sábado, 5 de dezembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6
CAPÍTULO 6
Este capítulo é dedicado a Powell’s Books, a legendária ‘Cidade dos livros’ em Portland, Oregon. A Powell é a maior livraria do mundo, um interminável, multi-andares, universo de aromas de papel e enormes estantes. Eles possuem livros novos e usados nas mesmas prateleiras - algo que eu sempre amei - e sempre que passo por lá, há sempre uma verdadeira montanha de meus livros que me pedem para autografar. Os atendentes são amigáveis, o estoque é fabuloso e existe até uma Powell no aeroporto de Portland, sendo a melhor livraria em aeroportos no mundo.
Powell's Books: 1005 W Burnside, Portland, OR 97209 USA +1 800 878 7323
Acreditem ou não, meus pais me fizeram ir para a escola no dia seguinte.
Só consegui cair no sono às três da manhã, mas às sete meu pai estava no pé da cama, ameaçando me puxar pelos tornozelos se eu não levantasse sozinho - algo parecia ter morrido na minha boca depois de colar minhas pálpebras - e fosse tomar banho.
Deixei minha mãe forçar um pedaço de torrada e uma banana pra dentro de mim, desejando fervorosamente que eles me deixassem beber café em casa. Podia arranjar algum no caminho da escola, mas ficar olhando eles beberem seus ouros negros enquanto eu me vestia e colocava meus livros na mochila era terrível.
Eu já caminhara para a escola milhares de vezes,mas naquele dia era diferente. Fui até o alto da colina e desci para a Missão e por todo lado via estes caminhões. Vi novos sensores e câmeras de trânsito instaladas em vários postes de trânsito. Alguém tinha um monte de equipamento de vigilância por aí, esperando para ser instalado na primeira oportunidade. O ataque a ponte de Bay Bridge tinha sido tudo que eles precisavam.
Isso tudo fazia a cidade parecer mais subjugada, como estar dentro de um elevador, embaraçado pelo escrutínio de seus vizinhos e das ubíquas câmeras.
O Café Turco da rua 24 deu um jeito em mim com um gostoso café num copo para viagem . Basicamente, café turco era uma lama que fingia ser café. Era denso o bastante para segurar uma colher parada no centro e tinha mais cafeína do que aqueles energizantes tipo Red Bull. Tinha ouvido de alguém que viu na Wikipédia que fora assim que o Império Otomano vencia as batalhas: cavaleiros enlouquecidos e abastecidos pelo letal café-de-lama-preta.
Puxei o cartão de credito para pagar e ele me fez uma careta. ‘Não cobro mais’, ele disse.
‘Huh? Por que não? Eu paguei pelo meu café habitual com meu cartão durante anos no Turco. Ele costumava brigar comigo, dizendo que eu era novo demais para beber aquela coisa e se recusava a me servir durante o período da aula, convencido que eu fugia da aula. Mas por anos, o turco e eu tínhamos desenvolvido um tipo grosseiro de entendimento.
Ele balançou a cabeça e disse tristemente: “Você não entenderia. Vá para a escola, menino.”
Não havia jeito mais certo de me fazer querer entender do que me dizer que eu não poderia. O chantageei, exigindo que me contasse. Me olhou como se fosse me atirar para fora mas quando eu perguntei se ele pensava que eu não era bom o bastante para comprar ali, ele confessou:
“A Segurança” ele disse olhando ao redor de sua lojinha com seus sacos de grãos secos e vagens, e estantes cheias de doces turcos. “O governo. Agora eles monitoram tudo, está nos jornais. ATO PATRIOTA II, o Congresso aprovou ontem. Agora eles podem monitorar cada vez que você usa seu cartão de crédito. Eu digo não. Eu digo, minha loja não vai ajudá-los a espionar meus fregueses.”
Meu queixo caiu.
“Você pode achar que não é grande coisa talvez. Qual é o problema com o governo saber quando você vende café? Por que é o único jeito deles saberem onde você está, onde esteve. Por que você pensa que eu saí da Turquia? Onde você tem sempre o governo espionando o povo, nada bom. Eu me mudei para cá vinte anos atrás por causa da liberdade - não ajudo eles a acabar com a liberdade.”
“Você vai deixar de fazer muitas vendas.” Eu disse. Eu queria dizer para ele que ele era um herói e apertar sua mão, mas o que saiu foi: “Todo mundo usa cartão de crédito.”
“Talvez não mais, nunca mais. Talvez meus fregueses passem a vir aqui porque sabem que eu amo a liberdade também. Vou colocar um cartaz na janela. Talvez outras lojas façam o mesmo. Eu ouvi dizer que a ACLU (Organização pró-direitos civis) vai processá-los por isso.”
“Você tem todo meu apoio” eu disse. Quis dizer. Procurei no bolso. “Hum, não tenho dinheiro.”
Ele franziu os lábios e concordou: “Muitos dizem a mesma coisa. Tudo OK. Você manda o dinheiro de hoje para a ACLU.”
Em dois minutos, o turco e eu havíamos trocado mais palavras do que todo o tempo que vim até sua loja. Eu não tinha idéia de que ele tinha toda aquela paixão. Pensava nele como meu vizinho amigável vendedor de cafeína. Agora eu apertei sua mão e quando deixei sua loja, senti como se ele e eu fossemos parte de um time. Um time secreto.
#
Tinha perdido dois dias de escola, mas não pareceu que tinha perdido muita coisa. Eles haviam fechado as escolas durante aqueles dias, enquanto a cidade se recuperava. O dia seguinte havia sido dedicado a lamentar aqueles que desapareceram ou presumidamente estavam mortos. Os jornais publicavam biografias dos desaparecidos. A Web estava cheia de pequenos obituários, milhares deles.
De forma embaraçosa eu era uma destas pessoas. Pisei no pátio da escola sem saber disso e então ouvi um grito e no momento seguinte havia uma centena de pessoas me cercando, de dando tapinhas nas costas, apertando minha mão. Duas garotas que eu nem conhecia me beijaram e foram beijos mais do que simplesmente amigáveis. Eu me senti como um astro do rock.
Meus professores, contudo, foram um pouco mais controlados. Senhorita Galvez chorou tanto quanto minha mãe tinha chorado e me abraçou por três vezes antes de me deixar sentar no meu lugar. Havia algo novo na frente da sala de aula. Uma câmera. Senhorita Galvez percebeu que eu olhava para ela e me passou um comunicado xerocado da direção da escola.
O Comitê das Escolas Unificadas do Distrito de São Francisco tinha se reunido numa sessão de emergência no fim de semana e, por voto unânime, pediram a cada pai das crianças da cidade a permissão para colocar circuitos de televisão em cada sala e corredor. A lei dizia que eles não podiam nos forçar a ir para escolas com câmeras por toda parte, mas não dizia nada sobre nós abrirmos mão voluntariamente de nossos direitos constitucionais. A carta dizia que o Comitê tinha total certeza que conseguiria a completa aquiescência dos pais desta cidade, mas eles fariam arranjos para ensinar também aquelas crianças cujos pais se objetassem, em salas separadas “desprotegidas”.
Por que tínhamos câmeras na sala de aula agora? Terroristas, é claro. Por que depois de explodir uma ponte, os terroristas haviam indicado que as escolas seriam as próximas. De alguma forma, esta fora a conclusão a que chegou o Comitê.
Li a nota por três vezes e então levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Senhorita Galvez, sobre esta nota?”
“Sim, Marcus?”
“O objetivo dos terroristas não é fazer com que fiquemos aterrorizados? Não é por isso que se chama terrorismo?”
“Suponho que sim.” A classe estava me olhando. E não era o melhor aluno da escola, mas era bom em debates na sala de aula. Eles esperavam para ouvir o que eu tinha para dizer em seguida.
“Então nós não estamos fazendo o que os terroristas queriam de nós? Eles não ganham se agimos todos com medo e colocamos câmeras nas sala e tudo isso?”
Houve um rumor nervoso. Um dos outros levantou a mão. Era Charles. Senhorita Galvez o deixou responder.
“Colocando câmeras nas salas ficamos mais seguros, o que faz termos menos medo.”
“Seguros contra o quê?” respondi antes dele acabar.
“Terrorismo” disse Charles. Os outros concordam.
“Como isso vai adiantar? Se um homem bomba entrar aqui e explodir com a gente...”
“Senhorita. Galvez, Marcus está violando a política da escola. Não podemos fazer piadas sobre ataques terroristas...”
“Quem está fazendo piada?”
“Obrigada, aos dois.” disse Senhorita Galvez. Ela parecia verdadeiramente triste. Senti-me mal por roubar a atenção da sua turma. “Acho que é uma discussão muito interessante, mas vamos deixar para uma próxima aula. Acho que estes assuntos podem ser bastante emocionais para nós termos uma discussão hoje. Agora, podemos voltar aos sufragistas?”
Então passamos o resto daquela hora falando sobre os sufragistas e de novas estratégias lobistas para conseguir colocar quatro mulheres em cada escritório de cada congressista para ensiná-los e deixar que soubessem o que significaria para seus futuros políticos se continuassem negando o direito de voto para as mulheres. Isso era normalmente algo que eu gostava - uns poucos fazendo muito e poderosamente honesto.
Mas hoje eu não conseguia me concentrar. Talvez fosse pela ausência de Darryl. Nós gostávamos de estudos sociais e nos sempre começávamos uma conversa pelo IM em nossos computadores escolares para falar sobre a lição.
Eu tinha gravado vinte discos com ParanoidXbox na noite anterior e eles estavam na mochila. Passei para aqueles que eu sabia que estavam por dentro da coisa. Todos tinham um Xbox Universal ou dois, do ano passado, ma a maioria tinha deixado de usá-los. Os jogos eram muito caros e nem um pouco divertidos. Eu os distribuía entre as aulas, no recreio, na sala de estudos e cantava as glórias dos jogos no ParanoidXbox. Diversão de graça - games sociais viciantes com um monte de gente bacana jogando por todo o mundo.
Dar uma coisa para vender outra é o que chamam de "negócio tipo navalha" -companhias como a Gillette dão para você um aparelho de barbear de graça e então ganham uma fortuna vendendo lâminas. Com os cartuchos de impressão é bem pior que isso - a mais cara champanhe do mundo é barata se comparada ao preço da tinta de impressora, que custa um centavo por galão no atacado.
Este negócio tipo navalha depende de você não ser capaz de conseguir “as lâminas” de outro lugar. Além disso, se a Gillette consegue nove em cada dez dólares gastos com trocas de lâminas, por que não começar como um competidor que cobra quatro mangos por uma lâmina idêntica? Uma margem de lucro de 80% é o tipo de coisa que faz qualquer sujeito do mundo dos negócios babar.
Então, empresas tipo a Microsoft, empregam um grande esforço para tornar ilegal ou difícil alguém competir com ela pelas lâminas. No caso da Microsoft, cada Xbox possui contramedidas para evitar que você o use com softwares feitos por pessoas que não pagaram uma boa grana à Microsoft pelo direito de vender jogos para Xbox.
As pessoas que conheço não pensam muito sobre isso. Eles se animam quando eu digo que os jogos não são monitorados. Nestes dias, qualquer jogo online que você joga é cheio de todo tipo de coisas nojentas. Primeiro tem os pervertidos que tentam convencê-lo a ir a algum lugar onde farão todo tipo de “Silêncio dos Inocentes” com você. E tem a polícia que finge que ser crianças ingênuas para poder pegar os pervertidos. E o pior de tudo isso são os monitores que passam o tempo espiando suas discussões e xeretando se alguém está violando os Termos do Serviço, o que significa nada de paquera, nada de palavrões, e nada de “linguagem de duplo sentido que insulte a qualquer aspecto de orientação sexual ou sexualidade.”
Eu não sou um cachorro no cio vinte e quatro horas, sete dias por semana, mas tenho dezessete anos. Sexo sempre aparece numa conversa e sempre aparecerá. Mas Deus te ajude se aparecer num chat enquanto você está jogando. Tá ferrado. Ninguém monitora os jogos do ParanoidXbox, pois não são executados por uma companhia mas são só jogos criados por hackers.
Então é assim, os maníacos por jogos adoram esta história. Eles pegam os discos com gratidão e prometem copiar para todos os seus amigos - afinal, os games são mais legais quando você joga com os seus camaradinhas.
Quando cheguei em casa li que um grupo de pais estava processando na justiça o Comitê escolar por conta das câmeras de vigilância nas salas de aula, mas já tinham perdido a injunção preliminar contra eles.
#
Não sei quem veio com o nome Xnet, mas pegou. Você ouvia as pessoas falarem sobre ela na Muni (apelido para o sistema publico de trânsito de São Francisco; ônibus, bondes,etc.). Van me ligou para perguntar se eu já tinha ouvido falar sobre ela e fiquei chocado quando me dei conta de que se tratavam dos discos que eu comecei distribuindo semana passada e que já se achavam até em Oakland, no espaço de apenas duas semanas. Isso me fez ficar cabreiro - como se tivesse quebrado uma regra e agora o DHS (Departamento de Segurança do Estado) viria e me levaria embora para sempre.
Estas seriam semanas difíceis. O sistema de trens e metrô tinha abandonado completamente a venda de passagens por dinheiro, trocando-a por cartões que você apenas aproxima das roletas para poder passar. Eles eram legais e bem convenientes, mas toda vez que você usava um, eu imaginava como estaria sendo seguido. Alguém na Xnet colocou um link para um documento da Eletronic Frontier Foundation que dizia que estas coisas poderiam ser usadas para seguir o povo e contava algumas pequenas historias sobre algumas pessoas que protestaram contra isso nas estações da BART.
Eu usava a Xnet para quase tudo agora. Criei um email com endereço falso através da Pirate Party, um partido político sueco que odiava vigilância na internet e que prometia manter suas contas de email em segredo - mesmo da polícia. Eu a acessava estritamente via Xnet, pulando de uma conexão de internet das vizinhanças para outra anonimamente - eu esperava - até a Suécia. Não mais usava ‘W1N5T0N’. Se Benson podia descobrir, qualquer um podia. Meu novo logon veio de um estímulo momentâneo, era M1k3y, e eu recebia um monte de email de pessoas que tinham ouvido em salas de discussão e quadros de mensagens que eu poderia ajudar a solucionar problemas das configurações e conexões de suas Xnet.
Sentia saudades de Harajuku Fun Madness. A companhia suspendera o jogo indefinidamente. Disseram que por ‘razões de segurança’ não seria uma boa idéia esconder coisas e então mandar pessoas as procurar. E se alguém pensasse que é uma bomba? E se alguém colocasse uma bomba no mesmo lugar?
E se eu fosse atingido por um raio enquanto andava com um guarda-chuva? Vamos proibir guarda-chuvas! Combata a ameaça do raio!
Continuei usando meu laptop, mas isso me dava arrepios. Quem quer que o tivesse grampeado poderia imaginar por que eu não o usava mais. Todos os dias eu fazia algum acesso randômico na rede, um pouco menos a cada dia, para que qualquer um que estivesse me vigiando achar que eu estava mudando meus hábitos, e não mudando repentinamente. Na maioria das vezes ficava lendo aquelas mensagens de óbito arrepiantes - milhares de amigos e vizinhos mortos no fundo da baía.
Verdade seja dita, eu fazia cada vez menos trabalho de casa. Tinha outros negócios para tratar. Todo dia gravava pilhas de discos com ParanoidXbox, cinqüenta ou sessenta discos, e os levava pela cidade para pessoas que queriam fazer sessenta copias para si mesmo ou amigos.
Não me preocupava em ser pego fazendo isso, por que eu tinha a boa e velha cripto ao meu lado. Cripto, ou criptografia, significa “escrita secreta” e existe desde os tempos de Roma (Augustus Cesar era um grande fã e inventava seus próprios códigos, alguns ainda usados hoje em dia na forma de piadas em email.)
Cripto é matemática. Matemática pura. Não vou tentar explicar em detalhes por que a coisa ainda não entrou na minha cabeça, mas olhe na Wikipédia se realmente quiser saber como funciona.
Mas aqui está a versão do Cliff’s Notes. Algumas das funções matemáticas são bem fáceis de fazer numa direção e realmente difíceis de fazer em outra direção. É fácil multiplicar dois grandes números primos e obter um número gigante. É enormemente difícil pegar qualquer número gigantesco e descobrir quais números primos multiplicados dão aquele número.
Isso significa que se você pode embaralhar algo baseado em multiplicação de grandes números primos, desembaralhar sem saber quais são estes números será bem difícil. Difícil mesmo! Tipo, todos os computadores do mundo trabalhando 24 horas por dia durante um trilhão de anos não conseguiriam.
Existem quatro partes de qualquer mensagem criptografada. A mensagem original, chamada texto limpo, a mensagem embaralhada, chamada texto cifrado. O sistema de embaralhamento, chamado código cifrador e finalmente a chave secreta que alimenta o código (logaritmo) para transformar o texto limpo em texto cifrado.
