quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Planeta Duplo - Jack Vance


As montanhas Marcativas, entre Fantaeria e Djanad, ao se estenderem para oeste, formam Clarim — uma terra árida, improdutiva e pouco povoada, ainda que, em proporção aos seus recursos, não menos apinhada de gente que a própria Fantaeria.

A extremidade noroeste de Clarim, estendendo-se do cabo Junção até as colinas de Alvião, constituía o território Droad, cuja posse pertencia a Benruth, o Droad da Casa Droad e primeiro da parentela.

Em virtude das rígidas leis de transmissão em Fantaeria, Trewe, o filho mais velho, entraria por fim na posse total da terra. Para Jubal, o segundo filho, o futuro não oferecia perspectivas tão otimistas.

Não obstante, abençoado com um corpo forte e ânimo confiante, Jubal passou uma infância agradável, animada com os banquetes semanais nos quais Benruth obsequiava a família Droad e celebrava a doce fugacidade da existência. Com freqüência, os banquetes tornavam-se tempestuosos. Certa vez, o que poderia ter sido apenas uma brincadeira pesada foi levado longe demais. Benruth bebeu de um frasco de vinho e caiu no chão com cãibras. De imediato, o irmão Vaidro meteu-lhe à força azeite e açúcar goela abaixo, golpeando-lhe em seguida a barriga até ele vomitar, infortunadamente sobre um inestimável tapete djan  , que passou a ostentar depois disso uma nódoa amarela.

Vaidro molhou a língua com uma gota do vinho de Benruth, provou e cuspiu. Não fez comentário; não era preciso.

Benruth sentiu dores por várias semanas, e a palidez persistiu por um ano. Concordaram todos em que a ocorrência transcendera qualquer definição razoável de humor. Quem tinha perpetrado a irresponsável façanha?

As pessoas presentes formavam a família imediata de Benruth: sua mulher Voira; Trewe, em companhia da jovem esposa Zonne e das filhas Merliew e Theodel; e Jubal. Ainda presentes estavam Vaidro; Cadmus de Droad, filho ilegítimo de Benruth com uma moça fantária da parentela Cargus, que passara sua Permissão no cabo Junção; e quatro outros da família Droad, incluindo um certo Rax, bem conhecido por suas gafes e conduta imoderada. Rax negou ser responsável por uma brincadeira tão brutal, mas seus protestos foram ouvidos em silêncio. Rax voltaria à Casa Droad uma única vez, para participar de eventos ainda mais funestos.

Depois disso, os banquetes de Benruth foram tanto menos freqüentes quanto mais contidos. Ele começou a definhar, a perder o cabelo, e morreu três anos após o envenenamento. Cadmus de Droad apareceu no funeral acompanhado de um tal Zochrey Cargus, fantário de expressão finória da cidade de Wysrod, que se apresentou como genealogista e árbitro de heranças litigiosas. Antes mesmo que o cadáver de Benruth tivesse sido deposto sobre a pira, Cadmus se adiantou para proclamar-se Droad da Casa Droad por direito de primogenitura. Zochrey Cargus, subindo no estrado funerário para conseguir um ângulo mais vantajoso, endossou a pretensão e citou inúmeros precedentes. Trewe e Jubal ergueram-se, chocados e estupefatos, mas Vaidro, sem alvoroço, fez sinal a alguns parentes, e Cadmus e Zochrey Cargus foram agarrados e empurrados de lá, Cadmus gritando e praguejando por sobre o ombro. Como Rax Droad, ele voltaria à Casa Droad uma única vez.

Trewe tornou-se o Droad da Casa Droad e Jubal foi seriamente forçado a refletir sobre o futuro. As opções não eram animadoras. Rejeitou de imediato a idéia de mourejar nas fábricas fantárias, mesmo que, como homem diligente e meticuloso, fosse capaz de impor-se no trabalho. Como clarímio, Jubal não poderia progredir nem na Patrulha Aérea nem na Milícia. A Marinha Espacial e o Serviço Salutar   estavam reservados aos descendentes das altas famílias fantárias e, por conseguinte, completamente fechados para ele. Os ofícios especializados não só exigiam anos de disciplina preparatória, como operavam distorções psicológicas sobre seus profissionais. Podia ficar na Casa Droad no posto de meirinho, pescador ou auxiliar de serviços gerais, uma vida não desprezível, mas inteiramente em desacordo com seu amor-próprio. Ele poderia singrar o Longo Oceano num palucho nacional   ou empreender o passo definitivo e irrevogável da emigração  . Cada possibilidade conduzia a becos igualmente sem saída. Impaciente e deprimido, Jubal saiu do país em Permissão.

Da Casa Droad, tomou a estrada que enovelava Goldwater Glen, através das colinas de Alvião, de través pelas Cinco Quedas e até o distrito de Isedel, descendo depois o vale do rio Grafa até Tissano, na costa. Aí ele ajudou a reparar a armação que sustentava uma passagem de pedestres, distribuindo estacas de cinqüenta pés por sobre as rentemarés  até a ilha da Roca Negra. Continuou o caminho leste ao longo da praia Larga, joeirando areia, queimando gravetos e sargaços secos; depois, voltando-se para o interior, percorreu o distrito Kroy, aparando sebes e limpando os prados da erva hariah. Em Zaim, para evitar a cidade de Wysrod, desviou-se para o sul, depois abriu caminho por Drune Tree e Famet.

Em Chilian, cortou árvores de especiarias caídas e trocou as toras com um mercador de madeiras de lei. Seguindo viagem para Athander, trabalhou um mês nas florestas, livrando as árvores dos saprófitos e da pestilência de micróbios e pragas rastejadoras. Passou outro mês consertando caminhos na Baixada Roxa, depois, tomando o rumo sul para as terras altas de Silviolo, chegou à Alta Estrada. Fez aí uma pausa para olhar longamente em ambas as direções. Para o leste, estendiam-se os vinhedos de Dorvolo e novos meses de perambulação. Para o oeste, o caminho galgava as Altas Marcativas, e, correndo paralelamente à fronteira Djanad, reconduzia a Clarim.

Melancolicamente, como se já estivesse entrando no outono da vida, Jubal voltou-se para o oeste.

A trilha levou-o para uma terra de brancos penhascos dolomitas, lagos claros refletindo o céu violeta, florestas de tirso, kil e diakapre. Jubal viajava lentamente, emendando o caminho, podando plantações de cardos, queimando meadas de feixes mortos de galharia. À noite, com medo de desgarrados  e rebentos venenosos, dormia nas estalagens da montanha , onde freqüentemente era o único hóspede.

Abriu caminho através da orla meridional dos distritos Kerkaddo e Lucan, e dirigiu-se para o distrito de Swaye. Agora, somente Isedel o separava de Clarim, e ele vagava cada vez mais pensativo. Chegando à aldeia de Ivo, foi para a Pousada do Fruto Selvagem. O estalajadeiro trabalhava no vestíbulo: um homem comprido, como se tivesse saído de um espelho cômico, impressão realçada pelo topete, que ele usava encerrado num cilindro bordado.

Jubal disse do que precisava; o hospedeiro indicou um corredor.
— A Câmara Ave Canora está pronta para ser ocupada. Jantamos ao segundo gongo; a taverna está à sua disposição até meio serão.

Ele examinou o cabelo cor de poeira de Jubal e logo esfriou:
— Você parece clarímio, e está tudo muito bem, desde que contenha o caráter brigão e não desafie ninguém para provas de coragem ou capacidade.
— O senhor tem uma curiosa opinião sobre os clarímios — disse Jubal.
— Pelo contrário! — afirmou o estalajadeiro. — Se você é corajoso, não está certo o que eu falei?
— Não pretendo lançar desafios — disse Jubal. — Não me interesso por política. Bebo com moderação.
Estou cansado e pretendo me retirar logo após o jantar.

O estalajadeiro balançou a cabeça em sinal de aprovação.
— Muitos o considerariam uma companhia sem graça, mas eu não! Além disso, o fiscal saiu agora mesmo; encontrou uma barata na cozinha e estou farto de arengas.

Pegou um caneco de cerveja, que colocou diante de Jubal, depois tirou outro para si.
— Para relaxar nossos nervos.

Inclinando a cabeça para trás, despejou a cerveja dentro da boca. Jubal contemplou-o, fascinado. As faces cavadas permaneceram cavadas; a garganta ossuda não tremeu nem vibrou. A cerveja desapareceu como se derramada por um poço abaixo. O estalajadeiro largou o caneco e fez uma melancólica inspeção em Jubal.
— Você está viajando em Permissão, então?
— Estou perto de chegar ao fim.
— Eu sairia outra vez amanhã, se minhas pernas agüentassem. Ai de mim, que não se pode ser jovem para sempre! Que novidades soube pelo caminho?
— Nada de importante. Em Lurlock, eles se queixavam da demora das chuvas de verão.
— Imagine você os caprichos da natureza! Semana passada, apanhamos um aguaceiro que destruiu todos os nossos bueiros. O que mais?
— Um desgarrado, em Faneel, matou duas mulheres com uma machadinha. Fugiu para Djanad, nem meia hora antes de minha passagem.
— Djanad está perto demais para nos sentirmos seguros.

O hospedeiro ergueu o braço e apontou um dedo comprido:
— São apenas sete milhas até a divisa! Cada dia, ouço um novo rumor. Djanad não é uma terra tranqüila, como gostaríamos de acreditar! Já pensou que eles são vinte para cada um dos nossos? Se todos fossem "solitários" em conjunto, seríamos carne-seca em poucas horas. E não é falta de sensibilidade o que os faz desistir... Não se deixe enganar pela cortesia deles.
— Mas eles seguem os outros — disse Jubal. — Nunca tomam a dianteira.
— Olhe lá longe! — disse o estalajadeiro, apontando através do batente da janela para a massa monstruosa de Skay. — Há os líderes! Eles descem em espaçonaves, aterrissam praticamente em nossas fronteiras. Eu considero isso uma clara provocação.
— Espaçonaves? — perguntou Jubal. — O senhor as viu?
— Meu djan me traz notícias.
— O djan lhe dirá o que muito bem entender.
— Até certo ponto. Eles são confusos, concordo, e levianos também, mas não são dados a fantasias inventivas.
— Não podemos controlar os saidaneses. Se resolveram visitar Djanad, como impedi-los?
— Os servos devem ter tirado suas conclusões — disse o estalajadeiro — e eles não vieram me avisar de nada. Quer mais cerveja? Ou já está pronto para o jantar?

Jubal jantou, e depois, por falta de melhor entretenimento, foi para a cama.

A manhã estava luminosa, brilhante. Partindo da estalagem, Jubal atingiu uma terra de reluzentes penhascos brancos e ar fresco com aroma de tirso umedecido e garoa. Duas milhas a oeste de Ivo, na encosta meridional do monte da Alface Brava, a trilha chegou ao fim, varrida por um deslizamento de pedra.
Jubal inspecionou o estrago, depois voltou para Ivo. Lá, recrutou três djans, tomou ferramentas emprestadas ao feitor e, voltando ao monte, pôs-se a trabalhar.

Não se tinha encarregado de tarefa banal. Um muro de sustentação, de pedras irregulares encaixadas umas nas outras, do comprimento de setenta pés com cinco a dez pés de altura, fora arrastado trezentos pés ladeira abaixo e se reduzira a uma pilha de pedras pontiagudas.

Jubal pôs os djans trabalhando num novo alicerce, depois cortou quatro tirsos retos, com os quais construiu um guindaste grosseiro, pendendo sobre o barranco. Depois que o alicerce foi cavado, os quatro homens levaram pedras para o declive e começaram um novo muro.



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terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Guardiões do Tempo - Poul Anderson



PRECISA-SE DE HOMENS - 21-40, pref. solteiro, exp. milit. ou téc, bom físico, para trabalho bem pago com viagens ao exterior. Engineering Studies Co., 305 E. 45, 9-12 & 2-6.


