domingo, 7 de março de 2010

Entrevista com Moorcock



Pergunta: Por que você acha que os leitores gostam dos seus livros?

Moorcock: Eu não tenho idéia. Um escritor nunca sabe quando ele acertou na mão. Quer dizer, eles sabem quando fizeram um bom trabalho, mas não sabem se o público vai gostar. Você nunca sabe. Quero dizer, você pode pensar que conseguiu, e então publicá-lo e esperar aplausos do público e então você ouve: "Sai fora, seu velho idiota."


Pergunta: Passou quase uma década desde o seu último livro da série Elric. O que fez você decidir voltar para Elric?

Moorcock: É um pouco como um instinto. Uma vez a cada 10 anos eu escrevo um par de romances da série Elric. Desta vez foram três. Tenho novas idéias para Elric, uma vez a cada década. É assim tão simples.  Até certo ponto, as idéias para essas novelas saíram do trabalho com os quadrinhos [Multiverse de Michael Moorcock]. Ao fazer uma história em quadrinhos da série Elric para o multiverso, percebi que poderia desenvolver isso um pouco mais. E assim, em certo sentido, surgiu um monte de coisas, você pode encontrar uma espécie de modelo, nos quadrinhos do multiverso. Tirei um monte de idéias dele.


Pergunta: Porque você acha que Elric deveria voltar, ao contrário dos personagens de suas outras fantasias?

Moorcock: Elric simplesmente funciona mais do que qualquer dos outros personagens. Quando você pensa sobre isso, há bonecos Elric, quadrinhos Elric, mais produtos Elric. Quando você olha para Amazon, é tudo Elric. O meus livros mais vendidos, são todos da série Elric. E não importa quantas pessoas digam: "Eu prefiro Corum," ou, "Eu realmente prefiro Hawkwind," Eu sempre penso: "Bem, eles são bons, mas aqui é o meu melhor rapaz. Elric". Jerry Cornelius é uma versão do Elric, mais do que uma versão do Corum, ou qualquer outro personagem meu.

Assim, novamente, Elric é realmente uma das figuras dominantes na coisa toda. Alguém me perguntou sobre Elric, e eu disse, ele é um Pierrot. Um romântico, trágico, mas a partir de outro ponto de vista, uma figura cómica. Na commedia dell'arte, Pierrot é, essencialmente alguém que está constantemente em busca de alguma coisa e sempre falhando, é por isso que ele é simpático. Um malandro trapalhão. De certa forma ele diz que vale a pena lutar para fazer as coisas, mas há um preço a pagar. Há sempre um preço, e meus personagens sempre têm de pagar um preço. Eles não vêm para casa no final, e todos recebem um pedaço de bolo, uma chávena de chá e todos dizem, "Hooray, hooray, você salvou o dia. Os anéis estão todos de volta na caixa ou qualquer outra coisa, e nós somos mais felizes, mais sábios, do que aqueles malvados que falam engraçado e gritando, e que assim imediatamente se identificam como vilões."


Pergunta: Por que você acha que Elric é popular há quase 40 anos?

Moorcock: Eu acho que ele é, provavelmente, de todos os heróis da minha fantasia, de todos os meus heróis épicos, ele é a pessoa que mais encarna minhas idéias, minhas próprias lutas, a meu psique ... minhas questões morais, e este tipo de coisa. E ele continua a ser muito moderno, um tipo existencial de herói. Há ainda muito para desenvolver no personagem Elric. Ele já está fazendo as perguntas, ele já está lidando com os problemas.

É estranho, realmente. Eu não conheço muitos trabalhos deste tipo específico, com exceção da ficção científica. Na Ficção científica, estranhamente, se faz muito além do que na fantasia. Tenho notado que eu não leio muita fantasia - eu nunca li. Eu só comecei a escrevê-la. Aconteceu de eu ter facilidade para isso. Então eu não estou  particularmente interessado nela como um gênero. Eu não comecei a escrevê-la porque havia um gênero lá fora.

Eu e Tolkien. Basicamente, no início, eu e Tolkien vendíamos aproximadamente o mesmo, que era muito, muito pouco. Tolkien era considerado apenas um escritor, como [Mervyn] Peake, improvável de decolar.

Em certo sentido, eu comecei a escrever Elric para me afastar de Tolkien. Eu não gostava de Tolkien, porque tinha a coisa das histórias de fadas. Não tinha o que eu considerava como uma qualidade propriamente trágica. Era demasiado sentimental para o meu gosto. Eu sou  atraído pelo lírico, romântico e o trágico, ao invés daquela coisa de "cinco pessoas que vão resolver juntas um problema", que é essencialmente, a fórmula de Tolkien. É a fórmula que a maioria das pessoas prefere. É a fórmula dos jogos de RPG e coisas assim.

É para indivíduos alienados que são fundamentalmente solitários, e que não querem fazer muita coisa com outras pessoas. É diferente da minha própria experiência. Eu fui muito precoce. Eu já ganhava a minha vida com a idade de 15 anos. Eu não penso em termos de cinco amigos se unirem para resolver um problema.


Pergunta: E como é produzir um livro tipo Elric agora? É diferente do que era nos anos 60?

Moorcock: Bem, não é diferente em certo sentido, mas é mais difícil. A idéia é escrever um livro que o público vai comprar. Quer dizer, esses livros são escritos também por dinheiro. Eu não estou tentando enrolar as pessoas, mas ao mesmo tempo, obviamente não posso me comprometer. Eu apenas tenho que escrever o que eu escrevo. Mas, ao mesmo tempo, a minha idéia é não colocar obstáculos no caminho para alguém comprá-lo. Eu não quero torná-lo uma leitura difícil. O que ocorre é tornar-se um livro difícil escrever.

Eu já disse isso sobre o rock n 'roll "a única coisa que dá muito certo no rock' n 'roll é que não se tem sempre a certeza de onde está indo". Nunca tem certeza de que se vai chegar lá, você sabe? É tudo: voz,instrumento, tudo em movimento... sempre assim, expandindo-se.

Basicamente, eu estava voando baixo com Stormbringer. Era uma espécie de moto muito rápida, mas não sabia bem para onde estava indo. Eu só esperava que Deus pudesse segurar e manter a direção. Então, você precisa definir outro padrão, um padrão mais elevado, que não interfere com o prazer do leitor ou que vá impedi-los de obter prazer do livro. Eles não precisam saber o que você está fazendo, mas você tem que fazer por si mesmo.

E a outra analogia é, essencialmente, quando você começa a cantar um bom rock n 'roll no palco. Se você levantar o microfone acima do nível da sua cabeça, você está se esforçando para alcançar o microfone e, nesse ato de esticar para alcançá-lo, você introduz tensões que são, novamente, essenciais, as tensões que estão no rock 'n' roll. É por isso que cantores de ópera não podem cantar rock n 'roll' - vozes treinadas não podem cantar algumas músicas, por melhor que estejam treinados, Pavarotti cantando uma canção de Willie Nelson é loucura, como Willie Nelson provavelmente pudesse cantar qualquer canção de Pavarotti seria loucura.

O que me atrai na ficção científica e no rock 'n' roll, foi o fato de que eram parentes, eram jovens, e que não tinham sido assumidos por ninguém. Não havia nenhuma revista, site, e assim por diante, para me fazer sentir auto-consciente. Esse foi o ambiente em que escrevi e produzi.


P: Parece que nos últimos 10 anos, você se esforça conscientemente para fazer de Multiverse um lugar menor - com mais inter-relacionamentos, mais personagens.

Moorcock: Sim, até certo ponto é verdade. Está se expandindo. E em parte, é a teoria do caos. Quanto mais eu entendo a teoria do caos, e eu não me refiro a este tipo de coisas da moda que eles chamam de teoria do caos, mas a matemática real em Mandelbrot, mais eu tenho entendido que, quanto mais racional, mais o mundo torna-se irracional. É quase como se existissem zonas agora, que não haviam antes.

Eu quero descrever a experiência em uma história, sem ter de racionalizá-la ou explicá-la em qualquer tipo de forma genérica, exceto pela minha própria lógica, o meu próprio raciocínio. O que você está vendo na minha ficção é um trabalho individual, mas que está em certo sentido, tentando resolver seus próprios problemas genéricos. Que se desenvolveram depois de eu ter começado.


P: A fantasia e a ficção científica têm seus próprios conjuntos de regras. Multiverse tem seu próprio conjunto de regras?

Moorcock: Sim, certamente. Você tem que segui-las para atender as expectativas dos leitores. Para dar ao cliente o que eles querem. Meus leitores têm certas expectativas de mim. Qualquer novo leitor pode entrar no meu multiverso com qualquer livro, e não sentir que tem que ler todos os outros. Em "To Kill a Mockingbird", você não precisa saber o que está acontecendo na cidade, com essas pessoas, e assim por diante.  Você não acha que, "Oh meu Deus! Não consigo ler "To Kill a Mockingbird" até que eu tenha lido toda a história do Sul", etc, etc - você simplesmente não faz isso. Então eu não quero que os leitores tenham que pensar: "Deus, por onde eu começo, e quando vou terminar?"

O que eu ofereço é o mesmo que oferece talvez um diretor de cinema: se você gosta desse aspecto do meu trabalho, este aspecto da minha vida, então vá por ai. Eu não espero que você goste tanto de Elric, quanto de Pyat. Fico muito contente quando você gosta, mas eu não espero isso. Estou oferecendo uma ampla gama de entretenimentos. Eu sou como um canal de TV.


P: O que você espera ver na seção Moorcock das livrarias?

Moorcock: Isso é lamentável. As livrarias costumavam ter uma seção Moorcock. Quando eu estava no meu auge,  antes de todas essas outras m****s aparecerem. Tolkien não tinha uma seção, até que eu apareci. É absolutamente verdade, todo mundo disse isso na época, eu era uma categoria. Eu era vendido como uma categoria. Eu era vendido, essencialmente, para os distribuidores assim: "Quantos Moorcocks você  quer este mês?"

Desde então, tem havido alguns livros bons e um lote terrível de xerox ruins, mas eu nunca estive fora de impressão em qualquer lugar do mundo. Quer dizer, em 40 anos eu era sempre fui impresso - o que não é ruim. E a maioria dos livros são legíveis. Outra coisa de que eu tenho orgulho, as pessoas dizem isso, e eu sinto que é verdade. É uma questão de orgulho pessoal. Eu não podia fazer nada, só o meu melhor. Porque se você produz uma bela linha de mobiliários, que é muito bom e dura, todos dizem: "Ah, eu vou comprar mobiliário Moorcock", não dá pra baixar a qualidade. Eu sinto que tenho uma relação especial com o leitor. Meu negócio com o leitor é entregar a melhor qualidade que eu puder. Móveis que você pode usar.Há uma chance de quando ficar senil, de perder essa capacidade, mas por enquanto eu não estou, e isso é o que eu faço. É um negócio de família à moda antiga, que se orgulha do que produz!


P: Nos anos 60 você era bem conhecido por sair com outros escritores que escrevem coisas similares. Fritz Leiber, Mervyn Peake, foram escritores que lhe foram associados. Há escritores que escrevem hoje e que possam ser associados a você?

Moorcock: O tipo de escritores com quem eu me associava são o mesmo tipo de escritores de hoje. Eles são escritores com uma gama muito ampla de referências. Não importa se estão escrevendo um gênero ou se estão escrevendo obras literárias, não importa. Há uma revista chamada Modern Word de Jeff VanderMeer, é um tipo de  revista muito erudita, que inclui pessoas como Philip K. Dick, ou seja, inclui também escritores como Pynchon e Don DeLillo, e esse tipo de escritor. Estou sempre mais à vontade com alguém que é um leitor curioso, que lê todos os tipos de literatura.


P: Você escreveu um comentário para a Amazon UK, que Tolkien "foi paciente com você, como com um menino." Qual era o seu relacionamento com ele?

