. Ela não era UAU no sentido tradicional, mas tinha algo sobre ela e a noite e a praia, alem disso ela era esperta e entusiasmada e comprometida.

Mas eu não a beijei nem peguei sua mão. Ao invés disso, nós tivemos um instante que eu poderia chamar de “espiritual”. As ondas quebrando, a noite, o mar e as rochas e nossa respiração. O momento se prolongou. Eu suspirei. Tinha sido bem trabalhoso. Tinha muita coisa para fazer ainda esta noite, colocar todas as chaves no meu chaveiro, assiná-las e passar à frente as chaves assinadas. Dar o “start” na rede de confiança.
Ela suspirou também.
“Vamos embora” eu disse.
“Vamos” ela disse.
Voltamos. Tinha sido uma noite boa.

#

Jolu esperou que o amigo de seu irmão viesse pegar as geladeiras. Eu fui andando com o resto do pessoal pela estrada até o ponto de ônibus mais perto e subi a bordo. É claro que nenhum de nos estava usando um passe municipal original. Os Xnetters costumavam clonar os passes de outros, três ou quatro vezes por dia, assumindo nova identidade a cada viagem.

Era difícil ficar quieto no ônibus. Estávamos um pouco bêbados e nossas caras na luz do ônibus estavam hilárias. Falávamos um pouco alto e o motorista usou seu inter-comunicador para baixarmos a voz duas vezes então disse para calarmos a boca ou ele chamaria a polícia.
Isso nos fez rir bastante e acabamos desembarcando em massa antes que ele chamasse os policiais. Estávamos agora em North Beach e havia muitos ônibus, taxis, o BART da Rua do Mercado, clubes com suas luzes neon e cafés, para separar nosso grupo, então nos dispersamos.
Cheguei em casa,  liguei o Xbox e comecei a salvar as chaves da tela do meu telefone celular Era um trabalho chato e hipnótico. Estava um pouco bêbado e quase dormindo.

Estava prestes a cochilar quando uma janela nova do IM (Instant Messager) se abriu.
> Oi
Não reconheci o apelido -- spexgril -- mas tinha uma idéia de quem podia ser.
> Oi
Teclei cautelosamente.
> Sou eu, de hoje à noite
Então ela colou um bloco de cripto. Eu já tinha entrado sua chave pública no meu chaveiro, então fiz o client do IM tentar decodificar o código com a chave.
> Sou eu, de hoje à noite
Era ela!
> Legal te encontrar aqui
Teclei e criptografei para minha chave pública e enviei por correio
> Foi ótimo te encontrar.
Eu teclei
> Você também. Não conheço muitos garotos espertos que são também uma graça e tão sociais. Bom Deus, você não dá muita chance para uma garota.
Meu coração socava no peito.
 > Olaaaa? Tá ligado?  Não nasci aqui, pessoal, mas vou acabar morrendo aqui. Não esqueça de dar gorjeta ao garçom, eles trabalham duro. Estou aqui a semana toda.
Ri demais.
> Estou aqui, aqui. Rindo tanto que não consigo teclar.
> Ao menos meu humor-fu ainda funciona!
Hum.
> Foi realmente ótimo te conhecer.
> Sim, costuma ser. Para onde você vai me levar?
> Levar você?
> Na nossa próxima aventura.
> Não tenho nada planejado.
> Ok -- então eu vou te levar. Sexta. Dolores Park. Um concerto ilegal a céu aberto.
> O que?
> Não lê a Xnet? Está por toda parte. Já ouviu falar das Putas Velozes?
Quase sufoquei. Era a banda de Trudy Doo-- a mulher que pagou a Jolu para aprimorar o código da sua indienet.
> Sim. Já ouvi falar deles.
> Vão fazer um enorme show e vai ter tipo cinqüenta bandas lá nas quadras de tênis e vão trazer suas próprios amplificadores e o som vai rolar a noite inteira.

Senti como se eu vivesse debaixo de uma pedra. Como pude perder isso? Tinha uma livraria anarquista em Valencia que eu passava em frente às vezes quando ia para a escola e que tinha um pôster de um velho revolucionária chamada Emma Goldman com um titulo “Se eu não puder dançar, não quero fazer parte da sua revolução!” Tinha gasto todas minhas energias pensando em como usar o Xnet para organizar a luta contra o DHS, mas aquilo era muito mais legal. Um grande show - Não tinha idéia de como fazer um desses, mas eu ficava feliz que alguém o fizesse.

