segunda-feira, 22 de março de 2010
Antologia UFO - Contos não identificados
A antologia UFO - Contos Não Identificados, teve suas inscrições prorrogadas para 31/03/2010.
Regulamento pelo email ou pelo blog, ou ainda no link do Orkut.
domingo, 21 de março de 2010
Robert J. Sawyer
Robert James Sawyer (19 de Abril de 1960) nasceu em Ottawa (Canada), é formado em Artes aplicadas em Rádio e Televisão pela Universidade Ryerson em Toronto.
Sawyer, que se autodenomina o "único escritor canadense de ficção cientifica Hard em tempo integral", é vencedor de 36 prêmios literários em seu país e internacionais (França, Japão, Espanha e EUA), sendo os de maior expressão, o Nebula de 1995 (por The Terminal Experiment) e o Prêmio Hugo de 2003 (por Hominids, o primeiro volume da trilogia Neanderthal Parallax), além de ter sido indicado por oito vezes para o Hugo.
Chamado de decano da FC canadense, apesar dele mesmo se considerar um escritor de FC Hard, sua prosa limpa e simples, que muito lembra Isaac Asimov, é voltada quase sempre para o lado psicológico, metafísico ou filosófico.
Seus contos frequentemente são encontrados nas revistas Analog Science Fiction, Amazing Stories, On Spec, assim como em diversas antologias.
Editor, professor (leciona na universidade de Toronto), colunista do New York review of Science Fiction, também é membro do juri do prêmio L.Ron Hubbard, pode ser visto com frequência na televisão, como comentarista de séries científicas. Participou também como consultor da série de televisão Doctor Who.
Seu trabalho frequentemente explora a divisão entre ciência e religião, não através do misticismo, mas com o racionalismo de um cientista do nosso tempo.
Sawyer também escreve mistério policial com sucesso, tendo recebido os prêmios Aurora e Arthur Ellis.
Um de seus maiores feitos, foi no sentido de expandir a SFFWA, criando um braço canadense da associação em 1992, tendo trabalhado ele próprio, na diretoria por três anos. Além da SFFWA, Sawyer está envolvido com outras organizações de escritores, como a Crime Writers of Canada e The Writers' Union of Canada e Writers Guild of Canada.
Robert J. Sawyer ( Above it all, Calculating God, End of an era, Factoring Humanity, Fallen Angel, Flashforward, Forever, Frameshit, Gator, Good Doctor, Identify Theft and other stories, If I'm here imagine where they sent my luggage, Illegal Alien, Immortality, Ineluctable, Iterations, Just like old times, Lost in the Mail, Mars reacts, Mindscan, On the surface, Ours to discover, Peking Man, Quintaglio series, Recuerdos del futuro, Rollback, Shed Skin, Star light star bright, Starplex, Stream of consciouness, The blue planet, The hand you dealt, The Neanderthal Parallax series, The shoulders of giants, The terminal experiment, Wiping out, You see but you do not observe, Humanos ) [ Download ]
sábado, 20 de março de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 21
CAPÍTULO 21
Este capítulo é dedicado à Pages Books em Toronto, Canadá. Um ponto conhecido de longa data na badalada Queen Street West. Pages está localizada perto da CityTV, a pouca distância da velha Bakka, onde trabalhei. Nós, na Bakka, amávamos ter a Pages ali na rua. O que nós da Bakka representávamos par a Ficção Cientifica, a Pages significava para todo o resto, sempre com produtos que não eram encontrados em nenhuma outra parte, coisas que você não sabia estar procurando até que você as via lá. Pages também tinha uma das melhores bancas de jornal que já vi, várias revistas incríveis e zines de todo o mundo.
Pages Books: 256 Queen St W, Toronto, ON M5V 1Z8 Canada +1 416 598 1447
Eles deixaram a mim e Barbara sozinhos na sala então eu usei um dos chuveiros para me lavar... subitamente fiquei embaraçado por estar coberto de urina e vômito. Barbara chorava.
“Seus pais...” ela começou a dizer.
Senti como se fosse vomitar de novo. Deus, meus pobres pais. O que eles devem ter passado!
“Eles estão aqui?”
“Não. É complicado.” Ela disse.
“O quê?”
“Você ainda está preso, Marcus. Todos aqui estão. Eles não podem simplesmente vir aqui e abrir a porta para que saiam. Todos aqui irão passar pelo sistema criminal de justiça. Isso pode levar, bem, eu diria meses.”
“Vou ter que ficar aqui por meses?”
Ela agarrou minhas mãos.
“Não, eu acho que conseguiremos tirar você daqui bem rápido. Mas rápido é um termo relativo. Não espero que nada aconteça ainda hoje. E não será como estas pessoas que estavam aqui. Vocês serão tratados com humanidade. Vão comer comida de verdade. Nada de interrogatórios. As famílias vão poder visitá-los. Não é pelo DHS estar afastado daqui que significa você poderá simplesmente sair. O que está acontecendo aqui é algo que combatemos, uma versão do sistema de justiça do mundo bizarro que eles instituíram e colocaram no lugar do antigo sistema. Aquele com juízes, tribunais e advogados. Então nós tentaremos transferi-lo para um centro juvenil no continente, mas Marcus, estes lugares podem ser barra pesada. Realmente barra pesada. Isto aqui pode ser melhor para você até que consigamos libertá-lo de vez.”
Libertá-lo. É claro, eu era um criminoso... eu ainda não tinha sido acusado mas haviam muitas acusações que eles poderiam escolher para mim. Era praticamente ilegal apenas pensar coisas ruins sobre o governo.
Ela apertou minhas mãos novamente. “Isso é uma droga, mas é como vai ser. O ponto é, acabou. O Governador mandou o DHS deixar o estado, desmantelou todos os postos de controle. O Promotor Geral expediu mandatos de prisão para oficiais envolvidos em interrogatórios e aprisionamentos secretos. Eles vão para a cadeia Marcus e tudo pelo que você fez.”
Eu estava sonado. Ouvia as palavras, mas dificilmente entendia o significado. De alguma forma parecia ter acabado, mas não havia acabado de verdade.
“Olhe, nós provavelmente temos uma hora ou duas antes de tudo se ajeitar, antes de virem e levarem você de novo. O que você quer? Quer caminhar um pouco na praia? Quer comer alguma coisa? Este pessoal tem uma sala incrível para refeições... nós passamos PR ela vindo para cá. Culinária da melhor qualidade.”
Agora sim uma pergunta que eu podia responder. “Quer achar Ange. Quero achar Darryl.”
#
Tentei usar um computador que encontrei para procurar pelos números de suas celas, mas requeria uma senha, então foi necessário que andássemos pelos corredores, chamando seus nomes. Por trás das portas das celas, prisioneiros gritavam respondendo nossos chamados, ou choravam, ou suplicavam que os deixassem ir embora. Eles não entendiam o que havia acontecido, não podiam ver os guardas sendo levados algemados para as docas, vigiados pelas equipes da SWAT da Califórnia.
“Ange!” eu chamei acima do barulho, “Ange Carvelli ! Darryl Glover! É Marcus!”
Caminhamos por toda extensão do bloco de celas e eles não responderam. Achei que ia chorar. Eles podiam ter sido mandados para fora do país... podiam estar na Síria ou pior. Eu nunca os veria de novo.
Sentei-me com as costas contra a parede do corredor com meu rosto entre as mãos. Vi o rosto da mulher de cabelo curto, vi seu sorriso afetado quando me perguntava pela senha. Ela poderia ir para a cadeia por isso, mas não era o bastante. Pensei isso ao vê-la novamente. Eu poderia matá-la. Ela merecia.
“Vamos!” Barbara disse. “Vamos, Marcus, não desanime. Tem mais lugares para procurar, vamos.”
Ela estava certa. Todas as portas por quais passamos naquele bloco eram velhas, enferrujadas e datavam da época da construção. Mas no final do corredor, havia algumas portas de alta segurança grossas como um dicionário. Nos a abrimos e entramos por um corredor escuro.
Havia mais quatro celas, com portas com códigos de barras. Cada uma delas tinha um painel eletrônico junto delas.
“Darryl?” eu gritei. “Ange?”
“Marcus?”
Era Ange, chamando de dentro da cela mais distante. Ange, minha Ange, meu anjo.
“Ange!” gritei. “Sou eu, sou eu!”
“Oh Deus, Marcus!” ela respondeu e então começou a chorar.
Golpeei as outras portas. “Darryl! Darryl, você está aí?”
“Estou aqui.” A voz era baixa e bastante rouca. “Estou aqui. Sinto muito, sinto muito. Por favor, eu sinto muito mesmo.”
Ele parecia arrasado. Partido em pedaços.
“Sou eu, D!” disse encostado contra a porta. “É Marcus, acabou… eles prenderam os guardas. Eles acabaram com a DHS. Vão ser julgados, julgamentos públicos. E iremos testemunhar contra eles.”
“Eu sinto muito. Por favor, sinto muito mesmo.”
Um patrulheiro da Califórnia chegou na porta. Sua câmera ainda estava ligada. “Senhorita Stratford?” Sua máscara facial estava levantada e parecia com outro policial qualquer, não como meus salvadores. Como qualquer um que viesse me prender.
“Capitão Sanchez.” ela disse. “Localizamos dois prisioneiros que são do meu interesse presos aqui. Gostaria que os soltasse e eu me responsabilizarei pessoalmente.”
“Madame, ainda não temos acesso ao código destas portas.” ele disse.
Ela levantou sua mão.
“Este não foi nosso acordo. Eu teria completo acesso a esta unidade. Este acordo foi feito diretamente com o Governador, senhor. Não iremos a lugar nenhum até que abra estas celas.” Seu rosto era perfeitamente tranqüilo. Ela falava sério.
O Capitão parecia como se precisasse dormir. Ele fez uma careta. “Verei o que posso fazer.” ele disse.
#
Eles finalmente conseguiram abrir as celas, quase meia hora depois. Precisaram de três tentativas, mas eventualmente conseguiram os códigos corretos que batiam com o dos arphids dos distintivos de identificação que foram tirados dos guardas presos.
Entraram primeiro na cela de Ange. Estava vestida com avental hospitalar, aberto nas costas e sua cela era ainda mais desnuda que a minha, apenas o acolchoado, sem pia, sem vaso, cama ou luz. Ela veio para o corredor piscando os olhos e a câmera de polícia a estava filmando, com a luz brilhante em seu rosto. Barbara deu um passo a frente ficando entre nós e a câmera. Ange deu um passo para fora ainda cambaleante um pouco. Havia algo de errado com seus olhos, com seu rosto. Ela chorava, mas não era isso.
“Eles me drogaram. Quando eu não parei de gritar pedindo um advogado.” Ela disse.
Foi quando eu a abracei. Ela se sucumbiu contra mim, mas me abraçou também. Ela fedia e estava suada e eu não cheirava melhor do que ela. Não quis soltá-la. Nunca.
Foi então que eles abriram a cela de Darryl.
Seu avental hospitalar estava reduzido a frangalhos. Ele estava curvado e nu, no fundo da cela, protegendo-se da câmera e de nossos olhares. Corri para ele.
“D!” sussurrei em seu ouvido. “D, sou eu. Marcus. Acabou. Os guardas foram presos. Vão nos libertar, nós vamos para casa.”
Ele tremia e apertava os olhos “Desculpa...” ele sussurrou e virou o rosto.
Eles me afastaram dele, um policial usando armadura e Barbara me levaram de volta à minha cela e fecharam a porta e foi ali que passei a noite.
#
Não me recordo muito da viagem até a corte judicial. Me acorrentaram com outros cinco prisioneiros, todos eles tinham estado presos a muito mais tempo do que eu. Um deles só falava árabe... era velho e trêmulo. Os outros eram todos jovens, eu era o único branco. Depois que fomos reunidos no deque no barco, eu vi que todos ali presos em Treasure Island eram de cor.
Eu tinha estado lá dentro apenas por uma noite, mas durou muito tempo. Uma chuva fina caía e normalmente este era o tipo de coisa que me faria procurar proteção, mas hoje eu me juntei a todos os outros jogando minha cabeça para trás, olhando para o céu infinito e cinzento deleitando-me com aquelas picadas molhadas enquanto atravessávamos a baia em direção as docas.
Eles nos levaram em ônibus. As correntes fizeram com que subir ao ônibus fosse difícil e levou um tempo até que todos se acomodassem. Ninguém se importava. Enquanto dávamos um jeito de resolver o problema geométrico de seis pessoas, uma corrente e um corredor estreito, ficamos olhando a cidade ao nosso redor, para os prédios altos.
Tudo que eu pensava era em encontrar Darryl e Ange, mas nenhum dos dois estava à vista. Era uma multidão e não tínhamos permissão de nos movermos livremente através dela. As tropas estaduais que tratavam conosco eram gentis, mas ainda assim eram enormes, armados e encouraçados. Achei ter visto Darryl na multidão, mas sempre era outra pessoa com a mesma aparência abatida que ele tinha quando o tiraram da cela. Ele não era o único que tinha sido quebrado.
Na corte de justiça nos levaram para salas de entrevistas. Uma advogada da ACLU pegou nossos dados e nos perguntou algumas coisas... quando ela veio falar comigo ela sorriu e me chamou pelo meu nome... e então fomos levados para a frente do juiz. Ele vestia a túnica habitual e parecia estar de bom humor.
O acordo foi que todos que tivessem um familiar que se encarregasse da fiança poderiam sair livres, e os outros seriam mandados para a prisão. A advogada do ACLU falou bastante com o juiz, pedindo mais tempo para localizar os familiares e trazê-los até a corte. O juiz foi simpático quanto a isso, mas quando eu me dei conta que algumas daquelas pessoas estava presa desde a explosão da ponte e que tinham sido dados como mortos pelos familiares, sem um julgamento, e tinham sido submetidos a interrogatórios, isolamento e tortura...eu mesmo quis quebrar aquelas correntes de deixá-los livres.
Quando fui levado diante do juiz, ele me olhou e tirou seus óculos. Parecia cansado. A advogada parecia cansada. Os funcionários pareciam cansados. Pude ouvir um cochicho atrás de mim quando meu nome foi chamado. O juiz bateu seu martelo.
“Senhor Yallow” ele disse “o processo identificou-o como de risco de evasão. Acho que eles têm razão. Você certamente tem uma, digamos, história diferente a contar, do que as outras pessoas aqui. Estou tentado segurá-lo para o julgamento, não importando o quanto seus pais possam pagar de fiança.”
Minha advogada começou a dizer algo, mas o juiz a fez silenciar-se apenas com uma olhada.
“Você tem algo a dizer?”
“Eu tive a chance de fugir.” eu disse “Na semana passada. Alguém se ofereceu para me levar para fora da cidade, me ajudar a conseguir uma nova identidade. Ao invés disso eu roubei seu telefone, escapei do caminhão e corri. Eu fiz com que seu telefone... que continha evidências sobre meu amigo Darryl Glover nele...chegasse a uma jornalista e me escondi na cidade.”
“Você roubou um telefone?”
“Decidi que não podia fugir. Que tinha que encarar a justiça... que minha liberdade não valeria nada se eu fosse um homem procurado ou se a cidade permanecesse sob o controle da DHS. Se meus amigos continuassem presos. Esta liberdade para mim não era tão importante quanto a liberdade do país.”
“Mas você roubou um telefone.”
Fiz que sim.
“Sim, roubei. Planejava devolver se algum dia encontrasse a jovem dona do telefone.”
“Bem, obrigado, senhor Yallow, pelo seu discurso. Você é um jovem muito comunicativo.”
Ele olhou para o Promotor.
