sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Yesterday's Future e Creazy Astronauts






























































quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Daniel Dociu








































quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mechanical Mirage














terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Dinotopia




O autor e ilustrador James Gurney guia seus visitantes pela ilha perdida de Dinotopia, um mundo de arte, ciência, exploração e invenções, um paraíso selvagem, onde humanos e dinossauros convivem juntos em paz.








James Gurney criou Dinotopia em 1992, à partir de uma série de livros ilustrados, baseados nos relatos do explorador Arthur Denison, que naufragou naquelas terras em 1862. Dinotopia também se tornou uma minisérie para televisão em 2002.








No site é possível conhecer sobre o universo criado por Gurney, conhecer detalhes do próximo livro, seu trabalho de arte e participar do fórum.




segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Franco Brambilla





























domingo, 24 de janeiro de 2010

Jerry Pournelle



Jerry Pournelle (7 de agosto de 1933) nasceu em Shreveport, Louisiana (EUA). Jornalista, articulador político, cientista aeroespacial e escritor de ficção científica, foi também presidente da Science Fiction Writers Fantasy of America (SFWA).

Conservador assumido, alguns de seus críticos o descrevem como "um pouco à direita de Genghis Khan".

Pournelle serviu no exército americano durante a Guerra da Coréia. De volta aos EUA, se graduou em psicologia, estatística, engenharia e ciências políticas, incluindo dois doutorados, todos na Universidade de Washington. Na política, trabalhou como assistente executivo do Presidente da Câmara e diretor de pesquisas para a cidade de Los Angeles, gerente de campanha para o congressista Barry Goldwater Jr. (Republicano) e posteriormente do prefeito eleito Sam Yorty (Democrata).

Pournelle foi um pupilo intelectual de Russell Kirk e de Stefan T. Possony com quem Pournelle escreveu numerosos artigos científicos e econômicos, incluindo 'The Strategy of Tecnology', livro didático na USMA (West Point) e da Academia da Força Aérea (Colorado Springs). Trabalhou como pesquisador na indústria aeroespacial em grandes empresas como Boeing, Aerospace Corporation, e Rockwell Space Division, e foi fundador e Presidente do Instituto de Pesquisa Pepperdine.

Na literatura Pournelle começou escrevendo romances (não FC) sob pseudônimo em 1965.

Em meados da década de 1970, Pournelle começou um relacionamento de colaboração com Larry Niven, responsável por levá-lo para o gênero que o faria famoso. Sua primeira novela com Niven foi 'The Mote in God's eye' (1974). Em 1985, 'Footfall', chegou ao número um, na lista de bestsellers do New York Times. Outro best-seller, 'Lucifer's Hammer' (1977), alcançou o número dois. Seu livro 'Fallen Angels' ganhou o Prêmio Prometeu (1992), e melhor livro estrangeiro no prêmio japonês Seiun (1998).

Desde seu início, o trabalho de Pournelle sempre trouxe fortes temas militares. Vários livros seus estão centrados em uma força de infantaria mercenária conhecida como Legião Falkenberg.

Desde 1998, Pournelle mantêm um blog diário, "View from Chaos Manor".

Pournelle foi opositor das Guerras do Golfo, alegando que o dinheiro seria melhor gasto, desenvolvendo tecnologias de energia para os Estados Unidos. Ele teria dito: "com o que nós gastamos no Iraque, poderíamos ter construido centrais nucleares e satélites espaciais de energia solar, e diríamos para os árabes beberem seu precioso petróleo."
 

Jerry Pournelle (A matter of Sovereignity, A spaceship for the King, Birth of fire, Extreme prejudice, He fell into a dark hole, High Justice, Houses of Kzinti, Peace with Honor, Sword and sceptre, The Mercenary, The Strategy of Tecnology, War World II, Janissaries series, Falkenberg series, Codominion, Prince, Historia del Futuro 'El Mercenario' e 'El soldado', com Larry Niven The gripping hand, Fallen Angels, Beowulf's Children, Paja 1 e 2, Footfall, Inferno, Lucifer's Hammer, Oath of Fealty, Reflex, Spirals, The Mote in God's eye, El Martillo de Lucifer, Juramento de Fidelidad ) [ Download ]

Entrevista com Jerry Pournelle




O trabalho de Jerry Pournelle vai além do que muitos escritores de FC hoje em dia consideram 'realista'. bestsellers como 'Lucifer’s Hammer', 'Starswarm' e 'The mote in God's eye', redefiniram o gênero, e ajudaram muitos escritores a serem vistos com mais seriedade do que no passado.

Pournelle também escreve artigos sobre os impactos da aplicação da tecnologia em nosso estilo de vida, e é um incentivador do uso da tecnologia para evitar a destruição de elementos fundamentais da humanidade.


Pergunta: Que tipo de objetivos deve ter em mente um escritor iniciante de Ficção Científica?

Jerry Pournelle: Eu diria a qualquer escritor iniciante: Escreva bastante. Mande o que escreveu para quem possa comprá-lo. Não mande pra mim. Eu não iria comprar mesmo se gostasse. Você sabe que muita gente me pergunta: 'Como eu consigo um agente?' É uma pergunta muito boa, e eu não tenho uma resposta, devo dizer. Nunca tive este problema, por que eu era bastante utilizado por Mr.Heinlein, como uma fonte de dados científicos, e ligava para ele pedindo para que lesse meu trabalho, o que era um grande favor. Jovens escritores não entendem o quão gigantesco é este favor. E Robert Heinlein leu meu trabalho e gostou o bastante para me mandar ao seu agente, que tem sido o mesmo desde então.

Eu não tive nenhuma dificuldade nesta área, mas você tem que se lembrar que eu provavelmente escrevi um milhão de palavras (sem ser ficção) antes disso, muitos relatórios, avaliações, propostas técnicas; eu escrevi muito, então eu já sabia como escrever.

Existe um bom número de escritores conhecidos, populares, que já construíram suas reputações, e quando você lê o que eles escreveram, vinte anos atrás, percebe que eram impublicáveis! Basta observar o mercado, você pode dizer o por que, não pode? Eles não seriam vendidos se não fosse pelo nome, e não acho que estaria fazendo um favor ao leitor, dando-lhes para ler, algo que não era bom o bastante, quando não sabiam quem você era.


P: Você acha que isto tem a ver com o status ganho pelos escritores de maneira geral?

JP: Claro, tem muito dinheiro nisso e cada vez mais. Quando você chega na minha idade, quero dizer, que diabos, eu botei fogo no meu baú! Por que, se eu tivesse as histórias antigas, que eu não vendi, eu poderia tentar transformá-las, e fazer algum dinheiro. Eu tenho 70 anos, e é muito trabalhoso escrever um romance e se eu tivesse um romance pronto, eu provavelmente conseguiria de 150 a 250 mil dólares nele, mesmo antigo, ou eu faria dele um roteiro para o cinema.


P: Você tem algum interesse em trabalhar em seus escritos não publicados?

JP: Eu não poderia mesmo que desejasse; joguei todos fora! Pensava que se não vendiam antes, não seriam vendidos depois, não via nenhum sentido em vendê-los no futuro. Escrever é trabalhoso e não há segredos, e fazer parte de um clube de escritores também não faz nenhum bem a você, na minha opinião.


P: Seguindo esta ideia, qual é a parte mais difícil em escrever FC para viver?

JP: Vou colocar desta forma, Randall Garret tinha uma regra, ele dizia que nenhum escritor profissional se fez freqüentando salas de aula.

E eu não conheço uma só exceção hoje em dia. Larry Niven fez o famoso Writer's Course, mas ele não chegou nem na metade dele, ele começou a ser publicado e largou-o. Você sabe que ele teria conseguido de qualquer maneira. Ele não aprendeu nada lá. Talvez ele tenha conquistado confiança, e isto é necessário para você continuar no seu trabalho e chegar lá, mas a maioria do escritores incentivam cursos e clubes de escritores, e workshops, e todo o resto. É preguiça pura. Fazem você se sentir um escritor, sem ter que escrever coisa alguma. Alguns deles valem a pena, mas a maioria são apenas negócios -  pra fazer dinheiro.