Moorcock: Muito bom, porque naqueles dias, Tolkien não possuía fãs. Achei que poderia ter entrado em contato com ele... Eu tinha escrito um artigo sobre ele no meu fanzine, que originalmente começou como um fanzine de Edgar Rice Burroughs, mas se tornou uma espécie de fanzine de fantasia em geral. Então eu fiz matérias sobre várias pessoas, mas ninguém na verdade, que ainda estivesse vivo e eu tinha escrito um romance de fantasia, haviam apenas cerca de três ou quatro. Eu também estava interessado em música popular, assim eu estava me correspondendo também com Woody Guthrie e Pete Seeger.

Isso pode parecer estranho para as pessoas nos dias de hoje, mas naqueles dias esses pobres diabos não possuíam fãs. Eles ficavam felizes se uma pessoa comum como eu, chegasse junto deles. Eu mantinha uma correspondência maravilhoso com TH White. Quer dizer, hoje essas pessoas seriam inundadas de cartas, tenho certeza. Era assim. Assim como você ou qualquer um pode escrever para mim hoje.

Lá estavam eles, gente como Leiber, e a ficção científica era o gênero dominante. Todos os escritores de ficção científica, Damon Knight e por ai vai, os escritores de ficção científica inteligentes, detestavam fantasia, e tinham ódio de Tolkien, mas eu não.

Considerando que cresci lendo fantasia científica: Leigh Brackett e coisas assim, para mim, era a combinação perfeita. Você tem a magia e a ciência. Por que apenas uma, quando você pode ter tudo? Então eu tinha uma visão muito diferente deles. Mas esses caras das ciências, em geral, são muito mais austeros. Pohl e Kornbluth, Damon Knight, Philip K. Dick, todas estas pessoas tinham um foco, um objetivo real.

O estranho é que a minha fantasia não tinha nada disso. A maioria não tem. Tem um elemento de comentário social dentro dela, e só.

George Orwell previu que as pessoas que lêem ficção quando meninos iriam automaticamente se tornarem fascistas. Eu estava absolutamente envolvido com este material e ninguém ainda me chamou de fascista.

O primeiro livro que eu comprei quando jovem, com o meu próprio dinheiro, porque eu achava que parecia ser uma boa aventura de fantasia, foi o "Pilgrim's Progress". Eu li e gostei, e é uma lição de moral muito boa para todos nós, independentemente da sua religião. Você sabe, se esforçar, assim por diante. É inspiradora, é uma alegoria.  Pensei então que toda história para adultos tinha que ter dois significados. Aprendi que teria um sentido alegórico ou simbólico funcionando com ele. Um argumento moral. Estas fantasias sobre pessoas pobres, têm um significado simbólico. Não estou dizendo que outros não tem, mas de um modo geral, a maioria não parece se preocupar. Eles não se concentram em um problema social, não ressoam entre o mundo moderno e o mundo de fantasia. Não sei tanto sobre o mundo. "Eu sou um contador de histórias". Quando viajo, não sei todos os detalhes da história e da economia e da cultura dos lugares para onde vou. As histórias saem das pessoas, e da paisagem. O resto do mundo eu não sei, não sei mais sobre ele do que sobre a economia em Madagascar.

Se eu definir uma história na ilha, eu aprendo um pouco sobre a ilha. Mas apenas o suficiente para contar a história. Sei que existem pessoas que fazem isso o tempo todo, que se aprofundam, mas você está construindo um mundo, você não está navegando nesse mundo. Acho isso muito estranho.

Leitores mais jovens se queixam de que em meus livros eu não entro em detalhes, do jeito que esses outros escritores fazem. Até onde eu sei, esses escritores são uns chatos. E eles estão me fazendo perder meu tempo.

Entrevistado por Rick Klaw (Science Fiction Weekly)

Michael Moorcock



John Michael Moorcock (18 de dezembro de 1939) nasceu em Londres (Inglaterra). 

Prolífico escritor de Ficção Científica e Fantasia, além de músico e editor, também é autor de uma série de romances literários. Ele tornou-se editor da revista Tarzan Adventures em 1956, com apenas dezesseis anos, depois tornou-se editor da Sexton Blake Library. Como editor da polêmica revista britânica de ficção científica New Worlds, de 1964 até 1971 e depois novamente de 1976 a 1996, Moorcock fomentou o desenvolvimento da New Wave no Reino Unido e indiretamente, nos Estados Unidos.

Durante este tempo, ele ocasionalmente escrevia sob o pseudônimo de James Colvin, um pseudônimo usado por outros críticos da New Worlds. Depois de "Breakfast in the Ruins", um romance literário, anunciou a morte prematura de Moorcock. Alguns leitores acreditaram.

Moorcock, na verdade, faz muito uso das iniciais "JC", e não totalmente coincidente estas também são as iniciais de Jesus Cristo, o tema de seu romance de 1967 "Behold the Man", publicado pela primeira vez na New Worlds, e que conta a história de Karl Glogauer, um viajante temporal que assume o papel de Jesus Cristo (ganhou o prêmio Nebula como melhor romance de 1967).

Moorcock tem permitido que uma série de outros escritores criem histórias em seu universo ficcional de Cornélio Jerry. Brian Aldiss, M. John Harrison, Norman Spinrad, e James Sallis, entre outros, tem escrito essas histórias.
Em uma entrevista publicada na revista Internet Review of Science Fiction, Moorcock explica a razão para a partilha de seu personagem: "Jerry sempre esteve destinado a ser uma espécie de bola de cristal para que outros vejam suas próprias visões - as histórias foram concebidas para funcionar para isso - uma plataforma de mergulho, para usar outra analogia, a partir da qual se pode saltar em um rio e ser levado por ele. [...]

Ele é amigo e fã de Alan Moore, que permitiu o uso de seu próprio personagem, Michael Kane de Old Mars, mencionado por Moore na Liga dos Cavalheiros Extraordinários, Volume II. The Green City de Warriors of Mars foi também usada em Rainbow Mars de Larry Niven.
Cornelius também apareceu na série de quadrinhos do artista francês Moebius "Le Garage Hermetique".

Em 2000, Moorcock escreveu o enredo para um jogo de computador, que foi aprimorado e ganhou vida através de Storm Constantine, resultando em Silverheart. A história se passa em Karadur-Shriltasi, uma cidade no centro do Multiverso.

Moorcock recebeu o título de Grande Mestre pela SFWA em 2008.


Michael Moorcock (Behold the Man, El libro de los martires, El verdadero senõr Newman, Chronicles of Castle Brass series, The Elric Saga series, An evening at home, Breakfast in the ruins, City of the Beast, Corum series, Lonfon Bone, The sedentary jew, Oswald Bastable series, Runestaff series, The case of the nazy canary, Caribean crisis, The affair of the Basin Les Hivers, The black corridor, The blood red game, The dancers at the end of the time series, The dreamthief's daughter, The eternal champion, The skrayling tree, The time dweller, The winds of Limbo, Von Bek series, Jewel in the skull, Un cantante muerto, Weird of the white wolf ) [ Download ]

sábado, 6 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19

 

CAPÍTULO 19
Este capítulo é dedicado à livraria MIT Press, uma loja que visito nos últimos 10 anos sempre que vou a Boston. MIT, é claro, é um dos lugares lendários de onde se originou a cultura nerd mundial, e a livraria do campus sempre me surpreende, desde que coloquei o pé dentro dela pela primeira vez. Em adição aos títulos maravilhosos publicados pela editora MIT Press, a livraria fornece um tour pelo que há de mais excitante em matéria de publicações high-tech no mundo, desde zines sobre hackers, até grossas antologias acadêmicas sobre design de videogames. Este é um dos lugares em que tenho que pedir para enviar as compras para minha casa, pois elas nunca cabem em minha mala.
MIT Press Bookstore: Building E38, 77 Massachusetts Ave., Cambridge, MA USA 02139-4307 +1 617 253 5249

O email que foi enviado às 7 da manhã seguinte, enquanto eu e Ange pintávamos “VAMPMOB CENTRO CIVICO->” em pontos estratégicos pela cidade, dizia:
>REGRAS PARA A VAMPMOB
>Você faz parte de um clã de vampiros diurnos. Você descobriu o segredo de como sobreviver na luz do sol. O segredo é o canibalismo: o sangue de outro vampiro pode lhe dar a força para andar entre os vivos.
>Você precisa morder outros vampiros, quanto mais, melhor, para poder continuar no jogo. Se você passar um minuto sem morder alguém, estará fora do jogo. Uma vez que esteja fora, vista sua camiseta de trás para frente e você se torna um juiz - siga alguns vampiros para ver se eles estão mordendo.
>Para morder outro vampiro, você tem que dizer “MORDIDA!” cinco vezes antes que ele o faça. Então procure um vampiro, faça contato visual e grite “MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA” e se conseguir antes que o outro o faça, você vive e o outro se torna pó.
>Você e os outros vampiros que você encontrar no seu ponto de encontro formam o seu time. O clã. O sangue deles não serve.
>Você pode se tornar invisível ficando parado e cruzando os braços em frente ao peito. Você não pode morder vampiros invisíveis e eles não podem te morder.
>Este sistema usa o sistema de honra dos jogos. A idéia é se divertir é vampirizar por ai e não vencer.
>O jogo tem um fim que será comunicado assim que alguém for declarado vencedor. Os mestres do jogo irão fazê-lo assim que acontecer, preste atenção nos avisos.
>M1k3y
>MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA!

Nós esperávamos que por volta de uma centena de pessoas aparecesse para jogar. Mandamos quase duzentos convites cada um. Mas quando fui ver no Xbox às 4 da manha, haviam 400 respostas. Quatrocentas.
Eu alimentei com os endereços o email programado e saí. Desci as escadas, ouvi meu pai roncando e minha mãe se mexendo na cama. Fechei a porta atrás de mim.

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As 4:15 da manhã, Potrero Hill estava tão calma quanto uma cidade do interior. Alguns sons de trânsito distante e uma vez um carro passou por mim. Parei no caixa eletrônico e tirei 320 dólares em notas de 20, enrolei-as, coloquei um elástico em volta e enfiei num bolso nas minhas calças de vampiro.
Eu vestia novamente a capa e a camisa bufante e calças de smoking que eu tinha modificado para ter bolsos suficientes para carregar um monte de coisas. Usava minhas botas de fivelas de caveira de prata e tinha despenteado o cabelo feito um dente-de-leão negro. Ange estava trazendo a maquiagem branca e tinha prometido usar o delineador nos meus olhos e pintar minhas unhas de negro. Por que não? Quando eu poderia me vestir assim de novo?
Ange me encontrou na frente da sua casa. Ela trazia sua mochila também e meias arrastão, um vestido de empregadinha estilo Lolita gótica, o rosto pintado de branco, uma maquiagem de olhos elaborada estilo kabuki,  os dedos e garganta cobertas por jóias de prata.
“Você está demais!” dissemos um para o outro ao mesmo tempo, então rimos e saímos pelas ruas, com latas de tinta spray nos bolsos.

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Quando pensei no Centro Cívico, pensei como seria ver 40 vampmobs seguindo para lá. Eu os esperava em dez minutos em frente ao prédio da prefeitura. Na grande praça, havia apenas alguns passantes que educadamente se desviavam dos mendigos esmolentos.
Eu sempre odiei o Centro Cívico. Uma coleção de enormes prédios em formato de bolo de noiva, prédios da justiça, museus e outros prédios como a prefeitura. As calçadas eram largas, os prédios eram brancos. Nos guias turísticos de São Francisco eles faziam com que parece o Epcot Center, futurístico e austero.
Mas visto do chão era sujo e embrutecido. Sem-tetos dormiam nos bancos. O distrito ficava vazio às 6 da tarde, exceto pelos bêbados e viciados, porque com apenas um tipo de prédio por ali, não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol. Estava mais para uma avenida do que para uma vizinhança e as únicas casas de comercio ali eram lojas de penhora e mercadinhos de bebidas para atender aos  familiares dos vigaristas, e vender aos bêbados que faziam desse lugar seu lar durante a noite.
Eu realmente comecei a entender aquilo quando li uma entrevista de uma antiga e fabulosa planejadora urbana chamada Jane Jacobs, a primeira pessoa que realmente pensou no motivo de ser errado fatiar a cidade com auto-estradas, enfiar os pobres em projetos habitacionais e usar leis de zoneamento para se controlar o que pode e o que não pode ser feito ali.
 
