sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

John Howe - O Senhor dos Anéis











John Howe Artbook [ Download ]

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ficção científica e ensino de ciências



Tem sido comum a proposta de empregar filmes de ficção científica — FC — para introduzir conceitos de ciência em sala de aula (Southworth, 1987; Martin-Diaz et al., 1992; Dubeck et al., 1990; 1993; 1998; Freudenrich, 2000; Dark, 2005).

No entanto, muitas vezes, o potencial didático de uma obra é associado à precisão científica das situações retratadas. Assim, filmes que exibem cenas fantasiosas ou mesmo flagrantemente contrárias ao conhecimento científico seriam didaticamente menos relevantes do que as que trazem situações realistas.

Nas pesquisas em ensino de ciências, no entanto, a noção de “erro” conceitual tem sido examinada com critérios menos valorativos, seja por aquelas baseadas no desenvolvimento cognitivo, derivadas dos trabalhos pioneiros de Viennot (1979) e de Saltiel e Viennot (1985), seja pelas ligadas à história e à natureza do conhecimento científico, que mostram como o desenvolvimento do conhecimento no plano individual está sujeito a indefinições e obstáculos similares aos da construção do conhecimento social da ciência, aspecto já destacado nos anos 1980 por Gilbert e Zylbersztajn (1985).

Além disso, também não é possível ignorar que a obra ficcional segue suas próprias leis: aquilo que um cientista consideraria um erro pode constituir uma estratégia narrativa fundamental para que a história atinja o efeito pretendido pelo autor.

Nessas duas vertentes do erro — etapa do conhecimento e estratégia narrativa — há um aspecto em comum: a apreensão do real a partir de conceitos para representar o mundo por meio da linguagem. As pesquisas em ensino mencionadas baseiam-se, sobretudo, em dados da expressão verbal dos estudantes sobre fenômenos e situações. São narrativas sobre o mundo, calcadas em experiências que embora possuam referências na vivência direta com o mundo, são predominantemente representações culturais coletivas da ciência. A FC, por outro lado, destrincha essas experiências culturais a partir de ideias científicas e colocam-nas sob a perspectiva das questões humanas a elas subjacentes.humanas a elas subjacentes.

Interessa verificar se tais aspectos do erro (etapa de aprendizagem e procedimento narrativo) são epistemologicamente conciliáveis, de forma a ser possível estabelecer entre eles uma relação de necessidade. Se não, a ficção será quando muito um simples recurso para estimular o estudante e facilitar o ensino.

Entretanto, se há uma relação intrínseca entre a questão conceitual da ciência e a lógica ficcional, talvez seja possível encontrar nas obras de ficção algo mais profundo do que uma simples estratégia agradável de ensino.

(...)


Ficção científica e ensino de ciências: para além do método de ‘encontrar erros em filmes’ [ Download ]
Luís Paulo Piassi e Maurício Pietrocola

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Viagem do Peregrino da Alvorada - As Crônicas de Nárnia - C. S. Lewis



[...Era uma vez um garoto chamado Eustáquio Clarêncio Mísero, e na verdade bem merecia esse nome.
Os pais diziam Eustáquio Clarêncio, e os professores, apenas Mísero. Não posso dizer como era chamado pelos amigos, pois não tinha amigos. Não tratava o pai e a mãe por papai e mamãe, mas por Arnaldo e Alberta. Os pais eram gente moderna, de idéias abertas. Vegetarianos, não fumavam nem bebiam, e usavam roupa de baixo de fabricação especial. Havia muito pouca mobília em sua casa, pouquíssima roupa de cama e mantinham sempre as janelas escancaradas.

Eustáquio gostava de animais,especialmente de besouros quando estavam mortos e espetados num cartão. Também gostava de livros instrutivos, com gravuras em que se podiam ver armazéns para guardar cereais ou robustas crianças estrangeiras fazendo ginástica em escolas-modelo.

Eustáquio não gostava nada mesmo era dos primos, os quatro Pevensie: Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia. Mas ficou contentíssimo quando soube que Edmundo e Lúcia vinham passar uns tempos com ele, pois lá no fundo adorava bancar o mandão e chatear os outros. Apesar de ser um molengão, que na hora da briga não conseguia nem enfrentar Lúcia, e muito menos Edmundo, sabia que há muitas maneiras de aborrecer os outros, quando a casa é da gente e eles são nossos hóspedes...]

A Viagem do Peregrino da Alvorada - As Crônicas de Nárnia - C. S. Lewis [ Download ]

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

1º Convescot Steampunk de 2011 e Steamcast 001

A Loja São Paulo do Conselho steampunk convida toda a sociedade neo-vitoriana para um passeio ao ar livre e um saboroso piquenique. Este encontro social ocorrera no dia 13 de fevereiro de 2011 a partir das 13:30 no Parque do Ipiranga, São Paulo. Após o piquenique os participantes estão convidados a conosco visitar o Museu Paulista.
Lady Bigby

Entrevista com Fábio Ori

Steamcast 001 do Conselho Steampunk

SteamPunk ~ SteamCast ~ Interview with Kevin Mowrer (Português/English) from Conselho SteamPunk on Vimeo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Lançamento - Space Opera

SPACE OPERA é um subgênero da Ficção Científica que destaca aventuras espaciais e planetárias, utilizando-se muitas vezes de cenários exóticos e personagens heróicos, em histórias regadas com muito drama, ação e conflitos pessoais.

Sucesso na literatura, na TV e no cinema, quem nunca imaginou viajar em uma nave estelar e explorar novos mundos? Ou lutar contra um temido Império Galáctico? Ou destruir implacáveis robôs que tentam exterminar a humanidade? Ou ainda travar uma luta mortal contra um arqui-inimigo usando armas do futuro?

Com a presença de Gerson Lodi-Ribeiro, Clinton Davisson, Maria Helena Bandeira, Jorge Luiz Calife, Letícia Velásquez, Marcelo Jacinto Ribeiro, Flávio Medeiros Jr., Larissa Caruso e Hugo Vera, a antologia “Space Opera – Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final” trará nove histórias onde os autores instigam os leitores a sentimentos de curiosidade a cada nova tecnologia apresentada, ansiedade a cada aventura vivida e tensão a cada momento de perigo e reviravolta, além de, é claro, a diversão que a Space Opera oferece.
Do Space Opera



domingo, 6 de fevereiro de 2011

Jack London



John Griffith Chaney (12 de Janeiro de 1876 - 22 de Novembro de 1916) nasceu em um bairro operário de São Francisco (EUA).

Escritor, jornalista e ativista social, Jack London foi um dos primeiros romancistas a obter celebridade mundial, além de uma grande fortuna.

Dotado de um estilo próprio, vigoroso, sintético (dizer muito com poucos vocábulos), amante da aventura e dono de uma grande sensibilidade artística, London em apenas 14 anos, escreveu 43 livros, além de centenas de contos, artigos e reportagens.

Filho de um escritor e marinheiro que ganhava a vida como astrólogo, e de uma professora de música e médium (que alegava receber o espírito de um chefe indígena), Chaney ao nascer foi logo entregue aos cuidados da ex-escrava Virginia Prentiss (sua mãe acabara de tentar um mal sucedido suicídio), e que seria uma figura materna fundamental por toda a vida. Antes de completar um ano de vida, sua mãe se casaria com John London, um viúvo, veterano da Guerra da Secessão e chefe de ferrovia.

London era essencialmente um autodidata. Lia sem parar tudo que aparecia, e segundo ele, este seria o segredo de seu sucesso literário. Apesar de terminar os estudos obrigatórios na escola (com destaque como orador), o jovem London não pode comparecer a formatura, por não possuir roupas adequadas.

A verdadeira paixão de sua vida eram os livros. Leu 'Uma vida' de Garfield, e 'Viagens Africanas', de Paul de Chaillu, e 'Signa', de Ouida, história que Jack havia de reproduzir, em linhas gerais, em sua própria vida, pois descreve como um menino italiano sem educação formal, alcançou a fama como um compositor de ópera.

Aos 11 anos já trabalhava como jornaleiro, aos 14 passava o dia na fábrica de enlatados Hickmott's (seu padrasto, ferido em um acidente de trem, estava preso a uma cama, inválido, sem poder prover financeiramente a família).

Com dinheiro emprestado de sua mãe adotiva negra, comprou uma chalupa (pequeno barco a vela) de um pirata de ostras chamado French Frank, e se se tornou ele próprio um pirata de ostras, pilhando os bancos de ostras particulares e vendendo as ostras nas docas. Após alguns meses, o barco ficou avariado, mas graças as suas novas amizades, London foi contratado como membro da Patrulha Pesqueira da Califórnia.

Depois de ter lido Moby Dick, de Herman Melville, se alistou para embarcar numa expedição em um veleiro americano de pesca de focas, percorrendo Coreia, Japão e Sibéria,. Ao retornar aos EUA, porém, deparou-se com a crise trabalhista e foi demitido.

Em Okland, sua mãe mostrou-lhe um anúncio do jornal San Francisco Call, sobre um concurso literário que oferecia um prêmio em dinheiro ao primeiro colocado. Jack sentou-se à mesa da cozinha e começou a escrever 'Typhoon off the Coast of Japan' (‘Tufão nas costas do Japão’), que contava sua experiência da viagem recente. Ganhou o prêmio: vinte e cinco dólares! Entusiasmado, continuou a escrever e a enviar originais para revistas, que entretanto, lhe foram devolvidos sem publicar. Assim sendo, voltou a trabalhar temporariamente como foguista na usina elétrica de Oakland.

Era o início dos movimentos trabalhistas na costa oeste, e London, de novo desempregado aos 19 anos, se uniu à marcha de protesto de trabalhadores, ao mesmo tempo em que começou uma vida como andarilho, passando a fazer viagens de trem como clandestino, o que o levaria a cumprir um mês de prisão em Niágara Falls, por vadiagem.

O episódio do encarceramento, a experiência de perder sua preciosa liberdade, criou nele a determinação de abandonar a pobreza.

Matriculou no Ginásio Oakland, tomou gosto por escrever artigos diversos para o jornal acadêmico, o Aegis. Embora quisesse cursar a Universidade da Califórnia, circunstâncias financeiras forçaram-no a abandonar os estudos e ele nunca se formou. Neste período, em Berkeley, London procurou e encontrou um jornal com a notícia sobre a tentativa de suicídio de sua mãe e descobriu posteriormente, através de uma troca de cartas, que seu pai biológico não era quem ele pensava ser.

