sábado, 23 de janeiro de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 13
CAPÍTULO 13
Este capítulo é dedicado à Books-A-Million, a gigantesca cadeia de livrarias espalhada pelos EUA. Meu primeiro encontro com a Books-A-Million foi no hotel Terre Haute em Indiana (eu daria uma palestra naquele dia mais tarde,na Rose Human Institute of Tecnology). A loja ficava junto do hote, e eu precisava mesmo de material de leitura -estava na estrada há um mês e tinha lido tudo que tinha na mala e tinha mais cinco cidades pela frente antes de voltar para casa. Como fiquei algum tempo olhando as prateleiras, um balconista veio me perguntar se precisava de ajuda. Eu já trabalhei em livrarias antes, e sei que um funcionário com conhecimento vale seu peso em ouro, então eu disse, é claro, e comecei a descrever meus gostos nomeando os autores de quem gostava. O funcionário sorriu e disse “Tenho o livro certo para você” e me deu um exemplar do meu primeiro romance, “Down and Out in the Magic Kingdom.” Comecei a rir e me apresentei, e tivemos uma ótima conversa sobre ficção científica, que quase me fez perder a hora da minha palestra!
Books-A-Million
“São umas prostitutas!” disse Ange cuspindo a palavra. “Na verdade é um insulto ao trabalho duro de todas as prostitutas! São, são uns especuladores!” Olhávamos uma pilha de jornais que escolhemos e compramos no café. Todos traziam reportagens sobre a festa em Dolores Park e eles faziam parecer como uma orgia de garotos bêbados e drogados que atacaram os policiais. O USA Today descrevia o custo da baderna e incluído o custo de lavar os resíduos do spray de pimenta das bombas de gás, o surgimento de diversos casos de ataques asmáticos que encheram as emergências da cidade e o custo de processar oitocentas pessoas presas como baderneiros.
Nenhum deles contava o nosso lado.
“Bem, de qualquer jeito, a Xnet divulgou a coisa como aconteceu.” Eu disse.
Tinha salvo vários blogs, vídeos e fotos no meu telefone e mostrei-os para ela.
Eram relatos em primeira mão de pessoas que sofreram com os gases e que foram espancadas. O vídeo mostrava as pessoas dançando e se divertindo, os discursos políticos pacíficos e todos cantando “Pegue de volta” e Trudy Doo falando sobre sermos a única geração que poderia lutar por nossa liberdade. “Precisamos que as pessoas saibam sobre isso” ela disse.
“Sim” eu disse, mal humorado. “É uma bela teoria.”
“Por que você acha que a imprensa nunca publica o nosso lado?”
“Você já disse, são prostitutas.” Eu disse.
“Sim, mas prostitutas fazem isso por dinheiro. Eles podem vender mais jornais e propagandas se conseguirem uma controvérsia. Tudo que eles têm agora é um crime -controvérsia rende muito mais.”
“Ok, ponto para você. Então por que não fazem isso? Os repórteres podem procurar facilmente nos blogs de sempre, mas não sabem o que rola no Xnet. Não é um lugar realmente fácil para chegar.”
“Sim, bem, nós podemos consertar isso, certo?” Ela falou.
“Huh?”
“Vamos passar isso pra frente. Colocar em tudo quanto é lugar, em todos os links. Um lugar onde possamos deixar com a intenção de que a imprensa possa achar e ver o quadro todo. Linkar aos HOWTOs (Como fazer) para a Xnet. Os usuários de internet vão usar a Xnet, desde que não se importem com o que a DHS pensa sobre o que estão fazendo.” Ela falou.
“Acha que vai funcionar?”
“Bem, se não funcionar, é a coisa certa a se fazer.”
“Por que eles nos ouviriam?” perguntei.
“Quem não ouviria o M1k3y?”
Baixei o café. Peguei meu telefone e guardei no bolso. Levantei, girei nos
calcanhares e sai andando do café. Escolhi uma direção qualquer e continuei andando. Meu rosto mostrava meu cansaço, meu estômago parecia manteiga. Eles sabiam quem você era, pensei. Sabiam quem era M1k3y. Era isso. Se Ange tinha descoberto isso, o DHS também tinha. Estava amaldiçoado. Sabia disso desde que tinham me deixado sair do caminhão da DHS, que algum dia eles voltariam e me prenderiam e desapareceriam comigo para sempre, para onde quer que Darryl tivesse sido mandado.
Era o fim.
Ela logo me alcançou quando estava já na rua do Mercado. Estava ofegante e furiosa.
“Qual diabos é o seu problema?”
Eu me soltei e continuei andando. Era o fim.
Ela me agarrou de novo. “Para, Marcus! Você está me assustando. Vamos, fale comigo.”
Parei e olhei para ela. Era uma mancha na minha frente. Não conseguia focalizar em nada. Desejava pular na frente do trilho do bonde e ser despedaçado bem no meio da rua. Melhor morrer do que voltar para lá.
“Marcus!” Ela então fez algo que só tinha visto em filmes. Ela me deu um tapa bem forte no rosto. “Fale comigo!”
Olhei para ela segurando meu rosto, onde doía mais.
“Ninguém pode saber quem eu sou. Se você sabe, então está acabado. Todos saberão, é o fim!”
“Meu Deus, me desculpa! Olhe, eu só sei disso porque, bem, eu fiz chantagem com Jolu. Depois da festa eu segui você um pouco, tentava saber se você era o cara legal que parecia ser ou o maníaco assassino do machado. Conheço Jolu há muito tempo e quando eu perguntei sobre você ele se emocionou como se você
fosse o Salvador, ou algo assim, mas sabia que tinha alguma coisa que ele nãoestava me contando. Conheço ele, ele namorou minha irmã mais velha em um acampamento de informática quando era moleque. Sei de uns segredos bem podres dele. Disse que eu contaria para todo mundo se ele não contasse para mim.”
“Então ele te contou.”
“Não. Ele me mandou pro inferno. Então eu contei algo sobre mim. Algo que nunca contei para ninguém.”
“O que foi?”
Ela olhou para mim. Olhou à volta. Olhou para mim de novo. ‘”Tá bom. Não vou pedir que guarde segredo, por que não faria sentido. Além disso, posso confiar em você.”
“No ano passado, eu... no ano passado eu roubei algumas provas padrão, e as publiquei na rede. Foi só por diversão. Estava passando pela sala do diretor e vi que estavam no cofre e a porta estava aberta. Tinha umas seis cópias, eu peguei uma e guardei na bolsa e quando cheguei em casa, as escaneei e as subi para um
site pirata na Dinamarca.”
“Foi você?” Perguntei.
Ela corou. “Hum. Fui.”
“Caramba!”
Isso tinha sido um acontecimento na época. A comissão de Educação declarou que custou dez milhões de dólares para promover e criar as provas e que teriam que gastar a mesma quantia de novo, por conta do vazamento. Chamaram de “Terrorismo-educacional”. Os jornais tinham especulado interminavelmente sobre as motivações políticas do responsável por aquilo, imaginando se fora um protesto dos professores, um aluno, um ladrão ou um alguém descontente de dentro do governo.
“Foi VOCÊ?”
“Fui eu.” ela disse.
“E você contou isso para Jolu...”
“Porque eu queria que ele tivesse certeza que eu guardaria segredo. Se ele sabia meu segredo, então tinha algo que poderia usar para me colocar na cadeia se eu abrisse o bico. Dê um pouco, pegue um pouco. ‘Quid pro quo’, como no “Silêncio dos Inocentes.”
“Então ele te contou.”
“Não. Ele não contou.”
“Mas...”
“Então eu disse para ele que estava a fim de você. Como eu planejava me atirar em você. Então ele contou.”
Não consegui pensar em nada para dizer. Eu olhava para meus tênis. Ela segurou minhas mãos e as apertou. “Me desculpa. Eu arranquei isso dele. Devia ser sua decisão de dizer pra mim se é que você planejava de me contar. Eu não devia...”
“Não.” Eu disse. Agora que sabia como ela tinha conseguido saber, estava mais calmo.
“Não, é bom que você saiba. Só você.”
“Só eu. Euzinha.”
“Ok. posso viver com isso. Mas tem algo mais.”
“O quê?”
“Não tem um jeito de dizer isso sem parecer um idiota, então vou dizer assim mesmo. Pessoas que namoram ou o que quer que estejam fazendo -elas rompem.Quando acontece, ficam zangados com o outro. Às vezes, um com o outro. É muita frieza pensar que isso pode vir a acontecer com a gente, mas você sabe, temos que pensar nisso.”
“Eu solenemente prometo que não há nada que você possa me fazer que me fizesse trair seu segredo. Nada. Transe com dúzias de animadoras de torcida na minha cama enquanto minha mãe assiste, me faça ouvir Britney Spears. Roube meu laptop e quebre-o com o martelo e mergulhe-o no mar. Eu prometo. Nada. Nunca.”
Respirei aliviado.
“Agora seria um bom momento para me beijar.” ela disse, e ergueu o rosto na minha direção.
#
O próximo grande projeto de M1k3y na Xnet era capturar todas as matérias a respeito da festa NÃO ACREDITE em Dolores Park e colocá-las juntas. Coloquei os sites mais agressivos que podia, com seções mostrando a ação por local e por tempo e por categoria -violência policial, dança, as conseqüências, a cantoria. Subi o concerto todo.
Tinha o bastante para o resto da noite. E da noite seguinte e da seguinte.
Minha caixa postal ficou lotada de sugestões de pessoas. Me mandaram cópias tiradas de seus telefones e câmeras. Então recebi um email de um nome que reconheci - Doutor Eeevil, (com 3 ‘e’), um dos primeiros mantenedores do ParanoidLinux.
> M1k3y
> Estive vendo seu experimento na Xnet com grande interesse. Aqui na Alemanha temos muita experiência sobre o que acontece quando o governo perde o controle.
> Uma coisa que você precisa saber é que cada câmera tem um sinal de ruído único, que pode ser usado depois para ligar uma foto com a câmera. Isso significa que as fotos que você publica no seu site podem potencialmente ser usadas para identificar os fotógrafos, se forem pegos depois por algum motivo.
> Felizmente não é difícil apagar estas assinaturas, se quiser. Tem um utilitário no ParanoidLinux que voe pode usar para isso -chama-se Photonomus e vai achar no /usr/bin. Leia a pagina principal da documentação. É bem simples.
> Boa sorte com o que está fazendo! Não seja preso. Permaneça livre. Permaneça paranóico.
> Doutor Eeevil.
Retirei as impressões digitais de todas as fotos que postei e coloquei-as de volta com uma nota explicando o que Doutor Eeevil tinha me dito, alertando todos da mesma forma. Todos nós tínhamos o mesmo conhecimento básico da instalação do ParanoidLinux, de forma que podíamos transformar nossas próprias fotos em fotos anônimas. Não dava para fazer nada com aquelas que já podiam ter sido copiadas ou baixadas, mas de agora em diante eu ficaria mais esperto.
Isso era tudo que importava naquela noite, até eu descer para o café da manhã no dia seguinte e mamãe ligar o rádio para ouvir o noticiário da NPR.
“A agência de notícias árabe Al-Jazeera está exibindo fotos, vídeos e relatos em primeira mão dos incidentes da ultima semana em Missão Dolores Park.” O locutor disse, enquanto eu bebia meu suco de laranja. Tentei não cuspir o suco por toda sala, mas me engasguei um pouco.
“Os repórteres da Al-Jazeera disseram que este material foi publicado pelo chamado Xnet, uma rede clandestina usada por estudantes e simpatizantes da Al-Quaeda na Bay Area. A existência desta rede era há muito um boato, mas hoje marca sua primeira menção pública.”
Mamãe balançou a cabeça. “Era tudo que nós precisávamos. Como se a polícia não fosse ruim o bastante. Crianças correndo por ai, brincando de guerrilha e dando para eles a desculpa para realmente botar a casa abaixo.”
“Os weblogs da Xnet trazem centenas de relatos e arquivos multimídia de jovens que participaram do confronto e que alegam que o se tratava de uma manifestação pacifica até que a polícia os atacou. Aqui está um desses relatos:”
“Tudo o que fazíamos era dançar. Levei meu irmãozinho comigo. As bandas estavam tocando e falando sobre liberdade, de como nós a estávamos perdendo para aqueles idiotas que dizem odiar terroristas, mas que nos atacam, nós não somos terroristas, somos americanos. Acho que odeiam a liberdade, não nós. A gente estava dançando e as bandas tocavam e estava muito divertido e então os policiais começaram a gritar para que dispersássemos. Gritávamos tome de volta. Significando trazer a América de volta. Os policiais nos jogaram gás de pimenta. Meu irmãozinho tem doze anos. Ele perdeu três dias de escola. Os idiotas dos meus pais dizem que foi minha culpa. Mas e quanto à polícia? Nós os pagamos e eles supostamente deveriam nos proteger mas eles jogam gás na gente sem uma boa razão, como se fossemos soldados inimigos.”
“Relatos semelhantes, incluindo áudio e vídeo, podem ser encontrados no website da Al-Jazeera e na Xnet. Você encontra orientações de como acessar a Xnet na página da NPR.”
Papai apareceu.
“Você usa a Xnet?” ele perguntou, olhando intensamente para mim. Senti-me comprimido.
“Só para jogos” eu disse. “A maioria usa para isso. É só uma rede sem fio. É o que todos fazem com estes Xboxs gratuitos que ganhamos ano passado.”
Ele me olhou com raiva: “Jogos? Marcus, você não se dá conta, mas você está dando cobertura para pessoas que planejam atacar e destruir nosso país. Não quero que use a Xnet. Nunca mais. Fui claro?”
Quis falar algo. Diabos, eu queria agarrá-lo e sacudi-lo. Mas não o fiz. Desviei o olhar. Eu disse “Claro, papai.”
E fui para a escola.
#
Primeiro fiquei aliviado ao descobrir que eles não iriam colocar o senhor Benson responsável pela minha aula de Estudos Sociais. Mas a mulher que eles acharam para substituí-lo era o meu pior pesadelo.
Era jovem, uns 28 ou 29 anos, bonita, de certa forma. Era loura e falava com um sotaque do sul e se apresentou como Senhora Andersen. Isso disparou ao alarmes. Não conheço ninguém com menos de 60 anos que chame a si próprio por “Senhora.”
Mas eu iria fazer vistas grossas quanto a isso. Ela era jovem, bonita. Deveria ser legal.
Mas ela não era.
“Sob que circunstâncias o governo federal deveria suspender a Declaração dos Direitos do Cidadão?” ela disse, virando-se para o quadro negro e escrevendo uma seqüência de números numa coluna até dez.
“Nunca.” falei sem esperar ser chamado. Essa era fácil. “Os direitos constitucionais são absolutos.”
“Essa não é uma observação muito elaborada, Marcus. Por exemplo, digamos que um policial conduza uma busca imprópria -que vá além do que foi especificado em seu mandado. Ele descobre evidências que um sujeito matou seu pai. É a única evidência que existe. Este sujeito deve ficar livre?”
Eu sabia a resposta, mas não podia explicar. “Sim. Mas a polícia não deveria conduzir buscas inapropriadas.”
“Errado.” Ela disse. “A resposta certa para o erro na conduta da polícia é uma ação disciplinar contra a polícia, não punindo toda a sociedade pelo erro de um policial.” E escreveu no quadro. “Culpa criminal.”
“Outras maneiras de substituir a Declaração dos direitos do cidadão?”
Charles ergueu a mão. “Pondo fogo num teatro lotado?”
“Muito bom.” Disse, consultando a pauta de classe sobre a mesa – “Charles.Existem muitas instâncias nas quais a Primeira Emenda não é absoluta. Vamos listar algumas delas.”
Charles levantou a mão novamente: “Quando um oficial fica em perigo durante a execução da lei.”
“Sim, quando um policial ou oficial de inteligência trabalhando disfarçado tem revelada sua identidade. Muito bem.” Ela escreveu esta abaixo. “Outras?”
“Segurança nacional.” disse Charles sem esperar que ela chamasse de novo.
“Calúnia. Obscenidade. Corrupção de menores. Pornografia infantil. Instruções para fabricar bombas.” Mrs. Andersen escrevia rápido, mas parou em pornografia infantil. “Pornografia infantil é um tipo de obscenidade.”
Eu estava ficando doente. Não era isso que eu aprendera ou acreditava sobre meu país. Levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Não estou entendendo. Você faz parecer que a Declaração dos Direitos éopcional. É a Constituição! Supostamente nós a seguimos sem pestanejar.”
“Esta é uma simplificação bastante comum.” disse sorrindo falso. “O fato que importa é que aqueles que escreveram a Constituição tinham a intenção de que fosse um documento vivo, revisado de tempos em tempos. Entendiam que a República não poderia durar para sempre, se o governo não pudesse governar de acordo com as necessidades de seu tempo. Nunca pretenderam que a Constituição fosse vista como uma doutrina religiosa. Afinal, eles vieram para cá fugindo de doutrinas religiosas.”
Balancei a cabeça; “O quê? Não. Eles eram mercadores e artesões leais ao Rei, até que ele instituiu políticas que eram contra seus interesses, e o fizeram de maneira brutal. Aqueles que fugiram por motivos religiosos tinham vindo antes.”
“Alguns dos que escreveram a Constituição eram descendentes destes primeiros” ela disse.
