quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Orwell x Gibson - Dois modelos de poder
George ORWELL e Willian GIBSON foram autores da ficção científica cujas obras influenciam de forma considerável o cenário social contemporâneo, no que diz respeito às novidades propiciadas pela telemática.
ORWELL inverteu os algarismos do ano no qual estava escrevendo, 1948, e deu nome a sua mais famosa obra, "1984".
Não o fez com uma significação aparente. Porém, em 1948, nascia Willian GIBSON, autor de uma das mais intrigantes e inquietantes obras da ficção científica contemporânea, "Neuromacer", lançada em 1984.
O enredo estruturado por GIBSON (hoje roteirista de filmes em Hollywood) tangenciou diversos institutos atualmente estudados por cientistas do mundo todo, principalmente na área da telemática, como a realidade virtual, a compressão de dados, os ambientes de redes corporativas, a colonização espacial, o implante de órgãos mecânicos e o ciberespaço, entre outros.
Esse último era chamado, até então, de "Esfera de dados" nos ambientes acadêmicos e profissionais, mas as idéias e formulações de GIBSON, maior expoente do movimento "ciberpunk", mudaram tal concepção.
É relativamente comum os pensadores da ficção anteciparem acontecimentos científicos relevantes para a humanidade, como ocorreu com a ida à Lua, com as viagens não tripuladas pelo sistema solar, os mergulhos em grandes profundidades, a capacidade do homem de voar com auxílio de máquinas, a microcirurgia, os transplantes de órgãos, a clonagem, a televisão, o computador, etc. Isso teria, no aspecto coletivo e histórico, alguma justificativa psicanalítica ? Algo como um id remetendo punções evolutivas que um superego social e científico reconhece, algum tempo depois, como válidas ? Ou uma busca de mecanismos que permitam a solução de questões aparentemente insolúveis, como voltar ao passado e resolver problemas com os pais, como em "De volta para o futuro", mudando o curso da vida ?
ORWELL participou desse processo no que diz respeito à organização social e à estrutura do Estado, e algumas das coisas que ele sugestionou acabaram realmente acontecendo em alguns países do mundo. No momento em que o presente trabalho está sendo confeccionado, está em destaque na mídia mundial a atuação de câmeras de vídeo posicionadas em lugares públicos, flagrando pessoas em atividades suspeitas, auxiliando o Estado no combate ao crime.
Geralmente as matérias jornalísticas que tratam do assunto fazem alusão ao "Grande Irmão" e seu criador.
Este evento, antecipação, não aconteceu com a figura do ciberespaço, que foi criado e constatado sem que tivesse sido imaginado anteriormente pela literatura de ficção.
Quem mais chegou perto dele, em obras passadas, foi o próprio ORWELL (com as teletelas e a forma de comunicação que propiciavam) e GIBSON apresentou a visão contemporânea de maior impacto.
As semelhanças entre os pensadores vão além. Ambos, em suas abordagens sobre o futuro, estenderam suas "visões" ao campo social e político, abordando diretamente estruturas de poder e descrevendo as relações entre os homens, mergulhando numa subjetividade projetada, sem ficarem adstritos às análises tecnológicas.
Acredita-se que, como em outras ocasiões da ficção científica, eles disseram coisas úteis, a serem aproveitadas pela ciência. Porém, verifica-se que antagonizaram expressamente na questão do impacto da tecnologia sobre a sociedade e principalmente quanto à utilização da telemática, sobretudo no que diz respeito ao Estado e ao exercício do poder público. Teria GIBSON, propositadamente, formulado uma antítese à concepção de ORWELL ?
O sucesso de ambas as obras demonstrou o poder de impacto da ficção científica, inclusive junto aos meios científicos e universitários.
Para a realização do estudo, será, então, adotado o seguinte caminho:
1. Uma abordagem sobre a influência da ficção científica no desenvolvimento do homem; 2. Uma análise do movimento que de forma mais atual e real tratou das questões da telemática, o gênero "ciberpunk"; 3. Um comparativo entre GIBSON e ORWELL, principalmente em suas respectivas visões sobre Estado e poder.
1. A ficção científica antecipando o desenvolvimento humano.
Não são poucas as situações nas quais a solução para um problema está contida em uma alternativa teoricamente absurda. Grandes invenções decorreram de erros ou falhas que geraram conclusões totalmente imprevisíveis. Ou decorreram da palpites absurdos, provenientes de alguém que está livre das amarras da racionalidade científica, ou ainda de alguém que possua desprendimento suficiente para formular uma hipótese considerada improvável. Por não estarem obrigados a comprovar a cientificidade e a racionalidade de suas concepções, os escritores de ficção científica têm conseguido apresentar valorosas contribuições à ciência.
Francis HAMIT, que escreveu sobre a realidade virtual e a exploração do espaço cibernético, apresenta em sua obra uma passagem na qual isso fica bem claro, com relação ao potencial dos computadores:
"Na verdade, é um milagre que nós, com nossos processos de pensamento desorganizados e quase sempre caóticos, tenhamos inventado os computadores. É provável que tenha sido porque, no início, tudo o que fazíamos com eles era matemática, a mais exata e inflexível das ciências. Foi necessária muita confiança e imaginação por parte dos primeiros pioneiros para prever outros usos. Essas visões foram possibilitadas, sem dúvida, por escritores de ficção científica que nunca deixaram as limitações de fatos conhecidos atrapalharem uma boa idéia de estória." (destacado do original).
Obras de ficção científica têm se constituído em fonte inspiradora de notáveis pensadores contemporâneos, fato já reconhecido em elevados ambientes acadêmicos.
Tal se dá com Marvin MINSKI, professor e pesquisador do MIT, um dos maiores nomes mundiais de Inteligência Artificial, conforme relata HAMIT: "A ficção científica muitas vezes antecipa o fato científico.
Por essa razão, muitos cientistas consideram este gênero literário uma forma de filosofia dos tempos modernos. (É a disciplina intelectual algumas vezes chamada de ‘arte da especulação’.) Alguns cientistas escrevem ficção científica e outros, como Marvin Minski, do MIT, reconhecem o mérito dela na inspiração de suas próprias carreiras. A ficção científica teve um impacto direto sobre o desenvolvimento da realidade virtual, maior até que o impulso dado ao programa espacial".
O mesmo se diga quanto à telepresença, uma técnica de realidade virtual que já foi aplicada em atividades forenses no Brasil, mediante interrogatórios remotos. Na avaliação do mesmo autor, a literatura de ficção teve um papel importante em seu desenvolvimento, como se vê: "A telepresença será vital não apenas para a exploração planetária remota, mas, mais perto de casa, na Estação Espacial. Willian E. Bradley, do Institute for Defense Analysis, propôs essa aplicação num relatório de janeiro de 1964. Não era, obviamente, uma idéia original. Ela foi proposta pela primeira vez por Robert A. Henlein, num romance de ficção científica, em 1943 (Waldo). No entanto, em 1964, a tecnologia de telepresença estava começando a funcionar".
É inegável, portanto, a importância do papel antecipador dos textos desse gênero literário. No tocante à telemática, o nome já citado de GIBSON se constitui em uma das mais poderosas referências de antecipação, estando ele ligado à "ética hacker" e ao movimento "cyberpunk", como descreve HAMIT: "Quando Willian Gibson Escreveu poeticamente sobre o espaço cibernético em Neuromancer e sobre suas conseqüências, ele penetrou na imaginação hacker coletiva. (O território já tinha sido bem preparado por outros autores, como Vernor Vinge e Rudy Rucker, e isso se transformou num sub-gênero conhecido como ‘cyberpunk’,...)".
O que é e como se caracteriza o sub-gênero "cyberpunk" ?
2. A literatura "cyberpunk"
Como não poderia ser de outra forma, a expressão "Cyberpunk" foi cunhada dentro da ficção científica, por Gardner DOZOIS, com o intuito de identificar a fusão entre a fição científica e a contra-cultura niilista punk dos anos 80. Neuromancer é a obra de maior destaque do movimento, o que não quer dizer que seja a melhor, embora tenha arrebatado os prêmios Nebula, Hugo e Philip K. Dick.
A essência do pensamento que norteou o movimento veio de um certo cansaço diante do cenário então estabelecido, uma "mesmice", um "lugar comum" identificado por Bruce STERLING, que HAMIT assim relatou: "O escritor cyberpunk Bruce Sterling, no fim dos anos 70, escreveu um artigo que sustentava que a ficção científica tinha caído na rotina. Sterling reclamava que a ficção científica contemporânea não havia acompanhado as mudanças tecnológicas, mas era, na verdade, uma nova apresentação de impérios e sistemas sociais galácticos que refletiam uma sensibilidade americana. Um enfoque em valores da Nova Era que enfatizavam melhor estilo e caracterização em detrimento do conteúdo da ficção científica levaram, na opinião de Sterling, a uma nova perspectiva humanista que não conseguiu lidar com as mudanças da tecnologia de informação e da biotecnologia".
A partir daí, o movimento se popularizou, angariando, inicialmente, a simpatia dos "hackers" e, posteriormente, de outros ambientes, alcançando rapidamente respeitabilidade literária, como detectou o mesmo autor: "A cultura cyberpunk se tornou popular, não apenas entre os hackers locais e fãs de ficção científica, mas também entre um grande público de produções como Bladerunner e a dramatização feita pela PBS American Playhouse do conto Overdrawn at the Memory Bank, de John Varley. Autores como Bruce Sterling e Rudy Rucker se tornaram populares, por um curto período de tempo, continuam tendo destaque, e vários jornais literários sérios como o The Mississipi Review dedicaram edições inteiras ao novo gênero. Philip K. Dick morreu em 1982, pouco antes do lançamento de Bladeruner, que foi baseado num dos primeiros contos dele".
O gênero e seu entusiasmo são apontados como um dos mais fortes fatores de impulsão da realidade virtual. Vários de seus romances foram expressamente referidos em documentos de caráter estritamente científico, o que impressionou os escritores, inclusive o próprio GIBSON.
VON BRADENBRUG observa que "o cyberpunk não vê a tecnologia como um meio de opressão ou alienação, mas sim como um meio de descentralização e democratização política".
Afirma, também, que "todas as posições da contracultura dos anos 60 tiveram que ser invertidas. No início, temia-se um cenário Orwelliano, com os computadores sendo usados como instrumentos de opressão. O contrário aconteceu, com os computadores se tornando instrumentos que promovem democracia".
É correta essa última afirmativa ?
Inobstante, a alusão ao cenário apresentado por ORWELL está ligada à essência do movimento, o qual constitui a antítese a esse panorama.
Vejamos então:
3. Orwell X Gibson
Muitas são as observações que podem ser feitas sobre o cotejo dessas duas obras. Importa, por ora, identificar duas coisas. Inicialmente, seus pontos de contato. Posteriormente, suas respectivas visões sobre Estado e poder.
ORWELL e GIBSON, nas obras "1984" e "Neuromancer", respectivamente, visualizaram uma perspectiva de futuro para a humanidade, sob a influência direta dos avanços tecnológicos. Falaram, indiretamente, sobre o comportamento social do homem, sobre formas de governar e administrar, sobre padrões culturais, sobre o trabalho, sobre formas de comunicação e sobre política, além de outras coisas, mas, "enquanto Gibson desenhou uma nova realidade, escrevendo sobre coisas 60 ou 70 anos no futuro, falando de tendências que detectamos hoje, Goerge Orwell, em 1984, criou um mundo imaginário como uma metáfora da opressão pública e uma advertência à humanidade", como constatou Silvio ALEXANDRE.
"1984" mostra uma personagem central que vive em um ambiente socialmente mediano, com suas necessidades básicas satisfeitas. Tem um emprego bom, sem trabalho braçal, pode comprar algumas coisas e tem acesso a algumas informações. Leva, porém, uma vida entediante e medíocre, demonstrando uma certa indiferença inicial para com os acontecimentos exteriores à sua personalidade, até o momento no qual passa a dar atenção aos seus questionamentos.
"Neuromancer", embora ambientado num futuro mais distante, tem um panorama individual semelhante, no tocante à personagem central, que também está medianamente posicionada no contexto social e econômico e, da mesma forma, está atingida pela indiferença. As passagens ambientadas em estações orbitais, as imagens do ciberespaço, as descrições da realidade virtual e um rítimo mais acelerado conferem um charme particular ao livro de GIBSON.
Mas, tanto Winston quanto Case, após serem atingidos em cheio pela realidade, acabam rompendo com o indiferença e vivendo interessantes aventuras.
Na obra de ORWELL o Estado é absoluto. Controla os meios de produção, a mídia (onde o herói trabalha), o comportamento privado das pessoas e até mesmo a história. Um partido é o instrumento utilizado para direcionar a movimentação política, e uma figura mitologicamente real, o "Big Brother" , é utilizada para influenciar a subjetividade das pessoas.
ALEXANDRE fez um belo diagnóstico sobre a visão do Estado de ORWELL:
"Ainda que os acontecimentos descritos po Orwell em seu livro não tenham ocorrido nas datas e da maneira previstas, ele materializa as preocupações do mundo com os horrores produzidos sob o totalitarismo, fosse ele o de Hitler ou de Stalin. O romance não pretendeu ser profético, situando-se antes como um estudo da perda da liberdade em suas últimas conseqüências. Mas, o mundo de loucura e opressão mostrado no livro é impressionante na medida em que é perfeitamente possível. O controle da mente humana e da verdade histórica pelo Estado são realidades do século XX".
Já GIBSON apresenta um Estado (ou vários) bastante fragmentado, com pouco destaque no cenário principal. As coisas não acontecem em função da postura do Estado, como instituição centralizadora, mas em razão do exercício do poder por várias instituições, oficiais ou não, deixando pairar um questionamento: alguém controla tudo isso ? Se em 1984 a imagem do futuro da opressão é "uma bota esmagando um
rosto humano... para sempre", em Neuromancer ela é de "vários sapatos", cada um ao seu tempo, sem que se saiba de onde vêm. O rosto, porém, é o mesmo.
A administração dos acontecimento públicos em 1984 segue a trilha totalitarista modelada já no Estado, e "quem controla o passado, controla o futuro, quem controla o presente, controla o passado". Já em Neuromancer, diante da descoberta de que os veículos de comunicação depositam uma infindável quantidade de informações sobre as pessoas, "as gigantescas corporações multinacionais têm tanto ou mais poder do que os governos, manifestado justamente através do controle do fluxo de informações, produtos e serviços", como apontou ALEXANDRE. É possível dizer que a principal diferença das obras seja justamente a centralização, de um lado, e a fragmentação, de outro. Um poder excessivamente centralizado e controlador oprime ostensivamente os cidadãos/súditos de 1984. Já em Neuromancer, um poder excessivamente fragmentado, oportunista e furtivo, absolutamente terceirizado, dá aos indivíduos a sensação de que "onde fores eu estarei", pois tem-se a impressão de que as estruturas de controle, os grupos que gostam de controlar a vida alheia e direcionar os acontecimentos, têm representantes em todos os lugares, da
máfia japonesa ao sindicato dos lixeiros.
Levando em consideração que, segundo CASTORIADIS, "a psicanálise visa a ajudar o indivíduo a tornar-se autônomo, capaz de atividade refletida e deliberação", e que "queremos a autonomia também e sobretudo para estarmos capacitados e livres para fazer coisas", a análise de ambas as obras mostra que elas acabam chamando atenção para a desumanização do indivíduo e sua provável sucumbência ante os complexos
mecanismos de exercício de poder e respectivo controle, seja sob um Estado forte, seja sob um ambiente politicamente fracionado em excesso.
Antes de encerrar, vale lembrar a avaliação de CASTORIADIS, quando afirmou que "O’brien atinge seu objetivo quando Winston Smith não somente confessa tudo o que lhe pedem, mas também admite nele mesmo que realmente ama o Big Brother".
