quarta-feira, 17 de março de 2010

Technophobia! Science Fictions Visions of Posthuman Technology


Techno-heaven awaits you. You will be resurrected into posthuman immortality when you discard your body, digitize your mind, and download your identity into the artificial brain of a computer.

Cyberexisting in virtual reality, you will live forever in a perfect simulation of divine bliss.

This techno-heaven is envisioned by a cult of techno-priests—scientists and their apostles—who profess a religious faith that the god Technology will eliminate the pain and suffering of humans by eliminating humans. These techno-utopians fervently believe that technological progresswill lead to perfection and immortality for the posthuman, cyborg descendants of a flawed, inevitably extinct humanity.

Is this a happy dream or a dismal nightmare?

In contrast to this bright vision of a pain-free, posthuman technoheaven, science fiction frequently paints a dark picture of technology. From the destructive robot-witch of Metropolis (1926) to the parasitic squid machines of The Matrix Revolutions (2003), the technologized creatures of science fiction often seek to destroy or enslave humanity.

Science fiction shows the transformation into the posthuman as the horrific harbinger of the long twilight and decline of the human species.

In its obsession with mad scientists, rampaging robots, killer clones, cutthroat cyborgs, humanhating androids, satanic supercomputers, flesh-eating viruses, and genetically mutated monsters, science fiction expresses a technophobic fear of losing our human identity, our freedom, our emotions, our values, and our lives to machines.

Like a virus, technology autonomously insinuates itself into human life and, to ensure its survival and dominance, malignantly manipulates the minds and behavior of humans.

This book explains the dramatic conflict between the techno-utopia promised by real-world scientists and the techno-dystopia predicted by science fiction.

Such technophobic science fiction serves as a warning for the future, countering cyber-hype and reflecting the realworld ofweaponized, religiously rationalized, and profit-fueled technology.



Introduction: Dreams of Techno-Heaven, Nightmares of Techno-Hell

o n e
Technology Is God: Machine Transcendence

t w o
Haunted Utopias: Artificial Humans and Mad Scientists

t h r e e
Cybernetic Slaves: Robotics

f o u r
Machines Out of Control: Artificial Intelligence and Androids

f i v e
Rampaging Cyborgs: Bionics

s i x
Infinite Cyberspace Cages: The Internet and Virtual Reality

s e v e n
Engineered Flesh: Biotechnology

e i g h t
Malevolent Molecular Machines: Nanotechnology

n i n e
Technology Is a Virus: Machine Plague

t e n
Epilogue: Technophobia

Notes
Bibliography
Index


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terça-feira, 16 de março de 2010

Mysteries in Space - The Best of DC Science Fiction Comics













































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segunda-feira, 15 de março de 2010

TR2N



A tão esperada continuação do inesquecível filme TRON, parece estar certa para aparecer nas telas em 2010, e recentemente um trailler chegou na internet, anunciando que o projeto tem tudo para ser um dos sucessos do ano.



Para quem não se lembra do filme original de 1982 (baseado em um game de sucesso), o programador de computadores da ENCOM Software, Kevin Flynn (Jeff Bridges), é "digitalizado" para dentro do computador e precisa lutar para sobreviver.

Na continuação, TR2N (Ou TRON - O Legado), o filho de Flynn, Sam (Garret Hedlund), está pesquisando o sumiço do pai, quando é transportado acidentalmente para aquele universo digital.

O filme (em 3D) tem previsão de lançamento para o final do ano de 2010, mas até lá , iremos 'babando' com os traillers que a Disney vai, pouco a pouco, deixando escapar...


domingo, 14 de março de 2010

Richard Matheson



Richard Matheson (20 de Fevereiro de 1926) nasceu em New Jersey (EUA) e cresceu no Brooklynn. Formou-se em jornalismo e foi soldado da Infantaria na Segunda Grande Guerra.

Filho de imigrantes noruegueses, escritor e roteirista, é mais conhecido por seus romances de ficção científica e terror, além de ser autor de diversos episódios de séries americanas famosas, como The Twilight Zone e Kolchak.

Graças a sua versatilidade, seu estilo 'visual', e talvez ao seu conhecimento nos estúdios de Hollywood, teve seus livros diversas vezes adaptados para o cinema, como Duel (Encurralado), The Shrinking Man (O incrível homem que encolheu), I am Legend (A Última esperança da Terra, The Last Man on Earth e mais recentemente Eu sou a Lenda, com Will Smith), What Dreams May Come (Amor além da Vida), Stir of Echoes, Bid Time Return (Em algum lugar do passado) e Hell House (The Legend of Hell House).

Uma caracteristica da obra de Matheson e que talvez explique esta sua longa lista de sucessos levados para a televisão e para o cinema, talvez se deva a sua predileção por personagens humanos, pessoas comuns que se deparam nos seus cotidianos, com situações paranoicas ou extremamente ameaçadoras.



Seu primeiro conto de repercussão literária, Born of Man and Woman, conta na forma de um diário, o crescimento de uma criança-monstro, mantida trancada no porão dos pais.
 
Matheson já declarou diversas vezes que odeia a prisão dos rótulos, e que faz tudo para "destruir um gênero".

Apesar de ser um autor bem sucedido na aceitação de seu trabalho, e que lhe rendeu prestígio, ele nunca foi um sucesso com as vendas de seus romances.


Richard Matheson ( Em Algum Lugar do Passado, Eu sou a Lenda, Acero, Vampiro, Desaparicion, Desde lugar sombrios, El tercero a partir del Sol, El último dia, Es la epoca del ser gelatina, Impulsos desconecidos, La futura difunta, Nascido del hombre y mujer, Shock I, Shock II, Soy Leyenda, Ultimo dia, Viejas fantasmagorias, A Stir of echoes, Born of man and woman, Buried Talents, Dance of the Dead, Hell House, Now you see it, Somewhere in time, The incredible shrinking man, The near departed, Third from the Sun, What dreams may come, Woman  ) [ Download ]

sábado, 13 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20

CAPÍTULO 20
Este capítulo é dedicado à The Tattered Cover, uma legendária livraria de Denver. Eu descobri a The Tattered Cover quase que por acidente. Alice e eu tínhamos acabado de aterrissar em Denver, vindos de Londres; era bem cedo, fazia frio e precisávamos de café. Dirigimos nosso carro alugado em círculos, sem um objetivo, até darmos com a placa da Tattered Cover. Algo se acendeu no meu cérebro… eu sabia já ter ouvido falar daquele lugar. Entramos na loja (e conseguimos o café)  - uma maravilhosa loja de madeira escura,  com vários refúgios confortáveis para leitura e quilômetros e quilômetros de prateleiras.
The Tattered Cover 1628 16th St., Denver, CO USA 80202 +1 303 436 1070


Nenhum dos três caras estava por ali naquele instante, então me afastei. Minha cabeça doía tanto que achei estar sangrando, mas não achei sangue algum. Meu joelho torcido tinha enrijecido durante o tempo no caminhão, de forma que eu corria como uma marionete quebrada, e parei uma vez apenas, para cancelar o comando de deletar da foto no telefone de Masha. Desliguei seu rádio, para conservar a bateria e para evitar que alguém me rastreasse e configurei o tempo de desligamento para, no máximo, duas horas. Tentei configurar para não pedir senha para reativar ma requeria uma senha para isso. Eu teria apenas que dar um toque no teclado a cada duas horas ao menos, até que pudesse descobrir como retirar a foto do telefone. Eu precisaria recarregar também.

Eu não tinha um plano. Eu precisava de um. Precisava sentar e entrar online… para ver o que eu faria depois. Estava cansado de outros fazerem planos para mim. Não queria fazer as coisas por que Masha me mandou, por causa da DHS ou do meu pai. Ou por causa de Ange? Bem, talvez não por Ange. Isso até seria legal.
Descia em direção a casa, seguindo pelas vielas quando podia e quando podia seguia no meio da multidão de Tenderloin. Não tinha um destino na cabeça. De tempos em tempos eu colocava a mão no telefone e apertava uma tecla do telefone de Masha para evitar que entrasse em modo soneca. Fazia um certo volume, aberto no bolso da jaqueta.

Parei e me encostei a um prédio. Meu joelho estava me matando. Onde eu estava?
O’Farrel, na Hyde Street. Em frente ao “Salão de Massagem asiática”. Meus pés traidores tinham me levado de volta ao inicio, me levado de volta ao lugar onde a foto no telefone de Masha tinha sido tirada segundos antes da ponte da Baía explodir, antes da minha vida mudar para sempre.
Queria sentar no chão e chorar, mas isso não resolveria meus problemas. Tinha que ligar para Barbara Stratford, contar para ela o que havia acontecido. Mostrar a foto de Darryl.
O que eu estava pensando? Eu tinha que mostrar o vídeo que Masha me mandara - aquele onde o homem de confiança do presidente defendia ardentemente os ataques a São Francisco e admitia quando e onde os próximos ataques aconteceriam e isso não iria parar por que eles precisavam reeleger aquele homem.
Esse era o plano: Contatar Barbara, dar a ela os documentos para que os publicasse. O Vamp-evento devia ter feito as pessoas enlouquecerem, feito-os pensar que éramos mesmo um bando de terroristas. É claro que quando eu planejei isso eu pensava em como seria bom ter um pouco de distração, não importando como pareceria isso para um NASCAR Dad (pessoa que não se prende politicamente a partidos, mas à defesa de valores sociais /humanos /éticos /comportamentais ) em Nebraska.
Eu ligaria para Barbara, mas faria isso da maneira mais inteligente, de um telefone pago, usando um capuz, de maneira que as câmeras não conseguissem tirar uma foto minha. Pesquei vinte e cinco centavos do bolso e poli a moeda na aba da camisa, apagando qualquer impressão digital nela.

Fui descendo a colina até a estação BART e aos telefones da estação. Um bonde acabara de chegar quando avistei a página principal do semanário Bay Guardian na pilha junto a um negro sem-teto que sorriu para mim “Vá em frente, dê uma olhada na primeira página, é de graça. Mas olhar o jornal todo vai lhe custar 50 centavos.”
A manchete principal com letras grandes que eu não via deste o 11/9.
DENTRO DA PRISÃO DA BAÍA.
Ao lado, em letras menores:
“Como a DHS mantêm nossas crianças e amigos numa prisão secreta bem na nossa cara.”
“Por Barbara Stratford, especial para o Bay Guardian.”
O vendedor de jornais balançou a cabeça: “Pode acreditar nisso?” ele disse. “Bem aqui em São Francisco. Cara, este governo não presta!”
Teoricamente o Guardian era de graça, mas este cara parecia ter se apoderado de todas as cópias para si. Eu tinha vinte e cinco centavos à mão. Joguei na sua caneca e peguei mais uma moeda, sem me importar desta vez em apagar as impressões digitais.
“Nos disseram que o mundo mudou para sempre após o ataque a ponte da Baía. Milhares de amigos e vizinhos nossos morreram naquele dia. Praticamente nenhum corpo foi encontrado e presumidamente descansam no porto da cidade.”
“Mas uma extraordinária história contada a esta repórter por um jovem que foi feito prisioneiro do DHS minutos após a explosão, sugere que nosso governo tem ilegalmente mantido em Treasure Island, muitos daqueles que pensamos estar mortos, um lugar que foi evacuado e declarado fora dos limites para os civis logo após o atentado.”
Sentei-me no banco, o mesmo banco, notei com um arrepio na nuca, onde havíamos colocado Darryl após escapar da estação BART e li o artigo. Me custou muito não me acabar em lágrimas ali mesmo. Barbara tinha usado algumas fotos de Darryl junto comigo e elas estavam distribuídas ao longo do texto. Eram fotos de um ano atrás talvez, mas eu parecia muito mais jovem, como se tivesse uns 10 ou 11 anos. Eu havia envelhecido bastante nos últimos meses.

O artigo tinha sido muito bem escrito. Senti-me abalado por conta daquelas pobres crianças sobre as quais Barbara escrevia, e então me lembrava que ela escrevia sobre mim. O bilhete de Zeb estava lá também, sua letra de difícil leitura tinha sido reproduzida aumentada no jornal. Barbara tinha também acrescentado informações sobre outras crianças que estavam desaparecidas e presumidamente mortas, uma longa lista e perguntava quantas estavam cativas na ilha, apenas a alguns minutos de distancia dos seus pais.
Peguei mais vinte e cinco centavos do bolso e então mudei de idéia. Qual era a chance do telefone de Barbara não estar grampeado? Não tinha como ligar para ela agora, não diretamente. Eu precisava de um intermediário que entrasse em contato com ela e que a levasse para se encontrar comigo em algum lugar. Tanto para planejar.

O que eu realmente precisava era da Xnet.
Como diabos eu conseguiria entrar online? O buscador de WiFi do meu telefone piscava feito louco… havia conexão sem fio disponível à minha volta, mas eu não tinha um Xbox e uma TV, nem um DVD do ParanoidXbox para conectar este WiFi.

Foi então que eu os vi. Dois garotos da minha idade, se destacando da multidão ao topo das escadas da BART. O que me chamou a atenção foi o jeito com que se moviam, meio desajeitados, se batendo contra os usuários e turistas. Cada um deles tinha as mãos nos bolsos e evitava o contato visual. Estavam zoando com certeza, e aquele tipo de gente daquela área era a melhor para isso. Naquela vizinhança, com tantos mendigos e pedintes e loucos, ninguém faz contato visual nem nada.
Fui até um eles, que parecia realmente novo, mas não mais do que eu.
“Hei. Vocês podem vir aqui um instante?”
Ele fingiu não me ouvir. Olhou através de mim, do jeito que fazemos com um mendigo.

