quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Smack Jeeves Webcomic hosting
Postado por
Capacitor Fantástico
às
00:00
Tag: Desenho, Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Sites
terça-feira, 10 de novembro de 2009
William Shatner Star Trek memories
Talvez o documentário mais interessante já feito sobre a série original.
William 'Kirk' Shatner em 60 minutos, faz aquilo que mais gosta, falar sobre si mesmo...
e um pouco também sobre os bastidores de Star Trek.
Obrigatório para fãs, mais obrigatório ainda para quem não gosta tanto assim da famosa série.
Shatner revela aspectos 'picantes' e acentua aqueles politicamente corretos, a preocupação em passar certas mensagens e 'entrega' atores e roteiristas, mas poupa os fãs mais apaixonados de suas (controversas) interpretações sobre os episódios.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Ikarie XB 1
Pouco conhecido mas fonte de inspiração para filmes clássicos da ficção científica como 2001, o tcheco Ikarie XB1 ou Icarus XB1 ou Voyage to the end of the universe, de 1963, narra a missão da gigantesca nave Ikaria XB1, em sua viagem ao sistema estelar Alpha Centauri, (100 anos no futuro, 2163).
É possível assistir neste filme, muito sofisticado em comparação aos filmes americanos deste mesmo período, discussões sobre dilatação do tempo, protocolos de contato com formas de vida alienígenas, ciência da longevidade, inteligência artificial, robôs socialistas...
Baseado no romance "Magellan Cloud" de Stanislav Lem (mesmo autor de Solaris).
Ikarie XB1 (uncut) [ Download torrent ]
domingo, 8 de novembro de 2009
Jeronymo Monteiro
Jeronimo Monteiro (1908 - 1970), paulista, é conhecido como o pai da ficção científica brasileira.
Jeronimo (ou Jeronymo), começou a ficar conhecido através de seu romance policial, 'O colecionador de mãos' (nos anos 30), assinando com o pseudônimo Ronnie Wells. A partir daí se iniciaria uma série de livros de ação (com pitadas de FC), com as aventuras do investigador Dick Peter em Nova Iorque, e que o levaria posteriormente a ganhar um programa na Rádio Difusora, em 1937. A ótima repercussão de suas rádio-novelas, logo lhe presenteariam com a direção e produção de programas semelhantes, nas rádios Cosmo e América.
A partir de 1947, Monteiro publicou uma série de romances de FC e editou uma antologia: “O Conto Fantástico”, Civilização Brasileira, 1959.
Homem de muitos talentos, Jerônimo foi o primeiro editor da revista O Pato Donald (Editora Abril). Traduzia os quadrinhos de Walt Disney, inventando nomes de personagens que ficaram famosos, como Tio Patinhas e Huguinho, Zezinho e Luizinho, entre outros.
Em 1964 fundou a Sociedade Brasileira de Ficção Científica, que reunia escritores como André Carneiro e Rubens Teixeira Scavone. No início da década de 1970, tornou-se editor do Magazine de Ficção Científica, edição brasileira do The Magazine of Fantasy and Science Fiction.
Através de sua coluna no jornal Tribuna de Santos, Monteiro divulgava o gênero, e talvez esta tenha sido sua contribuição mais importante para a FC nacional, sua luta incessante pela 'profissionalização' da FC e pelo distanciamento dos modelos importados do estrangeiro.
Quando publicou 'A Cidade Perdida', em 1948, Monteiro não era um novato, nem nas letras, nem no gênero literário que o consagrou. No volume constam, como “obras do mesmo autor”: o País das Fadas [1930 - Cia. Melhoramentos de São Paulo], O Irmão do Diabo (narrativa da aventura de Walter Baron) [1937 - Cia. Editora Nacional], O Homem da Perna-Só [1943 - Anchieta Editora], O Tesouro do Perneta [1943 -Anchieta Editora], A Ilha do Mistério [1943 - Anchieta Editora], Os azi na Ilha do Mistério [1943 - Anchieta Editora], O Palácio Subterrâneo nas Antilhas [1943 -Anchieta Editora] e 3 Meses no Século 81 [1947 - Livraria do Globo].
(...)
Marco A. M. Bourguignon, em Um Pequeno Resgate da História da Ficção Científica Brasileira [www.scarium.com.br/artigos/hfc.html], registra:
“Foi com o paulista Jeronymo Monteiro (1908-1970) que a “ficção científica brasileira” passou a existir como universo literário à parte da literatura, criando regras e métodos próprios, além de formar um público específico. Em 1947, Monteiro publicou, “Três Meses no Século 81” e, em 1948, “A Cidade Perdida”. Antes disso, até o final da década de 30, não existia no Brasil um movimento literário em prol da ficção científica, envolvendo escritores e leitores. Antes havia surgido alguns textos casuais de autores da literatura, como: Gastão Cruls, Menotti del Picchia, Érico Veríssimo, Adazira Bittencourt e Monteiro Lobato. Mas ainda não havia uma tradição literária em ficção científica. Eram apenas ambientados em universos remotos habitados por seres fantásticos além, é claro, de ambientes utópicos e de aventuras.”
Seu último trabalho, publicado na época do AI-5, seria uma coletânea de contos de FC sob o sugestivo título de 'Tangentes da realidade'.
Na década de 90, foi criado em sua homenagem, o Prêmio Jeronymo Monteiro, pela edição brasileira da revista Asimov's Science Fiction.
Fontes: Teotonio Simões eBooksBrasil , UniversoHQ, Fábio Fernandes.
A Cidade Perdida - Jeronymo Monteiro [ Download ] - Edição comemorativa (eBook)
sábado, 7 de novembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 2
CAPÍTULO 2
Este capítulo é dedicado à Amazon.com, o maior site de vendas de livros pela internet do mundo.
A Amazon é uma loja fantástica onde você pode conseguir praticamente qualquer livro já publicado (e tudo mais, desde laptops até grelhas), onde as recomendações foram levadas ao seu ponto mais alto, eles permitem que os clientes se comuniquem diretamente com outros clientes, e constantemente inventam novas e melhores maneiras de conectar livros e leitores. A Amazon sempre me tratou como ouro - o fundador, Jeff Bezos, até colocou uma nota sua em uma revisão para meu primeiro romance - e eu compro neles adoidado (olhando minha lista de compras, parece que eu compro algo lá a cada seis dias, aproximadamente.).
A Amazon reinventou o processo de venda de livros no século vinte e não consigo pensar em um grupo melhor de pessoas para encarar esta espinhosa tarefa.
“Estou pensando em estudar física quando for para Berkeley” disse Darryl. Seu pai ensinava na Universidade da Califórnia em Berkeley,o que significa que ele ganharia uma bolsa de estudos quando fosse para lá. E nunca houve nenhuma dúvida na família de Darryl sobre em que faculdade ele iria estudar.
“Legal, mas você não podia pesquisar online?”
“Meu pai disse que eu deveria ler este livro. Além disso, eu não planejei cometer nenhum crime hoje.”
“Escapar da escola não é crime. É uma infração. São coisas totalmente diferentes.”
