sexta-feira, 9 de abril de 2010

The Religious Experience of Philip K. Dick - Robert Crumb


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quinta-feira, 8 de abril de 2010

The Shifting Realities of Philip K. Dick




Introduction

Part One - Autobiographical Writings
Two Fragments from the Mainstream Novel Gather Yourselves Together (1949)
"Introducing the Author" (1953)
"Biographical Material on Philip K. Dick" (1968)
"Self Portrait" (1968)
"Notes Made Late at Night by a Weary SF Writer" (1968, 1972)
"Biographical Material on Philip K. Dick" (1972)
"Biographical Material on Philip K. Dick" (1973)
"Memories Found in a Bill from a Small Animal Vet" (1976)
"The Short, Happy Life of a Science Fiction Writer" (1976)
"Strange Memories of Death" (1979, 1984)
"Philip K. Dick on Philosophy: A Brief Interview," Conducted by Frank C. Bertrand (1980,1988)

Part Two - Writings on Science Fiction and Related Ideas
"Pessimism in Science Fiction" (1955)
"Will the Atomic Bomb Ever Be Perfected, and If So, What Becomes of Robert Heinlein?" (1966)
"The Double: Bill Symposium": Replies to "A Questionnaire for Professional SF Writers and Editors" (1969)
"That Moon Plaque" (1969)
"Who Is an SF Writer?" (1974)
"Michelson-Morley Experiment Reappraised" (1979)
"Introduction" to Dr. Bloodmoney (1979, 1985)
"Introduction" to The Golden Man (1980)
"Book Review" of The Cybernetic Imagination in Science Fiction (1980)
"My Definition of Science Fiction" (1981)
"Prediction" by Philip K. Dick Included in The Book of Predictions (1981)
"Universe Makers. . . and Breakers" (1981)
"Headnote" for "Beyond Lies the Wub" (1981)

Part Three - Works Related to The Man in the High Castle and Its Proposed Sequel
"Naziism and The High Castle" (1964)
"Biographical Material on Hawthorne Abendsen" (1974)
The Two Completed Chapters of a Proposed Sequel to The Man in the High Castle(1964)

Part Four - Plot Proposals and Outlines
"Joe Protagoras Is Alive and Living on Earth" (1967)
"Plot Idea for Mission: Impossible" (1967)
"TV Series Idea" (1967)
"Notes on Do Androids Dream of Electric Sheep?" (1968)

Part Five - Essays and Speeches
"Drugs, Hallucination, and the Quest for Reality" (1964)
"Schizophrenia & The Book of Changes" (1965)
"The Android and the Human" (1972)
"Man, Android, and Machine" (1976)
"If You Find This World Bad, You Should See Some of the Others" (1977)
"How to Build a Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later" (1978, 1985)
"Cosmogony and Cosmology" (1978)
"The Tagore Letter" (1981)

Part Six - Selections from the Exegesis
From the Exegesis (c. 1975-80)


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quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Vingador do Futuro - Philip K. Dick



ELE ACORDOU - e desejou Marte. Os vales, pensou. Qual seria a sensação de caminhar penosamente por entre eles? Maior, cada vez maior, o sonho crescia à medida que ia ficando plenamente consciente, o sonho e também o desejo. Ele quase podia sentir a presença envolvente do outro mundo, que apenas agentes do governo e altos oficiais já tinham visto. Um empregado como ele? Improvável.

- Você vai levantar ou não? - perguntou sonolenta sua esposa Kirsten, com o mau humor de sempre. - se vai, aperte o botão de café quente nessa porcaria de fogão.

- Certo - disse Douglas Quail, e seguiu descalço do quarto de seu conapt até a cozinha. Lá, depois de obedientemente apertar o botão do café quente, sentou-se à mesa da cozinha e sacou uma latinha amarela de fino rapé Dean Swift. Inalou energicamente, e a mistura Beau Nash aguilhoou-lhe o nariz, queimou-lhe o céu da boca. Mas ele inalou mais uma vez: aquilo o despertava e fazia com que seus sonhos, seus desejos noturnos e eventuais impulsos se condensassem em uma fachada de racionalidade.

Eu irei, disse ele a si mesmo. Antes de morrer eu verei Marte.

Isso era impossível, claro, e ele sabia disso mesmo sonhando. Mas, à luz do dia, os gestos cotidianos de sua esposa - agora escovando os cabelos diante do espelho do quarto -tudo conspirava para lembrar-lhe o que era. Um mísero empregadinho assalariado, ele disse a si mesmo com amargura. Kirsten lembrava-o disso pelo menos uma vez por dia, e ele não a culpava: era dever da esposa trazer o marido de volta à Terra. De volta à Terra, ele pensou, e riu. Aqui, a figura de linguagem era literalmente adequada.

- Do que é que você está rindo? - perguntou a esposa entrando majestosa na cozinha, seu longo robe rosa-buliçoso balançando atrás dela. - Um sonho, aposto. Você está sempre cheio deles.

- Sim - disse ele, e olhou pela janela para os hovercars e túneis de trânsito, e para todas aquelas pequenas e enérgicas pessoas correndo para o trabalho. Daqui a pouquinho estaria entre elas. Como sempre.

- Aposto que tem a ver com alguma mulher - disse Kirsten, devastadora.

- Não - disse ele. - Foi com um deus. O deus da guerra. Ele em maravilhosas crateras com todo o tipo de vida vegetal crescendo no fundo delas.

- Escute. - Kirsten agachou-se ao lado dele e falou francamente, seu ríspido tom de vez momentaneamente esquecido. - O fundo do oceano, nosso oceano é muito, uma infinidade de vezes, mais bonito. Você sabe disso, todo mundo sabe. Alugue umas roupas de guelras artificiais para nós dois, tire uma semana de licença no trabalho, e poderemos descer e viver lá embaixo em uma dessas estâncias aquáticas que funcionam o ano inteiro. E além disso... - Ela interrompeu-se. - Você não está escutando. Deveria estar. Eis aqui algo muito melhor do que aquela compulsão, aquela obsessão que você tem por Marte, e você nem sequer escuta! - A voz dela se elevou, estridente. - Deus do céu, você está condenado, Doug! O que vai ser de você?

- Eu vou trabalhar - disse ele levantando-se, o desjejum completamente esquecido. - E isto o que vai ser de mim.

Ela encarou-o.

- Você está ficando pior. Mais fanático a cada dia. Onde é que isto vai parar?

- Em Marte - disse ele, abriu a porta do armário para pegar uma camisa limpa.




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terça-feira, 6 de abril de 2010

