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domingo, 11 de abril de 2010
A fantástica vida e o trabalho como oráculo de Philip K. Dick
Muitos anos após sua mudança para um cemitério no Colorado, Philip K. Dick é um dos mais reverenciados escritores americanos.
Novos romances chegam regularmente do túmulo, além dos filmes baseados em sua obra, invadirem os cinemas.
Um viajante da ficção científica, boêmio ardente e incansável observador da vida suburbana, Dick nunca descobriu um lugar para si, enquanto viveu. Foi julgado como um lunático e aclamado como um “visionário entre os charlatães", e como a maioria dos videntes, tinha muita dificuldade em encontrar uma editora.
Somente sua obra publicada poderia encher hoje, uma pequena livraria.
Entrar em um livro de Philip K. Dick é entrar em uma zona de mundos que desaparecem diante dos olhos, alucinações e loops do tempo. Um domínio habitado por gente egoísta, solitária, empresários e donas de casa infelizes, vivendo paradoxos ameaçadores. Embora os livros variem, sua inspiração é sempre a mesma: são regidos por uma apreensão apaixonada pela realidade.
Poucos escritores foram tão desconfiados quanto ao mundo fenomenal quanto ele.
Os personagens de Dick são levados o tempo todo a duvidar de seu ambiente.
Embora ele ainda seja rotulado como um escritor de ficção científica, Dick tinha pouco respeito pela ciência, e ainda menos para a dignidade da ficção, que deve ser dito que, neste aspecto, ele contribuiu muito pouco.
Seu interesse em ciências exatas e aplicada era mínimo.
Não eram meramente fictícios os aspectos bizarros do trabalho de Dick.
Como um escritor experimental dos anos 1950 e nos anos 60, Dick pertencia ao seleto grupo de autores como William Burroughs, JG Ballard e Thomas Pynchon.
Dick era um homem forte, com um sorriso ausente e uma olhar instigante, digitava 120 palavras por minuto (mesmo quando não estava inspirado), bebia quantidades prodigiosas de scotch e sobreviveu a cinco casamentos e mais de cinqüenta namoradas, antes dos comprimidos e da bebida conspirarem para sua morte aos 54 anos.
Nascido em 1928, ele testemunhou a Grande Depressão de dentro de um lar desfeito. Seu pai, um funcionário do Ministério da Agricultura, deixou a família em 1931, e Dick cresceu com sua mãe à margem da boemia jovem de Berkeley, Califórnia.
Um ‘aluno perturbado’, foi assim registrado na sua ficha escolar; ‘hipocondríaco’ segundo sua segunda esposa.
Como muitos meninos da época, tornou-se um leitor voraz de revistas populares (pulp) de ficção científica que estava então em seu auge.
Em ‘Confissões de um Artista Ruim’, escrito em 1959, ironicamente se retratou como um garoto desajeitado jorrando idéias excêntricas, retiradas de revistas pseudo científicas.
Dick evidentemente tinha poucos amigos, até que começou a trabalhar numa loja de discos em Berkeley, onde adquiriu um conhecimento enciclopédico de música clássica e a amizade de clientes e colegas. Casou-se e separou-se rapidamente.
Em 1947, Dick mudou para uma pensão em Berkeley, vivendo por um curto período de tempo com o poeta Robert Duncan. Depois de um período infeliz, casou-se novamente em 1949 e iniciou sua carreira literária, publicando histórias de ficção científica.
Dick entrou no mercado no momento em que o gênero estava de ‘vento em popa’.
As revistas de celulose de grande formato dos anos 30, depois da guerra entraram em declínio e foram substituídas por uma enxurrada de livros de bolso baratos, onde a ficção científica abraçou o opúsculo duplo, publicado pela Ace Books. Dois contos juntos, com uma ilustração da capa escabrosa de cada lado.