“Alguns poderiam dizer que também é um jovem muito corajoso. Há um certo vídeo no telejornal desta manhã. Ele sugere que você possui razões legitimas para fugir das autoridades. Em vista disso, e de seu pequeno discurso aqui, eu lhe concederei a fiança, mas também pedirei ao Promotor Publico que acrescente uma acusação de contravenção de menor delito, devido à questão do telefone. Por conta disso, estabeleço mais 50 mil a ser acrescido na sua fiança.”
Ele bateu o martelo novamente e minha advogada apertou minha mão.
O Juiz olhou para mim novamente e ajeitou seus os óculos. Ele tinha caspa nos ombros e um pouco mais caiu quando as hastes dos seus óculos tocaram seu cabelo cacheado.
“Pode ir agora, meu jovem. E fique longe de encrencas.”
#
Me virei para sair quando alguém me agarrou. Era papai. Ele literalmente me levantou do chão, num abraço tão apertado que fez minhas costelas rangerem. Me abraçou de um jeito que me lembrou quando era criança, quando ele brincava de me jogar para o alto e me agarrando e me abraçando tão forte que quase machucava.
Um par de mãos macias me puxou gentilmente de seus braços. Mamãe. Me prendeu nos braços um pouco, sem dizer nada, as lágrimas rolando pelo seu rosto. Sorriu e o sorriso virou choro e então nos abraçávamos e os braços de papai ao nosso redor.
Quando me soltaram, e finalmente consegui dizer algo: “Darryl?”
“Encontrei com o pai dele. Darryl está hospitalizado.”
“Quando poderei vê-lo?”
“É nossa próxima parada.” papai falou. Ele estava zangado. “Darryl não...” Calou-se. “Eles disseram que ele vai ficar bem.” Sua voz sumiu.
“E Ange?”
“A mãe dela a levou para casa. Ela queria esperar por você, mas...”
Eu entendi. Sentia-me cheio de compreensão agora, de como todas as famílias de todos aqueles presos há muito tempo deviam se sentir. A corte de justiça estava repleta de lágrimas e abraços e até os meirinhos não conseguiam contê-los.
“Vamos ver Darryl.” falei. “E me empresta seu telefone?”
Liguei para Ange no caminho do hospital onde estava Darryl... São Francisco General, bem descendo a rua... e combinamos de nos ver depois do jantar. Ela falava sussurrando e rápido. Sua mãe não sabia se a castigava ou não, mas Ange não queria correr riscos.
Havia dois policiais no corredor onde Darryl estava internado. Eles mantinham uma legião de repórteres afastados. Os flashes das suas câmeras estouraram em nossos olhos como estrobos. Meus pais tinham me trazido roupas limpas e eu havia trocado de roupa no banco de trás do carro, mas ainda me sentia sujo mesmo depois de me lavar no banheiro da corte de justiça.
Alguns repórteres gritavam meu nome. Tá certo, eu era famoso agora. Um policial me olhou como se reconhecesse meu rosto ou meu nome gritado pelos repórteres.
O pai de Darryl nos encontrou à porta do quarto, falando baixo o bastante para que a imprensa não ouvisse. Estava usando roupas civis, jeans e suéter, roupas que imaginava que ele usava normalmente, mas tinha as insígnias de serviço espetadas no peito.
“Ele está dormindo.” ele disse. “Ele acordou há pouco e começou a chorar. Não conseguia parar. Deram algo para ele dormir.”
Ele nos deixou entrar e lá estava Darryl, seu cabelo limpo e penteado, dormindo de boca aberta. Tinha uma coisa branca nos cantos dos lábios. Seu quarto era semi-privado, e na outra cama havia um cara mais velho com aparência árabe, por volta dos 40 anos. Imaginei que fosse o sujeito a quem estive acorrentado ao sair de Treasure Island. Trocamos uma saudação embaraçada.
Então me voltei para Darryl. Peguei sua mão. Sua unhas estavam mastigadas até carne viva. Ele costumava roer as unhas quando criança, mas tinha se livrado do habito quando entrou para a escola. Acho que Van o fez largar, dizendo-lhe o como parecia grosseiro ter sempre a mão enfiada a boca o tempo todo.
Ouvi meus pais e o pai de Darryl se afastando, fechando a cortina entre nós. Coloquei meu rosto perto do dele no travesseiro. Ele tinha uma barba desigual e rala que me lembrou Zeb.
“Ei, D. Você conseguiu. Você vai ficar legal.” eu disse.
Ele roncou um pouco. Eu quase disse “Eu te amo.” uma frase que só disse para uma pessoa que não era da minha família, e que era estranha demais para ser dita para outro cara. Por fim, apenas apertei sua mão. Pobre Darryl.
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sexta-feira, 19 de março de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
The Mammoth Encyclopedia of Science Fiction
The Mammoth Encyclopedia of Science Fiction is a book written for fans, by a fan. It is a book for anyone who has ever enjoyed science fiction or who wishes to know more about the genre.
My original aim was simple - to provide you, the reader, with an up-todate guide to the science fiction genre. So inside this book you will find entries on both classic and up-and-coming writers, on movies and television
series, as well as the important themes and devices of the genre.
Obviously I have had to limit my remit - some authors only just missed out on an entry. The same can be said about the entries for science fiction movies - 1 have limited myself to the one hundred most influential pieces
of genre film, or those that have a direct link to a classic novel. I have also provided entries on the twenty most important or popular television series from both America and the UK.
Within the author entries are links to various other sections of the book, as well as lists of recommended further reading that suggest authors who explore similar themes or who have written novels in similar styles. I hope you find these useful. I have also included an appendix at the back of the book that gives all the listed titles in alphabetical order, referenced by author. As far as I know this is the first time this has been done and it should enable you to find quickly the name of the author who wrote a particular novel, and then to locate the entry on that author within the book.
Most importantly, I hope that this reference work will allow you to discover new authors and thus broaden your literary horizons. Science fiction is a genre of limitless possibilities and ideas, and there is something
within it for everyone. I hope that this book helps you with your search.
George Mann - October 2000
Acknowledgments
Foreword
The History and Origins of Science Fiction
Science Fiction on the Page
Science Fiction on the Screen
Terms, Themes and Devices in Science Fiction
Societies and Awards
Appendix
Index
The Mammoth Encyclopedia of Science Fiction by George Mann [ Download ]
quarta-feira, 17 de março de 2010
Technophobia! Science Fictions Visions of Posthuman Technology
Techno-heaven awaits you. You will be resurrected into posthuman immortality when you discard your body, digitize your mind, and download your identity into the artificial brain of a computer.
Cyberexisting in virtual reality, you will live forever in a perfect simulation of divine bliss.
This techno-heaven is envisioned by a cult of techno-priests—scientists and their apostles—who profess a religious faith that the god Technology will eliminate the pain and suffering of humans by eliminating humans. These techno-utopians fervently believe that technological progresswill lead to perfection and immortality for the posthuman, cyborg descendants of a flawed, inevitably extinct humanity.
Is this a happy dream or a dismal nightmare?
In contrast to this bright vision of a pain-free, posthuman technoheaven, science fiction frequently paints a dark picture of technology. From the destructive robot-witch of Metropolis (1926) to the parasitic squid machines of The Matrix Revolutions (2003), the technologized creatures of science fiction often seek to destroy or enslave humanity.
Science fiction shows the transformation into the posthuman as the horrific harbinger of the long twilight and decline of the human species.
In its obsession with mad scientists, rampaging robots, killer clones, cutthroat cyborgs, humanhating androids, satanic supercomputers, flesh-eating viruses, and genetically mutated monsters, science fiction expresses a technophobic fear of losing our human identity, our freedom, our emotions, our values, and our lives to machines.
Like a virus, technology autonomously insinuates itself into human life and, to ensure its survival and dominance, malignantly manipulates the minds and behavior of humans.
This book explains the dramatic conflict between the techno-utopia promised by real-world scientists and the techno-dystopia predicted by science fiction.
Such technophobic science fiction serves as a warning for the future, countering cyber-hype and reflecting the realworld ofweaponized, religiously rationalized, and profit-fueled technology.
Introduction: Dreams of Techno-Heaven, Nightmares of Techno-Hell
o n e
Technology Is God: Machine Transcendence
t w o
Haunted Utopias: Artificial Humans and Mad Scientists
t h r e e
Cybernetic Slaves: Robotics
f o u r
Machines Out of Control: Artificial Intelligence and Androids
f i v e
Rampaging Cyborgs: Bionics
s i x
Infinite Cyberspace Cages: The Internet and Virtual Reality
s e v e n
Engineered Flesh: Biotechnology
e i g h t
Malevolent Molecular Machines: Nanotechnology
n i n e
Technology Is a Virus: Machine Plague
t e n
Epilogue: Technophobia
Notes
Bibliography
Index
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terça-feira, 16 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
TR2N
A tão esperada continuação do inesquecível filme TRON, parece estar certa para aparecer nas telas em 2010, e recentemente um trailler chegou na internet, anunciando que o projeto tem tudo para ser um dos sucessos do ano.
Para quem não se lembra do filme original de 1982 (baseado em um game de sucesso), o programador de computadores da ENCOM Software, Kevin Flynn (Jeff Bridges), é "digitalizado" para dentro do computador e precisa lutar para sobreviver.
Na continuação, TR2N (Ou TRON - O Legado), o filho de Flynn, Sam (Garret Hedlund), está pesquisando o sumiço do pai, quando é transportado acidentalmente para aquele universo digital.
O filme (em 3D) tem previsão de lançamento para o final do ano de 2010, mas até lá , iremos 'babando' com os traillers que a Disney vai, pouco a pouco, deixando escapar...
domingo, 14 de março de 2010
Richard Matheson
Richard Matheson (20 de Fevereiro de 1926) nasceu em New Jersey (EUA) e cresceu no Brooklynn. Formou-se em jornalismo e foi soldado da Infantaria na Segunda Grande Guerra.
Filho de imigrantes noruegueses, escritor e roteirista, é mais conhecido por seus romances de ficção científica e terror, além de ser autor de diversos episódios de séries americanas famosas, como The Twilight Zone e Kolchak.
Graças a sua versatilidade, seu estilo 'visual', e talvez ao seu conhecimento nos estúdios de Hollywood, teve seus livros diversas vezes adaptados para o cinema, como Duel (Encurralado), The Shrinking Man (O incrível homem que encolheu), I am Legend (A Última esperança da Terra, The Last Man on Earth e mais recentemente Eu sou a Lenda, com Will Smith), What Dreams May Come (Amor além da Vida), Stir of Echoes, Bid Time Return (Em algum lugar do passado) e Hell House (The Legend of Hell House).
Uma caracteristica da obra de Matheson e que talvez explique esta sua longa lista de sucessos levados para a televisão e para o cinema, talvez se deva a sua predileção por personagens humanos, pessoas comuns que se deparam nos seus cotidianos, com situações paranoicas ou extremamente ameaçadoras.
Seu primeiro conto de repercussão literária, Born of Man and Woman, conta na forma de um diário, o crescimento de uma criança-monstro, mantida trancada no porão dos pais.
Matheson já declarou diversas vezes que odeia a prisão dos rótulos, e que faz tudo para "destruir um gênero".
Apesar de ser um autor bem sucedido na aceitação de seu trabalho, e que lhe rendeu prestígio, ele nunca foi um sucesso com as vendas de seus romances.
Richard Matheson ( Em Algum Lugar do Passado, Eu sou a Lenda, Acero, Vampiro, Desaparicion, Desde lugar sombrios, El tercero a partir del Sol, El último dia, Es la epoca del ser gelatina, Impulsos desconecidos, La futura difunta, Nascido del hombre y mujer, Shock I, Shock II, Soy Leyenda, Ultimo dia, Viejas fantasmagorias, A Stir of echoes, Born of man and woman, Buried Talents, Dance of the Dead, Hell House, Now you see it, Somewhere in time, The incredible shrinking man, The near departed, Third from the Sun, What dreams may come, Woman ) [ Download ]
sábado, 13 de março de 2010
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20
CAPÍTULO 20
Este capítulo é dedicado à The Tattered Cover, uma legendária livraria de Denver. Eu descobri a The Tattered Cover quase que por acidente. Alice e eu tínhamos acabado de aterrissar em Denver, vindos de Londres; era bem cedo, fazia frio e precisávamos de café. Dirigimos nosso carro alugado em círculos, sem um objetivo, até darmos com a placa da Tattered Cover. Algo se acendeu no meu cérebro… eu sabia já ter ouvido falar daquele lugar. Entramos na loja (e conseguimos o café) - uma maravilhosa loja de madeira escura, com vários refúgios confortáveis para leitura e quilômetros e quilômetros de prateleiras.
The Tattered Cover 1628 16th St., Denver, CO USA 80202 +1 303 436 1070
Nenhum dos três caras estava por ali naquele instante, então me afastei. Minha cabeça doía tanto que achei estar sangrando, mas não achei sangue algum. Meu joelho torcido tinha enrijecido durante o tempo no caminhão, de forma que eu corria como uma marionete quebrada, e parei uma vez apenas, para cancelar o comando de deletar da foto no telefone de Masha. Desliguei seu rádio, para conservar a bateria e para evitar que alguém me rastreasse e configurei o tempo de desligamento para, no máximo, duas horas. Tentei configurar para não pedir senha para reativar ma requeria uma senha para isso. Eu teria apenas que dar um toque no teclado a cada duas horas ao menos, até que pudesse descobrir como retirar a foto do telefone. Eu precisaria recarregar também.
Eu não tinha um plano. Eu precisava de um. Precisava sentar e entrar online… para ver o que eu faria depois. Estava cansado de outros fazerem planos para mim. Não queria fazer as coisas por que Masha me mandou, por causa da DHS ou do meu pai. Ou por causa de Ange? Bem, talvez não por Ange. Isso até seria legal.
Descia em direção a casa, seguindo pelas vielas quando podia e quando podia seguia no meio da multidão de Tenderloin. Não tinha um destino na cabeça. De tempos em tempos eu colocava a mão no telefone e apertava uma tecla do telefone de Masha para evitar que entrasse em modo soneca. Fazia um certo volume, aberto no bolso da jaqueta.
Parei e me encostei a um prédio. Meu joelho estava me matando. Onde eu estava?
O’Farrel, na Hyde Street. Em frente ao “Salão de Massagem asiática”. Meus pés traidores tinham me levado de volta ao inicio, me levado de volta ao lugar onde a foto no telefone de Masha tinha sido tirada segundos antes da ponte da Baía explodir, antes da minha vida mudar para sempre.
Queria sentar no chão e chorar, mas isso não resolveria meus problemas. Tinha que ligar para Barbara Stratford, contar para ela o que havia acontecido. Mostrar a foto de Darryl.
O que eu estava pensando? Eu tinha que mostrar o vídeo que Masha me mandara - aquele onde o homem de confiança do presidente defendia ardentemente os ataques a São Francisco e admitia quando e onde os próximos ataques aconteceriam e isso não iria parar por que eles precisavam reeleger aquele homem.
Esse era o plano: Contatar Barbara, dar a ela os documentos para que os publicasse. O Vamp-evento devia ter feito as pessoas enlouquecerem, feito-os pensar que éramos mesmo um bando de terroristas. É claro que quando eu planejei isso eu pensava em como seria bom ter um pouco de distração, não importando como pareceria isso para um NASCAR Dad (pessoa que não se prende politicamente a partidos, mas à defesa de valores sociais /humanos /éticos /comportamentais ) em Nebraska.
Eu ligaria para Barbara, mas faria isso da maneira mais inteligente, de um telefone pago, usando um capuz, de maneira que as câmeras não conseguissem tirar uma foto minha. Pesquei vinte e cinco centavos do bolso e poli a moeda na aba da camisa, apagando qualquer impressão digital nela.
Fui descendo a colina até a estação BART e aos telefones da estação. Um bonde acabara de chegar quando avistei a página principal do semanário Bay Guardian na pilha junto a um negro sem-teto que sorriu para mim “Vá em frente, dê uma olhada na primeira página, é de graça. Mas olhar o jornal todo vai lhe custar 50 centavos.”