Minority Report - Philip K. Dick



O PRIMEIRO PENSAMENTO que ocorreu a Anderton quando viu o rapaz foi: estou ficando careca. Careca, gordo e velho. Mas não disse isso em voz alta. Pelo contrário, afastou a cadeira, pôs-se de pé, e deu a volta na mesa, com a mão direita firmemente estendida.
Sorrindo com uma amabilidade forçada, apertou as mãos do rapaz.
Witwer? — perguntou, conseguindo soar simpático.
Isso mesmo — respondeu o rapaz. — Mas Ed para você, é claro. Quer dizer, se partilhar da minha aversão pela formalidade desnecessária. — A expressão em seu rosto louro, francamente confiante, mostrava que considerava o assunto encerrado. Seriam Ed e John: tudo seria
agradavelmente cooperativo desde o começo.
— Teve dificuldades em encontrar os edifícios ? — perguntou Anderton reservadamente, ignorando a apresentação excessivamente amigável. Cristo, ele tinha de se segurar em alguma coisa.
O medo abalou-o, e começou a transpirar. Witwer andava pelo escritório como se já fosse o seu dono — como se estivesse medindo o seu tamanho. Será que não podia esperar alguns dias, um intervalo decentes.
— Nenhuma — respondeu Witwer com júbilo, as mãos nos bolsos. Com ansiedade, examinou os arquivos volumosos que ocupavam a parede. — Não estou vindo no escuro à sua agência, você sabe. Tenho algumas idéias pessoais sobre como a Precrime é dirigida.
Nervoso, Anderton acendeu seu cachimbo.
Como é dirigida? Eu gostaria de saber.
Nada mal — disse Witwer. — Na verdade, muito bem.
Anderton olhou-o fixamente.
Para a sua opinião particular? Ou simplesmente um jargão?
Witwer encarou-o francamente.
— Particular e pública. O Senado está satisfeito com o seu trabalho. De fato, estão entusiasmados — acrescentou ele. — Tão entusiasmados quanto homens muito velhos podem ficar.
Anderton estremeceu, mas, externamente, permaneceu impassível No entanto, custou-lhe um esforço. Perguntou a si mesmo o que Witwer realmente achava. O que se passava, de fato, naquela cabeça com o cabelo à escovinha. Os olhos do rapaz eram azuis, brilhantes — e perturbadoramente
inteligentes. Witwer não era nenhum bobo. E, obviamente, tinha um bocado de ambição.
Pelo que entendi — disse Anderton com cautela —, você será o meu assistente até eu me aposentar.
Foi o que eu entendi também — replicou o outro sem hesitar nem por um instante.
O que pode acontecer este ano ou no próximo. Ou daqui a dez anos. — O cachimbo na mão de Anderton tremia. — Não estou sendo pressionado a me aposentar.
Fundei a Precrime e vou permanecer aqui o tempo que quiser.
É uma decisão minha, exclusivamente.
Witwer anuiu com a cabeça, a expressão ainda franca.
— É claro.
Com esforço, Anderton acalmou-se um pouco.
Só quis deixar as coisas claras.
Desde o começo — concordou Witwer. — Você é o chefe.
Você manda. – Demonstrando sinceridade, perguntou: — Importa-se de me mostrar a organização? Gostaria de me familiarizar com a rotina o quanto antes.
Ao passarem pelas salas cheias e sobrecarregadas de trabalho, com a sua iluminação amarelada, Anderton disse:
Você está a par da teoria da prevenção do crime, é claro.
Suponho que isto seja ponto pacífico.
A informação que tenho é a que está disponível publicamente — replicou Witwer. — Com a ajuda de seus mutantes precognitivos, você conseguiu, audaciosamente,abolir o sistema punitivo pós-crime de cadeias e multas.
Como todos sabemos, a punição nunca foi um grande impedimento, e provavelmente nunca ofereceu conforto à vítima já morta.
Tinham chegado ao elevador. Enquanto este os levava rapidamente para baixo, Anderton disse:
— Deve ter percebido o inconveniente legal básico da metodologia pré-crime. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei.
Mas que certamente infringirão— afirmou Witwer com convicção.
Felizmente, não. Nós os pegamos primeiro, antes que cometam qualquer ato de violência. Desse modo a comissão do crime, em si mesma, é uma metafísica absoluta.
Alegamos que são culpados. Eles, por sua vez, afirmam eternamente ser inocentes.
E, de certa maneira, são inocentes.
O elevador parou e, mais uma vez, eles atravessaram, com passos regulares, um corredor amarelo.
— Em nossa sociedade, não há crimes maiores — prosseguiu Anderton —, mas temos um campo de detenção cheio de supostos criminosos.
Portas abriram-se e fecharam-se, e eles se encontraram na ala analítica. A frente, erguia-se uma série impressionante de equipamentos — receptares de dados e mecanismos de computação que examinavam e reestruturavam o material que chegava. Além da maquinaria, os três
precognitivos, quase indistintos no labirinto da fiação elétrica.
Lá estão eles — disse Anderton, com uma certa ironia.
— O que acha?
Na semi-obscuridade, os três idiotas tagarelavam. Todo pronunciamento incoerente, toda sílaba casual eram analisados, comparados, reagrupada na forma de símbolos visuais, transcritos sobre cartões perfurados e ejetados em diversas ranhuras codificadas. Os idiotas tagarelavam o dia
inteiro, aprisionados em suas cadeiras especiais, de espaldar alto, mantidos em uma posição rígida por ligaduras de metal e vários fios, e grampos. Suas necessidades físicas eram assistidas automaticamente. Não tinham necessidades espirituais. Semelhantes a vegetais, murmuravam, cochilavam e existiam. Suas mentes eram obtusas, confusas, perdidas nas sombras.
Mas não as sombras de hoje. As três criaturas tagarelas, desajeitadas, com suas cabeças alargadas e corpos raquíticos, contemplavam o futuro. A maquinaria analítica registrava profecias e, enquanto os três precognitivos falavam, a maquinaria escutava atentamente.
Pela primeira vez, Witwer perdeu sua confiança jovial.
Uma expressão desgostosa, consternada, insinuou-se em seus olhos, uma mistura de dó e choque moral.
— Não é nada... agradável — murmurou ele. — Não fazia idéia de que fossem... – Procurou a palavra certa, gesticulando.
— Tão deformados.
— Deformados e retardados — concordou Anderton instantaneamente. – Especialmente aquela garota ali. Donna tem quarenta e cinco anos. Mas parece ter dez. O talento absorve tudo; o lóbulo especial atrofia o equilíbrio da área frontal. Mas o que importa? Temos as suas profecias. Eles transmitem o que precisamos. Não entendem nada disso, mas nós entendemos.
Subjugado, Witwer atravessou a sala até a maquinaria.
De uma ranhura, pegou um maço de cartões.
São os nomes que aparecem? — perguntou ele.
É óbvio que — com o cenho franzido, Anderton pegou o maço — não tive oportunidade de examiná-los — explicou, ocultando, com impaciência, o seu aborrecimento.
Fascinado, Witwer observou a maquinaria ejetar um novo cartão na ranhura vazia. Foi seguido por um segundo — e um terceiro. Dos discos, que rangiam regular e constantemente, surgia um cartão atrás do outro.
Os precognitivos devem ver longe no futuro — exclamou Witwer.
Vêem um espaço de tempo limitado — informou-lhe Anderton. — Uma ou duas semanas adiante, no máximo.
Grande parte dos dados não tem valor para nós.
Simplesmente não são relevantes para o nosso ramo de atividade. Nós os passamos para as agências apropriadas.
E elas, por sua vez, permutam dados conosco. Cada birô importante tem seu porão de macacos entesourados.
Macacos? — Witwer olhou-o intrigado. — Ah, sim, entendo, nada ver, nada falar, e etc. Muito divertido.
Muito conveniente. — Automaticamente, Anderton coletou os novos cartões que haviam sido virados pela
maquinaria giratória. — Alguns desses nomes serão totalmente descartados. A maior parte do restante registra crimes triviais: furtos, sonegação de imposto de renda, assalto, extorsão. Estou certo que sabe que a Precrime reduziu os delitos graves em noventa e nove pontos oito por cento. Raramente temos um assassinato ou traição de verdade.
Afinal, o acusado sabe que o confinaremos no campo de detenção uma semana antes de ele ter chance de cometer o crime.
Quando foi a última vez que um assassinato de verdade foi cometido? – perguntou Witwer.
Cinco anos atrás — respondeu Anderton, seu tom de voz denotando orgulho.
Como aconteceu?
O criminoso escapou das nossas equipes. Tínhamos o seu nome. De fato, tínhamos todos os detalhes do crime, inclusive o nome da vítima. Sabíamos o momento exato, a locação do ato de violência planejado. Mas, apesar disso, ele conseguiu executá-lo.
Anderton deu de ombros. — Enfim, não podemos pegar todos eles. — Embaralhou os cartões. — Mas realmente pegamos a maioria.
Um assassinato em cinco anos. — A confiança de Witwer estava voltando. — Um registro impressionante... algo de que se orgulhar.
Anderton disse tranqüilamente: — Eu me orgulho. Há trinta anos elaborei a teoria. No tempo em que aqueles que só agiam em vantagem própria
estavam pensando em ataques surpresa à Bolsa. Eu vi algo legítimo num futuro próximo, algo de um tremendo valor social.
Jogou o maço de cartões para Wally Page, seu subordinado encarregado do bloco dos macacos.
Veja quais nos interessam — disse. — Faça o seu próprio julgamento. Quando Page desapareceu com os cartões, Witwer disse circunspecto:
É uma grande responsabilidade.
— Sim, é — concordou Anderton. — Se deixarmos um criminoso escapar, como deixamos há cinco anos, teremos uma morte na consciência. Somos os únicos responsáveis.
Se falhamos, alguém morre. — Com amargura, puxou mais três cartões da ranhura. — É uma responsabilidade pública.
Já se sentiu tentado a — Witwer hesitou. — Quer dizer, alguns dos homens que você pegou devem ter-lhe oferecido muito.
Não iria adiantar. Uma duplicata do arquivo de cartões é ejetada no Quartel General do Exército. Têm o total controle sobre nós. Podem nos vigiar constantemente, o quanto quiserem.
Anderton relanceou os olhos para o cartão de cima. —
Portanto mesmo que quiséssemos aceitar uma...Interrompeu-se, apertou os lábios.
— O que foi ? — perguntou Witwer, curioso.
Com cuidado, Anderton dobrou o cartão e o pôs no bolso.
Nada — murmurou ele. — Não foi nada. A rispidez em sua voz fez Witwer corar.
Você realmente não gosta de mim — observou ele.
— É verdade — admitiu Anderton. — Não gosto. Mas...
Não acreditava que desgostasse tanto assim do rapaz. Não parecia possível: não era possível. Alguma coisa estava errada.
Atordoado, tentou acalmar a sua mente agitada.
No cartão estava o seu nome. Linha um — já acusado futuro assassino! Segundo as perfurações no cartão, o comissário da Precrime John A. Anderton ia matar um homem — e na próxima semana.
Com total convicção, uma convicção inabalável, ele não acreditou.


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segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Homem do Castelo Alto - Philip K. Dick