Abalado com a descoberta, aos 21 anos, ele e seu amigo James Shepard, embarcaram na Corrida do Ouro do Klondike, que se tornaria o cenário de suas primeiras histórias de sucesso. Esta passagem nas lavras de ouro, não lhe rendeu o dinheiro esperado, mas escorbuto, além de é claro, mais material para contos como ‘To Build a Fire’ (A fogueira), que muitos críticos consideram o seu melhor.

De volta a Califórnia em 1898, London começou a escrever deliberadamente para ser publicado. Segundo ele, sua única esperança de escapar da pobreza, era se educar e 'vender seu cérebro'.

Sua primeira história publicada foi ‘To the Man On Trail’, frequentemente incluída em antologias. Mas nem tudo era perfeito para o jovem escritor. Quando o jornal The Overland Monthly ofereceu somente cinco dólares por sua história, e demorou a pagar-lhe, London quase desistiu de seguir a carreira. Em suas palavras: 'Fui salvo literalmente e literariamente, quando a revista The Black Cat aceitou 'A Thousand Deaths', pagando 40 dólares'.

London teve a sorte de escolher o momento de iniciar sua carreira de escritor. Na época, novas tecnologias possibilitaram o surgimento de revistas de baixo custo. Isso resultou em uma explosão de revistas populares voltadas para o grande público, e um mercado enorme para contos. Em um ano ganhou aproximadamente 2.500 dólares somente escrevendo, uma fortuna para a época, considerando que um bom salário na época, não excedia 60 dólares ao mês.

Em janeiro de 1903, Jack London entregou o manuscrito concluído da primeira de uma série de histórias sobre o Alaska, 'The Call of the Wild' (Chamado selvagem) ao The Saturday Evening Post. A história tinha como personagem um cão mestiço de São Bernardo com Pastor escocês, chamado Buck, inspirado em um cão seu.
 
Agora com uma carreira lucrativa, London casou-se com Elizabeth Maddern no mesmo dia em que 'The Son of the Wolf' (‘O filho do lobo’) foi publicado. Sua primeira filha, Joan, nasceu um ano depois (e Becky no ano seguinte). O temperamento de London porém, levaria-o ao divórcio e, sem perder tempo, ao segundo casamento.

Em 1905, London comprou por 26 mil dólares, um rancho de 1.000 acres chamado Glen Ellen, no condado de Sonoma, Califórnia. Escreveu: ‘Juntamente com minha esposa, o rancho é a coisa que mais prezo neste mundo.’

Ele tentou desesperadamente fazer do rancho um empreendimento comercial bem-sucedido. Escrever se tornara mais ainda, um meio para um fim: ‘Escrevo com nenhum outro propósito senão fazer crescer a beleza que agora pertence a mim. Escrevo um livro por nenhum outro motivo que não seja acrescentar três ou quatro centenas de acres à minha magnífica propriedade.’

Após 1910, seus trabalhos literários eram, na maioria, escritos para atender à necessidade de receita para o rancho, que acabou sendo um enorme fracasso econômico e que o obrigou a regressar a produção em série de livros e contos de aventuras e viagens, como 'Lost Face', 'Burning Daylight', 'Smoke Bellew', 'The Cruise of the Snark', 'When God Laughs', 'Adventure', 'South Sea Tales', 'A Son of the Sun' e 'The House of Pride'.

A vida de Jack London sempre fora uma montanha russa de altos (muito altos) e baixos (muito baixos), e a desgraça seguinte seria perder sua bela mansão, por conta de um incêndio possivelmente criminoso.

Como se não bastasse, London enfrentava com freqüência, processos de plágio, não somente por ser um escritor conhecido e rico, mas também por causa de seus métodos de trabalho. Em uma carta, declarou: ‘expressar para mim é mais fácil que inventar’. London comprava enredos e romances de jovens autores e utilizava também de incidentes recortados de jornais, como material para seus textos, sem dar devido crédito às fontes.

Alguns de seus melhores contos foram deste período difícil, como um romance de ficção científica chamado 'The Scarlet Plague' (1915). Contudo, a sua obra mais extraordinária em termos de imaginação neste período foi o romance sobre viagens no tempo, 'The Star Rover' (traduzido no Brasil como ‘O andarilho das estrelas’).

Dívidas, uma falha renal que lhe provocava dores intensas, alcoolismo e o medo de perder a sua criatividade o assombravam nos últimos dias de vida. London morreu na varanda de seu rancho em Glenn Ellen, sendo possível que uma overdose deliberada de morfina tenha sido a causa, tal qual seu conto ‘The Little Lady of the Big House’, onde a heroína, sofrendo a dor de um tiro mortal, comete suicídio com morfina.

Sobre ele, escreveu L.E.Doctorow para o New York Times:
‘Jack London nunca foi um pensador original. Ele devorara o mundo, física e intelectualmente... era o tipo de escritor que encontra uma idéia e a dilata a partir de sua psique. Era um operário genial da literatura, que sabia instintivamente que ela era uma generosa anfitriã, sempre com espaço para mais um à sua mesa’.

Fórum brasileiro sobre Jack London



Jack London ( The Human Drift, Goliath, A Relic of the Pliocene, O Apelo da Selva, Adventure, Before Adam, Burning Daylight, Heathen, The Sea Wolf, A Daughter of the snows, A Lei da Vida, Call of the Wind, Crucero del Snark, Cuentos de Ciencia Ficcion, Cuentos, El Hijo del Lobo, El Hombre de la Cicatriz, El Vagabundo de Las Estrellas, Martin Eden, Narrativas Breves, Natal na Terra das Neves, O Andarilho das Estrelas, O Lobo do Mar, Patrulha Pesquera, Relatos de los Mares del Sur, The Red One, The Multiny of Elsinore, The People of the Abyss, The Valley of the Moon, Jacket Star Rover, Jerry of the Islands, A bordo del Francis Spight, Amor a la Vida, Antes de Adan, El Diente de Ballena, El Valle de La Luna, Gente del Abismo, Muertes Concentricas, El Pagano, Para acender un fuego, La Peste Escarlata, Un trozo de carne, The Iron Heel, Scab, Short Stories, Tales of the Klondike, The Call of the Wild, The Faith of the Man, The Jacket, The Night-Born, The Son of the Wolf, The Strenght of the Strong, The War of the Classes, White Fang, Caninos Brancos, Preparando uma fogueira ) [ Download ]

Joyas Literarias Juveniles - Jack London


 Tres Corazones (Jack London) By Corbato - Joyas Literarias Juveniles [ Download ]





Colmillo Blanco - Jack London - Joyas Literarias Juveniles [ Download ]

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 23)



OS SONHOS

Quando passaram seis dias sem qualquer reação da parte do Oceano, decidimos repetir a experiência. Até essa data, a Estação estivera localizada na intersecção do paralelo 43 com o meridiano 116. Nos mudamos para o sul, mantendo uma altitude constante de 1200 pés acima do Oceano — o nosso radar confirmou as observações automáticas enviadas pelo satélite artificial, que indicavam uma concentração da atividade do plasma no hemisfério sul.

Quarenta horas mais tarde, um feixe de raios X modulados com os meus padrões cerebrais bombardeava, a intervalos regulares, a superfície quase imóvel do Oceano.
No final desta jornada de dois dias, tínhamos chegado próximos da zona polar.
O disco do sol punha-se num dos lados do horizonte, enquanto que amontoados de nuvens purpúreas anunciavam a madrugada do sol vermelho.
No céu, chamas ofuscantes e chuva de centelhas verdes chocavam-se com o sombrio fulgor púrpura. Até o Oceano participava nesta batalha entre as duas estrelas, reluzindo aqui com lampejos mercuriais, ali com reflexos carmesins.
A menor nuvem que se lhe passasse por cima enchia de iridescência a luzente espuma na crista das ondas.
Mal o sol azul se tinha posto e logo, no ponto de encontro entre o sol e o céu, indistinta e mergulhada numa neblina encarnada cor de sangue (imediatamente sinalizada pelos detectores), uma simetríade brotou qual gigantesca flor de cristal. A Estação manteve o rumo e passados quinze minutos, o colossal rubi, que pulsava em moribundos lampejos, mais uma vez ficou escondido abaixo do horizonte. Alguns minutos mais tarde, uma delgada coluna jorrou a milhares de metros de altura na atmosfera, ficando a sua base oculta à vista pela curvatura do planeta. Esta árvore fantástica, que continuava a crescer e a cuspir sangue e mercúrio, marcava o fim da simetríade: os emaranhados ramos no topo da coluna derreteram, formando um gigantesco cogumelo, iluminado simultaneamente por ambos os sóis e arrastado pelo vento, enquanto que a parte de baixo inchava, se fendia em pesados torrões e emergia lentamente. Os estertores da morte duraram bem mais de uma hora.

Mais dois dias passaram.
Os nossos raios X tinham irradiado uma vasta extensão do Oceano e fizemos uma última repetição da experiência. Do nosso posto de observação avistamos uma cadeia de ilhotas a duzentas e cinqüenta milhas para sul — seis promontórios rochosos, recobertos por uma substância semelhante a neve, que era afinal um depósito de origem orgânica, o que provava que a formação montanhosa fizera outrora parte do leito do Oceano.

Seguimos então para sudoeste e rodeamos uma cadeia de montanhas coroadas por nuvens que se amontoavam durante o dia vermelho e depois desapareciam.
Tinham decorrido dez dias depois da primeira experiência.

À primeira vista, nada de especial estava a acontecer na Estação. Sartorius programara a experiência de modo a haver repetições automáticas a determinados intervalos. Eu nem sabia se alguém verificava o aparelho para ver se funcionava corretamente. Na realidade, porém, a calma não era tão completa como parecia, mas isso não se devia a qualquer atividade humana.
Eu temia que Sartorius não tencionasse realmente abandonar a construção do aniquilador. E como iria Snow reagir quando descobrisse que lhe tinha escondido informações e exagerado os perigos Que poderíamos correr numa tentativa para aniquilar as estruturas de neutrinos? Contudo, nenhum dos dois voltou a falar no projeto, e me perguntava repetidamente por que se mantinham tão calados. Suspeitava vagamente que me escondiam qualquer coisa — talvez andassem a trabalhar em segredo — e todos os dias inspecionava a sala onde estava o aniquilador, uma cela sem janelas situada diretamente abaixo do laboratório principal.
Nunca encontrei ninguém na sala, e a camada de pó que havia sobre a armação e os cabos do aparelho era a prova que há semanas ninguém lhe tocava.

