domingo, 2 de maio de 2010

Reprogramando a realidade ( A Formiga Elétrica )




Publicado em 1969, o conto ‘A Formiga Elétrica’ (The Electric Ant)(1) de Philip K. Dick aborda a mesma temática de 'Do Androids Dream of Electric Sheep?' (Sonham os Andróides com Ovelhas Elétricas?) de 1968.

Além da questão sobre o que constitui um autêntico "humano", a história também explora o que Scott Bukatman chama de "ver através da cena"(2),  uma constante nos últimos trabalhos de Dick, como “Ubik”.

A cena como limitador para a realidade, torna-se uma visão controvertida da subjetividade no trabalho de Dick. Ao contrário da realidade sendo alterada, apresentada na ‘Alegoria da Caverna’, de Platão, não há um eventual terreno sólido ‘fora da cena’, para definir a si mesma. Em “A Formiga Elétrica”, a solução para esse problema não é apresentada, mas sim a natureza problemática do combate.

As imagens utilizadas no conto são uma complexa fusão da visão tecnológica de Dick, os elementos da Ficção Científica, o trabalho de mapeamento do cérebro do final dos anos 1950, e as metáforas usadas (um uso exclusivo da interação entre a luz e sombra) que lembram 'A Alegoria da Caverna' de Platão (3).
Na fusão desses elementos díspares, temos o indivíduo andróide lutando para emergir em sua própria subjetividade, através de uma recriação literal de sua realidade.

Como 'Do Androids Dream of Electric Sheep?', ‘A Formiga Elétrica’ oferece uma série de perguntas semelhantes sobre a natureza do ser humano.

Por vezes 'Do Androids Dream of Electric Sheep?' parece errático em sua escolha de personagens. Na verdade o foco muda radicalmente de Rachel e Deckard, para o andróide psicopata Roy Batty. Já “A Formiga Elétrica” não oferece essa ambigüidade.

O formato do conto não permite a criação de muitos personagens, e o foco é sustentado por Poole, em torno de sua história. Além disso Poole não é a primeira formiga elétrica que acidentalmente descobre sua verdadeira natureza.

Garson Poole, presidente da bem-sucedida Tri-Plan Electronics Corporation, acorda em um hospital, e descobre por acaso que ele é uma 'formiga elétrica' - gíria para um robô biológico.

O médico explica: "Nós recebemos uma formiga elétrica a cada semana, ou quase. Até trazida aqui por um acidente de foguete, como o seu, ou alguém que busca a internação voluntária... pessoas a quem, como você, nunca lhes foi dito, e que acreditavam-se humanas.".

Poole é apenas uma das muitas formigas elétrica que acidentalmente descobre sua verdadeira identidade.
As formigas elétricas são projetadas para funcionar como seres humanos, e são programadas para nunca saberem suas verdadeiras identidades. Poole é imediatamente posicionado como um exemplo de outros. Embora a história seja sua, é apresentado como um que luta para ir além como um indivíduo.

Embora possa ser incomum conceder o foco de um conto para um objeto inanimado, Poole, como os andróides em 'Do Androids Dream of Electric Sheep?', pode ter sido construído com um propósito, mas ao ganhar conhecimento do seu próprio eu, torna-se algo além de uma máscara, de uma ferramenta. Ele pode até mesmo mudar de lado, e tomar suas próprias decisões. (Barlow 87).

A partir do instante em que Poole fica sabendo de sua verdadeira natureza, no início do conto, não se trata somente da história da descoberta, ao contrário, é a luta para redefinir suas relações com os outros personagens e com a realidade.

Depois de descobrir a verdade, Poole rumina sobre esta nova informação: Ele se questiona se Danceman ou Sarah (seus amigos e colegas de trabalho)

“Teriam eles, ou um deles, o comprado? Projetado-o? Um títere, disse a si mesmo, isso é tudo que eu sou. Nunca realmente devo ter comandado a empresa, era uma ilusão implantada em mim quando eu fui feito... juntamente com a ilusão de que eu sou humano, e que estou vivo.”

As preocupações de Poole com quem o comprou e projetou-o, são preocupações de  alguém que não tem voz na vida. Ele foi projetado e construído para uma finalidade que não foi de sua escolha, mas agora que ele sabe a sua verdadeira natureza, ele reflete sobre o conceito da decisão.

Mesmo que sendo esta reflexão apenas um pensamento de poder tomar decisões, traz a importância de poder tomar decisões para ele. Ele provavelmente nunca havia pensado muito nisso antes, do porque o ser humano se dá ao direito de tomar suas próprias decisões. Uma vez que ele percebe que sua capacidade de tomar decisões no passado era uma ilusão, esta capacidade se torna muito importante para ele.

O imaginário do andróide como personagem que luta contra algo, não é nova na FC de Dick. É um tema presente na maioria dos seus escritos.
Nas poucas vezes que falou em público, este tema foi geralmente debatido.
Em um discurso de 1972 numa conferência no Canadá, Dick disse:

“O que é isso que chamamos especificamente de 'humano'? ... O que é isso...que chamamos de comportamento da máquina, ou por extensão, o comportamento de insetos, ou de comportamento reflexo?... A redução dos seres humanos a simples objetos utilizáveis... homens transformados em máquinas... trata-se do maior mal que se pode imaginar... 'Androidização' exige obediência. E acima de tudo, previsibilidade.” (187)

Para Dick a 'androidização' e a luta por uma vida como um ser humano autêntico, é o foco primário de sua ficção e de seu trabalho filosófico. Muitas vezes em seus escritos, vemos a inversão da dicotomia homem/andróide. O andróide assume qualidades humanas, enquanto o ser humano torna-se mais parecido com um andróide.

Em "Dick on the Human: From Wubs to Bounty Hunters to Bishops' Ryan Gillis ecoa Dick ao afirmar:
"O ser humano difere-se do andróide por sua empatia. . . sua alma, e na empatia, o ser humano busca a salvação, se expressa na vontade humana de desafiar a programação que reduziria-o a um autômato ideológico". (270).

Garson Poole, fisicamente uma formiga elétrica, possui os atributos mentais do ser humano. A luta para manter estas qualidades humanas é a marca da verdadeira humanidade em ‘A formiga elétrica’.

Em "Androids as a Device for reflection on personhood", Marilyn Gwaltney afirma que as principais qualidades em uma pessoa são a racionalidade e a autoconsciência. Como os humanos, o andróide deve possuir essas qualidades, se quiserem cumprir a sua função. Eles devem ser capazes de corrigir seus erros e criativamente se envolver com novas situações. É imperativo que atuem como seres autônomos. É o ato de escolher um objetivo, de muitos possíveis, que contribui para criar sua identidade.

Por exemplo, a personagem Rachel de “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, tem o maior senso de si mesma do romance. Ao contrário dos outros andróides que são vistos como algo com defeito, com falta de empatia, para Rachel foram dadas memórias, e ela foi tratada como uma pessoa, responsável por sua personalidade". (Gwaltney 35).

Poole também é tratado como uma pessoa e não tem conhecimento, até o acidente, de sua verdadeira natureza como uma formiga elétrica.

É o tratamento dispensado a ele, e as lembranças de suas experiências pré-acidente como um "humano", que o ajudam a conduzir a sua busca de um sentido verdadeiro de si mesmo e da realidade. O paradoxo é que a memória de Poole, de sua experiência não-autêntica da realidade, leva-o para uma autêntica experiência ‘fora da cena’.

O início do conto nos mostra indícios da pessoalidade de Poole e de sua imprevisibilidade.
As respostas de Poole para as notícias perturbadoras são completamente humanas, mas a o discurso do médico e das enfermeiras são planos e sem empatia, ou compaixão pelo sofrimento de Poole, na verdade ele sofre mesmo sendo uma máquina. As várias descrições de Poole durante esta conversa claramente denotam sua humanidade:

'Uma transpiração fria subiu para a superfície de sua pele'.
‘Poole disse ferozmente’.
'Poole disse acidamente'.
‘Poole disse, com raiva, furioso e impotente’.

Suas reações são certamente mais humanas; ele sente ódio, medo, frustração e raiva. Este não é o comportamento de uma personalidade andróide. Por outro lado, para o médico e a enfermeira, nunca lhes são dados nomes próprios, e o diálogo não é descrito. Tal evento é rotina para eles, e eles estão apenas agindo como quem viveu isso várias vezes antes. Suas apresentações na história são repetitivas, chatas, sem empatia.

A introdução de Poole, de uma maneira que compara diretamente seus pensamentos e sentimentos com os seres humanos, põe o andróide sob uma nova luz metafórica.

Casimiro considera que o andróide "torna-se uma metáfora da indefinição desta dicotomia...serve também para o espaço discursivo, onde ocorre a crise... uma crise na representação da vida ou o que significa ‘estar vivo’". (279).

Poole representa o problema crucial da definição do “estar vivo".

Algo que pode reagir de forma imprevisível e sentir, está vivo? Se alguém não mostrar empatia é considerado vivo? Estas questões nos levam a uma pergunta ainda mais importante. Como se deixa de ser um andróide?

A comparação inicial das qualidades humanas de Poole, e da falta de qualidades humanas do médico e das enfermeiras "opõe num relevo irônico, a incapacidade (humana) para o sentimento".(Hayles, 162).

A simpatia do leitor se alia a Poole, porque ele é o verdadeiro "ser humano" da história.

Tudo isso serve para concentrar a atenção em Poole e na sua luta para recriar o conceito de si mesmo. Sua rebelião quanto ao seu “status de inautêntico” é uma rebelião humana, apesar de fisicamente ele ser descrito como "pele natural cobrindo carne natural, verdadeira e cheia de sangue nas veias e capilares. Mas abaixo desta, fios e circuitos, componentes miniaturizados brilhando... olhando profundamente o pulso, viu engates surgirem, motores, válvulas, todas muito pequenas".

Uma estranha criatura... uma mistura de elementos mecânicos e biológicos. Seu corpo torna-se algo de que ele pode explorar na sua luta, na representação física do 'enxergar através da cena'.

Poole vê através da fachada, dos marcos físicos de sua humanidade, a verdadeira natureza de sua existência como uma formiga.

Apesar de sua evidente falta de vida biológica, Poole ainda sente a sensação de estar vivo.

“Sou uma aberração, ele concluiu. Um objeto inanimado que imita um animado. Mas... ele se sentia vivo. Ainda assim ele se sentia diferente agora. Sobre si mesmo. Assim como sobre tudo, especialmente Danceman e Sarah e todos na Tri-Plan." 

Poole ganha um sentido de si mesmo como pessoa por causa de sua experiência de ser tratado como uma pessoa, mas vai muito além disso. Embora ele seja uma simulação mecânica de uma pessoa, ele não é uma cópia de qualquer indivíduo.

Em seu ensaio "Simulacra and Science Fiction", Baudrillard propõe que "os modelos não deixam de constituir um domínio imaginário, com referência ao real, que são eles próprios, uma apreensão do real...nada distinguindo esta (simulação) do real em si".

Poole não é uma cópia de um modelo humano. Ele é uma simulação única e individual, assim, sua personalidade também é derivada de sua existência para além de qualquer outro ser humano.

