sábado, 22 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 8)



ENTÃO É ASSIM, pensou J. R. Isidore, apertando ainda na mão o cubo mole de margarina. Talvez ela mude de idéia sobre eu chamá-la de Pris. E possivelmente sobre o jantar também, se eu conseguir achar uma lata de verduras de antes da guerra.

Mas talvez ela não saiba cozinhar, lembrou-se de repente. Muito bem, eu posso. Preparo o jantar para nós dois. E mostro-lhe como, de modo que ela possa fazê-lo no futuro, se quiser. Provavelmente, vai querer, logo que eu lhe mostre como. Tanto quanto posso entender, a maioria das mulheres, mesmo jovens como ela, gosta de cozinhar. É um instinto.

Subindo os degraus escuros, voltou para seu apartamento.
Ela está realmente fora de alcance, pensou enquanto vestia seu uniforme branco de trabalho. Mesmo que se apressasse, chegaria atrasado e o Sr. Sloat ficaria zangado, mas, e daí? Por exemplo, ela jamais ouvira falar em Buster Amigão. E isso é impossível. Buster é a pessoa viva mais importante, exceto, claro, "Wilbur Mercer... Mas Mercer, refletiu, não é um ser humano. Evidentemente, é uma entidade arquetípica vinda das estrelas, superposto sobre nossa cultura por um gabarito cósmico.
Pelo menos, foi isso que ouvi pessoas dizerem. É isso o que o Sr. Sloat diz, por exemplo. E Hannibal Sloat deve saber.

Estranho que ela não seja coerente sobre seu próprio nome, ponderou. Talvez precise de ajuda. Posso lhe dar alguma ajuda?, perguntou a si mesmo. Um especial, um debilóide? O que é que eu sei? Não posso casar, não posso emigrar e, no fim, a poeira vai acabar comigo. Não tenho coisa alguma a oferecer.

Vestido e pronto para sair, deixou o apartamento e subiu ao telhado, onde se encontrava estacionado seu usado e arruinado hovercar.

Uma hora depois, ao volante do caminhão da companhia, apanhara o primeiro animal defeituoso do dia. Um gato elétrico. Deitado na gaiola plástica à prova de poeira do caminhão, arfava espasmodicamente. Quase se pensaria que era real, observou Isidore, voltando ao Hospital Van Ness de Animais de Estimação — a pequena empresa com o nome cuidadosamente mal escolhido, que mal conseguia sobreviver no duro e competitivo campo de reparos de falsos animais.

O gato, em seu sofrimento, gemeu.
Uau, pensou Isidore, ele parece mesmo que está morrendo. Talvez sua bateria de dez anos de duração tenha entrado em curto e todos os seus circuitos estejam sistematicamente queimando. Um trabalho grande. Milt Borogrove, mecânico do hospital, teria as mãos ocupadas. E eu não dei uma estimativa do custo ao dono, pensou deprimido Isidore. O cara simplesmente me lançou o gato nas mãos, disse que ele começara a enguiçar durante a noite e depois, acho, foi trabalhar. De qualquer modo, de repente, cessara a momentânea troca verbal: o dono do gato subira para o céu em seu novo e belo modelo de hovercar, feito sob medida. E aquele homem constituía um novo cliente.

Ao gato, disse:
— Você não pode esperar até chegarmos à loja? — O gato continuou a gemer. — Vou recarregá-lo, enquanto estamos a caminho — decidiu. Baixou o caminhão para o telhado disponível mais próximo e lá, temporariamente estacionado e com o motor em funcionamento, foi até o fundo do veículo, abriu a gaiola de transporte à prova de poeira, a qual, juntamente com seu uniforme branco e o nome do caminhão, criavam a impressão total de um verdadeiro veterinário apanhando um animal de verdade.

O mecanismo elétrico, dentro de sua pelagem cinzenta convincentemente autêntica, gorgolejou e expeliu bolhas, vidradas suas videolentes, as mandíbulas de metal trancadas. Isto sempre o deixara atônito, esses circuitos de "doença" instalados nos falsos animais. A peça que segurava nesse momento no colo fora construída de tal maneira que, quando um componente básico enguiçava, a coisa toda parecia não quebrada, mas organicamente doente. Ele teria me enganado, pensou Isidore, enquanto tateava pela pele falsa do estômago, em busca do painel de controle oculto (bem pequeno nessa variedade de animal artificial), além dos terminais da bateria de rápido carregamento. Não encontrou nenhum dos dois. Tampouco pôde procurar muito tempo: o mecanismo entrara quase em pane total. Se o defeito consiste de um curto, refletiu, que está queimando todos os circuitos, então talvez o melhor seja soltar um dos cabos da bateria; o mecanismo parará e nenhum outro mal será feito.
E lá na loja, Milt pode recarregá-lo.

Habilmente, passou os dedos pela pseudo-espinha óssea. Os cabos deviam estar por ali. Um trabalho danado de perfeito, uma imitação absolutamente perfeita. Os cabos não eram visíveis nem mesmo com a observação mais cuidadosa. De ser um produto Wheelright & Carpenter — custam mais, mas vejam só que bom trabalho fazem.

Desistiu. O falso gato deixara de funcionar, de modo que evidentemente o curto-circuito — se era isso o que fazia mal à coisa — acabara com o suprimento de energia e o mecanismo básico de propulsão. Isso vai custar um bocado de dinheiro, pensou, pessimista. Bem, a coisa evidentemente não passara pela limpeza e lubrificação trianual, o que fazia toda a diferença. Talvez isto ensine a seu dono — da pior maneira.

Voltando para o assento do motorista, colocou o volante em posição de subida, ganhou o ar mais uma vez com um zumbido e reiniciou o vôo de volta à oficina de reparos.

De qualquer modo, não ouvia mais o chiado asmático, de dar nos nervos, do falso gato. Podia relaxar. Engraçado, pensou, mesmo que eu saiba, racionalmente, que é falso o som emitido por um falso animal que queima seu elemento propulsor e ligações do suprimento de energia, meu estômago está revirado. Como gostaria, pensou tristemente, de conseguir outro emprego. Se não houvesse sido reprovado naquele teste de inteligência, não estaria reduzido a este trabalho ignominioso, com os subprodutos emocionais que o acompanham.

Por outro lado, os sofrimentos sintéticos dos falsos animais não incomodavam Milt Borogrove ou o chefe de ambos, Hannibal Sloat. Assim, talvez a culpa seja minha, disse a si mesmo. Talvez, quando uma pessoa se deteriora e retroage na escada da evolução, como eu, quando mergulha na fossa da sepultura do mundo sendo um especial, bem, é melhor abandonar esta linha de indagação. Coisa alguma o deprimia mais do que os momentos em que comparava seus atuais poderes mentais com os que antes possuíra. Todos os dias, declinava em sagacidade e vigor. Ele e milhares de outros especiais em toda a Terra, todos eles a caminho do monte de cinzas. Transformando-se em entulho vivo.
Para arranjar uma companhia, ligou o rádio do caminhão e sintonizou o programa de áudio de Buster Amigão, o qual, como a versão de TV, continuava durante vinte e três ininterruptas e cálidas horas por dia... a hora restante sendo tomada por uma despedida religiosa, dez minutos de silêncio e recomeço religioso...
"— ... que prazer tê-la no programa outra vez — dizia Buster Amigão. — Vejamos, Amanda. Fazem dois dias inteiros desde que tivemos sua última visita. Começando algum novo filme, querida?"
"— Bem, eu ia fazer um filme ontem, mas, bem, eles queriam que eu começasse às sete..."
"— Sete da manhã?" — interrompeu-a Buster Amigão.
"— Sim, isso mesmo, Buster, sete da manhã!" — Amanda Werner soltou seu famoso riso, quase tão imitado como o de Buster. Amanda Werner e várias outras senhoras, belas, elegantes, de seios cônicos, originárias de países não especificados e vagamente definidos, além de alguns chamados humoristas, constituíam o núcleo perpétuo da programação de Buster. Mulheres como Amanda Werner jamais faziam filmes, nunca apareciam em peças de teatro. Viviam vidas belas, refinadas, como convidadas do programa interminável de Buster, aparecendo, calculara Isidore certa vez, umas setenta horas por semana no vídeo.

Como era que Buster Amigão encontrava tempo para gravar seus programas de áudio e vídeo?, perguntou-se Isidore. E como era que Amanda arranjava tempo para ser convidada dia sim, dia não, mês após mês, ano após ano? Como era que continuavam a falar daquele jeito? Eles nunca se repetiam — não, tanto quanto podia saber.
Suas observações, sempre espirituosas, sempre novas, não eram ensaiadas.
O cabelo de Amanda brilhava, seus olhos faiscavam, seus dentes reluziam; ela nunca pifava, nunca se cansava, nunca lhe faltava uma resposta inteligente para a torrente contínua de piadas, graçolas e agudas observações de Buster.

O Programa Buster Amigão, transmitido pelas ondas sonoras e pelo vídeo para toda a Terra, via satélite, cobria também os imigrantes nos planetas-colônias. Transmissões experimentais, dirigidas para Próxima Centauri, haviam sido tentadas, para o caso de a colonização humana chegar até aquela distância. Tivesse o Salander 3 chegado ao seu destino, os viajantes teriam encontrado o Programa Buster Amigão à espera, e teriam ficado satisfeitos.

Mas havia algo em Buster Amigão que o irritava, uma coisa específica. De modo sutil, quase ridicularizava as caixas de empatia. Não uma, mas muitas vezes.
Na verdade, fazia isso exatamente naquele instante.

"—... nada de arranhões de pedras em mim" — disse ele a Amanda Werner. — "E, se vou subir a encosta de uma montanha, vou querer levar comigo umas duas garrafas de cerveja Budweiser!" — A platéia no estúdio bateu palmas e Isidore ouviu um borrifo de palmas isoladas. — "E mostrarei, de lá de cima, minha denúncia cuidadosamente documentada... a denúncia que será feita dentro de exatamente dez horas a partir de agora!"
"— Eu também, querido!" — borbotou Amanda. — "Leve-me com você! Vou com você e, quando atirarem uma pedra, eu o protejo." — Mais uma vez, a audiência uivou e John Isidore sentiu uma raiva confusa e impotente surgir em sua nuca. Por que seria que Buster Amigão dava sempre essas tacadinhas no mercerismo? Aparentemente, ninguém se incomodava com isso. Até as Nações Unidas aprovavam isso. E não obstante, as polícias americana e soviética haviam declarado publicamente que o mercerismo reduzira a taxa de crimes, ao tocar os cidadãos mais preocupados com as tributações de seus vizinhos. A humanidade precisa de mais empatia, declarara várias vezes Titus Corning, Secretário-Geral das Nações Unidas. Talvez Buster esteja com ciúme, conjecturou Isidore, Certo, isto explicaria a coisa: ele e Wilbur Mercer concorrem um com o outro. Mas pelo quê?

Nossas mentes, decidiu Isidore. Estão lutando pelo controle de nossos eus psíquicos: a caixa de empatia, de um lado, e as gargalhadas e as piadas improvisadas de Buster, do outro. Vou ter que dizer isso a Hannibal Sloat, resolveu. Perguntar se é verdade. Ele deve saber.

