sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 17


CAPÍTULO 17
Este capítulo é dedicado à Waterstone, a cadeia nacional inglesa de livrarias. Waterstone é uma cadeia de lojas, mas cada qual tem independência em relação aos seus estoques (especialmente de audiobooks) e um staff que sabe das coisas.
Waterstones

Então contamos tudo para ela. Foi engraçado. Ensinar as pessoas a usar a tecnologia é sempre excitante. É muito legal ver as pessoas descobrirem que a tecnologia ao seu redor pode fazer melhor as suas vidas. Ange foi ótima também, nós formamos um ótimo time. Explicamos o funcionamento e Bárbara também saiu-se bem, é claro.

Ela cobrira as guerras de criptografia, o período no começo dos anos 90 quando grupos como a Electronic Frontier Foundation batalhou pelo direito dos Americanos de usar criptografia forte. Eu sabia pouco sobre este período, mas Bárbara o explicou de um jeito que me fez cair para trás.
É inacreditável hoje, mas houve um tempo em que o governo classificava a criptografia como armamento e a tornou ilegal para qualquer um exportá-la ou utilizá-la em território nacional. Entendeu? Nós tínhamos matemática ilegal neste país.

A Agência de Segurança Nacional (NSA) era a principal interessada nesta proibição. Eles tinham uma criptografia padrão que diziam ser boa o bastante para os bancos e seus clientes usarem, mas não boa o bastante para a máfia manter seus livros secretos para eles. O padrão, DES-56, era tido como praticamente inquebrável, Então um dos co-fundadores milionários da EFF pagou por um software que poderia quebrar o código em duas horas.
Ainda assim a NSA argumentou que isso seria capaz de deixar os cidadãos Americanos guardar seus segredos sem poder bisbilhotá-los. Então o EFF deu o golpe mortal. Em 1995 representaram um estudante de matemática da universidade de Berkeley, chamado Dan Bernstein, diante de um juiz. Bernstein havia escrito um tutorial sobre criptografia que continha código de computador que podia ser usado para fazer um código mais forte que o DES-56. Milhões de vezes mais forte. 
Quando o NSA se preocupou, bastou para transformar o seu artigo numa arma e conseqüentemente ele se tornou impublicável.

Deve ter sido complicado para um juiz entender criptografia e o que significava, mas ficou claro que a média dos juízes da corte de apelação não era realmente entusiasta sobre o fato de se dizer a um estudante graduado, que tipo de artigo ele tinha permissão de escrever. A guerra da criptografia terminou com a vitória dos mocinhos quando a justiça determinou que o código era uma forma de expressão protegida sob a primeira emenda – “O Congresso não pode aprovar uma lei redutora da liberdade de expressão”. Sempre que você compra algo pela internet ou manda uma mensagem secreta ou consulta sua conta bancária, você está usando criptografia que a EFF legalizou. A NSA não era tão esperta. Tudo que eles sabem como decifrar você pode ter certeza de que os terroristas e mafiosos podem saber também.
Bárbara foi uma das repórteres que ganhou sua reputação cobrindo esta matéria. Ela começou cobrindo o movimento dos direitos civis em São Francisco e reconhecia similaridade entre a luta pela defesa da Constituição no mundo real e a luta no ciberespaço.

Então ela entendia da coisa. Acho que não conseguiria explicar isso para meus pais, mas para Bárbara foi fácil. Ela fazia perguntas inteligentes sobre nossos protocolos de criptografia e processos de segurança, algumas vezes perguntando sobre coisas que nem eu sabia responder, por vezes apontava furos potenciais em nossos procedimentos.

Plugamos o Xbox e entremos online. Encontramos quatro pontos de rede WIFI visíveis a partir da sala e eu disse que ela poderia mudá-los entre intervalos randômicos. Ela entendeu tudo também, uma vez que estava plugada na Xnet era como estar na internet, somente um pouco mais lento e tudo era anônimo e inviolável.
“E agora?” Perguntei. Eu estava seco e com uma terrível sensação de acidez por conta do café. Além disso, Ange ficava apertando minha mão debaixo da mesa como se quisesse ir embora e encontrar algum lugar privado para fazermos as pazes depois da nossa primeira briga.
“Agora eu vou fazer jornalismo. Você vai embora e eu faço as pesquisas sobre tudo que me falou e tento confirmar estas informações, levando-as até onde eu puder. Deixarei que veja o que vou publicar e aviso quando for ao ar. Prefiro que não fale com ninguém sobre isso por enquanto, porque eu quero este furo de reportagem e porque eu quero ter certeza que tenho a historia antes que chegue no lodaçal da imprensa especulativa e no DHS.”
“Terei que procurar o DHS para que eles façam seus comentários antes de ir à imprensa, mas o farei de um jeito que irá proteger vocês de qualquer coisa que aconteça como conseqüência. E também irei deixar você saber  de tudo antes que isso aconteça.”
“Eu preciso deixar uma coisa muito clara: esta não é mais a sua historia. É minha. Você foi muito generoso em dá-la para mim e eu tentarei compensá-lo pelo presente, mas você não terá o direito de editar nada, mudar ou me deter. Agora que a coisa está em movimento, não pode ser parada. Entendeu?”
Eu não tinha pensado nisso naqueles termos, mas uma vez que ela falou, ficou óbvio para mim. Significava que eu tinha disparado o míssil, mas não podia trazê-lo de volta. Iria cair onde estava apontado, ou sairia do curso; mas uma vez no ar, não podia mudá-lo. Quem sabe, num futuro próximo, eu deixaria de ser o Marcus para ser uma figura pública. Eu seria o cara que acabou com a DHS.
Um homem condenado.
Apostava que Ange pensava do mesmo jeito, pois ela estava de uma cor entre o branco e o verde.
“Vamos sair daqui!” ela disse.

#

A mãe e a irmã de Ange estavam fora novamente, o que facilitou a decisão de onde passaríamos o fim de tarde. Já passava um pouco da hora do jantar, mas meus pais sabiam que eu tinha um encontro com Bárbara e não me dariam uma bronca se eu chegasse tarde.
Enquanto ia para o quarto de Ange não tinha pressa em entrar no meu Xbox. Já tinha tido Xnet demais por um dia. Tudo o que eu pensava era Ange, Ange, Ange. Viver sem Ange. Saber que Ange estava brava comigo. Que Ange nunca mais falaria comigo de novo. Ange nunca me beijaria de novo.
Ela tinha pensado a mesma coisa. Dava para ver nos seus olhos assim que fechamos a porta de seu quarto e olhamos um para o outro. Eu tinha fome de Ange, fome como se tem por não comer durante dias. Como sede de um copo de água após jogar bola por três horas seguidas.
Nem era isso. Era muito mais. Algo que eu nunca sentira antes. Eu queria comê-la por inteiro, devorá-la.
Até aquele momento, ela tinha sido a parte sexual de nosso relacionamento. Eu tinha deixado ela no controle das ações. Era maravilhosamente erótico, me agarrando e tirando minha camisa e puxando meu rosto para o seu.
Mas esta noite eu não iria me deter.

Ao som do fecho da porta eu já retirava sua camisa. Tirei a minha puxando pela cabeça.
Seus olhos brilhavam, sua boca aberta, a respiração rápida e profunda. A minha também, minha respiração e meu coração e o sangue soando nos meus ouvidos.
Tirei o resto das roupas, jogando-a nas pilhas de roupas sujas e as limpas vindas da lavanderia ao chão. Havia muitos livros e papéis por toda sua cama e eu joguei tudo para o lado. Mergulhamos entre suas cobertas e no segundo seguinte os braços já envolviam um ao outro, apertando como se quiséssemos atravessar um ao outro. Ela gemia na minha boca e sentia sua voz nas minhas cordas vocais, uma sensação mais íntima do que qualquer outra que já tivera.
Ela descolou-se e alcançou a cabeceira. Puxou uma gaveta e de dentro puxou um saco branco de farmácia e me entregou. Olhei para dentro. Caixas de camisinhas do tipo com espermicida. A maioria ainda fechada. Sorri para ela e ela sorriu de volta e eu abri uma caixa.

#

Por anos eu tinha pensado como seria. Imaginei centenas de vezes como seria. Eu não pensava em outra coisa.
Não foi nada como eu esperava. Algumas partes foram melhores. Outras partes muito pior. Enquanto acontecia, pensei ser uma eternidade. Depois, parecia que tinha durado um piscar de olhos.
E depois, eu me sentia igual. Mas também me sentia diferente. Algo havia mudado entre nós.
Fora estranho. Estávamos tímidos ao vestirmos nossas roupas e ficamos pelo quarto, olhando ao redor, evitando os olhos um do outro. Envolvi a camisinha num lenço de papel de uma caixa ao lado da cama e fui ao banheiro e o enrolei com papel higiênico e joguei-o na lixeira.
Quando voltei, Ange estava sentada na cama jogando no seu Xbox. Sentei-me cuidadosamente ao lado dela e peguei sua mão. Ela olhou para mim e sorriu. Estávamos cansados e trêmulos.
“Obrigado.” eu disse.
Ela não disse nada. Ela tentava sorrir, mas as lágrimas rolavam por suas bochechas.
Eu a abracei forte contra meu peito. “Você é um bom homem, Marcus Yallow.” ela sussurrou. “Obrigada.”
Eu não sabia o que dizer, mas a apertei também. Finalmente nos separamos. Ela não estava mais chorando, mas ainda sorria.
Apontou para meu Xbox caído ao lado da cama. Eu entendi. Fui pegá-lo, liguei e conectei em seguida.
Nenhuma novidade, apenas o de sempre. Montes de email. Deus, como eu recebia spam. Minha caixa postal sueca estava cheia de “joe-jobbed” - que indicava quando o endereço de resposta para os spams mandavam centenas de milhões de contas da Internet, de forma que todo tipo de mensagem de bounce e mensagens de irritação chegavam para mim. Não sabia quem estava por trás disso. Talvez fosse o DHS tentando entupir minha caixa de entrada. Talvez fosse apenas alguém testando os filtros do Pirate Party.

Filtrei aquilo tudo e castiguei a tecla delete. Eu tinha uma caixa de correio separada para coisas que chegavam criptografadas para minha chave pública. Os espalhadores de spam não sabiam que utilizando chaves públicas eles tornariam seu lixo mais plausível, então, por enquanto, tudo estava funcionando bem.
Tinha uma dúzia de mensagens criptografadas de pessoas da rede de confiança. Dei uma espiada - links para vídeos e fotos de novos abusos por parte do DHS, histórias horrorosas. O de sempre.
E uma delas estava criptografada apenas pela minha chave pública. O que significava que ninguém mais podia ler, mas eu não tinha idéia de quem a escrevera. Dizia ter vindo de Masha, que poderia ser um apelido ou um nome, não sabia.