Ele possui sua personalidade, mas na sua primeira tentativa de compreender sua estrutura física interna, ele solicita a ajuda do supercomputador da sua companhia, para ajudá-lo a decifrar o labirinto de circuitos em seu corpo. Ele descobre que não possui uma unidade de processamento central, nada que lhe diga como reagir a uma determinada situação. Ao vez disso, tem no interior um "construtor de suprimento de realidade".
Esta nova descoberta de Poole permite um caminho para que ele escape de sua existência como um objeto:

“...se eu a controlo, controlo a realidade. Ao menos o tanto quanto estou ciente. Minha realidade subjetiva... mas isso é tudo que existe. A realidade objetiva é uma construção sintética, lidando com uma universalização hipotética de uma multiplicidade de realidades subjetivas.”

Com isso, ele não se limita a ganhar o controle de si mesmo, mas o controle de tudo.

“E isso me levaria além de qualquer ser humano que já viveu e morreu...”

Esta segunda descoberta permite a possibilidade de reprogramar a realidade.
Seu status como uma formiga elétrica lhe dá uma capacidade nunca antes utilizada por qualquer ser humano. Poole ainda pensa em si mesmo como algo existente dentro dos limites daquilo que define como um ser humano. Já que sente que o novo poder o isola, o deixa distante, ele deve ser uma parte da humanidade para poder ser definido como fora dela. Isto implica uma conexão com outros, capturados em construções conjuntas de realidade.

Poole ainda quer operar nos "limites humanos", porque não pode pensar-se em qualquer outra forma. Sem fisicamente alterar a fita, ele não pode escapar às noções programadas para ele, no entanto a programação na fita, alteradas ou não, continuam a ser a única linguagem que ele pode usar para definir uma nova realidade para si mesmo.

O imaginário da tecnologia do "construtor de suprimento de realidade" é central para a história, e merece algum estudo em profundidade. A descrição física de seu mecanismo é importante para entender como Poole recria a sua realidade. Ele é descrito como:

“Diminuto...não maior que dois carretéis de linha, com um leitor-scanner montado entre os tambores.”

“Sob o sistema de lentes, a fita plástica assumiu um novo formato: uma faixa larga com centenas de milhares de buracos. Como desconfiei, Poole pensou. Não se tratavam de registros gravados sobre uma camada de óxido de ferro, mas fendas na verdade. Sob a lente a tira de fita avançava visivelmente. Muito lentamente, mas a uma velocidade uniforme, se movendo na direção do leitor-scanner.
A forma como eu imagino, pensou, é que os furos funcionam para o leitor como... Ele funciona como um piano mecânico, sólido é não, o furo é sim.”

Este artefato é indicativo da tecnologia da época.O dispositivo mais importante em uma máquina complexa como a formiga elétrica é, pelos padrões de hoje, quase cômico.Essa representação traz um resquício da Idade de Ouro da Ficção Científica.

Judith Merril a descreve como "a extensão pura do futuro dominado por máquinas...Na época, era algo realmente emocionante. Talvez isso nos desse somente mais hardware... mas era o hardware do amanhã".

Muitas histórias de FC no passado estavam cheias de máquinas complexas, robôs e naves espaciais, por exemplo, que se utilizavam da velha tecnologia de válvulas, díodos e caixas de fusíveis. A maior parte das descrições parecem firmemente enraizadas no final da I Guerra Mundial, da explosão da tecnologia chegando às nossas casas.

Paradoxalmente, a simplicidade deste dispositivo binário e analógico, é a maneira mais segura para trabalhar com a metáfora da luz e das trevas na história.

Mas o tropos tecnológico da FC da época não era apenas a única inspiração para este dispositivo. Em seu artigo "The Swiss Connection", Anthony Wolk observa que durante a escrita de ‘We Can Build You’ (publicado em série, de 1969 a 1970), Philip Dick cita a influência de James Olds. Olds (psicólogo americano co-descobridor do centro do prazer no cérebro e um dos pais da neuropsiquiatria moderna), autor do livro 'The Growth an Structure of Motives' (1956), propunha uma analogia de como o cérebro registra as memórias. A gravação no cérebro se daria por uma cadeia de contactos pré-formados de neurônios, sendo cada um, especificamente voltado para um momento do tempo". (Wolk 122).

O 'construtor de suprimento de realidade' de Dick é uma inversão desta imagem. Ao invés de uma cadeia em branco, que registra eventos, é uma cadeia pré-perfurada que cria eventos. Ela existe como uma construção dentro de uma construção.

Poole, a formiga elétrica, é controlado por este dispositivo analógico. Não possui livre-arbítrio, enquanto o dispositivo continuar a alimentá-lo de realidade. Esta constatação leva à conclusão de que ele pode alterar sua realidade subjetiva - levando-o além dos outros seres humanos, porque tem a tecnologia fisicamente disponível para isso. O estado físico de uma formiga elétrica, fornece a única maneira de um indivíduo poder realizar uma manobra tão radical e ousada.

Poole torna-se o centro da verdadeira crise dentro da história.
Carne e o sangue humano não tem como, fisicamente, manipular sua realidade, ele nunca poderia brincar com a cadeia de neurônios em sua cabeça, da mesma forma que brinca com o dispositivo em seu peito. No entanto este dispositivo analógico que cria a realidade de Poole, é também o centro deste jogo metafórico entre a luz e a escuridão.

A metáfora é mencionada na abertura de "A Formiga Elétrica", quando ao acordar no hospital e ver o sol pela janela e depois quando se volta para experimentar o dispositivo dentro de seu peito.

O espaço não perfurado é um não, ou a falta de estímulo no ambiente de Poole.
A perfuração é um sim, que a luz atravessa, e algo é adicionado à realidade de Poole.
Os opostos definem-se mutuamente, e a inversão de qualquer um deles (da luz a escuridão) muda drasticamente a realidade de Poole.

A interpretação de Heidegger da metáfora de luz e sombra em Platão, ‘A Alegoria da Caverna’(4), é uma forma instrutiva para entender a metáfora da luz e da escuridão, representada no "construtor de suprimento de realidade."

Como Poole, os prisioneiros da caverna vêem apenas as sombras projetadas em frente deles e que os afasta da realidade. A realidade de Poole é construída a partir de uma inversão desta - a luz deixar passar os furos na fita e definem a sua realidade. Como mencionado antes, Poole chega a conclusão de que a realidade é uma experiência subjetiva, como na caverna, a realidade das sombras é uma verdade subjetiva.

A luz em "Alegoria da Caverna" e em "A Formiga Elétrica" funciona da mesma maneira, é o veículo para (desvelar) a informação.

O dispositivo analógico em Poole utiliza a luz para transmitir informações.
A fita apenas bloqueia a luz (informação) de ser recebida pelo leitor-scanner.
Se a luz permite que as coisas sejam vistas, em seguida, a escuridão é "apenas um caso limite do brilho... um brilho que não deixa nada passar, que tira a visibilidade das coisas, que não consegue tornar visíveis." (Heidegger 42).

As seções não-perfuradas da fita, não deixam passar a informação através dela. Ao bloquear alguns dos buracos da fita, Poole temporariamente "apaga" elementos de sua realidade. Ao contrário da alegoria, Poole não tem ninguém para tirá-lo da realidade "inautêntica" da caverna e mostrar-lhe uma versão verdadeira da realidade. Isso ele deve fazer por si mesmo.

A primeira e a segunda tentativa experimentais de Poole com o 'construtor', são de ‘apagamento’. Usando lentes de ampliação, seleciona uma seção de buracos perfurados e os apaga com um esmalte opaco. Ele então se defronta com Danceman e sua verdadeira natureza, e durante a conversa experimenta os efeitos de suas manipulações quando " Através do vidro do lado do grande bar, a silhueta dos prédios de New York City cintilou e desapareceu”.

Poole experimenta a ausência do horizonte, mas Danceman não.

Sua segunda experiência é inserir uma tira opaca no carretel, criando vinte minutos
de ’espaço morto’, onde o leitor-scanner não receberá informação alguma.
O efeito não é o que Poole tinha imaginado.

Ele se senta e olha o apartamento desaparecer e se encontra mentalmente em um vazio. Quando recobra a consciência de sua identidade física, dois técnicos estão trabalhando nele. Eles explicam que a inserção da tira extra, bloqueou a entrada do leitor-scanner e o dispositivo desligou-se sozinho.

Durante os dois experimentos com apagamento, ninguém mais é afetado pela nova relação com a realidade de Poole. Ele experimenta os objetos desaparecendo da existência, mas as pessoas que o rodeiam não relatam visões semelhantes.

As próximas duas experiências são as de iluminação; Poole literalmente permite que mais luz passe para o leitor-scanner. Os efeitos dessas experiências estão além do que mesmo Poole imaginara.

Sua primeira tentativa é a de perfurar novos furos aleatórios na fita para ver o que acontecerá. Sarah está no apartamento durante estas tentativas e durante o primeiro, ela vê o que Poole vê, um bando de patos e um mendigo, aparecem brevemente e depois desaparecem. A conversa que se segue sugere o final da história:

"Eles não eram reais" disse Sarah. "Eram? Então como eu..."
"Você não é real" Poole disse para Sarah. "Você é um fator de estímulo na minha fita de realidade. Uma perfuração que pode ser coberta... Será que você também têm uma existência em outra fita de realidade, ou em uma realidade objetiva?"
Ele não sabia, não podia dizer. Talvez Sarah não soubesse também. Talvez ela tenha existido em mil fitas de realidade, talvez em cada fita já fabricada.
"Se eu cortar a fita" disse ele "você vai estar em toda parte e em lugar nenhum. Como tudo no universo. Pelo menos o tanto quanto eu estou ciente disso."

O paradoxo final da realidade do 'contrutor' é desnudado.
De certa forma, não tem efeito sobre ninguém, exceto Poole, no entanto, quando ele tenta adicionar a entrada de luz, então afeta os outros.

Poole começa a adicionar ao espetáculo, começa a produzir as novas imagens que não foram originalmente destinadas a aparecer. Neste ponto, se torna consciente de quão absolutamente estranha toda a realidade é para ele, e quer passar para a experiência final.

Para dar conta disso, a interpretação de Heidegger de luz e escuridão entra em jogo. Se a luz é o veículo de informação, esta nova informação afeta todas as informações em torno dele.

Sarah e Danceman existem como informação de luz para Poole, então acrescentando novas informações (permitindo mais luz) os afetaria. Bloqueando a luz apaga as informações do leitor-scanner e esta ausência não pode afetar Sarah ou Danceman, que são feitos de informação de luz. A idéia implícita é que a adição de informação é transformadora, e a supressão do conhecimento não é. Todos os personagens existem dentro do construtor de realidade de Poole ou de sua "caverna". Adicionando uma sombra não irá alterar a sua visão da realidade. No entanto, adicionando uma nova fonte de luz, a experiência da caverna vai se transformar.

Eric Rabkin vê essas adições e invasões na realidade dos personagens como típicas de Dick e sua exploração filosófica da realidade quando afirma: "Dick tornou impossível para nós encontrar uma realidade em seu estado fundamental. Quando a realidade se torna replicável, nenhuma permanece confiável, cada uma perde pelo menos parte de seu valor. A invasão de uma realidade, por outra é uma invasão ontológica... invasão ontológica causa ‘mors ontologica’".

Se para Poole recriar sua própria realidade, é então uma ‘mors ontológica’, ou a morte da mente, o resultado final é que ele e que os outros personagens terão também que enfrentá-la.

O experimento final de Poole é cortar a fita completamente, permitindo que toda luz entre no leitor-scanner. Ele assim vai experimentar todas as informações de percepção possíveis simultaneamente, no entanto, Poole é advertido pelos homens da manutenção que fazendo isso vai causar uma sobrecarga no dispositivo e destruí-lo. Para ele, o risco é aceitável:

“O que eu quero, ele deu-se conta, é a final e a absoluta realidade, mesmo que por um microssegundo. Depois disso, não importa, porque tudo será conhecido, nada será deixado para entender ou ver.”