E agora que pensei nisso, eu estava orgulhoso pra caramba deles estarem usando a Xnet para isso.

#

No dia seguinte eu parecia um zumbi. Ange e eu tínhamos conversado/flertado, até as 4 da manhã. Felizmente para mim era sábado e pude dormir à vontade, mas entre a ressaca e o sono profundo, mal pude colocar duas idéias juntas.

Lá pelo almoço me levantei e fui para as ruas. Fui até o Turk para comprar meu café - nestes dias, se estava sozinho, eu sempre comprava meu café lá, como se o Turco e eu fizéssemos parte de algum clube secreto.
Pelo caminho passei por alguns grafites frescos; eu gostava dos grafites da Missão, grandes painéis atraentes, ou estênceis bem humorados dos estudantes de arte. Gostava dos caras poderem fazer isso bem debaixo do nariz da DHS. Era um outro tipo de Xnet, suponho - eles tinham tudo quanto é jeito de saber o que estava acontecendo, onde pintar, que câmeras estavam funcionando. Algumas câmeras tinham sido pintadas por spray, eu percebi.

Talvez usassem a Xnet!

Pintado em letras de cinco metros de altura, na parede ao lado do estacionamento estava escrito:
 ‘NÃO ACREDITE EM NINGUÉM COM MAIS DE 25’.

Parei. Será que alguém tinha saído da minha ‘festa’ na noite passada e vindo até ali com uma lata de tinta? Muitos viviam nesta vizinhança.

Dei uma volta pela cidade com meu café. Pensava se devia ligar alguém para ver se estavam a fim de ir ao cinema ou coisa parecida. Era quase sempre assim nos sábados. Mas quem chamar? Van não estava falando comigo. Não estava a fim de falar com Jolu e Darryl… bem, não podia ligar para Darryl.
Fui para casa e fiz alguma pesquisa nos blogs do Xnet. Estes blogs eram impossíveis de se rastrear - a não ser que o autor fosse estúpido demais de colocar seu nome nele - e tinha muitos assim. A maioria era apolítica, mas muitos não eram. Falavam sobre escolas e da falsidade das pessoas. Falavam sobre a polícia..
O show no parque estava sendo muito falado. O assunto pulava de um blog para outro, virando uma avalanche sem que eu percebesse. E o concerto se chamava ‘Não confie em ninguém com mais de 25.’
Bem, isso explicava de onde Ange tirara aquilo. Era um bom slogan.

#

Na segunda pela manhã eu decidi que queria dar uma checada naquela livraria anarquista de novo, ver se conseguia algum daqueles pôsteres de Emma Goldman. Precisava de uma lembrança.
Voltei à rua 16 e a Missão, no meu caminho da escola, e daí para Valencia. A loja estava fechada, mas peguei o horário de funcionamento e me certifiquei de que ainda tinham os pôsteres.
Andando pela Valencia, fiquei impressionado com a quantidade de coisas a respeito do ‘Não Confie em
Ninguém com mais de 25’. Metade das lojas tinham ao menos um produto na vitrine: Lancheiras, roupas, estojos, bonés. As lojas modernas estavam cada vez mais rápidas. Quando um meme surgia na rede, em um dia ou dois as lojas já colocavam o produto à venda. Bastava um vídeo engraçado de um cara no Youtube, de um cara voando com jatos feitos de propulsão de água com gás aparecer na sua caixa de entrada na segunda, para na terça você já poder comprar uma camisa com fotografias do vídeo.

Mas era incrível ver algo fazer a passagem do Xnet para as lojas. Jeans detonados com o slogan escrito com tinta imitando caneta escolar.
Boas notícias voam.

Estava escrito no quadro quando entrei na sala durante a aula de Estudos Sociais de Senhorita Galvez. Todos sentados em suas cadeiras, sorrindo. Parecia haver algo profundamente animador na idéia de que todos podiam confiar uns nos outros e que o inimigo poderia ser identificado. Eu sabia que não era completamente verdade, mas também não era inteiramente falso.
Senhorita Galvez veio ajeitando o cabelo e sentou-se à frente de seu computador escolar e o ligou. Então virou-se e viu o que estava escrito no quadro. Todos rimos. Bem espontâneos, mas rimos.
Quando se virou ela também ria. “Parece que a presunção pegou os escritores de slogan do país. Quantos de vocês sabem de onde esta frase veio?”

