sábado, 24 de abril de 2010
O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 4)
A CAMINHO do trabalho, Rick Deckard, e só Deus sabia quantos outros mais, parou por um momento para olhar, disfarçadamente, em frente a uma das maiores lojas de bichos de estimação de São Francisco, no espaço destinado aos animais.
No centro da vitrina, que ocupava um quarteirão inteiro, uma avestruz em uma jaula aquecida de plástico, retribuiu-lhe o olhar. A ave, segundo a placa de informação presa à gaiola, acabara de chegar de um zoológico de Cleveland. Era a única avestruz da Costa Oeste.
Depois de fitá-la, Rick passou mais alguns minutos olhando fixamente para a etiqueta do preço. Prosseguiu em seguida, na direção do Palácio da Justiça, na Lombard Street, e descobriu que estava atrasado um quarto de hora para o trabalho.
No momento em que abria o gabinete, seu superior, o Inspetor de Polícia Harry Bryant, ruivo, orelhas de abano, relaxadamente vestido, mas de olhos vivos, consciente de tudo que tinha importância, gritou para ele:
— Encontre-me às nove e trinta no gabinete de Dave Holden. — Enquanto falava, o Inspetor Bryant folheava rapidamente uma prancha, onde estavam presas folhas de papel de seda datilografadas. — Holden — continuou, afastando-se — está no Hospital Monte Sion, com uma queimadura de laser na espinha, Vai passar lá pelo menos um mês. Até que uma dessas novas seções plásticas de espinha vertebral cole devidamente.
— O que foi que aconteceu? — perguntou Rick, com um calafrio.
O principal caçador a prêmio do departamento estivera bem até a véspera. Ao fim do dia, como sempre, ele partira em seu hovercar a caminho de seu apartamento, na congestionada área de alto prestígio de Nob Hill, na cidade.
Por cima do ombro, Bryant murmurou alguma coisa sobre nove e trinta no escritório de Dave, e deixou Rick sozinho.
Ao entrar no seu gabinete, ouviu às suas costas a voz da sua secretária, Ann Marsten:
— Sr. Deckard, sabe o que aconteceu com o Sr. Holden? Foi atingido.
Seguiu-o até o escritório fechado o abafado e pôs em funcionamento a unidade de filtragem do ar.
— Sim — respondeu ele distraído.
— Deve ter sido um desses novos andros, ultra-sabidos, que a Rosen Association está fabricando — opinou a Srta. Marsten. — Leu a brochura da companhia e as folhas de especificação? A unidade cerebral Nexus-6 que estão usando agora é capaz de selecionar num campo de dois trilhões de constituintes, ou dez milhões de trilhas neurais separadas. — Baixou a voz. — O senhor perdeu a chamada no videofone esta manhã. Quem me contou foi a Sra. Wild. A chamada chegou pela mesa exatamente às nove.
— Uma chamada para aqui? — perguntou Rick.
— Uma chamada do Sr. Bryant para o WOP... na Rússia. Perguntando se eles queriam apresentar uma queixa oficial ao representante da Rosen Association no Leste.
— Harry ainda quer que a unidade cerebral Nexus-6 seja retirada do mercado?
Não se sentia surpreso. Desde que foram anunciadas as especificações e relatórios de desempenho em agosto de 1991, a maioria das forças policiais que tratava de andros fujões andava protestando.
— A política soviética não pode fazer mais do que nós — disse. Legalmente os fabricantes da unidade cerebral Nexus-6 operavam de acordo com disposições de lei colonial, tendo sua fábrica automática localizada em Marte. — O melhor que faríamos mesmo era simplesmente aceitar a nova unidade, como um desses fatos inescapáveis da vida — opinou. — Sempre foi assim, no caso de todas as unidades cerebrais aperfeiçoadas que surgiram.
Lembro-me dos uivos de dor quando a Sudermann apresentou seu velho T-14 em '89. Todas as forças policiais no Hemisfério Ocidental alegaram que teste algum lhes revelaria a presença, em caso de entrada ilegal aqui.
Para dizer a verdade, durante algum tempo eles tiveram razão. Mais de cinqüenta andróides T-14, segundo lembrava, haviam de uma maneira ou de outra, conseguido chegar à Terra e passaram despercebidos em alguns casos, um ano inteiro. Mas logo depois foi criado o Teste de Empatia Voigt, pelo Instituto Pavlov, na União Soviética. E nenhum andróide T-14, pelo menos tanto quanto se sabia, conseguira passar nesse teste.
— Quer saber o que foi que a Polícia russa disse? — perguntou a Srta. Marsten. — Eu também sei isso — continuou, animando-se seu rosto amarelado e pintalgado de sardas.
— Eu descubro com Harry Bryant — respondeu Rick. Sentia-se irritado.
As bisbilhotices de escritório sempre o aborreciam porque, no fim, eram nada mais que a verdade. Sentando-se à escrivaninha, começou intencionalmente a procurar alguma coisa na gaveta até que a Srta. Marsten, percebendo a deixa, foi embora.
Da gaveta tirou um antigo e enrugado envelope de papel pardo.
Recostando-se na sua cadeira tipo executivo, mexeu no conteúdo até encontrar o que queria: os dados reunidos existentes sobre o Nexus-6.
Uma rápida leitura confirmou as informações da Srta. Marsten: o Nexus-6 possuía, de fato, dois trilhões de constituintes, além de uma capacidade de escolha na faixa de dez milhões de possíveis combinações de atividade cerebral. Em 4,5 décimos de segundo um andróide equipado com essa estrutura cerebral podia assumir qualquer uma de quatorze reações-posturas básicas. Bem, nenhum teste de inteligência podia encurralar um andro desses. Mas também os testes de inteligência não haviam encurralado andro algum em anos. Não, desde as primeiras e cruas variedades da década de 70.
Os tipos andróides Nexus-6, refletiu Rick, superavam todas as classes de humanos especiais em termos de inteligência. Em outras palavras, os andróides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 haviam, a partir de um ponto de vista grosseiro, pragmático, prático, evoluído além de um grande — embora inferior — segmento da humanidade. Com todas as boas ou más conseqüências. Em alguns casos, o criado tornara-se mais hábil do que seu senhor. Novas escalas de realização, contudo, como por exemplo o Teste de Empatia Voigt-Kampff, surgiram como critérios para julgá-los. Um andróide, por mais dotado que fosse de pura capacidade intelectual, não podia entender a fusão que, rotineiramente, ocorria entre os seguidores do mercerismo — uma experiência que ele, e virtualmente todo mundo, incluindo debilóides subnormais, conseguiam realizar sem dificuldade.
Perguntara-se, como, aliás, fizera a maioria das pessoas uma vez ou outra, precisamente por que um andróide saltava impotente, de um lado para outro, quando submetido a um teste de medição de empatia.
Empatia, evidentemente, existia apenas na comunidade humana, ao passo que inteligência em algum grau podia ser encontrada em todas as filas e ordens, incluindo os aracnídeos. Pelo menos a faculdade de empatia provavelmente requeria um instinto grupal intacto; um organismo solitário como uma aranha, não teria utilidade para ela; na verdade, tenderia a abortar a capacidade da aranha de sobreviver. Torná-la-ia consciente do desejo de viver de sua presa. Daí, se a possuíssem, todos os predadores, mesmo os mamíferos altamente desenvolvidos como os gatos, morreriam de fome.
A empatia, chegara ele certa vez à conclusão, forçosamente devia limitar-se a herbívoros ou, de qualquer maneira, a onívoros que podiam abster-se de uma dieta de carne. Isto porque, em última análise, o dom da empatia tornava indistintas as fronteiras entre caçador e vítima, entre os bem-sucedidos e os derrotados.
Como no caso da fusão com Mercer, os dois subiam juntos ou, quando o ciclo acabava, caíam juntos na fossa do túmulo do mundo. Estranho, a coisa lembrava uma espécie de seguro biológico, embora de gume duplo. Enquanto alguma criatura experimentava alegria, então a condição para todas as demais criaturas incluía um pouco de alegria. Contudo, se algum ser vivo sofria, no caso do restante a sombra não podia ser inteiramente descartada.
Um animal gregário como o homem adquiriria com isso um fator de sobrevivência mais alto, mas uma coruja ou uma cobra seriam destruídas.
Evidentemente o robô humanóide constituía um predador solitário.
Rick gostava de considerá-los dessa maneira. Isto tornava suportável seu emprego.
Ao aposentar, isto é, matar um andro, não violava a regra de vida estabelecida por Mercer. Matarás apenas os matadores, dissera-lhes Mercer no ano em que as caixas de empatia apareceram pela primeira vez na Terra.
No mercerismo, à medida que evoluía e se transformava numa teologia plena, o conceito de Os Matadores crescera insidiosamente.
No mercerismo, um mal absoluto puxava o manto esfiapado do velho trôpego que subia, mas jamais era claro quem ou o quê era essa maligna presença. Um mercerita sentia o mal sem compreendê-lo. Ou, em outras palavras, um mercerita tinha liberdade para localizar a presença nebulosa dos Matadores onde quer que julgasse conveniente.
Para Rick Deckard, um robô humanóide fujão, que matara seu senhor, fora equipado com uma inteligência mais aguda do que muitos seres humanos, que nenhuma consideração sentia por animais, que não possuía capacidade de sentir alegria empática pelo sucesso de outra forma de vida, ou sofrer com sua derrota — isto, para ele, sintetizava Os Matadores.
Pensando em animais, lembrou-se da avestruz que vira na loja. Temporariamente pôs de lado as especificações da unidade cerebral Nexus-6, tomou uma pitada de rape Mrs. Siddon's N.° 3 & 4, e pensou. Em seguida, olhou para o relógio e viu que dispunha de tempo. Levantou o videofone da escrivaninha e disse à Srta. Marsten:
— Ligue-me com a Happy Dog Pet Shop, na Sutter Street.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Marsten, abrindo sua caderneta de telefones.
Eles não podem, realmente, pedir aquilo tudo por uma avestruz, disse Rick a si mesmo. Esperam que a pessoa pechinche como nos velhos dias.
— Happy Dog Pet Shop — declarou uma voz de homem, na videotela de Rick apareceu uma pequena e contente face. Ele podia ouvir, no fundo, o barulho feito por animais.
— É a respeito daquela avestruz que os senhores têm na vitrina — explicou Rick, enquanto brincava com um cinzeiro de cerâmica à sua frente. — Qual é a entrada que preciso pagar para comprá-la?
— Vamos ver... — disse o vendedor, apanhando uma caneta e um bloco. — De entrada, um terço do preço. — Fez os cálculos. — Posso saber senhor, se vai dar algo usado como inicial?
Reservado, Rick respondeu:
— Eu ... eu ainda não resolvi.
— Vamos supor que para comprar a avestruz o senhor escolha um plano de trinta meses — disse o vendedor. — A uma taxa de juros baixa, bem baixa, de seis por cento ao mês, isto equivaleria a uma amortização mensal, depois de uma razoável entrada...
— O senhor vai ter que baixar esse preço — disse Rick. — Tire dois mil e não dou nenhum outro artigo como inicial. Pago em dinheiro vivo.
Dave Holden, pensou, estava fora de circulação. Isto poderia significar um bocado de coisas... dependendo de quantas missões surgissem no mês seguinte.
— Senhor — disse o vendedor — nosso preço de venda já está mil dólares abaixo do catálogo. Verifique no seu Sidney's. Eu espero. Quero que o senhor mesmo veja que nosso preço é justo.
Cristo, pensou Rick, Não estão arredando pé. Contudo, apenas por fazer, tirou do bolso do casaco o amarrotado Sidney's, procurou avestruz, macho-fêmea, velha-jovem, doente-sadia, nova-usada, e verificou os preços.
— Nova, macho, jovem, sadia — informou o vendedor. — Trinta mil dólares. — Ele, também, estivera consultando seu Sidney's. — Estamos cobrando exatamente mil dólares menos que o preço de catálogo. Agora, quanto à sua entrada...
— Vou pensar um pouco — disse Rick — e depois telefono para o senhor. — Fez o movimento de desligar.
— Seu nome, senhor? — perguntou alerta o vendedor.
— Frank Merriwell — respondeu Rick.
— Seu endereço, Sr. Merriwell? Para o caso de eu não estar aqui quando o senhor telefonar de volta.
Rick inventou um endereço e pôs o videofone de volta no gancho. Esse dinheiro todo, pensou. Ainda assim, pessoas compram-nas; algumas pessoas têm tanto dinheiro assim. Levantando novamente o telefone, disse áspero:
— Consiga-me uma linha, Srta. Marsten. E não fique escutando. Trata-se de uma chamada confidencial. — Olhou-a zangado.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Marsten. Desligou-se do circuito e deixou-o sozinho para enfrentar o mundo externo.
Discou, de memória, o número da loja de falsos animais, onde conseguira seu sucedâneo de ovelha. Na pequena videotela apareceu um homem vestido como veterinário.
— Dr. McRae — declarou ele.
— Fala aqui Deckard. Quanto custa uma avestruz elétrica?
— Oh, acho que poderíamos lhe cobrar menos de oitocentos dólares. Em quanto tempo quer a entrega? Vamos ter que fabricá-la exclusivamente para o senhor. Não há muita procura de...
— Falo com o senhor depois — interrompeu. Lançou um olhar ao relógio e viu que marcava nove e meia. — Adeus.
Levantou-se rápido da cadeira e, pouco depois, chegou à porta do escritório do Inspetor Bryant. Passou pela recepcionista de Bryant, atraente, com cabelo prateado pela cintura, amarrado em tranças e, em seguida, pela secretária do inspetor, um monstro primevo de algum pântano jurássico, imóvel e ardilosa, como alguma aparição arcaica fixada na sepultura do mundo.
Nenhuma das mulheres falou com ele, nem ele com elas.
Abrindo a porta interna, inclinou a cabeça na direção de seu superior, que nesse momento falava ativamente ao telefone.
Sentou-se, puxou do envelope as especificações do Nexus-6 que trouxera consigo e leu-as mais uma vez enquanto o Inspetor Bryant continuava a falar.
Sentia-se deprimido. Ainda assim, logicamente, devido ao súbito desaparecimento de Dave da cena de trabalho, devia sentir-se pelo menos moderadamente satisfeito.