>M1k3y. Você não me conhece, mas eu conheço você. Eu fui preso no dia que explodiram a ponte. Eles me interrogaram. Decidiram que eu era inocente. Me ofereceram um trabalho: ajudá-los a encontrar os terroristas que mataram nossos vizinhos. Me pareceu um bom acordo na época. Até que percebi que meu novo emprego seria espionar garotos ressentidos por que sua cidade se tornou um estado policial. Eu me infiltrei na Xnet no dia que foi lançada e estou na sua rede de confiança. Se eu quisesse revelar minha identidade eu poderia mandar um email para você de um endereço que você confie. Estou dentro da sua rede como apenas outro garoto de 17 anos. Alguns dos emails que você recebeu foram cuidadosamente feitos para confundi-lo por mim e meus patrões. Eles não sabem quem você é, mas estão perto de descobrir. Eles continuam a pegar pessoas e fazer acordo com elas. Estão minando os sites da rede social e usando de ameaças para transformar garotos em informantes. Existem centenas deles trabalhando para a DHS na Xnet neste momento. Eu tenho seus nomes, apelidos, chaves públicas e privadas.  Quando a Xnet foi lançada nós trabalhamos explorando o ParanoidLinux. Encontrarmos uma brecha, é inevitável. Uma vez que tomemos o controle, você estará morto. Acho que é seguro dizer que se meus patrões souberem que estou escrevendo isso, meu rabo vai parar no presídio da baía até que eu vire uma velha senhora.  Mesmo se eu não conseguir quebrar o código do ParanoidLinux, existem outros ParanoidXbox envenenados por aí. Eles não se importam com as atualizações, mas quantas pessoas se importam além de eu e você? Um monte de garotos já está ferrado e nem sabe ainda. Tudo depende de como meus patrões vão decidir a melhor hora para ferrar com você e fazer o maior estardalhaço na mídia. Esta hora está próxima, não vai demorar. Acredite. Você deve estar se perguntando o porquê de estar lhe contando tudo isso. Eu também. Cheguei aqui por ter assinado que iria combater terroristas. Ao invés disso, estou espionando Americanos que acreditam em coisas que o DHS não gosta.  Não as pessoas que planejam explodir pontes, mas aquelas que protestam. Não posso mais fazer isso. E nem você, mesmo que não saiba disso. Como disse, é apenas uma questão de tempo até você estar algemado em Treasure Island. Não se trata de ‘se’, mas ‘quando’. Fico por aqui. Em Los Angeles tem umas pessoas que dizem que podem me proteger se eu quiser sair disso. E eu quero. Eu levo você comigo se você quiser. É melhor ser um combatente do que um mártir. Se você vier comigo, podemos vencer juntos. Sou tão esperta quanto você, acredite em mim. O que me diz? Aqui está a minha chave pública. Masha.”

#

Quando estiver em apuros ou em dúvida, corra em círculos, berre e grite.
Já ouviu isso antes? Não é um bom conselho, mas ao menos é fácil de seguir. Eu saltei da cama e fiquei andando para lá e para cá. Meu coração queria sair e meu sangue fervia em uma paródia cruel de quando viemos para cada. E não era por excitamento sexual, e sim puro terror.
“O que foi?” Ângela disse. “O quê?”
Eu apontei a tela. Ela rolou até junto e pegando meu teclado, tocou o touchpad com seu dedo e leu em silêncio.
Eu continuei andando.
“Tem que ser mentira. O DHS está brincando com sua cabeça.”
Olhei para ela. Ela mordia um lábio. Ela não parecia acreditar no que dizia.
“Você acha?”
“Claro. Eles não conseguem te pegar, então estão usando a Xnet.”
“É.”
Sentei na cama. Minha respiração estava acelerada.
“Relaxa. São só jogos mentais. Aqui.”
Ela nunca tinha usado meu teclado antes. Mas agora havia uma nova intimidade entre nós. Ela começou a teclar.
> Boa tentativa.
Ela agora escrevia como se fosse M1k3y. Estávamos juntos de uma forma diferente do que era antes.
“Vá em frente e assine. Vamos ver o que ela vai dizer.”
Eu não sabia se era a melhor idéia, mas não tinha uma melhor. Assinei e criptografei com minha chave privada e a chave pública que Masha tinha passado. A resposta foi instantânea.
> Sabia que iria dizer algo assim. Mas eu tenho algo que você não pensou. Eu posso passar vídeos de maneira anônima pelo DNS. Aqui estão alguns links que você pode querer ver antes de se decidir. Estou cheia deles. Estas pessoas estão todas gravando umas as outras, o tempo todo, como garantia de que não serão traídas. Masha.
Tinha anexado um código fonte de um pequeno programa que aparentava ser exatamente o que Masha dizia poder fazer: Tunelar um vídeo passando pelo protocolo DNS (Domain Name Service).
Deixe-me explicar uma coisa antes. Ao fim do dia, todo protocolo de internet é somente uma seqüência de texto mandada de lá para cá em uma ordem prescrita. É algo como pegar um caminhão e colocar um caro dentro e então pegar uma moto e colocar no carro e depois colocar os patins na moto. Exceto que, se você quiser, você pode colocar o caminhão nos patins.
Por exemplo, peque o SMTP (Simple Mail Transport Protocol) que é usado para mandar email.
Uma conversa entre eu e meu servidor de email seria assim, mandando uma mensagem para mim.

> Olá littlebrother.com.se
250 mail.pirateparty.org.se Olá mail.pirateparty.org.se, quer ver você
> EMAIL DE:m1k3y@littlebrother.com.se
250 2.1.0 m1k3y@littlebrother.com.se... Remetente ok
> RCPT para:m1k3y@littlebrother.com.se
250 2.1.5 m1k3y@littlebrother.com.se... Destinatário ok
> DADOS
354 Enter mail, end with "." on a line by itself
> Quando em apuros ou em dúvida, corra em círculos, berre e grite
> .
250 2.0.0 k5SMW0xQ006174 Mensagem aceita para envio.
SAI
221 2.0.0 mail.pirateparty.org.se fechando a conexão
Conexão encerrada pelo host estrangeiro.

A gramática desta conversa foi definida em 1982 por Jon Postel, um dos heróis do antepassado da internet que literalmente tinha os mais importantes servidores de rede debaixo de sua mesa na universidade do sul da Califórnia, numa era paleolítica.
Agora imagine se você pendurar um servidor de email numa sessão de IM. Você poderia mandar um IM ao servidor dizendo “Olá littlebrother.com.se” e ele responderia “250 mail.pirateparty.org.se Olá mail.pirateparty.org.se, deseja ver você.” Em outras palavras, você poderia ter a mesma conversa pelo IM como usando o SMTP. Com o ajuste certo, toda a coisa do servidor de email poderia ser dentro de um chat. Ou numa sessão de web. Ou qualquer outra coisa.
Isso se chama tunelamento.
(Técnica através da qual um pacote é encapsulado num protocolo de alto nível e passado através de um sistema de transporte. O MBONE tunela cada datagrama IP multicast dentro de um datagrama IP tradicional.Fonte: USP.Esquema de Tunneling. (http://penta.ufrgs.br/redes296/mbone/tunel.htm)
Você coloca um SMTP dentro de um tunelamento de chat. E então colocar o chat de volta dentro de um tunelamento de SMTP se quiser realmente ser bem esquisito, tunelamento de tunelamentos.
De fato qualquer protocolo de internet é suscetível a este processo. É bacana, porque significa que, se você está numa rede com somente acesso a web, você consegue mandar um email por ela. Você pode mandar um endereço P2P predileto por ele. Até a Xnet - que por si só é um tunelamento de diversos protocolos - por ela.

DNS é um protocolo de internet antigo e muito interessante, criado em 1983. É desta maneira que seu computador converte um nome de computador - tipo pirateparty.org.se - para um número de IP que usualmente os computadores utilizam para conversar na rede entre eles, tipo 204.11.50.136. Parece mágica, apesar de milhões de partes móveis - cada ISP usa um servidor de DNS, assim como os governos e vários operadores privados. Estas caixas de DNS falam entre si o tempo todo, preenchendo e fazendo pedidos uma para a outra, então não importa quanto seja obscuro o nome que você colocou em seu computador, ele será capaz de se tornar um número.

Antes do DNS havia os arquivos HOSTS. Acredite ou não, havia um único documento onde estavam todos os nomes e endereços de cada computador conectado à internet. Cada computador tinha uma cópia disso. Este arquivo acabou ficando grande demais para ser transmitido então o DNS foi inventado e rodava num servidor que costumava ficar debaixo da mesa de Jon Postel. Se o pessoal da limpeza sem querer arrancava a tomada, toda a internet perdia sua habilidade de se achar. É sério.
O grande lance do DNS hoje é que ele está em toda parte. Todo lugar onde tem uma rede tem um servidor de DNS nela e todos estes servidores são configurados para falar entre eles e de caracterizar aleatoriamente as pessoas pela internet.

O que Masha fez foi pensar num jeito de tunelar um vídeo pela DNS. Ela tinha partido o vídeo em bilhões de pedaços e escondido cada parte dele em uma mensagem comum para o servidor DNS. Rodando seu código eu conseguia puxar o vídeo de todos aqueles servidores DNS por toda a internet numa velocidade incrível. Isso deve parecer bizarro num histograma da internet, como se eu estivesse procurando por todos os endereços de cada computador pelo mundo.
Isso tinha duas vantagens. Eu era capaz de baixar um vídeo num piscar de olhos - assim que eu clicasse no primeiro link eu começaria a receber imagens de tela cheia sem qualquer interrupção ou perda - e eu não teria a menor idéia de onde estaria hospedado. Totalmente anônimo.
Vídeo a partir da DNS? Aquilo era tão esperto e esquisito que era praticamente uma perversão.
Gradualmente o que eu via começou a fazer sentido.
Era uma sala pequena com uma mesa e um espelho em uma das paredes. Eu conhecia aquela sala. Eu tinha me sentado nela, enquanto a mulher do corte de cabelo rigoroso tinha me feito falar minha senha. Havia cinco cadeiras confortáveis ao redor da mesa, e em cada uma estava pessoa sentada confortavelmente, vestindo o uniforme da DHS. Reconheci o Major Graeme Sutherland, o comandante da DHS na área da baía, ao lado da mulher do cabelo curto. Os outros eram desconhecidos. Olhavam para uma tela na extremidade da mesa, na qual havia um rosto bastante familiar.

Kurt Rooney era conhecido nacionalmente como o chefe estrategista do presidente, o homem que deu ao governo um terceiro mandato e a possibilidade de um quarto. Eles o chamavam de “Impiedoso” e eu tinha visto uma reportagem na tevê sobre o quão rigoroso ele era com seus subordinados, controlando-os, observando cada emoção, cada passo. Ele era velho com um rosto marcado, de olhos cinzentos e pálidos e um nariz chato e lábios finos; um homem que parecia estar percebendo algo de podre o tempo todo.
Era ele o homem na tela. Ele falava e tinha a atenção de todos, tomando notas rapidamente, tentando parecer espertos.
“…diz estar zangado com as autoridades mas precisamos mostrar ao país que eles precisam culpar os terroristas e não o governo. Entendem? A nação não ama aquela cidade. Não é como pensam, é uma Sodoma e Gomorra de bichas e ateístas que merecem apodrecer no inferno. A única razão do pais se preocupar com o que pensam em São Francisco é que eles tiveram a sorte de serem mandados para o  inferno por alguns terroristas islâmicos. Estas crianças do Xnet chegaram ao ponto em que podem ser úteis para nós. Quanto mais radical ficam, mais o resto da nação compreende que existem ameaças por toda parte.”

