sábado, 12 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 1)






“Passou a colheita, findou o verão, e nós não estamos salvos."
Jeremias 8, 20


Para Alan Iverson






UM
O pródigo

Conforme a menor e em seguida as estrelas maiores desapareceram com o raiar do dia, a massa imponente da floresta que cercava o milharal reteve por um pouco, a escuridão da noite. Uma leve brisa soprava do lago, farfalhando as folhas do milho jovem, porém as folhas da floresta escura não se mexiam. Agora a parede leste da floresta brilhava verde-acinzentado, e os três homens à espera no campo, sabiam, embora não pudessem ver, que o sol já estava alto.

Anderson cuspiu - o dia de trabalho tinha oficialmente começado. Ele começou a percorrer o caminho até a inclinação suave em direção à parede leste da floresta. A quatro fileiras de distância de cada lado, seus filhos seguiram-o - Neil, o mais novo e maior à direita, e Buddy à esquerda.

Cada homem carregava dois baldes vazios de madeira. Nenhum deles usava qualquer calçado ou camisa, pois era verão. Suas roupas estavam em frangalhos. Anderson e Buddy tinham chapéus de abas largas de ráfia bruta, como os chapéus que se usam nas festas e feiras estaduais. Neil de óculos de sol, mas sem chapéu. Os óculos eram velhos, a ponte do óculos tinha sido quebrada e remendada com cola e uma tira da mesma fibra da qual os chapéus tinham sido feitos. Seu nariz era marcado, onde ele repousava.

Buddy foi o ultimo a chegar ao topo da colina. Seu pai sorria enquanto espera que o alcançasse.
O sorriso de Anderson nunca era um bom sinal.

"Está dolorido de ontem?”
"Estou bem. Desaparecerá quando eu começar a trabalhar."
Neil riu. "Buddy está com dor porque ele tem que trabalhar. Não é assim, amigo?"
Foi uma brincadeira. Mas Anderson, cujo estilo era lacônico, nunca ria das piadas, e Buddy raramente achava engraçadas as piadas feitas por seu meio-irmão.
"Você não entendeu?" Neil perguntou. "Dolorido. Buddy está dolorido porque ele tem que trabalhar."
"Nós todos temos de trabalhar" disse Anderson, e isso terminou com a piada.
Eles começaram a trabalhar.

Buddy retirou o tampão de sua árvore e inseriu um tubo de metal onde o tampão estivera. Abaixo da torneira improvisada ele pendurou um dos baldes. Puxar os tampões era um trabalho árduo, e tinham feito isso a semana toda. A seiva que escorria do buraco agia como uma cola. Este trabalho parecia sempre durar apenas o tempo suficiente para a dor de seus dedos, pulsos, braços, costas, voltar, mas nunca para abatê-lo.

Antes do terrível trabalho de carregar os baldes começar, Buddy parou e olhou para a seiva escorrendo pelo tubo como mel verde-limão para dentro do balde. Estava saindo devagar hoje. Até o final do verão esta árvore estaria morta e pronta para ser cortada.

Vista de perto, não se parecia muito com uma árvore. Sua pele era lisa, como o caule de uma flor. Uma árvore desse tamanho teria rachado através da pele sob a pressão de seu próprio crescimento, e seu tronco seria áspero com uma casca. Dentro da floresta você poderia encontrar árvores de grande porte, que tinham atingido o limite de seu crescimento e começaram finalmente a formar algo como uma casca. Pelo menos seus troncos, apesar de verdes, não estavam úmidos ao toque como esta.

Essas árvores ou Plantas, como Anderson chamava, tinham seiscentos metros de altura, e suas maiores folhas eram do tamanho de outdoors. Aqui na orla do milharal eram mais novas, não chegavam a dois anos e de apenas cento e cinquenta metros de altura. Mesmo assim, aqui como na floresta profunda, o sol apareceu por entre a folhagem ao meio-dia tão pálido como o luar em uma noite nublada
.
Tirem o cano!" Anderson gritou. Ele já estava no campo com seus baldes cheios de seiva, a seiva  transbordava dos baldes de Buddy também.
Porque é que nunca temos tempo para pensar? Buddy invejava a capacidade de Neil de fazer as coisas, de girar a roda da sua gaiola, sem saber como ela trabalhava.
"Vamos logo!" Neil gritou de longe.
"Vamos logo!" Buddy ecoou, sabendo que seu meio-irmão também tinha sido pego em seus próprios pensamentos, quaisquer que fossem.

Dos três homens que trabalhavam no campo, Neil certamente tinha o melhor corpo. Exceto por um queixo retraído, que dava uma falsa impressão de fraqueza, era forte e bem proporcionado. Era quase quinze centímetros mais alto que o pai ou Buddy, ambos homens baixos. Seus ombros eram mais amplos, o peito maior, e seus músculos, embora não tão definidos como Anderson, eram maiores. Não havia no entanto, nenhuma economia em seus movimentos. Quando ele entrava, era correndo. Quando se sentava, era largado. Ele suportava a pressão do dia de trabalho melhor do que Buddy simplesmente porque ele tinha mais material para suportar Nisso ele era bruto, mas pior do que ser bruto, Neil era burro, e pior do que ser burro, era vil.

Ele é malvado, Buddy pensou, e ele é perigoso. Buddy desceu pelo caminho do milho, um balde cheio de seiva em cada mão e seu coração transbordante com má vontade. Isso lhe conferia uma espécie de força, e ele precisava de toda a força que conseguiu reunir, de qualquer fonte. Seu café da manhã tinha sido leve, e almoço, ele sabia, não seria o bastante, e não haveria jantar.
Mesmo a fome, tinha aprendido, tinha seu próprio tipo de força: a vontade de arrancar mais alimentos do solo e tirar mais solo das Plantas.

Não importava o quanto de cuidado que ele tomava, a seiva acertava as pernas de suas calças enquanto ele andava, o tecido rasgado e preso à sua perna. Mais tarde, quando o dia estaria quente, o corpo todo estaria coberto com a seiva. A seiva secaria, e quando ocorresse, o tecido engomado iria arrancar os cabelos do corpo, um por um. Mas não era o pior, graças a Deus, o corpo tem um número finito de cabelos, mas ainda haviam as moscas que enxameavam sobre sua carne para se alimentar da seiva. Ele odiava as moscas, que não pareciam ter um número finito.

Quando chegou ao pé do declive no meio do campo, Buddy baixou um balde no chão e começou a alimentar as plantas jovens sedentas com o outro. Cada planta recebeu cerca de um quilo do grosso e verde nutriente e com bons resultados. Não era Quarto ainda, e muitas plantas já estavam na altura
dos joelhos. O milho teria crescido bem nos solos ricos atrás do lago, em qualquer caso, mas com a alimentação adicional extraida da seiva roubada, as plantas vicejavam fenomenal, como se estivessem no centro de Iowa em vez do norte de Minnesota. Este parasitismo inconsciente do milho servia a outra
finalidade além disso, para que o milho crescesse, as Plantas de cuja seiva haviam bebido morriam, e cada ano o limite de campo poderia ser aumentado um pouco mais.