HAVIA uma semana que Mr. Childan aguardava ansiosamente o carteiro. Mas a valiosa encomenda proveniente dos Estados das Montanhas Rochosas ainda não chegara. Quando abriu a loja na sexta-feira cedo e viu apenas cartas na caixa do correio pensou logo: vou ter um freguês furioso.
Tirou uma xícara de chá instantâneo da máquina automática na parede, apanhou uma vassoura e pôs-se a varrer; em pouco tempo a frente da American Artistic Handcrafts Inc. estava pronta para o dia, limpinha, com a caixa cheia de troco, um vaso de margaridas frescas e o rádio tocando música de fundo. Lá fora na calçada passavam homens de negócios a caminho de seus escritórios em Montgomery Street. Ao longe, um bonde; Childan parou para observá-lo com prazer. Mulheres com seus longos e coloridos vestidos de seda... observou-as também. Então o telefone tocou. Voltou-se para atender.
— Sim — disse uma voz conhecida, quando atendeu.
O coração de Childan ficou gelado.
— Aqui fala Mr. Tagomi. O meu cartaz de alistamento da Guerra de Secessão já chegou, senhor? Por favor, lembre-se; foi-me prometido para a semana passada.
A voz era exigente, breve, apenas polida, apenas mantendo a etiqueta.
— Não lhe dei um depósito, Mr. Childan, com aquela exigência? É para presente, sabe? Já tinha explicado. Um cliente.
— Pesquisas prolongadas — começou Childan — feitas às minhas próprias custas, Mr. Tagomi, referentes à encomenda prometida que, como o senhor sabe, origina-se fora desta região e é portanto...
Mas Tagomi interrompeu: — Então não chegou.
— Não, Mr, Tagomi. Uma pausa glacial.
— Não posso mais esperar — disse Tagomi.
— Sim, senhor.
Childan olhou com tristeza através da vitrine da loja, o dia quente brilhante e os edifícios comerciais de São Francisco.
— Um substituto, então. Que recomenda, Mr. Childan?
Tagomi propositalmente pronunciou mal o nome; era um insulto dentro da etiqueta que fez arderem as orelhas de Childan. Estava numa falsa posição, sua situação causava-lhe uma terrível mortificação. As aspirações, os medos e os tormentos de Robert Childan vieram à tona e ficaram expostos, inundando-o, paralisando sua língua. Gaguejou, com a mão crispada no telefone. O ar de sua loja cheirava a margaridas; a música continuava a tocar, mas ele sentiu como se estivesse mergulhando em algum mar distante.
— Bem... — conseguiu murmurar. — Batedeira de manteiga. Máquina de fazer sorvete de 1900.
Sua mente recusava-se a pensar. Como quando a gente se esquece; como quando a gente se engana. Ele tinha trinta e oito anos, recordava os dias anteriores à guerra, os outros tempos. Franklin D. Roosevelt e a Feira Mundial; o antigo mundo, muito melhor.
— Talvez pudesse levar vários artigos interessantes ao seu escritório? — sussurrou.
Foi marcado um encontro para as duas horas. Preciso fechar a loja, pensou, enquanto desligava. Não havia escolha. Era preciso manter a boa-vontade desse gênero de clientes; os negócios dependiam deles.
Ali de pé, ainda trêmulo, percebeu que alguém — um casal — entrara na loja. Jovens, elegantes, bem vestidos. De aspecto agradável. Acalmou-se e caminhou, sem pressa, na direção deles, sorrindo. Estavam debruçados sobre o mostruário no balcão, e tinham escolhido um lindíssimo cinzeiro. Casados, adivinhou. Moram na Cidade das Neblinas Sinuosas, os novos apartamentos exclusivos no Skyline, com vista para Belmont.
— Alô — disse, e sentiu-se melhor. Sorriram-lhe sem nenhuma superioridade, apenas com afabilidade. Seu mostruário — que era realmente o que havia de melhor no gênero ali na Costa — tinha impressionado; percebeu isso e ficou agradecido. Eles compreenderam.
— Peças de fato excelentes, senhor — disse o jovem.
Childan inclinou-se espontaneamente.
Os olhos deles, brilhantes não só pela ligação humana, mas ainda pelo prazer comum que sentiam ao ver os objetos de arte que ele vendia, por seus gostos e satisfações mútuos, fixaram-se nele; agradeciam-lhe por ter coisas como estas, que eles podiam ver, tocar, examinar, manusear talvez, até mesmo sem comprar. Sim, pensou, sabem em que espécie de loja estão; aqui não há bugigangas para turista, placas de sequóia onde se lia MUIR WOODS, MARIN COUNTY, P.S.A., coisinhas, aneizinhos ou cartões postais com a vista da Ponte. Especialmente os olhos da moça, grandes, escuros. Como seria fácil, pensou Childan, me apaixonar por uma garota assim. Que trágica seria então minha vida; como se já não estivesse bastante ruim. Esse cabelo preto na moda, as unhas pintadas, as orelhas furadas com os longos brincos de metal feitos a mão.
— Seus brincos — murmurou. — Comprados aqui, talvez?
 — Não — disse ela. — Em minha terra.
Childan balançou a cabeça. Nada de arte americana contemporânea; apenas o passado poderia estar representado ali, numa loja como a dele.
— Vão ficar muito tempo aqui? — perguntou. — Na nossa São Francisco?
— Vou ficar aqui por tempo indeterminado — disse o homem. — Trabalho na Comissão de Inquérito para Planejamento do Nível de Vida das Áreas Sinistradas..
Seu rosto demonstrou orgulho. Não era militar. Não era um daqueles recrutas provincianos, mascadores de chicletes, com seus rostos de camponeses gananciosos, perambulando por Market Street, boquiabertos diante dos cabarés, dos filmes sexy, dos tiro-ao-alvo, das boates baratas com fotos de louras de meia-idade sustentando as tetas entre dedos enrugados, com um riso debochado nos lábios... os antros de jazz, que formavam a maior parte da baixa São Francisco, frágeis barracos de lata e de tábuas que surgiram das ruínas mesmo antes de cair a última bomba. Não — aquele jovem era da elite. Culto, educado, mais ainda que Mr. Tagomi, que afinal era um alto funcionário, com o posto de Adido Comercial para a Costa do Pacífico. Tagomi era um homem velho. Sua formação vinha do tempo do Gabinete de Guerra.
— Queriam objetos de arte popular tradicional americana para presente? — perguntou Childan. — Ou talvez para decorar seu novo apartamento aqui? Se fosse esta última hipótese... — seu coração apressou-se.
— Acertou — disse a moça. — Estamos começando a decorá-lo. Estamos ainda um pouco indecisos. Acha. que poderia ajudar-nos?
— Poderia passar em seu apartamento, sim — disse Childan. — Levarei várias malas com material e lá, no ambiente, posso sugerir coisas que lhes convenham. Esta: é, naturalmente, a nossa especialidade.
Baixou os olhos para encobrir suas esperanças. Poderia ser um negócio de milhares de dólares.
— Estou para receber uma mesa da Nova Inglaterra, toda de madeira de encaixe, não tem um prego. De enorme beleza e valor. E um espelho da época da guerra de 1812. E também a arte aborígene: um grupo de tapetes de pêlo de cabra com tintura vegetal.
— Por mim — disse o homem — prefiro a arte das, cidades.
— Pois não — disse Childan ansiosamente. — Ouça,, senhor. Tenho um mural do período dos correios W. P. A., original, feito de madeira, em quatro partes, retratando Horace Greeley. Peça de colecionador, de valor inestimável.
— Ah! — disse o homem, com os olhos escuros brilhando.
— E uma vitrola de 1920, transformada em bar.
— Ah!
— E, senhor, ouça: um retrato emoldurado e autografado de Jean Harlow.
O homem ficou com os olhos esbugalhados.
— Vamos marcar um encontro? — perguntou Childan, aproveitando o momento psicológico certo.
Tirou do bolso interno do casaco a caneta e a caderneta.
— Anotarei seu nome e endereço, senhor e senhora. Mais tarde, quando o casal saiu da loja, Childan ficou de pé, mãos nas costas, olhando a rua. Feliz. Se todos os dias fossem assim... Mas era mais do que os negócios, era o sucesso de sua loja. Era a oportunidade de conhecer um jovem casal japonês socialmente, na base de uma aceitação dele como homem mais do que como um yank ou, na melhor das hipóteses, como um comerciante de objetos artísticos. Sim, esses jovens da geração em ascensão, que não se lembravam dos dias de antes da guerra, nem da própria guerra — eram a esperança do mundo. Diferença de lugar nada significava para eles.
Isso acabará, pensou Childan. Algum dia. A própria idéia de lugar. Não mais governados e governantes, mas gente.
E contudo tremia de medo ao se imaginar batendo à porta deles. Examinou suas anotações. Os Kasouras. Se fosse recebido, sem dúvida lhe ofereceriam chá. Faria direito as coisas? Saberia como agir e falar no momento exato? Ou iria se desgraçar, como um idiota, com alguma gafe terrível?
O nome dela era Betty. Que compreensão em seu rosto, pensou. Os olhos delicados, sensíveis. Certamente, mesmo naquele pouco tempo na loja, percebera suas esperanças e derrotas.
Suas esperanças — de repente ficou tonto. Que aspirações eram essas, beirando a loucura se não o suicídio? Mas não eram desconhecidas as relações entre japoneses e yanks, embora geralmente fossem entre um japonês e uma yank. Mas... estremeceu à idéia. E ela era casada. Afastou da cabeça esse desfile de pensamentos involuntários e pôs~se a abrir a correspondência matinal com toda atenção.
Suas mãos, descobriu, ainda estavam tremendo. E foi então que se lembrou do encontro com Mr. Tagomi às duas; diante da idéia, suas mãos deixaram de tremer e seu nervosismo transformou-se em decisão. Preciso encontrar alguma coisa aceitável, disse a si próprio. Onde? E como? O quê? Um telefonema. Fontes. Habilidade comercial. Desenterrar um Ford 1929 totalmente restaurado, com capota de tecido preto e tudo. Uma grande jogada para manter sempre a clientela. Avião trimotor do correio aéreo, modelo original, encontrado num celeiro em Alabama, etc. Apresentar a cabeça mumificada de Mr. B. Bill, incluindo os cabelos brancos esvoaçantes; sensacional objeto americano. Firmar minha reputação nos mais altos círculos de connoisseurs do Pacífico, incluindo o arquipélago nipônico. Para inspirar-se, acendeu um cigarro de niarijuana da excelente marca Land-O-Smiles.


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domingo, 4 de abril de 2010

Philip K. Dick



Philip Kindred Dick (16 de Dezembro de 1928, 2 de Março de 1982) nasceu em Chicago (EUA), era também conhecido pelas iniciais PKD, e por vezes pelo pseudônimo de Richard Phillips.

Cresceu na Califórnia (EUA), para onde sua mãe mudou-se após a separação. Estudou Filosofia e Alemão na Universidade da Califórnia, mas abandonou os estudos para trabalhar numa rádio (KSMO, de San Mateo) e como vendedor em uma loja de discos (onde conheceu a primeira esposa, Anne).

No seu tempo livre, PKD escrevia freneticamente histórias autobiográficas, antes de se decidir por escrever ficção científica.

Declarou certa vez,  ter começado a ler FC aos 12 anos por engano: comprou Stirring Science Fiction em vez de Popular Science. Lia também Joyce, Kafka, Steinbeck, Proust e Dos Passos.


Aos 24 anos teve seu primeiro conto publicado ("Beyond Lies the Wub"), e aos 27 o primeiro livro (The Solar Lottery), e desde então foram mais de 200 contos e romances.

Sua preocupação em explorar as doutrinas herméticas em voga nos anos 60, combinadas aos seus estudos da parapsicologia, experiências de percepção extra-sensorial e o consumo excessivo de drogas, o transformaram em um escritor incomum no cenário literário.

Seus trabalhos são caracterizados por um sentimento constante de erosão da realidade, com o protagonista descobrindo, em muitas vezes, que as pessoas próximas a ele (ou mesmo ele próprio) são secretamente robôs, alienígenas, seres sobrenaturais, espiões que sofreram lavagem cerebral, mortos ou uma combinação destas.

Sua irmã gêmea Jane, morreu prematuramente, e junto à cova onde foi enterrada (em Fort Morgan, Colorado), foi deixado morbidamente um espaço reservado para o bebê ‘Phil’.

O sentimento de perda o assombrou por toda sua vida.

Dick chegou a conceber a idéia de que vivia em um universo paralelo ao universo onde Jane estava viva, morando na Califórnia e escrevendo  Ficção Científica, e ele estaria morto, enterrado em Fort Morgan.

Para muitos estudiosos de sua obra, a vida de PKD foi tão fascinante e atribulada quanto sua ficção. Cinco casamentos, falências, drogas, internações, delírios paranóicos e panfletagem política.