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sexta-feira, 23 de abril de 2010
Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (5/5)
Bem, como eu disse anteriormente, um autor de uma obra de ficção supostamente poderia escrever a verdade e não saber disso.
Para citar Xenófanes, outro pré-socrático: Mesmo que um homem fale a mais completa verdade, ainda que ele próprio não o saiba, todas as coisas estão envoltas em aparências (Fragmento 34).
E Heráclito acrescentou a este: É da natureza das coisas o hábito de esconder-se (fragmento 54).
W. S. Gilbert, de Gilbert e Sullivan: As coisas raramente são o que parecem; leite desnatado se disfarça como creme.
O ponto principal de tudo o que é que não podemos confiar em nossos sentidos e, provavelmente, nem mesmo nos nossos raciocínios a priori. Quanto aos nossos sentidos, eu compreendo que as pessoas que tenham sido cegas de nascença e de repente passem a enxergar fiquem espantadas ao descobrir que os objetos pareçam ficar menores à medida que se afastam. Logicamente não há razão para isso. Nós, naturalmente aceitamos isso, porque estamos acostumados. Vemos os objetos se tornam menores, mas sabemos que na realidade, eles continuam do mesmo tamanho. Assim, mesmo a pessoa pragmática e comum dá um certo desconto ao que seus olhos vêem e lhe dizem as orelhas.
Pouco do que Heráclito escreveu sobreviveu, e o que temos é obscuro, mas o fragmento 54 é lúcido e importante: a estrutura latente é mestre da estrutura óbvia. Isto significa que Heráclito acreditava que havia um véu sobre a paisagem verdadeira. Ele também pode ter suspeitado que o tempo de certa forma, não é o que parece, pois no fragmento 52 ele disse: O tempo é uma criança brincando, de uma criança é o reino. Este é realmente enigmático. Mas ele também disse no fragmento 18: Se não se espera, não vai descobrir o inesperado, não é para ser seguido e nenhum caminho leva-nos a ele.
Eduardo Hussey em seu livro erudito 'Os pré-socráticos', diz: "Se Heráclito é tão insistente sobre a falta de compreensão demonstrada pela maioria dos homens, parece razoável que ele deveria oferecer mais instruções para penetrar a verdade. A fala sobre o enigma de adivinhação sugere que algum tipo de revelação, além do controle humano, é necessário... A verdadeira sabedoria, como já foi visto, está intimamente associada a Deus, o que sugere ainda que o avanço da sabedoria de um homem o torna uma parte de Deus."
Esta citação não é de um livro religioso ou de um livro sobre a teologia, é uma análise dos primeiros filósofos por um antigo professor de Filosofia na Universidade de Oxford. Hussey deixa claro que para esses filósofos não havia distinção entre a filosofia e a religião. O primeiro grande salto na teologia grega foi feita por Xenófanes de Cólofon, nascido em meados do século VI A.C.
Xenófanes diz: "Um deus não existe como as criaturas mortais, quer em forma corpórea ou no pensamento de sua mente. O conjunto de tudo que ele vê, tudo ele pensa, tudo que ele ouve fica sempre parado no mesmo lugar, sem pensar que ele deveria se mover agora desta forma, agora dessa outra."
Este é um conceito sutil e avançado de Deus, evidentemente sem precedentes entre os pensadores gregos. Os argumentos de Parmênides pareciam mostrar que toda a realidade deve realmente ser uma mente. Hussey escreve, com um objeto de pensamento em mente, quando Heráclito diz especificamente que é difícil dizer o quão longe os projetos na mente de Deus distinguem-se da execução em todo o mundo, ou mesmo o quanto a mente de Deus é distinta do mundo.
Anaxágoras sempre me fascinou. Anaxágoras foi conduzido a uma teoria da microestrutura da matéria que se tornou, de forma misteriosa, na razão humana. Anaxágoras acreditava que tudo foi determinado pela mente. Estes não eram pensadores infantis nem primitivos. Eles debateram questões sérias e estudavam os pontos de vista uns dos outros com uma visão hábil. Foi só no tempo de Aristóteles que seus pontos de vista foram reduzidos àquilo que podemos perfeitamente - mas erroneamente - classificar como bruto.
O somatório da teologia pré-socrática e filosofia pode ser declarado assim: O cosmos não é o que parece ser, e que provavelmente é, em seu nível mais profundo, é exatamente isso que o ser humano é em seu nível mais profundo - chame de mente ou alma, é algo unitário, que vive e pensa, e só parece ser plural e material.
Muito dessa visão nos alcança através da doutrina Logos sobre Cristo. O pensador e o pensamento em conjunto. O universo então é pensador e pensamento, e uma vez que somos parte dele, nós, como seres humanos, somos em última análise, pensamentos e pensadores dos pensamentos.
Assim, se Deus pensa em Roma por volta de 50 DC, em seguida Roma por volta de 50 DC existe. O universo não é um relógio de corda e Deus a mão que dá corda. O universo não é um relógio alimentado por bateria, sendo Deus a bateria. Spinoza acreditava que o universo é o corpo de Deus no espaço. Mas muito antes de Spinoza - dois mil anos antes dele - disse Xenófanes: "Ele exerce todas as coisas com o pensamento de sua mente" (Fragmento 25).
Se algum de vocês já leu meu romance Ubik, você sabe que a misteriosa entidade, mente ou força chamado Ubik começa como uma série de comerciais baratos e vulgares e acaba dizendo:
Eu sou Ubik. Antes o universo era eu. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que habitam, eu posso movê-los daqu, para lá. Eles vão para onde eu digo, eles fazem o que eu lhes digo. Eu sou a palavra e meu nome nunca é falado, o nome que ninguém sabe. Eu sou chamado Ubik, mas esse não é o meu nome. Eu sou. Serei sempre.
É óbvio que este e que é Ubik, que diz especificamente que é a palavra que quer dizer, o Logos. Na tradução alemã, há uma das falhas mais maravilhosas do entendimento que eu já vi. Que Deus nos ajude se o homem que traduziu o meu romance Ubik em alemão estava a fazer uma tradução do grego para o alemão do Novo Testamento. Ele fez tudo certo até que ele começou a frase "Eu sou a palavra."
Aquilo o intrigou. O que pode o autor querer dizer com isso? ele deve ter perguntado a si mesmo, obviamente sem nunca ter vindo através da doutrina do Logos. Então ele fez um bom trabalho de tradução tanto quanto possível. Na edição alemã, a Entidade absoluto que fez o sol, fez o mundo, criou a vida e os lugares que habitamos, diz "Eu sou a marca."
Tivesse ele traduzido o Evangelho segundo São João, acho que teria escrito: "Quando tudo começou, a marca já existia. A marca habitou com Deus, e o que Deus era, a marca era."
Parece que eu não só trago cumprimentos da Disneylândia, mas de Mortimer Snerd (famoso boneco de ventrílogo). Esse é o destino de um autor que pretende incluir temas teológicos na sua escrita.
"A marca foi, então, com Deus no início, e por meio dele todas as coisas vieram a ser, nada foi criado sem ele."
Vamos esperar que Deus tenha senso de humor.
Ou devo dizer, vamos esperar que a marca tenha um senso de humor.
Como eu lhe disse antes, minhas duas preocupações na minha escrita são "o que é realidade" e "o que é o autêntico humano". Tenho certeza que você pode ver agora, que não tenho sido capaz de responder à primeira pergunta. Tenho uma intuição de que alguma forma o mundo da Bíblia é literalmente uma paisagem real, mas velada, que nunca muda. Está escondido da nossa vista, mas disponível para nós através da revelação. Isso é tudo que eu posso dizer - uma mistura de experiência mística, raciocínio e fé.
Gostaria de dizer algo sobre as características do ser humano autêntico, e nessa busca tive respostas mais plausíveis.
O ser humano autêntico é um de nós que instintivamente sabe o que deveria fazer, e além disso, vai se recusar a fazê-lo. Ele vai se recusar a fazê-lo, mesmo que isso traga conseqüências ruins para ele e para aqueles a quem ele ama. Isso para mim, é o traço finalmente heróico das pessoas comuns, que dizem não ao tirano e calmamente arcam com as conseqüências dessa resistência. Suas ações podem ser pequenas, e quase sempre despercebidas, não são parte da História. Seus nomes não são lembrados, nem estes seres humanos autênticos esperam que seus nomes sejam lembrados. Eu vejo a sua autenticidade de uma forma estranha: não está em sua vontade de realizar grandes feitos heróicos, mas na sua recusa em silêncio.
Em essência, eles não podem ser obrigados a ser o que eles não são.
O poder das realidades espúrias de hoje nos espanca - estes produtos fabricados nunca penetram o coração dos verdadeiros seres humanos. Eu vejo as crianças assistindo TV e no começo eu tenho medo do que está sendo ensinado, e então eu percebo, eles não podem ser afetados ou prejudicados. Eles vêem, escutam, compreendem e, em seguida, onde e quando for necessário, eles rejeitam. Há algo muito poderoso na capacidade de uma criança para enfrentar os fraudulentos. A criança tem o olho mais claro, a mão mais firme. Os vendedores ambulantes estão apelando para a submissão dos pequenos em vão. É verdade que as empresas de cereais podem ser capazes de fazê-los ingerir grandes quantidades de lixo no café da manhã, as cadeias de hambúrguer e cachorro-quente podem vender um número infinito de fast-food para crianças, mas o coração bate profundo com firmeza, inalcançável. Uma criança de hoje pode detectar uma mentira mais rápido que o mais sábio de adultos de duas décadas atrás.
Quando eu quero saber o que é verdadeiro, eu peço opinião aos meus filhos.
Eles não me perguntam, eu os procuro.
Um dia meu filho Christopher, de quatro anos, estava brincando na minha frente e da sua mãe. Nós, os adultos, começamos a discutir a figura de Jesus nos Evangelhos sinópticos. Christopher virou-se para nós por um instante e disse:
"Eu sou um pescador. Eu pesco pelo peixe".
Ele estava brincando com uma lanterna de metal que alguém tinha me dado, que eu nunca tinha usado... e de repente eu percebi que a lanterna tinha a forma de um peixe. Eu me perguntei que os pensamentos estavam sendo colocados na alma do menino naquele momento - e não foram colocados lá por comerciantes de cereais ou vendedores de doces.
"Eu sou um pescador. Eu pesco pelo peixe”.
Christopher de quatro anos, havia encontrado o sinal que não achei até que tivesse quarenta e cinco anos de idade.
O tempo está se acelerando. E para quê? Talvez tenham nos dito dois mil anos atrás.
Ou talvez não tenha sido realmente há muito tempo, talvez seja uma ilusão que tanto tempo tenha passado.
Talvez tenha sido há uma semana, ou mesmo hoje pela manhã. Talvez o tempo esteja acelerando, talvez, além disso, ele vá se acabar.
E se isso acontecer, os passeios na Disneylândia nunca vão ser os mesmos.
Porque quando o tempo acabar, os pássaros e os hipopótamos e leões e veados na Disneylândia, não serão mais simulações e pela primeira vez, um pássaro de verdade vai cantar.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (4/5)
Devo continuar o resto desta história peculiar?
Vou fazê-lo, depois de já ter ido tão longe.
Meu livro 'Flow My Tears' foi publicado em fevereiro de 1974. Uma semana depois que foi lançado, eu tive dois dentes do siso removido sob sódio pentotal. Mais tarde, naquele mesmo dia, eu tive uma dor intensa. Minha esposa ligou para o cirurgião e ele ligou para uma farmácia. Meia hora depois, bateram na minha porta: o entregador da farmácia com a medicação para dor. Embora eu estivesse sangrando, doente e fraco, eu senti a necessidade de atender a porta.
Quando eu abri a porta, me vi diante de uma jovem que usava um colar de ouro brilhando no centro da qual havia um peixe de ouro reluzente. Por alguma razão fui hipnotizado pelo brilhante peixe dourado; eu esqueci a minha dor, esqueci a medicação, esqueci o motivo da garota estar ali.
Eu só mantive o olhar no peixe.
"O que significa isso?" Perguntei a ela.
A menina tocou o peixe dourado brilhando com a mão e disse: "Este é um sinal usado pelos primeiros cristãos." Ela então me deu o pacote de medicação.
Naquele instante, enquanto eu olhava para o sinal de peixes brilhantes e ouvi suas palavras, de repente experimentei o que eu aprendi mais tarde que é chamado de anamnese - uma palavra grega que significa, literalmente, "perda do esquecimento." Lembrei-me quem eu era e onde estava. Num instante, num piscar de olhos, tudo voltou para mim. E não só eu podia lembrar, mas eu podia vê-lo. A menina era um cristão secreto e eu também. Nós vivemos com medo de sermos descobertos pelos romanos. Comunicávamos-nos com sinais enigmáticos.
Por um curto período de tempo, tão difícil de acreditar ou explicar, eu tive, aparecendo e desaparecendo, uma visão de uma prisão de negros e os contornos da odiosa Roma. Mas, muito mais importante, me lembrei de Jesus, que tinha acabado de estar com a gente, e tinha, temporariamente, ido embora, e que muito em breve retornaria. Minha emoção foi de alegria. Nós estávamos secretamente nos preparando para recebê-lo de volta. Não demoraria; e os romanos não sabiam. Eles pensavam que ele estava morto, morto para sempre. Esse era o nosso grande segredo, o motivo de nossa alegria.
Apesar de todas as aparências, Cristo iria voltar, e o nosso prazer e antecipação eram ilimitados.
Não é estranho que este evento absurdo, esta recuperação da memória perdida, ocorreu apenas uma semana depois de Flow My Tears ser lançado? E é Flow My Tears que contém a reprodução de pessoas e eventos do livro de Atos, o que é definido no momento preciso no tempo - logo após a morte e ressurreição de Jesus - que eu me lembrava, por meio do peixe dourado, como se tivesse acabado de acontecer?
Se você fosse eu, e isso acontecesse com você, tenho certeza de que não deixaria passar em vão. Você iria buscar uma teoria que explicasse. Por mais de quatro anos, eu tenho tentado uma teoria após a outra: o tempo circular, o tempo congelado, o tempo eterno, o que é chamado de "sagrado" em contraste com o "tempo" mundano... Eu não conseguiria enumerar as teorias que eu testei. Uma constante prevalecia, em toda as teorias. O misterioso Espírito Santo, que tem uma relação íntima com Cristo, e que pode residir na mente humana, orientar e informar-lhes, e até mesmo expressar-se através dos seres humanos, mesmo sem o seu conhecimento.