Na verdade, não encontrava ninguém em parte nenhuma e já não conseguia entrar em contato com Snow: ninguém respondia quando tentava telefonar para a cabine de rádio. Alguém tinha de estar controlando os movimentos da Estação, mas quem? Não tinha qualquer ideia a esse respeito e, por estranho que pareça, considerava a pergunta fora da minha alçada. A ausência de resposta da parte do Oceano deixava-me igualmente indiferente, a tal ponto que, passados dois ou três dias, deixara de ter esperanças ou receios e desligara-me por completo da experiência e seus possíveis resultados.

Durante dias seguidos ficava sentado na biblioteca ou na minha cabine, acompanhado pela sombra silenciosa de Rheya. Tinha a consciência de que havia um mal-estar entre nós e de que o meu estado de negligente suspensão não poderia prolongar-se para sempre. Obviamente era a mim que competia por fim a esta situação, mas até a ideia de qualquer espécie de alteração me incomodava: estava incapaz de tomar qualquer decisão, por mais trivial que fosse. Tudo o que havia no interior da Estação, e a minha relação com Rheya em particular, me parecia frágil e sem substância, como se a mínima alteração pudesse perturbar o perigoso equilíbrio e tudo fazer ruir. Não sabia dizer de onde me vinha esse sentimento, e o mais estranho de tudo era que também Rheya sentia algo semelhante.

Quando hoje volto a recordar esses momentos, fico fortemente convencido de que essa atmosfera de incerteza e suspense e o meu pressentimento de um desastre iminente eram provocados por uma presença invisível que se apoderara da Estação. Creio também poder afirmar que essa presença se manifestava de modo igualmente forte em sonhos. Nunca antes tivera visões dessa espécie, nem voltei a ter depois, por isso decidi anotá-las e transcrevê-las aproximadamente, na medida em que meu vocabulário o permita, dado que posso apenas descrever aspectos fragmentários, quase que por completo despidos de um horror impossível de comunicar.

Uma região obscura, no coração da vastidão, longe do céu e da terra, sem chão por baixo nem abóbada de céu por cima, nada. Sou prisioneiro de uma matéria extraterrestre e o meu corpo está revestido de uma substância morta e sem forma — ou antes, não tenho corpo, eu sou essa matéria extraterrestre. Nebulosos glóbulos rosa pálido rodeiam-me, suspensos num meio mais opaco que o ar, pois os objetos só se tornam nítidos quando vistos de muito perto, embora quando se aproximam fiquem anormalmente distintos e a sua presença se revele com uma nitidez sobrenatural. A convicção da sua realidade substancial e tangível é no momento tão dominadora que mais tarde, quando acordo, tenho a impressão de ter acabado de abandonar um estado de verdadeira percepção e tudo o que vejo depois de abrir os olhos me parece nebuloso e irreal.

É assim que o sonho começa.
Em redor de mim algo aguarda o meu consentimento, a minha íntima aquiescência, e sei, ou antes, existe o conhecimento de que não posso ceder a uma tentação desconhecida, pois quanto mais o silêncio parece prometer, tanto mais terrível será o resultado obtido. Contudo, em essência, eu nada sei disso, pois se soubesse teria medo, e não sinto o mínimo temor.
Aguardo. Da névoa rósea que me envolve emerge um objeto invisível e toca-me. Inerte, aprisionado na matéria que me recobre, não posso recuar nem desviar-me, e sou tocado, a minha prisão é tocada, e sinto esse contato como uma mão, e essa mão recria-me. Até esse momento pensava que via, mas não tinha olhos: agora tenho olhos! Sob a carícia dos dedos hesitantes, os meus lábios e faces emergem do vazio e, à medida que a carícia prossegue, passo a ter uma face, sinto o peito a respirar — existo. E, uma vez recriado, é a minha vez de criar: aparece à minha frente uma face que nunca vi antes, simultaneamente misteriosa e conhecida. Luto para fixar o olhar, mas não consigo orientar a direção dos meus olhos, e, num silêncio absorvido, para além de qualquer esforço da vontade, descobrimo-nos mutuamente um ao outro. Estou de novo vivo e sinto-me como se as minhas capacidades não tivessem qualquer limitação. Esta criatura — uma mulher? — permanece junto de mim e ambos estamos imóveis. Os nossos corações batem em uníssono, e de repente, do vazio que nos rodeia e onde nada existe nem pode existir, surge uma presença de uma crueldade indefinível e inimaginável. A carícia que nos criou e nos envolveu num manto dourado transforma-se agora no rastejar de inúmeros dedos. Os nossos corpos nus e brancos dissolvem-se num enxame de coisas negras e rastejantes e sou — somos— uma massa de vermes glutinosos e enovelados, sem fim, e nessa infinidade, não, eu sou infinito, e grito sem que se ouça qualquer som, implorando a morte, um fim. Mas simultaneamente sou dispersado em todas as direções, e a minha dor expande-se num sofrimento mais agudo que qualquer estado acordado, uma dor penetrante e espalhada que chega aos distantes pretos e encarnados, dura como rocha e sempre crescente, uma montanha de dor visível na ofuscante luz de um outro mundo.

Este sonho foi um dos mais simples. Não posso descrever os outros por me faltarem as palavras para traduzir o horror. Nesses sonhos não tinha consciência da existência de Rheya, nem havia qualquer eco de acontecimentos passados ou futuros.
Tinha também sonhos sem visões, durante os quais, num silêncio imóvel e granuloso, sentia que era lenta e minuciosamente explorado, embora nenhuma mão ou instrumento me tocassem. Contudo, sentia-me invadido até ao âmago, ficava despedaçado e desintegrava-me, e só o nada ficava. A aniquilação total era seguida de um tal terror que a mera lembrança dele ainda hoje me põe o coração a bater mais apressado.
E assim passavam os dias, cada dia igual ao anterior. Tudo me era indiferente e apenas temia as noites, e não conseguia encontrar maneira de escapar aos sonhos.
Rheya nunca dormia. Deitava-me junto dela lutando contra o sono, e a ternura com que a abraçava era apenas um pretexto, um modo de evitar o momento em que seria forçado a fechar os olhos. Não lhe contava os meus pesadelos, mas deve tê-los adivinhado porque a sua atitude traduzia involuntariamente um sentimento de profunda humilhação.
Como já disse, há bastante tempo que não via Snow ou Sartorius, mas Snow dava ocasionalmente sinal de vida. Deixava-me um recado à porta, chamava-me pelo videofone para me perguntar se notara qualquer novo acontecimento ou alteração ou qualquer outra coisa que pudesse ser interpretada como uma resposta aos repetidos bombardeamentos de raios X.
Dizia-lhe “Não” e fazia-lhe a mesma pergunta, mas Snow, no pequeno écran, limitava-se a negar com um gesto de cabeça.


No décimo quinto dia depois da conclusão da experiência, acordei mais cedo que de costume, exausto devido ao sonho da noite anterior. Todos os meus membros estavam semi entorpecidos, como se emergissem dos efeitos de poderoso narcótico.

Os primeiros raios do sol vermelho brilhavam pela janela, uma manta de chamas encarnadas varria a superfície do Oceano e apercebi-me de que a vasta expansão, que nos últimos quatro dias não fora perturbada pelo mínimo movimento, começava a agitar-se. O sombrio Oceano ficou abruptamente coberto por tênue neblina, a qual parecia, ao mesmo tempo, ter uma consistência muito palpável. Aqui e ali essa neblina agitava-se e os seus tremores transmitiam-se em todas as direções até à linha do horizonte. Depois, o Oceano desapareceu por completo sob umas membranas espessas e enrugadas, com saliências róseas e depressões cor de pérola, e estas estranhas ondas suspensas sobre o oceano puseram-se de súbito a girar e aglutinavam-se formando grandes bolas de espuma azul esverdeada. Uma tempestade de vento levantou-se até a altura da Estação, e para onde quer que se olhasse, víamos imensas asas membranosas planando no céu vermelho. Algumas dessas asas de espuma, as que encobriam o Sol, eram negras como piche, enquanto outras, porque estavam expostas obliquamente à luz desse sol, brilhavam com focos luminosos cor de púrpura. E o fenômeno continuava, como se o Oceano estivesse em mutação ou a descascar uma velha pele escamosa.
De vez em quando podia aperceber-se a negra superfície do Oceano através de uma abertura, que num instante voltava a ser tampada pela espuma.
Asas de espuma planavam à nossa volta,.apenas a poucos metros da janela, e uma caiu e roçou pelo vidro, parecendo seda. E, enquanto o Oceano continuava a produzir estes fantásticos pássaros, os primeiros a voar dissipavam-se já bem no alto, decompondo-se no zênite em filamentos transparentes.


A Estação permaneceu imóvel durante todo o tempo que o espetáculo durou — cerca de três horas, até que a noite surgiu. E mesmo depois de o Sol se pôr e as sombras se terem espalhado sobre o Oceano, o brilho pálido de miríades de asas podia ainda aperceber-se a subir para o céu, pairando em densas massas e elevando-se, sem esforço, em direção à luz.

Este espetáculo aterrorizou Rheya, mas para mim não foi menos desconcertante, embora a novidade não nos devesse ter perturbado, visto que duas ou três vezes por ano, ou mais, se a sorte lhes sorria, os solaristas observavam formas e criações nunca antes registradas.

Na noite seguinte, uma hora antes do nascer do sol azul, fomos testemunhas de outro fenômeno: o Oceano estava a tornar-se fosforescente. Manchas de luz cinzenta subiam e baixavam ao ritmo de invisíveis vagas. Isoladas a princípio, depressa essas manchas cinzentas se espraiaram e ligaram umas às outras e em breve formaram um tapete de luz espectral que se estendia até onde a vista podia alcançar. Durante quinze a vinte minutos a intensidade da luz foi aumentando progressivamente, até que o fenômeno teve um final surpreendente. Uma cortina de sombra aproximou-se vinda de ocidente, estendendo-se ao longo de uma frente de várias centenas de milhas. Quando esta sombra em movimento chegou à Estação, a parte fosforescente do Oceano, recuando para leste, parecia estar tentando escapar ao gigantesco extintor. Era como uma aurora posta em fuga e recuando até ao horizonte, que ficou orlado de um fulgor que ia esmorecendo, até que finalmente a escuridão venceu. Pouco depois o Sol ergueu-se acima das vastidões do Oceano, que eram atravessadas por algumas vagas solidificadas, cujos reflexos mercúricos bailavam sobre a minha janela.