Hugo Cesar Hoeschl
Referências bibliográficas
ALEXANDRE, Silvio. O Autor e sua obra. Anexo a Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2 ed., 1991. CASTORIADIS, Cornélius. As encruzilhadas do labirinto,III: o mundo fragmentado. São Paulo: Paz e Terra, 1992.HAMIT, Francis. Realidade virtual e a exploração do espaço cibernético. Rio de Janeiro: Berkeley, 1993.LEITE, Eduardo de Oliveira. A monografia jurídica. Porto Alegre: Fabris, 1985.
O autor Hugo Cesar Hoeschl, é Mestre em filosofia e teoria geral do direito, especialista em informática jurídica e doutorando em inteligência artificial.
Fonte digital: RocketEdition -Ed. do Autor -Colocado na Rocket-Library - Disponível em *.rb em www.ebooksbrasil.org
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Lançamento do livro O Desejo de Lilith
Um descuido dos tradutores da Bíblia revelou o pior dentre todos os demônios. Um velho e decadente detetive de polícia investiga um macabro suicídio, mas o que ele não sabia era que sua vida estava por um fio e seria envolvido em uma conspiração contra toda a humanidade. Uma palavra-chave, transliteração de uma palavra hebraica repetida em 63 trechos da bíblia, dará início à mais sombria das investigações. Uma organização secreta milenar abriga incríveis segredos e bizarras e inimagináveis personagens. Afinal, o que teria em comum Platão, Vlad Tepes, Erzsébet Báthory, John Milton, Thomas Chatterton, Mary Shelley, Percy B. Shelley, Robert L. Stevenson, Aleister Crowley e Jim Morrison? Descubra em O Desejo de Lilith, um romance sobrenatural vivenciado nas principais avenidas e ruas de São Paulo, repleto de segredos, revelações, aventuras e muito rock n’ roll. Mas atenção, seja forte e esteja preparado ao ler estas páginas, pois você não confiará mais em seu vizinho ou qualquer outro transeunte que cruzar o seu caminho. Você nunca mais enxergará o mundo como antes…
Afinal, qual seria o desejo de Lilith?
Sobre o autor:
Ademir Pascale, paulista, linguísta, crítico de cinema, ativista cultural e autor de FC e horror. É autor do audiolivro Cinema: Despertando Seu Olhar Crítico (2008). Organizou as antologias Invasão (2009), Draculea: O Livro Secreto dos Vampiros (2009), Metamorfose: A Fúria dos Lobisomens (2009), No Mundo dos Cavaleiros e Dragões (2010), e juntamente do Maurício Montenegro, Poe 200 Anos (prevista para 2010). É co-editor, juntamente da Elenir Alves, do e-zine TerrorZine: Minicontos de Terror. Mantém o Portal Cranik, já tendo publicado mais de 130 entrevistas. E-mail: ademir@cranik.comLançamento:
Dia: 20/02/2010
Local: Bardo Batata: Gastronomia e Cultura. Rua Bela Cintra, nº 1333, Jardins, S. Paulo, SP
Horário: À partir das 18h30
Lançamento do livro Poe 200 anos - contos inspirados em Edgar Allan Poe
A antologia reune 22 autores, alguns deles já conhecidos entre os fãs de literatura fantástica.
Uma homenagem ao mestre do horror e do mistério.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Em Órbita
Em Órbita talvez seja o melhor site (em português), para quem deseja acompanhar o atual estágio da exploração espacial, ou se informar sobre detalhes técnicos científicos, podendo até seguir os lançamentos espaciais programados para este ano.
No site você encontra o calendário das missões para 2010, glossário de termos técnicos, o dia-a-dia da Estação Espacial Internacional, música, imagens impressionantes e pode também baixar o excelente boletim informativo em formato pdf.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Nancy Kress
Nancy Anne Koningisor (20 de Janeiro de 1948) nasceu em Buffalo, Nova Iorque (EUA).
Começou a escrever em 1976, mas alcançou seu maior êxito em 1990, com o prêmio Hugo e Nebula, para seu romance "Beggars in Spain".
Além de escritora, trabalhou em uma agência de publicidade, e deu aulas de inglês.
Suas histórias tendem a ser realistas, se passando em um futuro próximo, com uma conexão plausível com o presente. Sua ficção muitas vezes envolve engenharia genética, e em menor grau, a inteligência artificial.
Muitos a comparam a Larry Niven ou Greg Egan, mas com uma maior preocupação com os personagens, com seus pensamentos e sentimentos. Sua Ficção Científica é claramente "soft", menos voltada aos aspectos científicos. Por outro lado, ela é muito mais interessada nos detalhes técnicos, do que, por exemplo, Ursula K. LeGuin. Algumas de suas histórias são caracteizadas pelo suspense e, como ela se define uma amante do balé, ela tem escrito também, histórias em torno deste tema.
Nancy Kress ( Beggars in Spain, Entre tantas estrellas brillantes, Mendigos en Espanã, Probability Moon, Always true to thee in my fashion, And no such thing grow here, And wild for to hold, Arms and the woman, Art of War, Begars series, Borovsky1s Hollow woman, By fools like me, Crossfire, Dancing on air, Evolution, Fault lines, Feigenbaum Number, Fountain of age, In a world like this, Maximun light, My mother dancing, Nano comes to Clifford Falls, Oaths and miracles, Out of all the bright stars, Phillipa's hands, Safeguard, Saviour, Sex and violence, Spillage, Stalking beans, Steamship soldiers on the information front, Stinger, Stone man, Summer wind, The battle of long island, The flowers of aulit prison, The most famous little girl in the world, The montains to Mohammed, The prince of oranges, The rules, The sleepless, Trinity and others stories, Unto the daughters, Westlands preserve, Words like pale stones ) [ Download ]
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 16
CAPÍTULO 16
Este capítulo é dedicado a Booksmith de São Francisco, escondida na histórica vizinhança de Haight-Ashbury, poucas portas distante da Ben and Jerry’s na esquina da Haight e Asbury. O pessoal da Booksmith sabe de verdade como promover um evento com um autor - quando eu morava em São Francisco, eu costumava ir lá sempre e ouvia escritores fantásticos falarem. (A vez com William Gibson foi inesquecível). Também faziam pequenos cartões para os autores parecidos com cartões de figurinhas de beisebol - tenho dois, das vezes que apareci por lá.
Booksmith: 1644 Haight St. São Francisco CA 94117 USA +1 415 863 8688
Primeiro, mamãe ficou chocada, depois furiosa e por final deixei-a de queixo caído quando falei sobre os interrogatórios, de urinar-me, e do saco na cabeça, de Darryl. Mostrei-lhe o bilhete.
“Por quê?”
Em cada sílaba, cada recriminação que sofri sozinho à noite, cada momento que me faltou coragem de dizer ao mundo o que realmente havia ocorrido e o verdadeiro motivo de estar lutando. O que realmente inspirou a Xnet.
Fiquei sem fôlego.
“Eles me disseram que eu seria mandado para a cadeia se falasse sobre isso. Não por algum tempo, mas para sempre. Eu estava, estava apavorado.”
Mamãe sentou junto a mim por algum tempo sem dizer nada e então disse:
“E quanto ao pai de Darryl?”
Ela sabia como ninguém como enfiar uma agulha em meu peito. O pai de Darryl. Devia achar que o filho estava morto.
E não estava? Depois do DHS tê-lo mantido preso ilegalmente por três meses, por que o deixaram sair?
Mas Zeb saíra. Talvez Darryl pudesse sair. Talvez eu e a Xnet pudéssemos ajudar Darryl a sair de lá.
“Eu não contei a ele.” eu disse.
Agora era mamãe quem chorava. Ela não costumava chorar com facilidade. Uma faceta britânica. Isso fazia seu choro e soluçar bem pior de ouvir.
“Você tem que lhe contar. Você deve.”
“Eu vou.”
“Mas primeiro temos que falar com seu pai.”
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Fazia já algum tempo que papai não tinha um período regular em casa. Entre seus clientes de consultoria, tinha bastante trabalho, agora que a DHS estava priorizando tarefas de data-mining pela península e as viagens a Berkeley, ele deveria estar em casa alguma hora entre as seis e meia noite.
Naquela noite mamãe ligou para ele dizendo que viesse agora para casa. Ele disse algo e ela repetiu dizendo que deveria vir agora para casa. Quando ele chegou, estávamos na sala de estar com o bilhete sobre a mesa de café. Seria mais fácil falar uma segunda vez. O segredo agora estava mais suave. Eu não precisava embelezar a verdade, não precisava esconder nada.
Já tinha colocado coisas a limpo antes, mas eu nunca entendia o que significava fazê-lo até aquele momento. Manter segredo tinha me prejudicado, machucado meu espírito. Me fez ter medo e vergonha. Me tornava tudo que Ange disse que eu era.
Papai sentou-se tenso, sua face dura como pedra. Quando eu passei para ele o bilhete, ele o leu duas vezes e então o depositou de volta a mesa com cuidado.
Balançou a cabeça, levantou-se e foi para a porta da frente.
“Onde você vai?” mamãe perguntou alarmada.
“Preciso andar.” foi tudo que ele conseguiu dizer, com a voz entrecortada.
Nos olhamos sem jeito, e esperamos que ele voltasse. Eu tentava imaginar o que passava em sua cabeça. Ele tinha se tornado uma pessoa diferente desde a explosão da ponte e eu soube pela mamãe que o que o fizera mudar foi pensar naqueles dias que eu estava morto. Ele acreditara que os terroristas tinham assassinado seu filho e isso o fez enlouquecer.
Foi o bastante para fazer o que quer que a DHS pedisse, o bastante para se tornar a boa ovelhinha e deixar-se ser controlado, guiado.
Agora ele sabia que fora a DHS que me mantivera preso, o DHS tinha mantido as crianças de São Francisco hospedadas no presídio da baia. Fazia sentido agora que eu pensava nisso. Era claro que tinha sido a Treasure Island onde tínhamos ficado. Onde mais podíamos chegar de barco em dez minutos saindo de São Francisco?
Quando papai voltou, estava mais zangado do que jamais estivera em sua vida.
“Você tinha que ter me contado!” esbravejou comigo.
Mamãe se interpôs entre nós. “Você está culpando a pessoa errada. Não foi Marcus quem raptou e intimidou.”
Ele balançou a cabeça e disse “Não culpo Marcus. Sei exatamente de quem é a culpa. Minha. Minha e da estúpida DHS. Vistam seus casacos!”
“Onde vamos?”
“Ver o pai de Darryl. Depois vamos até Barbara Stratford.”
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Eu conhecia o nome Barbara Stratford de algum lugar, mas não me lembrava de onde. Pensei que fosse uma amiga dos velhos tempos dos meus pais, mas não conseguia saber exatamente de onde.
Enquanto isso, fui levado até a casa do pai de Darryl. Eu nunca me sentia bem perto do velho, que tinha sido operador de rádio da Marinha e comandava sua casa como um navio. Ele tinha ensinado Morse a Darryl quando era ainda pequeno, o que eu sempre achei muito legal. Isso foi um dos motivos de acreditar na carta de Zeb. Mas para cada coisa legal como o código Morse, o pai de Darryl tinha algum tipo de disciplina militar que parecia ser para sua própria segurança, como insistir em aparelhar as quinas das camas com proteções e se barbear duas vezes ao dia. Isso deixava Darryl louco!
A mãe de Darryl não gostara também disso e foi embora, viver com sua família em Minnesota, quando Darryl tinha dez anos - Darryl passava os feriados de verão e Natal com ela.
Eu estava sentado no banco de trás e podia ver a parte de trás da cabeça do papai enquanto dirigia. Os músculos de seu pescoço estavam tensos e saltavam quando movia o maxilar.
Mamãe mantinha uma das mãos no braço dele, mas não havia ninguém para me consolar. Se eu ao menos pudesse falar com Ange. Ou Jolu ou Van. Talvez eu falasse com eles depois.
“Ele deve ter enterrado o filho em sua mente.” disse papai enquanto fazia as curvas que levavam a Twin Peaks até a pequena casa que Darryl e seu pai dividiam. A neblina fechada de Twin Peaks, como toda noite em São Francisco e os faróis refletiam de volta nela. Sempre que virávamos uma curva, eu vi ao vale e a cidade lá embaixo, bolas de luz tremulas movendo-se na névoa.
“É aqui?”
“Sim.” eu disse. “É aqui.” Fazia tempo que não estava com Darryl, mas tinha passado anos bastantes ali para reconhecer a casa logo que a vi.
Ficamos os três junto do carro por um pouco, esperando para ver quem iria tocar a campainha na casa. Para minha surpresa, fui eu.
Toquei a campainha e esperamos em silêncio, com a respiração suspensa. Toquei de novo. O carro do pai de Darryl estava na entrada e tínhamos visto uma luz na sala. Eu estava indo tocar de novo quando a porta abriu.
“Marcus?” o pai de Darryl não se parecia com o que eu lembrava. Barbado, em roupas de ficar em casa e descalço, unhas por cortar e olhos vermelhos. Tinha engordado e um queixo extra crescera sob a mandíbula firme militar. O cabelo desgrenhado e farto.
“Senhor Glover.” eu disse. Meus pais se aproximaram atrás de mim.
“Oi, Ron.” disse minha mãe.
“Ron.” meu pai disse.
“Vocês também? O que foi?”
“Podemos entrar?”
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Sua sala de estar parecia com um daqueles lugares que aparecem em noticiários sobre crianças que são abandonadas por meses, vivendo por conta própria, até serem resgatadas por vizinhos. Caixas de comida congelada, latas vazias de cerveja, garrafas vazias de suco, vasilhas de cereais e pilhas de jornais velhos. Havia um cheiro ruim de urina de gato e lixo sob nossos pés. Mesmo sem a urina de gato, o cheiro era terrível, como o do banheiro da estação de ônibus.
O sofá estava coberto com um lençol cinzento e dois travesseiros sebosos de uso.
Ficamos parados ali por algum tempo em silêncio, o embaraço acima de qualquer outra emoção. O pai de Darryl parecia como se quisesse morrer.
Lentamente afastou o lençol do sofá e limpou a área, levando o que podia para a cozinha e ouvimos um barulho como se tudo tivesse sido largado no chão.
Sentamos nos lugares que ele limpou e quando voltou, ele se sentou também.
“Desculpe,” disse vagamente “não tenho café para oferecer a vocês. Vou precisar fazer compras amanhã...”
“Ron.” disse meu pai, “Ouça, temos algo a lhe dizer, e não será fácil de ouvir.”
Ele sentou-se como uma estatua enquanto eu falava. Olhou para o bilhete, leu sem parecer ter entendido e o devolveu para mim.
Ele tremia.
“Ele está...”
“Darryl está vivo.” eu falei. “Darryl está vivo e preso na Treasure Island.”
Ele cobriu a boca com a mão e fez um barulho terrível.
“Temos uma amiga.” meu pai falou. “Ela escreve para o Bay Guardian. Ela é repórter investigativa.”
Era daí que eu conhecia o nome. O semanal Guardian tinha perdido vários repórteres para os jornais diários e para a internet, mas Barbara Stratford sempre esteve nele. Tinha uma vaga memória de ter estado em um jantar com ela quando criança.
“Estamos indo agora falar com ela.” Minha mãe disse. “Você vem conosco, Ron? Pode contar a ela sobre Darryl?”
Ele colocou o rosto entre as mãos e respirou pesadamente. Papai tentou colocar a mão em seu ombro, mas ele se desviou violentamente.
“Preciso tomar um banho. Esperem um minuto.”
Quando o senhor Glover desceu as escadas era outro homem Tinha se barbeado, penteado e vestido um uniforme militar com medalhas ao peito. Fez um gesto para suas roupas e disse:
“Não tenho muita coisa limpa que seja apresentável no momento. E isso me pareceu apropriado. Vocês sabem, se ela quiser tirar fotografias.”
Ele e papai saíram na frente e eu logo atrás. De perto, ele cheirava um pouco a cerveja, como se ela saísse de seus poros.