Tinha sido idéia de Anderson usar as Plantas contra elas mesmas dessa maneira, e todo milho no campo era um testemunho de seu ardil. Olhando para as longas fileiras, o velho sentia-se como um profeta, diante da visão de sua profecia. Seu lamento agora era de que ele não tinha pensado nisso antes, antes da diáspora de sua aldeia, antes que as Plantas tivessem tomado sua fazenda e as fazendas de seus vizinhos.
Se apenas...
 
Mas isso era história, água debaixo da ponte, leite derramado, e, como tal, pertencia a uma noite de inverno na Sala Comum quando havia tempo para se lamentar. Agora, e pelo resto do dia, havia trabalho a fazer. Anderson olhou em volta para seus filhos. Eles seguiam atrás, ainda esvaziando seus baldes, o segundo balde, sobre as raízes do milho.

“Vamos!", gritou. Então, voltando-se para a colina com seus dois baldes vazios, ele deu um sorriso fino, sem alegria, o sorriso de um profeta, e cuspiu através do espaço entre os dentes da frente, uma fina corrente do suco da Planta que mascava.

Ele odiava as Plantas, e o ódio lhe dava forças.

Eles trabalharam, suando ao sol, até meio-dia. As pernas de Buddy estavam tremendo da tensão e de fome. Mas cada viagem até as fileiras de milho era mais curta, e quando ele voltou para as Plantas, houve um momento (e cada um maior do que a anterior), antes da baldes estarem cheios, quando ele podia descansar.

Às vezes, apesar de não gostar do sabor vagamente anis, ele enfiava o dedo no balde e lambia a calda agridoce. Não nutria, mas dissipava sua fome. Ele poderia ter mastigado a polpa de talha do floema do tronco, como seu pai e Neil faziam mas "mastigar" lembrava-lhe da vida que ele havia tentado escapar  dez anos antes, quando deixou a fazenda indo para cidade. Sua fuga havia falhado, tão certo como a
próprias cidades tinham falhado em se manter. No passado, tal como na parábola, ele teria ficado satisfeito com as cascas que os porcos comiam, e voltou para Tassel e para a fazenda de seu pai.

Fiel à forma, o bezerro engordado tinha sido morto, e se o seu regresso fosse uma parábola, teria sido um final feliz. Mas foi a sua vida, e ele ainda era, em seu coração, um filho pródigo, e houve momentos em que ele desejava ter morrido de fome na cidade.

Mas em uma disputa entre a fome na barriga e predileções da mente, a barriga tinha mais chances de ganhar. A rebeldia do filho pródigo tinha sido reduzida ao uso de certas palavras e coisas pequenas: como uma obstinada recusa em usar a palavra ‘naum’ e um desprezo pela música country, um ódio por "mastigar", e uma repugnância para o caipira, o caipira e o cacarejar mudo. Em uma palavra, Neil.

O calor e o cansaço de seu corpo conspiraram para direcionar seus pensamentos para canais menos conturbados, e como ele ficou olhando para os baldes enchendo lentamente, na sua mente surgiram as imagens de outros tempos. Da Babilônia, aquela grande cidade.

Ele se lembrava de como à noite, as ruas se assemelhavam a rios de luz e como os brilhantes, anti-sépticos carros escorriam pelos rios. Uma hora após a outra, o som não diminuia, nem as luzes se apagavam. Haviam os drive-ins, e quando o dinheiro era pouco, as lanchonetes de fast-food. Garotas de shorts serviam-o em seu carro. Às vezes os shorts tinham franjas brilhantes que saltavam sobre as coxas bronzeadas.

No verão, enquanto os caipiras trabalhavam nas fazendas, haviam praias com iluminação artificial, e sua língua seca enrolava agora lembrando como entre o labirinto de tambores de óleo vazios apoiando a balsa de mergulho, ele tinha beijado Irene. Ou alguém. Os nomes não importavam mais.

Fez outra viagem para baixo e quando alimentava o milho, lembrou os nomes que não importavam mais  agora.

Ah, a cidade fervilhava de meninas. Poderia ficar em uma esquina, e em uma hora centenas delas passariam por ele.  Centenas de milhares de pessoas!

Lembrou-se da multidão no inverno, no auditório aquecido no campus da universidade. Ele usava uma camisa branca. O colarinho apertado no pescoço. Em sua imaginação, ele afrouxou o nó de uma gravata de seda. Seria listrada ou lisa? Pensou nas lojas cheias de ternos e jaquetas.
Ah, as cores! A música e depois os aplausos!

Mas o pior de tudo, pensou descansando junto à Planta, é que não havia ninguém com quem falar.
A população total de Tassel era de duzentos e quarenta e sete, e nenhum deles, nenhum deles, conseguia entender Buddy Anderson. Um mundo havia se perdido, e eles não estavam cientes disso.

Nunca fora o mundo deles, mas por um breve tempo, fora de Buddy, e tinha sido belo.



Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 1) [ Download ]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (5/5) - Thomas M. Disch



[Ler 4/5]

Não quero sugerir que o paralelo que estou observando, entre a FC e a religião, é sempre uma coisa boa. Há aspectos da religião que causaram problemas, historicamente falando. Por exemplo, houve a Inquisição, numa época em que se você tivesse noções que pudessem ser consideradas heréticas, isso certamente lhe traria problemas.

A religião é freqüentemente organizada para criar problemas para  pessoas que têm ideias erradas. Na FC também. Há influências ortodoxas na FC e eu senti em minha própria experiência, e outros também sentiram. Como a maioria dos hereges, tenho a tendência em pensar em ortodoxia como sendo uma oposição ao livre exercício da imaginação. Os ortodoxos, naturalmente, pensam que são defensores da verdade.

Acho que quando falamos de arte versus religião (se não estamos considerando a religião um ramo da arte) o imperativo artístico é o de fazer coisas novas, criar uma imagem que não é apenas um eco do bem sucedido de ontem, e se opõe necessariamente à outra sentença, ou seja, fazê-lo de novo da mesma forma.

Como escritor, o que muitas vezes se sente dos editores, e as vezes dos leitores, é que se deve repetir algo: se é tão bom, então faça-o como você fez da última vez.Isso geralmente é feito, as pessoas, parece-me, escrevem substancialmente o mesmo livro novamente. O processo é chamado ortodoxia, e o resultado pode ser um livro de bolso ou um ícone. A maioria dos romances de bolso ortodoxos são baseados em um livro chamado 'The Hero with a Thousand Faces', de Joseph Campbell. Campbell mostra como todos os mitos podem ser resumidos em um mito para todos os fins.Moisés é a mesma história de Teseu, e isso é o mesmo para todas as outras histórias famosas. Assim, uma vez que há somente uma história para contar, os escritores só precisam escrever esta história. E qual é essa história? Aventura!

Pegue qualquer uma delas, como 'Lord Vallentine’s Castle' de Robert Silverberg, e sob sua pintura nova há o chassi de 'The Hero with a Thousand Faces'. Silverberg, é claro, não tem a única cópia do livro de Campbell. A minha ‘The Brave Little Toaster’ é um conto de aventura investigativa com o mesmo enredo. Não há necessariamente nada de errado nisso, todos os escritores na verdade, provavelmente vão escrever uma, algum dia, talvez até sem saber, porque é um padrão muito básico, mas não é o único padrão para se contar uma história. Experimente dizer isso para um pintor de ícones ortodoxos, e você só terá um olhar vazio em resposta.