Logo que parou o caminhão no telhado do Hospital Van Ness de Pequenos Animais, apanhou rapidamente a gaiola plástica com o falso gato imóvel e desceu as escadas correndo para o escritório de Hannibal Sloat. No momento em que entrou, Sloat levantou os olhos de uma página de estoque de peças sobressalentes, seu rosto cinza e riscado de rugas tremendo como águas agitadas. Velho demais para emigrar, Hannibal Sloat, embora não fosse um especial, estava condenado a arrastar-se pelo resto de seus dias na Terra. A poeira, com o passar dos anos, havia-o corroído, encolhido seu corpo e lhe tornado as pernas finas como as de uma aranha, o andar trôpego.
Via o mundo através de óculos literalmente enevoados pela poeira.
Por alguma razão, Sloan jamais limpava os óculos. Era como se houvesse desistido; aceitara a sujeira radiativa e ela iniciara seu trabalho, há muito tempo, de sepultá-lo. E já lhe turvava a vista. Nos poucos anos que lhe restavam, degenerariam seus outros sentidos, até que sobrasse apenas sua voz de ave e, em seguida, ela emudeceria também.

— O que foi que você trouxe? — perguntou o Sr. Sloat.
— Um gato com um curto no suprimento de força. — Isidore colocou a gaiola na escrivaninha coberta de documentos do patrão.
— Por que o está mostrando a mim? — indagou Sloat.
— Leve-o para a oficina e entregue-o a Milt. — Contudo, pensativamente, abriu a porta e deu um puxão no gato. Outrora, fora mecânico. Um mecânico muito bom.
— Acho que Buster Amigão e o mercerismo estão lutando pelo controle de nossas almas psíquicas — disse Isidore.
— Se é assim — comentou Sloat, examinando o gato, — Buster está ganhando.
— Está ganhando agora — afirmou Isidore — mas, no fim, vai perder.

Sloat ergueu a cabeça e fitou-o.
— Por quê?
— Porque Wilbur Mercer renova-se sempre. Ele é eterno. No alto da colina, ele é empurrado para baixo, Cai na sepultura do mundo, mas sempre se levanta. E nós com ele. Assim, também somos eternos. — Sentia-se bem, falando assim tão desembaraçado. Em geral, na presença de Sloat, gaguejava.
— Buster é imortal, como Mercer. Não há diferença entre eles.
— Como é que ele pode ser? Ele é um homem.
— Não sei — reconheceu Sloat. — Mas é verdade. Mas eles nunca admitiram isso, claro.
— É assim que Buster Amigão pode fazer quarenta e seis horas de programa por dia?
— Isso mesmo — concordou Sloat.
— E Amanda Werner e aquelas outras mulheres?
— Elas são imortais também.
— Será que são uma forma de vida superior, vinda de outro sistema?
— Eu nunca consegui aparar isso com certeza — disse Sloat, ainda examinando o gato.

Nesse momento, tirou os óculos cobertos de pó, e olhou sem eles para a boca semi-aberta. — Como apurei conclusivamente no caso de Wilbur Mercer — terminou em voz quase inaudível. Soltou uma praga e, em seguida, uma série de palavrões que pareceu a Isidore durar um minuto inteiro.
— Este gato — disse finalmente Sloat — não é falso. Eu sabia que isto ia acontecer um dia. E ele está morto. — Olhou fixamente para o cadáver do gato. E soltou outro palavrão.

Usando seu sujo avental de pano azul grosso, o corpulento e sardento Milt Borogrove apareceu à porta do escritório.
— O que é que está havendo? — perguntou. Vendo o gato, entrou e levantou o animal.
— O debilóide — disse Sloat — trouxe-o para cá. — Nunca, anteriormente, utilizara ele essa palavra em frente a Isidore.
— Se ainda estivesse vivo — disse Milt —, poderíamos levá-lo a um verdadeiro veterinário. Duvido que isto valha a pena. Alguém por aí tem um exemplar do Sidney's?
— O s-s-seu s-s-eguro cobre isto? — perguntou Isidore a Sloat. Sob o corpo, suas pernas vacilaram e achou que a sala começava a tornar-se marrom, pintalgada de pontos verdes.
— Cobre — respondeu Sloat finalmente, meio rosnando, — Mas é o desperdício que me irrita. A perda de mais uma criatura viva. Você não pôde ver, Isidore? Não notou a diferença?
— Eu pensei — conseguiu Isidore dizer — que fosse um trabalho realmente bem-feito. Tão bem-feito que me enganou. Quero dizer, parecia vivo e um trabalho tão bom assim...
— Acho que Isidore não pôde ver a diferença — observou baixinho Milt. — Para ele, todos são vivos, falsos animais inclusive. Ele provavelmente tentou salvá-lo. — Virando-se para Isidore, disse: — O que foi que você tentou fazer, recarregar a bateria? Ou localizar o curto?
— I-s-so mesmo — reconheceu Isidore.
— Ele provavelmente estava tão doente que não teria feito a mínima diferença — comentou Milt. — Deixe em paz o debilóide, Han. Ele tem um bom argumento: os falsos estão começando a parecer quase reais, principalmente com esses circuitos de doença que estão instalando nos novos modelos. E animais vivos, de fato, morrem. Este é um dos riscos de possuí-los. Nós simplesmente não estamos acostumados com isso, por que tudo o que vemos são os falsos.
— Que droga de desperdício — repetiu Sloat.
— De acordo com M-mercer — observou Isidore —, t-toda vida retorna. O ciclo é c-cc-completo também para a-animais. Quero dizer, todos nós subimos com ele, morremos ...
— Diga isso ao cara que era dono deste gato — sugeriu Sloat.
Sem saber bem se o patrão falava sério, Isidore perguntou :
— O senhor quer dizer que vou ter que fazer isso? Mas é o senhor que faz sempre as videochamadas. — Tinha fobia aos videofones e, para ele, era virtualmente impossível fazer uma chamada, especialmente no caso de estranhos. O Sr. Sloat, claro, sabia disso, também.
— Não o obrigue a fazer isso — disse Milt. — Eu faço. — Estendeu a mão para o aparelho. — Qual é o número dele?
— Eu tenho o número em algum lugar. — Isidore procurou nos bolsos de seu guarda-pó.
— Eu quero que o debilóide faça isso — disse Sloat.
— Eu n-n-não p-posso usar o videofone — protestou Isidore, o coração batendo-lhe com força. — Porque sou cabeludo, feio, sujo, encurvado, desdentado, e grisalho. Além disso, a radiação me faz mal. Penso que vou morrer.
Milt sorriu e disse a Sloat:
— Acho que se me sentisse assim, também não usaria o videofone. Vamos com isso, Isidore. Se não der o número do dono, não vou poder telefonar e você terá que fazer isso. — Estendeu cordialmente a mão.
— O debilóide faz a chamada — insistiu Sloat — ou está despedido. — Não olhou nem para Isidore nem para Milt, apenas fixamente para a frente.
— Ora, vamos — protestou Milt.
— Eu n-n-não gosto de ser c-chamado de debilóide. Quero dizer, a p-p-poeira também f-fez um bocado com o senhor, fisicamente. Embora, talvez n-n-não ao seu cérebro, como no meu caso. — Estou demitido, compreendeu. Não posso dar o telefonema.
De repente, lembrou-se de que o dono do gato partira em grande velocidade para o trabalho. Não haveria pessoa alguma em casa. — A-a-acho que posso telefonar para ele — disse, tirando finalmente do bolso a etiqueta com a informação.
— Está vendo? — disse Sloat a Milt. — Ele pode, se tiver que dar o telefonema.
Sentado ao videofone, aparelho na mão, Isidore discou.
— Isso mesmo — concordou Milt —, mas ele não devia ter que fazer isso. E ele tem razão. A poeira afetou-o. Você está quase cego e, dentro de uns dois anos, não vai mais ouvir.
— E pegou você também, Borogrove. Sua pele está da cor de bosta de cachorro.

Na videotela aparecera um rosto, uma mulher de aparência bem-cuidada, mitteleuropaische, que usava os cabelos num coque apertado.
— Sim? — disse ela.
— S-S-Sra. Pilsen? — perguntou Isidore, o terror percorrendo todo seu corpo. Não pensara nisso, naturalmente, mas o dono tinha uma esposa que, naturalmente, se encontrava em casa. — Eu queria lhe f-f-falar a respeito do seu g-g-gato. — Interrompeu-se e esfregou num tique nervoso o queixo. — Seu gato.
— Oh, sim, o senhor veio buscar Horace — disse a Sra. Pilsen, — É mesmo pneumonia? Foi isso o que o Sr. Pilsen pensou.
— Seu gato morreu — disse Isidore.
— Oh, não, Deus no céu!
— Nós o substituiremos — disse ele. — Temos seguro.
— Lançou um olhar ao Sr. Sloat, que pareceu de acordo.
— O proprietário de nossa firma, o Sr. Hannibal Sloat — parou, à procura de palavras — pessoalmente...
— Não — disse Sloat — nós lhe daremos um cheque. No valor da lista de preços da Sidney's.
—... pessoalmente escolherá outro gato para substituí-lo — descobriu-se Isidore dizendo.
Tendo iniciado uma conversa que não podia suportar, verificava que não podia livrar-se dela. O que dizia possuía uma lógica intrínseca que não tinha meios de deter, e que teria que ir forçosamente até sua conclusão. Sloat e Milt Borogrove olharam-no fixamente enquanto ele continuava:
— Dê-nos as especificações do gato que deseja. Cor, sexo, subtipo, tais como Manx, Persa, Abissínio...
— Horace morreu . — disse a Sra. Pilsen.
— Ele estava com pneumonia — explicou Isidore. — Morreu a caminho do hospital. Nosso médico-chefe, Dr. Hannibal Sloat, disse que no estado em que ele se encontrava, coisa alguma poderia tê-lo salvo. Mas, Sra. Pilsen, não é uma boa notícia a de que vamos substituí-lo? Certo?

Lágrimas enchendo-lhe os olhos, a Sra. Pilsen disse:
— Só havia um gato como Horace. Ele costumava, desde que era apenas um gatinho, olhar para a gente, como se estivesse fazendo uma pergunta. Nunca compreendemos que pergunta era essa. Talvez, agora, ele saiba a resposta. — Novas lágrimas apareceram. — Acho que, no fim, todos nós descobriremos.

Ocorreu uma inspiração a Isidore:
— Que tal uma duplicata elétrica exata de seu gato?
Podemos conseguir um soberbo serviço artesanal da Wheelright & Carpenter, no qual todos os detalhes do antigo animal são fielmente reproduzidos em permanente...
— Oh, isso é horrível — protestou a Sra. Pilsen. — O que é que o senhor está dizendo? Não diga isso a meu marido. Não sugira isso a Ed ou ele enlouquecerá. Ele amava Horace mais do que qualquer outro gato que já teve, e teve gatos desde menino.
Tomando o videofone de Isidore, Milt disse à mulher:
— Podemos dar-lhe um cheque no valor listado na Sidney's ou, como sugeriu o Sr. Isidore, podemos escolher um novo gato para a senhora. Sentimos muito a morte de seu gato, mas, como disse o Sr. Isidore, ele estava com pneumonia, uma doença quase sempre fatal. — Continuou a falar em tom profissional.
Dos três ali no Hospital Van Ness de Pequenos Animais, Milt era o que se saía melhor na questão de telefonemas de negócios.
— Eu não posso contar a meu marido — disse a Sra. Pilsen.
— Muito bem, madame — respondeu Milt e fez uma leve careta — nós telefonaremos para ele. Poderia me dar o número do trabalho dele? — Estendeu a mão para pegar caneta e um bloco. Sloat passou-lhe os dois artigos.
— Escute aqui — disse a Sra. Pilsen. Parecia ter recobrado o ânimo. — Talvez o outro cavalheiro tenha razão. Talvez seja bom eu encomendar um substituto elétrico de Horace, mas sem Ed jamais saber. Poderia ser uma reprodução tão fiel que meu marido não notasse a diferença?