P: Quais são as responsabilidades de um escritor de FC, e algo mudou desde que você começou a escrever?

JP: A gente batalha para sobreviver. Se é isso que você está atrás, então tem que batalhar bastante para sobreviver. Eu vivo bem de vender palavras. Eu não construí esta casa assim. Você entende onde eu quero chegar? Minha obrigação com as pessoas que compram meus livros, é fazer valer seu dinheiro. Eu acho que os escritores tem cada um a sua história, e muitas respostas diferentes para esta pergunta.


P: Como o seu trabalho com Larry Niven, afetou a sua colaboração com S.M.Stirling?

JP: Nós não nos entendemos, um ao outro, tão bem como Niven e eu nos entendemos. O problema é que Stirling quer que seus vilões vençam. Quero dizer, tente escrever um romance onde Hitler vence, e veja quantos livros você vai vender. Não é sobre isso que se trata 'The producers'? Eles tentam escrever a pior peça do mundo para que seja um fracasso, então surge 'Primavera para Hitler'. Você não quer que os vilões vençam, você não pode fazê-los muito poderosos. As pessoas podem até ler este tipo de história, mas não frequentemente, quero dizer, '1984' por exemplo, você não o lê várias vezes, lê? Mas Orwell não escreveu muito, ele escreveu 'Animal Farm' e terminou escrevendo  '1984'. E não fez mais nada, ele não estava interessado em entreter a ninguém.


P: Você considerava que ele estava além da literatura (ou de fora)?

JP: Bem, ele escrevia ensaios, e fez de um ensaio um romance magnífico. Aldous Huxley também é um pouco assim. Pouca gente lê Huxley, do mesmo modo que lêem outros. Você não lê um romance de Huxley, qualquer que seja, 'Point Counterpoint' ou... você vai ler 'Antic Hay' para se entreter, mas mesmo assim, isso cansa após um tempo. E certamente não vai ler 'Admirável Mundo Novo' para se divertir.

Não quer dizer que não se possa transmitir mensagens e ao mesmo tempo entreter, mas como eu costumo dizer sobre 'Burning City', é o tipo de romance social, mas afortunadamente, os personagens não sabem disso.' Assim como eles não sabem que estão em um drama social, você não pode fazer um monte de coisas. Tão logo os personagens percebem que são arquétipos...você entende onde eu quero chegar? Eu não quero escrever isso! Pouca gente o quer! Quantas cópias vendeu '1984' da primeira vez que foi publicado? '1984' é um desses livros que continuam vendendo pouco a cada ano, sabe? E nunca sai de catálogo.

Não é como Joseph Conrad, que quando ele vende, ele conta historias, e as pessoas o compram por suas histórias e só mais tarde, as pessoas se apercebem que existe mais do que uma simples e boa aventura nos mares do sul em 'Lord Jim'.


P: Você acha que seus personagens sabem que são arquétipos?

JP: Não. Mas Conrad é um contador de histórias como eu. Se você quer me comparar a alguém, então tente Robert Louis Stevenson. Não o acho um 'peso leve', mas acho que ele nunca se viu como um escritor literário. Ele era um contador de historias, de aventuras, e  acho que também sou. Tento ser como Sir Walter Scott, é outro. Scott queria escrever para viver, por toda sua vida. E tinha histórias para contar, tinha mensagens nelas. Eu tenho mensagens nas minhas, por Deus, mas os personagens não sabem disso. 

Falkenburg sabia que era um mensageiro, mas tinha propósitos diferentes em sua vida. Não era apenas um mensageiro, mas também um professor. Ele tinha que ensinar aos seus jovens oficiais o porquê de estarem matando pessoas, além de como fazê-lo. Ele tinha que criar uma reputação de ser o cara que valia a pena ser ouvido, antes que eu pudesse fazê-lo dar conselhos.

O mais perto que eu cheguei de fazer uma pregação foi na cena em que o príncipe dos mercenários está no helicóptero, quando Falkenburg diz para o jovem príncipe:
 'Não faço isto sempre, mas também não é sempre que tenho um futuro príncipe como platéia.'


P: Por que o grande intervalo até a sequência de 'The mote in God's Eye', e o que o motivou, e a Larry Niven, para fazê-lo?

JP: Levou 20 anos para sair a sequência por que nós não sabíamos como fazê-la. Então um dia Niven chegou e disse: 'The Gripping Hand!' e eu disse 'O que?', e ele começou a me contar o romance, e pareceu uma boa história, eu decidi sentar e escrevê-la, e quando o fizemos, pensamos que ficou bastante bom. A sociedade que construímos no primeiro livro, não tinha nada a ver com nada que escrevemos para o segundo livro. Parecia bastante com a Arábia antes do profeta. E nos tínhamos um árabe nacionalista no primeiro livro, que coube perfeitamente no segundo livro, e seria o único cara no mundo que teria entendido a sociedade 'Motie', por que se parecia com a Arábia antes do profeta.


P: O que mudou na promoção dos seus livros?

JP: Eu costumava ir a São Francisco para participar daqueles programas na madrugada, quase todo mês. Então uma vez eu estava em San Diego, tarde da noite, e era um programa de rádio, desses 24 horas no ar, e valia a pena aparecer nele.

Então você vai e fica sentado lá das onze da noite até as cinco da manhã, falando sobre seus livros, e tudo mais. Quando perguntei ao meu agente o porquê, na primeira vez que ele me pediu pra fazê-lo, ele me respondeu 'muita gente insone lê livros, Jerry'.

Eu não sei como são as coisas hoje, não sei como se ganha publicidade hoje em dia. Eu já sou bem conhecido, sou convidado para dar palestras em convenções e estas coisas, mas eu não sei como se faz para chegar lá...


P: O que você faz para relaxar?

JP: Jogos de computador.


P: O que gosta de jogar?

JP: Gosto de jogos on-line. Everquest e Dark Age of Camelot.


P: São jogos 'históricos'.

JP: Dark Age sim, Everquest é fantasia direto!


P: Veremos uma sequência para 'Starswarm'?

JP: Não sei. Não foi fácil explorar aquela historia. Eu não sei se quero fazê-lo também. Meu planos atuais são mesmo terminar uma dúzia de trabalhos, em que venho me concentrando à muito, e pronto. Ai então vou me sentar e pensar no que virá em seguida.



Entrevistado por Cristopher Hennessey-DeRose

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 13



CAPÍTULO 13

Este capítulo é dedicado à Books-A-Million, a gigantesca cadeia de livrarias espalhada pelos EUA. Meu primeiro encontro com a Books-A-Million foi no hotel Terre Haute em Indiana (eu daria uma palestra naquele dia mais tarde,na Rose Human Institute of Tecnology). A loja ficava junto do hote, e eu precisava mesmo de material de leitura -estava na estrada há um mês e tinha lido tudo que tinha na mala e tinha mais cinco cidades pela frente antes de voltar para casa. Como fiquei algum tempo olhando as prateleiras, um balconista veio me perguntar se precisava de ajuda. Eu já trabalhei em livrarias antes, e sei que um funcionário com conhecimento vale seu peso em ouro, então eu disse, é claro, e comecei a descrever meus gostos nomeando os autores de quem gostava. O funcionário sorriu e disse “Tenho o livro certo para você” e me deu um exemplar do meu primeiro romance, “Down and Out in the Magic Kingdom.” Comecei a rir e me apresentei, e tivemos uma ótima conversa sobre ficção científica, que quase me fez perder a hora da minha palestra!
Books-A-Million



“São umas prostitutas!” disse Ange cuspindo a palavra. “Na verdade é um insulto ao trabalho duro de todas as prostitutas! São, são uns especuladores!” Olhávamos uma pilha de jornais que escolhemos e compramos no café. Todos traziam reportagens sobre a festa em Dolores Park e eles faziam parecer como uma orgia de garotos bêbados e drogados que atacaram os policiais. O USA Today descrevia o custo da baderna e incluído o custo de lavar os resíduos do spray de pimenta das bombas de gás, o surgimento de diversos casos de ataques asmáticos que encheram as emergências da cidade e o custo de processar oitocentas pessoas presas como baderneiros.