“E a Declaração dos Direitos não é algo que você pega e escolhe. O que eles odiavam era a tirania. Supostamente a Declaração dos Direitos prevenia contra isso. Eram um exército revolucionário e queriam estabelecer princípios que qualquer um pudesse concordar. Vida, liberdade e a busca pela felicidade. O direito das pessoas de derrubar seus opressores.”
“Sim, sim” ela disse acenando para mim. “Eles acreditavam no direito das pessoas de livrar-se de seus reis, mas...” Charles estava rindo e quando ela disse, seu sorriso foi maior ainda.
“Eles elaboraram a Declaração dos Direitos por que eles pensavam que tendo direitos absolutos era melhor do que o risco de alguém os tirar. Como a Primeira Emenda, deveria nos proteger prevenindo que o governo de criar dois tipos de discurso, o permitido e o criminal. Não queriam encarar o perigo de que algum caipira pudesse decidir que as coisas que ele achasse desagradáveis fossem ilegais.”
Ela se virou e escreveu: “Vida, liberdade e a busca da felicidade” no quadro.
“Estamos um pouco à frente da lição, mas vocês parecem um tipo de grupo mais avançado.” Os outros alunos riram disso, de nervoso.
“A função do governo é assegurar aos cidadãos os direitos a vida, a liberdade eda busca da felicidade. Nesta ordem. É como um filtro. Se o governo quer fazer algo que nos fará infelizes, ou tire um pouco da nossa liberdade, está certo, já queestão fazendo-o para garantir nossas vidas. É por isso que os policiais podem te deter, se acharem que você é perigoso para você ou outros. Você perde sua liberdade e felicidade para proteger a vida. Se você está vivo, pode ser capaz de ter liberdade e felicidade depois.”
Alguns ergueram suas mãos. “Isso não significa que podem fazer qualquer coisa
que queiram se eles disserem para impedir alguém de magoar-nos no futuro?”
“Sim.” disse um garoto. “Parece que você está dizendo que a segurança nacional
é mais importante que a Constituição.”
Eu estava tão orgulhoso de meus colegas que disse: “Como você pode proteger a liberdade suspendendo a Declaração dos Direitos?”
Ela balançou a cabeça como se estivéssemos falando uma estupidez. “Os pais da revolução atiravam em traidores e espiões. Eles não acreditavam em liberdade absoluta, não quando ameaçava a República. Agora, pegue este pessoal da Xnet...”
Procurei não demonstrar nada.
“...esses chamados espalhadores de interferência que estão nos jornais de hoje. Depois da cidade ter sido atacada por pessoas que declararam guerra a este país, eles começaram a sabotar as medidas de segurança estabelecidas para agarrar os criminosos e evitar que eles o façam de novo. Eles colocaram em risco seus
camaradas concidadãos...”
“Eles fazem isso para mostrar que nossos direitos estão sendo negados em nome da proteção deles mesmos!” eu disse. OK. Eu gritei. Deus, ela me deixou fervendo. “Eles fizeram isso porque o governo estava tratando a todo como suspeitos de terrorismo!”
“Então eles queriam provar que não podem ser tratados como terroristas, então eles agem como terroristas? Cometendo atos de terrorismo?” gritou Charles.
Eu pirei.
“Oh, pelo amor de Deus! Cometendo atos de terrorismo? Eles mostraram que a vigilância universal é mais perigosa do que o terrorismo. Olhe para o que aconteceu no parque no final de semana passado. Aquelas pessoas estavam dançando e curtindo a música. Como isso pode ser terrorismo?”
A professora atravessou a sala e parou diante de mim, quase me cobrindo até que eu me calasse. “Marcus, você parece pensar que nada mudou neste país. Você precisa entender que a explosão da Bay Bridge mudou tudo. Milhares de nossos amigos e parentes estão mortos no fundo da baía. Este é um tempo para união nacional em face do violento insulto que nosso pais sofreu...”
Fiquei de pé. Eu já tinha tido muito daquela lengalenga de que tudo mudou.
“Unidade nacional.” A questão toda era que nós somos do país onde discordar é bem vindo. Somos um país de discordantes, lutadores e universitários que se recusam a servir na guerra, da liberdade de expressão.
Pensei na última aula de Senhorita Galvez sobre os milhares de estudantes de Berkeley que cercaram os carros da polícia quando tentaram prender um cara por distribuir material sobre os direitos civis. Ninguém atentou para aqueles caminhões quando eles partiram levando as pessoas que dançavam no parque. Eu sequer tentei. Eu estava fugindo.
Talvez tudo tivesse mudado.
“Acredito que você saiba onde fica a sala do Senhor Benson.” ela disse para mim. “Se apresente a ele imediatamente. Não vou ter minha aula perturbada por comportamento desrespeitoso. Para alguém que clama amar a liberdade de expressão, você certamente deseja derrubar qualquer um que discorde com você.”
Coloquei meu computador escolar na bolsa e saí. A porta tinha um dispositivo que tornava impossível batê-la, ou eu o teria feito. Fui direto para a sala de Benson. As câmeras me filmavam no caminho. Meu
passo foi gravado. Os arphids em meu crachá escolar passaram minha identidade para os sensores do corredor. Era como estar sendo preso.
“Feche a porta, Marcus” disse o senhor Benson. Ele virou sua tela e pude ver a sala de aula de estudos sociais. Ele estivera me observando.
“O que tem para dizer em seu socorro?”
“Ela não está ensinando, aquilo era propaganda. Ela nos disse que a Constituição não importava.”
“Não, ela disse que não era uma doutrina religiosa. E você a atacou como um tipo de fundamentalista querendo provar seu ponto. Marcus, você, de todas as pessoas, deveria entender que tudo mudou desde que aponte foi explodida. Seu amigo Darryl...”
“Não diga uma maldita palavra sobre ele.” eu disse borbulhando de raiva.
“Você não pode falar sobre ele. Sim, eu entendo que tudo está diferente agora. Nós costumávamos ser um país livre. Agora não somos mais.”
“Marcus, você sabe o que significa ‘tolerância zero’?”
Eu baqueei. Ele podia expulsar-me por comportamento ameaçador. Isso supostamente era para ser usado contra garotos de gangue que intimidam seus professores. Mas é claro que ele não tinha remorso algum sobre usá-lo contra mim.
“Sim, eu sei do que se trata.”
“Acho que me deve desculpas.”
Olhei para ele. Claramente estava segurando seu sorriso sádico. Parte de mim queria humilhar-se. Queria pedir sua clemência, para minha vergonha. Eu suprimi esta parte e decidi que era melhor ser chutado para fora do que pedir desculpas.
“Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que se de alguma forma este se tornar destrutivo. é do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em ais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade.” Eu me lembrava de cada palavra.
Ele balançou a cabeça. “Lembrar de certas coisas não é o mesmo que compreender seu significado, garoto.” Ele se debruçou sobre o computador e fez alguns cliques. Sua impressora começou a bramir. Ele passou para minhas mãos um comunicado ainda quente em que no cabeçalho dizia que eu estava suspenso por duas semanas.
“Irei mandar um email para seus pais agora. Se ainda estiver nas propriedades desta escola em 30 minutos, eu irei prendê-lo por invasão.”
Olhei para ele.
“Você não quer declarar guerra contra mim na minha própria escola.” ele disse.
“Você não pode vencê-la. Saia!”
Eu fui embora.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Lost Zombies
Uma rede social para criar e compartilhar, todo tipo de coisa, como muiitas outras, você se cadastra e tem acesso a fotos, vídeos, forum, música, chat, participa com textos, além de concursos e...
...já disse que é sobre ZUMBIS ?
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Um conto e suas transformações: Ficção Científica e História
Estudaremos, neste artigo, um conto de ficção científica de autoria de Ray Bradbury, “Um ruído de trovão” (The Sound of Thunder), escrito em 1952, bem como diferentes transcodificações suas, ocorridas em 1954 (história em quadrinhos), 1989 (episódio de série de TV) e 1993 (nova história em quadrinhos).
Os referenciais temáticos centrais tanto do conto quanto de suas transcodificações são, por um lado, o tempo ou, mais exatamente, a estrutura do tempo e sua possível transformação; por outro, uma preocupação política com o perigo de um regime democrático poder descambar, ao que parece com rapidez e sem grande dificuldade, para uma ditadura da pior espécie.
Um conto e suas transformações: Ficção Científica e História [ Download ]
Ciro Flamarion Cardoso - Professor Titular do Departamento de História da UFF.
Revista Tempo, Rio de Janeiro, nº 17
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
A Treasury of Great Science Fiction - Vol II
Uma coleção seminal de contos publicados nas revistas Adventures in Time and Space (1946) e The Astounding Science Fiction Anthology (1950) e Omnibus of Science Fiction.
CONTENTS
BRAIN WAVE by Poul Anderson
BULLARD REFLECTS by Malcolm Jameson
THE LOST YEARS by Oscar Lewis
DEAD CENTER by Judith Merril
LOST ART by George O. Smith
THE OTHER SIDE OF THE SKY by Arthur C. Clarke
THE MAN WHO SOLD THE MOON by Robert A. Heinlein
MAGIC CITY by Nelson S. Bond
THE MORNING OF THE DAY THEY DID IT by E. B. White
PIGGY BANK by Henry Kuttner
LETTERS FROM LAURA by Mildred Clingerman
THE STARS MY DESTINATION by Alfred Bester
A Treasury of Great Science Fiction - Vol II - Anthony Bouchher [ Download ]
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
El Cosmonauta
Que tal juntar cinema + ficção científica + crowdfunding ?
O resultado é El Cosmonauta, um projeto colaborativo espanhol, onde qualquer pessoa (mediante a doação de 2 euros) se torna co-proprietário do filme, e não para por ai, já que também é possível editar do seu jeito, fazendo seu próprio filme.
Vamos por partes.
Se você não está familiarizado com o termo, Crowdfunding funciona na prática como um financiamento, você coloca seu dinheiro em um projeto de terceiros e espera receber algo por ele.
No caso de El Cosmonauta, cada participante recebe ao final, um certificado de produtor, concorre no sorteio do traje de cosmonauta utilizado no filme e tem seu nome nos créditos.
As finanças e etapas do projeto El Cosmonauta, podem ser acompanhadas, o que garante a transparência da coisa toda.
A parte colaborativa, e que o faz diferente de um simples financiamento, é que todos os participantes podem também enviar músicas suas para compor uma trilha sonora (ou muitas), imagens para posters, fotos, desenhos, ideias para o teaser, vídeos (explorando o universo proposto pela história) e textos, expandindo o horizonte do filme.
Nada mal por 5 reais! E é claro, o filme (em HD), sob uma licença Creative Commons, se torna passível de ser copiado, editado, distribuido à vontade, gratuitamente.
A história é a seguinte:
Em 1975, o primeiro cosmonauta russo na lua, não consegue regressar e é dado como perdido no espaço. Ele, porém, através de mensagens de rádio fantasmagóricas, afirma ter retornado para a Terra e encontrando-a vazia.
Sua presença e voz irreais, vão gradualmente destruindo o mundo de seus entes queridos.
Roteiro do filme [ Download ]
domingo, 17 de janeiro de 2010
Entrevista com John Varley
Surgido na Ficção Científica americana em meados da década de 1970, quando a New Wave estava morrendo e o gênero buscava uma nova direção, John Varley quase que imediatamente se tornou uma força revolucionária na ficção especulativa. Combinando o estilo e a sensibilidade de Robert A. Heinlein, com o idealismo e o realismo social dos anos 60 da Califórnia, ele produziu uma rápida sucessão de histórias conceitualmente inovadoras. Varley manteve-se como uma força importante da FC americana desde então.
Pergunta: Conhecendo sua história e considerando as tendências sociais constantes nas histórias de seus primeiros trabalhos, seria justo chamá-lo de um autor de FC hippie ?
Varley: Eu prefiro pensar em mim, naqueles dias, como um hippie que escrevia FC. Eu vivia no coração do movimento. Eu incorporei o zeitgeist daqueles tempos em minhas histórias. Era o oceano onde eu nadava. "All you need is love". "Matar os porcos". Eu utilizei de todas essas noções simplistas de uma forma ou de outra. (Bem, eu nunca fui a favor de matarem policiais, mas eu os via como meus inimigos.) Assim, as histórias do universo 'Eight Worlds' (Oito Mundos) nasceram naquele ambiente. Desde então eu aprendi um pouco, eu espero. Pode chamar isso de amadurecer, ou chamar de perder a inocência. Ou chamar de se vender. Não me incomoda.
P: Seu universo dos 'Eight Worlds' está espalhado por três livros e muitos contos, e é um conceito notável: invasores alienígenas, irritados com os maus tratos da humanidade com a Terra. Somos expulsos de nosso planeta, deixando vivos apenas alguns milhares de pessoas na Lua e em outros lugares. Como teve esta ideia? E você hoje vê este 'castigo' como justo?
Varley: Não me lembro de onde se originou a idéia, só que na época eu estava lendo alguns livros de John Lilly, sobre os golfinhos e as baleias, e que tipo de consciência que eles podem ter. Eu percebi que a visão de mundo deles, através de seus sentidos de sonar, seria radicalmente diferente da nossa. O problema central era imaginar as baleias como sendo tão inteligentes assim. Por que elas não evitam ser arpoadas? Seria fácil enganar os barcos, bastaria mergulhar na aproximação de um deles. Mas elas nadam placidamente ao longo dos barcos até que o arpão as acerta, parecem impossibilitadas de se preocupar com as nossas atividades, até que seja tarde demais para evitar a morte. Então, talvez alguma coisa, talvez sua visão da vida seja tão diferente da nossa que não tenham medo da morte. A partir desta ideia, surgiu a de criaturas alienígenas que viveriam na atmosfera de planetas gigantes gasosos, que veriam os cetáceos como inteligentes, e os seres humanos como nada mais do que uma praga capaz de usar de ferramentas poluidoras, e decidiriam que tinham que fazer algo sobre nós, antes que dizimássemos seus parentes.
P: Nas mãos de vários escritores, 'Eight Worlds' poderia ser sobre a resistência humana contra os invasores, mas você sempre escolheu o menos previsível, e mais interessante, caminho, o de delinear os costumes sociais e vidas pessoais das pessoas vivendo no exílio na Lua, Mercúrio, Plutão, etc. Por que essa ênfase na vida cotidiana, em vez de escolher a aventura da batalha?
Varley: A invasão não se tratou de uma batalha, a menos que você considere um formigueiro sendo esmagado sob as esteiras de um tanque como uma batalha. Eu fiz menção em um par de histórias, que houve uma pequena minoria que sonhava em recuperar a Terra, mas não eram levadas a sério por pessoas sãs.
Eu nunca fui muito interessado em escrever sobre as revoluções, a guerra ou qualquer dos grandes convulsões sociais da política e da violência, senão pela visão de uma pessoa comum. Eu não poderia escrever um romance de Tom Clancy, mesmo que eu quisesse. Meu principal interesse são as pessoas, as coisas horríveis e grandiosas que acontecem com elas, e como vão lidar com isso. Então minhas histórias provavelmente são sempre em pequena escala. É como eu gosto.
P: De certa forma, 'Eight Worlds' sugere um tipo de inquietação existencial. O desejo constante de modificar e ampliar características sexuais, a clonagem que multiplica a identidade de um indivíduo, formas de simbiose, como em 'Gotta Sing, Gotta Dance'. Você vê esta vontade de transcendência pessoal como essencial à natureza humana?
Varley: Algumas coisas interessantes aconteceram quando eu comecei a escrever estas histórias. Por um lado, o sistema solar estava sendo explorado; estávamos recebendo uma imagem diferente daquela que eu recebi enquanto crescia. Mercúrio não era da maneira que nós pensávamos que era. Vênus não estava coberta por pântanos. Marte não tinha canais. Eu explorei algumas dessas idéias em minhas histórias. A revolução biológica estava apenas começando. Na época eu não tinha idéia de como era rápido, fácil, funcional e possível, a mudança de sexo, então eu brinquei com o DNA, aqui e ali. Eu não tinha idéia se tais coisas jamais seriam possíveis ou não, e não me importava. Eu estou sempre menos preocupado com a ciência em si, do que com os efeitos da nova ciência tem sobre a vida das pessoas. Agora, com o genoma humano mapeado e as células-tronco, e a nanotecnologia, podemos começar a ver as vias possíveis para o tipo de engenharia humana que eu descrevi. Mas muitas das mudanças sociológicas já começaram, como os direitos dos gays e novas formas de famílias. E um monte de que não é tão bonita assim. Eu realmente nunca considerei tropeçar com fanáticos religiosos, como George W. Bush, e que poderiam se colocar no caminho do progresso. A religião é uma fraqueza minha. Eu sempre subestimei os malditos religiosos.
Transcendência? Eu não sei o que é necessário para a raça humana. Tenho muita dificuldade para descobrir o que é essencial para mim. Conforme envelheço, enfrento a questão da consciência cada vez mais a cada dia. O que acontecerá comigo quando eu morrer? Eu não espero encontrar a resposta, e pode não haver uma resposta, no sentido de que, se a minha consciência simplesmente desaparece, nunca houve uma questão a ser respondida. Mas o meu lado espiritual, reconhecidamente anêmico, tem crescido ao longo dos anos, e eu não acho que a ciência possa fornecer todas as respostas, como eu costumava achar. A natureza da ciência é fazer a pergunta seguinte, o que implica que não importa o quanto você sabe, sempre haverá uma próxima pergunta. Parece que estamos batendo a cabeça em alguns dos limites do conhecimento hoje em dia, como a teoria das supercordas e da mecânica quântica, mas as pessoas diziam isso sobre os limites antes e estavam erradas.