Uma história curiosa sobre seus surtos psicóticos, e que envolve outro famoso escritor de FC, transmite o grau de alucinação em que vivia. No início dos anos 70, o já famoso e conceituado escritor polonês Stanislaw Lem (autor de Solaris), foi responsável por intermediar a tradução de um livro de PKD para o polonês. PKD nunca recebeu um centavo por isso, e passou a escrever cartas para o FBI, acusando Lem de fazer parte de um complô para infiltrar o comunismo na SFWA (organização que reúne os escritores de Ficção Científica e Fantasia da América). PKD teria também sugerido que o polonês não existia, e que se tratava de um supercomputador que respondia pelo acrônimo LEM.

Na literatura, pode-se dizer que PKD vislumbrou o caminho do que depois seria chamado de 'cyberpunk', além de ser o pioneiro na transição de sub-gêneros da FC, como o fez com seu aclamado romance, The Man in the High Castle (vencedor do Prêmio Hugo), unindo história alternativa e ficção científica. 

Apesar de hoje possuir uma reputação literária respeitosa junto à crítica, e ser indicado como um dos responsáveis por revitalizar a FC americana nos anos 60 (descartando a otimista e simplória visão da FC da Época de Ouro), PKD nunca foi um sucesso de vendas.  

Os anos 1950 foram uma época difícil para ele, de tal modo que sequer conseguia pagar as contas atrasadas.

Seu estilo de vida, suas opções políticas (chegou a ser membro do Partido Comunista) e por viver imerso na contra-cultura, o afastaram de bons contratos e lhe impuseram o rótulo de "escritor problemático”.
Só conseguia assinar contratos módicos. Mesmo em seus últimos anos de vida, continuava a ter problemas financeiros.

Na introdução da coleção de contos "The Golden Man", PKD escreveu:
”Há alguns anos atrás, quando eu estava doente, Heinlein ofereceu ajuda, qualquer coisa que pudesse fazer, e nós nunca tínhamos nos encontrado pessoalmente. Ele telefonava para me animar e ver o que eu estava fazendo. Ele queria me comprar uma máquina de escrever elétrica, que Deus o abençoe - um dos poucos verdadeiros cavalheiros no mundo. Eu não concordo com qualquer uma das idéias que ele expõe em sua obra, contudo. Uma vez, quando eu devia ao IRS (Imposto de Renda) um monte de dinheiro e não podia pagar, Heinlein emprestou o dinheiro pra mim. Dediquei-lhe um livro em apreço. Ele sabia que eu era um freak (doido, hippie) e ainda assim ajudou a mim e a minha esposa, quando estávamos em apuros”.

O reconhecimento público só ocorreu pouco após sua morte, quando várias adaptações de seus livros e contos, chegaram ao cinema: Do Androids Dream of Electric Sheep (Blade Runner filmado por Ridley Scott), Minority Report (com Tom Cruise), Total Recall (com Arnold Schwarzenegger), Screamers (com Peter Weller), Paychek (com Ben Affleck), A Scanner Darkly, (com Keanu Reeves) e Next (do conto The Golden Man).

Atualmente as duas filhas e o filho de PKD administram o legado do pai, através da produtora Electric Shepherd.

Site oficial

Site do Prêmio Philip K. Dick

Bibliografia


Philip K. Dick ( A Maze of Death, A Scanner Darkly e script de Charles Kauffman, Clans of the Alphane Moon, Confessions of a Crap Artist, Counter-clock world, Deus Irae, Do Android Dream of Electric Sheep, Dr.Bloodmoney, Flow my Tears the Policeman Said, Galactic Pot-Healer, Lies Inc., Martian Time-Slip, Mary and the Giant, Now wait for the last year, Our Friends from Frolix 8, Radio Free Albemuth, Second Variety, Solar Lottery, The Cosmic Puppets, The Divine Invasion, The Game-Players of Titan, The Man in the High Castle, The Man Who Japed, The Minority Report, The Penultimate Truth, The Simulacra, The Transmigration of Timothy Archer, The Unteleported Man, The World Jones Made, The Zap Gun, Time Out of Joint, Ubik, VALIS, Voices from the Street, Vulcan's Hammer, We Can Build You  ) [ Download ]

Philip K. Dick: Confissões de um Artista de FC



Philip K. Dick criou para si um nicho entre os escritores de ficção científica. Ao contrário de muitos de seus colegas escritores do gênero, Dick escrevia mais sobre o espaço interior, do que sobre o espaço exterior.
Seus personagens vinham antes de suas máquinas.



Pergunta: Você ficou sem publicar de 1977 (A Scanner Darkly) até 1980 (VALIS).

PKD: VALIS é um estudo teológico da invasão de tecnologias futuras, por conta de uma inteligência sobrenatural que interfere na vida de um homem comum do nosso tempo. Basicamente lida com a invasão do futuro no presente, e as tentativas desse homem para lidar com isso.


P: VALIS marca sua primeira trilogia*.

PKD: Acho que escrevi pelo menos 100 contos que nunca foram reunidos em qualquer antologia. Mas não estou escrevendo tanto como costumava fazer. Eu nunca vou ser tão prolífico como eu era. O retorno financeiro para quem escreve contos não é interessante. Eu estou guardando minhas idéias para romances agora. Eu pessoalmente gosto mais de romances. Tenho a oportunidade para desenvolver e construir os personagens. Estou principalmente interessado nas pessoas.


P: Ao deixar de escrever contos, você parou também de escrever não-ficção. Trabalhos como "Confessions of a Crap Artist" (1959) são coisas do passado?

PKD: Eu realmente gostei deste. Mas perdi o interesse em escrever não-ficção. Seu tempo já passou. Eles são essencialmente fósseis. Quando eu estiver morto e deitado nos pomares de mármore, não vou impedir meus herdeiros de publicá-los. Mas não quero inundar o mercado agora com um monte de material antigo de não-ficção.


P: Uma coisa que você tem feito mais do que de costume é pesquisa. Sete anos de investigação foram feitas para "The Man in the High Castle" (O Homem do Castelo Alto). Tanto valeu a pena, que o livro lhe deu seu primeiro prêmio Hugo, de melhor romance de ficção científica de 1963. Quanto tempo você passa escrevendo?

PKD: Escrevo o tempo todo. A partir do momento em que eu me levanto, até o momento em que eu vou para a cama, exceto quando estou com meus amigos, ou assistindo televisão. Eu passo muito tempo com meus amigos.


P: Sua vida familiar não é mais o que era.

PKD: Estou divorciado agora. Vivo com dois gatos, Harvey e Mrs. Mabel M. Tubbs. Porém eu não gosto de viver sozinho. Tenho uma namorada na França, que conheci em uma convenção na Europa. Ela continua me ligando e tentando me convencer a mudar-me para lá. Se eu não estivesse tão envolvido com meu trabalho, eu iria. E há todas estas grandes negociações com Hollywood...


P: Que grandes negociações com Hollywood?

PKD: Eles querem fazer um filme de "Do Androids Dream of Electric Sheep". Ele vai ser dirigido por Ridley Scott, que dirigiu Alien. O último orçamento que soube, estava previsto para 20 milhões de dólares.

O assistente de produção de Alien está interessado em fazer um filme com "We Can Remember It For You Wholesale". Outra empresa cinematográfica supostamente está interessada nos direitos de "Second Variety", com um roteiro escrito por Dan O'Bannon, que, apenas por coincidência, escreveu o roteiro de Alien.

Quanto à data de lançamento desses filmes, só Deus sabe! A greve dos atores não teve um bom efeito sobre o progresso das negociações.

Eu pensei que receberia uma quantia exorbitante de dinheiro por eles. Estava tomando uma bebida com Ray Bradbury, contando a ele sobre tudo isso, e ele quase passou mal. Ele me disse que eu era um tolo, e que eu não ganharia tanto assim. Eu pensei que seria uma grande quantia de dinheiro. Fiquei arrasado!
Não fui convidado ainda para escrever roteiros. Eu faria isso se eles me pedissem. Eu gostaria de fazer algo do tipo.


P: Seus três trabalhos escolhidos para o cinema, tratam todos de robôs se fazendo passar por pessoas.

PKD: Aparentemente tenho a patente disso (ri). Filmes como Westworld utilizam-se de idéias que eu já havia pensado há muito tempo. Agora eu finalmente estou lucrando com isso.


P: Gosta de cinema?

PKD: Sou louco por cinema. Dois de meus filmes favoritos são "The man who fell to Earth" (O Homem que Caiu na Terra), estrelado por David Bowie e "Three Women" (Três Mulheres) de Robert Altman.

Tenho TV por assinatura para poder ver filmes todo dia. Eu escolho na maioria das vezes pelos diretores. Eu gosto muito de Altman e De Palma. Também escolho pelos atores. Gostei de "The Rocky Horror Picture Show" e "The Phantom of the Paradise" também.


P: Isso nos leva aos seus gostos musicais. Você é um fã de música clássica.

PKD: Atualmente estou começando a entrar no punk rock. Eu gostava de rock na década de sessenta, coisas como Country Joe and the Fish, The Grateful Dead, os Stones e Jefferson Airplane. Agora gosto do Germs, Circle Jerks, Plug e Suicide. Além do punk, gosto do trabalho experimental de Karl Heinz Stockhousen, de música eletrônica.


P: Quais são seus autores favoritos hoje?

PKD: Thomas Disch e Norman Spinrad são ambos muito bons. E eu acho que John Varley é um autor excelente. E Roger Zelazny é mais um dos meus favoritos. Ele e eu somos bons amigos. Eu realmente gosto do que Roger escreve.


P: Zelazny e você escreveram um livro juntos em 1976, chamado "Deus Irae". Outra colaboração foi 'The Ganymede Takeover', feita com o escritor e cartunista de FC, Ray Nelson. Nelson aliás foi quem inventou o gorro-hélice, que hoje é usado para simbolizar o fã de ficção científica. O que pensa dos milhões de fãs de ficção científica conhecidos coletivamente como "fandom"? Você não participa mais de convenções de ficção científica nos dias de hoje.

PKD: Eu frequento mais convenções. Mas não é porque eu não goste deles. Acho que eles são muito ardorosos. Minha saúde é que não é muito boa, e eles são muito exigentes, fisicamente falando. Eu não posso mais fazer palestras também. Eu tive que desistir de fazer discursos. Mas eu gosto de dar entrevistas.