“Marcus, o que vamos fazer?”
“Bem, se eu não consigo esconder o livro, então vou precisar detoná-lo!”
Matar arphids era uma arte pouco conhecida. Nenhum comerciante queria que fregueses maliciosos andassem pelo shopping deixando para trás um monte de mercadorias lobotomizadas sem seu código em barra invisível, então a indústria havia se recusado a criar um ‘sinal assassino’, com o qual você poderia desligar um arphid. Com a ferramenta certa era possível reprogramá-lo, mas eu odiava fazer isso com os livros da biblioteca. Não era como arrancar páginas de um livro, mas ainda assim era ruim, pois um livro com o arphid reprogramado não poderia voltar à biblioteca, pois não poderia ser mais encontrado. Seria como transformá-lo numa agulha em um palheiro.
Aquela situação só me deixou com uma saída: detonar a coisa. Literalmente, 30 segundos em um forno de microondas acabariam com qualquer arphid no mercado. Como o arphid não responderia quando fosse checado de volta na biblioteca, então eles simplesmente mandariam imprimir um novo para o livro, o recodificariam no catálogo informativo de livros e ele voltaria para as prateleiras.
Tudo que precisávamos era de um forno de microondas.
“Espere uns dois minutos e a sala dos professores estará vazia”, eu disse.
Darryl agarrou o livro e seguiu para a porta: “Esqueça, nem pensar. Vou para a aula.”
Agarrei-o pelo ombro, forçando-o a ficar. “Vamos lá D, calma. Vai dar tudo certo!”
“A sala dos professores? Se liga, Marcus. Se me pegarem mais uma vez, sou expulso. Me ouviu? Expulso.”
“Não vão te pegar!”, eu disse. Se havia um lugar onde você não acharia um professor era a sala dos professores.
“Vamos lá na volta.” A sala tinha uma pequena cozinha em um dos lados, com sua entrada particular para aqueles que queriam apenas pegar uma xícara de café. O forno de microondas - que cheirava a pipoca e sopa pronta - ficava em cima de um frigobar.
Darryl suspirou e eu pensei rápido: “Olha, o sinal já vai tocar. Se você for para a sala de estudo agora, vai perder o barco. Melhor não aparecer por aí. Posso entrar e sair de qualquer sala no campus, Darryl. Você sabe que eu posso. Vou te proteger!”
Ele suspirou de novo. Esta era uma das “dicas” de Darryl: sempre que ele começava a suspirar,estava prestes a concordar.
“Simbora”, disse, e saímos
Foi perfeito. Passamos pelas salas, pegamos as escadas dos fundos para o porão e saímos pelas escadas da frente bem diante da sala dos professores. Nenhum som vinha de trás da porta; eu girei a maçaneta e empurrei Darryl para dentro antes de fechar a porta.
O livro coube direitinho dentro do microondas, que parecia mais sujo do que da ultima vez. Eu costumava vir ali para usá-lo. Cuidadosamente, embrulhei o livro em papel toalha antes de colocá-lo dentro. “Cara, estes professores são uns porcos”, falei.
Darryl, pálido e tenso, nada disse.
O arphid morreu soltando fagulhas, o que foi muito legal (Não tanto quanto o efeito que conseguimos quando se aquece um cacho de uvas congelado, que era algo realmente inacreditável.)
Agora podíamos escapar do campus em perfeito anonimato.
Darryl abriu a porta e saiu, comigo em seus calcanhares. Um segundo depois ele pisava meus tênis, me empurrando com os cotovelos, de volta para a pequena cozinha de onde tínhamos acabado de sair.
‘Volta, rápido! É o Charles!’ Sussurrou nervoso.
Charles Walker.
Estávamos na mesma série e eu o conhecia há tanto tempo quanto Darryl, mas as semelhanças acabavam por aí. Charles sempre fora grande para a sua idade, e agora que estava jogando futebol americano, ficara ainda maior. Ele tinha problemas sérios de controle de raiva: graças a ele, eu perdi um dente de leite na terceira série. Ele conseguia escapar das punições sendo o maior dedo duro da escola.
Era uma péssima combinação: um brigão que era também alcagüete, que tinha um enorme prazer em levar aos professores qualquer infração que encontrasse. Benson amava Charles. Charles havia deixado transparecer que tinha algum tipo de problema na bexiga, o que dava a ele a licença para andar pelos corredores da Chávez, durante as aulas, procurando alguém que pudesse delatar.
A última vez que Charles me arranjara problemas, tinha terminado comigo desistindo de uma partida de LARP. Não tinha a intenção de deixar que ele me pegasse de novo.
“O que ele está fazendo?”
“Ele está vindo para cá, é o que está fazendo.” Darryl disse tremendo.
“OK, tá na hora de contramedidas de emergência.” Peguei meu telefone. Tinha planejado isso com antecedência. Charles nunca me pegaria de novo. Passei um email para o servidor de casa e ele começou a agir. Segundos depois o telefone de Charles zuniu espetacularmente. Eu tinha toneladas de chamadas simultâneas aleatórias e mensagens de texto prontas para serem enviadas, causando gorjeios e trinares o bastante para obrigá-lo a desligar e continuar desligando sem parar. O ataque era acompanhado de um botnet, o que fazia com que me sentisse mal, mas era por uma boa causa.
Botnets infectaram computadores por toda a vida. Quando você pega um worm ou um vírus, seu computador manda uma mensagem para um canal de chat de IRC (Internet Relay Chat). A mensagem diz ao botmaster - o cara que soltou o vírus - que o computador está pronto para ser invadido por ele.
Botnets são extremamente poderosos, pois podem comprometer milhares e até centenas de milhares de computadores, espalhando-se por toda internet, pegando as conexões de banda-larga mais apetitosas nos PCs caseiros mais potentes. Estes PCs normalmente funcionam de acordo com a vontade de seus donos, mas quando um botmaster os aciona, eles surgem como zumbis prontos para obedecer a suas ordens.
Haviam tantos PCs infectados na internet, que o preço de usar seus serviços por uma hora ou duas em uma botnet caiu. A maioria destas coisas trabalhava para aqueles que espalhavam spam, distribuindo spambots e enchendo sua caixa de entrada de correio com anúncios de pílulas para os ossos ou novos vírus que podem te infectar e recrutar sua máquina para juntar-se à botnet.
Eu usei apenas 10 segundos do tempo de três mil PCs, ordenando que cada um mandasse uma mensagem de texto ou chamada de voz para o telefone de Charles, cujo número eu tirara de uma caderneta de notas fedorenta da mesa de Benson, durante uma visita infeliz ao seu escritório.
Não é preciso dizer que o telefone de Charles não estava equipado para lidar com isso. Primeiro a memória de seu telefone encheu-se de SMSes (torpedos), o que causou o acionamento das rotinas de operação que precisavam fazer coisas como controlar a campainha e registrar cada um dos números de retorno das chamadas fictícias (você sabe que é muito fácil gerar um número de retorno falso em uma chamada? Existem umas cinqüenta maneiras de se fazer isso - procure no Google ‘SPOOF CALLER ID’)
Charles parou embasbacado e passou a bater furioso no aparelho. Suas sobrancelhas finas se mexiam e contorciam como se estivesse lutando contra demônios que haviam se apoderado do seu aparelho mais querido. O plano estava funcionando bem, mas ele não estava fazendo o que eu achava que iria fazer em seguida - supostamente ele deveria ir para algum lugar se sentar e tentar consertar seu telefone.
