quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Invasores de Corpos - Jack Finney



A casa de Jack é verde, assentada na encosta de uma colina. A garagem é parte do porão. A garagem estava vazia, a porta aberta. Jack fez-me sinal para que entrasse.

Saímos do carro e Jack acendeu a luz e fechou a porta da garagem.
Depois, abriu uma porta que dava para o porão propriamente dito, fazendo um gesto para que passássemos na sua frente.

Entramos num porão comum: uma antiquada tina de lavar roupa, uma moderna máquina de lavar roupa, um cavalete de madeira, jornais empilhados, algumas caixas de papelão e diversas latas de tinta usadas encostadas numa parede. Jack passou por nós, atravessando o portão até outra porta. Parou ali, virando-se para nós, com a mão na maçaneta. Eu sabia que Jack tinha lá dentro uma boa mesa de bilhar, comprada em segunda mão. Ele me contara que a usava constantemente, jogando sozinho, enquanto imaginava o que iria posteriormente escrever. Olhando para Becky e depois para a esposa, ele murmurou:
— Fiquem calmas.

Em seguida, Jack entrou naquela outra sala do porão e puxou o cordão que acendia a lâmpada pendurada do teto. Fomos atrás.

A luz sobre uma mesa de bilhar é projetada para iluminar intensamente a superfície verde de feltro. Fica suspensa bem baixa, a fim de não incidir nos olhos dos jogadores, deixando o teto na escuridão. Aquela possuía um anteparo retangular para confinar a luz somente à superfície da mesa, deixando o resto da sala na semi-escuridão. Eu não podia ver direito o rosto de Becky, mas a ouvi suspirar bruscamente. Estendido sobre o feltro verde da mesa, sob a luz forte de uma lâmpada de 150 watts, coberto com o encerado que Jack mantinha ali como proteção, estava o que era inegavelmente um corpo.
Virei-me para Jack, que me disse:
— Pode puxar o encerado.

Eu estava irritado. Aquela situação me preocupava e assustava, havia mistério demais para me agradar. Ocorreu-me que o escritor que havia em Jack estava forçando exageradamente o comportamento dramático. Peguei uma ponta do encerado e puxei-o para um canto da mesa.

Estendido no feltro verde, de costas, encontrava-se o corpo nu de um homem. Devia ter em torno de l,75m de altura, mas não posso afirmar com certeza. Não é fácil calcular a altura de um corpo deitado. Era branco, a pele muito pálida sob a luz forte. Parecia, ao mesmo tempo, irreal e teatral, contudo era terrivelmente real.

O corpo era esguio, talvez com 65 quilos, mas visivelmente bem nutrido e musculoso. Não dava para definir a idade, exceto que não era velho. Os olhos estavam abertos, fitando diretamente a luz, de um jeito que faria com que os olhos de qualquer outra pessoa parecessem inteligentes. Eram azuis e límpidos. O corpo não tinha qualquer ferimento visível nem alguma outra causa de morte evidente.
Fui postar-me ao lado de Becky, passei o braço pelo dela e virei-me para Jack.

— E então?
Ele meneou a cabeça, recusando-se a fazer qualquer comentário.
— Continue a olhar. Examine o corpo. Não está notando nada estranho? — indagou ele.

Voltei-me novamente para o corpo sobre a mesa. Estava ficando cada vez mais irritado. A situação não me agradava. Havia mesmo algo de estranho naquele homem morto estendido sobre a mesa, mas eu não sabia explicar o quê. E isso só contribuía para me deixar ainda mais furioso.

— Ora, Jack, não estou vendo mais nada além de um cadáver. Vamos acabar com o mistério. Qual é o problema?

Ele tornou a menear a cabeça, franzindo o rosto, numa expressão suplicante.
— Não fique nervoso, Miles. Por favor. Não lhe quero dizer a minha impressão do que está errado, para não influenciá-lo. Se realmente existe, quero que o descubra pessoalmente. E se não existe coisa alguma, se estou apenas imaginando coisas, também quero saber. Atenda a meu pedido, Miles. Dê uma boa olhada nessa coisa.

Examinei o cadáver, contornando lentamente a mesa, parando a fim de olhar de diversos ângulos. Jack, Becky e Theodora se afastavam do meu caminho, enquanto eu me deslocava em torno da mesa. Pouco depois, relutantemente, pedindo desculpas a Jack no tom de voz, murmurei:
— Tem razão, Jack. Há mesmo algo estranho nesse corpo. Não está imaginando coisas. Ou se está, o mesmo acontece comigo.

Talvez por mais meio minuto fiquei olhando para o que estava em cima da mesa, em silêncio, antes de finalmente voltar a falar:

- Por um lado, não é com freqüência que se encontra um corpo assim, vivo ou morto. De certa forma, faz-me lembrar de uns poucos pacientes tuberculosos que já examinei... os que passaram quase toda a vida em sanatórios. — Virei-me e olhei para os três. — Não se pode levar uma vida comum sem se ficar com umas poucas cicatrizes, alguns cortes, aqui e ali. Mas esses pacientes que vivem em sanatórios não têm oportunidade de arrumar cicatrizes, pois seus corpos praticamente não são usados. E é exatamente assim que esse corpo parece... — Acenei com a cabeça para o corpo pálido e imóvel sob a luz forte. — Mas não se trata de um tuberculoso. É um corpo saudável, bem formado. Aqueles músculos são vigorosos. Mas ele nunca jogou futebol ou hóquei, jamais caiu de uma escada, nunca quebrou um osso. Parece. .. um corpo que não foi usado. Foi essa também a impressão que teve?

- Foi, sim — concordou Jack. — E que mais?
- Você está bem, Becky? — Olhei para ela, por sobre a mesa.
- Estou, sim — assentiu Becky, mordendo o lábio inferior.
- O rosto... — murmurei, respondendo a Jack. Fiquei contemplando o rosto, branco como cera, sereno, absolutamente imóvel, os olhos azuis virados para cima. — Não é... exatamente imaturo. — Eu não sabia direito como explicar. — Os ossos são sólidos, é um rosto adulto. Mas parece... — fiz outra pausa, procurando a palavra certa, sem conseguir encontrar — ... vago. Parece...

Jack interrompeu-me, a voz tensa e ansiosa. Na verdade, ele estava até sorrindo, ligeiramente.
- Já viu alguma vez como se fazem medalhas?
- Medalhas?
- Isso mesmo. Medalhas de categoria. Medalhões.
- Não.

Jack começou a explicar, sem que eu pudesse compreender par quê:
- Para se fazer um trabalho realmente bom, em metal duro, é preciso fazer duas gravações. Primeiro, eles pegam um molde e fazem a gravação número um, dando ao metal o formato inicial, ainda tosco. Depois, fazem a gravação com o molde número dois. É esse segundo molde que grava os detalhes, as linhas suaves e os contornos delicados que se encontram num medalhão de categoria. Eles são obrigados a fazer isso porque o segundo molde, o que contém os detalhes, não poderia deixar qualquer marca no metal liso. É necessário gravar o formato tosco inicial, com o molde número um. — Jack parou de falar, olhando de

Becky para mim, a fim de verificar se estávamos acompanhando sua explicação.
- E daí? — indaguei, impacientemente.
- Geralmente, um medalhão mostra um rosto. E quando se o contempla, depois da primeira gravação, o rosto ainda não está acabado. Está tudo lá, é verdade, mas não se encontram os detalhes que proporcionam a individualidade. — Jack fez nova pausa, olhando para mim. — Miles, é assim que esse rosto parece. Está tudo aí. Possui lábios, nariz, olhos, pele, uma estrutura óssea por baixo. Mas não há linhas, não há detalhes, não há individualidade. É informe! Olhe só! — A voz dele se alteou, estridentemente. — É como um rosto vazio, esperando que os detalhes finais sejam gravados!

Jack tinha razão. Nunca antes, em toda a minha vida, eu vira um rosto assim. Não era um rosto débil, sem força, com toda certeza. Mas era de certa forma indefinido, sem personalidade. Não era realmente um rosto; ainda não. Não havia qualquer vida nele, não estava marcado pela experiência. Creio que essa é a única maneira pela qual posso explicar. Finalmente perguntei:

- Quem é ele?
- Não sei. — Jack foi até a porta e acenou com a cabeça para a outra parte do porão e a escada que levava lá para cima. — Há um pequeno espaço por baixo da escada, fechado com madeira compensada para proporcionar uma espécie de depósito. Está cheio de coisas velhas, como roupas em caixas de papelão, aparelhos elétricos sem funcionar, um velho aspirador de pó, um ferro de passar, alguns abajures, coisas assim. E há também alguns livros velhos. Foi ali que o encontrei. Estava procurando uma referência que precisava e pensei que poderia estar num daqueles livros. Ele estava estendido lá, por cima das caixas de papelão, exatamente como o está vendo agora. Fiquei apavorado. Saí correndo como um gato num canil, acabei ficando com um galo na cabeça... Depois, voltei e tirei-o de lá. Pensei que ainda poderia estar vivo. Miles, quanto tempo demora para haver o rigor mortis?
- De oito a dez horas.
- Pois pegue nele. — De certa forma, Jack estava apreciando a situação, como um homem que fez uma promessa e a está cumprindo.

Peguei, pelo pulso, um braço do corpo em cima da mesa. Achava-se relaxado e flexível. Nem mesmo estava pegajoso ou particularmente frio.
- Não há rigor mortis — disse Jack. — Certo?
- Certo. Mas o rigor mortis não é invariável. Há determinadas condições... — Parei de falar no meio da frase. Não sabia que conclusões tirar naquele caso.
- Se quiser, Miles, pode virá-lo. Mas também não vai encontrar quaisquer marcas de ferimentos nas costas. Nem no couro cabeludo. Não há o menor sinal do que o matou.

Hesitei por um instante. Mas, legalmente, não podia tocar naquele corpo. Peguei o encerado e puxei-o por cima do corpo cobrindo-o pela metade.
- Muito bem, Jack, e agora? Vamos subir?
- Vamos. — Jack acenou com a cabeça na direção da porta e continuou onde estava com a mão no cordão da luz, até que todos tivessem saído.

Lá em cima, na sala de estar, Theodora polidamente convidou-nos a sentar e circulou acendendo abajures e providenciando cinzeiros. Depois, foi para a cozinha e voltou sem o avental. Sentou-se numa poltrona. Becky e eu estávamos no sofá, enquanto Jack sentava junto à janela, numa cadeira de balanço de madeira, contemplando a cidade. Quase toda a parede da frente da sala é constituída por uma única placa de vidro.

Pode-se ver todas as luzes da cidade, espalhadas pelas colinas. É uma sala das mais agradáveis.
— Querem um drinque ou alguma outra coisa? — indagou Jack.
Becky sacudiu a cabeça e eu disse:
— Não, obrigado. Mas podem tomar, se quiserem.
Jack disse que não estava com vontade e olhou para a esposa, que também sacudiu a cabeça. Depois, ele começou a falar:
— Nós o procuramos, Miles, porque é médico, mas também porque é um cara que pode enfrentar os fatos.