Em dúvida, Milt respondeu:
— Se é isso o que a senhora quer. Mas, segundo nossa experiência, o dono do animal jamais é enganado. Isto só acontece com observadores casuais, como vizinhos. A senhora compreende, logo que se examina bem um animal falso .
— Ed nunca se tornou fisicamente íntimo de Horace, embora o amasse, Era eu que cuidava de todas as necessidades pessoais de Horace, como levá-lo à caixa de areia.

Acho que gostaria de tentar um sucedâneo e, se a coisa não desse certo, os senhores nos poderiam arranjar um animal autêntico para substituir Horace. Eu, simplesmente, não quero que meu marido saiba. Acho que ele não conseguiria sobreviver a essa perda. Foi por isso que ele nunca se aproximou muito de Horace. Tinha medo de aproximar-se. E quando Horace adoeceu — com pneumonia, como o senhor disse —, Ed entrou em pânico e, simplesmente, não queria enfrentar a realidade. Foi por isso que esperamos tanto antes de chamar os senhores. Demorou demais, como eu sabia, antes que vocês telefonassem, eu sabia. — Inclinou a cabeça, as lágrimas nesse instante sob controle. — Quanto tempo vai demorar isso?
Milt fez um cálculo mental:
— Podemos tê-lo pronto dentro de dez dias. Faremos a entrega durante o dia, enquanto seu marido estiver no trabalho. — Encerrou a conversa, despediu-se, e desligou: — Ele vai saber — disse ao Sr, Sloat. — Dentro de cinco segundos. Mas se é isso o que ela quer...
— Donos que chegam a amar seus animais — disse sombrio o Sr. Sloat — ficam arrasados. Estou contente porque em geral não nos envolvemos com bichos de verdade.

Vocês compreendem que autênticos veterinários têm que dar telefonemas como esse o tempo todo? — Olhou para John Isidore. — De algumas maneiras, você não é tão estúpido, afinal de contas, Isidore. Você tratou do assunto razoavelmente bem. Mesmo que Milt tivesse que intervir e tomar a frente depois.
— Ele estava indo muito bem. — disse Milt. — Deus, aquilo foi duro. — Apanhou o falecido Horace. — Vou levá-lo para a oficina. Han, telefone para a Wheelright & Carpenter e peça para mandar aqui o construtor deles, para medir e fotografar o gato. Não vou deixar que o levem para a oficina deles. Eu mesmo quero comparar a réplica.
— Acho que vou mandar Isidore conversar com eles — decidiu o Sr. Sloat. — Foi ele quem começou isto. Deve poder tratar com a Wheelright & Carpenter depois de ter tratado com a Sra. Pilsen.
— Simplesmente, não deixe que eles levem o original — disse Milt a Isidore. Entregou-lhe Horace. — Vão querer porque isso torna o trabalho deles muito mais fácil. Seja firme.
— H-h-hummm — fez Isidore, pestanejando. — Muito bem. Talvez seja bom telefonar agora, antes que o corpo comece a apodrecer. Corpos mortos não apodrecem, ou coisas assim? — Sentiu-se jubiloso.



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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Depositários (trailer)


Neste mundo do futuro, mães 'depositárias', carregam nos úteros, clones genéticos de crianças.
Os clones são mantidos em redes de tanques, e as doenças das pessoas, e a dor, são transferidas para o clone ao longo de sua vida.
Em casos de emergência, também podem ser utilizados como peças de reposição.

Um polícial e uma jornalista estão investigando crimes envolvendo depositários, como o homem apaixonado que seqüestra o clone de seu ex-amante e a mantém em seu quarto.

Dentro da fórmula do filme policial e das histórias de amor, o filme aborda muitas questões, como o direito à vida e a ética na engenharia genética.

Um filme mexicano instigante, cheio de ação, e um bom exemplo de que se pode fazer um filme original e inteligente de FC.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Splice (trailer)


Os engenheiros genéticos Clive e Elsa, especializam-se em unir DNA de diferentes animais para criar incríveis novos híbridos.

Agora, eles querem usar o DNA humano em um híbrido que pode revolucionar a ciência e a medicina.

Mas quando a companhia farmacêutica que patrocina a pesquisa a proíbe, Clive e Elsa secretamente realizam suas próprias experiências.

O resultado é Dren, incrível e linda criatura que exibe inteligência incomum.
E apesar de, num primeiro momento, Dren ultrapassar seus sonhos, ela começa a crescer e aprender em um ritmo acelerado - e começa o pesadelo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cargo (trailer)



O planeta Terra já não pode garantir a vida, para a maioria dos seus antigos habitantes, que vivem agora no espaço em superlotadas estações espaciais.

A única esperança da humanidade de escapar do caos é Rher, um planeta-paraíso, distante cinco anos-luz da Terra.

Kassandra, uma nave espacial enferrujada, está a caminho, com a jovem médica Laura no comando, enquanto o resto da tripulação dorme em hibernação criogênica.

Com quatro meses que ainda restam em seu turno, Laura começa a ter a sensação de que não está sozinha.

Cargo é um filme suiço assustador, dentro da longa tradição hollywoodiana de humanos e monstros confinados em um veículo espacial, como Alien e Pandorum recentemente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Earthling (trailer)


No filme do diretor Clay Liford, Earthling, (candidato a se tornar um cult movie) um estranho objeto atinge a Estação Espacial Internacional, e na Terra, uma professora chamada Jude, tem um ataque epilético e bate com seu carro - este é apenas o começo da descoberta de Jude, de que ela não pode ser humana.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Design Fiction



Sou um escritor de ficção científica, e, como me tornei mais familiarizado com o design, ocorreu-me que os objetos e serviços dentro da ficção científica são completamente mal projetados.

Por quê? Esta não é uma pergunta feita freqüentemente.

A razão é muito simples: A ficção científica é uma forma de entretenimento popular.
A recompensa emocional do gênero ficção científica, é a sensação de deslumbramento (sense of wonder) que ele transmite. O design da ficção científica, portanto, requer algo fantástico, enquanto o design industrial exige segurança, focado na utilidade, na serventia, com restrições de custo, e que seja atraente na prateleira. Para essas virtudes da velha escola poderíamos acrescentar hoje a sustentabilidade e uma interface decente.

Os totens clássicos da ficção científica (FC) são a arma de raios, as naves espaciais, andróides, robôs, máquinas do tempo, inteligência artificial e a nanotecnologia. Eles estão em profunda comunhão: São produtos imaginários que não podem mutilar o consumidor, não recebem feedback do usuário e não sofrem regulamentação.

É por estes motivos, seu design é glamoroso e fantástico e, portanto, basicamente, uma porcaria!

Ocasionalmente, prognósticos da FC se tornam objetos reais e serviços. Gosto de pensar que a minha ficção científica tornou-se um pouco menos flácida, uma vez que aprendi a escrever "design fiction", como hoje geralmente eu faço. Acredito que solucionei este problema, ao menos na minha prática pessoal.

No entanto, quando a ficção científica se propõe a projetar o pensamento, os problemas parecem ainda maiores. Têm a ver com a cultura especulativa de maneira em geral, a maneira com que nossa sociedade imagina-se através de suas disciplinas progressistas.

Muitos problemas que outrora eu considerei estritamente literários, são melhores compreendidos como questões de design interativo.

A literatura tem suas plataformas.
Refiro-me as estruturas físicas em que a literatura é concebida, projetada, escrita, produzida e distribuída, lembrada e esquecida. A infra-estrutura literária restringe o usuário.

Para expandir o assunto, consideremos a ficção científica, uma forma literária que é jovem, pequena e nerd. A literatura fantástica é tão antiga quanto as escrituras. A ficção científica, por contraste, surgiu na década de 20, a partir de catálogos baratos de peças eletrônicas para jovens entusiastas por montar rádios.
Esta foi a plataforma original da ficção científica.

Esta plataforma, da 'pulp fiction' americana, está morta há muito tempo. Ainda assim, qualquer web designer contemporâneo pode facilmente, compreender como e porque a ficção científica funcionou nos seus primeiros dias.

As revistas eram baratas, acessíveis, de fácil distribuição, e capazes de atender a nichos de mercado. Ícones gráficos eficazes rapidamente distinguiram a FC de seus gêneros irmãos: mistério, western, aventuras, as revistas femininas, revistas de esportes, sobre o crime, e outros.

Por 80 anos, a ficção científica tem sido capaz de encontrar e recrutar adeptos, e transformar alguns usuários em produtores culturais. Fez o suficiente para não perecer sob o capitalismo. E sob o comunismo também, pois a ficção científica soviética foi um enorme sucesso. Era muito mais popular que o design industrial soviético, que era medonho e agora está extinto.

Abaixo do nível profissional das publicações com fins lucrativos, a subcultura de fãs de ficção científica explorou desde cedo tecnologias (na base do faça-você-mesmo) tais como o mimeógrafo (gestetners) e hectógrafos (aparelho que permite obter cópias de desenhos ou textos, usando papel hectográfico; duplicador a álcool).

Haviam associações de imprensa amadoras, grupos de escritores locais, convenções regionais de ficção científica, em abundância. Pode-se até argumentar que a cultura contemporânea da Web, se parece e se comporta como o fandom de ficção científica de 1930, só que digitalizado e globalizado.

Esta situação, há muito desaparecida, não era idílica, e tomou forma dentro de um conjunto específico de condições infra-estruturais. Os primeiros escritores de ficção científica e editores imaginavam estar vendendo ficção popular sobre ciência e tecnologia. Eles estavam errados.

Aquilo era um artefato de interface de usuário.

A plataforma era uma fração da população disposta a consumir obras de imaginário radical, através de impressão em papel, aquela fração composta por gente vidrada em ciência. Os cientistas de verdade, nunca publicaram ficção científica.

O que a base de usuários de ficção científica realmente desejava não era possível em 1930. Acreditando na sua própria retórica, os usuários de ficção científica supostamente desejavam um futuro atômico propulsionado a jato. Mas sempre que se ofereceu a chance de tais bens e serviços, eles nunca a agarraram. Eles realmente não queriam essas coisas, não na vida real.

O que a base de usuários realmente queria eram fantasias imersivas.
Eles queriam subculturas solidárias, nas quais poderiam seguramente abandonar a limitação cruel da vida real, e temporariamente brincar de fantasia. Os filmes de ficção científica ajudavam nisso: a televisão também.
Quando os jogos do tipo RPG online para multi-jogadores (MMORPGs) foram inventados, os limites físicos da infra-estrutura impressa foram demolidos.
E base de usuários explodiu.

Nenhuma pessoa sã lê romances de ficção científica, 80 horas por semana.
Mas é bastante comum que os melhores jogadores gastem este tempo jogando Warcraft.

Isso não deve ser confundido com "progresso". Não é nem mesmo uma simples questão de obsolescência.
A mídia digital é muito mais frágil e contingente do que a mídia impressa.

Prefiro imaginar que as pessoas estarão lendo H P. Lovecraft – provavelmente o melhor escritor de ficção científica das revistas populares – ainda por muito tempo, e os MMORPGs, cheios de defeitos, estarão tão mortos quanto o Univac.

O que verdadeiramente me interessa aqui são os limites do imaginável. Claramente a infra-estrutura de papel/celulose limitava o que os seus artistas eram capazes de pensar. Eles usavam antolhos, não podiam ver e, portanto, não puderam transcender. A máquina de escrever limitava os escritores. A quantidade estipulada de palavras das revistas limitava os escritores. Mesmo a barganha cultural implícita entre autor e leitor apresenta limitações sobre o que poderia ser pensado, dito e entendido em público.

Esses mecanismos de interação, as colunas de cartas, o correio dos fãs, a aparência da livraria, as convenções, são pobres se vistas como uma interação. Eram todas práticas emergentes em vez de experiências de design.