Jacobs explicava que as cidades são orgânicas e tem uma grande variedade - ricos e pobres, brancos, mestiços, anglo-saxões e mexicanos, varejo e residencial e até industrial. Uma vizinhança como aquela que tem todo tipo de gente passando por ela o tempo todo seja dia ou noite precisa ter um tipo de comércio para cada necessidade, ter gente ao redor o tempo inteiro agindo como os olhos da rua.

Você já viu isso antes. Quando caminha pela parte antiga de alguma cidade e você encontra um monte de lojas legais, caras de terno, pessoas usando a última moda, restaurantes finos e cafeterias bacanas, um pequeno cinema talvez, casas com uma fachada transada. É claro que pode ter umas Starbucks também, mas tem sempre um mercado de frutas e uma floricultora cuja dona parece ter trezentos anos e ela cheira as flores gentilmente em suas vitrines. Isso é o oposto de um espaço planejado, como um shopping. É mais como um jardim selvagem ou uma floresta na maneira que surgiu.

Você não poderia estar mais longe disso do que neste Centro Cívico. Li uma entrevista com Jacobs onde ela fala sobre a antiga e ótima vizinhança que eles colocaram abaixo para construir aquilo. Era o tipo de vizinhança que aparece sem permissão ou razão.
Jacobs disse que ela havia previsto isso há alguns anos, que o Centro Cívico seria a pior vizinhança na cidade, uma cidade fantasma à noite, um lugar com algumas lojas baratas vendendo birita e motéis pulguentos. Na entrevista ela não parecia feliz em ser inocentada deste fato, soava mais como se falasse sobre um amigo falecido quando descrevia o que o Centro Cívico se tornaria.

Agora era a hora do rush e o Centro Cívico fervilhava. A estação Bart também servia como a maior estação para as linhas de bondes municipais e, se você precisasse trocar de um para outro, era lá que você o faria. Às oito da manhã, milhares de pessoas vinham pelas escadas, subindo ou descendo as escadas, entrando em táxis ou saindo de ônibus. Elas eram afuniladas pelos pontos de verificação do DHS frente aos edifícios, e driblavam os pedintes mais agressivos. Cheiravam a xampus e colônias, frescas de banho recém-tomado e armadas em seus trajes de trabalho, empunhando valises e pastas com laptops. Às 8 da manhã, o Centro Cívico era uma central de negócios.

E para cá vinham os vampiros. Uma dúzia deles vindo de Van Ness, outra vindo do Mercado. Mais alguns vindo do outro lado do Mercado. Mais alguns chegando de Van Ness. Escorregavam pelos lados dos prédios, com suas faces pintadas de branco e os delineadores pretos nos olhos, roupas escuras, jaquetas de couro, botas. Mitenes de rendinha.
Eles começavam a encher a praça. Alguns trabalhadores passavam olhando  sem aceitar que estes esquisitos perturbassem suas realidades pessoais, enquanto se empenhavam em fazer uma porcaria qualquer nas suas próximas oito horas. Os vampiros se aglomeravam em grupos, sem muita certeza de quando o jogo se iniciaria. Se juntavam em grandes grupos, como uma mancha de óleo vazando, todos estes pontos negros num só lugar. Vários usavam cartolas e casacas antigas. Muitas das meninas elegantes vestiam fantasias empregadinhas góticas com gigantescos saltos plataforma.
Tentei estimar um número. 200. E cinco minutos depois, 300. 400. E continuavam chegando. Os vampiros tinham amigos.
Alguém beliscou meu traseiro. Virei e vi Ange, rindo tanto que tinha que se segurar.
“Olhe para eles, cara, olhe para todos eles!” ela disse. O dobro do povo que tinha poucos minutos atrás. Não tinha idéia de quantos eram Xneters, mas facilmente uns mil deles compareceram à minha festinha. Cristo.
O DHS e a Polícia de São Francisco começavam a aparecer por ali, falando em seus rádios. Ouvi uma sirene ao longe.
“Certo.” disse segurando Ange pelo braço. “Vamos lá!”
Mergulhamos em meio a multidão e logo que achamos nosso primeiro vampiro, ambos dissemos bem baixinho “mordida mordida mordida mordida mordida!” Minha vitima era um surpresa - mas bela- garota com teias de aranha pelas mãos e uma máscara grotesca. Ela disse “Droga!” e saiu dali sabendo que eu a tinha pego.
A coisa do “mordida mordida mordida mordida mordida!” já rolava pelos vampiros mais próximos. Alguns atacavam os outros e outros corriam buscando proteção, se escondendo. Esquivei-me entre os mundanos usando-os como cobertura, após ter garantido minha primeira vitima. Por toda volta, gritos de “mordida mordida mordida mordida mordida!” e risos e pragas.
O som se espalhava como um vírus através da multidão. Todos os vampiros sabiam que o jogo tinha começado e aqueles que antes permaneciam juntos agora partiam como moscas. Riam e sibilavam e corriam por toda parte passando a notícia de que o jogo começara. E mais vampiros estavam chegando.
8:16. Hora de pegar outro vampiro. Me abaixei e me movi assim entre as pernas daqueles que iam em direção às escadas do Bart. Eles saltavam ao me ver, surpresos, e tentavam me evitar. Minha mira-laser estava apontada para um par de botas na plataforma com dragões nas pontas e não esperava isso quando fiquei de cara com outro vampiro, um garoto de 15 ou 16 anos, cabelo cheio de gel, penteado para trás e usando uma jaqueta de PVC de Marilyn Manson com colar de dentes falsos onde estavam inscritos intrincados símbolos.
“Mordida mordida mordida…” ele começou, quando um dos mundanos voou sobre ele tropeçando e foram ao chão. Cai por sobre ele e gritei “mordida mordida mordida mordida mordida!” antes que pudesse se recompor de novo.

Mais vampiros chegavam. As roupas eram realmente de assustar. O jogo congestionou as calçadas e foi em direção a Van Ness, espalhando-se na direção da  rua do Mercado. Motoristas buzinavam, os condutores de bonde mostravam sua irritação com as campainhas. Ouvi mais sirenes, mas agora o tráfego começava a parar em todas as direções.

Aquilo era assustadoramente fantástico.

MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 

O som vinha de toda parte. Havia tantos vampiros agora, brincando com tanto vigor, que era um rugido. Arrisquei-me de pé ali, olhando a volta e percebendo estar bem no meio de uma multidão gigantesca de vampiros que iam tão longe o quanto podia enxergar em todas as direções.
MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 
Aquilo era melhor que o concerto no Parque Dolores. Aquele tinha sido furioso e mandara ver, mas este era, bem, era divertido. Era como voltar ao tempo do recreio, aos jogos que brincávamos enquanto o sol brilhasse, centenas de moleques perseguindo uns aos outros. Os adultos e os carros apenas faziam a coisa mais divertida, muito mais.
E era isso que era, diversão pura e simples. Todos nós estávamos rindo agora.
Mas a polícia a esta altura já estava mobilizada. Ouvi helicópteros. Daqui a alguns segundos estaria terminado. Era hora de decretar o fim e jogo.
Agarrei um vampiro.
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersássemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
A vampira era uma menina, pequena que pensei ser realmente muito nova, mas devia ter uns 17 ou 18 pelo seu rosto e sorriso. Ela disse: “Oh, esta é boa.”
“O que eu disse?”
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
“Certo. Passe adiante.”
Ela se misturou com a multidão. Eu agarrei outro vampiro e disse a mensagem para ele. E ele partiu para passar a mensagem.
Em algum lugar da multidão eu sabia que Ange estava também fazendo o mesmo. No meio da multidão devia haver gente infiltrada, falsos Xnetters, mas o que eles fariam ao saber disso? Os policiais não tinham escolha. Eles iam dar ordens para que dispersássemos. Isso era garantido.
 Eu tinha que achar Ange. O plano era nos encontrarmos na estatua do fundador, na praça, as chegar lá seria complicado. A multidão não se mexia mais, ela se aglomerara, como a multidão no caminho da Bart quando as bombas explodiram. Era praticamente impossível conseguir atravessá-la.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Ao redor, centenas de vampiros se atiravam ao chão, apertando suas gargantas esfregando os olhos, tossindo buscando ar. Era fácil fingir ter sido intoxicado por gás, nós todos havíamos visto os vídeos da festa em Missão Dolores Parque, com as nuvens de pimenta.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Caí ao chão protegendo minha mochila, retirei um boné de basebol vermelho que estava preso ao cinto das calça e o enfiei na cabeça então agarrei minha garganta e fiz a pior imitação de intoxicação.
Os únicos ainda de pé eram os mundanos,os assalariados que apenas queriam chegar aos seus empregos. Olhei ao redor enquanto tossia.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE! DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
A voz de Deus fazia meus intestinos doerem. Sentia-a nos molares, nos fêmures, na minha espinha.
Os assalariados estavam apavorados. Afastavam-se tão rápido quanto podiam, mas não em uma direção em particular. Os helicópteros pareciam pairar diretamente sobre nós não importando onde estivéssemos. Os policiais agora avançavam com dificuldade em meio à multidão e tinham os capacetes fechados. Alguns com escudos. Alguns com mascaras contra gases. Eu tossia forte.
Então os assalariados começaram a correr. Eu provavelmente teria que correr também. Vi um cara rasgar uma jaqueta de 500 dólares e amarrar os trapos ao redor do rosto antes de seguir para o sul em direção à Missão

Não era para isso acontecer - a coisa do fingimento era para assustar as pessoas e deixá-las confusas, mas não levá-las ao pânico de um estouro de boiada.
E então havia gritos agora, gritos. Reconheci da noite do parque. Este era o som de gente aterrorizada, correndo e se chocando uns contra os outros na tentativa de fugir dali.
E vieram as sirenes de ataque aéreo.
Não ouvia aquilo desde as bombas, mas eu nunca as esqueceria. Me cortaram e foram direto ao meu ponto fraco, fazendo minhas pernas virarem geléia. Isso me fez querer correr em pânico. Fiquei de pé, com o boné vermelho a cabeça, pensando somente numa coisa. Ange. Ange e a estátua do fundador.
Todos estavam de pé agora, correndo e gritando, em todas as direções. Empurrei algumas pessoas n meu caminho, segurando a mochila e o boné, enquanto ia na direção da estátua. Masha devia estar me procurando e eu procurava por Ange. E Ange não estava lá.
Empurrei e xinguei. Usei os cotovelos. Alguém pisou tão forte no meu pé que achei ter se quebrado e o empurrei e ele caiu. Ele tentou se levantar e alguém tropeçou nele. Eu era empurrado e empurrava.
Então alguém com mãos fortes agarrou meu pulso e cotovelo e num movimento fluido trouxe meu braço para as minhas costas. Senti como se meu ombro fosse sair do lugar e imediatamente me curvei. Gritando, um som que mal se ouvia devido ao brilho da multidão, do bater das pás dos helicópteros e do lamento das sirenes.
Fui endireitado, seguro por mãos fortes as minhas costas que me seguravam como se fosse uma marionete. Estava seguro de tal maneira que mal dava para virar-me. Não podia pensar nos helicópteros ou em Ange. Tudo que conseguia pensar era em me livrar de quem me mantinha preso. Consegui me mexer de maneira a ficar frente a frente com esta pessoa.
Era uma garota seu rosto anguloso parecendo um roedor, estava meio oculto por enormes óculos de sol. Sob os óculos, escapava um pouco de seu cabelo rosa espetado.
‘Você!” eu disse. Eu a conhecia. Ela tinha tirado uma foto minha e ameaçado me delatar ao vigia de gazeteiros. Cinco minutos antes dos alarmes de bomba começarem.  Ela tinha sido esperta e cruel. Nós corremos juntos daquele lugar em Tenderloin quando a polícia caiu sobre a gente e eu fui hostil e eles decidiram que eu era um inimigo.
Ela - Masha - se tornara aliada deles.