Nenhum deles contava o nosso lado.

“Bem, de qualquer jeito, a Xnet divulgou a coisa como aconteceu.” Eu disse.
Tinha salvo vários blogs, vídeos e fotos no meu telefone e mostrei-os para ela.
Eram relatos em primeira mão de pessoas que sofreram com os gases e que foram espancadas. O vídeo mostrava as pessoas dançando e se divertindo, os discursos políticos pacíficos e todos cantando “Pegue de volta” e Trudy Doo falando sobre sermos a única geração que poderia lutar por nossa liberdade. “Precisamos que as pessoas saibam sobre isso” ela disse.
“Sim” eu disse, mal humorado. “É uma bela teoria.”
“Por que você acha que a imprensa nunca publica o nosso lado?”
“Você já disse, são prostitutas.” Eu disse.
“Sim, mas prostitutas fazem isso por dinheiro. Eles podem vender mais jornais e propagandas se conseguirem uma controvérsia. Tudo que eles têm agora é um crime -controvérsia rende muito mais.”
“Ok, ponto para você. Então por que não fazem isso? Os repórteres podem procurar facilmente nos blogs de sempre, mas não sabem o que rola no Xnet. Não é um lugar realmente fácil para chegar.”

“Sim, bem, nós podemos consertar isso, certo?” Ela falou.
“Huh?”
“Vamos passar isso pra frente. Colocar em tudo quanto é lugar, em todos os links. Um lugar onde possamos deixar com a intenção de que a imprensa possa achar e ver o quadro todo. Linkar aos HOWTOs (Como fazer) para a Xnet. Os usuários de internet vão usar a Xnet, desde que não se importem com o que a DHS pensa sobre o que estão fazendo.” Ela falou.
“Acha que vai funcionar?”
“Bem, se não funcionar, é a coisa certa a se fazer.”
“Por que eles nos ouviriam?” perguntei.
“Quem não ouviria o M1k3y?”

Baixei o café. Peguei meu telefone e guardei no bolso. Levantei, girei nos
calcanhares e sai andando do café. Escolhi uma direção qualquer e continuei andando. Meu rosto mostrava meu cansaço, meu estômago parecia manteiga. Eles sabiam quem você era, pensei. Sabiam quem era M1k3y. Era isso. Se Ange tinha descoberto isso, o DHS também tinha. Estava amaldiçoado. Sabia disso desde que tinham me deixado sair do caminhão da DHS, que algum dia eles voltariam e me prenderiam e desapareceriam comigo para sempre, para onde quer que Darryl tivesse sido mandado.

Era o fim.

Ela logo me alcançou quando estava já na rua do Mercado. Estava ofegante e furiosa.
“Qual diabos é o seu problema?”
Eu me soltei e continuei andando. Era o fim.
Ela me agarrou de novo. “Para, Marcus! Você está me assustando. Vamos, fale comigo.”
Parei e olhei para ela. Era uma mancha na minha frente. Não conseguia focalizar em nada. Desejava pular na frente do trilho do bonde e ser despedaçado bem no meio da rua. Melhor morrer do que voltar para lá.
“Marcus!” Ela então fez algo que só tinha visto em filmes. Ela me deu um tapa bem forte no rosto. “Fale comigo!”
Olhei para ela segurando meu rosto, onde doía mais.
“Ninguém pode saber quem eu sou. Se você sabe, então está acabado. Todos saberão, é o fim!”
“Meu Deus, me desculpa! Olhe, eu só sei disso porque, bem, eu fiz chantagem com Jolu. Depois da festa eu segui você um pouco, tentava saber se você era o cara legal que parecia ser ou o maníaco assassino do machado. Conheço Jolu há muito tempo e quando eu perguntei sobre você ele se emocionou como se você
fosse o Salvador, ou algo assim, mas sabia que tinha alguma coisa que ele nãoestava me contando. Conheço ele, ele namorou minha irmã mais velha em um acampamento de informática quando era moleque. Sei de uns segredos bem podres dele. Disse que eu contaria para todo mundo se ele não contasse para mim.”

“Então ele te contou.”
“Não. Ele me mandou pro inferno. Então eu contei algo sobre mim. Algo que nunca contei para ninguém.”
“O que foi?”
Ela olhou para mim. Olhou à volta. Olhou para mim de novo. ‘”Tá bom. Não vou pedir que guarde segredo, por que não faria sentido. Além disso, posso confiar em você.”
“No ano passado, eu... no ano passado eu roubei algumas provas padrão, e as publiquei na rede. Foi só por diversão. Estava passando pela sala do diretor e vi que estavam no cofre e a porta estava aberta. Tinha umas seis cópias, eu peguei uma e guardei na bolsa e quando cheguei em casa, as escaneei e as subi para um
site pirata na Dinamarca.”
“Foi você?” Perguntei.
Ela corou. “Hum. Fui.”
“Caramba!”

Isso tinha sido um acontecimento na época. A comissão de Educação declarou que custou dez milhões de dólares para promover e criar as provas e que teriam que gastar a mesma quantia de novo, por conta do vazamento. Chamaram de “Terrorismo-educacional”. Os jornais tinham especulado interminavelmente sobre as motivações políticas do responsável por aquilo, imaginando se fora um protesto dos professores, um aluno, um ladrão ou um alguém descontente de dentro do governo.

“Foi VOCÊ?”
“Fui eu.” ela disse.
“E você contou isso para Jolu...”
“Porque eu queria que ele tivesse certeza que eu guardaria segredo. Se ele sabia meu segredo, então tinha algo que poderia usar para me colocar na cadeia se eu abrisse o bico. Dê um pouco, pegue um pouco. ‘Quid pro quo’, como no “Silêncio dos Inocentes.”
“Então ele te contou.”
“Não. Ele não contou.”
“Mas...”
“Então eu disse para ele que estava a fim de você. Como eu planejava me atirar em você. Então ele contou.”

Não consegui pensar em nada para dizer. Eu olhava para meus tênis. Ela segurou minhas mãos e as apertou. “Me desculpa. Eu arranquei isso dele. Devia ser sua decisão de dizer pra mim se é que você planejava de me contar. Eu não devia...”
“Não.” Eu disse. Agora que sabia como ela tinha conseguido saber, estava mais calmo.
“Não, é bom que você saiba. Só você.”
“Só eu. Euzinha.”
“Ok. posso viver com isso. Mas tem algo mais.”
“O quê?”

“Não tem um jeito de dizer isso sem parecer um idiota, então vou dizer assim mesmo. Pessoas que namoram ou o que quer que estejam fazendo -elas rompem.Quando acontece, ficam zangados com o outro. Às vezes, um com o outro. É muita frieza pensar que isso pode vir a acontecer com a gente, mas você sabe, temos que pensar nisso.”

“Eu solenemente prometo que não há nada que você possa me fazer que me fizesse trair seu segredo. Nada. Transe com dúzias de animadoras de torcida na minha cama enquanto minha mãe assiste, me faça ouvir Britney Spears. Roube meu laptop e quebre-o com o martelo e mergulhe-o no mar. Eu prometo. Nada. Nunca.”

Respirei aliviado.
“Agora seria um bom momento para me beijar.” ela disse, e ergueu o rosto na minha direção.

#

O próximo grande projeto de M1k3y na Xnet era capturar todas as matérias a respeito da festa NÃO ACREDITE em Dolores Park e colocá-las juntas. Coloquei os sites mais agressivos que podia, com seções mostrando a ação por local e por tempo e por categoria -violência policial, dança, as conseqüências, a cantoria. Subi o concerto todo.

Tinha o bastante para o resto da noite. E da noite seguinte e da seguinte.
Minha caixa postal ficou lotada de sugestões de pessoas. Me mandaram cópias tiradas de seus telefones e câmeras. Então recebi um email de um nome que reconheci - Doutor Eeevil, (com 3 ‘e’), um dos primeiros mantenedores do ParanoidLinux.