A manchete principal com letras grandes que eu não via deste o 11/9.
DENTRO DA PRISÃO DA BAÍA.
Ao lado, em letras menores:
“Como a DHS mantêm nossas crianças e amigos numa prisão secreta bem na nossa cara.”
“Por Barbara Stratford, especial para o Bay Guardian.”
O vendedor de jornais balançou a cabeça: “Pode acreditar nisso?” ele disse. “Bem aqui em São Francisco. Cara, este governo não presta!”
Teoricamente o Guardian era de graça, mas este cara parecia ter se apoderado de todas as cópias para si. Eu tinha vinte e cinco centavos à mão. Joguei na sua caneca e peguei mais uma moeda, sem me importar desta vez em apagar as impressões digitais.
“Nos disseram que o mundo mudou para sempre após o ataque a ponte da Baía. Milhares de amigos e vizinhos nossos morreram naquele dia. Praticamente nenhum corpo foi encontrado e presumidamente descansam no porto da cidade.”
“Mas uma extraordinária história contada a esta repórter por um jovem que foi feito prisioneiro do DHS minutos após a explosão, sugere que nosso governo tem ilegalmente mantido em Treasure Island, muitos daqueles que pensamos estar mortos, um lugar que foi evacuado e declarado fora dos limites para os civis logo após o atentado.”
Sentei-me no banco, o mesmo banco, notei com um arrepio na nuca, onde havíamos colocado Darryl após escapar da estação BART e li o artigo. Me custou muito não me acabar em lágrimas ali mesmo. Barbara tinha usado algumas fotos de Darryl junto comigo e elas estavam distribuídas ao longo do texto. Eram fotos de um ano atrás talvez, mas eu parecia muito mais jovem, como se tivesse uns 10 ou 11 anos. Eu havia envelhecido bastante nos últimos meses.
O artigo tinha sido muito bem escrito. Senti-me abalado por conta daquelas pobres crianças sobre as quais Barbara escrevia, e então me lembrava que ela escrevia sobre mim. O bilhete de Zeb estava lá também, sua letra de difícil leitura tinha sido reproduzida aumentada no jornal. Barbara tinha também acrescentado informações sobre outras crianças que estavam desaparecidas e presumidamente mortas, uma longa lista e perguntava quantas estavam cativas na ilha, apenas a alguns minutos de distancia dos seus pais.
Peguei mais vinte e cinco centavos do bolso e então mudei de idéia. Qual era a chance do telefone de Barbara não estar grampeado? Não tinha como ligar para ela agora, não diretamente. Eu precisava de um intermediário que entrasse em contato com ela e que a levasse para se encontrar comigo em algum lugar. Tanto para planejar.
O que eu realmente precisava era da Xnet.
Como diabos eu conseguiria entrar online? O buscador de WiFi do meu telefone piscava feito louco… havia conexão sem fio disponível à minha volta, mas eu não tinha um Xbox e uma TV, nem um DVD do ParanoidXbox para conectar este WiFi.
Foi então que eu os vi. Dois garotos da minha idade, se destacando da multidão ao topo das escadas da BART. O que me chamou a atenção foi o jeito com que se moviam, meio desajeitados, se batendo contra os usuários e turistas. Cada um deles tinha as mãos nos bolsos e evitava o contato visual. Estavam zoando com certeza, e aquele tipo de gente daquela área era a melhor para isso. Naquela vizinhança, com tantos mendigos e pedintes e loucos, ninguém faz contato visual nem nada.
Fui até um eles, que parecia realmente novo, mas não mais do que eu.
“Hei. Vocês podem vir aqui um instante?”
Ele fingiu não me ouvir. Olhou através de mim, do jeito que fazemos com um mendigo.
“Vamos lá, cara. Não tenho muito tempo.” eu disse agarrando seu ombro e sussurrei em seu ouvido: “A polícia está atrás de mim. Eu sou da Xnet.”
Ele parecia assustado, como se quisesse correr dali e seu amigo veio na nossa direção. “Estou falando sério.” Eu disse. “Me ouve.”
Seu amigo chegou junto, era mais alto e mais massudo… como Darryl.”Ei! Algum problema?”
Seu amigo cochichou em seu ouvido. Estava parecendo que iriam sair correndo.
Peguei meu Bay Guardian debaixo do braço e sacudi na frente deles. “Dê uma olhada na página 5, certo?”
Eles olharam. Olharam a manchete e a foto. E eu.
“Mano!” o primeiro disse. “Nós não merecemos.” Ele riu feito um louco e o mais forte me deu um tapa nas costas. “Não brinca…Você é o M…”
Tapei sua boca. “Cheguem aqui, OK?”
Levei-os até meu banco. Percebi algo marrom e antigo ao lado da calçada sob ele. Seria o sangue de Darryl? Aquilo me arrepiou. Nos sentamos.
“Sou Marcus” disse, acreditando que dando meu nome real eles já soubessem que eu era M1k3y. Eu estava acabando com meu disfarce, mas o Bay Guardian já o tinha feito para mim.
“Nate.” apresentou-se o menor dos dois. “Liam.” disse o maior. “Cara, é uma honra te conhecer. Você é o nosso herói…”
“Não diga isso. Não diga isso. Vocês dois parecem estar carregando um letreiro que diz ‘Somos dois vigaristas, por favor me levem para a prisão da Baía. Não podiam ser mais óbvios.”
Liam me olhou como se fosse chorar.
“Não se preocupe, ninguém pegou vocês. Depois eu dar algumas dicas para vocês.”
Ele voltou a sorrir. O que ficou estranhamente claro foi que aqueles dois realmente idolatravam M1k3y e que fariam qualquer coisa que eu dissesse. Sorriam feito dois idiotas. Aquilo não me fez bem, fiquei enjoado.
“Ouçam, eu preciso entrar na Xnet agora, mas não posso ir para casa ou sequer perto de casa. Vocês moram por aqui?”
“Eu moro.” disse Nate. “Ali na Califórnia Street. É logo ali subindo.’”Eu tinha vindo de lá. Masha estava por algum lugar por lá. Mas ainda assim, era o melhor que eu podia conseguir.
“Vamos lá.” eu disse.
#
Nate me emprestou um boné de basebol e trocamos de casacos. Eu não precisava me preocupar com o reconhecimento visual, pois meu joelho machucado do jeito que estava… eu balançava ao andar feito um cowboy do cinema.
Nate morava num apartamento enorme de quatro quartos no topo e Nob Hill. O prédio tinha um porteiro vestido com um casaco vermelho com brocados dourados e tocou o chapéu e chamou Nate de “Mister Nate” e nos deixou entrar. O lugar brilhava e cheirava a polidor de móveis. Tentei não pensar que aquele apartamento devia valer muitos milhões.
“Meu pai” explicou ele “era investidor. Tinha um bom seguro de vida. Ele morreu quando eu tinha 14 anos e nós ficamos com isso tudo. Ele estava divorciado, mas deixou minha mãe como beneficiária.”
Da janela que ia do chão ao teto era possível ver uma vista estonteante do outro lado de Nob Hill, até Fisherman’s Wharf, até as feias ruínas da Ponte da Baia e um monte de guindastes e caminhões. Através da névoa dava para vislumbrar Treasure Island. Olhar para baixo daquele jeito me deu vontade louca de pular dali.
Entrei online em seu Xbox numa enorme tela de plasma na sala de estar. Me mostrou quantos pontos de rede WiFi eram acessíveis devido a morar tão alto…uns vinte ou trinta deles. Um bom lugar para se ser um Xnetter.
Havia um monte de emails para M1k3y. Umas 20 mil novas mensagens desde que Ange e eu tínhamos saído de sua casa naquela manhã. Muitos eram da imprensas, solicitando entrevistas, mas a maior parte dos Xnetters, pessoais que haviam lido a matéria no Guardian e queriam me dizer que fariam tudo para me ajudar, tudo que eu precisasse.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Nate e Liam trocaram olhares. Tentei parar, mas não deu. Eu chorava agora. Nate foi até um armário de carvalho e fez surgir um bar entre os livros, revelando várias garrafas. Colocou algo dourado e marrom num copo e trouxe para mim.
“Um uísque irlandês raro. O favorito da minha mãe.” ele disse.
Tinha gosto de fogo, como ouro. Engoli, tentando não engasgar. Eu não gostava de bebidas, mas esta era diferente. Respirei fundo várias vezes.
“Obrigado, Nate” falei. Ele parecia como se eu tivesse acabado de condecorá-lo com uma medalha. Era um garoto legal.
“Certo.” eu disse agarrando o teclado. Os dois me olharam fascinados quando paginei através dos meus emails na gigantesca tela.
O que eu procurava mais do que tudo, era um email de Ange. Havia uma chance dela ter sido presa.
Eu fui um idiota. Não havia nada dela. Comecei separando os emails de solicitações da imprensa, os emails de fãs, os de ódio, o spam.
E então achei um de Zeb.
‘Não foi legal acordar esta manhã e encontrar o bilhete que eu pensei que você havia destruído, nas páginas de um jornal. Me fez sentir…caçado. Mas eu começo a entender por que você o fez. Não sei se consigo aprovar suas táticas, mas é fácil ver aonde quer chegar e os motivos que o movem. Se você estiver lendo isso, significa que há uma boa chance de você estar agora no submundo. Não é fácil viver assim. Eu aprendi isso. E aprendi muito mais também. Não posso te ajudar. Eu deveria. Você está fazendo o que pode por mim (mesmo sem a minha permissão). Me responda se recebeu esta mensagem, se você estiver sozinho e fugindo. Ou me responda se estiver sob custódia, na prisão da Baía, procurando um jeito de fazer a dor passar. Se eles te pegaram, você irá fazer o que eles mandarem. Sei disso. Assumirei o risco. Por você M1k3y.”
“Uau! Caaaaaaaaara!” gritou Liam. Eu queria socá-lo. Me virei para dizer algo terrível e cortar seu barato, mas ele olhava para mim com olhos do tamanho de pratos, como se ele quisesse cair de joelhos ali em devoção.
“Posso dizer...” Nate começou a dizer. “Posso somente dizer que esta é a maior honra em toda minha vida, ajudar a você? Posso?”
Agora eu estava encabulado. Não havia nada a fazer quanto a isso. Estes dois eram completamente vidrados em personalidades, mesmo eu dizendo não ser uma estrela ou algo assim, pelo menos não na minha cabeça.
“Caras, vocês podem… me deixar sozinho um pouco?”
Eles se arrastaram para for a da sala como dois cachorrinhos sendo punidos e me senti como um feitor. Teclei rápido.
“Eu fugi, Zeb. Estou fugindo. Preciso de toda ajuda que puder conseguir. Quero acabar agora com isso.” Lembrei-me do telefone de Masha no bolso e tirei-o, teclando-o para evitar que entrasse em pausa.
Eles me deixaram usar o chuveiro, me deram roupas novas, uma mochila com metade do kit de emergência dentro… barras energéticas, remédios, compressas químicas de calor e frio e um velho saco de dormir. E também enfiaram um Xbox Universal extra carregado com ParanoidLinux dentro. Foi legal da parte deles.
Continuei checando meu email para ver se Zeb respondia. Respondi os emails dos fãs. Respondi os emails da imprensa. Apaguei os emails de ódio. Eu meio que esperava encontrar algo de Masha, mas havia uma chance de a estas horas ela estar na metade do caminho para Los Angeles, com os dedos machucados e sem poder teclar direito. Teclei seu telefone de novo.
Eles me encorajaram a dormir um pouco e por um breve e vergonhoso instante eu fiquei paranóico achando que aqueles garotos estavam pensando em me delatar quando eu estivesse dormindo. O que era idiotice minha… eles poderiam tê-lo feito mesmo comigo acordado. Só não conseguia processar o fato deles saberem tanto sobre mim. Eu sabia, intelectualmente, que havia pessoas que seguiriam M1k3y. Eu tinha encontrado muitas delas naquela manhã, gritando “MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA” e vampirizando no Centro Cívico. Mas estes dois eram mais íntimos. Eles eram legais, dois bobões, poderiam ter sido meus amigos naqueles dias que antecederam a Xnet, só dois caras saindo por aí para viverem suas aventuras adolescentes. Eles tinham se voluntariado para juntar-se ao meu exército, meu exército. Eu tinha responsabilidade por eles. Se os deixasse por conta própria, eles seriam pegos cedo ou tarde. Eram confiantes demais.
“Caras, prestem atenção por um segundo. Preciso falar uma coisa séria com vocês.”
Eles quase pararam em atenção. Seria engraçado se não fosse assustador.
“É o seguinte. Agora que vocês me ajudaram, a coisa fica perigosa. Se vocês forem presos, eu serei preso. Eles vão tirar tudo que sabem…” Ergui minha mão antes que começassem a protestar. “Não, parem. Vocês não sabem o que é isso. Todo mundo fala. Todo mundo pode ser quebrado. Se vocês forem presos, vocês contarão tudo rapidinho, o mais rápido que puderem, tudo que puderem. Eles vão conseguir de qualquer jeito. É como a coisa funciona. Então vocês não podem ser presos e por isso é que vocês não podem fazer nunca mais aquilo que estavam fazendo hoje. Considerem-se afastados da ativa. Vocês serão…” busquei da memória do vocabulário dos filmes de espionagem “uma célula adormecida. Fiquem na sua. Voltem a ser garotos comuns. Vou dar um jeito nesta situação, acabar com isso. Ou então essa coisa vai me pegar, finalmente, dar um jeito em mim. Se vocês não tiverem notícias minhas em 72 horas, assumam que fui preso. E façam o que quiserem. Mas nos próximos três dias… e para sempre, se eu fizer aquilo que quero fazer…fiquem calmos. Prometem?”
Eles prometeram com toda solenidade. Deixei que me levassem para tirar um cochilo com a promessa de me acordarem em uma hora. Tinha que cuidar do telefone de Masha e queria saber se Zeb iria entrar em contato comigo.
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O encontro se deu num vagão do BART, o que me deixou nervoso. Câmeras demais por toda parte. Mas Zeb sabia o que estava fazendo. Ele me encontrou no último carro de certo trem partindo da estação de Powell Street, num horário que o trem ficava bem cheio. Ele esgueirou-se na multidão e os bons cidadãos de São Francisco abriram espaço para ele, com o horror que sempre cerca os mendigos de rua.
“Legal te ver de novo.” ele murmurou, de cara para a porta. Olhando para o vidro negro eu pude ver que não havia ninguém perto o bastante para nos escutar, não sem algum tipo de microfone altamente sensível - e se eles soubessem o bastante para ter grampeado o local, nós estávamos mortos de qualquer jeito mesmo.
“Legal te ver também.” eu disse “Sinto muito por aquilo.”
“Calado. Não se desculpe. Você é mais corajoso do que eu. Está pronto para ir ao submundo agora? Pronto para desaparecer?”
“Sobre isso.”
“Sim?”
“Este não é o plano.”
“Oh.” ele disse.
“Preste atenção, ok? Eu tenho…tenho fotos e vídeos. Coisas que podem realmente provar algo.”
Mexi no bolso e alcancei o telefone de Masha. Eu tinha comprado uma bateria na Union Square no caminho e tinha carregado-a num café, para que pudesse durar ainda algumas horas de uso.
“Eu preciso fazer com que isso chegue a Barbara Stratford, a mulher do Guardian. mas eles estarão vigiando... esperando que eu apareça.”
“Você não acha que eles vão estar esperando por mim também? Se o seu plano envolve me mandar a um quilômetro de distância que seja daquela mulher ou do seu local de trabalho…”
“Quero que pegue Van e venha me encontrar. Darryl não te falou sobre Van? A garota…”
“Ele me falou. Sim, falou. Não acha que eles também a estarão vigiando? Todos vocês não foram presos?”