Mesmo quando eles não são o que devem ser. Não é um homem de se empenhar a fundo para transformar o preto em branco, só porque isso lhe parece mais conveniente. Para você, as coisas são o que são, como já tivemos oportunidade de constatar. Dei de ombros, sem dizer nada.
— Tem mais alguma coisa a dizer a respeito do corpo lá embaixo? — perguntou Jack.
Fiquei calado por um momento, mexendo num botão do casaco, depois tomei a decisão de dizer o que estava pensando.
— Tenho, sim. Sei que não faz sentido, não faz absoluta¬ mente o menor sentido, mas eu gostaria de efetuar uma autópsia naquele corpo. Querem saber o que acho que descobriria? — Corri os olhos pela sala, fixando-os em Jack, Theodora e depois em Becky. Nenhum deles respondeu. Continuaram sentados onde estavam, esperando. — Tenho a impressão de que não encontraria nenhuma causa para a morte. Acho que descobriria que todos os órgãos se encontram em perfeitas condições, assim como o corpo está externamente. Tudo em perfeitas condições de funcionamento, pronto para fazê-lo.

Deixei-os pensar a respeito por um momento, depois acrescentei algo mais. Sentia-me extremamente tolo ao dizê-lo, mas também absolutamente convencido de que estava certo:
- E isso não é tudo. Acho que, ao abrir o estômago, não encontraria coisa alguma lá dentro. Nem uma migalha, nenhuma partícula de alimento, digerida ou não. Nada, absolutamente nada. Tão vazio quando o estômago de um recém-nascido. E se abrisse os intestinos, a mesma coisa aconteceria. Não encontraria absolutamente nada. Por quê? — Fiz uma pausa, novamente correndo os olhos ao redor. — Porque não acredito que aquele corpo lá embaixo tenha morrido. E nunca morreu porque jamais esteve vivo.

Dei de ombros e recostei-me no sofá. — É isso o que penso. Pode conceber uma coisa dessas, Jack?
- Posso, sim — falou Jack lentamente, e maneando a cabeça para aumentar a ênfase, enquanto as mulheres nos observavam em silêncio. — Desde o início que achei a coisa totalmente absurda. Queria apenas que outra pessoa confirmasse.
— Becky... — Virei-me para fitá-la. — O que acha?

Ela sacudiu a cabeça, franzindo o rosto, depois suspirou.
— Estou... atordoada. Mas começo a achar que, no final das contas, bem que estou precisando daquele drinque.

Todos sorrimos, e Jack começou a se levantar. Mas Theodora interrompeu-o, levantando-se e dizendo:
— Pode deixar que eu providencio. Todo mundo vai querer?
Todos assentimos. Ficamos sentados, esperando, mudando de posição nervosamente e olhando pela janela, até que Theodora voltou e distribuiu os drinques. Depois que todos tomaram um gole, Jack comentou:
- Penso exatamente como você, Miles. E o mesmo acontece com Theodora. E devo dizer que não falei nada a ela sobre minhas impressões. Deixei-a olhar a coisa e tirar suas próprias conclusões, exatamente como fiz com você. Foi ela quem fez a comparação com os medalhões. Certa ocasião, em Washington, vimos como se fazem medalhões. — Jack suspirou, sacudindo a cabeça. — Conversamos e pensamos a respeito durante o dia inteiro, Miles. Só depois é que decidimos chamá-lo.
- Falou com mais alguém?
- Não.
- Por que não chamou a polícia?
- Não sei. — Jack fitou-me, um pequeno sorriso contraindo os cantos dos lábios. — Não quer chamar?
- Não.
- Por que não?
- Não sei — respondi, também sorrindo. — Mas não quero.
- Sinto-me do mesmo jeito.

Jack meneou a cabeça em concordância e depois todos ficamos em silêncio por um longo tempo, tomando os drinques, Jack sacudiu o gelo no copo, lentamente, contemplando-o, e depois murmurou:

- Tenho o pressentimento de que esta é uma ocasião para se fazer algo mais do que apenas chamar a polícia. Não é o momento de passar a bola adiante e deixar que os outros se preocupem. O que exatamente a polícia poderia fazer? Não se trata de um mero cadáver e sabemos disso. É... — deu de ombros, uma expressão sombria no rosto — ... algo terrível. Algo... Não sei direito o quê. — Tirou os olhos do copo, fitando-nos. — Sei apenas... mais do que isso, de alguma forma tenho certeza absoluta de que não devemos cometer um erro neste caso. De que há alguma coisa... a coisa sensata, a coisa correta, a única coisa possível, para se fazer. Se não a fizermos, se não descobrirmos o que é, algo terrível vai acontecer.

- Fazer o que, por exemplo? — perguntei.
- Não sei. — Jack virou a cabeça e ficou olhando pela janela por um momento. Depois, voltou a fitar-nos, com um sorriso. — Tenho um impulso terrível de... ligar diretamente para o Presidente na Casa Branca ou para o comandante do Exército, FBI, Fuzileiros, Cavalaria, qualquer coisa assim. — Meneou a cabeça, sorrindo, achando graça de si mesmo.

No instante seguinte, o sorriso se desvaneceu. — Miles, o que estou querendo dizer é que quero que alguém, exatamente a pessoa certa, quem quer que seja, compreenda desde o início como este caso é importante. E quero que essa pessoa... ou até pessoas... faça exatamente o que deve ser feito, sem cometer qualquer erro. E o problema maior é que a pessoa com quem eu entrar em contato, mesmo que me escute e acredite, pode ser exatamente a pessoa errada, alguém que irá fazer exatamente a pior coisa possível. O que quer que possa ser. Mas, de qualquer forma, sei que não se trata de um caso para a polícia. É... — Jack deu de ombros, percebendo que se estava repetindo. Achou melhor parar de falar.

— Sei de tudo isso, Jack — declarei. — Tenho o mesmo pressentimento... de que o mundo deve torcer para que saibamos cuidar direito do caso.
Na Medicina, há ocasiões em que a solução ou uma pista para um caso desconcertante surge abruptamente do nada. Creio que é a mente subconsciente em ação.
- Jack, qual é a sua altura? — indaguei.
- Tenho um metro e setenta e cinco.
- Exatamente?
- Exatamente. Por quê?
- Em sua opinião, qual é a altura do corpo lá embaixo? Ele me olhou, aturdido, por um momento, antes de responder:
- Um metro e setenta e cinco.
- E qual é o seu peso?
- Tenho sessenta e cinco quilos. O que deve pesar também o corpo lá embaixo. Creio que acertou em cheio, Miles. É o meu tamanho, o mesmo, a mesma compleição. Mas não se parece especialmente comigo.
- Nem com qualquer outra pessoa. Tem uma almofada de tinta em casa?
- Temos? — indagou Jack, virando-se para a esposa.
- Uma o quê?
- Uma almofada de tinta. Do tipo que se costuma usar para carimbos de borracha.
- Temos, sim. — Theodora levantou e atravessou a sala, até uma escrivaninha. — Há uma aqui, em algum lugar.

Depois de uma rápida busca, a mulher encontrou-a. Jack caminhou até lá, pegou a almofada de tinta, abriu outra gaveta e tirou uma folha de papel timbrado.

Fui também até a escrivaninha, com Becky atrás de mim. Jack passou tinta nas pontas dos dedos da mão direita, estendendo-a em seguida para mim. Peguei a mão e comprimi os dedos sobre o papel, um de cada vez, rolando cuidadosamente. Obtive assim um conjunto de impressões digitais bastante nítidas. Depois, peguei a almofada de tinta e o papel e disse para as mulheres, acenando com a cabeça na direção da porta:
— Querem descer também?
Elas se entreolharam. Não queriam voltar àquela mesa de bilhar, mas também não queriam ficar sozinhas lá em cima, esperando. Becky finalmente disse:
— Não quero, mas vou descer.
Theodora fez um gesto de concordância.

Lá embaixo, Jack acendeu a luz sobre a mesa de bilhar. Estava balançando um pouco e levei a mão à antepara, para firmar. Mas meus dedos tremeram e só serviu para aumentar o balanço. A antepara continuou a mover-se num pequeno arco, a luz se derramando pela borda da mesa, voltando para os olhos abertos do corpo, deixando a testa lisa na semi-escuridão por um instante. Dava a impressão de que o corpo estava-se movendo ligeiramente. Peguei o pulso direito, concentrando-me no trabalho, sem olhar para o rosto.

Passei tinta na extremidade dos cinco dedos, depois coloquei a folha de papel com as impressões digitais de Jack em cima da mesa, ao lado da mão direita do corpo. Levantei-a, pousando-a sobre o papel branco. Rolando cada dedo, tirei uma impressão de todos, diretamente abaixo das impressões de Jack. Depois, tirei a mão de cima do papel.

Becky soltou um gemido angustiado, quando vimos as impressões. Todos estávamos profundamente abalados. Porque uma coisa é especular sobre um corpo que nunca esteve vivo, mas outra muito diferente, algo que afeta o que possa haver de primitivo no fundo do nosso cérebro, é ver confirmada a especulação. Não havia impressões digitais, apenas cinco círculos solidamente pretos, absolutamente lisos. Removi a tinta dos dedos da melhor forma possível, e todos nos inclinamos, agrupados num semicírculo, sob a luz a balançar. Os dedos eram lisos como a face de um bebê. Theodora murmurou:

— Jack, acho que vou vomitar...
O marido virou-se para ampará-la, pois Theodora estava inclinada inteiramente para a frente, ajudando-a a subir a escada.

Sentados novamente na sala de estar, sacudi a cabeça e disse para Jack:
— Você encontrou a maneira apropriada de descrever. É um corpo vazio, em branco, inacabado, ainda esperando pelas impressões finais.
- O que vamos fazer? — indagou Jack. — Tem alguma idéia?
- Tenho, sim... — Fitei-o em silêncio por um momento. — Mas é apenas uma sugestão. E se não quiser aceitar, ninguém poderá culpá-lo. Muito menos eu.
- Qual é a sugestão?
- Não se esqueça de que é apenas uma sugestão. — Inclinei-me para a frente no sofá, os antebraços apoiados nos joelhos, e virei-me para Theodora. — E devo avisá-la de que, se acha que não vai conseguir, é melhor nem tentar. — Fiz uma pausa, olhando novamente para Jack, antes de acrescentar: — Deixe o corpo onde está, lá embaixo, na mesa. Esta noite você irá dormir. Darei alguma coisa para que possa dormir. —

Virei-me outra vez para Theodora. — Mas você deve ficar acordada. Não durma por um instante sequer. De hora em hora, se for capaz, quero que desça e dê uma olhada naquele... corpo. Se tiver qualquer impressão de uma mudança, suba correndo e acorde Jack imediatamente. Tire-o da casa... os dois saiam daqui sem demora. Podem ir para a minha casa.