> M1k3y
> Estive vendo seu experimento na Xnet com grande interesse. Aqui na Alemanha temos muita experiência sobre o que acontece quando o governo perde o controle.
> Uma coisa que você precisa saber é que cada câmera tem um sinal de ruído único, que pode ser usado depois para ligar uma foto com a câmera. Isso significa que as fotos que você publica no seu site podem potencialmente ser usadas para identificar os fotógrafos, se forem pegos depois por algum motivo.
> Felizmente não é difícil apagar estas assinaturas, se quiser. Tem um utilitário no ParanoidLinux que voe pode usar para isso -chama-se Photonomus e vai achar no /usr/bin. Leia a pagina principal da documentação. É bem simples.
> Boa sorte com o que está fazendo! Não seja preso. Permaneça livre. Permaneça paranóico.
> Doutor Eeevil.

Retirei as impressões digitais de todas as fotos que postei e coloquei-as de volta com uma nota explicando o que Doutor Eeevil tinha me dito, alertando todos da mesma forma. Todos nós tínhamos o mesmo conhecimento básico da instalação do ParanoidLinux, de forma que podíamos transformar nossas próprias fotos em fotos anônimas. Não dava para fazer nada com aquelas que já podiam ter sido copiadas ou baixadas, mas de agora em diante eu ficaria mais esperto.
Isso era tudo que importava naquela noite, até eu descer para o café da manhã no dia seguinte e mamãe ligar o rádio para ouvir o noticiário da NPR.

“A agência de notícias árabe Al-Jazeera está exibindo fotos, vídeos e relatos em primeira mão dos incidentes da ultima semana em Missão Dolores Park.” O locutor disse, enquanto eu bebia meu suco de laranja. Tentei não cuspir o suco por toda sala, mas me engasguei um pouco.

“Os repórteres da Al-Jazeera disseram que este material foi publicado pelo chamado Xnet, uma rede clandestina usada por estudantes e simpatizantes da Al-Quaeda na Bay Area. A existência desta rede era há muito um boato, mas hoje marca sua primeira menção pública.”

Mamãe balançou a cabeça. “Era tudo que nós precisávamos. Como se a polícia não fosse ruim o bastante. Crianças correndo por ai, brincando de guerrilha e dando para eles a desculpa para realmente botar a casa abaixo.”

“Os weblogs da Xnet trazem centenas de relatos e arquivos multimídia de jovens que participaram do confronto e que alegam que o se tratava de uma manifestação pacifica até que a polícia os atacou. Aqui está um desses relatos:”

“Tudo o que fazíamos era dançar. Levei meu irmãozinho comigo. As bandas estavam tocando e falando sobre liberdade, de como nós a estávamos perdendo para aqueles idiotas que dizem odiar terroristas, mas que nos atacam, nós não somos terroristas, somos americanos. Acho que odeiam a liberdade, não nós. A gente estava dançando e as bandas tocavam e estava muito divertido e então os policiais começaram a gritar para que dispersássemos. Gritávamos tome de volta. Significando trazer a América de volta. Os policiais nos jogaram gás de pimenta. Meu irmãozinho tem doze anos. Ele perdeu três dias de escola. Os idiotas dos meus pais dizem que foi minha culpa. Mas e quanto à polícia? Nós os pagamos e eles supostamente deveriam nos proteger mas eles jogam gás na gente sem uma boa razão, como se fossemos soldados inimigos.”

“Relatos semelhantes, incluindo áudio e vídeo, podem ser encontrados no website da Al-Jazeera e na Xnet. Você encontra orientações de como acessar a Xnet na página da NPR.”

Papai apareceu.
“Você usa a Xnet?” ele perguntou, olhando intensamente para mim. Senti-me comprimido.

“Só para jogos” eu disse. “A maioria usa para isso. É só uma rede sem fio. É o que todos fazem com estes Xboxs gratuitos que ganhamos ano passado.”

Ele me olhou com raiva: “Jogos? Marcus, você não se dá conta, mas você está dando cobertura para pessoas que planejam atacar e destruir nosso país. Não quero que use a Xnet. Nunca mais. Fui claro?”

Quis falar algo. Diabos, eu queria agarrá-lo e sacudi-lo. Mas não o fiz. Desviei o olhar. Eu disse “Claro, papai.”

E fui para a escola.

#

Primeiro fiquei aliviado ao descobrir que eles não iriam colocar o senhor Benson responsável pela minha aula de Estudos Sociais. Mas a mulher que eles acharam para substituí-lo era o meu pior pesadelo.

Era jovem, uns 28 ou 29 anos, bonita, de certa forma. Era loura e falava com um sotaque do sul e se apresentou como Senhora Andersen. Isso disparou ao alarmes. Não conheço ninguém com menos de 60 anos que chame a si próprio por “Senhora.”
Mas eu iria fazer vistas grossas quanto a isso. Ela era jovem, bonita. Deveria ser legal.
Mas ela não era.

“Sob que circunstâncias o governo federal deveria suspender a Declaração dos Direitos do Cidadão?” ela disse, virando-se para o quadro negro e escrevendo uma seqüência de números numa coluna até dez.
“Nunca.” falei sem esperar ser chamado. Essa era fácil. “Os direitos constitucionais são absolutos.”
“Essa não é uma observação muito elaborada, Marcus. Por exemplo, digamos que um policial conduza uma busca imprópria -que vá além do que foi especificado em seu mandado. Ele descobre evidências que um sujeito matou seu pai. É a única evidência que existe. Este sujeito deve ficar livre?”
Eu sabia a resposta, mas não podia explicar. “Sim. Mas a polícia não deveria conduzir buscas inapropriadas.”
“Errado.” Ela disse. “A resposta certa para o erro na conduta da polícia é uma ação disciplinar contra a polícia, não punindo toda a sociedade pelo erro de um policial.” E escreveu no quadro. “Culpa criminal.”
“Outras maneiras de substituir a Declaração dos direitos do cidadão?”
Charles ergueu a mão. “Pondo fogo num teatro lotado?”
“Muito bom.” Disse, consultando a pauta de classe sobre a mesa – “Charles.Existem muitas instâncias nas quais a Primeira Emenda não é absoluta. Vamos listar algumas delas.”
Charles levantou a mão novamente: “Quando um oficial fica em perigo durante a execução da lei.”

“Sim, quando um policial ou oficial de inteligência trabalhando disfarçado tem revelada sua identidade. Muito bem.” Ela escreveu esta abaixo. “Outras?”
“Segurança nacional.” disse Charles sem esperar que ela chamasse de novo.
“Calúnia. Obscenidade. Corrupção de menores. Pornografia infantil. Instruções para fabricar bombas.” Mrs. Andersen escrevia rápido, mas parou em pornografia infantil. “Pornografia infantil é um tipo de obscenidade.”