“Acho que sim. Mas não tão intensamente. E Van está limpa. Ela nunca cooperou com nenhum dos meus… com meus projetos. Assim eles devem estar um pouco mais relaxados com ela. Se ela ligar para o Bay Guardian para fazer uma declaração para explicar porque eu estou errado fazendo tudo isso, eles podem deixá-la passar.”
Ele ficou parado, sem falar por um tempo.
“Sabe o que vai acontecer se eles nos pegarem novamente.” Não era uma pergunta.
Fiz que sim.
“Tem certeza? Alguns daqueles que estavam na prisão conosco foram levados de helicópteros. Levaram eles para fora do país. Existem países onde a América pode usar de tortura. Países em que você irá apodrecer para sempre. Países onde você deseja que eles te matem logo, que te deixem cavar um buraco e atirar na sua nuca e acabar logo com tudo.”
Eu engoli em seco e concordei.
“Vale o risco? Podemos nos esconder por bastante tempo, bastante tempo mesmo. Algum dia nós teremos nosso país de volta. Podemos esperar que isso aconteça.”
Eu fiz que não com a cabeça.
“Não se consegue nada deste jeito. É o nosso país. Eles o tiraram de nós. Os terroristas que nos atacaram ainda estão livres… nós não estamos. Não posso me esconder por um ano, dez anos, minha vida toda, esperando que me dêem a liberdade. Liberdade é algo que você tem que pegar sozinho.”
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Naquela tarde Van deixou o colégio como sempre, sentou-se no fundo do ônibus junto com seus colegas, rindo e falando por todo o caminho como sempre fazia. Os outros passageiros no ônibus a perceberam, pois ela falava alto, e além disso, usava um chapéu estúpido gigante, algo que parecia ter saído de uma peça escolar sobre espadachins da renascença. Em um certo ponto, todos se juntaram e então se viraram para olhar para trás, apontando e caçoando. A garota que usava o chapéu, agora, tinha o mesmo peso de Van e vista de longe, poderia ser ela.
Ninguém prestou atenção na pequena asiática que saltou alguns paradas antes da estação BART. Usava um uniforme de escola e olhava tímida para os degraus quando desceu. Ao mesmo tempo, a garota coreana que falava alto na parte dos fundos do ônibus deu um grito e seus colegas a imitara, rindo tanto que até o motorista do ônibus, se virou para vê-las com uma expressão contrariada.
Van já atravessava a rua com a cabeça baixa e seu cabelo preso atrás e cobrindo o colarinho da sua jaqueta fora de moda. Ela tinha acrescentado palmilhas nos sapatos que a faziam um tanto mais alta e tinha dispensado as lentes de contato e usava seus óculos, não o par favorito, mas o de lentes grossas que tomavam metade de seu rosto. Apesar de estar esperando por ela sob a coberta da parada de ônibus, eu quase não a reconheci. Levantei-me e a acompanhei, atravessando a rua, seguindo-a por meio quarteirão.
As pessoas que passavam por mim desviam a vista assim que podiam. Eu parecia um mendigo jovem, com minhas roupas sujas, um casacão com fita passada nos cotovelos. Ninguém olhava para um garoto de rua, porque se você faz contato visual com um, ele pode te pedir um trocado. Andei assim por toda Okland e a única pessoa que se atreveu a falar comigo foi uma testemunha de Jeová e um cientologista, ambos tentando me converter.
Van seguiu as indicações conforme eu tinha escrito. Zeb as havia passado para ela da mesma maneira que ele tinha me passado o bilhete do lado de fora da escola. Um esbarrão enquanto ela esperava o ônibus, seguido de um pedido de desculpas copioso. Eu tinha escrito um bilhete bem simples e claro: “Eu sei que você não aprova, eu entendo. Mas este é o favor mais importante que já lhe pedi. Por favor, por favor”
Ela tinha vindo. Sabia que viria. Tínhamos muita história juntos, Van e eu. Ela também não gostava do que o mundo se tornara. Apesar disso, uma pequena voz maléfica ficava me dizendo que ela estava sobre suspeita agora que o artigo de Barbara for a publicado.
Caminhamos desta forma por seis ou sete quarteirões, olhando para as pessoas mais próximas, para os carros que passavam. Zeb me falara sobre uma forma de seguir pessoas onde cinco pessoas diferentes disfarçadas trocam de lugar enquanto te seguem, tornando impossível percebê-lo. Você precisa ir para algum lugar totalmente deserto, onde qualquer outro além de você chamaria atenção.
O viaduto para a 880 ficava a poucos quarteirões da estação BART do Coliseu e, mesmo depois de andar em círculos, não demoramos a chegar lá. O estrondo sobre nossas cabeças era atordoante. Ninguém por perto, não que eu pudesse ver. Já tinha estado ali antes de sugerir no bilhete para Van, tomando cuidado para verificar lugares onde alguém pudesse se esconder. Não havia ninguém ali.
Uma vez que ela chegou ao lugar marcado, movi-me rápido para alcançá-la. Ela piscava como uma coruja por detrás das lentes.
“Marcus!” ela disse e lágrimas surgiram em seus olhos. Acho que eu chorava também. Eu era um fugitivo muito fajuto. Muito sentimental.
Ela me abraçou tão forte que mal consegui respirar. Abracei-a ainda mais forte.
Então ela me beijou.
Não no rosto, não como uma irmã, mas nos lábios, quente e molhado, e parecia durar para sempre. Eu estava longe de me envolver…
Mentira. Sabia exatamente o que fazia. Eu a beijei de volta.
Então parei e disse afastando-a de mim: “Van.”
“Ooops...” ela disse.
“Van...” eu disse de novo.
“Desculpa. Eu…”
Algo me ocorreu naquele instante. Algo que eu acho que deveria ter percebido há muito tempo.
“Você gosta de mim, não é?”
Ela fez que sim. “Faz muitos anos.” disse.
Oh Deus. Darryl, todos estes anos tão apaixonado por ela e o tempo todo, ela pensando em mim, secretamente me desejando. E então eu acabei ficando com Ange. Ange disse que vivia brigando com Van.
“Van,” eu disse. “Van, eu lamento tanto.”
“Esqueça.” Disse, olhando para longe. “Eu sei que não daria certo. Eu só queria fazer isso uma vez, no caso de eu nunca…” Calou-se.
“Van, eu preciso que você faça algo para mim. Algo importante. Preciso que encontre com a repórter do Bay Guardian, Barbara Stratford, que escreveu o artigo. Preciso que dê uma coisa para ela.” Expliquei sobre o telefone de Masha e sobre o vídeo que Masha me mandou.
“Que bem isso pode fazer, Marcus? Qual é o objetivo?”
“Van, você está certa, pelo menos em parte. Não conseguiremos consertar o mundo colocando pessoas em risco. Quero resolver o problema dizendo aquilo que sei. Devia ter feito isso desde o início. Devia ter ido direito da prisão para a casa do pai de Darryl e contado o que sabia. Agora, eu tenho provas. Isso pode mudar o mundo. Esta é minha última esperança. A única para tirar Darryl de lá, de ter uma vida onde eu não precise ficar escondido, fugindo da polícia. E você é a única pessoa em quem confio para fazer isso.”
“Por que eu?”
“Tá brincando, né? Veja como você chegou até aqui. Você é profissional. Você é a melhor de nós. É a única em quem eu posso confiar. Isso explica por que escolhi você.”
“E por que não sua amiga Ange?” ela disse o nome sem nenhuma inflexão, como se fosse um bloco de cimento.
Olhei para baixo. “Achei que você sabia. Eles a prenderam. Ela está na prisão da baía… em Treasure Island. Está lá há dias.” Eu tentara não pensar na coisa, não pensar no que poderia ter acontecido com ela. Agora eu não conseguia me conter e comecei a chorar. Sentia meu estômago doer, como se tivesse levado um chute, e segurava-o com as mãos. Me curvei ali e a próxima coisa que me lembro foi de estar caído de lado no chão sob o viaduto, abraçando a mim mesmo e chorando.
Van ajoelhou-se ao meu lado. “Me dá o telefone.” disse com a voz cheia de raiva. Eu o tirei do bolso e passei para ela.
Envergonhado, parei de chorar e sentei. Sabia que um pouco de muco escoria pelo meu rosto. Van estava me dando aquele olhar de pura repulsa. “Você precisa evitar que isso entre em modo pausa” eu disse. “Tenho uma bateria carregada aqui’. Procurei com cuidado na mochila. Não tinha dormido à noite desde que a comprei. Coloquei o alarme para tocar a cada 90 minutos e assim podia acordar e manter o telefone fora do modo pausa. “Não feche o telefone também.”
“E quanto ao vídeo?”
“Isso é mais difícil. Mandei uma copia para mim mesmo por email mas não posso mais usar a Xnet.” Eu poderia voltar a Nate e Liam e usar do Xnet deles de novo mas não queria correr risco. “Olha, vou te dar meu login e minha senha para o servidor de email do Pirate Party. Vai precisar acessar pelo Tor… a DHS vai estar escaneando as pessoas que acessam o email do PParty.”
“Seu login e senha!” ela disse um pouco surpresa.
“Confio em você, Van. Sei que posso.”
Ela balançou a cabeça: “Você nunca deu sua senha, Marcus.”
“Não acho que isso importe mais. Ou você tem sucesso ou eu… ou será o fim de Marcus Yalow. Talvez eu consiga uma nova identidade, mas não sei. Acho que vão me pegar. Acho que sabia disso o tempo todo, que eles iriam me pegar algum dia.”
Ela olhou para mim furiosa agora. “Que desperdício! Pra quê tudo isso, afinal?”
De tudo que ela pudesse dizer, nada me magoaria tanto. Era como outro soco no estomago. Que desperdício, tudo isso, futilidade. Darryl e Ange, desaparecidos. Eu podia nunca mais ver minha família de novo. E ainda assim, a DHS tinha atirado minha cidade e meu país numa loucura fora de razão onde tudo podia ser feito em nome de deter o terrorismo.
Van parecia esperar que eu falasse algo, mas eu nada tinha a dizer.
Ela me deixou lá.
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Zeb tinha uma pizza para mim quando voltei para “casa”… ou a tenda debaixo do viaduto da auto-estrada em Missão na qual tínhamos passado a noite. Ele tinha uma pequena tenda de acampamento, suprimentos militares, onde se lia Comissão de Coordenação de Sem-tetos de São Francisco.
A pizza era da Domino´s, fria e azeda mas deliciosa mesmo assim. “Gosta de abacaxi na sua pizza?”
Zeb sorriu condescendente comigo. “Um freegan não pode ser exigente.” ele disse.
“Freegan?”
“Como Vegan, mas só que só come comida grátis.”
“Comida grátis?”
Ele riu: “Você sabe, destas lojinhas de comida de graça?”
“Você roubou?”
“Não, maluco! Da outra loja. Daquela que fica nos fundos, feita de metal azul. Sabe? Que tem um cheiro esquisito.”
“Você pegou isso do lixo?”
Ele jogou a cabeça para trás e gargalhou: “É isso ai. Devia ver sua cara. Mas é boa, não é como se estivesse podre ou coisa assim. É fresquinha, só um pouco bagunçada. Eles jogam fora ainda na caixa. Eles jogam veneno de rato quando estão fechando, mas se você for rápido, você consegue pegar. Você tem que ver o que as lojas de doces jogam fora! Espere até ver o café da manhã. Vou te trazer uma salada de frutas que você não vai acreditar. Assim que um dos morangos fica um pouco maduro, eles atiram tudo fora.”
A pizza estava boa. Não era porque tinha ficado dentro do latão que ela estaria infectada ou algo assim. Se estava daquele jeito era só por que tinha vindo da Domino´s… a pior pizza da cidade. Nunca gostei da comida deles e eu os detestava desde que soube que eles bancavam um bando de políticos malucos que pensavam que o aquecimento mundial e evolução eram parte da trama do diabo.
Mas havia outro jeito de ver a coisa. Zeb tinha me mostrado um segredo, algo que eu não tinha pensado e que havia um mundo inteiro as escondidas lá fora, um modo de viver sem participar do sistema.
“Freegan, né?”
“Iogurte também. Para a salada de fruta. Eles jogam fora um dia após o fim de validade, mas não é como se ficasse verde à meia-noite.É iogurte, quero dizer, basicamente é leite estragado.”
Eu acreditei. O gosto da pizza era engraçado. Veneno de rato. Iogurte estragado. Morangos mofados.
Comi outra fatia. Na verdade a pizza da Domino´s não parecia tão ruim quando era de graça.
O saco de dormir de Liam era quente e muito bom após um longo e exaustivo dia. Van devia estar entrando em contato com Barbara neste instante. Ela ficaria com o vídeo e a foto. Eu telefonaria para ela pela manhã e perguntaria o que ela acha que eu devia fazer em seguida.
Eu teria que aparecer depois que ela publicasse aquilo.
Pensava sobre isso quando fechei os olhos, como seria me mostrar diante das câmeras e coisas do tipo, as câmeras seguindo o infame M1k3y entre os prédios enormes do Centro Cívico.
O som os carros passando pelo viaduto se transformou em um som parecido com o do oceano quando me deixei adormecer. Havia outras tendas por perto, de pessoas sem-teto. Eu tinha encontrado algumas delas naquela tarde, antes de escurecer e todos vinham buscar abrigo perto das tendas. Todos mais velhos que eu, com aparência rude e irritada. Contudo, nenhum deles parecia louco ou violento. Apenas gente que tivera azar ou tomara as decisões erradas ou ambas as coisas.
Devo ter dormido então, pois não me lembro de nada até que uma luz forte brilhou na minha cara, e a luz era cegante.
“É ele.” disse uma voz por detrás da luz.
“Empacote ele.” disse outra voz, uma que eu já havia ouvido antes, várias vezes nos meus sonhos, me criticando, pedindo minhas senhas. A mulher com cabelo curto.
O saco desceu rápido sobre minha cabeça e fechou tão apertado na minha garganta que vomitei minha pizza grátis. Enquanto eu tossia em espasmos, mãos fortes juntaram meus pulsos e meus tornozelos. Fui rolado até uma maca e erguido, então carregado até um veiculo, para cima ao som de passos metálicos. Me soltaram no chão acolchoado. Nenhum som era audível na traseira do veículo após fecharem as portas. O acolchoado abafava, tudo exceto minha tosse.
“Olá, de novo” ela disse. Senti o chão se mexer. Eu estava sufocando, tentando respirar. Vômito enchia minha boca e escorria pela traquéia.
“Não vamos deixar você morrer.” ela disse. “Se você parar de respirar, vamos fazer com que respire novamente. Não se preocupe com isso.”
Eu sufocava de verdade. Tragava o ar. Mal conseguia. Profundamente, meu peito se enchia e distendia, expulsando o vômito. Mais ar.
“Veja.” ela disse. “Não é tão ruim. Bem vindo à casa, M1k3y.Temos um lugar especial para você.”
Relaxei sobre minhas costas, sentindo o veiculo se mover. O cheiro da pizza deglutida tomava tudo, mas com tão forte estimulo, meu cérebro gradualmente se acostumou, filtrando-o até que ficasse apenas um leve aroma. O balançar da van era quase reconfortante.
E então aconteceu. Uma incrível e profunda calma me envolveu como se eu estivesse deitado na praia e o oceano viesse me levar gentilmente, carregando-me para o alto para me levar para um mar quente sob um sol quente. Depois de tudo que aconteceu, me pegaram, afinal, mas não importava. Eu tinha conseguido entregar a informação para Barbara. Eu tinha organizado a Xnet. Eu tinha vencido. E se não venci, fiz tudo que podia fazer. Mais do que eu jamais pensei que poderia fazer. Fiz uma lista mental pensando em tudo que eu tinha realizado. A cidade, o país, o mundo estava cheio de gente que não queria viver do jeito que a DHS queria que vivêssemos. Nós lutaríamos contra isso para sempre. Não podiam prender a todos.