Eu era um desses caras que usam cripto para tudo. Toda agência do governo tem seus próprios códigos e suas próprias chaves. Os nazistas e os aliados não queriam que outros soubessem como eles embaralhavam suas mensagens e deixavam separadas as chaves que poderiam desembaralhá-las. Isso parece uma boa idéia, certo?
Errado.
A primeira vez que alguém me contou sobre como fatorar números primos eu imediatamente disse: “Nem vem, isso é besteira! Quer dizer, é lógico que é difícil fazer este fatoramento de primos, qualquer um vai te dizer isso. Mas também era impossível voar ou ir até a lua ou fazer um disco rígido com mais do que alguns kilobytes de armazenamento. Alguém deveria inventar um jeito de desembaralhar estas mensagens.” Eu tinha visões com uma montanha oca cheia de matemáticos da NSA (Agência de Segurança Nacional) lendo e bisbilhotando todos os emails do mundo.
De fato, isso se parece um pouco com o que aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Esta é a razão pela qual a vida não é mais como Castle Wolfenstein (game), onde eu passava os dias caçando nazistas.
O que acontece é que códigos são difíceis de manter em segredo. Existe muita matemática aplicada neles e se são largamente usados, então qualquer um que os utiliza tem que manter o segredo sobre eles. Também e se alguém muda de lado, você vai precisar de um novo código.
O código nazista chamava-se Enigma e ele usavam um pequeno computador mecânico chamado Máquina Enigma para embaralhar e desembaralhar mensagens. Cada submarino e navio e estação precisava de uma máquina dessas, então era inevitável que eventualmente os aliados conseguissem colocar as mãos em uma delas.
Quando o fizeram, eles quebraram o código. Este trabalho foi encabeçado pelo meu herói particular de todos os tempos, Alan Turing, que praticamente inventou os computadores como conhecemos hoje. Infelizmente para ele, ele era gay, então quando a guerra terminou, o estúpido governo Britânico o forçou a tomar injeções de hormônios para “curar” sua homossexualidade e ele se matou. Darryl me deu uma biografia de Turing no aniversário de 14 anos - e eu me tornei um apaixonado por Turing desde então.
Agora que os aliados tinham a Máquina Enigma e podiam interceptar as mensagens de rádio nazistas, que não deviam ligar para isso, pois cada capitão tinha sua própria chave secreta. Uma vez que os aliados não tinham estas chaves, ter a máquina não iria ajudá-los em nada.
Foi ai que descobriram o segredo que arruinou a cripto: o código Enigma era falho. Quando Turing atenciosamente estudou a máquina, percebeu que os criptografistas nazistas tinham cometido um erro matemático. Com a Máquina Enigma nas mãos, Turing poderia desvendar qualquer mensagem nazista, não importava que chave fosse usada.
Isso custou a guerra aos nazistas. Quero dizer, não me entenda mal. Isso foi bom. Dito por um veterano em Castle Wolfenstein. Você não iria querer os nazistas mandando em seu país.
Depois da guerra, os criptografistas passaram bastante tempo pensando sobre isso. O problema fora que Turing era mais esperto que o cara que pensou o Enigma. Toda vez que alguém criava um código, ficava vulnerável a alguém mais esperto que vinha com um jeito de quebrá-lo.
E quanto mais pensavam nisso, mais percebiam que qualquer um podia vir com um sistema de segurança que eles não saberiam como quebrar. Mas ninguém pode imaginar o que uma pessoa inteligente pode fazer.
Você tem que tornar um código conhecido para saber se este funciona. Tem que dizer a quantas pessoas for possível como funciona para que possam testá-lo com tudo que podem, colocando a sua segurança em prova. Quanto mais tempo você conseguir passar sem que se achem uma falha, melhor ele é.
É como funciona hoje. Se você quer ficar seguro, você não usa um cripto que algum gênio bolou semana passada. Você usa aquele que as pessoas vêm usando há muito sem que ninguém consiga quebrar. Não importa se você é um banco, um terrorista, o governo ou um adolescente, você utiliza o mesmo código.
Se você tentar usar seu próprio código, existe uma chance de que alguém por aí encontre uma falha nele e dê uma de Turing para cima de você, decifrando todas as suas mensagens secretas e rindo de suas fofocas idiotas, transações financeiras e segredos militares.
Então eu sabia que a criptografia podia me manter a salvo dos abelhudos, mas eu não estava pronto pra lidar com histogramas.
#
Sai na BART e balancei meu cartão sobre a roleta enquanto me encaminhava para a estação da rua 24. Como sempre havia um monte de esquisitos de bobeira na estação, bêbados e seguidores malucos de Jesus, e mexicanos e alguns garotos de gangues. Olhei direto através deles e quando cheguei às escadas e alcancei a superfície. Minha sacola estava vazia agora, não mais carregada de discos de ParanoidXbox que estivera distribuindo e que fazia me sentir leve enquanto caminhava para casa. Os pregadores, contudo, continuavam seu trabalho, exortando em espanhol e inglês sobre Jesus e por ai vai.
Os vendedores de óculos de sol falsificados tinham ido embora, mas substituídos por caras vendendo cachorrinhos robôs que latiam o hino nacional e levantavam as perninhas se você mostrava uma foto de Osama Bin Laden. Devia haver algo interessante em seus pequenos cérebros e fiz uma nota mental sobre comprar alguns para abri-los depois. Reconhecimento facial era relativamente uma novidade em brinquedos e apenas recentemente tinham feito a transição de assunto militar para aparecer nos cassinos, usado para identificar trapaceiros.
Desci a rua 24 em direção a Potrero Hill e meu lar, sentindo o aroma de burritos que escapava dos restaurantes e pensando na janta.
Não sei por que dei uma olhada por sobre o ombro, mas o fiz. Talvez tenha sido uma coisa subconsciente de sexto-sentido. Sabia estar sendo seguido.
Eram dois caras musculosos brancos com pequenos bigodes que podiam fazê-los passar por policiais ou ciclistas gays que vivem para cima e para baixo na rua Castro, mas os gays normalmente tem corte de cabelos melhores. Usavam agasalhos cor de cimento velho e jeans de cintura oculta. Pensei sobre todas as coisas que um tira pode usar em seu cinto, como um cinto de utilidades que os caras da DHS usavam no caminhão. Ambos usavam fones de ouvido Bluetooth.
Continuei andando, meu coração saltava no peito. Eu estava esperando por isso desde que comecei. Esperava pelo DHS percebesse o que eu estava fazendo. Eu tomei precauções, mas a mulher de cabelo militar tinha me dito que eles estariam me observando. Ela tinha me dito que eu era um homem marcado.
Percebi que estive esperando ser capturado e levado de volta à cela. Por que não? Por que Darryl podia continuar preso e eu não? O que será que tinham contra mim? Nem aos meus pais eu tinha contado - ou aos pais de Darryl - o que realmente aconteceu conosco.
Acelerei o passo e fiz um inventário mental. Não tinha nada que me incriminasse na minha bolsa. Não muito, de qualquer forma. Meu computador escolar estava executando um crack que deixava usar o IM e coisas assim, mas metade dos caras na escola fazia o mesmo. Eu tinha mudado a forma de bloquear meu telefone - agora eu tinha uma partição falsa que eu podia desfazer com uma senha, mas todas as coisas boas estavam escondidas e precisavam de outra senha para abri-las. A seção escondida parecia lixo aleatório - quando você criptografa dados, se torna indistinguível do lixo normal - e nunca saberiam que estava lá.
Não havia discos na minha bolsa. Meu laptop estava livre de evidências incriminantes. É claro: se fossem vasculhar meu Xbox, fim de papo.
Parei onde estava. Tinha feito um bom trabalho para me proteger. Era hora de encarar meu destino. Entrei na vendinha mais próxima e pedi um burrito com carnitas - porco fatiado - e salsa extra. Se eu iria ser preso seria com o estômago forrado. Peguei um copo de horchata também, um refresco gelado que era quase água, pudim de arroz meio doce (melhor do que parece).
Sentei-me para comer e uma calma profunda me envolveu. Estava prestes a ir para a cadeia por meus "crimes" ou não. Minha liberdade, desde que havia sido capturado tinha sido só um feriado temporário. Meu país não era mais meu amigo - estávamos de lados diferentes e eu sabia que nunca poderia vencê-lo.
Os dois sujeitos entraram no restaurante quando eu terminava o burrito e ia pedir uns churros - massa frita e coberto de açúcar com canela - para sobremesa. Acho que estavam esperando do lado de fora e se cansaram da minha vadiagem.
Ficaram atrás de mim no caixa, me cercando. Peguei o churro da pequena avozinha e paguei-a, dando algumas mordidas antes de me virar. Queria ao menos aproveitar um pouco a sobremesa. Podia ser a última que teria em muito tempo.
Então me virei. Estavam tão perto que dava para ver as espinhas na bochecha do cara à esquerda e a meleca no nariz do outro.
“Licença!” eu disse, tratando passar por eles. O da meleca se moveu me bloqueando.
“Senhor,” ele disse, “pode vir conosco?” fez um gesto para a porta do restaurante.
“Desculpe. Estou comendo.” disse e tentei sair de novo. Desta vez ele colocou a mão em meu peito. Ele estava respirando rápido através do nariz, fazendo a meleca seca se mexer. Acho que eu estava respirando rápido também, mas era difícil de saber além do martelar do meu coração.
O outro puxou a frente do casaco revelando uma insígnia da SFPD (Departamento de Polícia de São Francisco).
“Polícia.” disse. “Venha conosco!”
“Deixe-me pegar minhas coisas.” eu falei.
“Nós cuidaremos delas” disse. O melequento deu um passo a direita, com o pé entre os meus. Igualzinho como se faz em artes marciais. Deixa você saber se o outro cara está deslocando seu peso pronto para se mover.
Eu não ia correr. Eu sabia que não dava para correr do destino.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6 [ Download ]
Este capítulo é dedicado a Powell’s Books, a legendária ‘Cidade dos livros’ em Portland, Oregon. A Powell é a maior livraria do mundo, um interminável, multi-andares, universo de aromas de papel e enormes estantes. Eles possuem livros novos e usados nas mesmas prateleiras - algo que eu sempre amei - e sempre que passo por lá, há sempre uma verdadeira montanha de meus livros que me pedem para autografar. Os atendentes são amigáveis, o estoque é fabuloso e existe até uma Powell no aeroporto de Portland, sendo a melhor livraria em aeroportos no mundo.
Powell's Books: 1005 W Burnside, Portland, OR 97209 USA +1 800 878 7323
Acreditem ou não, meus pais me fizeram ir para a escola no dia seguinte.
Só consegui cair no sono às três da manhã, mas às sete meu pai estava no pé da cama, ameaçando me puxar pelos tornozelos se eu não levantasse sozinho - algo parecia ter morrido na minha boca depois de colar minhas pálpebras - e fosse tomar banho.
Deixei minha mãe forçar um pedaço de torrada e uma banana pra dentro de mim, desejando fervorosamente que eles me deixassem beber café em casa. Podia arranjar algum no caminho da escola, mas ficar olhando eles beberem seus ouros negros enquanto eu me vestia e colocava meus livros na mochila era terrível.
Eu já caminhara para a escola milhares de vezes,mas naquele dia era diferente. Fui até o alto da colina e desci para a Missão e por todo lado via estes caminhões. Vi novos sensores e câmeras de trânsito instaladas em vários postes de trânsito. Alguém tinha um monte de equipamento de vigilância por aí, esperando para ser instalado na primeira oportunidade. O ataque a ponte de Bay Bridge tinha sido tudo que eles precisavam.
Isso tudo fazia a cidade parecer mais subjugada, como estar dentro de um elevador, embaraçado pelo escrutínio de seus vizinhos e das ubíquas câmeras.
O Café Turco da rua 24 deu um jeito em mim com um gostoso café num copo para viagem . Basicamente, café turco era uma lama que fingia ser café. Era denso o bastante para segurar uma colher parada no centro e tinha mais cafeína do que aqueles energizantes tipo Red Bull. Tinha ouvido de alguém que viu na Wikipédia que fora assim que o Império Otomano vencia as batalhas: cavaleiros enlouquecidos e abastecidos pelo letal café-de-lama-preta.
Puxei o cartão de credito para pagar e ele me fez uma careta. ‘Não cobro mais’, ele disse.
‘Huh? Por que não? Eu paguei pelo meu café habitual com meu cartão durante anos no Turco. Ele costumava brigar comigo, dizendo que eu era novo demais para beber aquela coisa e se recusava a me servir durante o período da aula, convencido que eu fugia da aula. Mas por anos, o turco e eu tínhamos desenvolvido um tipo grosseiro de entendimento.
Ele balançou a cabeça e disse tristemente: “Você não entenderia. Vá para a escola, menino.”
Não havia jeito mais certo de me fazer querer entender do que me dizer que eu não poderia. O chantageei, exigindo que me contasse. Me olhou como se fosse me atirar para fora mas quando eu perguntei se ele pensava que eu não era bom o bastante para comprar ali, ele confessou:
“A Segurança” ele disse olhando ao redor de sua lojinha com seus sacos de grãos secos e vagens, e estantes cheias de doces turcos. “O governo. Agora eles monitoram tudo, está nos jornais. ATO PATRIOTA II, o Congresso aprovou ontem. Agora eles podem monitorar cada vez que você usa seu cartão de crédito. Eu digo não. Eu digo, minha loja não vai ajudá-los a espionar meus fregueses.”
Meu queixo caiu.
“Você pode achar que não é grande coisa talvez. Qual é o problema com o governo saber quando você vende café? Por que é o único jeito deles saberem onde você está, onde esteve. Por que você pensa que eu saí da Turquia? Onde você tem sempre o governo espionando o povo, nada bom. Eu me mudei para cá vinte anos atrás por causa da liberdade - não ajudo eles a acabar com a liberdade.”
“Você vai deixar de fazer muitas vendas.” Eu disse. Eu queria dizer para ele que ele era um herói e apertar sua mão, mas o que saiu foi: “Todo mundo usa cartão de crédito.”
“Talvez não mais, nunca mais. Talvez meus fregueses passem a vir aqui porque sabem que eu amo a liberdade também. Vou colocar um cartaz na janela. Talvez outras lojas façam o mesmo. Eu ouvi dizer que a ACLU (Organização pró-direitos civis) vai processá-los por isso.”
“Você tem todo meu apoio” eu disse. Quis dizer. Procurei no bolso. “Hum, não tenho dinheiro.”
Ele franziu os lábios e concordou: “Muitos dizem a mesma coisa. Tudo OK. Você manda o dinheiro de hoje para a ACLU.”
Em dois minutos, o turco e eu havíamos trocado mais palavras do que todo o tempo que vim até sua loja. Eu não tinha idéia de que ele tinha toda aquela paixão. Pensava nele como meu vizinho amigável vendedor de cafeína. Agora eu apertei sua mão e quando deixei sua loja, senti como se ele e eu fossemos parte de um time. Um time secreto.
#
Tinha perdido dois dias de escola, mas não pareceu que tinha perdido muita coisa. Eles haviam fechado as escolas durante aqueles dias, enquanto a cidade se recuperava. O dia seguinte havia sido dedicado a lamentar aqueles que desapareceram ou presumidamente estavam mortos. Os jornais publicavam biografias dos desaparecidos. A Web estava cheia de pequenos obituários, milhares deles.
De forma embaraçosa eu era uma destas pessoas. Pisei no pátio da escola sem saber disso e então ouvi um grito e no momento seguinte havia uma centena de pessoas me cercando, de dando tapinhas nas costas, apertando minha mão. Duas garotas que eu nem conhecia me beijaram e foram beijos mais do que simplesmente amigáveis. Eu me senti como um astro do rock.
Meus professores, contudo, foram um pouco mais controlados. Senhorita Galvez chorou tanto quanto minha mãe tinha chorado e me abraçou por três vezes antes de me deixar sentar no meu lugar. Havia algo novo na frente da sala de aula. Uma câmera. Senhorita Galvez percebeu que eu olhava para ela e me passou um comunicado xerocado da direção da escola.
O Comitê das Escolas Unificadas do Distrito de São Francisco tinha se reunido numa sessão de emergência no fim de semana e, por voto unânime, pediram a cada pai das crianças da cidade a permissão para colocar circuitos de televisão em cada sala e corredor. A lei dizia que eles não podiam nos forçar a ir para escolas com câmeras por toda parte, mas não dizia nada sobre nós abrirmos mão voluntariamente de nossos direitos constitucionais. A carta dizia que o Comitê tinha total certeza que conseguiria a completa aquiescência dos pais desta cidade, mas eles fariam arranjos para ensinar também aquelas crianças cujos pais se objetassem, em salas separadas “desprotegidas”.
Por que tínhamos câmeras na sala de aula agora? Terroristas, é claro. Por que depois de explodir uma ponte, os terroristas haviam indicado que as escolas seriam as próximas. De alguma forma, esta fora a conclusão a que chegou o Comitê.
Li a nota por três vezes e então levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Senhorita Galvez, sobre esta nota?”
“Sim, Marcus?”