Ao longo dos anos 50, Dick trabalhou em estreita colaboração com o editor Don Wollheim. Digitava da hora que acordava até a hora de dormir, e se transformou em um escritor prolífico e tipicamente desigual do gênero. Dick foi bem sucedido nisso: seu romance ‘Solar Lottery’, publicado em 1955, vendeu 300.000 cópias, e ele se tornou um dos primeiros clientes do poderoso agente Scott Meredith.
Ainda assim, não era a vida de um escritor consagrado; royalties eram escassos e os manuscritos eram alterados à vontade do editor, visando garantir a quantidade adequada de ‘guerras extraterrestres’ e ‘engenhocas mirabolantes’.
As frustrações de Dick com a ficção científica cresceram e tornou-se evidente o seu descontentamento. Ao longo de sua carreira Dick ansiava por um público mais amplo e tentou escapar do gueto da ficção científica. Invejava escritores como Ursula K. Le Guin, que adquiriu uma reputação séria e era publicada no The New Yorker. Seus leitores, queixou-se Dick, eram “trolls e malucos."
Nos anos 50 e início dos anos 60, escreveu uma série de contos, todos rejeitados pelos editores da época. Estes eram principalmente contos sombrios de amor frustrado. Rejeitado pelo "mainstream" Dick abandonou seus escritos realistas em 1963.
Foi a partir daí que ele descobriu uma fórmula diferente daquela da Ace: ele transformaria o gênero da ficção científica a partir de dentro, ignorando as expectativas de seus editores.
Em particular, Dick violou as convenções da honrada FC Hard, de que a ficção científica deveria ser rigorosamente "extrapolativa" da ciência exata, e que deveria ser "profética", tratando de futuros plausíveis.
Até o final dos anos 50, estas convenções tiveram uma história longa e venerável.
Quando Hugo Gernsback lançou sua revista Amazing Stories em 1926, iniciando a ficção científica moderna, ele contratou o genro de Thomas Edison como consultor. Em seu auge, a revista Astounding insistiu numa estranha cláusula, que os escritores utilizassem o "e se?"- e seguissem rigorosamente as leis da ciência a partir daí. Após a Segunda Guerra Mundial, essas convenções caíram, e a narrativa otimista foi substituída por ruminações distópicas, e dúvidas sobre a integridade da ciência.
Mas os escritores mais importantes, Asimov, Heinlen e Bradbury, permaneceram fieis às exigências de Campbell, de precisão científica e profecia plausível.
Como Asimov disse: "Nas minhas histórias eu sempre sugiro um mundo saudável".
Os mundos ficcionais de Philip Dick possuíam vários atributos, mas a sanidade não estava entre eles.
Campbell, o monarca da ficção científica pós-guerra, se recusou a publicar suas histórias porque eram "demasiadamente neuróticas".
Com suas preocupações com a psicologia dos personagens, ilusões coletivas e implantes de memórias, Dick seguiu o caminho dos escritores de ficção científica irregulares dos anos 50, como A.E. Van Vogt e Theodore Sturgeon, mas sem abandonar suas subversões.
Dick continuava a contar com os moldes pré-fabricados da FC, os conflitos planetários, poderes de "precogs" (que lêem o futuro) e "telepatas" (que lêem mentes), mas empregou estes para seus próprios fins extravagantes.
Dick absorvia com volúpia o trabalho intelectual do final dos anos 50: a psicanálise existencial de Ludwig Binswanger, a cibernética de Norbert Weiner, a teoria dos jogos de John von Neumann, psicologia gestalt e Carl Jung, o budismo tibetano e o I Ching.
Em 1959 Dick habilmente introduzia suas incertezas sobre o presente e o passado recente.
A Ace se recusou a publicar ‘Time Out of Joint’ e obrigou Dick a procurar por outros mercados.
Pela Doubleday sairia o romance que significou, até então, seu maior avanço literário, ‘O Homem do Castelo Alto’. Um estudo de um universo alternativo em que o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial. Os editores trataram como apenas um outro thriller e ironicamente, foi a comunidade de ficção científica que reconheceu seu valor e comemorou o livro, concedendo o Prêmio Hugo em 1963.