Pode-se usar aqui um argumento wittgensteiniano (Ludwig Wittgenstein (1889-1951) sobre os limites ontológicos da própria linguagem. Wittgenstein, uma vez escreveu uma frase famosa sobre a necessidade de filósofos de se calar diante do inimaginável. Ele diz o seguinte:
"O sentido do todo do livro pode ser resumido nas seguintes palavras: O que pode ser dito sobre tudo deve ser dito claramente, e o que não podemos falar, devemos passar em silêncio."

Muitos escritores de FC, acredite ou não, foram capazes de compreender Wittgenstein. Contudo, um designer experiente, está longe deles. Também além de Wittgenstein, porque há coisas que podemos imaginar e falar sobre o que deixamos em silêncio, porque nós escrevemos livros.

O sentido total do livro, não contém todo o sentido das palavras.

Olhe para esta estranha "Google erudição", do jornalismo baseado em pesquisa online. Considere a hibridez da mídia das plataformas de blogues. As linhas de comandos no software estão para o texto como uma expressão da vontade.

Deixe-me oferecer um exemplo mais antigo aqui, para mostrar o quão profundo isso pode chegar.

Pense nas plataformas literárias de mil anos atrás.
Este período remoto viu o nascimento, ou melhor, o parto natimorto, do romance, com 'The Tale of Genji' de Murasaki Shikibu. Um pergaminho escrito em japonês com um pincel, em 990 e que foi publicado nos tempos modernos, como um livro, no entanto, como um verdadeiro romance. Mais especificamente, é um romance de mulheres. Os fãs de Jane Austen poderiam facilmente gostar de 'The Tale of Genji'.

Enquanto este proto-romance estava sendo escrito, um trabalho rival surgiu, conhecido como 'The Pillow book' de Sei Shonagon. Este outro não era certamente um romance. Era intensamente literário, ainda assim não pode ser descrito pela terminologia da plataforma literária contemporânea.
'The Pillow Book' é um conjunto de escritos, não-lineares, anotados em amontoados de sobras de papeis.

'The Pillow Book' não é um diário, uma miscelânea, um almanaque, uma lista, ou mesmo uma compilação de poesia japonesa, embora pareça para nós possuir alguns aspectos dessas estruturas modernas.

É melhor descrito em termos da experiência do usuário.

Essa experiência foi um esforço de quatro ou cinco anos para escapar ao tédio de um pequeno círculo de cortesãs imperiais. A experiência teve uma autora/designer – a glamorosa e sedenta por atenção, Sei – mas não havia imprensa, nenhuma editora, ou editor, nenhum distribuidor, e nunca foi vendida. Sua base de usuários, um total aproximado de 200 mulheres, provavelmente nunca o leu. Em vez disso, eles o ouviram recitado em voz alta, por alguém agachado perto de uma lanterna, após escurecer.

A abordagem estritamente literário dessa experiência fere nossa capacidade em compreender o que 'The Pillow Book' significa. Este antigo "livro" está distante, em termos de relação, dos nossos livros.
Em termos de função e público, tem mais parentesco com um blogue em pequena escala.

A parte mais famosa de 'The Pillow Book' é uma lista de coisas que Sei Shonagon considera "inadequadas". Tal como:
"A neve sobre as casas de pessoas comuns. Isso é especialmente lamentável quando o luar brilha sobre ela."

O que Sei Shonagon está dizendo aqui? A neve iluminada pelo luar é "inadequada" para as casas dos camponeses. A neve é boa demais para os humildes, as pessoas pobres. O glamour da neve não combina com a miséria.

Sei Shonagon recebeu muitas críticas de observadores contemporâneos, devido à natureza esnobe desta observação. É claro que nós nos encontramos obrigados a interpretar essa declaração como ofensiva, de ódio, e politicamente incorreta. Além de tudo, o que aconteceria se um desses pobres plebeus, lesse este insulto grosseiro?

Mas plebeus nunca poderiam fazê-lo.
Primeiro porque os camponeses eram analfabetos; depois porque o trabalho era copiado à mão, e divulgada dentro de um pequeno grupo, e terceiro lugar por que foi utilizada uma escrita especial usada apenas por mulheres. Era 'conversa para mulheres', e nenhum homem poderia saber.

Nesta estrutura de interação, era impossível que este tipo de comentário tornar-se-ia ofensivo. Sua grosseria para nós era inimaginável para Sei Shonagon. Pensar o contrário é um anacronismo.

O que nos faz hesitar diante da impensável ideia de que a linda neve sobre as casas dos camponeses, fosse realmente inadequada. Sei Shonagon estava dizendo a verdade, embora nós dificilmente possamos imaginar isso agora. Esta não foi uma observação maliciosa, mas uma avaliação estética, refinada e apolítica.

Se Sei Shonagon, de alguma forma, tivesse dito isso diretamente a um camponês, ele teria prontamente retirado a neve. Ele não iria querer que algo assim perturbasse alguém tão importante.

A infra-estrutura de publicação, portanto, restringe o pensamento dos escritores.
Obviamente todas as formas de arte e design tem alguma limitação inerente, mas parece-me que os escritores são especialmente enganados pela aparente liberdade da linguagem.

Publicar a linguagem em papel, não é a linguagem por si só: É um artefato industrial.

Escritores se agarraram à palavra, à semântica, ao sentido e com sensibilidade.
O design, por outro lado, é menos verbal. O design está ocupado em inventar novas maneiras de seguir adiante. O design assume mais riscos do que a própria literatura. É por isso que o design contemporâneo sente-se moderno, enquanto a literatura parece arcaica e sitiada.

Design e literatura não conversam muito entre si, mas o design tem mais a oferecer a literatura, no momento, do que a literatura pode oferecer ao design.

O design procura maneiras de ultrapassar seus próprios muros conceituais, como pela opinião do usuário, em brainstorming, prototipagem rápida, design crítico, e a concepção especulativa. Há ainda o "experience design", que é seguramente o mais pretensioso, a forma mais espectral de design já inventada.
“Experience design” está mais próximo, em espírito, do teatro, da poesia ou até mesmo da filosofia, do que da linha de montagem tradicional. O que na Terra não é "experiência"? E o que não é, em certo sentido, "interativo"?

Quando a ficção científica nasceu dos catálogos de peças para montagem de rádios, o design também nasceu como serva racionalizada da indústria. Os primeiros designers industriais, Norman Bel Geddes, em particular, contribuíram  em muito com a FC extravagante: asas voadoras, represas gigantes, e supercidades do futuro.

Mas estas duas disciplinas irmãs, nascidas dentro da mesma década e, certamente, por razões semelhantes, logo se separaram. As irmãs estavam cordialmente distantes, mas não viam nenhum propósito comum.

Design, que é industrial, tem clientes e consumidores, enquanto a ficção científica, uma forma de arte, tem seus mecenas e uma audiência.

Nenhum grande designer já se envolveu em escrever ficção científica. Estas duas empreitadas visionárias nunca compartilharam uma base de usuários. Ao menos até surgir a Internet.

Quando a impressão começou a se dissolver, a indústria passou a digitalizar. Os consumidores, e o público, tornaram-se usuários, os participantes via-teclado, são as pessoas anteriormente conhecidas como audiência.

Em 2009 me perguntei muito sobre velhas comunalidades da década de 20.
A tecnocultura que atualmente habitamos (não é mais o pós-moderno, podemos defectivamente chamá-la de cibernetizado, um capitalismo liberal globalizado em colapso financeiro) bem, não é nem racionalmente concebida, nem prevista pela ficção científica.

Por que isso? O que aconteceu? Por que estamos assim agora? E o que vem depois, pelo amor de Deus? Será que não podemos fazer nada melhor?

Entramos em uma cultura não-imaginada. Nesse mundo de motores de busca e links cruzados, de palavras-chaves e redes, as disciplinas de outrora foram sopradas para longe. Em vez de estarem blindadas pela técnica, ou escondidos sob uma subcultura, o design e a ficção científica tornaram-se como dois balões frágeis, bolsões polimórficos de ar quente, flutuando em um ambiente cultural contaminado.

Estas duas escolas de pensamento e ação, inerentemente progressistas, parecem de alguma maneira cegas e sem conseguir imaginar de forma eficaz. Poderia ser porque ambas nasceram com pontos cegos, com suposições não examinadas, 80 anos atrás?

Há muito em que se pensar, falando de inovação, de transformação, de colaboração, e de transdisciplinaridade. Estas são palavras de ordem, uma língua que não dura.

O que estamos realmente enfrentando agora, é uma hemorragia maciça cibernética de maneiras de se conhecer o mundo.

Mesmo o dinheiro, o ponto de partida todo-poderoso, a realidade final para a sociedade americana, falhou, com os antolhos de sua própria infra-estrutura, e perdeu sua capacidade de mapear valores.

Os visionários já não sabem o que pensar e, não por acaso, os financistas não podem fazer suas apostas.

Eu mal sabia o que fazer sobre isso.
Como disse Charles Eames, o design é um método de ação.
A literatura é um método de significado e sentimento.

Honestamente, sei como me sinto sobre essa situação. E ainda tenho uma vaga idéia do que significa.
Ao invés de pensar de forma não convencional (outside the box) – que quase sempre era uma "caixa registradora", sinceramente – certamente precisamos de uma melhor compreensão das "caixas". Talvez algum novo, e mais amplo design criativo, possa mapear os limites do imaginável dentro do meio tecnosocial contemporâneo.

Esse esforço não ocorreu no século 20, e eu duvido que tenha sido tentado.
Parece-me que uma boa resposta aos eventos.

Os ventos da Internet estão cheios de palha. Quem irá fazer os tijolos?



Design Fiction - Interactions Magazine XVI
Bruce Sterling, autor, jornalista. editor e crítico, nasceu em 1954. É mais conhecido por seus nove romances de ficção científica, e também escreve um blog.

Radio Free Albemuth




Mais uma adaptação da obra de Philip K. Dick chega na telona..


Baseado em um romance semi-autobiográfico de 1976, e publicado postumamente em 1985, Radio Free Albemuth relata suas visões de Jesus e da Roma antiga, e sobre a força cósmica que ele chamava de Valis.





Neste filme do diretor John Alan Simon, as visões são vividas por Nick Brady, um produtor musical bem-sucedido, cuja vida é guiada por VALIS, a ponto de instrui-lo a conduzir uma campanha subversiva contra o presidente dos EUA, um neo-fascista que inventa uma organização terrorista para justificar criar um Estado Policial no país (soa familiar?).

Phil, amigo de Nick, é um escritor de ficção científica, que narra a história de Nick e tenta descobrir sobre a organização Aramchek, ao mesmo tempo que são investigados pelo governo.

Este filme, que traz a cantora Alanis Morissette, diferente das adaptações passadas, opta para dar mais realismo, bem como abordar as idéias de espiritualidade e de conspirações políticas de Dick, tão relevantes hoje como eram a 35 anos atrás.

No elenco Alanis Morissette, Shea Whigham, Jonathan Scarfe.

Mais notícias no blog do filme.

domingo, 16 de maio de 2010

Greg Egan



Greg Egan (20 de agosto de 1961) nasceu em Perth, Western Australiais (Austrália).

Programador de computador e autor de ficção da ciência, graduou-se bacharel em Matemática pela University of Western Australia.

Egan é especializado em fc hard, com temas como ontologia e matemática quântica, incluindo a natureza da consciência. Outros temas incluem genética, sumulação da realidade, a transferência de mente, sexualidade, inteligência artificial, e a superioridade do materialismo racional sobre a religião.

Ele é um vencedor do Prêmio Hugo (e foi pré-seleccionado por outras três vezes), e também ganhou o John W. Campbell Memorial Award de Melhor Romance.

Alguns de seus primeiros contos usavam como recurso, elementos de horror sobrenatural.