Eu estava ficando doente. Não era isso que eu aprendera ou acreditava sobre meu país. Levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Não estou entendendo. Você faz parecer que a Declaração dos Direitos éopcional. É a Constituição! Supostamente nós a seguimos sem pestanejar.”
“Esta é uma simplificação bastante comum.” disse sorrindo falso. “O fato que importa é que aqueles que escreveram a Constituição tinham a intenção de que fosse um documento vivo, revisado de tempos em tempos. Entendiam que a República não poderia durar para sempre, se o governo não pudesse governar de acordo com as necessidades de seu tempo. Nunca pretenderam que a Constituição fosse vista como uma doutrina religiosa. Afinal, eles vieram para cá fugindo de doutrinas religiosas.”
Balancei a cabeça; “O quê? Não. Eles eram mercadores e artesões leais ao Rei, até que ele instituiu políticas que eram contra seus interesses, e o fizeram de maneira brutal. Aqueles que fugiram por motivos religiosos tinham vindo antes.”
“Alguns dos que escreveram a Constituição eram descendentes destes primeiros” ela disse.
“E a Declaração dos Direitos não é algo que você pega e escolhe. O que eles odiavam era a tirania. Supostamente a Declaração dos Direitos prevenia contra isso. Eram um exército revolucionário e queriam estabelecer princípios que qualquer um pudesse concordar. Vida, liberdade e a busca pela felicidade. O direito das pessoas de derrubar seus opressores.”
“Sim, sim” ela disse acenando para mim. “Eles acreditavam no direito das pessoas de livrar-se de seus reis, mas...” Charles estava rindo e quando ela disse, seu sorriso foi maior ainda.
“Eles elaboraram a Declaração dos Direitos por que eles pensavam que tendo direitos absolutos era melhor do que o risco de alguém os tirar. Como a Primeira Emenda, deveria nos proteger prevenindo que o governo de criar dois tipos de discurso, o permitido e o criminal. Não queriam encarar o perigo de que algum caipira pudesse decidir que as coisas que ele achasse desagradáveis fossem ilegais.”
Ela se virou e escreveu: “Vida, liberdade e a busca da felicidade” no quadro.
“Estamos um pouco à frente da lição, mas vocês parecem um tipo de grupo mais avançado.” Os outros alunos riram disso, de nervoso.
“A função do governo é assegurar aos cidadãos os direitos a vida, a liberdade eda busca da felicidade. Nesta ordem. É como um filtro. Se o governo quer fazer algo que nos fará infelizes, ou tire um pouco da nossa liberdade, está certo, já queestão fazendo-o para garantir nossas vidas. É por isso que os policiais podem te deter, se acharem que você é perigoso para você ou outros. Você perde sua liberdade e felicidade para proteger a vida. Se você está vivo, pode ser capaz de ter liberdade e felicidade depois.”
Alguns ergueram suas mãos. “Isso não significa que podem fazer qualquer coisa
que queiram se eles disserem para impedir alguém de magoar-nos no futuro?”
“Sim.” disse um garoto. “Parece que você está dizendo que a segurança nacional
é mais importante que a Constituição.”
Eu estava tão orgulhoso de meus colegas que disse: “Como você pode proteger a liberdade suspendendo a Declaração dos Direitos?”
Ela balançou a cabeça como se estivéssemos falando uma estupidez. “Os pais da revolução atiravam em traidores e espiões. Eles não acreditavam em liberdade absoluta, não quando ameaçava a República. Agora, pegue este pessoal da Xnet...”
Procurei não demonstrar nada.
“...esses chamados espalhadores de interferência que estão nos jornais de hoje. Depois da cidade ter sido atacada por pessoas que declararam guerra a este país, eles começaram a sabotar as medidas de segurança estabelecidas para agarrar os criminosos e evitar que eles o façam de novo. Eles colocaram em risco seus
camaradas concidadãos...”
“Eles fazem isso para mostrar que nossos direitos estão sendo negados em nome da proteção deles mesmos!” eu disse. OK. Eu gritei. Deus, ela me deixou fervendo. “Eles fizeram isso porque o governo estava tratando a todo como suspeitos de terrorismo!”
“Então eles queriam provar que não podem ser tratados como terroristas, então eles agem como terroristas? Cometendo atos de terrorismo?” gritou Charles.
Eu pirei.
“Oh, pelo amor de Deus! Cometendo atos de terrorismo? Eles mostraram que a vigilância universal é mais perigosa do que o terrorismo. Olhe para o que aconteceu no parque no final de semana passado. Aquelas pessoas estavam dançando e curtindo a música. Como isso pode ser terrorismo?”

A professora atravessou a sala e parou diante de mim, quase me cobrindo até que eu me calasse. “Marcus, você parece pensar que nada mudou neste país. Você precisa entender que a explosão da Bay Bridge mudou tudo. Milhares de nossos amigos e parentes estão mortos no fundo da baía. Este é um tempo para união nacional em face do violento insulto que nosso pais sofreu...”

Fiquei de pé. Eu já tinha tido muito daquela lengalenga de que tudo mudou.
“Unidade nacional.” A questão toda era que nós somos do país onde discordar é bem vindo. Somos um país de discordantes, lutadores e universitários que se recusam a servir na guerra, da liberdade de expressão.

Pensei na última aula de Senhorita Galvez sobre os milhares de estudantes de Berkeley que cercaram os carros da polícia quando tentaram prender um cara por distribuir material sobre os direitos civis. Ninguém atentou para aqueles caminhões quando eles partiram levando as pessoas que dançavam no parque. Eu sequer tentei. Eu estava fugindo.

Talvez tudo tivesse mudado.

“Acredito que você saiba onde fica a sala do Senhor Benson.” ela disse para mim. “Se apresente a ele imediatamente. Não vou ter minha aula perturbada por comportamento desrespeitoso. Para alguém que clama amar a liberdade de expressão, você certamente deseja derrubar qualquer um que discorde com você.”

Coloquei meu computador escolar na bolsa e saí. A porta tinha um dispositivo que tornava impossível batê-la, ou eu o teria feito. Fui direto para a sala de Benson. As câmeras me filmavam no caminho. Meu
passo foi gravado. Os arphids em meu crachá escolar passaram minha identidade para os sensores do corredor. Era como estar sendo preso.

“Feche a porta, Marcus” disse o senhor Benson. Ele virou sua tela e pude ver a sala de aula de estudos sociais. Ele estivera me observando.
“O que tem para dizer em seu socorro?”
“Ela não está ensinando, aquilo era propaganda. Ela nos disse que a Constituição não importava.”
“Não, ela disse que não era uma doutrina religiosa. E você a atacou como um tipo de fundamentalista querendo provar seu ponto. Marcus, você, de todas as pessoas, deveria entender que tudo mudou desde que aponte foi explodida. Seu amigo Darryl...”
“Não diga uma maldita palavra sobre ele.” eu disse borbulhando de raiva.
“Você não pode falar sobre ele. Sim, eu entendo que tudo está diferente agora. Nós costumávamos ser um país livre. Agora não somos mais.”
“Marcus, você sabe o que significa ‘tolerância zero’?”
Eu baqueei. Ele podia expulsar-me por comportamento ameaçador. Isso supostamente era para ser usado contra garotos de gangue que intimidam seus professores. Mas é claro que ele não tinha remorso algum sobre usá-lo contra mim.
“Sim, eu sei do que se trata.”
“Acho que me deve desculpas.”

Olhei para ele. Claramente estava segurando seu sorriso sádico. Parte de mim queria humilhar-se. Queria pedir sua clemência, para minha vergonha. Eu suprimi esta parte e decidi que era melhor ser chutado para fora do que pedir desculpas.

“Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que se de alguma forma este se tornar destrutivo. é do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em ais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade.” Eu me lembrava de cada palavra.

Ele balançou a cabeça. “Lembrar de certas coisas não é o mesmo que compreender seu significado, garoto.” Ele se debruçou sobre o computador e fez alguns cliques. Sua impressora começou a bramir. Ele passou para minhas mãos um comunicado ainda quente em que no cabeçalho dizia que eu estava suspenso por duas semanas.

“Irei mandar um email para seus pais agora. Se ainda estiver nas propriedades desta escola em 30 minutos, eu irei prendê-lo por invasão.”

Olhei para ele.
“Você não quer declarar guerra contra mim na minha própria escola.” ele disse.
“Você não pode vencê-la. Saia!”

Eu fui embora.



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 13 [ Download ]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Lost Zombies



Uma rede social para criar e compartilhar, todo tipo de coisa, como muiitas outras, você se cadastra e tem acesso a fotos, vídeos, forum, música, chat, participa com textos, além de concursos e...
...já disse que é sobre ZUMBIS ?



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Metal Gods (RPG)




Metal Gods -An Android and Robot Sourcebook for Darwin’s World [ Download ]

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um conto e suas transformações: Ficção Científica e História




Estudaremos, neste artigo, um conto de ficção científica de autoria de Ray Bradbury, “Um ruído de trovão” (The Sound of Thunder), escrito em 1952, bem como diferentes transcodificações suas, ocorridas em 1954 (história em quadrinhos), 1989 (episódio de série de TV) e 1993 (nova história em quadrinhos).

Os referenciais temáticos centrais tanto do conto quanto de suas transcodificações são, por um lado, o tempo ou, mais exatamente, a estrutura do tempo e sua possível transformação; por outro, uma preocupação política com o perigo de um regime democrático poder descambar, ao que parece com rapidez e sem grande dificuldade, para uma ditadura da pior espécie.