P: Fale sobre VALIS.

PKD: É autobiográfico. É sobre um cara que tem um colapso nervoso quando sua namorada vai embora. Ele afunda cada vez mais até que ele recorre a uma tentativa de suicídio. Então ele é invadido por forças sobrenaturais, que ele identifica como sendo do futuro. Mas as forças são indescritíveis. Quando o livro termina, ele ainda precisa de uma resposta. É uma mistura de realidade e ficção.


Uma coisa que os seres avançados dizem ao protagonista de VALIS, é que um novo salvador está prestes a nascer.


P: Qual a sua religião?

PKD: Posso ser classificado como um anarquista religioso. Sou totalmente contra a religião organizada. Acredito que, ou você tem uma relação direta com o divino, ou você não tem. Não tem nada a ver com fé ou credos dogmáticos. A iniciativa vem do lado divino. Não há nada que você possa fazer. Tudo que você pode fazer é viver uma vida honesta, ser brutalmente honesto com você mesmo, e esperar que se torne um objeto de interesse para os seres divinos. Usar uma fórmula para evocá-los é tecnicamente "mágica". Acho que você poderia me chamar de um neo-platónico com conotações gnósticas.

Há algum gnosticismo em VALIS também. O segundo livro da série vai tratar com o Judaísmo, e o terceiro será um estudo da cibernética e da mecânica quântica.


P: Você parece bastante envolvido em seu trabalho atual, sobre a trilogia.

PKD: Estou quase no ponto de não conseguir me recompor o suficiente para sair e fazer compras. Estou vivendo no inferno. Algum dia destes vou atravessar uma parede. Vou desmaterializar meu próprio universo.


P: Se VALIS é autobiográfico, isso significa que você tem estado em contato com seres sobrenaturais?

PKD: Essa é minha impressão. É meio difícil falar sobre isso em uma conversa informal.


P: O que está acontecendo com você Phil?

PKD: Ah, eu tenho sido contatado por seres sobrenaturais que são super-avançados. Falaram-me sobre esse salvador que... ( risos) Uma vez, logo após minha esposa ter um bebê, minha pressão arterial estava perto do limite. Era uma condição letal e eu estava perto da morte. O bebê estava perto de morrer também. Mas nós não sabíamos disso. O poder sobrenatural informou-me da minha condição e a de meu filho. Ele me disse para correr para o hospital, e que lá fariam uma cirurgia e assim foi.


P: VALIS é o nome que você deu a essa força sobrenatural. Vast Active Living Intelligence System (Vasto Sistema de Inteligência Viva e Ativa). 

PKD: Ainda falo com ela ocasionalmente. A minha primeira experiência foi na escola, durante um exame final de Física. Haviam oito perguntas baseadas em um princípio que eu não entendia. O ser sobrenatural tomou conta do meu cérebro e explicou-me de uma maneira que eu poderia entender. Eu tirei um "A", e as minhas notas me ajudaram a entrar para a faculdade. Isso foi nos anos 40. Fiquei espantado.


P: Um dos assuntos favoritos de VALIS é a reencarnação.

PKD: Penso muito que VALIS possa ter sido uma vez humano. Valis descreveu-se como meu espírito tutelar. Depois de olhar o termo no dicionário, descobri que significa "protetor sobrenatural", com um significado secundário de "tutor". O espírito só descreveu sua função, sem dar seu nome real. Ele só me diz coisas quando estou completamente esgotado na tentativa de encontrar as respostas por mim mesmo.


P: Já que o espírito é declaradamente tão envolvido com a reencarnação, daria qualquer indício a respeito de suas vidas passadas?

PKD: Você quer que eu seja sincero, ou você quer que eu seja modesto?


P: Seja franco.

PKD: Eu vivi no século I DC, na Síria. Em segredo eu era um cristão chamado Thomas. Fui brutalmente morto pelos romanos. Estrangulado.


Isso tem aparecido nos meus sonhos, a minha vida inteira. Tudo vem de forma muito clara, em Roma. Ela voltou tão intensa uma vez, que eu pensei que estava em Roma. Eu disse a minha esposa que devíamos ter cuidado com os romanos.

A personalidade de Thomas era tão avassaladora que me assumiu por cerca de um mês. Ele era bem diferente de mim. Era durão e perspicaz, e mais enérgico e inventivo do que eu sou.


P O que está esperando por você em sua próxima vida?

PKD: Espero não ser nada. Estou cansado. Estive lutando contra o Império Romano em diferentes formas, por 2.000 anos. Hoje é o governo dos EUA. Vou deixá-los em paz, se eles me deixarem em paz.


P: Durante os anos sessenta, você esteve fortemente envolvido em atividades anti-Vietnã. Devido a isso sua casa foi invadida, seus pertences e documentos foram destruídos por uma bomba colocada dentro de sua casa, e os oficiais do Condado de Marin advertiram-no para partir ou levaria um tiro pelas costas.

PKD: O que quer que eles pensassem que eu estava fazendo, era muito pior do que eu realmente estava fazendo.


P: Durante os anos 60, você também esteve supostamente envolvido com drogas. Seu livro ‘Through A Scanner Darkly’, fala de sua desilusão sobre as drogas, depois de vários amigos seus que morreram e tiveram danos cerebrais por causa do abuso de drogas. A sua opinião atual do uso de drogas é bastante negativa.

PKD: Acho uma coisa muito arriscada. Você essencialmente está jogando e apostando que vai conseguir ao final, sair com algo que é mais positivo do que negativo. É muito arriscado.


Escrito a partir da entrevista concedida a George Cain e Dana Longo - Clarion Denver, 23 de outubro de 1980.


*(nota do tradutor) Após Valis, se seguiram The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.

sábado, 3 de abril de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 1)


 
O Caçador de Andróides (Do Androids Dream of Electric Sheep, ou DADES, como também é conhecido) de Philip K. Dick, originalmente chamava-se "Phillip K. Dick: Electric Shepherd", e foi escrito entre 1966 e 1968, provavelmente os mais turbulentos anos que a América conheceu desde a Segunda Grande Guerra.

Assassinatos, manifestações populares, desordem, a guierra do Vietnam, hippies, drogas, contra-cultura, escândalos e a Guerra Fria, serviram como contexto para o livro que, basicamente, é uma história de um detetive em um futuro sombrio.

Dick era leitor de Dashiell Hammet (um mestre do romance detetivesco) e admirava seu estilo econômico.

Embora não seja possível comparar O Caçador de Andróides com O Falcão Maltês (The Maltese Falcon) de Hammet, pois as tramas são diferentes, trata-se do mesmo mundo. Pessoas desaparecidas, um parceiro que é baleado, uma femme fatale, problemas com os policiais locais e um universo de cinismo onde não há esperança para ninguém.

Talvez não seja uma coincidência que, ao ser adaptado para o cinema (Blade Runner, dirigido por Ridley Scott, lançado em 1982 e estrelado por Harrison Ford), as câmeras estavam no mesmo lugar onde quarenta anos antes, foi filmado O Falcão Maltês (No Brasil se chamou Relíquia Macabra, dirigido por John Huston e estrelado por Humphrey Bogart). Ambos os livros se passam nas ruas de San Francisco, ambos os filmes tiveram suas cenas de rua filmadas em New York, nos estúdios da Warner Brothers em Burbank.

O filme Blade Runner (que transcorre no ano de 2019) limita-se a dois aspectos do livro: visões da megalópole do amanhã, com seus edifícios de 400 andares e a perseguição implacável de um caçador profissional a um pequeno grupo de andróides evadidos, "produtos" quase perfeitos, super-homens e super-mulheres que aspiram a um pouco mais de vida (foram programados para morrer em 4 anos).

Já o livro O Caçador de Andróides se passa em 1992 (em edições recentes o ano foi mudado para 2021).

No livro, o governo encoraja a população a emigrar para colônias fora-da-Terra, visando preservar a raça humana dos efeitos nocivos da poeira radioativa (conseqüência da guerra nuclear 'World War Terminus').

A população que permanece no planeta vive enclausurada em cidades decadentes e vazias, envenenada pela radiação que danifica seus genes. A maioria dos animais foi extinta e possuir um deles é uma prova distinta da empatia humana, mas principalmente é um símbolo de status. Quanto mais raro o animal, maior o status do proprietário. Pessoas que não podem pagar por um animal de verdade compram animais sintéticos.

Em uma San Francisco pós-apocalíptica, o caçador de recompensas Rick Deckard (que possuía uma ovelha real que morreu de tétano), tenta enganar a todos, inclusive a si mesmo, de que sua nova ovelha elétrica é igual a uma de verdade, enquanto realiza um trabalho que odeia, e lida com sua esposa viciada em estímulos artificiais.

Quando Deckard aceita perseguir e matar os seis andróides Nexus-6 que fugiram de controle, por uma boa recompensa, o que ele mais sonha é com o dinheiro, poder adquirir um animal de verdade.

Ao fim, Deckard chega à conclusão de que ao resolver o caso ele não terá a felicidade esperada, mas apenas uma enorme crise existencial.

Semelhante ao que ocorre com Sam Spade em O Falcão Maltês, não há uma solução satisfatória.

Poucos escritores de ficção científica são, como Philip K. Dick, admirados e elogiados por seus próprios colegas. Poucos atingem um público tão diversificado. Como disse John Brunner: "Ele é o mais invariavelmente brilhante escritor de ficção científica do mundo".

Infelizmente (ao contrário de Hammett) Dick não viveu o bastante para saborear o prestígio que a crítica hoje lhe atribui. Seus últimos anos de vida foram dedicados a uma excêntrica investigação sobre a verdadeira natureza de Deus e do Cosmos.

Dois anos antes de morrer por conta de um acidente vascular cerebral, ele escreveu em seu diário que estava próximo de descobrir os segredos do Universo.
 

(Trechos do prólogo da edição brasileira e de ‘A Metaphysical Detective Story’ de Adrian Mckinty)


(Em Portugal o livro chamou-se "Perigo Iminente". No Brasil primeiramente foi publicado como "Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?", e mais tarde reeditado com o título "Blade Runner: O Caçador de Andróides" e, posteriormente "O Caçador de Andróides".)