“O objetivo dos terroristas não é fazer com que fiquemos aterrorizados? Não é por isso que se chama terrorismo?”
“Suponho que sim.” A classe estava me olhando. E não era o melhor aluno da escola, mas era bom em debates na sala de aula. Eles esperavam para ouvir o que eu tinha para dizer em seguida.
“Então nós não estamos fazendo o que os terroristas queriam de nós? Eles não ganham se agimos todos com medo e colocamos câmeras nas sala e tudo isso?”
Houve um rumor nervoso. Um dos outros levantou a mão. Era Charles. Senhorita Galvez o deixou responder.
“Colocando câmeras nas salas ficamos mais seguros, o que faz termos menos medo.”
“Seguros contra o quê?” respondi antes dele acabar.
“Terrorismo” disse Charles. Os outros concordam.
“Como isso vai adiantar? Se um homem bomba entrar aqui e explodir com a gente...”
“Senhorita. Galvez, Marcus está violando a política da escola. Não podemos fazer piadas sobre ataques terroristas...”
“Quem está fazendo piada?”
“Obrigada, aos dois.” disse Senhorita Galvez. Ela parecia verdadeiramente triste. Senti-me mal por roubar a atenção da sua turma. “Acho que é uma discussão muito interessante, mas vamos deixar para uma próxima aula. Acho que estes assuntos podem ser bastante emocionais para nós termos uma discussão hoje. Agora, podemos voltar aos sufragistas?”
Então passamos o resto daquela hora falando sobre os sufragistas e de novas estratégias lobistas para conseguir colocar quatro mulheres em cada escritório de cada congressista para ensiná-los e deixar que soubessem o que significaria para seus futuros políticos se continuassem negando o direito de voto para as mulheres. Isso era normalmente algo que eu gostava - uns poucos fazendo muito e poderosamente honesto.
Mas hoje eu não conseguia me concentrar. Talvez fosse pela ausência de Darryl. Nós gostávamos de estudos sociais e nos sempre começávamos uma conversa pelo IM em nossos computadores escolares para falar sobre a lição.
Eu tinha gravado vinte discos com ParanoidXbox na noite anterior e eles estavam na mochila. Passei para aqueles que eu sabia que estavam por dentro da coisa. Todos tinham um Xbox Universal ou dois, do ano passado, ma a maioria tinha deixado de usá-los. Os jogos eram muito caros e nem um pouco divertidos. Eu os distribuía entre as aulas, no recreio, na sala de estudos e cantava as glórias dos jogos no ParanoidXbox. Diversão de graça - games sociais viciantes com um monte de gente bacana jogando por todo o mundo.
Dar uma coisa para vender outra é o que chamam de "negócio tipo navalha" -companhias como a Gillette dão para você um aparelho de barbear de graça e então ganham uma fortuna vendendo lâminas. Com os cartuchos de impressão é bem pior que isso - a mais cara champanhe do mundo é barata se comparada ao preço da tinta de impressora, que custa um centavo por galão no atacado.
Este negócio tipo navalha depende de você não ser capaz de conseguir “as lâminas” de outro lugar. Além disso, se a Gillette consegue nove em cada dez dólares gastos com trocas de lâminas, por que não começar como um competidor que cobra quatro mangos por uma lâmina idêntica? Uma margem de lucro de 80% é o tipo de coisa que faz qualquer sujeito do mundo dos negócios babar.
Então, empresas tipo a Microsoft, empregam um grande esforço para tornar ilegal ou difícil alguém competir com ela pelas lâminas. No caso da Microsoft, cada Xbox possui contramedidas para evitar que você o use com softwares feitos por pessoas que não pagaram uma boa grana à Microsoft pelo direito de vender jogos para Xbox.
As pessoas que conheço não pensam muito sobre isso. Eles se animam quando eu digo que os jogos não são monitorados. Nestes dias, qualquer jogo online que você joga é cheio de todo tipo de coisas nojentas. Primeiro tem os pervertidos que tentam convencê-lo a ir a algum lugar onde farão todo tipo de “Silêncio dos Inocentes” com você. E tem a polícia que finge que ser crianças ingênuas para poder pegar os pervertidos. E o pior de tudo isso são os monitores que passam o tempo espiando suas discussões e xeretando se alguém está violando os Termos do Serviço, o que significa nada de paquera, nada de palavrões, e nada de “linguagem de duplo sentido que insulte a qualquer aspecto de orientação sexual ou sexualidade.”
Eu não sou um cachorro no cio vinte e quatro horas, sete dias por semana, mas tenho dezessete anos. Sexo sempre aparece numa conversa e sempre aparecerá. Mas Deus te ajude se aparecer num chat enquanto você está jogando. Tá ferrado. Ninguém monitora os jogos do ParanoidXbox, pois não são executados por uma companhia mas são só jogos criados por hackers.
Então é assim, os maníacos por jogos adoram esta história. Eles pegam os discos com gratidão e prometem copiar para todos os seus amigos - afinal, os games são mais legais quando você joga com os seus camaradinhas.
Quando cheguei em casa li que um grupo de pais estava processando na justiça o Comitê escolar por conta das câmeras de vigilância nas salas de aula, mas já tinham perdido a injunção preliminar contra eles.
#
Não sei quem veio com o nome Xnet, mas pegou. Você ouvia as pessoas falarem sobre ela na Muni (apelido para o sistema publico de trânsito de São Francisco; ônibus, bondes,etc.). Van me ligou para perguntar se eu já tinha ouvido falar sobre ela e fiquei chocado quando me dei conta de que se tratavam dos discos que eu comecei distribuindo semana passada e que já se achavam até em Oakland, no espaço de apenas duas semanas. Isso me fez ficar cabreiro - como se tivesse quebrado uma regra e agora o DHS (Departamento de Segurança do Estado) viria e me levaria embora para sempre.
Estas seriam semanas difíceis. O sistema de trens e metrô tinha abandonado completamente a venda de passagens por dinheiro, trocando-a por cartões que você apenas aproxima das roletas para poder passar. Eles eram legais e bem convenientes, mas toda vez que você usava um, eu imaginava como estaria sendo seguido. Alguém na Xnet colocou um link para um documento da Eletronic Frontier Foundation que dizia que estas coisas poderiam ser usadas para seguir o povo e contava algumas pequenas historias sobre algumas pessoas que protestaram contra isso nas estações da BART.
Eu usava a Xnet para quase tudo agora. Criei um email com endereço falso através da Pirate Party, um partido político sueco que odiava vigilância na internet e que prometia manter suas contas de email em segredo - mesmo da polícia. Eu a acessava estritamente via Xnet, pulando de uma conexão de internet das vizinhanças para outra anonimamente - eu esperava - até a Suécia. Não mais usava ‘W1N5T0N’. Se Benson podia descobrir, qualquer um podia. Meu novo logon veio de um estímulo momentâneo, era M1k3y, e eu recebia um monte de email de pessoas que tinham ouvido em salas de discussão e quadros de mensagens que eu poderia ajudar a solucionar problemas das configurações e conexões de suas Xnet.
Sentia saudades de Harajuku Fun Madness. A companhia suspendera o jogo indefinidamente. Disseram que por ‘razões de segurança’ não seria uma boa idéia esconder coisas e então mandar pessoas as procurar. E se alguém pensasse que é uma bomba? E se alguém colocasse uma bomba no mesmo lugar?
E se eu fosse atingido por um raio enquanto andava com um guarda-chuva? Vamos proibir guarda-chuvas! Combata a ameaça do raio!
Continuei usando meu laptop, mas isso me dava arrepios. Quem quer que o tivesse grampeado poderia imaginar por que eu não o usava mais. Todos os dias eu fazia algum acesso randômico na rede, um pouco menos a cada dia, para que qualquer um que estivesse me vigiando achar que eu estava mudando meus hábitos, e não mudando repentinamente. Na maioria das vezes ficava lendo aquelas mensagens de óbito arrepiantes - milhares de amigos e vizinhos mortos no fundo da baía.
Verdade seja dita, eu fazia cada vez menos trabalho de casa. Tinha outros negócios para tratar. Todo dia gravava pilhas de discos com ParanoidXbox, cinqüenta ou sessenta discos, e os levava pela cidade para pessoas que queriam fazer sessenta copias para si mesmo ou amigos.
Não me preocupava em ser pego fazendo isso, por que eu tinha a boa e velha cripto ao meu lado. Cripto, ou criptografia, significa “escrita secreta” e existe desde os tempos de Roma (Augustus Cesar era um grande fã e inventava seus próprios códigos, alguns ainda usados hoje em dia na forma de piadas em email.)
Cripto é matemática. Matemática pura. Não vou tentar explicar em detalhes por que a coisa ainda não entrou na minha cabeça, mas olhe na Wikipédia se realmente quiser saber como funciona.
Mas aqui está a versão do Cliff’s Notes. Algumas das funções matemáticas são bem fáceis de fazer numa direção e realmente difíceis de fazer em outra direção. É fácil multiplicar dois grandes números primos e obter um número gigante. É enormemente difícil pegar qualquer número gigantesco e descobrir quais números primos multiplicados dão aquele número.
Isso significa que se você pode embaralhar algo baseado em multiplicação de grandes números primos, desembaralhar sem saber quais são estes números será bem difícil. Difícil mesmo! Tipo, todos os computadores do mundo trabalhando 24 horas por dia durante um trilhão de anos não conseguiriam.
Existem quatro partes de qualquer mensagem criptografada. A mensagem original, chamada texto limpo, a mensagem embaralhada, chamada texto cifrado. O sistema de embaralhamento, chamado código cifrador e finalmente a chave secreta que alimenta o código (logaritmo) para transformar o texto limpo em texto cifrado.
Eu era um desses caras que usam cripto para tudo. Toda agência do governo tem seus próprios códigos e suas próprias chaves. Os nazistas e os aliados não queriam que outros soubessem como eles embaralhavam suas mensagens e deixavam separadas as chaves que poderiam desembaralhá-las. Isso parece uma boa idéia, certo?
Errado.
A primeira vez que alguém me contou sobre como fatorar números primos eu imediatamente disse: “Nem vem, isso é besteira! Quer dizer, é lógico que é difícil fazer este fatoramento de primos, qualquer um vai te dizer isso. Mas também era impossível voar ou ir até a lua ou fazer um disco rígido com mais do que alguns kilobytes de armazenamento. Alguém deveria inventar um jeito de desembaralhar estas mensagens.” Eu tinha visões com uma montanha oca cheia de matemáticos da NSA (Agência de Segurança Nacional) lendo e bisbilhotando todos os emails do mundo.
De fato, isso se parece um pouco com o que aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Esta é a razão pela qual a vida não é mais como Castle Wolfenstein (game), onde eu passava os dias caçando nazistas.
O que acontece é que códigos são difíceis de manter em segredo. Existe muita matemática aplicada neles e se são largamente usados, então qualquer um que os utiliza tem que manter o segredo sobre eles. Também e se alguém muda de lado, você vai precisar de um novo código.
O código nazista chamava-se Enigma e ele usavam um pequeno computador mecânico chamado Máquina Enigma para embaralhar e desembaralhar mensagens. Cada submarino e navio e estação precisava de uma máquina dessas, então era inevitável que eventualmente os aliados conseguissem colocar as mãos em uma delas.
Quando o fizeram, eles quebraram o código. Este trabalho foi encabeçado pelo meu herói particular de todos os tempos, Alan Turing, que praticamente inventou os computadores como conhecemos hoje. Infelizmente para ele, ele era gay, então quando a guerra terminou, o estúpido governo Britânico o forçou a tomar injeções de hormônios para “curar” sua homossexualidade e ele se matou. Darryl me deu uma biografia de Turing no aniversário de 14 anos - e eu me tornei um apaixonado por Turing desde então.
Agora que os aliados tinham a Máquina Enigma e podiam interceptar as mensagens de rádio nazistas, que não deviam ligar para isso, pois cada capitão tinha sua própria chave secreta. Uma vez que os aliados não tinham estas chaves, ter a máquina não iria ajudá-los em nada.
Foi ai que descobriram o segredo que arruinou a cripto: o código Enigma era falho. Quando Turing atenciosamente estudou a máquina, percebeu que os criptografistas nazistas tinham cometido um erro matemático. Com a Máquina Enigma nas mãos, Turing poderia desvendar qualquer mensagem nazista, não importava que chave fosse usada.
Isso custou a guerra aos nazistas. Quero dizer, não me entenda mal. Isso foi bom. Dito por um veterano em Castle Wolfenstein. Você não iria querer os nazistas mandando em seu país.
Depois da guerra, os criptografistas passaram bastante tempo pensando sobre isso. O problema fora que Turing era mais esperto que o cara que pensou o Enigma. Toda vez que alguém criava um código, ficava vulnerável a alguém mais esperto que vinha com um jeito de quebrá-lo.
E quanto mais pensavam nisso, mais percebiam que qualquer um podia vir com um sistema de segurança que eles não saberiam como quebrar. Mas ninguém pode imaginar o que uma pessoa inteligente pode fazer.
Você tem que tornar um código conhecido para saber se este funciona. Tem que dizer a quantas pessoas for possível como funciona para que possam testá-lo com tudo que podem, colocando a sua segurança em prova. Quanto mais tempo você conseguir passar sem que se achem uma falha, melhor ele é.
É como funciona hoje. Se você quer ficar seguro, você não usa um cripto que algum gênio bolou semana passada. Você usa aquele que as pessoas vêm usando há muito sem que ninguém consiga quebrar. Não importa se você é um banco, um terrorista, o governo ou um adolescente, você utiliza o mesmo código.
Se você tentar usar seu próprio código, existe uma chance de que alguém por aí encontre uma falha nele e dê uma de Turing para cima de você, decifrando todas as suas mensagens secretas e rindo de suas fofocas idiotas, transações financeiras e segredos militares.
Então eu sabia que a criptografia podia me manter a salvo dos abelhudos, mas eu não estava pronto pra lidar com histogramas.
#
Sai na BART e balancei meu cartão sobre a roleta enquanto me encaminhava para a estação da rua 24. Como sempre havia um monte de esquisitos de bobeira na estação, bêbados e seguidores malucos de Jesus, e mexicanos e alguns garotos de gangues. Olhei direto através deles e quando cheguei às escadas e alcancei a superfície. Minha sacola estava vazia agora, não mais carregada de discos de ParanoidXbox que estivera distribuindo e que fazia me sentir leve enquanto caminhava para casa. Os pregadores, contudo, continuavam seu trabalho, exortando em espanhol e inglês sobre Jesus e por ai vai.
Os vendedores de óculos de sol falsificados tinham ido embora, mas substituídos por caras vendendo cachorrinhos robôs que latiam o hino nacional e levantavam as perninhas se você mostrava uma foto de Osama Bin Laden. Devia haver algo interessante em seus pequenos cérebros e fiz uma nota mental sobre comprar alguns para abri-los depois. Reconhecimento facial era relativamente uma novidade em brinquedos e apenas recentemente tinham feito a transição de assunto militar para aparecer nos cassinos, usado para identificar trapaceiros.
Desci a rua 24 em direção a Potrero Hill e meu lar, sentindo o aroma de burritos que escapava dos restaurantes e pensando na janta.
Não sei por que dei uma olhada por sobre o ombro, mas o fiz. Talvez tenha sido uma coisa subconsciente de sexto-sentido. Sabia estar sendo seguido.
Eram dois caras musculosos brancos com pequenos bigodes que podiam fazê-los passar por policiais ou ciclistas gays que vivem para cima e para baixo na rua Castro, mas os gays normalmente tem corte de cabelos melhores. Usavam agasalhos cor de cimento velho e jeans de cintura oculta. Pensei sobre todas as coisas que um tira pode usar em seu cinto, como um cinto de utilidades que os caras da DHS usavam no caminhão. Ambos usavam fones de ouvido Bluetooth.
Continuei andando, meu coração saltava no peito. Eu estava esperando por isso desde que comecei. Esperava pelo DHS percebesse o que eu estava fazendo. Eu tomei precauções, mas a mulher de cabelo militar tinha me dito que eles estariam me observando. Ela tinha me dito que eu era um homem marcado.
Percebi que estive esperando ser capturado e levado de volta à cela. Por que não? Por que Darryl podia continuar preso e eu não? O que será que tinham contra mim? Nem aos meus pais eu tinha contado - ou aos pais de Darryl - o que realmente aconteceu conosco.
Acelerei o passo e fiz um inventário mental. Não tinha nada que me incriminasse na minha bolsa. Não muito, de qualquer forma. Meu computador escolar estava executando um crack que deixava usar o IM e coisas assim, mas metade dos caras na escola fazia o mesmo. Eu tinha mudado a forma de bloquear meu telefone - agora eu tinha uma partição falsa que eu podia desfazer com uma senha, mas todas as coisas boas estavam escondidas e precisavam de outra senha para abri-las. A seção escondida parecia lixo aleatório - quando você criptografa dados, se torna indistinguível do lixo normal - e nunca saberiam que estava lá.
Não havia discos na minha bolsa. Meu laptop estava livre de evidências incriminantes. É claro: se fossem vasculhar meu Xbox, fim de papo.