“Olá M1k3y!” ela disse beijando minha orelha, de perto, como se fossemos amantes. Ela soltou meu braço e eu me desvencilhei dela.
“Cristo! É você!”
“Sim, eu. O gás vai vir em dois minutos. Vamos ralar fora.”
“Ange, minha namorada, está na estátua do fundador.”
Masha olhou por sobre a multidão. “Sem chances! Se tentarmos chegar lá estamos ferrados. O gás vai baixar em dois minutos, caso não tenha entendido o que eu disse.”
Parei ali mesmo. “Não vou sem Ange!”
Ela riu: “Problema seu. É seu funeral!” ela gritou no meu ouvido.
Ela começou a empurrar a multidão se afastando para o norte em direção aos subúrbios. Eu continuei forçando caminho para a estátua. Um segundo depois, meu braço estava de novo às costas e eu estava sendo puxado para trás.
“Você sabe demais, seu Mané! Já viu meu rosto. Você vai comigo.”
Gritei e lutei contra ela até parecer que meu braço se partiria, mas ela continuava me puxando para trás. Com ela me usando como aríete, fizemos um bom avanço através da multidão. O som dos helicópteros mudou de repente e ela me deu um forte empurrão e gritou “Corre! Aí vem o gás!’
O barulho da multidão também mudou. Os gritos e reclamações pareceram diminuir bastante. Eu já tinha ouvido aquele som de algo sendo lançado no ar antes. Aquilo me levou de volta ao parque. O gás caia como chuva lentamente. Prendi a respiração e corri.
Nos livramos deles e ela soltou meu braço. Avancei com dificuldade o mais rápido que pude pelas calçadas enquanto a multidão ia se esvaziando. Íamos em direção a um grupo de policiais da DHS com escudos para confronto, capacetes e máscaras. Assim que passamos perto deles, eles se moveram em nossa direção para nos bloquear mas Masha exibiu um distintivo e eles se dissiparam como ela fosse Obi Wan Kenobi dizendo “Nós não temos os droids que vocês estão procurando.”
“Sua filha da puta!” falei enquanto corríamos pela rua do mercado. “Temos que voltar para pegar Ange!”
Ela apertou os lábios e balançou a cabeça “Sinto muito, chapa! Eu não vejo meu namorado há meses. Ele deve achar que estou morta. Se voltarmos para pegar Ange, estamos mortos. Se continuarmos, teremos uma chance. E se nós tivermos uma chance, ela também terá. Aqueles garotos não vão todos ser mandados para a prisão. Provavelmente irão pegar uns poucos para interrogatório e mandar o resto para casa.”
Tínhamos alcançado a rua do mercado, passado pelas casas de strip-tease onde os bêbados e viciados acampavam e usavam de banheiro ao ar livre. Masha me levou para uma pequena alcova, por uma portinha daqueles night-clubes. Tirou a jaqueta e virou ao avesso - o forro era de uma padrão grosso e do lado de dentro virado parecia diferente. Ela tirou um chapéu de lã do bolso e atarraxou na cabeça, parecendo um pico fora do lugar. Então ela pegou removedor de maquiagem e começou a trabalhar no seu rosto e unhas. Em minutos, era uma mulher diferente.

 “Mudança de guarda-roupa” ela disse. “Agora é sua vez. Tire os sapatos, a jaqueta e este boné.”
Eu sabia onde ela queria chegar. Os guardas deviam estar procurando atentamente por qualquer um que pudesse estar participando de um Vampmob. Tirei o boné. Nunca gostei de bonés de basebol. Enfiei minha jaqueta na mochila e peguei uma camisa de mangas longas com a foto de Rosa Luxemburgo nela, coloquei sobre a camisa preta. Deixei que Masha tirasse a maquiagem de meu rosto e tinta das unhas e um minuto depois eu estava limpo.
“Desligue o telefone.” ela disse. “Está carregando algum arphid?”
Eu tinha meu cartão do estudante, meu cartão de banco, meu Passe Rápido. Foi tudo para uma bolsa prateada que ela carregava consigo e que reconheci como sendo um saco Faraday à prova de ondas de rádio. Mas assim que ela a guardou percebi que tinha dado minha identidade para ela. Se ela estivesse trabalhando para o outro lado…

A grandeza daquilo que estava acontecendo começou a aparecer para mim claramente. Em minha cabeça eu imaginava ter Ange comigo neste ponto. Ange faria com que fosse dois contra um. Ange me ajudaria a ver se eu deixasse algo escapar. Se Masha não fosse tudo que ela dizia ser.
“Coloque estes seixos dentro dos sapatos antes de ….”
“Estou bem. Eu dei um jeito no pé. Nenhum programa de identificação vai me apanhar agora.”
Ela concordou e vestiu sua mochila. Eu peguei a minha e saímos dali. O tempo total pra nos trocarmos não chegou a um minuto. Parecíamos e andávamos agora como duas pessoas diferentes.
Ela consultou o relógio e balançou a cabeça. “Vamos lá. Temos que ir para o ponto de encontro. Não pense em correr. Você tem duas opções: eu ou a cadeia. Eles ficarão analisando os filmes daquela reunião de vampiros por vários dias, mas quando acabarem, cada rosto neles estará num banco de dados. Nossa saída do local será notada. Agora somos dois criminosos procurados.”

#

Ela nos levou até a rua do Mercado, através de Tenderloin. Eu conhecia a vizinhança. Era aquela onde estivemos procurando por um ponto de acesso aberto de WiFi, jogando Harajuku Fun Madness.
“Para onde vamos?” perguntei.
“Vamos pegar uma carona. Cale a boca e me deixe pensar.” ela respondeu.
Nos movíamos rapidamente e o suor escoria por nossos rostos, sob o cabelo, através das costas, escorregando pelo rego da bunda e coxas. Meu pé doía de verdade e eu via as ruas de São Francisco provavelmente pela última vez.
E estávamos subindo com dificuldade, indo para aquele lugar onde a miséria de Tenderloin dava lugar aos imóveis mais inacessíveis de Nob Hills. Minha respiração se transfomava em arfadas irregulares. Ela nos levava por becos estreitos usando as ruas maiores apenas para alcançar a ruela seguinte.
Acabávamos de entrar por outra viela, Sabin Place, quando alguém atrás de nos gritou: “Parados aí!” cheio de júbilo perverso. Paramos e nos viramos.
Na beira da viela Charles meio vestido a caráter para o Vampmob, uma camisa preta e jeans com o rosto pintado. “Olá, Marcus. Vai a algum lugar?” Sorriu um sorriso largo e úmido. “Quem é a sua namorada?”
“O que você quer, Charlie?”
‘Bem, eu tenho estado de olho naqueles traidores da Xnet desde que eu te vi distribuindo DVDs na escola. Quando fiquei sabendo da sua VampMob, eu resolvi participar, só para ver se você ia dar as caras e o que iria fazer. E sabe o que eu vi?’
Não disse nada. Ele estava com o telefone na mão, apontando para nós, Gravando. Talvez estivesse já pronto para discar 911. Ao meu lado, Masha ficou dura como uma tábua.
“Eu vi você liderando a maldita coisa. E eu gravei tudo, Marcus. Agora eu vou chamar a polícia e você vai esperar quietinho por eles. E depois você vai passar um bom tempo na prisão.”
Masha deu um passo à frente.
‘Parada aí, guria’ ele disse. “Eu te vi trazendo ele até aqui. Eu vi tudo…”
Ela deu outro passo e arrancou o telefone da sua mão, enquanto que com a outra ela mostrava uma carteira aberta.
“DHS, seu babaca! Eu sou do DHS. Eu estava seguindo este tapado até seus líderes para ver onde ele iria. Agora você estragou tudo. Nós temos um nome para isso e chamamos de ‘Obstrução da segurança nacional!’ Você vai ouvir muito sobre isso a partir de agora.”
Charles recuou, suas mãos no ar, na frente dele. Parecia mais pálido ainda sob a maquiagem. “O quê? Não! Quer dizer, eu não sabia! Eu só estava tentando ajudar!”
“A última coisa que precisamos é de um bando de agentes especiais juniores nos ajudando, camarada. pode falar isso para o juiz!”
Ele se moveu recuando de novo, mas Masha foi rápida. Agarrou seu pulso e o girou do mesmo jeito que fizera comigo no Centro Cívico. A mão dela foi aos bolsos de trás e trouxe uma tira de plástico, uma algema, com a qual ela rapidamente prendeu seus pulsos.
Isso foi a última coisa que vi antes de sair correndo dali.

#

Já estava longe, perto fim da viela quando ela me alcançou, lançando-me ao chão. Eu não conseguia me mover muito rápido por conta do pé machucado e o peso da mochila. Fui de cara ao chão e meu rosto feriu-se no asfalto.
“Jesus Cristo! Você é um idiota! Você acreditou naquilo, não foi?” ela disse.
Meu coração queria sair do peito. Ela estava sobre mim e lentamente me deixou sair.
“Vou precisar algemar você, Marcus?”
Fiquei de pé. Tudo doía. Eu queria morrer.
“Vamos lá!” ela disse, “Agora não estamos tão longe.”

#

Nosso objetivo acabou sendo um caminhão estacionado numa ruazinha de Nob Hill, dezesseis rodas, do tamanho de um daqueles inconfundíveis caminhões da DHS que ainda se viam pelas esquinas de São Francisco, com suas antenas à vista.
Este, contudo, tinha estampado na lateral “Três caras e um caminhão de mudança” e os três caras estavam saindo e entrando de um alto prédio de apartamentos, com toldo verde. Carregavam móveis, caixas fechadas, enchendo o caminhão e cuidadosamente empacotando tudo.
Ela nos levou para dar uma volta pelo quarteirão, aparentemente insatisfeita com alguma coisa e ao passarmos novamente por eles, ela fez contato visual com o homem que tomava conta do caminhão, um cara com um cinto de ferramentas e luvas grossas. Tinha um rosto gentil, sorriu para nós, enquanto subia os três degraus da escada, entrando em seu interior. “Debaixo da mesa grande”, ele disse. “Deixaremos um espaço para vocês.”
O interior estava cheio pela metade, ou um pouco mais. Mas havia um corredor estreito ao redor de uma enorme mesa coberta por cobertores e com plástico bolha nas pernas.
Masha me puxou para baixo da mesa. Ali era apertado e empoeirado e tive que segurar um espirro assim que nos metemos entre as caixas. O espaço era tão pequeno que estávamos praticamente um sobre o outro. Eu não achava que Ange pudesse caber ali conosco.
“Puta!” eu disse olhando para Masha.
“Cala a boca! Você devia lamber minhas botas em agradecimento. Você acabaria numa cela em uma semana. E não seria aqui em São Francisco. Talvez você fosse parar na Síria. Acho que é para lá que mandam quando querem sumir com alguém.”
Eu coloquei minha cabeça entre meus joelhos e respirei profundamente.
“Por quê você fez uma coisa tão estúpida quanto declarar guerra a DHS?”
Eu contei para ela. Sobre ter sido humilhado e sobre Darryl.
Ela vasculhou os bolsos e tirou um telefone. Era de Charlie. “Telefone errado.” Tirou outro telefone do bolso. Ligou e a luz do telefone iluminou nosso pequeno forte. Após teclar por um instante elao  mostrou  para mim.
Era a foto que ela tinha tirado de nós, um pouco antes das bombas explodirem. Uma foto de Jolu e Van, eu e… Darryl.
Eu segurava na minha mão a prova de que Darryl estivera conosco antes de sermos levado para ficar em custódia da DHS. Prova de que ele estava vivo e bem e em nossa companhia.
“Você tem que me dar uma cópia disso. Eu preciso.” Eu disse.
“Quando a gente chegar em Los Angeles.” ela falou, fechando o telefone. “Quando você tiver entendido como ser um fugitivo sem nos colocar em perigo de sermos despachados para a Síria. Não quero que tenha idéias sobre resgatar este cara. Ele está seguro onde está… por enquanto.”
Pensei em tirar o telefone dela à força, mas ela já demonstrara sua força física. Ela devia ser faixa preta ou algo assim.