Darryl bateu no meu ombro e eu me afastei da brecha aberta da porta.
“O que ele está fazendo?” Perguntou Darryl sussurrando.
“Eu zoei com o telefone dele, mas ele está só parado lá, ao invés de ir embora.” Não seria fácil colocar aquela coisa para funcionar de novo. Uma vez que sua memória estivesse completamente cheia, seria difícil recuperar o código para apagar as mensagens falsas e não havia jeito fácil de apagar as mensagens de texto naquele aparelho, o jeito era apagar uma por uma de milhares de mensagens.
Darryl assumiu meu lugar na porta, espiando pela brecha. Um segundo depois seus ombros começaram a tremer. Fiquei assustado imaginando que ele estava entrando em pânico; mas quando ele se voltou, vi que estava rindo tanto que lágrimas corriam em suas bochechas.
“Galvez acabou de ferrá-lo por ficar no corredor durante sua aula. Ela estava adorando”.
Apertamos as mãos solenemente e voltamos para o corredor, direto para as escadas, dando a volta e seguindo pela porta dos fundos, passando a cerca e saindo em direção ao sol maravilhoso naquela tarde na Missão. A rua Valencia nunca me pareceu tão linda. Olhei meu relógio e gritei:
‘Vambora! O resto da galera vai nos encontrar em vinte minutos.’
#
Van nos reconheceu primeiro. Ela estava no meio de um grupo de turistas coreanos, que era uma das suas maneiras prediletas de se camuflar quando fugia da escola. Desde que o monitoramento da cabulagem se tornou parte da internet, nosso mundo é cheio de donos de lojas intrometidos e xeretas que se encarregam de nos delatar na rede para os administradores escolares.
Ela saiu da multidão e se juntou ao bando. Darryl tinha uma queda por Van desde sempre, e ela era doce o bastante para fingir que não sabia disso. Ela me abraçou e foi em direção a Darryl, lhe dando um rápido beijo fraternal no rosto que o fez ficar vermelho até as orelhas.
Os dois faziam uma dupla engraçada. Darryl era um pouquinho gordo, mas nada demais, e ficava vermelho a cada vez que ficava excitado. Tinha barba desde 14 anos, mas graças a Deus ele começou a se barbear após um breve período chamado por nós de “Os anos Lincoln”. E ele era alto. Muito, muito alto. Alto como um jogador de basquete.
Van era quase meia cabeça mais baixa do que eu, magra com cabelos compridos negros elaboradamente loucos, cheios de tranças em penteados que ela pesquisava na rede. Sua pele era ligeiramente bronzeada, olhos negros e ela adorava anéis de vidro imensos, do tamanho de rabanetes, que faziam barulho quando ela dançava.
‘Cadê Jolu?’ Perguntou.
‘Como vai Van?’ Perguntou Darryl com uma voz esganada. Ele sempre estava um passo atrás na conversa, quando Van estava perto.
‘Tô legal D. Como vai o seu mundinho?’
Ohhh, ela era malvada, malvada mesmo. Darryl quase desmaiou.
Jolu o salvou de uma desgraça social prestes a ocorrer. Apareceu usando uma jaqueta de basquetebol vários números maior que o seu, tênis bacanas e um boné do seu lutador mascarado mexicano predileto. El Santo Junior, virado ao contrário. Jolu se chamava Jose Luis Torrez, e completava o quarteto. Ele vinha de uma escola católica super-restrita em Outer Richmond, então não tinha sido fácil escapar de lá. Mas ele sempre conseguia. Ninguém era tão bom em escapar da escola como nosso Jolu. Ele gostava da jaqueta, pois o fazia passar por gente comum - além de parecer estilosa em certas partes da cidade - e escondia seu uniforme escolar, que seria um alerta para os idiotas xeretas que tinham o número do serviço de caça-gazeteiros armazenado em seus telefones.
“Quem está pronto para ir?” perguntei e todos disseram ok.
Tirei o meu telefone e mostrei o mapa que eu havia baixado no BART.
“Assim que eu puder agir, voltamos para o Nikko e vamos ao O’Farrel, e seguimos pela esquerda até Van Ness. Lá, em algum lugar, vamos encontrar o sinal wireless.”
Van fez uma careta. “É uma parte asquerosa de Tenderloin.”
Eu não podia argumentar com ela. Aquela área de São Francisco era das mais nojentas - você vai para a entrada da frente do Hilton e encontra aquela coisa pra turista, como as estações finais dos bondes e restaurantes familiares. Na direção contrária vai parar no Loin, para onde vão todos os travestis e prostitutas, cafetões casca-grossa, vendedores de drogas e onde todos os sem-teto da cidade se concentram. Nenhum de nós tinha idade o bastante para fazer parte do que eles vendiam e compravam, apesar de haver várias prostitutas adolescentes batalhando em seus negócios pelo Loin.
“Olhe pelo lado positivo. A única vez que você precisa ir naquelas bandas é à luz do sol. Nenhum dos outros jogadores chegará perto de lá até amanhã de manhã. Isso, em termos de ARG, se chama uma vantagem inicial monstruosa.”
Jolu riu. “Você faz isso parecer como boa coisa.” Ele disse.
“Estamos nessa juntos”, eu disse.
“Vamos ficar falando ou vamos vencer?” disse Van. Depois de mim, ela era a jogadora mais durona do nosso grupo. Leva a sério a coisa de vencer.
Saímos dali, quatro bons amigos, em seu caminho para decodificar uma pista, ganhar o jogo - e perder para sempre tudo aquilo que estimávamos.
#
O componente físico da pista de hoje era um grupo de coordenadas de GPS - haviam coordenadas para a maioria das grandes cidades onde HFM era jogado - onde encontraríamos um ponto com acesso ao sinal de WiFi. Aquele sinal estava sendo deliberadamente interferido por outro ponto de WiFi próximo, que estava escondido de maneira a não poder ser encontrado por buscadores de WiFi convencionais, pequenos o bastante para pendurar num chaveiro, e que diziam quando você estava dentro do alcance de um ponto de acesso aberto para uso gratuito.
Nós tínhamos que rastrear a localização do ponto de acesso escondido medindo a força da interferência sobre aquele ‘visível’, encontrando o ponto onde ele misteriosamente ‘enfraquecia’. Lá acharíamos outra pista - a última vez tinha sido um dia de graça no Anzu, o pretensioso restaurante de Sushi no hotel Nikko em Tenderloin. O Nikko pertencia à Japan Airlines, um dos patrocinadores da Harajuku Fun Madness, e o staff fez uma tremenda confusão conosco quando nós finalmente encontramos a pista. Deram-nos tigelas e mais tigelas de miso (sopa) e nos fizeram provar uni, que era sushi feito de ouriço do mar, que tinha textura de queijo derretido e um cheiro de cocô de cachorro. Mas o gosto era bom. Foi o que o Darryl me disse: eu não comeria aquela porcaria de jeito nenhum.