Parei onde estava. Tinha feito um bom trabalho para me proteger. Era hora de encarar meu destino. Entrei na vendinha mais próxima e pedi um burrito com carnitas - porco fatiado - e salsa extra. Se eu iria ser preso seria com o estômago forrado. Peguei um copo de horchata também, um refresco gelado que era quase água, pudim de arroz meio doce (melhor do que parece).
Sentei-me para comer e uma calma profunda me envolveu. Estava prestes a ir para a cadeia por meus "crimes" ou não. Minha liberdade, desde que havia sido capturado tinha sido só um feriado temporário. Meu país não era mais meu amigo - estávamos de lados diferentes e eu sabia que nunca poderia vencê-lo.
Os dois sujeitos entraram no restaurante quando eu terminava o burrito e ia pedir uns churros - massa frita e coberto de açúcar com canela - para sobremesa. Acho que estavam esperando do lado de fora e se cansaram da minha vadiagem.
Ficaram atrás de mim no caixa, me cercando. Peguei o churro da pequena avozinha e paguei-a, dando algumas mordidas antes de me virar. Queria ao menos aproveitar um pouco a sobremesa. Podia ser a última que teria em muito tempo.
Então me virei. Estavam tão perto que dava para ver as espinhas na bochecha do cara à esquerda e a meleca no nariz do outro.
“Licença!” eu disse, tratando passar por eles. O da meleca se moveu me bloqueando.
“Senhor,” ele disse, “pode vir conosco?” fez um gesto para a porta do restaurante.
“Desculpe. Estou comendo.” disse e tentei sair de novo. Desta vez ele colocou a mão em meu peito. Ele estava respirando rápido através do nariz, fazendo a meleca seca se mexer. Acho que eu estava respirando rápido também, mas era difícil de saber além do martelar do meu coração.
O outro puxou a frente do casaco revelando uma insígnia da SFPD (Departamento de Polícia de São Francisco).
“Polícia.” disse. “Venha conosco!”
“Deixe-me pegar minhas coisas.” eu falei.
“Nós cuidaremos delas” disse. O melequento deu um passo a direita, com o pé entre os meus. Igualzinho como se faz em artes marciais. Deixa você saber se o outro cara está deslocando seu peso pronto para se mover.
Eu não ia correr. Eu sabia que não dava para correr do destino.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6 [ Download ]
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
A Mile Beyond The Moon - Cyril M. Kornbluth
Coletânea de Ficção Científica do escritor americano Cyril Michael Kornbluth, publicada pela primeira vez em 1962, quatro anos após sua morte.
A maior parte da obra de Kornbluth foi escrita nos anos 50, frequentemente aparecendo em revistas populares como a Astounding Science Fiction.
Uma característica marcante deste escritor pouco conhecido (talvez por ter falecido antes de ter recebido o reconhecimento de um grande autor), é sua preferência pelo lado negro da humanidade, em detrimento da corrente vigente de explorar a diversão fácil ou a aventura vazia. Kornbluth gostava literalmente de enfiar o dedo na ferida cicatrizada e expor nosso lado mais secreto, revelando aquilo que, por vergonha ou medo, gostaríamos que ficasse escondido.
É identificável na curta obra de Kornbluth, as sementes da preocupação social e de crítica à sociedade, onde o homem comum é o objeto de trabalho, anunciando novos horizontes para a ficção, uma corrente chamada posteriormente de Ficção Científica Soft.
É claro que nesta coletânea não faltam as visões apocalípticas, os mocinhos e alienígenas, a busca pela justiça e a esperança... mesmo que ao estilo sombrio de C.M.Kornbluth.
Contents
MAKE MINE MARS
THE EVENTS LEADING DOWN TO THE TRAGEDY
THE LITTLE BLACK BAG
EVERYBODY KNOWS JOE
TIME BUM
VIRGINIA
KAZAM COLLECTS
THE LAST MAN LEFT IN THE BAR
THE ADVENTURER
THE WORDS OF GURU
SHARK SHIP
A Mile Beyond The Moon - C. M. Kornbluth [ Download ]
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
The Melancholy Android
(...recounts the lives of the technological visionaries responsible for blurring human and machine. Focusing on Descartes, la Mettrie, Jacques de Vaucanson, and Thomas Edison, Wood is keen on the bizarre details surrounding the concoction of humanoid machines, the habits of the men who have loved levers over limbs.
In her more intellectually ambitious study, Nelson examines how the androids of modern literature, cinema, and comics recall the ancient Hermetic idea that human icons are conductors of divine as well as demonic energy.
Her study evokes the religious impulse behind the creation of androids and shows how the quest for mechanistic efficiency is really a drive toward Edenic grace. Warner in her little encyclopedia of the invisible world focuses on technologies designed to record the currents of spirit. Though she does not emphasize the android as a vehicle of unseen life, she details other modes by which people have recorded the beyond: poetry, painting, photography, cinema, séances, the gathering of ectoplasm. Telotte in his examination of androids in science fiction cinema considers how artificial humans in film measure our stances toward technology, humanity, and cinema itself. While the book focuses on film, it also explores our enduring
fascination with androids—how we embrace the android as manifestation of our ability to shape our environment, how we fear the android as register of mechanistic threat to our humanity.
Without these books as catalysts, I could not have formulated my irrational drives into arguments. Still, I was in the end forced to explore a phenomenon beyond the scope of these studies: the chronic melancholia besetting the man fixated on androids. This sadness of the machine maker and of his products eludes the historical focus of Woods, the cultural emphasis of Nelson, the optical theories of Warner, the cinematic analyses of Telotte.
The psychological currents of my essay take me to vague regions of the mind, to thresholds between the unconscious and consciousness, to the dark unconscious itself. These spaces—gloomy and somber—are beyond chronology, representation, sight, and celluloid. Yet, though mysterious, these realms nonetheless originate the drives behind the android: ruinous love for Eden, relentless instinct for death. If writers such as Wood, Nelson, Warner, and Telotte—Virgilian guides—pointed my way to these terrible places, then more ponderous beings led me through the gray air: not only Ficino, Kleist, Freud, and Jung, but also Poe, Goethe, and Mary Shelley.)
Contents
Acknowledgments
Introduction
1. The Melancholy Android
2. The Mummy
3. The Golem
4. The Automaton
5. The Sadness of the Somnambulist
Conclusion
Notes
Bibliography
Index
The Melancholy Android - On the psychology of sacred machines - Eric G.Wilson [ Download ]
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
The Best from Fantasy & Science Fiction 23
INTRODUCTION
In this, the twenty-third volume in a series, I have continued the practice begun in number 22 of including non-fiction material from F&SF's regular departments. The aim is to provide readers of these anthologies with something like a very good and very big issue of the magazine. Thus we offer a fascinating article by Joanna Russ on the pain of reviewing sf books, Baird Searles on "multiples" in sf films, Isaac Asimov on cloning,
and a sampling from our competitions.
The stories in this book cover the period from our November 1976 issue through the middle of 1979, a period of great growth in the science fiction field, at least in terms of numbers. If you're the sort who likes to sniff the air for trends, you may have detected a smell of old attics, as much sf seemed to swing back to traditional, even old-fashioned themes and forms. Compare 2001 to Star Wars.
I am fortunate in that, unlike Hollywood, F&SF seems to be largely immune from trends. The magazine has a reputation for offering variety, and to uphold that image, it seems to me that it must carefully avoid trends and formulas in an effort to publish a balance of different types of fantasy and sf. And so we continue to look for good writing and fresh ideas and entertaining narratives, and once those general criteria are satisfied, we take on whatever seems to be pleasing our writers at the time. That's the best way I know of pleasing our leaders.
Edward L. Ferman
CONTENTS
I See You by Damon Knight
From Competition 13: Excerpts from myopic early sf novels
The Detweiler Boy by Tom Reamy
Books: In Defense of Criticism by Joanna Russ
Zorphwar! by Stan Dryer
From Competition 14: SF "What's the question" jokes
Stone by Edward Bryant
From Competition 15; Retranslated SF titles
Nina by Robert Block
Science: Clone, Clone of My Own by Isaac Asimov
In the Hall of the Martian Kings by John Varley
From Competition 18: Transposed SF titles
Upstart by Steven Utley
A House Divided by Lee Killough
From Competition 19: SF limericks
Brother Hart by Jane Yolen
Films: Multiples by Baird Searles
The Man Who Had No Idea by Thomas M. Disch
Project Hi-Rise by Robert F. Young
Prismatica by Samuel R. Delany
The Best from Fantasy & Science Fiction 23 [ Download ]
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Genreflecting
Contents
Part I:
Introduction to Popular Reading Interests
Chapter 1: Introduction: "On the Social Nature of Reading"
Wayne A. Wiegand
Reading Together, Manitowoc, Wisconsin, July 1957
Modern Examples of the Social Nature of Reading
Scholarship on the Social Nature of Reading
Reading and Libraries—Then and Now
Genre Fiction, Libraries, and the Social Nature of Reading
The Library as Place in a Real and Virtual World
When We Don't Know About the Social Nature
of Reading and Library as Place
Library in the Life of the User
Notes
Bibliography
Chapter 2: A Brief History of Readers' Advisory
Melanie A. Kimball
Introduction
The Early Years
Readers' Advisory, Phase One: Reading with a Purpose
Useful Information
An Emerging Focus on Fiction
The Renaissance of Readers' Advisory: 1980-Present
Research in Reading and Readers' Advisory
Readers Advisory and LIS Education
Conclusion
Notes
Appendix: A Chronology of Readers' advisory
Chapter 3: The Readers' Advisory Interview
Catherine Sheldrick Ross
Notes
Bibliography
Chapter 4: Serving Today's Reader
Diana Tixier Herald
The Nature of Genre Fiction
Who Is the Common Reader?
Libraries and Genre Fiction
Readers' Advisory Service
Publishing Genre Fiction
Gender and Genre Fiction
Purpose and Scope of This Guide
Organization
Scope
Entries and Annotations
Suggestions for Use
Notes
Bibliography
Part II:
The Genres
Chapter 5: Historical Fiction Essay
R.Gordon Kelly
The Allure of the Past
Characteristics of Historical Fiction
Truth and Historical Fiction
History of Historical Fiction
Conclusion
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Prehistoric
Ancient Civilizations
Middle Ages
The "Royals"
Exploration, Renaissance
Europe
The British Isles
The "Royals"
Exotic Locales
The Americas
Colonial/Early Settlement/Revolution
Civil War/Reconstruction/New Nation
The Twentieth Century
Saga Series
Epics
Topics
Bibliographies and Encyclopedias
Writers' Manuals
Conferences
Awards
Online Resources
D's Historical Picks
Chapter 6: Westerns
Essay
Connie Van Fleet
Definition
History and Evolution
The Western Reader
Characteristics and Types
Advising the Reader
Conclusion
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Native Americans
Indian Captives
Mountain Men
Wagons West and Early Settlement
Merchants and Teamsters
Mines and Mining
Law and Lawmen
Bad Men and Good
Army in the West
Texas and Mexico
Hired Man on Horseback
Cattle Drives
Cattle Kingdoms
Range Wars
Sheepmen
Railroads
Buffalo Runners
Unromanticized
Picaresque
Comedy and Parody
Coming of Age
Celebrity Characters
African Americans in the West
Mormons
Singular Women
Romance
Chapter 6: Westerns (Cont.)
Young Adult Westerns
The West Lives On
Eccentric Variations
Sagas
Series
Topics
Short Stories
Novella Anthology Series
Bibliographies and Encyclopedias
History and Criticism
Organizations
Awards
Publishers
Online Resources
D's Western Picks
Chapter 7: Crime
Essay
Erin A. Smith
The "Cozy" or Classical Mystery
The "Golden Age" of Detective Fiction
Hard-Boiled Crime Stories
Police Procédurals
Increasing Diversity in Crime Fiction
Crime/Caper Stories
Legal Thrillers
Postmodern Crime Novels
True Crime
The Cultural Work of Modern Detective Novels
Character
Settings
Other Appeals
Plot Structures
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
The Detective Story
The Professionals
Police Detectives
Private Investigators
Ex-Cops
Unofficial Detectives
Hard-Boiled
Amateur Detective, Cozy and Soft-Boiled
Diversity in Detection
Gay and Lesbian
Black Sleuths
Hispanic Sleuths
Native American Sleuths
Asian Sleuths
Subjects and Themes
Sports
Cookery
Bibliomysteries
Art World
Genreblends
Historical Mysteries
Futuristic Mysteries
Bizarre Blends
Suspense
Serial Killers and Psychopaths
Romance/Suspense Writers
Crime/Caper
Legal Thriller
Topics
Anthology Series
Bibliographies and Genre Guides
Encyclopedias
Writers' Manuals
Associations and Conventions
Associations
Conventions
Awards
Online Resources
D's Crime Picks
Chapter 8: Adventure
Essay
Diana Tixier Herald
Definition
Characteristics and Appeals
History
Recent Trends
Advising the Reader
Closing
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Spy/Espionage
Spy Novels
Chapter 8: Adventure (Cont.)
Women Spies
Political Intrigue and Terrorism
Thrillers
Cipher Thrillers
Nazis
Technothrillers
Financial Intrigue/Espionage
Biothrillers
Survival
The Lone Survivor
Disaster
Male Romance
Wild Frontiers and Exotic Lands
Soldier of Fortune
Male-Action/Adventure Series
Military and Naval Adventure
Twentieth Century
Historical Naval and Military Adventure
Topics
Bibliographies
Special Collections
Organizations
Awards
D's Adventure Picks
Chapter 9: Romance
Essay
Denice Adkins
What Is Romance?
Why Romance?
How Do Women Become Romance Readers?
Development of the Romance Genre
Judging a Book by Its Cover
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Contemporary Romance
Sensuous Contemporaries
Sweet Contemporaries
Romantic Suspense
Contemporary Romantic Suspense
Historical Romantic Suspense
Paranormal Romantic
Gothic Romance
Historical Romance
General Historical Romance
Frontier and Western Romance
Native American
Medieval
Scotland
Regency Romance
Saga
Hot Historical
Sweet-and-Savage
Spicy Historical
Paranormal Romance
Fantasy Romance
Time-Travel Romance
Paranormal Beings
Futuristic/Science Fiction
Ethnic Romance
African American
Latina
Native American
Topics
Bibliographies and Biographies
History and Criticism
Review Journals
Authors' Associations
Awards
Publishers
D's Romance Picks
Chapter 10: Science Fiction
Essay
JoAnnPalmed
What Is Science Fiction?
A Misunderstood Genre
The History of Science Fiction and SF Subgenres
The Science Fiction Reader
Types, Themes, and Characteristics
Selecting SF: Which Work to Recommend?
Serving the Science Fiction Reader
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Science Fiction Adventure
Militaristic
Time Travel
Chapter 10: Science Fiction (Cont.)
Shared Worlds
Foundation
Marion Zimmer Bradley/Darkover
Anne McCaffrey/Brainships
George Lucas/Star Wars
Gene Roddenberry/Star Trek
Techno SF
High Tech
Robots, Cyborgs, Androids
Nanotechnology
Virtual Reality
The Future Is Bleak
Dystopias and Utopias
Social Structures
Biological
Religious
Alternate and Parallel Worlds
Parallel Worlds
Alternate History
Earth's Children
Bioengineering
Psionic Powers
Aliens
Genreblending
Romantic Science Fiction
Science Fiction Mysteries
Humor in Science Fiction
Science Fantasy
Topics
Anthologies
Anthology Series
Encyclopedias
Review Journals
Associations
Conventions
Awards
D's Science Fiction Picks
Chapter 11: Fantasy
Essay
John H. Timmerman
Definition
Appeal and Characteristics
Story
Character
Another World
Essential Conflict: Good and Evil
The Quest
Resolution
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Epic/Sword and Sorcery
Saga, Myth, and Legend
Arthurian Legend
Celtic
Nordic
Asian
Fairy Tales
Humorous
A Bestiary
Dragons
Uncommon Common Animals
World of Faerie
Urban Fantasy
Alternate and Parallel Worlds
Alternate History
Parallel Worlds
Alternate Worlds
Religion-Based Alternate Worlds
Shared Worlds
Dark Fantasy
Romantic Fantasy
Topics
Anthologies
Anthology Series
Bibliographies and Biographies
Encyclopedias
History and Criticism
Organizations and Conventions
Awards
Online Resources
D's Fantasy Picks
Chapter 12: Horror
Essay
Dale Bailey
Definition
The Horror Reader
Origins of the Genre
Subgenres
Conclusion
Chapter 12: Horror (Cont.)