Olhamos uns para os outros. “Hippies.” disse alguém e nós rimos. Os hippies estavam por toda São Francisco, assim como os tipos meio doidos com barbas enormes e roupas tingidas e o tipo mais novo, menos mal vestido e que talvez jogasse mais fotbag, do que protestasse contra alguma coisa.
“Bem, Hippies, sim. Mas quando pensamos em hippies hoje em dia, pensamos somente na música e nas roupas. As roupas e a música foram incidentais para a maior parte daqueles daquela época, os anos 60. Vocês já ouviram falar dos movimentos dos direitos civis e o final da segregação, garotos brancos e negros pegando ônibus para o sul, para manifestar-se pelo voto negro e protestar contra o racismo oficial. A Califórnia era um dos lugares de onde vieram os líderes dos direitos civis. Sempre fomos um pouco mais políticos do que o resto do país e aqui foi um lugar onde os negros podiam conseguir empregos iguais aos brancos, um pouco melhor do que nossos amigos sulistas.”
“Os estudantes de Berkeley fizeram sua parte, nos campus de Bancroft e Telegraph Avenue. Vocês provavelmente já sabem. Bem, o campus tentou impedi-los. O presidente da Universidade baniu qualquer tipo de organização política no campus, mas os garotos dos direitos civis não pararam. A polícia tentou prender um deles e o colocaram detido num automóvel, mas 3000 estudantes cercaram a polícia e não a deixaram sair. Não iriam deixar o garoto ser colocado na prisão. Subiram no veículo e começaram a discursar sobre a Primeira Emenda e Liberdade de Expressão.”
“Aquilo gerou o movimento pelo direito à liberdade de expressão. Começou com os hippies, mas foi também do movimento estudantil radical que veio. Grupos pelo poder aos negros, como os Panteras Negras  e mais tarde dos direitos dos gays, como os Panteras Rosas também. Grupos radicais de mulheres, até separatistas lésbicas que queriam abolir os homens no geral!  E os Yippies. Alguém já ouviu falar dos Yippies?”
“Eles não levitaram o Pentágono?” falei. Tinha visto um documentário sobre isso.
Ela riu. “Tinha esquecido disso, mas sim, foram eles! Yippies eram hippies bastante políticos, mas não eram muito sérios do jeito que pensamos a política atual. Eram brincalhões. Atiravam dinheiro na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Cercaram o Pentágono com centenas de manifestantes e disseram que um feitiço mágico iria levitá-lo. Inventaram um tipo de LSD imaginário, que podia ser atirado por spray nas pessoas com armas de espirrar até ficarem chapados. Eram hilários e faziam grandes shows na televisão - um yippie chamado Wavy Gravy costumava colocar os manifestantes vestidos de Papai Noel para que as câmeras pudessem mostrar oficiais da polícia prendendo e arrastando o velho Noel no noticiário noturno - e mobilizava muita gente.”
“O grande momento deles foi durante a convenção democrática nacional de 1968, onde foram protestar contra a guerra do Vietnã. Milhares invadiram Chicago, dormindo em parques e fazendo piquete o dia inteiro. Levavam para as ruas uns troços bizarros naquele ano, como escolher um porco (pig) chamado Pigasus como candidato a presidência. A polícia e os manifestantes brigavam nas ruas, como já tinham feito antes, mas os policiais de Chicago não eram tão espertos ao ponto de deixarem os repórteres em paz. Bateram nos jornalistas e estes retaliaram mostrando o que acontecia de verdade nestes embates, o país todo pôde ver os garotos sendo espancados pela polícia de Chicago. Chamou-se de ‘Police riot’ (Baderna polícial)”
“Os Yippies gostavam de dizer ‘Não confie em ninguém com mais de 30’ Queriam dizer que as pessoas que tinham nascido antes de um certo tempo, quando a América tinha lutado contra os nazistas, não conseguiam entender o que significava amar seu país o bastante para se recusar a lutar contra os vietnamitas. Diziam que uma vez que se atingia os 30 anos, suas atitudes ficavam congeladas e que não podia entender o por que os jovens de hoje iam para as ruas, desertavam, piravam.”
“São Francisco foi o Marco Zero para eles. Exércitos revolucionários foram fundados aqui. Alguns explodiam prédios e roubavam bancos pela causa.  Alguns destes garotos crescerem para ser mais ou menos normais, enquanto outros acabaram na cadeia. Alguns daqueles caras da universidade que fugiram do alistamento fizeram coisas magníficas - por exemplo, Steve Jobs e Steve Wozniak, que fundaram a Apple Computadores e inventaram o PC.”