Abastecido por problemas conjugais, práticas esotéricas e uma dieta de anfetaminas e scotch, Dick concebeu onze romances em um período de apenas poucos anos.
Em 1963, Philip Dick experimentou a primeira de uma série de "visões" que amplificaram sua angústia existencial. Deprimido por outro casamento infeliz e perturbado por lembranças do passado, Dick relatou que viu "um grande mal" no céu. Ele tinha "buracos vazios dos olhos, ... e o pior de tudo, ele era Deus."
Desta visão surgiu a figura demiúrgica de Palmer Eldritch, de ‘Os Três Estigmas de Palmer Eldritch’.
Dick nos conclamava a duvidar da solidez da nossa vida, da solidez de si mesmo.
Com Palmer Eldritch ele aperfeiçoou um de seus temas, a alucinação.
Em Ubik ele aperfeiçoaria o outro, a experiência da entropia, o início da "decadência, deterioração e destruição". Ubik é uma comédia de obsolescência forçada.
Estes dois romances estabeleceram a reputação de Dick como um mestre da ficção científica experimental. Mas Dick, como de costume, recebeu poucas recompensas financeiras. O escritor de meia-idade morava em uma casa degradada, cheia de entulho, em Santa Venetia, um repositório do submundo e de fugitivos da lei.
Brigas com namoradas, e o temor que o FBI e o IRS (Imposto de renda) o prendessem, fizeram Dick sucumbir a sérios ataques de paranóia. Sua paranóia não era totalmente sem fundamento, pois em 1957 a CIA tinha efetivamente interceptado uma carta que ele havia enviado para um físico soviético.
Em 1971 alguém invadiu sua casa e roubou seus documentos. Dick dedicou incontáveis horas de especulações sobre a identidade dos assaltantes. Era seu próprio Watergate. Ele suspeitava do FBI, dos Panteras Negras, de uma gangue de traficantes de drogas local, dos milicianos de direita e de si mesmo.
Seus romances previam que a nação pós-anos 60, caminhava para uma era negra de repressão policial.
Em ‘Flow My Tears, The Policeman Said’ (1974), as autoridades se utilizam de um arsenal de sensores e mini-câmeras para resolver o mistério de um homem que pensa que ele é um apresentador de talk show, mesmo que ninguém tenha ouvido falar dele. ‘A Scanner Darkly’ (1977) mostra um policial disfarçado em uma Los Angeles onde viciados habitam áreas segregadas, e onde o acesso aos shoppings é restrito àqueles com os cartões de crédito corretos. A Scanner Darkly é seu livro mais engraçado e também o mais comovente.
Em 1972, lutando para escapar da confusão das drogas, a "escuridão" de sua vida, Dick viaja para Vancouver, onde dá uma palestra para uma convenção anual de escritores de FC. Em sua palestra "O Andróide e o Homem", Dick fascinou os jovens anarquistas, exibindo um elo em comum com os jovens dos anos 60, a disposição para desafiar o poder, "para construir melhores aparelhos eletrônicos em suas garagens, e que iriam superar aqueles dispositivos usados pelas autoridades".
Tendo diagnosticado o colapso da sociedade em seu discurso, Dick sofreu seu próprio colapso, dando entrada em uma clínica de reabilitação em Vancouver.
Atraído por um professor universitário que admirava seu trabalho, e que o ajudaria a mudar de vida, voltou para a Califórnia e mudou-se para uma "prisão de segurança”, um complexo de apartamentos em Orange County.
Mas a serenidade de sua nova vida não teria tanto efeito assim sobre ele. Quando uma delegação de autoridades francesas o visitou em Orange County, para discutir suas noções de "irrealidade", ele ofereceu-lhes uma exposição de suas opiniões, mas logo que saíram, telefonou para o FBI e avisou que havia um bando de subversivos no bairro.