Jack olhou para Theodora por um momento e depois disse, calmamente:
— Quero que diga não, se acha que não vai conseguir enfrentar isso.

A mulher mordeu nervosamente o lábio, olhando para o tapete. Depois, fitou-me primeiro e em seguida a Jack.
— Como poderia ser essa mudança? Começaria a parecer o quê?

Ninguém respondeu. Depois de um momento, ela baixou os olhos novamente para o tapete, voltando a mastigar o lábio, sem repetir a pergunta.
- Jack despertaria sem qualquer dificuldade? — Theodora olhou para mim. — Eu poderia acordá-lo a qualquer momento?
- Claro que sim. Um tapa no rosto e ele acordaria imediatamente. Mas mesmo que nada aconteça, acorde-o se chegar à conclusão de que não consegue mais agüentar. Os dois podem ir para a minha casa a fim de passar o resto da noite, se quiserem.
Theodora assentiu, voltando a olhar para o tapete, até que finalmente murmurou:
- Acho que posso. — Levantou os olhos, fixando-os em Jack. — Contanto que possa acordá-lo a qualquer momento, acho que posso agüentar.
- Não podemos ficar com ela? — indagou Becky.
- Não sei — respondi, dando de ombros. — Mas acho que não. Creio que só as pessoas que moram aqui é que devem ficar na casa. Não tenho certeza se de outra forma poderá funcionar. E nem mesmo sei direito por que digo isso. É apenas uma impressão, um pressentimento. Mas acho que somente Jack e Theodora devem ficar na casa.

Jack acenou com a cabeça, em concordância. Depois de olhar para Theodora, a fim de confirmar a decisão dela, ele declarou:
— Vamos tentar.

Conversamos mais um pouco... isto é, não um pouco, mas bastante... contemplando as luzes da cidade no pequeno vale lá embaixo. Mas ninguém falou qualquer coisa que já não fora dita. Por volta da meia-noite, com a maioria das luzes da cidade lá embaixo já apagadas, Becky e eu nos levantamos para ir embora. Os Belicecs pegaram seus casacos e foram conosco, a fim de buscar o carro de Jack. Estava no estacionamento do Cinema I. Quando paramos ao lado do carro e eles saltaram, repeti para Theodora o que já dissera a respeito de despertar Jack e deixar a casa imediatamente, caso o corpo no porão começasse a se alterar, por qualquer forma. Peguei um Seconal em minha maleta e entreguei-o a Jack informando-o que bastaria um para que ele dormisse prontamente. Depois nos despedimos, Jack sorrindo ligeiramente, Theodora nem se dando ao trabalho de tentar. Ambos entraram no carro, acenaram e se afastaram.

Já em Mill Valley, avançando pelas ruas desertas, a caminho da casa de Becky, ela me disse baixinho:
— Não há uma relação, Miles? Entre este caso... e o caso de Wilma?

Fitei-a rápido, mas ela estava olhando fixamente para a frente, através do pára-brisa.
- Qual é sua opinião? Acha que há alguma relação?
- Há, sim. — Becky não olhou para mim em busca de confirmação, limitando-se a menear a cabeça como se tivesse certeza absoluta. Depois de um momento, acrescentou: — Tem havido outros casos como o de Wilma?
- Uns poucos.

Eu olhava para a rua asfaltada iluminada pelos faróis, mas também a observava, pelo canto do olho. Mas a moça não reagiu nem disse nada por quase um quarteirão. Depois, quando o carro entrou na rua dela e eu aproximei o carro do meio-fio e parei diante da casa, Becky disse, ainda olhando fixamente para a frente, pelo pára-brisa:

— Miles, pretendia contar-lhe uma coisa esta noite, depois do cinema. — Respirou fundo, antes de continuar. — Desde a manhã de ontem... — começou a falar lentamente, mantendo a voz calma, para depois aumentar o ritmo e acabar dizendo as últimas palavras numa explosão de pânico: — ... tenho a impressão ... de que meu pai não é absolutamente meu pai!

Lançando um olhar horrorizado para a varanda de sua casa, imersa em sombras, a luz apagada, Becky cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar, desesperadamente.


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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Essas estrelas são nossas ! Poul Anderson



Aycharach sorriu.

Seu rosto também era humanóide, mas de modo ossudo, o nariz parecendo-se a uma espada; os ângulos da boca e maxilar eram exagerados, parecendo grandes "V".
Podia, quase, ter sido o rosto de algum santo bizantino, mas a pele tinha tonalidade puramente dourada, as sobrancelhas eram arcos de penas azuis finas, o crânio calvo tinha um topete de penas e orelhas pontuadas.

O peito largo, a cintura de vespa, pernas magricelas e compridas, encobertas pela capa. Os pés, com quatro dedos e garras e esporões nos tornozelos, apresentavam-se sem qualquer calçado.

Flandry tinha quase certeza de que a vida inteligente em Quereion evoluíra a partir dos pássaros, e que o planeta devia ser seco, dotado de atmosfera fria e rarefeita. Tinha indicações de que a civilização natural de Quereion era inacreditavelmente antiga, e motivos para crer que não fosse uma simples súdita de Merséia. Além disso, entretanto, seu conhecimento desaparecia por completo. Não sabia até mesmo onde ficava o sol de Quereion, na esfera Merseiana.

Aycharach ofereceu-lhe a mão de seis dedos. Flandry a apertou. Os dedos eram delicados, comparados aos seus. Por um momento de brutalidade, pensou em apertar bastante, esmagando os ossos frágeis. Aycharach tinha pouco mais estatura que ele, porém Flandry era homem bastante grande, o corpo bem mais largo e sólido.

— Um prazer voltar a encontrá-lo, Sir Dominic — disse Aycharach, e sua voz era baixa, uma verdadeira maravilha para ouvir-se. Flandry fitou-lhe os olhos cor de ferrugem, dotados de brilho metálico acolhedor, e soltou a mão.
—Não foi inesperado, com certeza — contrapôs.
— Para você, é o que quero dizer.
— Você viaja bastante — disse Aycharach. — Eu tinha a certeza de que alguns elementos de seu corpo estariam aqui esta noite, mas não podia estar certo de seu próprio paradeiro.
— Eu bem que queria saber do seu — ripostou Flandry em tom de lástima.
— Parabéns pelo modo como tratou o affaire Nyanza. Vamos sentir a falta de A'u em nossas fileiras. Ele tinha certo brilho aquoso.

Flandry conseguiu impedir a manifestação de surpresa.
— Eu pensei que esse aspecto da questão tinha sido encoberto — observou. — Mas essas criaturas parecem ter ouvidos bem grandes. Há quanto tempo você está no Sistema Solar?
— Algumas semanas — respondeu Aycharach.
— Mas como viagem de prazer — explicou, e inclinou a cabeça um pouco. — Ah, a orquestra começou a tocar uma valsa de Strauss. Ótimo. Embora Johann, está claro, não possa ser comparado a Richard, que sempre será o Strauss.
— É mesmo? — contrapôs Flandry, cujo interesse pela música antiga era pouco maior que seu interesse em suicidar-se. — Nunca me passou pela cabeça.
— Pois devia ter passado, meu amigo. Sem abrir exceção até mesmo para Xingu, Strauss é o compositor
mais mal compreendido na história galáctica que se conhece. Se eu fosse para a prisão perpétua, tendo apenas uma fita gravada, escolheria sua Morte e Transfiguração, e ficaria satisfeito.
— Pode deixar que eu providencio — ofereceu Flandry, no mesmo instante.

Aycharach deu uma risadinha, tomou-o pelo braço.
— Venha, vamos achar um lugar mais sossegado. Mas, eu rogo, não desperdice ocasião tão divertida por minha causa. Reconheço visitar a Terra clandestinamente, mas essa parte foi necessária para a satisfação de minha curiosidade pessoal. Eu não tinha a intenção de furtar os gabinetes Imperiais...
— Que, aliás, estão dotados de alarmes contra Aycharach.
— Detectores de telepatia? Sim, é o que seria de supor. Estou um pouco velho e duro nas juntas, e a gravidade de vocês é um pouco grande, para que eu me dedicasse a meus robozinhos. Também não tenho o tipo de aparência estonteante que é necessária, ao que me dizem todos os teleplays, para o trabalho de capa e espada. Não, eu só queria ver o planeta que criou uma raça como a sua. Andei por algumas florestas, examinei algumas pinturas, visitei algumas sepulturas escolhidas e voltei para cá. Estou a ponto de partir, por falar nisso. Você não precisa avisar a seu Imperium, para fazer pressão sobre os ymiritas, a fim de que me expulsem daqui; minha nave-correio parte dentro de vinte horas.
— Para onde? — perguntou Flandry.
— Para além, e outros lugares — disse Aycharach, sem se perturbar.

Flandry sentiu que os músculos do estômago endureciam.
— Syrax? — exclamou.

Fizeram uma parada na entrada do conservatório, onde a gravidade era nula. Uma grande esfera de água balançava-se como prata, no centro, com a mata de samambaias e mil flores entre púrpura e escarlate, formando uma caverna em torno, as estrelas e o grande Júpiter além. Mais tarde, sem dúvida, os humanos jovens e mais bêbados estariam tirando as roupas e jogando-se para nadar naquele globo cheio de serenidade. Por enquanto, só a música habitava ali. Aycharach passou. pelo umbral, a capa esvoaçava como asas negras, enquanto ele seguia pela abóbada-bolha. Flandry veio em seguida, em roupas que pareciam fogo e trombetas. Precisou de momentos, até ajustar-se à imponderabilidade. Aycharach, cujos ancestrais haviam recortado o céu de Quereion, não pareceu precisar de tal providência.

O não-humano parou no vôo, agarrando-se a uma fronde de samambaia. Olhava para um conjunto violeta de orquídeas, e sua comprida cabeça de gavião inclinou-se.
— Negro contra o globo de água e mercúrio — disse, parecendo pensar alto —, o universo negro e frio além dos dois. Aí está um belo arranjo, e com aquele toque de horror necessário à mais elevada manifestação artística.
— Negro? — e Flandry fitou, sobressaltado, as flores cor de violeta. Em seguida, cerrou os lábios, com força.

Aycharach, entretanto, já percebera a idéia do homem, e sorriu.
— Touché. Eu não devia ter deixado escapar que sou cego às cores na faixa de onda azul.
— Mas você vê mais no vermelho do que eu — predisse Flandry.
— Sim, reconheço, já que você mesmo acabaria inferindo, que meu sol natal é mais frio e vermelho do que o seu. Se acha que isso o ajudará a identificá-lo, entre os milhões de estrelas na esfera merseiana, aceite a informação, que lhe dou com os meus cumprimentos.
— O Enxame de Syrax é População Um médio — observou Flandry. — Não se presta muito bem a seus olhos.