Egan tem contos publicados em várias revistas, incluindo aparições regulares na Interzone e na Asimov's Science Fiction.

Egan faz questão de manter-se longe das convenções de FC, dos fãs, e não dá entrevistas nem autografa seus livros, além de não posar para fotos, preferindo a reclusão total e o anonimato.

Apesar disso, responde aos emails dos leitores, pelo seu site.

Greg Egan ( Capullo, Ciudad Parmutacion, Collection, Crystal nights, Cyber city, Diaspora, El asessino infinito, Foundation series, Mind Vampires, Senor Volicion, Blood sisters, Border guards, Closer, Cocoon, Dark Intergers, Diccionario del Nuevo Orden Mundial, Distress, Dust, Glory, Learning to be me, Luminous, Mitochondrial Eve, Neighbouhood Watch, Oceanic, Only connect, Oracle, Our Lady of Chernobyl, Permutation City, Quarantine, Reasons to be cheerful, Riding the crocodile, Scatter my ashes, Schild's Ladder, Singleton, Steve Fever, Tap, The demon's passage, The Extra, The moral virologist, The planck drive, The Vat, Wang's carpet, Worthless, Yeyuka ) [ Download ]

sábado, 15 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 7)



O APARELHO de TV berrava. Descendo os degraus cobertos de poeira do grande prédio de apartamentos para o nível embaixo, John Isidore identificou, nesse momento, a voz conhecida de Buster Amigão, borbotando, feliz, para sua audiência, que cobria todo o sistema.

"—... hei, hei, pessoal! Hora para uma curta notícia sobre o tempo amanhã. Em primeiro lugar, a costa leste dos Estados Unidos. O satélite Mangusto informa que a precipitação será especialmente pronunciada perto do meio-dia e que, em seguida, desaparecerá. Assim, vocês todos, queridos amigos, que estavam pensando em sair, devem esperar até a tarde, hem? E por falar em esperar, faltam agora apenas dez horas para aquela grande notícia, minha denúncia especial! Digam a seus amigos para assistir! Vou revelar uma coisa que os deixará tontos. Bem, vocês podem pensar que é apenas o habitual..."

No momento em que Isidore bateu à porta do apartamento, a televisão morreu imediatamente, caindo na inexistência. Não silenciara simplesmente, deixara de existir, assustada, de volta à sua cova pela batida à porta.

Ele sentiu, por trás da porta fechada, a presença de vida, além daquela da TV. Fazendo um esforço, suas faculdades fabricaram ou captaram um medo obcecado, mudo, de parte de alguém que se retirava para longe dele, alguém lançado para a parede mais distante do apartamento numa tentativa para evitá-lo.

— Hei — chamou. — Eu moro lá em cima. Ouvi sua TV. Vamos nos conhecer. Certo? — Esperou, à escuta. Nenhum som, nenhum movimento. Suas palavras não haviam conseguido relaxar a pessoa. — Eu lhe trouxe um cubo de margarina — insistiu, mais perto da porta, num esforço para penetrar-lhe a espessura. —

Meu nome é J. R. Isidore e trabalho para o conhecido veterinário, Sr. Hannibal Sloat. Você deve ter ouvido falar nele. Sou uma pessoa séria, tenho emprego. Eu guio o caminhão do Sr. Sloat.

A porta foi aberta um pouco e ele viu, dentro do apartamento, uma figura fragmentada, mal alinhada, se contraindo toda, uma moça que se encolheu e procurou afastar-se, mas, ainda assim, segurando a porta, como se precisasse de um apoio físico. O medo fazia-a parecer doente, distorcia-lhe as linhas do corpo, e ela dava uma impressão como se alguém a houvesse quebrado toda e depois, maliciosamente, a tivesse consertado mal. Os olhos dela, enormes, olhavam-no, vidrados, fixos, enquanto ela fazia um esforço para sorrir.

Com uma súbita compreensão, ele disse:
— Você achou que ninguém vivia neste prédio. Pensou que estivesse abandonado.
Inclinando a cabeça, a moça murmurou:
— Sim.
— Mas — disse Isidore — é bom ter vizinhos. Diabo, até que você aparecesse, eu não tinha vizinho nenhum. — E isso não era nada divertido, Deus sabia.
— Você é o único? — perguntou a moça. — Neste prédio, além de mim? — Parecia menos tímida nesse momento. Endireitou o corpo e, com a mão direita, arrumou o cabelo escuro. Nesse momento, viu que ela possuía um bom corpo, embora pequeno, e bonitos olhos bem destacados por longos cílios pretos. Olhando para trás dela, notou que a sala estava toda desarrumada, com valises aqui e acolá, abertas, seu conteúdo meio derramado pelo chão coberto de detritos. Mas isto era natural. Ela mal acabava de chegar.
— Sou o único, além de você — garantiu-lhe Isidore. — E não vou incomodá-la. — Sentiu-se deprimido.

Seu oferecimento, exibindo a característica de um velho e autêntico ritual de antes da guerra, não fora aceito.

Na verdade, a moça nem parecia notá-lo. Ou, talvez, ela não soubesse para que servia um cubo de margarina. Teve essa intuição; a moça parecia mais confusa do que qualquer outra coisa. Perdera o pé e flutuava impotente num redemoinho cada vez mais fundo de medo. — Bacana aquele cara, o Buster — disse, tentando fazer com que ela afrouxasse a rigidez da postura. — Gosta dele? Assisto ao programa todas as manhãs, e à noite, quando volto para casa. Vejo o programa dele enquanto janto e depois o programa coruja até a hora de ir dormir. Pelo menos assistia, até que meu aparelho pifou.
— Quem ...— começou a moça e, logo em seguida, interrompeu-se, mordendo o lábio como se estivesse furiosa. Evidentemente, consigo mesma.
— Buster Amigão — explicou ele. Parecia-lhe estranho que essa moça jamais tivesse ouvido falar desse que era o mais conhecido dos cômicos da TV. — De onde foi que você veio? — perguntou, curioso.
— Não vejo no que é que isso importa. — Lançou-lhe um rápido olhar. Algo que viu como que reduzir-lhe a preocupação, e seu corpo se relaxou visivelmente. — Terei prazer em receber visitas — disse — mais tarde, quando estiver instalada. No momento, claro, está fora de cogitação.
— Por que fora de cogitação? — Estava perplexo, Tudo nela deixava-o perplexo. Talvez, pensou, eu tenha vivido aqui sozinho por um tempo longo demais. Eu me tornei estranho. Dizem que debilóides são assim. O pensamento fê-lo sentir-se ainda mais deprimido. — Eu poderia ajudá-la a desfazer as malas — aventurou ele. A porta, nesse momento, virtualmente foi fechada em sua cara. — E arrumar seus móveis.
— Eu não tenho móveis — respondeu a moça. — Todas estas coisas — indicou a saía às suas costas — já estavam aqui.
— Elas não vão servir — garantiu Isidore. Podia ver isso com um simples olhar. As cadeiras, o carpete, as mesas — tudo apodrecera, desmoronando na ruína geral, vítima da força despótica do tempo. E do abandono. Ninguém residira naquele apartamento durante anos e o estrago era quase completo. Não podia imaginar como ela pudera pensar em viver num lugar desses. — Escute aqui — disse, muito interessado —, se dermos uma busca no prédio, procurando, provavelmente vamos encontrar coisas que não estão tão acabadas assim. Um abajur de um apartamento, uma mesa de outro.
— Eu faço isso — disse a moça. — Eu mesma, obrigada.
— Você entraria sozinha nesses apartamentos? — Isto era uma coisa em que ele não podia acreditar.
— Por que não? — Mais uma vez ela estremeceu, nervosa, fazendo careta ao perceber que dissera alguma coisa errada.
— Eu tentei, uma vez — disse Isidore. — Uma única vez. Depois daquela vez, eu simplesmente volto para casa, entro no meu lugar e não penso mais no resto. Os apartamentos onde ninguém mora, centenas deles e todos eles cheios de coisas que as pessoas tinham, como fotografias de família, roupas. Os que morreram não podiam levar coisa alguma e, os que emigraram, não queriam. Este prédio, exceto pelo meu apartamento, está inteiramente entulhado.
— Entulhado? — Ela não compreendeu.
— Entulho é objeto inútil, como correspondência descartada, caixas de fósforos; depois que a gente usa o último fósforo, ou a fita gomada do jornal da véspera. Quando não há ninguém em volta, o entulho se reproduz. Por exemplo, se a gente vai dormir deixando entulho no apartamento, quando acorda na manhã seguinte há duas vezes mais. Ele aumenta sempre cada vez mais.
— Compreendo. — A moça fitou-o, incerta, sem saber se devia acreditar nele ou não. Não tinha certeza se ele falava a sério.
-— Esta é a Primeira Lei do Entulho — explicou ele.
— "O entulho expulsa o não-entulho." Tal como a Lei de Gresham sobre o dinheiro ruim. E nesses apartamentos não há ninguém para combater o entulho.
— Então, ele tomou conta de todo o lugar — concluiu a moça. Inclinou a cabeça. — Agora, compreendo.
— Seu lugar aqui — disse ele —, este apartamento que escolheu... está entulhado demais para se viver nele. Podemos fazer recuar o fator entulho. Podemos fazer como eu disse, fazer incursões pelos outros apartamentos. Mas...— interrompeu-se.
— Mas o quê?
— Não podemos vencer — disse Isidore.
— Por que não? — A moça saiu para o corredor, fechando a porta às suas costas, braços cruzados em frente a seus pequenos seios, olhando-o séria, ansiosa para compreender. Ou, de qualquer modo, assim lhe pareceu. Pelo menos, ela estava escutando.
— Ninguém pode vencer o entulho — disse ele —, exceto temporariamente e talvez num único lugar, como no meu apartamento, onde criei um espécie de estase entre a pressão do entulho e do não-entulho, por ora.

Mas, no fim, eu morro ou vou embora e o entulho tomará conta, novamente. Trata-se de um princípio universal, que opera em todo o universo; o universo inteiro está-se movendo para um estágio final de entulhamento total, absoluto. — E acrescentou: — Exceto, claro, pela ascensão de Wilbur Mercer.

A moça fitou-o, curiosa.
— Não estou percebendo a relação.
— Isso é tudo o que há no mercerismo. — Mais uma vez, sentiu-se perplexo. — Você não participa da fusão? Não tem uma caixa de empatia?
Depois de uma pausa, a moça respondeu, medindo as palavras:
— Não trouxe a minha comigo. Achei que ia encontrar uma aqui.
— Mas uma caixa de empatia — disse ele, gaguejando em sua agitação — é a posse mais pessoal que uma pessoa pode ter! É uma extensão de seu corpo. É a maneira como você toca outros seres humanos, a maneira como deixa de estar sozinho. Mas você sabe disso. Todo mundo sabe disso. Mercer permite mesmo que pessoas como eu ... — Interrompeu-se. Mas tarde demais. Já lhe dissera e percebeu pelo rosto da moça, pelo relâmpago de súbita aversão, que ela sabia. — Eu quase passei no teste de quociente de inteligência — disse ele em voz baixa e abalada. — Eu não sou muito especial, apenas moderadamente, não como alguns que você vê por aí. Mas essa é a coisa com a qual Mercer não se importa.
— No que me interessa — retrucou a moça —, pode considerar isso como uma grande objeção ao mercerismo. — Ela falava em voz clara e neutra. Queria apenas declarar um fato, compreendeu ele. O fato de sua atitude no que dizia respeito a debilóides.
— Acho que vou voltar lá para cima — disse ele e começou a afastar-se dela. O cubo de margarina na mão fechada se tornara mole e pegajoso.
A moça observou-o afastar-se, conservando ainda a expressão neutra. De repente, disse:
— Espere.
Voltando-se, ele perguntou:
— Por quê?
— Vou precisar de você. Para conseguir um mobiliário adequado. Dos outros apartamentos, como você disse. — Dirigiu-se para ele, o torso nu, esguio e elegante, sem um grama de excesso de gordura. A que horas você volta do trabalho? Você poderá me ajudar, então.
— Você poderia, talvez, preparar o jantar para nós dois? — perguntou Isidore. — Se eu trouxesse os ingredientes?
— Não, tenho muita coisa a fazer. — A moça recusou o pedido tranqüilamente e ele notou o fato, percebeu-o sem compreendê-lo. Agora que diminuíra o medo inicial dela, alguma coisa começara a emergir. Algo mais estranho. E, pensou ele, deplorável. Uma frieza. Como, pensou ele, um sopro do vácuo existente entre mundos habitados; na verdade, de parte alguma. Não era o que ela fazia ou dizia, mas o que não fazia ou dizia. — Noutra ocasião — disse a moça, e voltou na direção da porta de seu apartamento.
— Você guardou meu nome? — perguntou ele, interessado. — John Isidore, e que eu trabalho para...
— Você me disse para quem trabalha. — Parou por um momento à porta, abriu-a e disse: — Para alguma incrível pessoa chamada Hannibal Sloat, que tenho certeza que não existe fora de sua imaginação. Meu nome é. .. — Lançou-lhe um de seus últimos olhares gelados, enquanto entrava no apartamento, hesitou, e disse: — Eu sou Rachael Rosen.
— Da Rosen Association? — perguntou ele. — O maior fabricante de robôs humanóides usados em nosso programa de colonização?