Há outro aspecto de sempre contar a mesma história, e não é uma questão do enredo, mas da moral da história. Tem sido por vezes sugerido que eu sou um niilista, e sinto que isso equivale a dizer que sou um herege. Niilistas não acreditam em nada, e isso significa que há, portanto, algo em que acreditar, ou seja, uma posição ortodoxa. 

O meu niilismo parece resumir-se entre aqueles que me apontam como tal para um livro chamado 'OS GENOCIDAS' no qual a Terra é destruída por invasores alienígenas. Eu não quero sugerir no livro que a terra deva ser destruída por invasores alienígenas, ou que venha a ser destruída, ou mesmo que nós merecemos esse destino. Eu queria escrever o que se pode chamar de uma tragédia épica, e ao mesmo tempo que pode ser uma ambição um pouco pretensiosa (para um pequeno livro), a noção de que qualquer um poderia escrever uma tragédia foi um erro da minha parte, que eu compreendi desde então. Não estou me contradizendo, preste atenção, mas quando o Grande Inquisidor me tinha sob seu poder, ele me apontou que os problemas não deveriam existir na FC, a menos que eles estejam lá para serem resolvidos, e que os homens podem olhar para um futuro de imortalidade e que é bem possível, que nenhum de nós vá algum dia morrer.

Embora não esteja convencido, não me oponho ao Grande Inquisidor, e outros de sua fé, publicando livros que expressam a ortodoxia, a visão alegre da imortalidade destinada a humanidade, e a conseqüente irrelevância da experiência trágica, mas acho que os hereges devem ser autorizados a distribuir seus panfletos e publicar seus romances também.

Tudo isso resume-se a uma declaração a favor do pluralismo, e que parece ser um fundamento bastante inglês. Historicamente a Inglaterra foi o primeiro país em que várias religiões aprenderam a viver lado a lado com êxito. Com certeza eles ainda se reúnem, algumas vezes, em congressos ecumênicos, ou se não lá, vivem todos na mesma aldeia e zombam uns das igrejas dos outros, amigavelmente, no espírito pacífico e pluralista, o espírito de uma boa convenção.

De modo que este parece ser o meu final feliz. Exceto, e me ocorre a dúvida, se eu poderia com base nestas idéias, qualificar-me como um pensador religioso. E se assim for, se eu poderia solicitar a vocês, tornarem-se membros da minha própria congregação. Os benefícios fiscais seriam simplesmente maravilhosos para mim.



Ficção científica como uma Igreja - 'On SF' por Thomas M. Disch.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (4/5) - Thomas M. Disch




[Ler 3/5]

A escala de tempo é outro aspecto do Sublime, o fato de que você pode olhar para trás na história da mesma maneira que você pode olhar no espaço, ou você pode olhar avante na história através das dimensões, como as projeções de Stapledon através de eras e eras de futuridade. Wells foi o primeiro escritor a explorar a história humana universal que remonta ao período dos homens das cavernas ou mesmo a formação geológica da Terra. É um novo sentido da história que temos, as dimensões de tempo, que precisa ser comemorado de alguma forma, ser entendido, compreendido e pensado.
Então esse é outro aspecto de sublimidade, a histórica.

Mas ainda há mais uma, e é onde a palavra realmente tem seu peso. Antes de paisagens serem consideradas Sublimes (de acordo com Reynolds) Michelangelo foi creditado como sendo o grande pintor sublime. Isso também se relaciona com o que era suposto haver e que Rafael e outros não tinham: ‘terribilitá’, uma palavra italiana maravilhosa; ‘Terribility’ (terrabilidade) não funciona em inglês da mesma forma que ‘terribilità’ em italiano. Significa que você olha para um Michelangelo e você se relaciona com a imagem que está vendo: uma imagem humana tão poderosa e tão profundamente significativa que você olha para ela e sente algo além do humano na imagem humana, algo semelhante a Deus. E, é claro, era o que Michelangelo estava pintando: imagens de deuses.

Agora, pintar um retrato de um deus assim não é fácil. Você não precisa sequer ser cristão para entender o que a imagem humana pode ser ilimitadamente significante para os seres humanos, pois ela pode condensar tudo o que é significativo e maravilhoso, a alma quebrando-se em uma imagem - ou um conto.

O sublime humano pode ser encontrado tanto na literatura quanto na pintura.

Os artistas Michelangelo e Reynolds não podem ser comparados com outros pintores: mas com Homero e Milton. Atualmente os romancistas raramente escrevem sobre deuses, raramente escrevem sobre heróis no sentido de pessoas vestindo algo apropriado para um baile à fantasia. A não ser por heróis militares e cowboys, cada um tem seu próprio uniforme, os heróis dos romances modernos tendem a ser pessoas comuns.

Há também aspectos da observação ligados ao ritual de evocação dos heróis extraordinários de fantasia. Parsifal, de Wagner, tem um pouco em comum com a Missa Solene em latim. Ou a Society for Creative Anachronism, que organiza justas para aqueles rituais que anseiam por uma participação mais energética.

Eu tenho minha própria sugestão de um ritual que poderia ser devolvido e renovado nos dias de hoje: a construção de pirâmides. Sinto que foram negligenciadas por bastante tempo. Certa vez eu estava em uma catedral na Itália, e ela parecia tão fácil de fazer. Era uma catedral nova e não muito bem construída. Não havia muito que distingui-la como uma obra de arquitetura, e eu não pude deixar de pensar: ‘Ei, eu poderia fazer isso!’ Então pensei que talvez não pudesse de verdade, mas eu certamente poderia fazer algo!

No entanto, se você não tem uma religião, provavelmente não iria querer construir uma catedral, porque estaria preso a todo um sistema com o qual não concorda.

Mas quanto a pirâmides, você teria a satisfação de construir algo sem ter que ser um verdadeiro crente. Então escrevi um artigo, propondo que construíssem pirâmides em Minnesota, e que foi publicado e muito bem recebido. Liguei para voluntários e recebi um monte de e-mails de pessoas que queriam construir pirâmides em Minnesota, e de voluntários para serem uma espécie de escravos para tal. Infelizmente, ninguém escreveu se oferecendo para financiá-la, e paramos ai. Eu devia ter me ocupado organizando uma angariação de fundos, pois assim haveriam pirâmides hoje em Minnesota, e não seria apenas um devaneio meu.


Ficção científica como uma Igreja (5/5) 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (3/5) - Thomas M. Disch



[Ler 2/5]

Se você não tem uma religião para esses fins, então é terrível. Mas deixei de fora algo óbvio. A idéia central da religião é supostamente sobre a experiência humana de nossa relação com outra coisa: Deus, o infinito, ou o quer que seja. A questão é: pode este paralelo ser prolongado a partir dai? Se existem todas essas semelhanças com a religião, então não refletiria a FC também, este aspecto central da religião?

(Há muitas histórias na FC sobre religião, e vou recomendar a você apenas a sensacional Enciclopédia de Ficção Científica, onde Brian Stableford escreveu um artigo absolutamente definitivo sobre o assunto É um assunto extenso, e há muito o que dizer. Mas não é bem onde eu quero chegar aqui.)

O que tenho em mente é: Todo fã de FC irá lhe dizer que o elemento básico da FC é a Sensação de Deslumbramento (Sense of Wonder). Esta sensação pode ser facilmente relacionada com a religião, e posso dar-lhe um nome diferente, o Sublime.