Aycharach fitava a água. Peixes tropicais eram visíveis ali, dentro do globo, como muitos foguetes multicores.
— Não quer dizer que eu vou para Syrax — disse ele, com a voz monótona. — Não tenho, com certeza, qualquer desejo pessoal de ir. Há espaçonaves militares em demasia, oficiais em quantidade excessiva. Não gosto da mentalidade deles — afirmou, e fez uma mesura na imponderabilidade. — Com exceção aberta para você, é claro.
— É claro — concordou Flandry. — Ainda assim, se você pudesse fazer alguma coisa para acabar com o impasse por lá, a favor de Merséia...
— Você me lisonjeia — atalhou Aycharach. — Mas receio que ainda não tenha ultrapassado a visão romântica da política militar. O fato é que nenhum dos lados quer fazer o esforço total para controlar as estrelas de Syrax. Merséia poderia utilizá-las como base valiosa flanqueando Antares, e obter assim uma ponta de lança, dirigida a todo o setor de seu Império. A Terra quer o controle apenas para nos negar a posse do Enxame.

Como nenhum dos governos deseja, no momento, romper a paz nominal que reina agora, manobram por lá, o poderio naval, espionagem, alguns tirinhos, batalhas em disparada... a parada da tomada completa não vale ainda uma guerra completa.
— Mas se você pudesse desfazer esse equilíbrio, pessoalmente, para que nossa rapaziada perdesse em Syrax — disse Flandry —, nós não contra-atacaríamos sua esfera imperial. Você sabe disso. Seria provocar o contra-contra-ataque para nós. Deus, a própria Terra poderia ser bombardeada! Estamos em conforto demasiado para nos arriscar a um desfecho assim.
Ele se fez calar. Para que pôr à mostra a sua própria amargura e, com isso, arriscar-se a ser preso na Terra, por sedição?

— Se possuíssemos Syrax — observou Aycharach —, com a probabilidade de 71 por cento isso apressa-. ria o colapso da hegemonia Terrena em cem anos. Foi o veredicto de nossos computadores militares... embora eu próprio ache que a fé depositada por nosso Alto Comando nesses computadores seja ingênua e bastante comovente. Mesmo assim, a data predita para a queda da Terra ainda estaria a 150 anos, a contar de agora. Por isso, fico a imaginar por qual motivo seu governo se importa.

Flandry deu de ombros.
— Alguns de nós são um pouco sentimentais no que diz respeito a nosso planeta — respondeu, com tristeza. — Além disso, naturalmente, não somos nós mesmos que estamos por lá, levando tiros.
— Mais uma vez a mentalidade humana — observou Aycharach. — Os seus instintos são de tal natureza que vocês nunca aceitam morrer. Você, pessoalmente, por baixo de tudo, não acha que a morte é uma coisa um pouco vulgar, em desacordo com um cavalheiro?
— Talvez. A que você chamaria a morte?
— Chamaria de complementação.

A conversa passou a coisas impessoais. Flandry jamais conhecera alguém com quem pudesse conversar dessa maneira. Aycharach era sábio, erudito, e infinitamente bondoso, quando o desejava; e sabia empregar seu espírito cortante, retalhando o rosto pomposo do Império. Falar com ele, aflorando de vez em quando as questões imortais, era quase como um confessionário, pois ele não era humano, e não julgava os feitos humanos, mas ainda assim parecia compreender os desejos em que tais feitos se arraigavam.

Flandry finalmente apresentou desculpas relutantes para afastar-se. Pois é, dizia a si próprio, trabalha é trabalho. Como a Dama Diana ignorava estudadamente sua presença, atraiu uma coisinha fofa e de cabelos ruivos para a sala ao lado, disse-lhe que estaria de volta em dez minutos, e saiu por um corredor traseiro.

Talvez algum merseiano que o visse desaparecer não contasse com sua volta, por uma ou duas horas; talvez não reconhecesse a pequena, quando ela se cansasse de esperar e voltasse ao salão de baile. Os seres humanos pareciam-se muito, uns aos outros, aos olhos destreinados dos não-humanos, e havia pelo menos mil convidados, a essa altura.

Era uma camuflagem das mais fracas para sua retirada, mas a melhor que ele podia encontrar.
Flandry entrou novamente no iate e despertou Chives.
— Para casa — ordenou. — Aceleração máxima. Ou impulso secundário, se você acha que agüenta com ele, dentro do Sistema, nessa geringonça dourada.
— Sim, senhor. Agüento.

Em velocidade superior à da luz, ele estaria na Terra em questão de minutos, em vez de horas. Excelente!

Talvez fosse possível conseguir a complementação para Aycharach.

Mais de metade de si mesmo, entretanto, contava que tal tentativa fracassasse.



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terça-feira, 15 de junho de 2010

As Casas de Armas - A.E.Van Vogt




— Vai querer uma arma?

McAllister virou-se. Seu movimento foi a reação automática a um som. E porque tudo ainda lhe parecia um sonho, a visão da cidade dissolveu-se quase instantaneamente; a sua mente focalizou-se na moça que vinha lentamente do fundo da loja. Por alguns instantes, não conseguiu pensar claramente. A convicção de que deveria dizer alguma coisa misturava-se com a primeira impressão causada pela aparência da moça.

O corpo era esguio e bem feito e ela sorria agradavelmente. Os olhos eram castanhos e o cabelo ondulado também. Seu vestido e as sandálias simples pareciam tão normais à primeira vista, que ele não lhes deu maior atenção.

Conseguiu dizer:
— O que eu não posso compreender é por que o policial que tentou me seguir não conseguiu entrar. E onde está ele agora?

Para surpresa sua, o sorriso da moça tomou um ar de desculpa:
— Sabemos que as pessoas acham ridículo nós ainda insistirmos neste feudo antigo.
Sua voz tornou-se mais firme.
— Sabemos até o quanto é inteligente a propaganda que sublinha a tolice da nossa posição. Enquanto isso, nunca permitimos a entrada de um dos homens dela aqui, Continuamos a levar nossos princípios muito a sério.

Fez uma pausa, como se esperasse compreensão de sua parte. Mas McAllister percebeu pela, expressão do rosto dela que sua aparência devia ser tão estupefata quanto os seus pensamentos. Os homens dela! A moça tinha pronunciado aquelas palavras como se se referisse

Fez-se um vazio na mente de McAllister, semelhante ao vazio que estava sentindo na boca do estômago, a sensação de uma profundidade insondável, a primeira convicção estonteante de que não estava tudo como deveria ser. A moça passou a falar com um tom mais duro:
— O senhor quer dizer que não sabe nada disto, que não sabe que durante gerações, nesta época de energias devastadoras, existiu a liga dos Fabricantes de Armas, como única proteção contra a escravidão? O direito de comprar armas — parou, observando-o, depois continuou: — Pensando bem, há algo de muito peculiar no senhor. Essas roupas estranhas, o senhor não é um granjeiro das planícies agrícolas do Norte?
 

Ele sacudiu u cabeça silenciosamente e, a cada minuto que passava, ficava mais irritado com suas reações. A moça continuou mais vivamente:
— E pensando bem, é espantoso que o policial tivesse tentado abrir a porta sem que tenha havido alarma.
Sua mão moveu-se. Metal brilhou dentro dela, como alumínio na intensa luz do sol. Não havia mais um tom de desculpa na sua voz, quando disse:
— Fique exatamente onde está, senhor, até que eu chame meu pai. No nosso negócio, com as 7iossas responsabilidades, não podemos nos arriscar. Existe algo de muito errado nisto tudo.
 

Curiosamente, nesse momento, a mente de McAllister começou a funcionar com clareza. Seus pensamentos chegavam paralelos aos dela. Como havia penetrado naquele mundo fantástico? Existia realmente algo de errado naquilo tudo.
 

Era a arma que prendia sua atenção. Tratava-se de um objeto pequeno, com o formato de uma pistola. Mas uma pistola em miniatura, cuja culatra ligeiramente bulbosa estava ornada com três cubos alinhados em semicírculo. Ele começou a se sentir abalado, olhando a arma, porque aquele pequeno instrumento perigoso brilhando na sua mão morena era tão real quanto ela mesma. 

— Pelo amor de Deus — murmurou. — Que diabo de arma é esta? Abaixe essa coisa e vamos tentar esclarecer a situação.
 

Ela parecia não estar ouvindo. McAllister percebeu que ela estava fixando um ponto na parede, um pouco à sua esquerda. Seguindo seu olhar, chegou a ver acenderem-se sete pequenas luzes. Luzes estranhas. Ficou fascinado pelo jogo de luz e sombra, o aumento e diminuição da luz de um globo minúsculo para o outro, um movimento ondulado de variação de intensidade infinitesimal, um efeito incrivelmente delicado de reação a um barômetro super sensível. As luzes estabilizaram-se; voltou a olhar a moça. 

Para surpresa sua, estava guardando a arma. Ela devia ter notado sua expressão.
— Está bem — disse calmamente. — Os automáticos o estão vigiando. Se estivermos enganados a seu respeito, pediremos desculpas. Enquanto isso, se ainda está interessado em comprar uma arma, terei muito prazer em demonstrá-la.
 

Então os automáticos o estavam vigiando, pensou McAllister. Esta informação não lhe trouxe nenhum alívio. 

De qualquer maneira, aqueles automáticos não estariam do seu lado. O fato de a moça guardar a arma, apesar do seu tom de suspeita, dizia muito da eficiência dos novos cães de guarda.
— Sim, por favor, gostaria de ver. — Acrescentou: — Não duvido de que seu pai esteja aqui perto, fazendo uma espécie de estudo da minha pessoa.
 

A jovem não fez menção de mostrar armas. Em vez disso, olhava-o perplexa.
— Talvez o senhor não esteja percebendo — disse lentamente — mas já abalou toda a nossa instituição. As luzes dos automáticos deveriam ter-se acendido no momento em que meu pai pressionou os botões, como fez quando eu o chamei. E isto não aconteceu! Não é natural e no entanto — franziu as sobrancelhas — se o senhor é um deles, como conseguiu passar por aquela porta? É possível que os cientistas dela tenham descoberto seres humanos que não afetem as energias sensitivas? E que o senhor é apenas um de muitos, enviado para ver se é possível entrar ou não? Mas isto também não faz sentido. Se tivessem a menor esperança de sucesso não jogariam fora a possibilidade de uma surpresa esmagadora. Neste caso, o senhor seria a cunha que permitiria um ataque em grande escala. Ela é implacável, brilhante e tem um poder absoluto sobre pobres ingênuos como o senhor, que só pensam em adorar o esplendor de sua Corte Imperial.
 

Havia uma cadeira no canto. McAllister queria sentar-se. Sua mente estava mais calma.
— Olhe — começou — não sei de que está falando. Nem sei como entrei nesta loja. Concordo que tudo isto pede uma explicação, diferente da que eu possa dar.
 

Sua voz foi diminuindo. Estava sentando-se, mas em vez de se deixar cair na cadeira, levantou-se, lentamente, como uma pessoa muito idosa. 

Seus olhos fixaram-se num letreiro luminoso, situado em cima do mostruário de armas, atrás dela. Sua voz estava rouca:
— Isto é... um calendário?
 