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Monsters
Vampires
Vampire Romance
Vampire Mystery/Suspense
Werewolves
The Occult and Supernatural
Witches and Warlocks
Cosmic Paranoia
Ghosts
Haunted Houses
Demonic Possession and Exorcism
Satanism, Demonology, and Black Magic
Apocalypse
Medical Horror and Evil Science
Psychological Horror
Dark Fantasy
Topics
Grand Masters
Stephen King
Short Stories
Anthologies
Annual Anthologies
Bibliographies
Encyclopedias
History and Criticism
Review Journals
Conventions
Organizations
Online Resources
D's Horror Picks
Chapter 13: Christian Fiction
Essay
Erin A. Smith
Christian Ambivalence about Fiction
The Nineteenth-Century Rapprochement between Faith and Fiction
Biblical Fiction
Social Gospel Novels
The Postwar Explosion of Evangelical Publishing
Christian Romances
Diversifying the Field and Bringing in the Men
Apocalyptic Fiction
Evangelical Readers
The Uses of Evangelical Fiction
Mainstream Neglect of Christian Fiction
Notes
Bibliography
Themes and Types
Diana Tixier Herald
Selected Classics
Contemporary Christian Fiction
Christian Romance
Contemporary
Christian Chick Lit
Historical Romance
Gentle Reads
Mysteries/Thrillers
Speculative
Fantasy
Science Fiction
Apocalyptic Fiction
Left Behind
Historical
Biblical
Westerns
Topics
Reference and Resources
Review Journals
Organizations
Awards
D's Picks
Chapter 14: Emerging Genres
Diana Tixier Herald
Women's Fiction
Resources
D's Women's Fiction Picks
Chick Lit
Resources
D's Chick Lit Picks
Author/Title Index
Subject Index
About the Contributors
About the Author and Editor
Genreflecting a guide to popular reading interests [ Download ]
Postado por
Capacitor Fantástico
às
00:00
Tag: Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, livros, Mistério/Suspense
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Temps Mort
Time Out (ou "Temps Mort") é uma web-série apocalíptica franco-canadense de dez episódios.
Um drama silencioso e de "cinematografia gelada".
Em 2013 um cataclisma ocorre. A eletricidade falha e de repente, a neve começa a cair.
Joel deixa Montreal e encontra refúgio no campo, tendo apenas um caderno para desenhar, ele tenta agarrar-se a sua sanidade, e o que sobrou de sua humanidade...
domingo, 29 de novembro de 2009
Entrevista com Gregory Benford
Pergunta: Além de ser um escritor premiado de ficção científica, você é um cientista de considerável distinção, professor de física dos plasmas e astrofísica. Como estas duas vocações e maneiras de olhar o mundo convivem? Será que o escritor de FC em você já tentou substituir o físico no meio de um experimento, ou é o cientista que controla a imaginação do escritor?
Benford: Há uma tensão entre as duas vocações, é claro - o mundo dis fatos versus o imaginário. No entanto a ciência balança entre os dois, como ocorre no meu livro Cosm, que se passa no meu departamento de física e no presente, eu mesclo os dois mundos de uma forma lúdica. Mas a imaginação é fundamental para a ciência, por que é de onde vem as hipóteses, para que o trabalho duro de laboratório possa então verificar. Frequentemente tenho que escolher entre a plausibilidade científica e as necessidades do enredo, quando estou escrevendo. Geralmente faço com que a ciência, pelo menos, se sobressaia. Este stress inevitável vem de uma fidelidade ao material que, por exemplo, deixa muito a desejar na mídia "sci-fi", na sua integridade e poder. O filme 2001: Uma Odisséia no Espaço foi absolutamente FC Hard em sua maior parte, mas com um clímax transcendente, metafórico. Compare isto com Mission to Mars, tentando imitar essa estratégia, com um plano de missão plausível e provável unido a diversão e um molho de sentimentalismo. O resultado é um filme que parece ter sido feito por crianças com muito dinheiro e tempo para gastar, mas sem idéias.
Pergunta: Seu novo romance, Eater, apresenta uma inteligência extraterrestre alojada dentro do campo magnético de um buraco negro ambulante. No entanto, apesar das suas qualidades divinas, prova ser limitado pelas leis da física, como nós. Você acredita que há limites para o que é possível no universo e na ficção científica?
Benford: Limites nos definem e também a nossa obra. Um soneto com 20 linhas, sem rima, pode não ser ruim, mas não é um soneto. O Eater é a coisa mais próxima que eu poderia imaginar para o Livro de Jô, do Antigo Testamento. É completamente admissível pela física, e por isso mesmo é terrível. A imortalidade também.
Pergunta: Ao final de Eater, me peguei pensando sobre o fenômeno da consciência e o quanto nós realmente entendemos sobre isso.
Benford: Minha definição favorita de consciência é bastante geral, por isso se aplica a qualquer coisa: a capacidade de modelar tanto o mundo externo quanto ao mundo interno, sendo que no conjunto, um sabe do outro. Sendo assim, você pode entender os outros e antecipar seus movimentos e necessidades. Ao longo de Eater, este entendimento é falho, como se encontrássemos uma mente diferente. Mas nem toda ideia é sem sentido.
Pergunta: Seu trabalho é muitas vezes elogiado por oferecer retratos realistas de cientistas, como se os cientistas fossem exóticos, não fossem humanos. Menos comentado, mas igualmente digno de nota, penso, é a humanidade de seus cientistas.
Benford: Eu cubro uma parte da literatura por muito tempo negligenciada, sobre uma classe de pessoas com enorme impacto na sociedade, mas ainda não explorada corretamente. Os cientistas têm uma visão oblíqua do mundo e se comunicam mal com seu público, infelizmente. E eles ainda penalizam aqueles que tentam fazê-lo; como está sendo negada a Carl Sagan a entrada ao National Academy of Sciences, uma estupidez retumbante apoiada sobretudo pelos físicos de alta-energia ... a quem satirizei em Cosm, aliás.
Pergunta: Channing Knowlton, bravamente lutando contra o câncer é uma de suas criações mais consistentes, certamente está entre os personagens mais intensamente femininos que você já escreveu. Você sente por ela uma ligação em especial?
Benford: Eu gostei muito dela, sabendo que ela estava condenada desde o começo. Mas eu senti uma forte ligação com Alicia de Cosm, uma afro-descendente atrevida. E Julia, bióloga em Martian Race, também. Estranho é que eu não tinha notado ter feito personagens femininas tão centrais à minha obra, até bem recentemente.
Pergunta: E por que você acha que o fez?
Benford: Eu sinto que as mulheres são mais interessantes dramaticamente falando, do que os homens, porque elas têm mais escolhas reais a fazer em nosso tempo. Elas devem equilibrar casamento versus profissão, ter filhos ou não, muito mais do que os homens fazem, justamente porque elas podem se mover com fluidez de uma esfera para outra. Os homens sabem que irão trabalhar durante toda sua vida, ponto.
Pergunta: Em seu romance Timescape premiado com um Nebula, você escreveu sobre as tentativas de uma realidade futura de se comunicar com o seu passado, a fim de mudar a história e evitar um desastre ecológico. O tempo foi gentil com as especulações temporais desse romance?
Benford: Mais do que eu esperava, sim. David Deutsch usou da física do livro e criou uma teoria matemática. Ele até escreveu um livro sobre isso, sem ter nunca citado Timescape ... morro de medo destas bobagens da carreira acadêmica. As idéias do romance caminham para o centro do pensamento atual sobre o tempo, e todo mundo já sabe da conversão para a teoria moderna, especialmente na escolha entre as teorias das cordas.
Pergunta: Sua série Galactic Center trata do conflito entre humanos e máquinas inteligências. Como você acha que uma máquina ou a inteligência artificial (IA) irá provavelmente surgir (se é que já não ocorreu em algum lugar no cosmos), e existe alguma razão para supor que seria hostil aos seres humanos?
Benford: Eu só assisti a uma conferência da NASA, de um dia, sobre as implicações de inteligências artificiais alienígenas. Acredito que seria uma boa aposta a longo prazo para o SETI (Programa de busca de inteligência extraterrestre) mantendo uma estratégia por buscar sinais de rádio em um raio de mais de 155 anos-luz (onde existem 1.000 estrelas do tipo do nosso sol). Mas na verdade, algumas IA poderiam ser hostis a formas orgânicas, com medo que consumíssemos os recursos da galáxia, o que realmente uma cultura de vida bem longa, iria querer fazer. Podemos parecer um perigo para eles. Eu escrevi a série Galactic Center explorando estas ideias, em seis romances, por mais de 25 anos.
Pergunta: Em toda sua ficção, o universo está repleto de vida e de inteligência. E na verdade, aqui na Terra estamos descobrindo que encontramos vida sob as condições aparentemente mais inóspitas. Você acredita que há uma força anti-entrópica trabalhando no universo para favorecer o desenvolvimento e a evolução da vida?
Benford: Eu suspeito que sim, e apoio os experimentos para testar esta idéia: Procurar vida debaixo da superfície de Marte e expandir o SETI, como disse. Chega de teorizar! Precisamos de dados concretos. Só então saberemos se as leis do universo favorecem a inteligência, como suspeito.
Pergunta: Talvez seja estranho falar das raízes de um escritor de ficção científica. No entanto, não posso deixar de sentir que a sua herança sulista tem muito a ver com Galactic Center, a luta que dizimou a humanidade em uma gloriosa "causa perdida", contra adversários numericamente e tecnologicamente superiores.
Benford: É uma boa percepção. Eu escrevi recentemente um ensaio, "O Sul na Ficção Científica," e a propósito eu devo publicar no meu site, em breve, eu espero. A família Bishop da série Galactic Center, vem dos meus primos, os Bishops, e eles falam com sotaque do sul, típico de Birmingham, Alabama, onde eu cresci
Pergunta: Que escritores e cientistas mais o influenciaram?
Benford: Oh Jesus... Hemingway e Heinlein, Faulkner e Forward... muitos. Dyson e Einstein, Minsky e Fermi (o último grande físico a trabalhar tanto na experiência quanto na teoria, como eu mesmo procuro fazer). Muitos.
Pergunta: Entre os seus romances qual é o seu favorito?
Benford: Against Infinity... o mais fácil de escrever também. Uma escolha estranha, eu sei.
Pergunta: O que você pode nos dizer sobre o filme que está sendo feito a partir de Cosm?
Benford: Está parado no Departamento de Desenvolvimento do Inferno da Fox: Jan de Bont será o diretor e estão em acordos para ter Dustin Hoffman e Angela Bassett. Estão á procura de um grande roteirista para fazer um trabalho melhor do que o último fez. Lembre-se que, menos de dez por cento de todos os projetos comprados por Hollywood, são lançados.
Pergunta: Vou resistir à tentação de perguntar sobre a busca de vida inteligente em Hollywood e ao invés disso vou te perguntar sobre este novo século. Será que a nossa espécie sobreviverá às suas maravilhas e seus perigos?
Benford: Claro, com facilidade. Somos maus, estúpidos, feios e aterrorizamos todas as outras espécies no planeta, mas somos difíceis de matar.
Entrevista concedida a Paul Witcover - Science Fiction Weekly
Gregory Benford
Gregory Benford (30 de Janeiro de 1941) nasceu em Mobile, Alabama (EUA) e é atualmente, um dos poucos expoentes da FC hard atual.
Herdeiro do trono de Heinlein, Clarke e Asimov... o que não é surpreendente, considerando que ele também é um físico teórico e experimental. O que pode ser mais surpreendente é que Benford também é um dos melhores escritores em ação de qualquer gênero.
Físico, professor e escritor, Benford trabalha na pesquisa de plasma e experimentos em astrofíica. Como cientista, publicou mais de duzentos trabalhos sobre a fisica de matéria condensada, de particulas e outros estudos biológicos.
Trabalhou como consultor para o Departamento de Energia, para a NASA e para o Conselho de politica espacial da Casa Branca, além de ter sido conselheiro científico para Star Trek: The Next Generation e da televisão japonesa NHK.
Recebeu em 1995 o prêmio Lord Foundation por sua contribuição para a popularização da Ciência.
Em 1989 apresentou e escreveu uma série de seis episódios para televisão chamada A Galactic Odyssey, abordando temas como física moderna e astronomia, pela perspectiva da evolução da galáxia..
Como escritor de FC Hard, escreveu mais de vinte e cinco livros, incluindo Jupiter Project, Artifact, Against Infinity, Eater e Timescape. Por duas vezes vencedor do Prêmio Nebula, do John W. Campbell Award e do australiano Ditmar Award, além do prêmio das Nações Unidas de Literatura.
Ele é mais conhecido pela série Galactic Center, uma das sagas mais ambiciosas e fascinantes em todos os tempos da ficção científica. Um épico sobre uma civilização de máquinas inteligentes trabalhando metodicamente para exterminar uma espécie de vermes que chama a si própria de Humanidade. Um filme está sendo produzido pela Fox, a partir da série.
Gregory Benford ( Hitler Victorioso, Alto abismo, Cosmo, Cronopaisaje, El temor de la Fundacion, En carne extranã, La caida del viento oeste, La pulsacion, série Centro Galactico, Sudário de estrellas, Imersion, A hiss of dragon, A Hunger of Infinity, Antartica and Mars, Around the curves of a Cosmos, Against Infinity, A worm in the well, Beyond Infinity, Beyond the fall of night, Biotech and nanodreams, Bow Shock, Brink, Cosm, Deeper than the darkness, Doing alien, Doing Lennon, Eater, Foundations fear, Fourth dimension, Humanity as cancer, If the stars are Gods(com Gordon Eklund), In the ocean of night, Is it smart to be smart, Manassas again, Matter's end, On the brane, Paris conquers all, Send meaning across epochs, Shakers of the Earth, Skylife, Slow symphonies of Mass and Time, Solitude, Teeth of time, Ten thousand years of solitude, The far future, The fire this time, The first of commandment, The long future, The man Who wasn't there, The sunborn, The voice, The worm turns, Tides of light, Timescape, We could do worse, White creatures, Zoomers, What might have been (com Martin H.Greenberg) ) [ Download ]
sábado, 28 de novembro de 2009
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 5
CAPÍTULO 5
Este capítulo é dedicado ao Secret Headquarters em Los Angeles, minha loja favorita de quadrinhosÉ pequena e seletiva quanto ao que vende, e cada vez que eu entro nela, saio com três ou quatro coleções debaixo do braço, sobre as quais nunca tinha antes ouvido falar. É como se seus proprietários, Dave e David, tivessem a espantosa habilidade de predizer com exatidão, aquilo que estou procurando, e já separassem para mim segundos antes de entrar na loja. Três quartos dos meus quadrinhos preferidos eu descobri no SHQ, agarrado por algo interessante, mergulhado em um daquelas poltronas aconchegantes, e sendo transportado para outro mundo. Quando minha segunda coletânea foi lançada, Overclocked, eles fizeram junto com um ilustrador local, Martin Cenreda, uma mini-revista em quadrinhos gratuita baseada em Printcrime , o primeiro conto do livro. Deixei Los Angeles há um ano e de todas as coisas de que sinto falta, Secret Headquarters está no topo da lista.
Mas era Van e ela estava chorando e me abraçando tão forte que não conseguia respirar. Não me importava. Abracei-a, minha cabeça afundando em seus cabelos.
“Você está bem!” ela disse.
“Estou!”
Ela finalmente me largou e outro par de braços me envolveu. Era Jolu! Ambos estavam aqui! Ele sussurrou: “Você está salvo, mano!” em meu ouvido e me apertou mais do que Vanessa tinha apertado.
Quando me soltou, olhei a volta e perguntei: “Cadê Darryl?”
Eles se olharam.”Talvez ainda esteja no caminhão.” disse Jolu.
Nos viramos para olhar o caminhão no fim da rua. Era um 18 rodas branco sem identificação. Alguém já havia guardado a escada. As luzes traseiras acesas em vermelho e o caminhão veio d ré, emitindo um som de alerta ‘beep,eep,eep’.
“Esperem!” Gritei enquanto ele acelerava. “Esperem! Cadê Darryl?” O caminhão manobrou próximo. Eu continuava gritando “Cadê o Darryl?”
Jolu e Vanessa cada qual haviam segurado um dos meus braços e me arrastavam para longe. Eu lutei contra eles, gritando. O caminhão chegou à beirada da rua e voltou, apontando para frente e partiu. Tentei correr atrás dele, mas Van e Jolu não me deixaram.
Sentei na calçada, abracei as pernas com os braços e chorei. Chorei, chorei e chorei, uma choradeira baixa do tipo que eu não tinha desde criança. Sem fim. E eu não parava de tremer.
Vanessa e Jolu me ajudaram a ficar de pé e me levaram pela rua. Havia uma parada de ônibus municipal com banco e sentamos nele. Eles também choravam, e nós ficamos por algum tempo abraçados uns nos outros, e eu sabia que chorávamos por Darryl, a quem nenhum de nós esperava voltar a ver. #
Estávamos ao norte de Chinatown, onde começa North Beach, uma vizinhança cheia de clubes de strip-tease e seus neons e o legendário City Lights, uma livraria da contra-cultura, onde o movimento dos poetas beat foi fundado nos anos 50. Eu conhecia bem esta parte da cidade. O restaurante italiano favorito dos meus pais ficava ali e eles gostavam de me trazer para comer grandes pratos de linguini e imensas montanhas de sorvete italiano com figos cristalizados e aqueles pequenos expressos para concluir.