Ao escrever 'Flow my tears' em 1970, houve um evento incomum, que não era uma parte do processo de escrita normal. Eu tive um sonho especialmente vívido. E quando eu acordei eu me encontrei sob a compulsão - a necessidade absoluta - de começar o texto do livro exatamente como eu tinha sonhado.
Para isso precisei fazer onze esboços da parte final do manuscrito, até me dar por satisfeito.
Agora vou citar a o texto, como ele apareceu na forma que foi publicada. Veja se esse sonho não te lembra de nada.
O campo, marrom e seco, no verão, onde a personagem viveu quando criança. Ele montou um cavalo, e à sua esquerda vinha um pelotão de cavalos se aproximando lentamente. Sobre os cavalos andavam homens em trajes brilhantes, e cada um usava um capacete que reluziam ao sol. Os solenes cavaleiros passaram por ele e ele viu o rosto de um deles: uma face em mármore antigo, um homem terrivelmente velho com ondulação de cascatas na barba branca. E que nariz forte que ele tinha. Que características nobres. Tão cansado, tão sério, tão além dos homens comuns.
Evidentemente, ele era um rei. Felix Buckman deixou-os passar, ele não falou para eles e eles não disseram nada a ele. Juntos, todos eles iam para a casa de onde tinha vindo. Um homem tinha selado a si mesmo dentro de casa, um homem sozinho, Jason Taverner, no silêncio e no escuro, sem janelas, sozinho a partir de agora por toda a eternidade. Sentado, apenas existindo, inerte. Felix Buckman continuou, em direção ao campo aberto. E então ele ouviu um grito atrás de si. Eles haviam matado Taverner, e, ao vê-los entrar, sentindo-os nas sombras em torno dele, saber o que pretendiam fazer com ele, Taverner tinha gritado.
Dentro de si Felix Buckman sentia tristeza absoluta e total desolação. Mas no sonho ele não voltava, nem olhava para trás. Não havia nada que pudesse ser feito. Ninguém poderia ter impedido a posse de homens com roupas multicoloridas, não poderia ter sido dito que não. De qualquer forma, tudo acabou. Taverner estava morto.
Esta passagem provavelmente não sugere qualquer coisa especial para você, exceto uma legião e um julgamento sobre alguém culpado ou considerado culpado. Não está claro se Taverner de fato cometeu algum crime ou se era apenas suspeito de ter cometido algum crime. Eu tinha a impressão de que ele era culpado, mas era uma tragédia que ele tivesse que ser morto, uma tragédia muito triste.
No romance, esse sonho faz com que Felix Buckman começasse a chorar, e por isso ele procura o homem negro no posto de gasolina 24 horas.
Meses depois o romance foi publicado, eu encontrei na Bíblia a parte de que este sonho se refere.
É Daniel, 7:9
"Tronos foram instalados no local e um antigo tomou o seu lugar. Sua veste era branca como a neve e os cabelos da sua cabeça como lã limpa. Chamas de fogo foram o seu trono, e as rodas em chamas de fogo, um rio que flui de fogo transmitido para fora antes dele. Milhares e milhares o serviam e miríades de miríades a sua presença. O juiz sentou-se, e o livro foi aberto."
O homem de cabelos brancos, velho aparece novamente em Apocalipse 1:13:
"Eu vi ... um semelhante ao Filho do Homem, vestido até aos pés, com um cinto de ouro no peito. Os cabelos de sua cabeça eram brancos como a lã, brancos como a neve, e seus olhos como fogo inflamado; seus pés brilhavam como metal polido refinado numa fornalha, e a sua voz era como o som de muitas águas. "
E 1:17 então:
"Quando o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele colocou a mão direita sobre mim e disse: 'Não tenhais medo. Eu sou o primeiro e o último, e eu sou o único vivo, porque eu estive morto e agora estou vivo para todo o sempre, e tenho as chaves da Morte e do domínio da morte. Anote, portanto, que você já viu, o que é agora, e o que será daqui por diante.'”
E, como João de Patmos, escrevi fielmente o que vi e coloquei no meu romance.
E era verdade, embora na época eu não sabia o que se entende por essa descrição:
... Ele viu o rosto de um: uma face em mármore antigo, um homem terrivelmente velho, com ondulação de cascatas de barba branca. E que nariz forte que ele tinha. Que características nobres. Tão cansado, tão sério, tão além dos homens comuns. Evidentemente, ele era um rei.
Com certeza um rei. Ele é o próprio Cristo retornando para julgar. E foi assim que Ele fez em meu romance: Ele julga o homem nas trevas. O homem selado nas trevas deve ser o príncipe do mal, a força da escuridão. Dê-lhe o nome que quiser, a sua hora tinha chegado. Foi julgado e condenado. Felix Buckman poderia chorar a tristeza dele, mas ele sabia que o veredicto não poderia ser contestado. E assim ele cavalgou, sem virar-se, nem olhar para trás, ouvindo apenas o grito de medo e de derrota: o grito do mal destruído.
Então o meu romance continha material de outras partes da Bíblia, bem como as partes de Atos dos Apóstolos. Decifrado, meu romance conta uma história completamente diferente da história na superfície (que não precisamos falar aqui). A história real é simplesmente isto: o retorno de Cristo, agora rei, em vez de servo sofredor. O juiz, em vez de vítima de julgamento injusto. Tudo é invertido. A mensagem central do meu romance, sem eu saber, era um aviso para os poderosos: Você vai em breve ser julgado e condenado.
A quem, especificamente, ele se refere?
Bem, eu não posso realmente dizer, ou melhor, prefiro não dizer. Eu não tenho este conhecimento, apenas uma intuição. E isso não é suficiente para continuar, por isso vou manter meus pensamentos para mim.
Mas você pode se perguntar o que os acontecimentos políticos tiveram lugar neste país entre fevereiro e agosto de 1974. Pergunte a si mesmo quem foi julgado e condenado e caiu como uma estrela flamejante na ruína e na vergonha. O homem mais poderoso do mundo. E eu me sinto tão triste por ele agora como quando eu tive o sonho. "Esse pobre homem", eu disse uma vez à minha esposa, com lágrimas nos meus olhos. "Calado na escuridão, tocando piano no meio da noite para si mesmo, sozinho e com medo, sabendo o que está por vir." Pelo amor de Deus, vamos perdoá-lo, finalmente. Mas o que foi feito para ele e todos os seus homens - "todos os homens do presidente" - tinha de ser feito. Mas ainda há mais, e ele deve sair para o sol novamente: nenhuma criatura, nenhuma pessoa, deve ser fechada para sempre na escuridão, com medo.
Não é humano.
Ainda sobre a época da decisão do Supremo Tribunal sobre as fitas de Nixon, que tiveram de ser entregues ao procurador especial: eu estava comendo num restaurante chinês em Yorba Linda, cidade na Califórnia, onde Nixon foi para a escola - onde ele cresceu, trabalhou em uma mercearia, onde há um parque com o seu nome e, claro, a casa Nixon, de madeira simples e tudo o mais.
No meu biscoito da sorte, eu tirei a sorte que se segue:
"Deeds done in secret have a way of becoming found of" (Coisas feitas em segredo têm seu jeito para se revelar)
Eu enviei o pedaço de papel para a Casa Branca, mencionando que o restaurante chinês estava localizado dentro de uma milha da casa original de Nixon, e eu disse: "Eu acho que um erro foi cometido, por acidente encontrei a sorte (fortune) de Mr. Nixon. Será que ele tem a minha?"
A Casa Branca não respondeu.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (3/5)
Em 1974, meu livro 'Flow my tears, the policeman said' foi publicado pela Doubleday.
Uma tarde, eu estava conversando com meu pastor - eu sou anglicano - e aconteceu de eu falar com ele uma importante cena perto do final do livro em que o personagem Felix Buckman encontra um estranho em um posto de gasolina 24 horas e eles começam a conversar. Como eu descrevi a cena em detalhes , o pastor ficou cada vez mais agitado, até que, no final da minha história, ele disse: "Isso é uma cena do livro de Atos dos Apóstolos*, da Bíblia!" Em Atos, a pessoa que atende o negro na estrada se chama Felipe - o seu nome. Padre Rasch ficou tão chateado pela semelhança que não conseguiu localizar a cena em sua Bíblia. "Leia Atos dos Apóstolos," ele me instruiu. "E você vai concordar. É a mesma coisa até em detalhes específicos."
Fui para casa e li a cena descrita em Atos dos Apóstolos. Sim, Padre Rasch estava certo: a cena em meu romance foi um remake óbvio da cena bíblica... e eu nunca tinha lido Atos, devo admitir. Mas novamente o quebra-cabeça se tornou mais profundo.
Em Atos, o oficial romano que prende e interroga São Paulo se chama Felix - o mesmo nome do meu personagem. E meu personagem Felix Buckman é da polícia. Há uma conversa, em meu romance, que se assemelha muito a uma conversa entre Felix e São Paulo.
O personagem principal do meu romance se chama Jason. Olhei a Bíblia para ver se alguém chamado Jason aparece. Eu não conseguia lembrar de nenhum. Bem, um homem chamado Jason aparece apenas uma única vez na Bíblia. É no livro de Atos dos Apóstolos. E, como se a me atormentar ainda mais com as coincidências, no meu romance Jason está fugindo das autoridades e se refugia na casa de uma pessoa - e no livro de Atos dos Apóstolos um homem chamado Jason dá refugio a um fugitivo da lei em sua casa - uma inversão exata do situação em meu romance, como se o Espírito misterioso responsável por tudo isso estivesse rindo da coisa toda.
Felix, Jason, e a reunião na estrada com o homem negro que é um completo estranho.
No livro de Atos dos Apóstolos, o discípulo Felipe batiza o homem negro, que depois vai embora em regozijo. No meu romance, Felix Buckman recebe ajuda de um estranho. Sua irmã acaba de morrer e ele está desmoronando psicologicamente. O negro ajuda Buckman e ele, embora não vá embora em regozijo, pelo menos, parou de chorar. Buckman vai para casa, lamentando a morte de sua irmã, e teve de chegar a alguém, qualquer um, mesmo um desconhecido total. É um encontro entre dois estranhos na estrada - e esse encontro muda a vida de um deles - tanto em meu romance e quanto em Atos dos Apóstolos. E um truque final do Espírito misterioso: o nome Felix é a palavra latina para "feliz". Que eu não sabia quando eu escrevi o romance.
Um estudo cuidadoso do meu romance mostra que, por razões que não consigo nem começar a explicar, eu tinha conseguido recontar vários incidentes de base a partir de um determinado livro da Bíblia, e ainda dado os nomes certos. Como eu poderia explicar isso? Por quatro anos eu tentei encontrar uma teoria e não consegui. Duvido que consiga algum dia.
Mas o mistério não tinha terminado ali, como eu tinha imaginado. Dois meses atrás eu estava indo até a caixa de correio à para colocar uma carta, e também para apreciar a vista da Igreja de Saint Joseph, que fica em frente do meu prédio. Notei um homem suspeito perto de um carro estacionado. Parecia que ele estava tentando roubar o carro, ou talvez roubar algo de dentro dele; quando voltei o homem se escondeu atrás de uma árvore. Num impulso eu fui até ele e perguntei: "Aconteceu alguma coisa?"
"Eu estou sem gasolina", disse o homem. "E eu não tenho dinheiro."
Incrivelmente, porque eu nunca fiz isso antes, peguei a minha carteira, e lhe entreguei todo o dinheiro. Ele então apertou minha mão e perguntou onde eu morava, para que pudesse me pagar mais tarde. Voltei para meu apartamento, e então eu percebi que o dinheiro não lhe adiantaria nada, pois não havia nenhum posto de gasolina por perto. Então voltei, no meu carro. O homem tinha um recipiente no porta-malas do seu carro e fomos juntos, no meu carro a um posto de gasolina 24 horas. Logo estávamos lá, dois estranhos, como a bomba enchendo o recipiente de metal. De repente percebi que esta era a cena em meu romance - o romance escrito oito anos antes. O posto de gasolina 24 horas era exatamente como eu tinha imaginado na minha visão interior, quando eu escrevi a cena - a luz brilhando branco, a bomba- e agora eu percebi algo que eu não tinha notado antes: o estranho que eu estava ajudando era negro. Voltamos para o carro com a gasolina, apertamos as mãos, e depois voltei para o meu prédio. Eu nunca mais o vi. Ele não podia me pagar porque eu não lhe disse meu endereço . Eu estava muito abalado por esta experiência. Eu tinha literalmente vivido uma cena completamente como havia aparecido em meu romance. O que quer dizer, eu tinha vivido uma espécie de réplica da cena descrita em Atos, onde Felipe encontra o homem negro na estrada.
O que poderia explicar tudo isso?
A resposta a que cheguei pode não ser correta, mas é a única resposta que eu tenho.
Tem a ver com o tempo. Minha teoria é a seguinte: em certo sentido, o tempo não é real. Ou talvez seja real, mas não sentimos que seja ou imaginamos que seja. Eu tinha a certeza esmagadora (e ainda tenho) de que, apesar de todas as mudanças que vemos, existe um panorama específico e permanente subjacente ao mundo em mudança, e que este é o da Bíblia; especificamente, é o período imediatamente após a morte e ressurreição de Cristo. Ou, em outras palavras, é o período do Livro de Atos dos Apóstolos.
Parmênides estaria orgulhoso de mim.
Ele olhava para um mundo em constante mudança e declarou que por baixo dele está o eterno, o imutável, o absolutamente real. Mas como foi que isso aconteceu? Se o tempo real é por volta de S0 DC, então porque vemos 1978 DC? E se estamos realmente vivendo no Império Romano, em algum lugar na Síria, por que vemos os Estados Unidos?