Uma expressão complicada passou no mesmo instante pelo rosto da moça, rapidamente, e logo desapareceu.
— Não — retrucou. — Nunca ouvi falar nessa empresa. Não sei de coisa alguma a respeito dela. Mais de sua imaginação de debilóide, acho. John Isidore e sua caixa de empatia pessoal, privada. Pobre Sr. Isidore.
— Mas seu nome sugere...
— Meu nome — disse a moça — é Pris Stratton. O meu nome de casada. Sempre o uso. Nunca uso outro nome, senão Pris. Pode me chamar de Pris. — Pensou por um momento e, em seguida, corrigiu: — Não, é melhor me chamar de Srta. Stratton. Porque nós não nos conhecemos, realmente. Pelo menos, não o conheço.

A porta se fechou sobre ela e ele ficou sozinho no corredor escuro coberto de poeira.


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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Virada Cultural - São Paulo


Música, gastronomia, cinema, dança, teatro, literatura e muito mais!

A Virada Cultural, que acontece sábado e domingo em São Paulo, abre espaço também para o gênero fantástico.

O Conselho Steampunk estará no stand 18, DIMENSÃO NERD, na Praça Roosevelt.

10:00 as 11:00 hs – palestra sobre Historia Alternativa e Steampunk.
11:30 as 14:00 hs – sessão de venda e autógrafos com os autores presentes.
A partir das 14:30 – mesa de RPG multimídia de Castelo Falkenstein.

A programação completa do evento, está disponível no site da Virada Cultural.

Starship Schematics Database


Bem vindo a Starship Schematics Database.

O site se dedica a arquivar cada modelo de nave espacial, dos filmes/séries de TV, Star Trek, Battlestar Galactica, Babylon 5 e Space Battleship Yamato (ou Star Blazers nos EUA).







quinta-feira, 13 de maio de 2010

PODespecular



No PODespecular, um papo divertidíssimo de Paulo Elache, Edgar Smaniotto e participações ilustres, sobre a antologia 'Como era gostosa a minha alienígena', além de uma discussão sobre o puritanismo que cerca a FC de lingua inglesa.

Vale a pena! PODescutar !

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Saturn Apartments



No futuro distante, a humanidade precisou evacuar o planeta Terra, a fim de preservá-lo.
Os seres humanos agora residem em uma estrutura gigantesca que forma um anel ao redor da Terra.




A sociedade do Anel é altamente estratificada: quanto mais alto o andar, maior o status.

Mitsu, o humilde filho de um lavador de janelas, acaba de se formar ginasial.
Quando seu pai desaparece e é dado como morto, Mitsu deve assumir a ocupação de seu pai.




Enquanto ele luta com a transição para a vida adulta, Mitsu, através de seu novo trabalho, é testemunha de um estranho mundo de dioramas, dos apartamento de Saturno.


Saturn Apartments

terça-feira, 11 de maio de 2010

Center for the study of Science Fiction


O site do Centro para o Estudo da Ficção Científica da Universidade de Kansas, contém informações e links para quem procura informações sobre o ensino de ficção científica.

O Centro, fundado em 1982, com o primeiro curso ministrado pelo Professor James Gunn, possui uma das maiores bibliotecas de FC em lingua inglesa, do mundo.

A Universidade junto com o Instituto, criaram o prêmio John W. Campbell Memorial para o melhor romance de ficção científica do ano, e o prêmio Theodore Sturgeon Memorial para o melhor conto de FC do ano.

Associado com o Departamento de Inglês, o centro ministra vários cursos como escrita e composição de FC e Estudos de Gênero, oferecidas para graduação e pós-graduação. O departamento oferece também uma opção de escrita criativa na graduação e na pós-graduação. O Centro também oferece um curso sobre "Ciência, Tecnologia e Sociedade" e dois cursos on-line de formação contínua para educadores, além de workshops e cursos intensivos.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SpaceBlooks



A Blooks Livraria promove o evento SpaceBlooks: ciclo de bate-papo sobre ficção científica.

Autores e leitores reunidos diante da produção carioca de FC e seu espaço conquistado em meio a um mercado editorial que não pode mais ignorá-la.

SpaceBlooks são encontros informais e, por isso mesmo, muito francos, onde colocaremos temas como viagens no tempo, colonização de outros mundos e criaturas pan-dimensionais na frente da prateleira.

    * Dia 13 de maio, 19h - Ficção científica na Internet: Os escritores Fábio Fernandes, Ana Cristina Rodrigues e Saint-Clair Stockler expõem seus sucessos e vitórias nesse território de bravos.

    * Dia 20 de maio, 19h - Steampunk:  o escritor e editor Gérson Lodi-Ribeiro, o ilustrador Alexandre Lancaster e o multimidiático Fausto Fawcett falam sobre suas visões de passado na última mesa da noite.





O endereço da Blooks é Praia de Botafogo, 316, Rio de Janeiro (mapa).

domingo, 9 de maio de 2010

Fritz Leiber


Fritz Reuter Leiber Jr. (24 de dezembro de 1910 - 05 de setembro de 1992) nasceu em Chicago, Illinois (EUA) e foi um influente escritor de fantasia e ficção científica, além de ator (de teatro e televisão), filósofo, campeão de esgrima e de xadrez.

Sua popularidade entre os fãs e seus colegas escritores era considerável, e os seus romances de ficção científica "The Big Time" (1958) e "The Wanderer" (1965), e os contos "Gonna Roll the Bones" (de 1967, sobre um jogador que joga dados com a Morte) e "Ship of Shadows" (1970), ganharam o prêmio Hugo ("Bones" ganhou um prêmio Nebula também).

Filho de dois atores shakespearianos, Leiber trabalhou em grupos itinerantes que apresentavam peças de  Shakespeare e escreveu um romance 'Um espectro ronda a Texas' inspirada no célebre escritor inglês.
Leiber também atuou em alguns filmes, uma vez com seu pai, na RKO, em uma versão do Corcunda de Notre Dame (1939).

Muitos dos melhores trabalhos de Leiber são histórias curtas, especialmente de horror. Leiber é amplamente considerado como um dos precursores da moderna história de terror urbano.

Entre seus trabalhos mais famosos, está a série de histórias 'Gray Mouser', escrito num período de 50 anos.
Estas histórias foram, de fato, os progenitores de muitos livros do gênero capa e espada e feitiçaria.

Leiber foi fortemente influenciado por H.P. Lovecraft e Robert Graves nas duas primeiras décadas de sua carreira. A partir do final dos anos 50, ele estava cada vez mais influenciado pelas obras de Carl Gustav Jung. Muitas vezes, os conceitos da psicanálise junguiana são mencionados abertamente em suas histórias, especialmente o 'anima'.

Seus fãs lhe concederam o prêmio Gandalf (Grand Master) na convenção mundial de FC de 1975, e em 1981, o Science Fiction and Fantasy Writers of America nomeou-o com o título de Grão-Mestre.


Fritz Reuter Leiber ( A Bad day for sale, Best of Fritz, Coming attraction, Damnation morning, El Planeta errante, Gather Darkness, Gondolier, Gonna roll the bones, I'll met in Lankhmar, Midnight in the mirror world, Nave de sombras, Our lady of darkness, The Big Time, The Black Gondolier, The Girl with hungry eyes, The Green Millenium, The Hound, The Mind Spider, The Number of the beast, The Oldest soldier, The Wanderer, Un Fantasma recorre Texas, Série Espadas, Fafhrd and gray mouser series, Jefes descarriados, La Anciana senorita Macbeth, La Gran hora, La Mente arana, La raiz cuadrada del cerebro, 237 Estatuas parlantes, Cronicas del gran tiempo, Cuando soplan los vientos cambiantes, El Circulo Interior, El grupo beat, El hombre que nunca llegaba a joven, El numero de la Bestia, El Planeta errante, Espectros de la noche, Esposa hechicera, Hagase la oscuridad, Imagiciones horribles, Los Cerebros Plateados, Nuestra Senora de las tinieblas, Un Cubo de aire, Agarra este Zeppelin, El Hombre que era amigo de los Electrones, El Hombre que nunca rejuvenescia, En el Rayo X, Ervool, Espacio-Tiempo para saltadores, La Bestia Marciana, La Mutacion del hermano, Mariana, Proximas atraciones ) [ Download ]

sábado, 8 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 6)



O PEQUENO feixe de luz branca iluminava, fixo, o olho esquerdo de Rachael Rosen; colado a seu rosto, o disco de tela de arame.
Ela parecia calma.

Sentado numa posição de onde podia ver as leituras dos dois medidores do aparelho de teste Voigt-Kampff, disse Rick Deckard:
— Vou descrever certo número de situações sociais. Você deve manifestar sua reação com a maior rapidez possível. O seu tempo de resposta será medido, naturalmente.
— E, naturalmente — respondeu Rachael, a voz distante —, minhas reações verbais não terão importância. Você usará como índices exclusivamente as reações oculares e capilares. Mas vou responder. Quero ir nisto até o fim e... — interrompeu-se. — Continue, Sr. Deckard.

Escolhendo a questão três, Rick disse:
— No seu aniversário, você recebe de presente uma carteira de couro de vaqueta. — Ambos os medidores passaram imediatamente do verde para c vermelho, as agulhas tremeram violentamente e depois pararam.
— Eu não a aceitaria — respondeu Rachael. — Denunciaria também à polícia a pessoa que me deu o presente.

Depois de fazer um tique na folha de anotações, Rick continuou, passando para a oitava pergunta na escala de perfil Voigt-Kampff:
— Você tem um filhinho e ele lhe mostra sua coleção de borboletas, incluindo o jarro onde as mata por sufocação.
— Eu o levaria a um médico. — Rachael falou em voz baixa, mas firme.

Mais uma vez, os dois medidores registraram reação, mas desta vez as agulhas não se moveram muito. Ele anotou isso, também.
— Você está sentada, assistindo TV — continuou ele — e, de repente, descobre uma vespa andando pelo seu punho.
— Eu a mataria — respondeu Rachael.