Eu estava ligado na coisa. Conhecia um pouco sobre aquilo, mas nunca tinha ouvido ninguém contar deste jeito. Ou talvez nunca me importasse tanto quanto agora. Subitamente, aquelas demonstrações de rua não pareciam tão estúpidas depois de tudo. Talvez tivesse algo para o tipo de ação do movimento Xnet.
Levantei a mão. “Eles venceram? Os Yippies venceram?”

Ela me olhou demoradamente e disse:
“Eles meio que se implodiram. Alguns foram presos por drogas e outras coisas. Outros mudaram e se tornaram yuppies e mudaram de lado, passando a dar palestras contando sobre como foram estúpidos, sobre como a ganância era boa e como eles tinham sido cegos.”
“Mas eles mudaram o mundo. A guerra no Vietnã acabou e aquele tipo de conformidade de obediência sem questionamento que chamavam de patriotismo ficou fora de moda totalmente. Direitos para os negros, mulheres e gays. Direitos para os chicanos, para pessoas deficientes, toda a tradição de liberdades civis foi criada ou fortalecida por esta gente. Os movimentos de protesto de hoje são diretamente descendentes daquelas lutas.”
“Não poso acreditar que esteja assim falando deles.” disse Charlie. Ele estava curvado em seu assento, meio sentado e seu rosto magro e afilado tinha ficado vermelho. E suado, olhos grandes e lábios grandes e excitado parecendo um pouco cm um peixe.
Senhorita Galvez fez-se ereta um pouco e disse; “Continue, Charlie.”
“Você acabou de descrever terroristas. Os terroristas de hoje. Eles explodiam prédios, como disse. Tentaram destruir nossa Bolsa de Valores. Batem em policiais e evitam que os policiais prendam quem está quebrando a lei. Eles nos atacaram!”

Senhorita Galvez assenti lentamente. Poderia dizer que ela estava tentando pensar como agir com Charlie, que parecia estar prestes a explodir.
“Charles levantou um ponto interessante. Os Yippies não eram estrangeiros, eram cidadãos Americanos. Quando diz que eles nos atacaram, precisa pensar em quem são ‘eles’ e ‘nós’. Quando são seus compatriotas...”
“Besteira!” ele gritou. Estava de pé. “Estamos em guerra com eles. Estes caras estão ajudando o inimigo. É fácil dizer quem somos nós e quem são eles: se você apóia a América, você é um de nós. Se você apóia as pessoas que atiram em Americanos, então é um deles.”
“Alguém mais quer comentar?”

Várias mãos se ergueram. Senhorita Galvez os chamou. Alguns disseram que a razão dos vietnamitas atirarem em Americanos era por que os Americanos se meteram no Vietnã e começaram a andar pelas selvas de lá com armas. Outros disseram que Charles tinha razão e que pessoas não deviam ser permitidas a fazer coisas ilegais.

Todos debatiam bem, exceto Charlie, que só sabia gritar e interromper quando eles tentavam colocar suas idéias. Senhorita Galvez tentava fazê-lo esperar por sua vez várias vezes, mas não estava conseguindo.
Eu procurava algo no meu computador escolar, algo que eu sabia ter lido.
Encontrei. E fiquei de pé. Senhorita Galvez parou, esperando. Os outros a imitaram e se calaram. Mesmo

Charlie olhou para mim depois de um tempo, seus olhos enormes e úmidos queimando e me odiando.
“Queria ler uma coisa.” Eu disse. “ É curto. Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que, se de alguma forma este se tornar destrutivo, é do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em tais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade.”
 


Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 11 [ Download ]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Seria “Avatar” de James Cameron, um plágio?




Um paraplégico que se conecta artificialmente com uma forma de vida artificial, criada somente com a missão de explorar um planeta hostil, deleita-se com a liberdade e a força de seu novo corpo, enquanto luta com predadores selvagens e, gradualmente, vai se tornando um nativo, na medida que passa mais tempo conectado.

Sinopse do mega-sucesso de bilheteria 'Avatar' ?

Não. Esta história chama-se 'Call me Joe', e foi escrita por Poul Anderson em 1957.

Não é a primeira vez que Cameron enfrenta acusações de plágio. Com 'O Exterminador do Futuro', o diretor foi obrigado a reconhecer (e dar crádito) que se utilizou das ideias de outro famoso escritor de FC, Harlan Ellison. Teria plagiado dois episódios seus, escritos para a série de televisão 'The Outer Limits'.