Está disposto a arriscar a sua destruição para ter este momento.
E como já foi mostrado anteriormente na história, ele está arriscando a realidade de todos. O ato de deixar toda a luz adentrar o leitor-scanner irá certamente afetar todos os personagens e suas realidades.

Mas qual seria a força motriz para Poole, para buscar esse conhecimento abrangente, e entrar em um estado que irá destruí-lo?

Para entender este desejo final, um exame de Poole como uma mercadoria tentando lidar à sua maneira com a subjetividade é essencial.

Ao longo da história Poole é lembrado do custo dos reparos ao seu corpo.
O hospital cobra por seus serviços, mesmo que não tratem de 'formigas elétricas’ por lá.
O homem da manutenção cobra quarenta sapos para substituir sua mão.(5)
Depois que ele interrompe o 'construtor', os homens lhe cobram noventa e cinco sapos pelo reparo. Mesmo contemplando o suicídio, ele percebe que não pode fazê-lo.

“Acho que vou me matar, disse para si mesmo. Mas provavelmente sou programado para não fazer isso, seria um enorme prejuízo que meu dono teria que absorver. E que ele não iria querer.”

Poole é sempre apresentado como uma mercadoria, e mais, caro na sua criação e caro na manutenção. Seu desejo de conhecimento absoluto é o desejo de escapar de sua existência como uma mercadoria.

De fato ele está tentando uma des-reificação, por meio de abarcar toda a realidade para dentro de si.

Em seu artigo "Death of Subject", Scott Durham cita Peter Fitting, em um esforço para identificar este momento como uma "experiência angustiante de uma realidade ilusória em desintegração".

Como então Poole irá realizar seu objetivo final de subjetividade?

Assim como em ‘Simulacra’ onde Kongrosian, através de seu poder telepático, literalmente começa a tomar o mundo para dentro de si(6), Poole também o faz quando percebe que a adição de entradas de luz muda a realidade para todos ao seu redor

Sua posição como um objeto comercial é um "espaço altamente comercializável em que as fronteiras entre o indivíduo e o artefato tecnológico autônomo, se tornam cada vez mais permeáveis". (Hayles 162).

O paradoxo aparece novamente; a existência de Poole como um produto reificado (transformado em uma coisa) torna-se o locus de seu poder para mudar a realidade.

No momento anterior à sua destruição, Poole experimenta tudo: Ele vê maçãs e paralelepípedos e zebras. Sente calor, a textura de seda do tecido, sente o mar lambendo-o e um vento forte... ele se afoga.

”Eu estou vivendo, eu vivi, eu nunca vou viver, disse para si mesmo...”.

Esta é apenas uma breve citação a partir da descrição das experiências de Poole, mas é verdadeiramente uma noção Dickeana dessa experiência. Ao mesmo tempo recriando sua realidade e destruindo a si mesmo, a formiga elétrica percebe que está viva, viveu, e, paradoxalmente, nunca viveu.

Essas experiências acontecem todas de uma vez só em Poole. Se apenas por um breve momento, reprogramou a sua vida, ele utilizou de ferramentas físicas do cenário construído para manipular sua experiência.

A experiência de Poole termina abruptamente, com a fumaça escapando de sua boca. Como uma formiga elétrica, ele é destruído.

Neste ponto a história muda e os últimos parágrafos seguintes são as reações de Sarah.
Ela telefona para Danceman para dizer-lhe que Poole não existe mais.
Danceman responde: "Então nós estamos finalmente livres dele."

A observação serve como uma referência críptica do poder que Poole realmente possuía sobre eles, quer como presidente da Tri-Plan Corporation, ou como um manipulador da realidade.Danceman percebe que, em algum nível, a criatura tornou-se criador, e esse pensamento o perturba. Mas ele é breve, pois Sarah de repente percebe que pode ver através de suas mãos, o chão está desaparecendo, e o corpo sem vida de Poole está tornando-se vago.

Nas últimas linhas da história, o leitor fica com a imagem de Sarah:

“O vento da madrugada soprou sobre ela. Ela não sentiu, ela tinha começado agora a deixar de sentir.
E o vento soprou.”

Tendo concluído a sua viagem e alcançado a forma de sua própria subjetividade, Poole desfaz objetos dos outros; sujeitos a seu desejo de liberdade absoluta.

Esta liberdade só poderia vir com o custo da estrutura que contém Poole.
A ferramenta que ele usou para libertar-se, paradoxalmente, foi concebida para mantê-lo escravo em uma realidade prescrita.

No momento em que ele descobre que sua verdadeira natureza, muda tudo para ele.
Ele começa a tomar decisões, decisões que vão ao encontro da empresa que o projetou. Ele tentou danificar uma peça de um equipamento valioso e conseguiu. Vandalismo é um dos crimes mais hediondos que um indivíduo pode cometer contra uma empresa.

Em "A Formiga Elétrica", o indivíduo é propriedade da corporação.
Poole só queria escapar através do vandalismo auto-infligido em seu próprio corpo.
Sua auto-destruição é preferível à continuação.

Poole não se move para fora das realidades possíveis para ele. Ele fez de si mesmo um objeto inútil, mas ainda assim, não pode afastar-se completamente de seu espaço.

Reprogramando a realidade [A Formiga Elétrica] – Gabriel Cutrufello


Notas

1. Philip K. Dick, “The Electric Ant,” 1969, Robots, Androids, and Mechanical Oddities: The Science Fiction of Philip K. Dick ed. Patricia S. Warrick and Martin H. Greenberg (Carbondale: Southern Illinois U.P., 1984) 213-28.
2. Scott Bukatman, Terminal Identity: The Virtual Subject in Post-Modern Science
Fiction (Durham: Duke University Press, 1993) 48.
3. Sobre a “Alegoria da Caverna”. Dick estudou filosofia na Universidade da Califórnia em Berkeley, embora, tenha abandonado após seu primeiro semestre. Patricia Warrick, nos capítulos 9 e 10 do seu livro “Mind in Motion: The Fiction of Philip K. Dick”, explica: "...uma ampla gama de literatura rendeu material para ele: a Bíblia, as obras de Ésquilo, Platão, Virgílio (sic)... que ele escondeu sob alusões difíceis de se identificar, na maioria dos seus trabalhos de ficção científica".
Katharine Hayles também refere-se ao Dick filosófico, quando discutindo seu uso do "Andróide esquizóide" no Capítulo 7 de seu livro “How We Became Posthuman”. Veja também Emmanuel Carrere, “I Am Alive” e “You Are Dead: A Journey into the Mind of Philip K. Dick”,  para um olhar interessante e poético da intersecção da FC de Dick e os delírios de sua visão filosófica sobre a existência.
4. Não é minha intenção, através da introdução de Heidegger, entrar no debate sobre se devemos ou não comparar o trabalho de Dick aos trabalhos de filósofos metafísicos. Warrick mostra que Dick baseia algumas de suas idéias em escritores filosóficos, e a leitura de Heidegger para "A Alegoria da Caverna" é um olhar perspicaz para a mecânica do conto. Estou interessado apenas no estudo de Heidegger da interação entre a luz e a escuridão na alegoria, e como seus mecanismos são em muito similares aos do ‘construtor de suprimento de realidades’ de Poole. Para mais informações sobre o relacionamento entre Dick e a filosofia existencialista, ver “The Swiss Connection: Psychological Systems in the Novels of Philip K.Dick.” de Anthony Wolk.
5. Dick freqüentemente emprega formas biológicas como moeda em seu trabalho. Ela se deve a sua visão idiossincrática do futuro do dinheiro. Em "A formiga elétrica”, “quarenta sapos" é equivalente ao salário de uma semana.
6. Philip K. Dick, ‘The Simulacra’ de 1964 (New York: Vintage, 1992). No confronto final com Nicole, Kongrosian está em situação deplorável. Sua transformação é a mesma de Poole; ambos tem a necessidade de tomar conhecimento de toda a realidade, mas às custas de suas vidas.
"Algo terrível está acontecendo comigo...Eu já não posso manter a mim e o ambiente separados; você compreende como é que me sinto?"
"Estou virando do avesso!" Kongrosian lamentou. "Muito em breve se isso continuar, vou envolver todo o universo e tudo nele, e a única coisa que vai ficar fora de mim serão meus órgãos internos – e em seguida, muito provavelmente, eu vou morrer".


Trabalhos Citados

Barlow, Aaron. “Philip K. Dick’s Androids: Victimized Victimizers.” Retrofitting Blade Runner: Issues in Ridley Scott’s Blade Runner and Philip K. Dick’s Do Androids
Dream of Electric Sheep? Ed. Judith B. Kerman. Bowling Green: Bowling Green State University Popular Press, 1991. 76-89.
Baudrillard, Jean. “Simulacra and Science Fiction.” Trans. Arthur B. Evans. Science Fiction Studies 55 (1991): 309-13.
Bukatman, Scott. Terminal Identity: The Virtual Subject in Post-Modern Science Fiction.Durham: Duke University Press, 1993.
Carrère, Emmanuel. I Am Alive and You Are Dead: A Journey into the Mind of Philip K. Dick. 1993. Trans. Timothy Bent. New York: Metropolitan Books, 2004.
Casimir, Viviane. “Data and Deckard: Cyborg as Problematic Signifier.” Extrapolation 38 (1997): 278-91.
Debord, Guy. The Society of the Spectacle. 1967. New York: Zone Books, 2004.
Dick, Philip Kindred. “The Android and the Human.” 1972. The Shifting Realities of Philip K. Dick: Selected Literary and Philosophical Writings. Ed. Lawrence Sutin. New York: Vintage, 1995.
---. Do Androids Dream of Electric Sheep? 1968. New York: Del Rey, 1996.
---. “The Electric Ant.” 1969. Robots, Androids, and Mechanical Oddities: The Science
Fiction of Philip K. Dick. Ed. Patricia S. Warrick and Martin H. Greenberg.
Carbondale: Southern Illinois U.P., 1984. 213-28.
---. The Simulacra. 1964. New York: Vintage, 1992.
Durham, Scott. “P.K. Dick: From the Death of the Subject to a Theology of Late Capitalism.” 1988. On Philip K. Dick: 40 Articles from Science-Fiction Studies. Ed. R.D. Mullen, Istvan Csicsery-Ronay, Arthur B. Evans, and Veronica Hollinger. Greencastle: SF-TH Inc., 1992. 188-98.
Gillis, Ryan. “Dick on the Human: From Wubs to Bounty Hunters to Bishops.” Extrapolation 39 (1998): 264-71.
Gwaltney, Marylin. “Androids as a Device for Reflection of Personhood.” Retrofitting
Blade Runner: Issues in Ridley Scott’s Blade Runner and Philip K. Dick’s Do Androids Dream of Electric Sheep? Ed. Judith B. Kerman. Bowling Green: Bowling Green State University Popular Press, 1991. 32-39.
Hayles, Katherine. How We Became PostHuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature, and Informatics. Chicago: The University of Chicago Press,1999.
Heidegger, Martin. The Essence of Truth. Trans. Ted Sadler. London: Continuum,2002.
Levack, Daniel J.H. comp. PKD: A Philip K. Dick Bibliography. Rev. ed. Westport:   Meckler, 1988.
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A Formiga Elétrica - Philip K. Dick




Às 4:15 PM TST, Garson Poole acordou em sua cama de hospital.