Comecei a ler recentemente um livro chamado 'Turner and the Sublime' (de Andrew Wilton). O Sublime é instantaneamente reconhecível em pinturas de JMW Turner, ou John Martin (se você viu a pintura do Apocalipse na Tate Gallery, com o raio colidindo com o penhasco, sabe do que estou falando). Martin fez dilúvios e catástrofes em larga escala, e há uma série de paisagens marinhas, com tempestades no mar e turbilhões distantes. A imensidão faz parte disso, mas não apenas o tamanho, também a sensação de olhar para grandes distâncias e perder-se em reverência.

É como olhar as estrelas, de certa forma, mas observar estrelas envolve um pouco de pensamento. Se você não tem imaginação, um céu negro com poucos pontos que piscam pode ser interpretado como uma espécie de show de luzes. Quando você começa a especular sobre o que o céu realmente é, o quão longe estão as estrelas e como quão grande cada uma delas é, você começa a ficar perdido nessas idéias, que é quando a Sensação de Deslumbramento começa a acontecer.

Acho que o arquétipo dos livros de FC são aqueles que apelam diretamente para esse sentimento, que o ajudam a formar uma visão da vastidão do espaço. (Olaf) Stapledon, e outro que vem imediatamente à mente (comparável a uma imagem de John Martin) é 'Rendez-vous com Rama' de (Arthur Charles) Clarke, onde você tem um artefato que é misterioso, explorado em suas grandes dimensões, totalmente impressionante, e que desaparece sem ter sido explicado, é apenas observado. Ringworld (e Larry Niven) é outro exemplo óbvio da satisfação que contemplar um fenômeno em grande escala pode te dar. Em menor escala, eu escrevi uma história sobre um elevador que só vai para baixo, sempre, sem parar.

Você pode percorrer esta trilha até o início do romance gótico - não é FC, mas um primo amado: O Castelo de Otranto (romance de 1764 escrito por Horace Walpole e considerado o primeiro romance gótico) é um livro absolutamente idiota que eu não acho que alguém poderia ler hoje em dia sem rir, mas em um ponto só, bate todos os outros. A única coisa que acontece é que a interessante Sensação de Deslumbramento é um capacete gigante que aparece do nada e cai no meio da praça da cidade, matando o amado da heroína. Isso acontece na página 2. Ninguém pode explicá-lo, é um capacete muito grande. Mais tarde, outros pedaços de armadura aparecem, da mesma forma, gigantescos.

Tem que ser algo na noção de grandeza que é inspiradora, que desperta o sentimento de admiração e nos faz ajoelhar e rezar. Tudo isto está relacionado ao que Freud escreveu sobre a ‘experiência oceânica’ - que é uma religião sem uma teoria, o sentimento que você tem em uma noite estrelada.

Mas isso não é tudo que existe do Sublime, porque não há nenhum sistema para tal ainda: está relacionado com o universo. As religiões sempre olham para o universo e descobrem deuses. E os deuses têm invariavelmente uma forma muito humana. É na formação da idéia de qual forma humana os deuses devem ter, é que entra o negócio de escrever histórias.


Ficção científica como uma Igreja (4/5)

terça-feira, 8 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (2/5) - Thomas M. Disch



[Ler 1/5]

Isso não esgota o paralelo entre FC e religião. É quase tão longe quanto fui em Minneapolis, e não fui bem recebido. Mas desde então, ao longo dos anos, tenho pensado sobre todas as formas de natureza religiosa do fandom de FC, e suas convenções, como uma coisa boa, especialmente se você não tem outra religião.
Se você pensar sobre alguns dos propósitos para os quais as religiões servem às pessoas, e pensar em como a FC pode servir a alguns propósitos, existe sim bastante coisa em comum.

O lado óbvio é o da vida social. Certamente quando metodistas se reúnem e decidem assar bolos e vendê-los uns aos outros, e depois sentar-se e comê-los, eles não estão realmente pensando sobre a salvação neste momento. Eles estão desfrutando do café e dos bolos com seus amigos

E é bom ter ocasiões para se reunir e tomar um café com bolo, mesmo se você for Presbiteriano, Unitarista ou fã de FC.

Depois há a questão da peregrinação. No caminho até Leeds percebi que era abril e percebi que eu estava presente em uma peregrinação. Dez quilômetros de interminável congestionamento na M1. Peregrinos, todos nós. E como diria Chaucer (escritor medieval inglês) um dos propósitos de fazer uma peregrinação não é chegar lá, mas sim trocar histórias ao longo do caminho.

Depois há o aspecto que os teólogos chamam de Ágape, ou comunhão, ou como era praticada pelos romanos, as orgias de embriaguez. Este é um aspecto importante da religião. As pessoas que lêem sobre história da religião, sabem que não há um só registro que não cite estes intervalos periódicos durante o ano, em que as pessoas precisam relaxar um pouco. E assim nós temos os feriados.

Há também o aspecto nacionalista da religião. Hoje em dia é considerado quase cafona, e nem me lembro que pertencemos a nações, mas gostando disso ou não, a nacionalidade é uma das principais formas de se classificar pessoas em grupos. No decorrer das vezes em que estive em convenções na Inglaterra (um vez estive em Bristol, e outra em Buxton) vi uma enorme quantidade de ingleses que não tinha visto antes em outra parte. E eu ficava pensando: ‘Bem, sou um turista’.

Mas se você fosse inglês, veria o mesmo e não pensaria em si mesmo como um turista. Religiões e o sistema de peregrinação fornecem maneiras de você começar a conhecer a sua nação, por assim dizer, através da experiência direta. Você visita outras cidades e você vê do que eles gostam e você vive lá algum tempo. Com pessoas convergindo de toda a sua nação, você se mistura e ouve sotaques engraçados e pede para que repitam até você poder entender o que estão dizendo. Depois de algum tempo, você tem realmente um sentido de grupo social maior. Como uma força unificadora social, uma das funções da religião sempre foi torná-lo consciente do grupo maior ao qual pertence.

Essas são coisas realmente boas sobre o sistema de convenções de FC. 


Ficção científica como uma Igreja (3/5)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (1/5) - Thomas M. Disch



Exorto-vos a meditar comigo sobre o tema da Ficção Científica (FC), como uma experiência religiosa e como uma igreja.

É domingo de Páscoa, estamos reunidos para celebrar nossos ritos peculiares, e por isso começarei o serviço agora.

A primeira vez que eu tentei elaborar algo assim, foi em Minneapolis, na primavera de 1973, quando fui a uma pequena convenção de Ficção Científica (deve ter sido por volta da Páscoa).

Duas ou três pessoas discursavam antes de mim. Enquanto falavam, ocorreu-me que esta era uma reunião religiosa, algo que nunca entendi sobre as convenções até então. Não se assemelhava ao catolicismo no qual fui criado (cresci na época em que as missas eram em Latim), mas havia uma grande semelhança entre a convenção de FC em Minneapolis e certos cultos pentecostais que eu tinha presenciado na Guatemala.

Agora que tenho o gancho, vou fazer uma digressão para falar sobre as minhas experiências na Guatemala.