“Vamos lá, cara. Não tenho muito tempo.” eu disse agarrando seu ombro e sussurrei em seu ouvido: “A polícia está atrás de mim. Eu sou da Xnet.”
Ele parecia assustado, como se quisesse correr dali e seu amigo veio na nossa direção. “Estou falando sério.” Eu disse. “Me ouve.”
Seu amigo chegou junto, era mais alto e mais massudo… como Darryl.”Ei! Algum problema?”
Seu amigo cochichou em seu ouvido. Estava parecendo que iriam sair correndo.
Peguei meu Bay Guardian debaixo do braço e sacudi na frente deles. “Dê uma olhada na página 5, certo?”
Eles olharam. Olharam a manchete e a foto. E eu.
“Mano!” o primeiro disse. “Nós não merecemos.” Ele riu feito um louco e o mais forte me deu um tapa nas costas. “Não brinca…Você é o M…”
Tapei sua boca. “Cheguem aqui, OK?”
Levei-os até meu banco. Percebi algo marrom e antigo ao lado da calçada sob ele. Seria o sangue de Darryl? Aquilo me arrepiou. Nos sentamos.
“Sou Marcus” disse, acreditando que dando meu nome real eles já soubessem que eu era M1k3y. Eu estava acabando com meu disfarce, mas o Bay Guardian já o tinha feito para mim.
“Nate.” apresentou-se o menor dos dois. “Liam.” disse o maior. “Cara, é uma honra te conhecer. Você é o nosso herói…”
“Não diga isso. Não diga isso. Vocês dois parecem estar carregando um letreiro que diz ‘Somos dois vigaristas, por favor me levem para a prisão da Baía. Não podiam ser mais óbvios.”
Liam me olhou como se fosse chorar.
“Não se preocupe, ninguém pegou vocês. Depois eu dar algumas dicas para vocês.”
Ele voltou a sorrir. O que ficou estranhamente claro foi que aqueles dois realmente idolatravam M1k3y e que fariam qualquer coisa que eu dissesse. Sorriam feito dois idiotas. Aquilo não me fez bem, fiquei enjoado.
“Ouçam, eu preciso entrar na Xnet agora, mas não posso ir para casa ou sequer perto de casa. Vocês moram por aqui?”
“Eu moro.” disse Nate. “Ali na Califórnia Street. É logo ali subindo.’”Eu tinha vindo de lá. Masha estava por algum lugar por lá. Mas ainda assim, era o melhor que eu podia conseguir.
“Vamos lá.” eu disse.

#

Nate me emprestou um boné de basebol e trocamos de casacos. Eu não precisava me preocupar com o reconhecimento visual, pois meu joelho machucado do jeito que estava… eu balançava ao andar feito um cowboy do cinema.
Nate morava num apartamento enorme de quatro quartos no topo e Nob Hill. O prédio tinha um porteiro vestido com um casaco vermelho com brocados dourados e tocou o chapéu e chamou Nate de “Mister Nate” e nos deixou entrar. O lugar brilhava e cheirava a polidor de móveis. Tentei não pensar que aquele apartamento devia valer muitos milhões.
“Meu pai” explicou ele “era investidor. Tinha um bom seguro de vida. Ele morreu quando eu tinha 14 anos e nós ficamos com isso tudo. Ele estava divorciado, mas deixou minha mãe como beneficiária.”
Da janela que ia do chão ao teto era possível ver uma vista estonteante do outro lado de Nob Hill, até Fisherman’s Wharf, até as feias ruínas da Ponte da Baia e um monte de guindastes e caminhões. Através da névoa dava para vislumbrar Treasure Island. Olhar para baixo daquele jeito me deu vontade louca de pular dali.
Entrei online em seu Xbox numa enorme tela de plasma na sala de estar. Me mostrou quantos pontos de rede WiFi eram acessíveis devido a morar tão alto…uns vinte ou  trinta deles. Um bom lugar para se ser um Xnetter.

Havia um monte de emails para M1k3y. Umas 20 mil novas mensagens desde que Ange e eu tínhamos saído de sua casa naquela manhã. Muitos eram da imprensas, solicitando entrevistas, mas a maior parte dos Xnetters, pessoais que haviam lido a matéria no Guardian e queriam me dizer que fariam tudo para me ajudar, tudo que eu precisasse.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Nate e Liam trocaram olhares. Tentei parar, mas não deu. Eu chorava agora. Nate foi até um armário de carvalho e fez surgir um bar entre os livros, revelando várias garrafas. Colocou algo dourado e marrom num copo e trouxe para mim.
“Um uísque irlandês raro. O favorito da minha mãe.” ele disse.
Tinha gosto de fogo, como ouro. Engoli, tentando não engasgar. Eu não gostava de bebidas, mas esta era diferente. Respirei fundo várias vezes.
“Obrigado, Nate” falei. Ele parecia como se eu tivesse acabado de condecorá-lo com uma medalha. Era um garoto legal.
“Certo.” eu disse agarrando o teclado. Os dois me olharam fascinados quando paginei através dos meus emails na gigantesca tela.
O que eu procurava mais do que tudo, era um email de Ange. Havia uma chance dela ter sido presa.
Eu fui um idiota. Não havia nada dela. Comecei separando os emails de solicitações da imprensa, os emails de fãs, os de ódio, o spam.
E então achei um de Zeb.
‘Não foi legal acordar esta manhã e encontrar o bilhete que eu pensei que você havia destruído, nas páginas de um jornal. Me fez sentir…caçado. Mas eu começo a entender por que você o fez. Não sei se consigo aprovar suas táticas, mas é fácil ver aonde quer chegar e os motivos que o movem. Se você estiver lendo isso, significa que há uma boa chance de você estar agora no submundo. Não é fácil viver assim. Eu aprendi isso. E aprendi muito mais também. Não posso te ajudar. Eu deveria. Você está fazendo o que pode por mim (mesmo sem a minha permissão). Me responda se recebeu esta mensagem, se você estiver sozinho e fugindo. Ou me responda se estiver sob custódia, na prisão da Baía, procurando um jeito de fazer a dor passar. Se eles te pegaram, você irá fazer o que eles mandarem. Sei disso. Assumirei o risco. Por você M1k3y.”
“Uau! Caaaaaaaaara!” gritou Liam. Eu queria socá-lo. Me virei para dizer algo terrível e cortar seu barato, mas ele olhava para mim com olhos do tamanho de pratos, como se ele quisesse cair de joelhos ali em devoção.
“Posso dizer...” Nate começou a dizer. “Posso somente dizer que esta é a maior honra em toda minha vida, ajudar a você? Posso?”
Agora eu estava encabulado. Não havia nada a fazer quanto a isso. Estes dois eram completamente vidrados em personalidades, mesmo eu dizendo não ser uma estrela ou algo assim, pelo menos não na minha cabeça.
“Caras, vocês podem… me deixar sozinho um pouco?”
Eles se arrastaram para for a da sala como dois cachorrinhos sendo punidos e me senti como um feitor. Teclei rápido.
“Eu fugi, Zeb. Estou fugindo. Preciso de toda ajuda que puder conseguir. Quero acabar agora com isso.” Lembrei-me do telefone de Masha no bolso e tirei-o, teclando-o para evitar que entrasse em pausa.
Eles me deixaram usar o chuveiro, me deram roupas novas, uma mochila com metade do kit de emergência dentro… barras energéticas, remédios, compressas químicas de calor e frio e um velho saco de dormir. E também enfiaram um Xbox Universal extra carregado com ParanoidLinux dentro. Foi legal da parte deles.
Continuei checando meu email para ver se Zeb respondia. Respondi os emails dos fãs. Respondi os emails da imprensa. Apaguei os emails de ódio. Eu meio que esperava encontrar algo de Masha, mas havia uma chance de a estas horas ela estar na metade do caminho para Los Angeles, com os dedos machucados e sem poder teclar direito. Teclei seu telefone de novo.

Eles me encorajaram a dormir um pouco e por um breve e vergonhoso instante eu fiquei paranóico achando que aqueles garotos estavam pensando em me delatar quando eu estivesse dormindo. O que era idiotice minha… eles poderiam tê-lo feito mesmo comigo acordado. Só não conseguia processar o fato deles saberem tanto sobre mim. Eu sabia, intelectualmente, que havia pessoas que seguiriam M1k3y. Eu tinha encontrado muitas delas naquela manhã, gritando “MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA” e vampirizando no Centro Cívico. Mas estes dois eram mais íntimos. Eles eram legais, dois bobões, poderiam ter sido meus amigos naqueles dias que antecederam a Xnet, só dois caras saindo por aí para viverem suas aventuras adolescentes. Eles tinham se voluntariado para juntar-se ao meu exército, meu exército. Eu tinha responsabilidade por eles. Se os deixasse por conta própria, eles seriam pegos cedo ou tarde. Eram confiantes demais.

“Caras, prestem atenção por um segundo. Preciso falar uma coisa séria com vocês.”
Eles quase pararam em atenção. Seria engraçado se não fosse assustador.
“É o seguinte. Agora que vocês me ajudaram, a coisa fica perigosa. Se vocês forem presos, eu serei preso. Eles vão tirar tudo que sabem…” Ergui minha mão antes que começassem a protestar. “Não, parem. Vocês não sabem o que é isso. Todo mundo fala. Todo mundo pode ser quebrado. Se vocês forem presos, vocês contarão tudo rapidinho, o mais rápido que puderem, tudo que puderem. Eles vão conseguir de qualquer jeito. É como a coisa funciona. Então vocês não podem ser presos e por isso é que vocês não podem fazer nunca mais aquilo que estavam fazendo hoje. Considerem-se afastados da ativa. Vocês serão…” busquei da memória do vocabulário dos filmes de espionagem  “uma célula adormecida. Fiquem na sua. Voltem a ser garotos comuns. Vou dar um jeito nesta situação, acabar com isso. Ou então essa coisa vai me pegar, finalmente, dar um jeito em mim. Se vocês não tiverem notícias minhas em 72 horas, assumam que fui preso. E façam o que quiserem. Mas nos próximos três dias… e para sempre, se eu fizer aquilo que quero fazer…fiquem calmos. Prometem?”

Eles prometeram com toda solenidade. Deixei que me levassem para tirar um cochilo com a promessa de me acordarem em uma hora. Tinha que cuidar do telefone de Masha e queria saber se Zeb iria entrar em contato comigo.

#

O encontro se deu num vagão do BART, o que me deixou nervoso. Câmeras demais por toda parte. Mas Zeb sabia o que estava fazendo. Ele me encontrou no último carro de certo trem partindo da estação de Powell Street, num horário que o trem ficava bem cheio. Ele esgueirou-se na multidão e os bons cidadãos de São Francisco abriram espaço para ele, com o horror que sempre cerca os mendigos de rua.
“Legal te ver de novo.” ele murmurou, de cara para a porta. Olhando para o vidro negro eu pude ver que não havia ninguém perto o bastante para nos escutar, não sem algum tipo de microfone altamente sensível - e se eles soubessem o bastante para ter grampeado o local, nós estávamos mortos de qualquer jeito mesmo.
“Legal te ver também.” eu disse “Sinto muito por aquilo.”
“Calado. Não se desculpe. Você é mais corajoso do que eu. Está pronto para ir ao submundo agora? Pronto para desaparecer?”
“Sobre isso.”
“Sim?”
“Este não é o plano.”
“Oh.” ele disse.
“Preste atenção, ok? Eu tenho…tenho fotos e vídeos. Coisas que podem realmente provar algo.”
Mexi no bolso e alcancei o telefone de Masha. Eu tinha comprado uma bateria na Union Square no caminho e tinha carregado-a num café, para que pudesse durar ainda algumas horas de uso.
“Eu preciso fazer com que isso chegue a Barbara Stratford, a mulher do Guardian. mas eles estarão vigiando... esperando que eu apareça.”
“Você não acha que eles vão estar esperando por mim também? Se o seu plano envolve me mandar a um quilômetro de distância que seja daquela mulher ou do seu local de trabalho…”
“Quero que pegue Van e venha me encontrar. Darryl não te falou sobre Van? A garota…”
“Ele me falou. Sim, falou. Não acha que eles também a estarão vigiando? Todos vocês não foram presos?”
“Acho que sim. Mas não tão intensamente. E Van está limpa. Ela nunca cooperou com nenhum dos meus… com meus projetos. Assim eles devem estar um pouco mais relaxados com ela. Se ela ligar para o Bay Guardian para fazer uma declaração para explicar porque eu estou errado fazendo tudo isso, eles podem deixá-la passar.”
Ele ficou parado, sem falar por um tempo.
“Sabe o que vai acontecer se eles nos pegarem novamente.” Não era uma pergunta.
Fiz que sim.
“Tem certeza? Alguns daqueles que estavam na prisão conosco foram levados de helicópteros. Levaram  eles para fora do país. Existem países onde a América pode usar de tortura. Países em que você irá apodrecer para sempre. Países onde você deseja que eles te matem logo, que te deixem cavar um buraco e atirar na sua nuca e acabar logo com tudo.”
Eu engoli em seco e concordei.
“Vale o risco? Podemos nos esconder por bastante tempo, bastante tempo mesmo. Algum dia nós teremos nosso país de volta. Podemos esperar que isso aconteça.”
Eu fiz que não com a cabeça.
“Não se consegue nada deste jeito. É o nosso país. Eles o tiraram de nós. Os terroristas que nos atacaram ainda estão livres… nós não estamos. Não posso me esconder por um ano, dez anos, minha vida toda, esperando que me dêem a liberdade. Liberdade é algo que você tem que pegar sozinho.”

#

Naquela tarde Van deixou o colégio como sempre, sentou-se no fundo do ônibus junto com seus colegas, rindo e falando por todo o caminho como sempre fazia. Os outros passageiros no ônibus a perceberam, pois ela falava alto, e além disso, usava um chapéu estúpido gigante, algo que parecia ter saído de uma peça escolar sobre espadachins da renascença. Em um certo ponto, todos se juntaram e então se viraram para olhar para trás, apontando e caçoando. A garota que usava o chapéu, agora, tinha o mesmo peso de Van e vista de longe, poderia ser ela.

Ninguém prestou atenção na pequena asiática que saltou alguns paradas antes da estação BART. Usava um uniforme de escola e olhava tímida para os degraus quando desceu. Ao mesmo tempo, a garota coreana que falava alto na parte dos fundos do ônibus deu um grito e seus colegas a imitara, rindo tanto que até o motorista do ônibus, se virou para vê-las com uma expressão contrariada.