Ela acompanhou seu olhar intrigada:
— Sim, é 3 de junho. Vejo errado?
— Não é isso, é... — teve que fazer um esforço — são os números em cima, é... que ano é este?
 

A moça parecia surpresa. Ia dizer alguma coisa, mas parou. Finalmente disse:
— Não tem nada errado, é o ano 4784 da Casa Imperial de Isher.




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domingo, 13 de junho de 2010

Clark Ashton Smith



Clark Ashton Smith (13 de janeiro de 1893 - 14 de Agosto de 1961) nasceu em Long Valley, Califórnia (EUA).

Poeta, escultor, pintor e autor de contos de fantasia, horror e ficção científica, saudado como o "Keats da Costa do Pacífico" pela imprensa de San Francisco, chamou a atenção de nomes consagrados como Ambrose Bierce, George Sterling e Jack London, quando seus primeiros poemas foram publicados em 1911.

A família de Smith sempre foi pobre e quando o jovem Smith foi capaz de trabalhar, além das tarefas da fazenda dos pais, trabalhava para agricultores locais, colhendo e embalando frutas (cerejas e ameixas), cortando madeira, cavando valas, etc.

Sua educação formal foi limitada, pois sofria de distúrbios psicológicos, e por isso teve apenas oito anos de escola primária e nunca frequentou a escola secundária. Em vez disso, com a aprovação de seu pai, Smith escolheu educar a si mesmo, lendo a Enciclopédia Britânica inteira, não uma, mas pelo menos duas vezes.
Leu também o Dicionário Oxford (alguns dizem que foi o Webster's), palavra por palavra, concentrando-se na etimologia. Sua memória fotográfica, permitiu-lhe reter quantidades prodigiosas de informação.

Mais tarde, novamente de forma auto-didata, aprenderia francês e espanhol, e também trabalharia com várias formas de arte.

Clark Ashton Smith começou a escrever ficção aos onze anos, utilizando lendas medievais e as Mil e Uma Noites como referências, assim como os contos de fadas dos Irmãos Grimm, e as obras de Edgar Allan Poe (reconhecido por ter influenciado fortemente Smith).

Em 1922 recebeu  uma carta de um fã, HP Lovecraft - marcando o início de quinze anos de amizade e correspondência.

Apesar deste sucesso literário inicial, e de viver próximo de uma importante metrópole (Auburn) da época, Ashton escolheu viver uma vida tranquila e solitária no sopé das montanhas. De lá ele evocava tempos distantes do passado - Averoigne, Poseidonis (a última ilha submersa de Atlântida), Hiperbórea (localizada no Mioceno da Gronelândia), Xiccarph - e do futuro (Zothique, onde a feitiçaria e necromancia são redescobertos e a ciência esquecida.), conjurando novos mundos mágicos, fundindo ficção científica com fantasia, prosa com poesia.

Smith acrescentou também muito ao mito de Cthulhu, inspirado diretamente pelo amigo Lovecraft.

Com estilo rebuscado, suas fantasias são tecidas com uma linguagem incrivelmente rica, "lapidar", repleta de palavras exóticas retiradas de sua leitura de dicionários. Em contrapartida, sua ficção científica interplanetária é aventuresca mas bastante plana, e pouco 'científica', mas com a poética encontrada na sua fantasia.

Smith possuia uma prática interessante, pois sempre trabalhou ao ar livre, em uma mesa sob as árvores perto de casa, ou em outros locais da propriedade, levando os originais datilografados para ler em voz alta, para em seguida, digitar novamente até que estivessem do seu agrado.

Smith produziu em pouco mais de uma dezena de anos, livros de poesia (também em francês e espanhol), teses, e mais de uma centena de contos de diversos estilos. Também atuou como editor noturno em jornais da cidade, em parte para pagar os custos de impressão de seus livros.

Seus contos apareciam em revistas como Tales Strange, mas principalmente na revista Weird Tales, onde compôs o triunvirato da revista, junto com Lovecraft e Robert E. Howard. Era também contribuinte das revistas de Hugo Gernsback, Astounding Stories,Wonder Stories, Amazing Stories, etc, com 16 histórias publicadas durante entre 1930 e 1933.

No entanto, Smith foi severamente afetado por duas tragédias que ocorreram em um curto período de tempo: o suicídio de Howard  em 1936, e a morte (câncer) de Lovecraft em 1937. Como resultado, retirou-se de cena, marcando o fim de suas participações em revistas mais populares.

De fato, nos 25 anos seguintes, ele escreveria apenas uma dúzia de contos - um contraste marcante com a sua produtividade anterior.

Na verdade Smith sempre se mostrara frágil demais para a fama, e não conseguia respirar facilmente na atmosfera rarefeita dos clubes de intelectuais, ou nos salões literários de San Francisco. Quando Jack London o convidou a visitar sua casa, Smith recusou, afirmando que não tinha dinheiro para comprar o bilhete de trem, mas poderia muito bem ter sido devido à timidez.

Outra 'desculpa' usual de Smith, eram suas 'doenças crônicas'.
Aparentemente a doença de Smith foi além da hipocondria. A tuberculose o atormentaria por anos.
No entanto, fatores psicológicos estavam claramente envolvidos, incluindo depressão e distúrbios nervosos.
Seu mentor e ídolo, George Sterling, oferecera-se para colocá-lo em um sanatório, mas Smith recusou-se.

Mas Smith não ficou ocioso durante o último terço da sua vida. Mais uma vez ele voltou sua atenção para a arte. Smith pintava e desenhava (totalmente auto-didata). Ilustrações de cenas fantásticas e paisagens alienígenas com arquitetura sobrenatural, e que por conta do uso de cores berrantes, foram comparados com as do francês simbolista Odilon Redon.

Em 1935 Smith começara a criar esculturas "por acidente" ao pegar um pedaço de giz e perceber que era macio o suficiente para esculpir com um canivete. Smith fez experiências com outros materiais inusitados, incluindo pedra-sabão e arenito. Suas estatuetas e cabeças lembravam a arte pré-colombiana, e as cabeças famosas da Ilha de Páscoa, e outras figuras foram baseadas na mitologia clássica e, novamente, no universo de Lovecraft. Smith também esculpia vasos, castiçais e outros objetos "não-grotescos".

Smith vendeu muitas de suas pinturas, desenhos e esculturas por alguns dólares, mas a maioria foi simplesmente doado ou enviado aos seus correspondentes - incluindo Lovecraft, que foi fortemente influenciado pelas esculturas de Smith. 

No final dos anos 50, Smith ainda mantinha alguns hectares da propriedade familiar, mas um especulador de terras de Auburn quis comprar o restante, mas ele recusou todas as propostas. A partir dai sua propriedade passou a ser saqueada, vandalizada, e as urnas de seus pais tiveram suas cinzas espalhadas, até por fim, a casa sofreu um incêndio criminoso, queimando parcialmente alguns escritos seus , manuscritos e datilografados, e destruindo inéditos. Após o incêndio, já com a saúde bastante debilitada, Smith vendeu o terreno remanescente.

O mago de Auburn. morreu enquanto dormia, em 14 de agosto de 1961.

Apesar de nos seus últimos anos de vida, Smith ter praticamente parado de escrever ficção, sua obra continuou a ser publicado e a atrair a atenção, sendo até hoje referência da melhor literatura fantástica (ou "fantasia científica", como chamam alguns críticos) em lingua inglesa, produzida na primeira metade do século 20.

Escritores de ficção científica e fantasia como Ray Bradbury, Lin Carter, L. Sprague De Camp, Harlan Ellison, Robert E. Howard, Fritz Leiber, e Theodore Sturgeon, se declararam influencidados por Clark Ashton Smith.


site sobre Clark Ashton Smith


Clark Ashton Smith ( A Voyage to Sfanomoe, Abominations of Yondo, As adventure in Futurity, The Beast of Averoigne, Black Abbot of Puthuum, Chain of Aforgomon, The charnel God, Master of the asteroid, Demon of the flower, The double shadow, Dweller in the Gulf, The Enchantress of Sylairel, The end of the story, Epiphany of Death, The Eternal World, The flower women, Genius Loci, The ghost of Mohammed Din, Marooned in Andromeda, Master of the crabs, Maze of Maal Dweb, Maze of The Enchanter, Morthyla, The nameless offspring, Necromancy in Naat, The necromantic Tale, The phantoms of the fire, Phoenix, The primal city, Sadastor, Schizoid creator, El demonio del hielo, El extrano caso de Avoosl Wuthoqquan, El habitante de las profundidades de Marte, El idolo oscuro, El oraculo de Sadoqua, El retrato de Zatmpra Zeiros, El robo de los treinta y nueve cinturones, El testamento de Athammaus, Estirpe de la cripta, Hyperborea, La desolacion de Soom, La Llegada del gusano blanco, La marcha de Afrodita, La musa de Hyperborea, La puerta de Saturno, La raiz del ampoi, La santidad de Azedarac, La Sibila Blanca, Las abominaciones de Yondo, Las criptas de Yoh-vombis, Las estatuas de la noche, las siete prueblas, Los mundos perdidos, Mnemoka, Seleccion de poemas, Senor del asteroide, Siembla de Marte, The hunters from beyond, Ubbo, Vulthoom, Zothique el ultimo continente, Symposium of the Gorgon, Third episode of Vathek, Venus of Azumbeii, Willow landscape ) [ Download ]

Treze Fantasmas - Clark Ashton Smith





“Tenho sido fiel, Cínara, à minha maneira.”


John Alvitong tratou de levantar-se sobre o travesseiro enquanto murmurava para si a citação amplamente conhecida do poema de Downson. Porém sua cabeça e seus ombros caíram para trás com transbordante impotência, e se filtrou por seu cérebro como um fio de água gelada a compreensão de que talvez o doutor tivesse razão – talvez o final fosse realmente iminente. Pensou brevemente em fluídos de embalsamar, flores secas, cravos de ataúde e gramados murchos; mas tais idéias eram bastante distantes da tendência de seu pensamento, e preferiu pensar em Elspeth. Afastou seus fúnebres pensamentos com um conveniente estremecimento.

Muitas vezes pensava em Elspeth, nesses dias. Porém não a esquecia realmente em nenhum momento. Muita gente o chamava de sem-vergonha; porém ele sabia, e sempre haveria de saber, que estavam errados. Diziam que havia rasgado ou partido o coração de doze mulheres, incluindo os de suas duas esposas; e de um modo o suficientemente estranho, incluindo os exageros dos fofoqueiros, o número era correto. Contudo, ele, John Alvington, sabia com certeza que somente uma mulher, a que nada contava entre as doze, havia realmente importado realmente alguma vez em sua vida.

Havia amado a Elspeth e a ninguém mais. As outras mulheres foram todas um erro, ilusões: haviam lhe atraído só porque imaginou, durante períodos variáveis, que havia encontrado nelas algo de Elspeth. Havia sido cruel com elas provavelmente, e com absoluta certeza não lhes havia sido fiel. Porém ao enganá-las, não havia sido muito mais leal à Elspeth?