Um conto e suas transformações: Ficção Científica e História [ Download ]
Ciro Flamarion Cardoso - Professor Titular do Departamento de História da UFF.
Revista Tempo, Rio de Janeiro, nº 17

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Treasury of Great Science Fiction - Vol II

 
Uma coleção seminal de contos publicados nas revistas Adventures in Time and Space (1946) e The Astounding Science Fiction Anthology (1950) e Omnibus of Science Fiction.


CONTENTS

BRAIN WAVE by Poul Anderson
BULLARD REFLECTS by Malcolm Jameson
THE LOST YEARS by Oscar Lewis
DEAD CENTER by Judith Merril
LOST ART by George O. Smith
THE OTHER SIDE OF THE SKY by Arthur C. Clarke
THE MAN WHO SOLD THE MOON by Robert A. Heinlein
MAGIC CITY by Nelson S. Bond
THE MORNING OF THE DAY THEY DID IT by E. B. White
PIGGY BANK by Henry Kuttner
LETTERS FROM LAURA by Mildred Clingerman
THE STARS MY DESTINATION by Alfred Bester


A Treasury of Great Science Fiction - Vol II - Anthony Bouchher [ Download ]

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

El Cosmonauta



Que tal juntar cinema + ficção científica + crowdfunding ?

O resultado é El Cosmonauta, um projeto colaborativo espanhol, onde qualquer pessoa (mediante a doação de 2 euros) se torna co-proprietário do filme, e não para por ai, já que também é possível editar do seu jeito, fazendo seu próprio filme.

Vamos por partes.

Se você não está familiarizado com o termo, Crowdfunding funciona na prática como um financiamento, você coloca seu dinheiro em um projeto de terceiros e espera receber algo por ele.

No caso de El Cosmonauta, cada participante recebe ao final, um certificado de produtor, concorre no sorteio do traje de cosmonauta utilizado no filme e tem seu nome nos créditos.




As finanças e etapas do projeto El Cosmonauta, podem ser acompanhadas, o que garante a transparência da coisa toda.

A parte colaborativa, e que o faz diferente de um simples financiamento, é que todos os participantes podem também enviar músicas suas para compor uma trilha sonora (ou muitas), imagens para posters, fotos, desenhos, ideias para o teaser, vídeos (explorando o universo proposto pela história) e textos, expandindo o horizonte do filme.

Nada mal por 5 reais! E é claro, o filme (em HD), sob uma licença Creative Commons, se torna passível de ser copiado, editado, distribuido à vontade, gratuitamente.





A história é a seguinte:

Em 1975, o primeiro cosmonauta russo na lua, não consegue regressar e é dado como perdido no espaço. Ele, porém, através de mensagens de rádio fantasmagóricas, afirma ter retornado para a Terra e encontrando-a vazia.
Sua presença e voz irreais, vão gradualmente destruindo o mundo de seus entes queridos.

Roteiro do filme [ Download ]




domingo, 17 de janeiro de 2010

Entrevista com John Varley





Surgido na Ficção Científica americana em meados da década de 1970, quando a New Wave estava morrendo e o gênero buscava uma nova direção, John Varley quase que imediatamente se tornou uma força revolucionária na ficção especulativa. Combinando o estilo e a sensibilidade de Robert A. Heinlein, com o idealismo e o realismo social dos anos 60 da Califórnia, ele produziu uma rápida sucessão de histórias conceitualmente inovadoras. Varley manteve-se como uma força importante da FC americana desde então.


Pergunta: Conhecendo sua história e considerando as tendências sociais constantes nas histórias de seus primeiros trabalhos, seria justo chamá-lo de um autor de FC hippie ?


Varley: Eu prefiro pensar em mim, naqueles dias, como um hippie que escrevia FC. Eu vivia no coração do movimento. Eu incorporei o zeitgeist daqueles tempos em minhas histórias. Era o oceano onde eu nadava. "All you need is love". "Matar os porcos". Eu utilizei de todas essas noções simplistas de uma forma ou de outra. (Bem, eu nunca fui a favor de matarem policiais, mas eu os via como meus inimigos.) Assim, as histórias do universo 'Eight Worlds' (Oito Mundos) nasceram naquele ambiente. Desde então eu aprendi um pouco, eu espero. Pode chamar isso de amadurecer, ou chamar de perder a inocência. Ou chamar de se vender. Não me incomoda.


P: Seu universo dos 'Eight Worlds' está espalhado por três livros e muitos contos, e é um conceito notável: invasores alienígenas, irritados com os maus tratos da humanidade com a Terra. Somos expulsos de nosso planeta, deixando vivos apenas alguns milhares de pessoas na Lua e em outros lugares. Como teve esta ideia? E você hoje vê este 'castigo' como justo?

Varley: Não me lembro de onde se originou a idéia, só que na época eu estava lendo alguns livros de John Lilly, sobre os golfinhos e as baleias, e que tipo de consciência que eles podem ter. Eu percebi que a visão de mundo deles, através de seus sentidos de sonar, seria radicalmente diferente da nossa. O problema central era imaginar as baleias como sendo tão inteligentes assim. Por que elas não evitam ser arpoadas? Seria fácil enganar os barcos, bastaria mergulhar na aproximação de um deles. Mas elas nadam placidamente ao longo dos barcos até que o arpão as acerta, parecem impossibilitadas de se preocupar com as nossas atividades, até que seja tarde demais para evitar a morte. Então, talvez alguma coisa, talvez sua visão da vida seja tão diferente da nossa que não tenham medo da morte. A partir desta ideia, surgiu a de criaturas alienígenas que viveriam na atmosfera de planetas gigantes gasosos, que veriam os cetáceos como inteligentes, e os seres humanos como nada mais do que uma praga capaz de usar de ferramentas poluidoras, e decidiriam que tinham que fazer algo sobre nós, antes que dizimássemos seus parentes.


P: Nas mãos de vários escritores, 'Eight Worlds' poderia ser sobre a resistência humana contra os invasores, mas você sempre escolheu o menos previsível, e mais interessante, caminho, o de delinear os costumes sociais e vidas pessoais das pessoas vivendo no exílio na Lua, Mercúrio, Plutão, etc. Por que essa ênfase na vida cotidiana, em vez de escolher a aventura da batalha?

Varley: A invasão não se tratou de uma batalha, a menos que você considere um formigueiro sendo esmagado sob as esteiras de um tanque como uma batalha. Eu fiz menção em um par de histórias, que houve uma pequena minoria que sonhava em recuperar a Terra, mas não eram levadas a sério por pessoas sãs.

Eu nunca fui muito interessado em escrever sobre as revoluções, a guerra ou qualquer dos grandes convulsões sociais da política e da violência, senão pela visão de uma pessoa comum. Eu não poderia escrever um romance de Tom Clancy, mesmo que eu quisesse. Meu principal interesse são as pessoas, as coisas horríveis e grandiosas que acontecem com elas, e como vão lidar com isso. Então minhas histórias provavelmente são sempre em pequena escala. É como eu gosto.


P: De certa forma, 'Eight Worlds' sugere um tipo de inquietação existencial. O desejo constante de modificar e ampliar características sexuais, a clonagem que multiplica a identidade de um indivíduo, formas de simbiose, como em 'Gotta Sing, Gotta Dance'. Você vê esta vontade de transcendência pessoal como essencial à natureza humana?

Varley: Algumas coisas interessantes aconteceram quando eu comecei a escrever estas histórias. Por um lado, o sistema solar estava sendo explorado; estávamos recebendo uma imagem diferente daquela que eu recebi enquanto crescia. Mercúrio não era da maneira que nós pensávamos que era. Vênus não estava coberta por pântanos. Marte não tinha canais. Eu explorei algumas dessas idéias em minhas histórias. A revolução biológica estava apenas começando. Na época eu não tinha idéia de como era rápido, fácil, funcional e possível, a mudança de sexo, então eu brinquei com o DNA, aqui e ali. Eu não tinha idéia se tais coisas jamais seriam possíveis ou não, e não me importava. Eu estou sempre menos preocupado com a ciência em si, do que com os efeitos da nova ciência tem sobre a vida das pessoas. Agora, com o genoma humano mapeado e as células-tronco, e a nanotecnologia, podemos começar a ver as vias possíveis para o tipo de engenharia humana que eu descrevi. Mas muitas das mudanças sociológicas já começaram, como os direitos dos gays e novas formas de famílias. E um monte de que não é tão bonita assim. Eu realmente nunca considerei tropeçar com fanáticos religiosos, como George W. Bush, e que poderiam se colocar no caminho do progresso. A religião é uma fraqueza minha. Eu sempre subestimei os malditos religiosos.