E se tanta coincidência entre o filme de Cameron e o livro de Anderson não fosse o bastante, o mesmo Anderson possui em sua obra, um livro chamado... Avatar. Já outros preferem apontar semelhanças entre o filme e uma série de quadrinhos da Marvel, intitulada Timespirits, ou com o filme de animação 'Delgo'.

Mas enquanto James Cameron não assume que deve a Poul Anderson ao menos o reconhecimento, que tal conhecer melhor 'Call me Joe', e tirar suas próprias conclusões?

Call me Joe - Poul Anderson [ Download ]





Starstream #4 - c/ a adaptação para quadrinhos do conto 'Call me Joe' de Poul Anderson [ Download ]





Lido no blog EbooksGratis

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Under The Dome - Stephen King




No final do ano de 1976, Stephen King desistia de um projeto (já com quase 80 páginas escritas) que batizara de 'Canibais'. Uma década depois, voltaria a tentar avançar no tema, agora renomeado 'Canibais sob o Domo', igualmente sem sucesso.

Segundo ele, desenvolver a ideia exigiria muito dele, e tinha medo de estragar a história, por preguiça ou falta de ânimo naquela época. As duas tentativas de escrever o que viria a ser depois 'Under the Dome', tinham em comum, explorar o comportamento de grupos, quando isolados do resto da sociedade.

Do antigo material perdido, sobrou apenas o primeiro capítulo, reescrito em detalhes por King apenas de lembrança.

A ideia que não saiu de sua cabeça, por mais de 20 anos era:  O que aconteceria se derrepente, um campo de força invisível isolasse uma pequena cidade por completo?

A cidade de Chester's Mill (população de cerca de 2.000 pessoas) é subitamente cortada do contato com o resto do mundo, por uma barreira invisível, impedindo que qualquer coisa, senão uma pequena quantidade de ar e vapor d'água, passe através dela.

Depois do "Dia do Domo", como é chamado o evento, a cidade rapidamente desmorona em anarquia, e uma guerra eclode entre a população, antes pacífica, agora paranóica, violenta e suicida.





"...the blood hits the wall like it always hits the wall."

Poucos escritores conseguem criar tantas histórias incríveis, a partir do 'O que aconteceria se...', tão bem quanto Stephen King, um hit maker da literatura.

Quem mais senão ele, pegaria uma situação implausível, um domo selando uma cidade inteira, e traria-a para a realidade, elaborando-a com detalhes e observações minuciosas, e criando ao final, a sensação de que aquilo não é assim tão improvável...

Repleto de referências de outros livros seus, 'Under the Dome' conta também com personagens facilmente identificaveis no imaginário de King, todos construídos de forma que nos faz quase jurar conhecê-los pessoalmente. Temos a ex-fuzileira vivendo de remorso e culpa, presa em um emprego miserável. O sujeito forte, mas que se vê fragilizado pelas circunstâncias, o ranzinza lunático-religioso-inescrupuloso, e é claro, não poderia faltar um menino, bastante sábio para sua pouca idade, e que enxerga com clareza a situação.    

'Under the Dome' tem a marca dos melhores trabalhos de King, podendo ser comparado a 'The Stand', pela forma que trabalha o imponderável, ou 'The Mist', pela situação claustrofóbica, porém de ambos, o que lembramos (e apreciamos), são os pequenos e sombrios segredos que emergem de seus personagens...

King não somente apresenta seu diorama de velhos arquétipos, mas revira a moralidade complexa dos dias atuais.  E faz tudo isso embalado em uma história de puro terror...


Nota: A DreamWorks TV (leia-se 'Steven Spielberg') adquiriu os direitos da adaptação do livro.

Nota2: O marketing viral para lançamento do livro, contou com a criação na internet, de sites sobre  Chester's Mill, como a Câmara de comércio e turismo da cidade, o restaurante, o jornal e o mercado.

Nota3: No início de janeiro de 2008, King declarou em uma entrevista que, 'seria responsável pela morte de muitas árvores em breve'. Este era seu jeito de dizer que o primeiro manuscrito de 'Under the Dome', pesava quase 9 quilos, e continha mais de duas mil páginas...