- O trabalho é, bem, o senhor entende, um tanto incomum - disse o senhor Gordon. - E confidencial. Acredito que o senhor possa guardar um segredo, não?
- Normalmente, sim - disse Manse Everard. - Depende do que consiste o segredo, claro.

O senhor Gordon sorriu. Foi um sorriso curioso, uma curva fechada dos seus lábios, que em nada se parecia com o que Everard já havia visto antes. Ele falava tranqüilo o americano coloquial do povo e trajava um terno simples, mas havia algo estranho nele, algo que era mais do que tez escura, as faces imberbes e a incongruência dos olhos mongóis sobre um fino nariz caucasiano. Era difícil de definir.

- Nós não somos espiões, se é o que o senhor está pensando - disse ele.
Everard sorriu malicioso.
- Perdão. Por favor, não pense que fiquei tão histérico quanto o resto do país. Em todo caso, nunca tive acesso a informações confidenciais. Mas seu anúncio classificado mencionava operações além-mar e pelo jeito das coisas... eu gostaria de conservar o meu passaporte, o senhor compreende.
Ele era um homem corpulento, com ombros atarracados e um rosto ligeiramente esgotado sob cabelos castanhos, cortados curtos. Seus documentos estavam diante dele: baixa do Exército, e registro de trabalho em diversos lugares como engenheiro mecânico. O senhor Gordon parecera mal ter passado os olhos por eles.

O escritório era comum, uma escrivaninha e um par de cadeiras, um arquivo e uma porta dando para os fundos. Uma janela abria-se para o barulhento tráfego de Nova York, seis andares abaixo.
- Espírito independente - disse o homem atrás da escrivaninha. - Gosto disso. Alguns entram aqui bajulando, como se tivessem que sentir-se agradecidos por um pontapé no traseiro. Naturalmente que, com sua experiência, você ainda não está desesperado. Você ainda pode trabalhar, até mesmo em... ah, acredito que o termo corrente é reajustamento de rodízio.
- Eu estava interessado - disse Everard. - Já andei trabalhando no estrangeiro, como o senhor pode ver, e gostaria de viajar de novo. Mas, francamente, eu ainda não tenho a menor idéia do que a sua equipe de trabalho faz.
- Fazemos muitas coisas - disse o senhor Gordon. - Deixe-me ver... você já esteve em combate. França e Alemanha. - Everard pestanejou; seus documentos incluíam anotações sobre medalhas, mas ele seria capaz de jurar que o homem não havia tido tempo para lê-las. - Hum... você se importaria em apertar esses botões nos braços de sua cadeira? Obrigado. E agora, como você reage aos perigos físicos?
Everard eriçou-se.
- Olha aqui...

Os olhos do Sr. Gordon desviaram-se para um instrumento em sua escrivaninha: era apenas uma caixa com uma agulha indicativa e um par de mostradores.
- Não tem importância. Qual a sua opinião sobre o internacionalismo?
- Olha, agora...
- Comunismo? Fascismo? Mulheres? Suas ambições pessoais...? Isso é tudo. Você não precisa responder.
- Mas que diabo é isto? - vociferou Everard.
- Um pouco de teste psicológico. Esqueça! Não tenho interesse em suas opiniões, exceto quando elas refletem uma orientação emocional básica. - O Sr. Gordon recostou-se no espaldar da cadeira, formando uma ponte com os dedos. - Muito prometedor, até aqui. Bem, agora vamos ao esquema da coisa. Estamos realizando um trabalho, como eu já lhe disse, altamente confidencial. Nós... ah... estamos planejando uma surpresa para nossos competidores - ele deu uma gargalhada. - Vá em frente e apresente-me ao FBI, se assim o desejar. Nós já fomos investigados e temos um atestado de saúde bem limpo. Você descobrirá que nós realizamos de fato operações financeiras e de engenharia pelo mundo inteiro. Mas há um outro aspecto do trabalho e este é o único para o qual estamos precisando de homens. Pagarei a você cem dólares para ir ao quarto dos fundos e realizar uma série de testes. Isso vai demorar cerca de três horas. Se você não passar, será o fim de tudo. Caso você passe, nós o contrataremos, diremos os fatos e começaremos o seu treinamento. Está pronto para o combate?

Everard hesitou. Tinha a sensação de estar sendo precipitado. Havia mais coisas naquele empreendimento do que um escritório e um desconhecido gentil. Entretanto...
Decisão.
- Assinarei o contrato depois que o senhor me tiver dito que negócio é esse.
- Como quiser - o Sr. Gordon encolheu os ombros com desdém. - Faça como você quiser. Os testes irão dizer se você passa ou não, você sabe. Nós usamos algumas técnicas muito avançadas.

Isto, pelo menos, era inteiramente verdadeiro. Everard conhecia um pouco sobre a psicologia moderna: encefalográficos, testes de associação, o perfil de Minnesota. Ele não reconheceu nenhuma das máquinas cobertas que zumbiam e piscavam em volta dele. As perguntas que o assistente - um homem de tez branca, completamente calvo, de idade indeterminada, com um sotaque carregado e sem nenhuma expressão facial - despejou em cima dele, pareciam irrelevantes para qualquer coisa. E que era aquele capacete metálico que ele presumia que usaria na cabeça? Aonde iriam os fios que dele saíam?

Ele lançou olhares furtivos para os medidores das faces, mas as letras e algarismos não se assemelhavam a nada que ele já houvesse visto antes. Não era inglês, francês, russo, grego, chinês, qualquer coisa que pertencesse a 1954 DC. Talvez ele já estivesse começando a compreender a verdade, mas mesmo neste caso...

Um estranho autoconhecimento florescia nele à medida que os testes seguiam. Manson Emmert Everard, 30 anos, ex-tenente do corpo de engenheiros do Exército dos EUA; experiência em projeto e produção na América, Suécia, Arábia; ainda solteiro, apesar de pensamentos de inveja crescente com relação aos amigos casados; nenhuma namorada atual, nenhum laço estreito de nenhum tipo; um pouco bibliófilo; um jogador de pôquer incorrigível; predileção por veleiros, cavalos e rifles; um aficionado de acampamentos e pescarias em épocas de férias. Ele já sabia disso tudo, naturalmente, mas apenas como fragmentos isolados da realidade.

Era bem peculiar aquela percepção súbita de si mesmo como um organismo integrado, a compreensão de que cada característica era uma única faceta inevitável de um modelo global.

Ele saiu exausto e ensopado de suor. O Sr. Gordon ofereceu-lhe um cigarro e lançou os olhos rapidamente sobre uma série de folhas em código que o assistente lhe deu. Vez por outra, ele resmungava uma frase:
- ... zete-20 cortical... avaliação indistinta aqui... reação psíquica à antitoxina... debilidade na coordenação central... - ele deixara escapar um sotaque, uma certa cadência e um tratamento de vogais, que em nada se assemelhavam com o que Everard já havia ouvido em sua longa experiência dos caminhos pelos quais o idioma inglês pode ser mutilado.

Passou-se meia hora antes que ele tornasse a levantar os olhos. Everard tornara-se inquieto, uma leve raiva mesclava-se ao tratamento descortês, mas o interesse manteve-o sentado calmamente. O Sr. Gordon deixou os dentes incrivelmente brancos reluzirem em um largo e satisfeito sorriso.

- Ah! Até que enfim. Você sabe que já fui obrigado a rejeitar vinte e quatro candidatos? Mas você servirá. Definitivamente, você serve.
- Servir para quê? - Everard inclinou-se para frente, consciente de que seu pulso se acelerava.
- Para a patrulha. Você será uma espécie de policial.
- É? Onde?
- Por toda parte. E a qualquer hora. Fique firme, isto será um choque. Você sabe, a nossa companhia, embora seja legalmente instituída, é apenas uma fachada e fonte de recursos. Nosso verdadeiro negócio é o patrulhamento do tempo.


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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Um Estranho Numa Terra Estranha - Robert A. Heinlein



Era uma vez um marciano chamado Valentine Michael Smith.

A primeira expedição a Marte foi selecionada com base na teoria que considera que o maior perigo para o homem é o próprio homem.

Nessa época, oito anos terrenos após a fundação da primeira colônia humana na Lua, resolveu-se realizar uma viagem interplanetária feita por humanos em órbitas de queda livre: da Terra a Marte, duzentos e cinqüenta e oito dias para a viagem de ida, o mesmo para o regresso, mais quatrocentos e cinqüenta e cinco dias de espera em Marte, enquanto os planetas reocupavam lentamente as posições para a órbita de regresso.

Só reabastecendo-se numa estação espacial é que a nave Envoy poderia fazer a viagem. Depois de chegada a Marte poderia voltar — se não se esmagasse no solo, se encontrasse água para reabastecer os seus tanques de reação, se um sem-número de coisas não corresse mal.

Oito humanos, convivendo juntamente durante quase três anos terrestres, tinham de se dar muito melhor do que aquilo que é habitual nos humanos. Uma tripulação constituída apenas por homens foi vetada, por ser considerada pouco saudável e instável. Quatro casais casados foi considerado ótimo, se se conseguissem encontrar as especialidades requeridas em tal combinação.

A Universidade de Edimburgo, contratador principal, sub-contratou o Instituto de Estudos Sociais para selecionar a tripulação. Depois de pôr de lado numerosos voluntários, devido à sua idade, saúde, mentalidade, grau de instrução ou temperamento, o Instituto ficou com nove mil possíveis candidatos.

As especialidades requeridas eram: astro navegador, médico de clínica geral, cozinheiro, maquinista, comandante de nave, semântico, engenheiro químico, engenheiro eletrônico, físico, geólogo, bioquímico, biólogo, engenheiro atômico, fotógrafo, técnico de culturas hidropônicas, engenheiro de foguetes.

Havia centenas de possíveis combinações de oito voluntários possuindo estas especialidades; depois se transformaram em três combinações de casais — mas, em todos os três casos, os psicólogos que avaliavam os fatores de compatibilidade levaram as mãos à cabeça, horrorizados. O contratador principal sugeriu baixar o nível-padrão de compatibilidade; o Instituto ofereceu-se para devolver os seus parcos honorários.

Os computadores continuaram a rever os dados que se iam alterando devido a mortes, desistências, novos voluntários. O capitão Michael Brant, M. S., comodoro D. F. Reserve, piloto e veterano de trinta das viagens à Lua, levava uma certa vantagem no Instituto. Várias pessoas procuravam para ele nomes de mulheres solteiras que pudessem (juntamente com ele) completar uma tripulação, depois juntavam estes nomes ao dele e introduziam-nos nos computadores para determinar quando é que uma dessas combinações seria aceitável. Isto resultou no seu vôo para a Austrália para ir propor casamento à Dra. Winifred Cobum, uma solteirona nove anos mais velha do que ele.

Depois de se apagarem e acenderem muitas luzes e depois de muitos cartões emitidos pelas máquinas, encontrou-se uma tripulação:

Capitão Michael Brant, no comando: piloto, astro navegador, segundo-cozinheiro, segundo-fotógrafo, engenheiro de foguetes; Dra. Winifred Cobum, quarenta e um anos, semântica, enfermeira, oficial de armazém, historiadora; Sr. Francis X. Seeney, vinte e oito anos, oficial executivo, segundo-piloto, astro navegador, astrofísico, fotógrafo; Dra. Olga Kovalic Seeney, vinte e nove anos, cozinheira, bioquímica, técnica de culturas hidropônicas; Dr. Ward Smith, quarenta e cinco anos, físico e cirurgião, biólogo; Dra. Mary Jane Lyle Smith, vinte e seis anos, engenheira atômica e eletrônica e técnica de energia; Sr. Sergei Rimsky, trinta e cinco anos, engenheiro eletrônico, engenheiro químico, maquinista e operador dos instrumentos de bordo, criologista; Sra. Eleanora Alvarez Rimsky, trinta e dois anos, geóloga e selenóloga, técnica de culturas hidropônicas.