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Era por volta da meia noite quando batemos na porta de Barbara Stratford. Ela vivia fora da cidade, em Mountain View, e durante o caminho pela rodovia 101, ninguém disse uma palavra.
Aquela era uma área da Baía diferente de onde eu vivia; parecia mais com o subúrbio Americano que aparece na televisão. Muitas casas semelhantes, onde não se via mendigos empurrando carrinhos de feira pela calçada, e nem mesmo havia calçadas.
Mamãe havia telefonado para Barbara Stratford enquanto esperávamos o senhor Glover se aprontar. A jornalista estava dormindo, mas mamãe estava tão tensa que toda aquela fleuma britânica foi esquecida assim como qualquer embaraço por acordá-la. Disse a ela, bastante nervosa, que tinha algo para falar e que tinha que ser pessoalmente.
Quando saíamos para ver Barbara, meu primeiro pensamento foi na série Brady Bunch - uma casa rancho com muros de tijolos em frente e perfeitamente quadrado Chegamos à entrada e vimos que as luzes estavam acesas dentro de casa.
Ela abriu a porta antes que tivéssemos chance de usar a campainha. Ela devia ter a idade dos meus pais, uma mulher alta e magra, com a feição de uma águia e olhos apertados com rugas. Usava jeans que poderiam ser vistos nas vitrines das butiques de Valencia Street e uma blusa solta de algodão indiana bem comprida. Pequenos óculos redondos que brilharam na luz da entrada.
Sorriu um sorriso pequeno para nós.
“Vieram com a turma toda, pelo que vejo.” ela disse.
Mamãe assentiu: “Você entenderá o porquê em um minuto.” O senhor Glover entrou junto com meu pai.
“E você serviu na Marinha?”
“Nos bons tempos.”
Fomos apresentados e ela tinha um aperto de mão bastante firme de dedos longos.
Sua casa era repleta de mobiliário minimalista estilo japonês, precisamente proporcional, móveis baixos, vasos de barro com bambu que subiam ao teto e o que parecia ser uma peça rústica de motor diesel sobre uma mesa polida de mármore. Gostei. O chão era de madeira velha, ariada, dando para ver brechas e cortes sob o verniz. Realmente gostei daquilo.
“Fiz café. Alguém vai querer?”
Todos erguemos as mãos. Eu desafiava meu pais.
“Certo.” ela disse.
Ela desapareceu em outra sala e voltou de lá depois com uma bandeja de bambu com garrafas térmicas de meio galão e seis copos com o mesmo design rústico. Gostei também.
“Agora.” ela disse depois de nos servir. “É bom ver vocês de novo. Marcus, a última vez que o vi, devia ter uns sete anos de idade. Me lembro que estava excitado com seu novo videogame, e mostrou-o para mim.”
Eu não lembrava disso, mas soou como algo que eu faria os sete anos. Deveria ser meu Sega Dreamcast.
Ela trouxe um gravador, um bloco amarelo e lápis.
“Estou aqui para ouvir o que quer que tenham para me dizer e prometo que será mantido em segredo. Mas eu não posso prometer que farei algo com isso ou que será publicado.’
Do jeito que ela disse aquilo me fez ver que minha mãe pedira um grande favor ao tirá-la da cama, sendo amiga ou não. Devia ser um saco ser um grande nome da investigação jornalística. Provavelmente um milhão de pessoas devia querer envolvê-la em suas causas.
Mamãe me fez um sinal. Eu já tinha contado a história três vezes aquela noite e estava cansado de falar. Era diferente de contar para meus pais. Diferente de contar para o pai de Darryl. Era como começar um novo movimento no jogo.
Comecei devagar e olhava Barbara tomando notas. Bebi uma xícara toda de café antes de dizer como funcionava o ARG e como fugíamos da escola para jogar. Mamãe e papai e o senhorGlover ouviam com atenção esta parte. Peguei de outra xícara e bebi antes de dizer como tínhamos sido capturados. Então contei a história toda; eu precisava sair dali e ir ao banheiro urinar.
Seu banheiro era tão bacana quanto a sala, com sabão orgânico que cheirava bem. Quando voltei os adultos me olhavam silenciosos.
A seguir, o senhor Glover contou sua história. Não tinha nada a dizer sobre o que aconteceu conosco, mas contou que era um veterano e que seu filho era um bom garoto. Falou sobre como se sentiu acreditando que seu filho estava morto, como sua ex-esposa teve um colapso quando soube e acabou no hospital. Chorou um pouco, as lagrimas correndo seu rosto marcado e escurecendo o colarinho de seu uniforme.
Quando terminou, Barbara foi até outra sala e voltou com uma garrafa de uísque escocês.
“É um Bushmills 15 anos.” ela disse distribuindo quatro copos pequeninos. Nenhum para mim.
“Foi vendido há dez anos e acho que este é o momento apropriado para abri-lo.”
Ela serviu os quatro copinhos, ergueu o seu e bebeu metade do copo. Os outros adultos a imitaram. Beberam mais uma vez e terminaram. Ela serviu novamente.
“Certo.” ela falou. “Isso é o que posso dizer agora a vocês. Eu acredito em vocês. Não apenas por que conheço você, Lilian. A história faz sentido, e bate com alguns rumores que ouvi. Mas as suas palavras não bastam, vou precisar investigar cada aspecto disso, e cada elemento de suas vidas e histórias. Preciso saber se tem alguma coisa que não me disseram, algo que possa ser usado para desacreditá-los depois que isso vier a luz. Preciso de tudo. Podem passar muitas semanas antes de isso ser publicado.”
“Vocês precisam pensar na segurança de vocês e na de Darryl. Se ele está realmente sob o controle deles, qualquer pressão sobre a DHS pode levá-los a mudá-lo para algum lugar distante, quem sabe a Síria. Podem inclusive fazer algo pior.” Fez aquele gesto no ar. Eu sabia que ela queria dizer como eles poderem matá-lo.
“Vou escanear agora este bilhete. Preciso de fotos de vocês dois, agora e depois, posso mandar um fotografo, mas quero documentar isso como puder ainda esta noite.”
Fui com ela até seu escritório e escaneamos. Eu esperava um estiloso, porém antigo computador que cominasse com a decoração, mas ao invés disso em seu escritório havia um PC de última geração, top de linha, grandes monitores de tela plana e um scanner grande o bastante para registrar uma pagina inteira de jornal aberta. Ela foi rápida com aquilo também. Notei com aprovação que ela rodava ParanoidLinux. Aquela senhora levava seu trabalho a sério.
“Um, Barbara?”
‘Sim?”
“Quando você disse sobre poderem usar algo para me desacreditarem...”
“Sim?”
‘O que vou te dizer agora você não poderá repetir para ninguém, certo?”
“Em teoria. Deixe-me dizer deste jeito. Prefiro ir para a prisão do que revelar minha fonte.”
“Ok, ok, Bom. Prisão. Ok.” Respirei fundo. “Ouviu falar da Xnet? De M1k3y?”
“Sim.”
“Eu sou M1k3y.”
“Oh.” ela disse. Ela trabalhava escaneando o lado oposto do bilhete. Escaneava numa resolução absurda de 10.000 pontos por polegada ou mais, e na tela parecia algo como o resultado de um microscópio de túnel de elétrons.
“Bem, com isso a coisa muda de figura.”
“Sim.” eu disse “Imaginei que sim.”
“Seus pais não sabem.”
“Nadinha. E acho que não quero contar para eles.”
“É algo que você vai precisar pensar. Eu preciso de tempo para pensar sobre isso. Você pode vir ao meu trabalho? Eu gostaria de conversar sobre exatamente o que isso significa.”
“Você tem um Xbox Universal? Eu instalar para você.”
“Sim, acho que posso arranjar um. Quando for ao meu escritório, diga que Mister Brown deseja me ver. Eles sabem o que significa. Ninguém irá anotar sua presença e toda gravação feita pelas câmeras de segurança naquele dia será automaticamente limpa e as câmeras desativadas até que vá embora.”
“Uau. Você pensa como eu.”
Ela sorriu e me deu um tapinha no ombro. “Garoto, eu estou neste jogo faz tempo. Sendo assim, faço o que posso para passar mais tempo livre do que atrás das grades. A paranóia é minha amiga.”
#
Eu parecia um zumbi na escola no dia seguinte. Tinha dormido apenas três horas de sono e mesmo três copos daquela lama de cafeína tinham falhado em despertar meu cérebro. O problema com a cafeína é que é muito fácil se assimilar e cada vez mais você precisa de doses maiores do que o normal.
Passei a noite pensando o que eu faria. Parecia correr através de diversas passagens, porém todas conduziam ao mesmo beco sem saída. Quando fosse ver Barbara estaria feito. Não importava o que eu pensasse.
Finalmente a aula acabou e tudo que eu queria era ir para casa e cair na cama. Mas eu tinha um encontro, lá no Bay Guardian, junto ao cais. Meus olhos não saíam dos meus pés e quando eu cheguei na rua 24 outro par de pés estava na minha frente. Reconheci-os e parei.
“Ange?”
Ela se parecia comigo. Estava sem dormir, com olheiras de guaxinim.
“Oi! Surpresa! Me liberei da aula de francês na escola. Eu não conseguia me concentrar mesmo.”
“Hum.” eu disse.
“Cala a boca e me dá um abraço, seu idiota.”
Eu dei. E foi bom. Mais do que bom. Senti-me como se uma parte que tivesse sido amputada de mim tivesse sido recolocada de volta.
“Eu te amo, Marcus Yallow.”
“Eu te amo, Ângela Carvelli.”
“Ok.” ela falou mudando de assunto. “Gostei do seu post sobre não fazer interferência. Posso entender. E o que você fez a respeito de encontrar um jeito de bagunçar a casa deles sem ser preso?”
“Estou a caminho de encontrar-me com uma jornalista investigativa que vai publicar a historia de como fui parar na cadeia, como comecei a Xnet e como Darryl está sendo mantido preso irregularmente pela DHS numa prisão secreta na Treasure Island.”
Ela olhou ao redor. “Você não acha que está sendo, você sabe, ambicioso?”
“Quer vir?”
“Quero sim. E queria que explicasse isso em detalhes, se não se importa.”
Depois de recontar tantas vezes, esta vez, enquanto caminhávamos de Potrero Avenue até a rua 15, foi a mais fácil. Ela segurava minha mão e às vezes a apertava.
Subimos as escadas até os escritórios do Bay Guardian de dois em dois. Meu coração pulava. Cheguei à recepção e a mesa da recepção e disse a moça entediada trás dela “Estou aqui para ver Barbara Stratford. Meu nome é Mister Green.”
“Acho que quer dizer Mister Brown.”
“Sim! Mister Brown.” Disse, corando.
Ela fez algo em seu computador e disse: “Sente-se. Barbara irá atendê-lo num minuto. Posso lhe servir alguma coisa?”
“Café!” dissemos em uníssono. Outra razão para amar Ange era que éramos viciados na mesma droga.
A recepcionista, uma pequena latina pouco mais velha que nós, vestida no estilo GAP já tão antigo que passava atualmente como um tipo de hipster-retro, assentiu e saiu, voltando depois com um par de xícaras.
Bebemos em silêncio, observando os visitantes e repórteres indo e vindo. Por fim Barbara veio até nós. Vestia praticamente a mesma roupa da noite anterior. Caía bem nela. Levantou uma sobrancelha para mim quando viu que eu estava acompanhado.
“Olá! Hum, esta é...”
“Senhorita Brown.” disse Ange estendendo uma mão. Sim, lógico, nossas identidades supostamente deviam ser secretas.
“Eu trabalho com Mister Green.” ela me deu uma cotovelada de leve.
“Vamos, então.” disse Barbara e nos levou para uma sala com grandes paredes de vidro com persianas baixas. Ela trouxe uma tigela de algo similar aos biscoitos Oreo orgânicos da Whole Foods, um gravador digital e um bloco amarelo.
“Vai querer gravar também?” ela perguntou.
Eu não tinha pensado nisso. Conseguia ver algum uso caso eu quisesse contestar o que Barbara publicasse, pensei. Ainda assim, se não podia confiar que ela faria a coisa certa, tudo estaria mesmo perdido.
“Não, tudo bem.” eu disse.
“Certo, vamos começar. Minha jovem, meu nome é Barbara Stratford e sou repórter investigadora. Acho que sabe por que estou aqui e estou curiosa de saber o porquê de você estar aqui.”
“Trabalho com Marcus na Xnet” ela disse. “Precisa saber meu nome?”
“Agora não.” Barbara disse. “Pode ficar anônima, se quiser. Marcus, eu lhe pedi para me contar esta história porque eu preciso saber como isso se liga ao que você me contou sobre seu amigo Darryl e o bilhete que me mostrou. Posso usar isso para explicar a origem da Xnet. ‘Eles criaram um inimigo do qual nunca se esquecerão’, este tipo de coisa. Mas honestamente, eu preferia não ter que contar esta história se não precisasse.”
“Eu preferia uma história clara contando sobre uma prisão secreta bem à nossa porta, sem ter que argumentar sobre os prisioneiros serem o tipo de pessoas que caminham por aí e criam um movimento underground para desestabilizar o governo federal. Tenho certeza que você entende.”
Eu entendia. Se a Xnet fizesse parte da história, alguns iriam dizer, “Veja, eles precisam colocar estes caras na prisão ou eles começarão uma rebelião.”
“O show é seu, Barbara. Acho que você precisa dizer ao mundo sobre Darryl. Quando fizer isso, estará dizendo a DHS que eu vim a público e eles virão atrás de mim. Talvez eles pensem que estou envolvido com o Xnet. Talvez me liguem ao M1k3y. Acho que o que quero dizer é que, uma vez que você publique a história sobre o Darryl, tudo terá acabado para mim. Assim, ficarei em paz.”
“Tanto faz ser preso por roubar um porco ou por dois.” ela disse. “Certo. Estamos de acordo. Quero me vocês me contem tudo sobre a fundação e a operação da Xnet e depois eu quero uma demonstração. O que vocês usam? Quem mais usa? Como se disseminou? Quem escreveu o software, tudo!”
“Vai levar algum tempo.” disse Ange.
“Eu tenho algum tempo.” disse Barbara. Bebeu café e mordeu um Oreo de mentira. “Esta pode ser a história mais importante da Guerra contra o Terror. Pode ser a história que irá desnudar o governo. Quando você tem uma história destas, você precisa ser cuidadoso.”
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 16 [ Download ]
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
The best time travel stories of the 20th Century
We’re all time travellers, whether we know it or not.
We go into the future at a steady rate of one second per second, and we leave the past behind.
New things come along.
Old things are forgotten.
My own lifetime—neither especially long nor especially short these days—has seen the rise of antibiotics, AIDS, space travel, television, CDs, videotape, DVDs, Richard Nixon (twice), civil rights, women’s rights, gay rights, cell phones, the computer, and the Internet. It’s seen the fall of Communism, segregation, records, smallpox (we hope!), polio, Richard Nixon (twice), the Twin Towers, and the idea that smoking is cool.
[...]
The short fiction collected here looks at similar ideas and some wildly different ones. The pieces speak for themselves; anything I say about them, I fear, would only get in the way. The only thing I can be fairly sure of is that you’ll like most of them. Enjoy!