Encontrei o sinal do WiFi com o buscador de WiFi do meu telefone, três quadras subindo a O’Farrel, logo antes da rua Hyde, em frente ao suspeito Salão de Massagem Asiático, que tinha um sinal luminoso vermelho piscando “FECHADO” na janela. O nome da rede era HarajukuFM, então sabíamos que estávamos no caminho certo.
“Se estiver lá dentro, eu não vou entrar” disse Darryl.
“Vocês estão com seus varredores de WiFi?” eu perguntei.
Darryl e Van tinham eles internos aos telefones, enquanto Jolu, que era chique demais para carregar um telefone maior do que seu dedo mindinho, tinha um pequeno buscador direcional no chaveiro.
‘Ok, vamos entrar e ver o que achamos. Estamos procurando uma queda abrupta de sinal, que fica pior à medida que nos aproximamos.’
Dei um passo para trás e acabei pisando no pé de alguém. Uma voz feminina disse “cai fora” e me virei com medo de alguma viciada me esfaquear por ter quebrado seus saltos.
Ao invés disso dei de cara com alguém da minha idade. Ela tinha os cabelos cor-de-rosa-choque e uma cara de roedor, com enormes óculos de sol, que eram praticamente óculos de pilotos da força aérea. Vestia tiras rasgadas sobre um vestido preto vovozinha, decorado por montes de pequenos brinquedos de personagens de anime (desenho animado japonês) presos por alfinetes, velhos lideres mundiais e emblemas de Soda-pop estrangeiros.
Levantou a câmera e tirou uma foto minha e da turma.
“Sorria!” ela disse. “Você está no Candid Xereta Câmera.”
“Nem vem!” eu disse. “Você não vai...”
“Eu vou.” ela disse. “Vou mandar esta foto para o Caça-Gazeteiros em trinta segundos, a menos que vocês três larguem esta pista e deixem que eu e meus amigos continuemos daqui. Podem voltar em uma hora e ela será toda sua. Acho mais do que justo.”
Olhei para trás e vi outras três meninas no mesmo estilo - uma de cabelo azul, outra verde e outra púrpura. “Quem vocês pensam que são? O esquadrão Quatro-sabores?”
“Somos o time que irá chutar o traseiro do seu time no Harajuku Fun Madness” ela disse. “E eu sou aquela que está prestes a lhe trazer muitos problemas...”
Atrás de mim senti Van começar a recuar. Sua escola apenas para meninas era notória pelas brigas e eu tinha certeza de que ela estava prestes a partir para cima da guria.
Então, o mundo mudou para sempre.
Sentimos primeiro aquele movimento do cimento sob nossos pés, que todo californiano conhece instintivamente - terremoto. Minha primeira idéia, como sempre, foi a de fugir: “Quando estiver em apuros, corra e grite.” Mas o fato era que nós já nos encontrávamos no lugar mais seguro possível: não estávamos dentro de um prédio que poderia desabar, ou no meio da rua onde estilhaços poderiam nos atingir.
Terremotos são assustadoramente silenciosos - pelo menos a principio - mas este não. Foi alto, um inacreditável rugido mais alto do que qualquer coisa que eu tivesse ouvido antes.Tão doloroso que me fez cair de joelhos - e não fui o único.Darryl bateu no meu braço e apontou para os prédios e vimos uma gigantesca nuvem escura vindo da região nordeste, da baía.
Houve outro trovão e a nuvem nos alcançou, aquela coisa escura que crescemos vendo em filmes. Ouvimos mais trovões e sentimos mais tremores. Cabeças apareceram nas janelas por toda rua.
Olhávamos em silêncio para a nuvem em forma de cogumelo. Então começaram as sirenes.
Já tinha ouvido sirenes assim antes - eles testavam as sirenes da defesa civil nas tardes de terça. Mas só tinha ouvido sirenes fora de hora em filmes antigos sobre a guerra e em vídeo games, quando alguém está bombardeando do alto outro jogador. Sirenes de ataque aéreo. Aquele som woooooo fez tudo menos real.
“Sigam imediatamente para os abrigos.” Foi como a voz de Deus vindo de todas as partes. Havia alto-falantes em postes, algo que eu nunca tinha reparado, e todos foram acionados ao mesmo tempo.
“Sigam imediatamente para os abrigos.”
Abrigos? Olhávamos confusos uns para os outros. Que abrigos? A nuvem se expandia. Seria nuclear? Será que estávamos respirando pela ultima vez?
A garota de cabelo rosa agarrou suas amigas e partiu correndo rua abaixo de volta para a estação BART ao pé das colinas.
“SIGAM IMEDIATAMENTE PARA OS ABRIGOS.” Agora os alto-falantes berravam e um monte de turistas passou correndo. Você sempre pode identificar os turistas, aqueles que pensam CALIFÓRNIA = CALOR e passam seus feriados em São Francisco congelando em seus shorts e camisetas, correndo em todas as direções.
“Vamos embora!” Daryl gritou em meu ouvido, um pouco mais audível do que as sirenes, que se juntavam as tradicionais sirenes da polícia. Uma dúzia de carros da polícia local passou gritando por nós.
“SIGAM IMEDIATAMENTE PARA OS ABRIGOS.”
“Vamos para a estação BART” gritei. Meus amigos concordaram. Corremos.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 2 [ Download ]
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
Andre Norton
Alice Mary Norton (17 de Fevereiro de 1912 – 17 de Março de 2005) nasceu em Cleveland, Ohio (EUA).
Quando jovem, Alice teve uma educação recheada de livros, sendo sua mãe sua maior incentivadora a aprender a ler, mesmo antes da alfabetização na escola.
Aos 22 anos, ainda estudante de história, escreveu seu primeiro romance, copiando o estilo fantástico de Ruth Plumly, e decidiu que adotaria o nome Andre (Alice) Norton, pois acreditava que um nome masculino lhe daria mais credibilidade. Infelizmente teve que largar os estudos, para ajudar nas despesas de casa. Arranjou um emprego como assistente de biblioteca, onde trabalhou por 18 anos, sempre em seções voltadas para o público infanto-juvenil. Trabalhava de dia e por um tempo estudou jornalismo à noite.
Mais tarde diria a um biógrafo que, apesar de ter trabalho nesta função grande parte de sua vida (antes de se tornar escritora em tempo integral), não gostava do que fazia, mas era útil para entender melhor o gosto do público leitor... E também não haviam tantos empregos disponíveis durante a Grande Depressão.
Em 1941 Andre foi proprietária de uma livraria chamada Mystery House, em Maryland, mas que iria a falência pouco tempo depois. Trabalhou como assistente na biblioteca do Congresso, porém foi demitida com o agravamento da Segunda Grande Guerra. Trabalhou na Gnome Press por oito anos antes de tornar-se escritora em tempo integral.
Seu estilo era limpo e simples, não se detinha em análises do mundo exterior, mas era capaz de construir personagens cativantes e arrebatadores.