Ficamos sentados lá no escuro, ouvindo os outros três caras encherem o caminhão, caixa após caixa, amarrando coisas e grunhindo de esforço ao fazê-lo. Tentei dormir, mas não consegui. Masha não tinha problemas para isso. Ela roncava.
Ainda havia luz brilhando através do estreito e obstruído corredor através do qual entrava o ar fresco do exterior. Fiquei olhando para lá, pensando em Ange.
Minha Ange. Seus cabelos escorrendo sobre seus ombros enquanto virava a cabeça de um lado para outro, rindo de algo que fiz. Pensei em seu rosto quando a vi pela ultima vez, sumindo na multidão da VampMob. Todas aquelas pessoas da VampMob, como aquelas no parque, sendo derrubadas e sofrendo, o DHS avançando com seus cassetetes. Aqueles que desapareceram.
Darryl. Preso na Treasure Island, sendo levado da sua cela para intermináveis interrogatórios sobre os terroristas.
O pai de Darryl, acabado, barbado e embriagado. Depois, de banho tomado para “as fotos.” Lacrimejando feito um menininho.
Meu próprio pai, e o jeito com que ele mudou devido ao meu desaparecimento em Treasure Island. Tinha sido quebrado, como o pai de Darryl, mas ao seu modo. E seu rosto, quando eu contei onde eu estivera.
E foi então que eu soube que não podia fugir.
Foi quando eu soube que precisava ficar e lutar.

#

A respiração de Masha era pesada e ritmada, mas quando eu tentei alcançar seu bolso com um movimento tão lento quanto o de uma geleira, tentando pegar seu telefone, ela se mexeu um pouco e fungou. Congelei e sequer respirei por dois minutos inteiros, contando um hipopótamo, dois hipopótamos…
Devagar, sua respiração voltou a ficar como antes. Retirei seu telefone do bolso do casaco milímetro por milímetro, meus dedos tremiam pelo esforço de mover-se tão lentamente.
Então o peguei, tinha a forma de uma pequena barra de doce.
Virei-me em direção a luz quando tive um flash de memória. Charles segurando seu telefone, nos filmando. Com um telefone na forma de uma pequena barra de doces, prateado, com logos de uma dúzia de companhias. O tipo de telefone subsidiado em que você é obrigado a ouvir um comercial cada vez que faz uma ligação.

Estava escuro demais para ver o telefone perfeitamente no caminhão, mas eu podia senti-lo. Tinha decalques nas laterais. Sim. Sim. Eu tinha roubado o telefone de Charles.
Virei-me devagar, devagar, bem devagar. Alcancei seu outro bolso. O seu telefone era grande e massudo, com uma ótima câmera e sabe-se lá mais o quê.
Eu já tinha conseguido antes, o que fazia a coisa toda mais simples. Milímetro por milímetro novamente, libertei-o do seu bolso, parando apenas quando ela fungou por duas vezes.
Estava com ele e comecei a me voltar, levando-o comigo, quando sua mão moveu-se rápida como uma cobra e agarrou meu pulso, com força, os dedos se fechando nos ossos da minha mão.
Engasguei e vi os olhos de Masha abertos me fitando.
“Você é um idiota!” ela disse, tirando-me o telefone. “Como achava que ia conseguir desbloqueá-lo?”
Engoli em seco. Senti os ossos do meu pulso sendo espremidos. Fiz força para não gritar.
Com a outra mão ela me socou. “Era isso que você queria?” Ela me mostrou a nossa foto. “Esta foto?”
Não disse nada. Meu pulso parecia que iria se quebrar.
“Talvez eu a apague, acabando com esta tentação!” Sua mão livre moveu-se em direção ao telefone. Seu telefone perguntava se ela estava certa do que iria fazer e ela teve que olhar para ele para ver o botão certo.
Foi aí que eu ataquei. Eu ainda tinha o telefone de Charles na minha outra mão e acertei sua mão o mais forte que consegui, batendo meus dedos na mesa sobre nós. Acertei-a tão forte que o telefone se partiu e ela gritou e sua mão se afrouxou. No mesmo movimento alcancei sua outra mão, e seu telefone agora desbloqueado com seu polegar ainda sobre a tecla de OK. Seus dedos ficaram no ar quando arranquei o telefone dela.

Corri para o corredor estreito usando as mãos e joelhos, em direção da luz. Senti suas mãos acertando meus pés e tornozelos por duas vezes. E ainda precisei empurrar uma daquelas caixas que haviam nos emparedado como o Faraó em sua tumba. Algumas caixas caíram atrás de mim e ouvi Masha gemer.
A porta de correr do caminhão estava aberta numa brecha e eu mergulhei através dela. Os degraus haviam sido retirados e me vi balançando sobre a rua, pendurado. Agarrei-me ao pára-choques e arrastei desesperadamente o fecho da porta, até o seu fim. Masha gritou do lado de dentro… Eu devia ter acertado seus dedos. Pensei que iria vomitar, mas não o fiz.
Eu tinha trancado o caminhão. 



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19 [ Download ]

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sci Fi Science - Physics of the Impossible


Physics of the Impossible é uma série que explora o universo do que é aparentemente impossível.
A apresentação é do conhecido físico, Doutor Michio Kaku, co-autor da Teoria de Campos de Cordas, um ramo da Teoria das Cordas. 

Ispirado no livro de Kaku, 'Física do Impossível', a série confronta a Ficção Científica com o fato científico, e investiga tópicos do livro, como Teleportação, Viagens no tempo e Superpoderes.

Antologia 'Letras aos corvos"


   Informações e regulamento: http://letrasaoscorvos.blogspot.com/

Banner personalizado com imagens de Star Wars


quinta-feira, 4 de março de 2010

Star Trek por Alan Dean Foster



Did he also want to escape his future?

The fence was not particularly high, but it was strongly charged. The invisible energy beams that hummed through the traditional metal latticework and rose higher than his head could not be interdicted without setting off multiple alarms. Vertically aimed beams meant that a would-be intruder could not simply soar over it.
Kirk made no attempt to do so. Instead, he pulled up just outside the perimeter. Within, wrapped in a web of metal and composite scaffolding, a starship was under construction.

Its presence was no secret. Starfleet had chosen central Iowa as the site of this particular construction yard not only because of its proximity to Mississippi shipping and the industrial commercial hubs of the Midwest but because if something blew, few people outside the yard itself would be at risk. There was ample room to work, plenty of territory for subsidiary firms and support industries to set up shop, and the ground was flat and tectonically stable.

His bike idling almost silently, Kirk gazed at the great ship. While the superstructure was largely finished, it was still a long way from being complete, and internal fitting out had barely begun.

The service yard was filled with crates, containers, and boxes, some of them enormous, each stenciled or otherwise branded with the name of the new vessel for which their contents were destined.

U.S.S. ENTERPRISE





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quarta-feira, 3 de março de 2010

Star Wars - 10th anniversary - Starlog edition

 

 


 

 



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terça-feira, 2 de março de 2010

Terminator and Philosophy



INTRODUCTION
The Rise of the Philosophers

Judgment Day, as they say, is inevitable. Though when exactly it happens is debatable.

It was originally supposed to happen on August 29, 1997, but the efforts of Sarah Connor, her son, John, and the model T - 101 Terminator postponed it until 2004. We see it actually happen in the less - than - spectacular Terminator 3: Rise of the Machines .

But in the new television series The Sarah Connor Chronicles , we fi nd out that it has been postponed until 2011, and apparently, from the details we can glean so far as to the plot of Terminator: Salvation , it actually occurs in 2018. This kind of temporal confusion can make you as dizzy as Kyle Reese going through the time - travel process in The Terminator .

Along the way, however, James Cameron’s Terminator saga has given us gripping plots and great action.
Clearly, Judgment Day makes for great movies. But if you’re wondering why Judgment Day might inspire the work of deep thinkers, consider that philosophy, war, and catastrophe have been strange bedfellows, especially in modern times.

At the dawn of the eighteenth century, the optimistic German philosopher Gottfried Leibniz (1646 – 1716) declared that he lived in “ the best of all possible worlds, ” a view that was shaken — literally — by a massive earthquake in Lisbon, Portugal, in 1755. After Leibniz, no European philosopher took his “ glass half full ” worldview quite so seriously again.

One hundred years after Leibniz wrote these perhaps regrettable words, Napoleon was taking over most of Europe. Another German, Georg W. F. Hegel (1770 – 1831), braved the shelling of the city of Jena to deliver the manuscript for his best - known book, the Phenomenology of Spirit . Again, Hegel had occasion for regret, as he had considered at an earlier point dedicating the book to the Emperor Bonaparte himself! More than a hundred years later, critical theorist Theodor Adorno (1903 – 1969) fled Germany in the shadow of the Nazi rise. His work as a philosopher of culture in England, then America, centered on the idea that philosophy could never be the same after the tragedy of Auschwitz and other concentration camps.

Despite war and catastrophe, these philosophers persevered in asking deep and diffi cult questions; they resisted a retreat to the irrational and animalistic, despite the most horrifying events. In this respect, philosophy in diffi cult times is a lot like the human resistance to Skynet and the Terminators: it calls upon the best of what we are in order to stave off the sometimes disastrous effects of the darker side of our nature.

Besides the questions raised about the moral status of the Terminator robots and its temporal paradoxes, the Terminator saga is founded on an apparent paradox in human nature itself — that we humans have begun to create our own worst nightmares. How will we cope when the enemy is of our own making?

To address this question and many others, we’ve enlisted the most brilliant minds in the human resistance against the machines. When the T - 101 explains that Skynet has his CPU factory preset to “ read - only, ” Sarah quips, “ Doesn ’ t want you to do too much thinking, huh? ” The Terminator agrees. Well, you ’ re not a Terminator (we hope!) and we ’ re not Skynet; we want you to think.

But we understand why Skynet would want to limit the T - 101 ’ s desire to learn and think new thoughts.

Thinking is hard work, often uncomfortable, and sometimes it leads you in unexpected directions. Terminators are not the only ones who are factory preset against thinking. As the philosopher Bertrand Russell (1872 – 1970) once famously remarked,“ Many people would rather die than think; in fact, most do.” We want to help switch your CPU from read - only to learning mode, so that when Judgment Day comes, you can help lead the resistance, as Leibniz, Hegel, and Adorno did in their day. But it ’ s not all hard work and dangerous missions. The issues may be profound and puzzling, but we want your journey into the philosophy of the Terminator to be entertaining as well as edifying.

Hasta la vista, ignorance!



CONTENTS
Introduction: The Rise of the Philosophers 

PART ONE
LIFE AFTER HUMANITY AND ARTIFICIAL INTELLIGENCE
1 The Terminator Wins: Is the Extinction of the Human Race the End of People, or Just the Beginning?
Greg Littmann
2 True Man or Tin Man? How Descartes and Sarah Connor Tell a Man from a Machine
George A. Dunn
3 It Stands to Reason: Skynet and Self-Preservation
Josh Weisberg
4 Un-Terminated: The Integration of the Machines
Jesse W. Butler

PART TWO
WOMEN AND REVOLUTIONARIES
5 “I Know Now Why You Cry”: Terminator 2, Moral Philosophy, and Feminism
Harry Chotiner
6 Sarah Connor’s Stain
Jennifer Culver
7 James Cameron’s Marxist Revolution
Jeffrey Ewing

PART THREE
CHANGING WHAT’S ALREADY HAPPENED
8 Bad Timing: The Metaphysics of the Terminator
Robert A. Delfi no and Kenneth Sheahan
9 Time for the Terminator: Philosophical Themes of the Resistance
Justin Leiber
10 Changing the Future: Fate and the Terminator
Kristie Lynn Miller
11 Judgment Day Is Inevitable: Hegel and the Futility of Trying to Change History
Jason P. Blahuta

PART FOUR
THE ETHICS OF TERMINATION
12 What’s So Terrible about Judgment Day?
Wayne Yuen
13 The War to End All Wars? Killing Your Defense System
Phillip Seng
14 Self-Termination: Suicide, Self-Sacrifice, and the Terminator
Daniel P. Malloy
15 What’s So Bad about Being Terminated?
Jason T. Eberl
16 Should John Connor Save the World?
Peter S. Fosl

PART FIVE
BEYOND THE NEURAL NET
17 “You Gotta Listen to How People Talk”: Machines and Natural Language
Jacob Berger and Kyle Ferguson
18 Terminating Ambiguity: The Perplexing Case of “The”
Richard Brown
19 Wittgenstein and What’s Inside the Terminator’s Head
Antti Kuusela

CONTRIBUTORS: Future Leaders of the Resistance
INDEX: Skynet’s Database



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segunda-feira, 1 de março de 2010

Ataque de Pânico


Assim como ocorreu com District 9, outro curta colocado no YOUTUBE, ganhará vida em longa-metragem.