A tripulação possuía todas as especialidades requeridas, tendo algumas delas sido adquiridas através de um intenso treino durante as semanas que antecederam a partida.

Mas ainda mais importante que isso: eram mutuamente compatíveis.

O Envoy partiu. Durante as primeiras semanas os seus relatórios eram recolhidos por radiouvintes privados. À medida que os sinais se iam tornando mais fracos, eram retransmitidos pelos satélites terrestres.

A tripulação parecia saudável e bem disposta. As impigens eram a coisa mais grave que o Dr. Smith tinha de tratar: a tripulação estava habituada à queda livre e as drogas anti-náusea deixaram de ser necessárias a partir da primeira semana. Se o capitão Brant tinha problemas de disciplina, não os comunicava.

O Envoy atingiu uma órbita de estacionamento dentro da órbita de Fobos e passaram duas semanas em vigilância fotográfica.

Então o capitão Brant radio difundiu:

«Aterraremos amanhã a 1200 T. S. G. (Tempo sideral de Greenwich) ao sul do Lacus Soli.»

Não foi recebida mais nenhuma mensagem.



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domingo, 20 de junho de 2010

Tanith Lee



Tanith Lee (19 de setembro de 1947) nasceu em Londres (Inglaterra), é uma prolífica escritora britânica dos gêneros ficção científica, horror e fantasia, com mais de 50 livros publicados, e quase duzentos contos incluidos em diversas coletâneas.

Após a conclusão do ensino secundário, Lee trabalhou em uma variedade de empregos, incluindo balconista em lojas, garçonete. Aspirante a escritora, desistiu da faculdade de arte em 67 para focar-se na literatura. Desta dedicação surgiria o elogiado Dragon's treasure, seu primeiro livro (infantil) publicado em 1971, seguido de Animal Castle, um romance também para crianças.  

Depois de receber inúmeras rejeições das editoras britânicas para seu livro Birthgrave (um romance de fantasia para adultos), Lee escreveu uma carta para a editora americana Daw, fundada pelo conhecido escritor de ficção científica e editor Donald A. Wolheim. A Daw de imediato contratou Lee e Birthgrave foi publicado em 1975, o primeiro de mais 28 livros pela editora, até 1989. Lee conta que foi graças a Daw que ela largou o emprego de assistente de biblioteca em 1976 para tornar-se escritora em tempo integral.


Tanith Lee ganhou ou foi nomeada para vários prêmios. Duas vezes indicada para o prêmio Nebula ('The Birthgrave' e 'Red As Blood' ), oito vezes indicada para o prêmio World Fantasy Award e vencedora em duas oportunidades ('The Gorgon' e 'La Mort'), indicada 6 vezes para o prêmio British Fantasy Award e vencedora em 1980 com 'Death's Master'.

Além de livros de fantasia adulta e de poemas, ela recentemente também escreveu roteiros para televisão, incluindo o roteiro para a série de ficção científica da BBC, Blake's Seven.

Site oficial

Tanith Lee (Death Dance series, El Tigre durmiente, El senor de la noche, Cyrion en bronce, Crying in the rain, Bianca como el invierno, Dias de hierba, El deshielo, Elle est trois, Hijos de Lobos, La tregua, Nunc Dimittis, Volkhavaar, The Sky-Green Blues, A day in the skin, A hero at the gates, All birds of Hell, Birthgrave series, Bite-me-not, Blood Opera series, Book of Paradys series, Cold Fire, Companions on the road, Delerium Mistress, Electric Forest, Eye in the heart, In the city of dead night, Indigara, Into Gold, Jedella Ghost, Medra, Moonblind, Nighshades, Red as blood, Sabella, Shadow kissing, The Gorgon, The Isle is full of noises, The Janfia tree, The man who stole the moon, The reason for not going to the Ball, The silver metal lover, These Beasts, Unicorn series, Venus rising in water, Where all things perish, Wolfed, Yellow and red, Zinder) [ Download ]

sábado, 19 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 12)





— Isso não vai fazer a menor diferença — disse Rick — Resch pedirá uma autópsia de meu corpo, o mesmo que seu laboratório fez de Polokov. E ele insistirá num...como é que o chama? Teste de Arco Reflexo Boneli do senhor e dele mesmo.

O tubo de laser continuou na mesma posição, e o Inspetor Garland disse:
— Este dia foi ruim; o tempo todo. Especialmente quando vi o guarda Crams chegar com o senhor. Tive uma intuição... Foi por isso que intervim.

Aos poucos, baixou o tubo de laser. Porém continuou com ele, na mão crispada, até que encolheu os ombros, voltou a colocá-lo na gaveta e fechou-a, guardando a chave.
— O que é que mostrarão os testes com nós três? — perguntou Rick.
— Aquele maldito idiota Resch! — exclamou Garland.
— Ele, realmente não sabe?
— Ele não sabe. Não desconfia. Não tem a menor idéia. De outra maneira, não poderia levar uma vida como caçador de cabeças a prêmio, uma ocupação humana, dificilmente uma para um andróide.

Fez um gesto na direção da pasta de Rick.
— Essas outras cópias a carbono, os outros suspeitos que você deve submeter a teste, conheço todos eles. — Interrompeu-se por um momento e continuou: — Todos nós chegamos aqui na mesma nave procedente de Marte. Mas não Resch. Ele ficou lá por mais uma semana, recebendo o sistema de memória sintética.
E caiu em silêncio. Ou melhor, a máquina caiu no silêncio.

— O que é que ele fará quando descobrir? — perguntou Rick.
— Não tenho a mínima idéia — respondeu em voz distante Garland. — De um ponto de vista abstrato, intelectual, deve ser interessante. Ele pode me matar, suicidar-se, e talvez matar você, também. E pode matar todas as pessoas que puder, humanas e andróides por igual. Sei que essas coisas acontecem, quando foi instalado um sistema de memória sintética. Quando o indivíduo pensa que é humano.
— Assim, quando vocês fazem isso, correm um risco?
— É um risco, de qualquer maneira, fugir e vir aqui para a Terra, onde não somos considerados nem mesmo animais. Onde o menor verme ou cupim é considerado mais desejável do que todos nós juntos.
Irritado, Garland mordeu o lábio inferior.
— Sua situação seria melhor se Phil Resch pudesse passar no Teste Boneli além de mim. Os resultados, dessa maneira, seriam previsíveis. Para Resch, eu seria simplesmente outro andróide a aposentar, logo que possível. Assim, você tampouco está numa boa situação, Deckard. Quase tão ruim, na verdade, como a minha. Sabe no que foi que tive um palpite errado? Eu não sabia a respeito de Polokov. Ele deve ter vindo para cá mais cedo. Obviamente, ele veio mais cedo. Em outro grupo, sem dúvida...Nenhum contato com o nosso. Eu me arrisquei no caso do laudo do laboratório, o que não devia ter feito. Crams, naturalmente, correu o mesmo risco.
— Polokov também quase acabou comigo — disse Rick.
— Sim, havia alguma coisa nele. Não acho que possa ter sido o mesmo tipo de unidade cerebral que a nossa. Ele deve ter sido "envenenado" ou alguém mexido nele — uma estrutura alterada, desconhecida mesmo para nós. E boa, também. Quase boa demais.
— Quando eu telefonei para meu apartamento — perguntou Rick —, por que não consegui falar com minha esposa?
— Todas as nossas linhas de videofone estão "grampeadas". Recirculam as chamadas para outros escritórios no prédio. Nós estamos operando aqui um empreendimento homeostático, Deckard. Somos um circuito fechado, isolado do resto de São Francisco. Sabemos a respeito deles, mas eles não sabem a nosso respeito. Às vezes, uma. pessoa isolada, como você, chega aqui por acaso ou, como no seu caso, e trazida aqui — para nossa proteção. — Gesticulou convulsivamente para a porta do escritório. — Lá vem de volta o operoso Phil Resch, trazendo seu testezinho bonitinho e portátil. Ele não é inteligente? Vai destruir a vida dele, a minha, e possivelmente a sua.
— Em tempos de crise — observou Rick — vocês andróides geralmente não se protegem uns aos outros.
— Acho que você tem razão — concordou secamente Garland. — Parece que carecemos de um talento específico que vocês humanos possuem. Acho que é chamado de empatia.
Abriu-se nesse momento a porta e Phil Resch apareceu, trazendo um aparelho do qual pendiam fios.
— Tudo pronto — disse, fechando a porta. Sentou-se e ligou o aparelho na tomada.

Levantando a mão direita, Garland apontou para Resch. Imediatamente Resch e também Rick Deckard rolaram de suas cadeiras para o chão. No mesmo instante, Resch puxou um tubo de laser e, enquanto caía, atirou em Garland.

O feixe de laser, apontado com uma habilidade nascida de anos de experiência, dividiu em duas a cabeça do Inspetor Garland. Ele caiu para a frente e de sua mão rolou pela superfície da mesa seu tubo de laser miniaturizado. O cadáver oscilou na cadeira e, em seguida, como se fosse um saco de ovos, deslizou para um lado e esborrachou-se no chão.

— A coisa esqueceu — disse Resch — que este é meu trabalho. Posso quase prever o que um andróide vai fazer. Acho que você, também. — Guardou o tubo de laser, curvou-se e, curioso, examinou o corpo de seu ex-superior. — O que foi que a coisa disse quando saí?
— Que ele, a coisa, era um andróide. E que você — Rick interrompeu-se, os condutos de seu cérebro vibrando, calculando, selecionando. E alterou o que começara a dizer —• o identificaria — concluiu. — Dentro de mais alguns minutos.
— Mais alguma coisa?
— Que este prédio está infestado de andróides.
Introspectivamente, observou Resch:
— Isso vai tornar difícil nós dois sairmos daqui. Nominalmente, tenho autoridade para sair a qualquer momento que quero, claro. E levar comigo um prisioneiro. — Ficou à escuta. Nenhum som vinha de fora do escritório.
— Acho que não ouviram coisa alguma. Evidentemente, não há nenhum aparelho de escuta clandestina instalado aqui, gravando tudo... como devia haver.

Cautelosamente, cutucou o corpo do andróide com a ponta do sapato.
— É realmente notável a capacidade psiônica que a gente desenvolve neste trabalho. Eu sabia, antes de abrir a porta, que ele atiraria em mim. Para ser franco, estou surpreso por que ele não o matou enquanto estive lá em cima.
— Ele quase fez isso — explicou Rick. — Apontou para mim durante parte do tempo um grande modelo utilitário de laser. Estava pensando em me matar. Mas era você que o preocupava, não eu.
— O andróide foge — disse sem humor nenhum Resch — para onde o caçador de cabeças o persegue. Você compreende, não, que tem que voltar em acelerado à Casa da Ópera e pegar Luba Luft antes que alguém aqui tenha uma chance de avisá-la como isto terminou? Avisar à coisa, diria eu. Você pensa neles como "coisa"?
— Pensei, antigamente — respondeu Rick —, quando a consciência me incomodava a respeito de meu trabalho. Protegia-me, pensando neles dessa maneira, mas agora não acho que isso seja necessário. Muito bem, vou diretamente para a Casa da Ópera.

Supondo que você consiga me tirar daqui.
— Suponhamos que colocamos Garland sentado à mesa —disse Reach. Recolocou o cadáver do andróide na cadeira, espigado, arranjando os braços e pernas de modo que a postura parecesse natural, se ninguém olhasse de muito perto. Se ninguém entrasse no escritório. Apertando um botão no intercomunicador dá mesa, disse: — O Inspetor Garland pede que nenhuma ligação seja feita para aqui na próxima meia hora. Está ocupado em trabalho no qual não pode ser interrompido.
— Sim, Sr. Resch.