Durante a Idade Média, surgiu uma teoria curiosa. É a teoria de que o Mal Supremo - Satã - é o "macaco de Deus". Que ele cria falsas imitações da criação, de criação autêntica de Deus, e, em seguida, interpolá-los com a criação autêntica. Será que esta estranha teoria ajuda a explicar a minha experiência? Será que devemos acreditar que estamos sendo enganados, que não é 1978 mas 50 DC e Satanás criou uma realidade falsa para definhar a nossa fé no retorno de Cristo?
Posso me imaginar sendo examinado por um psiquiatra. O psiquiatra diz: "Em que ano você está?" E eu respondo 50 DC. O psiquiatra pisca os olhos e em seguida, pergunta: "E onde você está?" Eu respondo, "na Judéia." "Onde diabos é isso?" pergunta o psiquiatra. "É parte do Império Romano", eu teria de responder. "Você sabe quem é o presidente?" o psiquiatra poderia perguntar, e eu respondia: "Felix". "Você está certo disso?" o psiquiatra poderia perguntar, entretanto, daria um sinal secreto para dois assistentes grandalhões. "Sim", eu respondo. "A menos que Felix tenha sido substituído por Festus. Você sabe, São Paulo foi preso por Felix... - "Quem lhe disse isso?" “o psiquiatra iria me interromper irritado, e eu responderia: "O Espírito Santo" . E depois eu estaria na sala branca, olhando para fora e sabendo exatamente como fui parar ali.
Tudo na conversa seria verdade, em certo sentido, embora não seja palpável ou verdadeiro em outro.
Sei perfeitamente que a data é 1978, e que Jimmy Carter é o presidente e que eu vivo em Santa Ana, Califórnia, nos Estados Unidos. Eu até sei como ir do meu apartamento para a Disneylândia, um fato que eu não consigo esquecer. E certamente não existia Disneylândia no tempo de São Paulo.
Então, se eu me obrigar a ser muito racional e razoável, e todas as outras coisas boas, devo admitir que a existência de Disneylândia (que eu sei que é real) prova que não estamos vivendo na Judéia em 50 DC. A idéia de São Paulo girando nas xícaras gigantes enquanto escrevia a Primeira Carta aos Coríntios, como um documentário para a TV Paris sob uma lente teleobjetiva - simplesmente não pode existir.
São Paulo nunca chegaria perto da Disneylândia. Apenas as crianças, turistas e visitantes e altos funcionários soviéticos vão para a Disneylândia.
Santos não.
Mas de alguma forma o material bíblico infiltrou-se no meu inconsciente e penetrou em meu romance, e igualmente verdadeiro, por algum motivo, em 1978, reviveu uma cena que descrevi nos idos de 1970.
O que estou dizendo é o seguinte: Não há provas internas em pelo menos um dos meus romances que uma outra realidade imutável, exatamente como Parmênides e Platão suspeitavam, subjaz ao mundo dos fenômenos, visível das mudanças, e de alguma forma, de alguma maneira, talvez para nossa surpresa, nós podemos atravessá-la. Ou melhor, um espírito misterioso pode colocar-nos em contato com ela, se quiser.
O tempo passa, milhares de anos passam, mas no mesmo instante em que vemos este mundo contemporâneo, o mundo antigo, o mundo da Bíblia, se esconde sob ele, está lá e ainda é real.
Eternamente assim.
* Atos dos Apóstolos, cap 8, versículos 26-40
terça-feira, 20 de abril de 2010
Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (2/5)
O pré-socrático Parmênides, filósofo grego ensinou que as únicas coisas que são reais são as coisas que nunca mudam... e o pré-socrático Heráclito, filósofo grego, ensinou que tudo muda. Se você sobrepuser os dois pontos de vista, você tem este resultado: Nada é real.
Há uma outra ideia fascinante junto a essa linha de pensamento: Parmênides poderia nunca ter existido, porque ele envelheceu e morreu, e desapareceu, por isso, de acordo com sua própria filosofia, ele não existiu.
Heráclito estaria certo - não vamos esquecer que, por isso, se Heráclito está certo, Parmênides não existia e, portanto, de acordo com a filosofia de Heráclito, Parmênides estava certo, talvez, desde Parmênides preenchidas as condições, os critérios, por que Heráclito julgava ser real.
Eu digo isso apenas para mostrar que, assim que você começa a perguntar o que é real, em última instância, você logo começará a dizer besteira. Zenão mostrou que o movimento era impossível (na verdade ele só imaginava que ele tinha provado isso, o que faltou foi o que tecnicamente é chamado a "teoria dos limites"). David Hume, o mais cético de todos eles, uma vez comentou que, após uma reunião de cépticos se reuniram para proclamar a veracidade do ceticismo como uma filosofia, todos os membros da reunião, no entanto saíram pela porta e não pela janela. Eu vejo o ponto de Hume.
Era tudo conversa.
Os solenes filósofos não levavam a sério o que eles diziam.
Mas eu considero que a questão da definição do que é real - isto é um assunto sério, mesmo vital. E tem também a definição do homem autêntico. Por causa do bombardeio de pseudo-realidade são produzidos seres humanos inautênticos muito rapidamente, seres humanos espúrios - tão falsos quanto os dados por todos os lados. Meus dois tópicos são realmente um tópico, eles se unem neste momento. Realidades de mentira irão criar seres humanos de mentira. Ou os seres humanos falsos irão gerar realidades falsas e, em seguida, vendê-los a outros seres humanos, transformando-os, eventualmente, em falsificações de si mesmos. Assim, acabamos com os seres humanos a inventar falsas realidades para outros seres humanos falsos. É apenas uma versão muito grande de Disneylândia.
Na minha escrita, fiquei tão interessado em falsificações que finalmente surgiu o conceito de falsificações falsas. Por exemplo, na Disneylândia existem aves falsas que funcionam por motores elétricos que emitem gritos e sons quando você passa por eles. Suponha que uma noite que nós entremos no parque com pássaros reais e substituísse os artificiais por eles. Imagine o horror dos funcionários quando descobrirem a farsa: aves de verdade! E talvez um dia até mesmo hipopótamos e leões de verdade. Consternação. O parque sendo ardilosamente transmutado do irreal para o real por forças sinistras. Por exemplo, suponha que o Matterhom se transforme em uma montanha coberta de neve verdadeira? E se todo o lugar, por um milagre do poder de Deus e sabedoria, foi alterado, num momento, num piscar de olhos, em algo incorruptível?
Eles teriam que fechar as portas.
No Timeu de Platão, Deus não criou o universo, como o Deus cristão o fez. Ele simplesmente o encontrou assim. Um caos total. Deus começa a trabalhar para transformar o caos em ordem. Essa idéia me agrada, e eu a tenho adaptado para caber nas minhas necessidades intelectuais: E se o nosso universo começou como algo não real, uma espécie de ilusão, como ensina a religião hindu, e Deus, cheio de amor e bondade para nós, transmutou-o lentamente, lenta e secretamente, em algo real?
Nós não estaríamos cientes dessa transformação, uma vez que não estavam cientes de que nosso mundo era uma ilusão, em primeiro lugar. Tecnicamente é uma idéia gnóstica. O gnosticismo é uma religião que abraçou os judeus, cristãos e pagãos durante vários séculos. Eu tenho sido acusado de explorar idéias gnósticas.
Eu acho que é verdade. Tempos atrás eu teria sido queimado.
Mas algumas destas idéias me intrigam. Uma vez, quando eu estava pesquisando sobre o gnosticismo na Enciclopédia Britânica, me deparei com a menção de um códice gnóstico chamado o Deus Irreal e os aspectos de seu Universo Inexistente, uma idéia que me levou ao riso desamparado. Que tipo de pessoa iria escrever sobre algo que ela sabe que não existe, e como é possível que algo que não existe tenha aspectos? Mas então eu percebi que eu estava escrevendo sobre esses assuntos por mais de vinte e cinco anos. Acho que há muita margem de manobra no que você pode dizer quando se escreve sobre um tema que não existe.
Um amigo meu uma vez que publicou um livro chamado 'Snakes of Hawai' (Cobras do Havaí).
Várias pessoas escreveram-lhe requisitando o livro. Bem, não há cobras no Havaí.
As páginas estavam em branco.
Claro que na ficção científica não há nenhuma pretensão de que os mundos descritos sejam reais. É por isso que chamamos de ficção. O leitor é avisado com antecedência para não acreditar no que ele está prestes a ler. É igualmente verdadeiro que os visitantes da Disneylândia entendem que o Sr. Toad realmente não existe e que os piratas são animados por motores e servo-mecanismos, relés e circuitos eletrônicos.
Portanto, ninguém fica decepcionado.
E ainda assim, a coisa estranha é que, de alguma forma, muito do que aparece sob o título "ficção científica" é verdadeiro. Pode não ser literalmente verdade, eu suponho. Nós realmente não fomos invadido por criaturas de outro sistema estelar, como em 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau'. Os produtores do filme nunca pretenderam que nós acreditássemos nisso. Ou não?
A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras.
Se você pode controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que devem usar as palavras. George Orwell deixou isso claro em seu romance "1984". Mas uma outra maneira de controlar a mente das pessoas é o de controlar as suas percepções. Se você puder levá-los a ver o mundo como você, eles vão pensar como você. Compreensão decorre da percepção. Como você pode fazê-los ver a realidade que você vê? Afinal, é só uma realidade de muitas.
As imagens são um componente básico: fotos. É por isso que o poder da TV para influenciar as mentes dos jovens é tão incrivelmente grande. As palavras e as imagens são sincronizadas. A possibilidade de controle total do espectador existe, especialmente o jovem espectador. ver TV é uma espécie de sono de aprendizagem.
Um eletroencefalograma do cérebro de uma pessoa que assiste a um programa de TV demonstra que, após meia hora, o cérebro entra no estado crepuscular hipnoidal, que emite ondas alfa. Isso ocorre porque há pouco movimento do olho. Além disso, grande parte das informações é gráfica e, portanto, passa para o hemisfério direito do cérebro, ao invés de ser processado pelo lado esquerdo, onde a personalidade consciente está situada.
As experiências recentes indicam que muito do que vemos na tela da TV é recebido em uma base subliminar.
Só imaginamos que nós vemos conscientemente o que está lá. A maior parte das mensagens iludem a nossa atenção, literalmente; após algumas horas assistindo TV, não sabemos o que vimos.
Nossas memórias são falsas, assim como nossas lembranças de sonhos. Os espaços são preenchidos a posteriori e falsificados. Temos participado inadvertidamente na criação de uma realidade falsa, e então nós temos gentilmente alimentados a nós mesmos. Somos coniventes em nossa própria destruição.
E - e faço esta afirmação como um escritor profissional de ficção - produtores, roteiristas e diretores que criam estes mundos audiovisuais não sabem o quanto do seu conteúdo é verdadeiro. Em outras palavras, eles são vítimas, junto conosco, de seu próprio produto. Falando por mim, eu não sei o quanto a minha escrita é verdade, ou que partes (se houver) são verdadeiras. Esta é uma situação potencialmente letal.
A ficção imita a verdade, e a verdade imita a ficção.
Temos uma sobreposição perigosa. E provavelmente isso não é deliberado. Na verdade, isso é parte do problema. Você não pode legislar sobre um autor em sua correta rotulagem dos produtos, como uma lata de doce, cujos ingredientes são listados no rótulo... você não pode obrigá-lo a declarar que parte é verdade e o que não é - se ele próprio não sabe.
É uma experiência assustadora escrever algo acreditando que é pura ficção, e saber mais tarde - talvez anos depois - que é verdade. Gostaria de lhe dar um exemplo. É algo que eu não entendo. Talvez você pode vir com uma teoria. - eu não posso.
Em 1970 eu escrevi um romance chamado 'Flow My Tears, the policeman said'. Um dos personagens é uma menina de dezenove anos de idade chamado Kathy. O nome do marido dela é Jack. Kathy parece trabalhar no mundo do crime; Mais tarde, ao continuarmos a leitura, descobrimos que na verdade ela está trabalhando para a polícia. Ela tem um relacionamento com um inspetor de polícia. O personagem é pura ficção.
Ou pelo menos eu achava que era.
De qualquer forma, no Natal de 1970, eu conheci uma menina chamada Kathy - isso foi depois que terminei a o livro, entenda. Ela tinha dezenove anos. Seu namorado se chamava Jack. Logo soube que Kathy era traficante de drogas. Passei meses tentando levá-la a desistir de traficar drogas. Então, uma noite quando estávamos entrando juntos em um restaurante, Kathy parou e disse: "Eu não posso entrar". Sentado no restaurante, estava um inspetor de polícia a quem eu conhecia. "Eu tenho que dizer a verdade", disse Kathy. "Eu tenho um relacionamento com ele."
Certamente, estas são coincidências estranhas.
Talvez eu tenha premonições.
Mas o mistério se torna ainda mais intrigante, e o que vem em seguida me deixou perplexo.
Há uma outra ideia fascinante junto a essa linha de pensamento: Parmênides poderia nunca ter existido, porque ele envelheceu e morreu, e desapareceu, por isso, de acordo com sua própria filosofia, ele não existiu.
Heráclito estaria certo - não vamos esquecer que, por isso, se Heráclito está certo, Parmênides não existia e, portanto, de acordo com a filosofia de Heráclito, Parmênides estava certo, talvez, desde Parmênides preenchidas as condições, os critérios, por que Heráclito julgava ser real.
Eu digo isso apenas para mostrar que, assim que você começa a perguntar o que é real, em última instância, você logo começará a dizer besteira. Zenão mostrou que o movimento era impossível (na verdade ele só imaginava que ele tinha provado isso, o que faltou foi o que tecnicamente é chamado a "teoria dos limites"). David Hume, o mais cético de todos eles, uma vez comentou que, após uma reunião de cépticos se reuniram para proclamar a veracidade do ceticismo como uma filosofia, todos os membros da reunião, no entanto saíram pela porta e não pela janela. Eu vejo o ponto de Hume.
Era tudo conversa.
Os solenes filósofos não levavam a sério o que eles diziam.
Mas eu considero que a questão da definição do que é real - isto é um assunto sério, mesmo vital. E tem também a definição do homem autêntico. Por causa do bombardeio de pseudo-realidade são produzidos seres humanos inautênticos muito rapidamente, seres humanos espúrios - tão falsos quanto os dados por todos os lados. Meus dois tópicos são realmente um tópico, eles se unem neste momento. Realidades de mentira irão criar seres humanos de mentira. Ou os seres humanos falsos irão gerar realidades falsas e, em seguida, vendê-los a outros seres humanos, transformando-os, eventualmente, em falsificações de si mesmos. Assim, acabamos com os seres humanos a inventar falsas realidades para outros seres humanos falsos. É apenas uma versão muito grande de Disneylândia.