Sabia que estava deitado na cama de um hospital, em uma enfermaria de três leitos e percebeu, além disso, duas coisas: que ele já não tinha a mão direita, e que não sentia nenhuma dor.

Eles me deram um analgésico forte, disse para si mesmo, enquanto olhava a parede distante, com a janela exibindo a cidade de Nova York. Redes em que os veículos e pedestres disparavam, e rodas que brilhavam ao sol da tarde, o brilho da luz poente  agradou-o. Não é tão tarde, ele pensou. Nem para mim.

Um fone estava na mesa ao lado de sua cama, ele hesitou, depois pegou-o e ligou para uma linha externa. Um momento depois, ele olhava para Louis Danceman, responsável pelas atividades Tri-Plan, na sua ausência.

“Graças a Deus você está vivo!" disse Danceman, o rosto grande e carnudo como a superfície marcada da lua, encheu-se de alívio. "Estive ligando para todos e..."
“Eu só perdi a mão direita" disse Poole.
"Mas você vai ficar bem. Quero dizer, eles podem enxertar outra."
"Há quanto tempo estou aqui?" Poole perguntou. Onde estavam os enfermeiros e os médicos, se perguntou, porque não estavam ali, reclamando por ele fazer uma chamada?
"Quatro dias" disse Danceman. "Tudo aqui na fábrica vai energeticamente bem. Na verdade nós recebemos pedidos de compra de três sistemas distintos, todos aqui na Terra. Dois em Ohio e um em Wyoming. Ordens de compra sólidas, com um terço de antecedência e os habituais três anos de crédito para arrendamento opcional."
"Venha me tirar daqui", disse Poole.
"Não posso, até que a mão nova..."
"Posso colocá-la mais tarde."

Ele queria desesperadamente voltar ao ambiente familiar; a memória do foguete mercantil grotescamente aparecendo na tela do piloto, se fechasse os olhos, veria novamente sua nave danificada, um prejuízo enorme. As sensações cinéticas...ele estremeceu, lembrando-se. Acho que estou com sorte, disse para si mesmo.

"Sarah Benton está com você?" Danceman perguntou.
“Não”. Naturalmente, sua secretária pessoal, mesmo que apenas por considerações de trabalho, deveria estar por perto paparicando-o com seu jeito infantil e chato.
Todas as mulheres gordas gostam de agir como a mãe de outras pessoas, pensou.
E são perigosas, se caírem sobre você, podem matá-lo.
"Talvez seja isso que me aconteceu", disse ele em voz alta. "Talvez Sarah tenha caído sobre meu foguete".
"Não, não, uma haste da aleta de direção se separou durante o tráfego pesado na hora do rush e você..."
"Eu me lembro".

Virou-se em sua cama quando a porta da enfermaria abriu e um médico vestido de branco, e duas enfermeiras de azul apareceram, vindo em direção a sua cama.

"Falo com você depois" disse Poole e desligou o fone. Respirou profundamente.
"Não deveria telefonar tão cedo" disse o médico que olhou seu boletim. "Sr. Garson Poole, proprietário da Tri-Plan Electronics. Criador de dardos que seguem suas presas por um raio de mil milhas, respondendo a padrões de ondas encefálicas. Você é um homem bem-sucedido, Sr. Poole. Mas, Sr. Poole, você não é um homem. Você é uma formiga elétrica".
"Cristo", disse Poole atordoado.
"Então não poderemos tratá-lo aqui, agora que nós descobrimos. Soubemos assim que nós examinamos a sua mão direita ferida; vimos os componentes eletrônicos e em seguida fizemos um raio-x do seu torso, e claro que eles confirmaram nossa hipótese."
"O que" disse Poole "é uma" formiga elétrica"?
 Mas ele sabia, ele conhecia a expressão.
Uma enfermeira disse: "Um robô orgânico."
"Eu sei" disse Poole.
Uma transpiração fria subiu para a superfície de sua pele e por todo seu corpo.
"Você não sabia" disse o médico.
“Não”. Poole sacudiu a cabeça.
O médico disse: "Nós recebemos uma formiga elétrica a cada semana, ou quase. Até trazida aqui por um acidente de foguete, como o seu, ou alguém que busca a internação voluntária... pessoas a quem, como você, nunca lhes foi dito, e que acreditavam-se humanas. Quanto à sua mão... ". Ele fez uma pausa.
"Esqueça a minha mão" disse Poole selvagemente.
"Tenha calma".
O médico inclinou-se sobre ele, olhou profundamente para o rosto de Poole.
"Temos um veículo de transporte para levá-lo a um serviço de assistência, no caso, de reparos ou substituição de peças, e sua mão poderá ser feita por um gasto razoável, quer para si mesmo, tratando-se de auto-propriedade, ou para seus proprietários, se existirem. De qualquer forma você estará logo de volta em sua mesa na Tri-Plan, funcionando como antes."
"Exceto" disse Poole "que agora eu sei."

Questionou se Danceman ou Sarah, ou qualquer um dos outros no escritório sabia. Teriam eles, ou um deles, o comprado? Projetado-o?

Um títere, disse a si mesmo, isso é tudo que eu sou. Nunca realmente devo ter comandado a empresa, era uma ilusão implantada em mim quando fui feito... juntamente com a ilusão de que eu sou humano, e que estou vivo.

"Antes de sair para a instalação de reparos" disse o doutor "você poderia gentilmente pagar a conta na recepção?"
Poole disse acidamente: "Como pode haver uma conta a pagar se vocês não tratam formigas aqui?"
"Para os nossos serviços" disse a enfermeira. "Até onde sabemos."
"Mandem-me a conta" disse Poole com raiva e fúria impotente. "Mandem a conta para minha empresa."

Com grande esforço conseguiu sentar-se, sua cabeça não parava, pisou hesitante no chão. "Ficarei feliz em sair daqui", disse ele enquanto se ajeitava. "E muito obrigado pela sua atenção humana".

"Obrigado também, Sr. Poole” disse o médico. "Ou melhor, eu deveria dizer apenas Poole".

 (...)


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sábado, 1 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 5)




TALVEZ EU esteja preocupado, pensou Rick Deckard, que o que aconteceu com Dave me aconteça também. Um andro suficientemente sabido para pegá-lo com um laser, provavelmente me pegaria, também. Mas não parecia ser isto.

— Estou vendo que trouxe as especificações sobre aquela nova unidade cerebral — disse o Inspetor Bryant, desligando o videofone.
— Isso mesmo, ouvi falar nesse assunto na rede de bisbilhotices do escritório. Quantos andros estão envolvidos e até onde Dave foi?
— Oito, para começar — explicou Bryant, consultando a prancha. — Dave pegou os dois primeiros.
— E os seis restantes estão aqui no norte da Califórnia?
— Tanto quanto sabemos. Dave também pensa isso. Era com ele que eu estava falando ao telefone. Tenho as notas dele; estavam na mesa dele. — Deu uma batidinha na pilha de papéis. Até o momento não parecia inclinado a passá-las a Rick. Por alguma razão, continuou a folhear as notas, franzindo o cenho e passando a língua por dentro e pelos cantos da boca.
— Não tenho coisa alguma em minha agenda — sugeriu Rick. — Estou pronto para assumir o lugar de Dave.

Bryant respondeu pensativo:
— Dave utilizou a Escala Modificada Voigt-Kampff para testar os indivíduos de quem desconfiava. Você compreende — deve, de qualquer modo — que este teste não é específico para as novas unidades cerebrais. Nenhum teste é. A Escala Voigt, modificada há três anos por Kampff, é tudo o que temos. — Interrompeu-se, pensando. — Dave considerava-a exata. Talvez seja. Mas sugiro o seguinte, antes de você sair à procura desses seis. — Mais uma vez, bateu na pilha de notas. — Voe para Seattle e converse com o pessoal da Rosen. Consiga com eles uma amostragem representativa dos tipos que utilizam a nova unidade Nexus-6.
— E faço com que se submetam ao Voigt-Kampff — disse Rick.
— Parece tão fácil — murmurou Bryant, meio para si mesmo.
— Perdão?
— Acho que eu mesmo falo com a organização Rosen, enquanto você está a caminho. — Olhou em silêncio para Rick. Finalmente, grunhiu qualquer coisa, roeu uma unha e, finalmente, resolveu o que queria dizer: — Vou discutir com eles a possibilidade de incluir vários humanos, bem como os novos andróides deles. Mas você não vai saber. Será decisão minha, juntamente com os fabricantes. A coisa deve estar pronta quando você chegar lá. — Bruscamente, apontou o dedo para Rick, severa sua face. — Esta é a primeira vez em que você vai agir como caçador de cabeças graduado. Dave sabe um bocado sobre isso. Tem anos de experiência.
— Eu também — disse tenso Rick.
— Você tem recebido missões que estavam na agenda de Dave. Ele sempre resolveu quais delas, exatamente, lhe passar, e quais não. Mas, agora, você tem seis que ele pessoalmente resolvera aposentar — um dos quais conseguiu pegá-lo primeiro. Este aqui. — Bryan virou uma das notas, de modo que Rick pudesse vê-la. — Max Polokov .— continuou o inspetor. — De qualquer modo, é assim que ele chama a si mesmo. Supondo que Dave tinha razão. Tudo se baseia nessa suposição, toda a lista. Ainda assim, a Escala Modificada Voigt-Kampff só foi aplicada aos três primeiros, os dois que Dave aposentou e a Polokov. Foi quando Dave lhe administrava o teste que Polokov pegou-o com o laser.
— O que prova que Dave tinha razão — disse Rick. — De outro modo, não teria sido atacado. Polokov não teria motivo.
— Siga para Seattle — disse Bryan. — Não lhes fale nada sobre isso. Eu me encarrego da coisa. Escute aqui — levantou-se e, muito sério, encarou Rick, — quando aplicar lá a Escala Voigt-Kampff, se algum humano não passar nela . .
— Isso não pode acontecer — retrucou Rick.
— Há algumas semanas, conversei com Dave sobre exatamente esse assunto. Ele andava pensando mais ou menos da mesma forma. Eu tinha um memorando da polícia soviética, do próprio W.P.O., que circulou em toda a Terra e nas colônias. Um grupo de psiquiatras de Leningrado procurou o W.P.O. com uma proposta.

Queriam que os mais modernos e mais exatos instrumentos analíticos de perfil de personalidade na determinação da presença de um andróide — em outras palavras, a Escala Voigt-Kampff — fossem aplicados a um grupo cuidadosamente selecionado de pacientes humanos esquizóides e esquizofrênicos.