Apesar de sua narrativa econômica, 'The Lady', como era chamada pelos seus fãs, era capaz de alcançar o coração de seus leitores como ninguém mais. Estes leitores diziam que ler Andre Norton era como descobrir uma porta secreta para outro mundo. Um mundo belo e diferente, sem violência e sem a pobreza.
Alice era capaz de criar uma tensão genuína e manter o conteúdo dramático sempre em primeiro lugar. O passado e a natureza, eram elementos importantes em muitas de suas histórias, todas meticulosamente criadas a partir de suas pesquisas.
Apesar de sua versatilidade, Andre Alice Norton ficou mais conhecida pela sua obra no gênero Fantasia.
Em particular pela sua série Witch World, que foi indicada em 1963 para o prêmio Hugo, pelo livro do mesmo nome. Este livro obteve um sucesso tão inesperado, que seu editor a convenceu a escrever uma continuação para ele. Mal sabia que este encorajamento iria gerar uma série de 35 livros.
Alice foi a primeira mulher a receber o prêmio Gandalf Grand Master Award pela World Science Fiction Society em 1977, além do Damon Knight Memorial Grand Master Award e o Nebula Grand Master. Praticamente ganhou todos os maiores prêmios de Fantasia em lingua inglesa.
Conhecida como 'A grande Dama da FC&F', Andre Norton escreveu por quase 70 anos, tendo sido uma grande influência para autores de quatro gerações. Além disso, seu sucesso pavimentou o caminho para escritoras que viriam depois, como C.J. Cherryh, Anne McCaffrey e Mercedes Lackey, todas herdeiras do legado de Andre Norton.
Andre Norton ( Gods and androids, Operation time search, Redline the stars, série Solar Queen, série Witch World, Zero Stone, Star Born, All cats are gray, Breed to come, Brother to shadows, Cat fantastic, Cat's eyes, Crossroads of time, Darks companion, Dark Piper, Darkness and dawn, Daybreak 2250 a.d., série Dipple, série Elvenblade, Empire of the eagle, Galactic Derelict, Here abide monsters, série Hosteen Storm, Houn of the Horn, Ice Crown, Janus, série Jern Murdock, Long night of waiting, Merlin's mirror, série Moon Singer, No night without stars, série Oak, Yew, Ash and Roman, Quag keep, Quest crosstime, Sea Siege, Ralestone Luck, Song Smith, Star Gate, Star Soldiers, Starborn, The X factor, série The magic books, The opal-eyed fan, Outling, The stars are ours, série Time Traders, série Trillium, Warlock Trilogy, série Carolus Rex, Yurth Burden ) [ Download ]
sábado, 31 de outubro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 1
CAPITULO 1
Este capítulo é dedicado à BakkaPhoenix Books em Toronto, Canadá. Bakka é a livraria dedicada à ficção científica mais antiga do mundo, e me fez o mutante que sou hoje. Entrei nela por volta dos 10 anos, e pedi algumas recomendações. Tanya Huff (que não era a escritora famosa que é hoje) me levou até a seção de usados e colocou em minhas mãos um exemplar de Little Fuzzy de H.Beam Piper e mudou para sempre a minha vida. O tempo passou e, quando eu tinha 18 anos, eu trabalhava na Bakka; assumi o lugar de Tanya quando ela se aposentou para se dedicar a escrever em tempo integral e aprendi lições para uma vida toda sobre como e porque as pessoas compram livros. Acho que todo escritor deveria trabalhar em uma livraria (e muitos trabalharam na Bakka. No aniversário de 30 anos da livraria, eles fizeram uma antologia dos escritores que trabalharam na Bakka, que incluía trabalhos de Michelle Sagara (ou Michelle West), Tanya Huff, Nalo Hopkinson, Tara Tallan e eu!)
BakkaPhoenix Books: 697 Queen Street West, Toronto ON Canada M6J1E6, +1 416 963 9993
Sou um veterano na escola César Chávez, no ensolarado distrito da Missão, em São Francisco. E isto me faz uma das pessoas mais vigiadas do mundo. Meu nome é Marcus Yallow, mas antes da historia começar, eu era W1N5T0N. Pronuncia-se ‘Winston’.
Não pronuncie como ‘Dáblio-um-ene-cinco-tê-zero-ene’ - a não ser que você seja um oficial de disciplina sem noção que não sabe de nada e que ainda chama a Internet de “a super-via da informação”.
Eu conheço uma destas pessoas sem noção e seu nome é Fred Benson, um dos três vice-diretores da César Chávez. Ele é um ser humano desprezível. Mas se você vai ter um carcereiro, é melhor que seja um idiota do que alguém que saiba das coisas.
‘Marcus Yallow’ ele disse no sistema de som em uma sexta-feira pela manhã. O sistema de som da escola não é propriamente muito legal, e quando você combina com o habitual balbuciar de Benson, você consegue sons que mais parecem alguém com problemas em digerir um burrito estragado do que um aviso escolar. Mas os seres humanos são bons em identificar seus nomes no meio da confusão sonora - é uma questão de sobrevivência.
Agarrei minha mochila e guardei dentro o laptop, meio aberto - eu não queria perder os meus downloads e me preparei para o inevitável.
“Venha imediatamente ao escritório da administração.”
Minha professora de estudos sociais, Senhorita Galvez, olhou pra mim e eu para ela.
O sujeito estava pegando no meu pé só por que eu atravessava os firewalls da escola como se fossem feitos de guardanapos molhados, enganava o software de reconhecimento e detonava os chips delatores que eles usam para nos rastrear. Senhorita Galvez é legal, de qualquer modo nunca me causou problemas (principalmente quando eu a ajudo com seu webmail, para que ela consiga falar com seu irmão que está servindo no Iraque.)
Meu mano Darryl me beliscou o traseiro quando passei por ele. Conheço Darryl desde o tempo que usávamos fraldas e fugíamos da creche; e eu sempre estava nos metendo ou nos tirando de confusões. Levantei meus braços sobre minha cabeça como um boxeador ao vencer uma luta e caminhei para fora da classe começando meu trajeto de humilhação como um condenado até o escritório.
Estava no meio do caminho quando meu celular tocou. Era um daqueles telefones baratos e configuráveis, “muy proibido” na escola - mas por que isso iria me impedir? Me enfiei num banheiro e me fechei numa cabine central, (a cabine mais longe estava sempre cheia por que muitos a procuravam, querendo escapar do cheiro ruim e das coisas mais repugnantes - a jogatina e a higiene ficavam nas cabines do meio) Verifiquei o celular - meu PC de casa me mandara um email para dizer que tinha algo de novo acontecendo em Harajuku Fun Madness, que era o melhor jogo jamais inventado.
Comecei a rir. Passar as sextas na escola era um tédio e fiquei feliz em ter uma desculpa para escapar dali.
Arrastei-me pelo resto do caminho até o escritório de Benson e acenei para ele enquanto entrava em sua sala.
“Se não é ‘Dablio-um-ene-cinco-tê-zero-ene’, ele disse.