Sua audiência acabou de tomar notas.
“Acho que podemos controlar isso.” disse a mulher do corte de cabelo. “Nosso pessoal na Xnet já tem uma forte influência. Os bloggers manchurianos estão rodando são quase 50 deles, enchendo os canais de bate-papo, linkando uns aos outros, se aproveitando do esquema deste M1k3y. Mas já mostraram do que são capazes de fazer, mesmo quando M1k3y tenta refreá-los.”
O Major Sutherland fez que sim. “Temos planejado deixá-los escondidos até um mês antes da metade do semestre.” Imaginei que significavam as eleições da metade do semestre e não meus exames de escola na metade do semestre. Este foi o plano original. Mas parece que…”
“Temos outros planos.”disse Rooney. “É necessário que se saiba, é claro, que não podemos esperar mais. Acabe com a Xnet agora, o mais rápido que puder. Enquanto eles estão ainda moderados, são confiáveis. Transforme-os em radicais!”
O vídeo se encerrou.
Ange e eu nos sentamos na beira da cama, olhando a tela. Ange se esticou e fez o vídeo se iniciar de novo. Assistimos. Foi pior na segunda vez.
Afastei o teclado e me levantei.
“Estou cansado de ter medo.” eu disse “Vamos deixar isso com Barbra e deixar que ela o publique. Vamos colocar tudo na rede. Melhor que me peguem. Ao menos saberei o que vai acontecer. Ao menos terei uma pequena certeza na vida.”
Ange me agarrou e me abraçou. “Eu sei, anjo, é tudo terrível. mas você está olhando apenas o lado ruim e ignorando a parte boa. Você criou um movimento. Você está indo contra os caipiras da Casa Branca, os corruptos em uniformes do DHS. Você chegou numa posição onde pode ser responsável por detonar a tampa que cobre todos os podres da DHS.”
“É claro que eles querem te pegar. Algum dia você duvidou disso? Eu sempre vi isso. Mas, Marcus, eles não sabem quem é você. Pense nisso. Todas estas pessoas, dinheiro, armas e espiões e você, um cara de dezessete anos na escola - está derrotando a todos. Eles não sabem de Bárbara. Nem de Zeb. Você bagunçou a coisa toda nas ruas de São Francisco e os humilhou diante do mundo. Então pare de se queixar está bem? Você está vencendo.”

“Eles estão vindo atrás de mim. Você viu. Vão me colocar atrás de grades para todo sempre. Nem será uma cadeia. Eu desaparecerei feito Darryl. Talvez pior. Talvez me enviem para a Síria. Por que me deixar em São Francisco? Sou influente enquanto permaneço nos EUA.”
Ela se sentou na cama ao meu lado.
“É.” ela disse. “Tem isso.”
“Tem isso.”
“Bem, você sabe o que precisa fazer, certo?”
“O quê?” Ela olhou para o teclado como se o apontasse. Vi as lágrimas rolando em seu rosto.
“Não! Você está maluca! Acha que vou fugir com algum doido que conheci na Internet? Um espião?”
“Tem uma idéia melhor?”
Chutei uma das pilhas de roupa da lavanderia. “Que seja. Certo. Vou falar com ela”
“Fale com ela.” disse Ange. “Diga a ela que você e sua namorada querem pular fora.”
“O quê?”
“Quietinho, cabeça de minhoca. Você acha que corre perigo? Eu corro tanto perigo quanto Marcus. Isso se chama culpa por associação. Onde você for, eu vou junto.” Ela fez aquela cara irredutível. “Você e eu, estamos juntos agora. Entenda isso.”
Nos sentamos.
“A não ser que não me queira com você.” Disse, em voz baixa.
“Tá brincando comigo, certo?”
“Parece que eu estou brincando?”
“Não tem jeito de eu ir voluntariamente sem você, Ange. Eu nunca poderia pedir a você para vir comigo, mas fiquei sem saber o que dizer quando você se ofereceu.”
Ela sorriu e pegou meu teclado.
“Mande um email para esta tal de Masha. Vamos ver o que esta guria pode fazer por nós.”
Mandei o email, criptografando a mensagem, esperando um retorno. Ange se encostou a mim e eu a beijei e nós nos abraçamos. Algo na coisa do perigo e de fugirmos juntos, me fez esquecer o sexo que fizemos e me fez excitado de novo.
Estávamos quase nus quando o email de Masha chegou.
> Vocês dois? Jesus Cristo, como se já não fosse difícil. Eu não saio exceto para fazer trabalho de campo após aprontar alguma coisa na Xnet. Entende? Os meus responsáveis vigiam cada movimento meu, mas eu consigo sair quando acontece algo grande com os Xneters. Aí sou mandada a campo por eles. Faça alguma coisa grandiosa. Eu serei mandada e nos dois fugiremos. Nos três, se preferir assim. Mas faça logo. Não posso ficar respondendo email para você, entende? Eles me vigiam. E estão a cada vez mais perto de você. Você não tem muito tempo. Semanas, talvez. Talvez alguns dias. Preciso de você para me tirar daqui. É por isso que estou fazendo isso, caso esteja pensando no motivo. Não posso escapar sozinha. Preciso de uma grande distração na Xnet. Este é seu departamento. Não vá falhar comigo M1k3y, ou estaremos mortos. Sua garota também. Masha.
Meu telefone tocou dando-nos um susto. Era minha mãe querendo saber quando eu chegaria em casa. Eu disse que estava a caminho. Ela não falou de Bárbara. Nós tínhamos combinado que não falaríamos sobre isso ao telefone. Foi idéia do meu pai. Ele podia ser tão paranóico quanto eu.
“Tenho que ir.” falei.
“Nossos pais ficarão…”
“Eu sei. Vi o que aconteceu com eles quando eles pensaram que eu tinha morrido. Saber que eu me tornei um fugitivo não vai ser muito melhor. Mas eles vão preferir que eu seja um fugitivo a ser um prisioneiro. É o que eu penso. De qualquer jeito, quando nos desaparecermos, Bárbara poderá publicar sem se preocupar de nos colocar em apuros.”
Nos beijamos na porta do seu quarto.Não um beijo quente, um daqueles quando estamos nos despedindo, mas um beijo doce e demorado. Tipo um beijo de adeus. 

#

As viagens pelo BART são introspectivas. Quando o vagão balança para lá e para cá e você tenta não fazer contato visual com os olhos de outros viajantes e tenta não ler as propagandas de cirurgia plástica, agentes de fiança e testes para AIDS, quando tenta ignorar as pichações e não olhar para aquelas coisas pelo chão. É ai então que a sua mente começa a viajar.
Balançando de lá pra cá e a sua mente alcança tudo que você negligenciou, volta todos os filmes de sua vida onde você não foi o herói, mas um otário vacilão.
Sua mente concebe teorias como esta.
Se a DHS queria pegar M1k3y, o que seria melhor que atraí-lo para um lugar aberto, levá-lo a encabeçar algum evento grande e público da Xnet? 
Seu cérebro faz este tipo de coisa, mesmo quando você está viajando apenas duas ou três estações distante. Quando você sai e começa a se mover, seu sangue começa a correr, e seu cérebro volta ao normal.
Algumas vezes ele te dá soluções para problemas.


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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Alice no País do Quantum - A física quântica ao alcance de todos



Na primeira metade do século XX, nossa compreensão do Universo foi virada de pernas para o ar.

As antigas teorias clássicas da física foram substituídas por uma nova maneira de olhar o mundo — a mecânica quântica.

Esta estava em desacordo, sob vários aspectos, com as idéias da antiga mecânica newtoniana; na verdade, sob vários aspectos, estava em desacordo com nosso senso comum.
Entretanto, a coisa mais estranha sobre essas teorias é seu extraordinário sucesso em prever o comportamento observado dos sistemas físicos.

Por mais absurda que a mecânica quântica possa nos parecer, esse parece ser o caminho que a Natureza escolheu — logo, temos que nos conformar.

Este livro é uma alegoria da física quântica, no sentido dicionarizado de "uma narrativa que descreve um assunto sob o disfarce de outro." O modo pelo qual as coisas se comportam na mecânica quântica parece muito estranho para nossa maneira habitual de pensar e torna-se mais aceitável quando fazemos analogias com situações com as quais estamos mais familiarizados, mesmo quando essas analogias possam ser inexatas.

Tais analogias não podem nunca ser uma representação verdadeira da realidade, na medida em que os processos quânticos são de fato bastante diferentes de nossa experiência ordinária.

Uma alegoria é uma analogia expandida, ou uma série de analogias.
Como tal, este livro segue mais os passos de Pilgrim s Progress ou As viagens de Gulliver do que Alice no País das Maravilhas. Alice parece o modelo mais conveniente, no entanto, quando examinamos o mundo que habitamos. O País do Quantum por onde Alice viaja se parece mais com um parque temático no qual Alice é às vezes uma observadora, ao passo que algumas vezes se comporta como uma espécie de partícula cuja carga elétrica pode variar.

Esse País do Quantum mostra os aspectos essenciais do mundo quântico: o mundo que todos nós habitamos...


SUMÁRIO
Prefácio
No País do Quantum
O Banco Heisenberg
O Instituto de Mecânica
A Escola de Copenhague
A Academia Fermi-Bose
Realidade Virtual
Átomos no Vácuo
O Castelo Rutherford
O Baile de Massacarados das Partículas
A Piteira Phantástica da Física Experimental



Alice no País do Quantum - A física quântica ao alcance de todos - Robert Gilmore  [ Download ]




quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

La Ciencia-Ficción de H. G. Wells


En la tan bizantina como superfina polémica acerca de la paternidad de la ciencia ficción moderna, dirimida entre el francés Julio Verne y el británico Herbert George Wells (véase la introducción a La ciencia ficción de Julio Verne, en el número 89 de esta misma colección), Verne es considerado generalmente como el precursor temático del género, mientras que Wells es calificado más bien como su precursor ideológico. Verne, fiel a las constantes de culto al maquinismo y a la moda de las aventuras «científicas» que reglan en su país, inventaba el submarino, disparaba su cañón contra la Luna, viajaba a los polos, daba la vuelta al mundo e imaginaba un buque aéreo sustentado en el aire por multitud de hélices horizontales. Wells, mas sumergido en las inquietudes sociales que arrasaban en aquella época su país, se ocupó mas de las ideas: utilizó la máquina del tiempo como vehículo para examinar la degradación de la burguesía y las clases obreras en un futuro lejano; las promesas de la aviación le hicieron pensar inmediatamente en su aprovechamiento bélico; la genética significó para él la visión de la manipulación del hombre; y nuestro satélite le sirvió de cuna para el estudio de una civilización alienígena completamente distinta a la nuestra.

Índice
Introducción Herbert George Wells: su tiempo y su obra   
Los acorazados terrestres   
La puerta en el muro   
El país de los ciegos   
El bacilo robado   
La isla del Æpiornis   
El extraño caso de los ojos de Davidson
El señor de las dinamos   
La historia de Plattner   
Los argonautas del aire   
La historia del difunto míster Elvesham   
En el abismo   




Índice
Los atacantes del mar
Una raza aterradora   
La esfera de cristal   
La estrella   
El hombre que podía hacer milagros   
El bazar mágico   
El valle de las arañas   
La verdad sobre Pyecraft   
El señor Skelmersdale en el país de las hadas   
Jimmy Goggles, el dios   
El nuevo acelerador   
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La Ciencia-Ficción de H. G. Wells I e II [ Download ]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Orwell x Gibson - Dois modelos de poder




George ORWELL e Willian GIBSON foram autores da ficção científica cujas obras influenciam de forma considerável o cenário social contemporâneo, no que diz respeito às novidades propiciadas pela telemática.

ORWELL inverteu os algarismos do ano no qual estava escrevendo, 1948, e deu nome a sua mais famosa obra, "1984".

Não o fez com uma significação aparente. Porém, em 1948, nascia Willian GIBSON, autor de uma das mais intrigantes e inquietantes obras da ficção científica contemporânea, "Neuromacer", lançada em 1984.

O enredo estruturado por GIBSON (hoje roteirista de filmes em Hollywood) tangenciou diversos institutos atualmente estudados por cientistas do mundo todo, principalmente na área da telemática, como a realidade virtual, a compressão de dados, os ambientes de redes corporativas, a colonização espacial, o implante de órgãos mecânicos e o ciberespaço, entre outros.