Eu suspirei e sorri.
Ela não parava de falar, percebi. Estive tão distante em meu “lugar feliz” que ela simplesmente sumira.
“…garoto esperto como você. Achava que sabia como nos prejudicar. Nós tínhamos um olho em você desde o dia em que o liberamos. Nós teríamos agarrado você mesmo se você não tivesse ido chorar no colo daquela jornalista lésbica traidora. Não compreendo isso…achei que nós tínhamos nos entendido, você e eu…”
Passamos sobre uma superfície metálica e a van rolou sobre pedras e então o chão mudou. Estávamos na água. Em direção a Treasure Island. Ei. Ange estava lá. Darryl também. Talvez.
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O capuz não foi tirado até que eu estivesse na minha cela. Eles não se importaram com as algemas prendendo pulsos e tornozelos, apenas me rolaram para fora da maca para o chão. Estava escuro, mas o luar penetrava por uma pequenina janela no alto. Dava para ver o beliche sem o colchão. A sala tinha uma pia, um espaço para a cama, o vaso e nada mais.
Fechei os olhos e deixei o oceano me levar. Flutuei livre. Em alguma parte, longe e abaixo, estava meu corpo. Eu podia dizer o que aconteceria a seguir. Seria deixado ali até mijar em mim mesmo. De novo. Eu sabia como era aquilo. Já tinha ocorrido antes. Eu ficaria cheirando muito mal. Coçava. Era humilhante, como voltar a ser um bebê.
Mas eu sobreviveria.
Gargalhei. O som foi estranho e trouxe-me de volta ao meu corpo, de volta ao presente. Gargalhei e gargalhei. Tinha passado pelo pior que eles podiam fazer e tinha sobrevivido a isso, tinha vencido eles durante meses, tinha mostrado a todos como eram tolos tiranos. Eu vencera.
Deixei minha bexiga se aliviar. Doía e estava cheia, e não havia nada de errado com o presente.
O oceano levou-me para longe.
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Quando a manhã chegou, dois eficientes e impessoais guardas vieram cortar as tiras que prendiam meus tornozelos e pulsos. Ainda assim eu não conseguia andar… quando tentei, minha pernas reagiram como se fosse um marionete com as cordas cortadas. Tempo demais na mesma posição. Os guardas levantaram meus braços sobre seus ombros e meio que me carregaram meio que me arrastaram pelo corredor conhecido. Os códigos de barra das portas começavam a sair e descolar por conta do ar marinho.
Tive uma idéia. “Ange!” gritei. “Darryl!” gritei. Meus guardas apressaram o passo, claramente perturbados mas sem saber o que fazer a respeito. “Pessoal, sou eu, Marcus!”
Atrás de uma das portas alguém gemeu. Outro alguém gritou e aquilo soou árabe. Então uma cacofonia, mil vozes diferentes gritando.
Levaram-me a uma nova sala. Era uma velha sala de chuveiros e os canos ainda estavam lá, saindo dos azulejos mofados.
“Olá, M1k3y.” disse a mulher de cabelo curtíssimo. “Parece que você teve uma manhã muito atarefada.” ela disse, enrugando o nariz.
“Me urinei.” falei animadamente. “Você deveria experimentar.”
“Talvez devêssemos dar um banho em você”, ela disse.
Ela assentiu e meus guardas me levaram até uma maca. Esta tinha tiras ao longo dela. Me jogaram sobre ela ,que era fria como gelo. Antes que percebesse já haviam me prendido com tiras pelos meus ombros, cintura e tornozelos. Um minuto depois, mais três tiras foram presas. Mãos de homens agarraram os corrimãos junto da minha cabeça e soltaram as travas e no momento seguinte eu era inclinado, de cabeça para baixo.
“Vamos começar com uma coisa simples.” ela disse. Suspendi a cabeça para conseguir vê-la. Tinha se aproximado de uma mesa com um Xbox nela, conectada a uma cara TV de tela plana. “Quero que me diga seu login e senha de seu email no Pirate Party, por gentileza.”
Fechei os olhos e deixei oceano me levar da praia.
“Você sabe o que significa ‘waterboarding’, M1k3y? Colocamos você de cabeça para baixo como está e jogamos água sobre seu rosto, dentro do seu nariz e boca. Não dá para segurar o reflexo de contração da laringe. Chamam isso de execução simulada e pelo que posso dizer deste lado da sala onde estou, esta é uma definição bastante justa. Não dá para lutar contra a sensação de estar morrendo.”
Tentei não prestar atenção. Tinha ouvido falar naquilo. Era tortura de verdade. E era só o começo.
Não consegui me desconcentrar. O oceano não me levava dali. Havia um aperto no meu peito, minhas pálpebras tremiam. Podia sentir a urina úmida nas minhas pernas e o suor em meu cabelo. Minha pele coçava devido ao vomito seco.
Ela deslizou a frente da minha vista. “Vamos começar pelo login.” ela disse.
Fechei os olhos, apertando-os para permanecerem fechados.
“Dêem-lhe o que beber.” ela disse.
Ouvi pessoas se movendo. Respirei fundo e segurei.
A água começou a cair em me queixo primeiro como um gotejar, uma mão de água caindo aos meus lábios, pelas narinas viradas para cima. Começava a chegar na garganta, começando a me asfixiar, mas eu não tossi. Segurava a respiração e apertava os olhos com força.
Houve um barulho do lado de fora da sala, um som caótico de botas, batendo com raiva, insultos gritados. A concha foi esvaziada sobre meu rosto.
Ouvi um murmúrio trocado entre alguém na sala, então para mim ela disse: “Só me dê o login, Marcus. É uma pergunta simples. O que posso fazer apenas com seu login?’
Desta vez foi um balde de água, de uma vez só, uma inundação sem fim, gigantesca. Não dava para segurar. Tossi e a água entrou por meus pulmões, tossi e mais água entrou. Sabia que eles não iriam me matar, mas não dava para convencer meu corpo disso. Cada fibra do meu ser. Sabia que ia morrer. Sequer podia chorar… a água continuava a jorrar sobre mim.
Então parou. Eu tossi, tossi e tossi, mas do ângulo que estava a água que eu expulsava voltava a entrar pelo nariz e queimava através dos sinus.
A tosse era tão profunda que doía, doía nas costelas e quadris enquanto eu me torcia. Odiava como meu corpo me traía, como minha mente não conseguia controlar meu corpo e eu nada podia fazer.
Ao final, a tosse cedeu e consegui ver o que se passava ao meu redor. Pessoas gritavam e parecia como se alguém estivesse brigando, lutando. Abri meus olhos e pisquei devido à luz brilhante e então virei meu pescoço ainda tossindo um pouco.
A sala tinha bem mais gente do que antes. A maioria parecia vestir armaduras corporais, capacetes e visores. Gritavam com os guardas de Treasure Island, que gritavam em resposta, seus pescoços marcados por veias saltadas.
“Pro chão!” gritou um dos homens com coletes “De joelhos no chão e as mãos para cima. Vocês estão presos.”
A mulher de cabelo curto falava em seu telefone. Um dos homens com armaduras a percebeu e foi até ela, arrancando seu telefone com um tapa da mão enluvada. Todos fizeram silêncio quando o telefone fez um arco atravessando a sala e espatifou-se em pedaços contra o chão.
O silêncio foi quebrado e os soldados encouraçados moveram-se pela sala. Dois deles pegaram cada um dos meus torturadores. Quase sorri ao ver a expressão do rosto da mulher de cabelo curto quando dois homens a seguraram pelos ombros e a viraram de costas, aplicando tiras de plástico imobilizando-a pelos pulsos.
Um dos sujeitos foi até a porta. Ele tinha uma câmera de vídeo ao ombro, onde piscava uma luz branca. Dali ele tinha visão para a sala inteira, circulou ao me redor me filmando. Fiquei o mais parado que pude, como se posasse para um retrato.
Aquilo era ridículo.
“Pode me tirar daqui?” eu consegui dizer somente com um pequeno engasgar.
Dois outros homens de armaduras blindadas vieram até mim, um deles era uma mulher e começou a me soltar. Levantaram seus visores e sorriram para mim. Tinham cruzes vermelhas em seus ombros e capacetes.
Debaixo das cruzes havia uma outra insígnia. CHP. Califórnia High Patrol. Eram da polícia estadual.
Comecei a perguntar o que faziam ali e foi quando vi Barbara Stratford. Ela passava pelo corredor e agora entrava empurrando. “Aí está você!” ela disse, vindo até meu lado e me dando o maior e mais longo abraço de minha vida.
Foi então que eu soube que a Guantánamo da Baía tinha caído nas mãos dos seus inimigos.
Eu estava salvo.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20 [ Download ]
Este capítulo é dedicado à The Tattered Cover, uma legendária livraria de Denver. Eu descobri a The Tattered Cover quase que por acidente. Alice e eu tínhamos acabado de aterrissar em Denver, vindos de Londres; era bem cedo, fazia frio e precisávamos de café. Dirigimos nosso carro alugado em círculos, sem um objetivo, até darmos com a placa da Tattered Cover. Algo se acendeu no meu cérebro… eu sabia já ter ouvido falar daquele lugar. Entramos na loja (e conseguimos o café) - uma maravilhosa loja de madeira escura, com vários refúgios confortáveis para leitura e quilômetros e quilômetros de prateleiras.
The Tattered Cover 1628 16th St., Denver, CO USA 80202 +1 303 436 1070
Nenhum dos três caras estava por ali naquele instante, então me afastei. Minha cabeça doía tanto que achei estar sangrando, mas não achei sangue algum. Meu joelho torcido tinha enrijecido durante o tempo no caminhão, de forma que eu corria como uma marionete quebrada, e parei uma vez apenas, para cancelar o comando de deletar da foto no telefone de Masha. Desliguei seu rádio, para conservar a bateria e para evitar que alguém me rastreasse e configurei o tempo de desligamento para, no máximo, duas horas. Tentei configurar para não pedir senha para reativar ma requeria uma senha para isso. Eu teria apenas que dar um toque no teclado a cada duas horas ao menos, até que pudesse descobrir como retirar a foto do telefone. Eu precisaria recarregar também.
Eu não tinha um plano. Eu precisava de um. Precisava sentar e entrar online… para ver o que eu faria depois. Estava cansado de outros fazerem planos para mim. Não queria fazer as coisas por que Masha me mandou, por causa da DHS ou do meu pai. Ou por causa de Ange? Bem, talvez não por Ange. Isso até seria legal.
Descia em direção a casa, seguindo pelas vielas quando podia e quando podia seguia no meio da multidão de Tenderloin. Não tinha um destino na cabeça. De tempos em tempos eu colocava a mão no telefone e apertava uma tecla do telefone de Masha para evitar que entrasse em modo soneca. Fazia um certo volume, aberto no bolso da jaqueta.
Parei e me encostei a um prédio. Meu joelho estava me matando. Onde eu estava?
O’Farrel, na Hyde Street. Em frente ao “Salão de Massagem asiática”. Meus pés traidores tinham me levado de volta ao inicio, me levado de volta ao lugar onde a foto no telefone de Masha tinha sido tirada segundos antes da ponte da Baía explodir, antes da minha vida mudar para sempre.
Queria sentar no chão e chorar, mas isso não resolveria meus problemas. Tinha que ligar para Barbara Stratford, contar para ela o que havia acontecido. Mostrar a foto de Darryl.
O que eu estava pensando? Eu tinha que mostrar o vídeo que Masha me mandara - aquele onde o homem de confiança do presidente defendia ardentemente os ataques a São Francisco e admitia quando e onde os próximos ataques aconteceriam e isso não iria parar por que eles precisavam reeleger aquele homem.
Esse era o plano: Contatar Barbara, dar a ela os documentos para que os publicasse. O Vamp-evento devia ter feito as pessoas enlouquecerem, feito-os pensar que éramos mesmo um bando de terroristas. É claro que quando eu planejei isso eu pensava em como seria bom ter um pouco de distração, não importando como pareceria isso para um NASCAR Dad (pessoa que não se prende politicamente a partidos, mas à defesa de valores sociais /humanos /éticos /comportamentais ) em Nebraska.
Eu ligaria para Barbara, mas faria isso da maneira mais inteligente, de um telefone pago, usando um capuz, de maneira que as câmeras não conseguissem tirar uma foto minha. Pesquei vinte e cinco centavos do bolso e poli a moeda na aba da camisa, apagando qualquer impressão digital nela.
Fui descendo a colina até a estação BART e aos telefones da estação. Um bonde acabara de chegar quando avistei a página principal do semanário Bay Guardian na pilha junto a um negro sem-teto que sorriu para mim “Vá em frente, dê uma olhada na primeira página, é de graça. Mas olhar o jornal todo vai lhe custar 50 centavos.”
A manchete principal com letras grandes que eu não via deste o 11/9.
DENTRO DA PRISÃO DA BAÍA.
Ao lado, em letras menores:
“Como a DHS mantêm nossas crianças e amigos numa prisão secreta bem na nossa cara.”
“Por Barbara Stratford, especial para o Bay Guardian.”
O vendedor de jornais balançou a cabeça: “Pode acreditar nisso?” ele disse. “Bem aqui em São Francisco. Cara, este governo não presta!”
Teoricamente o Guardian era de graça, mas este cara parecia ter se apoderado de todas as cópias para si. Eu tinha vinte e cinco centavos à mão. Joguei na sua caneca e peguei mais uma moeda, sem me importar desta vez em apagar as impressões digitais.
“Nos disseram que o mundo mudou para sempre após o ataque a ponte da Baía. Milhares de amigos e vizinhos nossos morreram naquele dia. Praticamente nenhum corpo foi encontrado e presumidamente descansam no porto da cidade.”
“Mas uma extraordinária história contada a esta repórter por um jovem que foi feito prisioneiro do DHS minutos após a explosão, sugere que nosso governo tem ilegalmente mantido em Treasure Island, muitos daqueles que pensamos estar mortos, um lugar que foi evacuado e declarado fora dos limites para os civis logo após o atentado.”
Sentei-me no banco, o mesmo banco, notei com um arrepio na nuca, onde havíamos colocado Darryl após escapar da estação BART e li o artigo. Me custou muito não me acabar em lágrimas ali mesmo. Barbara tinha usado algumas fotos de Darryl junto comigo e elas estavam distribuídas ao longo do texto. Eram fotos de um ano atrás talvez, mas eu parecia muito mais jovem, como se tivesse uns 10 ou 11 anos. Eu havia envelhecido bastante nos últimos meses.
O artigo tinha sido muito bem escrito. Senti-me abalado por conta daquelas pobres crianças sobre as quais Barbara escrevia, e então me lembrava que ela escrevia sobre mim. O bilhete de Zeb estava lá também, sua letra de difícil leitura tinha sido reproduzida aumentada no jornal. Barbara tinha também acrescentado informações sobre outras crianças que estavam desaparecidas e presumidamente mortas, uma longa lista e perguntava quantas estavam cativas na ilha, apenas a alguns minutos de distancia dos seus pais.
Peguei mais vinte e cinco centavos do bolso e então mudei de idéia. Qual era a chance do telefone de Barbara não estar grampeado? Não tinha como ligar para ela agora, não diretamente. Eu precisava de um intermediário que entrasse em contato com ela e que a levasse para se encontrar comigo em algum lugar. Tanto para planejar.
O que eu realmente precisava era da Xnet.
Como diabos eu conseguiria entrar online? O buscador de WiFi do meu telefone piscava feito louco… havia conexão sem fio disponível à minha volta, mas eu não tinha um Xbox e uma TV, nem um DVD do ParanoidXbox para conectar este WiFi.