Van já atravessava a rua com a cabeça baixa e seu cabelo preso atrás e cobrindo o colarinho da sua jaqueta fora de moda. Ela tinha acrescentado palmilhas nos sapatos que a faziam um tanto mais alta e tinha dispensado as lentes de contato e usava seus óculos, não o par favorito, mas o de lentes grossas que tomavam metade de seu rosto. Apesar de estar esperando por ela sob a coberta da parada de ônibus, eu quase não a reconheci. Levantei-me e a acompanhei, atravessando a rua, seguindo-a por meio quarteirão.
As pessoas que passavam por mim desviam a vista assim que podiam. Eu parecia um mendigo jovem, com minhas roupas sujas, um casacão com fita passada nos cotovelos. Ninguém olhava para um garoto de rua, porque se você faz contato visual com um, ele pode te pedir um trocado. Andei assim por toda Okland e a única pessoa que se atreveu a falar comigo foi uma testemunha de Jeová e um cientologista, ambos tentando me converter.

Van seguiu as indicações conforme eu tinha escrito. Zeb as havia passado para ela da mesma maneira que ele tinha me passado o bilhete do lado de fora da escola. Um esbarrão enquanto ela esperava o ônibus, seguido de um pedido de desculpas copioso. Eu tinha escrito um bilhete bem simples e claro: “Eu sei que você não aprova, eu entendo. Mas este é o favor mais importante que já lhe pedi. Por favor, por favor”
Ela tinha vindo. Sabia que viria. Tínhamos muita história juntos, Van e eu. Ela também não gostava do que o mundo se tornara. Apesar disso, uma pequena voz maléfica ficava me dizendo que ela estava sobre suspeita agora que o artigo de Barbara for a publicado.

Caminhamos desta forma por seis ou sete quarteirões, olhando para as pessoas mais próximas, para os carros que passavam.  Zeb me falara sobre uma forma de seguir pessoas onde cinco pessoas diferentes disfarçadas trocam de lugar enquanto te seguem, tornando impossível percebê-lo. Você precisa ir para algum lugar totalmente deserto, onde qualquer outro além de você chamaria atenção.
O viaduto para a 880 ficava a poucos quarteirões da estação BART do Coliseu e, mesmo depois de andar em círculos, não demoramos a chegar lá. O estrondo sobre nossas cabeças era atordoante. Ninguém por perto, não que eu pudesse ver. Já tinha estado ali antes de sugerir no bilhete para Van, tomando cuidado para verificar lugares onde alguém pudesse se esconder. Não havia ninguém ali.

Uma vez que ela chegou ao lugar marcado, movi-me rápido para alcançá-la. Ela piscava como uma coruja por detrás das lentes.
“Marcus!” ela disse e lágrimas surgiram em seus olhos. Acho que eu chorava também. Eu era um fugitivo muito fajuto. Muito sentimental.
Ela me abraçou tão forte que mal consegui respirar. Abracei-a ainda mais forte.
Então ela me beijou.
Não no rosto, não como uma irmã, mas nos lábios, quente e molhado, e parecia durar para sempre. Eu estava longe de me envolver…
Mentira. Sabia exatamente o que fazia. Eu a beijei de volta.
Então parei e disse afastando-a de mim: “Van.”
“Ooops...” ela disse.
“Van...” eu disse de novo.
“Desculpa. Eu…”
Algo me ocorreu naquele instante. Algo que eu acho que deveria ter percebido há muito tempo.
“Você gosta de mim, não é?”
Ela fez que sim. “Faz muitos anos.” disse.
Oh Deus. Darryl, todos estes anos tão apaixonado por ela e o tempo todo, ela pensando em mim, secretamente me desejando. E então eu acabei ficando com Ange. Ange disse que vivia brigando com Van.
“Van,” eu disse. “Van, eu lamento tanto.”
“Esqueça.” Disse, olhando para longe. “Eu sei que não daria certo. Eu só queria fazer isso uma vez, no caso de eu nunca…” Calou-se.
“Van, eu preciso que você faça algo para mim. Algo importante. Preciso que encontre com a repórter do Bay Guardian, Barbara Stratford, que escreveu o artigo. Preciso que dê uma coisa para ela.” Expliquei sobre o telefone de Masha e sobre o vídeo que Masha me mandou.
“Que bem isso pode fazer, Marcus? Qual é o objetivo?”
“Van, você está certa, pelo menos em parte. Não conseguiremos consertar o mundo colocando pessoas em risco. Quero resolver o problema dizendo aquilo que sei. Devia ter feito isso desde o início. Devia ter ido direito da prisão para a casa do pai de Darryl e contado o que sabia. Agora, eu tenho provas. Isso pode mudar o mundo. Esta é minha última esperança. A única para tirar Darryl de lá, de ter uma vida onde eu não precise ficar escondido, fugindo da polícia. E você é a única pessoa em quem confio para fazer isso.”
“Por que eu?”
“Tá brincando, né? Veja como você chegou até aqui. Você é profissional. Você é a melhor de nós. É a única em quem eu posso confiar. Isso explica por que escolhi você.”
“E por que não sua amiga Ange?” ela disse o nome sem nenhuma inflexão, como se fosse um bloco de cimento.
Olhei para baixo. “Achei que você sabia. Eles a prenderam. Ela está na prisão da baía… em Treasure Island. Está lá há dias.” Eu tentara não pensar na coisa, não pensar no que poderia ter acontecido com ela. Agora eu não conseguia me conter e comecei a chorar. Sentia meu estômago doer, como se tivesse levado um chute, e segurava-o com as mãos. Me curvei ali e a próxima coisa que me lembro foi de estar caído de lado no chão sob o viaduto, abraçando a mim mesmo e chorando.
Van ajoelhou-se ao meu lado. “Me dá o telefone.” disse com a voz cheia de raiva. Eu o tirei do bolso e passei para ela.

Envergonhado, parei de chorar e sentei. Sabia que um pouco de muco escoria pelo meu rosto. Van estava me dando aquele olhar de pura repulsa. “Você precisa evitar que isso entre em modo pausa” eu disse. “Tenho uma bateria carregada aqui’. Procurei com cuidado na mochila. Não tinha dormido à noite desde que a comprei. Coloquei o alarme para tocar a cada 90 minutos e assim podia acordar e manter o telefone fora do modo pausa. “Não feche o telefone também.”
“E quanto ao vídeo?”
“Isso é mais difícil. Mandei uma copia para mim mesmo por email mas não posso mais usar a Xnet.” Eu poderia voltar a Nate e Liam e usar do Xnet deles de novo mas não queria correr risco. “Olha, vou te dar meu login e minha senha para o servidor de email do Pirate Party. Vai precisar acessar pelo Tor… a DHS vai estar escaneando as pessoas que acessam o email do PParty.”
“Seu login e senha!” ela disse um pouco surpresa.
“Confio em você, Van. Sei que posso.”

Ela balançou a cabeça: “Você nunca deu sua senha, Marcus.”
“Não acho que isso importe mais. Ou você tem sucesso ou eu… ou será o fim de Marcus Yalow. Talvez eu consiga uma nova identidade, mas não sei. Acho que vão me pegar. Acho que sabia disso o tempo todo, que eles iriam me pegar algum dia.”
Ela olhou para mim furiosa agora. “Que desperdício! Pra quê tudo isso, afinal?”
De tudo que ela pudesse dizer, nada me magoaria tanto. Era como outro soco no estomago. Que desperdício, tudo isso, futilidade. Darryl e Ange, desaparecidos. Eu podia nunca mais ver minha família de novo. E ainda assim, a DHS tinha atirado minha cidade e meu país numa loucura fora de razão onde tudo podia ser feito em nome de deter o terrorismo.
Van parecia esperar que eu falasse algo, mas eu nada tinha a dizer.
Ela me deixou lá.

#

Zeb tinha uma pizza para mim quando voltei para “casa”… ou a tenda debaixo do viaduto da auto-estrada em Missão na qual tínhamos passado a noite. Ele tinha uma pequena tenda de acampamento, suprimentos militares, onde se lia Comissão de Coordenação de Sem-tetos de São Francisco.
A pizza era da Domino´s, fria e azeda mas deliciosa mesmo assim. “Gosta de abacaxi na sua pizza?”
Zeb sorriu condescendente comigo. “Um freegan não pode ser exigente.” ele disse.
“Freegan?”
“Como Vegan, mas só que só come comida grátis.”
“Comida grátis?”
Ele riu: “Você sabe, destas lojinhas de comida de graça?”
“Você roubou?”
“Não, maluco! Da outra loja. Daquela que fica nos fundos, feita de metal azul. Sabe? Que tem um cheiro esquisito.”
“Você pegou isso do lixo?”

Ele jogou a cabeça para trás e gargalhou: “É isso ai. Devia ver sua cara. Mas é boa, não é como se estivesse podre ou coisa assim. É fresquinha, só um pouco bagunçada. Eles jogam fora ainda na caixa. Eles jogam veneno de rato quando estão fechando, mas se você for rápido, você consegue pegar. Você tem que ver o que as lojas de doces jogam fora! Espere até ver o café da manhã. Vou te trazer uma salada de frutas que você não vai acreditar. Assim que um dos morangos fica um pouco maduro, eles atiram tudo fora.”
A pizza estava boa. Não era porque tinha ficado dentro do latão que ela estaria infectada ou algo assim. Se estava daquele jeito era só por que tinha vindo da Domino´s… a pior pizza da cidade. Nunca gostei da comida deles e eu os detestava desde que soube que eles bancavam um bando de políticos malucos que pensavam que o aquecimento mundial e evolução eram parte da trama do diabo.
Mas havia outro jeito de ver a coisa. Zeb tinha me mostrado um segredo, algo que eu não tinha pensado e que havia um mundo inteiro as escondidas lá fora, um modo de viver sem participar do sistema.
“Freegan, né?”
“Iogurte também. Para a salada de fruta. Eles jogam fora um dia após o fim de validade, mas não é como se ficasse verde à meia-noite.É iogurte, quero dizer, basicamente é leite estragado.”
Eu acreditei. O gosto da pizza era engraçado. Veneno de rato. Iogurte estragado. Morangos mofados.
Comi outra fatia. Na verdade a pizza da Domino´s não parecia tão ruim quando era de graça.
O saco de dormir de Liam era quente e muito bom após um longo e exaustivo dia. Van devia estar entrando em contato com Barbara neste instante. Ela ficaria com o vídeo e a foto. Eu telefonaria para ela pela manhã e perguntaria o que ela acha que eu devia fazer em seguida.
Eu teria que aparecer depois que ela publicasse aquilo.

Pensava sobre isso quando fechei os olhos, como seria me mostrar diante das câmeras e coisas do tipo, as câmeras seguindo o infame M1k3y entre os prédios enormes do Centro Cívico.
O som os carros passando pelo viaduto se transformou em um som parecido com o do oceano quando me deixei adormecer. Havia outras tendas por perto, de pessoas sem-teto. Eu tinha encontrado algumas delas naquela tarde, antes de escurecer e todos vinham buscar abrigo perto das tendas. Todos mais velhos que eu, com aparência rude e irritada. Contudo, nenhum deles parecia louco ou violento. Apenas gente que tivera azar ou tomara as decisões erradas ou ambas as coisas.
Devo ter dormido então, pois não me lembro de nada até que uma luz forte brilhou na minha cara, e a luz era cegante.
“É ele.” disse uma voz por detrás da luz.
“Empacote ele.” disse outra voz, uma que eu já havia ouvido antes, várias vezes nos meus sonhos, me criticando, pedindo minhas senhas. A mulher com cabelo curto.
O saco desceu rápido sobre minha cabeça e fechou tão apertado na minha garganta que vomitei minha pizza grátis. Enquanto eu tossia em espasmos, mãos fortes juntaram meus pulsos e meus tornozelos. Fui rolado até uma maca e erguido, então carregado até um veiculo, para cima ao som de passos metálicos.  Me soltaram no chão acolchoado. Nenhum som era audível na traseira do veículo após fecharem as portas. O acolchoado abafava, tudo exceto minha tosse.
“Olá, de novo” ela disse. Senti o chão se mexer. Eu estava sufocando, tentando respirar. Vômito enchia minha boca e escorria pela traquéia.
“Não vamos deixar você morrer.” ela disse. “Se você parar de respirar, vamos fazer com que respire novamente. Não se preocupe com isso.”
Eu sufocava de verdade. Tragava o ar. Mal conseguia. Profundamente, meu peito se enchia e distendia, expulsando o vômito. Mais ar.
“Veja.” ela disse. “Não é tão ruim. Bem vindo à casa, M1k3y.Temos um lugar especial para você.”
Relaxei sobre minhas costas, sentindo o veiculo se mover. O cheiro da pizza deglutida tomava tudo, mas com tão forte estimulo, meu cérebro gradualmente se acostumou, filtrando-o até que ficasse apenas um leve aroma. O balançar da van era quase reconfortante.

 E então aconteceu. Uma incrível e profunda calma me envolveu como se eu estivesse deitado na praia e o oceano viesse me levar gentilmente, carregando-me para o alto para me levar para um mar quente sob um sol quente. Depois de tudo que aconteceu, me pegaram, afinal, mas não importava. Eu tinha conseguido entregar a informação para Barbara. Eu tinha organizado a Xnet. Eu tinha vencido. E se não venci, fiz tudo que podia fazer. Mais do que eu jamais pensei que poderia fazer. Fiz uma lista mental pensando em tudo que eu tinha realizado. A cidade, o país, o mundo estava cheio de gente que não queria viver do jeito que a DHS queria que vivêssemos. Nós lutaríamos contra isso para sempre. Não podiam prender a todos.
Eu suspirei e sorri.

Ela não parava de falar, percebi. Estive tão distante em meu “lugar feliz” que ela simplesmente sumira.
“…garoto esperto como você. Achava que sabia como nos prejudicar. Nós tínhamos um olho em você desde o dia em que o liberamos. Nós teríamos agarrado você mesmo se você não tivesse ido chorar no colo daquela jornalista lésbica traidora. Não compreendo isso…achei que nós tínhamos nos entendido, você e eu…”
 Passamos sobre uma superfície metálica e a van rolou sobre pedras e então o chão mudou. Estávamos na água. Em direção a Treasure Island. Ei. Ange estava lá. Darryl também. Talvez.