Esse último era chamado, até então, de "Esfera de dados" nos ambientes acadêmicos e profissionais, mas as idéias e formulações de GIBSON, maior expoente do movimento "ciberpunk", mudaram tal concepção.

É relativamente comum os pensadores da ficção anteciparem acontecimentos científicos relevantes para a humanidade, como ocorreu com a ida à Lua, com as viagens não tripuladas pelo sistema solar, os mergulhos em grandes profundidades, a capacidade do homem de voar com auxílio de máquinas, a microcirurgia, os transplantes de órgãos, a clonagem, a televisão, o computador, etc. Isso teria, no aspecto coletivo e histórico, alguma justificativa psicanalítica ? Algo como um id remetendo punções evolutivas que um superego social e científico reconhece, algum tempo depois, como válidas ? Ou uma busca de mecanismos que permitam a solução de questões aparentemente insolúveis, como voltar ao passado e resolver problemas com os pais, como em "De volta para o futuro", mudando o curso da vida ?

ORWELL participou desse processo no que diz respeito à organização social e à estrutura do Estado, e algumas das coisas que ele sugestionou acabaram realmente acontecendo em alguns países do mundo. No momento em que o presente trabalho está sendo confeccionado, está em destaque na mídia mundial a atuação de câmeras de vídeo posicionadas em lugares públicos, flagrando pessoas em atividades suspeitas, auxiliando o Estado no combate ao crime.

Geralmente as matérias jornalísticas que tratam do assunto fazem alusão ao "Grande Irmão" e seu criador.

Este evento, antecipação, não aconteceu com a figura do ciberespaço, que foi criado e constatado sem que tivesse sido imaginado anteriormente pela literatura de ficção.

Quem mais chegou perto dele, em obras passadas, foi o próprio ORWELL (com as teletelas e a forma de comunicação que propiciavam) e GIBSON apresentou a visão contemporânea de maior impacto.

As semelhanças entre os pensadores vão além. Ambos, em suas abordagens sobre o futuro, estenderam suas "visões" ao campo social e político, abordando diretamente estruturas de poder e descrevendo as relações entre os homens, mergulhando numa subjetividade projetada, sem ficarem adstritos às análises tecnológicas.

Acredita-se que, como em outras ocasiões da ficção científica, eles disseram coisas úteis, a serem aproveitadas pela ciência. Porém, verifica-se que antagonizaram expressamente na questão do impacto da tecnologia sobre a sociedade e principalmente quanto à utilização da telemática, sobretudo no que diz respeito ao Estado e ao exercício do poder público. Teria GIBSON, propositadamente, formulado uma antítese à concepção de ORWELL ?

O sucesso de ambas as obras demonstrou o poder de impacto da ficção científica, inclusive junto aos meios científicos e universitários.

Para a realização do estudo, será, então, adotado o seguinte caminho:
1. Uma abordagem sobre a influência da ficção científica no desenvolvimento do homem; 2. Uma análise do movimento que de forma mais atual e real tratou das questões da telemática, o gênero "ciberpunk"; 3. Um comparativo entre GIBSON e ORWELL, principalmente em suas respectivas visões sobre Estado e poder.

1. A ficção científica antecipando o desenvolvimento humano.

Não são poucas as situações nas quais a solução para um problema está contida em uma alternativa teoricamente absurda. Grandes invenções decorreram de erros ou falhas que geraram conclusões totalmente imprevisíveis. Ou decorreram da palpites absurdos, provenientes de alguém que está livre das amarras da racionalidade científica, ou ainda de alguém que possua desprendimento suficiente para formular uma hipótese considerada improvável. Por não estarem obrigados a comprovar a cientificidade e a racionalidade de suas concepções, os escritores de ficção científica têm conseguido apresentar valorosas contribuições à ciência.
Francis HAMIT, que escreveu sobre a realidade virtual e a exploração do espaço cibernético, apresenta em sua obra uma passagem na qual isso fica bem claro, com relação ao potencial dos computadores:

"Na verdade, é um milagre que nós, com nossos processos de pensamento desorganizados e quase sempre caóticos, tenhamos inventado os computadores. É provável que tenha sido porque, no início, tudo o que fazíamos com eles era matemática, a mais exata e inflexível das ciências. Foi necessária muita confiança e imaginação por parte dos primeiros pioneiros para prever outros usos. Essas visões foram possibilitadas, sem dúvida, por escritores de ficção científica que nunca deixaram as limitações de fatos conhecidos atrapalharem uma boa idéia de estória." (destacado do original).

Obras de ficção científica têm se constituído em fonte inspiradora de notáveis pensadores contemporâneos, fato já reconhecido em elevados ambientes acadêmicos.

Tal se dá com Marvin MINSKI, professor e pesquisador do MIT, um dos maiores nomes mundiais de Inteligência Artificial, conforme relata HAMIT:  "A ficção científica muitas vezes antecipa o fato científico.

Por essa razão, muitos cientistas consideram este gênero literário uma forma de filosofia dos tempos modernos. (É a disciplina intelectual algumas vezes chamada de ‘arte da especulação’.) Alguns cientistas escrevem ficção científica e outros, como Marvin Minski, do MIT, reconhecem o mérito dela na inspiração de suas próprias carreiras. A ficção científica teve um impacto direto sobre o desenvolvimento da realidade virtual, maior até que o impulso dado ao programa espacial".

O mesmo se diga quanto à telepresença, uma técnica de realidade virtual que já foi aplicada em atividades forenses no Brasil, mediante interrogatórios remotos. Na avaliação do mesmo autor, a literatura de ficção teve um papel importante em seu desenvolvimento, como se vê: "A telepresença será vital não apenas para a exploração planetária remota, mas, mais perto de casa, na Estação Espacial. Willian E. Bradley, do Institute for Defense Analysis, propôs essa aplicação num relatório de janeiro de 1964. Não era, obviamente, uma idéia original. Ela foi proposta pela primeira vez por Robert A. Henlein, num romance de ficção científica, em 1943 (Waldo). No entanto, em 1964, a tecnologia de telepresença estava começando a funcionar".

É inegável, portanto, a importância do papel antecipador dos textos desse gênero literário. No tocante à telemática, o nome já citado de GIBSON se constitui em uma das mais poderosas referências de antecipação, estando ele ligado à "ética hacker" e ao movimento "cyberpunk", como descreve HAMIT: "Quando Willian Gibson Escreveu poeticamente sobre o espaço cibernético em Neuromancer e sobre suas conseqüências, ele penetrou na imaginação hacker coletiva. (O território já tinha sido bem preparado por outros autores, como Vernor Vinge e Rudy Rucker, e isso se transformou num sub-gênero conhecido como ‘cyberpunk’,...)".

O que é e como se caracteriza o sub-gênero "cyberpunk" ?

2. A literatura "cyberpunk"
Como não poderia ser de outra forma, a expressão "Cyberpunk" foi cunhada dentro da ficção científica, por Gardner DOZOIS, com o intuito de identificar a fusão entre a fição científica e a contra-cultura niilista punk dos anos 80. Neuromancer é a obra de maior destaque do movimento, o que não quer dizer que seja a melhor, embora tenha arrebatado os prêmios Nebula, Hugo e Philip K. Dick.

A essência do pensamento que norteou o movimento veio de um certo cansaço diante do cenário então estabelecido, uma "mesmice", um "lugar comum" identificado por Bruce STERLING, que HAMIT assim relatou: "O escritor cyberpunk Bruce Sterling, no fim dos anos 70, escreveu um artigo que sustentava que a ficção científica tinha caído na rotina. Sterling reclamava que a ficção científica contemporânea não havia acompanhado as mudanças tecnológicas, mas era, na verdade, uma nova apresentação de impérios e sistemas sociais galácticos que refletiam uma sensibilidade americana. Um enfoque em valores da Nova Era que enfatizavam melhor estilo e caracterização em detrimento do conteúdo da ficção científica levaram, na opinião de Sterling, a uma nova perspectiva humanista que não conseguiu lidar com as mudanças da tecnologia de informação e da biotecnologia".

A partir daí, o movimento se popularizou, angariando, inicialmente, a simpatia dos "hackers" e, posteriormente, de outros ambientes, alcançando rapidamente respeitabilidade literária, como detectou o mesmo autor: "A cultura cyberpunk se tornou popular, não apenas entre os hackers locais e fãs de ficção científica, mas também entre um grande público de produções como Bladerunner e a dramatização feita pela PBS American Playhouse do conto Overdrawn at the Memory Bank, de John Varley. Autores como Bruce Sterling e Rudy Rucker se tornaram populares, por um curto período de tempo, continuam tendo destaque, e vários jornais literários sérios como o The Mississipi Review dedicaram edições inteiras ao novo gênero. Philip K. Dick morreu em 1982, pouco antes do lançamento de Bladeruner, que foi baseado num dos primeiros contos dele".

O gênero e seu entusiasmo são apontados como um dos mais fortes fatores de impulsão da realidade virtual. Vários de seus romances foram expressamente referidos em documentos de caráter estritamente científico, o que impressionou os escritores, inclusive o próprio GIBSON.

VON BRADENBRUG observa que "o cyberpunk não vê a tecnologia como um meio de opressão ou alienação, mas sim como um meio de descentralização e democratização política".

Afirma, também, que "todas as posições da contracultura dos anos 60 tiveram que ser invertidas. No início, temia-se um cenário Orwelliano, com os computadores sendo usados como instrumentos de opressão. O contrário aconteceu, com os computadores se tornando instrumentos que promovem democracia".

É correta essa última afirmativa ?

Inobstante, a alusão ao cenário apresentado por ORWELL está ligada à essência do movimento, o qual constitui a antítese a esse panorama.

Vejamos então:

3. Orwell X Gibson
Muitas são as observações que podem ser feitas sobre o cotejo dessas duas obras. Importa, por ora, identificar duas coisas. Inicialmente, seus pontos de contato. Posteriormente, suas respectivas visões sobre Estado e poder.

ORWELL e GIBSON, nas obras "1984" e "Neuromancer", respectivamente, visualizaram uma perspectiva de futuro para a humanidade, sob a influência direta dos avanços tecnológicos. Falaram, indiretamente, sobre o comportamento social do homem, sobre formas de governar e administrar, sobre padrões culturais, sobre o trabalho, sobre formas de comunicação e sobre política, além de outras coisas, mas, "enquanto Gibson desenhou uma nova realidade, escrevendo sobre coisas 60 ou 70 anos no futuro, falando de tendências que detectamos hoje, Goerge Orwell, em 1984, criou um mundo imaginário como uma metáfora da opressão pública e uma advertência à humanidade", como constatou Silvio ALEXANDRE.

"1984" mostra uma personagem central que vive em um ambiente socialmente mediano, com suas necessidades básicas satisfeitas. Tem um emprego bom, sem trabalho braçal, pode comprar algumas coisas e tem acesso a algumas informações. Leva, porém, uma vida entediante e medíocre, demonstrando uma certa indiferença inicial para com os acontecimentos exteriores à sua personalidade, até o momento no qual passa a dar atenção aos seus questionamentos.

"Neuromancer", embora ambientado num futuro mais distante, tem um panorama individual semelhante, no tocante à personagem central, que também está medianamente posicionada no contexto social e econômico e, da mesma forma, está atingida pela indiferença. As passagens ambientadas em estações orbitais, as imagens do ciberespaço, as descrições da realidade virtual e um rítimo mais acelerado conferem um charme particular ao livro de GIBSON.