O Caçador de Andróides
Philip K. Dick











E AINDA SONHO QUE ELE PISA O RELVADO, ANDANDO, FANTASMAGÓRICO, PELO ORVALHO, PELO MEU CANTO ALEGRE INTEIRAMENTE PERFURADO.
YEATS

 




UMA TARTARUGA QUE O EXPLORADOR CAPITÃO COOK, DEU AO REI DE TONGA EM 1777 MORREU ONTEM. TINHA QUASE 200 ANOS DE IDADE.
O ANIMAL, CHAMADO TU'LMALILA, MORREU EM TERRENOS DO PALÁCIO REAL, EM NUKU, ILHA DE ALOFA, CAPITAL DE TONGA.
O POVO DE TONGA CONSIDERAVA O ANIMAL COMO UM CHEFE, E TRATADORES ESPECIAIS FORAM NOMEADOS PARA CUIDAR DELE. FICARA CEGO NUM INCÊNDIO DE MATA, HÁ ALGUNS ANOS.
A RÁDIO DE TONGA INFORMOU QUE A CARCAÇA DE TU'IMALILA SERIA ENVIADA PARA O MUSEU DE AUCKLAND, NA NOVA ZELÂNDIA.







UMA PEQUENA e alegre descarga elétrica, transmitida pelo alarme automático do órgão de condicionamento mental, instalado ao lado da cama, acordou Rick Deckard. Surpreso — sempre se surpreendia quando descobria que fora acordado sem aviso prévio — levantou-se, estendeu o corpo todo dentro do pijama multicolorido, e espreguiçou-se. Na cama ao lado, a esposa, Iran, abriu os olhos cinzentos, sérios, pestanejou, gemeu e fechou-os outra vez.
— Você ligou seu Penfield em nível fraco demais — disse ele à mulher. — Vou religá-lo, você vai despertar inteiramente e...
— Não toque em meu aparelho. — Havia seca amargura em sua voz. — Eu não quero acordar.
Rick sentou-se ao lado da esposa, inclinou-se sobre ela e explicou em voz suave:
— Se você liga a descarga em nível suficientemente alto, fica satisfeita quando acorda. Esse é todo o princípio por trás do funcionamento desse aparelho. Na marca C, ele vence o bloqueio do patamar da consciência, como faz comigo.

Carinhosamente, porque se sentia bem-disposto para com o mundo, ligara o aparelho em D, acariciou-lhe o pálido ombro nu.
— Tire de cima de mim essas grosseiras mãos de "tira" — disse Iran.
— Eu não sou um tira. — Nesse momento sentiu-se irritado, embora não houvesse discado para essa emoção.
— Você é pior do que isso — respondeu a esposa, os olhos ainda fechados. — É um assassino, contratado pelos tiras.
— Eu nunca matei um ser humano em toda minha vida. — Aumentara sua irritabilidade e se transformara em franca hostilidade.
— Apenas aqueles pobres andros — disse Iran.
— Mas você nunca hesitou, nem por um único minuto, em gastar o dinheiro de prêmio que eu trago para casa, no que quer que logo lhe atraia a atenção. — Levantou-se e foi até seu órgão de condicionamento mental. — Em vez de economizar — continuou — para comprarmos uma ovelha autêntica e substituir aquela, falsa que nós temos lá em cima. Um mero animal elétrico, e eu, ganhando todo esse dinheiro, pelo qual trabalhei e subi na vida estes anos todos.

Ao consolo do órgão, hesitou entre discar por um supressor talâmico (o que aboliria sua disposição irritadiça) ou um estimulante (o que o tornaria aborrecido o suficiente para ganhar a discussão).
— Se discar para maior malignidade — disse Iran, abrindo os olhos e observando-o — farei o mesmo. Discarei o máximo e você vai ter uma briga que fará todas as discussões que tivemos até agora parecerem brincadeiras de crianças. Disque só, e veja. — Saltou rápida da cama para o consolo de seu próprio órgão e olhou-o zangada, à espera.

Ele suspirou, derrotado pela ameaça.
— Vou discar o que há na minha programação de hoje. — Examinando a agenda do dia 3 de janeiro de 1992, observou que era aconselhável uma atitude profissional, prática. — Se eu discar de acordo com a agenda, você fará o mesmo? — perguntou, cauteloso. Esperou, sabido o bastante para não se comprometer até que a esposa concordasse em agir do mesmo modo.
— Minha agenda de hoje lista um período de depressão auto-acusatória de seis horas — disse Iran.
— O quê? Por que foi que você programou isso? — Uma programação dessa era o contrário do órgão de condicionamento mental. — Eu nem mesmo sabia que se podia ajustá-lo para isso — disse sombrio.
— Uma destas tardes eu estava sentada aqui — disse Iran — e, naturalmente, liguei para Buster Amigão e Seus Amicíssimos Amigos, ele estava falando sobre uma notícia que ia dar logo em seguida e, depois, apareceu aquele horrível comercial, aquele que eu odeio, você sabe, do Protetor Genital de Chumbo Mountibank. Assim, durante um minuto, desliguei o som. E ouvi o edifício, este edifício. Ouvi os... — Fez um gesto vago com a mão.
— Os apartamentos vazios — disse Rick.

Às vezes, ele ouvia-os, também, à noite, quando devia estar dormindo. Ainda assim, para este dia e idade, um prédio de apartamentos ocupado pela metade classificava-se alto no esquema da densidade demográfica.

Lá fora, onde antes da guerra se estendiam os subúrbios, podiam-se encontrar prédios inteiramente vazios... ou pelo menos fora isto o que ouvira dizer. Deixara que essa informação permanecesse num segundo plano; como a maioria das pessoas, não queria verificá-la diretamente.
— Naquele momento — continuou Iran —, quando desliguei o som da TV, eu estava num estado de espírito 382. Acabava justamente de discar isso. De modo que, embora intelectualmente eu ouvisse o vazio, não o sentia. Minha primeira reação foi de agradecimento, porque a gente podia comprar um órgão condicionador Penfield. Mas, depois, compreendi como isso era doentio, sentir a ausência de vida, não só neste prédio, mas em toda parte, e não reagir, compreende? Acho que não. Mas isso era, antes, considerado como sintoma de doença mental Chamavam a isso de "ausência do afeto apropriado". Assim, deixei desligado o som da TV, sentei-me ao meu órgão e fiz uns experimentos. Finalmente, descobri uma combinação para desespero. — Seu rosto moreno, animado, mostrou satisfação, como se ela houvesse realizado alguma coisa de valor. — De modo que coloquei isso em minha programação duas vezes por mês. Acho que é um período razoável de tempo para a gente se sentir impotente a respeito de tudo, de ficar aqui na Terra, depois que toda a gente sabida emigrou. O que é que você acha?
— Mas num estado de espírito desses — disse Rick — a tendência é permanecer nele, não discar para sair. Um desespero como esse, sobre a realidade total, é auto-perpetuante.
— Eu programo uma rediscagem automática para três horas depois — disse astuciosamente a esposa. — Uma 481. Percepção das múltiplas possibilidades que estarão abertas para mim no futuro. Nova esperança de que...
— Eu conheço o 481 — interrompeu ele. Discara muitas vezes essa combinação e confiava um bocado nela.
— Escute aqui — continuou, sentando-se em sua própria cama e segurando as mãos da esposa para puxá-la para junto de si —, mesmo com um desligamento automático, é perigoso suportar uma depressão, de qualquer tipo. Esqueça o que você programou e eu farei o mesmo. Discaremos um 104 e nós dois o experimentaremos juntos. Depois, você fica nele enquanto eu remarco o meu para minha habitual atitude prática. Nesse estado, dou um pulo até o telhado para ver como anda a ovelha e, em seguida, vou para o escritório. Enquanto isso, tenho certeza de que você não fica aqui, macambúzia, sem TV.
Soltou-lhe os esguios e longos dedos, e cruzou o espaçoso apartamento até a sala de estar, onde pairava ainda o leve cheiro dos cigarros da noite anterior. Curvou-se para ligar a TV.

Do quarto, veio a voz de Iran:
— Eu não suporto TV antes do café da manhã.
— Disque 888 — aconselhou Rick, enquanto o aparelho esquentava. — O desejo de assistir à TV, qualquer que seja o programa.
— Não estou com vontade de discar absolutamente coisa alguma neste momento — respondeu Iran.
— Então, disque 3 — sugeriu ele.
— Não posso discar uma combinação que estimula meu córtex cerebral a querer discar! Se não quero discar, ainda menos quero discar isso, porque, neste caso, vou querer discar, e querer discar é, neste momento, o impulso mais estranho que posso imaginar. — A voz dela se tornara seca, com conotações de desolação, enquanto sua alma congelava; deixava de mover-se quando o grande, instintivo, onipotente véu de um grande peso, de uma inércia quase absoluta, depositou-se sobre ela.

Rick aumentou o som da TV e a voz de Buster Amigão trovejou e encheu a sala:
"Ei, vocês aí, pessoal. Hora de uma curta notícia sobre o tempo atmosférico hoje. O satélite Mangusto informa que a precipitação será especialmente forte por volta do meio-dia e que, em seguida, desaparecerá, de modo que vocês, caras, que vão sair de casa hoje...

Aparecendo ao lado dele, sua longa camisola arrastando-se pelo chão como um fogo-fátuo, Iran desligou o aparelho de TV.
— Muito bem, desisto. Vou discar. Tudo o que você quiser que eu faça, felicidade sexual extática... Eu me sinto tão mal que suporto mesmo isso. Droga. Que diferença isso faz?
— Eu disco para nós dois — ofereceu-se Rick e levou-a para o quarto. Ao consolo da esposa, discou 594, o satisfeito reconhecimento da sabedoria superior do marido em todas as coisas. No seu próprio consolo, discou uma atitude criativa e revigorante em relação ao seu próprio trabalho, embora mal precisasse disso, tal era seu enfoque habitual, inato, sem precisar recorrer ao estímulo cerebral artificial do aparelho Penfield.





O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 1) [ Download ]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

The Clockwork Heart


For long years, the mechanus worked in perfect harmony with one another.


The Divine Forge decreed and its creations obeyed. But over time, the Divine Forge no longer spoke to the greater throng of mechanus, and chose more and more to give its counsel to a clerical order.