Soltando o botão do intercomunicador, Phil Resch voltou-se para Rick:
— Vou algemá-lo a mim durante o tempo em que permanecermos neste prédio. Logo que levantarmos vôo, naturalmente o soltarei. — Tirou do bolso um par de algemas, fechou uma das argolas no pulso de Rick e a outra no seu. — Vamos. Vamos acabar com isso. — Endireitou os ombros, respirou profundamente e abriu a porta do escritório.

Encontraram policiais uniformizados por toda parte, no desempenho de suas tarefas rotineiras diárias. Nenhum deles levantou a vista ou lhes prestou a menor atenção quando Phil Resch puxou Rick pelo corredor na direção do elevador.

— O que estou temendo — disse Resch enquanto esperavam pelo elevador — é que aquela coisa, Garland, tivesse um componente de aviso de morte incluído em seu mecanismo. Mas — encolheu os ombros — já teria dado sinal a esta altura. De outro modo, não valeria grande coisa.

Chegou o elevador. Vários homens e mulheres de indefinível aparência policial desceram, e se afastaram batendo calcanhares pelo corredor, cada um para seu destino. Tampouco prestaram a menor atenção a Rick ou a Phil Resch.

— Você acha que seu departamento me aceitará? — perguntou Resch, ao se fecharem as portas do elevador sobre ambos. Ele apertou o botão de telhado e subiram silenciosamente. — Afinal de contas, a partir de agora estou desempregado. Para dizer o mínimo.
Reservado, Rick respondeu:
— Eu... eu não sei por que não. Exceto que já temos dois caçadores de cabeças. — Vou ter que dizer a ele, pensou. É antiético e cruel fazer isto. Sr. Resch, o senhor é um andróide, disse a si mesmo. Tirou-me deste lugar, e esta é sua recompensa. O senhor é tudo aquilo que nós dois abominamos. A essência daquilo que estamos compromissados a destruir.
— Eu não posso me conformar — disse Phil Resch. — Isto não parece possível. Há três anos estou trabalhando sob a direção de andróides. Por que não desconfiei... quero dizer, o suficiente para fazer alguma coisa?
— Talvez não tenha sido tanto tempo assim. Talvez só recentemente eles tenham se infiltrado neste edifício.
— Eles têm estado aqui o tempo todo. Garland foi meu superior desde o início, durante meus três anos.
— Segundo o que aquela coisa disse — especulou Rick —, todo o grupo veio junto de Marte. E isso não foi há tanto tempo como três anos. Foi apenas há meses.
— Então, naquela ocasião, existia um Garland autêntico — disse Phil Resch. — E, em algum momento, ele foi substituído. — Seu rosto magro de esqualo contorceu-se num esforço para compreender. — Oh... talvez tenham instalado em mim um falso sistema de memória. Talvez eu apenas me lembre de Garland durante esse tempo todo. Mas...— O rosto, um espelho, nesse momento, de sofrimento crescente, continuou a se contorcer e mover-se espasmodicamente — Só andróides se dão bem com falsos sistemas de memória. Verificou-se que são ineficientes em seres humanos.

O elevador parou, as portas se abriram e, à frente de ambos, o pátio de estacionamento da polícia, deserto exceto pelos veículos vazios.
— Este é o meu carro — disse Phil Resch, abrindo um hovercar parado próximo e chamando Rick com um gesto para que entrasse rapidamente. Pôs-se ao volante, deu partida ao motor.

Um momento depois, subiam aos ares e viravam para o norte, de volta à Casa da Ópera. Preocupado, Phil Resch dirigia por reflexos. Sua cadeia de pensamentos, cada vez mais sombria, continuava a tomar-lhe toda a atenção. — Escute aqui, Deckard — disse de repente —, depois que aposentarmos Luba Luft...eu quero que você... — Sua voz, rouca e atormentada, fraquejou.
— Você sabe. Submeta-me ao Teste Boneli ou à escala de empatia que usa. Para descobrir quem sou.
— Podemos nos preocupar com isso depois — sugeriu evasivo Rick.
— Você não quer que eu faça o teste, quer? — Phil lançou-lhe um olhar de aguda compreensão. — Acho que sabe qual será o resultado. Garland deve ter-lhe dito alguma coisa. Fatos que eu desconheço.
— Vai ser difícil, mesmo para nós dois, pegarmos Luba Luft. De qualquer modo, ela é mais do que eu posso dar conta. Vamos manter a atenção focalizada nisso — sugeriu Rick.
— Não são apenas as falsas estruturas de memória — disse Phil Resch. — Eu possuo um animal. Não um falso, mas autêntico. Um esquilo. Eu amo aquele esquilo, Deckard. Todas as drogas de manhãs eu o alimento e mudo os jornais, você sabe, limpo a gaiola, e à noite, quando acabo o trabalho, deixo-o solto no apartamento e ele corre por toda parte. Ele tem uma roda como gaiola. Você já viu um esquilo correndo dentro de uma roda? Ele corre, corre, a roda gira, mas o esquilo continua no mesmo lugar. Mas parece que Buffy gosta disso.
— Acho que os esquilos não são lá muito inteligentes — opinou Rick.
Continuaram a voar em silêncio.


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 12) [ Download ]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um cântico para Leibowitz - Walter M. Miller, Jr.




O Irmão Francis passou vários meses do seu tempo livre desenhando cópias dos mais antigos impressos da Memorabilia antes de ousar tocar na planta de Leibowitz. De toda maneira, para serem conservados, os velhos desenhos tinham de ser recopiados de dois em dois séculos. Não só os originais desbotavam, como também as cópias ficavam ilegíveis depois de algum tempo, devido à qualidade das tintas que eram empregadas. Não tinha a menor noção do motivo por que os antigos tinham usado linhas e letras brancas sobre fundo escuro, de preferência ao contrário.

Quando ele reesboçava um desenho em carvão, mudando,portanto, o fundo, a figura parecia muito mais real do que o branco sobre o preto, mas os antigos eram imensamente mais sábios do que ele; se tinham posto tinta onde o papel naturalmente seria branco e deixado listras brancas onde,num desenho normal, devia haver um traço de tinta, é que tinham suas razões.

Francis recopiava os documentos de modo que ficassem tanto quanto possível iguais aos originais — apesar de ser enfadonho espalhar toda aquela tinta azul em volta de pequeninas letras brancas e gastar tinta demais, o que fazia gemer o Irmão Horner.

Copiou uma planta arquitetônica, depois o desenho de uma peça de máquina em que a geometria era aparente, mas cuja finalidade era vaga. Recopiou uns números abstratos intitulados "STATOR WNDG MOD 73-A 3-HP 6-P 1800-RPM 5-HP CL-A GAIOLA DE ESQUILO" que eram completamente incompreensíveis e não pareciam de todo capazes de conter um esquilo. Os antigos eram muitas vezes sutis; talvez precisassem de uma série especial de espelhos para ver o esquilo. De qualquer forma, recopiou tudo com o máximo cuidado.

Somente depois que o abade, numa de suas visitas ocasionais à sala dos copistas, o viu ao menos três vezes trabalhando numa outra planta (duas vezes Arkos se detivera para olhar rapidamente o que ele fazia), teve a necessária coragem para procurar a de Leibowitz nos arquivos da Memorabilia, quase um ano depois de haver começado seu labor das horas livres.

O documento original já tinha sido submetido a algum trabalho de restauração. Não fosse o fato de trazer o nome do Beato, era desapontadoramente igual a quase todos os que tinha copiado.

A planta de Leibowitz, outra abstração, não se parecia com nada e nada recordava à razão. Estudou-a até ver aquela espantosa complexidade com os olhos fechados, mas nem assim ficou sabendo nada mais.

Parecia não ser senão uma rede de linhas ligando entre si uma quantidade de sinais sem sentido para Francis. As linhas eram quase todas horizontais ou verticais e cruzavam-se em pontos marcados com um sinal ou um ponto; sempre formavam um ângulo reto para chegar a outro determinado sinal; havia finalmente ainda outros que só apareciam no final das linhas.

Tudo era tão incompreensível que, depois de se olhar fixamente durante algum tempo, ficava-se apatetado. Não obstante, pôs-se a copiar cada detalhe, até mesmo a mancha marrom que havia no centro e que pensou que bem poderia ser o sangue do Beato Mártir, mas que o Irmão Jeris sugeriu ser apenas a mancha deixada por um caroço de maçã apodrecido. O Irmão Jeris, que fora admitido como aprendiz juntamente com o Irmão Francis, pareceu gostar de caçoar com este a respeito do trabalho de sua escolha.

— Por favor — disse, olhando por cima do ombro de Francis —, o que significa " Sistema de Controle Eletrônico para a Unidade 6-B", ilustre irmão?
— É claramente o título do documento — respondeu Francis um pouco irritado.
— Claramente. Mas que significa?
— É o nome do diagrama que está diante de seus olhos, Irmão Simplório. Que significa "Jeris"?
— Muito pouco, estou certo — disse o Irmão Jeris,com ar modesto. — Perdoe a minha pouca inteligência, por favor. Você definiu bem o nome apontando para a criatura que o traz, e que é realmente seu significado. Mas a criatura- diagrama em si mesma representa qualquer coisa, não é mesmo? Que representa ela?
— O Sistema de Controle Eletrônico para a Unidade 6-B, é óbvio.

Jeris riu. — Claríssimo! Eloqüente! Se a criatura é o nome, então o nome é a criatura. "Os iguais podem ser substituídos por iguais", ou "A ordem dos fatores não altera o produto". Podemos passar ao próximo axioma? Se é verdade que "As quantidades iguais a uma mesma quantidade podem substituir umas às outras", então não haverá alguma "mesma quantidade" que tanto o nome quanto o diagrama representem? Ou será um sistema incompreensível?

Francis corou. — Imagino — disse devagar, depois de dominar sua irritação — que o diagrama represente antes um conceito abstrato que algo concreto. Talvez os antigos tivessem um método sistemático para exprimir o pensamento puro. Não se pode reconhecer nesta planta a figura de qualquer objeto.

— Sim, sim, é claro que nada se pode reconhecer — concordou o Irmão Jeris, rindo.
— Por outro lado, talvez exprima um objeto, mas apenas de maneira estilizada e formal. . . de modo que é preciso um treinamento especial ou...
— Olhos especiais?
— Na minha opinião, trata-se de uma alta abstração de valor presumivelmente transcendente que exprime um pensamento do Beato Leibowitz.
— Bravo! E em que estaria ele pensando?
— Mas. . . no "Desenho do Circuito" — disse Francis,lendo o que estava escrito embaixo, à direita.
— Hum-m-m, a que disciplina pertence essa arte, irmão? Qual o seu género, espécie, propriedade e diferença? Ou é apenas um "acidente"?

Jeris estava ficando pretensioso no seu sarcasmo, pensou Francis. Era melhor responder com brandura.
— Bem,observe esta coluna de algarismos e o título: "Números das partes eletrônicas". Houve uma vez uma ciência ou arte chamada eletrônica, que podia ser ao mesmo tempo arte e ciência.
— Ah, sim! Assim temos o "gênero" e a "espécie". E quanto à "diferença"? Qual era o objeto da eletrônica?
— Isso também está escrito — disse Francis, que pesquisara de alto a baixo a Memorabilia na esperança de encontrar pistas que elucidassem o que havia na planta, mas sem muito resultado. — O objeto da eletrônica era o elétron — explicou ele.
— Assim está escrito, realmente. Estou impressionado. Conheço tão pouco essas coisas. E, por favor, o que é elétron?
— Há uma fonte fragmentária que alude a ele como sendo o "interior negativo do nada".
— O quê? Como foi que negaram o nada? Não ficou sendo alguma coisa?
— Talvez a negação se aplique ao interior.
— Ah! Então teríamos um "nada não-initerior", hein? Você já descobriu como se faz isso?
— Ainda não — confessou Francis.
— Então continue a estudar, irmão! Como deviam ser inteligentes esses antigos! Sabiam como fazer o nada ficar não-interior". Persevere, que acabará por aprender. Teríamos então o "elétron" no meio de nós, não é verdade? Que faríamos com ele? Talvez o puséssemos no altar da capela.
— Está bem — suspirou Francis —, não sei. Mas creio firmemente que o elétron existiu, apesar de não saber como era construído e para que servia.
— Você me comove! — riu-se o iconoclasta, e voltou a seu trabalho.