Foi então que eu os vi. Dois garotos da minha idade, se destacando da multidão ao topo das escadas da BART. O que me chamou a atenção foi o jeito com que se moviam, meio desajeitados, se batendo contra os usuários e turistas. Cada um deles tinha as mãos nos bolsos e evitava o contato visual. Estavam zoando com certeza, e aquele tipo de gente daquela área era a melhor para isso. Naquela vizinhança, com tantos mendigos e pedintes e loucos, ninguém faz contato visual nem nada.
Fui até um eles, que parecia realmente novo, mas não mais do que eu.
“Hei. Vocês podem vir aqui um instante?”
Ele fingiu não me ouvir. Olhou através de mim, do jeito que fazemos com um mendigo.
“Vamos lá, cara. Não tenho muito tempo.” eu disse agarrando seu ombro e sussurrei em seu ouvido: “A polícia está atrás de mim. Eu sou da Xnet.”
Ele parecia assustado, como se quisesse correr dali e seu amigo veio na nossa direção. “Estou falando sério.” Eu disse. “Me ouve.”
Seu amigo chegou junto, era mais alto e mais massudo… como Darryl.”Ei! Algum problema?”
Seu amigo cochichou em seu ouvido. Estava parecendo que iriam sair correndo.
Peguei meu Bay Guardian debaixo do braço e sacudi na frente deles. “Dê uma olhada na página 5, certo?”
Eles olharam. Olharam a manchete e a foto. E eu.
“Mano!” o primeiro disse. “Nós não merecemos.” Ele riu feito um louco e o mais forte me deu um tapa nas costas. “Não brinca…Você é o M…”
Tapei sua boca. “Cheguem aqui, OK?”
Levei-os até meu banco. Percebi algo marrom e antigo ao lado da calçada sob ele. Seria o sangue de Darryl? Aquilo me arrepiou. Nos sentamos.
“Sou Marcus” disse, acreditando que dando meu nome real eles já soubessem que eu era M1k3y. Eu estava acabando com meu disfarce, mas o Bay Guardian já o tinha feito para mim.
“Nate.” apresentou-se o menor dos dois. “Liam.” disse o maior. “Cara, é uma honra te conhecer. Você é o nosso herói…”
“Não diga isso. Não diga isso. Vocês dois parecem estar carregando um letreiro que diz ‘Somos dois vigaristas, por favor me levem para a prisão da Baía. Não podiam ser mais óbvios.”
Liam me olhou como se fosse chorar.
“Não se preocupe, ninguém pegou vocês. Depois eu dar algumas dicas para vocês.”
Ele voltou a sorrir. O que ficou estranhamente claro foi que aqueles dois realmente idolatravam M1k3y e que fariam qualquer coisa que eu dissesse. Sorriam feito dois idiotas. Aquilo não me fez bem, fiquei enjoado.
“Ouçam, eu preciso entrar na Xnet agora, mas não posso ir para casa ou sequer perto de casa. Vocês moram por aqui?”
“Eu moro.” disse Nate. “Ali na Califórnia Street. É logo ali subindo.’”Eu tinha vindo de lá. Masha estava por algum lugar por lá. Mas ainda assim, era o melhor que eu podia conseguir.
“Vamos lá.” eu disse.
#
Nate me emprestou um boné de basebol e trocamos de casacos. Eu não precisava me preocupar com o reconhecimento visual, pois meu joelho machucado do jeito que estava… eu balançava ao andar feito um cowboy do cinema.
Nate morava num apartamento enorme de quatro quartos no topo e Nob Hill. O prédio tinha um porteiro vestido com um casaco vermelho com brocados dourados e tocou o chapéu e chamou Nate de “Mister Nate” e nos deixou entrar. O lugar brilhava e cheirava a polidor de móveis. Tentei não pensar que aquele apartamento devia valer muitos milhões.
“Meu pai” explicou ele “era investidor. Tinha um bom seguro de vida. Ele morreu quando eu tinha 14 anos e nós ficamos com isso tudo. Ele estava divorciado, mas deixou minha mãe como beneficiária.”
Da janela que ia do chão ao teto era possível ver uma vista estonteante do outro lado de Nob Hill, até Fisherman’s Wharf, até as feias ruínas da Ponte da Baia e um monte de guindastes e caminhões. Através da névoa dava para vislumbrar Treasure Island. Olhar para baixo daquele jeito me deu vontade louca de pular dali.
Entrei online em seu Xbox numa enorme tela de plasma na sala de estar. Me mostrou quantos pontos de rede WiFi eram acessíveis devido a morar tão alto…uns vinte ou trinta deles. Um bom lugar para se ser um Xnetter.
Havia um monte de emails para M1k3y. Umas 20 mil novas mensagens desde que Ange e eu tínhamos saído de sua casa naquela manhã. Muitos eram da imprensas, solicitando entrevistas, mas a maior parte dos Xnetters, pessoais que haviam lido a matéria no Guardian e queriam me dizer que fariam tudo para me ajudar, tudo que eu precisasse.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Nate e Liam trocaram olhares. Tentei parar, mas não deu. Eu chorava agora. Nate foi até um armário de carvalho e fez surgir um bar entre os livros, revelando várias garrafas. Colocou algo dourado e marrom num copo e trouxe para mim.
“Um uísque irlandês raro. O favorito da minha mãe.” ele disse.
Tinha gosto de fogo, como ouro. Engoli, tentando não engasgar. Eu não gostava de bebidas, mas esta era diferente. Respirei fundo várias vezes.
“Obrigado, Nate” falei. Ele parecia como se eu tivesse acabado de condecorá-lo com uma medalha. Era um garoto legal.
“Certo.” eu disse agarrando o teclado. Os dois me olharam fascinados quando paginei através dos meus emails na gigantesca tela.
O que eu procurava mais do que tudo, era um email de Ange. Havia uma chance dela ter sido presa.
Eu fui um idiota. Não havia nada dela. Comecei separando os emails de solicitações da imprensa, os emails de fãs, os de ódio, o spam.
E então achei um de Zeb.
‘Não foi legal acordar esta manhã e encontrar o bilhete que eu pensei que você havia destruído, nas páginas de um jornal. Me fez sentir…caçado. Mas eu começo a entender por que você o fez. Não sei se consigo aprovar suas táticas, mas é fácil ver aonde quer chegar e os motivos que o movem. Se você estiver lendo isso, significa que há uma boa chance de você estar agora no submundo. Não é fácil viver assim. Eu aprendi isso. E aprendi muito mais também. Não posso te ajudar. Eu deveria. Você está fazendo o que pode por mim (mesmo sem a minha permissão). Me responda se recebeu esta mensagem, se você estiver sozinho e fugindo. Ou me responda se estiver sob custódia, na prisão da Baía, procurando um jeito de fazer a dor passar. Se eles te pegaram, você irá fazer o que eles mandarem. Sei disso. Assumirei o risco. Por você M1k3y.”
“Uau! Caaaaaaaaara!” gritou Liam. Eu queria socá-lo. Me virei para dizer algo terrível e cortar seu barato, mas ele olhava para mim com olhos do tamanho de pratos, como se ele quisesse cair de joelhos ali em devoção.
“Posso dizer...” Nate começou a dizer. “Posso somente dizer que esta é a maior honra em toda minha vida, ajudar a você? Posso?”
Agora eu estava encabulado. Não havia nada a fazer quanto a isso. Estes dois eram completamente vidrados em personalidades, mesmo eu dizendo não ser uma estrela ou algo assim, pelo menos não na minha cabeça.
“Caras, vocês podem… me deixar sozinho um pouco?”
Eles se arrastaram para for a da sala como dois cachorrinhos sendo punidos e me senti como um feitor. Teclei rápido.
“Eu fugi, Zeb. Estou fugindo. Preciso de toda ajuda que puder conseguir. Quero acabar agora com isso.” Lembrei-me do telefone de Masha no bolso e tirei-o, teclando-o para evitar que entrasse em pausa.
Eles me deixaram usar o chuveiro, me deram roupas novas, uma mochila com metade do kit de emergência dentro… barras energéticas, remédios, compressas químicas de calor e frio e um velho saco de dormir. E também enfiaram um Xbox Universal extra carregado com ParanoidLinux dentro. Foi legal da parte deles.
Continuei checando meu email para ver se Zeb respondia. Respondi os emails dos fãs. Respondi os emails da imprensa. Apaguei os emails de ódio. Eu meio que esperava encontrar algo de Masha, mas havia uma chance de a estas horas ela estar na metade do caminho para Los Angeles, com os dedos machucados e sem poder teclar direito. Teclei seu telefone de novo.
Eles me encorajaram a dormir um pouco e por um breve e vergonhoso instante eu fiquei paranóico achando que aqueles garotos estavam pensando em me delatar quando eu estivesse dormindo. O que era idiotice minha… eles poderiam tê-lo feito mesmo comigo acordado. Só não conseguia processar o fato deles saberem tanto sobre mim. Eu sabia, intelectualmente, que havia pessoas que seguiriam M1k3y. Eu tinha encontrado muitas delas naquela manhã, gritando “MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA” e vampirizando no Centro Cívico. Mas estes dois eram mais íntimos. Eles eram legais, dois bobões, poderiam ter sido meus amigos naqueles dias que antecederam a Xnet, só dois caras saindo por aí para viverem suas aventuras adolescentes. Eles tinham se voluntariado para juntar-se ao meu exército, meu exército. Eu tinha responsabilidade por eles. Se os deixasse por conta própria, eles seriam pegos cedo ou tarde. Eram confiantes demais.
“Caras, prestem atenção por um segundo. Preciso falar uma coisa séria com vocês.”
Eles quase pararam em atenção. Seria engraçado se não fosse assustador.
“É o seguinte. Agora que vocês me ajudaram, a coisa fica perigosa. Se vocês forem presos, eu serei preso. Eles vão tirar tudo que sabem…” Ergui minha mão antes que começassem a protestar. “Não, parem. Vocês não sabem o que é isso. Todo mundo fala. Todo mundo pode ser quebrado. Se vocês forem presos, vocês contarão tudo rapidinho, o mais rápido que puderem, tudo que puderem. Eles vão conseguir de qualquer jeito. É como a coisa funciona. Então vocês não podem ser presos e por isso é que vocês não podem fazer nunca mais aquilo que estavam fazendo hoje. Considerem-se afastados da ativa. Vocês serão…” busquei da memória do vocabulário dos filmes de espionagem “uma célula adormecida. Fiquem na sua. Voltem a ser garotos comuns. Vou dar um jeito nesta situação, acabar com isso. Ou então essa coisa vai me pegar, finalmente, dar um jeito em mim. Se vocês não tiverem notícias minhas em 72 horas, assumam que fui preso. E façam o que quiserem. Mas nos próximos três dias… e para sempre, se eu fizer aquilo que quero fazer…fiquem calmos. Prometem?”
Eles prometeram com toda solenidade. Deixei que me levassem para tirar um cochilo com a promessa de me acordarem em uma hora. Tinha que cuidar do telefone de Masha e queria saber se Zeb iria entrar em contato comigo.
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O encontro se deu num vagão do BART, o que me deixou nervoso. Câmeras demais por toda parte. Mas Zeb sabia o que estava fazendo. Ele me encontrou no último carro de certo trem partindo da estação de Powell Street, num horário que o trem ficava bem cheio. Ele esgueirou-se na multidão e os bons cidadãos de São Francisco abriram espaço para ele, com o horror que sempre cerca os mendigos de rua.
“Legal te ver de novo.” ele murmurou, de cara para a porta. Olhando para o vidro negro eu pude ver que não havia ninguém perto o bastante para nos escutar, não sem algum tipo de microfone altamente sensível - e se eles soubessem o bastante para ter grampeado o local, nós estávamos mortos de qualquer jeito mesmo.
“Legal te ver também.” eu disse “Sinto muito por aquilo.”
“Calado. Não se desculpe. Você é mais corajoso do que eu. Está pronto para ir ao submundo agora? Pronto para desaparecer?”
“Sobre isso.”
“Sim?”
“Este não é o plano.”
“Oh.” ele disse.
“Preste atenção, ok? Eu tenho…tenho fotos e vídeos. Coisas que podem realmente provar algo.”
Mexi no bolso e alcancei o telefone de Masha. Eu tinha comprado uma bateria na Union Square no caminho e tinha carregado-a num café, para que pudesse durar ainda algumas horas de uso.
“Eu preciso fazer com que isso chegue a Barbara Stratford, a mulher do Guardian. mas eles estarão vigiando... esperando que eu apareça.”
“Você não acha que eles vão estar esperando por mim também? Se o seu plano envolve me mandar a um quilômetro de distância que seja daquela mulher ou do seu local de trabalho…”
“Quero que pegue Van e venha me encontrar. Darryl não te falou sobre Van? A garota…”
“Ele me falou. Sim, falou. Não acha que eles também a estarão vigiando? Todos vocês não foram presos?”
“Acho que sim. Mas não tão intensamente. E Van está limpa. Ela nunca cooperou com nenhum dos meus… com meus projetos. Assim eles devem estar um pouco mais relaxados com ela. Se ela ligar para o Bay Guardian para fazer uma declaração para explicar porque eu estou errado fazendo tudo isso, eles podem deixá-la passar.”
Ele ficou parado, sem falar por um tempo.
“Sabe o que vai acontecer se eles nos pegarem novamente.” Não era uma pergunta.
Fiz que sim.
“Tem certeza? Alguns daqueles que estavam na prisão conosco foram levados de helicópteros. Levaram eles para fora do país. Existem países onde a América pode usar de tortura. Países em que você irá apodrecer para sempre. Países onde você deseja que eles te matem logo, que te deixem cavar um buraco e atirar na sua nuca e acabar logo com tudo.”
Eu engoli em seco e concordei.
“Vale o risco? Podemos nos esconder por bastante tempo, bastante tempo mesmo. Algum dia nós teremos nosso país de volta. Podemos esperar que isso aconteça.”
Eu fiz que não com a cabeça.
“Não se consegue nada deste jeito. É o nosso país. Eles o tiraram de nós. Os terroristas que nos atacaram ainda estão livres… nós não estamos. Não posso me esconder por um ano, dez anos, minha vida toda, esperando que me dêem a liberdade. Liberdade é algo que você tem que pegar sozinho.”
#
Naquela tarde Van deixou o colégio como sempre, sentou-se no fundo do ônibus junto com seus colegas, rindo e falando por todo o caminho como sempre fazia. Os outros passageiros no ônibus a perceberam, pois ela falava alto, e além disso, usava um chapéu estúpido gigante, algo que parecia ter saído de uma peça escolar sobre espadachins da renascença. Em um certo ponto, todos se juntaram e então se viraram para olhar para trás, apontando e caçoando. A garota que usava o chapéu, agora, tinha o mesmo peso de Van e vista de longe, poderia ser ela.
Ninguém prestou atenção na pequena asiática que saltou alguns paradas antes da estação BART. Usava um uniforme de escola e olhava tímida para os degraus quando desceu. Ao mesmo tempo, a garota coreana que falava alto na parte dos fundos do ônibus deu um grito e seus colegas a imitara, rindo tanto que até o motorista do ônibus, se virou para vê-las com uma expressão contrariada.
Van já atravessava a rua com a cabeça baixa e seu cabelo preso atrás e cobrindo o colarinho da sua jaqueta fora de moda. Ela tinha acrescentado palmilhas nos sapatos que a faziam um tanto mais alta e tinha dispensado as lentes de contato e usava seus óculos, não o par favorito, mas o de lentes grossas que tomavam metade de seu rosto. Apesar de estar esperando por ela sob a coberta da parada de ônibus, eu quase não a reconheci. Levantei-me e a acompanhei, atravessando a rua, seguindo-a por meio quarteirão.