Table of Contents
Introduction by Harry Turtledove
Yesterday Was Monday by Theodore Sturgeon
Time Locker by Henry Kuttner
Time’s Arrow by Arthur C. Clarke
Death Ship by Richard Matheson
A Gun for Dinosaur by Lyon Sprague De Camp
The Man Who Came Early by Poul Anderson
Rainbird by R. A. Lafferty
Leviathan! by Larry Niven
Anniversary Project by Joe Haldeman
Time Tipping by Jack Dann
Fire Watch by Connie Willis
Sailing to Byzantium by Robert Silverberg
The Pure Product by John Kessel
Trapalanda by Charles Sheffield
The Price of Oranges by Nancy Kress
A Fisherman of the Inland Sea by Ursula K. Le Guin
About the Editors
Permissions
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
I Talked with a Zombie
TABLE OF CONTENTS
Acknowledgments
Richard Alden
Eric Braeden
Ann Carter
Robert Colbert
Robert Conrad on The Wild Wild West
James Darren on The Time Tunnel
Maury Dexter
Pat Fielder
Richard Gordon on Svengali (1954)
Ron Harper on Planet of the Apes
Charles Herbert
Jimmy Lydon on Rocky Jones, Space Ranger
Lee Meriwether on 4D Man and Batman
Laurie Mitchell
Tandra Quinn
William Reynolds
Betta St. John
Hans J. Salter (Interview by Preston Neal Jones)
Jay Sayer
Olive Sturgess
Frankie Thomas, Al Markim and Jan Merlin on Tom Corbett, Space Cadet
Index
I Talked with a Zombie - Interviews with 23 Veterans of Horror and Sci-Fi Films and Television - Tom Weaver [ Download ]
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
The History of Science Fiction
Science fiction is too large a subject to be represented exhaustively in a Critical History, even in one such as this, which has been allowed fairly ample dimensions. The reader seeking greater comprehensiveness is advised to consult John Clute and Peter Nicholls’ astonishingly full Encyclopedia of Science Fiction.
The present study is not a complete account of the genre, but rather an attempt to trace a line that connects one specific mode of ‘fantastic’ literature, which we now call science fiction, from earliest times through to the present day.
The majority of texts examined are novels, short or long, and these remain the dominant form of SF, although the ‘short story’ (a slightly different thing from ‘short novels’), cinema, television, comic books and other forms of cultural production play an increasingly large part in the later stages.
As a Critical History, this work also has a certain case to make. I hope to avoid tendentiousness, but my argument is not neutral – even if such a thing as a purely neutral critical argument could exist – and I sketch
it out here so that readers can be forewarned and prepare themselves to read what follows in a sympathetic or hostile frame of mind, whichever suits them better.
Preface
1. Definitions
2. Science Fiction and the Ancient Novel Interlude: AD 400–1600
3. Seventeenth-Century Science Fiction
4. Eighteenth-Century Science Fiction
5. Early Nineteenth-Century Science Fiction
6. Science Fiction 1850–1900
7. Jules Verne and H. G. Wells
8. The Early Twentieth Century: High Modernist Science Fiction
9. Early Twentieth-Century Science Fiction: The Pulps
10. Golden Age Science Fiction 1940–1960
11. The Impact of New Wave Science Fiction 1960s–1970s
12. Science Fiction Screen Media 1960–2000: Hollywood Cinema and Television
13. Prose Science Fiction 1970s–1990s
14. Late Twentieth-Century Science Fiction: Multimedia, Visual Science Fiction and Others
Postscript: Twenty-First-Century Science Fiction
Chronology of Key Titles in Science Fiction and Developments in Science
Notes
Further Reading
Index
The History of Science Fiction - Adam Roberts [ Download ]
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Perilous Planets
INTRODUCTION
Long before I began compiling this book, I could see what it had to contain. Its title and its contents leaped at me while I was working on the first anthology in this series, Space Opera*, three years ago.
For the majority of readers new to science fiction, a landing on another planet - a planet, because unknown, even more perilous than Earth - must be their peak experience of the genre. If they don't get the true sf charge out of touchdown on Procyon v, they will never get any charge at all. The cutting edge of science fiction lies along the interface between the known and the unknown.
So what I wanted for my anthology was that seminal story in which our brave astronauts, or space-travellers as they used to be called, make the first-ever voyage through space, see the stars like jewels flung into the sack of night, and touch down on a totally unknown planet. There they jump out to test the atmosphere, find it even better than Earth's, and take a stroll amid the glorious scenery. Whereupon something awful appears and - according to which seminal story you read -attempts to eat them, warps their minds with obscene telepathic messages, or captures them and takes them into subterranean tunnels.
It was a fantastic story, one you remember for the rest of your life. My trouble was, I had forgotten which story it was. For months, I leafed my way through my library, looking for the seminal story. I found plenty of stories like it, but never that actual story. Eventually the truth dawned. That seminal story had no actual existence. It was a creation of my memory, compounded from elements common to many similar firstlanding stories. It was, you might say, a folk memory of landing on a strange planet.
(* Space Opera was followed by Space Odysseys, Evil Earths, and Galactic Empires (in
two volumes), all from the publishers of this companion volume.)
CONTENTS
Introduction
'How Are They All on Deneb IV ?'
C. C. Shackleton
SECTION 1 UNINHABITED PLANETS
'. . . Because They're There'
Mouth of Hell
David I. Masson
Brightside Crossing
Alan E. Nourse
The Sack
William Morrison
SECTION 2 INHABITED PLANETS
Whatever Answers the Door . . .
The Monster
A. E. van Vogt
The Monsters
Robert Sheckley
Grenville's Planet
Michael Shaara
Beachhead
Clifford D. Simak
SECTION 3 A DASH OF SYMBOLS
No Names to the Rivers
The Ark of James Carlyle
Cherry Wilder
On the River
Robert F. Young
Goddess in Granite
Robert F. Young
The Seekers
E. C. Tubb
SECTION 4 MARS AND VENUS
Love and War
When the People Fell
Cordwainer Smith
The Titan
P. Schuyler Miller
SECTION 5 BECOMING MORE ALIEN
A Universal Home Truth
Four in One
Damon Knight
The Age of Invention
Norman Spinrad
The Snowmen
Frederik Pohl
Schwartz Between the Galaxies
Robert Silverberg
Afterword
Perilous Planets - Antologia organizada por Brian Aldiss [ Download ]
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Watching Doctor Who and Star Trek
Why are Star Trek and Doctor Who so popular? These two science fiction series have both survived cancellation and continue to attract a huge community of fans and followers. Doctor Who has appeared in eight different TV and film guises and Star Trek is now approaching its fourth television incarnation. Science Fiction Audiences examines the continuing popularity of two television ‘institutions’ of our time.
Through dialogue with fans and followers of Star Trek and Doctor Who in the US, Britain and Australia, John Tulloch and Henry Jenkins ask what it is about the two series that elicits such strong and active responses from their audiences. Is it their particular intervention into the SF genre? Their expression of peculiarly
‘American’ and ‘British’ national cultures? Their ideologies and visions of the future, or their conceptions of science and technology? None of these works in isolation, because, as the plentiful interviews with fans and followers illustrate, audiences actively play with their entertainment according to complex and shifting categories of recognition, competence and pleasure.
Science Fiction Audiences responds to a rich fan culture which encompasses debates about fan aesthetics, teenage attitudes to science fiction, queers and Star Trek, and ideology and pleasure in Doctor Who. It is a book both for fans of the two series, who will be able to continue their debates in its pages, and for students of media and cultural studies, offering a historial overview of audience theory in a fascinating synthesis of text, context and audience study.
Part I
1 Beyond the Star Trek phenomenon: reconceptualizing the science fiction audience
Henry JenkinsJohn Tulloch
2 Positioning the SF audience: Star Trek, Doctor Who and the texts of science fiction
John Tulloch
3 The changing audiences of science fiction
John Tulloch
Part II
4 ‘Throwing a little bit of poison into future generations’: Doctor Who audiences and ideology
John Tulloch
5 ‘It’s meant to be fantasy’: teenage audiences and genre
John Tulloch
6 ‘But why is Doctor Who so attractive?’: negotiating ideology and pleasure
John Tulloch
7 ‘But he’s a Time Lord! He’s a Time Lord!’: reading formations, followers and fans
John Tulloch
8 ‘We’re only a speck in the ocean’: the fans as powerless elite
John Tulloch
Part III
9 ‘Infinite diversity in infinite combinations’: genre and authorship in Star Trek
Henry Jenkins
10 ‘At other times, like females’: gender and Star Trek fan fiction
Henry Jenkins
11 ‘How many Starfleet officers does it take to change a lightbulb?’: Star Trek at MIT
Henry Jenkins
12 ‘Out of the closet and into the universe’: queers and Star Trek
Henry Jenkins
Notes
Index
Watching Doctor Who and Star Trek [ Download ]
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Lançamento do livro - Paradigmas volume 4
A Tarja Editorial lança o quarto volume da “Coleção Paradigmas”, trazendo 13 autores com contos fantásticos de ficção científica, fantasia e terror.
Segundo Richard Diegues, escritor e organizador da coleção, “os livros da coleção reúnem autores que realmente estão fazendo a diferença na atualidade, formando um retrato de alta qualidade da produção
contemporânea”.
Existem pouquíssimas coleções no Brasil que chegam ao seu terceiro número e somente o fato dessa ter alcançado o quarto, jê é motivo de comemoração.
A palavra paradigma se origina do grego parádeigma, que em seu sentido literal quer dizer modelo, um padrão a ser seguido. Na literatura seria algo partilhado por diversos autores, como um fluxo de pensamentos que culmina em idéias semelhantes. É um termo complexo que aponta algo simples: os limites de uma idéia, o molde para se manter dentro dessas balizas. A proposta da coleção é apresentar contos incomuns, mesmo que baseados em paradigmas consagrados.
A arte de capa deste volume apresenta vários quadros, remetendo ao confinamento que o próprio homem impôs à mente criativa e o discernimento comum. Tudo possui um padrão, como indica a espiral áurea. Estética, métrica e simétrica a serviço do bom senso, da unicidade de estilos. Mas mesmo na natureza existe o caos. Na beleza das formas assimétricas e, ainda assim, surpreendentes em sua perfeição. A concepção não deve ser encarcerada. Abra a cabeça. Quebre os paradigmas!
Os autores que participam deste terceiro volume da coleção são: Adriana Rodrigues (MG), Ana Lúcia Merege (RJ), Carlos Abreu (RJ), Fábio Fernandes (RJ), Georgette Silen (SP), Leonardo Pezzella Vieira (SP), M. D. Amado (MG), Marcelo Jacinto Ribeiro (SP), Richard Diegues (SP), Rober Pinheiro (CE), Roberta Nunes (SP), Ronaldo Luiz Souza (MG)e Sandro Côdax (SP).
A Tarja Editorial é a maior editora exclusiva de Ficção Brasileira, e neste ano lançará onze novos títulos dentro dessa linha, apostando em novos nomes da literatura fantástica brasileira. O livro pode ser encontrado em pré-venda, no site da Tarja Livros e nas maiores livrarias físicas e virtuais à partir do lançamento.
Damon Knight
Damon Knight (19 de Setembro de 1922 – 15 de Abril de 2002) nasceu no Oregon (EUA) e ainda era jovem quando sua família se mudou para New York.
Escritor, editor e crítico, publicou seu primeiro trabalho (Resilience) em 1941. Várias vezes vencedor do Prêmio Hugo, e fundador do Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA), foi também co-fundador do National Fantasy Fan Federation, Milford Writers' Conference e Clarion Writers Workshop.
Entusiasta da Ficção Científica desde cedo, assim que se mudou para New York, Knight juntou-se aos Futurians, um famoso fã-clube de FC americano.
Damon trabalhou como editor para a Chilton Books em 1965. Depois de ler Dune World na revista Analog, foi Knight quem convenceu Frank Herbert a publicar Dune, depois de mais de vinte editoras terem recusado o livro. Ironicamente, Dune foi responsável por sua demissão da Chilton, um ano depois, devido ao custo elevado da primeira edição e as vendas modestas.
Como escritor, teve vários contos adaptados para a televisão, como "To Serve Man" e outros que lhe renderam prêmios como "The Country of the Kind" e "Rule Golden".
Apesar de escritor prolífico, talvez tenha sido como editor que Knight ficou mais conhecido, principalmente por suas antologias, como Orbit (de 1966 a 1980), e por ter ajudado no início de carreiras, tantos escritores, entre eles Gene Wolfe, R.A. Lafferty, Kate Wilhelm (sua esposa) e Gardner Dozois.
O Prêmio concedido pelo SFFWA aos autores de FC e Fantasia, pela conjunto da obra, foi rebatizado em sua honra como Damon Knight Memorial Grand Master Award. O próprio Knight recebeu o título de Grand Master em 1994.
Damon Knight ( A for nothing, Anachron, Beyond the barrier, El auge de la bosta de vaca, Four in one, Life edit, Los analogos, Not with a bang, O outro pé, Servir al hombre, Short stories vol1, Sea Venture, The handler, The last world, The Rithian terror, Turncoat, El enemigo, Cantara el polvo tus ababanzas, El ciudadano de segunda clase, Hombre de ningun tiempo, Mary, No acabara con un estalido, Oh tiempo retrocede, Te veo ) [ Download ]
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 15
CAPÍTULO 15
Este capítulo é dedicado a Chapters/Indigo, a mega-cadeia canadense. Eu trabalhava na Bakka, uma livraria independente de FC, quando a Chapters abriu a primeira loja em Toronto, e eu soube que alguma coisa grande iria acontecer, porque dois de nossos fregueses mais bem informados, pararam para me dizer que tinham sido contratados para trabalhar na seção de FC da loja. Desde o começo, a Chapters elevou o nível de como uma grande livraria corporativa deve ser, sempre aberta, com um espaço-café amigável, e um monte de lugares para se sentar, com terminais de auto-atendimento, e estocando grande e surpreendente variedade de títulos.
Chapters/Indigo
Estava blogado para a conferência de imprensa antes mesmo de mandar os convites para a imprensa. Todos me queriam como um tipo de líder, general ou comandante guerrilheiro. E eu descobri que o jeito de resolver isso seria ter um bando de Xneters por perto, respondendo perguntas também...
Então mandei emails para a imprensa. As respostas foram de intrigantes a entusiásticas; apenas um repórter da Fox se mostrou ultrajado por eu tê-lo convidado a participar de um game ao invés de aparecer em seu show de televisão. O resto deles pareceu pensar que ao menos daria uma boa história, e muitos queriam informações técnicas de como se logar ao jogo.
Mamãe estava curiosa sobre onde eu passava as tardes fora de casa, e então eu finalmente contei a ela sobre Ange. Daí ela veio com toda aquela aura, e aquele olhar de “meu garotinho está crescendo”. Ela queria conhecer Ange e eu usei isso, dizendo que eu a traria em casa na noite seguinte, se eles me deixassem “ir ao cinema” com Ange aquela noite.
A mãe de Ange e a irmã estavam fora de novo - elas não eram muito caseiras - o que me deixava sozinho com Ange em seu quarto com seu Xbox e o meu. Eu despluguei um dos monitores ao lado da cama, e pluguei no meu Xbox para que pudéssemos logar juntos.
Com ambos Xboxs conectados, entramos no Clockwork Plunder.
“Vai ser legal!” ela disse. “O Patcheye Pete’s Market está com 600 jogadores!”
Tínhamos escolhido o Patcheye Pete’s por que era o mercado mais perto da praça da vila, onde os novos jogadores surgiam. Se os repórteres não fossem jogadores costumeiros - hahaha - então seria o lugar mais à vista. Mandei uma mensagem pelo blog pedindo que as pessoas ficassem por perto, e orientei qualquer um que parecesse um repórter perdido.
“O que diabos vou dizer para eles?”
“Você vai apenas responder as perguntas - se não gostar de uma pergunta, basta ignorar. Alguém pode responder por você. Vai dar tudo certo.”
“Isso é loucura.”
“Isso é perfeito, Marcus. Se quer mesmo ferrar a DHS, precisa envergonhá-los. Não pode ganhar deles numa luta justa. Sua única arma é fazer com que eles se pareçam estúpidos.”
Me virei na cama, ela colocou minha cabeça no seu colo e despenteou meu cabelo. Eu já tinha tido muitos cortes de cabelo antes da bomba e das cores mais engraçadas, mas desde que saí da prisão eu não me importei mais com isso. Já tive minha diversão e agora eu os mantinha curtos, o que representava zero esforço para cuidar deles e me ajudava a parecer invisível quando estava por ai zoando e clonando arphids.