As brincadeiras esporádicas do Irmão Jeris entristeciam Francis, mas não diminuíam sua dedicação ao trabalho.

A reprodução perfeita de todos os sinais, pontos e manchas era impossível, mas a exatidão do fac-símile já era suficiente para enganar os olhos a uma distância de dois passos e, por conseguinte, o bastante para fins de exibição, podendo o original ser selado e guardado. Tendo completado a cópia, o Irmão Francis sentiu-se desapontado. O desenho era cru demais. Nada nele sugeria, à primeira vista, que fosse talvez uma santa relíquia. O estilo era claro e despretensioso — bem de acordo, aliás, com o próprio Beato, e no entanto...

Uma cópia da relíquia não era suficiente. Os santos eram pessoas humildes que não glorificavam a si próprias, mas a Deus; cabia a outros retratar-lhes a glória interior por meio de sinais exteriores e visíveis. A simples cópia não era bastante: desprovida de imaginação, não celebrava de modo visível as santas qualidades do Beato.

Glorificemus, pensou Francis, enquanto trabalhava nos perenes. Estava, naquele momento, copiando páginas dos Salmos para posterior encadernação. Voltou a olhar para o texto e a reparar no significado das palavras — pois, após algumas horas de trabalho, já nada mais lia e apenas deixava que a mão traçasse as letras que lhe caíam sob os olhos. Viu que estivera copiando a oração em que Davi pede perdão a Deus, o quarto salmo penitencial. "Miserere mei, Deus. . . porque conheço a minha iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim." A oração era humilde, mas a página que tinha diante dos olhos não estava escrita em estilo condizente com o texto. O M do Miserere era pintado a ouro. Um arabesco floreado de filamentos dourados e violeta entrelaçados enchia as margens e formava como que ninhos em volta das esplêndidas maiúsculas no início de cada versículo. A oração era humilde, mas a página era magnífica.

O Irmão Francis estava copiando apenas o texto num pergaminho novo, deixando espaços para as maiúsculas iluminadas e margens tão largas quanto as linhas escritas. Outros artífices encheriam de festas de cor a sua simples cópia e construiriam as maiúsculas. Ele estava aprendendo a fazer iluminuras, mas ainda não era bastante proficiente para que lhe confiassem a tarefa de pintar a ouro nos perenes.

Glorificemus. Pensava outra vez na planta.



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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Invasores de Corpos - Jack Finney



A casa de Jack é verde, assentada na encosta de uma colina. A garagem é parte do porão. A garagem estava vazia, a porta aberta. Jack fez-me sinal para que entrasse.

Saímos do carro e Jack acendeu a luz e fechou a porta da garagem.
Depois, abriu uma porta que dava para o porão propriamente dito, fazendo um gesto para que passássemos na sua frente.

Entramos num porão comum: uma antiquada tina de lavar roupa, uma moderna máquina de lavar roupa, um cavalete de madeira, jornais empilhados, algumas caixas de papelão e diversas latas de tinta usadas encostadas numa parede. Jack passou por nós, atravessando o portão até outra porta. Parou ali, virando-se para nós, com a mão na maçaneta. Eu sabia que Jack tinha lá dentro uma boa mesa de bilhar, comprada em segunda mão. Ele me contara que a usava constantemente, jogando sozinho, enquanto imaginava o que iria posteriormente escrever. Olhando para Becky e depois para a esposa, ele murmurou:
— Fiquem calmas.

Em seguida, Jack entrou naquela outra sala do porão e puxou o cordão que acendia a lâmpada pendurada do teto. Fomos atrás.

A luz sobre uma mesa de bilhar é projetada para iluminar intensamente a superfície verde de feltro. Fica suspensa bem baixa, a fim de não incidir nos olhos dos jogadores, deixando o teto na escuridão. Aquela possuía um anteparo retangular para confinar a luz somente à superfície da mesa, deixando o resto da sala na semi-escuridão. Eu não podia ver direito o rosto de Becky, mas a ouvi suspirar bruscamente. Estendido sobre o feltro verde da mesa, sob a luz forte de uma lâmpada de 150 watts, coberto com o encerado que Jack mantinha ali como proteção, estava o que era inegavelmente um corpo.
Virei-me para Jack, que me disse:
— Pode puxar o encerado.

Eu estava irritado. Aquela situação me preocupava e assustava, havia mistério demais para me agradar. Ocorreu-me que o escritor que havia em Jack estava forçando exageradamente o comportamento dramático. Peguei uma ponta do encerado e puxei-o para um canto da mesa.

Estendido no feltro verde, de costas, encontrava-se o corpo nu de um homem. Devia ter em torno de l,75m de altura, mas não posso afirmar com certeza. Não é fácil calcular a altura de um corpo deitado. Era branco, a pele muito pálida sob a luz forte. Parecia, ao mesmo tempo, irreal e teatral, contudo era terrivelmente real.

O corpo era esguio, talvez com 65 quilos, mas visivelmente bem nutrido e musculoso. Não dava para definir a idade, exceto que não era velho. Os olhos estavam abertos, fitando diretamente a luz, de um jeito que faria com que os olhos de qualquer outra pessoa parecessem inteligentes. Eram azuis e límpidos. O corpo não tinha qualquer ferimento visível nem alguma outra causa de morte evidente.
Fui postar-me ao lado de Becky, passei o braço pelo dela e virei-me para Jack.

— E então?
Ele meneou a cabeça, recusando-se a fazer qualquer comentário.
— Continue a olhar. Examine o corpo. Não está notando nada estranho? — indagou ele.

Voltei-me novamente para o corpo sobre a mesa. Estava ficando cada vez mais irritado. A situação não me agradava. Havia mesmo algo de estranho naquele homem morto estendido sobre a mesa, mas eu não sabia explicar o quê. E isso só contribuía para me deixar ainda mais furioso.

— Ora, Jack, não estou vendo mais nada além de um cadáver. Vamos acabar com o mistério. Qual é o problema?

Ele tornou a menear a cabeça, franzindo o rosto, numa expressão suplicante.
— Não fique nervoso, Miles. Por favor. Não lhe quero dizer a minha impressão do que está errado, para não influenciá-lo. Se realmente existe, quero que o descubra pessoalmente. E se não existe coisa alguma, se estou apenas imaginando coisas, também quero saber. Atenda a meu pedido, Miles. Dê uma boa olhada nessa coisa.

Examinei o cadáver, contornando lentamente a mesa, parando a fim de olhar de diversos ângulos. Jack, Becky e Theodora se afastavam do meu caminho, enquanto eu me deslocava em torno da mesa. Pouco depois, relutantemente, pedindo desculpas a Jack no tom de voz, murmurei:
— Tem razão, Jack. Há mesmo algo estranho nesse corpo. Não está imaginando coisas. Ou se está, o mesmo acontece comigo.

Talvez por mais meio minuto fiquei olhando para o que estava em cima da mesa, em silêncio, antes de finalmente voltar a falar:

- Por um lado, não é com freqüência que se encontra um corpo assim, vivo ou morto. De certa forma, faz-me lembrar de uns poucos pacientes tuberculosos que já examinei... os que passaram quase toda a vida em sanatórios. — Virei-me e olhei para os três. — Não se pode levar uma vida comum sem se ficar com umas poucas cicatrizes, alguns cortes, aqui e ali. Mas esses pacientes que vivem em sanatórios não têm oportunidade de arrumar cicatrizes, pois seus corpos praticamente não são usados. E é exatamente assim que esse corpo parece... — Acenei com a cabeça para o corpo pálido e imóvel sob a luz forte. — Mas não se trata de um tuberculoso. É um corpo saudável, bem formado. Aqueles músculos são vigorosos. Mas ele nunca jogou futebol ou hóquei, jamais caiu de uma escada, nunca quebrou um osso. Parece. .. um corpo que não foi usado. Foi essa também a impressão que teve?

- Foi, sim — concordou Jack. — E que mais?
- Você está bem, Becky? — Olhei para ela, por sobre a mesa.
- Estou, sim — assentiu Becky, mordendo o lábio inferior.
- O rosto... — murmurei, respondendo a Jack. Fiquei contemplando o rosto, branco como cera, sereno, absolutamente imóvel, os olhos azuis virados para cima. — Não é... exatamente imaturo. — Eu não sabia direito como explicar. — Os ossos são sólidos, é um rosto adulto. Mas parece... — fiz outra pausa, procurando a palavra certa, sem conseguir encontrar — ... vago. Parece...

Jack interrompeu-me, a voz tensa e ansiosa. Na verdade, ele estava até sorrindo, ligeiramente.
- Já viu alguma vez como se fazem medalhas?
- Medalhas?
- Isso mesmo. Medalhas de categoria. Medalhões.
- Não.

Jack começou a explicar, sem que eu pudesse compreender par quê:
- Para se fazer um trabalho realmente bom, em metal duro, é preciso fazer duas gravações. Primeiro, eles pegam um molde e fazem a gravação número um, dando ao metal o formato inicial, ainda tosco. Depois, fazem a gravação com o molde número dois. É esse segundo molde que grava os detalhes, as linhas suaves e os contornos delicados que se encontram num medalhão de categoria. Eles são obrigados a fazer isso porque o segundo molde, o que contém os detalhes, não poderia deixar qualquer marca no metal liso. É necessário gravar o formato tosco inicial, com o molde número um. — Jack parou de falar, olhando de

Becky para mim, a fim de verificar se estávamos acompanhando sua explicação.
- E daí? — indaguei, impacientemente.
- Geralmente, um medalhão mostra um rosto. E quando se o contempla, depois da primeira gravação, o rosto ainda não está acabado. Está tudo lá, é verdade, mas não se encontram os detalhes que proporcionam a individualidade. — Jack fez nova pausa, olhando para mim. — Miles, é assim que esse rosto parece. Está tudo aí. Possui lábios, nariz, olhos, pele, uma estrutura óssea por baixo. Mas não há linhas, não há detalhes, não há individualidade. É informe! Olhe só! — A voz dele se alteou, estridentemente. — É como um rosto vazio, esperando que os detalhes finais sejam gravados!

Jack tinha razão. Nunca antes, em toda a minha vida, eu vira um rosto assim. Não era um rosto débil, sem força, com toda certeza. Mas era de certa forma indefinido, sem personalidade. Não era realmente um rosto; ainda não. Não havia qualquer vida nele, não estava marcado pela experiência. Creio que essa é a única maneira pela qual posso explicar. Finalmente perguntei:

- Quem é ele?
- Não sei. — Jack foi até a porta e acenou com a cabeça para a outra parte do porão e a escada que levava lá para cima. — Há um pequeno espaço por baixo da escada, fechado com madeira compensada para proporcionar uma espécie de depósito. Está cheio de coisas velhas, como roupas em caixas de papelão, aparelhos elétricos sem funcionar, um velho aspirador de pó, um ferro de passar, alguns abajures, coisas assim. E há também alguns livros velhos. Foi ali que o encontrei. Estava procurando uma referência que precisava e pensei que poderia estar num daqueles livros. Ele estava estendido lá, por cima das caixas de papelão, exatamente como o está vendo agora. Fiquei apavorado. Saí correndo como um gato num canil, acabei ficando com um galo na cabeça... Depois, voltei e tirei-o de lá. Pensei que ainda poderia estar vivo. Miles, quanto tempo demora para haver o rigor mortis?
- De oito a dez horas.
- Pois pegue nele. — De certa forma, Jack estava apreciando a situação, como um homem que fez uma promessa e a está cumprindo.