A fosforescência era um efeito já registrado, observado por vezes antes da erupção de uma assimetríade, e sempre indicativa de um aumento local da atividade do plasma.
Porém, no decurso das duas semanas seguintes, nada aconteceu, nem no interior nem no exterior da Estação, exceto numa ocasião em que, no meio da noite, ouvi o som de um grito lancinante, que não podia ter saído de nenhuma garganta humana. O uivo agudo e prolongado acordou-me no meio de um pesadelo, e a princípio pensei que era o começo de outro. Antes de adormecer tinha ouvido uns ruídos abafados vindos do lado do laboratório, parte do qual ficava diretamente acima da minha cabine. Pareciam objetos  pesados e máquinas a serem arrastados para outro lugar. Quando me apercebi de que não estava sonhando, decidi que o grito também viera de cima, mas não pude perceber como conseguira atravessar o teto à prova de som. Os horríveis ruídos continuaram durante quase meia hora, até que os meus nervos ficaram em frangalhos e eu alagado em suor. Preparava-me para ir investigar quando os gritos cessaram e foram substituídos por sons abafados, como um arrastar de objetos pelo soalho.

Rheya e eu estávamos sentados na cozinha, dois dias mais tarde, quando Snow apareceu. Estava vestido como se vestem as pessoas na Terra depois de um dia de trabalho e parecia outra pessoa, mais alto e mais velho. Não olhou para nós nem puxou uma cadeira, mas ficou em pé junto à mesa, abriu uma lata de carne e começou a engoli-la, intercalada com grandes nacos de pão. A manga do casaco roçava no tampo gorduroso da lata.

— Cuidado, Snow, a manga!
— O quê? — resmungou e continuou a entupir-se de comida, como se há dias não comesse. Encheu um copo de vinho, bebeu-o de um só trago, deu um suspiro profundo e limpou a boca. Depois olhou para mim com os olhos injetados de sangue e balbuciou:
— Ah, você deixou de fazer a barba?...
Rheya tirou a mesa. Snow balançava sobre os calcanhares, depois fez uma careta e chupou ruidosamente os dentes, deliberadamente exagerando a ação. Fixava-me com insistência:
— Decidiu, então, deixar de se barbear? — Não dei resposta. —Acredite em mim — continuou —, está cometendo um erro. Foi assim que ele começou...
— Vá deitar-se.
— Por quê? Quando me sinto com disposição para conversar? Ouça, Kelvin, talvez o Oceano nos queira bem... talvez nos queira agradar e não saiba muito bem como fazê-lo. Espia os desejos que temos no cérebro, e só dois por cento dos processos mentais são conscientes. Isso significa que ele nos conhece melhor que nós próprios nos conhecemos. Temos de conseguir entender-nos com ele. Está me escutando? Não quer? Por quê? — neste ponto pôs-se a soluçar. — Por que você não fez a barba?
— Cale a boca!... Você está bêbado!
— Eu, bêbado! E se estivesse? Só porque vagueio de uma ponta à outra do espaço e ando a meter o nariz no cosmo, acha que não me é permitido embebedar-me? Por que não? Você acredita na missão da humanidade, não acredita, Kelvin? Gibarian falou-me sobre você antes de começar a deixar crescer a barba... Foi uma ótima descrição. Mas não vá ao laboratório, se não quiser perder a fé. Aquilo pertence a Sartorius. O Fausto, ao invés... anda à procura de uma cura para a imortalidade! Ele é o último cavaleiro do Sagrado Contato, o homem de quem precisamos. A sua última descoberta também é bastante boa... uma morte prolongada. Nada mal, hem? “Agonia perpétua”... da palha... dos chapéus de palha... e você continua a não querer beber, Kelvin?
Ergueu as pálpebras inchadas e olhou para Rheya, que estava encostada à parede e absolutamente imóvel. Depois começou a cantarolar:
— Oh, bela Afrodite, filha do Oceano, a tua mão divina — Engasgou-se com o riso.
— Condiz, hem, Kel... vin. — Parou com um ataque de tosse.
— Cale a boca e saia daqui! — rugi por entre os dentes cerrados.
— Está me expulsando? Você também? Você não faz a barba e me expulsa? E o que me diz dos meus avisos, dos meus conselhos? Colegas interestelares devem ajudar-se uns aos outros! Ouça, Kelvin, vamos lá embaixo, abrimos as comportas e os chamamos. Talvez eles nos ouçam. Mas qual é o nome dele? Demos nomes a todas as estrelas e planetas, embora talvez já tivessem os seus próprios nomes. Que descaramento! Venha, vamos lá abaixo. Vamos gritar-lhe, talvez ele se comova. Fará para nós simetríades de prata, irá orar em forma de cálculos, nos enviará os seus anjos ensangüentados. Partilhará os nossos problemas e terrores e nos pedirá que o ajudemos a morrer. Já está  pedindo, implorando. Com cada uma das suas criações está implorando que o ajudemos a morrer. Você não está achando graça... mas já sabe que sou um brincalhão. Se as pessoas tivessem mais humor, talvez as coisas tivessem corrido de modo diferente. Sabe o que ele quer fazer? Quer castigar o Oceano, ouvi-lo gritar do topo de todas as suas montanhas ao mesmo tempo. Se pensa que ele nunca terá a coragem de apresentar o seu plano àquele punhado de velhos tremelicantes que nos mandaram para cá, para nos redimirmos de pecados que não cometemos, tem razão, ele tem medo. Mas tem medo apenas do pequeno chapéu, ele não ousará, Fausto não...

Nada respondi. A agitação de Snow aumentava. As lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo e caíam-lhe na roupa. Continuou:
— Quem é responsável? Quem é responsável por esta situação? Gibarian? Giese? Einstein? Platão? Todos criminosos... Repare, numa nave espacial uma pessoa corre o risco de arrebentar como um balão, de congelar ou assar ou de cuspir todo o seu sangue numa única golfada, antes mesmo de poder gritar, e tudo o que sobra são ossinhos a flutuar dentro de cascos blindados, de acordo com as leis de Newton, corrigidas por Einstein, dois marcos milenários do nosso progresso. Seguimos pela estrada afora, cheios de fé, e vemos aonde nos conduz. Pense no nosso sucesso, Kelvin; pense nas nossas cabines, nos pratos inquebráveis, nas pias imortais, legiões de fiéis guarda-roupas, dedicados armários... Se não estivesse bêbedo, não estaria falando desta maneira, porém mais cedo ou mais tarde alguém tinha de dizer estas coisas, não é? Você fica ai sentado como um cordeiro num matadouro e deixa a barba crescer... De quem é a culpa? Descubra você mesmo.

Deu lentamente a volta e saiu, estendendo um braço para se segurar à porta. Depois os seus passos morreram ao longo do corredor.

Tentei não olhar para Rheya, mas os meus olhos foram atraídos para ela, mesmo contra minha vontade. Queria levantar-me, tomá-la nos braços e acariciar-lhe o cabelo.
Não me mexi.





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sábado, 29 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 22)



Mal arrumado entre os espessos volumes do Anal, descobri um pequeno livro encadernado em pele de cabra, e por um momento estudei a capa esmurrada e gasta. Era a Introduction to Solaristics de Muntius, publicado muitos anos atrás. Tinha-o lido numa única noite, depois de Gibarian, sorridente, me ter emprestado a sua cópia pessoal; e, quando voltara a última página, pela minha janela via-se a luz de uma nova madrugada na Terra.

Segundo Muntius, a solarística é, para a era espacial, o equivalente à religião: a fé disfarçada em ciência.

O “contato”, a meta declarada da solarística, não é menos vaga ou obscura que a comunhão dos santos ou a segunda vinda do Messias. A exploração é uma liturgia que emprega a linguagem da metodologia; a enfadonha tarefa dos solaristas é desempenhada apenas na esperança de realização, de uma Anunciação, pois não há, nem pode haver, qualquer ponte entre Solaris e a Terra. A comparação é reforçada através de vários paralelos óbvios: os solaristas rejeitam argumentos — nada de experiências em comum, nada de noções comunicáveis —, tal como antigamente os fiéis rejeitavam os argumentos que minassem os alicerces da sua fé. E também, que pode a humanidade ter a esperança de conseguir com uma “troca de informações” com o Oceano vivo? Uma lista das vicissitudes ligadas a uma existência de duração tão infinita que provavelmente já se não recorda das suas origens? Uma descrição das aspirações, paixões e sofrimentos que se exprimem na perpétua criação de montanhas vivas? A apoteose da matemática, a revelação da plenitude no isolamento e renúncia? Mas tudo isto representa um conjunto de conhecimentos incomunicáveis. Transpostos para qualquer língua humana, os valores e significados envolvidos perdem todo o seu conteúdo; não podem transpor intactos essa barreira. Em todo o caso, os “adeptos” não esperam tais revelações — mais dentro da poesia que da ciência—, uma vez que, inconscientemente, é a própria Revelação que esperam, e esta revelação é que lhes seja explicado o significado do destino do homem! A solarística é o ressurgimento de mitos há muito desaparecidos, a expressão de místicas nostalgias que os homens não têm a coragem de confessar abertamente. A pedra de esquina está profundamente enraizada nos alicerces do edifício: é a esperança da Redenção.

Os solaristas são incapazes de reconhecer esta verdade, e por isso têm o cuidado de evitar qualquer interpretação de contato, o qual é apresentado nos seus escritos como a meta última, ao passo que originalmente tinha sido considerado como um começo e como um passos para um novo caminho de entre vários outros caminhos possíveis.
Com o decorrer dos anos, o contato tornou-se santificado.
Tornou-se o paraíso da eternidade.

Muntius analisa esta “heresia” da planetologia de um modo muito simples e cortante. Desfaz brilhantemente o mito solarístico, ou antes, o mito da Missão da Humanidade.
A voz de Muntius foi a primeira que se elevou em protesto e foi recebida pelo silêncio cheio de desprezo dos peritos, numa época em que tinham ainda uma romântica confiança no desenvolvimento da solarística. Afinal de contas, como poderiam aceitar uma tese que atingia os alicerces dos seus heróicos feitos.