E pode não haver outra vida. Frustrante, mas é a vida.
P: O povo em 'Eight Worlds' construiu vários novos lares para si, mas a maioria são bastante claustrofóbicos: cidades subterrâneas, túneis e similares, como Luna. Em alguns aspectos, as sociedades resultantes parecem utópicas, mas em outros, parecem completamente estéreis. Em que medida foi uma tentativa consciente sua, de criar uma utopia? E quanto tempo pode tal sociedade durar, dadas as suas limitações e perigos externos?
Varley: Eu não acredito em utopias. Quando eu pensei em tudo isto (e eu procuro evitar pensar muito sobre isso, prefiro deixar que minhas histórias se desenvolvem em um nível inconsciente), pensei que estava construindo um mundo que era melhor que o nosso em alguns aspectos. Certamente é melhor em padrão de vida, tecnologicamente, ninguém tem que trabalhar para viver, não há pessoas morrendo de fome. Quanto à cultura, eu trabalhei o aspecto nostálgico, em parte para ser capaz de usar referências familiares para um leitor moderno. Algumas pessoas reclamaram sobre isso, e eu sei que é um atalho fácil, mas funciona para mim. Não haveria nova arte, bem, eu não sei como seria possível. E quanto a serem estéreis... Eu não sei se isso é bom ou ruim. Sequer tentamos. Uma entidade verdadeiramente inteligente, como o computador central, poderia ser uma melhoria para o que temos tentado até hoje. Dificilmente poderia ser pior do que George W. Bush.
P: Além de das histórias de 'Eigth Worlds', você escreveu várias sobre a policial Anna-Louise Bach, da base Luna. O futuro que Bach habita, lembra que aquele na seqüência de 'Eight Worlds', cidades em túneis na Lua, etc, mas difere enormemente, pois não existem invasores; a Terra continua a ser de domínio humano. Por que então o futuro de Bach consegue ser pior do que o de 'Eight Worlds'?
Varley: Anna-Louise surgiu mais tarde, conforme amadureci um pouco e tinha menos fé em encontrar boas respostas para alguns dos principais problemas humanos. Comparado ao universo de Bach, 'Eight Worlds' seria uma utopia. Eu a criei para lidar com idéias terríveis demais para explorar em 'Eight Worlds'. Ela é uma policial, e sempre vamos precisar de policiais, creio eu. Ela lida com coisas nojentas. Ela vive em um universo que é uma extrapolação do nosso, sem a intervenção de um evento apocalíptico como a invasão que, por necessidade, nos aproximou, fez nossas diferenças parecerem triviais. Seu universo é o nosso, apenas com mais tecnologia.
P: Ainda sobre 'Eight Worlds', você escreveu três livros neste universo. O primeiro, 'Ophiuchi hotline', indica que a raça humana em breve terá que desocupar totalmente o sistema solar, rumo a um exílio no espaço profundo, mas o seguinte 'Steel Beach' e 'Golden Globe', significa um passo pra trás na narrativa, sobre uma empresa de passeios de lazer dos 'Eight Worlds'. 'Steel Beach' e 'Golden Globe', no entanto, nos conduzem ao exílio, assim como 'The Hotline Ophiuchi', com a partida da nave Robert A. Heinlein.
Varley: A principal coisa que você deve saber sobre mim é que eu não sou um planejador. Eu nunca fiz um cronograma para 'Eight Worlds'. Eu não leio 'Ophiuchi Hotline' há 20 anos ou mais. Confio na minha memória, às vezes falha, para manter as coisas razoavelmente consistentes. Não é o futuro escrito por Heinlein ou por Larry Niven. Quando eu termino uma história, e estou muito satisfeito com ela, uma vez que ela for publicada, não volto a ler novamente. Se isso ofende alguns leitores, me desculpem, mas sinceramente, eu não tenho tido muitas queixas. Tenho a certeza de que há leitores lá fora que poderiam definir os tempos e lugares de 'Eight Worlds' melhores do que eu.
Houve um abismo entre o primeiro livro e as primeiras histórias, eu senti que seria um handicap desnecessário voltar, e tentar fazer tudo funcionar, quando comecei com 'Steel Beach'. Meus interesses e minha visão mudaram neste tempo, entretanto, e eu só o defini, e a 'Golden Globe', neste universo, porque eu me sentia confortável nele. O que eu queria fazer, no entanto, foi o que eu costumo fazer, que é explorar um personagem.
Dito isto, o terceiro desta 'não-trilogia', que chamarei de 'Metal Set,Irontown Blues', irá lidar com seres humanos abandonando o sistema solar.
P: 'Steel Beach' e 'Golden Globe' são longos e absorventes romances biográficos do futuro, um é a história de um repórter de notícias, e o outro sobre um ator itinerante. Ambos os livros, mesmo que no futuro razoavelmente distante, também recordam o passado americano pré-Segunda Guerra Mundial, e a Idade de Ouro de Hollywood, e assim por diante. Por que essa simultaneidade, prospecção e retrospecção?
Varley: Porque eu gosto de filmes antigos. 'The Metal set' fala de pessoas que têm trabalhos que eu considero interessantes: um jornalista, um ator e o policial que virou investigador particular. Assim, a identificação com os filmes de Hollywood foi deliberada. Eu queria introduzir uma atmosfera de 'The Big Sleep' ou 'Chinatown' neste último.
P: O que você vê como principais obstáculos para a adaptação bem sucedida da FC para o cinema? E como você avalia o estado atual do cinema de FC em geral?
Varley: A Ficção Científica foi o gênero dominante nos cinemas desde 'Star Wars', que eu amava. Desde então, a maior parte foi porcaria. Por outro lado, de vez em quando surge uma jóia, como 'Eternal Sunshine of the Spotless Mind'. Os principais obstáculos para fazer bons filmes de FC são os mesmos obstáculos que enfrentam qualquer bom filme. Eles são geralmente o resultado de interesses conflitantes, de um grande número de pessoas trabalhando juntas, nem sempre para o mesmo objetivo. Se você já viu o processo de regravações infinitas, e mudanças de última hora, você sabe que é um milagre que qualquer bom filme seja feito. Tudo se resume a poder, e visão, e determinação, em partes iguais. Charlie Kaufman teve a visão, e depois de uma seqüência de abalos econômicos e financeiros, alguns de poder, conseguiu que um filme como 'Eternal Sunshine' fosse feito da maneira que ele queria. Jim Carrey tem o poder de tomar decisões finais sobre o script, e se ele compartilha a visão de Kaufman, então a coisa funciona. A última parte é a determinação, e você não acredita o quanto disso é necessário, por parte de todos os envolvidos, em um projeto que pode se estender ao longo de três, ou quatro, ou cinco, ou mesmo 10 anos. É fácil ficar frustrado e se juntar aos contadores do estúdio.
P: Á pouco eu mencionei Robert Heinlein. Muito do seu trabalho é uma homenagem ao seu estilo, sensibilidade e técnica. O que de Heinlein faz dele uma inspiração central para você e para a FC em geral? Vocês mesmo difere totalmente de Heinlein, no que diz respeita principalmente à ideologia, e o seu liberalismo, certo?
Varley: Robert Heinlein é o Shakespeare da Ficção Científica Hard. Qualquer ideia que você tenha, logo vai descobrir que Heinlein teve antes de você. Durante os anos 40 e 50, ele escreveu tudo sobre exploração planetária e viagens estelares. O único método que não me lembro dele usando, foi o elevador espacial, mas estou certo de que ele teria escrito um bom romance sobre isso, se tivesse a chance.
Tenho divergências políticas com Heinlein. Ele era de formação militar, com a qual não me relaciono bem, e às vezes era uma espécie de simplório anticomunista. Minha sensação é de que o verdadeiro comunismo nunca foi praticado, e muito menos nos regimes comunistas. Eu não sou comunista, mas eu sinto que o melhor modelo para o governo é um equilíbrio entre o capitalismo e o socialismo. Heinlein foi também um pouco darwinista social.
Mas a raiz de sua política era o ideal libertário, do governo deixando-nos em paz, exceto quando há uma necessidade imperiosa. Nós concordamos completamente nisso.
P: Seu livro 'Red Thunder', entre outras coisas, é uma homenagem a Heinlein, reconta espetacularmente o cenário básico de Heinlein para Rocketship Galileo (1947). Este famoso épico juvenil de Heinlein, ainda consegue inspirá-lo? Será que as viagens espaciais tripuladas, mesmo em seu moribundo estado, exige uma nova inspiração, uma sacudida Heinleiniana?
Varley: Você teria que perguntar a um adolescente se Heinlein ainda pode inspirá-lo. Os livros estão certamente datados, e isso pode fazer a diferença. É difícil ter em mente que a década de 1950 é tão remota para esta geração atual, como 1900 é para mim, e eu não li muitos livros escritos em 1900. No entanto, eles ainda são tão bons como sempre foram, e eu sei que há crianças lá fora, que ainda leem ficção de qualidade, ou JK Rowling não seria bilionária. Então eu espero que eles ainda estejam sendo lidos.
Espero que a viagem espacial tripulada já tenha recebido o que necessita, sob a forma de Burt Rutan (engenheiro aeroespacial que projetou a Spaceship One, a primeira nave sub-orbital particular). Combinada com a grana de Paul Allen, e o sentido do negócio e o carisma de Richard Branson, eu acho que eles são o equivalente a Delos Harriman, em 'The Man Who Sold the Moon' de Heinlein (1950). Eu estava lá em Mojave no dia que a Spaceship One reivindicou o prêmio Ansari, e para mim foi tão emocionante como o vôo de John Glenn.
Minha receita para o vôo espacial tripulado? Em primeiro lugar, a desativação da NASA. Isso mesmo. A NASA foi o 'Nós-podemos-fazer' de gente que era parte do governo americano dos anos 60, mas agora é apenas o governo, apenas a burocracia. Gostaria de substituí-la por uma agência que analisasse as propostas das empresas privadas e fornecesse o financiamento federal para aqueles promissores. Deixe a coisa da espionagem para a Força Aérea, deixe os satélites de comunicações para a indústria, que está fazendo um bom trabalho, deixe a construção para a Boeing e a Lockheed e outros. Para vôos espaciais tripulados, incentive pessoas com um sonho, como Rutan. Acho que o maior estímulo para o homem no espaço será... o turismo! Olha quantos já se inscreveram para o vôo de Rutan/Branson, mesmo com esses preços ultrajantes. O que precisamos é de alguém para desenvolver a tecnologia de combustão supersônica, terra-órbita e de volta, não jogando nada fora. Eles testaram um há algumas semanas, e alcançou Mach 11 ou algo parecido.
P: Você está escrevendo uma seqüência de 'Red Thunder'. Como vai se chamar?
Varley: Talvez 'Red Lightning'. Sim, eu sei que o raio supostamente vem antes do trovão, mas eu não estava pensando em uma seqüência quando eu a escrevi. Agora eu quero dar uma continuidade (pode haver um terceiro). Se eu chamasse de 'Green Thunder' ou 'Yellow Thunder', as pessoas diriam que eu estaria imitando a série sobre Marte de Kim Stanley Robinson. Assim, parece que estou preso nisso. E de qualquer maneira, é melhor do que 'Red Low Pressure Area' (área de baixa pressão vermelha).
P: Seu romance Mammoth (2005) trata sobre o renascimento de uma espécie pré-histórica. Ao explorar esse tema, você concorre com os filmes 'Jurassic Park', ou a sua visão é diferente, mais complexa?
Varley: Meus mamutes não são clonados. Na verdade não me lembro muito sobre 'Jurassic Park', exceto o T.Rex mastigando o SUV. Isso foi legal. Ah, sim, e o advogado sendo tirado da 'casinha' e engolido inteiro. Isso foi melhor ainda!
Entrevista cedida a Nick Gevers (Science Fiction Weekly - dezembro de 2004).
John Varley
John Herbert Varley (9 de Agosto de 1947) nasceu em Austin, Texas (EUA).
Varley quando criança, queria ser um cientista quando crescesse.
Na universidade de Michigan iniciou os estudos de Física, mas logo trocou por Lingua Inglesa e depois largou os estudos para 'conhecer a América', como muitos jovens americanos o fizeram nos anos 60, época do amor livre, Power Flower, Woodstock, etc.
Perambulou pela costa oeste sem emprego, acompanhou músicos, conheceu artistas, trabalhou por trocados e depois de seis anos vivendo desta maneira, decidiu que iria começar a trabalhar como escritor de Ficção Científica.
Segundo ele mesmo, suas primeiras histórias eram todas imitações mal feitas do estilo de Heilein.
Mesmo não sendo um escritor prolífico ou veloz, Varley ganhou respeito e admiração de leitores em sua vida 'pós-hippie', através de seus inúmeros livros de Ficção Científica e de seus contos, muitos deles situados em um futuro em que extraterrestres expulsaram a raça humana (ou o que sobrou dela) para fora da Terra. Os sobreviventes permanecem nas imediações do Sistema solar, graças a modificações biológicas.
Este tema, comum em livros como 'Persistence of Vision' (ganhador de um Hugo e um Nebula) e 'Overdrawn at the Memory bank', serviram também como inspiração para o filme 'Total Recall'.
Varley passou boa parte de sua vida de escritor em Hollywood, porém desta experiência, o único trabalho em longa metragem foi o sofrível filme Millennium (estrelado por Kris Kristofferson e Cheryl Ladd), cujo roteiro Varley escreveu seis vezes, depois de passar pela mão de 4 diretores.
Varley tem seu trabalho quase sempre comparado ao de Robert Heinlein. Além do estilo semelhante, Varley tem Henley como seu ídolo, e escreveu histórias como The Golden Globe, utilizando o modelo de sociedade que logo atribuimos a Heinlein. Porém, um dos muitos aspectos que diferencia a obra de Varley dos demais escritores, são suas abordagens de aspectos sexuais, assim como personagens femininos notórios, coisas que são pouco comuns de se encontrar em FC.
John Varley tem seu trabalho traduzido hoje em 16 idiomas incluindo o Esperanto.
John Varley ( In the bowl, Super heroes anthology, Blue champagne, Gaea series, Goodbye Robinson Crusue, Gotta sing gotta dance, In the Hall of Martian Kings, Incursion area, Mammoth, Millennium, Perdido en el Banco de Memoria, Persistence os vision, Picnic on nearside, Press Enter, Pusher, Red Thunder, Steel Beach, The Barbie murders, The Golden Globe, The ophiuchi hotline, The phantom of Kansas, En el salon de Los Reyes Marcianos y otros relatos, Y Manãna seran clones, El Globo de Oro ) [ Download ]
sábado, 16 de janeiro de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 12
CAPÍTULO 12
Este capítulo é dedicado à Forbidden Planet, a cadeia britânica de livros de FC e fantasia, brinquedos, quadrinhos e vídeos. A Forbidden Planet tem lojas por todo Reino Unido e também em Manhattan e Dublin na Irlanda. É altamente perigoso botar os pés dentro da Forbidden Planet - raramente escapo com minha carteira intacta. Forbidden Planet lidera quanto a trazer as audiências gigantescas da TV e dos filmes de FC em contato com os livros de FC - algo absolutamente crítico para o futuro do gênero.
Forbidden Planet, UK, Dublin e New York City
Senhorita Galvez tinha aberto um amplo sorriso.
“Alguém sabe de onde ele tirou isso?”
Vários responderam em coro: “A Declaração da Independência.”
Eu fiz que sim.
“Por que leu isso para nós, Marcus?”
“Por que me parece que os fundadores da nossa nação disseram que governos só devem durar para sempre enquanto nos acreditarmos que eles estão trabalhando para nós e se pararmos de acreditar neles, devemos derrubá-los. É o que diz, certo?”
Charlie balançou a cabeça.
“Isso foi há centenas de anos atrás. As coisas são diferentes hoje.”
“O que é diferente?”
“Bem, nós não temos um rei. Eles estavam falando do tipo de governo que existia por que algum idiota muito-muito-muito-velho acreditava que Deus tinha o colocado no poder, e que mataria qualquer um que não concordasse com ele. Nós temos um governo eleito democraticamente...”
“Eu não votei neles” eu disse.
“Então isso te dá direito de explodir um prédio?”
“O quê? Quem falou sobre explodir prédios? Os Yippies e hippies e todas estas pessoas acreditavam que o governo não os ouviam mais - veja como as pessoas que tentam registrar-se para votar no sul foram tratadas! Elas foram surradas e presas e....”
“Alguns foram mortos.” disse Senhorita Galvez. Ela então ergueu a mão e esperou que Charles e eu nos sentássemos. “Estamos quase estourando o tempo hoje, mas quero que saibam que esta foi uma das aulas mais interessantes com que eu trabalhei. Foi uma discussão excelente e aprendi muito com todos vocês. Espero que tenham aprendido também. Obrigado pelas suas contribuições. Eu tenho um crédito extra para aqueles que quiserem participar de um pequeno desafio. Gostaria que escrevessem comparando a reação política contrária à guerra e os movimentos dos direitos civis com a reação atual aos direitos civis e a Guerra contra o Terror. Mínimo de três páginas, mas podem demorar o quanto for preciso. Estou interessada em ver o que pode surgir disso.”
O sino tocou logo depois e todos correram para fora da sala. Fiquei esperando por Senhorita Galvez.
“Marcus?”
“Isso foi demais! Nunca soube dessas coisas sobre os anos 60.”