Peguei, pelo pulso, um braço do corpo em cima da mesa. Achava-se relaxado e flexível. Nem mesmo estava pegajoso ou particularmente frio.
- Não há rigor mortis — disse Jack. — Certo?
- Certo. Mas o rigor mortis não é invariável. Há determinadas condições... — Parei de falar no meio da frase. Não sabia que conclusões tirar naquele caso.
- Se quiser, Miles, pode virá-lo. Mas também não vai encontrar quaisquer marcas de ferimentos nas costas. Nem no couro cabeludo. Não há o menor sinal do que o matou.

Hesitei por um instante. Mas, legalmente, não podia tocar naquele corpo. Peguei o encerado e puxei-o por cima do corpo cobrindo-o pela metade.
- Muito bem, Jack, e agora? Vamos subir?
- Vamos. — Jack acenou com a cabeça na direção da porta e continuou onde estava com a mão no cordão da luz, até que todos tivessem saído.

Lá em cima, na sala de estar, Theodora polidamente convidou-nos a sentar e circulou acendendo abajures e providenciando cinzeiros. Depois, foi para a cozinha e voltou sem o avental. Sentou-se numa poltrona. Becky e eu estávamos no sofá, enquanto Jack sentava junto à janela, numa cadeira de balanço de madeira, contemplando a cidade. Quase toda a parede da frente da sala é constituída por uma única placa de vidro.

Pode-se ver todas as luzes da cidade, espalhadas pelas colinas. É uma sala das mais agradáveis.
— Querem um drinque ou alguma outra coisa? — indagou Jack.
Becky sacudiu a cabeça e eu disse:
— Não, obrigado. Mas podem tomar, se quiserem.
Jack disse que não estava com vontade e olhou para a esposa, que também sacudiu a cabeça. Depois, ele começou a falar:
— Nós o procuramos, Miles, porque é médico, mas também porque é um cara que pode enfrentar os fatos.

Mesmo quando eles não são o que devem ser. Não é um homem de se empenhar a fundo para transformar o preto em branco, só porque isso lhe parece mais conveniente. Para você, as coisas são o que são, como já tivemos oportunidade de constatar. Dei de ombros, sem dizer nada.
— Tem mais alguma coisa a dizer a respeito do corpo lá embaixo? — perguntou Jack.
Fiquei calado por um momento, mexendo num botão do casaco, depois tomei a decisão de dizer o que estava pensando.
— Tenho, sim. Sei que não faz sentido, não faz absoluta¬ mente o menor sentido, mas eu gostaria de efetuar uma autópsia naquele corpo. Querem saber o que acho que descobriria? — Corri os olhos pela sala, fixando-os em Jack, Theodora e depois em Becky. Nenhum deles respondeu. Continuaram sentados onde estavam, esperando. — Tenho a impressão de que não encontraria nenhuma causa para a morte. Acho que descobriria que todos os órgãos se encontram em perfeitas condições, assim como o corpo está externamente. Tudo em perfeitas condições de funcionamento, pronto para fazê-lo.

Deixei-os pensar a respeito por um momento, depois acrescentei algo mais. Sentia-me extremamente tolo ao dizê-lo, mas também absolutamente convencido de que estava certo:
- E isso não é tudo. Acho que, ao abrir o estômago, não encontraria coisa alguma lá dentro. Nem uma migalha, nenhuma partícula de alimento, digerida ou não. Nada, absolutamente nada. Tão vazio quando o estômago de um recém-nascido. E se abrisse os intestinos, a mesma coisa aconteceria. Não encontraria absolutamente nada. Por quê? — Fiz uma pausa, novamente correndo os olhos ao redor. — Porque não acredito que aquele corpo lá embaixo tenha morrido. E nunca morreu porque jamais esteve vivo.

Dei de ombros e recostei-me no sofá. — É isso o que penso. Pode conceber uma coisa dessas, Jack?
- Posso, sim — falou Jack lentamente, e maneando a cabeça para aumentar a ênfase, enquanto as mulheres nos observavam em silêncio. — Desde o início que achei a coisa totalmente absurda. Queria apenas que outra pessoa confirmasse.
— Becky... — Virei-me para fitá-la. — O que acha?

Ela sacudiu a cabeça, franzindo o rosto, depois suspirou.
— Estou... atordoada. Mas começo a achar que, no final das contas, bem que estou precisando daquele drinque.

Todos sorrimos, e Jack começou a se levantar. Mas Theodora interrompeu-o, levantando-se e dizendo:
— Pode deixar que eu providencio. Todo mundo vai querer?
Todos assentimos. Ficamos sentados, esperando, mudando de posição nervosamente e olhando pela janela, até que Theodora voltou e distribuiu os drinques. Depois que todos tomaram um gole, Jack comentou:
- Penso exatamente como você, Miles. E o mesmo acontece com Theodora. E devo dizer que não falei nada a ela sobre minhas impressões. Deixei-a olhar a coisa e tirar suas próprias conclusões, exatamente como fiz com você. Foi ela quem fez a comparação com os medalhões. Certa ocasião, em Washington, vimos como se fazem medalhões. — Jack suspirou, sacudindo a cabeça. — Conversamos e pensamos a respeito durante o dia inteiro, Miles. Só depois é que decidimos chamá-lo.
- Falou com mais alguém?
- Não.
- Por que não chamou a polícia?
- Não sei. — Jack fitou-me, um pequeno sorriso contraindo os cantos dos lábios. — Não quer chamar?
- Não.
- Por que não?
- Não sei — respondi, também sorrindo. — Mas não quero.
- Sinto-me do mesmo jeito.

Jack meneou a cabeça em concordância e depois todos ficamos em silêncio por um longo tempo, tomando os drinques, Jack sacudiu o gelo no copo, lentamente, contemplando-o, e depois murmurou:

- Tenho o pressentimento de que esta é uma ocasião para se fazer algo mais do que apenas chamar a polícia. Não é o momento de passar a bola adiante e deixar que os outros se preocupem. O que exatamente a polícia poderia fazer? Não se trata de um mero cadáver e sabemos disso. É... — deu de ombros, uma expressão sombria no rosto — ... algo terrível. Algo... Não sei direito o quê. — Tirou os olhos do copo, fitando-nos. — Sei apenas... mais do que isso, de alguma forma tenho certeza absoluta de que não devemos cometer um erro neste caso. De que há alguma coisa... a coisa sensata, a coisa correta, a única coisa possível, para se fazer. Se não a fizermos, se não descobrirmos o que é, algo terrível vai acontecer.

- Fazer o que, por exemplo? — perguntei.
- Não sei. — Jack virou a cabeça e ficou olhando pela janela por um momento. Depois, voltou a fitar-nos, com um sorriso. — Tenho um impulso terrível de... ligar diretamente para o Presidente na Casa Branca ou para o comandante do Exército, FBI, Fuzileiros, Cavalaria, qualquer coisa assim. — Meneou a cabeça, sorrindo, achando graça de si mesmo.

No instante seguinte, o sorriso se desvaneceu. — Miles, o que estou querendo dizer é que quero que alguém, exatamente a pessoa certa, quem quer que seja, compreenda desde o início como este caso é importante. E quero que essa pessoa... ou até pessoas... faça exatamente o que deve ser feito, sem cometer qualquer erro. E o problema maior é que a pessoa com quem eu entrar em contato, mesmo que me escute e acredite, pode ser exatamente a pessoa errada, alguém que irá fazer exatamente a pior coisa possível. O que quer que possa ser. Mas, de qualquer forma, sei que não se trata de um caso para a polícia. É... — Jack deu de ombros, percebendo que se estava repetindo. Achou melhor parar de falar.

— Sei de tudo isso, Jack — declarei. — Tenho o mesmo pressentimento... de que o mundo deve torcer para que saibamos cuidar direito do caso.
Na Medicina, há ocasiões em que a solução ou uma pista para um caso desconcertante surge abruptamente do nada. Creio que é a mente subconsciente em ação.
- Jack, qual é a sua altura? — indaguei.
- Tenho um metro e setenta e cinco.
- Exatamente?
- Exatamente. Por quê?
- Em sua opinião, qual é a altura do corpo lá embaixo? Ele me olhou, aturdido, por um momento, antes de responder:
- Um metro e setenta e cinco.
- E qual é o seu peso?
- Tenho sessenta e cinco quilos. O que deve pesar também o corpo lá embaixo. Creio que acertou em cheio, Miles. É o meu tamanho, o mesmo, a mesma compleição. Mas não se parece especialmente comigo.
- Nem com qualquer outra pessoa. Tem uma almofada de tinta em casa?
- Temos? — indagou Jack, virando-se para a esposa.
- Uma o quê?
- Uma almofada de tinta. Do tipo que se costuma usar para carimbos de borracha.
- Temos, sim. — Theodora levantou e atravessou a sala, até uma escrivaninha. — Há uma aqui, em algum lugar.

Depois de uma rápida busca, a mulher encontrou-a. Jack caminhou até lá, pegou a almofada de tinta, abriu outra gaveta e tirou uma folha de papel timbrado.

Fui também até a escrivaninha, com Becky atrás de mim. Jack passou tinta nas pontas dos dedos da mão direita, estendendo-a em seguida para mim. Peguei a mão e comprimi os dedos sobre o papel, um de cada vez, rolando cuidadosamente. Obtive assim um conjunto de impressões digitais bastante nítidas. Depois, peguei a almofada de tinta e o papel e disse para as mulheres, acenando com a cabeça na direção da porta:
— Querem descer também?
Elas se entreolharam. Não queriam voltar àquela mesa de bilhar, mas também não queriam ficar sozinhas lá em cima, esperando. Becky finalmente disse:
— Não quero, mas vou descer.
Theodora fez um gesto de concordância.

Lá embaixo, Jack acendeu a luz sobre a mesa de bilhar. Estava balançando um pouco e levei a mão à antepara, para firmar. Mas meus dedos tremeram e só serviu para aumentar o balanço. A antepara continuou a mover-se num pequeno arco, a luz se derramando pela borda da mesa, voltando para os olhos abertos do corpo, deixando a testa lisa na semi-escuridão por um instante. Dava a impressão de que o corpo estava-se movendo ligeiramente. Peguei o pulso direito, concentrando-me no trabalho, sem olhar para o rosto.

Passei tinta na extremidade dos cinco dedos, depois coloquei a folha de papel com as impressões digitais de Jack em cima da mesa, ao lado da mão direita do corpo. Levantei-a, pousando-a sobre o papel branco. Rolando cada dedo, tirei uma impressão de todos, diretamente abaixo das impressões de Jack. Depois, tirei a mão de cima do papel.

Becky soltou um gemido angustiado, quando vimos as impressões. Todos estávamos profundamente abalados. Porque uma coisa é especular sobre um corpo que nunca esteve vivo, mas outra muito diferente, algo que afeta o que possa haver de primitivo no fundo do nosso cérebro, é ver confirmada a especulação. Não havia impressões digitais, apenas cinco círculos solidamente pretos, absolutamente lisos. Removi a tinta dos dedos da melhor forma possível, e todos nos inclinamos, agrupados num semicírculo, sob a luz a balançar. Os dedos eram lisos como a face de um bebê. Theodora murmurou:

— Jack, acho que vou vomitar...
O marido virou-se para ampará-la, pois Theodora estava inclinada inteiramente para a frente, ajudando-a a subir a escada.