Na minha escrita, fiquei tão interessado em falsificações que finalmente surgiu o conceito de falsificações falsas. Por exemplo, na Disneylândia existem aves falsas que funcionam por motores elétricos que emitem gritos e sons quando você passa por eles. Suponha que uma noite que nós entremos no parque com pássaros reais e substituísse os artificiais por eles. Imagine o horror dos funcionários quando descobrirem a farsa: aves de verdade! E talvez um dia até mesmo hipopótamos e leões de verdade. Consternação. O parque sendo ardilosamente transmutado do irreal para o real por forças sinistras. Por exemplo, suponha que o Matterhom se transforme em uma montanha coberta de neve verdadeira? E se todo o lugar, por um milagre do poder de Deus e sabedoria, foi alterado, num momento, num piscar de olhos, em algo incorruptível?
Eles teriam que fechar as portas.
No Timeu de Platão, Deus não criou o universo, como o Deus cristão o fez. Ele simplesmente o encontrou assim. Um caos total. Deus começa a trabalhar para transformar o caos em ordem. Essa idéia me agrada, e eu a tenho adaptado para caber nas minhas necessidades intelectuais: E se o nosso universo começou como algo não real, uma espécie de ilusão, como ensina a religião hindu, e Deus, cheio de amor e bondade para nós, transmutou-o lentamente, lenta e secretamente, em algo real?
Nós não estaríamos cientes dessa transformação, uma vez que não estavam cientes de que nosso mundo era uma ilusão, em primeiro lugar. Tecnicamente é uma idéia gnóstica. O gnosticismo é uma religião que abraçou os judeus, cristãos e pagãos durante vários séculos. Eu tenho sido acusado de explorar idéias gnósticas.
Eu acho que é verdade. Tempos atrás eu teria sido queimado.
Mas algumas destas idéias me intrigam. Uma vez, quando eu estava pesquisando sobre o gnosticismo na Enciclopédia Britânica, me deparei com a menção de um códice gnóstico chamado o Deus Irreal e os aspectos de seu Universo Inexistente, uma idéia que me levou ao riso desamparado. Que tipo de pessoa iria escrever sobre algo que ela sabe que não existe, e como é possível que algo que não existe tenha aspectos? Mas então eu percebi que eu estava escrevendo sobre esses assuntos por mais de vinte e cinco anos. Acho que há muita margem de manobra no que você pode dizer quando se escreve sobre um tema que não existe.
Um amigo meu uma vez que publicou um livro chamado 'Snakes of Hawai' (Cobras do Havaí).
Várias pessoas escreveram-lhe requisitando o livro. Bem, não há cobras no Havaí.
As páginas estavam em branco.
Claro que na ficção científica não há nenhuma pretensão de que os mundos descritos sejam reais. É por isso que chamamos de ficção. O leitor é avisado com antecedência para não acreditar no que ele está prestes a ler. É igualmente verdadeiro que os visitantes da Disneylândia entendem que o Sr. Toad realmente não existe e que os piratas são animados por motores e servo-mecanismos, relés e circuitos eletrônicos.
Portanto, ninguém fica decepcionado.
E ainda assim, a coisa estranha é que, de alguma forma, muito do que aparece sob o título "ficção científica" é verdadeiro. Pode não ser literalmente verdade, eu suponho. Nós realmente não fomos invadido por criaturas de outro sistema estelar, como em 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau'. Os produtores do filme nunca pretenderam que nós acreditássemos nisso. Ou não?
A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras.
Se você pode controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que devem usar as palavras. George Orwell deixou isso claro em seu romance "1984". Mas uma outra maneira de controlar a mente das pessoas é o de controlar as suas percepções. Se você puder levá-los a ver o mundo como você, eles vão pensar como você. Compreensão decorre da percepção. Como você pode fazê-los ver a realidade que você vê? Afinal, é só uma realidade de muitas.
As imagens são um componente básico: fotos. É por isso que o poder da TV para influenciar as mentes dos jovens é tão incrivelmente grande. As palavras e as imagens são sincronizadas. A possibilidade de controle total do espectador existe, especialmente o jovem espectador. ver TV é uma espécie de sono de aprendizagem.
Um eletroencefalograma do cérebro de uma pessoa que assiste a um programa de TV demonstra que, após meia hora, o cérebro entra no estado crepuscular hipnoidal, que emite ondas alfa. Isso ocorre porque há pouco movimento do olho. Além disso, grande parte das informações é gráfica e, portanto, passa para o hemisfério direito do cérebro, ao invés de ser processado pelo lado esquerdo, onde a personalidade consciente está situada.
As experiências recentes indicam que muito do que vemos na tela da TV é recebido em uma base subliminar.
Só imaginamos que nós vemos conscientemente o que está lá. A maior parte das mensagens iludem a nossa atenção, literalmente; após algumas horas assistindo TV, não sabemos o que vimos.
Nossas memórias são falsas, assim como nossas lembranças de sonhos. Os espaços são preenchidos a posteriori e falsificados. Temos participado inadvertidamente na criação de uma realidade falsa, e então nós temos gentilmente alimentados a nós mesmos. Somos coniventes em nossa própria destruição.
E - e faço esta afirmação como um escritor profissional de ficção - produtores, roteiristas e diretores que criam estes mundos audiovisuais não sabem o quanto do seu conteúdo é verdadeiro. Em outras palavras, eles são vítimas, junto conosco, de seu próprio produto. Falando por mim, eu não sei o quanto a minha escrita é verdade, ou que partes (se houver) são verdadeiras. Esta é uma situação potencialmente letal.
A ficção imita a verdade, e a verdade imita a ficção.
Temos uma sobreposição perigosa. E provavelmente isso não é deliberado. Na verdade, isso é parte do problema. Você não pode legislar sobre um autor em sua correta rotulagem dos produtos, como uma lata de doce, cujos ingredientes são listados no rótulo... você não pode obrigá-lo a declarar que parte é verdade e o que não é - se ele próprio não sabe.
É uma experiência assustadora escrever algo acreditando que é pura ficção, e saber mais tarde - talvez anos depois - que é verdade. Gostaria de lhe dar um exemplo. É algo que eu não entendo. Talvez você pode vir com uma teoria. - eu não posso.
Em 1970 eu escrevi um romance chamado 'Flow My Tears, the policeman said'. Um dos personagens é uma menina de dezenove anos de idade chamado Kathy. O nome do marido dela é Jack. Kathy parece trabalhar no mundo do crime; Mais tarde, ao continuarmos a leitura, descobrimos que na verdade ela está trabalhando para a polícia. Ela tem um relacionamento com um inspetor de polícia. O personagem é pura ficção.
Ou pelo menos eu achava que era.
De qualquer forma, no Natal de 1970, eu conheci uma menina chamada Kathy - isso foi depois que terminei a o livro, entenda. Ela tinha dezenove anos. Seu namorado se chamava Jack. Logo soube que Kathy era traficante de drogas. Passei meses tentando levá-la a desistir de traficar drogas. Então, uma noite quando estávamos entrando juntos em um restaurante, Kathy parou e disse: "Eu não posso entrar". Sentado no restaurante, estava um inspetor de polícia a quem eu conhecia. "Eu tenho que dizer a verdade", disse Kathy. "Eu tenho um relacionamento com ele."
Certamente, estas são coincidências estranhas.
Talvez eu tenha premonições.
Mas o mistério se torna ainda mais intrigante, e o que vem em seguida me deixou perplexo.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (1/5)
Em primeiro lugar, antes de começar a aborrecê-lo com as coisas que os escritores de ficção científica normalmente dizem em seus discursos, deixe-me trazer-lhe os cumprimentos oficiais da Disneylândia.
Eu me considero um porta-voz da Disneylândia, porque vivo a poucos quilômetros de lá - e como se isso não fosse suficiente, uma vez eu tive a honra de ser entrevistado pela Paris TV na Disneylândia.
Durante várias semanas após a entrevista, fiquei muito doente e confinado à cama. Acho que foi devido ao girar das xícaras de chá. Elizabeth Antebi, que foi a produtora do filme, me queria girando em uma das xícaras gigantes, enquanto discutia a ascensão do fascismo com Norman Spinrad... um velho amigo meu, que escreve uma excelente ficção científica.
Discutimos também Watergate, mas nós fizemos isso no convés do navio pirata do Capitão Gancho.
Criancinhas vestindo chapéus do Mickey Mouse, aqueles chapéus pretos com as orelhas, corriam esbarrando em nós, e Elizabeth fazendo perguntas inesperadas. Norman e eu estávamos preocupados com as crianças e falamos algumas coisas extremamente estúpidas naquele dia.
Hoje porém, terei de aceitar ter plena responsabilidade por aquilo que eu te disser, uma vez que nenhum de vocês está usando chapéus do Mickey, tentando subir em mim e pensando que faço parte de um navio pirata.
Escritores de ficção científica, lamento dizer, não sabem de nada.
Não podemos falar sobre a ciência, porque nosso conhecimento é limitado e não oficial e, geralmente a nossa ficção é terrível.
Alguns anos atrás, nenhuma faculdade ou universidade jamais teria considerado convidar um de nós para falar. Fomos misericordiosamente confinados a revistas populares (pulp), que não impressionavam ninguém.
Naqueles dias, os amigos me perguntavam: "Mas você está escrevendo alguma coisa séria?" o que significa "Você está escrevendo algo diferente de ficção científica?"
Nós desejamos ser aceitos. Nós nos exibimos para sermos notados.
Então, de repente, o mundo acadêmico nos enxergou, e fomos convidados para dar palestras e aparecer em convenções - e imediatamente nós fizemos de nós mesmos idiotas.
O problema é simplesmente esse:
O que um escritor de ficção científica sabe? Em que tópico ele é uma autoridade?
Isso me lembra de uma manchete que apareceu em um jornal da Califórnia, pouco antes de vir para cá. Os cientistas dizem que os ratos não podem ser feitos para parecer com seres humanos. Era um programa de pesquisa financiado pelo governo federal, eu suponho. Basta pensar: alguém neste mundo é uma autoridade sobre o tema se os ratos podem ou não calçar sapatos bicolores, chapéus, camisas listradas e calças Dacron, e se passar como seres humanos.
Bem, eu vou lhe dizer o que me interessa, o que eu considero importante. Eu não posso reivindicar ser uma autoridade em nada, mas posso dizer honestamente que certas questões me fascinam, e que eu escrevo sobre elas o tempo todo.
Os dois temas básicos que me fascinam são "O que é realidade?" e "O que é o ser humano?"
Ao longo dos vinte e sete anos em que tenho publicado romances e histórias que investigo estes dois temas relacionados repetidamente. Eu os considero temas importantes. O que somos? O que é isso que nos rodeia, a que chamamos o não-eu, ou o mundo empírico ou dos fenômenos?
Em 1951, quando vendi minha primeira história, eu não tinha idéia de que essas questões fundamentais iriam ser perseguidas pela ficção científica. Comecei a persegui-los inconscientemente.
Minha primeira história tinha a ver com um cachorro que pensava que o lixeiro que vinha todas as sextas-feiras de manhã estava roubando o valioso alimento que a família tinha estocado cuidadosamente em um recipiente metálico. Todos os dias, os membros da família carregavam sacos de papel cheios de alimentos, colocando-os no recipiente de metal, fechando bem a tampa, e quando o recipiente estava cheio, estas terríveis criaturas assombrosas vinham e roubavam tudo, exceto a lata.
Finalmente, na história, o cão começa a imaginar que algum dia o lixeiro irá comer os habitantes da casa, além de roubar sua comida. Evidentemente, o cão estava errado sobre isso.
Todos nós sabemos que lixeiros não comem pessoas. Mas a extrapolação do cão estava em um sentido lógico - tendo em conta os fatos à sua disposição. A história era sobre um cão de verdade, e eu costumava observá-lo e tentava entrar em sua cabeça e imaginar como ele via o mundo. Eu deduzi que o cão vê o mundo de forma bastante diferente do que eu, ou de qualquer ser humano vê.
E então eu comecei a pensar que talvez cada ser humano viva em um mundo único, um mundo particular, um mundo diferente daqueles habitados por todos os outros seres humanos. E isso me levou a pensar se a realidade difere de pessoa para pessoa, podemos falar da realidade singular, ou não deveríamos estar falando sobre a realidade plural? E se existem realidades plurais, elas seriam um pouco mais verdadeiras (mais real) do que outras? E o mundo de um esquizofrênico? Talvez ele seja tão real quanto o nosso mundo. Sua realidade é tão diferente da nossa que ele não pode explicar a sua para nós, e nós não podemos explicar a nossa para ele.
O problema então é que se os mundos subjetivos são experimentados diferentemente, então ocorre uma ruptura da comunicação... e este é o verdadeiro problema.
Certa vez escrevi uma história (Electric Ant) sobre um homem que foi ferido e levado para um hospital. Quando eles começaram a cirurgia nele, descobriram que ele era um andróide, não um ser humano, mas ele não sabia. Eles tiveram que dar a notícia a ele.
Quase ao mesmo tempo, o Sr. Garson Poole descobriu que a sua realidade consistia de uma fita passando de bobina em bobina em seu peito. Fascinado, ele começou a modificar esta fita e a criar novas realidades com isso. Imediatamente, o seu mundo mudou. Um bando de patos passou voando pela sala. Finalmente ele cortou a fita, e o mundo desapareceu. No entanto, também desapareceu para os outros personagens na história... o que não faz sentido, se você pensar sobre isso. A menos que os outros personagens fossem fruto da sua fantasia na fita perfurada. Eu penso que eles eram.
Meu desejo ao escrever romances e contos era fazer a pergunta "O que é a realidade?", para algum dia receber uma resposta. Esta era a esperança da maioria dos meus leitores, também.
Anos se passaram.
Eu escrevi mais de trinta livros e mais de uma centena de histórias, e eu ainda não consegui descobrir o que era real.