“Os anos 70 também. Aqui foi um lugar sempre muito excitante de se viver em tempos de mudanças políticas. Eu gostei bastante da sua referência à Declaração... foi muita esperteza sua.”
“Obrigado. Me apareceu de repente. Eu nunca apreciei o que estas palavras queriam dizer antes de hoje.”
“Estas são as palavras que todo professor adora ouvir, Marcus.” ela disse e apertou minha mão. “Estarei esperando ansiosamente para ler seu trabalho.”
#
Comprei o pôster de Emma Goldman no caminho de casa e prendi-o sobre minha mesa, sobre uns pôsteres antigos. Comprei também uma camisa escrita ‘NUNCA ACREDITE’ com um Photoshop de Grover e Elmo chutando os traseiros de Gordon e Susan da Vila Sésamo. Me fez rir. Descobri depois que já havia uns seis concursos online de photoshop para escolher o slogan, em lugares como Fark e Worth1000 e B3TA e centenas de fotos trabalhadas onde se pudesse colocar merchandise.
Mamãe levantou uma sobrancelha ao ver minha camisa e papai balançou a cabeça e me alertou para que não procurasse por encrenca. Me senti um pouco inocentado pela reação.
Ange me achou online de novo e nós flertamos via IM até tarde da noite de novo. A van branca com antenas voltou e desliguei o Xbox até que ela tivesse passado. Todos fazíamos isso.
Ange estava realmente excitada com a coisa da festa. Parecia que ia ser monstruosa. Tantas bandas tinham se inscrito que já falavam de um segundo palco.
> Como eles conseguiram permissão de tocar música no parque a noite inteira? Existem muitas casas por lá!
> Permissão? O que é isso? Me fale mais sobre esta sua permissão, humano.
> Caramba, é ilegal?
> Alôoooo? Tá com medo da lei?
> Justamente
> LOL (Lot Of Laughts = risos)
Eu senti uma premoniçãozinha de nervoso. Quer dizer, eu tinha um encontro com esta garota maravilhosa este fim de semana - bem, tecnicamente era ela quem tinha convidado - para uma rave ilegal. No mínimo isso seria interessante.
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Interessante.
As pessoas começavam a chegar em Dolores Park na tarde de sábado, aparecendo entre os jogadores de frisbee e aqueles caras que passeavam com os cães. Não ficou claro realmente onde o show iria acontecer, mas tinha um monte de policiais e outros tipos disfarçados por lá. Dava para saber quem estava disfarçado porque, como Melequento e Espinhoso, tinham cortes no estilo Castro e o físico dos de Nebraska: sujeitos pesadões com cabelo curto e bigodes por fazer. Eles ficavam por ai, parecendo desajeitados e pouco confortáveis em seus enormes shorts e camisas largas que sem duvida serviam para encobrir seus aparatos ao redor da cintura.
Dolores Park era bonito e ensolarado, com palmeiras, quadras de tênis e várias colinas e árvores aonde as pessoas corriam ou ficavam de bobeira. Os sem-teto dormiam lá de noite, mas também o faziam em toda parte de São Francisco.
Encontrei Ange na livraria anarquista. Tinha sido minha sugestão. Em retrospecto, tinha sido uma sugestão bacana, para mostrar-me para a garota, mas ao mesmo tempo conveniente. Ela lia um livro chamado ‘Up Against the Wall Motherfucker’ (Contra a parede, filho-da-puta) quando cheguei.
“Legal.” eu disse. “Você beija sua mãe com esta boca?”
“Sua mãe não reclama.” ela respondeu. “Na verdade é a história de um grupo de pessoas como os Yippies, mas de Nova Iorque. Todos usavam esta palavra em seus sobrenomes, tipo ‘Ben Filhodaputa’. A idéia era ter um grupo que fizesse e acontecesse, mas que não pudesse ter o nome publicado, para sacanear a mídia. Legal!” Ela devolveu o livro à prateleira e eu pensava agora se devia abraçá-la. As pessoas na Califórnia se abraçam tanto para dizer olá quanto para adeus o tempo todo. Exceto quando não o fazem. E as vezes beijam as bochechas.
Tudo muito confuso.
Ela sinalizou isso para mim quando me puxou para abraçar e puxou minha cabeça para baixo junto dela, beijando-me seco na bochecha e então soprou meu pescoço imitando um peido. Eu ri e a empurrei.
“Quer um burrito?” perguntei.
“É uma pergunta ou uma declaração do óbvio?”
“Nada disso. É uma ordem.”
Comprei alguns adesivos engraçados que diziam “ESTE TELEFONE ESTÁ GRAMPEADO” bem do tamanho certo para serem colados nos receptores dos telefones de rua que ainda se viam na Missão, o tipo de vizinhança onde as pessoas não podem comprar um telefone celular.
Saímos para a noite. Contei a Ange sobre o que tinha visto no parque.
‘Aposto que eles têm uma centena destes caminhões estacionados por todo quarteirão.” ela disse “Para ferrar melhor com a gente.”
“Hum.” Eu olhei à volta “Eu achava que você diria que eles não tinham chance de fazer nada sobre isso.”
“Não acho que seja mesmo a idéia. A idéia é colocar um monte de civis em uma situação onde os policiais terão que decidir: vamos tratar estes pobretões como terroristas? É como interferir com tudo, mas ao invés de usar aparelhos vai ser a música. Você faz interferência, não?”
Às vezes eu esquecia que todos meus amigos não sabiam que Marcus e M1k3y eram a mesma pessoa. “Sim, um pouco.” eu disse.
“É como zoar com eles, só que com um monte de bandas maravilhosas.”
“Entendo.”
Os burritos da Missão eram uma instituição. Baratos, enormes e deliciosos. Imagine um tubo do tamanho de uma bazuca, cheia de carne grelhada temperada, guacamole, salsa, tomates, feijões fritos, arroz, cebolas e coentro. Estava para um Taco Bell assim como um Lamborghini para um carrinho HotWheels.
Havia umas duzentas barraquinhas de burrito na Missão. Eram todas horrorosas, com bancos desconfortáveis e uma decoração mínima - pôsteres desbotados do escritório de turismo do México e fotos-hologramas de Jesus e Maria e música mariachi altíssima. A única coisa que os distinguiam era o tipo exótico de carne que eles usavam. Os lugares mais autênticos tinham cérebros e língua. Nunca comi, mas era legal saber que tinham.
A barraca para qual fomos tinha tanto miolos quanto língua, que não pedimos. Eu escolhi carne assada e ela quis galinha desfiada; cada um pediu um copo grande de horchata.
Assim que sentamos, ela abriu seu burrito e tirou uma garrafinha da bolsa. Era uma latinha de aço escovado do tipo aerossol e que para qualquer um que visse seria uma unidade de spray de pimenta para auto-defesa. Ela espalhou o conteúdo em seu burrito exposto com uma fina e vermelha spray oleoso. Tossi e minha garanta fechou e meus olhos lacrimejaram.
“O que diabos você está fazendo com o pobre e indefeso burrito?”
Ela sorriu para mim. “Sou viciada em comida apimentada. Isso é óleo de capsaicina.”
“Capsaicina...”
“É, o troço que eles põem no spray de pimenta. Este é mais leve, mais diluído. E muito gostoso. Pense como Colirio de Pimenta Cajun, se quiser.”
Meus olhos queimavam só de pensar. “Você tá brincando. Não vai comer isso.”
Suas sobrancelhas se levantaram. “Isso parece um desafio, cara. Olha só!”
Ela fechou o burrito e cuidadosamente o re-enrolou no papel laminado, descascando uma das pontas e a levou à boca. E então mordeu. Eu não podia acreditar que ela tinha feito isso. Quer dizer, basicamente ela usava uma arma em sua comida.
Ela mastigou deliciada. Engoliu. Dava a impressão de estar tendo um delicioso jantar.
“Quer uma mordida?” ela perguntou inocentemente.
“Sim.” respondi. Eu gostava de comida condimentada. Sempre pedia curry com a marca de 4 chilis no menu dos restaurantes paquistaneses.
Descasquei e dei uma bela mordida.
Grande erro.
Sabe aquela sensação quando você morde rábano ou wasabi ou qualquer outra coisa e parece que seu nariz está fechando, ao mesmo tempo que a traquéia e sua cabeça se enchesse de ar quente que tenta encontrar um caminho através dos olhos e narinas? Parece como se vapor fosse sair dos ouvidos como nos personagens dos desenhos animados?
Pois foi bem pior.
Foi como colocar a mão dentro de um forno quente, só que não era a mão, mas o interior da sua cabeça do seu esôfago até o estômago. Meu corpo todo encheu-se de suor e eu sufoquei.
Sem dizer nada ela me passou minha horchata que eu despejei pela boca sugando tudo, bebendo praticamente metade num gole.
“Tem uma escala, a escala Scoville, que nós, os amantes do chili, usamos para falar sobre como uma pimenta é forte. Capsaicina pura tem mais ou menos 15 milhões de Scovilles. Tabasco umas 2.500. O spray de pimenta chega a uns 3 milhões. Isso aqui tem uns 100 mil. Levei um ano para aperfeiçoar. Os caras que são usuários brabos conseguem meio milhão, ou duzentas vezes mais forte que Tabasco. É de enlouquecer. Com um grau desses, seu cérebro se inunda de endorfinas. É melhor para pirar do que haxixe. E é bom para você.”
Estava começando a conseguir respirar de novo.
“E é claro que você consegue um bom calor quando vai fazer o número 2.” disse piscando para mim.
Caramba!
“Você é maluca!”
“Isso é lindo, vindo de um homem cujo hobby é montar e esmagar laptops.” ela disse.
“Touché!” eu disse.
“Quer mais?” ela levantou seu burrito.
“Eu passo!” disse tão rápido que acabamos rindo.
Quando deixamos o lugar e rumamos para o Dolores Park e ela colocou seu braço a volta da minha cintura, e achei que ela tinha o tamanho certo para eu colocar meu braço a volta dos ombros dela. Isso era novo para mim. Nunca fui um cara alto e as garotas que namorei eram da minha altura - meninas adolescentes crescem mais rápido do que meninos, o que era uma piada cruel da natureza.
Agora eu me sentia bem.
Viramos a esquina da rua 20 e caminhamos até Dolores. Antes mesmo do primeiro passo, dava para ouvir o barulho. Era como um milhão de abelhas zunindo. Muita gente ia em direção ao parque e quando olhei para lá. vi que tinha umas cem vez mais gente do que antes, quando fui encontrar Ange.
Aquilo fazia o sangue correr mais quente. Era uma bela noite e nos íamos festejar, festejar de verdade, como se não houvesse amanhã. “Coma, beba e seja feliz, pois amanhã estaremos mortos.”
Sem falar nada nós começamos a correr. Havia muitos policiais, expressões tensas, mas o que diabos iriam fazer? Tinha gente demais no parque. Eu não era bom em estimar multidões. Os jornais depois anunciariam que os organizadores disseram que eram 20 mil pessoas, a polícia diria 5 mil. Talvez isso significava que fossem 12.500.
Fosse o que fosse, era mais do que eu jamais vira, como parte de um não esquematizado, não sancionado evento ilegal.
Logo estávamos no meio de tudo. Não posso jurar, mas acho que não tinha ninguém ali com mais de 25 naquela compressão de corpos. Todos sorriam. Alguns garotos também, 10 ou 12 anos e isso me fez sentir melhor. Ninguém faria nada estúpido com crianças tão pequenas na multidão. Ninguém iria querer ver crianças pequenas feridas. Aquela seria uma gloriosa noite de celebração primaveril.
Achava que o melhor a fazer era ir até as quadras de tênis. Abrimos nosso caminho através do povo, e para ficar juntos, demos as mãos Ficar juntos não significava precisar entrelaçar os dedos. Isso era apenas por prazer, e foi muito prazeroso.
As bandas todas estavam nas quadras, cm suas guitarras e teclados e até um set de baterias. Mais tarde, na Xnet, eu acharia um vídeo no Flickr deles camuflando as coisas, cada peça, em sacolas de ginástica e debaixo das roupas. E aquelas enormes caixas de som, do tipo que você vê em lojas automotivas de material e entre eles pilhas de baterias. Eu ri. Aquilo era genial. Era como eles iriam eletrificar seus equipamentos. De onde estava, dava para ver que eram células de carros híbridos, um Prius. Alguém tinha depenado um carro ecológico para fornecer eletricidade a uma noite de diversões. As baterias estavam ao longo das cercas das quadras, carregando e ligadas através de fios em ligação corrente. Contei 200 baterias! Cristo! Aquelas coisas pesavam uma tonelada.
Não tinha jeito de organizar isso sem email e wikis e mailing lists. Não tinha jeito das pessoas espertas como eram ter usado a internet pública. Aquilo era coisa da Xnet, eu apostava.
Enquanto as bandas ligavam seus aparelhos nós ficamos andando no meio da multidão. Vi Trudy Doo à distância, na quadra de tênis. Ela parecia estar numa gaiola, como um lutador profissional de luta livre. Ela vestia uma camiseta de alças rasgada e o cabelo comprido solto, com tranças fluorescentes rosa até a cintura. Usava pintura de camuflagem das forças armadas e botas góticas gigantescas com presilhas de metal. Naquele instante ela pegava uma jaqueta de motociclista, tão gasta quanto as luvas de um pegador de beisebol, e a vestia como armadura. Eu entendi por quê.
Tentei acenar para ela, para impressionar Ange, imagino, mas ela não me viu e eu devia parecer um doido; então, parei. A energia da multidão era maravilhosa. Você ouve pessoas falando sobre vibração e energia, mas até que você experimenta isso, provavelmente pensa que é só uma figura de retórica.
Mas não é, não. São os sorrisos, contagiosos e grandes como melancias, em cada rosto. Todos oscilando um pouquinho, ao som de um ritmo inaudível, os ombros balançando. A conversa rolava, risos e gargalhadas. O tom de cada voz alto e excitado, como se fossem fogos de artifício. E não há nada a fazer a não ser participar daquilo. Por que você é parte daquilo.
Quando chegou a vez das bandas eu já estava absolutamente louco no meio da vibração da galera. A abertura foi um tipo de turbo-folk sérvio, que eu não sabia como dançar. Sei dançar dois tipos de musica: trance (você se mistura e deixa a musica te levar) e punk (sai se batendo em tudo até se machucar ou cair exausto) a musica seguinte foi hip-hop de Oakland, com uma banda de trash metal de fundo, que era melhor do que isso pode parecer. E então algum tipo de pop chiclete. Ai então as Putas Velozes tomaram o palco e Trudy Doo pegou o microfone.
“Meu nome é Trudy Doo e você é um idiota se acreditar em mim. Tenho trinta e dois e é já tarde demais para mim. Estou perdida. Estou presa à maneira antiga de se pensar. Ainda deixo que outras pessoas tirem minha liberdade. Vocês são a primeira geração a crescer no Gulag Americano e vocês sabem que a sua liberdade vale cada miserável centavo!”
A multidão veio abaixo. Ela tocava rápido pequenos acordes nervosos em sua guitarra e sua baixista, uma guria gorda enorme com corte de cabelos lésbico e botas ainda maiores e um sorriso de abrir latas de cerveja seguia ainda mais rápido e pesado. Eu queria pular. Pulei. Ange pulava comigo. Suávamos livres ao anoitecer fedido de transpiração e maconha. Os corpos quentes se batendo e de todos os lados. Todos pulavam também.
“Não acredite em ninguém com mais de 25!” ela gritava.
Nós gritávamos. Nós éramos a garganta de um só enorme animal, gritando.
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
Ela espancou sua guitarra e a outra guitarrista, uma fadinha com piercings abundantes na cara atacou um riff wheedle-dee-wheedle-dee-dee arrebatador lá em cima.
“É a droga da nossa cidade! É a droga do nosso país! Nenhum terrorista vai tirar isso da gente enquanto formos livres. Se não formos mais livres, eles vencem! Peguem de volta! Tomem de volta! Vocês são jovens o bastante e estúpidos o bastante para não saber que não podemos vencer, então vocês são os únicos que podem nos guiar para a vitória! TOMEM DE VOLTA!”
“TOMEM DE VOLTA!” nós gritávamos. Ela arrancava as notas em sua guitarra. Nós gritávamos de volta, alto de verdade.
#
Dancei até ficar tão cansado que não conseguia dar mais um passo. Ange dançava ao meu lado. Tecnicamente estivemos esfregando nossos corpos suados um contra o outro por horas, mas, acredite ou não, não era coisa de sexo. Estávamos apenas dançando, perdidos na batida divina e gritando “Tomem de volta! Tomem de volta!”
Quando não podia mais, eu agarrei a mão dela e ela a apertou como se estivesse caindo do alto de um prédio. Me levou para longe da multidão, onde o ar era fresco. Lá, nos limites do parque deixamos nossos corpos suados ao ar frio instantaneamente resfriar. Nós tremíamos e ela jogou seus braços em volta do meu corpo. “Me aqueça.” ela ordenou. Eu não precisava da dica. Abracei Angie. Seu coração ecoava as batidas distantes e rápidas do palco - a musica era rápida e furiosa e sem palavras.
Ela cheirava a suor, um cheiro amargo, penetrante e ótimo. Sabia que estava cheirando a suor também. Meu nariz no topo da sua cabeça e seu rosto na minha clavícula. Suas mãos se moveram para meu pescoço e o puxou.