Mas, tanto Winston quanto Case, após serem atingidos em cheio pela realidade, acabam rompendo com o indiferença e vivendo interessantes aventuras.

Na obra de ORWELL o Estado é absoluto. Controla os meios de produção, a mídia (onde o herói trabalha), o comportamento privado das pessoas e até mesmo a história. Um partido é o instrumento utilizado para direcionar a movimentação política, e uma figura mitologicamente real, o "Big Brother" , é utilizada para influenciar a subjetividade das pessoas.

ALEXANDRE fez um belo diagnóstico sobre a visão do Estado de ORWELL:

"Ainda que os acontecimentos descritos po Orwell em seu livro não tenham ocorrido nas datas e da maneira previstas, ele materializa as preocupações do mundo com os horrores produzidos sob o totalitarismo, fosse ele o de Hitler ou de Stalin. O romance não pretendeu ser profético, situando-se antes como um estudo da perda da liberdade em suas últimas conseqüências. Mas, o mundo de loucura e opressão mostrado no livro é impressionante na medida em que é perfeitamente possível. O controle da mente humana e da verdade histórica pelo Estado são realidades do século XX".

Já GIBSON apresenta um Estado (ou vários) bastante fragmentado, com pouco destaque no cenário principal. As coisas não acontecem em função da postura do Estado, como instituição centralizadora, mas em razão do exercício do poder por várias instituições, oficiais ou não, deixando pairar um questionamento: alguém controla tudo isso ? Se em 1984 a imagem do futuro da opressão é "uma bota esmagando um
rosto humano... para sempre", em Neuromancer ela é de "vários sapatos", cada um ao seu tempo, sem que se saiba de onde vêm. O rosto, porém, é o mesmo.

A administração dos acontecimento públicos em 1984 segue a trilha totalitarista modelada já no Estado, e "quem controla o passado, controla o futuro, quem controla o presente, controla o passado". Já em Neuromancer, diante da descoberta de que os veículos de comunicação depositam uma infindável quantidade de informações sobre as pessoas, "as gigantescas corporações multinacionais têm tanto ou mais poder do que os governos, manifestado justamente através do controle do fluxo de informações, produtos e serviços", como apontou ALEXANDRE. É possível dizer que a principal diferença das obras seja justamente a centralização, de um lado, e a fragmentação, de outro. Um poder excessivamente centralizado e controlador oprime ostensivamente os cidadãos/súditos de 1984. Já em Neuromancer, um poder excessivamente fragmentado, oportunista e furtivo, absolutamente terceirizado, dá aos indivíduos a sensação de que "onde fores eu estarei", pois tem-se a impressão de que as estruturas de controle, os grupos que gostam de controlar a vida alheia e direcionar os acontecimentos, têm representantes em todos os lugares, da
máfia japonesa ao sindicato dos lixeiros.

Levando em consideração que, segundo CASTORIADIS, "a psicanálise visa a ajudar o indivíduo a tornar-se autônomo, capaz de atividade refletida e deliberação", e que "queremos a autonomia também e sobretudo para estarmos capacitados e livres para fazer coisas", a análise de ambas as obras mostra que elas acabam chamando atenção para a desumanização do indivíduo e sua provável sucumbência ante os complexos
mecanismos de exercício de poder e respectivo controle, seja sob um Estado forte, seja sob um ambiente politicamente fracionado em excesso.

Antes de encerrar, vale lembrar a avaliação de CASTORIADIS, quando afirmou que "O’brien atinge seu objetivo quando Winston Smith não somente confessa tudo o que lhe pedem, mas também admite nele mesmo que realmente ama o Big Brother".

Hugo Cesar Hoeschl




Referências bibliográficas

ALEXANDRE, Silvio. O Autor e sua obra. Anexo a Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2 ed., 1991. CASTORIADIS, Cornélius. As encruzilhadas do labirinto,III: o mundo fragmentado. São Paulo: Paz e Terra, 1992.HAMIT, Francis. Realidade virtual e a exploração do espaço cibernético. Rio de Janeiro: Berkeley, 1993.LEITE, Eduardo de Oliveira. A monografia jurídica. Porto Alegre: Fabris, 1985.

O autor Hugo Cesar Hoeschl, é Mestre em filosofia e teoria geral do direito, especialista em informática jurídica e doutorando em inteligência artificial. 

Fonte digital: RocketEdition -Ed. do Autor -Colocado na Rocket-Library - Disponível em *.rb em www.ebooksbrasil.org  

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Lançamento do livro O Desejo de Lilith


Um descuido dos tradutores da Bíblia revelou o pior dentre todos os demônios. Um velho e decadente detetive de polícia investiga um macabro suicídio, mas o que ele não sabia era que sua vida estava por um fio e seria envolvido em uma conspiração contra toda a humanidade. Uma palavra-chave, transliteração de uma palavra hebraica repetida em 63 trechos da bíblia, dará início à mais sombria das investigações. Uma organização secreta milenar abriga incríveis segredos e bizarras e inimagináveis personagens. Afinal, o que teria em comum Platão, Vlad Tepes, Erzsébet Báthory, John Milton, Thomas Chatterton, Mary Shelley, Percy B. Shelley, Robert L. Stevenson, Aleister Crowley e Jim Morrison? Descubra em O Desejo de Lilith, um romance sobrenatural vivenciado nas principais avenidas e ruas de São Paulo, repleto de segredos, revelações, aventuras e muito rock n’ roll. Mas atenção, seja forte e esteja preparado ao ler estas páginas, pois você não confiará mais em seu vizinho ou qualquer outro transeunte que cruzar o seu caminho. Você nunca mais enxergará o mundo como antes…

Afinal, qual seria o desejo de Lilith?


Sobre o autor:
Ademir Pascale, paulista, linguísta, crítico de cinema, ativista cultural e autor de FC e horror. É autor do audiolivro Cinema: Despertando Seu Olhar Crítico (2008). Organizou as antologias Invasão (2009), Draculea: O Livro Secreto dos Vampiros (2009), Metamorfose: A Fúria dos Lobisomens (2009), No Mundo dos Cavaleiros e Dragões (2010), e juntamente do Maurício Montenegro, Poe 200 Anos (prevista para 2010). É co-editor, juntamente da Elenir Alves, do e-zine TerrorZine: Minicontos de Terror. Mantém o Portal Cranik, já tendo publicado mais de 130 entrevistas. E-mail: ademir@cranik.com



Lançamento:
Dia: 20/02/2010
Local: Bardo Batata: Gastronomia e Cultura. Rua Bela Cintra, nº 1333, Jardins, S. Paulo, SP
Horário: À partir das 18h30



 

Lançamento do livro Poe 200 anos - contos inspirados em Edgar Allan Poe



A antologia reune 22 autores, alguns deles já conhecidos entre os fãs de literatura fantástica.

Uma homenagem ao mestre do horror e do mistério.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Em Órbita


Em Órbita talvez seja o melhor site (em português), para quem deseja acompanhar o atual estágio da exploração espacial, ou se informar sobre detalhes técnicos científicos, podendo até seguir os lançamentos espaciais programados para este ano.

No site você encontra o calendário das missões para 2010, glossário de termos técnicos, o dia-a-dia da Estação Espacial Internacional, música, imagens impressionantes e pode também baixar o excelente boletim informativo em formato pdf.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Nancy Kress


Nancy Anne Koningisor (20 de Janeiro de 1948) nasceu em Buffalo, Nova Iorque (EUA).

Começou a escrever em 1976, mas alcançou seu maior êxito em 1990, com o prêmio Hugo e Nebula, para seu romance "Beggars in Spain".

Além de escritora, trabalhou em uma agência de publicidade, e deu aulas de inglês.

Suas histórias tendem a ser realistas, se passando em um futuro próximo, com uma conexão plausível com o presente. Sua ficção muitas vezes envolve engenharia genética, e em menor grau, a inteligência artificial.

Muitos a comparam a Larry Niven ou Greg Egan, mas com uma maior preocupação com os personagens, com seus pensamentos e sentimentos. Sua Ficção Científica é claramente "soft", menos voltada aos aspectos científicos. Por outro lado, ela é muito mais interessada nos detalhes técnicos, do que, por exemplo, Ursula K. LeGuin. Algumas de suas histórias são caracteizadas pelo suspense e, como ela se define uma amante do balé, ela tem escrito também, histórias em torno deste tema.


Nancy Kress ( Beggars in Spain, Entre tantas estrellas brillantes, Mendigos en Espanã, Probability Moon, Always true to thee in my fashion, And no such thing grow here, And wild for to hold, Arms and the woman, Art of War, Begars series, Borovsky1s Hollow woman, By fools like me, Crossfire, Dancing on air, Evolution, Fault lines, Feigenbaum Number, Fountain of age, In a world like this, Maximun light, My mother dancing, Nano comes to Clifford Falls, Oaths and miracles, Out of all the bright stars, Phillipa's hands, Safeguard, Saviour, Sex and violence, Spillage, Stalking beans, Steamship soldiers on the information front, Stinger, Stone man, Summer wind, The battle of long island, The flowers of aulit prison, The most famous little girl in the world, The montains to Mohammed, The prince of oranges, The rules, The sleepless, Trinity and others stories, Unto the daughters, Westlands preserve, Words like pale stones ) [ Download ]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 16


CAPÍTULO 16
Este capítulo é dedicado a Booksmith de São Francisco, escondida na histórica vizinhança de Haight-Ashbury, poucas portas distante da Ben and Jerry’s na esquina da Haight e Asbury. O pessoal da Booksmith sabe de verdade como promover um evento com um autor - quando eu morava em São Francisco, eu costumava ir lá sempre e ouvia escritores fantásticos falarem. (A vez com William Gibson foi inesquecível). Também faziam pequenos cartões para os autores parecidos com cartões de figurinhas de beisebol - tenho dois, das vezes que apareci por lá.
Booksmith: 1644 Haight St. São Francisco CA 94117 USA +1 415 863 8688

Primeiro, mamãe ficou chocada, depois furiosa e por final deixei-a de queixo caído quando falei sobre os interrogatórios, de urinar-me, e do saco na cabeça, de Darryl. Mostrei-lhe o bilhete.
“Por quê?”
Em cada sílaba, cada recriminação que sofri sozinho à noite, cada momento que me faltou coragem de dizer ao mundo o que realmente havia ocorrido e o verdadeiro motivo de estar lutando. O que realmente inspirou a Xnet.
Fiquei sem fôlego.
“Eles me disseram que eu seria mandado para a cadeia se falasse sobre isso. Não por algum tempo, mas para sempre. Eu estava, estava apavorado.”
Mamãe sentou junto a mim por algum tempo sem dizer nada e então disse:
“E quanto ao pai de Darryl?”
Ela sabia como ninguém como enfiar uma agulha em meu peito. O pai de Darryl. Devia achar que o filho estava morto.
E não estava? Depois do DHS tê-lo mantido preso ilegalmente por três meses, por que o deixaram sair?
Mas Zeb saíra. Talvez Darryl pudesse sair. Talvez eu e a Xnet pudéssemos ajudar Darryl a sair de lá.
“Eu não contei a ele.” eu disse.
Agora era mamãe quem chorava. Ela não costumava chorar com facilidade. Uma faceta britânica. Isso fazia seu choro e soluçar bem pior de ouvir.
“Você tem que lhe contar. Você deve.”
“Eu vou.”
“Mas primeiro temos que falar com seu pai.”