"Ataque de Pãnico", dirigido pelo publicitário uruguaio Federico Alvarez, conta a invasão da maior cidade do Uruguai, Montevidéu, por robôs gigantescos e discos voadores extraterrestres.




A ideia nada tem de tão original que não tenhamos visto em outros filmes de Hollywood nos últimos 50 anos, mas a execução caprichada e estilosa, e principalmente a repercussão na internet, chamou a atenção dos big-shots americanos.






Graças ao boca a boca na rede, e a crítica do Times, o autor do curta que custou 300 dólares e 1 ano para ser finalizado, vai receber a oportunidade de trabalhar junto com Sam Raimi (de Homem-Aranha), e assinar um contrato de produção de 30 a 40 milhões de dólares, mais 100 mil dólares pelos direitos de filmagem e um pequeno percentual da bilheteria. Convenhamos, nada mal para um estreante.





Vamos aguardar e torcer para que Federico consiga se livrar da falta de imaginação e ousadia que impera nas produções politicamente corretas de Raimi, e que faça algo mais do que uma versão platina de Independence Day.

Ao menos ele já mostrou que talento ele tem! Só precisa agora vencer a fórmula pipoca+explosão=$$$.





domingo, 28 de fevereiro de 2010

Prêmio Comuna FC

A Ana Cristina Rodrigues e a comunidade de Ficção Científica no Orkut, compilaram uma lista (trabalho digno de entrar para os trabalhos de Hércules) com a grande maioria dos lançamentos de FC, Terror, Fantástico e Fantasia nacionais, de 2009.

Agora chegou a hora de escolher os melhores do ano que passou nas categrias:
- Romances/Novelas
- Antologias de autor
- Coletâneas
- Contos
- Não-ficção
- Revistas/zines
- Ebooks
- Ezines
- Site de contos
- Sites informativos/resenhas (incluindo microblogs)
- Resenhistas/Colunistas/Comentaristas
- Editores/Organizadores
- Editoras

A lista dos "candidatos" pode ser encontrada no blog da Comunidade FC e para votar, e conhecer esta iniciativa bacana, dê uma chegada no endereço do prêmio no Facebook.

Frank Herbert

 


Frank Patrick Herbert (8 de Outubro de 1920 – 11 de Fevereiro de 1986) nasceu em Tacoma, Washington (EUA) e desde jovem sonhava em se tornar um escritor.

Seu primeiro emprego, aos 19 anos, foi no jornal Glendale Star. Herbert estava decidido a se tornar um homem de letras, mas seus planos literários tiveram que aguardar o término da Segunda Grande Guerra, onde ele serviu como fotógrafo da Marinha.

Após a guerra, Herbert voltou para Washington, onde cursou uma faculdade de jornalismo sem se formar. Voltou também a trabalhar em jornais. Seus amigos jornalistas desta época, dizem que Herbert tinha pressa em alcançar um status, uma posição, que os seus escritos da época não lhe permitiam ainda.

Herbert iniciou a escrever Ficção Científica por volta da década de 50, conseguindo publicar alguns contos em revistas voltadas para escritores iniciantes, como a Startling Stories.

Seu primeiro romance, de 1955, "The Dragon in The Sea" (ou "21st Century Sub"), um estudo da condição humana à bordo de um submarino do futuro, lhe rendeu elogios, mas não foi um sucesso de vendas.

O fracasso não o desestimulou a continuar escrevendo. Ele vinha realizando pesquisas para um novo livro, sobre a sobrevivência do ser humano no espaço, em um futuro distante. O novo livro traria um quadro completo, com aspectos evolutivos, ecológicos, políticos e religiosos, uma verdadeira saga.

"Dune" ficou pronto seis anos depois, e passou por 20 rejeições antes de ser publicado em partes, na revista Analog. "Dune" se tornou um sucesso de crítica e ganhou os prêmios Nebula em 1965 e Hugo em 1966, apesar de só se tornar um best-seller ao longo dos anos seguintes.

Arthur C. Clarke disse que "Dune" era um livro único, na história da Ficção Científica, apenas comparado o que o "Senhor dos Aneís" foi pela Fantasia.


A repercussão positiva de sua FC ecológica, abriu portas para Herbert, que passou a lecionar escrita criativa e a receber convites de editoras. Foi consultor para o governo americano, e ainda trabalhou escrevendo para a televisão.

Apenas no início da década de 70, Herbert tornou-se um escritor em tempo integral, conseguindo um razoável sucesso com seus outros livros, mas nada semelhante a "Dune".

Depois de uma série de tragédias pessoais familiares, Herbert viu em 1984, a possibilidade do lançamento do filme "Dune", dirigido por David Lynch,  alavancar sua carreira. Mas o filme, apesar do orçamento, e de seu elenco de primeira linha, não agradou nem à critica, nem aos apreciadores do gênero.

Herbert continuou a expandir o universo de Dune até sua morte. Seu filho, Brian Herbert, atualmente se ocupa de dar continuidade para a famosa saga, utilizando-se de material não aproveitado pelo pai. 


Frank Herbert ( Duna, O Messias de Duna, Os filhos de Duna, As herdeiras de Duna, Os hereges de Duna, Man of two worlds, Children of the mind, Committee of the whole, Destination Void series, Direct Descent, Dune series, Dune Encyclopedia, Dune Genesis, Escape Felicity, Hellstrom's hive, Old rambling house, Operation syndrome, Seed Stock, Soul Catcher, Tactful saboteur, The Dosad Experiment, The dragon in the sea, The eyes of Heisenberg, The featherbedders, The GM efffect, The Godmakers, The green brain, The heaven makers, The nothing, The Santaroga barrier, The white plague, Whipping star, El devorador de calcio, La caja de las orquideas, Proyecto 40, Compramos gente, Corrientes alternas, El final de la Tierra, El hombre esquematico, La prueba suprema, Los exploradores de Portico, Mineros de Oort, Postdata a Portico ) [ Download ]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 18

CAPÍTULO 18
Este capítulo é dedicado a Sophia Books, uma diferente e excitante loja multi-idiomas de Vancouver, cheia do que há de melhor, mais estranho e excitante, em matéria de cultura pop mundial de vários países. Sophia fica numa esquina próximo ao hotel que fiquei quando fui a Vancouver dar uma palestra na Simon Frazer University e o pessoal da Sophia entrou em contato comigo pedindo que autografasse alguns dos meus livros em seu estoque, quando estivesse por perto. Quando fui lá, descobri um tesouro de trabalhos nunca antes vistos em diversas línguas desde graphic novels (quadrinhos) a pesquisas acadêmicas organizada pelo seu pessoal simpático que visivelmente gostava de seu trabalho e que o difundia com qualquer um que estresse por suas portas.
Sophia Books: 450 West Hastings St., Vancouver, BC Canada V6B1L1 +1 604 684 0484

Houve um tempo em que o meu maior divertimento no mundo era colocar uma capa e ir a hotéis, fingindo ser um vampiro invisível pra quem me encarava.

É complicado, mas não tão estranho quanto parece. A cena LARP (ação ao vivo, uma evolução do RPG) combina os melhores aspectos do RPG com clube de teatro e que rola nas convenções de Sci-Fi.
Compreendo que não parece tão atraente para você quando era para mim aos 14 anos.
Os melhores jogos eram aqueles que aconteciam fora da cidade, nos acampamentos para escoteiros: uma centena de adolescentes, meninos e meninas, trocando histórias em meio ao trânsito caótico de sexta, com seus videojogos portáteis, se exibindo por horas.  Então desembarcávamos num gramado frente a um grupo de homens e mulheres durões e mais velhos, vestidos com armaduras caseiras, dentadas e horrendas, como deviam ser nos velhos tempos, não daquelas que vemos nos filmes, mas o uniforme de um soldado depois de um mês no mato.

Estas pessoas eram pagas para comandar os jogos, mas você não consegue um emprego destes se não é o tipo de cara que faria isso mesmo de graça. Eles então nos dividiam em times, baseados nos formulários que preenchemos antes e então somos apresentados às equipes, como numa escolha de times de basebol.
Ai você recebe os pacotes com as instruções. São como as orientações dadas aos espiões do cinema: aqui está sua identidade, sua Missão e os segredos que sabe sobre o grupo.

Dali você vai jantar: comida quase pronta, carne em espeto, tofu grelhado (é o norte da Califórnia e uma opção vegetariana não era opcional) o tipo de comida e bebida que só pode ser classificada como divertida.
Nesta hora os garotos já entraram em seus personagens. Eu fui um mago em meu primeiro jogo. Eu tinha um saco de feijões, que eram os encantos; quando atirava um deles, eu podia gritar o nome do feitiço escolhido, como “bola de fogo”, “míssil mágico” ou “cone de luz” e o outro jogador ou “monstro” tinha que fingir ter recebido o encanto. Ou não - às vezes era preciso chamar um juiz para intermediar, mas na maioria das vezes, todos sabíamos o espírito do jogo. Ninguém gostava de um sujeito que não sabia brincar.

Lá pela hora de dormir, já estávamos totalmente dentro dos personagens. Aos 14 anos eu não tinha tanta certeza de como um mago deveria ser, mas eu tirava as pistas dos filmes e romances. Eu falava devagar, com entonação calculada, mantendo uma expressão mística no rosto e tendo pensamentos místicos.
A Missão era complicada: eu devia recuperar uma relíquia sagrada que tinha sido roubada por um ogro que estava subjugando as pessoas de um povoado. A coisa toda não importava tanto. O que importava era que eu tinha uma Missão particular, capturar um certo tipo de pequeno demônio que seria meu ajudante e eu também tinha um inimigo secreto, outro jogador do time que tinha estado numa batalha onde minha família tinha sido morta quando eu era garoto, um jogador que não sabia que eu tinha voltado atrás de vingança. Em algum lugar, é claro, havia outros jogadores com o mesmo ressentimento contra mim. Então mesmo se eu estivesse gostando da camaradagem do time, teria sempre que manter um olho aberto para facas nas costas e venenos na comida.

Nos dois dias seguintes nós jogávamos ao ar livre. Havia partes dos finais de semana que praticávamos uma espécie de esconde-esconde, algumas eram como exercícios de sobrevivência na vida selvagem, outras eram como resolver charadas. Os senhores dos jogos faziam um ótimo trabalho.
E você realmente fazia amizade com outras pessoas na Missão. Darryl fora o alvo de meu primeiro assassinato e eu tive que cumprir minha Missão mesmo ele sendo meu amigo. Um cara legal. Que vergonha ter que matá-lo.  Eu o acertei com uma bola de fogo enquanto ele procurava por um tesouro, depois de nós acabarmos com um bando de orcs, jogando pedra-papel-e-tesoura com cada orc para decidir quem prevaleceria no combate. Isso é bem mais excitante do que parece.
Era mais como um acampamento de verão com teatro para geeks. Conversávamos ate tarde nas tendas, olhávamos estrelas, saltávamos no rio quando fazia calor, matávamos muitos mosquitos. Nos tornávamos melhores amigos ou inimigos eternos.
Eu não sabia o motivo dos pais de Charlie terem mandado ele para um evento assim. Ele não era o tipo de cara que realmente gosta destas coisas. Ele era mais o tipo que gosta de arrancar asas de insetos. Ou não. Mas ele não ficava disfarçado na floresta. Ele passava a maior parte do tempo vagabundeando, atormentando alguém ou tentando nos convencer de que não era tão divertido quanto nós acreditávamos. Você não tem duvidas de que este tipo de pessoa depois será o tipo de pessoa que garante que você vai passar por maus bocados.