Abri os olhos e encarei aqueles grandes olhos castanhos por trás dos óculos. Redondos, úmidos e expressivos. Ela conseguia arregalá-los de tal maneira que pareciam que iriam saltar, quando queria me fazer rir, ou fazê-los calmos ou tristes ou preguiçosos ou sonolentos de um jeito que me transformava em um prato de pudim.
Era o que ela estava fazendo agora.
Sentei-me e a abracei e ela me abraçou de volta. Nos beijamos. Ela beijava muito bem. Eu sabia. Já tinha dito isso, mas sempre repetia. Nos beijávamos muito, mas por uma razão ou outra, sempre parávamos quando as coisas esquentavam.
Agora eu queria ir além. Encontrei a beirada de sua camisa e a puxei. Ela ergueu os braços para o alto da cabeça e eu sabia que ela queria aquilo. Desde a noite no parque. Talvez por isso nós não tínhamos ido além - sabia que não podia falhar com ela, o que me apavorava um pouco.
Mas eu não estava nem um pouco apavorado agora. A iminente conferência com a imprensa, as brigas com meus pais, a atenção internacional, a sensação de que havia um movimento se espalhando pela cidade como um pinball louco - fazia minha pele latejar e meu sangue se agitar.
E ela era linda e esperta e inteligente e engraçada e eu estava me apaixonando por ela.
Sua blusa subiu e ela de costas para mim pediu ajuda para puxá-la sobre os ombros. Ela fez um movimento e seu sutiã se soltou. Eu era todo olhos, não me movia ou respirava e então ela arrancou minha camisa puxando-a pela minha cabeça, e colocou seu peito nu contra o meu.
Rolamos na cama e nos tocamos um ao outro espremendo o corpo um contra o outro gemendo. Ela beijou meu peito e eu fiz o mesmo com ela. Eu não respirava. Nem pensava. Apenas me movia, e beijava e lambia e tocava.
E não parou por aí, fomos em frente e eu abri seu jeans. Ela abriu o meu. Corri seu zíper, ela o meu, arranquei meu jeans, ela o dela. Logo estávamos nus, exceto por minhas meias, que eu arranquei com os dedos dos pés.
Foi então que olhei para o relógio do lado da cama, que já estava caído no chão, nos iluminando.
“Caramba!” gritei “Começou há dois minutos!” Eu não podia acreditar que iria parar com aquilo que estava fazendo. Quer dizer, se você me perguntasse “Marcus, você está prestes a ter a sua primeira vez na sua vida, você pararia se detonassem uma bomba nuclear no mesmo quarto que você?” a resposta seria um ressonante e inequívoco NÃO.
E ainda assim nós paramos tudo.
Ela me puxou e beijou meu rosto, então agarramos nossas roupas e mais ou menos nos vestimos, puxamos o teclado e o mouse e rumamos para Patcheye Pete’s.
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Dava para dizer com facilidade quem era da imprensa: eram os novatos (n00bs) cujos personagens pareciam bêbados, indo para lá e para cá, tentando pegar o jeito da coisa, ocasionalmente apertando a tecla errada e oferecendo para estranhos todo ou parte de seu inventário ou dando beijos e abraços acidentais.
Os Xnetes eram fáceis de identificar também, éramos todos jogadores de Clockwork Plunder sempre que tínhamos tempo livre (ou não estávamos fazendo lições de casa) e tínhamos os personagens com as armas mais incríveis e apetrechos de defesa.
Quando apareci, uma mensagem de status do sistema mostrou “M1K3Y ENTROU NO PATCHEYEPETE’S. BEM VINDO MARUJO, NÓS TE OFERECEMOS NEGÓCIO HONESTO E BOAS BEBIDAS.” Todos os jogadores na tela congelaram, então me cercaram. O chat explodiu. Pensei em ligar o som e arranjar um headset mas vendo quantas pessoas estavam tentando falar ao mesmo tempo eu pensei que seria muito confuso. Por texto seria mais fácil e eles não poderiam me citar erroneamente (hehehe).
Eu já tinha explorado o lugar com Ange antes - era ótimo trabalhar em equipe com ela, já que podíamos nos proteger um ao outro. Havia um lugar mais alto numa pilha de caixotes de rações salgadas que eu consegui alcançar e onde seria visto por todos no mercado.
>Boa noite e obrigado por terem vindo. Meu nome é M1k3y e não sou o líder de coisa alguma. Ao redor de vocês estão os Xnetes que tem tanto a dizer quanto eu sobre o porquê de estarmos aqui. Eu uso a Xnet por que acredito na liberdade e na constituição dos Estados Unidos da América. Eu uso o Xnet por que o DHS transformou minha cidade em um estado policial onde todos somos suspeitos de terrorismo. Eu uso a Xnet por que penso que não podemos defender nossa liberdade rasgando os direitos civis. Eu aprendi sobre a constituição Americana em um colégio da Califórnia e aprendi a amar meu país por sua liberdade. Se eu tenho uma filosofia, então é essa.
>Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que se de alguma forma este se tornar destrutivo. É do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em ais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade
>Eu não escrevi isso, mas é no que eu acredito. O DHS não governa com meu consentimento.
>Obrigado.
Eu tinha escrito isso um dia antes e colar a mensagem só levou um segundo, contudo levou algum tempo para todos no jogo conseguirem ler. Um monte de Xneters aplaudiu, um grande “Hurra!” de piratas com sabres levantados e papagaios gritando e voando sobre nossas cabeças.
Gradualmente os jornalistas digeriram aquilo. O painel de chat passava correndo rápido, tão rápido que mal dava para ler, vários Xneters diziam coisas como “É isso aí” e “América, ame-a ou deixe-a” e “DHS vá para casa” e “América saia de São Francisco”, todos slogans famosos da blogosfera Xnet.
>M1k3y, sou Priya Rajneesh da BBC. Você diz que não é o líder do movimento, mas você acredita que exista um movimento? Se chama Xnet?’
Várias respostas surgiram. Alguns diziam que não havia um movimento, alguns diziam que sim e outros tinham idéias sobre o que era Xnet, Pequenos Irmãos, Pequenas Irmãs, e meu preferido, Os Estados Unidos da América. A coisa estava fervendo. Deixei que respondessem enquanto pensava no que poderia dizer. Quando soube, então teclei.
>Penso que isso tudo responde sua pergunta, não? Pode haver um ou mais movimentos e eles podem se chamar Xnet ou não.
>M1k3y, sou Doug Christensen do Washington Internet Daily. O que pensa que a DHS deveria fazer para prevenir de outro ataque contra São Francisco, se o que estão fazendo não funciona?
Mais respostas. Um monte de gente dizendo que os terroristas e o governo são a mesma coisa - até literalmente, ou então que são igualmente ruins. Alguns diziam que o governo sabia como capturar os terroristas, mas preferia não fazê-lo por que “os presidentes que declaram guerras” são os reeleitos.
>Eu não sei.
E teclei, enfim.
>Não sei mesmo. Me pergunto muito sobre isso, porque não quero morrer e não quero minha cidade destruída. Eu penso que, se é o trabalho do DHS nos deixar seguros, eles estão falhando nisso. Toda a porcaria que fizeram não vai impedir a ponte de ser explodida de novo. Nos rastreando pela cidade? Tirando nossa liberdade? Nos fazendo suspeitar uns dos outros, nos jogando uns contra os outros? Chamando de traidores? A idéia do terrorismo é nos aterrorizar. A DHS me aterroriza.
>Não tenho nada para dizer sobre o que os terroristas fizeram comigo, mas se este é um país livre; então eu poderia ao menos poder dizer o que os policiais fizeram comigo. Eu deveria poder evitar que eles me aterrorizassem.
>Sei que não é uma boa resposta. Desculpe.
>O que você quer dizer quando diz que o DHS não é capaz de parar os terroristas? Como sabe disso?
>Quem é você?
>Sou do Sydney Morning Herald.
>Tenho 17 anos de idade. Não sou o melhor aluno da classe ou coisa assim. Mesmo assim, sei usar a internet de maneira que eles não possam me grampear. Seu zonear com a tecnologia de rastreamento de pessoas, posso transformar pessoas inocentes em suspeitas e culpados em inocentes aos olhos deles. Consigo entrar com metais em aviões e enganar uma lista de pessoas proibidas de voar. Consigo isso pesquisando na internet ou apenas pensando. Se eu posso fazer isso, os terroristas também podem. Eles dizem que vão tirar nossa liberdade por conta da nossa segurança. Você se sente seguro?
>Na Austrália? Sim, me sinto.
Todos os piratas riram.
Mais jornalistas fizeram perguntas. Alguns foram simpáticos e outros foram hostis. Quando ficava cansado passava o teclado para Ange e a deixava ser M1k3y por um pouco. Não achava mesmo que ele e eu éramos a mesma pessoa de qualquer jeito. M1k3y era do tipo que falava com jornalistas internacionais e inspirava um movimento. Marcus fora suspenso na escola, brigava com o pai e pensava se era bom o bastante para sua namorada fenomenal.
Por volta das 11 da noite eu estava cheio. Além disso, meus pais me esperavam em casa e eu não podia demorar. Saí do jogo e Ange também e deitamos por um minuto. Peguei sua mão e ela apertou a minha com força. Nos abraçamos.
Ela beijou meu pescoço e murmurou algo.
“O quê?”
“Eu disse que te amo. Por quê? Quer que te mande por telegrama?”
“Uau.”
“Está surpreso?”
“Não. Huh, é só que… eu ia dizer o mesmo para você.”
“Tá bom que ia.” E me deu um peteleco no nariz.
“É que eu nunca disse isso antes. Então estava me preparando.”
“Você não precisa dizer, você sabe. Não pense que eu não reparei. Nós, garotas, ligamos para estas coisas.”
“Eu te amo, Ange Carvelli.” eu disse.
“Também te amo, Marcus Yallow.”
Nos beijamos e partimos um para cima do outro e comecei a respirar pesado e ela também. Foi quando a mãe dela bateu na porta.
“Ângela,” ela disse. “acho que está na hora do seu amigo ir para casa, não acha?”
“Sim, mamãe.” ela disse e imitou um machado descendo no ar. Coloquei minhas meias e sapatos ela resmungou: “Eles dirão, aquela Ângela, era uma garota tão boa, quem pensaria que todo aquele tempo que estava no jardim, ela estava ajudando sua mãe a afiar aquela machadinha.”
Eu comecei a rir. “Você não sabe a moleza que tem. Duvido que meus pais nos deixassem sozinhos no meu quarto até as 11 da noite.”
“11:45.” ela disse checando seu relógio.
“Caramba!” gritei e amarrei os sapatos.
“Vá embora!” ela disse “Corra e seja livre! Olhe para ambos os lados antes de atravessar a rua! Escreva se conseguir um trabalho. Não pare nem mesmo para um abraço! Se não estiver longe daqui quando eu contar dez, então teremos problemas, moço. Um. Dois. Três.”
Calei-a, empurrando-a para a cama e sobre ela a beijei até que parasse de contar. Satisfeito com minha vitória, desci as escadas com meu Xbox debaixo do braço.
Sua mãe estava no pé da escada. Só a tinha encontrado algumas vezes. Parecia com uma versão mais velha e mais alta de Ange - Ange tinha dito que seu pai era o mais baixo da família - com lentes de contato ao invés de óculos. Ela parecia me classificar como um bom moço e eu gostei disso.
“Boa noite, senhora Carvelli.” eu disse.
“Boa noite, senhor Yallow.” ela disse. Este era um dos nossos rituais, desde que a tinha chamado assim da primeira vez.
Parei meio sem jeito ao seu lado na porta.
“O que foi?” ela disse.
“Huh, obrigado por me receber na sua casa.”
“Você será sempre bem vindo em nossa casa, meu jovem.” ela disse.
“E obrigado por Ange.” disse ao fim me odiando pelo jeito que aquilo soou. Mas ela sorriu largo e me deu um breve abraço.
“Você é muito bem-vindo.” ela falou.
Por todo o caminho de ônibus de volta para casa pensei na conferência de imprensa além de Ange nua e escrevendo comigo na sua cama além de sua mãe sorrindo e me mostrando a porta.
Minha mãe esperava por mim. Me perguntou sobre o filme e lhe dei a resposta que havia preparado com antecedência, depois de ter lido uma resenha no jornal Bay Guardian.
Enquanto adormecia a conferência de imprensa me voltou. Estava orgulhoso de verdade daquilo. Tinha sido tão legal, com todos aqueles figurões das notícias no jogo, me ouvindo e ouvindo a todos os outros que acreditavam nas mesmas coisas que eu. Peguei no sono com um sorriso nos lábios.
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Eu deveria saber.
LÍDER DA XNET AFIRMA: EU PODERIA ENTRAR COM METAL EM UM AVIÃO.
DHS NÂO TEM MEU CONSENTIMENTO PARA GOVERNAR.
OS GAROTOS DO XNET CLAMAM: ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, SAIAM DE SÃO FRANCISCO.
Eram as manchetes. Todo mundo me mandava artigos para o blog, mas era a última coisa que eu queria fazer.
Tenho que acabar com isso de algum jeito. A imprensa tinha vindo à minha conferencia e concluído que éramos terroristas ou simpatizantes deles. O pior foi o repórter da Fox News, que aparentemente apareceu lá de qualquer forma e que dedicou um comentário de dez minutos para nós, falando sobre “traição criminosa.” Seu bordão sensacionalista que era repetido a cada chamada era:
“Eles dizem que não têm um nome. Eu tenho um para eles. Vamos chamar estas crianças mimadas de Cal-Quaeda (trocadilho com Al Quaeda e Califórnia). Eles fazem o trabalho dos terroristas no front caseiro. Quando - não ‘se’, mas quando - a Califórnia for atacada novamente, estes pirralhos serão tão culpados quanto a família real Saudita.”
Líderes do movimento anti-guerra nos chamaram de extremistas. Um cara foi à TV dizer que acreditava que nós tínhamos sido fabricados pela DHS para desacreditá-los.
A DHS, em sua conferência para imprensa, anunciou que dobraria a segurança em São Francisco. Eles tinham posto a mão em um arphid clonado e fizeram uma demonstração de como funcionava e alertaram a todos sobre jovens com o comportamento suspeito.
Eles não estavam de brincadeira. Terminei meu trabalho sobre Kerouac e comecei o trabalho sobre o Verão do Amor, o verão de 1967 quando o movimento anti-guerra e os hippies se encontraram em São Francisco. Os caras que fundaram a sorveteria Ben and Jerry’s, dois hippies velhos, fundaram também um museu da cultura hippie em Haight onde era possível ter acesso aos arquivos de documentos e exibições.
Mas não estava fácil. Ao final da semana eu fui parado uma média de quatro vezes por dia. Policiais checaram minha identidade e questionaram sobre o motivo de estar na rua, Leram atentamente a carta da Chavez dizendo que eu estava suspenso.
Tive sorte. Não fui detido. Mas o resto da Xnet não teve a mesma sorte. Toda noite a DHS anunciava mais e mais detenções, “líderes” e “participantes” da Xnet, gente que eu não conhecia e que nunca tinha ouvido falar desfilava na TV com aparelhos de clonagem e outros aparelhos em seus bolsos. Anunciaram que estas pessoas estavam dando outros nomes da rede Xnet e que mais detenções eram esperadas para breve. O nome “M1k3y” era sempre ouvido.
Papai e eu assistíamos os noticiários juntos, ele alegre com a infelicidade alheia e eu me apequenando, quase perdendo o controle. “Você devia ver as coisas que eles fazem com estes garotos.” disse papai. “Já os vi em ação. Eles pegaram um par destes moleques e vasculharam as listas de amigos deles no IM e nas agendas dos celulares, procurando por mais e mais nomes, buscando padrões que levassem a mais e mais garotos. Vão puxando a linha, como de um suéter velho.”