Frederick Benson número de seguro social 545-03-2343, data de nascimento 15 de Agosto de 1962, nome de solteiro da mãe “Di Bona”, natural de Petaluna - é um pouco mais alto que eu. Tenho 1,73 enquanto ele mede 2,01. E seus dias de basquetebol na faculdade haviam ficado a muito para trás, de forma que os músculos peitorais haviam se tornado frouxos peitinhos perceptíveis através de sua camisa pólo, brinde de uma empresa pontocom. Ele sempre parecia pronto para chutar seu traseiro e ainda elevava a voz para aumentar o efeito dramático. Ambas estratégias haviam começado a perder sua eficácia devido à repetição.
“Desculpa, mas não sei quem é este seu R2D2.”
“W1n5t0n.” Ele disse, soletrando de novo. Olhou-me de esguelha, desconfiado, e esperou que eu me acalmasse. Era claro que era o meu Nick há anos, e era a identidade que eu usava quando fiz minhas contribuições ao campo da pesquisa de segurança aplicada. Você sabe, como escapar da escola e desabilitar o rastreio do meu telefone. Mas ele não sabia então que este era meu nick. Só um pequeno grupo de pessoas tinha essa informação, gente confiável.
“Hum, não tem nenhuma campainha tocando” Eu disse. Eu fizera um bom trabalho por aí, com aquele nick - tinha orgulho de ter liquidado aqueles delatores - mas se ele fosse capaz de juntar as duas identidades, então eu estava ferrado. Ninguém na escola me chamava de W1n5t0n ou mesmo Winston. Nem meus amigos. Eu era apenas Marcus.
Benson protegeu-se atrás de sua mesa e seu anel de grau batia nervosamente na mesa. Isso sempre acontecia quando as coisas estavam pretas para ele. Os jogadores de pôquer chamavam isso de “dica” - algo que ajuda você a saber o que está se passando dentro da cabeça do adversário. Eu conhecia todas as dicas de Benson de trás para frente.
“Marcus, espero que você perceba que a situação é muito séria.”
“Perceberei assim que me explicar do que se trata, senhor.” Eu sempre dizia “senhor” para uma autoridade quando eu estava sendo irônico com ela. Era a minha “dica”.
Ele balançou a cabeça e olhou para baixo. Outra dica. Daqui a pouco ele iria começar a gritar comigo.
“Escute aqui, garoto! Já é hora de você se tocar que sabemos tudo o que você anda fazendo e que não seremos tolerantes! Você vai ter com sorte se não for expulso antes desta conversa terminar. Você quer se formar?”
“Senhor Benson, o senhor ainda não me explicou qual é o problema...”
Ele socou a mesa e apontou para mim.
“O problema, Senhor Espertinho, é que você se envolveu em uma conspiração criminosa para subverter o sistema de segurança da escola e forneceu dispositivos de contramedida para seus amigos estudantes. Você sabe que conversamos com Graciella Uriarte semana passada sobre o uso de um de seus dispositivos.”
Uriarte tinha sido enganada. Comprara um bloqueador de rádio de uma espelunca perto da estação BART (Bay Area Rapid Transit) na rua 16 e ele deixou de funcionar bem na entrada da escola. Não era minha culpa, mas tive pena dela.
“E o senhor pensa que estou envolvido nisso?”
“Temos informações confiáveis de que você é o W1N5T0N (novamente ele soletrou e eu comecei a imaginar se ele não tinha percebido ainda de que o 1 era I e o 5 um S). Nós sabemos que este tal de W1N5T0N é responsável pelo roubo dos testes standard no ano passado.”
Não verdade eu não tinha feito isso, mas era o tipo de coisa que você gosta que seja dito de você, como um elogio.
“Além do mais, este fato é suscetível a muitos anos de detenção, a não ser que coopere comigo.”
“O senhor tem ‘informações confiáveis’? Eu gostaria de vê-las!”
Ele me encarou. “Sua atitude não vai ajudá-lo.”
“Se existe uma prova, senhor, acho que devia chamar a polícia e entregar a coisa para eles. Parece coisa séria, e eu não gostaria de ficar no caminho de uma investigação apropriada pelas autoridades responsáveis.”
“Quer que chame a polícia.”
“E meus pais, eu acho. Seria melhor assim.”
Nós ficamos nos encarando através da mesa. Ele esperava que eu me entregasse assim que soltou a bomba sobre mim. Eu não me dobrei. Eu tinha um truque para desarmar gente como Benson: eu olhava levemente para a direita das suas cabeças e pensava nos versos de velhas canções irlandesas, do tipo que tem trezentos versos. Isso me fazia parecer perfeitamente controlado e despreocupado.
E a asa veio do pássaro, e o pássaro veio do ovo, e o ovo estava no ninho, e o ninho estava na folhagem, e a folhagem estava no galho, e o galho estava no ramo, e o ramo estava no tronco, o tronco está na árvore, a árvores estão no pântano, o pântano no vale - ho!
“Pode voltar para a sua classe. Eu o chamarei assim que a polícia estiver pronta para falar com você.”
“Vai chamar agora a polícia?”
“O processo para chamar a polícia é complicado. Eu esperava poder resolver isso de forma clara e rápida. Mas já que você insiste…”
“Eu posso esperar enquanto o senhor os chama. Não me importo.”
Ele bateu seu anel novamente e eu esperei a explosão.
“Saia daqui! Saia do meu escritório, seu miserável!”
Saí, mantendo minha expressão neutra. Ele não iria chamar os tiras. Se ele tivesse provas suficientes para ir até a polícia, ele teria feito isso primeiro. Ele me odiava. Então imagino que tivesse ouvido algum boato e esperava me assustar o bastante para que eu o confirmasse.
Fui seguindo pelo corredor, leve e solto, mantendo o passo para evitar as câmeras de vigilância. Elas tinham sido instaladas um ano antes e eu amava enganá-las. Algum tempo atrás nos tínhamos câmeras de reconhecimento facial cobrindo cada espaço público das escolas, mas a corte julgou como anti-constitucional. Então Benson e outros administradores paranóicos gastaram o dinheiro dos nossos computadores escolares comprando aquelas câmeras idiotas que deveriam ser capazes de acompanhar as pessoas. Tá certo, me engana que eu gosto!
Voltei para a classe e me sentei. Senhorita Galvez me recebeu preocupada. Desempacotei o computador escolar modelo standard e entrei no modo sala de aula. Estes computadores eram a tecnologia mais delatora que havia: registravam cada tecla apertada, vigiavam o tráfego da rede procurando palavras chaves suspeitas, contavam cada clique, mantendo registro de cada pensamento que você colocasse na rede. Nós já tínhamos isso quando eu era calouro, e levava pouco mais de um mês para perder a graça. Uma vez que as pessoas percebiam que estes laptops grátis trabalhavam para “os omi” e exibiam uma lista sem fim de anúncios odiosos quando se ligava, eles passaram a parecer pesados e incômodos.