“Vem cá embaixo, não trouxe escada.” foi o que ela disse, e eu tentei sorrir, mas era difícil sorrir quando está se beijando.
Como disse, eu tinha beijado três garotas na minha vida. Duas nunca tinham beijado ninguém antes. Outra tinha namorado desde os 12 anos. Ela tinha experiência.
Nenhuma beijava como Ange. Ela fazia com que toda sua boca ficasse macia, como o interior de uma fruta madura e não empurrou sua língua na minha boca, mas a escorregou para lá e sugou meus lábios ao mesmo tempo, como se minha boca e a sua se fundissem. Ouvi a mim mesmo gemendo e a agarrei e a apertei forte.
Lenta e gentilmente deitamos na grama. Deitamos de lado, agarrados um no outro, beijando e beijando. O mundo desaparecera e só havia o beijo.
Minhas mãos acharam seu traseiro, sua cintura. A beirada da sua camisa. Seu estômago morno, seu umbigo macio. Minha mão continuava a subir. Ela gemeu também.
“Aqui não.” ela disse “Vamos mais para lá.” Apontou para o outro lado da rua para uma igreja branca que dava seu nome ao parque e à Missão. De mãos dadas nos movemos rápidos e atravessamos até a igreja. Tinha pilares frontais enormes. Ela colocou minha costas contra um deles e puxou meu rosto para junto do dela de novo. Minhas mãos foram rápidas de novo para sua camisa e subindo pela frente.
“Tem que abrir pelas costas.” ela sussurrou na minha boca. Um erro enorme. Movi minhas mãos à volta das suas costas, que eram fortes e achei a presilha com os dedos, que tremiam. Apalpei por algum tempo, pensando em todas aquelas piadas sobre como os garotos são péssimos em tirar um sutiã. Eu era. Então a presilha soltou-se livre. Ela arfou na minha boca, eu deslizei as mãos sentindo a umidade de suas axilas - que eram sexys e não ásperas por algum motivo - e toquei de leve os lados de seus seios.
Foi quando as sirenes começaram a ser ouvidas.
Mais alto do que qualquer coisa que já ouvi. Um som que era quase uma sensação física, como se alguém gritando na sua orelha. Alto, tão alto que os ouvidos não conseguiam processar e então mais alto ainda.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE” ouviu-se a voz, com Deus furioso em meu cérebro.
“ESTA REUNIÃO É ILEGAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE.”
A banda parou de tocar. O barulho da multidão além da rua mudou. Medo. Ódio.
Ouvi o clique do sistema de amplificadores dos carros de som e baterias nas quadras de tênis.
“TOMEM DE VOLTA!”
Foi um grito de desafio, como o som e um grito do surf ou gritado de um penhasco.
“TOMEM DE VOLTA!”
A multidão gritou de volta o que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem.
“TOMEM DE VOLTA!”’ eles cantavam “TOMEM DE VOLTA! TOMEM DE VOLTA! TOMEM DE VOLTA!”
A polícia se movia em linhas, carregando escudos plásticos, vestidos como Darth Vader, os capacetes cobrindo os rostos. Cada um tinha um cassetete preto e óculos infra-vermelhos. Pareciam soldados de um filme futurista de guerra. Deram um passo adiante em uníssono e cada um deles bateu com o cassetete no escudo, um som de coisa se partindo, como o chão se abrindo. Outro passo, outra batida. Já cercavam o parque e se aproximavam agora.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!” disse a voz de Deus de novo. Agora chegaram os helicópteros, mas sem aqueles holofotes poderosos. Os óculos para visão noturna, é claro. Tinha miras infravermelhas nos helicópteros também. Eu empurrei Ange para a entrada da igreja, nos protegendo.
“TOMEM DE VOLTA!” trovejou o amplificador. Era o grito rebelde de Trudy Doo e ouvi sua guitarra cuspindo acordes e o baterista e então o baixo pesado.
“TOMEM DE VOLTA!” a multidão respondeu e partiram fervendo para fora do parque e para as linhas de policiais.
Nunca estive numa guerra, mas agora sei como deve se parecer. Quando garotos assustados atravessam um campo atacando as forças inimigas, sabendo o que virá, correndo de qualquer jeito, gritando.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!” disse a voz de Deus, que vinha dos caminhões estacionados ao redor do parque, caminhões que surgiram nos últimos segundos.
Então veio a névoa. Caindo dos helicópteros, só pegamos parte dela. Me fez sentir como se fosse desmaiar, fez meu nariz parecer estar sendo perfurado por picadores de gelo. Meus olhos incharam e lacrimejaram e a garganta fechou-se.
Spray de pimenta. Não o de 100 mil Scovilles. O de 1 milhão e meio. Estavam atirando gás na multidão.
Não vi o que aconteceu em seguida, mas ouvi, acima do som de Ange e eu tossindo abraçados. Primeiro som de tosse, de vômito. Guitarra, bateria e baixo pararam de súbito.
E os gritos. Gritos por um longo tempo. Quando consegui ver de novo, os policiais tinham levantado as viseiras para trás da cabeça e os helicópteros derramavam tanta luz sobre Dolores Park que era como se fosse dia. Todos olhavam para o parque, o que era bom, por que com tanta luz como aquela nos éramos totalmente visíveis.
“O que a gente vai fazer?”’ perguntou Ange. Sua voz veio espremida, com medo. Não acreditei, por um instante, que eu pudesse falar. Engoli diversas vezes.
“Vamos embora!” eu disse. “É tudo que podemos fazer. Sair daqui. Como se a gente só estivesse passando por aqui. Descemos a Dolores, viramos a esquerda e reto até a rua 16. Como se a gente só estivesse passeando. Como se não fosse problema nosso.”
“Nunca vai funcionar.”
“É o que dá para fazer.”
“Não acha melhor a gente correr?”
“Não. Se a gente correr, eles vão nos perseguir. Se a gente andar, eles vão pensar que não fizemos nada e vão nos deixar em paz. Eles têm um monte de gente para deter. Vão ficar ocupados por muito tempo.”
O parque estava repleto de corpos caídos, jovens e adultos cobrindo o rosto com as mãos e tossindo. Os policiais os arrastavam pelas axilas, então prendiam os braços com algemas de plástico e os empurravam para dentro dos caminhões como bonecas de pano.
“OK?” perguntei.
“OK!” ela disse.
E foi o que fizemos. Caminhamos, de mãos dadas, rápidos, com pressa, como duas pessoas evitando a confusão feita por outros. O tipo de andar que você adota quando quer fingir que não viu o mendigo ou não quer se envolver com uma briga de rua.
E funcionou.
Chegamos à esquina e viramos e continuamos indo. Nenhum de nós se atreveu a falar por dois quarteirões. Então arfei sem dar conta que estava prendendo a respiração até então.
Chegamos à rua 16 e seguíamos sem direção à Missão. Normalmente sempre há um pessoal bem assustador às 2 da manhã de um sábado a noite. Naquela noite foi um alivio - os mesmos vendedores de drogas e prostitutas e bêbados de sempre. Nenhum tira com cassetete, nem gás.
“Hum.” respirei o ar e disse “Café?”
“Casa.” ela respondeu. “Acho melhor ir para casa. Deixa o café para depois.”
“Tá.” Ela morava em Hayes Valley. Vi um táxi perto e fiz sinal. Um pequeno milagre - nunca há taxis disponíveis em São Francisco quando se precisa de um.
“Tem um cabfare (cartão eletrônico de passagem) para casa?”
“Sim.” ela respondeu. O taxista olhou para nós da sua janela. Abri a porta de trás antes que ele pudesse arrancar.
“Boa noite.” falei.
Ela colocou suas mãos no meu rosto e o puxou. Beijou a minha boca com força, nada sexual nisso, mas de forma íntima.
“Boa noite.” sussurrou no meu ouvido e escorregou para dentro do táxi.
Com a cabeça flutuando e envergonhado por ter deixado todos os Xnetters à mercê da DHS e da SFPD, tomei rumo de casa.
#
Segunda de manhã Fred Benson estava junto da mesa de Senhorita Galvez.
‘Senhorita Galvez não dará aulas mais para esta classe.’ disse assim que nos sentamos. Tinha um ar de auto-satisfação que reconheci imediatamente. Dei uma olhada discreta em Charlie. Ele sorria como se fosse seu aniversario e tivesse ganhado o melhor presente do mundo.
Levantei minha mão.
“Por que não?”
“É política da Comissão não discutir assuntos empregatícios com ninguém exceto os empregados e o comitê disciplinar.” Ele disse sem sequer esconder o quanto estava contente com o que dizia.
“Vocês estarão começando uma nova matéria hoje, segurança nacional. Seus computadores escolares já têm textos novos. Por favor, abram os seus computadores.”
A tela de abertura tinha o logo da DHS e o título: “O QUE CADA AMERICANO DEVERIA SABER SOBRE SEGURANÇA NACIONAL.”
Eu queria atirar meu computador escolar no chão.
#
Combinei encontrar Ange numa cafeteria no seu bairro após a escola. Peguei o BART e sentei entre dois caras vestindo ternos. Estavam lendo o Chronicle, que mostrava em uma página inteira o obituário da baderna dos jovens em Missão Dolores Park. Ficavam reprovando e cacarejando sobre isso. Então um disse para o outro: “É como se estivessem fazendo um tipo de lavagem cerebral ou algo assim. Jesus Cristo, seremos sempre tão estúpidos?”
Tive que me levantar e trocar de assento.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 12 [ Download ]
Este capítulo é dedicado à Forbidden Planet, a cadeia britânica de livros de FC e fantasia, brinquedos, quadrinhos e vídeos. A Forbidden Planet tem lojas por todo Reino Unido e também em Manhattan e Dublin na Irlanda. É altamente perigoso botar os pés dentro da Forbidden Planet - raramente escapo com minha carteira intacta. Forbidden Planet lidera quanto a trazer as audiências gigantescas da TV e dos filmes de FC em contato com os livros de FC - algo absolutamente crítico para o futuro do gênero.
Forbidden Planet, UK, Dublin e New York City
Senhorita Galvez tinha aberto um amplo sorriso.
“Alguém sabe de onde ele tirou isso?”
Vários responderam em coro: “A Declaração da Independência.”
Eu fiz que sim.
“Por que leu isso para nós, Marcus?”
“Por que me parece que os fundadores da nossa nação disseram que governos só devem durar para sempre enquanto nos acreditarmos que eles estão trabalhando para nós e se pararmos de acreditar neles, devemos derrubá-los. É o que diz, certo?”
Charlie balançou a cabeça.
“Isso foi há centenas de anos atrás. As coisas são diferentes hoje.”
“O que é diferente?”
“Bem, nós não temos um rei. Eles estavam falando do tipo de governo que existia por que algum idiota muito-muito-muito-velho acreditava que Deus tinha o colocado no poder, e que mataria qualquer um que não concordasse com ele. Nós temos um governo eleito democraticamente...”
“Eu não votei neles” eu disse.
“Então isso te dá direito de explodir um prédio?”
“O quê? Quem falou sobre explodir prédios? Os Yippies e hippies e todas estas pessoas acreditavam que o governo não os ouviam mais - veja como as pessoas que tentam registrar-se para votar no sul foram tratadas! Elas foram surradas e presas e....”
“Alguns foram mortos.” disse Senhorita Galvez. Ela então ergueu a mão e esperou que Charles e eu nos sentássemos. “Estamos quase estourando o tempo hoje, mas quero que saibam que esta foi uma das aulas mais interessantes com que eu trabalhei. Foi uma discussão excelente e aprendi muito com todos vocês. Espero que tenham aprendido também. Obrigado pelas suas contribuições. Eu tenho um crédito extra para aqueles que quiserem participar de um pequeno desafio. Gostaria que escrevessem comparando a reação política contrária à guerra e os movimentos dos direitos civis com a reação atual aos direitos civis e a Guerra contra o Terror. Mínimo de três páginas, mas podem demorar o quanto for preciso. Estou interessada em ver o que pode surgir disso.”
O sino tocou logo depois e todos correram para fora da sala. Fiquei esperando por Senhorita Galvez.
“Marcus?”
“Isso foi demais! Nunca soube dessas coisas sobre os anos 60.”
“Os anos 70 também. Aqui foi um lugar sempre muito excitante de se viver em tempos de mudanças políticas. Eu gostei bastante da sua referência à Declaração... foi muita esperteza sua.”
“Obrigado. Me apareceu de repente. Eu nunca apreciei o que estas palavras queriam dizer antes de hoje.”
“Estas são as palavras que todo professor adora ouvir, Marcus.” ela disse e apertou minha mão. “Estarei esperando ansiosamente para ler seu trabalho.”
#
Comprei o pôster de Emma Goldman no caminho de casa e prendi-o sobre minha mesa, sobre uns pôsteres antigos. Comprei também uma camisa escrita ‘NUNCA ACREDITE’ com um Photoshop de Grover e Elmo chutando os traseiros de Gordon e Susan da Vila Sésamo. Me fez rir. Descobri depois que já havia uns seis concursos online de photoshop para escolher o slogan, em lugares como Fark e Worth1000 e B3TA e centenas de fotos trabalhadas onde se pudesse colocar merchandise.
Mamãe levantou uma sobrancelha ao ver minha camisa e papai balançou a cabeça e me alertou para que não procurasse por encrenca. Me senti um pouco inocentado pela reação.
Ange me achou online de novo e nós flertamos via IM até tarde da noite de novo. A van branca com antenas voltou e desliguei o Xbox até que ela tivesse passado. Todos fazíamos isso.
Ange estava realmente excitada com a coisa da festa. Parecia que ia ser monstruosa. Tantas bandas tinham se inscrito que já falavam de um segundo palco.
> Como eles conseguiram permissão de tocar música no parque a noite inteira? Existem muitas casas por lá!
> Permissão? O que é isso? Me fale mais sobre esta sua permissão, humano.
> Caramba, é ilegal?
> Alôoooo? Tá com medo da lei?
> Justamente
> LOL (Lot Of Laughts = risos)
Eu senti uma premoniçãozinha de nervoso. Quer dizer, eu tinha um encontro com esta garota maravilhosa este fim de semana - bem, tecnicamente era ela quem tinha convidado - para uma rave ilegal. No mínimo isso seria interessante.
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Interessante.
As pessoas começavam a chegar em Dolores Park na tarde de sábado, aparecendo entre os jogadores de frisbee e aqueles caras que passeavam com os cães. Não ficou claro realmente onde o show iria acontecer, mas tinha um monte de policiais e outros tipos disfarçados por lá. Dava para saber quem estava disfarçado porque, como Melequento e Espinhoso, tinham cortes no estilo Castro e o físico dos de Nebraska: sujeitos pesadões com cabelo curto e bigodes por fazer. Eles ficavam por ai, parecendo desajeitados e pouco confortáveis em seus enormes shorts e camisas largas que sem duvida serviam para encobrir seus aparatos ao redor da cintura.
Dolores Park era bonito e ensolarado, com palmeiras, quadras de tênis e várias colinas e árvores aonde as pessoas corriam ou ficavam de bobeira. Os sem-teto dormiam lá de noite, mas também o faziam em toda parte de São Francisco.
Encontrei Ange na livraria anarquista. Tinha sido minha sugestão. Em retrospecto, tinha sido uma sugestão bacana, para mostrar-me para a garota, mas ao mesmo tempo conveniente. Ela lia um livro chamado ‘Up Against the Wall Motherfucker’ (Contra a parede, filho-da-puta) quando cheguei.
“Legal.” eu disse. “Você beija sua mãe com esta boca?”
“Sua mãe não reclama.” ela respondeu. “Na verdade é a história de um grupo de pessoas como os Yippies, mas de Nova Iorque. Todos usavam esta palavra em seus sobrenomes, tipo ‘Ben Filhodaputa’. A idéia era ter um grupo que fizesse e acontecesse, mas que não pudesse ter o nome publicado, para sacanear a mídia. Legal!” Ela devolveu o livro à prateleira e eu pensava agora se devia abraçá-la. As pessoas na Califórnia se abraçam tanto para dizer olá quanto para adeus o tempo todo. Exceto quando não o fazem. E as vezes beijam as bochechas.
Tudo muito confuso.
Ela sinalizou isso para mim quando me puxou para abraçar e puxou minha cabeça para baixo junto dela, beijando-me seco na bochecha e então soprou meu pescoço imitando um peido. Eu ri e a empurrei.
“Quer um burrito?” perguntei.
“É uma pergunta ou uma declaração do óbvio?”
“Nada disso. É uma ordem.”
Comprei alguns adesivos engraçados que diziam “ESTE TELEFONE ESTÁ GRAMPEADO” bem do tamanho certo para serem colados nos receptores dos telefones de rua que ainda se viam na Missão, o tipo de vizinhança onde as pessoas não podem comprar um telefone celular.
Saímos para a noite. Contei a Ange sobre o que tinha visto no parque.
‘Aposto que eles têm uma centena destes caminhões estacionados por todo quarteirão.” ela disse “Para ferrar melhor com a gente.”
“Hum.” Eu olhei à volta “Eu achava que você diria que eles não tinham chance de fazer nada sobre isso.”
“Não acho que seja mesmo a idéia. A idéia é colocar um monte de civis em uma situação onde os policiais terão que decidir: vamos tratar estes pobretões como terroristas? É como interferir com tudo, mas ao invés de usar aparelhos vai ser a música. Você faz interferência, não?”
Às vezes eu esquecia que todos meus amigos não sabiam que Marcus e M1k3y eram a mesma pessoa. “Sim, um pouco.” eu disse.