As pessoas que passavam por mim desviam a vista assim que podiam. Eu parecia um mendigo jovem, com minhas roupas sujas, um casacão com fita passada nos cotovelos. Ninguém olhava para um garoto de rua, porque se você faz contato visual com um, ele pode te pedir um trocado. Andei assim por toda Okland e a única pessoa que se atreveu a falar comigo foi uma testemunha de Jeová e um cientologista, ambos tentando me converter.
Van seguiu as indicações conforme eu tinha escrito. Zeb as havia passado para ela da mesma maneira que ele tinha me passado o bilhete do lado de fora da escola. Um esbarrão enquanto ela esperava o ônibus, seguido de um pedido de desculpas copioso. Eu tinha escrito um bilhete bem simples e claro: “Eu sei que você não aprova, eu entendo. Mas este é o favor mais importante que já lhe pedi. Por favor, por favor”
Ela tinha vindo. Sabia que viria. Tínhamos muita história juntos, Van e eu. Ela também não gostava do que o mundo se tornara. Apesar disso, uma pequena voz maléfica ficava me dizendo que ela estava sobre suspeita agora que o artigo de Barbara for a publicado.
Caminhamos desta forma por seis ou sete quarteirões, olhando para as pessoas mais próximas, para os carros que passavam. Zeb me falara sobre uma forma de seguir pessoas onde cinco pessoas diferentes disfarçadas trocam de lugar enquanto te seguem, tornando impossível percebê-lo. Você precisa ir para algum lugar totalmente deserto, onde qualquer outro além de você chamaria atenção.
O viaduto para a 880 ficava a poucos quarteirões da estação BART do Coliseu e, mesmo depois de andar em círculos, não demoramos a chegar lá. O estrondo sobre nossas cabeças era atordoante. Ninguém por perto, não que eu pudesse ver. Já tinha estado ali antes de sugerir no bilhete para Van, tomando cuidado para verificar lugares onde alguém pudesse se esconder. Não havia ninguém ali.
Uma vez que ela chegou ao lugar marcado, movi-me rápido para alcançá-la. Ela piscava como uma coruja por detrás das lentes.
“Marcus!” ela disse e lágrimas surgiram em seus olhos. Acho que eu chorava também. Eu era um fugitivo muito fajuto. Muito sentimental.
Ela me abraçou tão forte que mal consegui respirar. Abracei-a ainda mais forte.
Então ela me beijou.
Não no rosto, não como uma irmã, mas nos lábios, quente e molhado, e parecia durar para sempre. Eu estava longe de me envolver…
Mentira. Sabia exatamente o que fazia. Eu a beijei de volta.
Então parei e disse afastando-a de mim: “Van.”
“Ooops...” ela disse.
“Van...” eu disse de novo.
“Desculpa. Eu…”
Algo me ocorreu naquele instante. Algo que eu acho que deveria ter percebido há muito tempo.
“Você gosta de mim, não é?”
Ela fez que sim. “Faz muitos anos.” disse.
Oh Deus. Darryl, todos estes anos tão apaixonado por ela e o tempo todo, ela pensando em mim, secretamente me desejando. E então eu acabei ficando com Ange. Ange disse que vivia brigando com Van.
“Van,” eu disse. “Van, eu lamento tanto.”
“Esqueça.” Disse, olhando para longe. “Eu sei que não daria certo. Eu só queria fazer isso uma vez, no caso de eu nunca…” Calou-se.
“Van, eu preciso que você faça algo para mim. Algo importante. Preciso que encontre com a repórter do Bay Guardian, Barbara Stratford, que escreveu o artigo. Preciso que dê uma coisa para ela.” Expliquei sobre o telefone de Masha e sobre o vídeo que Masha me mandou.
“Que bem isso pode fazer, Marcus? Qual é o objetivo?”
“Van, você está certa, pelo menos em parte. Não conseguiremos consertar o mundo colocando pessoas em risco. Quero resolver o problema dizendo aquilo que sei. Devia ter feito isso desde o início. Devia ter ido direito da prisão para a casa do pai de Darryl e contado o que sabia. Agora, eu tenho provas. Isso pode mudar o mundo. Esta é minha última esperança. A única para tirar Darryl de lá, de ter uma vida onde eu não precise ficar escondido, fugindo da polícia. E você é a única pessoa em quem confio para fazer isso.”
“Por que eu?”
“Tá brincando, né? Veja como você chegou até aqui. Você é profissional. Você é a melhor de nós. É a única em quem eu posso confiar. Isso explica por que escolhi você.”
“E por que não sua amiga Ange?” ela disse o nome sem nenhuma inflexão, como se fosse um bloco de cimento.
Olhei para baixo. “Achei que você sabia. Eles a prenderam. Ela está na prisão da baía… em Treasure Island. Está lá há dias.” Eu tentara não pensar na coisa, não pensar no que poderia ter acontecido com ela. Agora eu não conseguia me conter e comecei a chorar. Sentia meu estômago doer, como se tivesse levado um chute, e segurava-o com as mãos. Me curvei ali e a próxima coisa que me lembro foi de estar caído de lado no chão sob o viaduto, abraçando a mim mesmo e chorando.
Van ajoelhou-se ao meu lado. “Me dá o telefone.” disse com a voz cheia de raiva. Eu o tirei do bolso e passei para ela.
Envergonhado, parei de chorar e sentei. Sabia que um pouco de muco escoria pelo meu rosto. Van estava me dando aquele olhar de pura repulsa. “Você precisa evitar que isso entre em modo pausa” eu disse. “Tenho uma bateria carregada aqui’. Procurei com cuidado na mochila. Não tinha dormido à noite desde que a comprei. Coloquei o alarme para tocar a cada 90 minutos e assim podia acordar e manter o telefone fora do modo pausa. “Não feche o telefone também.”
“E quanto ao vídeo?”
“Isso é mais difícil. Mandei uma copia para mim mesmo por email mas não posso mais usar a Xnet.” Eu poderia voltar a Nate e Liam e usar do Xnet deles de novo mas não queria correr risco. “Olha, vou te dar meu login e minha senha para o servidor de email do Pirate Party. Vai precisar acessar pelo Tor… a DHS vai estar escaneando as pessoas que acessam o email do PParty.”
“Seu login e senha!” ela disse um pouco surpresa.
“Confio em você, Van. Sei que posso.”
Ela balançou a cabeça: “Você nunca deu sua senha, Marcus.”
“Não acho que isso importe mais. Ou você tem sucesso ou eu… ou será o fim de Marcus Yalow. Talvez eu consiga uma nova identidade, mas não sei. Acho que vão me pegar. Acho que sabia disso o tempo todo, que eles iriam me pegar algum dia.”
Ela olhou para mim furiosa agora. “Que desperdício! Pra quê tudo isso, afinal?”
De tudo que ela pudesse dizer, nada me magoaria tanto. Era como outro soco no estomago. Que desperdício, tudo isso, futilidade. Darryl e Ange, desaparecidos. Eu podia nunca mais ver minha família de novo. E ainda assim, a DHS tinha atirado minha cidade e meu país numa loucura fora de razão onde tudo podia ser feito em nome de deter o terrorismo.
Van parecia esperar que eu falasse algo, mas eu nada tinha a dizer.
Ela me deixou lá.
#
Zeb tinha uma pizza para mim quando voltei para “casa”… ou a tenda debaixo do viaduto da auto-estrada em Missão na qual tínhamos passado a noite. Ele tinha uma pequena tenda de acampamento, suprimentos militares, onde se lia Comissão de Coordenação de Sem-tetos de São Francisco.
A pizza era da Domino´s, fria e azeda mas deliciosa mesmo assim. “Gosta de abacaxi na sua pizza?”
Zeb sorriu condescendente comigo. “Um freegan não pode ser exigente.” ele disse.
“Freegan?”
“Como Vegan, mas só que só come comida grátis.”
“Comida grátis?”
Ele riu: “Você sabe, destas lojinhas de comida de graça?”
“Você roubou?”
“Não, maluco! Da outra loja. Daquela que fica nos fundos, feita de metal azul. Sabe? Que tem um cheiro esquisito.”
“Você pegou isso do lixo?”
Ele jogou a cabeça para trás e gargalhou: “É isso ai. Devia ver sua cara. Mas é boa, não é como se estivesse podre ou coisa assim. É fresquinha, só um pouco bagunçada. Eles jogam fora ainda na caixa. Eles jogam veneno de rato quando estão fechando, mas se você for rápido, você consegue pegar. Você tem que ver o que as lojas de doces jogam fora! Espere até ver o café da manhã. Vou te trazer uma salada de frutas que você não vai acreditar. Assim que um dos morangos fica um pouco maduro, eles atiram tudo fora.”
A pizza estava boa. Não era porque tinha ficado dentro do latão que ela estaria infectada ou algo assim. Se estava daquele jeito era só por que tinha vindo da Domino´s… a pior pizza da cidade. Nunca gostei da comida deles e eu os detestava desde que soube que eles bancavam um bando de políticos malucos que pensavam que o aquecimento mundial e evolução eram parte da trama do diabo.
Mas havia outro jeito de ver a coisa. Zeb tinha me mostrado um segredo, algo que eu não tinha pensado e que havia um mundo inteiro as escondidas lá fora, um modo de viver sem participar do sistema.
“Freegan, né?”
“Iogurte também. Para a salada de fruta. Eles jogam fora um dia após o fim de validade, mas não é como se ficasse verde à meia-noite.É iogurte, quero dizer, basicamente é leite estragado.”
Eu acreditei. O gosto da pizza era engraçado. Veneno de rato. Iogurte estragado. Morangos mofados.
Comi outra fatia. Na verdade a pizza da Domino´s não parecia tão ruim quando era de graça.
O saco de dormir de Liam era quente e muito bom após um longo e exaustivo dia. Van devia estar entrando em contato com Barbara neste instante. Ela ficaria com o vídeo e a foto. Eu telefonaria para ela pela manhã e perguntaria o que ela acha que eu devia fazer em seguida.
Eu teria que aparecer depois que ela publicasse aquilo.
Pensava sobre isso quando fechei os olhos, como seria me mostrar diante das câmeras e coisas do tipo, as câmeras seguindo o infame M1k3y entre os prédios enormes do Centro Cívico.
O som os carros passando pelo viaduto se transformou em um som parecido com o do oceano quando me deixei adormecer. Havia outras tendas por perto, de pessoas sem-teto. Eu tinha encontrado algumas delas naquela tarde, antes de escurecer e todos vinham buscar abrigo perto das tendas. Todos mais velhos que eu, com aparência rude e irritada. Contudo, nenhum deles parecia louco ou violento. Apenas gente que tivera azar ou tomara as decisões erradas ou ambas as coisas.
Devo ter dormido então, pois não me lembro de nada até que uma luz forte brilhou na minha cara, e a luz era cegante.
“É ele.” disse uma voz por detrás da luz.
“Empacote ele.” disse outra voz, uma que eu já havia ouvido antes, várias vezes nos meus sonhos, me criticando, pedindo minhas senhas. A mulher com cabelo curto.
O saco desceu rápido sobre minha cabeça e fechou tão apertado na minha garganta que vomitei minha pizza grátis. Enquanto eu tossia em espasmos, mãos fortes juntaram meus pulsos e meus tornozelos. Fui rolado até uma maca e erguido, então carregado até um veiculo, para cima ao som de passos metálicos. Me soltaram no chão acolchoado. Nenhum som era audível na traseira do veículo após fecharem as portas. O acolchoado abafava, tudo exceto minha tosse.
“Olá, de novo” ela disse. Senti o chão se mexer. Eu estava sufocando, tentando respirar. Vômito enchia minha boca e escorria pela traquéia.
“Não vamos deixar você morrer.” ela disse. “Se você parar de respirar, vamos fazer com que respire novamente. Não se preocupe com isso.”
Eu sufocava de verdade. Tragava o ar. Mal conseguia. Profundamente, meu peito se enchia e distendia, expulsando o vômito. Mais ar.
“Veja.” ela disse. “Não é tão ruim. Bem vindo à casa, M1k3y.Temos um lugar especial para você.”
Relaxei sobre minhas costas, sentindo o veiculo se mover. O cheiro da pizza deglutida tomava tudo, mas com tão forte estimulo, meu cérebro gradualmente se acostumou, filtrando-o até que ficasse apenas um leve aroma. O balançar da van era quase reconfortante.
E então aconteceu. Uma incrível e profunda calma me envolveu como se eu estivesse deitado na praia e o oceano viesse me levar gentilmente, carregando-me para o alto para me levar para um mar quente sob um sol quente. Depois de tudo que aconteceu, me pegaram, afinal, mas não importava. Eu tinha conseguido entregar a informação para Barbara. Eu tinha organizado a Xnet. Eu tinha vencido. E se não venci, fiz tudo que podia fazer. Mais do que eu jamais pensei que poderia fazer. Fiz uma lista mental pensando em tudo que eu tinha realizado. A cidade, o país, o mundo estava cheio de gente que não queria viver do jeito que a DHS queria que vivêssemos. Nós lutaríamos contra isso para sempre. Não podiam prender a todos.
Eu suspirei e sorri.
Ela não parava de falar, percebi. Estive tão distante em meu “lugar feliz” que ela simplesmente sumira.
“…garoto esperto como você. Achava que sabia como nos prejudicar. Nós tínhamos um olho em você desde o dia em que o liberamos. Nós teríamos agarrado você mesmo se você não tivesse ido chorar no colo daquela jornalista lésbica traidora. Não compreendo isso…achei que nós tínhamos nos entendido, você e eu…”
Passamos sobre uma superfície metálica e a van rolou sobre pedras e então o chão mudou. Estávamos na água. Em direção a Treasure Island. Ei. Ange estava lá. Darryl também. Talvez.
#
O capuz não foi tirado até que eu estivesse na minha cela. Eles não se importaram com as algemas prendendo pulsos e tornozelos, apenas me rolaram para fora da maca para o chão. Estava escuro, mas o luar penetrava por uma pequenina janela no alto. Dava para ver o beliche sem o colchão. A sala tinha uma pia, um espaço para a cama, o vaso e nada mais.
Fechei os olhos e deixei o oceano me levar. Flutuei livre. Em alguma parte, longe e abaixo, estava meu corpo. Eu podia dizer o que aconteceria a seguir. Seria deixado ali até mijar em mim mesmo. De novo. Eu sabia como era aquilo. Já tinha ocorrido antes. Eu ficaria cheirando muito mal. Coçava. Era humilhante, como voltar a ser um bebê.
Mas eu sobreviveria.
Gargalhei. O som foi estranho e trouxe-me de volta ao meu corpo, de volta ao presente. Gargalhei e gargalhei. Tinha passado pelo pior que eles podiam fazer e tinha sobrevivido a isso, tinha vencido eles durante meses, tinha mostrado a todos como eram tolos tiranos. Eu vencera.
Deixei minha bexiga se aliviar. Doía e estava cheia, e não havia nada de errado com o presente.
O oceano levou-me para longe.
#
Quando a manhã chegou, dois eficientes e impessoais guardas vieram cortar as tiras que prendiam meus tornozelos e pulsos. Ainda assim eu não conseguia andar… quando tentei, minha pernas reagiram como se fosse um marionete com as cordas cortadas. Tempo demais na mesma posição. Os guardas levantaram meus braços sobre seus ombros e meio que me carregaram meio que me arrastaram pelo corredor conhecido. Os códigos de barra das portas começavam a sair e descolar por conta do ar marinho.
Tive uma idéia. “Ange!” gritei. “Darryl!” gritei. Meus guardas apressaram o passo, claramente perturbados mas sem saber o que fazer a respeito. “Pessoal, sou eu, Marcus!”