Crackear meu computador escolar foi fácil. O crack ficava online e não precisava fazer muito mais - só baixar uma imagem para um DVD, queimá-lo, inseri-lo e dar boot, enquanto se apertava varias teclas ao mesmo tempo. O DVD fazia o resto: instalava um monte de programas que ficavam escondidos na máquina mesmo quando a comissão educacional fazia seu acesso diário remoto para checar a integridade dela. Agora mesmo eu fazia um update do software para driblar os testes mais recentes da comissão, mas isso era um preço pequeno a se pagar para se ter um pouco de controle da coisa.
Disparei meu IMParanoid, um messanger instantâneo secreto que eu usava quando queria ter uma conversa sem ser registrado bem no meio da aula. Darryl já tava logado.
>O jogo está de pé! Tem alguma coisa de sinistro acontecendo com o Harajuku Fun Madness. Tá dentro?
>De jeito nenhum. Se eu for pego, estou frito. Cara, você sabe. Deixa pra depois da escola.
>Você tem o recreio e a sala de estudos, certo? São duas horas. Tempo bastante prá sair fora e voltar antes que eles percebam. Vou levar o time completo.
Harajuku Fun Madness era o melhor jogo já lançado. Eu sei que eu já disse isso, mas não custa repetir. É um ARG, um game de realidade alternativa. A história era sobre uma gangue de adolescentes japoneses transados que descobre uma pedra de cura miraculosa em um templo em Harajuku. Esse era o lugar onde os japoneses adolescentes espertos haviam inventado toda e qualquer subcultura dos últimos dez anos. Eles são então caçados por monges do mal, a Yakusa (Máfia japonesa), alienígenas, inspetores de impostos, pais e uma inteligência artificial canalha. No jogo havia mensagens codificadas que nós precisávamos decodificar e outras pistas.
Imagine a melhor tarde que você já passou na vida vagabundeando pelas ruas da cidade, encontrando todo tipo de gente estranha, dinheiro de mentira maneiro e lojas iradas. Agora acrescente uma caçada que requer que você pesquise uns filmes antigos muito loucos, músicas e toda cultura jovem ao redor do planeta, através do tempo e do espaço. E é uma competição, onde o time vencedor ganha o prêmio de dez dias em Tóquio, curtindo em Harajuku, passeando por Akirabara, e levando para casa todo o Astro Boy que puder comer, exceto aquele chamado “Atom Boy” no Japão.
Isso era Harajuku Fun Madness e uma vez que você resolve um enigma ou dois, você não precisa voltar atrás nunca mais.
>Não cara, não mesmo! Nem vem!
>Eu preciso de você, D. Você é o melhor que eu tenho. Eu juro. A gente sai e volta e ninguém vai saber. Você sabe que eu consigo fazer isso.
>Eu sei que pode.
>Então você tá dentro?
>Caramba, não!
>Vamos lá, Darryl! Você não vai pro seu leito de morte desejando ter passado mais tempo estudando.
>Nem vou pro meu leito de morte esperando ter passado mais tempo em ARG também.
>Tá, mas pense... você pode ir pro seu leito de morte desejando ter passado mais tempo com Vanessa Pak?
Vanessa fazia parte do meu time. Ela tinha vindo de uma escola particular para moças de East Bay, mas eu sabia que ela estava querendo escapar e ir para a Missão comigo. Darryl tinha uma queda por ela há anos, mesmo antes que a puberdade a favorecesse em abundância com seus presentes. Darryl se apaixonara por ela. Triste verdade.
>Você não presta.
> Você vem?
Ele olhou para mim e balançou a cabeça. Então concordou. Pisquei para ele e comecei a trabalhar para juntar meu time.
#
Nem sempre estive metido com ARG. Eu tinha um segredo obscuro. Eu costumava ser um LARPeiro. LARP significava Jogo de Representação e Interpretação de Personagens; nele você anda por aí vestindo fantasias, falando com sotaque, fingindo ser um super-espião, um vampiro, ou um cavaleiro medieval. É como Roube a Bandeira combinado com monster-drag, com uma pitada de Drama Club. E os melhores eram aqueles em que jogávamos em acampamentos fora da cidade, em Sonoma ou na Península. Esses épicos de três dias costumavam ser barra, marchas de um dia inteiro, batalhas com espadas de bambu, atirando feitiços uns nos outros gritando ‘Bola de Fogo’ e coisas assim. Muito divertido, se você é um tanto bobo. Nem de perto tão estúpido quanto se sentar numa mesa apinhada de latas de diet Coke e miniaturas pintadas e ficar falando sobre o que o seu elfo vai fazer; era algo bem mais físico do que ficar em casa em mouse-coma, diante de um game multi-jogadores estúpido.
A coisa que me deixava mal de verdade eram os mini-games em hotéis. Toda vez que um convenção de Ficção Científica chegava à nossa cidade, alguns LARPeiros conseguiam convencê-los a realizar mini-games de seis horas durante a convenção, meio que aproveitando o espaço alugado deles. Ter um bando de garotos entusiasmados, vestindo fantasias e correndo por toda parte acabava dando um pouco de animação ao evento, e nós podíamos ter nossa festa no meio de pessoas mais socialmente depravadas do que nós mesmos. O problema com os hotéis é que eles costumam ter um monte de gente que não está lá para jogar - e não falo só do pessoal da ficção científica. Pessoas normais, quero dizer. Vindas de lugares que os nomes terminam com muitas vogais, pessoas de férias.
E algumas vezes, estas pessoas não compreendem que se trata de um jogo.
Bom, vamos deixar assim, ok?
#
A aula terminou em dez minutos e não me deixou tempo suficiente para me preparar. A primeira coisa a ser feita era tratar das câmeras do corredor. Como eu disse, elas haviam começado como câmeras de reconhecimento facial, mas então foram decretadas como anti-constitucionais. Pelo que sei, nenhuma corte determinou sequer se estas câmeras de acompanhamento eram legais, e até eles decidirem, continuávamos dando um jeito nelas.
‘Galope’ é uma palavra engraçada para um jeito de andar. As pessoas eram boas em identificar jeitos de andar - a próxima vez que for viajar para um acampamento, preste atenção no movimento da lanterna enquanto um camarada seu vem em sua direção. Existe uma grande chance de você identificá-lo apenas pelo movimento da luz, pelo jeito característico de subir e descer que diz ao nosso cérebro de macaco que é uma pessoa se aproximando.
O software de reconhecimento de galope tira fotos do seu movimento, tentando isolá-lo nas fotos como silhuetas e então tenta comparar a silhueta num banco de dados pra ver quem é você. É um identificador biométrico, como impressão digital ou scan de retina, mas tem bem mais ‘choques’ do que estes outros. Um ‘choque’ biométrico se dá quando se encontra mais do que uma combinação possível. Apenas você possui a sua impressão digital, mas sua maneira de andar pode ser imitada por outros.
Não exatamente, é claro. Seu caminhar, centímetro a centímetro, é pessoal e somente seu. O problema é que ele muda, de acordo com seu cansaço, ou devido ao material de que o chão é feito, do jeito que mexe o tornozelo machucado no basquete, ou se está com um tênis diferente. Então o sistema policia seu perfil, procurando pessoas que caminhem do jeito que você caminha.