E a solarística continuou à espera de um homem que a restabelecesse numa base sólida e definisse com precisão as suas fronteiras. Cinco anos depois da morte de Muntius, quando o seu panfleto se tinha tornado uma peça rara de colecionadores, um grupo de investigadores noruegueses fundou uma escola com seu nome. Em contato com a personalidade dos seus diversos herdeiros espirituais, o calmo pensamento do mestre sofreu profundas alterações; levou à corrosiva ironia de Erle Ennesson e, num plano mais mundano, à solarística “utilitária” e “utilitarianística” de Faleng, que defendia a opinião de que a ciência se devia satisfazer com as vantagens imediatas oferecidas pela exploração e não se preocupar com qualquer comunhão intelectual entre as duas civilizações ou com qualquer ilusório contato.

Comparadas com a análise impiedosa e lúcida de Muntius, as obras dos seus discípulos pouco mais são que compilações e por vezes degradações, com exceção dos ensaios de Ennesson e talvez dos estudos de Takata. O próprio Muntius já tinha definido todo o desenvolvimento dos conceitos solarísticos. À primeira fase dava o nome de era dos “profetas”, entre os quais incluía Giese, Holden e Sevada; à segunda, chamada o “grande cisma” — a fragmentação da igreja única solarística em várias seitas antagônicas; e antecipara uma terceira fase, que se estabeleceria quando já nada houvesse para investigar e que se manifestaria num dogmatismo acadêmico e obscuro. Contudo, a profecia viria a provar-se inexata. Em minha opinião, Gibarian tinha razão em classificar as críticas de Muntius como monumentais simplificações, que ignoravam todos aqueles aspectos da solarística que nada tinham em comum com um credo, pois o trabalho de interpretação baseava-se apenas sobre a evidência concreta de um globo que girava em órbita à volta de dois sóis.

Entre duas páginas do panfleto de Muntius descobri uma revista trimestral Parerga Solariana, que afinal era um dos primeiros escritos de Gibarian, do tempo antes de ser nomeado diretor do Instituto. O artigo tinha o título “Por que sou solarista?” e começava com uma breve resenha de todos os fenômenos materiais que confirmavam a possibilidade de contato. Gibarian pertencera à geração de investigadores que tinham sido suficientemente ousados e otimistas para querer regressar à época áurea e que não escondiam a sua própria versão de uma fé que ultrapassava as fronteiras impostas pela ciência, mantendo-se porém concreta, pois pressupunha o sucesso da perseverança.

Gibarian tinha sido influenciado pela obra clássica em bioeletronica que tornou famosa a escola Eurasiana de Cho Enmin, Ngyalla e Kawakadze. Os estudos destes tinham estabelecido uma analogia entre a atividade elétrica registrada do cérebro e certas descargas que ocorriam nas profundezas do plasma, por exemplo, antes da aparição de polimorfos elementares ou solaríades gêmeos. Gibarian opunha-se a interpretações antropomórficas e às mistificações das escolas psicanalítica, psiquiátrica e neurofisiológica, que tentavam ver no Oceano os sintomas de doenças humanas, entre elas a epilepsia (que supunham corresponder às erupções espasmódicas das assimetríades). Foi um dos mais cautelosos e lógicos proponentes do contato e não via qualquer vantagem na espécie de sensacionalismo que, em todo o caso, se estava a tornar cada vez mais raro em relação a Solaris.


A minha própria tese de doutoramento recebera razoável dose de atenção, e nem toda bem-vinda. Baseava-se nas descobertas de Bergmann e Reynolds, que tinham conseguido isolar e “filtrar” os elementos das mais poderosas emoções — desespero, sofrimento e prazer — dentre a massa dos processos mentais gerais. Comparando sistematicamente os registros deles com as descargas elétricas do Oceano, observara oscilações em certas partes das simetríades e na base de mimóides a nascer que eram suficientemente análogas para merecerem uma investigação mais aprofundada. Os jornalistas lançaram-se sobre a minha tese, e em alguns jornais o meu nome vinha associado a grotescos cabeçalhos — “A Gelatina em desespero”, “O planeta em orgasmo”. Mas esta fama duvidosa teve a feliz conseqüência (ou assim pensei até há uns dias) de atrair a atenção de Gibarian, que naturalmente não podia ler todas as novas publicações que tratavam de Solaris.

A carta que me mandou acabou um capítulo da minha vida e encerrou outro...



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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Channeling the Future - Essays on Science Fiction and Fantasy Television


Channeling the Future focuses on the disparate visions of the past, present,and future that the science fiction and fantasy genres have offered television audiences. It not only shines new light on often overlooked and forgotten series but also examines the “look” of science fiction and fantasy television, determining how iconography (spaceships, machines, technology), location and landscape (space, Earth, the city, the countryside), mise-en-scène, CGI and special effects, art and set design, props, costumes, lighting, and manipulation of visual and virtual space contribute to the creation of real, fully imagined, and often all-too-familiar future and alternate worlds.

Establishing how the medium of television can create a certain “look” for individual series leads contributors to discuss the cultural, historical, and political impact these series had on both the genre and wider society. However, the collection also locates their visual aesthetics within broader historical, industrial, and production contexts to fully understand their cultural value. Notions of history and historical periodization clearly influence how science fiction and fantasy television series were imagined by their writers and designers and received at the time of broadcast, but we must also consider how older series and their particular future visions are perceived and interpreted by contemporary audiences compared to the more modern series of today.


Contents

Acknowledgments
Introduction: Future Visions 
Lincoln Geraghty

Part I: America’s New Frontier

Chapter 1 Retro Landscapes: Reorganizing the Frontier in Rod Serling’s The Twilight Zone
Van Norris

Chapter 2 Irwin Allen’s Recycled Monsters and Escapist Voyages
Oscar De Los Santos

Chapter 3 The Future Just Beyond the Coat Hook: Technology, Politics, and the Postmodern Sensibility in The Man from U.N.C.L.E.
Cynthia W. Walker

Part II: British Dystopias and Utopias

Chapter 4 Pulling the Strings: Gerry Anderson’s Walk from “Supermarionation” to “Hypermarionation”
David Garland

Chapter 5 Farmers, Feminists, and Dropouts: The Disguises of the Scientist in British Science Fiction Television in the 1970s
Laurel Forster

Chapter 6 Secret Gardens and Magical Realities: Tales of Mystery, the English Landscape, and English Children
Dave Allen

Part III: Fantasy, Fetish, and the Future

Chapter 7 There Can Be Only One: Highlander: The Series’ Portrayal of Historical and Contemporary Fantasy
Michael S. Duffy

Chapter 8 Kinky Borgs and Sexy Robots: The Fetish, Fashion, and Discipline of Seven of Nine
Trudy Barber

Chapter 9 “Welcome to the world of tomorrow!”: Animating Science Fictions of the Past and Present in Futurama
Lincoln Geraghty

Part IV: Visions and Revisions

Chapter 10 Plastic Fantastic? Genre and Science/Technology/Magic in Angel
Lorna Jowett

Chapter 11 Remapping the Feminine in Joss Whedon’s Firefly
Robert L. Lively

Chapter 12 “Haven’t you heard? They look like us now!”: Realism and Metaphor in the New Battlestar Galactica
Dylan Pank and John Caro

Index
About the Editor and Contributors




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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Science Fiction Television Series - 1990-2004




Contents
Acknowledgments 
Foreword by Brad Wright 

Introduction 
Andromeda (2000–2005)
Babylon 5 (1994–1998)
Beyond Reality (1991–1993) 
Century City (2004)
Cleopatra 2525 (2000–2001)
Code Name: Eternity (1999)
Crusade (1999)
Dark Angel (2000–2002)
Dark Skies (1996–1997)
The Dead Zone (2002–2007)
Earth: Final Conflict (1997–2002)
Earth 2 (1994–1995)
Farscape (1999–2003)
Firefly (2002)
First Wave (1998–2001)
Harsh Realm (1999–2000)
The Invisible Man (2000–2002)
Jake 2.0 (2003)
Jeremiah (2002–2004)
Lexx: The Dark Zone (1997–2002)
Mann & Machine (1992)
Mercy Point (1998–1999)
Mysterious Ways (2000–2002)
Night Visions (2001–2002)
Odyssey 5 (2002, 2004)
The Outer Limits (1995–2002)
Prey (1998)
Psi-Factor: Chronicles of the Paranormal (1996–2000)
Quantum Leap (1989–1993)
RoboCop (1994)
Roswell (1999–2002)
seaQuest DSV (1993–1996)
Seven Days (1998–2001)
Sleepwalkers (1997–1998)
Sliders (1995–2000)
Space: Above and Beyond (1995–1996)
Space Precinct (1994–1995)
Space Rangers (1993)
Special Unit 2 (2001–2002)
Star Trek: Deep Space Nine (1993–1999)
(Star Trek) Enterprise (2001–2005)
Star Trek: The Next Generation (1987–1994)
Star Trek: Voyager (1995–2001)
Stargate: Atlantis (2004–2008)
Stargate SG-1 (1997–2007)
Starhunter (2001–2003)
Strange World (1999)
TekWar (1995–1996)
Time Trax (1993–1994)
Timecop (1997–1998)
Total Recall 2070 (1999)
Tracker (2001–2002)
Tremors: The Series (2003)
The Twilight Zone (2002–2003)
The Visitor (1997–1998)
VR5 (1995)
Welcome to Paradox (1998)
The X-Files (1993–2002)

Table of Contents
Appendix A: Who Goes There?
Appendix B: Looking Back at Science Fiction Television Series, 1955–1989
Index

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tales Before Narnia - The roots of modern fantasy and science fiction



My previous anthology, Tales Before Tolkien (2003), is a selection of early fantasy literature that influenced Tolkien, that he admired, or that presented similar themes to those that would later be found in his writings. The present volume is in many ways a companion to the earlier one, with the focus this time being on the writings of C. S. Lewis (1898–1963), Tolkien’s friend and colleague. Though this volume is titled Tales Before Narnia, it is not restricted solely to precursors of Lewis’s seven volumes of The Chronicles of Narnia; rather, it encompasses the much wider breadth of his fictional output.

The critic William Empson is said to have described Lewis as “the bestread man of his generation, one who read everything and remembered everything he read.” Lewis’s published writings range from book-length narrative poems to science fiction, children’s books to works of scholarship— particularly on medieval and renaissance literature, but also including volumes on the poet Milton and on the study of words and language. Lewis is renowned for his Christian apologetics, and additionally he was a prolific poet, essayist, letter writer, and book reviewer.