Desta vez os medidores quase nada registraram: apenas um tremor fraco e momentâneo. Ele anotou o fato e, cauteloso, selecionou a pergunta seguinte.
— Numa revista, você encontra uma página inteira em cores de uma moça nua, — Interrompeu-se.
— Esse teste é para saber se eu sou andróide — perguntou maliciosa Rachael — ou se sou homossexual? — Os medidores nada registraram.

Ele continuou:
— Seu marido gosta da foto. — Os medidores continuaram a não indicar reação alguma. — A moça — acrescentou — está deitada de bruços num belo tapete de pele de urso. — Os medidores permaneceram inertes e ele disse para si mesmo: uma reação de andróide.
Ele não conseguiu detectar o principal elemento, a pele do animal morto.

A mente dela, da máquina, concentra-se em outros fatores.
— Seu marido pendura a foto na parede do gabinete dele — concluiu Rick e, desta vez, os ponteiros se moveram.
— Eu, de modo algum, deixaria que ele fizesse isso — disse Rachael.
— Muito bem — concordou Rick, inclinando a cabeça. — Agora, considere o seguinte: você está lendo um romance escrito nos velhos dias, antes da guerra. Os personagens estão visitando o Fisherman's Wharf, em São Francisco. Ficam com fome e vão fazer uma refeição num restaurante de frutos do mar.
Um deles pede lagosta.
O maítre lança a lagosta numa panela de água fervente, enquanto os personagens olham.
— Oh, Deus — disse Rachael —, isso é horrível! Faziam realmente isso? É tão depravado! Você quer dizer, uma lagosta viva — Os medidores, contudo, não registraram coisa alguma.

Formalmente, uma reação correta. Mas simulada.
— Você aluga uma cabana na montanha — prosseguiu ele — numa área ainda verde. É do tipo rústico, de toras de pinheiro, com uma imensa lareira.
— Sim — disse Rachael, inclinando impaciente a cabeça.
— Numa das paredes, alguém pendurou velhos mapas. Reproduções Currier e Ives e, em cima da lareira, há uma cabeça de cervo empalhada, de um macho, com galhadas bem desenvolvidas.

As pessoas que estão com você admiram a decoração da cabana e vocês todos resolvem. .
— Não, com a cabeça do cervo — disse Rachael. Os medidores, contudo, indicaram movimento apenas dentro da faixa verde.
— Você é engravidada — continuou Rick — por um homem que prometeu casar com você. O homem vai embora com outra mulher, sua melhor amiga. Você faz um aborto e...
— Eu nunca faria um aborto — retrucou Rachael — De qualquer modo, não posso. Significa prisão perpétua e a polícia anda sempre vigilante.

Desta vez, ambos os ponteiros saltaram violentos para o vermelho.
— Como é que você sabe disso? — perguntou-lhe curioso Rick. — Sobre a dificuldade de fazer um aborto?
— Todo mundo sabe disso — respondeu Rachael.
— Deu a impressão de que você falava por experiência pessoal. — Observava atento os ponteiros que ainda varriam um largo caminho pelos mostradores. — Mais uma. Você está namorando e o homem convida-a a visitar o apartamento dele. Enquanto se encontra lá, ele lhe oferece uma bebida. Ali, com o copo na mão, você olha para o quarto de dormir, atraentemente decorado com cartazes de touradas e se aproxima para olhar mais de perto. Ele a segue, fechando a porta. Colocando o braço em volta de seu corpo, ele diz...

Rachael interrompeu-o:
— O que é um cartaz de touradas?
— Desenhos, geralmente em cores, e muito grandes, mostrando um matador com sua capa, e um touro tentando chifrá-lo. — Pareceu confuso. — Qual é sua idade? — perguntou. Aquilo poderia ser um fator.
— Dezoito — respondeu Rachael. — Muito bem, então esse homem fecha a porta e passa o braço em volta de mim. O que é que ele diz?
— Sabe como é que terminavam as touradas? — perguntou Rick.
— Acho que todo mundo ficava machucado.
— O touro, no fim, era sempre morto. — Esperou, observando os dois ponteiros. Eles palpitaram inquietos, nada mais. Nenhuma leitura absolutamente. — A pergunta final — disse. — Em duas partes. Você está assistindo a um velho filme na TV, um filme de antes da guerra. Mostra um banquete. Os convidados estão saboreando ostras vivas.
— Ugh — exclamou Rachael e os ponteiros giraram rápidos.
— A entrada — continuou ele — consiste de cão cozido, recheado com arroz. — Os ponteiros moveram-se menos desta vez, menos do que haviam feito com as ostras cruas. — Ostras cruas são mais aceitáveis para você do que um prato de cão cozido? Evidentemente que não. — Pôs de lado o lápis, desligou o feixe de luz e retirou o disco adesivo do rosto dela.
— Você é um andróide — disse a ela — ou melhor, à coisa. — Esta é a conclusão do teste — informou a Eldon Rosen, que o observava, contorcendo-se de preocupação.

O rosto do homem idoso contraiu-se, mudando plasticamente com irritada preocupação.
— Estou certo, não? — perguntou Rick.
Nenhuma resposta, de nenhum dos dois Rosens, — Escute aqui — disse em tom conciliador — nós não temos conflitos de interesses. É importante para mim que o Teste Voigt-Kampff funcione, quase tão importante quanto para você.
O Rosen mais velho respondeu:
— Ela não é um andróide.
— Não acredito nisso — retrucou Rick.
— Por que mentiria ele? — perguntou feroz Rachael a Rick. — Se fôssemos mentir, mentiríamos em sentido contrário.
— Eu quero que seja feita uma análise de sua medula óssea — disse-lhe Rick. — O teste pode, finalmente, determinar se você é um andróide ou não. É um teste lento, doloroso, reconheço, mas...
— Legalmente — retrucou Rachael — eu não posso ser obrigada a me submeter a um teste de medula óssea. Isto foi resolvido pelos tribunais. Seria um caso de auto-incriminarão. E de qualquer modo, numa pessoa viva — não no cadáver de um andróide aposentado — leva um bocado de tempo. Você pode aplicar essa droga de Teste de Perfil Voigt-Kampff por causa dos especiais. Eles têm que ser testados constantemente e, enquanto o governo fazia isso, vocês das forças policiais conseguiram passar com o Voigt-Kampff por baixo do pano. Mas o que você disse é verdade: isto foi o fim do teste. 

Levantou-se. Afastou-se dele e, com as mãos nos quadris, ficou de costas para ele.
— A questão não é a legalidade da análise de medula óssea — disse rouco Eldon Rosen. — A questão é que seu teste de identificação de empatia falhou em relação a minha sobrinha. Posso explicar por que ela reagiu como um andróide reagiria. Rachael cresceu a bordo do Salader 3. Nasceu nele. Passou quatorze dos seus dezoito anos vivendo de sua biblioteca de fitas gravadas e do que os nove outros membros da tripulação sabiam sobre a Terra. Depois, como você sabe, a espaçonave voltou quando já havia coberto um sexto do caminho para Próxima Centauri. De outro modo, Rachael jamais teria visto a Terra... de qualquer modo, não até muito depois na vida.
— Você teria me aposentado — disse Rachael por cima do ombro. — Numa rede de arrastão policial, eu teria sido morta. Sei disso desde que cheguei aqui há quatro anos; esta não é a primeira vez em que me aplicam o Teste Voigt-Kampff. Para dizer a verdade, raramente saio deste prédio. O risco é enorme, devido a essas barreiras nas estradas que vocês policiais levantam por aí, aquelas blitzes, aquelas incertas para prender especial; não registrados.
— E andróides — acrescentou Eldon Rosen. — Embora, naturalmente, o público não seja informado disso. O público não deve saber que os andróides estão na Terra, ao nosso redor.
— Eu não acho que estejam — respondeu Rick. — Acho que os vários órgãos policiais, aqui e na União Soviética, prenderam todos eles. Agora, a população já é suficientemente pequena, Todas as pessoas, mais cedo ou mais tarde, caem num ponto de identificação. Essa, de qualquer modo, era a idéia.
— Quais são suas instruções — perguntou Eldon Rosen — se acabar designando como andróide um ser humano?
— Isso é assunto departamental.

Começou a recolocar a aparelhagem na pasta. Os dois Rosens observavam-no, em silêncio.
— Obviamente — acrescentou — recebi instruções para cancelar aplicações ulteriores de testes.
Se falhou uma única vez, não há razão para continuar. — Fechou com um estalo a pasta.
— Nós podíamos tê-lo enganado — disse Rachael. — Coisa alguma nos obrigou a reconhecer que você me testou mal. E a mesma coisa se aplicaria aos nove outros sujeitos que escolhemos. — Fez um gesto vigoroso. — Tudo o que tínhamos que fazer era simplesmente aceitar os resultados de seus testes, quaisquer que fossem.
— Eu teria insistido numa lista antecipada. Um controle de envelope fechado. E comparado os resultados de meus testes, em busca de congruência. Teria que haver congruência. — E vejo agora, compreendeu, que não a teria obtido. Bryant tinha razão. Graças a Deus, não saí por aí caçando cabeças na base deste teste.
— Sim, acho que o senhor teria feito isso — concordou Eldon Rosen. Lançou um rápido olhar a Rachael, que inclinou a cabeça. — Nós discutimos essa possibilidade — continuou depois, relutante.
— Este problema — disse Rick — tem origem, inteiramente, em seus métodos de operação, Sr. Rosen. Ninguém obrigou sua empresa a aperfeiçoar a produção de robôs humanóides a um ponto em que . .
— Nós produzimos o que os colonos queriam — retrucou Eldon Rosen. — Seguimos o princípio, consagrado pelo tempo, de todas as empresas comerciais. Se nossa empresa não tivesse produzido esses tipos cada vez mais humanos, outras firmas neste campo o teriam feito. Sabíamos o risco que corríamos quando criamos a unidade cerebral Nexus-6. Mas seu Teste Voigt-Kampff já era um fracasso antes de lançarmos esse tipo de andróide. Se houvesse classificado um andróide Nexus-6 como andróide, se houvesse descoberto que era um ser humano...mas não foi isso o que aconteceu. — Sua voz se tornara dura e contundentemente penetrante. — Seu departamento de polícia, e outros também, podem ter aposentado, com toda probabilidade aposentaram, seres humanos autênticos com capacidade empática subdesenvolvida, tal como minha inocente sobrinha aqui. Sua situação, Sr. Deckard, é extremamente má, moralmente falando. A nossa não!
— Em outras palavras — disse astutamente Rick —, não vou ter oportunidade de examinar um único Nexus-6. Antes de mais nada, vocês me lançaram nos braços essa moça esquizóide. — E meu teste, deu-se conta, está liquidado. Não devia ter aceito fazer isso, disse a si mesmo. Contudo, era tarde demais.
— Nós o temos em nossas mãos, Sr. Deckard — concordou Rachael, com voz tranqüila e razoável. Virou-se para ele, e sorriu.
Não podia compreender, mesmo naquele instante, como a Rosen Association conseguira prendê-lo numa armadilha, e com aquela facilidade toda. Especialistas, percebeu. Uma empresa gigantesca como essa tem experiência demais. Possui, na verdade, uma espécie de mente coletiva. Eldon e Rachael Rosen eram porta-vozes dessa entidade anônima. Seu erro, evidentemente, consistira em considerá-los como indivíduos. Este era um erro que não repetiria.
— Seu superior, o Sr. Bryant — disse Eldon Rosen —, vai achar difícil compreender como foi que o senhor deixou que anulássemos seu aparelho de teste antes que o teste começasse. — Apontou para o teto, e Rick viu a lente da câmara. Seu cabeludo erro no trato com os Rosens fora devidamente documentado. — Acho que, para nós, a coisa certa a fazer — continuou Eldon — é sentarmo-nos e... — fez um gesto afável. — Podemos chegar a um acordo, Sr. Deckard. Nenhuma necessidade de preocupação. A variedade Nexus-6 de andróide é uma realidade. Nós aqui na Rosen Association reconhecemos isto, e acho que o senhor, agora, também.