Um dia, uma universitária do Canadá me pediu para definir a realidade para ela, para um trabalho que estava escrevendo para sua classe de filosofia. Ela queria uma resposta em uma frase.
Eu pensei sobre isso e finalmente eu disse:
"A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece."
Isso foi em 1972. Desde então eu não tenho sido capaz de definir a realidade mais lucidamente.
Mas o problema é real, não um mero jogo intelectual. Porque hoje nós vivemos em uma sociedade na qual realidades espúrias são fabricadas pela mídia, pelos governos, pelas grandes corporações, por grupos religiosos, grupos políticos - o hardware e eletrônica existem para nos entregar esses pseudo-mundos direto na cabeça do leitor, do telespectador, do ouvinte.
Às vezes, quando vejo minha filha de onze anos assistindo televisão, eu me pergunto o que ela está aprendendo. Um programa de TV produzido para adultos é visto por uma criança pequena.
Metade do que é dito e feito na televisão é provavelmente, incompreendido pela criança. Talvez tudo seja mal compreendido.
A questão é, o quão autêntica é a informação de qualquer forma, mesmo se a criança a entendesse corretamente? Qual é a relação entre o que aparece normalmente na TV com a realidade? E sobre os programas policiais? Os carros perdem controle, batem e pegam fogo. A polícia é sempre boa e sempre vence. Não ignore esse ponto: A polícia sempre ganha.
Que lição é essa? Você não deve lutar contra a autoridade, pois se você fizer isso, você vai perder.
A mensagem aqui é: seja passivo. E coopere. Se o detetive Baretta pede informações, dê a ele essas informações, porque o detetive Baretta é um homem bom e de confiança. Ele ama você, e você deve amá-lo.
Então eu pergunto, na minha escrita, o que é real?
Porque somos incessantemente bombardeados com pseudo-realidades fabricadas por pessoas muito sofisticadas, utilizando mecanismos eletrônicos sofisticados. Eu não desconfio dos seus motivos, eu desconfio de seu poder. Eles têm muito poder. Um poder surpreendente: o de criar universos inteiros, os universos da mente. Disso eu sei. Eu faço a mesma coisa. É o meu trabalho criar universos, como base para um livro após o outro. E eu tenho que construí-los de tal maneira que eles não se desfaçam dois dias depois.
Ou pelo menos é isso que meu editores esperam.
No entanto, vou revelar um segredo a vocês: eu gosto de construir universos que se desfaçam.
Eu gosto de vê-los ruindo, e eu gostaria de ver como os personagens nos livros lidam com este problema.
Eu tenho um amor secreto pelo caos.
Não acredito - e estou falando muito sério quando digo isto - que a ordem e a estabilidade são sempre boas, em uma sociedade ou em um universo. O velho, o fossilizado, deve sempre dar lugar a uma nova vida e do nascimento de coisas novas. Antes das coisas novas poderem nascer, o que é velho deve morrer.
Esta é uma conclusão perigosa, porque nos diz que devemos abrir mão do que nos é familiar.
E isso dói. Mas isso faz parte do roteiro da vida.
A menos que possamos nos adaptar as mudanças psicologicamente, começaremos a morrer por dentro.
O que estou dizendo é que os objetos, os costumes, hábitos e modos de vida devem morrer para que o ser humano autêntico possa viver. E é o ser humano autêntico o que mais importa, o organismo viável, flexível, que pode retroceder, absorver e lidar com o novo.
Claro, eu digo isso porque eu moro perto da Disneylândia, e eles estão sempre adicionando novos passeios e destruindo os antigos. A Disneylândia é um organismo em evolução. Durante anos eles tinham um simulacro do presidente Lincoln, que, como o próprio Lincoln, foi apenas uma forma temporária de matéria e energia para em seguida desaparecer.
O mesmo é verdade para cada um de nós, gostemos ou não.
domingo, 18 de abril de 2010
A família Dick - Entrevista com Tessa DIck
Tessa B. Dick, escritora e quinta esposa do escritor Philip K. Dick.
Pergunta: Qual era o comportamento de Philip K. Dick quando estava escrevendo?
Tessa: Passava três dias seguidos escrevendo centenas de páginas. Eu não conseguia dormir também, a cada dez minutos ele perguntava como se soletrava alguma coisa, ou pedia café, ou comida. Parava cerca de dez minutos e escrevia um pouco mais.
Pergunta: Ele tinha uma sala separada para onde ia escrever?
Tessa: Bem, nós vivíamos em um apartamento de dois quartos, o que não deixa muito espaço, mas tivemos que nos mudar, porque as pessoas abaixo de nós tinham que levantar cedo e faziamos muito barulho à noite. Então nos mudamos para um apartamento sobre uma garagem. Tivemos Chris, que gritava constantemente. Ele era 'agitado"... Chris se tornou um personagem em um dos romances.
Pergunta: Qual?
Tessa: Na verdade, a filha de Phil, Laura, e Chris estavam em 'A Transmigração de Timothy Archer'. Chris era o personagem Manny... Emanuel. Emanuel significa algo como "o Senhor vem" e Christopher significa "portador de Cristo". Laura era o personagem Angel, e na novela, Manny e Angel se uniam para salvar o mundo.
Pergunta: Mais alguma coisa que você lembra sobre seu processo de escrita?
Tessa: Logo depois de 'O Homem do Castelo Alto' ele escreveu seis romances em seis semanas, porque ele sabia que iria receber o prêmio Hugo e queria ganhar dinheiro rápido, porque estava quebrado. Quando estava comigo, Dick escreveu 'A Scanner Darkly' em menos de duas semanas. Mas passou três anos reescrevendo-o. Eu fiquei cheia daquilo. A última vez que a editora enviou provas para fazermos as correções apontadas, eu me recusei a fazê-lo. Sempre que eu queria mudar algo além da ortografia, tínhamos uma grande discussão, então eu percebi que era melhor deixa-lo sozinho.
Pergunta: Então você estava envolvida em seu processo de escrita?
Tessa: Em 'A Scanner Darkly' sim.
Pergunta: Havia livros que ele particularmente se importava, mais do que outros?
Tessa: Ele achava que 'O Homem do Castelo Alto' era sua obra prima, mas ele esperava escrever outro.
Pergunta: Seu comportamento quanto à escrita, teve qualquer alteração ao final da sua vida?
Tessa: Sua escrita era a única presença constante em sua vida. Ele queria ser um músico quando era jovem, mas tinha mais vontade do que talento, por isso ele se tornou um escritor. É onde ele tinha talento
Pergunta: O que ele tocava?
Tessa: Triângulo, com Harry Parch. Ele batia no triângulo (risos). Parch foi um músico de vanguarda do norte da Califórnia. Ele fazia seus próprios instrumentos ... Phil trabalhou na loja de discos Tower Records em San Francisco por um longo tempo, e queriam promovê-lo para gerente, mas a sua agorafobia foi piorando. Ele não gostava de ficar perto das pessoas, e ele era um vendedor. Foi assim que conheceu sua ex-esposa, Cleo. Eram ambos estudantes da Universidade Berkeley e ela comprava discos lá.
Pergunta: O que ele estudou em Berkeley?
Tessa: Phil estudou filosofia por um semestre, e em seguida saiu, porque eles tinham Treinamento Militar obrigatório (Reserve Officers' Training Corps) por conta da guerra da Coréia estar acontecendo.
Chris: Conte para ela sobre a vassoura.
Tessa: No treinamento eles tinham que marchar com seus rifles M-1. Mas ele marchava com uma vassoura porque não queria carregar uma arma, e disseram que ele não poderia fazer isso. Bem, na semana seguinte eles estavam aprendendo a desmontar e montar o M-1, mas de alguma forma, acidentalmente Phil deixou cair o pino de disparo e inutilizou a arma. Assim, marchou com a arma quebrada, e tirou uma nota 'F' em Treinamento Militar, o que o mandou para fora da universidade. Ele nunca contou a mesma história da mesma forma duas vezes, mas alguns detalhes permanecem os mesmos. Enfim, ele saiu da faculdade porque ele simplesmente não conseguia lidar com a coisa militar. Depois disso ia se alistar, pois já não tinha a sua isenção por estar na faculdade. Foi quando ele descobriu sobre sua pressão arterial elevada. Eles não iriam aceitá-lo. Ele ia se juntar ao exército e lutar na guerra, porque era melhor do que ser desertor, mas ele não faria o treinamento para ser um tenente medroso escondendo-se na tenda. Ele era contra a guerra, mas se era para fazer isso, ele ia ser bucha de canhão, não um oficial.
Tessa (para Chris): Você se lembra das moedinhas na casa de (K W ) Jeeter? "
Chris: Nós estávamos arremessando centavos, competindo, e ganhei cerca de oito ou nove moedas, e por alguma razão, meu pai e eu saímos. Estávamos sentados na escada, e um mendigo se aproximou, perguntando se nós poderíamos lhe dar uma moeda para comprar uma xícara de café. Enfiei a mão no meu bolso e dei para o cara todas que eu tinha ganho. Meu pai ficou muito orgulhoso de mim, porque ele era assim, ele realmente se preocupava com as pessoas, e até sentia pena de alguns deles. Acho que ele ficou realmente surpreso, que um menino de sete anos de idade fosse desistir de seu dinheiro... mas a minha lembrança favorita foi quando ele me levou para comprar brinquedos da série Star Wars.
Foi muito difícil fazer com que ele fizesse isso... nós compramos um "Millennium Falcon".
Isso foi sensacional para mim, porque ele nunca foi comigo em qualquer lugar, nunca saiu de sua casa comigo antes. Eu não percebia a importância disso, mas quanto mais velho fico, menos eu quero ir para qualquer lugar. Vivemos nas montanhas, numa estrada de terra, no meio do nada.
Ranea: Sim, eu tive que implorar para ele me levar para lugares como a Disneylândia.
Tessa: Phil me levou para a Disneylândia uma vez e conseguimos permanecer por cerca de duas horas até que ele saiu para o estacionamento e sentou no capô do carro. Ele não podia entrar no carro e ir para casa porque nossos amigos haviam nos levado lá, então apenas esperou. Ele não aguentava multidões.
Chris: Ele não gostava de dirigir também. Eu me lembro que ele teve um carro, por cerca de três ou quatro anos antes de falecer, e que só tinha cerca de 900 km rodados.
Tessa: Durante vários anos não teve carro. Ele só vivia em lugares onde podia chegar à pé em toda parte...
Chris: Estou muito animado com o filme "Minority Report" de Steven Spielberg e Tom Cruise. Spielberg não erra. Quanto a "Total Recall" e "Blade Runner", ambos foram muito bem. "Screamers" foi de baixo orçamento. Gostei da história. Eu pensei que seria muito bom, mas não gostei por ser de baixo orçamento, porque significa que o filme não seria tão bom, e acho que isso prejudicou sua imagem. Mas eu acho que "Minority Report" vai realmente ajudar a torná-lo mais popular. O que eu realmente gosto é que os filmes atingem um grande número de pessoas, e isso os leva para desfrutar de seus livros, porque as pessoas não lêem muito ele...
Tessa: Quando "Blade Runner" recebeu uma classificação 'R'(tema adulto), a Mattel interrompeu a fabricação de todos os brinquedos da linha "Blade Runner", porque ninguém vende brinquedos para crianças a partir de um filme de classificação adulta. É claro que hoje não seria problema, mas na época foi. Mas um dia, eu os vi na loja (Mervyns) pela metade do preço, e comprei todos que consegui.
Pergunta: Quando foi isso?
Tessa: Logo após o filme sair, e Phil tinha acabado de morrer.
Annie: Então ele estava vivo durante as filmagens?
Tessa: Ele foi ver o copião, que não era bom, e viu após o remake, que era muito melhor.
Pergunta: Como ele se sentiu sobre o filme em geral?
Tessa: Bem, ele estava muito feliz com ele, depois que David Peoples, um médico de scripts, deu um jeito no roteiro. O principal foi que Peoples introduziu os pequenos animais de origami, porque o livro de Phil trata principalmente de animais, e que vamos perdê-los porque nós não cuidamos deles. O roteiro original era apenas um monte de robôs e pessoas atirando. Mas era isso que as pessoas queriam ver!
Chris: Claro, o artista se interessa mais com a história... Era interessante como eles estavam fazendo animais-robôs porque ainda tinham o desejo de ter animais de estimação, mesmo quando não poderiam ter a coisa real. O que foi interessante também foi que todas as raças eram misturadas, as pessoas estavam falando idiomas misturados, as cidades estavam lotadas, e o crime imperava. Sua ficção científica é tão boa, eu acho, porque não é selvagem, inimaginável, tipo uma fantasia sobre coisas que nunca acontecerão. Essas coisas realmente estão acontecendo, ou vão acontecer. Volte à década de 50, quando o livro foi escrito, o que parecia uma fantasia agora é uma realidade.
Tessa: Na caverna de Platão você está sentado e amarrado, e não pode mover-se. Você não pode sequer virar a cabeça. Atrás de você, as pessoas estão carregando objetos, passando pela abertura da caverna, de modo que o sol projeta a sombra dos objetos na parede da caverna. Tudo que você vê é a sombra, assim você acredita que eles são objetos reais. Se você fosse arrastado para fora, no primeiro momento você ficaria cego pela luz do sol, porque você cresceu na escuridão da caverna. Quando seus olhos se acostumassem à luz do sol, você começa a ver o mundo real, e você acreditaria ser uma alucinação. Para você, as sombras são "reais", mas os objetos reais não são "reais". Nos romances de Phil, muitas vezes o que parece ser real acaba por ser uma alucinação, enquanto as alucinações aparentam ser reais.
Tessa: Phil ouviu muitas histórias de seu avô, que lutou contra os nativos americanos no final de 1800. Phil tinha grande respeito por nativos americanos e suas tradições, embora ele não fosse nativo americano. Phil acreditava que tinha um guia espiritual, e que seu espírito-guia era um antigo xamã nativo americano. Sou parte Cheroke e as pessoas que conhecem rostos, me dizem que sou nativo americana, apenas olhando para minha cara, embora a maioria das pessoas nem sequer pensem nisso.
Tessa: Eu estou contente de ver que Phil está finalmente recebendo a atenção de alguns que ele merecia. Pena que não o conseguiu durante sua vida.