A posição política de Dick nunca foi especialmente coerente. Ele dedicou ‘A Scanner Darkly’ ao procurador-geral Richard Nixon, e em seus diários ele trata a renúncia de Nixon como um acontecimento sagrado.
Casou-se novamente e começou a ‘limpar’ sua vida, até mesmo passou a escrever ao governo americano, oferecendo sua ajuda na guerra contra as drogas.
Em março de 1974, Dick sofreu uma série de visões que o perseguiram para o resto de sua vida.
Um ataque de percepção e iluminação que durou semanas. Os elementos desta experiência eram muitos: luzes coloridas, textos em latim e russo, visões de uma "prisão", mensagens de que o Império Romano nunca morreu... Quando acabou, ele acreditava que tinha recebido a confirmação de que o universo era de fato falso.
A ficção científica é uma profissão perigosa.
Seus praticantes têm muitas vezes sido confundidos com profetas. L. Ron Hubbard começou como um escritor, e seu anteprojeto de Dianética apareceu originalmente na Astounding Science Fiction.
Dick também foi muitas vezes incapaz de distinguir os seus escritos da realidade
("Tudo o que sei hoje, que eu não sabia quando eu escrevi Ubik, é que ele não é ficção").
Em seus escritos místicos, Dick não estava tentando converter os outros, mas tentando compreender a si mesmo. E nunca estava satisfeito com suas especulações. Questionava se suas revelações eram reais, e se não fossem, o que as tinha provocado. Sinais de rádio do futuro? Vitaminas solúveis em água? Um golpe?
("A minha vida... é exatamente como a trama de qualquer um dos meus romances".)
Em 1976 deixou sua última esposa e mudou-se para o norte de Sonoma, onde morou em um asilo e escreveu ‘A Transmigração de Timothy Archer’, uma espécie de livro de memórias sobre seu amigo James Pike, ex-bispo da Igreja Episcopal da Califórnia, desaparecido no deserto da Jordânia na procura por Jesus.
No início dos anos 80, Dick esperava reviver com os jovens escritores batendo à sua porta, e os royalties das edições de sua obra em alemão, francês e japonês.
Pela primeira vez, tudo parecia ir muito bem para ele.
Seu livro de 1968, ‘Sonham os Andróides com Ovelhas Elétricas?’ finalmente ganhara uma adaptação em Hollywood (os produtores do filme prometeram que seria o próximo Star Wars).
Na verdade Blade Runner foi um fracasso comercial na sua versão inicial, mas Dick nunca soube disso.
Em março de 1982, após assistir orgulhoso, a pré-estréia do filme, ele sofreu um acidente vascular cerebral.
("Deveria haver uma cláusula obrigatória que, ao encontrar Deus, você conseguiria mantê-lo").
Trechos de 'A fantástica vida e o trabalho como oráculo de Philip K. Dick' por Alexander Star.