Naqueles, especificamente, que revelam o que chamam de "achatamento de afeto". Você deve ter ouvido falar nisso.
— Especificamente, é isso o que a escala mede — disse Rick.
— Neste caso, você sabe por que é que eles estão preocupados.
— Esse problema sempre existiu. Desde que, pela primeira vez, encontramos andróides passando por seres humanos. O consenso da opinião das forças policiais encontra-se no artigo de Lurie Kampff, escrito há oito anos, Bloqueio da Assunção de Papéis em Esquizofrênicos Não-Deteriorados. Kampff comparou a faculdade empática reduzida encontrada em pacientes mentais e uma superficialmente semelhante, mas basicamente...
— Os psiquiatras de Leningrado — interrompeu-o brusco Bryant — pensam que uma pequena classe de seres humanos não conseguiria passar na Escala Voigt-Kampff. Se fossem submetidos a teste em trabalho rotineiro de polícia, seriam classificados como robôs humanóides. Você se enganaria, mas por essa hora eles estariam mortos. — Calou-se e ficou à espera da reação de Rick.
— Mas esses indivíduos — disse Rick —, todos eles estariam...
— Estariam em instituições a eles reservadas — concordou Bryant. — Não poderiam concebivelmente funcionar no mundo externo. Não poderiam, certamente, passar despercebidos como psicóticos avançados... a menos, claro, que o colapso deles tivesse ocorrido recente e subitamente e ninguém houvesse notado. Mas isto poderia acontecer.
— A chance é de um em um milhão — disse Rick. Mas percebia o argumento.
— O que preocupava Dave — continuou Bryant — era o aparecimento do novo tipo avançado Nexus-6. A Rosen nos garantiu, como você sabe, que um Nexus-6 podia ser identificado por testes-padrão de perfil. Acreditamos na empresa. Agora somos forçados, como sabíamos que seríamos, a determinar isto por nossa própria conta. Isto é o que você vai fazer em Seattle. Você compreende, espero, que o tiro pode sair pela culatra. Se você não puder identificar todos os robôs humanóides, então não teremos nenhum instrumento analítico de confiança e jamais descobriremos os que já estão escapando. Se sua escala aponta um sujeito humano e identifica-o como um andróide... — Bryan sorriu-lhe friamente. — Seria embaraçoso, embora ninguém, absolutamente ninguém da Rosen, viesse a público divulgar esse fato. Na verdade, poderemos ocultar o fato indefinidamente, embora, claro, tenhamos que informar ao W.P.O. que, por seu turno, notificará Leningrado. No fim, a coisa estourará e ficaremos em maus lençóis. Mas, por essa altura, poderemos ter desenvolvida uma escala melhor. — Apanhou o telefone. — Quer começar? Use um carro do departamento e abasteça em nossas bombas.

Levantando-se, Rick perguntou:
— Posso levar comigo as notas de Dave Holden? Gostaria de estudá-las durante a viagem.
— Vamos esperar até que você experimente suas escalas em Seattle — respondeu Bryant. Falou em um tom de voz curiosamente impiedoso e este foi um fato que Rick Deckard não deixou de notar.

Ao pousar o hovercar do Departamento de Polícia no telhado da Rosen Association Building em Seattle, encontrou uma jovem à sua espera. Cabelos pretos, esguia, usando os novos e imensos óculos de filtragem de poeira, ela se aproximou do carro, as mãos profundamente enterradas nos bolsos de seu casaco listrado de cor viva. No rosto pequeno, de traços bem definidos, uma expressão de mal-humorada antipatia.
— Qual é o problema? — perguntou Rick, descendo do carro.   
Indiretamente, a moça respondeu:
— Oh, não sei. Alguma coisa a ver com a maneira como nos falam ao telefone. Não tem importância. — Bruscamente, estendeu-lhe a mão, que ele, pensativo, aceitou. — Eu sou Rachael Rosen. Sr. Deckard, suponho!
— Isto não foi idéia minha — disse ele. — Eu sei; o Inspetor Bryant nos disse isso. Mas, oficialmente, o senhor é o Departamento de Polícia de São Francisco, que não acredita que nossa unidade exista para benefício público. — Olhou-o por baixo de longos cílios pretos, provavelmente artificiais.
— Um robô humanóide é semelhante a qualquer outra máquina que, com grande rapidez, pode variar entre ser um benefício e um grande perigo. Como benefício, não é problema nosso — retrucou Rick.
— Mas como um perigo — disse Rachael Rosen — o senhor aparece. É verdade, Sr. Deckard, que o senhor é um caçador de cabeças a prêmio?
Rick encolheu relutante os ombros e inclinou a cabeça.
— O senhor não tem dificuldade em considerar um andróide como uma coisa inerte — observou a moça. — Assim, pode "aposentá-lo", como dizem por aí.
— Já selecionou o grupo para mim? — perguntou ele. — Eu gostaria de... — Interrompeu-se. Porque, de repente, vira os animais da companhia.

Uma empresa poderosa, compreendia bem, teria recursos, claro, para possuir aquilo. Bem no fundo da mente, evidentemente, antevira uma coleção como essa. Não era surpresa o que sentia, mas algo mais parecido com um anelo. Em silêncio, afastou-se da moça em direção à jaula mais próxima. Já lhes sentia o cheiro, os vários odores das criaturas, de pé, sentadas, ou, no caso do que pareceu ser um quati, adormecidas.

Nunca em toda sua vida vira ele antes um quati. Conhecia o animal apenas de filmes em três dimensões da TV. Por alguma razão, a poeira atacara aquela espécie com quase o mesmo rigor que as aves — das quais quase nenhuma sobrevivia. Numa reação automática, tirou do bolso seu muito consultado Sidney's e olhou quati, com todas as sublistagens. Os últimos preços, claro, constavam em itálicos: como os cavalos Percheron. nenhum existia à venda no mercado, por qualquer preço. O catálogo da Sidney's simplesmente mencionava o preço ao qual fora feita a última transação envolvendo um quati. Era astronômico.
— O nome dele é Bill — disse a moça, às suas costas. — Bill, o quati. Nós o compramos apenas no ano passado, a uma de nossas subsidiárias. — Apontou para alguma coisa atrás das costas dele e Rick notou, nesse momento, os guardas armados da companhia, suas metralhadoras em posição, o pequeno e leve modelo de fogo rápido da Skoda. Os olhos dos guardas estavam fixados nele desde que seu carro pousara. E, pensou ele, meu carro está claramente marcado como veículo da polícia.
— Um grande fabricante de andróides — disse ele pensativo — investe seu capital excedente em animais vivos.
— Olhe para a coruja — disse Rachael Rosen. — Espere, vou acordá-la para você. — Olhou para uma pequena e distante gaiola, no centro da qual erguia-se uma árvore morta, esgalhada.
Não há mais corujas, começou ele a dizer. Ou, pelo menos, lhe haviam dito isso. A Sidney's, pensou, lista-as no catálogo como extintas: o pequenino e nítido caráter tipográfico, o E, que repetidamente aparece também em todo o livro. Enquanto a moça andava à sua frente, procurou certificar-se, e tinha razão. A Sidney's jamais comete um erro, disse a si mesmo, Sabemos disso, também. Do que mais podemos depender?
— É artificial — disse ele, compreendendo, de súbito, o desapontamento subindo nele, agudo e intenso.
— Não — disse ela, e sorriu, e ele viu que ela possuía pequenos dentes regulares, tão brancos como seus olhos e cabelos eram pretos.
— Mas o catálogo da Sidney's... — disse ele, procurando mostrar-lhe o livreto. Para provar o que dizia. — Nós não a compramos da Sidney's nem de qualquer outro negociante de animais — disse a moça. — Todas as nossas compras são feitas de particulares e não divulgamos os preços que pagamos. — E acrescentou: — Além disso, temos também nossos próprios naturalistas. No momento, eles estão trabalhando no Canadá. De qualquer modo, há ainda um bocado de florestas, comparativamente falando. O suficiente para pequenos animais e, uma vez por outra, uma ave.

Durante longo tempo, ele ficou olhando para a coruja, dormitando em seu poleiro. Milhares de pensamentos ocorreram-lhe, pensamentos sobre a guerra, sobre os dias em que corujas haviam caído do céu: lembrou-se que, na sua infância, fora descoberto que espécie após espécie se tornaram extintas e que os noticiários anunciavam esse fato todos os dias — raposas numa manhã, texugos na outra, até que as pessoas deixaram de ler os eternos necrológios nos jornais televisados.

Pensou, também, em sua necessidade de um animal real. No seu peito, um ódio concreto, mais uma vez, se manifestou contra a ovelha elétrica, da qual era obrigado a tratar, a gostar, como se fosse viva. A tirania exercida por um objeto, pensou. Ele não sabe que eu existo. Como os andróides, faltava-lhe a capacidade de compreender a existência de outro ser. Nunca pensara nisto antes, na semelhança entre um animal elétrico e um andróide. O animal elétrico, pensou, podia ser considerado uma subforma do outro, uma espécie de robô infinitamente inferior. Ou, reciprocamente, podia-se considerar o andróide como uma versão altamente desenvolvida, evoluída, de um sucedâneo de animal. Ambas as idéias repeliam-no.

— Se você fosse vender sua coruja — disse à moça, Rachael Rosen —, quanto pediria por ela, e quanto de entrada?
— Nós nunca venderíamos nossa coruja. — Olhou-o, atenta, com uma mistura de prazer e pena, ou foi assim que ele interpretou sua expressão. — E mesmo que vendêssemos, você possivelmente não poderia pagar o preço. Que tipo de animal você tem em casa?
— Uma ovelha — respondeu. — Uma ovelha Suffolk de focinho preto.
— Bem, neste caso, você deve sentir-se feliz.
— Eu sou feliz — respondeu. — Acontece, simplesmente, que eu sempre quis uma coruja, mesmo antes que elas morressem todas. — Mas se corrigiu logo: — Todas, menos a sua.
— Nosso atual programa financeiro e de planejamento global — explicou Rachael — exige que obtenhamos outra coruja, que possamos acasalar com Scrappy. — Indicou a coruja, dormitando no galho. Ela abrira por momentos ambos os olhos, frestas amarelas que se fecharam quando voltou a cochilar. Seu peito subiu e caiu perceptivelmente, como se a coruja, em seu estado hipnagógico, houvesse suspirado.
Desligando-se daquela vista — que fazia com que sua amargura total se misturasse com sua reação anterior de respeito e anelo — ele disse:
— Eu gostaria agora de submeter a teste o grupo escolhido. Podemos descer?
— Meu tio recebeu o telefonema de seu superior e provavelmente já ...
— Vocês são uma família? — perguntou brusco Rick, — Uma empresa deste tamanho é um negócio familiar?
Continuando sua frase, disse Rachael:
— Tio Eldon já organizou para você um grupo de andróides e um grupo de controle. Assim, vamos. — Dirigiu-se para o elevador, as mãos mais uma vez enterradas com força nos bolsos. Não olhou para trás. Ele hesitou durante um momento, sentindo-se aborrecido, antes de, finalmente, segui-la. — O que é que tem contra mim? — perguntou a ela, enquanto desciam juntos.
Ela pensou por um instante, como se até aquele momento não o soubesse.
— Bem — disse — você, um pequeno empregado de um departamento de polícia, está numa situação excepcional. Entende o que estou querendo dizer? — Lançou-lhe um olhar de relance, cheio de malícia.
— Quanto da produção corrente da empresa — perguntou ele — consiste de tipos equipados com o Nexus-6?
— Toda — respondeu Rachael.
— Tenho certeza de que a Escala Voigt-Kampff funcionará com eles.
— E se não funcionar, teremos de retirar do mercado todos os tipos Nexus-6. — Seus olhos pretos flamejaram. Olhou-o zangada quando o elevador parou e as portas deslizaram para os lados. — Porque seus departamentos de polícia não podem fazer um trabalho competente na questão simples de detectar um minúsculo número de Nexus-6 que contraria...

Um homem elegante, magro e idoso aproximou-se deles, mão estendida, na sua face uma expressão preocupada como se, de repente, as coisas começassem a acontecer depressa demais.
— Eu sou Eldon Rosen — explicou a Rick, enquanto trocavam um aperto de mãos. — Escute aqui, Deckard, você compreende bem que não fabricamos coisa alguma aqui na Terra, certo? Simplesmente, telefonamos para produção e pedimos uma partida de vários itens. Não é que não queiramos ou não tencionemos cooperar com vocês. De qualquer modo, fiz o melhor que podia. — A mão esquerda, trêmula, correu pelos cabelos que rareavam.