#

O capuz não foi tirado até que eu estivesse na minha cela. Eles não se importaram com as algemas prendendo pulsos e tornozelos, apenas me rolaram para fora da maca para o chão. Estava escuro, mas o luar penetrava por uma pequenina janela no alto. Dava para ver o beliche sem o colchão. A sala tinha uma pia, um espaço para a cama, o vaso e nada mais.
 Fechei os olhos e deixei o oceano me levar. Flutuei livre. Em alguma parte, longe e abaixo, estava meu corpo. Eu podia dizer o que aconteceria a seguir. Seria deixado ali até mijar em mim mesmo. De novo. Eu sabia como era aquilo. Já tinha ocorrido antes. Eu ficaria cheirando muito mal. Coçava. Era humilhante, como voltar a ser um bebê.
Mas eu sobreviveria.

Gargalhei. O som foi estranho e trouxe-me de volta ao meu corpo, de volta ao presente. Gargalhei e gargalhei. Tinha passado pelo pior que eles podiam fazer e tinha sobrevivido a isso, tinha vencido eles durante meses, tinha mostrado a todos como eram tolos tiranos. Eu vencera.
Deixei minha bexiga se aliviar. Doía e estava cheia, e não havia nada de errado com o presente.
O oceano levou-me para longe.

#

Quando a manhã chegou, dois eficientes e impessoais guardas vieram cortar as tiras que prendiam meus tornozelos e pulsos. Ainda assim eu não conseguia andar… quando tentei, minha pernas reagiram como se fosse um marionete com as cordas cortadas. Tempo demais na mesma posição. Os guardas levantaram meus braços sobre seus ombros e meio que me carregaram meio que me arrastaram pelo corredor conhecido. Os códigos de barra das portas começavam a sair e descolar por conta do ar marinho.
Tive uma idéia. “Ange!” gritei. “Darryl!” gritei. Meus guardas apressaram o passo, claramente perturbados mas sem saber o que fazer a respeito. “Pessoal, sou eu, Marcus!”
Atrás de uma das portas alguém gemeu. Outro alguém gritou e aquilo soou árabe. Então uma cacofonia, mil vozes diferentes gritando.
Levaram-me a uma nova sala. Era uma velha sala de chuveiros e os canos ainda estavam lá, saindo dos azulejos mofados.
“Olá, M1k3y.” disse a mulher de cabelo curtíssimo. “Parece que você teve uma manhã muito atarefada.” ela disse, enrugando o nariz.
“Me urinei.” falei animadamente. “Você deveria experimentar.”
“Talvez devêssemos dar um banho em você”, ela disse.

 Ela assentiu e meus guardas me levaram até uma maca. Esta tinha tiras ao longo dela. Me jogaram sobre ela ,que era fria como gelo. Antes que percebesse já haviam me prendido com tiras pelos meus ombros, cintura e tornozelos. Um minuto depois, mais três tiras foram presas. Mãos de homens agarraram os corrimãos junto da minha cabeça e soltaram as travas e no momento seguinte eu era inclinado, de cabeça para baixo.
“Vamos começar com uma coisa simples.” ela disse. Suspendi a cabeça para conseguir vê-la. Tinha se aproximado de uma mesa com um Xbox nela, conectada a uma cara TV de tela plana. “Quero que me diga seu login e senha de seu email no Pirate Party, por gentileza.”
Fechei os olhos e deixei oceano me levar da praia.
“Você sabe o que significa ‘waterboarding’, M1k3y? Colocamos você de cabeça para baixo como está e jogamos água sobre seu rosto, dentro do seu nariz e boca. Não dá para segurar o reflexo de contração da laringe. Chamam isso de execução simulada e pelo que posso dizer deste lado da sala onde estou, esta é uma definição bastante justa. Não dá para lutar contra a sensação de estar morrendo.”
Tentei não prestar atenção. Tinha ouvido falar naquilo. Era tortura de verdade. E era só o começo.
Não consegui me desconcentrar. O oceano não me levava dali. Havia um aperto no meu peito, minhas pálpebras tremiam. Podia sentir a urina úmida nas minhas pernas e o suor em meu cabelo. Minha pele coçava devido ao vomito seco.
Ela deslizou a frente da minha vista. “Vamos começar pelo login.” ela disse.
Fechei os olhos, apertando-os para permanecerem fechados.
“Dêem-lhe o que beber.” ela disse.
Ouvi pessoas se movendo. Respirei fundo e segurei.
A água começou a cair em me queixo primeiro como um gotejar, uma mão de água caindo aos meus lábios, pelas narinas viradas para cima. Começava a chegar na garganta, começando a me asfixiar, mas eu não tossi. Segurava a respiração e apertava os olhos com força.
Houve um barulho do lado de fora da sala, um som caótico de botas, batendo com raiva, insultos gritados. A concha foi esvaziada sobre meu rosto.

Ouvi um murmúrio trocado entre alguém na sala, então para mim ela disse: “Só me dê o login, Marcus. É uma pergunta simples. O que posso fazer apenas com seu login?’
Desta vez foi um balde de água, de uma vez só, uma inundação sem fim, gigantesca. Não dava para segurar. Tossi e a água entrou por meus pulmões, tossi e mais água entrou. Sabia que eles não iriam me matar, mas não dava para convencer meu corpo disso. Cada fibra do meu ser. Sabia que ia morrer. Sequer podia chorar… a água continuava a jorrar sobre mim.
Então parou. Eu tossi, tossi e tossi, mas do ângulo que estava a água que eu expulsava voltava a entrar pelo nariz e queimava através dos sinus.
A tosse era tão profunda que doía, doía nas costelas e quadris enquanto eu me torcia. Odiava como meu corpo me traía, como minha mente não conseguia controlar meu corpo e eu nada podia fazer.
Ao final, a tosse cedeu e consegui ver o que se passava ao meu redor. Pessoas gritavam e parecia como se alguém estivesse brigando, lutando. Abri meus olhos e pisquei devido à luz brilhante e então virei meu pescoço ainda tossindo um pouco.
A sala tinha bem mais gente do que antes. A maioria parecia vestir armaduras corporais, capacetes e visores. Gritavam com os guardas de Treasure Island, que gritavam em resposta, seus pescoços marcados por veias saltadas.
“Pro chão!” gritou um dos homens com coletes “De joelhos no chão e as mãos para cima. Vocês estão presos.”

A mulher de cabelo curto falava em seu telefone. Um dos homens com armaduras a percebeu e foi até ela, arrancando seu telefone com um tapa da mão enluvada. Todos fizeram silêncio quando o telefone fez um arco atravessando a sala e espatifou-se em pedaços contra o chão.
O silêncio foi quebrado e os soldados encouraçados moveram-se pela sala. Dois deles pegaram cada um dos meus torturadores. Quase sorri ao ver a expressão do rosto da mulher de cabelo curto quando dois homens a seguraram pelos ombros e a viraram de costas, aplicando tiras de plástico imobilizando-a pelos pulsos.
Um dos sujeitos foi até a porta. Ele tinha uma câmera de vídeo ao ombro, onde piscava uma luz branca. Dali ele tinha visão para a sala inteira, circulou ao me redor me filmando. Fiquei o mais parado que pude, como se posasse para um retrato.
Aquilo era ridículo.
“Pode me tirar daqui?” eu consegui dizer somente com um pequeno engasgar.
Dois outros homens de armaduras blindadas vieram até mim, um deles era uma mulher e começou a me soltar. Levantaram seus visores e sorriram para mim. Tinham cruzes vermelhas em seus ombros e capacetes.
Debaixo das cruzes havia uma outra insígnia. CHP. Califórnia High Patrol. Eram da polícia estadual.
Comecei a perguntar o que faziam ali e foi quando vi Barbara Stratford. Ela passava pelo corredor e agora entrava empurrando. “Aí está você!” ela disse, vindo até meu lado e me dando o maior e mais longo abraço de minha vida.
Foi então que eu soube que a Guantánamo da Baía tinha caído nas mãos dos seus inimigos.
Eu estava salvo.


Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20 [ Download ]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Space Stations


It's amazing what the human race can accomplish when we put our collective minds to something. Whether it's exploration, fighting disease, inventing new technology, or changing society, mankind can be an awesome power when it chooses to be.

Consider space exploration, for example. While scientists have been studying the stars for centuries, getting a man to walk among them has been quite a different matter. As the study of our universe goes, it is one of the most recent fields of scientific endeavor, primarily because of the advances in technology that have made it feasible. Since the launch of the first satellite by the Soviet Union on October 4, 1957, the United States and the rest of the world have been looking to the skies, and the universe beyond, as the ultimate last frontier.

And what an incredible forty-seven years it's been. Since the first space race between Russia and the United States, the world has seen men land on the Moon, the first unmanned exploration of the surface of Mars, China join the other space faring nations, and a renewed interest in the vast galaxy beyond our own planet.

Along with this activity comes new ways to study and explore space. From the Hubble space telescope to the Voyager and Galileo deep space probes, we have pushed farther and farther past the boundaries of what we once knew.

One of the best ways to do this is right in our own backyard, so to speak. No matter how sophisticated the technology, satellites and machines cannot replace man when it comes to exploration, at least, not completely. Space stations, platforms where men and women can study the galaxy around the clock, have become the best way to gain practical results from space, whether it is manufacturing new medicines and materials in the weightless conditions, or exploring the heavens and planning to use the space station as a jumping off point fop trips beyond.

There have been several permanently manned space stations during the history of space exploration. The Russians beat America into space again with the launch of the first orbiting station, Salyut, in 1971. A Russian crew was the first to live in space for approximately twenty-four days, but tragically died upon returning to Earth. The U.S.'s first space outpost, Skylab, was launched in 1973. It was not intended to be a permanent station, but was used to study long-term effects of space and weightlessness on humans and animals. The longest-running manned space station, the Russian Mir station, managed to stay aloft for fifteen years despite being used for years after its proposed duration and suffering several accidents that at times severely hampered its capabilities. In 2001 Mir was guided back into Earth's atmosphere, where it was destroyed.

The most exciting development in the field of manned space exploration today is the International Space Station, a joint project that began construction in 1998. Funded and supplied by sixteen countries around the world, its purpose is to create a permanent station to take the world's space program into the next century and millennium. When the station is completed in 2006, we will have the best platform to begin the next stage of exploration, leading back to the Moon, perhaps to Mars, and beyond.

The ISS has fired the imaginations of people around the world, and science fiction authors are no different. Fourteen of today's best writers have given us their ideas of what the next generation of space stations will look like. From Timothy Zahn comes a story of a station that everyone thought was past its prime, until the time came for it to take part in a most unusual battle. Alan Dean Foster explores a space station that takes care of even its smallest inhabitant in a very special way. Brendan DuBois takes us to a future Earth where the dream of space stations took a detour that grounded humanity forever. And Gregory Benford reveals a completely different view of a space station in our final story.

Fourteen visions of the future created by the finest authors of speculative fiction. So turn the page and prepare for adventures beyond your wildest imagination on these space stations of tomorrow.
John Heifers

Contents

THE BATTLE OF SPACE FORT JEFFERSON by Timothy Zahn

REDUNDANCY by Alan Dean Foster

DANCERS OF THE GATE by James Cobb

MIKEYS by Robert J. Sawyer

THE FRANCHISE by Julie E. Czerneda

FOLLOW THE SKY by Pamela Sargent

AURIGA'S STREETCAR by Jean Rabe

FALLING STAR by Brendan DuBois

COUNTDOWN by Russell Davis

SERPENT ON THE STATION by Michael A. Stackpole

FIRST CONTACT CAFE by Irene Radford

ORBITAL BASE FEAR by Eric Kotani

BLACK HOLE STATION by Jack Williamson

STATION SPACES by Gregory Benford




Space Stations - Martin H. Greenberg and John Heifers [ Download ]

quinta-feira, 11 de março de 2010

The Usborne Book of the Future



 


 




The Usborne Book of the Future [ Download ]

quarta-feira, 10 de março de 2010

The Dimension Next Door



Shadows just out of sight, odd noises with no source, bizarre happenings that defy explanation?

Our world is filled with strange events and unexplained phenomena that everyone has an opinion on but that no one can explain. Perhaps these mysteries are people, or creatures, or something else entirely, breaching the barriers that separate our everyday world from realms that we cannot see or touch— yet.

What will these beings bring with them on their journey to our reality? Or will we humans be the first to break through to the other side, to explore the strange and wondrous worlds that lie just beyond our perception?
In The Dimension Next Door, many of my favorite writers challenge the minds of the readers to walk ancient pathways, imagine alternate timelines, and view the mysterious as perfectly natural.

Within these pages, Donald Bingle takes us to other worlds nearer to our own than we may think with “karmas sist.com.” Then Lillian Stewart Carl gives us a glimpse of what life is like for someone who can access the past in “The Avalon Psalter,” and Alexander Potter takes us to tea with the devil in “Hear No Evil.”

On another, darker, path, author Anton Strout gives us a horrifying glimpse of Ben Franklin in “The Fourteenth Virtue.” I certainly won’t think of the Founding Fathers in the same way again. And please don’t overlook the thought-provoking story “Waiting for Evolution,” by Jody Lynn Nye.

Then, once you’ve opened your mind to the possibilities, read “AFK” by Chris Pierson and “Unreadable,” by Steven Schend. You might just look at books and games in a whole new light.
So come in and stay awhile, and don’t worry about the darkness lurking in the corner—it may just be the door you’ve been waiting to go open.
Kerrie Hughes


Contents

THE FOURTEENTH VIRTUE - Anton Strout

WAITING FOR EVOLUTION - Jody Lynn Nye

THE TROUBLE WITH THE TRUTH - Nina Kiriki Hoffman

AFK - Chris Pierson

UNREADABLE - Steven E. Schend

NOT MY KNOT - Irene Radford

WWW.KARMASSIST.COM - Donald J. Bingle

THE AVALON PSALTER - Lillian Stewart Carl

SHADOWS IN THE MIRRORS - Bradley P. Beaulieu

GOD PAYS - Paul Genesse

JACK OF THE HIGH HILLS - Brenda Cooper

THE SILVER PATH - Fiona Patton

HEAR NO EVIL - Alexander B. Potter

ABOUT THE AUTHORS


The Dimension Next Door - Martin H. Greenberg e Kerrie Hughes [ Download ]

terça-feira, 9 de março de 2010

Guardsmen of Tomorrow



Adventure stories. FTL ships rocketing through space; the Space Guard keeping vessels safe from pirates; ray guns, BEMs, and damsels in distress. These are the stories I grew up on, and these are among the stories I still like to read.