This order took the old mechanus name: the Disciples of the Divine Forge.


Many of these mechanus remained in direct communion with the will of the Divine Forge, passing their insight to their brethren via edicts and commandments of holy law.


This was the new way, and as before there were no questions.


Mechanopolis grew. The numbers of mechanus swelled, and for the first time there was division among them. Disagreement turned to conflict, and conflict into violence.

For the first time in their existence, the mechanus fought against each other.
Open warfare broke out in the streets of Mechanopolis and beyond.

Before long there was utter chaos.






The Clockwork Heart - RPG [ Download ]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Fangoria - Monsters, Aliens, Bizarre Creatures













Fangoria - Monsters, Aliens, Bizarre Creatures num.5 [ Download ]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Reading by Starlight - Postmodern Science Fiction



Science fiction’s impact on popular culture has been striking. Yet sf’s imaginative texts often baffle or dismay readers trained to enjoy only the literary or ‘canonical’.

Reading by Starlight explores those characteristics in the writing, marketing and reception of science fiction which distinguish it as a mode. Damien Broderick analyses the postmodern self-referentiality of science fiction narrative, its intricate coded language and discursive ‘encyclopaedia’. He shows how, for rich understanding, sf readers must learn the codes and vernacular of these imaginary worlds, while absorbing the ‘lived-in futures’ generated by the overlapping intertexts of many sf writers.

Reading by Starlight includes close readings of cyberpunk and other postmodern texts, and writings by such sf novelists and theorists as Brian Aldiss, Isaac Asimov, Christine Brooke-Rose, Arthur C.Clarke, Samuel R.Delany, William Gibson, Fredric Jameson, Kim Stanley Robinson, Vivian Sobchack, Darko Suvin,
Michael Swanwick, Tzvetan Todorov and John Varley.



CONTENTS
Acknowledgements
Introduction 

Part I Modern science fiction
1 NEW WORLD, NEW TEXTS
The lineage of sf 
Definitions
A mythology of tomorrow 
Running the universe 
The catlike mrem 
At play in the fields of the word 
Sf after 19? 
Changing paradigms 

2 GENERIC ENGINEERING 
Out of the pulps 
Science fiction’s formulae
How much change?
Uncanny and marvellous
Diagramming the fantastic
Cognitive and estranged
New words, new sentences

3 GENRE OR MODE?
Genre regarded as a game of tennis
The persuasions of rhetoric
A trans-historical temptation
Drawing from life
A literature of metaphor

4 THE USES OF OTHERNESS
Really strange bedfellows
Pretending to shock
Sf and subversion
Feminist futures
Metaphor and metonymy
The mega-text
Icon and mega-text
The absent signified

5 READING THE EPISTEME
Delany’s critical path
Subjunctivity and mega-text
Learning to read sf
Sf as paraliterary
Critiquing the object

6 DREAMS OF REASON AND UNREASON
out of the kindergarten
Familiarising the estranged
Monstrous dreams
Cyberpunk
Value-added trash
Beyond satire

7 THE STARS MY DISSERTATION
Learning the tropes
Time’s arrow, time’s cycle
Flaws in the pattern
The hazard of didacticism
A fatal innocence
Deep identity
Part II Postmodern science fiction

8 MAKING UP WORLDS
What is the postmodern?
Mapping utopia
Jameson’s postmodern and sf
Screen test
A new dominant

9 ALLOGRAPHY AND ALLEGORY
Sf as allegory of reading
Difference
Remaking myth
Myth re-complicated
The music of words
The interpretative context

10 SF AS A MODULAR CALCULUS
A mirror for observers
Black box and finagle factor
The rudder of language
Writing in phase space
Conceptual breakthrough

11 THE MULTIPLICITY OF WORLDS, OF OTHERS
Art as play, art as revelation
Assailing dogma
The postmodern intersection
Worlds out of words
Norman Rockwell on Mars
Self-reference
The antinomies of spacetime

12 THE AUTUMNAL CITY
The object of science fiction
A definition of sf
Sf and the renovated novel
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terça-feira, 30 de março de 2010

Os Mortos Vivos - Peter Straub


Numa pacata cidade americana, fenômenos estranhos começam a acontecer, seguidos de mortes violentas e inexplicáveis.

Inconformados com uma situação apenas concebível à luz de fenômenos sobrenaturais, um grupo de homens parte em busca da solução do mistério, enfrentando o desespero, o pânico e o horror.

A crítica considerou “Os mortos-vivos” uma narrativa incomparavelmente moderna no gênero sobrenatural. E a grande aceitação do público também ajudou a consagrar Peter Straub como um dos mais bem-sucedidos escritores americanos do momento.

O romance é claramente um produto da mente complexa e do espírito angustiado do homem  contemporâneo, livre de seus antigos deuses, mas não de seus antigos medos e tabus.



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segunda-feira, 29 de março de 2010

Analog


São raras as vezes em que temos a oportunidade de divulgar um filme BRASILEIRO de ficção científica, fantasia, fantástico ou terror, aqui no Capacitor Fantástico.

O artista gráfico e ilustrador Ebbeto nos alegra com o lançamento de seu segundo curta ANALOG.

Imagens impressionantes, evidenciando o óbvio: a força de grandes ideías, a despeito do orçamento curto.



ANALOG trailer from Ebbëto on Vimeo.



Formado em Ilustração e Comunicação pela Académie Royale des Beaux-Arts da Bélgica e em Artes Plásticas pela FAAP de São Paulo, Ebbeto trabalhou em publicidade como Diretor de Arte e, após passar por algumas agências, decidiu trabalhar freelance como Ilustrador, Storyboards Artist e Video-Maker.
Email de contato: contato@ebbeto.com.br

Nano Trek



Nano Space - A Fronteira Final.

A espaçonave Enterprise NCC-1701D de Jornada nas Estrelas (Star Trek) foi fabricada pelo Himeji Institute of Technology, medindo 8.8 micrômetros (micrometro = milésima parte de um centímetro).

domingo, 28 de março de 2010

Entrevista com China Miéville


Seu primeiro romance, KING RAT, era uma aterrorizante história de fadas.

Em PERDIDO STREET STATION, Miéville criou 'New Crobuzon', uma metrópole corrupta habitada por insetos humanóides, cactos andantes, grotescos 'Renascidos' pela bioengenharia, e máquinas conscientes e 'vivas’, assim como um monte de tipos comuns, assediadas por criaturas que sugam espíritos, saídas de um experimento fracassado.

A fantasia de Miéville é permeada por um realismo que rejeita finais felizes. 


Pergunta:: Parabéns pelo Prêmio Arthur C.Clarke por 'Perdido Street Station'. Não parece irônico ou incongruente que um romance de fantasia baseado em um cenário 'steampunk' tenha recebido um prêmio tão importante, que recebe o nome de um escritor de Ficção Científica Hard, de satélites e naves espaciais, em que a sensibilidade para a prosa não é, digamos, sublime.

Miéville: Obrigado - ainda estou um pouco estupefato. Existe uma ironia sim, mas não é tão incomum este prêmio ir para alguém que faz uma FC tão pouco 'Clarkeniana'. O próprio Clarke é um sujeito muito generoso a respeito do que se trata o prêmio, e a quem deve ser dado.

Além de estar pessoalmente extasiado, me sinto contente, porque eu sempre senti que era impossível separar a Ficção Científica da Fantasia - certamente eu devo ter conscientemente estado em um e em outro, e eu esperava que o prêmio indo para um romance não tão de FC, deveria encorajar uma abertura conceitual da tradição. Sempre gostei de dizer que escrevo uma 'ficção esquisita', porque me sinto na interseção da Ficção Científica, Fantasia e até do horror, o que claramente, torna as fronteiras nebulosas. Quer dizer, é fácil dizer que Larry Niven é FC e Tolkien é fantasia, mas e David Lindsay? Lovecraft? Clark Ashton Smith?


P: A 'ciência' que aparece em seus romances, dependem de mecanismos da era-vitoriana. A teoria da grande crise soa igual à especulação quântica e a inteligência artificial sempre foi uma obsessão da FC. Tem sempre um cientista maluco e que é responsável por forças desastrosas, resultado direto de sua arrogância e da irracional manipulação cientifica, sem ligar para as conseqüências. O que da FC de antigamente se tornou um fato hoje, como a biotecnologia e as máquinas pensantes que aparecem em seu trabalho?

M: Em geral não penso que se possa ver a FC como profecia cientifica, sociológica ou outra coisa desse tipo. Não acho que FC trate disso. É obvio que muitos cientistas se inspiraram em historias de FC que leram quando jovens e não posso dizer que não seja uma influência.

Sou totalmente pró-ciência. Acho muito interessante. Tento evitar a tradicional tropa de escritores 'metidos a cientistas'. Não é a atividade cientifica por si só que nos causa problemas, como o doutor Frankenstein. Mary Shelley, refutava em ter a responsabilidade dos frutos de sua pesquisa - em meus livros, é algo mais como uma má sorte danada!

O problema não é a ciência, mas onde ela nos leva. Biotecnologia é um bom exemplo. Não tenho nenhum problema, em termos abstratos com a modificação genética dos alimentos. Porém, acho problemático quando ela caminha para beneficiar os exploradores.

Além disso, muita coisa é lançada no mercado sem os devidos testes - sem termos uma ideia real dos efeitos a longo prazo. Além disso, algumas pesquisas são socialmente inadequadas e inúteis, como fazer plantas que só respondam a um único tipo de fertilizante.

Muita coisa vai surgir nos próximos anos e isso é excitante. Particularmente estas coisas mais grotescas são as que mais falam à minha natureza macabra. Ratos com genes de águas-vivas e que brilham verdes, é demais!


P: Eu fico tentado em traçar um paralelo do seu nome 'Miéville' com 'Melville'. O protagonista de 'Perdido' se chama Isaac, que na bíblia é filho de Abraão e irmão de Ismael, o herói em 'Moby Dick', de Melville. Ambos os livros falam sobre um maníaco se vingando de uma besta diabólica, e durante isto, surgem detalhes horrorosos sobre o ser humano cheio de dúvidas sobre a intenção divina. Você, como um inglês, tirou alguma inspiração do grande clássico americano? E qual a significância que você deu ao nome Isaac Dan der Grimnebulin? 