Agora era um lugar diferente, um lugar onde eu experimentei a liberdade pela primeira vez no que parecia ter sido uma eternidade.Verificamos os bolsos e encontramos dinheiro suficiente para conseguir uma mesa em um daqueles restaurantes italianos, do lado de fora na calçada, sob um toldo. A bela garçonete acendeu um aquecedor a gás com seu isqueiro de acender churrasco, pegou nossos pedidos e sumiu do lado de dentro. A sensação de fazer um pedido, de controlar meu destino, foi a coisa mais maravilhosa que jamais senti.
“Quanto tempo estivemos por lá?” eu perguntei.“Seis dias.” disse Vanessa.
“Eu acho que foram cinco.” disse Jolu.
“Eu não contei.”
“O que fizeram com você?” perguntou Vanessa. Eu não queria falar sobre isso, mas ambos olhavam para mim. Uma vez que eu começasse não conseguiria parar. Eu contei tudo a eles, mesmo quando fui forçado a urinar em mim mesmo e eles ouviram tudo em silêncio. Parei quando a garçonete entregou nossos refrigerantes e esperamos até ela ficar fora do alcance. Ao fim do relato, eu não conseguia dizer se eu estava enfeitando a verdade ou se eu estava fazendo parecer que não fora tão ruim. Minhas memórias flutuavam como pequenos peixes que eu agarrava e que por vezes fugiam do meu alcance.
Jolu balançou a cabeça. “Pegaram pesado com você, camarada.”disse. Ele falou sobre a sua estada lá. Eles tinham perguntado sobre mim e ele continuava dizendo a eles a verdade, preso a um plano de dizer os fatos sobre aquele dia e sobre nossa amizade. Eles o pegaram para repetir de novo e de novo, mas não brincaram de jogos com sua mente da maneira que fizeram comigo. Ele comia suas refeições numa cantina com outras pessoas e passou um tempo numa sala com TV onde passava os maiores sucessos em vídeo do último ano.
A história de Vanessa era levemente diferente. Depois de tê-los deixado bravos por falar comigo, eles tiraram suas roupas e a fizeram vestir aquele conjunto cor de laranja da prisão. Foi deixada na cela por dois dias sem contato, contudo era alimentada com regularidade. Mas no resto fora como Jolu: as mesmas perguntas sobre mim, de novo e de novo.Eu não conseguia imaginar porquê. Então eu lembrei.
“Você pode cooperar ou pode se arrepender, muito.”
“Foi por que eu não quis desbloquear meu telefone para eles na primeira noite. Foi por isso que pegaram no meu pé.”
Eu não conseguia acreditar nisso, mas não havia outra explicação. Tinha sido por pura vingança. Minha cabeça revirava com isso. Tinham feito isso como simples punição porque eu desafiei a sua autoridade.
Eu tinha sentido medo. Agora estava furioso. “Filhos da mãe” eu disse bem devagar. “Eles fizeram isso para que eu falasse.”Jolu amaldiçoou e então Vanessa xingou em coreano, algo que ela só fazia quando estava realmente muito, mas muito irritada.
“Eles vão ver!” Sussurrei segurando meu refrigerante. “Eles vão ver!”Jolu sacudiu a cabeça. “Você não pode fazer nada, você sabe. Não dá pra lutar contra isso.”
#
Nenhum de nós queria falar sobre revanche. Ao invés disso, nós falamos sobre o que fazer em seguida. Precisávamos ir para casa. As baterias dos nossos telefones estavam descarregadas e fazia muitos anos que aquela vizinhança não tinha mais telefones de rua. Tínhamos que ir para casa. Até pensei em chamar um táxi, mas não tínhamos dinheiro suficiente para isso.
Então nós fomos a pé. Na esquina usamos nossas moedas de quinze centavos numa máquina do São Francisco Chronicle e paramos para ler as manchetes. Cinco dias se passaram desde a explosão das bombas, mas esta ainda era a matéria de capa. A mulher de corte de cabelo militar havia falado algo sobre “a ponte” ter sido explodida e eu deduzi que ela falava da ponte Golden Gate, mas eu estava errado. Os terroristas haviam explodido a Bay Bridge.
“Por que eles foram explodir a ponte da baía?” Eu disse. “A Golden Gate está em todos os cartões postais.”Mesmo se você nunca esteve em São Francisco, provavelmente já viu alguma vez aquela enorme ponte laranja suspensa que vai da antiga base militar chamada Presídio até Sausalito, onde todas estão aquelas encantadoras cidadezinhas produtoras de vinho, suas lojinhas de velas perfumadas e galerias de arte. É tão pitoresco e é praticamente o símbolo do estado da Califórnia. Se você for ao Disneyland California Adventure Park existe uma réplica dela logo após os portões, atravessada por um trem sob monotrilhos.
Então, naturalmente eu pensei que se você vai explodir uma ponte em São Francisco, esta seria a escolhida.“Eles provavelmente ficaram com medo das câmeras e tudo aquilo” disse Jolu. “A Guarda Nacional vive examinando os carros nas entradas e saídas e existem todas aquelas cercas contra suicidas e para evitar que se jogue lixo ao longo dela.”
As pessoas pulavam da Golden Gate desde de que ela foi aberta em 1937 - e pararam de contar após a milésima morte em 1995.
“É! Além disso, a Bay Bridge hoje em dia leva para toda parte.” A ponte da baía liga o centro de São Francisco a Oakland e Berkeley, os distritos do leste, lar de muitas pessoas que vivem e trabalham na cidade. É um dos únicos lugares da área da baía onde uma pessoa normal consegue uma casa boa o bastante, e há a universidade e várias pequenas indústrias por lá. O metrô atravessa a baía por baixo e conecta as duas cidades também, mas É a Bay Bridge quem é responsável pela maior parte do trânsito. A Golden Gate era uma bela ponte se você é um turista ou um rico aposentado vivendo numa destas cidades do vinho, mas é praticamente ornamental. A Bay Bridge é - era - “a ponte” de São Francisco.
Pensei sobre aquilo por um minuto. “Vocês estão certos” disse. “Mas eu não acho que isso é tudo. Nós pensamos que os terroristas atacam estes pontos conhecidos por que os odeiam, terroristas não odeiam pontos turísticos, ou pontes, ou aeroportos. Eles querem ferrar com tudo e assustar o povo. Espalhar o medo. Então é claro que foram atrás da Bay Bridge, pois a Golden Gate tem todas aquelas câmeras - assim como aeroportos tem todos aqueles detectores de metal e aparelhos de raios-x.”Pensei um pouco mais, olhando sem ver os carros passando pela rua, as pessoas que caminhavam pelas calçadas e a cidade à minha volta. “Terroristas não odeiam aeroportos ou pontes. Eles amam o terror.” Isso era tão óbvio que eu não acreditava não ter pensado isso antes. Imaginei que ser tratado como um terrorista por alguns dias foi o bastante para clarear minha mente.
Os outros me olhavam. “Não tô certo? Toda esta porcaria, todos os aparelhos de raio-x e verificação de identidades, tudo não serve pra nada, não é?”
Eles concordaram lentamente.“Pior do que não servir para nada” disse com a voz alterada. ‘porque no final nós é que acabamos na prisão, e Darryl...” Eu não pensava em Daryl desde que me acalmara e agora isso voltava, meu amigo, perdido, desaparecido. Parei de falar e cerrei os dentes.
“Temos de contar aos nossos pais.” disse Jolu.
“Nós devíamos procurar um advogado.” disse Vanessa.
Pensei em contar minha história. De como o mundo se transformara para mim. Sobre os vídeos que sem dúvida seriam feitos, sobre mim, chorando e reduzido a um animal humilhado.
“Não podemos dizer nada.” eu disse sem pensar.“O quê?” disse Van.
“Não podemos dizer nada para eles”, repeti. “Você a ouviu. Se falarmos, eles virão atrás de nós. Farão conosco aquilo que fizeram com Darryl.”
“Tá brincando” disse Jolu “Você quer que nós...”
“Vamos dar o troco.” eu disse. “Quero ficar livre para poder fazer isso. Se sairmos falando por aí, eles irão dizer que somos crianças, que estamos inventando coisas. Nós nem sabemos onde estivemos presos. Ninguém vai acreditar nisso. Aí, um dia, eles virão nos pegar.”
“Vou dizer aos meus pais que eu estava do outro lado da baía. Eu fui encontrar vocês lá e ficamos sem ter como voltar e só pudemos voltar hoje. Eles estão dizendo nos jornais que algumas pessoas ainda estão sem ter como voltar para casa.”
“Eu não posso fazer isso.” disse Vanessa. “Depois de tudo que fizeram com você, como pode sequer pensar em fazer isso?”
“Aconteceu comigo, esta é a questão. Isso é entre eu e eles. Vou atrás deles. Vou atrás de Darryl, não vou denunciar esta mentira. Mas uma vez que nossos pais entrem nessa história, isso é conosco. Ninguém vai acreditar na gente e ninguém vai se importar. Se fizermos do meu jeito, as pessoas vão prestar atenção.”
“Qual é o seu jeito?” disse Jolu. “Qual é o seu plano?”
“Ainda não sei.” Admiti. “Esperem até amanhã de manhã, ao menos.” Eu sabia que uma vez que concordassem em manter segredo por um dia, o fariam para sempre. Nossos pais ficariam ainda mais céticos se nós de repente “lembrássemos” que fomos mantidos prisioneiros em uma prisão secreta ao invés de estarmos aos cuidados de um campo de refugiados.
Van e Jolu se olharam.
“Só estou pedindo uma chance. Nós vamos pensar na história no caminho para ficar tudo certo. Me dêem um dia, só um dia.”
Os outros dois concordaram mal humorados e voltamos a caminhar na direção dos nossos lares. Eu morava em Potrero Hill, Vanessa em North Missão e Jolu em Noe Valley - eram vizinhanças bem diferentes a poucos minutos de caminhada umas das outras.
Viramos na rua do Mercado e paramos. A rua tinha barricadas em cada esquina, as pistas foram reduzidas a uma única pista e, estacionados por toda a extensão da rua, estavam aqueles enormes e sem nada escrito, caminhões de 18 rodas, como aquele que nos havia transportado, encapuzados, das docas até Chinatown.
Cada um deles tinha nas traseiras as escadas de metal e os degraus colocados para fora e havia uma atividade frenética por parte de soldados e pessoas vestidas com ternos e policiais saindo e entrando deles.Nas roupas traziam pequenas insígnias nas lapelas e os soldados as escaneavam assim que entravam e saiam - crachás de autorização sem-fio. Assim que passamos por um deles, dei uma olhada e vi um logotipo familiar. Departamento de Segurança Estadual. O soldado me viu parado olhando e me olhou de volta, fixo e duro.
Entendi a mensagem e voltei a andar. Me separei da gangue na Van Ness. Nos abraçamos, choramos e prometemos nos falar.Para chegar a Potrero Hill havia um caminho fácil e um difícil: o último levava você pelas ladeiras mais escarpadas da cidade, o tipo que você vê em filmes de ação, de perseguição de carros. Eu sempre escolhia o caminho mais difícil. Eram ruas residenciais e velhas casas estilo vitoriano chamadas “madames maquiadas” por serem gritantes com aquele tipo de pintura elaborada e de jardins frontais com flores e grama alta. Os gatos da casa te vigiando das cercas vivas e quase nenhum mendigo por perto.
Eram tão quietas que me faziam desejar ter escolhido o outro caminho, através da Missão, que era... “áspero” é a provavelmente a melhor palavra. Alto e vibrante. Um monte de brutamontes bêbados e brigões e viciados inconscientes e também famílias com carrinhos de criança, velhas fofocando nas varandas, vagabundos com seus carros turbinados fazendo palhaçadas pelas ruas. Todo tipo de moderninhos, os estudantes de arte deprimidos e até alguns punks e roqueiros das antigas, velhos barrigudos com suas camisas dos Dead Kennedys. Também drag queens, garotos de gangs violentas, artistas grafiteiros e alguns burgueses bem de vida estupefatos tentando não ser mortos enquanto protegiam seus investimentos.
Fui até Goat Hill e passei pela Goat Hill Pizza, o que me fez lembrar da cela em que estive preso, e precisei me sentar um pouco na cerca em frente ao restaurante até que meus tremores parassem. Então percebi o caminhão na ladeira a minha frente, um 18 rodas sem qualquer coisa escrita, com aquela escadinha de três degraus saindo da traseira. Comecei a andar. Sentia olhos me observando vindos de todas as direções.
Acelerei pelo resto do caminho. Já não olhava as damas maquiadas, os jardins ou os gatos caseiros. Mantinha os olhos baixos.Ambos os carros de meus pais estavam na calçada, mesmo sendo já metade do dia. É claro, papai, que trabalhava em East Bay estava em casa enquanto eles davam um jeito na ponte. Mamãe... bem, quem sabe o motivo dela ela estar em casa?
Eles estavam em casa por minha causa.
Antes que acabasse de abrir a porta, ela foi puxada da minha mão e aberta por completo. Lá estavam meus pais, pareciam pálidos e cansados, me olhando com os olhos arregalados. Ficamos paralisados nos olhando por um momento, então ambos se atiraram na minha direção e me puxaram para dentro, quase me partindo em pedaços. Falavam tão alto e rápido que o que eu ouvia era algo incompreensível e me abraçaram e choraram e eu chorei também e ficamos ali no pequeno hall de entrada, chorando e pronunciando quase-palavras até a emoção passar e irmos para a cozinha.
Fiz o que sempre faço quando chego em casa, pego um copo de água do filtro da geladeira e alguns biscoitos do pote de biscoitos que a irmã de minha mãe havia nos mandado da Inglaterra. A normalidade daquele ato fez meu coração parar de martelar, tranqüilizando cabeça e coração e logo estávamos todos sentados à mesa.
‘Onde esteve?’ ambos disseram mais ou menos em uníssono.Eu já tinha pensado na resposta a caminho de casa. “Fiquei preso em Oakland. Estava lá com meus amigos, trabalhando num projeto, e tivemos que ficar em quarentena.”
“Por cinco dias?”
“Sim. Foi muito ruim.” Eu tinha lido sobre as quarentenas no Chronicle e roubei sem vergonha o que eles publicaram. “Sim. Todos que ficaram expostos à nuvem ficaram em quarentena. Eles achavam que pudéssemos ter sido infectados por algum tipo de super-praga e nos trancaram em containers nas docas, como sardinhas. Era quente e fedorento. Não tinha muita comida também.”
“Cristo!” disse papai, seus punhos socando a mesa. Papai ensinava em Berkeley três dias na semana, trabalhando em um projeto da biblioteca de ciências, com alguns alunos graduados.No resto do tempo prestava consultoria para clientes no centro e na Península, dotcoms de terceira geração que faziam várias coisas com arquivos. Ele era um bibliotecário bem estabelecido por profissão, mas havia sido um militante radical nos anos 60 e lutara um pouco no ginásio. Já tinha visto ele ficar bravo mais de uma vez, eu já o tinha feito ficar bravo mais de uma vez - e ele podia ficar seriamente transtornado quando Hulkficava. Uma vez ele atirara um balanço da Ikea do outro lado do quintal de meu avô depois dele ter-se partido pela qüinquagésima vez enquanto o montava. “Bárbaros”, minha mãe disse. Ela vivia na América desde a adolescência, mas ainda era britânica quando se tratava de policiais Americanos, seguro saúde, segurança de aeroportos ou falta de moradia. Então a palavra “bárbaros” vinha carregada de sotaque. Havíamos estado em Londres por duas vezes para visitar a sua família e eu não conseguia dizer se era mais civilizada do que São Francisco, apenas mais inibidos.
“Mas eles nos deixaram ir e pegamos um barco hoje” Eu estava improvisando.
“Você está machucado? Está com fome?” Perguntou mamãe.
“Com sono?”
‘Sim, um pouco de tudo isso. E também Soneca, Mestre, Espirro e Dengoso.” Nós tínhamos uma tradição de piadas com os sete anões. Eles sorriram um pouco, mas seus olhos ainda estavam úmidos. Me senti mal por eles. Eles deveriam ter quase pirado de preocupação. Eu fiquei feliz com a chance de mudar de assunto. “Estou faminto.”
“Vou pedir uma pizza da Goat Hill”, disse papai.
“Não, essa não!” Eu disse. Eles me olharam como se eu tivesse antenas. Eu sempre gostara da Goat Hill Pizza - e podia comê-la como um peixinho dourado come sua comida, devorando até acabar ou eu explodir.
Tentei sorrir. “Não estou com vontade de pizza” disse, “Vamos pedir curry, ok?”. Graças a Deus por São Francisco ser um paraíso da comida por telefone.
Mamãe foi até a prateleira onde ficavam os menus de entrega a domicílio (mais normalidade, como um copo d’água para uma garganta sedenta e seca) e folheou alguns deles. Passamos alguns minutos distraídos pelo menu do restaurante paquistanês de Valencia. Me decidi por um grelhado misto e espinafre com queijo da fazenda, um mango lassi salgado (melhor do que parece ser) e pedaços de massa frita em melado.