Robert Heinlein. Isaac Asimov. E. E. “Doc” Smith. And, of course, Andre Norton. These are some of the people whose work I devoured growing up—and, in Andre’s case, whose new books I eagerly look forward to.

Space opera has changed a lot since the Golden Years of SF. The laws of science are followed more rigorously, for example (“modern” spaceships don’t bank when they turn), and the people in the stories tend to be more well-rounded, and even more flawed… more human, if you will. But the heart of space opera—the rousing sense of adventure, the strong pacing, the exotic settings, the larger-than-life issues—these haven’t changed. Or, if they’ve changed at all, they’ve only gotten better… as the stories in this anthology prove.

So sit back, turn the page, and enjoy… but before you do, you might want to buckle your seat belt, ‘cause it’s going to be a wild ride.
Larry Segriff


Contents

A SHOW OF FORCE by William H. Keith, Jr.

BLINDFOLD by Robin Wayne Bailey

WIPING OUT by Robert J. Sawyer

SMART WEAPON by Paul Levinson

PROCESSION TO VAR by Andre Norton

THE GEMINI TWINS by Paul Dellinger

THAT DOGGONE VNORPT by Nathan Archer

THE SILVER FLAME by Josepha Sherman

STARDUST by Jean Rabe

KEEPING SCORE by Michael A. Stackpole

ALLIANCES by Kristine Kathryn Rusch

A TIME TO DREAM by Dean Wesley Smith

ENDPOINT INSURANCE by Jane Lindskold


Guardsmen of Tomorrow - Martin H Greenberg and Larry Segriff [ Download ]

segunda-feira, 8 de março de 2010

Far Frontiers


Frontiers. There’s something magical about that word. Something stirring in its echoes. Something that calls to us, that sets our blood singing, our pulse pounding, and our souls soaring. Frontiers are more than just that, however, more than just stirring action, compelling char¬acters, and lives lived on the edge.

I’ve long believed that what our modem society needs most is a new frontier—something that would re¬ignite a sense of patriotism and community, something that would help to channel our aggressions, something that would give us, as a nation and as a world, a sense of pride, a sense of productivity, a sense of progress.

That’s why I’ve been such a fan of the space program. It’s also why, for the past twenty years or so, I’ve been so disap¬pointed in our space program.

But space isn’t the only frontier left open to us. It may not even truly be the final frontier. Some of my favorites include cities on the ocean floor, virtual reality, and per¬haps the greatest frontier of all: death itself.
Come with us now as we invite some of today’s top writers to take us on a personal tour of their own favorite frontiers.

Larry Segriff



Contents

TRACES by Kathleen M. Massie-Ferch

STAR LIGHT, STAR BRIGHT by Robert J. Sawyer

CHAUNA by Alan Dean Foster

OUT OF THE CRADLE by Terry D. England

THE CUTTING EDGE by Janet Pack

HOME WORLD by Marc Bilgrey

DREAMLIKE STATES by Kristine Kathryn Rusch

THE LAST BASTION by Lawrence Watt-Evans

FORGOTTEN by Peter Schweighofer

DOWN ON THE FARM by Julie E. Czerneda

SET IN STONE by Andre Norton

RUiNS OF THE PAST by Jane Lindskold

ANGEL ON THE OUTWARD SIDE by Robin Wayne Bailey


Far Frontiers - Martin H. Greenberg e Larry Segriff [ Download ]

domingo, 7 de março de 2010

Entrevista com Moorcock



Pergunta: Por que você acha que os leitores gostam dos seus livros?

Moorcock: Eu não tenho idéia. Um escritor nunca sabe quando ele acertou na mão. Quer dizer, eles sabem quando fizeram um bom trabalho, mas não sabem se o público vai gostar. Você nunca sabe. Quero dizer, você pode pensar que conseguiu, e então publicá-lo e esperar aplausos do público e então você ouve: "Sai fora, seu velho idiota."


Pergunta: Passou quase uma década desde o seu último livro da série Elric. O que fez você decidir voltar para Elric?

Moorcock: É um pouco como um instinto. Uma vez a cada 10 anos eu escrevo um par de romances da série Elric. Desta vez foram três. Tenho novas idéias para Elric, uma vez a cada década. É assim tão simples.  Até certo ponto, as idéias para essas novelas saíram do trabalho com os quadrinhos [Multiverse de Michael Moorcock]. Ao fazer uma história em quadrinhos da série Elric para o multiverso, percebi que poderia desenvolver isso um pouco mais. E assim, em certo sentido, surgiu um monte de coisas, você pode encontrar uma espécie de modelo, nos quadrinhos do multiverso. Tirei um monte de idéias dele.


Pergunta: Porque você acha que Elric deveria voltar, ao contrário dos personagens de suas outras fantasias?

Moorcock: Elric simplesmente funciona mais do que qualquer dos outros personagens. Quando você pensa sobre isso, há bonecos Elric, quadrinhos Elric, mais produtos Elric. Quando você olha para Amazon, é tudo Elric. O meus livros mais vendidos, são todos da série Elric. E não importa quantas pessoas digam: "Eu prefiro Corum," ou, "Eu realmente prefiro Hawkwind," Eu sempre penso: "Bem, eles são bons, mas aqui é o meu melhor rapaz. Elric". Jerry Cornelius é uma versão do Elric, mais do que uma versão do Corum, ou qualquer outro personagem meu.

Assim, novamente, Elric é realmente uma das figuras dominantes na coisa toda. Alguém me perguntou sobre Elric, e eu disse, ele é um Pierrot. Um romântico, trágico, mas a partir de outro ponto de vista, uma figura cómica. Na commedia dell'arte, Pierrot é, essencialmente alguém que está constantemente em busca de alguma coisa e sempre falhando, é por isso que ele é simpático. Um malandro trapalhão. De certa forma ele diz que vale a pena lutar para fazer as coisas, mas há um preço a pagar. Há sempre um preço, e meus personagens sempre têm de pagar um preço. Eles não vêm para casa no final, e todos recebem um pedaço de bolo, uma chávena de chá e todos dizem, "Hooray, hooray, você salvou o dia. Os anéis estão todos de volta na caixa ou qualquer outra coisa, e nós somos mais felizes, mais sábios, do que aqueles malvados que falam engraçado e gritando, e que assim imediatamente se identificam como vilões."


Pergunta: Por que você acha que Elric é popular há quase 40 anos?

Moorcock: Eu acho que ele é, provavelmente, de todos os heróis da minha fantasia, de todos os meus heróis épicos, ele é a pessoa que mais encarna minhas idéias, minhas próprias lutas, a meu psique ... minhas questões morais, e este tipo de coisa. E ele continua a ser muito moderno, um tipo existencial de herói. Há ainda muito para desenvolver no personagem Elric. Ele já está fazendo as perguntas, ele já está lidando com os problemas.

É estranho, realmente. Eu não conheço muitos trabalhos deste tipo específico, com exceção da ficção científica. Na Ficção científica, estranhamente, se faz muito além do que na fantasia. Tenho notado que eu não leio muita fantasia - eu nunca li. Eu só comecei a escrevê-la. Aconteceu de eu ter facilidade para isso. Então eu não estou  particularmente interessado nela como um gênero. Eu não comecei a escrevê-la porque havia um gênero lá fora.

Eu e Tolkien. Basicamente, no início, eu e Tolkien vendíamos aproximadamente o mesmo, que era muito, muito pouco. Tolkien era considerado apenas um escritor, como [Mervyn] Peake, improvável de decolar.

Em certo sentido, eu comecei a escrever Elric para me afastar de Tolkien. Eu não gostava de Tolkien, porque tinha a coisa das histórias de fadas. Não tinha o que eu considerava como uma qualidade propriamente trágica. Era demasiado sentimental para o meu gosto. Eu sou  atraído pelo lírico, romântico e o trágico, ao invés daquela coisa de "cinco pessoas que vão resolver juntas um problema", que é essencialmente, a fórmula de Tolkien. É a fórmula que a maioria das pessoas prefere. É a fórmula dos jogos de RPG e coisas assim.

É para indivíduos alienados que são fundamentalmente solitários, e que não querem fazer muita coisa com outras pessoas. É diferente da minha própria experiência. Eu fui muito precoce. Eu já ganhava a minha vida com a idade de 15 anos. Eu não penso em termos de cinco amigos se unirem para resolver um problema.


Pergunta: E como é produzir um livro tipo Elric agora? É diferente do que era nos anos 60?

Moorcock: Bem, não é diferente em certo sentido, mas é mais difícil. A idéia é escrever um livro que o público vai comprar. Quer dizer, esses livros são escritos também por dinheiro. Eu não estou tentando enrolar as pessoas, mas ao mesmo tempo, obviamente não posso me comprometer. Eu apenas tenho que escrever o que eu escrevo. Mas, ao mesmo tempo, a minha idéia é não colocar obstáculos no caminho para alguém comprá-lo. Eu não quero torná-lo uma leitura difícil. O que ocorre é tornar-se um livro difícil escrever.

Eu já disse isso sobre o rock n 'roll "a única coisa que dá muito certo no rock' n 'roll é que não se tem sempre a certeza de onde está indo". Nunca tem certeza de que se vai chegar lá, você sabe? É tudo: voz,instrumento, tudo em movimento... sempre assim, expandindo-se.

Basicamente, eu estava voando baixo com Stormbringer. Era uma espécie de moto muito rápida, mas não sabia bem para onde estava indo. Eu só esperava que Deus pudesse segurar e manter a direção. Então, você precisa definir outro padrão, um padrão mais elevado, que não interfere com o prazer do leitor ou que vá impedi-los de obter prazer do livro. Eles não precisam saber o que você está fazendo, mas você tem que fazer por si mesmo.

E a outra analogia é, essencialmente, quando você começa a cantar um bom rock n 'roll no palco. Se você levantar o microfone acima do nível da sua cabeça, você está se esforçando para alcançar o microfone e, nesse ato de esticar para alcançá-lo, você introduz tensões que são, novamente, essenciais, as tensões que estão no rock 'n' roll. É por isso que cantores de ópera não podem cantar rock n 'roll' - vozes treinadas não podem cantar algumas músicas, por melhor que estejam treinados, Pavarotti cantando uma canção de Willie Nelson é loucura, como Willie Nelson provavelmente pudesse cantar qualquer canção de Pavarotti seria loucura.

O que me atrai na ficção científica e no rock 'n' roll, foi o fato de que eram parentes, eram jovens, e que não tinham sido assumidos por ninguém. Não havia nenhuma revista, site, e assim por diante, para me fazer sentir auto-consciente. Esse foi o ambiente em que escrevi e produzi.


P: Parece que nos últimos 10 anos, você se esforça conscientemente para fazer de Multiverse um lugar menor - com mais inter-relacionamentos, mais personagens.

Moorcock: Sim, até certo ponto é verdade. Está se expandindo. E em parte, é a teoria do caos. Quanto mais eu entendo a teoria do caos, e eu não me refiro a este tipo de coisas da moda que eles chamam de teoria do caos, mas a matemática real em Mandelbrot, mais eu tenho entendido que, quanto mais racional, mais o mundo torna-se irracional. É quase como se existissem zonas agora, que não haviam antes.

Eu quero descrever a experiência em uma história, sem ter de racionalizá-la ou explicá-la em qualquer tipo de forma genérica, exceto pela minha própria lógica, o meu próprio raciocínio. O que você está vendo na minha ficção é um trabalho individual, mas que está em certo sentido, tentando resolver seus próprios problemas genéricos. Que se desenvolveram depois de eu ter começado.


P: A fantasia e a ficção científica têm seus próprios conjuntos de regras. Multiverse tem seu próprio conjunto de regras?

Moorcock: Sim, certamente. Você tem que segui-las para atender as expectativas dos leitores. Para dar ao cliente o que eles querem. Meus leitores têm certas expectativas de mim. Qualquer novo leitor pode entrar no meu multiverso com qualquer livro, e não sentir que tem que ler todos os outros. Em "To Kill a Mockingbird", você não precisa saber o que está acontecendo na cidade, com essas pessoas, e assim por diante.  Você não acha que, "Oh meu Deus! Não consigo ler "To Kill a Mockingbird" até que eu tenha lido toda a história do Sul", etc, etc - você simplesmente não faz isso. Então eu não quero que os leitores tenham que pensar: "Deus, por onde eu começo, e quando vou terminar?"

O que eu ofereço é o mesmo que oferece talvez um diretor de cinema: se você gosta desse aspecto do meu trabalho, este aspecto da minha vida, então vá por ai. Eu não espero que você goste tanto de Elric, quanto de Pyat. Fico muito contente quando você gosta, mas eu não espero isso. Estou oferecendo uma ampla gama de entretenimentos. Eu sou como um canal de TV.


P: O que você espera ver na seção Moorcock das livrarias?

Moorcock: Isso é lamentável. As livrarias costumavam ter uma seção Moorcock. Quando eu estava no meu auge,  antes de todas essas outras m****s aparecerem. Tolkien não tinha uma seção, até que eu apareci. É absolutamente verdade, todo mundo disse isso na época, eu era uma categoria. Eu era vendido como uma categoria. Eu era vendido, essencialmente, para os distribuidores assim: "Quantos Moorcocks você  quer este mês?"

Desde então, tem havido alguns livros bons e um lote terrível de xerox ruins, mas eu nunca estive fora de impressão em qualquer lugar do mundo. Quer dizer, em 40 anos eu era sempre fui impresso - o que não é ruim. E a maioria dos livros são legíveis. Outra coisa de que eu tenho orgulho, as pessoas dizem isso, e eu sinto que é verdade. É uma questão de orgulho pessoal. Eu não podia fazer nada, só o meu melhor. Porque se você produz uma bela linha de mobiliários, que é muito bom e dura, todos dizem: "Ah, eu vou comprar mobiliário Moorcock", não dá pra baixar a qualidade. Eu sinto que tenho uma relação especial com o leitor. Meu negócio com o leitor é entregar a melhor qualidade que eu puder. Móveis que você pode usar.Há uma chance de quando ficar senil, de perder essa capacidade, mas por enquanto eu não estou, e isso é o que eu faço. É um negócio de família à moda antiga, que se orgulha do que produz!