Indicando a pasta de seu departamento, disse Rick:
— Estou pronto para começar. — O nervosismo do Rosen mais idoso aumentou-lhe a própria confiança. Eles estão com medo de mim, compreendeu com um sobressalto. Rachael Rosen, também. Provavelmente, posso obrigá-los a interromper a fabricação dos seus tipos Nexus-6. O que eu fizer na próxima hora afetará a estrutura de operação da empresa. Seus atos, concebivelmente, determinariam o futuro da Rosen Association, ali nos Estados Unidos, na Rússia e em Marte.

Apreensivos, os dois membros da família Rosen estudaram-no e Rick sentiu a vacuidade dos modos deles. Ao vir até ali, ele lhes trouxera o vazio, instalara o nada e o silêncio da morte econômica. Eles controlam um poder desproposital, pensou. Esta empresa é considerada um dos pivôs industriais do sistema; a fabricação de andróides, na verdade, se ligara tanto ao trabalho de colonização que se uma entrasse em colapso a outra a seguiria no devido tempo. A Rosen Association, claro, entendia isto perfeitamente. Eldon Rosen, claro, tivera consciência deste fato desde que recebera o telefonema de Harry Bryant.
— Eu não me preocuparia, se fosse vocês — disse Rick, enquanto seguia os Rosens por um largo corredor feericamente iluminado. Sentia-se tranqüilamente contente. Este momento, mais do que qualquer outro de que podia lembrar-se, aguardava-o. Bem, em pouco tempo, eles saberiam o que seu aparelho de testes poderia fazer — e não fazer. — Se vocês não têm confiança na Escala Voigt-Kampff — observou —. possivelmente a empresa deveria ter pesquisado um teste alternativo. Pode-se argumentar que a responsabilidade cabe, parcialmente, aos senhores. Oh, obrigado. — Os Rosens haviam-no levado do corredor para um cubículo elegante, parecendo uma sala de estar, mobiliado com carpetes, abajures e modernas mesinhas de canto, nas quais havia exemplares de revistas recentes incluindo, notou, o suplemento de fevereiro do catálogo da Sidney's, que ele pessoalmente não vira ainda.

Na verdade, o suplemento de fevereiro só sairia dentro de uns três dias. Obviamente, a Rosen Association mantinha um relacionamento especial com a Sidney's.
Aborrecido, apanhou o suplemento.
— Isto é uma violação de um serviço público. Ninguém deve receber informações antecipadas de mudanças de preço. Na verdade, isto podia constituir violação de uma lei federal. — Tentou lembrar qual lei, mas não conseguiu.
— Vou levar isto comigo — disse e, abrindo a pasta, guardou o suplemento.
Após um intervalo de silêncio, Eldon Rosen disse cansadamente:
— Escute, senhor, não tem sido política nossa obter notícia antecipada...
— Eu não sou um policial comum — retrucou Rick.
— Sou um caçador de cabeças a prêmio. — Da pasta aberta tirou rapidamente o aparelho Voigt-Kampff, sentou-se a uma mesinha de café próxima e começou a montar as peças bem simples do polígrafo. — Pode mandar entrar agora os primeiros sujeitos de teste — informou a Eldon Rosen, que nesse momento parecia abatido.
— Eu gostaria de assistir — disse Rachael, sentando-se também. — Nunca vi antes um teste de empatia ser administrado. O que é que medem essas coisas que você tem aí?
— Isto — explicou Rick, mostrando um disco adesivo chato, do qual pendiam fios — mede a dilatação capilar na área facial. Sabemos que isto é uma reação primária autônoma, a chamada reação de "vergonha" ou "enrubescimento" a um estímulo moralmente chocante. Não pode ser controlada voluntariamente, como acontece no caso da condutividade da pele, respiração e taxa de batimentos cardíacos. — Mostrou-lhe o outro instrumento, um lápis-caneta. — Isto registra flutuações de tensão nos músculos oculares. Simultâneo com o fenômeno do enrubescimento, geralmente pode ser descoberto com um pequeno mas discernível movimento do ...
— E eles não podem ser encontrados em andróides — disse Rachael.
— Eles não são afetados pelas perguntas-estímulos, não. Embora, biologicamente, existam. Potencialmente.
— Aplique o teste em mim — pediu Rachael.
— Por quê? — indagou perplexo Rick.
Erguendo a voz, disse rouco Eldon Rosen:
— Nós a selecionamos como seu primeiro sujeito de teste, Ela pode ser um andróide. Temos esperança de que você possa saber. — Sentou-se numa série de movimentos desajeitados, tirou um cigarro do bolso, acendeu-o e ficou observando-os fixamente. 


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 5) [ Download ]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

The Minority Report and Other Classic Stories - Philip K. Dick



Como você sabe que está lendo Philip K. Dick?
Penso, em primeiro lugar no estranhamento. Dick foi e é estranho.

Eu acho que foi isso que me manteve procurando nos catálogos de FC por mais livros dele, à espera de um novo livro por sair.

É comum ouvir-se dizer, "Fulano simplesmente não pensa como as outras pessoas." A respeito de Dick, isso era verdade. Você não pode dizer em suas histórias, o que vai acontecer em seguida. E ainda os seus personagens são aparentemente projetados para serem pessoas normais...

Na verdade, um dos fatores na estranheza de Dick é o cuidado necessário para definir seus personagens no mundo real, um aspecto que outros escritores ignoram.

Até agora tenho, talvez, enfatizado suas esquisitices à custa de seus méritos.

O que mantém você lendo Dick?

Bem, por um lado, a estranheza, como eu disse, mas nela há sempre a atmosfera de luta, de homens tentando desesperadamente obter algo, ou pelo menos se esforçando para entender... Uma grande porcentagem dos heróis de Dick são homens torturados, Dick é especialista em descrever máquinas de desespero.

E outra beleza é a desolação que Dick lhe oferece.(...)
Ele carrega a qualidade da compaixão... a compaixão que nunca aparece frontalmente. É esta qualidade de amor, sempre rapidamente reprimida, que brilha através de suas histórias e que as tornam únicas e inesquecíveis.
James Tiptree, Jr.


Contents
Autofac
Service Call
Captive Market
The Mold of Yancy
The Minority Report
Recall Mechanism
The Unreconstructed M
Explorers We
War Game
If There Were No Benny Cemoli
Novelty Act
Waterspider
What the Dead Men Say
Orpheus With Clay Feet
The Days of Perky Pat
Stand-by
What'll We Do With Ragland Park?
Oh, To Be A Blobel!
Notes


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The Eye of the Sibyl and Other Classic Stories - Philip K. Dick



A sabedoria popular é de que existem escritores para escritores e escritores para leitores.
Estes últimos são aqueles poucos felizardos cujos livros, por alguma química que não pode ser duplicada em laboratórios, aparecem ano após ano nas listas de mais vendidos.

Podem ou (mais geralmente) não satisfazer os gostos dos críticos, mas seus livros vendem.

o escritor para escritores obtem ótimas resenhas, especialmente de seus colegas e admiradores, mas seus livros não atraem leitores, que podem reconhecer, mesmo à distância, os sinais de um livro feito de um escritor para escritores. O estilo de prosa vem antes de tudo... os personagens têm "profundidade", acima de tudo, esse livro é "sério".

Muitos escritores de escritores "aspiram uma fama maior do que a de escritores de leitores, e, ocasionalmente, um escritor para leitores vai cobiçar louros, como royalties, que não pode comprar.
(...)

O escritor literário faz o seu melhor para escrever um sucesso de público - e com isso ele ganha mais louros, mas não mais leitores.

Philip K. Dick foi no seu tempo, tanto um escritor de escritores, como um escritor para leitores, e um outro tipo completamente diferente de público, o de ficção científica.

Não precisamos ir mais longe do que a primeira história deste livro, 'The Little Black Box', é a prova disso -
e foi escrita em 1963, quando Dick estava no auge de seus poderes por ter escrito romances clássicos
como o 'Homem do castelo alto' e 'Martian Time Slip'.

Além disso, contém o embrião de outro de seus melhores romances de anos mais tarde, 'Do Androids Dream of Electric Sheep?'.

Por que então, tais elogios? Para qualquer aficionado de FC a resposta é evidente: ele tinha grandes
ideias. Fãs do gênero têm sido geralmente capazes de tolerar desleixo de execução pela causa de uma verdadeira novidade, já que o veneno da ficção científica tem sido a constante reciclagem de velhas ideias.

E as grandes idéias de Dick ocuparam uma banda única no espectro imaginativo.
A conquista do espaço, por exemplo. Para Dick a colonização do sistema solar simplesmente resulta na construção de novos bairros, e bairros mais sombrios.
(...)

Ele fez dos nossos lugares comuns, mundos maravilhosos. Que mais se pode exigir da arte?

Ler uma história de Dick não é como "contemplar" o trabalho de arte concluido. É muito mais é como se envolver em uma conversa. Fico feliz de ser parte, aqui, desta conversa contínua.
Thomas M. Disch 

Contents
The Little Black Box
The War with the Fnools
Precious Artifact
Retreat Syndrome
A Tehran Odyssey
Your Appointment Will Be Yesterday
Holy Quarrel
A Game of Unchance
Not by its Cover
Return Match
Faith of Our Fathers
The Story to End All Stories for Harlan Ellison's Anthology Dangerous Visions
The Electric Ant
Cadbury, the Beaver Who Lacked
A Little Something for Us Tempunauts
The Pre-Persons
The Eye of the Sibyl
The Day Mr. Computer Fell out of its Tree
The Exit Door Leads In
Chains of Air, Web of Aether
Strange Memories of Death
I Hope I Shall Arrive Soon
Rautavaara's Case
The Alien Mind
NOTES


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Second Variety and Other Stories - Philip K DIck



SECOND VARIETY contém 27 contos publicados entre 1952 e 1955.

Além disso, não inclui todas as histórias que ele publicou, durante os primeiros quatro anos de sua carreira. .
Isso em si é bastante notável. Poucos escritores podem se vangloriar de uma publicação prodigiosa nos primeiros quatro anos de suas carreiras, mesmo nesse período quando o mercados para contos de FC eram relativamente abundantes, e os editores tinham muitos buracos para preencher.

É preciso admitir que há um certo número de histórias triviais neste livro, a maioria delas já apresentam muitas das virtudes únicas de Dick. Considerando-se que foram escritas em um período tão breve de um escritor novato, no primeiro momento de sua carreira, e que Dick deve ter necessitado rapidamente fazer dinheiro e construir seu nome, estas 27 histórias são também bastante notáveis para o que não são.

Não há realmente uma história de ação ou uma fórmula de aventura aqui. Nenhuma civilização alienígena desenvolida. Nenhum intrépido herói de ação, nem vilões, cientistas loucos, não há o bem versus o mal.

Desde o início, Dick escreveu como se as convenções comerciais do gênero FC não existissem.

Desde o início Dick foi uma reinvenção da ficção científica, transformando-a em um instrumento literário para seus próprios interesses, e é claro, obsessões.

O que temos aqui é uma espécie de fascinante cápsula do tempo.