M: Certamente que 'Moby Dick' é uma inspiração. Deve fazer parte da maioria do que escrevi, de uma maneira ou de outra, desde que eu li este livro dez anos atrás. É um livro absurdo! Eu não pretendi construir nenhum paralelo com ele, conscientemente, mas não quer dizer que não esteja lá! Não acho que devemos nos ater na intenção do autor sendo a única fonte de temas em um livro. Muitos escritores aprendem muito sobre seus trabalhos a partir de resenhas inteligentes.

Eu escolhi o nome Isaac por que eu queria que soasse familiar, mais sonoro do que a maioria dos personagens de um monte de épicos de fantasia. Mas eu queria algo sugestivo, quase como uma paródia de alguns nomes nos livros de Dickens ou em Mervyn Peake.


P: Tomas Disch em seu “The dreams our stuff is made of”', declara que Edgar Allan Poe foi o avô do gênero cientifico em parte por seu estilo pouco refinado para a época. Ele não pretende provocar risos, nem mesmo um sorriso. Ele busca aquela sensação de 'Isto não pode estar acontecendo'! Existe um pouco disso nos seus trabalhos, de forma planejada. Em um artista menor, o uso deste estilo seria meramente um truque barato. O que você pretende?

M: Particularmente acho que existe uma reação contrária ao popular, a fantasia pós-Tolkien. Sei que é uma generalização, mas a coisa me parece muito dirigida para um tipo 'limpinho' de vida feudal, sem sujeira, sem sangue, fezes ou urina. A literatura de fantasia não devia tentar expulsar aquilo que é real, mesmo sendo sujo ou feio.


P: Os críticos sempre lamentam que a maior parte da literatura de Fantasia está ligada aos milhares de épicos sem fim, de personagens medievais mágicos batalhando contra as forças do mal. Em 'Perdido' não se encontra nenhum elfo, bruxo ou uma espada mágica. Foi consciente a sua intenção de construir um mundo distinto dos clichês do gênero ou você apenas seguiu sua própria inspiração?

M: Ambos. Meu gosto para ficção sempre pende para o macabro, o surreal, onírico, e nunca eu me senti bem dentro do universo de Tolkien, ou da maioria dos escritores após Tolkien. E sim, foi uma coisa deliberada minha tentar subverter algumas das características assumidas pelo gênero de fantasia, precisamente por que eu amo este tipo de trabalho subversivo.

Eu não uso de estereótipos, que na fantasia definem os personagens por sua raça; anões são brigões e pouco inteligentes, elfos são espertos. trolls são malvados. tentei brincar com as idéias desta essência racial em 'Perdido' - no meu mundo, os personagens são retratados como as pessoas são no mundo real, mas não de um modo muito apurado. Isto é racismo. Quanta fantasia escrita hoje não abusa destes estereótipos raciais em mundos imaginários?

Outra coisa que eu quis fazer foi um livro de fantasia que não era baseado em uma terra-do-nunca feudal, mas com relações sociais comuns a indústria e ao capitalismo. E isso é uma resposta aos clichês habituais do gênero.

Um dos problemas do gênero mais tradicional, é que se tornou por demais confortável. É preciso retirar o leitor de certas convenções.

Tolkien falava sobre 'ficção consoladora', uma ideia que eu realmente detesto! Acho que a estética do fantástico é boa para subverter expectativas, levando o mundo para o caminho errado, problematizando, alienando o leitor. Olhe para o surrealismo, certamente o que existe de mais fantástico nas artes. Praticar este tipo de fantasia 'consoladora' é trair isso - não é nem de perto fantasia de verdade.


P: Gabriel Chouinard descreveu seu trabalho como sendo a Next Wave (Próxima Onda) da Fantasia -  brincando com a New Wave (Nova Onda) da Ficção Científica nos anos 60, que se distinguia do formato literário da FC anterior - trazendo autores como você, M. John Harrison, Matthew Stover, Jeff VanderMeer, Mary Gentle entre outros, e é lógico, Michael Moorcock, que tem os pés plantados nos dois movimentos. Mas será justo dizer que existe algum tipo de movimento de verdade? Vocês trocam correspondência, desenvolvendo algum manifesto anti-Tolkien? Ou será que é apenas outro rótulo inventado que colocaram em você, e no qual você nunca pensou a respeito?

M: É, alguns de nós certamente trocam correios, discutindo ideias e falando sobre a fantasia tradicional. mas não existe um movimento formal. Quantos movimentos literários formais existem? Com algumas exceções (surrealismo e talvez outros) a maioria destes movimentos são rótulos apenas. Isto não significa que seja uma perda de tempo se falar sobre movimentos.Eles existem apesar de não serem especificamente um projeto em comum. O ponto não é onde nós todos concordamos com algo, mas que exista um grupo de escritores cujo trabalho se nutre de certos aspectos estéticos interessantes (mesmo que na prática o resultado final os diferencie).

Eu nunca alteraria algo que eu escrevi depois de pensar no meu lugar como membro de um grupo, e eu imagino que ninguém o faça também, mas o ponto principal é que a temática que nos conecta seja traçada entre autores que estão escrevendo aquilo que desejam.Sem ter uma ligação formal.

Por exemplo, eu li 'Iron Dragon' de Michael Swanwick depois de ter escrito 'Perdido Street Station' e é um livro fabuloso, e em alguns de seus temas, há uma conexão com o que eu escrevo.Seria totalmente razoável, depois de ler os dois, que alguém imaginasse que fui influenciado pelo livro de Michael. Não é bastante que eu diga que não o havia lido antes de escrever 'Perdido' e que portanto não há nenhuma ligação. O legal é que tem muita coisa acontecendo no mundo, e no mundo da literatura fantástica, e que faz dois autores escreverem de modo similares.


P: Você está estudando para seu PHD pela London School of Economics. Primeiro, como um estudante de graduação arranja tempo para escrever romances? E uma vez que receba o titulo, você pretende trabalhar na área econômica? Ou será que isso é apenas um capricho intelectual?

Miéville:  Meu PHD não é em economia, a LSE é uma universidade de ciências sociais. Eu lido com filosofia das leis internacionais. Mas o tempo é um problema. Tudo que posso dizer é que procuro dividir meu tempo rigidamente. Escrevo bastante nas horas de folga, consigo ser muito auto-disciplinado. Devo concluir meu estudo em Setembro, e espero que depois fique mais confortável.

Espero poder escrever FC em tempo integral, como uma forma de vida. mas vou continuar trabalhando na academia onde trabalho no corpo editorial do jornal da academia, espero assim continuar publicando ensaios não-ficção e livros, conforme eu encontre tempo.


P: Você parece gostar das cidades, lugares perigosos repletos de segregação racial, etc. Tem algo nelas que te atraem?

Miéville: Vivo em Londres e ela é uma grande influência no que eu escrevo. Amo arranha-céus, por que sou cínico o bastante para reconhecer o poder da dinâmica que rola nas cidades, mas não significa que eu não as ame. Londres, Nova Iorque, Cairo, são fontes de inspiração e são fascinantes. Tudo nelas é intenso, a pressão nas relações sociais, a criatividade, a arquitetura, tudo é mais excitante nas cidades, da política as artes, no ambiente físico. Sou um escritor urbano, na tradição de escritores urbanos londrinos como Thomas de Quincey, Neil Gaiman, Michael Moorcock, Iain Sinclair e outros.


Trechos de entrevista concedida a David Soyka.

China Miéville


China Tom Miéville (6 de setembro de 1972) nasceu em Norwich (Inglaterra) e cresceu no noroeste de Londres, onde vive hoje.

Trabalhou como professor de inglês no Egito, onde desenvolveu um gosto pela cultura árabe e pelo Oriente Médio. De volta para a Inglaterra, estudou Antropologia Social em Cambridge e posteriormente obteve o PHD com distinção, em Relações internacionais. 

Ele gosta de descrever seu trabalho como "weird fiction" (mistura pulp do século 20 e o horror de HP Lovecraft), e pertence a um grupo de escritores que conscientemente, tenta levar a fantasia para longe de posições comerciais do gênero e dos clichés de Tolkien.

Ele é membro do British Socialist Workers Party, uma organização de corrente Trotskyist, e concorreu a uma vaga para a Câmara dos Comuns britânica na eleição geral de 2001 como candidato da Aliança Socialista, obtendo 459 votos. Sua opção política de esquerda se mostra na sua escrita (particularmente evidentes em Iron Council), bem como suas teorias sobre a literatura (declarou que "O Senhor dos Anéis" possui um carater reacionário).

China é capaz, com imaginação, de avançar de forma original e única, dentro de gêneros estabelecidos, como a fantasia (Perdido Street Station), o romance infantil (Un Lun Dun), a aventura clássica (The Scar), a história de detetives (The City), sem abdicar dos cenários fantásticos ou do sobrenatural.

São inúmeras as premiações concedidas a este incrível escritor, como o prêmio Arthur Charles Clarke e o British Fantasy Award por Perdido Street Station, O Locus e o Britsh Fantasy Award por The Scar, novamente outro Arthur Charles Clarke e outro Locus por Iron Council, além de outras tantas indicações para os prêmios Hugo e o Nebula.

China Miéville (Details, Iron Council, King Rat, Looking for Jake, Perdido Street Station, The Scar, The Tain, The City & The City, Un Lun Dun) [ Download ]

sábado, 27 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow



Chegamos ao fim de uma experiência nova e gratificante para nós, e gostaríamos de agradecer as pessoas que tornaram possível que ela ocorresse.

Queremos agradecer principalmente ao autor, Cory Doctorow.

O Capacitor Fantástico agradece também ao Will, CHeta e Blek, este último em especial, que teve a ideia e bancou tudo sozinho, por acreditar nas ideias disseminadas por Cory e por outras pessoas, e que foi tão prestativo. Obrigado camaradas !

Little Brother (Pequeno Irmão) está disponível na integra, em português, para ser lido. Se você gostou, recomende a leitura aos seus amigos!

Esperamos que em breve, possamos ter livros semelhantes, disponíveis para todos, na rede ou nas prateleiras.

Pequeno Irmão - Cory Doctorow [ Download ]