P: Nos anos 60 você era bem conhecido por sair com outros escritores que escrevem coisas similares. Fritz Leiber, Mervyn Peake, foram escritores que lhe foram associados. Há escritores que escrevem hoje e que possam ser associados a você?

Moorcock: O tipo de escritores com quem eu me associava são o mesmo tipo de escritores de hoje. Eles são escritores com uma gama muito ampla de referências. Não importa se estão escrevendo um gênero ou se estão escrevendo obras literárias, não importa. Há uma revista chamada Modern Word de Jeff VanderMeer, é um tipo de  revista muito erudita, que inclui pessoas como Philip K. Dick, ou seja, inclui também escritores como Pynchon e Don DeLillo, e esse tipo de escritor. Estou sempre mais à vontade com alguém que é um leitor curioso, que lê todos os tipos de literatura.


P: Você escreveu um comentário para a Amazon UK, que Tolkien "foi paciente com você, como com um menino." Qual era o seu relacionamento com ele?

Moorcock: Muito bom, porque naqueles dias, Tolkien não possuía fãs. Achei que poderia ter entrado em contato com ele... Eu tinha escrito um artigo sobre ele no meu fanzine, que originalmente começou como um fanzine de Edgar Rice Burroughs, mas se tornou uma espécie de fanzine de fantasia em geral. Então eu fiz matérias sobre várias pessoas, mas ninguém na verdade, que ainda estivesse vivo e eu tinha escrito um romance de fantasia, haviam apenas cerca de três ou quatro. Eu também estava interessado em música popular, assim eu estava me correspondendo também com Woody Guthrie e Pete Seeger.

Isso pode parecer estranho para as pessoas nos dias de hoje, mas naqueles dias esses pobres diabos não possuíam fãs. Eles ficavam felizes se uma pessoa comum como eu, chegasse junto deles. Eu mantinha uma correspondência maravilhoso com TH White. Quer dizer, hoje essas pessoas seriam inundadas de cartas, tenho certeza. Era assim. Assim como você ou qualquer um pode escrever para mim hoje.

Lá estavam eles, gente como Leiber, e a ficção científica era o gênero dominante. Todos os escritores de ficção científica, Damon Knight e por ai vai, os escritores de ficção científica inteligentes, detestavam fantasia, e tinham ódio de Tolkien, mas eu não.

Considerando que cresci lendo fantasia científica: Leigh Brackett e coisas assim, para mim, era a combinação perfeita. Você tem a magia e a ciência. Por que apenas uma, quando você pode ter tudo? Então eu tinha uma visão muito diferente deles. Mas esses caras das ciências, em geral, são muito mais austeros. Pohl e Kornbluth, Damon Knight, Philip K. Dick, todas estas pessoas tinham um foco, um objetivo real.

O estranho é que a minha fantasia não tinha nada disso. A maioria não tem. Tem um elemento de comentário social dentro dela, e só.

George Orwell previu que as pessoas que lêem ficção quando meninos iriam automaticamente se tornarem fascistas. Eu estava absolutamente envolvido com este material e ninguém ainda me chamou de fascista.

O primeiro livro que eu comprei quando jovem, com o meu próprio dinheiro, porque eu achava que parecia ser uma boa aventura de fantasia, foi o "Pilgrim's Progress". Eu li e gostei, e é uma lição de moral muito boa para todos nós, independentemente da sua religião. Você sabe, se esforçar, assim por diante. É inspiradora, é uma alegoria.  Pensei então que toda história para adultos tinha que ter dois significados. Aprendi que teria um sentido alegórico ou simbólico funcionando com ele. Um argumento moral. Estas fantasias sobre pessoas pobres, têm um significado simbólico. Não estou dizendo que outros não tem, mas de um modo geral, a maioria não parece se preocupar. Eles não se concentram em um problema social, não ressoam entre o mundo moderno e o mundo de fantasia. Não sei tanto sobre o mundo. "Eu sou um contador de histórias". Quando viajo, não sei todos os detalhes da história e da economia e da cultura dos lugares para onde vou. As histórias saem das pessoas, e da paisagem. O resto do mundo eu não sei, não sei mais sobre ele do que sobre a economia em Madagascar.

Se eu definir uma história na ilha, eu aprendo um pouco sobre a ilha. Mas apenas o suficiente para contar a história. Sei que existem pessoas que fazem isso o tempo todo, que se aprofundam, mas você está construindo um mundo, você não está navegando nesse mundo. Acho isso muito estranho.

Leitores mais jovens se queixam de que em meus livros eu não entro em detalhes, do jeito que esses outros escritores fazem. Até onde eu sei, esses escritores são uns chatos. E eles estão me fazendo perder meu tempo.

Entrevistado por Rick Klaw (Science Fiction Weekly)

Michael Moorcock



John Michael Moorcock (18 de dezembro de 1939) nasceu em Londres (Inglaterra). 

Prolífico escritor de Ficção Científica e Fantasia, além de músico e editor, também é autor de uma série de romances literários. Ele tornou-se editor da revista Tarzan Adventures em 1956, com apenas dezesseis anos, depois tornou-se editor da Sexton Blake Library. Como editor da polêmica revista britânica de ficção científica New Worlds, de 1964 até 1971 e depois novamente de 1976 a 1996, Moorcock fomentou o desenvolvimento da New Wave no Reino Unido e indiretamente, nos Estados Unidos.

Durante este tempo, ele ocasionalmente escrevia sob o pseudônimo de James Colvin, um pseudônimo usado por outros críticos da New Worlds. Depois de "Breakfast in the Ruins", um romance literário, anunciou a morte prematura de Moorcock. Alguns leitores acreditaram.

Moorcock, na verdade, faz muito uso das iniciais "JC", e não totalmente coincidente estas também são as iniciais de Jesus Cristo, o tema de seu romance de 1967 "Behold the Man", publicado pela primeira vez na New Worlds, e que conta a história de Karl Glogauer, um viajante temporal que assume o papel de Jesus Cristo (ganhou o prêmio Nebula como melhor romance de 1967).

Moorcock tem permitido que uma série de outros escritores criem histórias em seu universo ficcional de Cornélio Jerry. Brian Aldiss, M. John Harrison, Norman Spinrad, e James Sallis, entre outros, tem escrito essas histórias.
Em uma entrevista publicada na revista Internet Review of Science Fiction, Moorcock explica a razão para a partilha de seu personagem: "Jerry sempre esteve destinado a ser uma espécie de bola de cristal para que outros vejam suas próprias visões - as histórias foram concebidas para funcionar para isso - uma plataforma de mergulho, para usar outra analogia, a partir da qual se pode saltar em um rio e ser levado por ele. [...]

Ele é amigo e fã de Alan Moore, que permitiu o uso de seu próprio personagem, Michael Kane de Old Mars, mencionado por Moore na Liga dos Cavalheiros Extraordinários, Volume II. The Green City de Warriors of Mars foi também usada em Rainbow Mars de Larry Niven.
Cornelius também apareceu na série de quadrinhos do artista francês Moebius "Le Garage Hermetique".

Em 2000, Moorcock escreveu o enredo para um jogo de computador, que foi aprimorado e ganhou vida através de Storm Constantine, resultando em Silverheart. A história se passa em Karadur-Shriltasi, uma cidade no centro do Multiverso.

Moorcock recebeu o título de Grande Mestre pela SFWA em 2008.


Michael Moorcock (Behold the Man, El libro de los martires, El verdadero senõr Newman, Chronicles of Castle Brass series, The Elric Saga series, An evening at home, Breakfast in the ruins, City of the Beast, Corum series, Lonfon Bone, The sedentary jew, Oswald Bastable series, Runestaff series, The case of the nazy canary, Caribean crisis, The affair of the Basin Les Hivers, The black corridor, The blood red game, The dancers at the end of the time series, The dreamthief's daughter, The eternal champion, The skrayling tree, The time dweller, The winds of Limbo, Von Bek series, Jewel in the skull, Un cantante muerto, Weird of the white wolf ) [ Download ]

sábado, 6 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19

 

CAPÍTULO 19
Este capítulo é dedicado à livraria MIT Press, uma loja que visito nos últimos 10 anos sempre que vou a Boston. MIT, é claro, é um dos lugares lendários de onde se originou a cultura nerd mundial, e a livraria do campus sempre me surpreende, desde que coloquei o pé dentro dela pela primeira vez. Em adição aos títulos maravilhosos publicados pela editora MIT Press, a livraria fornece um tour pelo que há de mais excitante em matéria de publicações high-tech no mundo, desde zines sobre hackers, até grossas antologias acadêmicas sobre design de videogames. Este é um dos lugares em que tenho que pedir para enviar as compras para minha casa, pois elas nunca cabem em minha mala.
MIT Press Bookstore: Building E38, 77 Massachusetts Ave., Cambridge, MA USA 02139-4307 +1 617 253 5249

O email que foi enviado às 7 da manhã seguinte, enquanto eu e Ange pintávamos “VAMPMOB CENTRO CIVICO->” em pontos estratégicos pela cidade, dizia:
>REGRAS PARA A VAMPMOB
>Você faz parte de um clã de vampiros diurnos. Você descobriu o segredo de como sobreviver na luz do sol. O segredo é o canibalismo: o sangue de outro vampiro pode lhe dar a força para andar entre os vivos.
>Você precisa morder outros vampiros, quanto mais, melhor, para poder continuar no jogo. Se você passar um minuto sem morder alguém, estará fora do jogo. Uma vez que esteja fora, vista sua camiseta de trás para frente e você se torna um juiz - siga alguns vampiros para ver se eles estão mordendo.
>Para morder outro vampiro, você tem que dizer “MORDIDA!” cinco vezes antes que ele o faça. Então procure um vampiro, faça contato visual e grite “MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA” e se conseguir antes que o outro o faça, você vive e o outro se torna pó.
>Você e os outros vampiros que você encontrar no seu ponto de encontro formam o seu time. O clã. O sangue deles não serve.
>Você pode se tornar invisível ficando parado e cruzando os braços em frente ao peito. Você não pode morder vampiros invisíveis e eles não podem te morder.
>Este sistema usa o sistema de honra dos jogos. A idéia é se divertir é vampirizar por ai e não vencer.
>O jogo tem um fim que será comunicado assim que alguém for declarado vencedor. Os mestres do jogo irão fazê-lo assim que acontecer, preste atenção nos avisos.
>M1k3y
>MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA!

Nós esperávamos que por volta de uma centena de pessoas aparecesse para jogar. Mandamos quase duzentos convites cada um. Mas quando fui ver no Xbox às 4 da manha, haviam 400 respostas. Quatrocentas.
Eu alimentei com os endereços o email programado e saí. Desci as escadas, ouvi meu pai roncando e minha mãe se mexendo na cama. Fechei a porta atrás de mim.

#

As 4:15 da manhã, Potrero Hill estava tão calma quanto uma cidade do interior. Alguns sons de trânsito distante e uma vez um carro passou por mim. Parei no caixa eletrônico e tirei 320 dólares em notas de 20, enrolei-as, coloquei um elástico em volta e enfiei num bolso nas minhas calças de vampiro.
Eu vestia novamente a capa e a camisa bufante e calças de smoking que eu tinha modificado para ter bolsos suficientes para carregar um monte de coisas. Usava minhas botas de fivelas de caveira de prata e tinha despenteado o cabelo feito um dente-de-leão negro. Ange estava trazendo a maquiagem branca e tinha prometido usar o delineador nos meus olhos e pintar minhas unhas de negro. Por que não? Quando eu poderia me vestir assim de novo?
Ange me encontrou na frente da sua casa. Ela trazia sua mochila também e meias arrastão, um vestido de empregadinha estilo Lolita gótica, o rosto pintado de branco, uma maquiagem de olhos elaborada estilo kabuki,  os dedos e garganta cobertas por jóias de prata.
“Você está demais!” dissemos um para o outro ao mesmo tempo, então rimos e saímos pelas ruas, com latas de tinta spray nos bolsos.

#

Quando pensei no Centro Cívico, pensei como seria ver 40 vampmobs seguindo para lá. Eu os esperava em dez minutos em frente ao prédio da prefeitura. Na grande praça, havia apenas alguns passantes que educadamente se desviavam dos mendigos esmolentos.
Eu sempre odiei o Centro Cívico. Uma coleção de enormes prédios em formato de bolo de noiva, prédios da justiça, museus e outros prédios como a prefeitura. As calçadas eram largas, os prédios eram brancos. Nos guias turísticos de São Francisco eles faziam com que parece o Epcot Center, futurístico e austero.
Mas visto do chão era sujo e embrutecido. Sem-tetos dormiam nos bancos. O distrito ficava vazio às 6 da tarde, exceto pelos bêbados e viciados, porque com apenas um tipo de prédio por ali, não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol. Estava mais para uma avenida do que para uma vizinhança e as únicas casas de comercio ali eram lojas de penhora e mercadinhos de bebidas para atender aos  familiares dos vigaristas, e vender aos bêbados que faziam desse lugar seu lar durante a noite.
Eu realmente comecei a entender aquilo quando li uma entrevista de uma antiga e fabulosa planejadora urbana chamada Jane Jacobs, a primeira pessoa que realmente pensou no motivo de ser errado fatiar a cidade com auto-estradas, enfiar os pobres em projetos habitacionais e usar leis de zoneamento para se controlar o que pode e o que não pode ser feito ali.
 
Jacobs explicava que as cidades são orgânicas e tem uma grande variedade - ricos e pobres, brancos, mestiços, anglo-saxões e mexicanos, varejo e residencial e até industrial. Uma vizinhança como aquela que tem todo tipo de gente passando por ela o tempo todo seja dia ou noite precisa ter um tipo de comércio para cada necessidade, ter gente ao redor o tempo inteiro agindo como os olhos da rua.