Under the Dome - Stephen King [ Download ]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

The Original Battlestar Galactica (5 livros)












The Original Battlestar Galactica (1-Battlestar Galactica, 2-The Cylon death machine, 3-Ressurrection, 4-Rebellion, 5-Paradis) [ Download ]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Prêmio Nebula



 Assim como o Hugo, o Nebula é um dos mais antigos e valiosos prêmios dentro do universo da FC e Fantasia em lingua inglesa.

Desde 1965, a Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA) premia com o Nebula, os melhores trabalhos de FC ou Fantasia, dentro das faixas:

Novel: 40.000 palavras ou mais
Novella: De 17.500 a 40.000
Novelette: De 7.500 a 17.500
Short story:  Menos de 7.500 palavras
Script: Roteiro para cinema, TV ou rádio ou peça.

Os membros do SFWA podem sugerir trabalhos publicados durante o ano e até aqueles do ano anterior, desde que não tenham sido indicados anteriormente, até 15 de novembro. Entre esta data e 15 de Fevereiro do ano seguinte, os membros escolhem 5 ou mais de cada categoria.
Os 6 mais votados de cada categoria vão para a cédula de votação final como indicados para receber os prêmios. A votação final se dá até o final de Março.

Durante a cerimônia de entrega, outros prêmios dados pela SFWA também são as vezes entregues, como o
Author Emeritus pela contribuição aos gêneros, o Damon Knight Memorial Grand Master Award pelo conjunto da obra, o Bradbury Award pela excelência na arte, e Andre Norton Award, pelo melhor trabalho para jovens em FC e/ou Fantasia. A partir de 2009, a SFWA também premia pessoas que tiveram alguma relevância na ficção especulativa, com o Solstice Award. Assim como o título de Grand Master, trata-se de uma homenagem póstuma.

A SFWA conta com, aproximadamente, 1.500 membros, a maioria vivendo nos EUA. Para fazer parte da associação é necessário que o autor(a) tenha sua obra publicada em inglês, pertencente aos gêneros Ficção Científica, Fantasia ou terror, e que pague uma anuidade que varia de 60 a 100 dólares, dependendo do tipo de afiliação.





Melhor romance (novel) por ano de premiação:

1965 - Dune de Frank Herbert    
1966 - Babel-17 de Samuel R. Delany e Flowers for Algernon de Daniel Keyes
1967 - The Einstein Intersection de Samuel R. Delany    
1968 - Rite of Passage de Alexei Panshin    
1969 - The Left Hand of Darkness de Ursula K. Le Guin    
1970 - Ringworld de Larry Niven    
1971 - A Time of Changes de Robert Silverberg    
1972 - The Gods Themselves de Isaac Asimov    
1973 - Rendezvous with Rama de Arthur C. Clarke    
1974 - The Dispossessed de Ursula K. Le Guin    
1975 - The Forever War de Joe Haldeman    
1976 - Man Plus de Frederik Pohl    
1977 - Gateway de Frederik Pohl    
1978 - Dreamsnake de Vonda McIntyre
1979 - The Fountains of Paradise de Arthur C. Clarke    
1980 - Timescape de Gregory Benford    
1981 - The Claw of the Conciliator de Gene Wolfe    
1982 - No Enemy But Time de Michael Bishop    
1983 - Startide Rising de David Brin
1984 - Neuromancer de William Gibson    
1985 - Ender's Game de Orson Scott Card    
1986 - Speaker for the Dead de Orson Scott Card    
1987 - The Falling Woman de Pat Murphy    
1988 - Falling Free deLois McMaster Bujold    
1989 - The Healer's War de Elizabeth Ann Scarborough    
1990 - Tehanu: The Last Book of Earthsea de Ursula K. Le Guin    
1991 - Stations of the Tide de Michael Swanwick    
1992 - Doomsday Book de Connie Willis    
1993 - Red Mars de Kim Stanley Robinson    
1994 - Moving Mars de Greg Bear    
1995 - The Terminal Experiment de Robert J. Sawyer    
1996 - Slow River de Nicola Griffith    
1997 - The Moon and the Sun de Vonda McIntyre    
1998 - Forever Peace de Joe Haldeman    
1999 - Parable of the Talents de Octavia E. Butler
2000 - Darwin's Radio de Greg Bear    
2001 - The Quantum Rose de Catherine Asaro    
2002 - American Gods de Neil Gaiman    
2003 - The Speed of Dark de Elizabeth Moon    
2004 - Paladin of Souls de Lois McMaster Bujold     
2005 - Camouflage de Joe Haldeman   
2006 - Seeker de Jack McDevitt    
2007 - The Yiddish Policemen's Union de Michael Chabon
2008 - Powers de Ursula K. Le Guin


Prêmio Nebula de melhor romance (1965-2008) [ Download ]

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Prêmio Hugo



Frequentemente você lê no Capacitor Fantástico, que este ou aquele autor de FC foi indicado, ou recebeu, um prêmio Hugo, mas você conhece a história deste respeitado prêmio, ou como são escolhidos os vencedores?