Cancelei o jantar com Ange no nosso recanto e comecei a passar mais e mais tempo na casa dela. A irmã pequena dela me chamava de “hóspede-convidado” e “aquele-que-jantava-com-a-gente”. Eu gostava de Tina. Tudo que ela gostava era de sair e festejar com amigos e encontrar garotos, mas ela era engraçada e muito devotada à Ange. Uma noite, enquanto lavávamos os pratos, ela secou as mãos e disse, conversando conosco: “‘Sabe, você parece um cara legal, Marcus. Minha irmã é louca por você e eu também gosto de você. Mas preciso lhe dizer uma coisa. Se você a magoar, eu vou atrás de você e arranco seu escroto fora. Não vai ser nada bonito.”
Eu garanti a ela que eu preferia eu mesmo arrancar meu escroto a fazer mal a Ange,e ela concordou: “Então estamos conversados.”
“Sua irmã é maluca.” eu disse quando voltei para cama de Ange, enquanto víamos alguns blogs na Xnet. E isso era tudo que fazíamos, ficávamos de bobeira e líamos na Xnet.
“Ela usou a história de cortar seu saco com você? Odeio quando ela faz isso. Ela adora a palavra ‘escroto’, sabe. Não é pessoal.”
Eu a beijei. Lemos um pouco mais.
“Ouça isso.” ela disse. “A polícia projeta entre quatrocentos e seiscentas detenções neste final de semana, na maior ação coordenada contra os dissidentes da Xnet até hoje.”
Me senti mal com isso.
“Temos que fazer com que isso pare.” eu disse. “Tem gente por aí fazendo interferência apenas para mostrar que não pode ser intimidado. Isso não é uma loucura?”
“Acho corajoso.” ela disse. “Não podem nos obrigar a ficar submissos.”
“O quê? Não, Ange, não. Não podemos deixar que centenas sejam mandadas para a cadeia. Você nunca esteve lá. É pior do que você pode imaginar.”
“Tenho uma imaginação bem fértil.” ela disse.
“Pare, tá bem? Fale sério por um segundo. Não quero isso. Não quero que estas pessoas sejam mandadas para a cadeia. Se o fizer, então serei o cara que Van pensa que eu sou.”
“Marcus, eu estou falando sério. Acha que estas pessoas não sabem que podem ir presas? Elas acreditam na causa. Você acredita também. Dê a elas o crédito de saber onde estão se metendo. Não é problema seu decidir quem pode e quem não pode correr riscos.”
“É minha responsabilidade, porque se eu mandar que parem, eles irão parar.”
“Pensei que você não era o líder.”
“Não sou, é claro. Não posso fazer nada se eles me vêem como uma liderança. E sendo assim, eu tenho a responsabilidade que mantê-los em segurança. Você entende, certo?”
“Tudo que vejo é você prestes a correr e desistir ao menor sinal de problema. Acho que tem medo que descubram quem você é. Acho que está com medo por você.”
“Isso não é justo.” eu disse me afastando dela.
“Mesmo? Quem foi que quase teve um ataque do coração quando ficou sabendo que sua identidade secreta não era tão secreta assim?”
“Aquilo foi diferente.” eu disse. “Isso não é sobre mim, sabe que não é. Por quê está fazendo isso?”
“Porquê?” ela disse. “Por que não aceita que você foi o cara com coragem bastante para começar isso tudo?”
“Isso não é coragem, é suicídio.”
“Drama adolescente barato, M1k3y.”
“Não me chame assim.”
“Do quê? M1k3y? Por que não M1k3y?”
Calcei os tênis e peguei minhas coisas. Fui para casa.
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> Por que não estou fazendo interferência por aí?
> Não vou dizer a ninguém o que fazer, porque não sou o líder de ninguém, não importa o que a Fox News pense.
> Mas vou dizer a vocês o que planejo fazer. Se acharem que é o certo, talvez possam querer fazer também.
> Não estou zoando por ai, não nesta semana. E não é por que estou apavorado. É por que sou esperto o bastante para saber que sou mais útil livre do que na prisão. Eles acham que sabem como interromper nossa tática, então é hora de uma nova tática. Não importa qual a tática, desde que funcione. É uma estupidez ser preso. Só funciona zoar se você estiver livre para isso.
>Tem outra razão. Se você for preso, podem usar você para achar os seus amigos, e os amigos dele e os amigos deles e os amigos deles. Podem detê-lo mesmo que não faça parte da Xnet, por que a DHS é como um touro louco e eles não querem saber se você é o cara certo.
> Não estou dizendo a vocês o que fazer.
> Mas o DHS é burro e nós somos espertos. O que fazemos é uma prova de que eles não podem combater o terrorismo, pois sequer conseguem lidar com um bando de crianças. Se vocês forem presos, parecerá que o DHS é mais esperto que a gente.
>ELES NÂO SÃO MAIS ESPERTOS QUE A GENTE. Nós somos mais espertos. Vamos achar um jeito de ferrá-los, não importa quantos policiais eles coloquem nas ruas da nossa cidade.
Postei aquilo e fui para a cama.
Sentia falta de Ange.
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Ange e eu não nos falamos nos quatro dias seguintes, incluindo o final de semana e então chegou a hora de voltar à escola. Tinha ligado quase um milhão de vezes para ela, mandado milhares de emails e IMs.
Agora estava de volta à aula de Estudos Sociais e Mrs Andersen me saudou sarcástica, me perguntando docemente como tinham sido minhas férias. Sentei-me sem dizer coisa alguma. Podia ouvir Charles rindo baixo.
Ela começou a falar para a classe sobre o Destino Manifesto, a idéia de que os Americanos eram destinados a tomar o mundo inteiro (ou ao menos foi o que ela parecia querer parecer) e parecia me provocar com isso como se esperasse que eu dissesse algo.
Sentia os olhos da turma sobre mim e lembrei-me de M1k3y e das pessoas atrás dele. Eu estava cansado de ser vigiado. E sentia falta de Ange.
Passei o resto do dia sem dizer me importar com o que pudesse dizer respeito a mim. Acho que não disse sequer oito palavras.
Finalmente quando acabou, chutei as portas e tomei rumo do meu bairro estúpido e da minha casa sem sentido.
Mal tinha passado o portão quando alguém trombou comigo. Era um sujeito de rua, sem teto, talvez da minha idade, talvez um pouco mais velho. Ele vestia um casaco verde comprido, jeans largos e tênis gastos e parecia que tinha dormido numa serraria. Seu cabelo longo caia sobre o seu rosto e alguma barba.
Isso tudo eu vi ainda caído ao lado dele na calçada, as pessoas passavam e olhavam para a gente com estranheza. Parecia que ele tinha tropeçado e caído sobre mim enquanto descia a Valencia com pressa.
Ficou de joelhos e rolou para trás e para frente como se estivesse bêbado ou tivesse batido a cabeça.
‘Desculpa, meu chapa’ ele disse. ‘Não te vi. Está machucado?’
Sentei. Não tinha me machucado.
“Não, estou ok.”
Ficou de pé e sorriu. Seus dentes eram brancos e perfeitos,como um comercial de clinica odontológica. Esticou a mão para me ajudar e ela era forte e firme.
“Lamento mesmo.” Sua voz era clara e inteligente. Eu esperava que soasse como um daqueles bêbados que ficam pela Missão tarde da noite, mas se parecia mais como um balconista de alguma livraria conhecida.
“Sem problema.”
Ele esticou de novo a mão.
“Zeb.” ele disse.
“Marcus.”
“É um prazer, Marcus. Espero cruzar com você por aí algum dia.”
Rindo, ele pegou sua mochila virou-se e foi embora rápido.
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Fiz o resto do caminho de casa de forma distraída. Mamãe estava na mesa de cozinha e tivemos uma conversa rápida sobre coisa alguma em geral, do jeito que sempre fazíamos antes de tudo mudar.
Subi para meu quarto e fui me sentar na cadeira. Não queria me logar na Xnet. Já tinha dado uma checada de manhã antes de ir para a escola e tinha descoberto que meu post provocara uma controvérsia gigantesca entre pessoas que concordavam e pessoas que estavam furiosas por eu dizer que deviam parar com sua querida diversão.
Eu tinha uns três mil projetos e estava no meio deles quando a coisa toda começou. Eu estava construindo uma câmera caseira feita de legos, estava brincando com um jeito de tirar fotografias aéreas usando uma pipa e uma velha câmera digital com um obturador preparado para disparar progressivamente em intervalos. Eu fazia um amplificador de tubo a vácuo sendo feito a partir de um velho e corroído latão de óleo de cozinha que parecia mais com um achado arqueológico - e quando estivesse pronto, eu planejava fazer uma conexão para meu telefone e um set de auto-falantes sorround 5.1 de latas de atum.
Dei uma olhada por sobre a mesa de trabalhos e peguei a câmera caseira. Colocar os legos metodicamente juntos era fácil. Tirei meu relógio e o anel de prata de dois dedos onde um macaco e um ninja brigavam e larguei tudo numa pequena caixa que usava para guardar a porcariada que tirava dos bolsos e do pescoço. Celular, carteira, chaves, wifinder, troco, pilhas, cabos retráteis... largava tudo na caixa e assim não precisava pensar onde tinha colocado as coisas depois.
Um pedaço de papel cinza, macio como flanela, ficou no meio de tudo. Nele estava escrito algo à mão, cuidadosamente escrito como eu nunca vira antes. Desdobrei-o. Estava escrito do dois lados, do canto esquerdo até o canto oposto e assinado abaixo do canto direito de um dos lados.
“ZEB”
Comecei a ler:
“Caro Marcus. Você não sabe quem eu sou, mas eu sei quem você é. Desde que a ponte da baía foi explodida há três meses atrás, fui mantido prisioneiro na Treasure Island. Eu estava lá quando você falou na quadra com a menina asiática e foi pego. Vocês foram corajosos. Bom pra vocês. Eu tive um apêndice supurado no dia seguinte e fui parar na enfermaria. Na cama ao lado da minha conheci um cara chamado Darryl. Nós estivemos nos recuperando por bastante tempo e ficamos bem, tínhamos causado problemas demais para simplesmente nos deixarem partir. Então decidiram que devíamos ser culpados por alguma coisa. Nos interrogaram todos os dias. Você esteve sendo interrogado também. Imagine isso por meses. Darryl e eu terminamos companheiros de cela. Sabíamos que nos vigiavam e então só falávamos de bobagens. Mas numa noite, quando estávamos nos catres, trocamos mensagens em código Morse (eu sabia que meu rádio Morse teria utilidade algum dia). Primeiro, suas perguntas para nós eram aquela baboseira do quem fez isso, quem fez aquilo, como fizeram isso. Mas depois de um tempo, passaram a nos perguntar sobre a Xnet. É claro que nunca tínhamos ouvido falar dela. Mas isso não os impedia de perguntar. Darryl me disse que eles haviam trazido clonadores, xboxers e todo tipo de tecnologia e ordenaram que ele dissesse como usá-los e como podiam aprender a usá-los. Darryl me contou sobre os jogos de vocês e as coisas que aprendeu. Especialmente a DHS queria saber sobre seus amigos. Quem nós conhecíamos? Como eram? Se tinham ligações políticas, se tinham problemas na escola ou com a lei. Faz uma semana que me liberaram e acho que ninguém sabe que seus filhos e filhas estão presos bem ali no meio da baía. À noite, podemos ouvir risos e festas no continente. Não vou dizer como saí, no caso disso cair em mãos erradas. Talvez outros possam usar a mesma saída que eu. Darryl me disse como encontrar você e me fez prometer que diria o que eu sabia quando eu voltasse. Agora eu vou embora daqui. Vou deixar este país de qualquer jeito. Que se dane a América. Força irmão. Eles têm medo de você. Acabe com eles por mim e não deixe que te peguem. ZEB.”
Lágrimas enchiam meus olhos ao terminar de ler. Eu tinha um isqueiro em algum lugar da mesa que era usado para queimar o encapamento dos fios. Eu iria usá-lo para queimar o bilhete. Sabia que devia isso a Zeb, destruir a mensagem para que ninguém pudesse jamais ler aquilo no caso de estarem procurando por ele, aonde quer que estivesse indo.
Segurei a chama e o papel, mas não consegui fazê-lo.
Darryl.
Com toda esta porcaria sobre Xnet e Ange e a DHS, tinha quase esquecido que ele existira. Tinha se tornado um fantasma como um velho amigo de colégio que se muda para longe ou parte para um programa de intercâmbio. Todo este tempo eles tinham interrogado ele, o obrigado a ensinar sobre o Xnet, os aparelhos de interferência. Estivera em Treasure Island, na base militar abandonada que ficava no meio do caminho ao longo da ponte demolida da baía. Tão perto que poderia nadar até lá.
Baixei o isqueiro e li o bilhete de novo. Quando terminei estava chorando. Tudo voltou, a mulher com cabelos curtos e as perguntas e a urina e o fedor da urina seca na calça.
"Marcus?"
Minha porta estava aberta e minha mãe estava de pé junto dela, me olhando com um ar preocupado. Quanto tempo ela estivera ali?
Sequei as lagrimas do rosto e engoli o choro. “Mãe.” eu disse. “Oi!”
Ela veio até mim e me abraçou. “O que foi? Quer conversar?”
O bilhete estava sobre a mesa.
“É aquela garota? Está tudo bem?”
Ela estava me dando uma saída. Eu podia colocar a culpa nos problemas com Ange e ela sairia e me deixaria sozinho. Abri a boca para falar isso e então o que saiu foi:
“Eu fui preso. Depois que a ponte explodiu. Eu fiquei numa cela o tempo todo.”
O choro que veio não parecia vir de mim. Soava como um animal, talvez um macaco ou o som de um gato gordo no meio da noite. Chorava e minha garganta ardia e doía.
Mamãe me pegou nos braços, do mesmo jeito quando eu era pequeno e acariciou meu cabelo e murmurou no meu ouvido e me embalou e gradualmente o choro cedeu.
Respirei profundamente e mamãe me trouxe um copo de água. Sentei na cama e ela na cadeira, e eu lhe contei tudo.
Tudo.
Bem, quase tudo.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 15 [ Download ]
Este capítulo é dedicado a Chapters/Indigo, a mega-cadeia canadense. Eu trabalhava na Bakka, uma livraria independente de FC, quando a Chapters abriu a primeira loja em Toronto, e eu soube que alguma coisa grande iria acontecer, porque dois de nossos fregueses mais bem informados, pararam para me dizer que tinham sido contratados para trabalhar na seção de FC da loja. Desde o começo, a Chapters elevou o nível de como uma grande livraria corporativa deve ser, sempre aberta, com um espaço-café amigável, e um monte de lugares para se sentar, com terminais de auto-atendimento, e estocando grande e surpreendente variedade de títulos.
Chapters/Indigo
Estava blogado para a conferência de imprensa antes mesmo de mandar os convites para a imprensa. Todos me queriam como um tipo de líder, general ou comandante guerrilheiro. E eu descobri que o jeito de resolver isso seria ter um bando de Xneters por perto, respondendo perguntas também...
Então mandei emails para a imprensa. As respostas foram de intrigantes a entusiásticas; apenas um repórter da Fox se mostrou ultrajado por eu tê-lo convidado a participar de um game ao invés de aparecer em seu show de televisão. O resto deles pareceu pensar que ao menos daria uma boa história, e muitos queriam informações técnicas de como se logar ao jogo.
Mamãe estava curiosa sobre onde eu passava as tardes fora de casa, e então eu finalmente contei a ela sobre Ange. Daí ela veio com toda aquela aura, e aquele olhar de “meu garotinho está crescendo”. Ela queria conhecer Ange e eu usei isso, dizendo que eu a traria em casa na noite seguinte, se eles me deixassem “ir ao cinema” com Ange aquela noite.
A mãe de Ange e a irmã estavam fora de novo - elas não eram muito caseiras - o que me deixava sozinho com Ange em seu quarto com seu Xbox e o meu. Eu despluguei um dos monitores ao lado da cama, e pluguei no meu Xbox para que pudéssemos logar juntos.
Com ambos Xboxs conectados, entramos no Clockwork Plunder.
“Vai ser legal!” ela disse. “O Patcheye Pete’s Market está com 600 jogadores!”