27 histórias publicadas antes de seu primeiro romance, o aprendizado de ficção de um escritor que iria tornar-se um dos grandes romancistas do século XX e, possivelmente, o maior escritor metafísico de todos os tempos.
Norman Spinrad

Contents
The Cookie Lady
Beyond the Door
Second Variety
Jon's World
The Cosmic Poachers
Progeny
Some Kinds of Life
Martians Come in Clouds
The Commuter
The World She Wanted
A Surface Raid
Project: Earth
The Trouble with Bubbles
Breakfast at Twilight
A Present for Pat
The Hood Maker
Of Withered Apples
Human Is
Adjustment Team
The Impossible Planet
Imposter
James P. Crow
Planet for Transients
Small Town
Souvenir
Survey Team
Prominent Author
Notes



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quinta-feira, 29 de abril de 2010

I Hope I Shall Arrive Soon - Philip K. Dick


CONTENTS
HOW TO BUILD A UNIVERSE THAT DOESN'T FALL APART TWO DAYS LATER (ensaio)
THE SHORT HAPPY LIFE OF THE BROWN OXFORD
EXPLORERS WE
HOLY QUARREL
WHAT'LL WE DO WITH RAGLAND PARK?
STRANGE MEMORIES OF DEATH
THE ALIEN MIND
THE EXIT DOOR LEADS IN
CHAINS OF AIR, WEB OF AETHER
RAUTAVAARA'S CASE
I HOPE I SHALL ARRIVE SOON

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

The Philip K. Dick Reader



Contents

Fair Game
The Hanging Stranger
The Eyes Have It
The Golden Man
The Turning Wheel
The Last of the Masters
The Father-Thing
Strange Eden
Tony and the Beetles
Null-O
To Serve the Master
Exhibit Piece
The Crawlers
Sales Pitch
Shell Game
Upon the Dull Earth
Foster, You're Dead
Pay for the Printer
War Veteran
The Chromium Fence
We Can Remember it forYouWholesale
The Minority Report
Paycheck
Second Variety


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terça-feira, 27 de abril de 2010

The Book of Philip K. Dick - 1952 a 1955



Contents
NANNY
THE TURNING WHEEL
THE DEFENDERS
ADJUSTMENT TEAM
PSI-MAN
THE COMMUTER
A PRESENT FOR PAT
BREAKFAST AT TWILIGHT
SHELL GAME

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

The Short Happy Life of the Brown Oxford and Other Stories - Philip K Dick



Prefácio

Vou definir ficção científica, dizendo o que não é FC.

Não pode ser definida como "uma história (ou romance ou peça) situada no futuro", já que existe uma coisa chamada aventura espacial, que se passa no futuro, mas não é FC: é somente isso: aventuras, lutas e guerras no espaço no futuro, envolvendo tecnologia avançada.

Por que então não é ficção científica? Poderia ser, e Doris Lessing (por exemplo) acha que é.

No entanto, falta para a aventura espacial uma idéia nova, que é o ingrediente essencial.
Além disso, existe ficção científica ambientada no presente: como história alternativa do nosso mundo.
Então, se separarmos a FC do futuro e também da ultra-avançada tecnologia, o que sobra que possa ser chamada de FC?

Pegue um mundo fictício, é o primeiro passo: uma sociedade que de fato não existe, mas é baseada na nossa sociedade conhecida, isto é, nossa sociedade serve como um ponto de partida para ela, a sociedade avança além, de alguma forma, talvez ortogonalmente, como acontece com a história alternativa.

Esse mundo 'deslocado', por algum tipo de esforço mental por parte do autor, é transformado em algo que não é, ou pelo menos ainda não.

Este mundo deve diferir de alguma forma, e esta diferença deve ser suficiente para dar origem a eventos que não poderiam ocorrer em nossa sociedade - ou em qualquer sociedade conhecida no presente ou passado.

Deve haver uma idéia coerente envolvida neste 'deslocamento', ou seja, ele deve ser conceitual, não apenas algo trivial ou estranho - esta é a essência da ficção científica, o 'deslocamento conceitual' na sociedade, de modo que, resulte em uma nova sociedade, gerada na mente do autor, transferida para o papel, e do papel, provocando um choque na mente do leitor, o choque do não-reconhecimento.
Ele sabe que não é seu mundo real, aquele que ele está lendo.

Agora, para separar ficção científica de fantasia. Isso é impossível de fazer, e mostrarei o porquê.

Veja os psiônicos; como os mutantes que encontramos no maravilhoso 'More Than Human' de Ted Sturgeon.  Se o leitor acredita que os mutantes poderiam existir, então ele vai ver o romance de Sturgeon como ficção científica. Se, no entanto, ele acredita que os mutantes, assim como magos e dragões, não são possíveis de existir, nem serão, então ele está lendo um romance de fantasia.


Fantasia implica naquilo que a opinião geral considera impossível; a ficção científica é aquilo que a opinião geral diz possível, sob certas circunstâncias. Esta é, em essência, um julgamento particular, desde que o possível e o que não é possível, não é objetivamente conhecido, mas sim, uma crença subjetiva por parte do autor e do leitor.

Agora, para definir uma boa ficção científica.
O 'deslocamento conceitual' - a idéia do novo, em outras palavras - deve ser realmente nova (ou uma nova variação sobre algo velho) e deve ser intelectualmente estimulante para o leitor, deve invadir sua mente e despertá-lo para a possibilidade de algo que ele não tinha até então pensado.

Assim, "boa ficção científica"  é um termo, não é uma coisa objetiva, mas acho que ela existe.

O Doutor Willis McNelly da California State University em Fullerton disse-o melhor:
"O verdadeiro protagonista de uma história de ficção científica é uma idéia, e não uma pessoa".

Se é boa FC, então é uma idéia nova, é estimulante e, provavelmente, o mais importante de tudo, ela dispara uma reação em cadeia, ramificando-se em idéias na mente do leitor, que por assim dizer desbloqueia a mente do leitor para que, como a mente do autor, ela comece a criar ideias também.

Assim, A FC criativa inspira a criatividade, o que a ficção mainstream não faz.

Nós que lemos FC (estou falando como um leitor agora, não como escritor) lemos porque gostamos de experimentar esta reação em cadeia de idéias, sendo iniciada por algo fora de nossa mente, algo com uma idéia nova, por isso, o melhor da FC, em última análise, acaba sendo uma colaboração entre autor e leitor, em que ambos criam - e gosto de fazê-lo: o prazer é o ingrediente essencial e final da ficção científica, o prazer da descoberta do novo.

PKD - 14 de Maio de 1981


Contents

STABILITY
ROOG
THE LITTLE MOVEMENT
BEYOND LIES THE WUB
THE GUN
THE SKULL
THE DEFENDERS
MR. SPACESHIP
PIPER IN THE WOODS
THE INFINITES
THE PRESERVING MACHINE
EXPENDABLE
THE VARIABLE MAN
THE INDEFATIGABLE FROG
THE CRYSTAL CRYPT
THE SHORT HAPPY LIFE OF THE BROWN OXFORD
THE BUILDER
MEDDLER
PAYCHECK
TTHE GREAT C
OUT IN THE GARDEN
THE KING OF THE ELVES
COLONY
PRIZE SHIP
NANNY
NOTES

The Complete Stories of Philip K. Dick Vol. 1 - The Short Happy Life of the Brown Oxford and Other Stories by Philip K Dick [ Download ]

domingo, 25 de abril de 2010

K.W. Jeter


Kevin Wayne Jeter (1950-) nasceu em Los Angeles, Califórnia (EUA).

Escritor de Ficção Científica e horror, cursou a California State University de Fullerton onde conheceu os escritores James P. Blaylock e Tim Powers, e através destes, conheceu e tornou-se amigo de Philip K. Dick. Jeter inclusive serviu como inspiração para o personagem Kevin no livro VALIS, de PKD.

Muitas histórias de Jeter focam em aspectos subjetivos da realidade, lembrando trabalhos de PKD, mas com um estilo mais sombrio.

Jeter é reconhecido por escrever o primeiro livro ciberpunk, 'Dr.Adder', dez anos antes de qualquer editor se interessar em publicá-lo, mesmo sendo recomendado por Philip K. Dick. Os editores na época alegavam que o livro era por demais violento e sexualmente apelativo.

Jeter também cunhou o termo Steampunk, para descrever o gênero de história alternativa que se utiliza de tecnologia retrô, características de seus livros 'Morlock Night' e 'Infernal Devices'.

Além das suas próprias séries, K.W.Jeter escreveu um bom número de livros como parte de outros universos ficcionais, como Star Wars e Star Trek, e as sequências escritas por ele do filme Blade Runner (adaptação para o cinema do clássico 'Do androids dream of electric sheep', de PKD).
 
K.W.Jeter ( Dr. Adder, Seeklight, The Dreamfields, Telemorte, da série The Bounty Hunter Wars, The Mandalorian Armor, Slave Ship e Hard Merchandise, da série Blade Runner, The Edge of Human e Replicant Night ) [ Download ]

sábado, 24 de abril de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 4)



A CAMINHO do trabalho, Rick Deckard, e só Deus sabia quantos outros mais, parou por um momento para olhar, disfarçadamente, em frente a uma das maiores lojas de bichos de estimação de São Francisco, no espaço destinado aos animais.

No centro da vitrina, que ocupava um quarteirão inteiro, uma avestruz em uma jaula aquecida de plástico, retribuiu-lhe o olhar. A ave, segundo a placa de informação presa à gaiola, acabara de chegar de um zoológico de Cleveland. Era a única avestruz da Costa Oeste.

Depois de fitá-la, Rick passou mais alguns minutos olhando fixamente para a etiqueta do preço. Prosseguiu em seguida, na direção do Palácio da Justiça, na Lombard Street, e descobriu que estava atrasado um quarto de hora para o trabalho.

No momento em que abria o gabinete, seu superior, o Inspetor de Polícia Harry Bryant, ruivo, orelhas de abano, relaxadamente vestido, mas de olhos vivos, consciente de tudo que tinha importância, gritou para ele:
— Encontre-me às nove e trinta no gabinete de Dave Holden. — Enquanto falava, o Inspetor Bryant folheava rapidamente uma prancha, onde estavam presas folhas de papel de seda datilografadas. — Holden — continuou, afastando-se — está no Hospital Monte Sion, com uma queimadura de laser na espinha, Vai passar lá pelo menos um mês. Até que uma dessas novas seções plásticas de espinha vertebral cole devidamente.
— O que foi que aconteceu? — perguntou Rick, com um calafrio.
O principal caçador a prêmio do departamento estivera bem até a véspera. Ao fim do dia, como sempre, ele partira em seu hovercar a caminho de seu apartamento, na congestionada área de alto prestígio de Nob Hill, na cidade.
Por cima do ombro, Bryant murmurou alguma coisa sobre nove e trinta no escritório de Dave, e deixou Rick sozinho.

Ao entrar no seu gabinete, ouviu às suas costas a voz da sua secretária, Ann Marsten:
— Sr. Deckard, sabe o que aconteceu com o Sr. Holden? Foi atingido.
Seguiu-o até o escritório fechado o abafado e pôs em funcionamento a unidade de filtragem do ar.
— Sim — respondeu ele distraído.
— Deve ter sido um desses novos andros, ultra-sabidos, que a Rosen Association está fabricando — opinou a Srta. Marsten. — Leu a brochura da companhia e as folhas de especificação? A unidade cerebral Nexus-6 que estão usando agora é capaz de selecionar num campo de dois trilhões de constituintes, ou dez milhões de trilhas neurais separadas. — Baixou a voz. — O senhor perdeu a chamada no videofone esta manhã. Quem me contou foi a Sra. Wild. A chamada chegou pela mesa exatamente às nove.
— Uma chamada para aqui? — perguntou Rick.
— Uma chamada do Sr. Bryant para o WOP... na Rússia. Perguntando se eles queriam apresentar uma queixa oficial ao representante da Rosen Association no Leste.
— Harry ainda quer que a unidade cerebral Nexus-6 seja retirada do mercado?
Não se sentia surpreso. Desde que foram anunciadas as especificações e relatórios de desempenho em agosto de 1991, a maioria das forças policiais que tratava de andros fujões andava protestando.
— A política soviética não pode fazer mais do que nós — disse. Legalmente os fabricantes da unidade cerebral Nexus-6 operavam de acordo com disposições de lei colonial, tendo sua fábrica automática localizada em Marte. — O melhor que faríamos mesmo era simplesmente aceitar a nova unidade, como um desses fatos inescapáveis da vida — opinou. — Sempre foi assim, no caso de todas as unidades cerebrais aperfeiçoadas que surgiram.