Contos de Philip K. Dick ( A game of unchance, A little something for us tempunauts, A present for Pat, A surface raid, A Tehran odyssey, Adjustment team, Autofac, Beyond lies the wub, Beyond the door, Breakfast at twilight, Cadbury the beaver who lacked, Cantata 140, Cantata 141, Captive Market, Chains of air web of aether, Colony, Exhibit piece, Expendable, Explorers We, Fair Game, Faith of our fathers, Foster you are dead, Holy quarrel, Human is, I hope I shall arrive soon, If there were no Benny Cemoli, Imposter, James P.Crow, Jon's world, Martians come in clouds, Meddler, Mr. Spaceship, Nanny, Not by its cover, Novelty act, Null-O, Of withered apples, Oh to be a Blobel, Orpheus with clay feet, Out in the garden, Pay for the printer, Paycheck, Piper in the woods, Planet for transients, Precious Artifact, Prize ship, Progeny, Project Earth, Prominent author, Rautavaara's case, Recall Mechanism, Retreat syndrome, Return Match, Roog, Sales Pitch, Second variety, Service call, Shell game, Small town, Some kinds of life, Souvenir, Stability, Stand-by, Strange Eden, Strange memories of death, Survey Team, The Alien mind, The builder, The chromiun fence, The commuter, The cookie lady, The cosmic poachers, The crawlers, The crystal crypt, The day Mr.Computer fell out of his tree, The days of Perky Pat, The defenders, The electric Ant, The exit door leads in, The eye of the Sibyl, The eyes have it, The father thing, The golden man, The great C, The gun, The hanging stranger, The hood maker, The impossible planet, The indefatigable frog, The infinites, The king of the elves, The last of the Masters, The little black box, The little movement, The menace from Earth, The minority report, The mold of Yancy, The pre-persons, The preserving machine, The short happy life of the brown oxford, The skull, The story to end all stories, The trouble with Bubbles, The turning wheel, The unreconstructed M, The variable man, The war with the Fnools, The world she wanted, To serve the Master, Tony and the beetles, Upon the dull Earth, War game, War veteran, Waterspider, We can remember it for you wholesale, What the dead man say, What'll We do with the Ragland Park, World of chance, Your Appointment will be yesterday) [ Download ]
sábado, 10 de abril de 2010
O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 2)
Após um apressado desjejum — perdera tempo devido à discussão com a esposa — subiu, vestido, para aventurar-se pelo exterior, incluindo seu modelo Ajax do Protetor Genital de Chumbo Mountibank, até o pasto coberto do telhado, onde "pastava" sua ovelha elétrica.
Na pastagem o carneiro, peça sofisticada de equipamento que era, continuava a mastigar, em simulado contentamento, enganando os demais locatários do prédio.
Claro, parte dos animais deles consistiam também de falsificações feitas de circuitos eletrônicos. Ele, naturalmente, jamais tentara intrometer o nariz nesses assuntos, não mais do que os vizinhos haviam feito com o funcionamento real de sua ovelha. Coisa alguma poderia ser mais indelicada do que isso. Perguntar "Sua ovelha é autêntica?" seria uma quebra de boas maneiras pior do que perguntar se os dentes, o cabelo ou os órgãos internos de um cidadão eram reais.
O ar matutino, enxameando de corpúsculos radioativos, cinzento, e com o sol encoberto pelas nuvens, arrotou em volta dele, ferindo-lhe as narinas. Involuntariamente, fungou a infecção da morte. Bem, isso era uma descrição forte demais da coisa, pensou, enquanto se dirigia para seu lote particular de grama, que possuía juntamente com o apartamento, grande demais, embaixo.
O legado da Guerra Mundial Terminus perdera algo de sua potência; os que não puderam sobreviver à poeira estavam mortos há muito tempo e ela, mais fraca agora e enfrentando sobreviventes mais fortes, apenas desequilibrava mentes e propriedades genéticas. A despeito de seu protetor de chumbo, a poeira — sem dúvida — infiltrava-se pelo traje e o atingia, e lhe aplicava diariamente, enquanto ele não emigrasse, sua pequena dose da sujeira contaminadora.
Até agora, exames médicos gerais, feitos mensalmente, diziam que ele estava bem: era um homem que podia reproduzir-se dentro das quotas estabelecidas pela lei.
Em qualquer mês, porém, o exame feito pelos médicos do Departamento de Polícia de São Francisco podiam revelar situação diferente. Ininterruptamente nasciam novos especiais, criados, ou melhor, gerados por normais que haviam sido vítimas da poeira onipresente. A advertência correntemente divulgada por cartazes, anúncios na TV e correspondência do governo, que ninguém lia, dizia:
"Emigre ou degenere! A Opção é Sua!"
Pura verdade, pensou Rick, abrindo o portão da pequena pastagem e aproximando-se da ovelha elétrica.
Mas eu não posso emigrar, disse a si mesmo. Por causa de meu emprego.