Eu estava viajando com Tony Clark, um vigarista profissional que vendia relógios de ouro maciço na sua van, e a van ficou presa na lama. A única maneira para chegar onde eu queria ir, era tomar um avião que, por razões políticas parou na fronteira das Honduras Britânicas, e eu não consegui ir adiante. Não havia transporte público da fronteira para a única cidade, Belize. Então comecei a pegar carona, e não havia muito trânsito no interior das Honduras Britânicas, quando finalmente um Land Rover veio e parou para mim. O motorista era muito simpático, e eu estava muito amigável também. Acontece que ele estava lá como missionário do Evangelho Pentecostal, e achava que a Divina Providência colocara-me lá na estrada para ele me encontrar. Eu não poderia contradizer isso. Levou-me para sua casa e participei de seu trabalho. E foram horas muito agradáveis. Eles cantavam e dançavam e estavam convencidos de sua natureza especial ali: do fato de que, das poucas pessoas da raça humana que iriam ser salvas nos tempos vindouros, estavam aqueles da região central das Honduras Britânicas, os privilegiados que não iriam para o inferno, mas para o céu.

Esse é o paralelo que eu observei com Minneapolis.

Bendito é o texto, bem-aventurados são aqueles que lêem FC, porque eles herdarão o futuro.

Também há sugestões de poderes secretos, que algumas poucas pessoas possuem, sugerindo que estes poderes secretos mentais, de vários tipos, são relacionados com quem lê FC. Tais poderes, não raramente, estão associados também com a experiência religiosa. Há também a revelação feita a Noé. Como Noé, muitos escritores de FC e seus fãs, se consideram sabedores sobre a catástrofe que se aproxima (o que quer que possa ser), e estão contando em estar entre os poucos felizardos que sobreviverão.
Necessita citar capítulo e versículo?

Depois há a questão da cura e aqui vou entrar em outra digressão.

Minha primeira grande conferência de FC foi a Conferência dos Escritores de Milford (Connecticut), em 1964. Eu não conhecia ninguém em Milford de antemão e ninguém lá nunca tinha ouvido falar de mim, porque eu estava lá como convidado de Dobbin Thorpe. Dobbin havia publicado uma história surpreendente e Damon Knight gostou dela e foi assim que Dobbin foi convidado.

Eu ficaria hospedado com Walt e Leigh Richmond, proprietários da Red Fox Inn, a cerca de dez quilômetros fora de Milford. Na pousada participei de uma cena com a qual estava pouco familiarizado.
Walt Richmond estava examinando um escritor jovem de FC que também fora convidado. Ele tinha uma doença em seu joelho, relacionada com um trauma de infância e que Walt estava investigando. Acontece que este companheiro tivera todo tipo de problemas não resolvidos com seu pai, e todos eles se concentravam em engrams (conceito de neuropsiquiatria) em seu joelho. Eu não sabia sobre a teoria por trás de tudo isto, mas fiquei impressionado com o fato de que ambos entendiam o que estavam fazendo e que eles esperavam que eu também soubesse. Eu era tímido e eu não deixei Walt elucidar sobre meus engrams.Mas eu tive que contar esta história porque os Richmonds estão entre aquelas pessoas que possuem poderes psíquicos de algum tipo estranho. Escreviam livros, e Leigh explicou o método da sua colaboração.

É comum quando você escreve em colaboração com outros, as pessoas quererem saber como você realmente o faz. Walt e Leigh tinham encontrado uma técnica muito incomum e eficaz. Ele pensava no que iriam escrever e projetava isso psiquicamente. Ela sentava-se na máquina de escrever e escrevia a história que ele havia projetado para ela. Nunca tiveram que trocar uma palavra sequer!

Isto foi o mais perto que cheguei dos arcanos interiores do templo da Verdade.

Acreditar em Ficção Científica.

Os Richmonds compreendiam todo tipo de coisas sobre a Atlântida. Eles escreveram livros sobre ela, livros que eram visões de coisas que tinham realmente acontecido. Claro que ficaram um pouco irritados quando as pessoas consideravam os livros como ficção, porque sabiam que não era ficção. Mas por outro lado, eles tinham que ganhar a vida, e assim era publicada, como ficção.



Ficção científica como uma Igreja (2/5)

domingo, 6 de março de 2011

Thomas M. Disch


 
Apesar de americano, Disch era associado frequentemente com a ficção científica new wave da Grã-Bretanha - onde viveu no final dos anos 1970 - e que era centrada em autores como Michael Moorcock e M.John Harrison, invés de figuras como Philip K Dick e Ursula Le Guin nos Estados Unidos, igualmente empenhados em ampliar o alcance do gênero de suas origens.

O trabalho de Disch era conscientemente literário e ambicioso - e tornou-se ainda mais com o passar do tempo - notável desde o princípio por sua sagacidade sarcástica, fria raiva, o cinismo e a dependência da ironia e da alegoria. Em seus últimos romances e poemas, muitas vezes parecia que a sátira dera lugar à amargura.

O crítico John Clute chamou-o de "talvez o mais respeitado, mais invejado e menos lido de todos os escritores modernos de primeira linha da Ficção Científica". Ele era bem-visto pela sua poesia (que assinava como Tom Disch) por muitos que não tinham sequer idéia de que ele escrevia ficção de gênero.

Thomas Michael Disch nasceu em 2 de fevereiro de 1940 em Des Moines, Iowa, filho de um caixeiro-viajante. Ele foi educado em casa e em uma escola católica militar. Em 1953 a família mudou-se para Minneapolis-St Paul, em Minnesota, e na escola tomou gosto pela poesia, memorizando milhares de versos.

Imediatamente após a escola mudou-se para New York, onde teve uma série de empregos de curta duração como vendedor, em escritórios, livrarias, jornais e na chapelaria de um teatro. O último o levaria a carregar uma lança no Lago dos Cisnes (por trás de Margot Fonteyn) e (escondido) como um servo de Don Giovanni no Metropolitan Opera. Ele também teve uma breve passagem no exército, do qual foi prontamente dispensado por invalidez depois de um colapso nervoso. Trabalhou com seguros e, em seguida matriculou-se em cursos diversos (arquitetura) e aulas noturnas de escrita criativa na Universidade de Nova York.

Conforme os exames se aproximavam em 1962, percebeu que era provável que falhasse e, sob a perspectiva de outro colapso nervoso, dedicou o fim de semana anterior para escrever um conto ao invés de revisar seu trabalho de aula. 'The Double Timer' foi vendido por 112,50 dólares para a revista Fantastic Stories e ele desistiu dos estudos.

Posteriormente contudo (apesar de escrever) continuou em uma série de bicos (caixa de banco,  trabalhou em um necrotério, redator de publicidade) para pagar as contas. Suas primeiras histórias de Ficção Científica, reunidas em 1966 em 'One Hundred and Two H Bombs', possuia um conto, "White Fang Goes Dingo", que foi mais tarde expandido do que era conhecida como Mankind Under the Leash and The Puppies of Terra (A humanidade sob a coleira e os animais de estimação da Terra). A maior parte deste trabalho foi mais tarde reeditado na coleção 'The Early Science Fiction Stories of Thomas M Disch' (1977, editado por David G Hartnell).

Os animais de estimação da Terra reapareciam no tema do primeiro romance, 'OS GENOCIDAS' (1965). Nele os alienígenas utilizam a Terra como uma espécie de estufa. Quando os seres humanos iniciam uma luta contra a transformação de seu meio ambiente, que ameaça a sua sobrevivência, são exterminados como pulgões.