De algum modo a imagem que tinha dela agora era mais clara, mais do que antes.

Como se tivesse sacudido o pó acumulado de um retrato, via com estranha claridade a inquieta ironia de seus olhos e o ligeiro sacudir de seus cabelos castanhos que sempre acompanhava seu sorriso jovial. Era inesperadamente alta para uma pessoa tão semelhante a um duende, porém tanto mais admirável por isso; e ele nunca havia gostado de outra coisa a não ser de mulheres altas.

Com tanta freqüência tinha ficado maravilhado, como ante um fantasma, ao encontrar outra mulher de maneiras similares, similar figura ou expressão de olhos ou cadência de voz; e que absoluta foi sua decepção quando chegou a ver a irrealidade e falsidade do que era parecido. Que irreparavelmente ela, o amor verdadeiro, se havia interposto antes ou depois entre ele e todas as demais.

Começou a recordar coisas que quase havia esquecido, tais como o camafeu que ela havia levado depois do dia em que se conheceram, e um pequeno sinal em seu ombro esquerdo, de que havia olhado numa ocasião quando ela usava um vestido por demais decotado para aquela época. Muito recordava a roupagem lisa e verde-pálido que se aderia tão deliciosamente em sua esbelta silhueta naquela manhã em que ele se foi precipitadamente com um rápido adeus, para não voltar a vê-la...

Nunca, pensava, havia sido sua memória tão boa: seguramente o médico estava equivocado, pois não se havia produzido debilidade alguma de suas faculdades. Era quase impossível que estivesse mortalmente enfermo, quando podia evocar todas as lembranças de Elspeth com tal desenvoltura e clareza.

Agora repassava todos os dias de seu compromisso de sete meses, que podia ter terminado em um ditoso casamento se não tivesse sido por sua propensão a tomar ofensas irracionais, e pela própria explosão de temperamento com que reagia e sua falta de tática conciliatória na disputa crucial. Que próximo, que doloroso resultava tudo. Perguntou a si mesmo que malvado desígnio havia ordenado sua separação e o havia enviado a uma busca vã de um rosto a outro rosto ilusório para o resto de sua vida.

Não recordava, não podia recordar outras mulheres – somente lembrava que havia sonhado de algum modo por um breve espaço de tempo que se pareciam com Elspeth. Outros poderiam considerá-lo um Don Juan – porém ele se considerava um sentimental sem remédio, se é que alguma vez houve algum.

Que ruído era aquele, perguntou a si mesmo. Alguém havia aberto a porta de casa? Devia ser a enfermeira, pois ninguém mais viria a essa hora da tarde.

A enfermeira era uma moça agradável, porém não era como Elseth.

Tentou virar-se um pouco para poder vê-la, e de alguma maneira conseguiu, graças a um esforço titânico completamente desproporcional ao fraco movimento.

Não era a enfermeira, pois ela ia sempre vestida de um branco imaculado que correspondia à sua profissão. Esta mulher trajava um vestido de cor verde viçoso e agradável, pálido como o verde da água na superfície do mar. Não pôde ver seu rosto, pois permanecia em pé com as costas para a cama; porém havia algo estranhamente familiar naquele vestido, algo que quase não podia recordar, a principio. Logo, com um claro sobressalto, supôs que se parecia com o vestido que Elspeth levava no dia de sua disputa, o mesmo vestido que havia estado representando um pouco antes. Ninguém usava nunca um vestido de semelhantes medidas e estilo, hoje em dia. Quem em todo o mundo poderia ser? Havia uma curiosa familiaridade com respeito a sua figura, também, pois era bastante alta e esbelta.

A mulher se voltou, e John Alvington viu que era Elspeth – a própria Elspeth da qual se havia separado com um amargo adeus, e que havia morrido sem permitir-lhe sequer vê-la outra vez. E contudo como poderia ser Elspeth, se estava morta a tanto tempo? Logo, por uma questão de lógica, como poderia ela haver morrido alguma vez, posto que estivesse ali, diante dele, naquele momento? Parecia infinitamente preferível crer que estava viva, e ele desejava tanto falar-lhe, porem a voz falhou quando tentou pronunciar seu nome.

Agora pensou que ouvia a porta abrir-se outra vez, e foi consciente de que outra mulher permanecia nas sombras atrás de Elspeth. Essa se adiantou, e observou que trajava um vestido verde, idêntico em cada detalhe àquele que usava sua amada. Ela levantou a cabeça – e o rosto era o de Elspeth, com os mesmos olhos zombadores e boca caprichosa. Porém como podia haver duas Elspeths?

Com profundo desconcerto, tratou de acostumar-se a extravagante idéia; e ainda assim, enquanto lutava com um problema tão incompreensível, uma terceira figura de verde pálido, seguida por uma quarta e uma quinta, entrou e se colocou atrás das duas primeiras. E não foram estas as últimas, pois outras entraram uma a uma, até que o quarto ficou repleto de mulheres, todas elas com os modos e aparência de sua noiva morta.

Nenhuma delas pronunciou uma palavra, porém todas olhavam Alvington com uma expressão na qual parecia agora discernir um gracejo mais profundo que o travesso encanto que uma vez havia encontrado nos olhos de Elspeth.

Ficou muito quieto, lutando com uma obscura e terrível perplexidade. Como podia haver tal multidão de Elspeths, quando ele só podia lembrar de ter conhecido uma? E quantas havia de todo modo? Algo o impulsionou a contá-las, e achou que havia treze fantasmas de verde. E após assegurar-se deste ato, se sentiu sacudido por algo familiar com respeito ao número. Não dizia o povo que ele havia partido o coração de treze mulheres? Ou eram no total somente doze? De qualquer maneira, contando a própria Elspeth, quem realmente havia partido  o coração, havia treze.

Então todas as mulheres começaram a agitar seus cabelos, de uma maneira que ele recordava muito bem, e todas elas riram com uma risada ligeira e brincalhona. Poderiam estar rindo dele? Elspeth havia feito isso muitas vezes porém ele a havia amado com devoção apesar de tudo...

De repente, começou a sentir-se inseguro acerca do numero exato de figuras que enchiam sua morada; pareceu-lhe, em um momento, que eram mais do que havia contado, e depois, que eram menos. Perguntou-se quem dentre elas era a verdadeira Elspeth, porque depois de tudo sentiu confiança de que nunca havia existido uma segunda – só uma série de mulheres que se assemelhavam em aparência e que não eram em realidade como ela de modo algum , uma vez que chegava a conhecê-las.

Finalmente, conforme tratava de contá-las e escrutar os rostos apinhados, todos se tornaram imprecisos, confusos e indefinidos, e quase esqueceu o que estava tratando de fazer...Qual delas era Elspeth? Ou será que havia existido alguma vez uma autêntica Elspeth?

Não estava seguro de nada, no final, quando chegou o esquecimento e passou a esse território no qual não existem nem as mulheres, nem os fantasmas, nem o amor e nem os problemas numéricos.




Tradução de Rogério Silvério de Farias

sábado, 12 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 11)



O PRÉDIO DO Palácio de Justiça na Mission Street, no telhado do qual desceu o hovercar, projetava-se para cima numa série de espirais barrocas, ornamentadas.
Complicada e moderna, a bela estrutura pareceu atraente a Rick Deckard — exceto por um único aspecto. Nunca a vira antes.

O carro pousou. Minutos depois, ele estava sendo identificado.
— 0.304 — disse o guarda Crams ao sargento de serviço na alta escrivaninha. — E... 612.4 e, deixe-me ver. Fazendo-se passar por policial?
— 406.7 — disse o sargento, preenchendo formulários. Escrevia preguiçosamente, de uma maneira algo entediada.
Caso de rotina, declaravam sua postura e expressão. Nada de importância.
— Para ali — disse o guarda Crams, levando-o para uma pequena mesa branca, na qual um técnico operava equipamento conhecido. — Para tirar seu padrão cefálico — explicou Crams. — Para fins de identidade.
— Eu sei — disse bruscamente Rick.

Nos velhos dias, quando ele mesmo fora policial fardado, trouxera muitos suspeitos para uma mesa como aquela. Como esta mesa, mas não esta mesa em particular.
Tirado o padrão cefálico, foi levado para uma sala igualmente conhecida.

Pensativo, começou a juntar seus artigos de valor para entregá-los.
Isto não faz sentido, disse a si mesmo. Quem são estas pessoas? Se este lugar sempre existiu, por que nada sabíamos a respeito dele? Dois órgãos policiais paralelos, pensou, o nosso e este aqui. Mas que nunca entraram em contato — tanto quanto sei — até agora. Ou talvez tenham, refletiu. Talvez esta não seja a primeira vez. É difícil acreditar que isto não tenha acontecido há muito tempo. Se isto aqui é, realmente, um organismo policial, se é o que afirma que é.

Um homem, à paisana, afastou-se do lugar onde estivera até então e aproximou-se de Rick Deckard em passos medidos, tranqüilos, fitando-o, curioso.
— O que é, esse aí? — perguntou ao guarda Crams.
— Um suspeito de homicídio — respondeu Crams. — Temos um cadáver: encontramo-lo no carro dele, mas ele alega que é um andróide. Estamos examinando isso, fazendo uma análise de medula óssea no laboratório. E passando por policial, caçador de cabeças. A fim de obter acesso ao camarim de uma mulher, a fim de fazer-lhe perguntas sugestivas. Ela duvidou que ele fosse o que dizia e nos chamou. — Dando um passo atrás, perguntou Crams: — Quer acabar o interrogatório dele, senhor?
— Muito bem. — O policial graduado, à paisana, olhos azuis, nariz estreito de narinas largas e lábios inexpressivos, olhou para Rick e em seguida estendeu a mão para tomar-lhe a pasta.
— O que é que o senhor tem aí, Sr. Deckard?
— Material relativo ao Teste de Personalidade Voigt-Kampff — respondeu Rick. — Eu estava submetendo um suspeito a teste quando o guarda Crams me prendeu.

Observou o policial inspecionar o conteúdo da pasta, examinando cada um dos artigos.
— As perguntas que fiz à Sra. Luft são questões-padrão Y-K, impressas no...
— O senhor conhece George Gleason e Phil Resch? — perguntou o policial.
— Não — respondeu Rick. Nenhum desses nomes significava coisa alguma para ele.
— Eles são os caçadores de cabeça da região norte da Califórnia. Ambos adidos ao nosso Departamento. Talvez os conheça, enquanto está aqui. O senhor é andróide, Sr. Deckard? O motivo por que pergunto isto é que, no passado, tivemos por aqui vários andros fugitivos passando por caçadores de cabeças de fora do Estado, à procura de um suspeito.
— Eu não sou andróide — retrucou Rick. — Pode me aplicar o Teste Voigt-Kampff. Fui submetido a ele antes e não me importo de passar pela mesma coisa outra vez. Mas sei quais vão ser os resultados. Posso telefonar para minha esposa?
— O senhor tem direito a um único telefonema. Prefere telefonar para ela ou para seu advogado?
— Telefonarei para minha esposa — decidiu Rick. — Ela pode me arranjar um advogado.