O proprietário da pastagem vizinha, Bill Barbour, morador do prédio como ele, chamou-o. Ele, como Rick, vestira-se para o trabalho, mas havia também feito uma parada antes, para ver como ia seu animal.
— Minha égua — declarou radiante Barbour — está grávida. — Indicou a grande Percheron, que olhava com expressão vazia para o espaço. — O que é que você diz disso?
— Digo que, logo, você vai ter dois cavalos — respondeu Rick. Chegara à sua ovelha naquele instante. O animal continuava a ruminar, olhos alertas fixos nele, na esperança de que ele houvesse trazido um pouco de aveia trilhada. A suposta ovelha continha um circuito com tropismo para aveia; à vista de tal cereal, levantar-se-ia convincentemente e viria gingando à procura do alimento.
— Quem foi que a engravidou? — perguntou a Barbour. — O vento?
— Comprei um pouco do plasma fertilizante da melhor qualidade existente na Califórnia — esclareceu Barbour. — Graças a uns contatos com gente de dentro, no Departamento Estadual de Produção Animal. Não se lembra que, na semana passada, o inspetor do Departamento esteve aqui, examinando Judy? O pessoal anda louco para ganhar o potrinho dela. Ela é um animal de qualidade fora de série. — Bateu carinhoso no pescoço da égua, que inclinou a cabeça em sua direção.
— Você já pensou em vender sua égua? — perguntou Rick.
Queria mais do que qualquer outra coisa no mundo ter um cavalo, na verdade, qualquer animal. Possuir e sustentar uma fraude era uma maneira de, aos poucos, desmoralizar uma pessoa. Ainda assim, do ponto de vista social, isto tinha que ser feito, dada a ausência do artigo legítimo. Não tinha, por conseguinte, opção senão continuar. Mesmo que fosse o caso de ele não se importar, havia a esposa, e Iran se importava. Muito.
— Seria imoral vender minha égua — respondeu Barbour.
— Venda o potrinho, então. Ter dois animais é mais imoral do que não ter nenhum.
Confuso, Barbour respondeu:
— O que é que você quer dizer com isso? Um bocado de gente tem dois animais, mesmo três, quatro, e no caso de Fred Washborne, que é dono da fábrica de processamento de algas, onde trabalha meu irmão, mesmo cinco. Não leu no Chronicle de ontem aquele artigo sobre o pato que ele tem? Dizem que é o Moscovy maior e mais pesado da Costa Oeste. — Os olhos dele vidraram-se, imaginando só possuir aquilo e, gradualmente, caiu num transe.
Procurando nos bolsos do casaco, Rick encontrou seu exemplar amarfanhado e muito estudado do Catálogo Sidney de Animais & Aves, suplemento de janeiro. Olhou no início, procurou potrinhos (cavalos de tamanho regular, filhotes) e logo achou o preço nacional no momento.
— Posso comprar um potro Percheron da Sidney's por cinco mil dólares — disse em voz alta.
— Não, não pode — contestou-o Barbour. — Olhe para a listagem novamente. Está em itálico. Isso significa que não têm o animal em estoque, mas que esse seria o preço, se tivessem.
— Que tal — propôs Rick — eu lhe pagar quinhentos dólares por mês, durante dez meses. O preço completo do catálogo.
Com ar de pena, Barbour respondeu:
— Deckard, você não entende de cavalos. Há uma razão por que a Sidney's não tem nenhum potro Percheron em estoque. Esses potros simplesmente não mudam de mão — nem mesmo a preço de catálogo. São escassos demais, mesmo os relativamente inferiores. — Inclinou-se sobre a cerca comum aos lotes de ambos, gesticulando. — Tenho Judy há três anos e, neste tempo todo, não vi ainda uma égua Percheron da qualidade dela. A fim de adquiri-la, tive que voar até o Canadá e eu mesmo a trouxe pessoalmente, para ter certeza de que não seria roubada. Traga um animal desses por qualquer lugar no Colorado ou Wyoming e matam-no para ficar com ele. Quer saber por quê? Porque antes da G.M.T. havia literalmente centenas deles...