Você já viu isso antes. Quando caminha pela parte antiga de alguma cidade e você encontra um monte de lojas legais, caras de terno, pessoas usando a última moda, restaurantes finos e cafeterias bacanas, um pequeno cinema talvez, casas com uma fachada transada. É claro que pode ter umas Starbucks também, mas tem sempre um mercado de frutas e uma floricultora cuja dona parece ter trezentos anos e ela cheira as flores gentilmente em suas vitrines. Isso é o oposto de um espaço planejado, como um shopping. É mais como um jardim selvagem ou uma floresta na maneira que surgiu.

Você não poderia estar mais longe disso do que neste Centro Cívico. Li uma entrevista com Jacobs onde ela fala sobre a antiga e ótima vizinhança que eles colocaram abaixo para construir aquilo. Era o tipo de vizinhança que aparece sem permissão ou razão.
Jacobs disse que ela havia previsto isso há alguns anos, que o Centro Cívico seria a pior vizinhança na cidade, uma cidade fantasma à noite, um lugar com algumas lojas baratas vendendo birita e motéis pulguentos. Na entrevista ela não parecia feliz em ser inocentada deste fato, soava mais como se falasse sobre um amigo falecido quando descrevia o que o Centro Cívico se tornaria.

Agora era a hora do rush e o Centro Cívico fervilhava. A estação Bart também servia como a maior estação para as linhas de bondes municipais e, se você precisasse trocar de um para outro, era lá que você o faria. Às oito da manhã, milhares de pessoas vinham pelas escadas, subindo ou descendo as escadas, entrando em táxis ou saindo de ônibus. Elas eram afuniladas pelos pontos de verificação do DHS frente aos edifícios, e driblavam os pedintes mais agressivos. Cheiravam a xampus e colônias, frescas de banho recém-tomado e armadas em seus trajes de trabalho, empunhando valises e pastas com laptops. Às 8 da manhã, o Centro Cívico era uma central de negócios.

E para cá vinham os vampiros. Uma dúzia deles vindo de Van Ness, outra vindo do Mercado. Mais alguns vindo do outro lado do Mercado. Mais alguns chegando de Van Ness. Escorregavam pelos lados dos prédios, com suas faces pintadas de branco e os delineadores pretos nos olhos, roupas escuras, jaquetas de couro, botas. Mitenes de rendinha.
Eles começavam a encher a praça. Alguns trabalhadores passavam olhando  sem aceitar que estes esquisitos perturbassem suas realidades pessoais, enquanto se empenhavam em fazer uma porcaria qualquer nas suas próximas oito horas. Os vampiros se aglomeravam em grupos, sem muita certeza de quando o jogo se iniciaria. Se juntavam em grandes grupos, como uma mancha de óleo vazando, todos estes pontos negros num só lugar. Vários usavam cartolas e casacas antigas. Muitas das meninas elegantes vestiam fantasias empregadinhas góticas com gigantescos saltos plataforma.
Tentei estimar um número. 200. E cinco minutos depois, 300. 400. E continuavam chegando. Os vampiros tinham amigos.
Alguém beliscou meu traseiro. Virei e vi Ange, rindo tanto que tinha que se segurar.
“Olhe para eles, cara, olhe para todos eles!” ela disse. O dobro do povo que tinha poucos minutos atrás. Não tinha idéia de quantos eram Xneters, mas facilmente uns mil deles compareceram à minha festinha. Cristo.
O DHS e a Polícia de São Francisco começavam a aparecer por ali, falando em seus rádios. Ouvi uma sirene ao longe.
“Certo.” disse segurando Ange pelo braço. “Vamos lá!”
Mergulhamos em meio a multidão e logo que achamos nosso primeiro vampiro, ambos dissemos bem baixinho “mordida mordida mordida mordida mordida!” Minha vitima era um surpresa - mas bela- garota com teias de aranha pelas mãos e uma máscara grotesca. Ela disse “Droga!” e saiu dali sabendo que eu a tinha pego.
A coisa do “mordida mordida mordida mordida mordida!” já rolava pelos vampiros mais próximos. Alguns atacavam os outros e outros corriam buscando proteção, se escondendo. Esquivei-me entre os mundanos usando-os como cobertura, após ter garantido minha primeira vitima. Por toda volta, gritos de “mordida mordida mordida mordida mordida!” e risos e pragas.
O som se espalhava como um vírus através da multidão. Todos os vampiros sabiam que o jogo tinha começado e aqueles que antes permaneciam juntos agora partiam como moscas. Riam e sibilavam e corriam por toda parte passando a notícia de que o jogo começara. E mais vampiros estavam chegando.
8:16. Hora de pegar outro vampiro. Me abaixei e me movi assim entre as pernas daqueles que iam em direção às escadas do Bart. Eles saltavam ao me ver, surpresos, e tentavam me evitar. Minha mira-laser estava apontada para um par de botas na plataforma com dragões nas pontas e não esperava isso quando fiquei de cara com outro vampiro, um garoto de 15 ou 16 anos, cabelo cheio de gel, penteado para trás e usando uma jaqueta de PVC de Marilyn Manson com colar de dentes falsos onde estavam inscritos intrincados símbolos.
“Mordida mordida mordida…” ele começou, quando um dos mundanos voou sobre ele tropeçando e foram ao chão. Cai por sobre ele e gritei “mordida mordida mordida mordida mordida!” antes que pudesse se recompor de novo.

Mais vampiros chegavam. As roupas eram realmente de assustar. O jogo congestionou as calçadas e foi em direção a Van Ness, espalhando-se na direção da  rua do Mercado. Motoristas buzinavam, os condutores de bonde mostravam sua irritação com as campainhas. Ouvi mais sirenes, mas agora o tráfego começava a parar em todas as direções.

Aquilo era assustadoramente fantástico.

MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 

O som vinha de toda parte. Havia tantos vampiros agora, brincando com tanto vigor, que era um rugido. Arrisquei-me de pé ali, olhando a volta e percebendo estar bem no meio de uma multidão gigantesca de vampiros que iam tão longe o quanto podia enxergar em todas as direções.
MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 
Aquilo era melhor que o concerto no Parque Dolores. Aquele tinha sido furioso e mandara ver, mas este era, bem, era divertido. Era como voltar ao tempo do recreio, aos jogos que brincávamos enquanto o sol brilhasse, centenas de moleques perseguindo uns aos outros. Os adultos e os carros apenas faziam a coisa mais divertida, muito mais.
E era isso que era, diversão pura e simples. Todos nós estávamos rindo agora.
Mas a polícia a esta altura já estava mobilizada. Ouvi helicópteros. Daqui a alguns segundos estaria terminado. Era hora de decretar o fim e jogo.
Agarrei um vampiro.
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersássemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
A vampira era uma menina, pequena que pensei ser realmente muito nova, mas devia ter uns 17 ou 18 pelo seu rosto e sorriso. Ela disse: “Oh, esta é boa.”
“O que eu disse?”
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
“Certo. Passe adiante.”
Ela se misturou com a multidão. Eu agarrei outro vampiro e disse a mensagem para ele. E ele partiu para passar a mensagem.
Em algum lugar da multidão eu sabia que Ange estava também fazendo o mesmo. No meio da multidão devia haver gente infiltrada, falsos Xnetters, mas o que eles fariam ao saber disso? Os policiais não tinham escolha. Eles iam dar ordens para que dispersássemos. Isso era garantido.
 Eu tinha que achar Ange. O plano era nos encontrarmos na estatua do fundador, na praça, as chegar lá seria complicado. A multidão não se mexia mais, ela se aglomerara, como a multidão no caminho da Bart quando as bombas explodiram. Era praticamente impossível conseguir atravessá-la.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Ao redor, centenas de vampiros se atiravam ao chão, apertando suas gargantas esfregando os olhos, tossindo buscando ar. Era fácil fingir ter sido intoxicado por gás, nós todos havíamos visto os vídeos da festa em Missão Dolores Parque, com as nuvens de pimenta.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Caí ao chão protegendo minha mochila, retirei um boné de basebol vermelho que estava preso ao cinto das calça e o enfiei na cabeça então agarrei minha garganta e fiz a pior imitação de intoxicação.
Os únicos ainda de pé eram os mundanos,os assalariados que apenas queriam chegar aos seus empregos. Olhei ao redor enquanto tossia.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE! DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
A voz de Deus fazia meus intestinos doerem. Sentia-a nos molares, nos fêmures, na minha espinha.
Os assalariados estavam apavorados. Afastavam-se tão rápido quanto podiam, mas não em uma direção em particular. Os helicópteros pareciam pairar diretamente sobre nós não importando onde estivéssemos. Os policiais agora avançavam com dificuldade em meio à multidão e tinham os capacetes fechados. Alguns com escudos. Alguns com mascaras contra gases. Eu tossia forte.
Então os assalariados começaram a correr. Eu provavelmente teria que correr também. Vi um cara rasgar uma jaqueta de 500 dólares e amarrar os trapos ao redor do rosto antes de seguir para o sul em direção à Missão

Não era para isso acontecer - a coisa do fingimento era para assustar as pessoas e deixá-las confusas, mas não levá-las ao pânico de um estouro de boiada.
E então havia gritos agora, gritos. Reconheci da noite do parque. Este era o som de gente aterrorizada, correndo e se chocando uns contra os outros na tentativa de fugir dali.
E vieram as sirenes de ataque aéreo.
Não ouvia aquilo desde as bombas, mas eu nunca as esqueceria. Me cortaram e foram direto ao meu ponto fraco, fazendo minhas pernas virarem geléia. Isso me fez querer correr em pânico. Fiquei de pé, com o boné vermelho a cabeça, pensando somente numa coisa. Ange. Ange e a estátua do fundador.
Todos estavam de pé agora, correndo e gritando, em todas as direções. Empurrei algumas pessoas n meu caminho, segurando a mochila e o boné, enquanto ia na direção da estátua. Masha devia estar me procurando e eu procurava por Ange. E Ange não estava lá.
Empurrei e xinguei. Usei os cotovelos. Alguém pisou tão forte no meu pé que achei ter se quebrado e o empurrei e ele caiu. Ele tentou se levantar e alguém tropeçou nele. Eu era empurrado e empurrava.
Então alguém com mãos fortes agarrou meu pulso e cotovelo e num movimento fluido trouxe meu braço para as minhas costas. Senti como se meu ombro fosse sair do lugar e imediatamente me curvei. Gritando, um som que mal se ouvia devido ao brilho da multidão, do bater das pás dos helicópteros e do lamento das sirenes.
Fui endireitado, seguro por mãos fortes as minhas costas que me seguravam como se fosse uma marionete. Estava seguro de tal maneira que mal dava para virar-me. Não podia pensar nos helicópteros ou em Ange. Tudo que conseguia pensar era em me livrar de quem me mantinha preso. Consegui me mexer de maneira a ficar frente a frente com esta pessoa.
Era uma garota seu rosto anguloso parecendo um roedor, estava meio oculto por enormes óculos de sol. Sob os óculos, escapava um pouco de seu cabelo rosa espetado.
‘Você!” eu disse. Eu a conhecia. Ela tinha tirado uma foto minha e ameaçado me delatar ao vigia de gazeteiros. Cinco minutos antes dos alarmes de bomba começarem.  Ela tinha sido esperta e cruel. Nós corremos juntos daquele lugar em Tenderloin quando a polícia caiu sobre a gente e eu fui hostil e eles decidiram que eu era um inimigo.
Ela - Masha - se tornara aliada deles.

“Olá M1k3y!” ela disse beijando minha orelha, de perto, como se fossemos amantes. Ela soltou meu braço e eu me desvencilhei dela.
“Cristo! É você!”
“Sim, eu. O gás vai vir em dois minutos. Vamos ralar fora.”
“Ange, minha namorada, está na estátua do fundador.”
Masha olhou por sobre a multidão. “Sem chances! Se tentarmos chegar lá estamos ferrados. O gás vai baixar em dois minutos, caso não tenha entendido o que eu disse.”
Parei ali mesmo. “Não vou sem Ange!”
Ela riu: “Problema seu. É seu funeral!” ela gritou no meu ouvido.
Ela começou a empurrar a multidão se afastando para o norte em direção aos subúrbios. Eu continuei forçando caminho para a estátua. Um segundo depois, meu braço estava de novo às costas e eu estava sendo puxado para trás.
“Você sabe demais, seu Mané! Já viu meu rosto. Você vai comigo.”
Gritei e lutei contra ela até parecer que meu braço se partiria, mas ela continuava me puxando para trás. Com ela me usando como aríete, fizemos um bom avanço através da multidão. O som dos helicópteros mudou de repente e ela me deu um forte empurrão e gritou “Corre! Aí vem o gás!’
O barulho da multidão também mudou. Os gritos e reclamações pareceram diminuir bastante. Eu já tinha ouvido aquele som de algo sendo lançado no ar antes. Aquilo me levou de volta ao parque. O gás caia como chuva lentamente. Prendi a respiração e corri.
Nos livramos deles e ela soltou meu braço. Avancei com dificuldade o mais rápido que pude pelas calçadas enquanto a multidão ia se esvaziando. Íamos em direção a um grupo de policiais da DHS com escudos para confronto, capacetes e máscaras. Assim que passamos perto deles, eles se moveram em nossa direção para nos bloquear mas Masha exibiu um distintivo e eles se dissiparam como ela fosse Obi Wan Kenobi dizendo “Nós não temos os droids que vocês estão procurando.”
“Sua filha da puta!” falei enquanto corríamos pela rua do mercado. “Temos que voltar para pegar Ange!”
Ela apertou os lábios e balançou a cabeça “Sinto muito, chapa! Eu não vejo meu namorado há meses. Ele deve achar que estou morta. Se voltarmos para pegar Ange, estamos mortos. Se continuarmos, teremos uma chance. E se nós tivermos uma chance, ela também terá. Aqueles garotos não vão todos ser mandados para a prisão. Provavelmente irão pegar uns poucos para interrogatório e mandar o resto para casa.”
Tínhamos alcançado a rua do mercado, passado pelas casas de strip-tease onde os bêbados e viciados acampavam e usavam de banheiro ao ar livre. Masha me levou para uma pequena alcova, por uma portinha daqueles night-clubes. Tirou a jaqueta e virou ao avesso - o forro era de uma padrão grosso e do lado de dentro virado parecia diferente. Ela tirou um chapéu de lã do bolso e atarraxou na cabeça, parecendo um pico fora do lugar. Então ela pegou removedor de maquiagem e começou a trabalhar no seu rosto e unhas. Em minutos, era uma mulher diferente.