Atrás de uma das portas alguém gemeu. Outro alguém gritou e aquilo soou árabe. Então uma cacofonia, mil vozes diferentes gritando.
Levaram-me a uma nova sala. Era uma velha sala de chuveiros e os canos ainda estavam lá, saindo dos azulejos mofados.
“Olá, M1k3y.” disse a mulher de cabelo curtíssimo. “Parece que você teve uma manhã muito atarefada.” ela disse, enrugando o nariz.
“Me urinei.” falei animadamente. “Você deveria experimentar.”
“Talvez devêssemos dar um banho em você”, ela disse.
Ela assentiu e meus guardas me levaram até uma maca. Esta tinha tiras ao longo dela. Me jogaram sobre ela ,que era fria como gelo. Antes que percebesse já haviam me prendido com tiras pelos meus ombros, cintura e tornozelos. Um minuto depois, mais três tiras foram presas. Mãos de homens agarraram os corrimãos junto da minha cabeça e soltaram as travas e no momento seguinte eu era inclinado, de cabeça para baixo.
“Vamos começar com uma coisa simples.” ela disse. Suspendi a cabeça para conseguir vê-la. Tinha se aproximado de uma mesa com um Xbox nela, conectada a uma cara TV de tela plana. “Quero que me diga seu login e senha de seu email no Pirate Party, por gentileza.”
Fechei os olhos e deixei oceano me levar da praia.
“Você sabe o que significa ‘waterboarding’, M1k3y? Colocamos você de cabeça para baixo como está e jogamos água sobre seu rosto, dentro do seu nariz e boca. Não dá para segurar o reflexo de contração da laringe. Chamam isso de execução simulada e pelo que posso dizer deste lado da sala onde estou, esta é uma definição bastante justa. Não dá para lutar contra a sensação de estar morrendo.”
Tentei não prestar atenção. Tinha ouvido falar naquilo. Era tortura de verdade. E era só o começo.
Não consegui me desconcentrar. O oceano não me levava dali. Havia um aperto no meu peito, minhas pálpebras tremiam. Podia sentir a urina úmida nas minhas pernas e o suor em meu cabelo. Minha pele coçava devido ao vomito seco.
Ela deslizou a frente da minha vista. “Vamos começar pelo login.” ela disse.
Fechei os olhos, apertando-os para permanecerem fechados.
“Dêem-lhe o que beber.” ela disse.
Ouvi pessoas se movendo. Respirei fundo e segurei.
A água começou a cair em me queixo primeiro como um gotejar, uma mão de água caindo aos meus lábios, pelas narinas viradas para cima. Começava a chegar na garganta, começando a me asfixiar, mas eu não tossi. Segurava a respiração e apertava os olhos com força.
Houve um barulho do lado de fora da sala, um som caótico de botas, batendo com raiva, insultos gritados. A concha foi esvaziada sobre meu rosto.
Ouvi um murmúrio trocado entre alguém na sala, então para mim ela disse: “Só me dê o login, Marcus. É uma pergunta simples. O que posso fazer apenas com seu login?’
Desta vez foi um balde de água, de uma vez só, uma inundação sem fim, gigantesca. Não dava para segurar. Tossi e a água entrou por meus pulmões, tossi e mais água entrou. Sabia que eles não iriam me matar, mas não dava para convencer meu corpo disso. Cada fibra do meu ser. Sabia que ia morrer. Sequer podia chorar… a água continuava a jorrar sobre mim.
Então parou. Eu tossi, tossi e tossi, mas do ângulo que estava a água que eu expulsava voltava a entrar pelo nariz e queimava através dos sinus.
A tosse era tão profunda que doía, doía nas costelas e quadris enquanto eu me torcia. Odiava como meu corpo me traía, como minha mente não conseguia controlar meu corpo e eu nada podia fazer.
Ao final, a tosse cedeu e consegui ver o que se passava ao meu redor. Pessoas gritavam e parecia como se alguém estivesse brigando, lutando. Abri meus olhos e pisquei devido à luz brilhante e então virei meu pescoço ainda tossindo um pouco.
A sala tinha bem mais gente do que antes. A maioria parecia vestir armaduras corporais, capacetes e visores. Gritavam com os guardas de Treasure Island, que gritavam em resposta, seus pescoços marcados por veias saltadas.
“Pro chão!” gritou um dos homens com coletes “De joelhos no chão e as mãos para cima. Vocês estão presos.”
A mulher de cabelo curto falava em seu telefone. Um dos homens com armaduras a percebeu e foi até ela, arrancando seu telefone com um tapa da mão enluvada. Todos fizeram silêncio quando o telefone fez um arco atravessando a sala e espatifou-se em pedaços contra o chão.
O silêncio foi quebrado e os soldados encouraçados moveram-se pela sala. Dois deles pegaram cada um dos meus torturadores. Quase sorri ao ver a expressão do rosto da mulher de cabelo curto quando dois homens a seguraram pelos ombros e a viraram de costas, aplicando tiras de plástico imobilizando-a pelos pulsos.
Um dos sujeitos foi até a porta. Ele tinha uma câmera de vídeo ao ombro, onde piscava uma luz branca. Dali ele tinha visão para a sala inteira, circulou ao me redor me filmando. Fiquei o mais parado que pude, como se posasse para um retrato.
Aquilo era ridículo.
“Pode me tirar daqui?” eu consegui dizer somente com um pequeno engasgar.
Dois outros homens de armaduras blindadas vieram até mim, um deles era uma mulher e começou a me soltar. Levantaram seus visores e sorriram para mim. Tinham cruzes vermelhas em seus ombros e capacetes.
Debaixo das cruzes havia uma outra insígnia. CHP. Califórnia High Patrol. Eram da polícia estadual.
Comecei a perguntar o que faziam ali e foi quando vi Barbara Stratford. Ela passava pelo corredor e agora entrava empurrando. “Aí está você!” ela disse, vindo até meu lado e me dando o maior e mais longo abraço de minha vida.
Foi então que eu soube que a Guantánamo da Baía tinha caído nas mãos dos seus inimigos.
Eu estava salvo.
Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20 [ Download ]
sexta-feira, 12 de março de 2010
Space Stations
It's amazing what the human race can accomplish when we put our collective minds to something. Whether it's exploration, fighting disease, inventing new technology, or changing society, mankind can be an awesome power when it chooses to be.
Consider space exploration, for example. While scientists have been studying the stars for centuries, getting a man to walk among them has been quite a different matter. As the study of our universe goes, it is one of the most recent fields of scientific endeavor, primarily because of the advances in technology that have made it feasible. Since the launch of the first satellite by the Soviet Union on October 4, 1957, the United States and the rest of the world have been looking to the skies, and the universe beyond, as the ultimate last frontier.
And what an incredible forty-seven years it's been. Since the first space race between Russia and the United States, the world has seen men land on the Moon, the first unmanned exploration of the surface of Mars, China join the other space faring nations, and a renewed interest in the vast galaxy beyond our own planet.
Along with this activity comes new ways to study and explore space. From the Hubble space telescope to the Voyager and Galileo deep space probes, we have pushed farther and farther past the boundaries of what we once knew.
One of the best ways to do this is right in our own backyard, so to speak. No matter how sophisticated the technology, satellites and machines cannot replace man when it comes to exploration, at least, not completely. Space stations, platforms where men and women can study the galaxy around the clock, have become the best way to gain practical results from space, whether it is manufacturing new medicines and materials in the weightless conditions, or exploring the heavens and planning to use the space station as a jumping off point fop trips beyond.
There have been several permanently manned space stations during the history of space exploration. The Russians beat America into space again with the launch of the first orbiting station, Salyut, in 1971. A Russian crew was the first to live in space for approximately twenty-four days, but tragically died upon returning to Earth. The U.S.'s first space outpost, Skylab, was launched in 1973. It was not intended to be a permanent station, but was used to study long-term effects of space and weightlessness on humans and animals. The longest-running manned space station, the Russian Mir station, managed to stay aloft for fifteen years despite being used for years after its proposed duration and suffering several accidents that at times severely hampered its capabilities. In 2001 Mir was guided back into Earth's atmosphere, where it was destroyed.
The most exciting development in the field of manned space exploration today is the International Space Station, a joint project that began construction in 1998. Funded and supplied by sixteen countries around the world, its purpose is to create a permanent station to take the world's space program into the next century and millennium. When the station is completed in 2006, we will have the best platform to begin the next stage of exploration, leading back to the Moon, perhaps to Mars, and beyond.
The ISS has fired the imaginations of people around the world, and science fiction authors are no different. Fourteen of today's best writers have given us their ideas of what the next generation of space stations will look like. From Timothy Zahn comes a story of a station that everyone thought was past its prime, until the time came for it to take part in a most unusual battle. Alan Dean Foster explores a space station that takes care of even its smallest inhabitant in a very special way. Brendan DuBois takes us to a future Earth where the dream of space stations took a detour that grounded humanity forever. And Gregory Benford reveals a completely different view of a space station in our final story.
Fourteen visions of the future created by the finest authors of speculative fiction. So turn the page and prepare for adventures beyond your wildest imagination on these space stations of tomorrow.
John Heifers
Contents
THE BATTLE OF SPACE FORT JEFFERSON by Timothy Zahn
REDUNDANCY by Alan Dean Foster
DANCERS OF THE GATE by James Cobb
MIKEYS by Robert J. Sawyer
THE FRANCHISE by Julie E. Czerneda
FOLLOW THE SKY by Pamela Sargent
AURIGA'S STREETCAR by Jean Rabe
FALLING STAR by Brendan DuBois
COUNTDOWN by Russell Davis
SERPENT ON THE STATION by Michael A. Stackpole
FIRST CONTACT CAFE by Irene Radford
ORBITAL BASE FEAR by Eric Kotani
BLACK HOLE STATION by Jack Williamson
STATION SPACES by Gregory Benford
Space Stations - Martin H. Greenberg and John Heifers [ Download ]
quinta-feira, 11 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
The Dimension Next Door
Shadows just out of sight, odd noises with no source, bizarre happenings that defy explanation?
Our world is filled with strange events and unexplained phenomena that everyone has an opinion on but that no one can explain. Perhaps these mysteries are people, or creatures, or something else entirely, breaching the barriers that separate our everyday world from realms that we cannot see or touch— yet.
What will these beings bring with them on their journey to our reality? Or will we humans be the first to break through to the other side, to explore the strange and wondrous worlds that lie just beyond our perception?
In The Dimension Next Door, many of my favorite writers challenge the minds of the readers to walk ancient pathways, imagine alternate timelines, and view the mysterious as perfectly natural.
Within these pages, Donald Bingle takes us to other worlds nearer to our own than we may think with “karmas sist.com.” Then Lillian Stewart Carl gives us a glimpse of what life is like for someone who can access the past in “The Avalon Psalter,” and Alexander Potter takes us to tea with the devil in “Hear No Evil.”
On another, darker, path, author Anton Strout gives us a horrifying glimpse of Ben Franklin in “The Fourteenth Virtue.” I certainly won’t think of the Founding Fathers in the same way again. And please don’t overlook the thought-provoking story “Waiting for Evolution,” by Jody Lynn Nye.
Then, once you’ve opened your mind to the possibilities, read “AFK” by Chris Pierson and “Unreadable,” by Steven Schend. You might just look at books and games in a whole new light.
So come in and stay awhile, and don’t worry about the darkness lurking in the corner—it may just be the door you’ve been waiting to go open.
Kerrie Hughes
Contents
THE FOURTEENTH VIRTUE - Anton Strout
WAITING FOR EVOLUTION - Jody Lynn Nye
THE TROUBLE WITH THE TRUTH - Nina Kiriki Hoffman
AFK - Chris Pierson
UNREADABLE - Steven E. Schend
NOT MY KNOT - Irene Radford
WWW.KARMASSIST.COM - Donald J. Bingle
THE AVALON PSALTER - Lillian Stewart Carl
SHADOWS IN THE MIRRORS - Bradley P. Beaulieu
GOD PAYS - Paul Genesse
JACK OF THE HIGH HILLS - Brenda Cooper
THE SILVER PATH - Fiona Patton
HEAR NO EVIL - Alexander B. Potter
ABOUT THE AUTHORS
The Dimension Next Door - Martin H. Greenberg e Kerrie Hughes [ Download ]
terça-feira, 9 de março de 2010
Guardsmen of Tomorrow
Adventure stories. FTL ships rocketing through space; the Space Guard keeping vessels safe from pirates; ray guns, BEMs, and damsels in distress. These are the stories I grew up on, and these are among the stories I still like to read.
Robert Heinlein. Isaac Asimov. E. E. “Doc” Smith. And, of course, Andre Norton. These are some of the people whose work I devoured growing up—and, in Andre’s case, whose new books I eagerly look forward to.
Space opera has changed a lot since the Golden Years of SF. The laws of science are followed more rigorously, for example (“modern” spaceships don’t bank when they turn), and the people in the stories tend to be more well-rounded, and even more flawed… more human, if you will. But the heart of space opera—the rousing sense of adventure, the strong pacing, the exotic settings, the larger-than-life issues—these haven’t changed. Or, if they’ve changed at all, they’ve only gotten better… as the stories in this anthology prove.
So sit back, turn the page, and enjoy… but before you do, you might want to buckle your seat belt, ‘cause it’s going to be a wild ride.
Larry Segriff
Contents
A SHOW OF FORCE by William H. Keith, Jr.
BLINDFOLD by Robin Wayne Bailey
WIPING OUT by Robert J. Sawyer
SMART WEAPON by Paul Levinson
PROCESSION TO VAR by Andre Norton
THE GEMINI TWINS by Paul Dellinger
THAT DOGGONE VNORPT by Nathan Archer
THE SILVER FLAME by Josepha Sherman
STARDUST by Jean Rabe
KEEPING SCORE by Michael A. Stackpole
ALLIANCES by Kristine Kathryn Rusch
A TIME TO DREAM by Dean Wesley Smith
ENDPOINT INSURANCE by Jane Lindskold
Guardsmen of Tomorrow - Martin H Greenberg and Larry Segriff [ Download ]
segunda-feira, 8 de março de 2010
Far Frontiers
Frontiers. There’s something magical about that word. Something stirring in its echoes. Something that calls to us, that sets our blood singing, our pulse pounding, and our souls soaring. Frontiers are more than just that, however, more than just stirring action, compelling char¬acters, and lives lived on the edge.
I’ve long believed that what our modem society needs most is a new frontier—something that would re¬ignite a sense of patriotism and community, something that would help to channel our aggressions, something that would give us, as a nation and as a world, a sense of pride, a sense of productivity, a sense of progress.
That’s why I’ve been such a fan of the space program. It’s also why, for the past twenty years or so, I’ve been so disap¬pointed in our space program.
But space isn’t the only frontier left open to us. It may not even truly be the final frontier. Some of my favorites include cities on the ocean floor, virtual reality, and per¬haps the greatest frontier of all: death itself.
Come with us now as we invite some of today’s top writers to take us on a personal tour of their own favorite frontiers.
Larry Segriff
Contents
TRACES by Kathleen M. Massie-Ferch
STAR LIGHT, STAR BRIGHT by Robert J. Sawyer
CHAUNA by Alan Dean Foster
OUT OF THE CRADLE by Terry D. England
THE CUTTING EDGE by Janet Pack
HOME WORLD by Marc Bilgrey
DREAMLIKE STATES by Kristine Kathryn Rusch
THE LAST BASTION by Lawrence Watt-Evans
FORGOTTEN by Peter Schweighofer
DOWN ON THE FARM by Julie E. Czerneda
SET IN STONE by Andre Norton
RUiNS OF THE PAST by Jane Lindskold
ANGEL ON THE OUTWARD SIDE by Robin Wayne Bailey
Far Frontiers - Martin H. Greenberg e Larry Segriff [ Download ]
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