O policial à paisana entregou-lhe uma moeda de cinqüenta centavos e apontou:
— Há um videofone ali. — Ficou observando enquanto Rick se dirigia ao telefone. Em seguida, voltou ao exame do conteúdo da pasta.
Inserindo a moeda, Rick discou o número de casa. Ficou à espera durante o que lhe pareceu uma eternidade.

Finalmente, um rosto de mulher apareceu na videotela.
— Alô — disse ela.
Não era Iran. Nunca vira aquela mulher antes em toda sua vida.

Desligou e voltou em passos lentos para junto do policial.
— Sem sorte? — perguntou o policial. — Bem, pode dar outro telefonema, Nós temos uma política liberal a este respeito. Não posso lhe oferecer a oportunidade de telefonar para um defensor público porque seu crime é inafiançável. Quando for indiciado, contudo...
— Eu sei — retrucou amargo Rick. — Conheço bem o procedimento policial.
— Eis aqui sua pasta — disse o oficial. Devolveu-a a Rick. — Venha até meu gabinete... Gostaria de conversar mais com o senhor, — Começou a descer um corredor lateral, Rick atrás dele. Em seguida, parando e voltando-se para ele, disse: — Meu nome é Garland. — Estendeu a mão, que Rick apertou. — Sente-se — disse, quando abriu a porta do gabinete e se acomodou por trás de uma grande escrivaninha nua.

Rick sentou-se de frente para ele.
— Esse Teste Voigt-Kampíf que o senhor mencionou — disse Garland, indicando a pasta de Rick —, todo esse material que você leva — encheu e acendeu um cachimbo, tirando baforadas durante algum tempo — é um instrumento analítico para identificar andros?
— É o nosso teste básico — retrucou Rick. — O único que empregamos atualmente. O único capaz de identificar a nova unidade cerebral Nexus-6. Nunca ouviu falar neste teste?
— Ouvi falar de várias escalas de análise de perfil, para emprego com andróides. Mas não desse. — Continuou a olhar atentamente para Rick, pomposo o seu rosto. Rick não podia imaginar o que ele estava pensando. — Essas cópias a carbono apagadas — continuou Garland — que o senhor tem aí em sua pasta. Polokov, Srta. Luft...suas missões. O seguinte na lista sou eu.

Rick olhou-o fixamente e, em seguida, agarrou a pasta.

Um momento depois, as cópias a carbono estavam espalhadas à sua frente.
Garland dissera a verdade. Examinou a folha. Nenhum dos dois homens — ou melhor, nem ele nem Garland — falou durante algum tempo.

Em seguida, Garland pigarreou, e tossiu, nervoso.
— É uma sensação desagradável — disse ele — descobrir subitamente que se está na lista de missões de um caçador de cabeças. Ou o que quer que você seja, Deckard.

Apertou um botão na escrivaninha e disse: — Envie aqui um dos caçadores de cabeça. Não me interessa qual. Muito bem, obrigado. — Soltou o botão. — Phil Resch chega dentro de um minuto ou dois — disse a Rick. —Quero que você veja a lista dele, antes de eu continuar.
— O senhor acha que eu posso estar na lista dele? — perguntou Rick.
— É possível. Vamos saber logo. É melhor termos certeza a respeito destes assuntos críticos. Melhor não deixar nada ao acaso. Esta folha de informações sobre mim... — Indicou a cópia apagada. — Ela não me lista como inspetor de polícia. Inexatamente, dá minha ocupação como corretor de seguros. À parte isso, está correta quanto à descrição física, hábitos pessoais, endereço residencial. Sim, sou eu, tudo certo. Veja por si mesmo. — Empurrou a página para Rick, que a apanhou e leu rapidamente.

Abriu-se a porta nesse momento e entrou um homem alto, descarnado, feições duras, usando óculos de aro de osso e barba fofa em ponta. Garland levantou-se, indicando Rick.
— Phil Resch, Rick Deckard. Vocês dois são caçadores de cabeça e, provavelmente, chegou a ocasião de se conhecerem.
Apertando a mão de Rick, perguntou Phil Resch:
— A que cidade você está adido?
Garland respondeu por Rick:
— São Francisco. Aqui. Dê uma olhada na agenda dele. Este aqui é o próximo. — Entregou a Phil Resch a folha que Rick estivera examinando, a que continha sua descrição.
— Hei, Gar — comentou Phil Resch —, esse aí é você.
— E há mais — continuou Garland. — Ele tem também Luba Luft, a cantora de óperas, em sua lista de missões de aposentadoria, e Polokov. Lembra-se de Polokov? Está morto, agora. Este caçador de cabeças, ou andróide, ou o que quer que seja, pegou-o, e estamos neste momento fazendo um exame de medula óssea no laboratório. Para ver se há alguma base concebível para...
— Eu conversei com Polokov — disse Phil Resch. — Aquele Papai Noel grandalhão da polícia soviética? — Pensou um pouco, dando puxões na barba desalinhada. — Acho que será uma boa idéia fazer uma análise de medula óssea dele.
— Por que é que você diz isso? — perguntou Garland, evidentemente aborrecido. — Isto eliminaria qualquer base legal, na qual esse homem, Deckard, poderia alegar que não matou ninguém. Teria simplesmente "aposentado um andróide".
— Polokov pareceu-me frio — observou Phil Resch. — Externamente cerebral e calculador. Desligado.
— Um bocado de policiais soviéticos são assim — contestou Garland, visivelmente irritado.
— Quanto a Luba Luft — continuou Phil Resch —, não a conheço ainda. Embora tenha discos que ela gravou. A Rick, disse: — Você submeteu-a a um teste completo?
— Comecei — explicou Rick. — Mas não consegui uma leitura exata. Ela chamou o patrulheiro, que acabou com tudo.
— E Polokov? — perguntou Phil Resch.
— Tampouco consegui a mínima chance de submetê-lo a teste.
Principalmente para si mesmo, Phil Resch voltou a falar:
— E suponho que você também não teve uma oportunidade de submeter a teste o Inspetor Garland aqui.
— Claro que não — interrompeu Garland, sua face vincada de indignação. Calou-se, amargo e zangado,
— Que teste você usa? — quis saber Phil Resch.
— A Escala Voigt-Kampff.
— Não o conheço — Resch e Garland pareciam mergulhados em rápidos e profissionais pensamentos, mas não em uníssono. — Eu sempre disse — continuou ele — que o melhor lugar para um andróide esconder-se seria numa grande organização policial, como o W.P.O. Desde que conheci Polokov, quis testá-lo, mas não surgiu pretexto algum. E tampouco teria surgido. o que é um dos bons motivos por que um lugar desses seria bom para um andróide empreendedor.

Levantando-se devagar de sua cadeira, o Inspetor Garland olhou para Phil Resch e perguntou:
— Você também teve vontade de me testar?

Um discreto sorriso passou pelos lábios de Phil Resch. Começou a responder e, em seguida, encolheu os ombros. E continuou calado.
Não parecia receoso de seu superior, a despeito da visível raiva de Garland.
— Acho que você não compreende a situação — disse Garland. — Este homem, ou andróide, Rick Deckard, chega às nossas mãos vindo de um órgão policial fantasmagórico, alucinatório, inexistente, que supostamente opera a partir da velha sede departamental na Lombard Street. Nunca ouviu falar em nós e nós nunca ouvimos falar nele, embora, ostensivamente, estejamos trabalhando do mesmo lado da rua. Emprega um teste do qual nunca ouvimos falar. A lista que tem não é de andróides. É uma lista de seres humanos. Já matou uma vez, pelo menos uma vez, E se a Srta. Luft não houvesse conseguido chegar ao telefone, provavelmente a teria morto e, no fim, viria me caçar.
— H-h-hummm — comentou Phil Resch.
— H-h-hummm — imitou-o furioso Garland. Nesse momento, parecia que estava prestes a ter um ataque de apoplexia, — Isso é tudo o que você tem a dizer?

Uma voz feminina disse no intercomunicador:
— Inspetor Garland, acaba de chegar o laudo do laboratório sobre o cadáver do Sr. Polokov.
— Acho que deveríamos ouvi-lo — opinou Phil Resch.

Garland fitou-o, fumegando de raiva. Em seguida, inclinou-se, e apertou a chave do intercomunicador.
— Leia-o, Srta. French.
— O teste de medula óssea — leu a Srta. French — demonstra que o Sr. Polokov era um robô humanóide. O senhor quer um detalhado...
— Não, isso é suficiente. — Garland recostou-se em sua cadeira, olhando sombrio para a parede da sala. Não se dirigiu nem a Rick nem a Phil Resch.
— Qual é a base de seu Teste Voigt-Kampff, Sr. Deckard?
— Reação empática. Numa grande variedade de situações sociais. Principalmente, dizendo respeito a animais.
— O nosso é provavelmente mais simples — comentou Resch. — A reação de arco reflexo que ocorre nos gânglios superiores da coluna vertebral vários microssegundos mais num robô humanóide do que num sistema nervoso humano. — Puxando um bloco de papel da mesa do Inspetor Garland, fez um desenho com uma caneta esferográfica. — Utilizamos um sinal de áudio ou um pisca-pisca. O sujeito aperta um botão, e o tempo decorrido é medido. Tentamos isso um bocado de vezes, claro. O tempo decorrido varia em andros e humanos. Mas quando dez reações são medidas, achamos que temos uma pista segura. E, como no seu caso com Polokov, o teste de medula óssea confirma nossos resultados.

Ocorreu um intervalo de silêncio antes de Rick responder:
— O senhor pode me testar. Estou pronto. Naturalmente, eu gostaria de testá-lo, também. Se estiver disposto.
— Naturalmente — concordou Resch. Nesse momento, porém, ele olhava criticamente para o Inspetor Garland. — Eu digo há anos — murmurou — que o Teste de Arco Reflexo Boneli deve ser aplicado rotineiramente ao pessoal da polícia, quanto mais alto o indivíduo na cadeia de comando, melhor. Não digo, Inspetor?
— Isso é um direito que você tem — retrucou Garland. — E eu sempre fui contra isso. Com base no fundamento de que esse procedimento abaixaria o moral do departamento.
— Mas eu acho agora que o senhor tem que se submeter a ele — disse Rick. — Tendo em vista o laudo de seu laboratório sobre Polokov.
— Acho que sim — concordou Garland. Apontou um dedo para Phil Resch. — Mas estou-lhe avisando: você não vai gostar dos resultados dos testes.
— O senhor sabe o que é que eles vão ser? — perguntou Resch, visivelmente surpreso. Não parecia contente.
— Quase completamente — retrucou o Inspetor Garland.
— Muito bem. — Resch inclinou a cabeça. — Vou lá em cima apanhar o equipamento Boneli.