Uma vez que pedimos a comida, as perguntas começaram novamente. Eles tinham ouvido das famílias de Van, Jolu e Darryl (é claro) sobre nosso desaparecimento. A polícia pegara nossos nomes, mas havia tantas pessoas desaparecidas de seus lares que eles não iriam abrir inquérito a não ser que continuassem desaparecidas após sete dias.
Enquanto isso, milhões de sites com “você-viu-esta-pessoa” surgiram na rede. Alguns eram clones do MySpace que viram uma oportunidade de faturar e voltar à vida. Além do mais, alguns haviam perdido família na área da baía. Talvez, se eles se recuperassem, o site atrairia novos investidores. Peguei o laptop de papai e passeei por eles. Estavam repletos de comunicados, é claro, fotos de pessoas desaparecidas, a maioria fotos escolares, fotos de casamento e todo tipo de coisa. Era um pouco detestável.
Encontrei minha foto e vi que havia um link para Van, Jolu e Darryl. Havia um formulariozinho pra se marcar se estas pessoas tivessem sido encontradas e outro para escrever sobre os desaparecidos. Preenchi o meu, de Van e Jolu, deixando o de Darryl em branco.“Você se esqueceu de Darryl.” disse papai. Ele não gostava muito de Darryl - uma vez ele percebeu que alguns dedos faltavam nas garrafas do armário de bebidas e para minha vergonha eterna, culpei Darryl. A verdade, claro, tínhamos sido nós dois, apenas de brincadeira, misturando coca-cola com vodca, durante uma sessão noturna de games.
“Ele não estava com a gente” eu disse. A mentira amargou na boca.
“Oh, meu Deus!” mamãe disse. Apertou as mãos juntas. “Quando você chegou nós pensamos que estavam todos juntos.”
“Não” disse e a mentira crescia. “Não, ele tinha que nos encontrar mas nunca chegou. Provavelmente ficou preso em Berkeley. Ele ia pegar o metrô.”
Mamãe suspirou. Papai balançou a cabeça e fechou os olhos. “Você não sabe do metrô?” ele perguntou.
Fiz que não com a cabeça. Eu sabia onde isso ia acabar. Sentia o chão ruindo debaixo de mim.“Eles o explodiram.” disse papai. “Aqueles bastardos o explodiram ao mesmo tempo da ponte.”
Aquilo não estava na capa do Chronicle, o metrô sendo explodido sob a água não era uma imagem nem de perto tão pitoresca quanto os restos da ponte e pedaços espalhados pela baía. O túnel do metrô que ia de Embarcadero, em São Francisco, até a estação de West Oakland ficara submerso.
#
Voltei ao computador de papai para ler as manchetes. Ninguém tinha certeza, mas a contagem de corpos passava de mil. Entre os carros que mergulharam 58 metros para dentro do mar e as pessoas afogadas nos trens, as mortes aumentavam. Um repórter dizia ter investigado um falsificador de identidades que teria ajudado dezenas de pessoas a saírem de suas antigas vidas simplesmente dando a elas novas identidades, após os ataques, com isso escapando de péssimos casamentos, dívidas e de vidas ruins.
Papai tinha lágrimas nos olhos e mamãe não escondia o choro. Eles me abraçaram novamente, me dandotapinhas com as mãos como se quisessem se assegurar que eu estava realmente ali. Continuaram falando que me amavam e eu respondi que os amava também.
Tivemos um jantar lacrimejante e eles tomaram cada qual um copo de vinho, o que era muito para eles. Eu disse que estava com sono, o que era verdade, e segui para meu quarto. Eu não iria para a cama, contudo, precisava entrar online e procurar por uma coisa. Precisava falar com Jolu e Vanessa. Precisava começar a trabalhar para achar Darryl.
Rastejei até o quarto e abri a porta. Parecia que fazia milhares de anos que não via minha velha cama. Deitei-me nela e esticando até a cabeceira para pegar meu laptop. Eu não o tinha ligado - eu precisava do adaptador - então ele havia lentamente descarregado enquanto estava fora. Pluguei-o e dei um minuto ou dois para a carga aumentar antes de ligá-lo de novo. Neste tempo, me despi e atirei as roupas no cesto de lixo - não queria vê-las nunca mais - e pus roupas limpas. Roupas vindas da lavanderia, familiares e confortáveis, como um abraço dos pais.
Liguei o laptop e coloquei alguns travesseiros entre eu e cabeceira. Encostei as costas contra eles e o abri e o ajeitei sobre minhas coxas. Enquanto estava inicializando, e, cara, os ícones surgindo na tela pareciam muito bem. Então ele começou a me dar alertas de carga baixa. Chequei o cabo de força de novo e o balancei e ele saiu do lugar. O plug estava realmente frouxo.
De fato, estava tão mal que não conseguia fazer coisa alguma. Toda vez que tirava a mão dele, o contato se perdia e o computador passava a reclamar da bateria. Fui dar uma olhada melhor.O que acontecia era que o envoltório do computador estava todo desalinhado, um ângulo da fenda ficava uma brecha e então começava estreitar para a traseira.
Às vezes você olha para uma coisa e descobre algo assim e pensa ‘Sempre foi desse jeito?’ Talvez você só nunca tenha reparado.
Mas com o meu laptop isso não era possível. Afinal, eu o montei. Depois que o Comitê Educacional mandara fazer computadores escolares para todos, não tinha como meus pais me comprarem um só para mim, mesmo que, tecnicamente, o computador escolar não me pertencesse e eu não tivesse permissão para instalar nele as modificações ou softwares que quisesse.
Eu tinha algum dinheiro guardado - de trabalhos esquisitos, de Natais e aniversários, de vendas que fiz pelo Ebay. Juntando tudo eu podia comprar uma máquina velha de cinco anos.
Então, ao invés disso, eu e Darryl construímos um. Você pode comprar gabinete para laptop como se compra um para desktop PC. Eu já tinha comprado alguns PCs com Darryl durante anos e arrematado algumas partes de classificados e vendas de garagem e comprado outras bem barato mesmo de vendedores de Taiwan que encontramos na rede. Achava que construir um laptop seria a melhor maneira de ter o que eu queria por um preço em conta.
Então eu sabia exatamente como meu laptop deveria parecer quando fechado e não seria daquele jeito. Continuei insistindo com o cabo de força, mas não teve jeito. Não havia jeito de fazer a coisa funcionar. Xinguei e coloquei-o ao lado da cama. De manhã eu daria um jeito.
#
Esta era a teoria. Duas horas depois eu ainda olhava para o teto, com filmes passando na minha cabeça do que eles haviam feito comigo, o que eu devia ter feito, lamentos e esprit d'escalier.
Eu rolava pela cama. Passava de meia-noite e ouvi meus pais irem dormir às onze. Agarrei o laptop e arranjei espaço sobre a mesa e liguei as minúsculos leds dos meus óculos de aumento e abri o estojinho com as ferramentas de precisão. Um minuto depois já havia retirado a tampa e removido o teclado e estava olhando para as entranhas do meu laptop. Peguei um spray de ar comprimido para limpar a poeira que o ventilador jogara para dentro.Algo não estava certo. Não conseguia saber o quê, mas fazia meses que eu tinha retirado a tampa desta coisa. Por sorte, apenas três vezes eu o abrira e brigara para fechá-lo de novo; eu tinha ficado esperto e tirado uma foto do interior, com tudo em seu lugar. Mas não totalmente esperto, pois deixara a foto no disco rígido e naturalmente não podia vê-la com o laptop reduzido à suas partes. Então eu imprimi a foto e guardei no meio da confusão dos papéis na gaveta, meu buraco na árvore morta do cemitério, onde guardo as garantias das peças e meus diagramas de pinagem. Remexi a papelada - que parecia mais embaralhada do que eu me lembrava - e achei a foto. Coloquei-a ao lado do computador e fiquei olhando as duas ao mesmo tempo, tentando achar o que estava fora de lugar.
Achei. O cabo chato que conectava o teclado a placa lógica não estava conectado corretamente. Isso era estranho. Não havia nada que pudesse tê-lo deslocado numa utilização normal. Tentei pressioná-lo e descobri que o plug não estava somente mal montado - havia algo entre o teclado e a placa. Coloquei as luzes no local. Havia algo novo no meu teclado. Uma pecinha de hardware, mínima, sem qualquer marca. O teclado estava conectado nela e ela então plugada na placa. Em outras palavras, perfeitamente situada para capturar tudo que eu teclasse na minha máquina.
Era um grampo.Meu coração disparou nos ouvidos. Estava escuro e quieto na casa, mas não era uma escuridão confortável. Havia olhos do lado de fora, olhos e ouvidos, e eles me observavam. Me vigiavam. A vigilância que eu conhecia da escola havia me seguido para dentro de casa, mas desta vez não se tratava somente do Comitê Estudantil olhando por cima do meu ombro, mas o Departamento de Segurança do Estado que havia se juntado a ele.
Quase arranquei o grampo. Então me dei conta de que aquele que o havia colocado lá saberia que ele foi tirado. Deixei-o. Isso me fazia doente.
Olhei em minha volta, procurando por mais escutas. Não achei nenhuma, mas isso significava que elas não estavam lá? Alguém havia invadido meu quarto e plantado este dispositivo - tinha aberto e depois fechado meu laptop. Havia muitas outras formas de se colocar grampear um computador. Eu nunca conseguiria encontrar todas elas.Fechei o computador com dedos adormecidos. Desta vez, a tampa fechou direito, o cabo de força ficou dentro. Inicializei o computador e coloquei os dedos no teclado, pensando em executar alguns programas de diagnóstico que diriam o que estava acontecendo.
Mas não consegui.Inferno, talvez meu quarto estivesse com escutas. Talvez uma câmera me espionasse agora mesmo.
Comecei a ficar paranóico em minha própria casa. Sentia como se estivesse de volta à cela, de volta à sala de interrogatório, preso pelo rabo por entidades que me tinham totalmente em seu poder. Aquilo me fez querer chorar.
Fui ao banheiro e arranquei o rolo de papel higiênico e coloquei um novo em seu lugar. Por sorte estava quase vazio, acabei por desenrolar o resto dele e fucei na caixa de peças até achar um pequeno envelope plástico cheio de leds brancos que eu tinha arrancado do farol para bicicleta quebrado. Usando um estilete fiz os furos no tubo de papelão e enfiei os leds, então arranjei fios e liguei-os em serie prendendo com clipes de metal. Rosqueei os fios nos conectores de uma bateria de nove volts. Agora eu tinha um tubo direcional com ultra-brilhantes leds e podia colocá-lo perto do olho e olhar através dele.
Eu tinha construído um destes no último ano, para um projeto de ciências e jogado fora depois uma vez que demonstrara que existiam câmeras escondidas em metade das salas de aula da Chávez High. Micro-câmeras de vídeo custam menos que uma refeição em um bom restaurante hoje em dia, então elas estavam por toda parte. Balconistas de loja abelhudos as colocam nas cabines de troca de roupa ou salões de bronzeamento e fazem filmes pervertidos de seus clientes - algumas vezes até colocam na rede. Saber como se transforma um rolo de papel higiênico e algumas peças baratas em um detector de câmeras vale muito a pena.Esta é a maneira mais simples de encontrar uma câmera espiã. Elas possuem lentes pequeninas, mas que refletem a luz pra diabo. Funciona melhor numa sala na penumbra: olhe pelo tubo e lentamente escaneie todas as paredes e outros lugares onde poderiam colocar uma câmera até ver algo cintilante como um reflexo. Se o reflexo permanece enquanto você se move, são lentes.
Não havia uma câmera no meu quarto - não que eu pudesse detectar, de qualquer forma. Mas podia haver escutas, é claro. Ou câmeras melhores. Ou nada disso. Quem pode me criticar por me sentir paranóico?
Eu amava aquele laptop. Eu o chamava de Salmagundi, que significa qualquer coisa feita por diversas partes excedentes.
Uma vez que você dá nome ao seu laptop, fica claro que você terá uma profunda relação com ele. Agora, pensando, sentia que jamais iria querer pegar nele de novo. Queria atirá-lo pela janela. Quem sabe o que fizeram com ele? Quem sabe como ele tinha sido grampeado?
Guardei-o fechado na gaveta e fiquei olhando para o teto.Era tarde e eu devia estar na cama. Não tinha jeito de dormir agora, pensei, eu estava grampeado. Todos deveríamos estar. O mundo tinha mudado para sempre.“Vou encontrar um jeito de ir à forra.” disse. Era uma promessa, eu sabia o que era, mas nunca tinha feito uma antes. Não poderia dormir depois disso. E além do mais, eu tinha uma idéia.
Em algum lugar do meu armário havia uma embalagem contendo um Xbox Universal, embrulhadinho, ainda intacto. Cada Xbox (console de games da Microsoft) tinha sido vendido abaixo do custo - a Microsoft ganhava mais dinheiro cobrando companhias desenvolvedoras de games pelo direito de colocar seus jogos no Xbox - mas o Universal fora o primeiro Xbox que a Microsoft decidira dar inteiramente de graça. No último Natal, havia uns coitados em cada esquina, vestidos como combatentes da série Halo, dando sacolas com estes consoles para jogos. Imagino que a coisa funcionou - todo mundo diz que eles venderam jogos pra cacete. Naturalmente, havia contra-medidas que faziam com que somente jogos dessas companhias pudessem ser jogados, companhias que haviam comprado licenças da Microsoft.
Os Hackers acabaram mandando pro espaço estas contra-medidas. O Xbox fora crackeado por um garoto do MIT que escreveu um sucesso de vendas sobre isso e quando os 360 (Xbox 360) foram lançados e então o Xbox portátil (que chamávamos de ‘transportável’ - pesava apenas 1 quilo) sucumbiu. O Universal supostamente deveria ser à prova de tudo. Os garotos que o desbloquearam eram hackers brasileiros que moravam numa favela - um tipo de “invasores de imóveis abandonados”. .
Nunca subestime a determinação de um garoto com muito tempo e pouco dinheiro.
Uma vez que os brasileiros publicaram o crack, todos nós ficamos doidos por ele. Logo havia dúzias de sistemas operacionais alternativos para o Xbox Universal. Meu favorito era o ParanoidXbox, um tipo de Paranoid Linux. Paranoid Linux é um sistema operacional que assume que seu operador está sob ataque de um governo (foi intencionalmente criado para uso dos dissidentes chineses e da Síria) e faz todo o possível para manter suas comunicações e documentos em segredo. Ele até dispara um monte de comunicações falsas que supostamente disfarçam o fato de você estar fazendo algo às escondidas. Então, enquanto você está recebendo uma mensagem política, um caractere por vez, o ParanoidLinux finge surfar na Web e preencher questionários e namorar em salas de bate-papo. Enquanto isso, um em cada quinhentos caracteres que você recebe é a sua mensagem verdadeira, uma agulha escondida em um palheiro.
Eu gravei um DVD com ParanoidXbox assim que apareceu, mas nunca tinha aberto o Xbox no meu armário procurado uma televisão para ligá-lo e por ai vai. Meu quarto era cheio o bastante para deixar o lixo da Microsoft ocupar espaço valioso. Hoje à noite eu faria um sacrifício. Levei por volta de vinte minutos para colocar a coisa funcionando. Não ter uma televisão foi a parte mais difícil ,mas acabei lembrando de que tinha uma pequeno projetor LCD que tinha sido de uma TV padrão com conectores RCA atrás. Conectei-a ao Xbox e instalei o ParanoidLinux.
Agora eu estava ligado e o ParanoidLinux procurava outro Xbox para conversar. Cada Xbox Universal vem com um dispositivo sem-fio interno para jogos multi-jogadores. Você pode se conectar com seus vizinhos por um link sem-fio e a internet, se você tiver conexão sem-fio para internet. Achei três possibilidades nas vizinhanças no meu alcance. Dois deles tinham seus Xbox Universais também conectados à internet. O ParanoidXbox adorava aquela configuração: podia entrar pela conexão à internet de algum vizinho e usá-la para ficar online através da rede de jogos. Os vizinhos não perderiam nada com isso: pagavam por conexões de taxa achatada, e não estavam exatamente surfando pela rede às 2 da manhã.A melhor parte de tudo isso era como me fazia sentir: no controle. Minha tecnologia trabalhava para mim, me servindo, me protegendo. Não estava me espionando. Era por isso que eu amava a tecnologia: se você a usa direito, ela pode lhe dar poder e privacidade.
Meu cérebro estava ligado. Existem varias razões para se rodar um ParanoidXbox - a melhor é que qualquer pessoa pode criar um jogo para ele. Agora mesmo havia uma porta para MAME, um emulador para múltiplos arcades (jogos) então você podia jogar praticamente qualquer jogo já escrito, desde Pong, passando por games para o Apple ][+ e Colecovision, NES e Dreamcast, e por ai vai. O que era ainda melhor era que todos os jogos multi-jogadores legais tinham sido feitos para especificamente o ParanoidXbox - de graça, por pessoas que fazem jogos por hobby e que qualquer um podia jogar. Quando você combina tudo isso, você tem um console aberto, cheio de jogos grátis e que lhe dá acesso grátis à internet.