Tínhamos escolhido o Patcheye Pete’s por que era o mercado mais perto da praça da vila, onde os novos jogadores surgiam. Se os repórteres não fossem jogadores costumeiros - hahaha - então seria o lugar mais à vista. Mandei uma mensagem pelo blog pedindo que as pessoas ficassem por perto, e orientei qualquer um que parecesse um repórter perdido.
“O que diabos vou dizer para eles?”
“Você vai apenas responder as perguntas - se não gostar de uma pergunta, basta ignorar. Alguém pode responder por você. Vai dar tudo certo.”
“Isso é loucura.”
“Isso é perfeito, Marcus. Se quer mesmo ferrar a DHS, precisa envergonhá-los. Não pode ganhar deles numa luta justa. Sua única arma é fazer com que eles se pareçam estúpidos.”
Me virei na cama, ela colocou minha cabeça no seu colo e despenteou meu cabelo. Eu já tinha tido muitos cortes de cabelo antes da bomba e das cores mais engraçadas, mas desde que saí da prisão eu não me importei mais com isso. Já tive minha diversão e agora eu os mantinha curtos, o que representava zero esforço para cuidar deles e me ajudava a parecer invisível quando estava por ai zoando e clonando arphids.
Abri os olhos e encarei aqueles grandes olhos castanhos por trás dos óculos. Redondos, úmidos e expressivos. Ela conseguia arregalá-los de tal maneira que pareciam que iriam saltar, quando queria me fazer rir, ou fazê-los calmos ou tristes ou preguiçosos ou sonolentos de um jeito que me transformava em um prato de pudim.
Era o que ela estava fazendo agora.
Sentei-me e a abracei e ela me abraçou de volta. Nos beijamos. Ela beijava muito bem. Eu sabia. Já tinha dito isso, mas sempre repetia. Nos beijávamos muito, mas por uma razão ou outra, sempre parávamos quando as coisas esquentavam.
Agora eu queria ir além. Encontrei a beirada de sua camisa e a puxei. Ela ergueu os braços para o alto da cabeça e eu sabia que ela queria aquilo. Desde a noite no parque. Talvez por isso nós não tínhamos ido além - sabia que não podia falhar com ela, o que me apavorava um pouco.
Mas eu não estava nem um pouco apavorado agora. A iminente conferência com a imprensa, as brigas com meus pais, a atenção internacional, a sensação de que havia um movimento se espalhando pela cidade como um pinball louco - fazia minha pele latejar e meu sangue se agitar.
E ela era linda e esperta e inteligente e engraçada e eu estava me apaixonando por ela.
Sua blusa subiu e ela de costas para mim pediu ajuda para puxá-la sobre os ombros. Ela fez um movimento e seu sutiã se soltou. Eu era todo olhos, não me movia ou respirava e então ela arrancou minha camisa puxando-a pela minha cabeça, e colocou seu peito nu contra o meu.
Rolamos na cama e nos tocamos um ao outro espremendo o corpo um contra o outro gemendo. Ela beijou meu peito e eu fiz o mesmo com ela. Eu não respirava. Nem pensava. Apenas me movia, e beijava e lambia e tocava.
E não parou por aí, fomos em frente e eu abri seu jeans. Ela abriu o meu. Corri seu zíper, ela o meu, arranquei meu jeans, ela o dela. Logo estávamos nus, exceto por minhas meias, que eu arranquei com os dedos dos pés.
Foi então que olhei para o relógio do lado da cama, que já estava caído no chão, nos iluminando.
“Caramba!” gritei “Começou há dois minutos!” Eu não podia acreditar que iria parar com aquilo que estava fazendo. Quer dizer, se você me perguntasse “Marcus, você está prestes a ter a sua primeira vez na sua vida, você pararia se detonassem uma bomba nuclear no mesmo quarto que você?” a resposta seria um ressonante e inequívoco NÃO.
E ainda assim nós paramos tudo.
Ela me puxou e beijou meu rosto, então agarramos nossas roupas e mais ou menos nos vestimos, puxamos o teclado e o mouse e rumamos para Patcheye Pete’s.
#
Dava para dizer com facilidade quem era da imprensa: eram os novatos (n00bs) cujos personagens pareciam bêbados, indo para lá e para cá, tentando pegar o jeito da coisa, ocasionalmente apertando a tecla errada e oferecendo para estranhos todo ou parte de seu inventário ou dando beijos e abraços acidentais.
Os Xnetes eram fáceis de identificar também, éramos todos jogadores de Clockwork Plunder sempre que tínhamos tempo livre (ou não estávamos fazendo lições de casa) e tínhamos os personagens com as armas mais incríveis e apetrechos de defesa.
Quando apareci, uma mensagem de status do sistema mostrou “M1K3Y ENTROU NO PATCHEYEPETE’S. BEM VINDO MARUJO, NÓS TE OFERECEMOS NEGÓCIO HONESTO E BOAS BEBIDAS.” Todos os jogadores na tela congelaram, então me cercaram. O chat explodiu. Pensei em ligar o som e arranjar um headset mas vendo quantas pessoas estavam tentando falar ao mesmo tempo eu pensei que seria muito confuso. Por texto seria mais fácil e eles não poderiam me citar erroneamente (hehehe).
Eu já tinha explorado o lugar com Ange antes - era ótimo trabalhar em equipe com ela, já que podíamos nos proteger um ao outro. Havia um lugar mais alto numa pilha de caixotes de rações salgadas que eu consegui alcançar e onde seria visto por todos no mercado.
>Boa noite e obrigado por terem vindo. Meu nome é M1k3y e não sou o líder de coisa alguma. Ao redor de vocês estão os Xnetes que tem tanto a dizer quanto eu sobre o porquê de estarmos aqui. Eu uso a Xnet por que acredito na liberdade e na constituição dos Estados Unidos da América. Eu uso o Xnet por que o DHS transformou minha cidade em um estado policial onde todos somos suspeitos de terrorismo. Eu uso a Xnet por que penso que não podemos defender nossa liberdade rasgando os direitos civis. Eu aprendi sobre a constituição Americana em um colégio da Califórnia e aprendi a amar meu país por sua liberdade. Se eu tenho uma filosofia, então é essa.
>Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que se de alguma forma este se tornar destrutivo. É do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em ais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade
>Eu não escrevi isso, mas é no que eu acredito. O DHS não governa com meu consentimento.
>Obrigado.
Eu tinha escrito isso um dia antes e colar a mensagem só levou um segundo, contudo levou algum tempo para todos no jogo conseguirem ler. Um monte de Xneters aplaudiu, um grande “Hurra!” de piratas com sabres levantados e papagaios gritando e voando sobre nossas cabeças.
Gradualmente os jornalistas digeriram aquilo. O painel de chat passava correndo rápido, tão rápido que mal dava para ler, vários Xneters diziam coisas como “É isso aí” e “América, ame-a ou deixe-a” e “DHS vá para casa” e “América saia de São Francisco”, todos slogans famosos da blogosfera Xnet.
>M1k3y, sou Priya Rajneesh da BBC. Você diz que não é o líder do movimento, mas você acredita que exista um movimento? Se chama Xnet?’
Várias respostas surgiram. Alguns diziam que não havia um movimento, alguns diziam que sim e outros tinham idéias sobre o que era Xnet, Pequenos Irmãos, Pequenas Irmãs, e meu preferido, Os Estados Unidos da América. A coisa estava fervendo. Deixei que respondessem enquanto pensava no que poderia dizer. Quando soube, então teclei.
>Penso que isso tudo responde sua pergunta, não? Pode haver um ou mais movimentos e eles podem se chamar Xnet ou não.
>M1k3y, sou Doug Christensen do Washington Internet Daily. O que pensa que a DHS deveria fazer para prevenir de outro ataque contra São Francisco, se o que estão fazendo não funciona?
Mais respostas. Um monte de gente dizendo que os terroristas e o governo são a mesma coisa - até literalmente, ou então que são igualmente ruins. Alguns diziam que o governo sabia como capturar os terroristas, mas preferia não fazê-lo por que “os presidentes que declaram guerras” são os reeleitos.
>Eu não sei.
E teclei, enfim.
>Não sei mesmo. Me pergunto muito sobre isso, porque não quero morrer e não quero minha cidade destruída. Eu penso que, se é o trabalho do DHS nos deixar seguros, eles estão falhando nisso. Toda a porcaria que fizeram não vai impedir a ponte de ser explodida de novo. Nos rastreando pela cidade? Tirando nossa liberdade? Nos fazendo suspeitar uns dos outros, nos jogando uns contra os outros? Chamando de traidores? A idéia do terrorismo é nos aterrorizar. A DHS me aterroriza.
>Não tenho nada para dizer sobre o que os terroristas fizeram comigo, mas se este é um país livre; então eu poderia ao menos poder dizer o que os policiais fizeram comigo. Eu deveria poder evitar que eles me aterrorizassem.
>Sei que não é uma boa resposta. Desculpe.
>O que você quer dizer quando diz que o DHS não é capaz de parar os terroristas? Como sabe disso?
>Quem é você?
>Sou do Sydney Morning Herald.
>Tenho 17 anos de idade. Não sou o melhor aluno da classe ou coisa assim. Mesmo assim, sei usar a internet de maneira que eles não possam me grampear. Seu zonear com a tecnologia de rastreamento de pessoas, posso transformar pessoas inocentes em suspeitas e culpados em inocentes aos olhos deles. Consigo entrar com metais em aviões e enganar uma lista de pessoas proibidas de voar. Consigo isso pesquisando na internet ou apenas pensando. Se eu posso fazer isso, os terroristas também podem. Eles dizem que vão tirar nossa liberdade por conta da nossa segurança. Você se sente seguro?
>Na Austrália? Sim, me sinto.
Todos os piratas riram.
Mais jornalistas fizeram perguntas. Alguns foram simpáticos e outros foram hostis. Quando ficava cansado passava o teclado para Ange e a deixava ser M1k3y por um pouco. Não achava mesmo que ele e eu éramos a mesma pessoa de qualquer jeito. M1k3y era do tipo que falava com jornalistas internacionais e inspirava um movimento. Marcus fora suspenso na escola, brigava com o pai e pensava se era bom o bastante para sua namorada fenomenal.
Por volta das 11 da noite eu estava cheio. Além disso, meus pais me esperavam em casa e eu não podia demorar. Saí do jogo e Ange também e deitamos por um minuto. Peguei sua mão e ela apertou a minha com força. Nos abraçamos.
Ela beijou meu pescoço e murmurou algo.
“O quê?”
“Eu disse que te amo. Por quê? Quer que te mande por telegrama?”
“Uau.”
“Está surpreso?”
“Não. Huh, é só que… eu ia dizer o mesmo para você.”
“Tá bom que ia.” E me deu um peteleco no nariz.
“É que eu nunca disse isso antes. Então estava me preparando.”
“Você não precisa dizer, você sabe. Não pense que eu não reparei. Nós, garotas, ligamos para estas coisas.”
“Eu te amo, Ange Carvelli.” eu disse.
“Também te amo, Marcus Yallow.”
Nos beijamos e partimos um para cima do outro e comecei a respirar pesado e ela também. Foi quando a mãe dela bateu na porta.
“Ângela,” ela disse. “acho que está na hora do seu amigo ir para casa, não acha?”
“Sim, mamãe.” ela disse e imitou um machado descendo no ar. Coloquei minhas meias e sapatos ela resmungou: “Eles dirão, aquela Ângela, era uma garota tão boa, quem pensaria que todo aquele tempo que estava no jardim, ela estava ajudando sua mãe a afiar aquela machadinha.”
Eu comecei a rir. “Você não sabe a moleza que tem. Duvido que meus pais nos deixassem sozinhos no meu quarto até as 11 da noite.”
“11:45.” ela disse checando seu relógio.
“Caramba!” gritei e amarrei os sapatos.
“Vá embora!” ela disse “Corra e seja livre! Olhe para ambos os lados antes de atravessar a rua! Escreva se conseguir um trabalho. Não pare nem mesmo para um abraço! Se não estiver longe daqui quando eu contar dez, então teremos problemas, moço. Um. Dois. Três.”
Calei-a, empurrando-a para a cama e sobre ela a beijei até que parasse de contar. Satisfeito com minha vitória, desci as escadas com meu Xbox debaixo do braço.
Sua mãe estava no pé da escada. Só a tinha encontrado algumas vezes. Parecia com uma versão mais velha e mais alta de Ange - Ange tinha dito que seu pai era o mais baixo da família - com lentes de contato ao invés de óculos. Ela parecia me classificar como um bom moço e eu gostei disso.
“Boa noite, senhora Carvelli.” eu disse.
“Boa noite, senhor Yallow.” ela disse. Este era um dos nossos rituais, desde que a tinha chamado assim da primeira vez.
Parei meio sem jeito ao seu lado na porta.
“O que foi?” ela disse.
“Huh, obrigado por me receber na sua casa.”
“Você será sempre bem vindo em nossa casa, meu jovem.” ela disse.
“E obrigado por Ange.” disse ao fim me odiando pelo jeito que aquilo soou. Mas ela sorriu largo e me deu um breve abraço.
“Você é muito bem-vindo.” ela falou.
Por todo o caminho de ônibus de volta para casa pensei na conferência de imprensa além de Ange nua e escrevendo comigo na sua cama além de sua mãe sorrindo e me mostrando a porta.
Minha mãe esperava por mim. Me perguntou sobre o filme e lhe dei a resposta que havia preparado com antecedência, depois de ter lido uma resenha no jornal Bay Guardian.
Enquanto adormecia a conferência de imprensa me voltou. Estava orgulhoso de verdade daquilo. Tinha sido tão legal, com todos aqueles figurões das notícias no jogo, me ouvindo e ouvindo a todos os outros que acreditavam nas mesmas coisas que eu. Peguei no sono com um sorriso nos lábios.
#
Eu deveria saber.
LÍDER DA XNET AFIRMA: EU PODERIA ENTRAR COM METAL EM UM AVIÃO.
DHS NÂO TEM MEU CONSENTIMENTO PARA GOVERNAR.
OS GAROTOS DO XNET CLAMAM: ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, SAIAM DE SÃO FRANCISCO.
Eram as manchetes. Todo mundo me mandava artigos para o blog, mas era a última coisa que eu queria fazer.
Tenho que acabar com isso de algum jeito. A imprensa tinha vindo à minha conferencia e concluído que éramos terroristas ou simpatizantes deles. O pior foi o repórter da Fox News, que aparentemente apareceu lá de qualquer forma e que dedicou um comentário de dez minutos para nós, falando sobre “traição criminosa.” Seu bordão sensacionalista que era repetido a cada chamada era:
“Eles dizem que não têm um nome. Eu tenho um para eles. Vamos chamar estas crianças mimadas de Cal-Quaeda (trocadilho com Al Quaeda e Califórnia). Eles fazem o trabalho dos terroristas no front caseiro. Quando - não ‘se’, mas quando - a Califórnia for atacada novamente, estes pirralhos serão tão culpados quanto a família real Saudita.”
Líderes do movimento anti-guerra nos chamaram de extremistas. Um cara foi à TV dizer que acreditava que nós tínhamos sido fabricados pela DHS para desacreditá-los.
A DHS, em sua conferência para imprensa, anunciou que dobraria a segurança em São Francisco. Eles tinham posto a mão em um arphid clonado e fizeram uma demonstração de como funcionava e alertaram a todos sobre jovens com o comportamento suspeito.
Eles não estavam de brincadeira. Terminei meu trabalho sobre Kerouac e comecei o trabalho sobre o Verão do Amor, o verão de 1967 quando o movimento anti-guerra e os hippies se encontraram em São Francisco. Os caras que fundaram a sorveteria Ben and Jerry’s, dois hippies velhos, fundaram também um museu da cultura hippie em Haight onde era possível ter acesso aos arquivos de documentos e exibições.