#

Fazia já algum tempo que papai não tinha um período regular em casa. Entre seus clientes de consultoria, tinha bastante trabalho, agora que a DHS estava priorizando tarefas de data-mining pela península e as viagens a Berkeley, ele deveria estar em casa alguma hora entre as seis e meia noite.
Naquela noite mamãe ligou para ele dizendo que viesse agora para casa. Ele disse algo e ela repetiu dizendo que deveria vir agora para casa. Quando ele chegou, estávamos na sala de estar com o bilhete sobre a mesa de café. Seria mais fácil falar uma segunda vez. O segredo agora estava mais suave. Eu não  precisava embelezar a verdade, não precisava esconder nada.
Já tinha colocado coisas a limpo antes, mas eu nunca entendia o que significava fazê-lo até aquele momento. Manter segredo tinha me prejudicado, machucado meu espírito. Me fez ter medo e vergonha. Me tornava tudo que Ange disse que eu era.
Papai sentou-se tenso, sua face dura como pedra. Quando eu passei para ele o bilhete, ele o leu duas vezes e então o depositou de volta a mesa com cuidado.
Balançou a cabeça, levantou-se e foi para a porta da frente.
“Onde você vai?” mamãe perguntou alarmada.
“Preciso andar.” foi tudo que ele conseguiu dizer, com a voz entrecortada.
Nos olhamos sem jeito, e esperamos que ele voltasse. Eu tentava imaginar o que passava em sua cabeça. Ele tinha se tornado uma pessoa diferente desde a explosão da ponte e eu soube pela mamãe que o que o fizera mudar foi pensar naqueles dias que eu estava morto. Ele acreditara que os terroristas tinham assassinado seu filho e isso o fez enlouquecer.
Foi o bastante para fazer o que quer que a DHS pedisse, o bastante para se tornar a boa ovelhinha e deixar-se ser controlado, guiado.
Agora ele sabia que fora a DHS que me mantivera preso, o DHS tinha mantido as crianças de São Francisco hospedadas no presídio da baia. Fazia sentido agora que eu pensava nisso. Era claro que tinha sido a Treasure Island onde tínhamos ficado. Onde mais podíamos chegar de barco em dez minutos saindo de São Francisco?
Quando papai voltou, estava mais zangado do que jamais estivera em sua vida.
“Você tinha que ter me contado!” esbravejou comigo.
Mamãe se interpôs entre nós. “Você está culpando a pessoa errada. Não foi Marcus quem raptou e intimidou.”
Ele balançou a cabeça e disse “Não culpo Marcus. Sei exatamente de quem é a culpa. Minha. Minha e da estúpida DHS. Vistam seus casacos!”
“Onde vamos?”
“Ver o pai de Darryl. Depois vamos até Barbara Stratford.”

#

Eu conhecia o nome Barbara Stratford de algum lugar, mas não me lembrava de onde. Pensei que fosse uma amiga dos velhos tempos dos meus pais, mas não conseguia saber exatamente de onde.
Enquanto isso, fui levado até a casa do pai de Darryl. Eu nunca me sentia bem perto do velho, que tinha sido operador de rádio da Marinha e comandava sua casa como um navio. Ele tinha ensinado Morse a Darryl quando era ainda pequeno, o que eu sempre achei muito legal. Isso foi um dos motivos de acreditar na carta de Zeb. Mas para cada coisa legal como o código Morse, o pai de Darryl tinha algum tipo de disciplina militar que parecia ser para sua própria segurança, como insistir em aparelhar as quinas das camas com proteções e se barbear duas vezes ao dia. Isso deixava Darryl louco!
A mãe de Darryl não gostara também disso e foi embora, viver com sua família em Minnesota, quando Darryl tinha dez anos - Darryl passava os feriados de verão e Natal com ela.
Eu estava sentado no banco de trás e podia ver a parte de trás da cabeça do papai enquanto dirigia. Os músculos de seu pescoço estavam tensos e saltavam quando movia o maxilar.
Mamãe mantinha uma das mãos no braço dele, mas não havia ninguém para me consolar. Se eu ao menos pudesse falar com Ange. Ou Jolu ou Van. Talvez eu falasse com eles depois.
“Ele deve ter enterrado o filho em sua mente.” disse papai enquanto fazia as curvas que levavam a Twin Peaks até a pequena casa que Darryl e seu pai dividiam. A neblina fechada de Twin Peaks, como toda noite em São Francisco e os faróis refletiam de volta nela. Sempre que virávamos uma curva, eu vi ao vale e a cidade lá embaixo, bolas de luz tremulas movendo-se na névoa.
“É aqui?”
“Sim.” eu disse. “É aqui.” Fazia tempo que não estava com Darryl, mas tinha passado anos bastantes ali para reconhecer a casa logo que a vi.
Ficamos os três junto do carro por um pouco, esperando para ver quem iria tocar a campainha na casa. Para minha surpresa, fui eu.
Toquei a campainha e esperamos em silêncio, com a respiração suspensa. Toquei de novo. O carro do pai de Darryl estava na entrada e tínhamos visto uma luz na sala. Eu estava indo tocar de novo quando a porta abriu.
“Marcus?” o pai de Darryl não se parecia com o que eu lembrava. Barbado, em roupas de ficar em casa e descalço, unhas por cortar e olhos vermelhos. Tinha engordado e um queixo extra crescera sob a mandíbula firme militar. O cabelo desgrenhado e farto.
“Senhor Glover.” eu disse. Meus pais se aproximaram atrás de mim.
“Oi, Ron.” disse minha mãe.
“Ron.” meu pai disse.
“Vocês também? O que foi?”
“Podemos entrar?”

#

Sua sala de estar parecia com um daqueles lugares que aparecem em noticiários sobre crianças que são abandonadas por meses, vivendo por conta própria, até serem resgatadas por vizinhos. Caixas de comida congelada, latas vazias de cerveja, garrafas vazias de suco, vasilhas de cereais e pilhas de jornais velhos. Havia um cheiro ruim de urina de gato e lixo sob nossos pés. Mesmo sem a urina de gato, o cheiro era terrível, como o do banheiro da estação de ônibus.
O sofá estava coberto com um lençol cinzento e dois travesseiros sebosos de uso.
Ficamos parados ali por algum tempo em silêncio, o embaraço acima de qualquer outra emoção. O pai de Darryl parecia como se quisesse morrer.
Lentamente afastou o lençol do sofá e limpou a área, levando o que podia para a cozinha e ouvimos um barulho como se tudo tivesse sido largado no chão.
Sentamos nos lugares que ele limpou e quando voltou, ele se sentou também.
“Desculpe,” disse vagamente “não tenho café para oferecer a vocês. Vou precisar fazer compras amanhã...”
“Ron.” disse meu pai, “Ouça, temos algo a lhe dizer, e não será fácil de ouvir.”
Ele sentou-se como uma estatua enquanto eu falava. Olhou para o bilhete, leu sem parecer ter entendido e o devolveu para mim.
Ele tremia.
“Ele está...”
“Darryl está vivo.” eu falei. “Darryl está vivo e preso na Treasure Island.”
Ele cobriu a boca com a mão e fez um barulho terrível.
“Temos uma amiga.” meu pai falou. “Ela escreve para o Bay Guardian. Ela é repórter investigativa.”
Era daí que eu conhecia o nome. O semanal Guardian tinha perdido vários repórteres para os jornais diários e para a internet, mas Barbara Stratford sempre esteve nele. Tinha uma vaga memória de ter estado em um jantar com ela quando criança.
“Estamos indo agora falar com ela.” Minha mãe disse. “Você vem conosco, Ron? Pode contar a ela sobre Darryl?”
Ele colocou o rosto entre as mãos e respirou pesadamente. Papai tentou colocar a mão em seu ombro, mas ele se desviou violentamente.
“Preciso tomar um banho. Esperem um minuto.”
Quando o senhor Glover desceu as escadas era outro homem Tinha se barbeado, penteado e vestido um uniforme militar com medalhas ao peito. Fez um gesto para suas roupas e disse:
“Não tenho muita coisa limpa que seja apresentável no momento. E isso me pareceu apropriado. Vocês sabem, se ela quiser tirar fotografias.”
Ele e papai saíram na frente e eu logo atrás. De perto, ele cheirava um pouco a cerveja, como se ela saísse de seus poros.

#

Era por volta da meia noite quando batemos na porta de Barbara Stratford. Ela vivia fora da cidade, em Mountain View, e durante o caminho pela rodovia 101, ninguém disse uma palavra.
Aquela era uma área da Baía diferente de onde eu vivia; parecia mais com o subúrbio Americano que aparece na televisão. Muitas casas semelhantes, onde não se via mendigos empurrando carrinhos de feira pela calçada, e nem mesmo havia calçadas.
Mamãe havia telefonado para Barbara Stratford enquanto esperávamos o senhor Glover se aprontar. A jornalista estava dormindo,  mas mamãe estava tão tensa que toda aquela fleuma britânica foi esquecida assim como qualquer embaraço por acordá-la. Disse a ela, bastante nervosa, que tinha algo para falar e que tinha que ser pessoalmente.
Quando saíamos para ver Barbara, meu primeiro pensamento foi na série Brady Bunch - uma casa rancho com muros de tijolos em frente e perfeitamente quadrado Chegamos à entrada e vimos que as luzes estavam acesas dentro de casa.
Ela abriu a porta antes que tivéssemos chance de usar a campainha. Ela devia ter a idade dos meus pais, uma mulher alta e magra, com a feição de uma águia e olhos apertados com rugas. Usava jeans que poderiam ser vistos nas vitrines das butiques de Valencia Street e uma blusa solta de algodão indiana bem comprida. Pequenos óculos redondos que brilharam na luz da entrada.
Sorriu um sorriso pequeno para nós.
“Vieram com a turma toda, pelo que vejo.” ela disse.
Mamãe assentiu: “Você entenderá o porquê em um minuto.” O senhor Glover entrou junto com meu pai.
“E você serviu na Marinha?”
“Nos bons tempos.”
Fomos apresentados e ela tinha um aperto de mão bastante firme de dedos longos.
Sua casa era repleta de mobiliário minimalista estilo japonês, precisamente proporcional, móveis baixos, vasos de barro com bambu que subiam ao teto e o que parecia ser uma peça rústica de motor diesel sobre uma mesa polida de mármore. Gostei. O chão era de madeira velha, ariada, dando para ver brechas e cortes sob o verniz. Realmente gostei daquilo.
“Fiz café. Alguém vai querer?”
Todos erguemos as mãos. Eu desafiava meu pais.
“Certo.” ela disse.
Ela desapareceu em outra sala e voltou de lá depois com uma bandeja de bambu com garrafas térmicas de meio galão e seis copos com o mesmo design rústico. Gostei também.
“Agora.” ela disse depois de nos servir. “É bom ver vocês de novo. Marcus, a última vez que o vi, devia ter uns sete anos de idade. Me lembro que estava excitado com seu novo videogame, e mostrou-o para mim.”
Eu não lembrava disso, mas soou como algo que eu faria os sete anos. Deveria ser meu Sega Dreamcast.