Foi até a porta, abriu-a, e desapareceu pelo corredor.
— Volto dentro de três ou quatro minutos — disse a Rick, antes de sair.
A porta fechou-se às suas costas

Mexendo na gaveta superior do canto direito da mesa, o Inspetor Garland procurou e achou um tubo laser, que virou até apontar para Rick.


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 11) [ Download ]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fangoria 001 (1979)
































Fangoria 001 (1979) [ Download ]

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Nunca se sabe - Fanzine Mensal



Literatura Barata: NUNCA SE SABE -Vol. 1

Ficção Especulativa, Terror, Horror, Histórias em Quadrinhos e Pulp Fiction.














Mais de Hugo Máximo

terça-feira, 8 de junho de 2010

Skoop


O skoob é o local onde você diz o que está lendo, o que já leu e o que ainda vai ler, seus amigos fazem o mesmo e assim, todos compartilham suas opiniões e críticas.

É também um lugar para fazer novos amigos, tem muita gente que gosta dos mesmos livros que você, nosso papel é ajudá-lo a encontrar essas pessoas e saber quais são suas dicas para a sua próxima leitura.

Como usar:
O primeiro passo é se cadastrar no skoob, tornando-se um "skoober", depois adicione seus livros à sua estante. A partir daí as coisas começam a ficar mais divertidas, existem várias ferramentas no site para você interagir com outros skoobers.

Projeto Livro Falado



Agência Brasil

RIO - O projeto Livro Falado lançou esta semana o site www.livrofalado.pro.br , onde deficientes visuais podem ter acesso a mais de 350 livros gravados, de cerca de 280 autores brasileiros. O objetivo também é atender pessoas com cegueira dos outros países de língua portuguesa: Portugal, Angola, Moçambique, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau disse à Agência Brasil a criadora do projeto, a mestre em teatro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Analu Palma.

Para isso, o projeto, que existe há dez anos, conta com patrocínio da BR Distribuidora e a parceria da Academia Brasileira de Letras (ABL). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, a prevalência de cegueira na população é de 0,3% e de baixa visão, 1,7%. A pessoa com baixa visão é aquela que mesmo após tratamentos ou correção óptica apresenta diminuição considerável de sua função visual.

O projeto Livro Falado pretende incluir os deficientes visuais em duas instâncias: na questão da literatura, de acesso ao livro; e no tocante à qualificação para o ator cego.

Analu Palma é autora do livro falado Uma História para Ler, Gravar e Ouvir, em que apresenta para as pessoas as habilidades e dificuldades de uma criança que não enxerga, além de ensinar como se grava livros para deficientes visuais. Com base nesses ensinamentos, ela começou a ministrar oficinas do livro falado. Já foram capacitados, até agora, mais de 400 ledores em todo o país.

Os ledores voluntários são qualificados e aprendem como transformar um livro impresso em uma obra acessível em áudio para uma pessoa que não enxerga. Outro procedimento é aprender a gravar em um programa de computador para que o livro já fique em CD. A terceira fase da oficina se refere à voz do voluntário, ou seja, ensina como ter uma boa dicção, além de boa leitura.

Para acessar os livros gravados, as pessoas cegas devem acessar o site Agência Brasil

RIO - O projeto Livro Falado lançou esta semana o site www.livrofalado.pro.br , onde deficientes visuais podem ter acesso a mais de 350 livros gravados, de cerca de 280 autores brasileiros. O objetivo também é atender pessoas com cegueira dos outros países de língua portuguesa: Portugal, Angola, Moçambique, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau disse à Agência Brasil a criadora do projeto, a mestre em teatro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Analu Palma.

Para isso, o projeto, que existe há dez anos, conta com patrocínio da BR Distribuidora e a parceria da Academia Brasileira de Letras (ABL). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, a prevalência de cegueira na população é de 0,3% e de baixa visão, 1,7%. A pessoa com baixa visão é aquela que mesmo após tratamentos ou correção óptica apresenta diminuição considerável de sua função visual. O projeto Livro Falado pretende incluir os deficientes visuais em duas instâncias: na questão da literatura, de acesso ao livro; e no tocante à qualificação para o ator cego.

Analu Palma é autora do livro falado Uma História para Ler, Gravar e Ouvir, em que apresenta para as pessoas as habilidades e dificuldades de uma criança que não enxerga, além de ensinar como se grava livros para deficientes visuais. Com base nesses ensinamentos, ela começou a ministrar oficinas do livro falado.

Já foram capacitados, até agora, mais de 400 ledores em todo o país.

Os ledores voluntários são qualificados e aprendem como transformar um livro impresso em uma obra acessível em áudio para uma pessoa que não enxerga. Outro procedimento é aprender a gravar em um programa de computador para que o livro já fique em CD. A terceira fase da oficina se refere à voz do voluntário, ou seja, ensina como ter uma boa dicção, além de boa leitura.

Para acessar os livros gravados, as pessoas cegas devem acessar o site www.livrofalado.pro.br .
Para obter a gravação de um livro específico, é preciso enviar e-mail para livrofalado@livrofalado.pro.br.

A remessa é gratuita.
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Para obter a gravação de um livro específico, é preciso enviar e-mail para livrofalado@livrofalado.pro.br.
A remessa é gratuita.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Fantástica - Falando da Ficção Nacional



Apresentação da revista digital Fantástica:

É com satisfação que apresentamos este projeto, que será muito relevante à literatura nacional.
A FANTÁSTICA é talvez a primeira revista digital voltada EXCLUSIVAMENTE para a literatura fantástica nacional.

A grande motivação da FANTÁSTICA é criar um meio forte que consiga unir todos os públicos deste gênero, que ainda nos parecem um pouco dispersos.

A FANTÁSTICA é feita por autores e idealizada para todos os apreciadores deste gênero, tão adorado por tantos. Todos os envolvidos de alguma forma na ficção nacional, sejam leitores ou autores, terão seu espaço dentro da revista, que é GRATUITA, e está aí justamente para dar o suporte a todos que estiverem na batalha e acreditam em seu talento.

domingo, 6 de junho de 2010

Edmond Hamilton



Edmond Hamilton (21 de novembro de 1904 - 01 de fevereiro de 1977) nasceu em Youngstown, Ohio (EUA).

Na história da ficção científica, poucos autores foram capazes de fazer a transição, dos primeiros dias de pseudo-ciência, para a dura realidade do mundo pós-nuclear.


E entre os que fizeram, menos ainda foram aqueles capazes de se adaptar às mudanças, da Guerra Fria, às convulsões sociais dos anos 60. Poucos conseguiram escrever contos e romances ao longo de tudo isso: desde a criação da Space Opera, ao primeiro pouso na Lua e além.

Um desses autores foi Edmond Hamilton.

Criança prodígio, Hamilton entrou na faculdade aos 14 anos de idade, com o sonho de se tornar um engenheiro elétrico. Infelizmente as discrepâncias de idade entre Hamilton e os outros alunos, fizeram muito difícil para ele adaptar-se socialmente ao seu novo ambiente, e nunca concluíu o curso.

Aos 17 anos conseguiu um emprego na Pennsylvania Railroad, enquanto tentava descobrir o que fazer com o resto de sua vida.

Hamilton sempre foi um leitor voraz, especialmente das obras de Burroughs e apesar de nunca ter demonstrado qualquer inclinação para a escrita, em meados dos anos 20, decidiu ser um escritor.

Se esta decisão foi apenas um exercício intelectual ou nasceu da necessidade de melhorar de vida, não é conhecida, mas sua primeira tentativa literária, o conto "O Monstro da Mamurth-Deus", foi submetido a revista Weird Tales e aceito, e foi publicado em 1926.
Sua segunda história foi aceita com a mesma facilidade, e num tempo muito curto, Hamilton tornou-se um autor estabelecido.

Suas histórias de horror, assim como histórias de ficção científica, tinham o estilo "space opera" de EE "Doc" Smith.

Hamilton também ganhou o apelido de "Destruidor de Mundos", já que a maioria destes contos envolvia uma grande ameaça para a galáxia, e que tinha que ser derrotada, geralmente, por uma armada espacial e acabava com a destruição de um planeta ou dois.

Dos anos 20 até meados dos anos 40, Hamilton trabalhou como escritor freelance, e foi muito prolífico, escrevendo frequentemente vários contos, simultaneamente enquanto trabalhava em romances. Ele também escreveu mistério policial, durante os períodos de baixa na venda de ficção científica.

Algumas estimativas sugerem que sua produção de contos possui números na ordem das centenas, mas como alguns dos trabalhos de Hamilton foram publicados sob pseudônimo, o verdadeiro número não poderá nunca ser conhecido.

Hamilton também concebeu uma série de novidades na FC, incluindo a primeira utilização de um traje espacial, a primeira caminhada espacial, e o primeiro uso de uma espada de energia, o protótipo para o que George Lucas, um fã de Hamilton, chamaria de sabre de luz.

A final dos anos 40, Hamilton diminuiu sua produção como escritor. Primeiro por que casou-se com a autora de FC Leigh Brackett, depois porque decidiu dedicar-se aos quadrinhos, um mercado que começava a tomar corpo e pagar boas quantias aos escritores.

Exatamente como ele entrou para os quadrinhos é um mistério. Seu velho amigo e ex-editor, Mort Weisinger, tinha sido o editor sênior da Standard Magazine, antes de se mudar para a DC Comics em 1941.
Logo após, ele e Hamilton, criaram o personagem Captain Future, que posteriormente viraria uma franquia de sucesso comercial nos EUA.

O primeiro trabalho de Hamilton na DC Comics, que se tem registro, foi em Batman número 11.
Inicialmente contratado como escritor de Batman, Hamilton foi logo dando sugestões e criando histórias também para Superman e muitos outros.

Foi de Hamilton, o título mais famoso e prestigiado da revista Superman, entre os críticos de quadrinhos, "Superman Sob o Sol Vermelho", que apareceu em Action Comics num.300, em 1963, e que tem muitos elementos em comum com seu romance 'A Cidade No Fim do Mundo' (1951).

Em 1966, Hamilton anunciou sua aposentadoria, deixando os leitores da DC e os amantes da Ficção Científica tristes.


Edmond Hamilton (Children of the sun, Moon of unforgotten, Calling Captain Future, A conquest of two Worlds, A Yank at Valhala, Battle for the stars, Birthplace of Creation, The Comet Kings, The face of the Deep, Red sun of danger, The harpers of Titan, Pardon my nerves, Earthmen no more, Jupiter, Pluto, Mars, Futuria, Children of the Sun, Devoltuion, Doomstar, Exile, Fugitives of the stars, Murder in the Void, Starwolf Omnibus, The City at World's End, The Futuremen Collection, The Godmen, The Haunted Stars, The man who evolved, The Monster-God of Mamurth, The Monsters of Juntonheim, The Star Hunters, The Star Kings, The Stars my brothers, The Sun Smasher, The Three Planeteers, The Valley of Creation, What's it like out there, Exilio, Terra extrana ) [ Download ]