CONTENTS
Introduction
Proem: “Tegnér’s Drapa” by Henry Wadsworth Longfellow
“The Aunt and Amabel” by E. Nesbit
“The Snow Queen: A Tale in Seven Stories” by Hans Christian Andersen
“The Magic Mirror” by George MacDonald
“Undine” by Friedrich de la Motte Fouqué
“Letters from Hell: Letter III” by Valdemar Thisted
"Fastosus and Avaro” by John Macgowan
“The Tapestried Chamber; or, The Lady in the Sacque” by Sir Walter Scott
“The Story of the Goblins Who Stole a Sexton” by Charles Dickens
“The Child and the Giant” by Owen Barfield
“A King’s Lesson” by William Morris
“The Waif Woman: A Cue—From a Saga” by Robert Louis Stevenson
“First Whisper of The Wind in the Willows” by Kenneth Grahame
“The Wish House” by Rudyard Kipling
“Et in Sempiternum Pereant” by Charles Williams
“The Dragon’s Visit” by J.R.R. Tolkien
“The Coloured Lands” by G. K. Chesterton
“The Man Who Lived Backwards” by Charles F. Hall
“The Wood That Time Forgot: The Enchanted Wood” by Roger Lancelyn Green
“The Dream Dust Factory” by William Lindsay Gresham
Author Notes and Recommended Reading

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

King of Thorn


King of Thorn (Ibara no Ou) é um manga de ficção científica de Yuji Iwahara.

Um grupo de pessoas são colocadas em animação suspensa para escapar de uma misteriosa praga que transforma as pessoas em pedra, o Vírus Medusa. Ao acordarem, parece haver somente oito sobreviventes em um mundo selvagem, incluindo uma adolescente, Kasumi, e o americano Marco Owen.

Os sobreviventes descobrem que as ruínas estão repletas de criaturas estranhas, como dinossauros e outras monstruosas aberrações da natureza.

Logo os sobreviventes descobrirão que a situação em si é muito diferente do que eles podem imaginar.





King of Thorn - tomo 1 [ Download ]


Assista também ao trailler do anime/OVA de King of Thorn.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Science Fiction and Empire - Liverpool Science Fiction Texts and Studies




[Science fiction (SF) has historically been perceived as a genre of the fabulous, a form of writing far outside the canon of ‘literature’, one that lacks boundaries, connections with reality or formal precedent. To some, that perception may be a vital attraction or a critical downfall.

What is the purpose of a genre which deals with the extremes of our imagination? Indeed, is there a purpose? Does SF exist as a socially acceptable method of expressing those wild ideas for which there are few other public forums?

Admittedly, many SF narratives are romantic fantasy: that is, they present caricatures from the human imagination, and are derivative and quick to resort to a deus ex machina. Yet the SF genre cannot so easily be reduced to an assembly of remnants from other styles of writing mingled with exciting gadgets and exotic backgrounds, nor can its appeal and longevity be dismissed as the lure of scientific romance. Beneath a sometimes superficial appeal, SF is responsible for opening a variety of legitimate and strategic cultural discourses. It is in these cultural disquisitions that we discover the fundamental power and rationale of a genre that ultimately contributes to the knowledge and awareness humanity has of itself...]


Contents

Introduction

1. The Self and Representations of the Other in Science Fiction 

2. Resistance Is Futile: Silencing and Cultural Appropriation 

3. The Word for World Is Forest: Metaphor and Empire in Science Fiction 

4. Things Fall Apart: Relativity, Distance and the Periphery

5. Moments of Empire: Perceptions of Lasswitz and Wells 

6. Exoticising the Future: American Greats

7. The Shape of Things to Come: Homo futuris and the Imperial Project 

8. A Postcolonial Imagination: Kim Stanley Robinson’s Mars 

9. Beyond Empire: Meta-empire and Postcoloniality 

Conclusion 
Notes
Bibliography
Index

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domingo, 23 de janeiro de 2011

Classics Illustrated - Lord Jim de Joseph Conrad



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Joseph Conrad



Józef Teodor Konrad Korzeniowski (3 de Dezembro de 1857 – 3 de Agosto de 1924) nasceu em Berdyczów (Berdychiv), na época território pertencente a Polônia mas ocupado pela Rússia e atualmente Ucrânia.

Nascido na aristocracia, seu pai era um tradutor renomeado de Victor Hugo e Shakespeare, posteriormente exílado em Vologda (Sibéria), por conta de suas atividades políticas (a Polônia lutava contra o domínio czarista russo). O clima impiedoso no nordeste da Russia teve consequências trágicas para Conrad e sua família. Aos oito anos de idade perdeu a mãe e quatro anos depois o pai, ambos para a tuberculose, sendo então enviado para um orfanato.

Aos doze seria mandado para viver com um tio materno abastado, na Suiça, e posteriormente em Cracóvia (Polônia), onde além do polonês, estudou francês, latim, grego, geografia e matemática, apesar de não gostar de estudar.

De espírito indócil, o jovem Conrad aos 17 anos de idade fugiu para Marselha (sul da França), onde conseguiu um trabalho como aprendiz embarcado em um cargueiro francês. Mais tarde revelaria que tudo em que pensava era conhecer o 'continente negro', embora seus biógrafos afirmem que ele buscava fugir do serviço militar russo.

Seus primeiros anos na marinha foram repletos de 'aventuras' nem sempre tão afortunadas pelas Indias Ocidentais. Por conta de uma vida desregrada, afundado em dívidas de jogo, envolveu-se com comércio e contrabando de armas, e esteve várias vezes à beira da morte, incluindo uma tentativa de suicídio mal sucedida, atirando contra o próprio peito.

Ciente dos problemas do sobrinho e protegido, seu tio interveio pagando suas dívidas e afastando-o temporariamente da vida de marinheiro. Mas não por muito tempo. Aos 21 anos, Conrad conseguiu emprego em um navio britãnico onde aprendeu inglês e com o tempo obteve seu certificado de 'homem do mar' e a cidadania inglesa, assumindo o nome pelo qual ficou conhecido mundialmente.

A cidadania inglesa custaria a ele, o direito de poder voltar a Rússia (no caso, a sua Polônia).

Em mais de 15 anos na marinha, Conrad viajou por todos os oceanos e conheceu uma centena de portos. E empregado pela Societé Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo em 1890, Conrad finalmente mergulhou no 'continente negro'. Nesta temporada escreveu o seu 'Diário do Congo', que mais tarde se tornaria o rascunho de seu famoso 'Heart of Darkness'(Coração das Trevas).

As duras condições de vida no Estado Livre do Congo agravaram a sua já frágil saúde (sofria de gota e tinha períodos de depressão intensos). Foi enviado de volta a Inglaterra onde foi internado em um hospital.

Este acontecimento apressaria a sua aposentadoria da marinha. Vivendo em Kent (Inglaterra) aos 36 anos, Conrad trocou definitivamente o balanço do mar pela carreira de escritor. Seu primeiro romance 'Almayer's Folly'(A Loucura do Almayer - 1895), como não poderia deixar de ser, tinha como enredo os colonizadores europeus fracassados que conhecera nas ilhas do pacífico. Conrad era capaz de escrever fluentemente nos três idiomas. Neste seu início, muitas das suas histórias eram passadas a bordo de navios. 'Nostromo'(1904) é um estudo sobre a revolução na América do Sul, enquanto 'Secret Agent'(1907) e 'Under western eyes' (Sob os Olhos Ocidentais - 1911) tratam de assuntos como terrorismo e espionagem.

Agora casado e pai de dois meninos, passou a ser respeitado como um escritor, publicando um romance por ano.Seu estilo é apontado por muitos criticos, como um elo genuíno entre a literatura realista tradicional (de Charles Dickens) e a escola modernista emergente. Uma marca de suas preocupações como escritor é luta intemporal, do homem frente a seus conflitos internos, como em 'Heart of Darkness', a história da viagem de Marlow ao Congo também expõe a exploração e a barbárie entre as sociedades europeias e africanas durante o século 19.

Aos 63 anos, Conrad declinou do título de Cavaleiro do Império, dizendo-se não merecedor de tamanha honra.

Apesar de sofrer com as consequências de doenças contraidas na África, Joseph Conrad produziu em quantidade e qualidade até sua morte, vitimado por um ataque do coração fulminante.

Controverso em sua época, sua obra inspirou cineastas e autores como F. Scott Fitzgerald, Gabriel García Márquez, de DH Lawrence, Joseph Heller, Albert Camus, Ernest Hemingway, Arthur Koestler, T.S. Eliot, Marcel Proust, André Malraux, Louis-Ferdiand Céline, Jean-Paul Sartre e Virginia Woolf.

A influência de 'Heart Of Darkness' teve na literatura é bem conhecida mas poucos sabem que Conrad também escreveu Ficção Científica. Intitulada 'The Inheritors' (Os Herdeiros - 1901), e escrito em colaboração com o quase tão famoso quanto Ford Madox Ford, trata-se de um grupo de pessoas da "quarta dimensão" que busca influenciar a ordem na Terra para criar a sua própria hegemonia de moral duvidosa.

Com este livro, Conrad pretendia lançar-se oficialmente como escritor de outros gêneros além daqueles em que notavelmente trabalhava (e ganhar algum dinheiro nisso), mas apesar de se tratar de um livro fascinante, teve uma publicação difícil e complicada pela partilha entre os editores e mesmo na época, quase não vendeu.

Joseph Conrad ( Coração das Trevas, One day more, Lord Jim. Nostromo, El Agente secreto, The arrow of gold, The mirror of the sea, A Tale in two parts, A Tale of the Seaboard, The Rescue, A Set of six, Laguna, Amy Foster, Cuentos del inquietud, Duelo, El corazon de las tieneblas, Gaspar Ruiz, Linea de Sombra, Relatos de los mares del sur, Situation Limite, Tifon, Typhon, Victoria, Notes on life and letters, Inheritors, El Negro del Narciso, Heart of Darkness, Juventude, The Secret Agent, Under Western Eyes ) [ Download ]

sábado, 22 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 21)



 Descemos a rampa que levava à biblioteca. Havia três portas que davam para o pequeno átrio de entrada e ao longo das paredes viam-se globos de cristal com flores. Abri a porta do meio, que era almofadada de couro sintético de ambos os lados. Quando entrava na biblioteca, sempre evitava tocar nesse material de estofo. Fomos recebidos por agradável lufada de ar fresco.

Apesar do sol estilizado pintado no teto, o grande salão circular continuava fresco.
Passando um dedo preguiçoso pelas lombadas dos livros, escolhi, entre os clássicos solaristas, o primeiro volume de Giese, como que para refrescar a lembrança do retrato da capa, quando deparei com um livro em que antes não reparara, um volume de encadernação já arrebentada. Era o Compendium de Gravinsky, usado principalmente pelos estudantes para fazer colas.