Outra coisa sobre Charlie era que ele não entendia o lance das batalhas simuladas. Quando você começa a correr pelo mato, brincando destes elaborados jogos semi-militares, é fácil ficar com a adrenalina a toda ao ponto de estar pronto para estraçalhar a garganta de alguém. Isso não é muito legal quando se carrega uma espada teatral, uma clava ou lança ou outro utensílio. É por isso que ninguém pode acertar outra pessoa, sob nenhuma circunstância, nestes jogos. Quando você está prestes a guerrear com alguém, você faz um rápido pedra-papel-tesoura com alguma modificação, baseada na sua experiência, armamentos ou condições. Os juízes mediam a disputa. É bem civilizado e um pouco estranho. Você sai correndo atrás de alguém na floresta, o captura e então senta-se para jogar pedra-papel-tesoura. Mas funciona e mantém todos seguros e alegres.

Charles não via graça na coisa. Eu que ele era achava perfeitamente capaz de entender que a regra proibia contato, mas ele simplesmente decidia que as regras não importavam e que não iria cooperar. Os juízes o chamavam num canto várias vezes ao longo dos finais de semana e ele prometia que não faria mais besteiras e sempre fazia de novo. Ele já era grande na época, um dos maiores garotos do grupo, e ele acabava sempre acertando você ao final de uma perseguição. Não tem graça ser jogado ao chão pedregoso da floresta.
Eu tinha cercado Darryl numa clareira onde ele estivera procurando por tesouros e estávamos rindo após minha extrema e cuidadosa aproximação. Ele iria ser transformado em monstro - jogadores que eram mortos podiam virar monstros, o que significa que quanto mais se joga, mais monstros surgem te perseguindo, fazendo assim que todos continuem jogando e as batalhas se tornem mais e mais épicas.
Foi aí que Charles saiu do mato pro trás e me empurrou me jogando ao chão com tanta força que fiquem sem respiração por um instante. “Te peguei!”ele gritou. Eu só o tinha visto brevemente antes disso e não tinha me preocupado muito, mas agora eu estava pronto para matá-lo. Eu me levantei bem devagar enquanto ele gritava: “Tá morto! Te peguei de verdade!”
Eu sorri e algo pareceu errado com meu rosto. Toquei minha boca. Sangrava. Meu nariz sangrava e meu lábio tinha sido cortado ao bater numa raiz ao bater com a cara ao chão.
Limpei o sangue e sorri. Fiz parecer que estava divertido com isso. Ri um pouco. Fui na direção dele.
Charles não era fácil de se enganar. Já tinha se afastado, tentando sumir no mato. Darryl tinha se movido para alcançá-lo pelo flanco. De repente ele se virou e correu. O pé de Darryl o acertou no tornozelo e o derrubou. Nós corremos, no mesmo instante que ouvimos o apito dos juízes.
O juiz não tinha visto Charles me atacar, mas tinha visto o que Charles fizera todo o fim de semana. Ele mandou Charles para a sede do acampamento e disse que ele estava fora do jogo. Charles se queixou bastante, mas para nossa satisfação, o juiz não voltou atrás. Charles teria que ir embora, mas também ouvimos um sermão, por conta da nossa retaliação não ser mais justificável do que o ataque de Charles.
Mas foi tudo bem. Naquela noite, quando os jogos acabaram, nós todos fomos tomar banho quente nas tendas dormitórios. Darryl e eu roubamos as roupas e toalhas de Charles. Amarramos tudo com nós e as atiramos dentro da privada. Um monte de outros meninos ficaram felizes em contribuir. Charles era muito entusiasmado com esta coisa de derrubar os outros.
Gostaria de poder ter visto a cara dele, quando ele saiu dos chuveiros e descobriu onde tinha ido parar suas roupas. Será que foi uma decisão difícil ter que escolher entre correr pelado através do acampamento ou pegar suas roupas mijadas e as vesti-las assim mesmo?
Ele escolheu correr nu. Eu provavelmente escolheria o mesmo. Fizemos uma fila dupla dos chuveiros até as cabanas onde ficavam guardadas as coisas e o aplaudimos. Eu estava bem na frente da fila, comandando os aplausos.

#

Os acampamentos ocorriam apenas três ou quatro vezes por ano, o que deixava Darryl e eu - e um monte de outros jogadores - com uma séria deficiência de LARP em nossas vidas.
Por sorte havia os jogos Wretched Daylight (Infelizes à luz do dia) que aconteciam nos hotéis da cidade.
Wretched Daylight era outro tipo de LARP, clãs de vampiros rivais aos vampiros caçadores e tinha suas próprias e excêntricas regras. Os jogadores tinham cartões que os ajudavam a decidir batalhas, de forma que cada conflito envolvia o conhecimento da estratégia comum de jogos de cartões. Os vampiros podiam se tornar invisíveis ao cruzar os braços sobre o peito e todos os outros jogadores tinham que fingir que não os viam, continuando com suas conversas e planos. O teste verdadeiro de um bom jogador era se você era honesto o bastante para continuar falando sobre seus planos secretos mesmo em frente a um rival sem agir como se soubesse que ele estava presente.

Havia um par de eventos como este a cada mês. Os organizadores tinham um bom relacionamento com os donos dos hotéis da cidade e eles sabiam que teriam que disponibilizar dez quartos sem reservas na sexta à noite e que estariam cheios de jogadores que correriam pelo hotel, brincando pelos corredores, ao redor das piscinas e por ai vai, comendo no restaurante do hotel e usando a internet WiFi paga do hotel. Eles fechavam as reservas na sexta pela tarde, nos mandavam emails e saíamos direto da escola para qualquer hotel que fosse, levando nossas mochilas, dormindo com outras seis ou oito pessoas num quarto por todo o final de semana, vivendo de junk-food e brincando até as três da manha. Era bom, diversão segura que agradava nossos pais.

Os organizadores eram de uma conhecida organização de caridade que ensinava crianças a escrever em workshops, de teatro e coisa e tal. Eles organizavam os jogos há dez anos sem nenhum incidente. Era estritamente proibido o uso de bebidas alcoólicas e drogas, o que mantinha os organizadores livres de alguma acusação de corrupção de menores. Éramos de dez a uma centena de jogadores, dependendo do final de semana e o preço era de duas entradas para o cinema para ter dois dias e meio de muita diversão.
Um dia eles tiveram a sorte de conseguir alguns quartos no Monaco, um hotel em Terderloin que atendia a turistas idosos ligados à arte, o tipo de lugar em que cada quarto tem um aquário e onde no lobby se encontram pessoas velhas bem vestidas, exibindo o resultado de suas plásticas.
Normalmente, os mundanos - nossa palavra para não jogadores - nos ignoravam, como se fôssemos garotos sem juízo. Mas naquele fim de semana coincidiu de um editor de uma revista italiana de viagens estar no hotel, e isso tornou as coisas mais interessantes. Ele havia me visto no canto enquanto eu espreitava o lobby, esperando agarrar o master do clã de meus rivais e pular sobre ele para sugar todo seu sangue. Eu estava junto da parede com meus braços cruzando meu peito, invisível, quando ele veio até mim e me perguntou com seu sotaque inglês, o que eu e meus amigos fazíamos naquele hotel no fim de semana?
Tentei afastá-lo dali, mas ele não saía do lugar. Então eu pensei que precisava fazer algo esquisito e ele iria embora.
Não imaginei que ele iria me publicar. Eu realmente não me imaginei aparecendo na Américan Press.
“Estamos aqui por que nosso príncipe morreu e viemos buscar um outro líder.”
“Um príncipe?”
“Sim. Nós somos os Antigos. Viemos para a América no século 16 e temos nossa própria família real pelos campos da Pensilvânia deste então. Vivemos de forma simples na floresta. Não usamos tecnologia moderna. Mas o príncipe era o último de sua linhagem e ele morreu semana passada. Alguma doença terrível o consumiu. Os jovens do meu clã saíram para procurar os descendentes, que haviam partido e se misturado às pessoas modernas na época de meu avô. Nós encontraremos o último de sua estirpe e o levaremos de volta ao lar de direito.”
Eu lia um monte de livros de fantasia. Aquele era o tipo de coisa que eu facilmente diria.
“Achamos uma mulher que conhecia os descendentes. Ela nos disse que um deles estaria neste hotel e viemos procurá-lo. Porém, fomos rastreados por nosso clã rival que quer impedir que encontremos nosso príncipe, para que fiquemos fracos e fáceis de dominar. Por isso é vital ficarmos em segredo. Não falamos com os Novos. Falar com você me causa grande desconforto.”
Ele me olhava interessado. Eu tinha descruzado os braços,  o que significaria dizer que estava visível de novo para os vampiros rivais, e um deles havia se esgueirado sorrateiro atrás de nós. No último instante eu me virei e a vi com os braços erguidos, sibilando para nós, nos vampirizando no maior estilo.
Eu joguei meus braços pro alto e sibilei de volta para ela, e me joguei atrás de um sofá de couro do lobby escondendo-me atrás de um vaso de plantas, obrigando-a a vir atrás de mim. Descobri uma rota de fuga pelas escadas que levavam a academia do hotel e parti para lá.
Não o vi mais naquele final de semana, mas contei minha história para colegas de LARP que acabaram aumentando a historia e contando para outros durante o fim de semana.
A revista italiana tinha um funcionário especializado naquelas comunidades anti-tecnologia, amish, na área rural da Pensilvânia e ela achou que nossa história muito interessante. Baseado em notas e entrevistas gravadas de seu patrão da sua viagem por São Francisco, ela escreveu um fascinante artigo sobre este estranho culto juvenil que atravessava a América em busca de seu príncipe. Caramba, as pessoas publicam qualquer coisa hoje em dia.

Mas o que aconteceu depois foi que as histórias foram copiadas e republicadas. Primeiro por bloggers italianos, depois por bloggers Americanos. Pessoas por todo o pais reportavam ter visto aparições dos “Antigos” ou porque havia algumas pessoas fazendo isso por aí ou porque outros brincavam do mesmo jogo. Não sei.
Isso funcionou bem para a mídia, chegando até o New York Times, que infelizmente tem o apetite pouco sadio de checar os fatos. O repórter que colocaram na história eventualmente chegou ao hotel Monaco que os colocou em contato com os organizadores de LARP, que riram bastante daquela história toda.
Bem, naquele ponto, este tipo de jogo tinha se tornado não muito legal. Ficamos conhecidos por espalhar boatos pela nação, como esquisitos e mentirosos patológicos. A imprensa que havia inadvertidamente disparado a cobertura da historia dos “Antigos” agora estava interessada em se redimir com reportagens sobre como os jogadores de LARP eram incrivelmente esquisitos e foi aí que Charles fez todos na escola saberem que eu e Darryl éramos os maiores jogadores da cidade.
Não foi um bom período. Alguns não se importaram, mas nós sim. A provocação era sem tréguas e Charles a comandava. Achei presas de plástico na minha bolsa e as crianças quando eu passava pelo corredor, começavam a fazer “ble ble” como um vampiro de desenhos animados ou falavam imitando um sotaque transilvânico, quando eu estava por perto.
Logo nós passamos a praticar o ARG. Era mais divertido de certo jeito e bem menos esquisito. Mesmo agora, sinto falta da minha capa e dos fins de semana nos hotéis.

#

O oposto ao esprit d’escaler é o jeito que os embaraços da vida voltam a nos assombrar mesmo apos muito tempo decorrido. Eu conseguia lembrar de cada coisa estúpida que eu tinha feito ou dito, conseguia ver o quadro perfeitamente claro. Sempre que me sentia mal, eu naturalmente começava a me lembrar de outros tempos em que me senti daquele jeito, um hit-parade de humilhações vinha um atrás de outro na minha cabeça.

Enquanto tentava me concentrar em Masha e meu fim iminente, o incidente com os “Antigos” ficou voltando para me assombrar. Tinha sido bem parecido, e doentio, o sentimento de que tudo estava perdido, quanto mais e mais a imprensa publicava a historia, assim como a verossimilhança de alguém que descobrisse que tinha sido eu que espalhara a historia para o estúpido editor italiano com seus jeans feito sob medida, a camisa engomada sem colarinho e aqueles óculos de metal imensos.
Existia uma alternativa a insistir em nossos erros. Você pode aprender com eles.
É uma boa teoria. Talvez a razão do nosso subconsciente escavar atrás destes fantasmas miseráveis  é que ele precisa trazê-los à vista antes de que possam descansar em paz da humilhação no pós-vida.  Meu subconsciente costumava me visitar com fantasmas na esperança de que eu os deixasse descansar em paz.
Por todo o caminho para casa, fiquei com isso na memória, com a idéia de que eu deveria fazer sobre Masha no caso dela estar mentindo para mim. Eu precisava de alguma garantia.
Ao chegar em casa - para ser melancolicamente abraçado por minha mãe e meu pai, eu já sabia o que fazer.