No segundo livro, os seres humanos são igualmente tratados como pouco importantes por alienígenas conquistadores, apesar de serem mantidos como animais de estimação. A indiferença do universo para o sofrimento humano foi um tema constante na obra de Disch.

Campo de Concentração (1968) descrevia uma América num futuro próximo em que os presos políticos recebem doses de uma droga que melhora consideravelmente a sua inteligência, mas reduz sua expectativa de vida apenas a poucos mês. Um tema não muito diferente de 'Flowers for Algernon' de Daniel Keyes (filmado como Charly, no mesmo ano), mas no conto de Disch, a analogia com 'Doctor Fausto' de Thomas Mann eram explícitas.

De fato, uma dificuldade persistente para a reputação de Disch era de que muitos de seus romances eram excessivamente literários para os padrões da ficção científica da época, quando o mainstream literário era definido quanto ao gênero. Nos anos posteriores, isso levou-o a afastar-se, para produzir, entre outros livros, romances de terror, críticas, poesias e peças teatrais. Mas a partir de meados de 1960 sua produção era tão prolífica como a de muitos de seus contemporâneos, que haviam iniciado suas carreiras em revistas populares.

Ele e John Sladek, colaborando sob o nome de Cassandra Knye, escreveram horror gótico, 'The House that fear built' (A casa que o medo construíu) de 1966, e dois anos mais tarde escreveu, como Thom Demijohn, um romance (não de ficção científica), 'Alice Black' (1968). Disch produziu novelizações da série de televisão 'The Prisoner' e do longa-metragem  'Alfred The Great' (ambos de 1969, este último com Victor Hastings). Outra novela, enorme, a gótica 'Clara Reeve' (1975), surgiu sob o nome de Leonie Hargreave.

Mas seus romances mais conhecidos, e mais elogiados, '334' (1972) e 'On Wings of Song' (1979), ambos de ficção científica, se passam em um futuro próximo em Nova York. O primeiro descreve a luta dos moradores de um prédio (o 334 do título, que também foi utilizado como base para a estrutura do livro) contra as restrições e a indiferença das autoridades em uma cidade distópica. 'On Wings of Song' (Nas Asas da Canção),  ganhou o Prêmio John W Campbell, era menos pessimista e mais popular que grande parte de sua obra. Celebra as artes (especialmente a ópera) como um mecanismo de transcendência espiritual em um futuro repressivo, em que o fundamentalismo dominou o meio-oeste americano.

A partir da década de 1980, quando retornou para a América, Disch concentrou-se na ficção de horror, escrevendo uma série de romances situados em Minneapolis: 'The businessman' (O Empresário) de 1984, foi seguido por 'The MD' (1989), 'The Priest' (1994) e 'The Sub' (1999) , satirizando o sonho americano, concentrando-se nas conseqüências terríveis de pessoas realizando seus desejo íntimos.

Em 1986 produziu um jogo de computador de aventura, 'Amnesia', que tornou-se popular no Commodore 64 e no Apple II. No mesmo ano, escreveu um livro infantil, 'The Brave Little Toaster', que foi transformado em um filme de animação distribuído pela Disney. 'The Brave Little Toaster Goes to Mars' veio em 1988.

Também produziu duas obras de crítica mordaz sobre a FC: 'The Dreams Our Stuff is Made Of'(1998) e 'Disch on SF'(2005), bem como dois livros de poesia, 'The Castle of Indolence'(1995) e 'The Castle of Perseverence'(2001).  Por muitos anos escreveu críticas de teatro para o jornal The Nation.

Sua própria poesia teve um público relativamente restrito, até a publicação de seus poemas selecionados, "Yes, Let's" em 1989. Foi seguido por 'Dark Verses and Light'(1991) e 'About the size of it'(2007). Sua peça 'The Cardinal Detoxes' (1990), que estava prevista para ser encenada em uma antiga escola em Low East Side, Manhattan, provocou a ira da Arquidiocese de Nova York, que possuía a propriedade. Após uma tentativa frustrada de obter uma ordem judicial impedindo a execução de ir em frente, a Igreja em seguida tentou trancar o local pouco antes da performance.

Apesar daqueles que apoiavam a peça de Disch, alegarem de que não havia nada de profano na peça, um monólogo sobre um arcebispo em uma clínica de recuperação de alcoolatras,e que matou uma mulher grávida em um acidente por dirigir embriagado e tentar subornar um juiz, Disch era, sem dúvida alguma, hostil à religião. Em seu blog no LiveJournal, que manteve até 02 de julho, ele se proclamou Deus, e encorajou leitores a erguerem santuários em seus quintais, para que suas ferramentas de jardinagem fossem dedutíveis do imposto de renda. Um de seus últimos livros, intitulado 'The Word of God' é composto por histórias curtas a partir do ponto de vista da  Divindade.

Uma figura corpulenta, tatuada, que oscilava entre o charme e a rabugice, Tom Disch viveu por muitos anos com o poeta Charles Naylor, com quem produziu várias antologias. Naylor morreu em 2005, após uma longa doença que esgotou as economias do casal. Sua casa em Barryville, New York, sucumbiu a fungos, e Naylor o tinha nomeado como inquilino do apartamento da Union Square West, Disch então esteve sob ameaça constante de despejo. Tornou-se cada vez mais deprimido, tanto por seu fracasso em obter o reconhecimento por seu trabalho e devido as circunstâncias de sua vida. No seu último post no blog, reclamava do aumento do preço dos alimentos.

Ele disparou contra si mesmo, no Dia da Independência dos EUA, em 2008.


Obituário - The Telegraph - 08 Jul 2008
http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/2271007/Thomas-M-Disch.html


Thomas M. Disch ( 334, After Pottsville, Camp Concentration, Casablanca, Come to Venus Melancholy, Descending, In Xanadu, Minnesota Gothic, On Wings of Song, Ringtime, The Businessman, The Genocides, The MD, The Pressure of Time, The Priest, The Prisoner, The Roaches, The Shadow, Understanding Human Behavior ) [ Download ]

sábado, 5 de março de 2011

Solaris - Stanislaw Lem



O que é SOLARIS?

Solaris tem vários planos.

É um quebra-cabeça, uma parábola a respeito das relações e noções humanas e uma
demonstração de que os critérios antropocêntricos e as “soluções finais” de estilo religioso são inaplicáveis no mundo moderno.

Ao nível de enredo a novela está construída como um quebra-cabeças detetivesco, com um narrador que fala na primeira pessoa e que é catapultado para o centro de uma enorme confusão, que lhe é desconhecida e que gradualmente vai compreendendo os estranhos fenômenos que se passam no planeta Solaris. O planeta é completamente coberto por um oceano orgânico; em Summa Technologiae, Lem definiu razão ou inteligência como um “regulador homeostático de segundo grau, capaz de neutralizar as perturbações do meio que a rodeia por meio de uma ação baseada em conhecimentos historicamente adquiridos” e, nesse sentido, o Oceano Solaris é, sem sombra de dúvida, uma entidade inteligente.