 “Mudança de guarda-roupa” ela disse. “Agora é sua vez. Tire os sapatos, a jaqueta e este boné.”
Eu sabia onde ela queria chegar. Os guardas deviam estar procurando atentamente por qualquer um que pudesse estar participando de um Vampmob. Tirei o boné. Nunca gostei de bonés de basebol. Enfiei minha jaqueta na mochila e peguei uma camisa de mangas longas com a foto de Rosa Luxemburgo nela, coloquei sobre a camisa preta. Deixei que Masha tirasse a maquiagem de meu rosto e tinta das unhas e um minuto depois eu estava limpo.
“Desligue o telefone.” ela disse. “Está carregando algum arphid?”
Eu tinha meu cartão do estudante, meu cartão de banco, meu Passe Rápido. Foi tudo para uma bolsa prateada que ela carregava consigo e que reconheci como sendo um saco Faraday à prova de ondas de rádio. Mas assim que ela a guardou percebi que tinha dado minha identidade para ela. Se ela estivesse trabalhando para o outro lado…

A grandeza daquilo que estava acontecendo começou a aparecer para mim claramente. Em minha cabeça eu imaginava ter Ange comigo neste ponto. Ange faria com que fosse dois contra um. Ange me ajudaria a ver se eu deixasse algo escapar. Se Masha não fosse tudo que ela dizia ser.
“Coloque estes seixos dentro dos sapatos antes de ….”
“Estou bem. Eu dei um jeito no pé. Nenhum programa de identificação vai me apanhar agora.”
Ela concordou e vestiu sua mochila. Eu peguei a minha e saímos dali. O tempo total pra nos trocarmos não chegou a um minuto. Parecíamos e andávamos agora como duas pessoas diferentes.
Ela consultou o relógio e balançou a cabeça. “Vamos lá. Temos que ir para o ponto de encontro. Não pense em correr. Você tem duas opções: eu ou a cadeia. Eles ficarão analisando os filmes daquela reunião de vampiros por vários dias, mas quando acabarem, cada rosto neles estará num banco de dados. Nossa saída do local será notada. Agora somos dois criminosos procurados.”

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Ela nos levou até a rua do Mercado, através de Tenderloin. Eu conhecia a vizinhança. Era aquela onde estivemos procurando por um ponto de acesso aberto de WiFi, jogando Harajuku Fun Madness.
“Para onde vamos?” perguntei.
“Vamos pegar uma carona. Cale a boca e me deixe pensar.” ela respondeu.
Nos movíamos rapidamente e o suor escoria por nossos rostos, sob o cabelo, através das costas, escorregando pelo rego da bunda e coxas. Meu pé doía de verdade e eu via as ruas de São Francisco provavelmente pela última vez.
E estávamos subindo com dificuldade, indo para aquele lugar onde a miséria de Tenderloin dava lugar aos imóveis mais inacessíveis de Nob Hills. Minha respiração se transfomava em arfadas irregulares. Ela nos levava por becos estreitos usando as ruas maiores apenas para alcançar a ruela seguinte.
Acabávamos de entrar por outra viela, Sabin Place, quando alguém atrás de nos gritou: “Parados aí!” cheio de júbilo perverso. Paramos e nos viramos.
Na beira da viela Charles meio vestido a caráter para o Vampmob, uma camisa preta e jeans com o rosto pintado. “Olá, Marcus. Vai a algum lugar?” Sorriu um sorriso largo e úmido. “Quem é a sua namorada?”
“O que você quer, Charlie?”
‘Bem, eu tenho estado de olho naqueles traidores da Xnet desde que eu te vi distribuindo DVDs na escola. Quando fiquei sabendo da sua VampMob, eu resolvi participar, só para ver se você ia dar as caras e o que iria fazer. E sabe o que eu vi?’
Não disse nada. Ele estava com o telefone na mão, apontando para nós, Gravando. Talvez estivesse já pronto para discar 911. Ao meu lado, Masha ficou dura como uma tábua.
“Eu vi você liderando a maldita coisa. E eu gravei tudo, Marcus. Agora eu vou chamar a polícia e você vai esperar quietinho por eles. E depois você vai passar um bom tempo na prisão.”
Masha deu um passo à frente.
‘Parada aí, guria’ ele disse. “Eu te vi trazendo ele até aqui. Eu vi tudo…”
Ela deu outro passo e arrancou o telefone da sua mão, enquanto que com a outra ela mostrava uma carteira aberta.
“DHS, seu babaca! Eu sou do DHS. Eu estava seguindo este tapado até seus líderes para ver onde ele iria. Agora você estragou tudo. Nós temos um nome para isso e chamamos de ‘Obstrução da segurança nacional!’ Você vai ouvir muito sobre isso a partir de agora.”
Charles recuou, suas mãos no ar, na frente dele. Parecia mais pálido ainda sob a maquiagem. “O quê? Não! Quer dizer, eu não sabia! Eu só estava tentando ajudar!”
“A última coisa que precisamos é de um bando de agentes especiais juniores nos ajudando, camarada. pode falar isso para o juiz!”
Ele se moveu recuando de novo, mas Masha foi rápida. Agarrou seu pulso e o girou do mesmo jeito que fizera comigo no Centro Cívico. A mão dela foi aos bolsos de trás e trouxe uma tira de plástico, uma algema, com a qual ela rapidamente prendeu seus pulsos.
Isso foi a última coisa que vi antes de sair correndo dali.

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Já estava longe, perto fim da viela quando ela me alcançou, lançando-me ao chão. Eu não conseguia me mover muito rápido por conta do pé machucado e o peso da mochila. Fui de cara ao chão e meu rosto feriu-se no asfalto.
“Jesus Cristo! Você é um idiota! Você acreditou naquilo, não foi?” ela disse.
Meu coração queria sair do peito. Ela estava sobre mim e lentamente me deixou sair.
“Vou precisar algemar você, Marcus?”
Fiquei de pé. Tudo doía. Eu queria morrer.
“Vamos lá!” ela disse, “Agora não estamos tão longe.”

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Nosso objetivo acabou sendo um caminhão estacionado numa ruazinha de Nob Hill, dezesseis rodas, do tamanho de um daqueles inconfundíveis caminhões da DHS que ainda se viam pelas esquinas de São Francisco, com suas antenas à vista.
Este, contudo, tinha estampado na lateral “Três caras e um caminhão de mudança” e os três caras estavam saindo e entrando de um alto prédio de apartamentos, com toldo verde. Carregavam móveis, caixas fechadas, enchendo o caminhão e cuidadosamente empacotando tudo.
Ela nos levou para dar uma volta pelo quarteirão, aparentemente insatisfeita com alguma coisa e ao passarmos novamente por eles, ela fez contato visual com o homem que tomava conta do caminhão, um cara com um cinto de ferramentas e luvas grossas. Tinha um rosto gentil, sorriu para nós, enquanto subia os três degraus da escada, entrando em seu interior. “Debaixo da mesa grande”, ele disse. “Deixaremos um espaço para vocês.”
O interior estava cheio pela metade, ou um pouco mais. Mas havia um corredor estreito ao redor de uma enorme mesa coberta por cobertores e com plástico bolha nas pernas.
Masha me puxou para baixo da mesa. Ali era apertado e empoeirado e tive que segurar um espirro assim que nos metemos entre as caixas. O espaço era tão pequeno que estávamos praticamente um sobre o outro. Eu não achava que Ange pudesse caber ali conosco.
“Puta!” eu disse olhando para Masha.
“Cala a boca! Você devia lamber minhas botas em agradecimento. Você acabaria numa cela em uma semana. E não seria aqui em São Francisco. Talvez você fosse parar na Síria. Acho que é para lá que mandam quando querem sumir com alguém.”
Eu coloquei minha cabeça entre meus joelhos e respirei profundamente.
“Por quê você fez uma coisa tão estúpida quanto declarar guerra a DHS?”
Eu contei para ela. Sobre ter sido humilhado e sobre Darryl.
Ela vasculhou os bolsos e tirou um telefone. Era de Charlie. “Telefone errado.” Tirou outro telefone do bolso. Ligou e a luz do telefone iluminou nosso pequeno forte. Após teclar por um instante elao  mostrou  para mim.
Era a foto que ela tinha tirado de nós, um pouco antes das bombas explodirem. Uma foto de Jolu e Van, eu e… Darryl.
Eu segurava na minha mão a prova de que Darryl estivera conosco antes de sermos levado para ficar em custódia da DHS. Prova de que ele estava vivo e bem e em nossa companhia.
“Você tem que me dar uma cópia disso. Eu preciso.” Eu disse.
“Quando a gente chegar em Los Angeles.” ela falou, fechando o telefone. “Quando você tiver entendido como ser um fugitivo sem nos colocar em perigo de sermos despachados para a Síria. Não quero que tenha idéias sobre resgatar este cara. Ele está seguro onde está… por enquanto.”
Pensei em tirar o telefone dela à força, mas ela já demonstrara sua força física. Ela devia ser faixa preta ou algo assim.

Ficamos sentados lá no escuro, ouvindo os outros três caras encherem o caminhão, caixa após caixa, amarrando coisas e grunhindo de esforço ao fazê-lo. Tentei dormir, mas não consegui. Masha não tinha problemas para isso. Ela roncava.
Ainda havia luz brilhando através do estreito e obstruído corredor através do qual entrava o ar fresco do exterior. Fiquei olhando para lá, pensando em Ange.
Minha Ange. Seus cabelos escorrendo sobre seus ombros enquanto virava a cabeça de um lado para outro, rindo de algo que fiz. Pensei em seu rosto quando a vi pela ultima vez, sumindo na multidão da VampMob. Todas aquelas pessoas da VampMob, como aquelas no parque, sendo derrubadas e sofrendo, o DHS avançando com seus cassetetes. Aqueles que desapareceram.
Darryl. Preso na Treasure Island, sendo levado da sua cela para intermináveis interrogatórios sobre os terroristas.
O pai de Darryl, acabado, barbado e embriagado. Depois, de banho tomado para “as fotos.” Lacrimejando feito um menininho.
Meu próprio pai, e o jeito com que ele mudou devido ao meu desaparecimento em Treasure Island. Tinha sido quebrado, como o pai de Darryl, mas ao seu modo. E seu rosto, quando eu contei onde eu estivera.
E foi então que eu soube que não podia fugir.
Foi quando eu soube que precisava ficar e lutar.

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A respiração de Masha era pesada e ritmada, mas quando eu tentei alcançar seu bolso com um movimento tão lento quanto o de uma geleira, tentando pegar seu telefone, ela se mexeu um pouco e fungou. Congelei e sequer respirei por dois minutos inteiros, contando um hipopótamo, dois hipopótamos…
Devagar, sua respiração voltou a ficar como antes. Retirei seu telefone do bolso do casaco milímetro por milímetro, meus dedos tremiam pelo esforço de mover-se tão lentamente.
Então o peguei, tinha a forma de uma pequena barra de doce.
Virei-me em direção a luz quando tive um flash de memória. Charles segurando seu telefone, nos filmando. Com um telefone na forma de uma pequena barra de doces, prateado, com logos de uma dúzia de companhias. O tipo de telefone subsidiado em que você é obrigado a ouvir um comercial cada vez que faz uma ligação.

Estava escuro demais para ver o telefone perfeitamente no caminhão, mas eu podia senti-lo. Tinha decalques nas laterais. Sim. Sim. Eu tinha roubado o telefone de Charles.
Virei-me devagar, devagar, bem devagar. Alcancei seu outro bolso. O seu telefone era grande e massudo, com uma ótima câmera e sabe-se lá mais o quê.
Eu já tinha conseguido antes, o que fazia a coisa toda mais simples. Milímetro por milímetro novamente, libertei-o do seu bolso, parando apenas quando ela fungou por duas vezes.
Estava com ele e comecei a me voltar, levando-o comigo, quando sua mão moveu-se rápida como uma cobra e agarrou meu pulso, com força, os dedos se fechando nos ossos da minha mão.
Engasguei e vi os olhos de Masha abertos me fitando.
“Você é um idiota!” ela disse, tirando-me o telefone. “Como achava que ia conseguir desbloqueá-lo?”
Engoli em seco. Senti os ossos do meu pulso sendo espremidos. Fiz força para não gritar.
Com a outra mão ela me socou. “Era isso que você queria?” Ela me mostrou a nossa foto. “Esta foto?”
Não disse nada. Meu pulso parecia que iria se quebrar.
“Talvez eu a apague, acabando com esta tentação!” Sua mão livre moveu-se em direção ao telefone. Seu telefone perguntava se ela estava certa do que iria fazer e ela teve que olhar para ele para ver o botão certo.
Foi aí que eu ataquei. Eu ainda tinha o telefone de Charles na minha outra mão e acertei sua mão o mais forte que consegui, batendo meus dedos na mesa sobre nós. Acertei-a tão forte que o telefone se partiu e ela gritou e sua mão se afrouxou. No mesmo movimento alcancei sua outra mão, e seu telefone agora desbloqueado com seu polegar ainda sobre a tecla de OK. Seus dedos ficaram no ar quando arranquei o telefone dela.

Corri para o corredor estreito usando as mãos e joelhos, em direção da luz. Senti suas mãos acertando meus pés e tornozelos por duas vezes. E ainda precisei empurrar uma daquelas caixas que haviam nos emparedado como o Faraó em sua tumba. Algumas caixas caíram atrás de mim e ouvi Masha gemer.
A porta de correr do caminhão estava aberta numa brecha e eu mergulhei através dela. Os degraus haviam sido retirados e me vi balançando sobre a rua, pendurado. Agarrei-me ao pára-choques e arrastei desesperadamente o fecho da porta, até o seu fim. Masha gritou do lado de dentro… Eu devia ter acertado seus dedos. Pensei que iria vomitar, mas não o fiz.
Eu tinha trancado o caminhão. 



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19 [ Download ]