Pergunta: O filme "Blade Runner", do livro 'Do androids Dream of electric Sheep?' e todo o legado de PKD, são uma referência com a qual a melhor Ficção Científica será comparada por um longo tempo.
Tessa: Fico feliz de ver que Hollywood começa a levar Phil a sério. "Blade Runner"(O Caçador de Andróides) deveria abordar um lado escuro de Phil, mas faltou profundidade e espiritualidade. "Total Recall" (O Vingador do Futuro) tinha o seu senso de humor, mas faltou as questões filosóficas que Phil explorava em sua escrita. "Screamers" nem sequer tentou. Eu tinha grandes esperanças para o "Impostor", mas não foi bom...Chris me levou para ver Minority Report ... foi a segunda vez que Chris viu... e nós ficamos bem impressionados. A primeira vez que Chris viu, ele estava de ressaca e não tinha dormido por três dias, e ele não gostou, mas na segunda, sóbrio e depois de ter dormido bem, ele gostou mais do que eu. O que mais me impressionou foi que o público estava quieto, atento e respeitoso ... não é um fenômeno comum em um cinema americano.
Pergunta: Vi "Impostor" e "Minority Report"... Na verdade, eu não quis saber das resenhas. Encarei "Impostor" como um conto ...Entrei com isso em mente ... uma história curta de um autor de primeira linha, escrita em 1951, creio eu, pouco tempo depois da Idade de Ouro da FC... um período maravilhoso com gente como Beaumont, Serling, Bradbury, Bloch, Del Rey, uma lista grande demais para sequer tentar enumerar aqui...
Tessa: "Total Recall"... as pessoas na platéia foram fisgadas no minuto e mque as portas foram abertas, só tinham os efeitos especiais para seus olhos, e no fim, onde se abraçam e se beijam. E Marte ... hey, eles poderiam estar certo sobre o vulcão cheio de água ... vocês viram no site da NASA? Mas você deveria ter visto "Blade Runner" antes de David Peoples fazer sua mágica com o roteiro e eles terem refilmado algumas cenas. Ridley Scott disse para Phil que não seria mais um filme de efeitos especiais. Não? Nada mais do que as ruas de San Francisco transplantadas para Los Angeles... nem era uma boa história de Raymond Chandler, era apenas tiros e mais tiros. Rutger Hauer estava excelente. Eu também gostei dele em Lady Hawke (Feitiço de Áquila). Bem, tenho que dizer. "Blade Runner" deixou de fora o melhor do livro - as caixas de Mercer. Uma espécie de sexo por telefone com algo a mais ... você realmente precisa experimentá-la, ao invés de falar sobre elas... e depois Mercer aparece em suas visões e diz para eles para proteger os animais e a vida.
Pergunta: Eu tinha esquecido das caixas Mercer... li o livro faz tempo ... me lembra 'Brave New World'... tenho a sensação de que poderia ser feito um outro filme a partir disso, com Tom Cruise... se alguém jogasse as cartas certas, uma abordagem Tom Cruise (sacrilégio!), um remake de BR usando as caixas de Mercer. Ao mesmo tempo lembro que Ridley Scott teve problemas intermináveis com o financiamento para o filme. Independentemente de suas falhas, é um milagre que tenho sido feito, e obviamente será um cult movie eterno. Eu tenho tanto a versão comercial quanto a do diretor em DVD.
Tessa: Bem, O "Blade Runner de Philip K. Dick", poderia ser melhor do que o "Frankenstein de Mary Shelley" ou o "Drácula de Bram Stoker". Coppola seria o único que poderia fazê-lo, não acha? A obra de PKD é muito mais popular agora, desde que Tom Cruise fez a turnê de divulgação... ele é um grande fã, sabia?
Pergunta: Eu gostaria de saber se há qualquer plano para filmar o trabalho não-FC de Dick, como 'Confessions of a crap artist'. Ou se existem planos para filmar 'Ubik' ou 'O Homem do Castelo Alto' (ambos FC e muito conhecidos).
Tessa: Tanto quanto eu sei, o único filme novo é 'A Scanner Darkly', pela Warner Bros, que será dirigido por George Clooney.
Pergunta: O que acontece com a FC de Dick para servir tão bem para os produtores de Hollywood?
Tessa: Os personagens são bem redondos, facilita para os atores. A visão do futuro de Phil dá aos produtores a confiança de que suas obras vão se tornar grandes filmes com grandes idéias, e não apenas algo descartável, ou filmes que fazem você sentir-se bem.
Pergunta: E Minority Report?
Tessa: Minority Report se baseia em idéias do seu trabalho como um todo, apresentando uma visão holística da visão paranóica que o perseguia. O roteirista interpretou corretamente a sua visão filosófica, como um conto preventivo sobre o pesadelo que está esperando por nós, se escolhermos segurança ao invés de liberdade.
Pergunta: De todas as obras adaptadas para o cinema... "Blade Runner", "O Vingador do Futuro", "Impostor", "Minority Report"... qual foi a mais fiel ao espírito de Dick? E quais foram menos?
Tessa: "Minority Report" é a mais fiel. "Screamers" continua sendo o menos fiel ... me faz lembrar um antigo filme B no mesmo gênero como "O Homem do Planeta X".
Pergunta: Porque você acha que os títulos originais de Dick raramente são utilizados? Ou seja, "Blade Runner" ao invés de "Do Androids..." ou "Total Recall" ao invés de "We Can Remember It For You Wholesale"?
Tessa: Na verdade os livros raramente possuem os títulos originais de Phil, os editores geralmente escolhiam novos títulos depois de lerem seus manuscritos. Phil muitas vezes comentou que ele não poderia escrever bons títulos. Se pudesse teria sido um escritor de publicidade, em vez de romancista.
Pergunta: Os efeitos especiais... ajudam ou prejudicam? Qual você acha que teria sido a adaptação favorita do autor, independentemente de fidelidade ao seu trabalho? E por quê?
Tessa: Efeitos especiais prendem a atenção do público, trazem mais jovens ao cinema. Phil teria gostado de "Minority Report" mais do que dos outros, principalmente porque se passa em Washington, DC, onde passou os anos mais felizes de sua infância. Além disso o herói vence pelo intelecto e não pela aptidão física.
Pergunta: Muito do trabalho de Dick parece ser sobre o conceito de identidade, e o que é identidade. Você acha que "Minority" captura esta noção? Mais do que os outros?
Tessa: "Blade Runner" e "Minority Report" mostram a preocupação de Phil sobre o que faz de nós seres humanos, criaturas morais. Os outros filmes não atingem esse objetivo. "Screamers" prometia uma exploração destes conceitos, mas foi um clone de filmes B, voltados para 'a critaura', como "A Noite dos Mortos Vivos" ou "The Creature from 20,000 Fathoms". Fiquei decepcionada com esse filme.
Entrevistas com a viúva de Philip K. Dick e seus filhos Chris Dick e Ranea Dick.concedida a Annie Knight (Deep Outside) e a John T. Cullen, AL Sirois e John K. Muir.
sábado, 17 de abril de 2010
O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 3)
NUM PRÉDIO gigantesco, vazio, em ruínas, que outrora abrigara milhares de pessoas, um único aparelho de TV anunciava seus produtos à sala vazia.
Antes da Guerra Mundial Terminus, aquela ruína sem dono fora habitada e bem conservada. Ali era um dos subúrbios de São Francisco, a uma curta distância pelo monorail expresso: a península inteira tagarelara como uma árvore cheia de pássaros, transbordante de vida, opiniões e queixas, e, naquele momento, seus zelosos proprietários ou haviam morrido ou emigrado para um mundo-colônia. Principalmente, a primeira alternativa; a guerra fora dispendiosa, a despeito das previsões valentes do Pentágono e de sua autocomplacente nave científica, a Rand Corporation — que, na verdade, existira não muito longe dali. Como os donos de apartamento, a empresa fora embora, evidentemente para sempre.
Ninguém lhe sentia a falta.
Além disso, ninguém hoje se lembrava por que estourara a guerra ou quem, se é que alguém, a vencera.
A poeira que contaminara a maior parte do planeta não se originara em país algum, e ninguém, nem mesmo o inimigo do tempo da guerra, contara com ela.
Em primeiro lugar, estranhamente, morreram as corujas. Na ocasião, este fato pareceu quase engraçado, os gordos e fofos pássaros brancos caídos aqui e ali, em quintas e em ruas. Aparecendo não antes do anoitecer, como no tempo em que viviam, ninguém as notou. Pestes medievais haviam-se manifestado de maneira parecida, sob a forma de numerosos ratos mortos.
Esta peste, contudo, descera das alturas.
Depois das corujas, claro, seguiram-se outras aves, mas, por essa altura, o mistério já fora descoberto e bem compreendido. Antes da guerra, estivera em andamento um modesto programa de colonização, mas agora que o sol deixara de brilhar sobre a Terra, o esquema entrou numa fase inteiramente nova. Em conexão com o mesmo, uma arma de guerra, o Combatente Sintético, fora modificada. Capaz de funcionar em um mundo alienígena, o robô humanóide — estritamente falando, o andróide orgânico — transformara-se na besta de carga móvel do programa de colonização.
De acordo com uma lei promulgada pelas Nações Unidas, todos os emigrantes recebiam, automaticamente, a posse de um subtipo andróide de sua escolha e, por volta de 1990, a variedade desses subtipos desafiava todo e qualquer entendimento, assim como acontecera com os automóveis americanos na década de 60.
Este fora o incentivo final: o servo andróide como cenoura, e a precipitação radiativa como porrete.
As Nações Unidas haviam tornado fácil emigrar, e difícil, senão impossível, permanecer.
Potencialmente, continuar na Terra significava o indivíduo, de repente, ver-se classificado como biologicamente inaceitável, uma ameaça à hereditariedade cristalina da raça. Uma vez classificado como especial, o cidadão, mesmo que aceitasse a esterilização, desaparecia da história. Deixava, na verdade, de fazer parte da humanidade.
Ainda assim, aqui e ali, pessoas recusavam-se a emigrar. Isto, mesmo para os indivíduos envolvidos, constituía uma irracionalidade que confundia. Logicamente, todos os regulares já deviam ter emigrado. Talvez, deformada como estava, a Terra continuasse familiar, uma coisa à qual se apegar. Ou, possivelmente, o não-emigrante pensava que o toldo de poeira acabaria finalmente por se esgotar.
De qualquer modo, permaneceram milhares de indivíduos, a maioria aglomerada em áreas urbanas, onde podiam mutuamente se ver, se animar com a presença mútua. Estes pareciam ser os relativamente sensatos. Mas em duvidoso acréscimo a eles, permaneciam ocasionais entidades peculiares nos subúrbios virtualmente abandonados.
John Isidore, o alvo dos berros de seu aparelho de televisão, enquanto se barbeava no quarto, era um deles.
Andando ao léu, simplesmente chegara a este lugar nos primeiros dias depois da guerra. Naqueles tempos horrendos, ninguém soubera, realmente, o que andava fazendo. Populações inteiras, desenraizadas pela guerra, vaguearam de um lado para outro, grilaram em primeiro lugar uma região e depois outra.
Naquela época, a precipitação fora esporádica e altamente variável, com alguns Estados quase livres dela, enquanto outros eram saturados. Os deslocados moviam-se com o deslocamento da poeira. No início, a península sul de São Francisco estivera livre da poeira e grande número de pessoas reagira, fixando-se ali. Ao chegar a poeira, uns morreram e outros foram embora. J. R. Isidore permanecera.
O aparelho de TV berrava: . duplicatas dos dias dourados dos Estados do Sul antes da Guerra Civil! Seja como criado particular seja como incansável trabalhador braçal no campo, o robô humanóide fabricado sob medida — projetado especificamente PARA SUAS PRÓPRIAS NECESSIDADES, PARA VOCÊ E SOMENTE PARA VOCÊ — é-lhe entregue à sua chegada, inteiramente gratuito, totalmente equipado, da forma especificada por você antes de sua partida da Terra. Este companheiro leal, que não lhe causará problema algum, na maior e mais ousada aventura imaginada pelo homem na história moderna lhe dará..." E assim continuava, interminavelmente.
Será que estou atrasado para o trabalho, perguntou a si mesmo Isidore, enquanto continuava a raspar o rosto. Não possuía um despertador de trabalho. De modo geral, dependia dos sinais da TV para saber que horas eram. De qualquer modo, a TV alegava que aquele era o quinto (ou sexto?) aniversário da fundação da Nova América, a principal colônia americana em Marte. Seu aparelho de TV, parcialmente quebrado, pegava apenas o canal que fora nacionalizado durante a guerra e que assim continuava.
O governo, em Washington, dando prosseguimento ao programa de colonização, era o único patrocinador, ao qual Isidore era obrigado a ouvir.
"Vamos ouvir agora a palavra da Sra. Maggie Klugman", sugeriu o locutor a Isidore, que queria apenas saber a hora. "Imigrante recém-chegada a Marte, vamos ouvir a Sra. Klugman numa entrevista gravada ao vivo em Nova York. Sra. Klugman, de que modo a senhora compara sua vida na contaminada Terra com sua nova vida aqui, num mundo rico com todas as possibilidades imagináveis?"
Uma pausa e, em seguida, uma voz cansada, seca, de mulher de meia-idade, respondendo: "Acho que o que eu e minha família mais notamos aqui foi a dignidade".
"Dignidade, Sra. Klugman?", perguntou o locutor. "Isso mesmo", confirmou a Sra. Klugman, agora da nova York, em Marte. "É uma coisa difícil de explicar, ter um criado particular, no qual a gente pode confiar nestes tempos perturbados... Acho isto tranqüilizador."
"Lá na Terra, Sra. Klugman, nos velhos dias, a senhora também se preocupava com a possibilidade de ser classificada como especial?"
"Oh, meu marido e eu quase morríamos de preocupação. Claro, logo que emigramos, a preocupação desapareceu, felizmente para sempre."
Para si mesmo, pensou amargamente John Isidore: e para mim, também, sem eu ter que emigrar. Era um especial há mais de um ano, e não apenas no tocante aos genes deformados de que era portador. Pior ainda, não conseguira passar no teste de faculdades mentais mínimas, o que o tornava em linguajar popular, um debilóide. Sobre ele descia o desprezo de três planetas. Contudo, a despeito de tudo isto, sobrevivia. Tinha seu emprego, de dirigir uma camioneta e o caminhão de entregas de uma firma de consertos de falsos animais.