Acaba por reagir às atividades de uma estação de pesquisa humana, sintetizando para cada cientista uma pessoa real, que, graças a qualquer processo incompreensível, lhes tinha conseguido “extrair” da camada mais profunda da memória, arquivada nas circunvoluções cerebrais. Segundo a hipótese não completamente convincente de Lem, essa memória é um trauma provocado por um sentimento de culpa de origem erótica, e por isso cada cientista é visitado pela mulher que de qualquer modo perdeu ou desprezou. Pelo menos ...visto que Lem é propositadamente pouco claro neste ponto ... é esse o caso com o protagonista Kelvin e a sua esposa Rheya, que morrera depois de ter sido afastada dele.

Semelhante ao Gosseyn de Van Vogt, os “Duplos” (ou Espectros, como lhes chama Lem) ressuscitados são humanos, embora o Oceano tenha formado as suas albuminas a partir de neutrinos e não de átomos. Os espectros apresentam alguns traços não humanos, tal como uma necessidade inelutável de permanecer junto da pessoa “fonte” e uma força sobre-humana, quando isso lhes é vedado; contudo, não só possuem emoções e consciências humanas, como também se tornam rapidamente sociáveis quando em companhia humana, ficando cada vez mais independentes do Oceano.
Em breve, Kris Kelvin sente-se tão fortemente atraído pelo “espectro” Rheya como tinha estado pela mulher, embora de um modo sutilmente diferente.

Tal confusão biopsicológica é característica de todo um grupo de contos americanos de ficção científica, por exemplo A Case of Conscience de James Blish. Lem usa esta convenção com grande maestria, aplicando-lhe as inclinações cognitivas às relações pessoais mais íntimas e dolorosas, de preferência a aplicá-las a exóticas excentricidades xenobiológicas. Este fato enriquece as suas novelas com um calor particular e uma proximidade de referência.
Contudo, Lem usa também essa convenção como um meio para conseguir uma novela mais rica e com vários níveis. O modelo do mistério detetivesco sugere e está ligado a um dos temas básicos de Lem — o engano que há em pretender alcançar uma solução final ou o conhecimento total a respeito de qualquer situação complexa.


O homem sempre projeta os seus próprios modelos mentais sobre o universo estranho: em Solaris, esse universo muito amavelmente materializa uma.dessas projeções.

Por isso, de certo modo, as estrelas são para Lem o mesmo que a utopia foi para Thomas More, ou Brobdingnag para Swift: um espelho parabólico para os homens se verem a si próprios, um caminho indireto para compreender o nosso mundo, as espécies e os tempos.

O Oceano — o artifício básico desta novela — é um mágico mais poderoso que os feiticeiros de Glubbdubbdrib, que materializaram o passado para Gulliver com o fim de lhe ensinar a verdadeira história da humanidade. De um modo muito Swiftiano, o Oceano de Lem materializa o trauma moral mais importante de cada homem. Assim, mostra a Kelvin um país mais estranho que Solaris ou Laputa: os recônditos da sua própria alma. Nesse país há tigres: “podemos observar, como se através de um microscópio, a fealdade monstruosa que há em nós próprios, a nossa loucura, a nossa vergonha!”, proclama um dos companheiros de sofrimento de Kelvin. Por outro lado, essa é também uma terra de cordeiros; na verdade, da ressurreição de cordeiros chacinados: o sonho de sempre de uma segunda hipótese para os nossos mal aproveitados encontros pessoais, quer tenhamos tido o papel de destruidor quer o de destruído, é algo que em Solaris pode também materializar-se.

Tudo depende da personalidade de cada um: Gibarian suicida-se, Sartorius refugia-se no isolamento, Snow fica mais que semiparalisado; mas o narrador-protagonista Kelvin consegue vencer e chegar a uma nova fé num “deus imperfeito”, embora seja uma fé relativa e provisória e dolorosamente ganha.

A ciência da solarística como uma procura do Graal do “Santo Contato” entre as civilizações cósmicas foi uma tragicomédia de erros, contudo é ainda possível o Santo Contato entre personalidades ensangüentadas mas não rebaixadas, como as de Kelvin e Rheya.

O nível de parábola da novela dá a entender que tal ressurreição e contato é um mistério mais materialista que espiritualista, que é mais uma questão de história e de gente da terra que uma questão de abstrações e estrelas celestiais. Vai buscar a sua força a algumas das mais profundas e vivas heresias da história européia a respeito das relações humanas, desde a tradição que passa pelos gnósticos e joaquinitas, até ao quente socialismo utópico de Fourier e Marx.

O que é talvez mais notório é que se trata de uma parábola sem referências a qualquer sistema conhecido (por exemplo, o meio cultural polaco, a Bíblia ou os sagrados livros de Stalin). A verdade que ensina por meio da sua fábula é uma verdade aberta e dinâmica. As melhores novelas de Lem têm no seu âmago cognitivo a realização, ao mesmo tempo simples e difícil, de que nenhum sistema fechado de referência, por mais sedutor que pareça aos cansados e pobres de espírito, é viável na era da teoria da relatividade e das ciências pós-cibernéticas. As ciências do século 20 são polivalentes e podem ser utilizadas para fins amplamente diferentes entre si. A única certeza a respeito da sua metodologia é que conduz a vastas áreas de novas descobertas, técnicas e orientações, áreas onde não há fantasmas — e levam a um novo conhecimento que dá à humanidade novas séries de possibilidades por onde escolher.

As ciências modernas não dão conclusões e a antecipação na nossa era será tanto mais significante quanto mais claramente rejeitar tanto a utopia clássica do tipo de Platão e More, como a distopia do tipo de Huxley e Orwell, que anteriormente estava na moda.

Ambas são estáticas e fechadas; nenhuma faz justiça às imensas possibilidades da moderna ficção científica numa era polarizada entre a lei dos números gigantescos e a escolha étnica. Claro que a ficção científica adotou desde Wells uma filosofia da história vagamente materialista; mas, sem dialética, isso pode facilmente levar-nos de volta à velha contradição entre um otimismo fácil ou um cínico desespero. Daí que o principal horror do artista da dialética que é Lem seja a escatologia — qualquer afirmação quanto a uma perfeição final e estática, seja ela religiosa no sentido cristão ou um mito laico no estilo liberal ou pseudo marxista.
Em situações radicalmente novas, é errônea a confiança nos enquadramentos familiares da imaginação; mesmo uma ciência completamente nova como a solarística — cuja descrição, com todas as suas voltas e meandros e uma história completa com santos, heréticos e bufões, nos oferece algumas das páginas mais brilhantes da ficção científica moderna — pode tornar-se uma simples sublimação de místicas nostalgias por uma revelação final, “uma liturgia que emprega a linguagem da metodologia”.

Um motivo importante para a recusa de Lém em aceitar soluções finais é o fato de despojarem o homem das suas ilusões a respeito da realidade humana e cósmica.

É isto que torna tão imperativo o conhecimento do eu; retomando a tradição das “novelas educacionais” tão queridas dos racionalistas, as principais novelas de Lem apresentam um único protagonista (ou um grupo de protagonistas), que, enquanto investiga uma nova situação de ficção científica, vai dolorosamente aprendendo a verdade a respeito de si próprio, das suas limitações e principais pontos de força.

O enredo e a parábola fluem organicamente desta preocupação central de, à moda de Copérnico ou Bruno, destronar a teoria antropocêntrica. Só para os outros homens o homem é a medida para todas as coisas e os seus modelos mentais não podem ser projetados com utilidade sobre o universo. É particularmente lastimável, faz notar Lem, limitar as possibilidades de novos mundos ao papel antropomórfico dos nossos governantes ou sujeitos — um golpe na ficção científica ocidental, projetando a guerra fria sobre tramas cósmicas.