“É como zoar com eles, só que com um monte de bandas maravilhosas.”
“Entendo.”
Os burritos da Missão eram uma instituição. Baratos, enormes e deliciosos. Imagine um tubo do tamanho de uma bazuca, cheia de carne grelhada temperada, guacamole, salsa, tomates, feijões fritos, arroz, cebolas e coentro. Estava para um Taco Bell assim como um Lamborghini para um carrinho HotWheels.
Havia umas duzentas barraquinhas de burrito na Missão. Eram todas horrorosas, com bancos desconfortáveis e uma decoração mínima - pôsteres desbotados do escritório de turismo do México e fotos-hologramas de Jesus e Maria e música mariachi altíssima. A única coisa que os distinguiam era o tipo exótico de carne que eles usavam. Os lugares mais autênticos tinham cérebros e língua. Nunca comi, mas era legal saber que tinham.
A barraca para qual fomos tinha tanto miolos quanto língua, que não pedimos. Eu escolhi carne assada e ela quis galinha desfiada; cada um pediu um copo grande de horchata.
Assim que sentamos, ela abriu seu burrito e tirou uma garrafinha da bolsa. Era uma latinha de aço escovado do tipo aerossol e que para qualquer um que visse seria uma unidade de spray de pimenta para auto-defesa. Ela espalhou o conteúdo em seu burrito exposto com uma fina e vermelha spray oleoso. Tossi e minha garanta fechou e meus olhos lacrimejaram.
“O que diabos você está fazendo com o pobre e indefeso burrito?”
Ela sorriu para mim. “Sou viciada em comida apimentada. Isso é óleo de capsaicina.”
“Capsaicina...”
“É, o troço que eles põem no spray de pimenta. Este é mais leve, mais diluído. E muito gostoso. Pense como Colirio de Pimenta Cajun, se quiser.”
Meus olhos queimavam só de pensar. “Você tá brincando. Não vai comer isso.”
Suas sobrancelhas se levantaram. “Isso parece um desafio, cara. Olha só!”
Ela fechou o burrito e cuidadosamente o re-enrolou no papel laminado, descascando uma das pontas e a levou à boca. E então mordeu. Eu não podia acreditar que ela tinha feito isso. Quer dizer, basicamente ela usava uma arma em sua comida.
Ela mastigou deliciada. Engoliu. Dava a impressão de estar tendo um delicioso jantar.
“Quer uma mordida?” ela perguntou inocentemente.
“Sim.” respondi. Eu gostava de comida condimentada. Sempre pedia curry com a marca de 4 chilis no menu dos restaurantes paquistaneses.
Descasquei e dei uma bela mordida.
Grande erro.
Sabe aquela sensação quando você morde rábano ou wasabi ou qualquer outra coisa e parece que seu nariz está fechando, ao mesmo tempo que a traquéia e sua cabeça se enchesse de ar quente que tenta encontrar um caminho através dos olhos e narinas? Parece como se vapor fosse sair dos ouvidos como nos personagens dos desenhos animados?
Pois foi bem pior.
Foi como colocar a mão dentro de um forno quente, só que não era a mão, mas o interior da sua cabeça do seu esôfago até o estômago. Meu corpo todo encheu-se de suor e eu sufoquei.
Sem dizer nada ela me passou minha horchata que eu despejei pela boca sugando tudo, bebendo praticamente metade num gole.
“Tem uma escala, a escala Scoville, que nós, os amantes do chili, usamos para falar sobre como uma pimenta é forte. Capsaicina pura tem mais ou menos 15 milhões de Scovilles. Tabasco umas 2.500. O spray de pimenta chega a uns 3 milhões. Isso aqui tem uns 100 mil. Levei um ano para aperfeiçoar. Os caras que são usuários brabos conseguem meio milhão, ou duzentas vezes mais forte que Tabasco. É de enlouquecer. Com um grau desses, seu cérebro se inunda de endorfinas. É melhor para pirar do que haxixe. E é bom para você.”
Estava começando a conseguir respirar de novo.
“E é claro que você consegue um bom calor quando vai fazer o número 2.” disse piscando para mim.
Caramba!
“Você é maluca!”
“Isso é lindo, vindo de um homem cujo hobby é montar e esmagar laptops.” ela disse.
“Touché!” eu disse.
“Quer mais?” ela levantou seu burrito.
“Eu passo!” disse tão rápido que acabamos rindo.
Quando deixamos o lugar e rumamos para o Dolores Park e ela colocou seu braço a volta da minha cintura, e achei que ela tinha o tamanho certo para eu colocar meu braço a volta dos ombros dela. Isso era novo para mim. Nunca fui um cara alto e as garotas que namorei eram da minha altura - meninas adolescentes crescem mais rápido do que meninos, o que era uma piada cruel da natureza.
Agora eu me sentia bem.
Viramos a esquina da rua 20 e caminhamos até Dolores. Antes mesmo do primeiro passo, dava para ouvir o barulho. Era como um milhão de abelhas zunindo. Muita gente ia em direção ao parque e quando olhei para lá. vi que tinha umas cem vez mais gente do que antes, quando fui encontrar Ange.
Aquilo fazia o sangue correr mais quente. Era uma bela noite e nos íamos festejar, festejar de verdade, como se não houvesse amanhã. “Coma, beba e seja feliz, pois amanhã estaremos mortos.”
Sem falar nada nós começamos a correr. Havia muitos policiais, expressões tensas, mas o que diabos iriam fazer? Tinha gente demais no parque. Eu não era bom em estimar multidões. Os jornais depois anunciariam que os organizadores disseram que eram 20 mil pessoas, a polícia diria 5 mil. Talvez isso significava que fossem 12.500.
Fosse o que fosse, era mais do que eu jamais vira, como parte de um não esquematizado, não sancionado evento ilegal.
Logo estávamos no meio de tudo. Não posso jurar, mas acho que não tinha ninguém ali com mais de 25 naquela compressão de corpos. Todos sorriam. Alguns garotos também, 10 ou 12 anos e isso me fez sentir melhor. Ninguém faria nada estúpido com crianças tão pequenas na multidão. Ninguém iria querer ver crianças pequenas feridas. Aquela seria uma gloriosa noite de celebração primaveril.
Achava que o melhor a fazer era ir até as quadras de tênis. Abrimos nosso caminho através do povo, e para ficar juntos, demos as mãos Ficar juntos não significava precisar entrelaçar os dedos. Isso era apenas por prazer, e foi muito prazeroso.
As bandas todas estavam nas quadras, cm suas guitarras e teclados e até um set de baterias. Mais tarde, na Xnet, eu acharia um vídeo no Flickr deles camuflando as coisas, cada peça, em sacolas de ginástica e debaixo das roupas. E aquelas enormes caixas de som, do tipo que você vê em lojas automotivas de material e entre eles pilhas de baterias. Eu ri. Aquilo era genial. Era como eles iriam eletrificar seus equipamentos. De onde estava, dava para ver que eram células de carros híbridos, um Prius. Alguém tinha depenado um carro ecológico para fornecer eletricidade a uma noite de diversões. As baterias estavam ao longo das cercas das quadras, carregando e ligadas através de fios em ligação corrente. Contei 200 baterias! Cristo! Aquelas coisas pesavam uma tonelada.
Não tinha jeito de organizar isso sem email e wikis e mailing lists. Não tinha jeito das pessoas espertas como eram ter usado a internet pública. Aquilo era coisa da Xnet, eu apostava.
Enquanto as bandas ligavam seus aparelhos nós ficamos andando no meio da multidão. Vi Trudy Doo à distância, na quadra de tênis. Ela parecia estar numa gaiola, como um lutador profissional de luta livre. Ela vestia uma camiseta de alças rasgada e o cabelo comprido solto, com tranças fluorescentes rosa até a cintura. Usava pintura de camuflagem das forças armadas e botas góticas gigantescas com presilhas de metal. Naquele instante ela pegava uma jaqueta de motociclista, tão gasta quanto as luvas de um pegador de beisebol, e a vestia como armadura. Eu entendi por quê.
Tentei acenar para ela, para impressionar Ange, imagino, mas ela não me viu e eu devia parecer um doido; então, parei. A energia da multidão era maravilhosa. Você ouve pessoas falando sobre vibração e energia, mas até que você experimenta isso, provavelmente pensa que é só uma figura de retórica.
Mas não é, não. São os sorrisos, contagiosos e grandes como melancias, em cada rosto. Todos oscilando um pouquinho, ao som de um ritmo inaudível, os ombros balançando. A conversa rolava, risos e gargalhadas. O tom de cada voz alto e excitado, como se fossem fogos de artifício. E não há nada a fazer a não ser participar daquilo. Por que você é parte daquilo.
Quando chegou a vez das bandas eu já estava absolutamente louco no meio da vibração da galera. A abertura foi um tipo de turbo-folk sérvio, que eu não sabia como dançar. Sei dançar dois tipos de musica: trance (você se mistura e deixa a musica te levar) e punk (sai se batendo em tudo até se machucar ou cair exausto) a musica seguinte foi hip-hop de Oakland, com uma banda de trash metal de fundo, que era melhor do que isso pode parecer. E então algum tipo de pop chiclete. Ai então as Putas Velozes tomaram o palco e Trudy Doo pegou o microfone.
“Meu nome é Trudy Doo e você é um idiota se acreditar em mim. Tenho trinta e dois e é já tarde demais para mim. Estou perdida. Estou presa à maneira antiga de se pensar. Ainda deixo que outras pessoas tirem minha liberdade. Vocês são a primeira geração a crescer no Gulag Americano e vocês sabem que a sua liberdade vale cada miserável centavo!”
A multidão veio abaixo. Ela tocava rápido pequenos acordes nervosos em sua guitarra e sua baixista, uma guria gorda enorme com corte de cabelos lésbico e botas ainda maiores e um sorriso de abrir latas de cerveja seguia ainda mais rápido e pesado. Eu queria pular. Pulei. Ange pulava comigo. Suávamos livres ao anoitecer fedido de transpiração e maconha. Os corpos quentes se batendo e de todos os lados. Todos pulavam também.
“Não acredite em ninguém com mais de 25!” ela gritava.
Nós gritávamos. Nós éramos a garganta de um só enorme animal, gritando.
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
Ela espancou sua guitarra e a outra guitarrista, uma fadinha com piercings abundantes na cara atacou um riff wheedle-dee-wheedle-dee-dee arrebatador lá em cima.
“É a droga da nossa cidade! É a droga do nosso país! Nenhum terrorista vai tirar isso da gente enquanto formos livres. Se não formos mais livres, eles vencem! Peguem de volta! Tomem de volta! Vocês são jovens o bastante e estúpidos o bastante para não saber que não podemos vencer, então vocês são os únicos que podem nos guiar para a vitória! TOMEM DE VOLTA!”
“TOMEM DE VOLTA!” nós gritávamos. Ela arrancava as notas em sua guitarra. Nós gritávamos de volta, alto de verdade.
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Dancei até ficar tão cansado que não conseguia dar mais um passo. Ange dançava ao meu lado. Tecnicamente estivemos esfregando nossos corpos suados um contra o outro por horas, mas, acredite ou não, não era coisa de sexo. Estávamos apenas dançando, perdidos na batida divina e gritando “Tomem de volta! Tomem de volta!”
Quando não podia mais, eu agarrei a mão dela e ela a apertou como se estivesse caindo do alto de um prédio. Me levou para longe da multidão, onde o ar era fresco. Lá, nos limites do parque deixamos nossos corpos suados ao ar frio instantaneamente resfriar. Nós tremíamos e ela jogou seus braços em volta do meu corpo. “Me aqueça.” ela ordenou. Eu não precisava da dica. Abracei Angie. Seu coração ecoava as batidas distantes e rápidas do palco - a musica era rápida e furiosa e sem palavras.
Ela cheirava a suor, um cheiro amargo, penetrante e ótimo. Sabia que estava cheirando a suor também. Meu nariz no topo da sua cabeça e seu rosto na minha clavícula. Suas mãos se moveram para meu pescoço e o puxou.
“Vem cá embaixo, não trouxe escada.” foi o que ela disse, e eu tentei sorrir, mas era difícil sorrir quando está se beijando.
Como disse, eu tinha beijado três garotas na minha vida. Duas nunca tinham beijado ninguém antes. Outra tinha namorado desde os 12 anos. Ela tinha experiência.
Nenhuma beijava como Ange. Ela fazia com que toda sua boca ficasse macia, como o interior de uma fruta madura e não empurrou sua língua na minha boca, mas a escorregou para lá e sugou meus lábios ao mesmo tempo, como se minha boca e a sua se fundissem. Ouvi a mim mesmo gemendo e a agarrei e a apertei forte.
Lenta e gentilmente deitamos na grama. Deitamos de lado, agarrados um no outro, beijando e beijando. O mundo desaparecera e só havia o beijo.
Minhas mãos acharam seu traseiro, sua cintura. A beirada da sua camisa. Seu estômago morno, seu umbigo macio. Minha mão continuava a subir. Ela gemeu também.
“Aqui não.” ela disse “Vamos mais para lá.” Apontou para o outro lado da rua para uma igreja branca que dava seu nome ao parque e à Missão. De mãos dadas nos movemos rápidos e atravessamos até a igreja. Tinha pilares frontais enormes. Ela colocou minha costas contra um deles e puxou meu rosto para junto do dela de novo. Minhas mãos foram rápidas de novo para sua camisa e subindo pela frente.
“Tem que abrir pelas costas.” ela sussurrou na minha boca. Um erro enorme. Movi minhas mãos à volta das suas costas, que eram fortes e achei a presilha com os dedos, que tremiam. Apalpei por algum tempo, pensando em todas aquelas piadas sobre como os garotos são péssimos em tirar um sutiã. Eu era. Então a presilha soltou-se livre. Ela arfou na minha boca, eu deslizei as mãos sentindo a umidade de suas axilas - que eram sexys e não ásperas por algum motivo - e toquei de leve os lados de seus seios.
Foi quando as sirenes começaram a ser ouvidas.
Mais alto do que qualquer coisa que já ouvi. Um som que era quase uma sensação física, como se alguém gritando na sua orelha. Alto, tão alto que os ouvidos não conseguiam processar e então mais alto ainda.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE” ouviu-se a voz, com Deus furioso em meu cérebro.
“ESTA REUNIÃO É ILEGAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE.”
A banda parou de tocar. O barulho da multidão além da rua mudou. Medo. Ódio.
Ouvi o clique do sistema de amplificadores dos carros de som e baterias nas quadras de tênis.
“TOMEM DE VOLTA!”
Foi um grito de desafio, como o som e um grito do surf ou gritado de um penhasco.
“TOMEM DE VOLTA!”
A multidão gritou de volta o que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem.
“TOMEM DE VOLTA!”’ eles cantavam “TOMEM DE VOLTA! TOMEM DE VOLTA! TOMEM DE VOLTA!”
A polícia se movia em linhas, carregando escudos plásticos, vestidos como Darth Vader, os capacetes cobrindo os rostos. Cada um tinha um cassetete preto e óculos infra-vermelhos. Pareciam soldados de um filme futurista de guerra. Deram um passo adiante em uníssono e cada um deles bateu com o cassetete no escudo, um som de coisa se partindo, como o chão se abrindo. Outro passo, outra batida. Já cercavam o parque e se aproximavam agora.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!” disse a voz de Deus de novo. Agora chegaram os helicópteros, mas sem aqueles holofotes poderosos. Os óculos para visão noturna, é claro. Tinha miras infravermelhas nos helicópteros também. Eu empurrei Ange para a entrada da igreja, nos protegendo.
“TOMEM DE VOLTA!” trovejou o amplificador. Era o grito rebelde de Trudy Doo e ouvi sua guitarra cuspindo acordes e o baterista e então o baixo pesado.
“TOMEM DE VOLTA!” a multidão respondeu e partiram fervendo para fora do parque e para as linhas de policiais.
Nunca estive numa guerra, mas agora sei como deve se parecer. Quando garotos assustados atravessam um campo atacando as forças inimigas, sabendo o que virá, correndo de qualquer jeito, gritando.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!” disse a voz de Deus, que vinha dos caminhões estacionados ao redor do parque, caminhões que surgiram nos últimos segundos.
Então veio a névoa. Caindo dos helicópteros, só pegamos parte dela. Me fez sentir como se fosse desmaiar, fez meu nariz parecer estar sendo perfurado por picadores de gelo. Meus olhos incharam e lacrimejaram e a garganta fechou-se.
Spray de pimenta. Não o de 100 mil Scovilles. O de 1 milhão e meio. Estavam atirando gás na multidão.
Não vi o que aconteceu em seguida, mas ouvi, acima do som de Ange e eu tossindo abraçados. Primeiro som de tosse, de vômito. Guitarra, bateria e baixo pararam de súbito.
E os gritos. Gritos por um longo tempo. Quando consegui ver de novo, os policiais tinham levantado as viseiras para trás da cabeça e os helicópteros derramavam tanta luz sobre Dolores Park que era como se fosse dia. Todos olhavam para o parque, o que era bom, por que com tanta luz como aquela nos éramos totalmente visíveis.
“O que a gente vai fazer?”’ perguntou Ange. Sua voz veio espremida, com medo. Não acreditei, por um instante, que eu pudesse falar. Engoli diversas vezes.