— Mas — interrompeu-o Rick — você vai ter dois cavalos e eu não terei nenhum. Isto viola toda a estrutura teológica e moral do mercerismo.
— Você tem sua ovelha. Diabo, você pode seguir a Ascensão em sua vida individual e, quando agarra os dois cabos da empatia, você se aproxima, honradamente. Bem, se você não tivesse aí essa velha ovelha, eu veria alguma lógica em sua situação. Certo, se eu tivesse dois animais e você não tivesse nenhum, eu estaria ajudando a privá-lo de sua verdadeira fusão com Mercer. Mas todas as famílias neste prédio, da forma que calculo a coisa, vejamos, uma para cada três apartamentos, todas têm um animal de algum tipo. Graveson é dono daquela galinha ali. — Fez um gesto na direção norte. — Oakes e a esposa têm aquele grande cão vermelho que ladra à noite. — Pensou um pouco. — Acho que Ed Smith tem um gato lá no seu apartamento. Pelo menos é o que ele diz, embora ninguém jamais o tenha visto. Provavelmente, ele está apenas fingindo.
Aproximando-se da ovelha, Rick curvou-se, procurando no grosso manto branco — o velocino pelo menos era autêntico — até encontrar o que queria: o painel de controle, oculto, do mecanismo. Enquanto Barbour observava, ele abriu com um estalo o painel que o cobria, revelando tudo.
— Está vendo? — disse a Barbour. — Compreende agora por que é que eu quero tanto seu potrinho?
Depois de um intervalo, Barbour disse:
— Seu pobre-diabo! Sempre foi assim?
— Não — respondeu Rick, mais uma vez fechando o painel da ovelha elétrica. Espigou-se, virou-se e olhou para o vizinho. — Uma vez, eu tive uma ovelha de verdade. O pai de minha esposa deu-a a nós, sem reservas, quando emigrou. Em seguida, mais ou menos há um ano... Lembra-se daquela vez em que a levei ao veterinário? Você estava aqui em cima naquela manhã quando vim aqui e a encontrei deitada de lado, sem poder levantar-se.
— Você conseguiu que ela se levantasse — confirmou Barbour, lembrando-se e inclinando a cabeça. — Isso mesmo, você conseguiu levantá-la, mas depois de um minuto ou dois andando em volta, ela caiu outra vez.
— Ovelhas pegam doenças muito estranhas — disse Rick. — Ou, em outras palavras, elas pegam um bocado de doenças, mas os sintomas são sempre os mesmos. A ovelha não pode levantar-se, não há jeito de a gente saber qual é a gravidade de seu estado, se é uma torção na perna ou se o animal está morrendo de tétano. Foi disso que morreu a minha: tétano.
— Aqui em cima? — perguntou Barbour. — No telhado?
— O feno — explicou Rick. — Aquela foi a única vez em que eu não tirei todo o arame em volta do fardo. Deixei um pedaço e Groucho — era assim que eu a chamava — arranhou-se e, desse modo, contraiu tétano. Levei-a ao veterinário, ela morreu, pensei nisso e, finalmente, fui a uma dessas oficinas que fabricam animais artificiais, mostrei-lhes uma foto de Groucho. Eles fizeram isto. — Indicou o sucedâneo que, reclinado, continuava a ruminar atento, observando-o ainda alerta, à espera de qualquer indicação da presença de aveia. — É um trabalho de primeira classe. Tenho gasto tanto tempo e atenção cuidando dele como fazia quando possuía o animal legítimo. Mas... — Encolheu os ombros.
— Não é a mesma coisa — terminou Barbour a frase para ele.