E a melhor parte - de longe a que mais me interessava - era que ParanoidXbox era paranóico. Cada bit que atravessava o ar era embaralhado. Você podia gravar tudo que quisesse, mas nunca conseguiria saber quem estava falando, o que estava falando ou de quem falavam pela web, email e IM (Instant Messager).Tudo que eu precisava!
Tudo que eu precisava fazer agora, era convencer a todos que conhecia, a usá-lo também.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 5 [ Download ]
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
A pátria de chuteiras e O Futuro à janela
Pátrias de Chuteiras é uma noveleta sobre futebol.
Como é? Não é história alternativa? Sim, também é. Mas, antes de tudo, é a história de uma partida de futebol. No caso, a final de uma Copa do Mundo.
A proposta era escrever um trabalho de ficção que fundisse o assunto futebol aos te-mas típicos da fantasia, do horror, da ficção científica ou da história alternativa. Caso apro-vado, o trabalho integraria a antologia temática que a Editora Ano-Luz estava organizando no início de 1998, a Outras Copas, Outros Mundos.
Neste sentido, Pátrias de Chuteiras é o trabalho mais fiel ao propósito precípuo da antologia, pois toda a ação da noveleta se passa dentro de um estádio de futebol, No fundo, a noveleta mostra o que acontece durante essa partida, intercalando à trama futebolística em si, o dilema do técnico de uma das seleções, dividido entre dois sentimentos de lealdade antagônicos: o patriotismo que nutre pelo Brasil e a vontade de defender os interesses da raça negra, discriminada no Brasil e discriminadora em Palmares.
Isto posto, é de todo provável que o leitor pouco afeito ao "rude esporte bretão" não se entusiasme muito com Pátrias de Chuteiras. Paciência. Em minha defesa, só posso apresen-tar a alegação de que, assim como a ficção científica não se limita a robôs, naves estelares e pistolas-laser, a história alternativa não se limita aos grandes efeitos de decisões militares, que mudam o curso de batalhas decisivas e, portanto, da história como conhecemos.
Em termos de história alternativa, Pátrias de Chuteiras insere-se na linha histórica dos Três Brasis, em tudo idêntica à nossa até 1647, ano em que Maurício de Nassau decide re-gressar ao nordeste brasileiro para reassumir o governo de Nova Holanda. Nassau estabele-ce uma aliança com a Confederação de Palmares. Juntas, Nova Holanda e Palmares, conse-guem derrotar a Coroa Portuguesa e, como resultado, Palmares torna-se a primeira nação independente da América, cerca de um século antes dos Estados Unidos.
É provável que alguns de vocês já conheçam esta linha histórica alternativa, da leitura das noveletas O Vampiro de Nova Holanda e Assessor Para Assuntos Fúnebres. A maior diferença é que, ao contrário daqueles trabalhos, em Pátrias de Chuteiras o filho-da-noite que atende pela alcunha de Dentes Compridos não dá o ar de sua graça.
A noveleta é o que os estudiosos do gênero da história alternativa — ou ficção alterna-tiva, como preferem alguns — costumam designar como "presente alternativo", ou seja, uma história cuja ação se passa nos dias de hoje, ou bem próximo disso. A decisão da Copa do Mundo dos Estados Unidos se dá em 1986, o ano da passagem do cometa de Halley, e também o ano em que os cientistas de Palmares divulgam para o mundo uma descoberta que mudará os rumos da civilização... Contudo, nada disso é importante para a história da partida. O drama do técnico Nascimento dos Santos me foi inspirado pelo jogador e técnico Didi.
Para quem não sabe, esse jogador eminentemente técnico foi um dos heróis da vitória da seleção brasileira no Mundial de 1958 na Suécia. Mais tarde, Didi tornou-se técnico da seleção peruana, conseguindo classificá-la para a Copa do Mundo do México, em 1970. Por ironia do destino, as seleções brasileira e peruana se enfrentaram nas quartas-de-final. Antes da partida, discutiu-se muito no Brasil (e provavelmente, também no Peru), como o técnico brasileiro da seleção peruana se comportaria. Ele cantaria o hino nacional brasileiro? Colo-caria a mão no peito durante sua execução? E durante a partida em si? Torceria pelo Brasil? Ou pelo Peru?
A ficção exagera a realidade. Em Pátrias de Chuteiras, o negro brasileiro Nascimento dos Santos, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, torna-se técnico da seleção palmarina. Só que Palmares e Brasil são os piores inimigos. Ao longo de suas histó-rias, as duas nações já travaram cerca de uma dezena de guerras e conflitos menores. Con-flitos onde Palmares quase sempre se saiu vitorioso; a ponto do território brasileiro nessa linha histórica alternativa ter se reduzido aos estados das regiões sul, sudeste e metade da centro-oeste. Como se isto não bastasse, além deste antagonismo histórico, ambas as sele-ções já se sagraram campeãs mundiais duas vezes e, pelo regulamento da FIFA, a primeira seleção nacional a se sagrar tricampeã mundial conquistará a posse definitiva da Taça Jules Rimet, um troféu de ouro maciço que, muito mais que seu valor material, trará consigo imenso prestígio político ao país que conseguir levá-lo para casa.
Se mesmo em nossa linha histórica, futebol no Brasil já é coisa séria, na LHA descrita, essa partida se desenrola como autêntica batalha campal - reflexo não só da rivalidade de mais de três séculos entre brasileiros e palmarinos, como do choque entre duas visões de mundo muito diferentes, e de dois ideais de superioridade racial incompatíveis.
Na época em que a antologia Outras Copas, Outros Mundos foi publicada, alguns lei-tores me perguntaram se Nascimento dos Santos seria um "Pelé Alternativo". A resposta é depende. Depende do que se entenda por "Pelé Alternativo". Em termos estritos, não. É inconcebível imaginar a existência do futebolista Edson Arantes do Nascimento numa LHA que já divergiu da história que conhecemos há mais de três séculos. Não obstante, alguns paralelismos histórico-pessoais que, por capricho, decidi introduzir no enredo.
Em termos genéricos, eu diria que sim. Embora não seja o Pelé, o personagem Nascimento dos Santos foi livremente inspirado nessa grande figura da história esportiva, e foi idealizado como uma homenagem ao Pelé de NLH.
Gerson Lodi-Ribeiro, Março de 2002
A pátria de chuteiras - Gerson Lodi-Riberio [ Download ]
Muitos anos me separam agora desta obra.
Quando escrevi as primeiras linhas (de qual dos contos, não tenho mais memória) decorria o ano de 1990, um ano pessoalmente mágico e terrível em iguais proporções, cheio de grandes sucessos e enormes desalentos, marcado por aquela forma peculiar que a juventude confere aos acontecimentos da nossa vida, tornando-se intensos e imensos, transformando o banal em épico, embora só bem mais tarde os recordemos assim.
Nesse ano estava aberto o concurso da Caminho para recepção de originais de ficção científica, cujo vencedor e menções honrosas estariam destinados a publicação nos livros de bolso azuis de uma colecção que alternava com o género policial, na época em que ambas as manifestações de literatura popular tinham no nosso país e junto das editoras uma conotação semelhante e seguiam de mãos dadas nas colecções alternativas e baratas. Recordo-me ainda de receber o regulamento (que já antecipava, uma vez que se tratava de um prémio bienal) das mãos de um colaborador do stand da editora na Feira do Livro, numa quente tarde de Maio, após a faculdade.
Nos dois anos precedentes habituara-me a colaborar esporadicamente com os suplementos literários do Diário Popular (a secção policiária dos sábados) e do Diário de Notícias (o extinto DN Jovem). Este último em particular havia-se tornado num campo de treinos particularmente exigente, mas que finalmente conquistara com a publicação de um texto muito pessoal – sobre um autor de Ficção Cientifica, o Theodore Sturgeon – publicado no mês de Fevereiro desse mesmo ano. A conquista surgiria a tempo de ser incluído na selecção exclusiva da dúzia e meia de autores que constaram da única Antologia DN Jovem em formato livro (e com capa dura), lançada em Setembro desse mesmo ano, onde surgiria precisamente com um conto de Ficção Científica.
Corria-me por isso a confiança nas veias e muita vontade de arriscar. E, graças à publicação regular do suplemento e à minha vontade de contribuir, conseguira um ritmo de escrita, uma rotina de me sentar à máquina de escrever (este livro foi todo escrito antes dos computadores, àparte o presente prefácio), que é imprescindível a qualquer escritor. Tinha textos por recolher, tinha um objectivo em mente. Tinha na memória a qualidade da Espinha Dorsal da Memória, do brasileiro Bráulio Tavares, último galardoado com o prémio (em 1989). Tinha, finalmente, muitas leituras em português e inglês, de histórias de ficção científica, livros de
física e astronomia, e algumas opiniões, então bem vincadas, sobre o que considerava formas correctas e erradas de escrever ou abordar determinados temas. O terreno estava propício à fecundação.
O livro demorou-me o resto do ano a preparar, e pelo meio tive ainda tempo de recolher uma magra antologia de textos dispersos, denominá-la A Arquitectura do Possível, e enviá-la para um concurso do Instituto Português da Juventude (não me lembro bem do que sucedeu posteriormente, àparte ser contactado para o que seria uma proposta de Associação de Jovens Escritores Portugueses, que de logo me desagradou pelo elevado nível de demagogia política envolvida e escândalos públicos que inevitavelmente a acompanharam). Foi um ano de bastante escrita, e não só. Mesmo assim ficaram histórias por escrever ou por acabar, que tinha intenção de incluir. Outras tiveram de ser recuperadas da gaveta, desenvolvidas e acabadas (salvoerro, «A Última Tarde», e talvez «Também Há Natal em Ganímedes») porque o prazo se aproximava e era necessário preencher um mínimo de páginas, diversidade e estrutura.
Se tivesse tido mais tempo ou energia, teria resultado num livro ligeiramente diferente – embora, estou em crer, não muito. Os temas que me preocupavam então eram bastante uniformes, mais do que julgara a início, do que resultou numa colectânea tematicamente mais coesa do que imaginara.
E foi assim que nos últimos dias do ano de 1990, o Natal já ido, preparava as quatro colecções de duzentas e tal fotocópias exigidas pelo regulamento, as enviava para encadernar, e as iria entregar em mãos, no dia 31, à sede da editora (sem antes me ter preocupado em confirmar se a recepção da empresa estaria aberta, e até que horas, tal era a minha inocência dos assuntos empresariais). E assim foi. Uma lenta espera até ao dia 17 de Junho do ano seguinte, em cuja quente tarde tardei a chegar a casa e a receber a notícia que alguém da Caminho me telefonara para casa. Telefonei de volta, de imediato, e falei pela primeira vez com o Belmiro Guimarães, que me anunciou a conquista do primeiro prémio. Agendámos logo uma reunião, uma preparação dos próximos passos. Ao conhecê-lo, perguntou-me se desejava manter a Introdução. Parecia-lhe uma justificação dispensável do livro. Ponderei então, como ainda pondero hoje, e continuo a sentir que o livro sem esta contextualização, sem este entendimento, acontece abruptamente. Está na natureza das antologias e colectâneas serem explicadas, embora não no romance nem na novela individual. O grupo tem de fazer sentido.
Muitas portas se abriram, então, embora, olhando para trás, nem todas viessem a revelar-se a caminhos válidos. Recordo-me de jornalistas me ligarem para casa, em particular o Zé Pedro, com quem continuaria a contactar ao longo dos anos vindouros, que me apontou uma falha importante no livro (corrigida na edição do Círculo de Leitores, na qual esta se baseia), e que colocaria uma das perguntas mais interessantes de todas as entrevistas que concedi: se havia uma intenção consciente na ordenação dos contos (sim, há). Recordo-me da sessão de entrega do prémio na York House, onde conheci o João Barreiros e o José Manuel Morais, que me convidou então a participar na Omnia. Recordo-me do João me telefonar no dia 20 de Dezembro para me dizer que a sua crítica ao livro fora publicada no Público (e eu, fiel atento do suplemento literário-cultural das sextas-feiras, no qual o João costumava participar com artigos extensos e críticas acérbicas, já o conhecia de reputação bem à famosa caneta de aparo de titânio): não tenho mais a totalidade do texto, mas lembro-me que destacava a «Série Convergente», também um dos meus contos preferidos, e a «Criança Entre as Ruínas», cujo ambiente comparava a Stephan Wul (cujos livros eu só viria a encontrar depois das minhas primeiras idas a França).
Recordo-me das menções simpáticas no semanário Independente da Sarah Adamopoulos (que nunca conheci). Recordo-me dos encontros «Palarvas Para Quê?», que tiveram lugar na livraria São Bento 34 – uma das primeiras que misturava prateleiras com livros, espaço para café e um poço verdadeiro (sim, um poço) –, que eram organizados pelo Nuno Artur Silva, o Rui Zink e o Alberto Oliveira Pinto, e cujo propósito era de reunir os jovens autores de então para, durante três sextas-feiras consecutivas, se debater literatura e ler-se excertos das respectivas obras por actores profissionais (no meu caso, foi o António Feio, que escolheu o segmento «Jean-Luc Armand» do «Poetas da Rua»). Recordo-me da leitura na rádio, pelo prestigiado Rui de Carvalho, da secção inicial do «Jogo do Gato e do Rato». Recordo-me da reportagem na revista Ler, e de como desta surgiu ao Círculo de Leitores a ideia de constituir uma colecção temática de obras de jovens autores portugueses, na qual O Futuro à Janela ganharia uma reedição em capa dura, em 1998, sete anos depois da edição original.
Estávamos contudo, noutro século, noutro universo. Escrevia-se sem recurso da Internet, apenas das bibliotecas pessoais e públicas. A divulgação era mínima, e a capacidade de intervenção individual muito mais limitada do que o é neste final de primeira década do século XXI. As editoras não tinham ainda descoberto o filão de ouro da fantasia para jovens, e este género, embora tolerado, não era acarinhado como devia. O valor do prémio (300 mil escudos, que representava a totalidade da edição) continua a ser, ainda a esta data, o maior volume financeiro de royalties que recebi por uma obra minha 2 . A edição da Caminho saiu cheia de gralhas e com alguns cortes acidentais no texto que lhe alteravam o sentido, o que obviamente me entristeceu – só na edição do Círculo de Leitores conseguiria finalmente recuperar o sentido original do livro. E por fim, o tratamento dos livreiros face ao género, escondendo literal e envergonhadamente a Ficção Científica nas prateleiras mais recônditas, enquanto que os restantes jovens autores portugueses eram expostos com pompa e glória nas mesas de destaque ao público, o silêncio relativo de fãs (àparte os conhecidos e contactos esporádicos) e críticos, a inexistência de clubes e movimentos associativos, a falta inclusive de outros autores, começou a ensinar-me como escrever neste mercado, nesta língua e nesta época se tratava mais de um custo efectivo do que um benefício.
Isto até ao advento da Internet. Tratando-se de uma ferramenta de verdadeira democracia, talvez a primeira, quase mais importante que o direito ao voto, tem permitido a expressão individual e a divulgação mais ou menos facilitada de autores e obras (e não só) até agora de difícil acesso ou presentes somente nas listas especializadas de alguns entusiastas.
Apenas o futuro dirá se esta forma de estar no mundo virtual irá permanecer ou se não passa de um sintoma de uma tecnologia/sistema cultural ainda não completamente interiorizado e legislado que rapidamente terá os grilhões do controlo autocrático firmemente cravados – não interessa, há que aproveitar. Muitos autores internacionais o têm feito, com alguma polémica envolvida, para se auto-promover mediante iniciativas de divulgação, entre as quais figura a disponibilização gratuita das suas obras.
Eis o enquadramento desta ideia de colocar online O Futuro À Janela, quase vinte anos após a sua concepção. Tanto quanto saiba, é a primeira obra a ficar assim disponível ao grande público deste território virtual que teve uma existência física e um currículo apreciável na área da ficção científica portuguesa. Se me perguntarem sobre perdas eventuais desta iniciativa, creio que me vou limitar a devolver-vos um sorriso simpático – seguramente que ninguém se lembrará mais de um prémio há muito atribuído, em particular de um livro que dificilmente se encontrará nas livrarias ou poderá ser encomendado, e decerto que não corro o risco de não enriquecer com a perda de vendas. Por outro lado, quem sabe se desta forma ganhe um pequeno novo alento e encontre leitores que não teria oportunidade de conhecer?
Fica disponível para vossa leitura, impressão, distribuição, e talvez crítica. Apenas peço que sigam as orientações de direitos reservados indicada no fim do livro.
Façam o favor de abrir a janela. Lá fora, é já amanhã.
Luís Filipe Silva - 25 de Junho de 2007
Email: contacto@TecnoFantasia.com
Website : www.TecnoFantasia.com
O Futuro à janela - Luís Filipe Silva [ Download ]
Assinar:
Postagens (Atom)