Lembro-me dos uivos de dor quando a Sudermann apresentou seu velho T-14 em '89. Todas as forças policiais no Hemisfério Ocidental alegaram que teste algum lhes revelaria a presença, em caso de entrada ilegal aqui.

Para dizer a verdade, durante algum tempo eles tiveram razão. Mais de cinqüenta andróides T-14, segundo lembrava, haviam de uma maneira ou de outra, conseguido chegar à Terra e passaram despercebidos em alguns casos, um ano inteiro. Mas logo depois foi criado o Teste de Empatia Voigt, pelo Instituto Pavlov, na União Soviética. E nenhum andróide T-14, pelo menos tanto quanto se sabia, conseguira passar nesse teste.
— Quer saber o que foi que a Polícia russa disse? — perguntou a Srta. Marsten. — Eu também sei isso — continuou, animando-se seu rosto amarelado e pintalgado de sardas.
— Eu descubro com Harry Bryant — respondeu Rick. Sentia-se irritado.
As bisbilhotices de escritório sempre o aborreciam porque, no fim, eram nada mais que a verdade. Sentando-se à escrivaninha, começou intencionalmente a procurar alguma coisa na gaveta até que a Srta. Marsten, percebendo a deixa, foi embora.
Da gaveta tirou um antigo e enrugado envelope de papel pardo.
Recostando-se na sua cadeira tipo executivo, mexeu no conteúdo até encontrar o que queria: os dados reunidos existentes sobre o Nexus-6.

Uma rápida leitura confirmou as informações da Srta. Marsten: o Nexus-6 possuía, de fato, dois trilhões de constituintes, além de uma capacidade de escolha na faixa de dez milhões de possíveis combinações de atividade cerebral. Em 4,5 décimos de segundo um andróide equipado com essa estrutura cerebral podia assumir qualquer uma de quatorze reações-posturas básicas. Bem, nenhum teste de inteligência podia encurralar um andro desses. Mas também os testes de inteligência não haviam encurralado andro algum em anos. Não, desde as primeiras e cruas variedades da década de 70.

Os tipos andróides Nexus-6, refletiu Rick, superavam todas as classes de humanos especiais em termos de inteligência. Em outras palavras, os andróides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 haviam, a partir de um ponto de vista grosseiro, pragmático, prático, evoluído além de um grande — embora inferior — segmento da humanidade. Com todas as boas ou más conseqüências. Em alguns casos, o criado tornara-se mais hábil do que seu senhor. Novas escalas de realização, contudo, como por exemplo o Teste de Empatia Voigt-Kampff, surgiram como critérios para julgá-los. Um andróide, por mais dotado que fosse de pura capacidade intelectual, não podia entender a fusão que, rotineiramente, ocorria entre os seguidores do mercerismo — uma experiência que ele, e virtualmente todo mundo, incluindo debilóides subnormais, conseguiam realizar sem dificuldade.

Perguntara-se, como, aliás, fizera a maioria das pessoas uma vez ou outra, precisamente por que um andróide saltava impotente, de um lado para outro, quando submetido a um teste de medição de empatia.
Empatia, evidentemente, existia apenas na comunidade humana, ao passo que inteligência em algum grau podia ser encontrada em todas as filas e ordens, incluindo os aracnídeos. Pelo menos a faculdade de empatia provavelmente requeria um instinto grupal intacto; um organismo solitário como uma aranha, não teria utilidade para ela; na verdade, tenderia a abortar a capacidade da aranha de sobreviver. Torná-la-ia consciente do desejo de viver de sua presa. Daí, se a possuíssem, todos os predadores, mesmo os mamíferos altamente desenvolvidos como os gatos, morreriam de fome.

A empatia, chegara ele certa vez à conclusão, forçosamente devia limitar-se a herbívoros ou, de qualquer maneira, a onívoros que podiam abster-se de uma dieta de carne. Isto porque, em última análise, o dom da empatia tornava indistintas as fronteiras entre caçador e vítima, entre os bem-sucedidos e os derrotados.

Como no caso da fusão com Mercer, os dois subiam juntos ou, quando o ciclo acabava, caíam juntos na fossa do túmulo do mundo. Estranho, a coisa lembrava uma espécie de seguro biológico, embora de gume duplo. Enquanto alguma criatura experimentava alegria, então a condição para todas as demais criaturas incluía um pouco de alegria. Contudo, se algum ser vivo sofria, no caso do restante a sombra não podia ser inteiramente descartada.

Um animal gregário como o homem adquiriria com isso um fator de sobrevivência mais alto, mas uma coruja ou uma cobra seriam destruídas.
Evidentemente o robô humanóide constituía um predador solitário.
Rick gostava de considerá-los dessa maneira. Isto tornava suportável seu emprego.
Ao aposentar, isto é, matar um andro, não violava a regra de vida estabelecida por Mercer. Matarás apenas os matadores, dissera-lhes Mercer no ano em que as caixas de empatia apareceram pela primeira vez na Terra.

No mercerismo, à medida que evoluía e se transformava numa teologia plena, o conceito de Os Matadores crescera insidiosamente.

No mercerismo, um mal absoluto puxava o manto esfiapado do velho trôpego que subia, mas jamais era claro quem ou o quê era essa maligna presença. Um mercerita sentia o mal sem compreendê-lo. Ou, em outras palavras, um mercerita tinha liberdade para localizar a presença nebulosa dos Matadores onde quer que julgasse conveniente.

Para Rick Deckard, um robô humanóide fujão, que matara seu senhor, fora equipado com uma inteligência mais aguda do que muitos seres humanos, que nenhuma consideração sentia por animais, que não possuía capacidade de sentir alegria empática pelo sucesso de outra forma de vida, ou sofrer com sua derrota — isto, para ele, sintetizava Os Matadores.

Pensando em animais, lembrou-se da avestruz que vira na loja. Temporariamente pôs de lado as especificações da unidade cerebral Nexus-6, tomou uma pitada de rape Mrs. Siddon's N.° 3 & 4, e pensou. Em seguida, olhou para o relógio e viu que dispunha de tempo. Levantou o videofone da escrivaninha e disse à Srta. Marsten:
— Ligue-me com a Happy Dog Pet Shop, na Sutter Street.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Marsten, abrindo sua caderneta de telefones.
Eles não podem, realmente, pedir aquilo tudo por uma avestruz, disse Rick a si mesmo. Esperam que a pessoa pechinche como nos velhos dias.
— Happy Dog Pet Shop — declarou uma voz de homem, na videotela de Rick apareceu uma pequena e contente face. Ele podia ouvir, no fundo, o barulho feito por animais.
— É a respeito daquela avestruz que os senhores têm na vitrina — explicou Rick, enquanto brincava com um cinzeiro de cerâmica à sua frente. — Qual é a entrada que preciso pagar para comprá-la?
— Vamos ver... — disse o vendedor, apanhando uma caneta e um bloco. — De entrada, um terço do preço. — Fez os cálculos. — Posso saber senhor, se vai dar algo usado como inicial?
Reservado, Rick respondeu:
— Eu ... eu ainda não resolvi.
— Vamos supor que para comprar a avestruz o senhor escolha um plano de trinta meses — disse o vendedor. — A uma taxa de juros baixa, bem baixa, de seis por cento ao mês, isto equivaleria a uma amortização mensal, depois de uma razoável entrada...
— O senhor vai ter que baixar esse preço — disse Rick. — Tire dois mil e não dou nenhum outro artigo como inicial. Pago em dinheiro vivo.
Dave Holden, pensou, estava fora de circulação. Isto poderia significar um bocado de coisas... dependendo de quantas missões surgissem no mês seguinte.
— Senhor — disse o vendedor — nosso preço de venda já está mil dólares abaixo do catálogo. Verifique no seu Sidney's. Eu espero. Quero que o senhor mesmo veja que nosso preço é justo.
Cristo, pensou Rick, Não estão arredando pé. Contudo, apenas por fazer, tirou do bolso do casaco o amarrotado Sidney's, procurou avestruz, macho-fêmea, velha-jovem, doente-sadia, nova-usada, e verificou os preços.
— Nova, macho, jovem, sadia — informou o vendedor. — Trinta mil dólares. — Ele, também, estivera consultando seu Sidney's. — Estamos cobrando exatamente mil dólares menos que o preço de catálogo. Agora, quanto à sua entrada...
— Vou pensar um pouco — disse Rick — e depois telefono para o senhor. — Fez o movimento de desligar.
— Seu nome, senhor? — perguntou alerta o vendedor.
— Frank Merriwell — respondeu Rick.
— Seu endereço, Sr. Merriwell? Para o caso de eu não estar aqui quando o senhor telefonar de volta.
Rick inventou um endereço e pôs o videofone de volta no gancho. Esse dinheiro todo, pensou. Ainda assim, pessoas compram-nas; algumas pessoas têm tanto dinheiro assim. Levantando novamente o telefone, disse áspero:
— Consiga-me uma linha, Srta. Marsten. E não fique escutando. Trata-se de uma chamada confidencial. — Olhou-a zangado.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Marsten. Desligou-se do circuito e deixou-o sozinho para enfrentar o mundo externo.

Discou, de memória, o número da loja de falsos animais, onde conseguira seu sucedâneo de ovelha. Na pequena videotela apareceu um homem vestido como veterinário.
— Dr. McRae — declarou ele.
— Fala aqui Deckard. Quanto custa uma avestruz elétrica?
— Oh, acho que poderíamos lhe cobrar menos de oitocentos dólares. Em quanto tempo quer a entrega? Vamos ter que fabricá-la exclusivamente para o senhor. Não há muita procura de...
— Falo com o senhor depois — interrompeu. Lançou um olhar ao relógio e viu que marcava nove e meia. — Adeus.

Levantou-se rápido da cadeira e, pouco depois, chegou à porta do escritório do Inspetor Bryant. Passou pela recepcionista de Bryant, atraente, com cabelo prateado pela cintura, amarrado em tranças e, em seguida, pela secretária do inspetor, um monstro primevo de algum pântano jurássico, imóvel e ardilosa, como alguma aparição arcaica fixada na sepultura do mundo.
Nenhuma das mulheres falou com ele, nem ele com elas.

Abrindo a porta interna, inclinou a cabeça na direção de seu superior, que nesse momento falava ativamente ao telefone.
Sentou-se, puxou do envelope as especificações do Nexus-6 que trouxera consigo e leu-as mais uma vez enquanto o Inspetor Bryant continuava a falar.

Sentia-se deprimido. Ainda assim, logicamente, devido ao súbito desaparecimento de Dave da cena de trabalho, devia sentir-se pelo menos moderadamente satisfeito.




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