E tem um monte de gente que anda como você. E mais, é fácil andar diferente do normal - basta tirar um pé do sapato. É claro você sempre andará como você anda com um sapato apenas. Neste caso, então as câmeras eventualmente vão ver que ainda é você. Por este motivo eu prefiro injetar uma pequena randomicidade em meus ataques ao reconhecimento de galope. Eu coloco uma mão cheia de cascalhos em cada pé de tênis. Barato e efetivo e nunca dois passos se parecem com outro. Além disso, você ganha uma ótima massagem reflexológica dos pés neste processo. (Estou brincando. Reflexologia é sobre o uso cientifico do reconhecimento de galope)
As câmeras costumam disparar um alarme a cada vez que alguém não-reconhecido entra no campus.
As nossas não funcionam assim.
Os alarmes são desligados a cada dez minutos. Quando o carteiro entra, quando um pai ou mãe aparece no pátio, quando alguém lá da rua entra na quadra de basquete, quando um aluno aparece com um tênis novo.
Então basta tentar saber quem está aonde e quando. Se alguém passa pelos portões da escola durante a aula, seu andar é checado para ver se combina com o andar de algum aluno senão o alarme dispara!
A Escola Chávez é cercada por canteiros de cascalhos. Eu costumo ter sempre um punhado de pedras na mochila, para o caso de ser preciso. Silenciosamente, passei para Darryl dez ou quinze destas pequenas miseráveis e nós enchemos nossos tênis com elas.
A aula estava prestes a acabar e percebi que ainda não tinha checado o site do Harajuku Fun Madness para ver onde estava a próxima pista! Tinha ficado focado demais no lance da fuga e não me preocupei em saber para onde iríamos.
Voltei-me para o teclado do PC escolar. O navegador (web-browser) que usávamos vinha com a máquina. Era uma versão limitada e controlada do Internet Explorer, a bosta de um crashware da Microsoft que ninguém com menos de 40 anos usava voluntariamente.
Eu tinha uma copia do Firefox no meu drive USB já preparado do meu jeito, mas não era o bastante - o PC escolar rodava Windows Vista 4School, um antigo sistema operacional desenhado para dar aos administradores escolares a ilusão de que controlavam os programas que seus alunos podiam usar.
Mas o Vista4School era seu pior inimigo. Havia um monte de programas que ele não te deixava encerrar - protetores com senhas, softwares de censura - e estes rodavam em um modo especial que era invisível ao sistema. Não dava para desativá-los porque você sequer conseguia encontrá-los.
Qualquer programa cujo nome começasse com $SYS$ é invisível para o sistema operacional. Não aparece em listas do conteúdo do disco rígido ou num monitor de processos. Então a minha copia do Firefox se chamava $SYS$Firefox - e quando eu a ativa, ela se tornava invisível ao Windows e aos softwares de detecção e busca da rede.
Neste instante eu já tinha um navegador independente rodando. Eu precisava de uma conexão de rede independente também. A rede da escola registrava cada entrada e saída do sistema, o que é péssimo se você está planejando entrar no site do Harajuku Fun Machine atrás de alguma diversão extra-curricular.
A resposta era algo chamado de TOR - The Onion Router (O roteador cebola).
Um roteador cebola é um site de internet que pega pedidos de acessos a páginas da web e os passa através de outro roteador e para outro roteador até que um deles decide finalmente pegar a página e trazê-la de volta até você pelas camadas da cebola. O tráfego pelos roteadores cebola é criptografado, o que significa que a escola não consegue ver o que você está procurando, e as camadas da cebola não sabem para quem estão trabalhando. São milhões de nós - o programa fora criado para o Escritório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos para ajudar pessoas afetadas por softwares de censura em países como Síria e China, o que significava que era perfeito para ser operado no confinamento da média das escolas Americanas.
Tor funcionava por que a escola tinha uma lista negra de sites de conteúdo proibido e os endereços dos nós mudavam o tempo todo; não tinha como a escola manter uma lista atualizada de todos eles. Firefox e TOR me transformavam no homem invisível, impenetrável aos xeretas do Comitê Escolar, livre para visitar o Harajuku Fun Machine e ver o que estava rolando.
Havia uma nova pista. Como todas as pistas do HFM, havia um componente físico, online e mental. O componente online era um quebra-cabeças que devia ser resolvido, o que requeria que você pesquisasse a resposta em um bando de charadas obscuras. Este pacote incluía um bom número de perguntas sobre tramas de d™jinshi -- livros de quadrinhos desenhados por fãs de mangá (histórias de quadrinho japonesas). Eles podiam ser tão grandes quanto o quadrinho original que os inspirou, mas bem mais esquisitos, com outras histórias combinadas e algumas vezes com canções e outras coisas bem idiotas. Histórias de amor aos montes, é claro. Todo mundo gostava de ver seu personagem de quadrinhos favorito amarrado.
Eu iria resolver os enigmas depois, quando chegasse em casa. Eram mais fáceis de resolver junto com a turma toda, baixando toneladas de arquivos de d™jinshi e vasculhando-os atrás das respostas do quebra-cabeça.
Tinha acabado de salvar todas as pistas quando a campainha soou e começamos nossa fuga. Disfarçadamente, com minhas botas curtas Blindstones australianas cheias de cascalho, ótimas para correr e escalar, com seu design botou-tirou sem laços, bastante conveniente devido aos número sem fim de detectores de metal que estavam por ai.
Nós também tínhamos que evitar a vigilância física, mas isso se tornava mais fácil na medida em que acrescentavam outra camada de bisbilhotice - todas as campainhas e buzinas acalmavam nossa amada escola com uma falsa sensação de segurança. Deslizamos na multidão dos corredores, em direção à minha saída favorita. Na metade do caminho, Darryl chiou ‘Caracas! Eu esqueci, tô com um livro da biblioteca na minha mochila.’
‘Tá brincando’ Falei, e empurrei-o pra dentro do banheiro mais perto. Livros de biblioteca eram má noticia. Todos tinham um arphid - uma lingüeta identificadora de radiofreqüência - colada, que tornava possível aos bibliotecários checar os livros através de uma leitora e a estante de livros sabia se o livro estava ou não em seu lugar.
Mas isso também permitia que a escola soubesse onde você estava o tempo inteiro. Era outra daquelas ‘aberturas’ na lei, as cortes de justiça não permitiam que as escolas usassem as arphids para rastreamento de alunos, apenas dos livros da biblioteca e usar estes registros para dizer a eles quem estava carregando qual livro.
Eu tinha um pequeno Faraday de bolso na mochila - pequenas pastas cobertas com fios de cobre que efetivamente bloqueavam sinais de radio, silenciando arphids. Mas os de bolso eram feitos para neutralizar cartões de identificação e etiquetas transponders, não livros.
“Introdução à Física?” Eu gemi Esse livro era do tamanho de um dicionário!
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Doomsday Film Festival
Um festival de cinema (e arte em geral) dedicado ao tema 'fim do mundo' - em todas suas formas.


