“Vamos embora!” eu disse. “É tudo que podemos fazer. Sair daqui. Como se a gente só estivesse passando por aqui. Descemos a Dolores, viramos a esquerda e reto até a rua 16. Como se a gente só estivesse passeando. Como se não fosse problema nosso.”
“Nunca vai funcionar.”
“É o que dá para fazer.”
“Não acha melhor a gente correr?”
“Não. Se a gente correr, eles vão nos perseguir. Se a gente andar, eles vão pensar que não fizemos nada e vão nos deixar em paz. Eles têm um monte de gente para deter. Vão ficar ocupados por muito tempo.”
O parque estava repleto de corpos caídos, jovens e adultos cobrindo o rosto com as mãos e tossindo. Os policiais os arrastavam pelas axilas, então prendiam os braços com algemas de plástico e os empurravam para dentro dos caminhões como bonecas de pano.
“OK?” perguntei.
“OK!” ela disse.
E foi o que fizemos. Caminhamos, de mãos dadas, rápidos, com pressa, como duas pessoas evitando a confusão feita por outros. O tipo de andar que você adota quando quer fingir que não viu o mendigo ou não quer se envolver com uma briga de rua.
E funcionou.
Chegamos à esquina e viramos e continuamos indo. Nenhum de nós se atreveu a falar por dois quarteirões. Então arfei sem dar conta que estava prendendo a respiração até então.
Chegamos à rua 16 e seguíamos sem direção à Missão. Normalmente sempre há um pessoal bem assustador às 2 da manhã de um sábado a noite. Naquela noite foi um alivio - os mesmos vendedores de drogas e prostitutas e bêbados de sempre. Nenhum tira com cassetete, nem gás.
“Hum.” respirei o ar e disse “Café?”
“Casa.” ela respondeu. “Acho melhor ir para casa. Deixa o café para depois.”
“Tá.” Ela morava em Hayes Valley. Vi um táxi perto e fiz sinal. Um pequeno milagre - nunca há taxis disponíveis em São Francisco quando se precisa de um.
“Tem um cabfare (cartão eletrônico de passagem) para casa?”
“Sim.” ela respondeu. O taxista olhou para nós da sua janela. Abri a porta de trás antes que ele pudesse arrancar.
“Boa noite.” falei.
Ela colocou suas mãos no meu rosto e o puxou. Beijou a minha boca com força, nada sexual nisso, mas de forma íntima.
“Boa noite.” sussurrou no meu ouvido e escorregou para dentro do táxi.
Com a cabeça flutuando e envergonhado por ter deixado todos os Xnetters à mercê da DHS e da SFPD, tomei rumo de casa.
#
Segunda de manhã Fred Benson estava junto da mesa de Senhorita Galvez.
‘Senhorita Galvez não dará aulas mais para esta classe.’ disse assim que nos sentamos. Tinha um ar de auto-satisfação que reconheci imediatamente. Dei uma olhada discreta em Charlie. Ele sorria como se fosse seu aniversario e tivesse ganhado o melhor presente do mundo.
Levantei minha mão.
“Por que não?”
“É política da Comissão não discutir assuntos empregatícios com ninguém exceto os empregados e o comitê disciplinar.” Ele disse sem sequer esconder o quanto estava contente com o que dizia.
“Vocês estarão começando uma nova matéria hoje, segurança nacional. Seus computadores escolares já têm textos novos. Por favor, abram os seus computadores.”
A tela de abertura tinha o logo da DHS e o título: “O QUE CADA AMERICANO DEVERIA SABER SOBRE SEGURANÇA NACIONAL.”
Eu queria atirar meu computador escolar no chão.
#
Combinei encontrar Ange numa cafeteria no seu bairro após a escola. Peguei o BART e sentei entre dois caras vestindo ternos. Estavam lendo o Chronicle, que mostrava em uma página inteira o obituário da baderna dos jovens em Missão Dolores Park. Ficavam reprovando e cacarejando sobre isso. Então um disse para o outro: “É como se estivessem fazendo um tipo de lavagem cerebral ou algo assim. Jesus Cristo, seremos sempre tão estúpidos?”
Tive que me levantar e trocar de assento.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 12 [ Download ]
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Copiar e Compartilhar em Legítima Defesa
do site FSF America Latina
Baseado nos direitos humanos largamente reconhecidos e raramente desrespeitados de apreciar e memorizar obras de arte a que se tenha acesso e de conceder e aceitar acesso a elas, este artigo afirma os direitos de preservar acesso a obras, de convertê-las para diferentes formatos e suportes físicos, para baixar e subir obras na Internet, e para receber e compartilhar obras em redes P2P. O pleno gozo desses direitos constitui legítima defesa contra os constantes ataques a eles.
Não devemos nos sentir culpados ou envergonhados por compartilhar e baixar arquivos digitais. No entanto, a lavagem cerebral promovida pelas indústrias editoriais de música, cinema e software distorce nossas noções de certo e errado. Confusos e assustados, abrimos mão de direitos e aceitamos leis restritivas que servem à sua ganância, em detrimento da sociedade. Argumentando que leis assim distorcidas nos provam errados e culpados, elas buscam ainda mais poder legal sobre nós, enquanto fingem já tê-lo. Mas não têm e não podem ter, enquanto houver respeito aos nossos direitos humanos.
Nota: o autor não é advogado. Nada neste artigo deve ser tomado como aconselhamento legal. Porém, se você for um dia ameaçado ou processado pelas indústrias editoriais ou pelas forças policiais anti-cópias que elas têm instituído, mostre este artigo ao seu advogado.
O direito de apreciar
Artigo 27º. (1) Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
– Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948
Se você estiver andando na rua e encontrar uma carteira no chão, você provavelmente a pegará e tentará encontrar seu dono para devolvê-la. Se, ao procurar documentos que o identifiquem, você encontrar um pedaço de papel com um poema, é direito lê-lo. Você não precisa pedir permissão (licença) do autor do poema, nem do dono da carteira: você tem o direito de lê-lo e apreciá-lo. Desde que o devolva ao lugar, não terá tirado nada de ninguém. Por outro lado, pegar dinheiro da carteira não seria direito, pois privaria dele seu legítimo dono. Indústrias editoriais tentam nos confundir escondendo essa diferença crucial.
Se você caminha mais um pouco e escuta um vizinho cantar uma música no chuveiro, está no seu direito. Você não tem de pedir permissão (licença) do compositor da música, nem do artista que a executa: você tem o direito de escutá-la e apreciá-la, e até de memorizá-la para cantar para si mesmo e para seus amigos mais tarde.
Você escuta os sinos da igreja e sabe que nessa hora seu vídeo-cassete estará se desligando, depois de gravar seu programa favorito na TV aberta, para que você possa assistir-lhe quando chegar em casa depois do trabalho. Você não precisa pedir permissão (licença) do diretor, do estúdio ou da transmissora do canal de TV: você tem o direito de gravar e assistir ao programa mais tarde, com sua família e seus amigos.
Você chega em casa, liga seu computador portátil e põe em seu leitor um DVD que alugou. Você não tem de pedir permissão (licença) do diretor, do estúdio, do distribuidor ou da locadora para assistir ao filme, e isso envolve tarefas como copiá-lo do DVD pra memória do computador, desembaralhar a codificação regional, descomprimir o vídeo e o áudio, copiar o vídeo pra memória do monitor digital e convertê-lo para padrões de pontos na tela e depois ondas luminosas, copiar o áudio para o amplificador digital e convertê-lo para vibrações mecânicas e depois ondas sonoras e por fim converter isso tudo em impulsos neurais e em memórias temporárias ou permanentes. Como você tem o direito de assistir ao filme, pode copiar, converter, memorizar e repetir o todo ou as partes, sem depender de permissão de ninguém.
O direito de apreciar uma obra artística a que se tenha acesso é uma questão prática. Seria ridículo ter de pedir permissão antes de ler um pedaço de papel, para, uma vez a tendo obtido, descobrir que a permissão já estava explícita no papel. Seria ridículo ter, de alguma forma, de deixar de ouvir uma música que está tocando ao seu redor. Seria ridículo ser privado de um programa de TV só porque ele vai ao ar, para todos, num horário inconveniente. Seria insano ter de pedir permissão para cada um dos passos de conversão e cópia envolvidos na apreciação de uma obra artística. Seria insano ter de pedir permissão para reter a obra na memória, ou forçar-se a esquecer caso não encontre quem a pudesse e quisesse conceder.
Ainda bem que não é assim! Não há nada de errado em fazer tudo isso, e não há lei que o impeça de fazê-las. Não deve haver: seria injusta e violaria direitos humanos fundamentais. Você tem o direito de apreciar obras artísticas a que tenha acesso, e de tomar parte na vida cultural de sua sociedade. Lei alguma jamais deve tirar-lhe esse direito.
O direito de compartilhar
Artigo 19º. Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
– Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948
Digamos que você tenha uma vasta coleção de livros e fique desapontado porque poucas pessoas têm chance de lê-los. Decide doá-los a uma biblioteca pública. Não precisa pedir permissão de ninguém para fazer a doação, e a biblioteca não precisa pedir permissão de ninguém para emprestar os livros a quem quer que tenha interesse neles.
Se fosse do jeito que as indústrias editoriais querem, você teria de trancar suas coleções de CDs, fitas, DVDs e livros em cofres quando tivesse visitas, temendo que tomassem alguns deles emprestados. Ao invés disso, você tem o direito não só de mostrá-los, mas também de executá-los para seus visitantes e deixar que levem emprestadas as suas cópias e as escutem, vejam ou leiam quando e onde queiram.
Leis que proibissem recepção e difusão de informações e idéias violariam direitos humanos fundamentais.
O direito de preservar
Artigo 28º. Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
– Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948
Quando você compra CDs, DVDs, livros, etc, o que você compra é o acesso à obra, não seu suporte físico nem uma suposta licença para apreciá-la: você não precisa de licença para isso. De fato, se o suporte físico for danificado, qualquer editora decente vai substituir a cópia danificada da obra, por não mais que uma taxa nominal que cubra custos do suporte físico, do empacotamento e do envio, de modo que você possa manter o acesso pelo qual pagou.
Se a editora for à falência ou não tiver mais cópias, você não precisa deixar sua única cópia da obra se degradar até perder acesso a ela. Se a editora não for decente, pode até planejar a degradação das cópias, de modo a vender acesso repetidamente até passar a negar acesso à obra, indefinidamente, a toda a sociedade. Um plano assim não deve funcionar. De fato, diversas jurisdições permitem explicitamente, sem sombra de dúvida, cópias de reserva e cópias para uso pessoal, a despeito de quaisquer direitos exclusivos de cópia de uma obra artística que a sociedade possa haver concedido a outros.
Essa permissão explícita, mesmo bem-vinda, não é estritamente necessária. É direito recordar obras a que tenha tido acesso. Porém, poucos têm memória perfeita ou fotográfica, então somos ensinados a usar memória auxiliar para guardar coisas relevantes: tomar notas de aulas, reuniões e descobertas, tirar fotos e gravar filmes de eventos importantes de nossas vidas, e até mesmo fazer cópias de reserva de informação que armazenamos em memória principal e auxiliar.
Uma cópia de reserva de uma obra nada mais é que uma extensão de memória, para que você possa se lembrar mais precisamente e melhor da obra, para recordá-la e apreciá-la mais tarde.
Nenhuma lei pode ou deve impedir você de manter memórias e apreciá-las, pois sem memória, os direitos de apreciar e de compartilhar não podem ser plenamente realizados.
O direito de converter
Na mesma linha, se seus velhos LPs e fitas cassete estão estragando e você se preocupa em conseguir agulhas, ímãs e motores para consertar os aparelhos que os tocam, caso quebrem, você pode encontrar conforto no seu direito de preservar seu acesso às obras, mesmo que isso exija sua conversão para outro formato e sua armazenagem noutras formas de memória auxiliar.
Digamos, você pode tocá-las para seu computador e registrá-las em memória eletrônica, magnética, ótica ou de qualquer outro tipo, para estender para o futuro a sua possibilidade remanescente de executar as obras tanto quanto queira.
Você pode ainda converter as obras para formatos de codificação diferentes, se é disso que precisa para poder apreciá-las dirigindo seu carro, caminhando na rua ou sentado num ônibus ou trem, com um reprodutor portátil de música ou vídeo, ou outro tipo de computador.
Lembre-se: não há, e não deve haver, qualquer lei que o impeça de copiar e converter obras como passos acessórios no processo de apreciá-las, ou de fazer cópias de reserva dos resultados desses passos acessórios para uso futuro. Você não deve ficar sujeito às limitações de meio, formato e reprodutores selecionados por quem lhe tenha dado acesso a uma obra: uma vez que você ganhe acesso a ela, você tem o direito de apreciá-la como quiser.
O direito combinado de compartilhar e preservar
Digamos que uma amiga quer tomar um DVD emprestado de você, mas o cachorro dela é famoso por seu gosto por DVDs. Você pode considerar negar o pedido da sua amiga, mas por que deveria? Você pode muito bem fazer uma cópia de reserva do DVD, para preservar seu acesso à obra, e então deixá-la levar pra casa a cópia "original", ou a cópia de reserva que você fez.
Sua amiga, por sua vez, pode não conseguir assistir ao filme antes da hora em que combinou devolvê-lo, ou querer assistir-lhe mais algumas vezes. Para preservar seu acesso, estendendo sua memória e deslocando no tempo sua possibilidade de apreciar a obra tantas vezes quantas quisesse, ela poderia devolver-lhe a cópia depois de fazer sua própria cópia de reserva. Ou ligar pra perguntar-lhe se pode ficar com ela. Ela pode até deixar de ligar, se souber que você vai ligar pra ela se um dia precisar.
De fato, você pode até ter um acordo com ela, para manterem cópias de reserva um para o outro. Até mesmo através da Internet! Apesar de cada um de vocês manter outras cópias de reserva em casa, isso não protegeria os arquivos em caso de incêndio, por exemplo.
Então, ela reserva parte do espaço em disco no computador dela para você fazer suas cópias de reserva, e você reserva parte do seu para ela. Vocês confiam o suficiente um no outro para não se preocuparem com questões de privacidade, mas também sabem que estão copiando as coleções de fotos, músicas e filmes um do outro, e que isso é tão direito como se as fotos, músicas e filmes tivessem cópias de reserva noutro endereço em CDs, DVDs, fitas, o que fosse.
E aí, como você não é obrigado a policiar o acesso às obras (de fato, vimos que tem o direito compartilhá-lo com seus amigos), você não precisa criptografar os dados ou exigir que ela concorde em nunca acessar aqueles arquivos.
Seu acordo pode até incluir um entendimento de que vocês concordam que um acesse fotos, músicas e filmes nas cópias de reserva mantidas para o outro. Nenhuma permissão adicional se faz necessária.
Os direitos de baixar e subir arquivos
Digamos que você vai sair de viagem, levando no computador portátil uns textos que quer ler. Preocupado com furto e perda, coloca os arquivos no seu sítio na Internet também, de modo que possa ter acesso a eles em qualquer cibercafé. Não precisa de permissão de ninguém pra fazer isso: você está apenas preservando seu acesso a eles.
Os arquivos estão lá para uso pessoal, então a princípio você não diz as URLs a ninguém. Porém, durante a viagem, você recebe um correio eletrônico de uma amiga, perguntando sobre um artigo que você uma vez mencionou. É um dos artigos que você colocou no sítio, então você lhe manda a URL. Você tem o direito de compartilhar obras a que você tenha acesso com amigos. O fato de você não poder encontrá-los pessoalmente para lhes entregar cópias em mãos, em meio físico, não deve ser impedimento. Seus amigos, por sua vez, têm o direito de apreciá-las e preservá-las uma vez que você lhes conceda acesso. Nenhum de vocês precisa pedir permissão pra ninguém.
Sua amiga repassa a URL pra um amigo, que então a envia para uma lista de e-mail privada, e a mensagem acaba sendo repassada para uma lista pública. Gente de todo canto começa a baixar o arquivo do seu sítio. Tudo bem, você tem o direito de compartilhar a obra com cada um deles. Mesmo que não tivesse, você não é obrigado a policiar o acesso ao sítio, assim como não é obrigado a esconder sua coleção de DVDs quando recebe visitas. Da mesma forma, aqueles que baixam o arquivo não são obrigados a policiar se você tem quaisquer permissões que poderia precisar para lhes conceder acesso à obra, assim como não teriam de verificar se você tem o direito de lhes emprestar um DVD.
O direito de P2Preservar
Seu arranjo de cópias de reserva cruzadas funciona tão bem que, quando você lê a respeito de um sistema distribuído par-a-par de cópias de reserva, você entra com entusiasmo. Como antes, cada par oferece parte de seu disco rígido para armazenar cópias de reserva para os outros, e por sua vez ganha cópias de reserva de porções de seus discos na rede.
Uma das maiores vantagens é que as cópias são replicadas entre vários pares, de forma que, mesmo que alguns saiam da rede, os arquivos de reserva permaneçam disponíveis. O sistema também é inteligente o suficiente para perceber quando vários usuários querem fazer cópia de reserva do mesmo arquivo, evitando desperdícios.
É claro que você mantém seus arquivos pessoais criptografados numa rede como essas, pois você não confia em todos tanto quanto na sua amiga. Mas para arquivos que você normalmente compartilharia com amigos, por que impediria a redução de desperdício?
Um dia chega um correio eletrônico de uma participante da rede P2P, perguntando se você tem alguma objeção a ela manter uma cópia de uma música que descobriu estar guardando de reserva para você. Que pergunta boba! Ela já estava mantendo aquela cópia, e ela evidentemente já tinha ganho acesso à música, então é óbvio que ela poderia preservá-lo. Mas ela achou que não faria mal perguntar. Não fez: deu início a uma bela amizade.