Desde 1953, (e a partir de 1955 anualmente) o Hugo Awards premia o melhor livro de Ficção Científica ou Fantasia, de cada ano, publicado em inglês no ano anterior. Atualmente não apenas livros, pois existem 15 categorias, que vão de fanzine a editor, passando por filme, peça de rádio, webzine, graphic story, etc.

O nome do prêmio é uma homenagem ao "Pai da FC", o editor da revista Amazing Stories, Hugo Gernsback, responsável tanto por levar a Ficção Científica para o grande público, quanto fomentar o interesse em se escrever este gênero nos EUA. 

O formato do troféu muda a cada ano, mas mantendo uma referência ao foguete cromado, do troféu original desenhado por Jack McKnight e Ben Jason, a partir de um ornamento comum para automóveis da década de 50.

Atualmente cabe ao World Science Fiction Society, a organização do prêmio. A WSFS também é  responsável pelas famosas convenções de FC e Fantasia (Worldcon), que ocorrem pelo mundo.

O processo de votação se dá da seguinte forma:

Entre Janeiro e Março, os participantes da Worldcon daquele ano (que pagam algo em torno de 50 dólares para participar), escolhem cinco pessoas ou trabalhos de destaque no ano anterior, distribuidas pelas 15 categorias. Aproximadamente mais de 500 indicados ao todo.

Em Abril é divulgada a lista dos finalistas (os cinco mais votados) de cada categoria, e a cédula para votação é enviada para os membros da WSDS daquele ano. Por volta de Julho (dependendo da época da Worldcon) sai o resultado, e é feita uma cerimônia para entrega dos troféus.

Embora não exista prêmio em dinheiro, receber um Hugo, além do prestígio, impulsiona as vendas e promove o autor mundialmente.




Os vencedores de melhor livro de cada ano:

1946 - The Mule, Isaac Asimov (atribuído em 1996)
1951 - Farmer in the Sky, Robert A. Heinlein (atribuído em 2001) 
1953 - The Demolished Man, Alfred Bester
1954 - Fahrenheit 451, Ray Bradbury (atribuído em 2004)
1955 - They'd Rather Be Right (The Forever Machine), Mark Clifton e Frank Riley
1956 - Double Star, Robert A. Heinlein
1958 - The Big Time, Fritz Leiber
1959 - A Case of Conscience, James Blish
1960 - Starship Troopers, Robert A. Heinlein
1961 - A Canticle for Leibowitz, Walter M. Miller, Jr.
1962 - Stranger in a Strange Land, Robert A. Heinlein
1963 - The Man in the High Castle, Philip K. Dick
1964 - "Here Gather the Stars" (Way Station), Clifford D. Simak
1965 - The Wanderer, Fritz Leiber
1966 - Dune, Frank Herbert e "…And Call Me Conrad" (This Immortal), Roger Zelazny
1967 - The Moon Is a Harsh Mistress, Robert A. Heinlein
1968 - Lord of Light, Roger Zelazny
1969 - Stand on Zanzibar, John Brunner
1970 - The Left Hand of Darkness, Ursula K. Le Guin
1971 - Ringworld, Larry Niven
1972 - To Your Scattered Bodies Go, Philip José Farmer
1973 - The Gods Themselves, Isaac Asimov
1974 - Rendezvous with Rama, Arthur C. Clarke
1975 - The Dispossessed, Ursula K. Le Guin
1976 - The Forever War, Joe Haldeman
1977 - Where Late the Sweet Birds Sang, Kate Wilhelm
1978 - Gateway, Frederik Pohl
1979 - Dreamsnake, Vonda N. McIntyre
1980 - The Fountains of Paradise, Arthur C. Clarke
1981 - The Snow Queen, Joan D. Vinge
1982 - Downbelow Station, C. J. Cherryh
1983 - Foundation's Edge, Isaac Asimov
1984 - Startide Rising, David Brin
1985 - Neuromancer, William Gibson
1986 - Ender's Game, Orson Scott Card
1987 - Speaker for the Dead, Orson Scott Card
1988 - The Uplift War, David Brin
1989 - Cyteen, C. J. Cherryh
1990 - Hyperion, Dan Simmons
1991 - The Vor Game, Lois McMaster Bujold
1992 - Barrayar, Lois McMaster Bujold
1993 - A Fire Upon the Deep, Vernor Vinge e Doomsday Book, Connie Willis
1994 - Green Mars, Kim Stanley Robinson
1995 - Mirror Dance, Lois McMaster Bujold
1996 - The Diamond Age, Neal Stephenson
1997 - Blue Mars, Kim Stanley Robinson
1998 - Forever Peace, Joe Haldeman
1999 - To Say Nothing of the Dog, Connie Willis
2000 - A Deepness in the Sky, Vernor Vinge
2001 - Harry Potter and the Goblet of Fire, J. K. Rowling
2002 - American Gods, Neil Gaiman
2003 - Hominids, Robert J. Sawyer
2004 - Paladin of Souls , Lois McMaster Bujold
2005 - Jonathan Strange & Mr Norrell, Susanna Clarke
2006 - Spin, Robert Charles Wilson
2007 - Rainbows End, Vernor Vinge
2008 - The Yiddish Policemen’s Union, Michael Chabon
2009 - The Graveyard Book, Neil Gaiman