Sentados novamente na sala de estar, sacudi a cabeça e disse para Jack:
— Você encontrou a maneira apropriada de descrever. É um corpo vazio, em branco, inacabado, ainda esperando pelas impressões finais.
- O que vamos fazer? — indagou Jack. — Tem alguma idéia?
- Tenho, sim... — Fitei-o em silêncio por um momento. — Mas é apenas uma sugestão. E se não quiser aceitar, ninguém poderá culpá-lo. Muito menos eu.
- Qual é a sugestão?
- Não se esqueça de que é apenas uma sugestão. — Inclinei-me para a frente no sofá, os antebraços apoiados nos joelhos, e virei-me para Theodora. — E devo avisá-la de que, se acha que não vai conseguir, é melhor nem tentar. — Fiz uma pausa, olhando novamente para Jack, antes de acrescentar: — Deixe o corpo onde está, lá embaixo, na mesa. Esta noite você irá dormir. Darei alguma coisa para que possa dormir. —

Virei-me outra vez para Theodora. — Mas você deve ficar acordada. Não durma por um instante sequer. De hora em hora, se for capaz, quero que desça e dê uma olhada naquele... corpo. Se tiver qualquer impressão de uma mudança, suba correndo e acorde Jack imediatamente. Tire-o da casa... os dois saiam daqui sem demora. Podem ir para a minha casa.

Jack olhou para Theodora por um momento e depois disse, calmamente:
— Quero que diga não, se acha que não vai conseguir enfrentar isso.

A mulher mordeu nervosamente o lábio, olhando para o tapete. Depois, fitou-me primeiro e em seguida a Jack.
— Como poderia ser essa mudança? Começaria a parecer o quê?

Ninguém respondeu. Depois de um momento, ela baixou os olhos novamente para o tapete, voltando a mastigar o lábio, sem repetir a pergunta.
- Jack despertaria sem qualquer dificuldade? — Theodora olhou para mim. — Eu poderia acordá-lo a qualquer momento?
- Claro que sim. Um tapa no rosto e ele acordaria imediatamente. Mas mesmo que nada aconteça, acorde-o se chegar à conclusão de que não consegue mais agüentar. Os dois podem ir para a minha casa a fim de passar o resto da noite, se quiserem.
Theodora assentiu, voltando a olhar para o tapete, até que finalmente murmurou:
- Acho que posso. — Levantou os olhos, fixando-os em Jack. — Contanto que possa acordá-lo a qualquer momento, acho que posso agüentar.
- Não podemos ficar com ela? — indagou Becky.
- Não sei — respondi, dando de ombros. — Mas acho que não. Creio que só as pessoas que moram aqui é que devem ficar na casa. Não tenho certeza se de outra forma poderá funcionar. E nem mesmo sei direito por que digo isso. É apenas uma impressão, um pressentimento. Mas acho que somente Jack e Theodora devem ficar na casa.

Jack acenou com a cabeça, em concordância. Depois de olhar para Theodora, a fim de confirmar a decisão dela, ele declarou:
— Vamos tentar.

Conversamos mais um pouco... isto é, não um pouco, mas bastante... contemplando as luzes da cidade no pequeno vale lá embaixo. Mas ninguém falou qualquer coisa que já não fora dita. Por volta da meia-noite, com a maioria das luzes da cidade lá embaixo já apagadas, Becky e eu nos levantamos para ir embora. Os Belicecs pegaram seus casacos e foram conosco, a fim de buscar o carro de Jack. Estava no estacionamento do Cinema I. Quando paramos ao lado do carro e eles saltaram, repeti para Theodora o que já dissera a respeito de despertar Jack e deixar a casa imediatamente, caso o corpo no porão começasse a se alterar, por qualquer forma. Peguei um Seconal em minha maleta e entreguei-o a Jack informando-o que bastaria um para que ele dormisse prontamente. Depois nos despedimos, Jack sorrindo ligeiramente, Theodora nem se dando ao trabalho de tentar. Ambos entraram no carro, acenaram e se afastaram.

Já em Mill Valley, avançando pelas ruas desertas, a caminho da casa de Becky, ela me disse baixinho:
— Não há uma relação, Miles? Entre este caso... e o caso de Wilma?

Fitei-a rápido, mas ela estava olhando fixamente para a frente, através do pára-brisa.
- Qual é sua opinião? Acha que há alguma relação?
- Há, sim. — Becky não olhou para mim em busca de confirmação, limitando-se a menear a cabeça como se tivesse certeza absoluta. Depois de um momento, acrescentou: — Tem havido outros casos como o de Wilma?
- Uns poucos.

Eu olhava para a rua asfaltada iluminada pelos faróis, mas também a observava, pelo canto do olho. Mas a moça não reagiu nem disse nada por quase um quarteirão. Depois, quando o carro entrou na rua dela e eu aproximei o carro do meio-fio e parei diante da casa, Becky disse, ainda olhando fixamente para a frente, pelo pára-brisa:

— Miles, pretendia contar-lhe uma coisa esta noite, depois do cinema. — Respirou fundo, antes de continuar. — Desde a manhã de ontem... — começou a falar lentamente, mantendo a voz calma, para depois aumentar o ritmo e acabar dizendo as últimas palavras numa explosão de pânico: — ... tenho a impressão ... de que meu pai não é absolutamente meu pai!

Lançando um olhar horrorizado para a varanda de sua casa, imersa em sombras, a luz apagada, Becky cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar, desesperadamente.


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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Essas estrelas são nossas ! Poul Anderson



Aycharach sorriu.

Seu rosto também era humanóide, mas de modo ossudo, o nariz parecendo-se a uma espada; os ângulos da boca e maxilar eram exagerados, parecendo grandes "V".
Podia, quase, ter sido o rosto de algum santo bizantino, mas a pele tinha tonalidade puramente dourada, as sobrancelhas eram arcos de penas azuis finas, o crânio calvo tinha um topete de penas e orelhas pontuadas.

O peito largo, a cintura de vespa, pernas magricelas e compridas, encobertas pela capa. Os pés, com quatro dedos e garras e esporões nos tornozelos, apresentavam-se sem qualquer calçado.

Flandry tinha quase certeza de que a vida inteligente em Quereion evoluíra a partir dos pássaros, e que o planeta devia ser seco, dotado de atmosfera fria e rarefeita. Tinha indicações de que a civilização natural de Quereion era inacreditavelmente antiga, e motivos para crer que não fosse uma simples súdita de Merséia. Além disso, entretanto, seu conhecimento desaparecia por completo. Não sabia até mesmo onde ficava o sol de Quereion, na esfera Merseiana.

Aycharach ofereceu-lhe a mão de seis dedos. Flandry a apertou. Os dedos eram delicados, comparados aos seus. Por um momento de brutalidade, pensou em apertar bastante, esmagando os ossos frágeis. Aycharach tinha pouco mais estatura que ele, porém Flandry era homem bastante grande, o corpo bem mais largo e sólido.

— Um prazer voltar a encontrá-lo, Sir Dominic — disse Aycharach, e sua voz era baixa, uma verdadeira maravilha para ouvir-se. Flandry fitou-lhe os olhos cor de ferrugem, dotados de brilho metálico acolhedor, e soltou a mão.
—Não foi inesperado, com certeza — contrapôs.
— Para você, é o que quero dizer.
— Você viaja bastante — disse Aycharach. — Eu tinha a certeza de que alguns elementos de seu corpo estariam aqui esta noite, mas não podia estar certo de seu próprio paradeiro.
— Eu bem que queria saber do seu — ripostou Flandry em tom de lástima.
— Parabéns pelo modo como tratou o affaire Nyanza. Vamos sentir a falta de A'u em nossas fileiras. Ele tinha certo brilho aquoso.

Flandry conseguiu impedir a manifestação de surpresa.
— Eu pensei que esse aspecto da questão tinha sido encoberto — observou. — Mas essas criaturas parecem ter ouvidos bem grandes. Há quanto tempo você está no Sistema Solar?
— Algumas semanas — respondeu Aycharach.
— Mas como viagem de prazer — explicou, e inclinou a cabeça um pouco. — Ah, a orquestra começou a tocar uma valsa de Strauss. Ótimo. Embora Johann, está claro, não possa ser comparado a Richard, que sempre será o Strauss.
— É mesmo? — contrapôs Flandry, cujo interesse pela música antiga era pouco maior que seu interesse em suicidar-se. — Nunca me passou pela cabeça.
— Pois devia ter passado, meu amigo. Sem abrir exceção até mesmo para Xingu, Strauss é o compositor
mais mal compreendido na história galáctica que se conhece. Se eu fosse para a prisão perpétua, tendo apenas uma fita gravada, escolheria sua Morte e Transfiguração, e ficaria satisfeito.
— Pode deixar que eu providencio — ofereceu Flandry, no mesmo instante.

Aycharach deu uma risadinha, tomou-o pelo braço.
— Venha, vamos achar um lugar mais sossegado. Mas, eu rogo, não desperdice ocasião tão divertida por minha causa. Reconheço visitar a Terra clandestinamente, mas essa parte foi necessária para a satisfação de minha curiosidade pessoal. Eu não tinha a intenção de furtar os gabinetes Imperiais...
— Que, aliás, estão dotados de alarmes contra Aycharach.
— Detectores de telepatia? Sim, é o que seria de supor. Estou um pouco velho e duro nas juntas, e a gravidade de vocês é um pouco grande, para que eu me dedicasse a meus robozinhos. Também não tenho o tipo de aparência estonteante que é necessária, ao que me dizem todos os teleplays, para o trabalho de capa e espada. Não, eu só queria ver o planeta que criou uma raça como a sua. Andei por algumas florestas, examinei algumas pinturas, visitei algumas sepulturas escolhidas e voltei para cá. Estou a ponto de partir, por falar nisso. Você não precisa avisar a seu Imperium, para fazer pressão sobre os ymiritas, a fim de que me expulsem daqui; minha nave-correio parte dentro de vinte horas.
— Para onde? — perguntou Flandry.
— Para além, e outros lugares — disse Aycharach, sem se perturbar.

Flandry sentiu que os músculos do estômago endureciam.
— Syrax? — exclamou.

Fizeram uma parada na entrada do conservatório, onde a gravidade era nula. Uma grande esfera de água balançava-se como prata, no centro, com a mata de samambaias e mil flores entre púrpura e escarlate, formando uma caverna em torno, as estrelas e o grande Júpiter além. Mais tarde, sem dúvida, os humanos jovens e mais bêbados estariam tirando as roupas e jogando-se para nadar naquele globo cheio de serenidade. Por enquanto, só a música habitava ali. Aycharach passou. pelo umbral, a capa esvoaçava como asas negras, enquanto ele seguia pela abóbada-bolha. Flandry veio em seguida, em roupas que pareciam fogo e trombetas. Precisou de momentos, até ajustar-se à imponderabilidade. Aycharach, cujos ancestrais haviam recortado o céu de Quereion, não pareceu precisar de tal providência.

O não-humano parou no vôo, agarrando-se a uma fronde de samambaia. Olhava para um conjunto violeta de orquídeas, e sua comprida cabeça de gavião inclinou-se.
— Negro contra o globo de água e mercúrio — disse, parecendo pensar alto —, o universo negro e frio além dos dois. Aí está um belo arranjo, e com aquele toque de horror necessário à mais elevada manifestação artística.
— Negro? — e Flandry fitou, sobressaltado, as flores cor de violeta. Em seguida, cerrou os lábios, com força.

Aycharach, entretanto, já percebera a idéia do homem, e sorriu.
— Touché. Eu não devia ter deixado escapar que sou cego às cores na faixa de onda azul.
— Mas você vê mais no vermelho do que eu — predisse Flandry.
— Sim, reconheço, já que você mesmo acabaria inferindo, que meu sol natal é mais frio e vermelho do que o seu. Se acha que isso o ajudará a identificá-lo, entre os milhões de estrelas na esfera merseiana, aceite a informação, que lhe dou com os meus cumprimentos.
— O Enxame de Syrax é População Um médio — observou Flandry. — Não se presta muito bem a seus olhos.