O direito de P2Participar
Um dia, você remove acidentalmente um arquivo de seu computador. Pede pra rede restaurar a cópia de reserva, e vê que ela é restaurada tão depressa que mal pode acreditar! Por coincidência, outro par tinha acabado de fazer uma cópia de reserva do arquivo na rede, e aconteceu de ela ter sido transferida pro seu computador pouco antes de você pedir a restauração.
Pois essa pessoa parece gostar das mesmas músicas que você. Você reconhece a maioria delas, mas parece que há algumas que você não tinha ouvido antes, e são justamente do tipo que você adora! Então você faz uma cópia das músicas que esse novo amigo compartilhou com você. Você também lhe manda uma mensagem de agradecimento, com algumas dicas musicais, e vocês se tornam bons amigos.
Hoje em dia, sempre que você compra um CD ou DVD que gosta, você o preserva na pasta de cópias de reserva por P2P. Não há nada que o impeça de usar a rede como memória para preservar seu acesso às obras, nem de permitir que seus amigos tenham acesso a elas. Volta e meia você recebe um correio de um novo amigo lhe agradecendo por isso.
Um aspecto interessante da rede é que, quando cai um par, ela compensa a falta criando mais réplicas dos arquivos que estavam lá. Você não precisa pedir permissão a ninguém para transferir os arquivos que hospeda para outros pra lá e pra cá, assim como um provedor não precisa pedir permissão a ninguém para transferir os arquivos que você tenha solicitado de terceiros, ou para mantê-los em cache.
Quando você entra numa rede P2P só para baixar um arquivo, a situação é um pouco diferente, pois você tem uma noção muito mais precisa sobre o que está baixando e transmitindo. Porém, como vimos antes, é direito baixar uma obra artística e compartilhar o acesso a ela com um amigo. Se alguém que tem o direito de compartilhar o acesso obra com você e com outros pede sua ajuda para estendê-lo aos outros, por que não ajudar?
Mas e a pobre indústria editorial?
Artigo 27º. (2) Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
– Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948
Sob o falso pretexto de ajudar os autores, que a desumana indústria editorial explora tanto quanto a nós, vai continuar tentando limitar o que as pessoas podem fazer, através de medidas técnicas e jurídicas, inventando barreiras tecnológicas para negar direitos fundamentais, ameaçando processar e jogar pessoas na cadeia por exercê-los, e contratando legisladores para aprovar leis nos tiram ainda mais direitos.
Por que deveria a sociedade aceitar leis que minam direitos humanos fundamentais, além de bases da sociedade tais como amizade e compartilhamento? Compartilhar com amigos não produz interesses materiais, logo nem mesmo um autor poderia invocar o direito humano à proteção de interesses materiais para se opor.
Tele-revolução
Se um dia desenvolvêssemos o tele-transporte, e a tecnologia se tornasse largamente disponível a baixos custos, empresas que dependessem da dificuldade de transportar pessoas ou bens de um lugar a outro teriam de rever suas estratégias. Algumas poderiam se adaptar e encontrar outras formas justas de ganhar dinheiro; outras pressionariam para preservar seus modelos de negócios obsoletos.
Mas imagine se o telégrafo houvesse sido proibido, por receios da indústria postal. Se o telefone, o e-mail e as mensagens instantâneas houvessem sido proibidos, por receios da indústria de telégrafo. Se telefones celulares e chamadas via Internet fossem proibidos, por receios da indústria de telefonia fixa.
Não faz sentido a sociedade proibir ou limitar o uso de tele-transporte apenas para manter a escassez que permitia às empresas de transporte lucrar; certamente não sem que essa privação traga, de alguma forma, um bem maior à sociedade em geral.
Multi-revolução
Se um dia desenvolvêssemos a tecnologia da multiplicação de objetos, e ela se tornasse largamente disponível a baixos custos, empresas que dependessem da dificuldade de produzir objetos e substâncias replicáveis teriam de rever suas estratégias. Algumas poderiam se adaptar e encontrar outras formas justas de ganhar dinheiro; outras pressionariam para preservar seus modelos de negócios obsoletos.
Mas imagine se a indústria panificadora tentasse proibir a multiplicação de pão para quem tem fome. Se a indústria de moda tentasse proibir a replicação de agasalho para quem tem frio. Se a indústria de medicamentos tentasse proibir a cópia de remédios para quem tem doenças. Se as indústria agropecuárias e de sementes tentassem proibir a reprodução de soja, milho, batata, trigo, arroz, feijão e outros alimentos. Absurdo! Não surpreende que alguns achem tão difícil de acreditar que pessoas inteligentes tenham sido induzidas a crucificar alguém por multiplicar e compartilhar peixe e pão, e por ensinar aos outros como realizar esses milagres.
Não faz sentido a sociedade proibir ou limitar o uso da multiplicação apenas para manter a escassez que permitia às empresas de manufatura lucrar; certamente não sem que essa privação traga, de alguma forma, um bem maior à sociedade em geral.
Inter-revolução
Acontece que computadores ligados à Internet são capazes de efetuar multiplicação de obras digitais à distância. Empresas que dependem da dificuldade de replicar e transportar essas obras têm de rever suas estratégias urgentemente. Algumas já se adaptaram e encontraram outras formas justas de ganhar dinheiro; outras têm pressionado para preservar seus modelos de negócios obsoletos.
Não faz sentido a sociedade proibir ou limitar o uso da multiplicação digital, local ou à distância, apenas para restaurar a escassez que permitiu aos editores lucrar antes desse avanço; certamente não sem que essa privação traga, de alguma forma, um bem maior à sociedade em geral.
Anti-revolução
Todas as leis numa sociedade democrática devem trazer benefício à sociedade. Direito autoral, por exemplo, é um monopólio limitado concedido pela sociedade a título de incentivo à publicação de obras artísticas, de forma que possam ser apreciadas e usadas por todos, ainda que alguns usos limitados, que seriam impossíveis sem a publicação, tenham de aguardar a expiração do monopólio.
Não há indícios de que conceder aos editores mais poder sobre autores e sobre nós vá trazer mais benefício a todos. Criminalizar supostas violações de direitos autorais não tem melhorado a qualidade cultural das obras publicadas. Estender a duração do direito autoral retroativamente, toda vez que Mickey Mouse está para finalmente cair no domínio público, não nos tem proporcionado mais obras de Walt Disney, nem novas (como poderia?) nem as já bem conhecidas. Conceder aos editores poderes de legisladores e juízes, aprovando leis que nos proíbam de contornar limitações tecnológicas deliberadas em seus produtos, mesmo para praticar atos a que temos direito, negaria à sociedade o próprio benefício que justifica o monopólio: permitir a todos a apreciação e o uso de obras, ainda que após um curto atraso.
Devemos manter em mente que o direito autoral foi projetado de modo a permitir apreciação privada, execução privada e compartilhamento e preservação da cultura, e que precisaríamos de razões muito boas para todos para nos privarmos disso. Devemos combater tentativas de virar essas leis do avesso, pois elas beneficiariam poucos em detrimento da maioria.
Direitos fundamentais e legítima defesa
Artigo 10º. Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
– Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948
Quando alguma provisão legal ou projeto de lei parecerem entrar em conflito com direitos fundamentais, podemos e devemos defender nossos direitos, nos opondo a leis que os neguem ou os ponham em dúvida.
Como são direitos fundamentais, não devem ser tornados ilegais. Tratando-se de direitos, mesmo que haja provisões criminais que os pareçam cobrir, num estado de direito o exercício regular de direitos civis não pode ser considerado crime.
Quanto a outros meios privados de ataque a direitos fundamentais, a que a indústria freqüentemente recorre para impor restrições que violam direitos humanos, resistir ao ataque para se valer dos direitos civis significa agir em legítima defesa, o que, num estado de direito, também não pode ser considerado crime.
Escrito para os anais do Primeiro Congresso Estadual de Software Livre do Ceará, CESoL-CE, realizado em Fortaleza, Ceará, Brasil, de 18 a 23 de agosto de 2008.
Copyright 2008 Alexandre Oliva
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Alexandre Oliva
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
O prazer de compartilhar
do site Qprocura
Eles não têm olho de vidro, perna-de-pau e nem andam com um papagaio no ombro. Mesmo assim a indústria da música e do cinema insiste em chamá-los de piratas e em afirmar que são os grandes vilões da internet. Mas um estudo publicado neste mês pela revista eletrônica /First Monday/ mostra justamente o contrário. A motivação dos usuários de programas de compartilhamento de arquivos como o Kazaa e o SoulSeek - que permitem que você baixe os arquivos de música e vídeo de outros e ofereça os seus - não estaria só em pegar arquivos de graça mas também em "presentear", em compartilhar seu acervo com outras pessoas. Por isso, não basta que a indústria crie mecanismos tecnológicos para que as pessoas usufruam legalmente de bens culturais na Internet; será preciso também levar em conta o desejo que elas têm de ajudar e oferecer arquivos a outros.
A conclusão é de Kevin McGee e de Jorgen Skageby, pesquisadores da Universidade de Linkoping, na Suécia, e autores do artigo "Gifting Technologies". Por seis meses, ambos frequentaram e analisaram listas de discussão de usuários dos sistemas P2P - sigla para ponto-a-ponto, a tecnologia que permite a troca direta de arquivos na internet - e entrevistaram mais de 100 desses usuários. O objetivo era buscar entender o fenômeno da troca de arquivos na rede a partir da perspectiva da dádiva, ou seja, de trabalhos anteriores que falam da troca ou do ato de dar presentes como um fenômeno social. O que os autores descobriram é que não é possível reduzir a ocorrência da dádiva na internet - que acontece nos programas de P2P - nem a um "roubo", em que as vítimas são os detentores dos direitos autorais, nem meramente a uma troca interessada, em que os sujeitos só compartilham porque estão interessados também em baixar arquivos.
Indústria age com truculência
Nos últimos dois anos, a indústria do entretenimento tem promovido uma verdadeira cruzada contra os usuários dos programas de P2P. As ações vão desde multas até a prisão e os métodos incluem a espionagem eletrônica de usuários. A onda de processos movida pela indústria da música começou em setembro de 2003 e, até agora, pelos cálculos da EFF (Fundação da Fronteira Eletrônica, entidade que luta pela legalização do compartilhamento de arquivos) já são mais de 6 mil ações legais. No início deste mês, a indústria do cinema anunciou que deverá seguir os passos das gravadoras e também iniciará uma onda de processos. "Ações contra os usuários não significam o pagamento de direitos aos artistas. Nós precisamos de uma solução construtiva. Os compartilhadores são mais de 60 milhões, só nos EUA, um número maior de pessoas do que o que elegeu o atual presidente", diz a EFF.
Os efeitos dos processos movidos pela indústria puderam ser sentidos pelos pesquisadores suecos. Ao tipificar os diversos grupos de compartilhadores ele encontraram a figura do que chamaram de "presenteadores amedrontados". Esse grupo ofereceria seus arquivos de uma forma mais selecionada, escolhendo aqueles que podem receber ou quais arquivos serão compartilhados. "O mais surpreendente é que esse tipo de ação não seria motivado pelo medo de serem pessoalmente alvo de processo mas pelo medo de que os mecanismos de compartilhamento sejam ameaçados", dizem os pesquisadores. Eles encontraram casos de pessoas que deixaram de compartilhar arquivos sujeitos aos direitos autorais da indústria.
Muito mais do que uma troca interessada
As características dos diversos grupos de compartilhadores permitem dizer que a atividade vai muito além do "é dando que se recebe". Vários teriam motivações ideológicas, acreditando não só que a "informação tem que ser livre", mas em um certo "espírito do compartilhamento". Os pesquisadores afirmam também que muitos dos que aparentemente oferecem seus arquivos apenas para poderem conseguir músicas ou filmes de outros (a chamada pseudo-dádiva), na verdade são bastante benevolentes com aqueles que não compartilham nada. Ou seja, depois de bloquearem aqueles usuários que claramente não oferecem nada em troca - os chamados de sangue-sugas - os compartilhadores voltam a oferecer seus arquivos para a comunidade.
Foram encontrados, inclusive, alguns usuários que ajudam outros que tenham um gosto parecido com o do compartilhador ou que estão em dificuldades. Quando encontram alguém que tem uma conexão muito lenta e que vai levar muito tempo para conseguir um arquivo, eles deixam seus computadores ligados por horas, só para que a conexão do receptor não seja cortada. Ou ainda oferecem a quem está baixando uma música, por exemplo, outros arquivos de estilo semelhante ao que está sendo enviado.
"Quando você compartilha algo com alguém você o faz não porque espera algo em de volta... Quando você quer algo do outro isso é uma troca", declarou um dos entrevistados. Para os pesquisadores, há nos mecanismos de oferecimento de arquivos algo que vai além do que tem sido notado até hoje e que mistura altruísmo e ideologia. Mesmo que a indústria crie mecanismos poderosos e acessíveis para que bens digitais sejam adquiridos, essas iniciativas falharão se o espírito do compartilhamento não for levado em conta.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Compartilhar conhecimento traz mais crescimento do que se imagina
do blog Baguete
Compartilhar é uma palavra intrigante.
Por que? Porque significa que algo que você considera seu poderá ser utilizado por outra pessoa, e com a sua permissão.
Além de identificar uma atitude altruísta, o que sempre é positivo, significa estar disposto a contribuir para o crescimento do outro, que sempre está atrelado ao seu próprio crescimento.
Quando você compartilha o seu conhecimento, você não está apenas dividindo ou repassando informação, você está abrindo espaço para a troca e para o crescimento como pessoa e profissional. Seu e do outro.
Muitas pessoas persistem no equívoco de que conhecimento deve ser tratado como um nicho, em que um único dono deve ser o tratado como o “imperador da informação”. Completamente errado. Compartilhar faz com que você se direcione a buscar mais, e faz com que os outros também busquem mais como você.
Esta atitude faz com que o que era considerado complexo ou único passe a fazer parte da rotina e todos tem de encontrar novos desafios para enxergar novas perspectivas para si próprio.
No mundo dos negócios, ganha mais quem mais compartilha conhecimento. Porque todos querem saber, todos querem comprar, todos querem crescer.
Se você está disposto a crescer e fazer de seu negócio ou carreira um sucesso, não se limite ao seu mundo. Compartilhe com seus aliados, com a sua equipe ou com seus colegas o seu conhecimento. Este é o verdadeiro sentido do crescimento.
Quando lhe perguntarem se você teme repassar conhecimento, não exite em dizer que o conhecimento precisa ser compartilhado, pois você pensa no outro como se fosse você mesmo.
Na verdade, saber compartilhar é evoluir, mais que qualquer coisa. É não se limitar, mas expandir os limites, até onde você desejar, que pode significar aboli-los.
Saiba que o único limite possível é apenas o seu entendimento a este respeito.
Compartilhe.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Compartilhar para crescer: O valor da reciprocidade
do blog Criatividade Aplicada
Lendo o artigo Por uma blogosfera solidária de Ricardo Cabianca, me lembrei de outro artigo lido há tempo e resolvi fugir um pouco do assunto deste blog e dar meu palpite.
James Bender, em seu livro How to Talk Well (New York: McGraw-Hill Book Company, Inc., 1994), relata a história de um fazendeiro premiado pela qualidade de sua lavoura de milho. Todo ano seu milho recebia o primeiro prêmio na exposição de seu estado. Uma vez um jornalista o entrevistou e conheceu algo interessante sobre como ele cultivava seu milho.
O jornalista descobriu que o fazendeiro fornecia suas sementes para os fazendeiros vizinhos. “Como você se permite compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos, se eles competirão com você todos os anos?” o jornalista perguntou.
“Bem senhor”, respondeu o fazendeiro, “você não sabe? O vento pega o pólen do milharal e o espalha de lavoura para lavoura. Se meus vizinhos cultivarem milho inferior, a polinização cruzada vai certamente degradar a qualidade de meu milho. Se pretendo cultivar um milho de qualidade, eu tenho de ajudar meus vizinhos a cultivar um bom milho”.
Este fazendeiro está muito ciente das conexões da vida. Seu milho não pode melhorar a não ser que o milho de seus vizinhos também possa melhorar. A mesma coisa ocorre em outras situações e dimensões. Aqueles que escolhem viver em paz devem ajudar seus vizinhos a ter paz. Aqueles que querem viver felizes devem ajudar os outros a encontrar a felicidade, pois o bem estar de cada um está firmemente ligado ao bem estar de todos.
O mesmo se pode dizer de uma comunidade dedicada ao intercâmbio de conhecimento e que compartilha um mesmo recurso tecnológico como a blogosfera. À medida que cada um contribui com o melhor de sua experiência, cada membro tem a oportunidade de se aperfeiçoar e melhorar continuamente suas próprias contribuições à comunidade. À medida que cada um se fortalece, a comunidade se torna mais forte, mais dinâmica e prestigiada.
Não se trata de assumir uma posição ingênua e ignorar a competição que existe dentro de toda comunidade, mas do reconhecimento de que uma comunidade forte tem um valor maior para ser compartilhado. Ela oferece mais possibilidades, opções e criatividade para todos. Cada um colherá sua parte conforme seus talentos e capacidade, mas certamente colherá uma parcela maior com uma mentalidade de abundância do que com uma mentalidade de escassez.
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