— Mas é quase. A pessoa se sente a mesma fazendo isso. A gente tem que se manter de olho no animal, exatamente como fazia quando ele estava realmente vivo. Porque eles enguiçam, e, neste caso, todo mundo no prédio saberia, tive que mandá-lo seis vezes para a oficina, na maioria das vezes por pequenos defeitos, mas se alguém os visse — por exemplo, uma vez o teipe da voz quebrou ou alguma coisa enguiçou e a ovelha não parava de balir — e então os moradores saberiam que o que houve foi um enguiço mecânico. — E acrescentou: — Claro, o caminhão de reparos está marcado "Hospital Veterinário Alguma Coisa." E o motorista se veste exatamente igual a um veterinário, todo de branco. — Lançou um rápido olhar ao relógio, lembrando-se do tempo. — Vou ter que trabalhar — disse a Barbour. — Até a noite.
Quando se dirigia para o carro, Barbour gritou apressado para ele:
— Hum, eu não vou dizer a pessoa alguma, aqui no prédio.
Parando por um momento, Rick começou a agradecer. Mas, nesse momento, algo do desespero em que Iran estivera falando deu-lhe uma palmadinha no ombro e ele respondeu:
— Não sei. Talvez não faça mesmo qualquer diferença.
— Mas o pessoal vai olhar para você com desprezo. Nem todos, mas alguns. Você sabe como as pessoas são sobre esse negócio de não ter um animal para cuidar. Consideram isso imoral e antiempático. Quero dizer, tecnicamente não é um crime, como logo depois da Guerra Mundial Terminus, mas o sentimento continua a existir.
— Meu Deus — disse inutilmente Rick, e fez um gesto com a mão vazia. — Eu quero ter um animal. Vivo tentando comprar um deles. Mas o meu salário, com o que se ganha num emprego da municipalidade... — Se eu tivesse sorte outra vez no trabalho, pensou. Como há dois anos, quando consegui pegar dois andros em um único mês. Se eu tivesse sabido naquela ocasião que Groucho ia morrer... Mas aquilo fora antes do tétano. Antes do pedaço quebrado de seis centímetros, fino como uma agulha de injeção, do arame do fardo de ração.
— Você poderia comprar um gato — sugeriu Barbour. — Gatos são baratos. Veja no seu Sidney's.
— Não quero um bichinho de estimação — retrucou calmo Rick. — Quero o que eu tinha antes, um animal grande. Uma ovelha ou, se eu conseguir o dinheiro, uma vaca ou um novilho, ou mesmo o que você tem: um cavalo.
O prêmio em dinheiro pela eliminação de cinco andros, compreendeu, daria para isso. Mil dólares por um deles, além de meu salário. Neste caso, em algum lugar, na mão de alguém, eu encontraria o que quero. Mesmo que a lista da Sidney's Animal & Fow! esteja em itálico. Cinco mil dólares! Mas, pensou, em primeiro lugar, os cinco andros têm que chegar à Terra, vindo de um dos planetas-colônias. Isto eu não posso controlar. Não posso obrigar cinco deles a virem para cá, e mesmo que pudesse, há outros caçadores de cabeças nas forças policiais de todo o mundo.
Especificamente, os andros teriam que fixar residência na Califórnia do Norte, e o principal caçador de prêmios dessa área, Dave Holden, teria que morrer ou aposentar-se.
— Compre um grilo — sugeriu Barbour, fazendo piada. — Ou um camundongo. Hei, por vinte e cinco dólares você pode comprar um rato adulto.
— Sua égua pode morrer, como Groucho morreu, quando você menos esperar — disse Rick. — Quando voltar para casa esta noite, pode encontrá-la deitada de costas, com as patas no ar, como se fosse um inseto. Como você disse, um grilo.
Dirigiu-se para o carro em passos largos, a chave na mão.
— Desculpe se o ofendi — disse nervoso Barbour.
Em silêncio, Rick abriu a porta do hovercar. Nada mais tinha a dizer ao vizinho, a mente já concentrada no trabalho, no dia à frente.
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