O Van Ness Hospital para Bichos de Estimação e seu sombrio e gótico dono, Hannibal Sloat, aceitaram-no como ser humano e isto ele apreciava.
Mors certa, vita incerta, declarava ocasionalmente Sloat.
Isidore, embora houvesse escutado essa expressão certo número de vezes, tinha apenas uma vaga idéia do que ela significava. Afinal de contas, se um debilóide conseguia entender latim, então ele deixava de ser debilóide. Sloat, quando isto lhe fora mencionado, reconhecera a verdade da observação. E havia debilóides infinitamente mais estúpidos do que Isidore, que não podiam desempenhar função alguma e que permaneciam em asilos estranhamente denominados de "Instituto de Ofícios Especiais da América", tendo, como sempre, a palavra "especial" se introduzido no título, de alguma maneira.
"... seu marido não sentia proteção", dizia o locutor da TV, "embora possuísse e usasse continuamente um caro, desajeitado protetor genital de chumbo, Sra. Klugman?"
"Meu marido...", começou a Sra. Klugman, mas, nesse momento, tendo acabado de barbear-se, Isidore entrou na sala e desligou a TV.
Silêncio, que saltou das obras de madeira e das paredes e o sufocou com um terrível e total poder, como se gerado por uma imensa usina motriz.
Subia do chão, do carpete cocado que ia de parede a parede, soltava-se dos eletrodomésticos quebrados e semi-quebrados da cozinha, as máquinas mortas que nem uma única vez haviam funcionado desde que estava ali. Escorria do poste de iluminação inútil da sala de estar, misturando-se com a vazia e muda descida de si mesmo do teto manchado por moscas. Conseguia, na verdade, emergir de todos os objetos dentro de seu campo de visão, como se ele — o silêncio — quisesse suplantar todas as coisas tangíveis. Daí, assaltava não só seus ouvidos, mas também seus olhos. Ao lado do aparelho apagado de TV, experimentou-o como se fosse visível e. à sua própria maneira, vivo. Vivo! Antes, sentira com freqüência sua austera aproximação; quando chegava, estourava sem sutileza, evidentemente incapaz de esperar.
O silêncio do mundo não podia controlar mais sua cobiça. Não mais.
Não, quando virtualmente vencera.
Perguntou-se se as outras pessoas que haviam permanecido na Terra experimentavam assim o vazio. Ou seria isto peculiar à sua peculiar identidade biológica, uma anormalidade criada por seu inepto aparelhamento sensorial? Questão interessante, pensou. Mas com quem poderia ele comparar notas?
Vivia sozinho nesse prédio cego, em ruínas, de mil apartamentos desocupados que, como todos seus iguais na cidade, dia após dia, mergulhava em ruína entrópica cada vez maior. No fim, tudo no prédio se misturaria, seria anônimo e idêntico, um mero monte, parecendo um pudim e elevando-se até o teto de cada apartamento.
E depois disso, o edifício abandonado se acomodaria e mergulharia em indistinção, sepultado pela poeira eternamente presente. Mas, por essa altura, claro, ele mesmo estaria morto, outro fato interessante a prever, pensou, enquanto permanecia ali sozinho na sala de estar abandonada, apenas com o silêncio do mundo, um silêncio sem pulmões, que a tudo penetrava, irresistível.
Melhor, talvez, voltar a ligar a televisão. Os anúncios, porém, dirigidos aos regulares que restavam, amedrontavam-no. Informavam-no, de um número incontável de maneiras, que ele, um especial, não era desejado. Não tinha utilidade. Não podia, mesmo que quisesse, emigrar. Neste caso, por que escutar? perguntou-se, irritado. Diabos os levem, a eles e sua civilização. Espero que lá aconteça uma guerra — afinal de contas, teoricamente, isto podia acontecer — e que eles acabem como a Terra.
E que todos os que emigrarem se transformem em especiais,
Muito bem, pensou, vou trabalhar. Estendeu a mão para a maçaneta que abria a porta para o corredor apagado e encolheu-se todo ao ver a vacuidade do resto do edifício. A vacuidade estava à espera dele, ali fora, a força que sentira, muito ocupada, penetrando em seu apartamento específico. Deus, pensou, e voltou a fechar a porta. Não estava pronto para escalar aqueles degraus ressoantes até o telhado vazio, onde não possuía animal algum. O eco de si mesmo, subindo; o eco de coisa alguma. Tempo de agarrar os guidões, disse a si mesmo, e cruzou z sala de estar até a caixa preta de empatia.
Ao ligá-la, o leve e habitual cheiro de íons negativos subiu do suprimento de energia; inalou-o ávido, já se animando. Em seguida, o tubo de raios catódicos brilhou como uma imagem de TV, fraca, de imitação, uma colagem formada de cores aparentemente ao acaso, rastros, e configurações que, até que os guidões fossem agarrados, nada significava. Assim, tomando uma profunda respiração para se controlar, segurou os punhos gêmeos.
A imagem tornou-se nítida e viu imediatamente uma paisagem famosa, a velha, parda, estéril ladeira, com tufos de ervas secas que pareciam ossos, apontando, inclinadas, para um céu sombrio e sem um sol. Uma única figura, de forma mais ou menos humana, subia cansadamente a encosta, um homem velho usando um robe informe, de cor baça, uma proteção tão insuficiente como se houvesse sido arrancada do vazio hostil do céu.
O homem, Wilbur Mercer, continuava a subir laboriosamente, enquanto, segurando-se ao guidão, John Isidore, aos poucos, experimentava o desaparecimento da sala de estar onde se achava; os móveis arruinados e as paredes se esfumaram, e deixou absolutamente de vê-los. Descobriu-se, em vez disso, mais uma vez entrando na paisagem da colina desolada, do céu desolado. Simultaneamente, não viu mais a subida do velho. Seus próprios pés, nesse momento, arrastavam-se, procuravam apoio, entre as pedras soltas conhecidas; sentia a mesma velha, dolorosa, irregular aspereza sob os pés e, novamente, o cheiro da névoa acre do céu — não o céu da Terra, mas de algum lugar alienígena, distante, mas, ainda assim, graças à caixa de empatia, bem presente.
Fizera a travessia da maneira habitual e desnorteante, e a fusão física — acompanhada de identificação mental e espiritual — com Wilbur Mercer viera a acontecer. Como fazia com todas as pessoas que, neste momento, seguravam os punhos gêmeos, aqui na Terra ou em um dos planetas-colônias. Experimentou-os, os outros, incorporou a tagarelice de seus pensamentos, ouviu em seu próprio cérebro o ruído de suas muitas existências individuais. Eles — e ele — importavam-se com uma única coisa, apenas, e esta fusão de suas mentalidades orientava-lhes a atenção na colina, na subida, na necessidade de ascender. Passo após passo ela continuava, tão lenta que era quase imperceptível. Mas estava ali. Mais alto, pensou, enquanto pedras corriam barulhentas sob seus pés. Hoje, chegamos mais alto do que ontem e, amanhã — ele, a figura composta de Wilbur Mercer, ergueu os olhos para examinar a ladeira à frente.
Impossível distinguir o fim. Longe demais. Mas o fim chegaria.
Uma pedra, lançada contra ele, atingiu-lhe o braço. Sentiu a dor. Virou-se parcialmente e outra pedra passou por ele, errando, bateu na terra, e o som sobressaltou-o. Quem?, perguntou-se, procurando ver se identificava seu atormentador. Os velhos antagonistas, manifestando-se na periferia de sua visão.
Aquilo, ou eles, haviam-no seguido o caminho todo, morro acima, e continuaria até o topo.
Lembrou-se do topo, do inesperado nivelamento da colina, quando termina a subida e começa a outra parte. Quantas vezes fizera aquilo? As várias vezes se tornaram indistintas; futuro e passado se tornaram indistintos um do outro, o que já experimentara e o que finalmente experimentaria, fundiram-se, de modo que nada restou, senão o momento, a parada ali e o descanso, durante o qual esfregou o corte deixado em seu braço pela pedra. Deus, pensou cansadamente, de que maneira é isto justo? Por que estou sozinho aqui em cima, sendo atormentado por alguma coisa que nem mesmo consigo ver? Em seguida, no seu íntimo, a tagarelice mútua de todo mundo na fusão quebrou a ilusão de solidão.
Você também sentiu isso, pensou ele. Sim, responderam as vozes. Fomos atingidos, no braço esquerdo; dói como o diabo. Muito bem, disse ele, é melhor começarmos a nos mover outra vez. Voltou a andar e todos os outros o acompanharam no mesmo instante.
Certa vez, lembrou-se, aquilo fora diferente. Muito tempo antes, antes da chegada da maldição, numa parte mais antiga e mais feliz de sua vida. Eles, seus pais adotivos, Frank e Cora Mercer, haviam-no encontrado flutuando numa balsa de avião, inflada, ao largo da costa da Nova Inglaterra... ou fora no México, perto do porto de Tampico? Não se lembrava nesse momento das circunstâncias. A infância fora boa; amara toda a vida, especialmente os animais, conseguira mesmo, na verdade, reviver animais mortos da forma como haviam sido antes. Vivera com coelhos e insetos, onde quer que houvesse sido, na Terra ou num mundo-colônia, agora esquecera disso, também. Mas lembrava-se dos matadores porque o haviam capturado como um anormal, mais especial do que os demais especiais. E, devido àquilo, tudo mudara.
A lei local proibia a faculdade de reversão do tempo, graças à qual os mortos voltavam à vida haviam-lhe dito isso com toda a clareza possível durante seu décimo sexto ano.
Continuara a fazer isso secretamente por mais um ano, nos bosques que ainda restavam, mas fora denunciado por uma velha que nunca vira e de quem nunca ouvira falar. Sem consentimento de seus pais, eles — os matadores — haviam bombardeado o nódulo excepcional que se formara em seu cérebro, atacando-o com cobalto radiativo, e isto o mergulhara num mundo diferente, de cuja existência jamais suspeitara. Fora um poço de cadáveres e ossos mortos e lutara durante anos para sair de lá. O jumento e, especialmente, o sapo, as criaturas que para ele eram as mais importantes, haviam desaparecido, tornados extintos, restando apenas fragmentos que apodreciam, uma cabeça sem olhos aqui, parte de mão ali.
Finalmente, uma ave que viera ali para morrer lhe dissera onde estava. Mergulhara na tumba do mundo. Não poderia sair até que os ossos espalhados à sua volta se transformassem de novo em criaturas vivas; ligara-se ao metabolismo de outras vidas e, até que elas se levantassem, ele tampouco podia despertar.
Não sabia naquele momento quanto tempo durara aquela parte do ciclo. De modo geral, coisa alguma acontecera, de modo que fora imensurável. Mas, finalmente, os ossos recuperaram carne; as cavidades oculares se encheram e novos olhos haviam visto, enquanto, ao mesmo tempo, bicos e bocas restauradas cacarejavam, ladravam e miavam. Possivelmente, ele fizera isso; talvez o nódulo extra-sensorial em seu cérebro houvesse finalmente renascido. Ou talvez não tivesse realizado isso; com toda probabilidade, podia ter sido um processo natural.
De qualquer modo, não afundara mais; começara a subir, juntamente com os demais.
Há muito tempo, perdera-os de vista. Evidentemente, subia sozinho. Mas eles estavam ali. Ainda o acompanhavam; sentia-os, estranhamente, dentro de si.
Isidore permaneceu onde estava, segurando os dois punhos, sentindo-se como se abarcasse todos os demais seres vivos. Em seguida, relutante, desligou-se. Aquilo tinha que terminar, como sempre, e de algum modo seu braço doía e sangrava no lugar onde a pedra o atingira.
Soltando os punhos, examinou o braço e, em passos trôpegos, foi até o banheiro do apartamento para lavar o corte. Não era o primeiro ferimento que recebia quando em fusão com Mercer e, com toda probabilidade, não seria o último. Pessoas, especialmente idosas, haviam morrido, especialmente depois, no alto da colina, quando começava, a sério, o tormento. Será que conseguirei passar por aquilo novamente? Pensou, enquanto enxugava o ferimento. Havia possibilidade de uma parada cardíaca. Seria bem melhor, refletiu, se eu morasse numa cidade, onde os prédios têm um médico de serviço com aquelas máquinas ressuscitadoras elétricas. Aqui, sozinho neste lugar, é arriscado demais.
Mas tinha certeza de que correria o risco. Sempre o correra antes.
Como a maioria das pessoas, mesmo idosas e fisicamente frágeis.
Usando um lenço de papel secou o braço ferido.
E ouviu, abafado e distante, o som de um aparelho de TV.
É alguém neste prédio, pensou, alucinado, incapaz de acreditar.
Não é a minha TV, ela está desligada e estou sentindo a ressonância no chão. É embaixo, em outro nível, inteiramente.
Não estou mais sozinho aqui. Outro morador mudou-se para cá, ocupou um dos apartamentos abandonados e está tão perto que posso ouvi-lo. Tem que ser no nível dois ou três, certamente não mais baixo. Vamos ver, pensou rapidamente. O que é que se faz quando chega um novo morador? Passa-se por lá e toma-se alguma coisa emprestada, é isso o que se faz? Não conseguia lembrar-se, isto jamais lhe acontecera antes, ali ou em qualquer outro lugar; pessoas se mudavam, pessoas emigravam, mas ninguém jamais vinha. É melhor levar-lhe alguma coisa, resolveu. Como um copo de água ou, melhor ainda, de leite; sim, é isso mesmo, leite, farinha de trigo ou, talvez, um ovo — ou, especificamente, seu sucedâneo.
Olhando no refrigerador — o compressor pifara muito tempo antes — encontrou um duvidoso cubo de margarina. Levando-o, nervoso, o coração batendo com dificuldade, desceu para o nível inferior. Tenho que me manter calmo, pensou. Não deixar que ele perceba que eu sou um debilóide. Se descobrir que eu sou, não vai falar comigo. Por alguma razão, é sempre assim que acontece. Por que será?
Desceu apressado o corredor.
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