#

O truque era fazer a coisa tão rápido que não desse tempo a DHS de se preparar, mas o bastante para que a Xnet tivesse tempo para se revigorar.
O truque era ter tanta gente presente que seria impossível prender a todos e num lugar onde toda imprensa pudesse ver e os adultos, assim o DHS não poderia usar mais o gás.
O truque era fazer a coisa de forma a ser amigável para a mídia, como a levitação do Pentágono. O truque era preparar algo onde pudéssemos nos reunir ao redor, como 3 mil estudantes de Berkeley se recusando a deixar um dos seus ser colocado numa viatura policial.
O truque era colocar a imprensa lá, pronta para mostrar o que a polícia fez, do jeito que fizeram em 1968 em Chicago.
Seria um truque e tanto.
Sai da escola uma hora antes no dia seguinte, usando minhas técnicas costumeiras de escapar da escola, sem me importar se isso não dispararia algum tipo novo de dispositivo do DHS e que poderia resultar que meus pais recebessem um aviso.
De um jeito ou de outro o último problema de meus pais depois de amanhã seria se eu estive metido com alguma confusão na escola.
Encontrei com Ange em sua casa. Ela tinha saído ainda mais cedo da escola, ela tinha fingido estar sofrendo de cólicas e a mandaram logo para casa. 
Começamos a espalhar a ordem pela Xnet. Nós mandamos em email para amigos de confiança e para nossos camaradas nas listas de IM. Espalhamos pelos deques e cidades de Clockwork Plunder e contamos para nossos colegas de jogo. Dar às pessoas informação o bastante de maneira que eles pudessem fazer a coisa acontecer, mas não o bastante para que a DHS percebesse ser um truque.

>VAMPMOB AMANHÃ
> Se você é um gótico, vista-se para arrasar. Se não é, procure um e peça emprestadas algumas roupas. Pense como um vampiro.
> O jogo começa as 8:00 da manhã em ponto. Em ponto. Esteja lá e pronto para a divisão das equipes. O jogo vai durar 30 minutos, então você terá tempo o bastante para ir a escola depois.
> A localização será revelada amanhã. Mande sua chave publica por email para m1k3y@littlebrother.pirateparty.org.se e cheque suas mensagens às 7 da manhã. Se for cedo demais para você, fique acordado a noite toda. É o que nós faremos!
>Será a coisa mais divertida deste ano inteiro, garantido.
> Acredite.
> M1k3y.

Então mandei um email para Masha.
> Amanhã. M1k3y.
Um minuto depois a resposta dela.
> Eu imaginava. VampMob né? Você trabalha rápido. Use um chapéu vermelho. Não leve muita coisa.

#

O que você leva com você quando vai fugir? Eu já havia carregado muitas mochilas pesadas em acampamentos de escoteiros para saber que cada quilo que você carrega vai ferir seus ombros com toda a força da gravidade a cada passo seu - e não parecerá só um quilo depois de um milhão de passos, mas uma tonelada.
“Certo.” disse Ange. “Muito esperto. E nunca se leva mais do que uma muda de roupa para três dias. Você pode lavar coisas na pia. melhor ter uma mancha na camisa do que numa mala grande e pesada demais para se colocar sob o assento do avião.”
Ela pegou uma bolsa de entregas de nylon balístico que vestia pelo peito, entre os seios - o que me fez suar um pouco - e amarrava na diagonal nas costas. Era bem espaçosa dentro. Tirou-a, deixou sobre a cama e agora começou a empilhar roupas ao lado dela.
“Acho que três camisas, um par de calças, um par de shorts, três mudas de roupas intimas, três pares de meias e um suéter bastam.”
Tirou de sua sacola de ginástica seus apetrechos de toalete. “Tenho que me lembrar de guardar minha escova de dentes amanha de manhã antes de irmos até o Centro Cívico.”
Vê-la fazer a mala foi impressionante. Ela era direta. Também era meio assustador - me fez perceber que no dia seguinte eu estaria partindo. Talvez por muito tempo. Talvez para sempre.
“Levo meu Xbox? Tenho uma tonelada de coisas no disco rígido, mensagens e rascunhos e email. Não gostaria que caísse nas mãos erradas.” Ela perguntou.
“Está tudo criptografado.” eu disse. “Isso é algo que não precisa se preocupar com o ParanoidXbox. Pode deixar aqui, deve ter um monte deles em L.A. Basta criar uma conta no Pirate Party e mandar por email uma imagem do seu disco rígido para você mesma. Vou fazer o mesmo quando chegar em casa.”
Ela fez e mandou por email. Levaria algumas horas para que todos os dados subissem pela rede WiFi de seu vizinho e chegar a Suécia.
Então ela fechou a mala e amarrou a tiras com força. Ficou do tamanho de uma bola de voleibol nas suas costas, e eu continuava admirado com ela. Ela podia sair por aí com aquilo e ninguém a olharia uma segunda vez. Parecia estar a caminho da escola.
“Mais uma coisa.” ela disse, e foi até a lateral da sua cama e pegou os preservativos. Arranjou um lugar na bolsa para eles e então me deu um tapinha na bunda.
“E agora?” perguntei.
“Agora vamos até a sua casa e você arruma suas coisas. Já é hora de eu conhecer seus pais, não é?”
Ela deixou a bolsa no chão entre as pilhas de roupa e todo lixo espalhado. Ela estava pronta para dar as costas a tudo isso, simplesmente ir embora, apenas para ficar comigo. Apenas para apoiar a causa. Isso fez com que também me sentisse corajoso.

#

Mamãe já estava em casa quando cheguei. Estava com o laptop aberto na mesa da cozinha e respondia um email enquanto falava por um headset conectado a ele, ajudando algum pobre filho de York e sua família a se aclimatar a vida na Louisiana.
Entrei e Ange me seguiu, sorrindo feito louca, mas segurando minha mão tão firme que eu sentia os ossos sendo esmagados. Eu não sabia por que estava tão preocupada. Não era como se tivesse que passar muito tempo com meus pais, mesmo se fosse péssimo.
Mamãe acabara a ligação quando chegamos.
“Oi, Marcus.” ela disse me dando um beijo no rosto. “E quem é ela?”
“Mãe, esta é Ange. Ange, está é minha mãe, Lillian.” Mamãe deu um abraço em Ange.
“É muito bom te conhecer, senhora Yallow.” ela disse. Parecia muito confiante. Muito melhor do que eu ao conhecer sua mãe.
“É Lilian, meu amor. Você vai ficar para jantar?”
“Eu adoraria.”
“Você come carne?” Mamãe estava bem acostumada à vida na Califórnia.
“Como qualquer coisa que não me coma antes.” ela disse.
“Ela é adepta dos molhos apimentados.” eu disse. “Pode servir pneus velhos e ela vai comê-los se puder mergulhar em molho.”
Ange socou-me gentilmente no ombro.
“Vou pedir comida tailandesa.” disse mamãe. “E vou acrescentar um par daqueles pratos tipo cinco-chili.”
Ange agradeceu educadamente e mamãe foi pegar copos de suco e um prato de biscoito para a gente, e perguntou por três vezes se queríamos chá.  Fiquei um pouco constrangido com isso.
“Obrigado, mãe.Vamos subir para o quarto um pouco.”
Os olhos de minha mãe se apertaram um segundo e ela sorriu de novo: “É claro, seu pai vai estar em casa daqui a uma hora e então jantaremos com ele.”
Eu tinha guardado minhas coisas de vampiro nos fundos do armário. Deixei Ange separando as coisas enquanto fui arrumar as roupas. Eu estava indo para Los Angeles. Eles tinham lojas por lá, toda roupa que eu pudesse precisar. Precisava levar poucas coisas, um par de jeans, um desodorante, fio dental.
“Dinheiro!” eu disse.
“Sim. Vou limpar minha conta de banco, no caminho de casa tem um caixa eletrônico. Acho que tenho guardados uns quinhentos dólares.”
“Sério?”
“No que eu iria gastar? Desde que entrei na Xnet eu sequer pago internet.”
“Acho que tenho uns trezentos.”
“Bem. Pode pegar no caminho do Centro Cívico pela manhã.”
Eu tinha uma mochila das grandes que eu usava para carregar meus aparelhos pela cidade. Era menos suspeita que minha mochila de acampamento.
Quando terminei e coloquei-a sob a cama, nos sentamos.
“Temos que acordar realmente cedo amanhã.” ela disse.
“É, vai ser um dia cheio.”
O plano era mandar várias mensagens falsas dizendo onde o VampMob aconteceria, mandando as pessoas para vários pontos que ficassem a poucos minutos de caminhada do Centro Cívico. Cortamos um papel como estêncil para usar com tinta em spray com os dizeres “VAMPMOB CENTRO CÍVICO ->” e teríamos que pintá-los nesses lugares por volta das 5 da manhã. Isso evitaria que o DHS fechasse o centro Cívico antes de chegarmos lá. Eu já tinha uma mensagem pronta para ser enviada às 7 da manhã, era só deixar o Xbox ligado quando eu saísse de casa.
“Quanto tempo…” ela começou a dizer.
“Eu também estava pensando nisso. Poderá ser por muito tempo, eu acho. Mas quem sabe? Com o artigo de Barbara sendo publicado…” Eu enviaria um email para ela também no dia seguinte. “E quem sabe nós nos tornemos heróis em duas semanas.”
“Talvez.” ela disse e sorriu.
Coloquei meu braço ao redor de seus ombros. Ela tremia.
“Estou assustado prá caramba. Seria loucura se não estivesse.”
“É sim.”
Mamãe nos chamou para jantar. Papai apertou a mão de Ange. Ele estava sem se barbear e parecia preocupado, do mesmo jeito que estava desde que vimos Barbara, mas, ao encontrar Ange, um pouco do meu velho pai reapareceu. Beijou Ange na bochecha e insistiu que o chamasse de Drew.
O jantar foi muito bom. O gelo se quebrou quando Ange tirou seu molho de pimenta particular e caprichou em seu prato e explicou sobre a escala Scoville. Papai experimentou uma garfada e teve que correr para a cozinha e beber um galão de leite. Acredite ou não, mamãe também provou depois disso e adorou. Mamãe era um prodígio não descoberto na área das comidas apimentadas, com um dom natural.
Antes de ir embora, Ange deu seu molho especial para Mamãe. “Eu tenho uma reserva em casa. Você me parece o tipo de mulher que deveria ter um destes.”

 
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Dicas para escrever (V)




The Art of Writing - Robert Louis Stevenson
Como escrever histórias em quadrinhos - Por Alan Moore
BBC - New Writing Style Guide
Amplitude e Variedade do Modo de Escrever Realista - Bertold Brecht
Os Desafios da Escrita - Roger Chartier
Curso De Criação De Personagens E Desenvolvimento De Roteiro De Quadrinhos E Congeneres Por José Roberto Pereira
Divulgando e diagramando seu livro - Universidade do Autor
Escrita Teclada - Nova Forma De Escrever - Maria Teresa de Assunção Freitas
O Roteiro Nas Histórias Em Quadrinhos - Gian Danton
On the Writing of Speculative Fiction - Robert A.Heinlein
Notes On Writing Weird Fiction - Lovecraft
Life Skills - Writing - How to Write Short Stories and How to Publish eBooks
Schaum's Quick Guide To Writing Great Short Stories - Margaret Lucke
The Theory of The Novel - Georg Lukács
Books and Characters - Lytton Strachey
Plausibilidade e suspensão da descrença - Edward Mabley e David Howard
Gramática De La Fantasía, Introducción Al Arte De Inventar Historias - Gianni Rodari
How I Write - Bertrand Russel
Excerpts from Writers on Writing - The New York Times

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