Aycharach fitava a água. Peixes tropicais eram visíveis ali, dentro do globo, como muitos foguetes multicores.
— Não quer dizer que eu vou para Syrax — disse ele, com a voz monótona. — Não tenho, com certeza, qualquer desejo pessoal de ir. Há espaçonaves militares em demasia, oficiais em quantidade excessiva. Não gosto da mentalidade deles — afirmou, e fez uma mesura na imponderabilidade. — Com exceção aberta para você, é claro.
— É claro — concordou Flandry. — Ainda assim, se você pudesse fazer alguma coisa para acabar com o impasse por lá, a favor de Merséia...
— Você me lisonjeia — atalhou Aycharach. — Mas receio que ainda não tenha ultrapassado a visão romântica da política militar. O fato é que nenhum dos lados quer fazer o esforço total para controlar as estrelas de Syrax. Merséia poderia utilizá-las como base valiosa flanqueando Antares, e obter assim uma ponta de lança, dirigida a todo o setor de seu Império. A Terra quer o controle apenas para nos negar a posse do Enxame.

Como nenhum dos governos deseja, no momento, romper a paz nominal que reina agora, manobram por lá, o poderio naval, espionagem, alguns tirinhos, batalhas em disparada... a parada da tomada completa não vale ainda uma guerra completa.
— Mas se você pudesse desfazer esse equilíbrio, pessoalmente, para que nossa rapaziada perdesse em Syrax — disse Flandry —, nós não contra-atacaríamos sua esfera imperial. Você sabe disso. Seria provocar o contra-contra-ataque para nós. Deus, a própria Terra poderia ser bombardeada! Estamos em conforto demasiado para nos arriscar a um desfecho assim.
Ele se fez calar. Para que pôr à mostra a sua própria amargura e, com isso, arriscar-se a ser preso na Terra, por sedição?

— Se possuíssemos Syrax — observou Aycharach —, com a probabilidade de 71 por cento isso apressa-. ria o colapso da hegemonia Terrena em cem anos. Foi o veredicto de nossos computadores militares... embora eu próprio ache que a fé depositada por nosso Alto Comando nesses computadores seja ingênua e bastante comovente. Mesmo assim, a data predita para a queda da Terra ainda estaria a 150 anos, a contar de agora. Por isso, fico a imaginar por qual motivo seu governo se importa.

Flandry deu de ombros.
— Alguns de nós são um pouco sentimentais no que diz respeito a nosso planeta — respondeu, com tristeza. — Além disso, naturalmente, não somos nós mesmos que estamos por lá, levando tiros.
— Mais uma vez a mentalidade humana — observou Aycharach. — Os seus instintos são de tal natureza que vocês nunca aceitam morrer. Você, pessoalmente, por baixo de tudo, não acha que a morte é uma coisa um pouco vulgar, em desacordo com um cavalheiro?
— Talvez. A que você chamaria a morte?
— Chamaria de complementação.

A conversa passou a coisas impessoais. Flandry jamais conhecera alguém com quem pudesse conversar dessa maneira. Aycharach era sábio, erudito, e infinitamente bondoso, quando o desejava; e sabia empregar seu espírito cortante, retalhando o rosto pomposo do Império. Falar com ele, aflorando de vez em quando as questões imortais, era quase como um confessionário, pois ele não era humano, e não julgava os feitos humanos, mas ainda assim parecia compreender os desejos em que tais feitos se arraigavam.

Flandry finalmente apresentou desculpas relutantes para afastar-se. Pois é, dizia a si próprio, trabalha é trabalho. Como a Dama Diana ignorava estudadamente sua presença, atraiu uma coisinha fofa e de cabelos ruivos para a sala ao lado, disse-lhe que estaria de volta em dez minutos, e saiu por um corredor traseiro.

Talvez algum merseiano que o visse desaparecer não contasse com sua volta, por uma ou duas horas; talvez não reconhecesse a pequena, quando ela se cansasse de esperar e voltasse ao salão de baile. Os seres humanos pareciam-se muito, uns aos outros, aos olhos destreinados dos não-humanos, e havia pelo menos mil convidados, a essa altura.

Era uma camuflagem das mais fracas para sua retirada, mas a melhor que ele podia encontrar.
Flandry entrou novamente no iate e despertou Chives.
— Para casa — ordenou. — Aceleração máxima. Ou impulso secundário, se você acha que agüenta com ele, dentro do Sistema, nessa geringonça dourada.
— Sim, senhor. Agüento.

Em velocidade superior à da luz, ele estaria na Terra em questão de minutos, em vez de horas. Excelente!

Talvez fosse possível conseguir a complementação para Aycharach.

Mais de metade de si mesmo, entretanto, contava que tal tentativa fracassasse.



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terça-feira, 15 de junho de 2010

As Casas de Armas - A.E.Van Vogt




— Vai querer uma arma?

McAllister virou-se. Seu movimento foi a reação automática a um som. E porque tudo ainda lhe parecia um sonho, a visão da cidade dissolveu-se quase instantaneamente; a sua mente focalizou-se na moça que vinha lentamente do fundo da loja. Por alguns instantes, não conseguiu pensar claramente. A convicção de que deveria dizer alguma coisa misturava-se com a primeira impressão causada pela aparência da moça.

O corpo era esguio e bem feito e ela sorria agradavelmente. Os olhos eram castanhos e o cabelo ondulado também. Seu vestido e as sandálias simples pareciam tão normais à primeira vista, que ele não lhes deu maior atenção.

Conseguiu dizer:
— O que eu não posso compreender é por que o policial que tentou me seguir não conseguiu entrar. E onde está ele agora?

Para surpresa sua, o sorriso da moça tomou um ar de desculpa:
— Sabemos que as pessoas acham ridículo nós ainda insistirmos neste feudo antigo.
Sua voz tornou-se mais firme.
— Sabemos até o quanto é inteligente a propaganda que sublinha a tolice da nossa posição. Enquanto isso, nunca permitimos a entrada de um dos homens dela aqui, Continuamos a levar nossos princípios muito a sério.

Fez uma pausa, como se esperasse compreensão de sua parte. Mas McAllister percebeu pela, expressão do rosto dela que sua aparência devia ser tão estupefata quanto os seus pensamentos. Os homens dela! A moça tinha pronunciado aquelas palavras como se se referisse

Fez-se um vazio na mente de McAllister, semelhante ao vazio que estava sentindo na boca do estômago, a sensação de uma profundidade insondável, a primeira convicção estonteante de que não estava tudo como deveria ser. A moça passou a falar com um tom mais duro:
— O senhor quer dizer que não sabe nada disto, que não sabe que durante gerações, nesta época de energias devastadoras, existiu a liga dos Fabricantes de Armas, como única proteção contra a escravidão? O direito de comprar armas — parou, observando-o, depois continuou: — Pensando bem, há algo de muito peculiar no senhor. Essas roupas estranhas, o senhor não é um granjeiro das planícies agrícolas do Norte?
 

Ele sacudiu u cabeça silenciosamente e, a cada minuto que passava, ficava mais irritado com suas reações. A moça continuou mais vivamente:
— E pensando bem, é espantoso que o policial tivesse tentado abrir a porta sem que tenha havido alarma.
Sua mão moveu-se. Metal brilhou dentro dela, como alumínio na intensa luz do sol. Não havia mais um tom de desculpa na sua voz, quando disse:
— Fique exatamente onde está, senhor, até que eu chame meu pai. No nosso negócio, com as 7iossas responsabilidades, não podemos nos arriscar. Existe algo de muito errado nisto tudo.
 

Curiosamente, nesse momento, a mente de McAllister começou a funcionar com clareza. Seus pensamentos chegavam paralelos aos dela. Como havia penetrado naquele mundo fantástico? Existia realmente algo de errado naquilo tudo.
 

Era a arma que prendia sua atenção. Tratava-se de um objeto pequeno, com o formato de uma pistola. Mas uma pistola em miniatura, cuja culatra ligeiramente bulbosa estava ornada com três cubos alinhados em semicírculo. Ele começou a se sentir abalado, olhando a arma, porque aquele pequeno instrumento perigoso brilhando na sua mão morena era tão real quanto ela mesma. 

— Pelo amor de Deus — murmurou. — Que diabo de arma é esta? Abaixe essa coisa e vamos tentar esclarecer a situação.
 

Ela parecia não estar ouvindo. McAllister percebeu que ela estava fixando um ponto na parede, um pouco à sua esquerda. Seguindo seu olhar, chegou a ver acenderem-se sete pequenas luzes. Luzes estranhas. Ficou fascinado pelo jogo de luz e sombra, o aumento e diminuição da luz de um globo minúsculo para o outro, um movimento ondulado de variação de intensidade infinitesimal, um efeito incrivelmente delicado de reação a um barômetro super sensível. As luzes estabilizaram-se; voltou a olhar a moça. 

Para surpresa sua, estava guardando a arma. Ela devia ter notado sua expressão.
— Está bem — disse calmamente. — Os automáticos o estão vigiando. Se estivermos enganados a seu respeito, pediremos desculpas. Enquanto isso, se ainda está interessado em comprar uma arma, terei muito prazer em demonstrá-la.
 

Então os automáticos o estavam vigiando, pensou McAllister. Esta informação não lhe trouxe nenhum alívio. 

De qualquer maneira, aqueles automáticos não estariam do seu lado. O fato de a moça guardar a arma, apesar do seu tom de suspeita, dizia muito da eficiência dos novos cães de guarda.
— Sim, por favor, gostaria de ver. — Acrescentou: — Não duvido de que seu pai esteja aqui perto, fazendo uma espécie de estudo da minha pessoa.
 

A jovem não fez menção de mostrar armas. Em vez disso, olhava-o perplexa.
— Talvez o senhor não esteja percebendo — disse lentamente — mas já abalou toda a nossa instituição. As luzes dos automáticos deveriam ter-se acendido no momento em que meu pai pressionou os botões, como fez quando eu o chamei. E isto não aconteceu! Não é natural e no entanto — franziu as sobrancelhas — se o senhor é um deles, como conseguiu passar por aquela porta? É possível que os cientistas dela tenham descoberto seres humanos que não afetem as energias sensitivas? E que o senhor é apenas um de muitos, enviado para ver se é possível entrar ou não? Mas isto também não faz sentido. Se tivessem a menor esperança de sucesso não jogariam fora a possibilidade de uma surpresa esmagadora. Neste caso, o senhor seria a cunha que permitiria um ataque em grande escala. Ela é implacável, brilhante e tem um poder absoluto sobre pobres ingênuos como o senhor, que só pensam em adorar o esplendor de sua Corte Imperial.
 

Havia uma cadeira no canto. McAllister queria sentar-se. Sua mente estava mais calma.
— Olhe — começou — não sei de que está falando. Nem sei como entrei nesta loja. Concordo que tudo isto pede uma explicação, diferente da que eu possa dar.
 

Sua voz foi diminuindo. Estava sentando-se, mas em vez de se deixar cair na cadeira, levantou-se, lentamente, como uma pessoa muito idosa. 

Seus olhos fixaram-se num letreiro luminoso, situado em cima do mostruário de armas, atrás dela. Sua voz estava rouca:
— Isto é... um calendário?
 

Ela acompanhou seu olhar intrigada:
— Sim, é 3 de junho. Vejo errado?
— Não é isso, é... — teve que fazer um esforço — são os números em cima, é... que ano é este?
 

A moça parecia surpresa. Ia dizer alguma coisa, mas parou. Finalmente disse:
— Não tem nada errado, é o ano 4784 da Casa Imperial de Isher.




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