Prêmio Hugo de melhor livro (1946-2009) [ Download ]

domingo, 3 de janeiro de 2010

Bruce Sterling




"...O povo da Ficção Científica precisa parar de se preocupar tanto com o passado ou o futuro remotos, e prestar mais atenção nos dias de hoje, na loucura desse nosso tempo. Escritores sérios precisam deixar um pouco estes mundos distantes, e partir para as ruas e pensar em um futuro em que as pessoas possam acreditar. Precisamos falar para uma nova audiência, não somente para o fã de FC, mas para as pessoas lá fora, para a população global, gente que está assistindo pela televisão, o antigo mundo se desintegrar, e que não sabem o que fazer com isso, o que pensar disso, ou mesmo como agir.

Precisamos ir além de simplesmente usar o exótico como modelo de nossas fantasias, precisamos encontrar um interesse comum para as questões globais. Primeiro que tudo, precisamos tratar de traduzir nosso trabalho para outros idiomas, precisamos ir além daquilo que de nós é esperado, além dos parâmetros de publicação e marketing nacionais.

Precisamos disso para entrar em contato. Os muros, as barreiras, estão caindo por todo mundo.
Precisamos aproveitar para aprender, aprender com e sobre outras pessoas. 

A Ficção Científica tem a vantagem de possuir um (limitado) apelo internacional.
Se não fizermos um esforço, uma tentativa séria para entender e tentar "modelar" este futuro - um futuro verdadeiro - começando já, então, sendo totalmente honesto, deveríamos abandonar a Ficção Científica como um gênero. Não deveríamos tentar continuar com esta coisa, se formos abandonar o que é de direito e de nascença, seu clamor intelectual legítimo.

Existem outras formas de se escrever ficção que valha a pena ser lida, para quem procura diversão e simples escapismo, mas a Ficção Científica deveria servir para algo mais.

E ela poderia abraçar este desafio. Não seria tão difícil. Apesar de sua origem humilde, a FC já passou por coisa bem pior no passado e sobreviveu. Podemos ser loucos, mas não somos estúpidos.

Vamos deixar o lugar confortável, vamos correr grandes riscos e cometer erros de verdade, profetizar e nos expor ao ridículo, somos escritores de Ficção Científica, este é o nosso maldito trabalho.

Ao menos poderemos dormir sossegados, pela pureza de nossas intenções." 



Trecho de 'Shinkansen', incluso em FC, hackers, política, ciberpunks em 50 textos

Bruce Sterling ( The Agberg Ideology, Artificial Life, Buckymania, Creation Science, Digital dolphins in the dance od biz, Gurp's Labour Lost, Internet, Magic Vision, Midnight on the Rue Jules Verne, My Rihla, Outer cyberspace, Shinkansen, Slipstream, The spearhead of Cognition, A statement of principle, Superglue, Updike's Version, Bicycle repairman, Crystal express, Distraction, Heavy Weather, In Paradise, Islands in the Net, Luciferase, Our Neural Chernobyl, Sneaking for Jesus 2001, The hacker crackdown, The interoperation, The littlesr jackal, The wonderful power of storytelling, Think of the prestige, Mozart in Mirrorshades ) [ Download ]