Ela trouxe um gravador, um bloco amarelo e lápis.
“Estou aqui para ouvir o que quer que tenham para me dizer e prometo que será mantido em segredo. Mas eu não posso prometer que farei algo com isso ou que será publicado.’
Do jeito que ela disse aquilo me fez ver que minha mãe pedira um grande favor ao tirá-la da cama, sendo amiga ou não. Devia ser um saco ser um grande nome da investigação jornalística. Provavelmente um milhão de pessoas devia querer envolvê-la em suas causas.
Mamãe me fez um sinal. Eu já tinha contado a história três vezes aquela noite e estava cansado de falar. Era diferente de contar para meus pais. Diferente de contar para o pai de Darryl. Era como começar um novo movimento no jogo.
Comecei devagar e olhava Barbara tomando notas. Bebi uma xícara toda de café antes de dizer como funcionava o ARG e como fugíamos da escola para jogar. Mamãe e papai e o senhorGlover ouviam com atenção esta parte. Peguei de outra xícara e bebi antes de dizer como tínhamos sido capturados. Então contei a história toda; eu precisava sair dali e ir ao banheiro urinar.
Seu banheiro era tão bacana quanto a sala, com sabão orgânico que cheirava bem. Quando voltei os adultos me olhavam silenciosos.
A seguir, o senhor Glover contou sua história. Não tinha nada a dizer sobre o que aconteceu conosco, mas contou que era um veterano e que seu filho era um bom garoto. Falou sobre como se sentiu acreditando que seu filho estava morto, como sua ex-esposa teve um colapso quando soube e acabou no hospital. Chorou um pouco, as lagrimas correndo seu rosto marcado e escurecendo o colarinho de seu uniforme.
Quando terminou, Barbara foi até outra sala e voltou com uma garrafa de uísque escocês.
“É um Bushmills 15 anos.” ela disse distribuindo quatro copos pequeninos. Nenhum para mim.
“Foi vendido há dez anos e acho que este é o momento apropriado para abri-lo.”
Ela serviu os quatro copinhos, ergueu o seu e bebeu metade do copo. Os outros adultos a imitaram. Beberam mais uma vez e terminaram. Ela serviu novamente.
“Certo.” ela falou. “Isso é o que posso dizer agora a vocês. Eu acredito em vocês. Não apenas por que conheço você, Lilian. A história faz sentido, e bate com alguns rumores que ouvi. Mas as suas palavras não bastam, vou precisar investigar cada aspecto disso, e cada elemento de suas vidas e histórias. Preciso saber se tem alguma coisa que não me disseram, algo que possa ser usado para desacreditá-los depois que isso vier a luz. Preciso de tudo. Podem passar muitas semanas antes de isso ser publicado.”
“Vocês precisam pensar na segurança de vocês e na de Darryl. Se ele está realmente sob o controle deles, qualquer pressão sobre a DHS pode levá-los a mudá-lo para algum lugar distante, quem sabe a Síria. Podem inclusive fazer algo pior.” Fez aquele gesto no ar. Eu sabia que ela queria dizer como eles poderem matá-lo.
“Vou escanear agora este bilhete. Preciso de fotos de vocês dois, agora e depois, posso mandar um fotografo, mas quero documentar isso como puder ainda esta noite.”
Fui com ela até seu escritório e escaneamos. Eu esperava um estiloso, porém antigo computador que cominasse com a decoração, mas ao invés disso em seu escritório havia um PC de última geração, top de linha, grandes monitores de tela plana e um scanner grande o bastante para registrar uma pagina inteira de jornal aberta. Ela foi rápida com aquilo também. Notei com aprovação que ela rodava ParanoidLinux. Aquela senhora levava seu trabalho a sério.
“Um, Barbara?”
‘Sim?”
“Quando você disse sobre poderem usar algo para me desacreditarem...”
“Sim?”
‘O que vou te dizer agora você não poderá repetir para ninguém, certo?”
“Em teoria. Deixe-me dizer deste jeito. Prefiro ir para a prisão do que revelar minha fonte.”
“Ok, ok, Bom. Prisão. Ok.” Respirei fundo. “Ouviu falar da Xnet? De M1k3y?”
“Sim.”
“Eu sou M1k3y.”
“Oh.” ela disse. Ela trabalhava escaneando o lado oposto do bilhete. Escaneava numa resolução absurda de 10.000 pontos por polegada ou mais, e na tela parecia algo como o resultado de um microscópio de túnel de elétrons.
“Bem, com isso a coisa muda de figura.”
“Sim.” eu disse “Imaginei que sim.”
“Seus pais não sabem.”
“Nadinha. E acho que não quero contar para eles.”
“É algo que você vai precisar pensar. Eu preciso de tempo para pensar sobre isso. Você pode vir ao meu trabalho? Eu gostaria de conversar sobre exatamente o que isso significa.”
“Você tem um Xbox Universal? Eu instalar para você.”
“Sim, acho que posso arranjar um. Quando for ao meu escritório, diga que Mister Brown deseja me ver. Eles sabem o que significa. Ninguém irá anotar sua presença e toda gravação feita pelas câmeras de segurança naquele dia será automaticamente limpa e as câmeras desativadas até que vá embora.”
“Uau. Você pensa como eu.”
Ela sorriu e me deu um tapinha no ombro. “Garoto, eu estou neste jogo faz tempo. Sendo assim, faço o que posso para passar mais tempo livre do que atrás das grades. A paranóia é minha amiga.”

#

Eu parecia um zumbi na escola no dia seguinte. Tinha dormido apenas três horas de sono e mesmo três copos daquela lama de cafeína tinham falhado em despertar meu cérebro. O problema com a cafeína é que é muito fácil se assimilar e cada vez mais você precisa de doses maiores do que o normal.
Passei a noite pensando o que eu faria. Parecia correr através de diversas passagens, porém todas conduziam ao mesmo beco sem saída. Quando fosse ver Barbara estaria feito. Não importava o que eu pensasse.
Finalmente a aula acabou e tudo que eu queria era ir para casa e cair na cama. Mas eu tinha um encontro, lá no Bay Guardian, junto ao cais. Meus olhos não saíam dos meus pés e quando eu cheguei na rua 24 outro par de pés estava na minha frente. Reconheci-os e parei.
“Ange?”
Ela se parecia comigo. Estava sem dormir, com olheiras de guaxinim.
“Oi! Surpresa! Me liberei da aula de francês na escola. Eu não conseguia me concentrar mesmo.”
“Hum.” eu disse.
“Cala a boca e me dá um abraço, seu idiota.”
Eu dei. E foi bom. Mais do que bom. Senti-me como se uma parte que tivesse sido amputada de mim tivesse sido recolocada de volta.
“Eu te amo, Marcus Yallow.”
“Eu te amo, Ângela Carvelli.”
 “Ok.” ela falou mudando de assunto. “Gostei do seu post sobre não fazer interferência. Posso entender. E o que você fez a respeito de encontrar um jeito de bagunçar a casa deles sem ser preso?”
“Estou a caminho de encontrar-me com uma jornalista investigativa que vai publicar a historia de como fui parar na cadeia, como comecei a Xnet e como Darryl está sendo mantido preso irregularmente pela DHS numa prisão secreta na Treasure Island.”
Ela olhou ao redor. “Você não acha que está sendo, você sabe, ambicioso?”
“Quer vir?”
“Quero sim. E queria que explicasse isso em detalhes, se não se importa.”
Depois de recontar tantas vezes, esta vez, enquanto caminhávamos de Potrero Avenue até a rua 15, foi a mais fácil. Ela segurava minha mão e às vezes a apertava.
Subimos as escadas até os escritórios do Bay Guardian de dois em dois. Meu coração pulava. Cheguei à recepção e a mesa da recepção e disse a moça entediada trás dela “Estou aqui para ver Barbara Stratford. Meu nome é Mister Green.”
“Acho que quer dizer Mister Brown.”
“Sim! Mister Brown.” Disse, corando.
Ela fez algo em seu computador e disse: “Sente-se. Barbara irá atendê-lo num minuto. Posso lhe servir alguma coisa?”
“Café!” dissemos em uníssono. Outra razão para amar Ange era que éramos viciados na mesma droga.
A recepcionista, uma pequena latina pouco mais velha que nós, vestida no estilo GAP já tão antigo que passava atualmente como um tipo de hipster-retro, assentiu e saiu, voltando depois com um par de xícaras.
Bebemos em silêncio, observando os visitantes e repórteres indo e vindo. Por fim Barbara veio até nós. Vestia praticamente a mesma roupa da noite anterior. Caía bem nela. Levantou uma sobrancelha para mim quando viu que eu estava acompanhado.
“Olá! Hum, esta é...”
“Senhorita Brown.” disse Ange estendendo uma mão. Sim, lógico, nossas identidades supostamente deviam ser secretas.
“Eu trabalho com Mister Green.” ela me deu uma cotovelada de leve.
“Vamos, então.” disse Barbara e nos levou para uma sala com grandes paredes de vidro com persianas baixas. Ela trouxe uma tigela de algo similar aos biscoitos Oreo orgânicos da Whole Foods, um gravador digital e um bloco amarelo.
“Vai querer gravar também?” ela perguntou.
Eu não tinha pensado nisso. Conseguia ver algum uso caso eu quisesse contestar o que Barbara publicasse, pensei. Ainda assim, se não podia confiar que ela faria a coisa certa, tudo estaria mesmo perdido.
“Não, tudo bem.” eu disse.
“Certo, vamos começar. Minha jovem, meu nome é Barbara Stratford e sou repórter investigadora. Acho que sabe por que estou aqui e estou curiosa de saber o porquê de você estar aqui.”
“Trabalho com Marcus na Xnet” ela disse. “Precisa saber meu nome?”
“Agora não.” Barbara disse. “Pode ficar anônima, se quiser. Marcus, eu lhe pedi para me contar esta história porque eu preciso saber como isso se liga ao que você me contou sobre seu amigo Darryl e o bilhete que me mostrou. Posso usar isso para explicar a origem da Xnet. ‘Eles criaram um inimigo do qual nunca se esquecerão’, este tipo de coisa. Mas honestamente, eu preferia não ter que contar esta história se não precisasse.”
“Eu preferia uma história clara contando sobre uma prisão secreta bem à nossa porta, sem ter que argumentar sobre os prisioneiros serem o tipo de pessoas que caminham por aí e criam um movimento underground para desestabilizar o governo federal. Tenho certeza que você entende.”
Eu entendia. Se a Xnet fizesse parte da história, alguns iriam dizer, “Veja, eles precisam colocar estes caras na prisão ou eles começarão uma rebelião.”
“O show é seu, Barbara. Acho que você precisa dizer ao mundo sobre Darryl. Quando fizer isso, estará dizendo a DHS que eu vim a público e eles virão atrás de mim. Talvez eles pensem que estou envolvido com o Xnet. Talvez me liguem ao M1k3y. Acho que o que quero dizer é que, uma vez que você publique a história sobre o Darryl, tudo terá acabado para mim. Assim, ficarei em paz.”
“Tanto faz ser preso por roubar um porco ou por dois.” ela disse. “Certo. Estamos de acordo. Quero me vocês me contem tudo sobre a fundação e a operação da Xnet e depois eu quero uma demonstração. O que vocês usam? Quem mais usa? Como se disseminou? Quem escreveu o software, tudo!”
“Vai levar algum tempo.” disse Ange.
“Eu tenho algum tempo.” disse Barbara. Bebeu café e mordeu um Oreo de mentira. “Esta pode ser a história mais importante da Guerra contra o Terror. Pode ser a história que irá desnudar o governo. Quando você tem uma história destas, você precisa ser cuidadoso.”



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 16 [ Download ]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

The best time travel stories of the 20th Century



We’re all time travellers, whether we know it or not.
We go into the future at a steady rate of one second per second, and we leave the past behind.

New things come along.

Old things are forgotten.

My own lifetime—neither especially long nor especially short these days—has seen the rise of antibiotics, AIDS, space travel, television, CDs, videotape, DVDs, Richard Nixon (twice), civil rights, women’s rights, gay rights, cell phones, the computer, and the Internet. It’s seen the fall of Communism, segregation, records, smallpox (we hope!), polio, Richard Nixon (twice), the Twin Towers, and the idea that smoking is cool.
[...]
The short fiction collected here looks at similar ideas and some wildly different ones. The pieces speak for themselves; anything I say about them, I fear, would only get in the way. The only thing I can be fairly sure of is that you’ll like most of them. Enjoy!