Transcendência? Eu não sei o que é necessário para a raça humana. Tenho muita dificuldade para descobrir o que é essencial para mim. Conforme envelheço, enfrento a questão da consciência cada vez mais a cada dia. O que acontecerá comigo quando eu morrer? Eu não espero encontrar a resposta, e pode não haver uma resposta, no sentido de que, se a minha consciência simplesmente desaparece, nunca houve uma questão a ser respondida. Mas o meu lado espiritual, reconhecidamente anêmico, tem crescido ao longo dos anos, e eu não acho que a ciência possa fornecer todas as respostas, como eu costumava achar. A natureza da ciência é fazer a pergunta seguinte, o que implica que não importa o quanto você sabe, sempre haverá uma próxima pergunta. Parece que estamos batendo a cabeça em alguns dos limites do conhecimento hoje em dia, como a teoria das supercordas e da mecânica quântica, mas as pessoas diziam isso sobre os limites antes e estavam erradas.
E pode não haver outra vida. Frustrante, mas é a vida.


P: O povo em 'Eight Worlds' construiu vários novos lares para si, mas a maioria são bastante claustrofóbicos: cidades subterrâneas, túneis e similares, como Luna. Em alguns aspectos, as sociedades resultantes parecem utópicas, mas em outros, parecem completamente estéreis. Em que medida foi uma tentativa consciente sua, de criar uma utopia? E quanto tempo pode tal sociedade durar, dadas as suas limitações e perigos externos?

Varley: Eu não acredito em utopias. Quando eu pensei em tudo isto (e eu procuro evitar pensar muito sobre isso, prefiro deixar que minhas histórias se desenvolvem em um nível inconsciente), pensei que estava construindo um mundo que era melhor que o nosso em alguns aspectos. Certamente é melhor em padrão de vida, tecnologicamente, ninguém tem que trabalhar para viver, não há pessoas morrendo de fome. Quanto à cultura, eu trabalhei o aspecto nostálgico, em parte para ser capaz de usar referências familiares para um leitor moderno. Algumas pessoas reclamaram sobre isso, e eu sei que é um atalho fácil, mas funciona para mim. Não haveria nova arte, bem, eu não sei como seria possível. E quanto a serem estéreis... Eu não sei se isso é bom ou ruim. Sequer tentamos. Uma entidade verdadeiramente inteligente, como o computador central, poderia ser uma melhoria para o que temos tentado até hoje. Dificilmente poderia ser pior do que George W. Bush.


P: Além de das histórias de 'Eigth Worlds', você escreveu várias sobre a policial Anna-Louise Bach, da base Luna. O futuro que Bach habita, lembra que aquele na seqüência de 'Eight Worlds', cidades em túneis na Lua, etc, mas difere enormemente, pois não existem invasores; a Terra continua a ser de domínio humano. Por que então o futuro de Bach consegue ser pior do que o de 'Eight Worlds'?

Varley: Anna-Louise surgiu mais tarde, conforme amadureci um pouco e tinha menos fé em encontrar boas respostas para alguns dos principais problemas humanos. Comparado ao universo de Bach, 'Eight Worlds' seria uma utopia. Eu a criei para lidar com idéias terríveis demais para explorar em 'Eight Worlds'. Ela é uma policial, e sempre vamos precisar de policiais, creio eu. Ela lida com coisas nojentas. Ela vive em um universo que é uma extrapolação do nosso, sem a intervenção de um evento apocalíptico como a invasão que, por necessidade, nos aproximou, fez nossas diferenças parecerem triviais. Seu universo é o nosso, apenas com mais tecnologia.


P: Ainda sobre 'Eight Worlds', você escreveu três livros neste universo. O primeiro, 'Ophiuchi hotline', indica que a raça humana em breve terá que desocupar totalmente o sistema solar, rumo a um exílio no espaço profundo, mas o seguinte 'Steel Beach' e 'Golden Globe', significa um passo pra trás na narrativa, sobre uma empresa de passeios de lazer dos 'Eight Worlds'. 'Steel Beach' e 'Golden Globe', no entanto, nos conduzem ao exílio, assim como 'The Hotline Ophiuchi', com a partida da nave Robert A. Heinlein.

Varley: A principal coisa que você deve saber sobre mim é que eu não sou um planejador. Eu nunca fiz um cronograma para 'Eight Worlds'. Eu não leio 'Ophiuchi Hotline' há 20 anos ou mais. Confio na minha memória, às vezes falha, para manter as coisas razoavelmente consistentes. Não é o futuro escrito por Heinlein ou por Larry Niven. Quando eu termino uma história, e estou muito satisfeito com ela, uma vez que ela for publicada, não volto a ler novamente. Se isso ofende alguns leitores, me desculpem, mas sinceramente, eu não tenho tido muitas queixas. Tenho a certeza de que há leitores lá fora que poderiam definir os tempos e lugares de 'Eight Worlds' melhores do que eu.

Houve um abismo entre o primeiro livro e as primeiras histórias, eu senti que seria um handicap desnecessário voltar, e tentar fazer tudo funcionar, quando comecei com 'Steel Beach'. Meus interesses e minha visão mudaram neste tempo, entretanto, e eu só o defini, e a 'Golden Globe', neste universo, porque eu me sentia confortável nele. O que eu queria fazer, no entanto, foi o que eu costumo fazer, que é explorar um personagem.

Dito isto, o terceiro desta 'não-trilogia', que chamarei de 'Metal Set,Irontown Blues', irá lidar com seres humanos abandonando o sistema solar.


P: 'Steel Beach' e 'Golden Globe' são longos e absorventes romances biográficos do futuro, um é a história de um repórter de notícias, e o outro sobre um ator itinerante. Ambos os livros, mesmo que no futuro razoavelmente distante, também recordam o passado americano pré-Segunda Guerra Mundial, e a Idade de Ouro de Hollywood, e assim por diante. Por que essa simultaneidade, prospecção e retrospecção?

Varley: Porque eu gosto de filmes antigos. 'The Metal set' fala de pessoas que têm trabalhos que eu considero interessantes: um jornalista, um ator e o policial que virou investigador particular. Assim, a identificação com os filmes de Hollywood foi deliberada. Eu queria introduzir uma atmosfera de 'The Big Sleep' ou 'Chinatown' neste último.


P: O que você vê como principais obstáculos para a adaptação bem sucedida da FC para o cinema? E como você avalia o estado atual do cinema de FC em geral?

Varley: A Ficção Científica foi o gênero dominante nos cinemas desde 'Star Wars', que eu amava. Desde então, a maior parte foi porcaria. Por outro lado, de vez em quando surge uma jóia, como 'Eternal Sunshine of the Spotless Mind'. Os principais obstáculos para fazer bons filmes de FC são os mesmos obstáculos que enfrentam qualquer bom filme. Eles são geralmente o resultado de interesses conflitantes, de um grande número de pessoas trabalhando juntas, nem sempre para o mesmo objetivo. Se você já viu o processo de regravações infinitas, e mudanças de última hora, você sabe que é um milagre que qualquer bom filme seja feito. Tudo se resume a poder, e visão, e determinação, em partes iguais. Charlie Kaufman teve a visão, e depois de uma seqüência de abalos econômicos e financeiros, alguns de poder, conseguiu que um filme como 'Eternal Sunshine' fosse feito da maneira que ele queria. Jim Carrey tem o poder de tomar decisões finais sobre o script, e se ele compartilha a visão de Kaufman, então a coisa funciona. A última parte é a determinação, e você não acredita o quanto disso é necessário, por parte de todos os envolvidos, em um projeto que pode se estender ao longo de três, ou quatro, ou cinco, ou mesmo 10 anos. É fácil ficar frustrado e se juntar aos contadores do estúdio.