Sentado numa poltrona com Rheya a meu lado, folheei a classificação, por ordem alfabética, de Gravinsky, das várias teorias solarísticas. O compilador, que nunca pusera pé em Solaris, passara a pente fino todas as monografias, relatórios de expedições, descrições provisórias e esboços fragmentários, incluindo até enxertos de comentários acidentais sobre Solaris em obras planetológicas a respeito de outros mundos. Fizera um inventário de formulações simplistas, que roubavam grosseiramente a sutileza das ideias que resumia.

Destinado originalmente a ser um relatório global, o livro de Gravinsky era hoje em dia pouco mais que uma curiosidade. Tinha sido publicado há apenas vinte anos, mas, desde essa data, tinha-se acumulado num único volume.
Percorri o índice, praticamente uma lista obituária, pois poucos dos autores citados eram ainda vivos e, entre os sobreviventes, nenhum tinha já parte ativa em estudos solarísticos. Ao ler todos aqueles nomes, e fazendo a soma de todo o esforço intelectual que representavam em todos os campos de pesquisa, tinha-se a tentação de pensar que certamente uma das teorias citadas devia ser correta e que cada uma das milhares de hipóteses coligidas devia conter um grão de verdade, não podia estar totalmente desligada da realidade.

Na introdução, Gravinsky dividiu em períodos os primeiros sessenta anos de estudos solarísticos. Durante o período inicial, que começou com a nave de reconhecimento que estudou o planeta a partir de uma posição em órbita, ninguém apresentou teorias, no sentido restrito da palavra. O “senso comum” sugeria que o Oceano era um
aglomerado químico sem vida, uma massa gelatinosa que, através da sua atividade “quase vulcânica”, produzia criações maravilhosas e estabilizava a sua excêntrica órbita por meio de um processo mecânico de geração própria, tal como um pêndulo que, depois de posto em movimento, se mantém dentro de um âmbito fixo.
Para ser mais exato, Magenon surgira com a ideia três anos depois da primeira expedição, mas segundo o Compendium, o período de hipóteses biológicas só começava nove anos depois, quando as ideias de Magenon tinham já adquirido numerosos seguidores. Os anos seguintes pululavam de relatórios teóricos sobre o Oceano vivo, extremamente complexos e todos justificados com análises biomatemáticas.
Durante o terceiro período, a opinião científica, até aí praticamente unânime, tornou-se dividida.

O que se seguiu foram guerras entre inúmeras novas escolas de pensamento.
Foi a era de Panmaller, Strobel, Freyus, Le Greuille e Osipowicz: todo o legado de Giese foi submetido a um exame impiedoso. Apareceram os primeiros atlas e inventários, e novas técnicas de controle à distância, permitiram a criação de instrumentos que transmitiam estereofotografias do interior das assimetríades, outrora consideradas impossíveis de explorar.

No calor da controvérsia, as hipóteses “secundárias” eram desdenhosamente postas de lado: mesmo que o tão ansiado contato com o “monstro racional” se não materializasse, defendia-se que valia a pena investigar as cidades de cartilagem dos mimóides e as montanhas em balão que se erguiam acima do Oceano, pois ganharíamos valiosas informações químicas e fisioquímicas e alargaríamos a nossa compreensão da estrutura de moléculas gigantes.

Ninguém se deu ao trabalho nem mesmo de refutar as ideias daqueles correligionários desta linha de pensamento tão derrotista. Os cientistas dedicaram-se a elaborar listas das metamorfoses típicas, obras essas que ainda hoje são usadas, e Frank desenvolveu a sua teoria bioplasmática dos mimóides, a qual, desde então, se provou não estar certa, mas que continua a ser um soberbo exemplo de audácia intelectual e construção lógica.

Os trinta e tal anos dos primeiros três “períodos de Gravinsky”, com a sua certeza plena e romantismo irresistivelmente otimista, constituem a infância dos estudos solarísticos. Depois, um ceticismo crescente anunciava já a idade da maturidade.
Para os fins do primeiro quarto de século, as primeiras teorias colóidomecânicas tinham encontrado um descendente distante no conceito de um “oceano apsíquico”, uma ortodoxia nova e quase unânime que reduzia a pó a opinião de toda a geração de cientistas que acreditavam serem as suas observações a evidência de uma vontade consciente, processos teológicos e uma atividade motivada por uma necessidade íntima do Oceano. Este ponto de vista era agora determinantemente repudiado, e abriu-se caminho para a equipe encabeçada por Holden, Ionides e Stoliva, cujas especulações lúcidas e analiticamente baseadas se concentravam num exame escrupuloso de um crescente corpo de dados.

Foi a época dos arquivistas. As bibliotecas lotadas com documentos; expedições, algumas com mais de mil pessoas, eram equipadas com a mais requintada aparelhagem que a Terra podia fornecer — gravadores robôs, sonar e radar, toda a gama de espectrômetros, contadores de radiação, etc.
Acumulava-se material a um ritmo acelerado, mas o ímpeto essencial da pesquisa esmoreceu, e no decurso deste período, ainda otimista apesar de tudo, começou o declínio.

A primeira fase da solarística fora modelada pela personalidade de homens como Giese, Strobel e Sevada, que sempre mantinham o seu espírito aventureiro que defendessem quer atacassem uma posição teórica. Sevada, o último dos grandes solaristas, desapareceu próximo do pólo sul do planeta, e a sua morte nunca foi explicada de modo satisfatório. Caiu, vítima de um erro que nem um novato teria feito. Voando a baixa altitude, à vista de inúmeros observadores, a sua nave mergulhou no interior de um agilus que nem estava diretamente no seu caminho. Houve especulações a respeito da possibilidade de um súbito ataque de coração ou um desmaio ou uma falha mecânica, mas, pessoalmente, sempre pensei que este tivesse na realidade sido o primeiro suicídio na história de Solaris, provocado pela primeira crise abrupta de desespero.
Houve outras “crises”, não mencionadas em Gravinsky, de cujos pormenores me recordava enquanto olhava para as páginas impressas em letra miúda e já amareladas.
Em todo o caso, as posteriores expressões de desespero foram menos dramáticas, na medida em que as personalidades excepcionais foram rareando. O recrutamento de cientistas para qualquer campo particular de estudo numa época dada nunca foi estudado como um fenômeno de direito próprio. Todas as gerações produzem um número mais ou menos constante de homens brilhantes e decididos; a única diferença está na direção por eles escolhida.
A presença ou ausência de tais indivíduos num particular ramo de estudo é provavelmente explicável em termos das novas perspectivas que se oferecem. Podem variar as opiniões a respeito dos investigadores da fase clássica dos estudos solarísticos, mas ninguém poderá negar a sua estrutura, até o seu gênio. Durante várias décadas, o misterioso Oceano atraíra os melhores matemáticos, físicos e os principais especialistas em biofísica, teoria da informação e eletrofisiologia.
Depois, sem aviso prévio, o exército de pesquisadores encontrou-se sem chefe. Ficou apenas uma amálgama sem face de industriosos colecionadores e compiladores. Ainda se planeava uma ocasional experiência original, mas a sucessão de vastas expedições montadas à escala mundial tinha acabado e o mundo científico não retumbava já com teorias ambiciosas e controversas.

A maquinaria da solarística caiu em desuso e enferrujou, com hipóteses que só nos pormenores se diferenciavam e que eram unânimes na sua concentração sobre o tema da degeneração, regressão e introversão do Oceano. Uma vez ou outra talvez emergisse um conceito mais audacioso e interessante, mas sempre se resumia a uma espécie de acusação contra o Oceano, considerado como o produto último de um desenvolvimento que há muito tempo, milhares de anos atrás, passara por uma fase de organização superior e agora nada mais tinha que uma unidade física. Baseavam-se no argumento de que as suas muitas criações inúteis e absurdas eram as cobertas mortuárias — embora impressionantes —, que se arrastavam há séculos. Assim, por exemplo, os extensores e mimóides eram considerados tumores, e todos os processos à superfície do gigantesco corpo fluido, como expressões de caos e anarquia. Esta maneira de ver o problema tornou-se uma obsessão. Durante sete ou oito anos, a legislatura acadêmica produziu uma imensidão de afirmações, as quais, se bem que expressas em termos polidos e cautelosos, pouco mais eram que insultos, a vingança de uma turma de admiradores sem líder, quando se aperceberam de que o objeto das suas mais prementes atenções continuava indiferente, ao ponto de obstinadamente ignorar todos os seus avanços.

Um grupo de psicólogos europeus lideraram a opinião pública por um período de vários anos. Os seus relatórios não estavam diretamente ligados a estudos solarísticos e não foram incluídos na coleção da biblioteca, mas eu os tinha lido e tinha ainda uma lembrança clara a respeito das suas descobertas. Os investigadores tinham demonstrado, de modo impressionante, que as alterações na opinião leiga estavam intimamente relacionadas com as flutuações de opinião que se registravam nos círculos científicos.
Essa alteração notava-se até no comitê coordenador do Instituto de Planetologia, que controla os subsídios financeiros para a pesquisa, traduzindo-se numa progressiva redução dos orçamentos dos institutos e organizações dedicados aos estudos solarísticos e também em restrições na dimensão das equipas de exploração.

Alguns cientistas adotaram uma posição no extremo oposto e reclamavam no sentido de se tomarem medidas mais vigorosas. O diretor administrativo do Instituto Cosmológico Universal aventurou-se a afirmar que o Oceano vivo não desprezava os homens nem um pouco, mas que não reparava neles, tal como um elefante também não vê nem sente as formigas que correm nas suas costas. Para atrair e manter a atenção do Oceano, seria necessário inventar estímulos mais poderosos e máquinas gigantescas desenhadas à medida de todo o planeta.
Comentaristas maliciosos não perderam tempo para fazer notar que o diretor bem se podia permitir ser generoso, pois era o Instituto de Planetologia quem teria de pagar a conta.

Mas as hipóteses continuavam a chover — hipóteses velhas e “ressuscitadas”, superficialmente modificadas, simplificadas ou complicadas ao extremo—, e a solarística, uma disciplina relativamente bem definida apesar do seu âmbito, tornou-se um labirinto cada vez mais confuso, onde cada saída aparente levava a um beco sem saída. Neste desalento, o Oceano de Solaris ia submergindo sob um oceano de papel impresso.