Table of Contents
Introduction by Harry Turtledove    

Yesterday Was Monday by Theodore Sturgeon    

Time Locker by Henry Kuttner    

Time’s Arrow by Arthur C. Clarke    

Death Ship by Richard Matheson    

A Gun for Dinosaur by Lyon Sprague De Camp    

The Man Who Came Early by Poul Anderson    

Rainbird by R. A. Lafferty    

Leviathan! by Larry Niven    

Anniversary Project by Joe Haldeman    

Time Tipping by Jack Dann    

Fire Watch by Connie Willis    

Sailing to Byzantium by Robert Silverberg    

The Pure Product by John Kessel    

Trapalanda by Charles Sheffield    

The Price of Oranges by Nancy Kress    

A Fisherman of the Inland Sea by Ursula K. Le Guin    

About the Editors    
Permissions   


The best time travel stories of the 20th Century [ Download ]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

I Talked with a Zombie















TABLE OF CONTENTS
Acknowledgments
Richard Alden
Eric Braeden
Ann Carter
Robert Colbert
Robert Conrad on The Wild Wild West
James Darren on The Time Tunnel
Maury Dexter
Pat Fielder
Richard Gordon on Svengali (1954)
Ron Harper on Planet of the Apes
Charles Herbert
Jimmy Lydon on Rocky Jones, Space Ranger
Lee Meriwether on 4D Man and Batman
Laurie Mitchell
Tandra Quinn
William Reynolds
Betta St. John
Hans J. Salter (Interview by Preston Neal Jones)
Jay Sayer
Olive Sturgess
Frankie Thomas, Al Markim and Jan Merlin on Tom Corbett, Space Cadet
Index

I Talked with a Zombie - Interviews with 23 Veterans of Horror and Sci-Fi Films and Television - Tom Weaver [ Download ]

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

The History of Science Fiction



Science fiction is too large a subject to be represented exhaustively in a Critical History, even in one such as this, which has been allowed fairly ample dimensions. The reader seeking greater comprehensiveness is advised to consult John Clute and Peter Nicholls’ astonishingly full Encyclopedia of Science Fiction.

The present study is not a complete account of the genre, but rather an attempt to trace a line that connects one specific mode of ‘fantastic’ literature, which we now call science fiction, from earliest times through to the present day.

The majority of texts examined are novels, short or long, and these remain the dominant form of SF, although the ‘short story’ (a slightly different thing from ‘short novels’), cinema, television, comic books and other forms of cultural production play an increasingly large part in the later stages.

As a Critical History, this work also has a certain case to make. I hope to avoid tendentiousness, but my argument is not neutral – even if such a thing as a purely neutral critical argument could exist – and I sketch
it out here so that readers can be forewarned and prepare themselves to read what follows in a sympathetic or hostile frame of mind, whichever suits them better.


Preface
1. Definitions
2. Science Fiction and the Ancient Novel Interlude: AD 400–1600
3. Seventeenth-Century Science Fiction
4. Eighteenth-Century Science Fiction
5. Early Nineteenth-Century Science Fiction
6. Science Fiction 1850–1900
7. Jules Verne and H. G. Wells
8. The Early Twentieth Century: High Modernist Science Fiction
9. Early Twentieth-Century Science Fiction: The Pulps
10. Golden Age Science Fiction 1940–1960
11. The Impact of New Wave Science Fiction 1960s–1970s
12. Science Fiction Screen Media 1960–2000: Hollywood Cinema and Television
13. Prose Science Fiction 1970s–1990s
14. Late Twentieth-Century Science Fiction: Multimedia, Visual Science Fiction and Others
Postscript: Twenty-First-Century Science Fiction
Chronology of Key Titles in Science Fiction and Developments in Science
Notes
Further Reading
Index

The History of Science Fiction - Adam Roberts [ Download ]

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Perilous Planets


INTRODUCTION

Long before I began compiling this book, I could see what it had to contain. Its title and its contents leaped at me while I was working on the first anthology in this series, Space Opera*, three years ago.

For the majority of readers new to science fiction, a landing on another planet - a planet, because unknown, even more perilous than Earth - must be their peak experience of the genre. If they don't get the true sf charge out of touchdown on Procyon v, they will never get any charge at all. The cutting edge of science fiction lies along the interface between the known and the unknown.

So what I wanted for my anthology was that seminal story in which our brave astronauts, or space-travellers as they used to be called, make the first-ever voyage through space, see the stars like jewels flung into the sack of night, and touch down on a totally unknown planet. There they jump out to test the atmosphere, find it even better than Earth's, and take a stroll amid the glorious scenery. Whereupon something awful appears and - according to which seminal story you read -attempts to eat them, warps their minds with obscene telepathic messages, or captures them and takes them into subterranean tunnels.

It was a fantastic story, one you remember for the rest of your life. My trouble was, I had forgotten which story it was. For months, I leafed my way through my library, looking for the seminal story. I found plenty of stories like it, but never that actual story. Eventually the truth dawned. That seminal story had no actual existence. It was a creation of my memory, compounded from elements common to many similar firstlanding stories. It was, you might say, a folk memory of landing on a strange planet.

(* Space Opera was followed by Space Odysseys, Evil Earths, and Galactic Empires (in
two volumes), all from the publishers of this companion volume.)



CONTENTS
Introduction

'How Are They All on Deneb IV ?'
C. C. Shackleton

SECTION 1 UNINHABITED PLANETS
'. . . Because They're There'
Mouth of Hell
David I. Masson

Brightside Crossing
Alan E. Nourse

The Sack
William Morrison

SECTION 2 INHABITED PLANETS

Whatever Answers the Door . . .
The Monster
A. E. van Vogt

The Monsters
Robert Sheckley

Grenville's Planet
Michael Shaara

Beachhead
Clifford D. Simak

SECTION 3 A DASH OF SYMBOLS

No Names to the Rivers
The Ark of James Carlyle
Cherry Wilder

On the River
Robert F. Young

Goddess in Granite
Robert F. Young

The Seekers
E. C. Tubb


SECTION 4 MARS AND VENUS
Love and War

When the People Fell
Cordwainer Smith

The Titan
P. Schuyler Miller

SECTION 5 BECOMING MORE ALIEN
A Universal Home Truth

Four in One
Damon Knight

The Age of Invention
Norman Spinrad

The Snowmen
Frederik Pohl

Schwartz Between the Galaxies
Robert Silverberg

Afterword



Perilous Planets - Antologia organizada por Brian Aldiss [ Download ]

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Watching Doctor Who and Star Trek



Why are Star Trek and Doctor Who so popular? These two science fiction series have both survived cancellation and continue to attract a huge community of fans and followers. Doctor Who has appeared in eight different TV and film guises and Star Trek is now approaching its fourth television incarnation. Science Fiction Audiences examines the continuing popularity of two television ‘institutions’ of our time.

Through dialogue with fans and followers of Star Trek and Doctor Who in the US, Britain and Australia, John Tulloch and Henry Jenkins ask what it is about the two series that elicits such strong and active responses from their audiences. Is it their particular intervention into the SF genre? Their expression of peculiarly
‘American’ and ‘British’ national cultures? Their ideologies and visions of the future, or their conceptions of science and technology? None of these works in isolation, because, as the plentiful interviews with fans and followers illustrate, audiences actively play with their entertainment according to complex and shifting categories of recognition, competence and pleasure.

Science Fiction Audiences responds to a rich fan culture which encompasses debates about fan aesthetics, teenage attitudes to science fiction, queers and Star Trek, and ideology and pleasure in Doctor Who. It is a book both for fans of the two series, who will be able to continue their debates in its pages, and for students of media and cultural studies, offering a historial overview of audience theory in a fascinating synthesis of text, context and audience study.

Part I
1 Beyond the Star Trek phenomenon: reconceptualizing the science fiction audience
Henry JenkinsJohn Tulloch

2 Positioning the SF audience: Star Trek, Doctor Who and the texts of science fiction
John Tulloch

3 The changing audiences of science fiction
John Tulloch

Part II
4 ‘Throwing a little bit of poison into future generations’: Doctor Who audiences and ideology
John Tulloch

5 ‘It’s meant to be fantasy’: teenage audiences and genre
John Tulloch

6 ‘But why is Doctor Who so attractive?’: negotiating ideology and pleasure
John Tulloch

7 ‘But he’s a Time Lord! He’s a Time Lord!’: reading formations, followers and fans
John Tulloch

8 ‘We’re only a speck in the ocean’: the fans as powerless elite
John Tulloch

Part III
9 ‘Infinite diversity in infinite combinations’: genre and authorship in Star Trek
Henry Jenkins

10 ‘At other times, like females’: gender and Star Trek fan fiction
Henry Jenkins

11 ‘How many Starfleet officers does it take to change a lightbulb?’: Star Trek at MIT
Henry Jenkins

12 ‘Out of the closet and into the universe’: queers and Star Trek
Henry Jenkins

Notes
Index



Watching Doctor Who and Star Trek [ Download ]

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lançamento do livro - Paradigmas volume 4

A Tarja Editorial lança o quarto volume da “Coleção Paradigmas”, trazendo 13 autores com contos fantásticos de ficção científica, fantasia e terror.

Segundo Richard Diegues, escritor e organizador da coleção, “os livros da coleção reúnem autores que realmente estão fazendo a diferença na atualidade, formando um retrato de alta qualidade da produção
contemporânea”.

Existem pouquíssimas coleções no Brasil que chegam ao seu terceiro número e somente o fato dessa ter alcançado o quarto, jê é motivo de comemoração.



A palavra paradigma se origina do grego parádeigma, que em seu sentido literal quer dizer modelo, um padrão a ser seguido. Na literatura seria algo partilhado por diversos autores, como um fluxo de pensamentos que culmina em idéias semelhantes. É um termo complexo que aponta algo simples: os limites de uma idéia, o molde para se manter dentro dessas balizas. A proposta da coleção é apresentar contos incomuns, mesmo que baseados em paradigmas consagrados.

A arte de capa deste volume apresenta vários quadros, remetendo ao confinamento que o próprio homem impôs à mente criativa e o discernimento comum. Tudo possui um padrão, como indica a espiral áurea. Estética, métrica e simétrica a serviço do bom senso, da unicidade de estilos. Mas mesmo na natureza existe o caos. Na beleza das formas assimétricas e, ainda assim, surpreendentes em sua perfeição. A concepção não deve ser encarcerada. Abra a cabeça. Quebre os paradigmas!


Os autores que participam deste terceiro volume da coleção são: Adriana Rodrigues (MG), Ana Lúcia Merege (RJ), Carlos Abreu (RJ), Fábio Fernandes (RJ), Georgette Silen (SP), Leonardo Pezzella Vieira (SP), M. D. Amado (MG), Marcelo Jacinto Ribeiro (SP), Richard Diegues (SP), Rober Pinheiro (CE), Roberta Nunes (SP), Ronaldo Luiz Souza (MG)e Sandro Côdax (SP).


A Tarja Editorial é a maior editora exclusiva de Ficção Brasileira, e neste ano lançará onze novos títulos dentro dessa linha, apostando em novos nomes da literatura fantástica brasileira. O livro pode ser encontrado em pré-venda, no site da Tarja Livros e nas maiores livrarias físicas e virtuais à partir do lançamento.