P: Á pouco eu mencionei Robert Heinlein. Muito do seu trabalho é uma homenagem ao seu estilo, sensibilidade e técnica. O que de Heinlein faz dele uma inspiração central para você e para a FC em geral? Vocês mesmo difere totalmente de Heinlein, no que diz respeita principalmente à ideologia, e o seu liberalismo, certo?

Varley: Robert Heinlein é o Shakespeare da Ficção Científica Hard. Qualquer ideia que você tenha, logo vai descobrir que Heinlein teve antes de você. Durante os anos 40 e 50, ele escreveu tudo sobre exploração planetária e viagens estelares. O único método que não me lembro dele usando, foi o elevador espacial, mas estou certo de que ele teria escrito um bom romance sobre isso, se tivesse a chance.

Tenho divergências políticas com Heinlein. Ele era de formação militar, com a qual não me relaciono bem, e às vezes era uma espécie de simplório anticomunista. Minha sensação é de que o verdadeiro comunismo nunca foi praticado, e muito menos nos regimes comunistas. Eu não sou comunista, mas eu sinto que o melhor modelo para o governo é um equilíbrio entre o capitalismo e o socialismo. Heinlein foi também um pouco darwinista social.

Mas a raiz de sua política era o ideal libertário, do governo deixando-nos em paz, exceto quando há uma necessidade imperiosa. Nós concordamos completamente nisso.


P: Seu livro 'Red Thunder', entre outras coisas, é uma homenagem a Heinlein, reconta espetacularmente o cenário básico de Heinlein para Rocketship Galileo (1947). Este famoso épico juvenil de Heinlein, ainda consegue inspirá-lo? Será que as viagens espaciais tripuladas, mesmo em seu moribundo estado, exige uma nova inspiração, uma sacudida Heinleiniana?

Varley: Você teria que perguntar a um adolescente se Heinlein ainda pode inspirá-lo. Os livros estão certamente datados, e isso pode fazer a diferença. É difícil ter em mente que a década de 1950 é tão remota para esta geração atual, como 1900 é para mim, e eu não li muitos livros escritos em 1900. No entanto, eles ainda são tão bons como sempre foram, e eu sei que há crianças lá fora, que ainda leem ficção de qualidade, ou JK Rowling não seria bilionária. Então eu espero que eles ainda estejam sendo lidos.

Espero que a viagem espacial tripulada já tenha recebido o que necessita, sob a forma de Burt Rutan (engenheiro aeroespacial que projetou a Spaceship One, a primeira nave sub-orbital particular). Combinada com a grana de Paul Allen, e o sentido do negócio e o carisma de Richard Branson, eu acho que eles são o equivalente a Delos Harriman, em 'The Man Who Sold the Moon' de Heinlein (1950). Eu estava lá em Mojave no dia que a Spaceship One reivindicou o prêmio Ansari, e para mim foi tão emocionante como o vôo de John Glenn.

Minha receita para o vôo espacial tripulado? Em primeiro lugar, a desativação da NASA. Isso mesmo. A NASA foi o 'Nós-podemos-fazer' de gente que era parte do governo americano dos anos 60, mas agora é apenas o governo, apenas a burocracia. Gostaria de substituí-la por uma agência que analisasse as propostas das empresas privadas e fornecesse o financiamento federal para aqueles promissores. Deixe a coisa da espionagem para a Força Aérea, deixe os satélites de comunicações para a indústria, que está fazendo um bom trabalho, deixe a construção para a Boeing e a Lockheed e outros. Para vôos espaciais tripulados, incentive pessoas com um sonho, como Rutan. Acho que o maior estímulo para o homem no espaço será... o turismo! Olha quantos já se inscreveram para o vôo de Rutan/Branson, mesmo com esses preços ultrajantes. O que precisamos é de alguém para desenvolver a tecnologia de combustão supersônica, terra-órbita e de volta, não jogando nada fora. Eles testaram um há algumas semanas, e alcançou Mach 11 ou algo parecido.


P: Você está escrevendo uma seqüência de 'Red Thunder'. Como vai se chamar?

Varley: Talvez 'Red Lightning'. Sim, eu sei que o raio supostamente vem antes do trovão, mas eu não estava pensando em uma seqüência quando eu a escrevi. Agora eu quero dar uma continuidade (pode haver um terceiro). Se eu chamasse de 'Green Thunder' ou 'Yellow Thunder', as pessoas diriam que eu estaria imitando a série sobre Marte de Kim Stanley Robinson. Assim, parece que estou preso nisso. E de qualquer maneira, é melhor do que 'Red Low Pressure Area' (área de baixa pressão vermelha).


P: Seu romance Mammoth (2005) trata sobre o renascimento de uma espécie pré-histórica. Ao explorar esse tema, você concorre com os filmes 'Jurassic Park', ou a sua visão é diferente, mais complexa?

Varley: Meus mamutes não são clonados. Na verdade não me lembro muito sobre 'Jurassic Park', exceto o T.Rex mastigando o SUV. Isso foi legal. Ah, sim, e o advogado sendo tirado da 'casinha' e engolido inteiro. Isso foi melhor ainda!




Entrevista cedida a Nick Gevers (Science Fiction Weekly - dezembro de 2004).

John Varley



John Herbert Varley (9 de Agosto de 1947) nasceu em Austin, Texas (EUA).

Varley quando criança, queria ser um cientista quando crescesse.
Na universidade de Michigan iniciou os estudos de Física, mas logo trocou por Lingua Inglesa e depois largou os estudos para 'conhecer a América', como muitos jovens americanos o fizeram nos anos 60, época do amor livre, Power Flower, Woodstock, etc.

Perambulou pela costa oeste sem emprego, acompanhou músicos, conheceu artistas, trabalhou por trocados e depois de seis anos vivendo desta maneira, decidiu que iria começar a trabalhar como escritor de Ficção Científica.

Segundo ele mesmo, suas primeiras histórias eram todas imitações mal feitas do estilo de Heilein.

Mesmo não sendo um escritor prolífico ou veloz, Varley ganhou respeito e admiração de leitores em sua vida 'pós-hippie', através de seus inúmeros livros de Ficção Científica e de seus contos, muitos deles situados em um futuro em que extraterrestres expulsaram a raça humana (ou o que sobrou dela) para fora da Terra. Os sobreviventes permanecem nas imediações do Sistema solar, graças a modificações biológicas.

Este tema, comum em livros como 'Persistence of Vision' (ganhador de um Hugo e um Nebula) e 'Overdrawn at the Memory bank', serviram também como inspiração para o filme 'Total Recall'.

Varley passou boa parte de sua vida de escritor em Hollywood, porém desta experiência, o único trabalho em longa metragem foi o sofrível filme Millennium (estrelado por Kris Kristofferson e Cheryl Ladd), cujo roteiro Varley escreveu seis vezes, depois de passar pela mão de 4 diretores.

Varley tem seu trabalho quase sempre comparado ao de Robert Heinlein. Além do estilo semelhante, Varley tem Henley como seu ídolo, e escreveu histórias como The Golden Globe, utilizando o modelo de sociedade que logo atribuimos a Heinlein. Porém, um dos muitos aspectos que diferencia a obra de Varley dos demais escritores, são suas abordagens de aspectos sexuais, assim como personagens femininos notórios, coisas que são pouco comuns de se encontrar em FC.
 
John Varley tem seu trabalho traduzido hoje em 16 idiomas incluindo o Esperanto.



John Varley ( In the bowl, Super heroes anthology, Blue champagne, Gaea series, Goodbye Robinson Crusue, Gotta sing gotta dance, In the Hall of Martian Kings, Incursion area, Mammoth, Millennium, Perdido en el Banco de Memoria, Persistence os vision, Picnic on nearside, Press Enter, Pusher, Red Thunder, Steel Beach, The Barbie murders, The Golden Globe, The ophiuchi hotline, The phantom of Kansas, En el salon de Los Reyes Marcianos y otros relatos, Y Manãna seran clones, El Globo de Oro ) [ Download ]