Dois anos antes de eu começar o meu estágio no laboratório de Gibarian, estágio esse que acabou quando obtive o diploma do Instituto, a Fundação Mett-Irving ofereceu um prêmio enorme a qualquer pessoa que conseguisse descobrir um método viável de medir a energia do Oceano. A ideia não era nova. No passado, já várias camadas de geléia  plasmática tinham sido trazidas para a Terra e vários métodos de preservação tinham sido pacientemente experimentados: temperaturas altas e baixas, microatmosferas e microclimas artificiais, radiação prolongada. Tinha-se percorrido toda a gama de processos físicos e químicos, apenas para obter sempre o mesmo resultado, um gradual processo de decomposição, que passava por fases bem definidas, começando com um enfraquecimento, maceração, depois uma liquefação de primeiro grau (primária) e depois final (secundária). As amostras tiradas das excrescências e criações plasmáticas sofriam o mesmo destino, com algumas variações nas fases de decomposição. O produto final era sempre uma leve cinza metálica.

Logo que os cientistas reconheceram que era impossível manter vivo, ou até em estado “vegetativo”, qualquer fragmento do Oceano, grande ou pequeno, dissociado do organismo no seu todo, desenvolveu-se uma crescente tendência (sob a influência da escola de Meunier-Proroch) para isolar este problema, como sendo a chave do mistério. Foi considerado como um caso de interpretação — resolvam-no, e todo o resto se lhe seguirá.

A procura desta chave, a pedra filosofal dos estudos solarísticos, absorveu o tempo e a energia de toda a espécie de pessoas com pouco ou nenhum treino científico. Durante a quarta década da solarística, a loucura espalhou-se como uma epidemia e proporcionou terra fértil aos psicólogos. Um número desconhecido de loucos e fanáticos ignorantes labutavam nas suas desajeitadas pesquisas com um entusiasmo maior do que aquele que animou os velhos profetas que pregavam o movimento perpétuo ou a transformação do circulo em quadrado. A loucura gastou-se em poucos anos, e na altura em que fiquei pronto para partir para Solaris, desaparecera dos cabeçalhos dos jornais e das conversas e o próprio Oceano estava praticamente esquecido pelo público.

Tive o cuidado de colocar de novo o Compendium na correta posição alfabética e, ao fazê-lo, desloquei um delgado panfleto da autoria de Grastrom, um dos mais excêntricos autores na literatura solarística. Eu lera já o panfleto, que fora ditado pela necessidade de compreender o que há para além do alcance da humanidade e que ataque em particular o indivíduo, o homem, a espécie humana.
Era o trabalho abstrato e ácido de um autodidata que anteriormente tinha feito uma série de contribuições pouco comuns a vários ramos marginais e diversificados da física quântica. Neste livrinho de quinze páginas (a sua obra magna), Grastrom propôs-se demonstrar que as mais abstratas realizações da ciência, as mais avançadas teorias e vitórias das matemáticas, nada mais representavam que um tropeçante avanço de um ou dois passos na rude, pré-histórica e antropomórfica compreensão do universo que nos rodeia. Apontou correspondências com o corpo humano — as projeções dos nossos sentidos, a estrutura da nossa organização física e as limitações fisiológicas do homem— nas equações da teoria da relatividade, no teorema dos campos magnéticos e nas várias teorias dos campos unificados. A conclusão de Grastrom foi que nunca houvera, nem nunca poderia haver, qualquer hipótese de “contato” entre a humanidade e qualquer civilização não humana.

Este ataque contra a humanidade não fazia menção específica ao Oceano vivo, mas a sua presença constante e o seu silêncio cheio de desprezo e vitorioso podia sentir- -se por entre as linhas, pelo menos tal fora a minha impressão pessoal. Foi Gibarian quem para ele me chamou a atenção e deve ter sido Gibarian quem o acrescentou à coleção da Estação. Por sua própria conta, visto o panfleto de Grastrom ser considerado mais uma curiosidade que verdadeira contribuição para a literatura solarística.

Com estranho sentimento, quase de respeito, pus cuidadosamente o delgado panfleto na prateleira apinhada e, com as pontas dos dedos, acariciei a encadernação verde e bronze do Anal de Solaris. No espaço de poucos dias, tínhamos inegavelmente ganho informações positivas acerca de várias das questões básicas que tinham feito correr rios de tinta e dado origem a inúmeras controvérsias, tendo porém continuado estéreis por falta de argumentos. Hoje, o mistério tinha-nos praticamente sitiados, e já tínhamos poderosos argumentos.

O Oceano seria uma criatura viva? Dificilmente alguém poderia continuar a duvidar, salvo se fosse amante do paradoxo ou da obstinação. Já não era mais possível negar as funções “psíquicas” do Oceano, fosse qual fosse o sentido em que se definisse o termo. Era certamente mais do que óbvio que o Oceano tinha “reparado” em nós. Este fato bastava para invalidar toda a classe das teorias solarísticas que afirmavam que o Oceano era um mundo “introvertido”, uma “entidade eremita”, que, devido a um processo de degeneração, estava privada dos órgãos pensantes que outrora possuíra, inconsciente da existência de objetos e acontecimentos externos, prisioneiro de um vórtice gigantesco de correntes mentais criadas e confinadas nas profundezas desse monstro que girava entre dois sóis.

Mas não só isso, tínhamos também descoberto que o Oceano era capaz de reproduzir aquilo que nós próprios nunca tínhamos conseguido criar artificialmente — um corpo humano perfeito, modificado na sua estrutura subatômica para fins que não conseguíamos adivinhar.

O Oceano vivia, pensava e agia. O “problema Solaris” não tinha sido aniquilado pelo seu próprio absurdo. Estávamos verdadeiramente a lidar com a criatura viva. A faculdade “perdida” não estava nada perdida. Tudo isso parecia agora provado sem sombra de dúvida. Quer gostem quer não, os homens terão de dar atenção a este vizinho, á distância de vários anos luz, mas um vizinho situado dentro da nossa esfera de expansão e mais inquietante que todo o resto do universo.

Talvez tivéssemos chegado a um ponto crítico. Qual iria ser a decisão a alto nível? Receberíamos a ordem de desistir e regressar à Terra imediatamente ou num futuro próximo? Seria até possível que nos mandassem liquidar a Estação? Pelo menos não era de todo improvável. Eu não apoiava a solução pela retirada.

Era bem possível que a existência do colosso pensante continuasse a perseguir a mente dos homens. Mesmo depois de o homem ter explorado todos os recantos do cosmo e estabelecido relações com outras civilizações fundadas por criaturas semelhantes a nós próprios, Solaris continuaria a ser um eterno desafio.




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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

The H. G. Wells Reader - A Complete Anthology from Science Fiction to Social Satire




For the first half of the twentieth century H. G. Wells was a tremendously popular fiction writer, an influential thinker, and a widely heeded voice of insight and rationality.

George Orwell’s remark that Wells was too sane to be of much help in the dark years of the late 1930s follows his acknowledgment that for young people at the time Wells had been the most important writer in the first twenty years of the century. The comment also implies that it is in relation to Wells that one can calibrate the crises in modern history. Wells’s opinions on biology, on the novel, on politics, on sexuality startled and made people rethink their ideas.

As the works included here should amply demonstrate, Wells’s fiction renders with complexity, intelligence, and flair crucial modem situations. At the most obvious, he engages increasingly serious issues of technology and the possibilities of the future. He is an important Darwinian. He may be the greatest English utopianist.
He has few rivals as a comic writer. Finally-though this is a quality that is seldom acknowledged as a virtue-he brings to the level of art the experience and understanding of the lower classes. Only Dickens is his match in this respect. Put these virtues together and you have an art full of the richness we associate with the great realist novels, enlivened by an ironic intelligence of the first order, and engaged on important subjects even when most fanciful.

Introduction
Chronology
“The Stolen Bacillus” (1894)
“The Triumphs of a Taxidermist” (1894)
”Wpornis Island” (1894)
from The Time Machine (from chapters 4,14,15 and the epilogue) (1895)
from The Wheels of Chance (chapters 28-29) (1895)
from The Island ofDoctor Moreau (from chapters 12 and 16) (1896)
from The Invisible Man (chapters 5-7) (1897)
from The War ofthe Worlds (book 1, chapters 1,2,5, 13, and 17; book 2,chapter 8) (1898)
from The First Men in the Moon (chapter 6 to the end) (1901)
from The Food ofthe Gods (from chapters 2 and 3) (1904)
”The Country of the Blind” (1904)
from In the Days of the Comet (book 1; book 2, from chapters 1 and 3; book 3, from chapters 1 and 3, and the epilogue) (1906)
from Tono-Bungay (book 2, chapter 2; book 4, chapter 3) (1909)
The History of Mr. Polly (1910)
A Note on Sources
Bib1iography


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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Lost in Space - Geographies of Science Fiction



"The two things for which science fiction is best known are these: the creation of new environments, and the evocation of a sense of wonder. New places are wrought and telling futures conjured, and within both we hold up a mirror to ourselves. Whether in the guise of traditional space opera or slick 1990s cybernoir,
the lyricism of Ray Bradbury's Mars stories, the gnostic unrealities of Philip K. Dick or the head-swirling complexity of Greg Egan's new conceptual worlds, much of the genre's sense of possibility comes from this revitalized consideration of where we live now, and what we think we know about it.'
Foreword
Michael Marshall Smith

1 Lost in space
James Kneale and Rob Kitchin

2 The way it wasn't: alternative histories, contingent geographies
Barney Warf

3 Geography's conquest of history in The Diamond Age
Michael Longan and Tim Oakes

4 Space, technology and Neal Stephensbn's science fiction
Michelle Kendrick

5 Geographies of power and social relations in Marge Piercy's He,She and It
Barbara J. Morehouse

6 The subjectivity of the near future: geographical imaginings in the work of J. G. Ballard
Jonathan S. Taylor

7 Tuning the self: city space and SF horror movies
Stuart C. Aitken

8 Science fiction and cinema: the hysterical materialism of pataphysical space
Paul Kingsbury

9 An invention without a future, a solution without a problem: motor pirates, time machines and drunkenness on the screen
Marcus A. Doel and David B. Clarke

10 What we can say about nature: familiar geographies, science fiction and popular physics
Sheila Hones

11 Murray Bookchin on Mars! The production of nature in Kim Stanley Robinson's Mars trilogy
Shaun Huston

12 In the belly of the monster: Frankenstein, food, factishes and fiction
Nick Bingham

References
Index

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