Rachael, inclinando-se para Rick, perguntou:
— Com que intensidade você gostaria de ter uma coruja?
— Eu duvido que algum dia vá possuir uma coruja. — Mas sabia o que era que ela insinuava. Entendia perfeitamente a transação que a Rosen Association queria fazer com ele. Tensão, de um tipo que jamais sentira antes, manifestou-se nele e explodiu, vagarosamente, em todas as partes de seu corpo.

Sentiu a tensão, a consciência do que estava acontecendo, assumir inteiramente o controle.
— Mas uma coruja — disse Eldon Rosen — é a coisa que você quer. — Olhou indagador para a sobrinha. — Acho que ele não tem uma idéia...
— Claro que tem — contraditou-o Rachael. — Ele sabe exatamente para onde está se encaminhando esta conversa. Não sabe, Sr. Deckard? — Mais uma vez, inclinou-se para ele, mais perto agora. Ele podia sentir nela um leve perfume, quase um calor, — O senhor praticamente conseguiu, Sr. Deckard. O senhor praticamente tem sua coruja. — Virou-se para Eldon Rosen: — Ele é um caçador de cabeças a prêmio, lembra-se? De modo que vive dos prêmios que obtém, não de seu salário. Não é assim, Sr. Deckard?
Rick inclinou a cabeça.
— Quantos andróides escaparam desta vez? — perguntou Rachael.
Ele respondeu no mesmo instante:
— Oito. Inicialmente dois já foram aposentados por alguém. Não por mim.
— Quanto é que o senhor ganha por aposentar cada andróide? — quis saber Rachael.
Encolhendo os ombros, Rick explicou:
— Isso varia.
— Se o senhor não tem um teste que possa administrar, então o senhor não tem meios de identificar um andróide — disse Rachael. — E se não houver maneira de identificar um andróide, não há maneira de receber seu prêmio. De modo que, se a Escala Voigt-Kampff tem que ser abandonada...
— Ela será substituída por uma nova escala — retrucou Rick. — Isto já aconteceu antes. — Três vezes, para ser exato. Mas a nova escala, o aparelho analítico mais moderno, já existia. Nenhum lapso ocorrera. Desta vez, era diferente.
— No fim, claro, a Escala Voigt-Kampff tornar-se-á obsoleta — concordou Rachael. — Mas não agora. Estamos convencidos de que ela identificará os tipos Nexus-6 e gostaríamos que o senhor continuasse nessa base em seu trabalho particular, peculiar. — Balançando-se levemente para frente e para trás, os braços bem cruzados, ela fitou-o com intensidade, procurando avaliar-lhe a reação.
— Diga que ele pode ganhar a coruja — sugeriu com voz áspera Eldon Rosen.
— Você pode ganhar a coruja — repetiu Rachael, observando-o ainda. — Aquela que está lá no telhado. Scrappy. Mas nós vamos querer cruzá-la se conseguirmos pôr as mãos num macho. E todos os filhotes serão nossos, isto tem que ficar absolutamente claro.
— Eu dividirei pela metade a ninhada — disse Rick.
— Não — respondeu no mesmo instante Rachael. Atrás dela, Eldon Rosen sacudiu a cabeça, apoiando-a. — Dessa maneira, você teria direito exclusivo à linhagem de sangue das corujas, pelo resto da eternidade. E há outra condição. Você não pode deixar em testamento sua coruja a pessoa alguma. Em caso de sua morte, ela volta para a empresa.
— Isso parece — comentou Rick — um convite para que vocês entrem e me matem. Para conseguir de volta, imediatamente, sua coruja. Não concordo com isso. É perigoso demais.
— Você é um caçador de cabeças a prêmio — disse Rachael. — Sabe como manejar uma pistola laser... Na verdade, está portando uma delas nesse instante. Se não pode se proteger, como é que vai aposentar os seis andros Nexus-6 restantes? Eles são muito mais sabidos do que os velhos W-4 da Gozzi Corporation.
— Mas sou eu quem os caça — replicou Rick. — Desta maneira, com uma cláusula de reversão, alguém estaria me caçando, — E não gostava da idéia de ser sorrateiramente seguido. Vira o efeito disso em andróides. Produzia algumas mudanças notáveis, mesmo neles.
— Muito bem, nós cedemos nesse ponto — concordou Rachael. — Você pode deixar a coruja em testamento a seus herdeiros. Mas nós insistimos em ficar com a ninhada inteira. Se não puder concordar com isto, volte a São Francisco e reconheça para seus superiores do departamento que a Escala Voigt-Kampff, pelo menos da forma aplicada pelo senhor, não pode distinguir um andro de um ser humano. E, em seguida, vá procurar outro emprego.
— Dê-me algum tempo — pediu Rick.
— Muito bem — anuiu Rachael. — Nós o temos aqui, onde é confortável. — Lançou um olhar ao relógio.
— Meia hora — disse Eldon Rosen. Em silêncio, ele e Rachael dirigiram-se para a porta. Haviam dito o que queriam, compreendeu Rick; o resto, agora, cabia a ele.
No momento em que Rachael começava a fechar a porta, depois de terem saído ela e o tio, Rick disse sombrio:
— Vocês me pegaram numa boa. Gravaram em fita que eu me enganei com vocês. Sabem que meu emprego depende do uso que faço da Escala Voigt-Kampff, e, para completar, têm aquela droga de coruja.
— Sua coruja, querido — disse Rachael. — Lembra-se? Prenderemos o endereço de sua casa na perna da coisa e a mandaremos por via aérea para São Francisco. Ela o receberá em casa toda vez que você encerrar o expediente.

A coisa, pensou ele. Ela continua a chamar a coruja de coisa. Ela, não.
— Um segundo só — disse.
Parando à porta, Rachael perguntou:
— Já decidiu?
— Eu quero — respondeu ele, abrindo a pasta de documentos — fazer-lhe mais uma pergunta sobre a Escala Voigt-Kampff. Sente-se outra vez.
Rachael lançou um olhar ao tio, que inclinou a cabeça.
De má vontade, ela voltou à sala e sentou-se como antes.
— Para que, isso? — perguntou ela, suas sobrancelhas erguidas de antipatia... e cautela.
Ele percebeu-lhe a tensão, anotou-a profissionalmente.

No mesmo instante, apontou para o olho direito dela o lápis de luz e pregou-lhe no rosto o disco adesivo. Rachael olhou fixamente para a luz, ainda visível a sua expressão de extrema antipatia.
— Minha pasta — comentou Rick, enquanto procurava nela os formulários Voigt-Kampff. — Bonita, não? Distribuição do departamento.
— Bem, bem... — disse distante Rachael.
— Pele de bebê — disse Rick, alisando a superfície preta de couro da pasta. — Couro de bebê humano, garantido como autêntico, cem por cento. 

Notou que os ponteiros dos dois mostradores giravam freneticamente. Mas apenas depois de uma pausa.
A reação viera, mas tarde demais. Conhecia o período de reação até a fração de segundo, o período de reação correto. Não devia ter havido atraso algum.
— Obrigado, Srta. Rosen — disse, reunindo outra vez o equipamento, Concluíra seu teste. — Isto é tudo.
— Vai embora? — perguntou Rachael.
— Vou — respondeu ele. — Estou satisfeito.

Cautelosa, Rachael perguntou:
— E os nove outros sujeitos de teste?
— A escala foi suficiente no seu caso — respondeu ele.
— Posso extrapolar a partir daí. Evidentemente, ainda não é eficiente. — Para Eldon Rosen, que desmoronara devagar junto à porta da sala, disse: — Ela sabe? — As vezes, elas não sabiam. Falsas recordações haviam sido tentadas várias vezes, geralmente na concepção errada de que, graças a elas, reações aos testes pudessem ser alteradas,
— Não — respondeu Eldon Rosen. — Nós a programamos inteiramente. Mas acho que, no fim, ela desconfiava. — À moça, disse: — Você desconfiou quando ele quis fazer outra tentativa.
Pálida, Rachael inclinou rigidamente a cabeça.
— Não tenha medo dele — disse-lhe Eldon Rosen — Você não é um andróide fugitivo, que escapou ilegalmente para a Terra. Você é propriedade da Rosen Association, usada como expediente de vendas para emigrantes em perspectiva. — Dirigiu-se para ela e colocou num gesto de consolo a mão sobre seu ombro.

Ao toque, ela se encolheu toda.
— Ele tem razão — confirmou Rick. — Não vou aposentá-la, Srta. Rosen, Bom dia. — Dirigiu-se para a porta, mas parou por um momento. Aos dois, perguntou: — A coruja é autêntica?
Rachael lançou um rápido olhar ao Rosen mais velho.
— Ele vai embora, de qualquer modo — disse Eldon Rosen. — Não importa mais agora. A coruja é artificial, Não há mais corujas.
— Hummmm — murmurou Rick e saiu em passo ágil para o corredor.
Os dois observaram-no, enquanto ele se afastava. Nenhum dos dois disse coisa alguma.
Coisa alguma restava a dizer.

Então, é assim que opera o maior fabricante de andróides, disse Rick para si mesmo. Tortuosamente, e de uma maneira como nunca encontrara antes. Um novo e complicado tipo de personalidade. Não era de espantar que os órgãos mantenedores da lei estivessem tendo problemas com o Nexus-6.
O Nexus-6. Agora encontrara um deles. Rachael, compreendeu, devia ser um Nexus-6. Estou vendo um deles, pela primeira vez. E, droga, quase conseguiram, chegando bem perto de minar a Escala Voigt-Kampff, o único método de que dispomos para identificá-los.

A Rosen Association faz um bom trabalho — faz uma boa tentativa, pelo menos — para proteger seus produtos.

E tenho que enfrentar mais seis deles, pensou. Antes de acabar com a coisa.
Ganharia, com toda justiça, o dinheiro do prêmio. Cada centavo.
Supondo que conseguisse chegar vivo ao fim.


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 6) [ Download ]

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ao Limiar - Rede de escritores e leitores de literatura fantástica


O website ao Limiar é uma iniciativa do Conselho SteamPunk dedicada a comunidade de Escritores Profissionais, Amadores, Editoras e Leitores de Literatura Fantástica.

A missão do aoLimiar é construir um canal efetivo para a disponibilização, divulgação, discussão e publicação de trabalhos originais de autores nacionais, seja com intuito comercial ou sob licenças Creative Commons.

Esta ferramenta tenciona, portanto, disponibilizar trabalhos literários para Editoras, divulgar obras hospedadas no aoLimiar, promover a discussão em websites profissionais igualmente aqui hospedados e construir uma ponte entre a comunidade de Escritores e Editoras.

Para entrar em contato conosco use o e-mail mail@limiar.com.br.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Longevidade Máxima



Maximum Lifespan (“Longevidade Máxima”) é uma graphic novel de Ficção Científica dividida em três volumes.

A história, a lá Philip Dick, gira em torno de um cientista de poucos escrúpulos, obcecado por sua pesquisa para prolongar a vida humana.




Duas coisas chamam a atenção imediata do leitor, a excelente qualidade dos desenhos, e a opção por uma narrativa cinematográfica, muito provavelmente escolhida para 'facilitar' (quem sabe?) uma eventual versão para o cinema.

Como estratégia de divulgação, a graphic novel foi disponibilizada para ser baixada (o primeiro volume) no formato PDF, ou pode também ser lida no formato flipbook no site da ISSUU (em português).


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Tribbles


Anatomia de um Tribble do site  Romulan Whore





The Trouble With Tribbles - David Gerrold