Mas não estava fácil. Ao final da semana eu fui parado uma média de quatro vezes por dia. Policiais checaram minha identidade e questionaram sobre o motivo de estar na rua, Leram atentamente a carta da Chavez dizendo que eu estava suspenso.
Tive sorte. Não fui detido. Mas o resto da Xnet não teve a mesma sorte. Toda noite a DHS anunciava mais e mais detenções, “líderes” e “participantes” da Xnet, gente que eu não conhecia e que nunca tinha ouvido falar desfilava na TV com aparelhos de clonagem e outros aparelhos em seus bolsos. Anunciaram que estas pessoas estavam dando outros nomes da rede Xnet e que mais detenções eram esperadas para breve. O nome “M1k3y” era sempre ouvido.
Papai e eu assistíamos os noticiários juntos, ele alegre com a infelicidade alheia e eu me apequenando, quase perdendo o controle. “Você devia ver as coisas que eles fazem com estes garotos.” disse papai. “Já os vi em ação. Eles pegaram um par destes moleques e vasculharam as listas de amigos deles no IM e nas agendas dos celulares, procurando por mais e mais nomes, buscando padrões que levassem a mais e mais garotos. Vão puxando a linha, como de um suéter velho.”
Cancelei o jantar com Ange no nosso recanto e comecei a passar mais e mais tempo na casa dela. A irmã pequena dela me chamava de “hóspede-convidado” e “aquele-que-jantava-com-a-gente”. Eu gostava de Tina. Tudo que ela gostava era de sair e festejar com amigos e encontrar garotos, mas ela era engraçada e muito devotada à Ange. Uma noite, enquanto lavávamos os pratos, ela secou as mãos e disse, conversando conosco: “‘Sabe, você parece um cara legal, Marcus. Minha irmã é louca por você e eu também gosto de você. Mas preciso lhe dizer uma coisa. Se você a magoar, eu vou atrás de você e arranco seu escroto fora. Não vai ser nada bonito.”
Eu garanti a ela que eu preferia eu mesmo arrancar meu escroto a fazer mal a Ange,e ela concordou: “Então estamos conversados.”
“Sua irmã é maluca.” eu disse quando voltei para cama de Ange, enquanto víamos alguns blogs na Xnet. E isso era tudo que fazíamos, ficávamos de bobeira e líamos na Xnet.
“Ela usou a história de cortar seu saco com você? Odeio quando ela faz isso. Ela adora a palavra ‘escroto’, sabe. Não é pessoal.”
Eu a beijei. Lemos um pouco mais.
“Ouça isso.” ela disse. “A polícia projeta entre quatrocentos e seiscentas detenções neste final de semana, na maior ação coordenada contra os dissidentes da Xnet até hoje.”
Me senti mal com isso.
“Temos que fazer com que isso pare.” eu disse. “Tem gente por aí fazendo interferência apenas para mostrar que não pode ser intimidado. Isso não é uma loucura?”
“Acho corajoso.” ela disse. “Não podem nos obrigar a ficar submissos.”
“O quê? Não, Ange, não. Não podemos deixar que centenas sejam mandadas para a cadeia. Você nunca esteve lá. É pior do que você pode imaginar.”
“Tenho uma imaginação bem fértil.” ela disse.
“Pare, tá bem? Fale sério por um segundo. Não quero isso. Não quero que estas pessoas sejam mandadas para a cadeia. Se o fizer, então serei o cara que Van pensa que eu sou.”
“Marcus, eu estou falando sério. Acha que estas pessoas não sabem que podem ir presas? Elas acreditam na causa. Você acredita também. Dê a elas o crédito de saber onde estão se metendo. Não é problema seu decidir quem pode e quem não pode correr riscos.”
“É minha responsabilidade, porque se eu mandar que parem, eles irão parar.”
“Pensei que você não era o líder.”
“Não sou, é claro. Não posso fazer nada se eles me vêem como uma liderança. E sendo assim, eu tenho a responsabilidade que mantê-los em segurança. Você entende, certo?”
“Tudo que vejo é você prestes a correr e desistir ao menor sinal de problema. Acho que tem medo que descubram quem você é. Acho que está com medo por você.”
“Isso não é justo.” eu disse me afastando dela.
“Mesmo? Quem foi que quase teve um ataque do coração quando ficou sabendo que sua identidade secreta não era tão secreta assim?”
“Aquilo foi diferente.” eu disse. “Isso não é sobre mim, sabe que não é. Por quê está fazendo isso?”
“Porquê?” ela disse. “Por que não aceita que você foi o cara com coragem bastante para começar isso tudo?”
“Isso não é coragem, é suicídio.”
“Drama adolescente barato, M1k3y.”
“Não me chame assim.”
“Do quê? M1k3y? Por que não M1k3y?”
Calcei os tênis e peguei minhas coisas. Fui para casa.
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> Por que não estou fazendo interferência por aí?
> Não vou dizer a ninguém o que fazer, porque não sou o líder de ninguém, não importa o que a Fox News pense.
> Mas vou dizer a vocês o que planejo fazer. Se acharem que é o certo, talvez possam querer fazer também.
> Não estou zoando por ai, não nesta semana. E não é por que estou apavorado. É por que sou esperto o bastante para saber que sou mais útil livre do que na prisão. Eles acham que sabem como interromper nossa tática, então é hora de uma nova tática. Não importa qual a tática, desde que funcione. É uma estupidez ser preso. Só funciona zoar se você estiver livre para isso.
>Tem outra razão. Se você for preso, podem usar você para achar os seus amigos, e os amigos dele e os amigos deles e os amigos deles. Podem detê-lo mesmo que não faça parte da Xnet, por que a DHS é como um touro louco e eles não querem saber se você é o cara certo.
> Não estou dizendo a vocês o que fazer.
> Mas o DHS é burro e nós somos espertos. O que fazemos é uma prova de que eles não podem combater o terrorismo, pois sequer conseguem lidar com um bando de crianças. Se vocês forem presos, parecerá que o DHS é mais esperto que a gente.
>ELES NÂO SÃO MAIS ESPERTOS QUE A GENTE. Nós somos mais espertos. Vamos achar um jeito de ferrá-los, não importa quantos policiais eles coloquem nas ruas da nossa cidade.
Postei aquilo e fui para a cama.
Sentia falta de Ange.
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Ange e eu não nos falamos nos quatro dias seguintes, incluindo o final de semana e então chegou a hora de voltar à escola. Tinha ligado quase um milhão de vezes para ela, mandado milhares de emails e IMs.
Agora estava de volta à aula de Estudos Sociais e Mrs Andersen me saudou sarcástica, me perguntando docemente como tinham sido minhas férias. Sentei-me sem dizer coisa alguma. Podia ouvir Charles rindo baixo.
Ela começou a falar para a classe sobre o Destino Manifesto, a idéia de que os Americanos eram destinados a tomar o mundo inteiro (ou ao menos foi o que ela parecia querer parecer) e parecia me provocar com isso como se esperasse que eu dissesse algo.
Sentia os olhos da turma sobre mim e lembrei-me de M1k3y e das pessoas atrás dele. Eu estava cansado de ser vigiado. E sentia falta de Ange.
Passei o resto do dia sem dizer me importar com o que pudesse dizer respeito a mim. Acho que não disse sequer oito palavras.
Finalmente quando acabou, chutei as portas e tomei rumo do meu bairro estúpido e da minha casa sem sentido.
Mal tinha passado o portão quando alguém trombou comigo. Era um sujeito de rua, sem teto, talvez da minha idade, talvez um pouco mais velho. Ele vestia um casaco verde comprido, jeans largos e tênis gastos e parecia que tinha dormido numa serraria. Seu cabelo longo caia sobre o seu rosto e alguma barba.
Isso tudo eu vi ainda caído ao lado dele na calçada, as pessoas passavam e olhavam para a gente com estranheza. Parecia que ele tinha tropeçado e caído sobre mim enquanto descia a Valencia com pressa.
Ficou de joelhos e rolou para trás e para frente como se estivesse bêbado ou tivesse batido a cabeça.
‘Desculpa, meu chapa’ ele disse. ‘Não te vi. Está machucado?’
Sentei. Não tinha me machucado.
“Não, estou ok.”
Ficou de pé e sorriu. Seus dentes eram brancos e perfeitos,como um comercial de clinica odontológica. Esticou a mão para me ajudar e ela era forte e firme.
“Lamento mesmo.” Sua voz era clara e inteligente. Eu esperava que soasse como um daqueles bêbados que ficam pela Missão tarde da noite, mas se parecia mais como um balconista de alguma livraria conhecida.
“Sem problema.”
Ele esticou de novo a mão.
“Zeb.” ele disse.
“Marcus.”
“É um prazer, Marcus. Espero cruzar com você por aí algum dia.”
Rindo, ele pegou sua mochila virou-se e foi embora rápido.
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Fiz o resto do caminho de casa de forma distraída. Mamãe estava na mesa de cozinha e tivemos uma conversa rápida sobre coisa alguma em geral, do jeito que sempre fazíamos antes de tudo mudar.
Subi para meu quarto e fui me sentar na cadeira. Não queria me logar na Xnet. Já tinha dado uma checada de manhã antes de ir para a escola e tinha descoberto que meu post provocara uma controvérsia gigantesca entre pessoas que concordavam e pessoas que estavam furiosas por eu dizer que deviam parar com sua querida diversão.
Eu tinha uns três mil projetos e estava no meio deles quando a coisa toda começou. Eu estava construindo uma câmera caseira feita de legos, estava brincando com um jeito de tirar fotografias aéreas usando uma pipa e uma velha câmera digital com um obturador preparado para disparar progressivamente em intervalos. Eu fazia um amplificador de tubo a vácuo sendo feito a partir de um velho e corroído latão de óleo de cozinha que parecia mais com um achado arqueológico - e quando estivesse pronto, eu planejava fazer uma conexão para meu telefone e um set de auto-falantes sorround 5.1 de latas de atum.
Dei uma olhada por sobre a mesa de trabalhos e peguei a câmera caseira. Colocar os legos metodicamente juntos era fácil. Tirei meu relógio e o anel de prata de dois dedos onde um macaco e um ninja brigavam e larguei tudo numa pequena caixa que usava para guardar a porcariada que tirava dos bolsos e do pescoço. Celular, carteira, chaves, wifinder, troco, pilhas, cabos retráteis... largava tudo na caixa e assim não precisava pensar onde tinha colocado as coisas depois.
Um pedaço de papel cinza, macio como flanela, ficou no meio de tudo. Nele estava escrito algo à mão, cuidadosamente escrito como eu nunca vira antes. Desdobrei-o. Estava escrito do dois lados, do canto esquerdo até o canto oposto e assinado abaixo do canto direito de um dos lados.
“ZEB”
Comecei a ler:
“Caro Marcus. Você não sabe quem eu sou, mas eu sei quem você é. Desde que a ponte da baía foi explodida há três meses atrás, fui mantido prisioneiro na Treasure Island. Eu estava lá quando você falou na quadra com a menina asiática e foi pego. Vocês foram corajosos. Bom pra vocês. Eu tive um apêndice supurado no dia seguinte e fui parar na enfermaria. Na cama ao lado da minha conheci um cara chamado Darryl. Nós estivemos nos recuperando por bastante tempo e ficamos bem, tínhamos causado problemas demais para simplesmente nos deixarem partir. Então decidiram que devíamos ser culpados por alguma coisa. Nos interrogaram todos os dias. Você esteve sendo interrogado também. Imagine isso por meses. Darryl e eu terminamos companheiros de cela. Sabíamos que nos vigiavam e então só falávamos de bobagens. Mas numa noite, quando estávamos nos catres, trocamos mensagens em código Morse (eu sabia que meu rádio Morse teria utilidade algum dia). Primeiro, suas perguntas para nós eram aquela baboseira do quem fez isso, quem fez aquilo, como fizeram isso. Mas depois de um tempo, passaram a nos perguntar sobre a Xnet. É claro que nunca tínhamos ouvido falar dela. Mas isso não os impedia de perguntar. Darryl me disse que eles haviam trazido clonadores, xboxers e todo tipo de tecnologia e ordenaram que ele dissesse como usá-los e como podiam aprender a usá-los. Darryl me contou sobre os jogos de vocês e as coisas que aprendeu. Especialmente a DHS queria saber sobre seus amigos. Quem nós conhecíamos? Como eram? Se tinham ligações políticas, se tinham problemas na escola ou com a lei. Faz uma semana que me liberaram e acho que ninguém sabe que seus filhos e filhas estão presos bem ali no meio da baía. À noite, podemos ouvir risos e festas no continente. Não vou dizer como saí, no caso disso cair em mãos erradas. Talvez outros possam usar a mesma saída que eu. Darryl me disse como encontrar você e me fez prometer que diria o que eu sabia quando eu voltasse. Agora eu vou embora daqui. Vou deixar este país de qualquer jeito. Que se dane a América. Força irmão. Eles têm medo de você. Acabe com eles por mim e não deixe que te peguem. ZEB.”
Lágrimas enchiam meus olhos ao terminar de ler. Eu tinha um isqueiro em algum lugar da mesa que era usado para queimar o encapamento dos fios. Eu iria usá-lo para queimar o bilhete. Sabia que devia isso a Zeb, destruir a mensagem para que ninguém pudesse jamais ler aquilo no caso de estarem procurando por ele, aonde quer que estivesse indo.
Segurei a chama e o papel, mas não consegui fazê-lo.
Darryl.
Com toda esta porcaria sobre Xnet e Ange e a DHS, tinha quase esquecido que ele existira. Tinha se tornado um fantasma como um velho amigo de colégio que se muda para longe ou parte para um programa de intercâmbio. Todo este tempo eles tinham interrogado ele, o obrigado a ensinar sobre o Xnet, os aparelhos de interferência. Estivera em Treasure Island, na base militar abandonada que ficava no meio do caminho ao longo da ponte demolida da baía. Tão perto que poderia nadar até lá.
Baixei o isqueiro e li o bilhete de novo. Quando terminei estava chorando. Tudo voltou, a mulher com cabelos curtos e as perguntas e a urina e o fedor da urina seca na calça.
"Marcus?"
Minha porta estava aberta e minha mãe estava de pé junto dela, me olhando com um ar preocupado. Quanto tempo ela estivera ali?
Sequei as lagrimas do rosto e engoli o choro. “Mãe.” eu disse. “Oi!”
Ela veio até mim e me abraçou. “O que foi? Quer conversar?”
O bilhete estava sobre a mesa.
“É aquela garota? Está tudo bem?”
Ela estava me dando uma saída. Eu podia colocar a culpa nos problemas com Ange e ela sairia e me deixaria sozinho. Abri a boca para falar isso e então o que saiu foi:
“Eu fui preso. Depois que a ponte explodiu. Eu fiquei numa cela o tempo todo.”
O choro que veio não parecia vir de mim. Soava como um animal, talvez um macaco ou o som de um gato gordo no meio da noite. Chorava e minha garganta ardia e doía.
Mamãe me pegou nos braços, do mesmo jeito quando eu era pequeno e acariciou meu cabelo e murmurou no meu ouvido e me embalou e gradualmente o choro cedeu.
Respirei profundamente e mamãe me trouxe um copo de água. Sentei na cama e ela na cadeira, e eu lhe contei tudo.
Tudo.
Bem, quase tudo.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 15 [ Download ]
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Starship Dimensions
A proposta de Starship Dimensions é curiosa e no mínimo divertida, propor comparações de tamanho, de dimensões, de espaçonaves fictícias, de diversas fontes e tipos e origens. Mas não para por ai... que tal colocar lado a lado, os 66 centimetros do Mestre Yoda, com os 2,20 m de um espécime de Aliens? Ou Gort (2,30m), de 'O dia em que a Terra parou', com um inseto (+- 2 m) de 'Starship Troopers' ?
Ou os quase 10 Km da astronave de Lexx
com os 7,5 km da BloodHawk, Retribution Class de Battlefleet Gothic.
O site também abriga um fórum para construtores de modelos SCIFI e recebe contribuições de material de fãs.
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