Poder-se-ia chamar anti-aristotélica a esta inimizade de Lem pela lógica exageradamente apreciada do “ou-ou” e pelos horizontes fechados da história (em certo sentido, muito mais que a aproximação “Null A” de Van Vogt, que depressa resvala para artimanhas de enredo). Contudo, como Lem uma vez disse, se é verdade que a história não tem princípio, meio ou fim, uma peça ou novela certamente tem.

Mas o final ou desfecho de uma novela que se quer adequada a uma cognição com abertura, e que é exigida pelas modernas ciências naturais e antropológicas, terá igualmente de ser aberta. Por isso, no final de Solaris não prevalece nem uma fé tecnocrática e liberal no progresso automático, nem um amor decadente pela morte fácil.

No capítulo final, o protagonista, que veio da Terra com o seu bloco de apontamentos, a chave do seu apartamento e as suas certezas, compreendeu uma vez por todas a utilidade dessas coisas. As ilusões escatológicas foram despedaçadas e viu que o homem pode apenas confiar em si próprio e na sua dialética da realidade: “Nunca mais voltarei a entregar-me completamente a algo ou alguém... E este Kelvin do futuro não será homem de menos valor que o Kelvin do passado; um homem que está preparado para tudo o que se lhe depare em nome de um empreendimento ambicioso, chamado Contato. E nenhum homem terá o direito de me julgar.”

Esta renúncia pode ser sociologicamente reportada às amargas experiências sofridas neste século pelos intelectuais da Europa Central. Porque Lem vem de uma região, coincidindo com o velho império dos Habsburgos, que no nosso século produziu um tão grande número de escritores, sempre harmonizados à marcha variável da história: Musil e Svevo, Krleza e Andric, Hoffmansthal e Kafka, Hasek e Capek, vêm-nos logo à lembrança. A tradição barroca deste meio ambiente está presente, sem sombra de dúvida, na imaginação de Lem. Contudo, esta foi também a região de grandes esperanças, esperanças que explodiram depois das duas grandes guerras.

O lugar único ocupado por Lem na ficção científica deve-se ao seu gênio pessoal em fundir a brilhante esperança com a amarga experiência, a visão de uma estrada aberta para o futuro com a visão dos perigos certos e possíveis derrotas, inseparáveis do risco dessa abertura. Este ângulo de “visão dupla” subverte tanto a aproximação estilo “inferno cósmico” da maior parte da ficção científica americana, como o utopismo determinístico de quase toda a ficção científica soviética, usando simultaneamente as forças de ambas; justapõe as negras centelhas da primeira aos brilhantes horizontes da segunda, de modo que cada uma das cores faz sobressair a outra.

Em cada empreendimento, a dialética de Lem encara, antes de mais, as suas contradições internas: ele é um escritor na grande tradição da agudeza de espírito que hesita entre dois níveis cognitivos diferentes. Não admira que o seu livro favorito seja o Don Quixote e que a época que o persegue seja o fim do século XVn e princípio do XVm.

Se, no final da novela, Kelvin é um homem mais sensato e mais triste, a tristeza talvez tenha sido um preço alto, mas não injusto, a pagar pela sabedoria ganha.

Isto é exprimido em termos teológicos na parábola final do “deus imperfeito... cujas ambições excedem os seus poderes”. Podemos discordar filosoficamente de Lem, mas já vimos demasiados sedutores deuses da história, devido à sua pretensa infalibilidade, transformarem-se em monstros que tudo devoram, para que possamos agora afastar as suas opiniões com mero encolher de ombros. Estão ainda demasiado próximas de nós ideologias nacionais e religiosas de todo o gênero, para que tal possamos fazer.
Bem sabemos que as mais luminosas esperanças da humanidade estão sujeitas a degenerar em justificação para uma Inquisição, as “purgas” de Stalin ou os massacres de My Lai.

O deus imperfeito, desesperante, mas também cativante, é um conceito próximo do Star Maker de Stapledon, um dos raros escritores de ficção científica por quem Lem tem admiração e a quem é comparável em categoria. Este critério cosmológico, correlativo à declaração ética da independência citada, é o que Kelvin, o protagonista de Lem, provisoriamente aprendeu com o planeta Solaris. Nós, os leitores, podemos aprender ainda mais com a novela Solaris: podemos aprender como o conhecimento se pode transformar em parábola — e sabedoria e prazer estético. Talvez tivéssemos começado a pôr em dúvida se a ficção científica teria categoria para os nossos dias, muitas vezes deprimentes, mas sempre excitantes.

A obra de Lem é um testemunho persuasivo de que tais dúvidas podem ser postas de lado. Porque Solaris — quebra-cabeças, parábola e conhecimento de liberdade— não é um aviso nem uma solução. É um exemplo daquilo que a ficção científica pode fazer: mostrar-nos a nossa era como “a era dos milagres cruéis” e era de se manter a fé.



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sexta-feira, 4 de março de 2011

Encyclopedia of Adventure Fiction


 Contents

List of Entries
Introduction
A-to-Z Entries
Bibliography of Adventure Fiction
Selected Bibliography of Secondary Sources
Index




List of Entries

Adventures of Huckleberry Finn
The Adventures of Tom Sawyer
The African Queen
Alice’s Adventures in Wonderland
Allan Quatermain
All Quiet on the Western Front
Ambler, Eric
Around the World in Eighty Days
Arthurian adventures
Beau Geste
Billy Budd
The Black Arrow
The Black Swan
Brand, Max
The Bridge Over the River Kwai
The Bronze God of Rhodes
The Bull from the Sea
Burroughs, Edgar Rice
The Call of the Wild
Canning, Victor
Captain Blood
Captains Courageous
Charteris, Leslie
Clavell, James
A Coffin for Dimitrios
The Count of Monte Cristo
The Cruel Sea
Cup of Gold
The Da Vinci Code
Destry Rides Again
Don Quixote
The Eagle Has Landed
espionage
fantasy adventures
First Blood
Forester, C. S.
The Great Train Robbery
Green Mansions
Greenmantle
Grey, Zane
Gulliver’s Travels
The Guns of Navarone
Hamilton, Donald
hard-boiled detectives
Heart of Darkness
Hercules My Shipmate
Higgins, Jack
A High Wind in Jamaica
Hopscotch
Howard, Robert E.
The Hunt for Red October
Innes, Hammond
Ivanhoe
Jamaica Inn
James Bond
Jaws
Jenkins, Geoffrey
Johnny Tremain
Journey into Fear
Kidnapped
Kim
King of the Khyber Rifles
King Solomon’s Mines
“The Lady or the Tiger?”
L’Amour, Louis
The Last of the Mohicans
“Leiningen versus the Ants”
The Lodger
The Lone Wolf (series)
Lord Jim
Lord of the Flies
Lorna Doone
Lost Horizon
“The Lottery”
Ludlum, Robert
MacLean, Alistair
The Man in the Iron Mask
“The Man Who Would
Be King”
Marathon Man
The Mark of Zorro
Marquand, John P.
The Master of Ballantrae
men’s adventure series
Moby-Dick
The Moonstone
“The Most Dangerous Game”
Mundy, Talbot
Mutiny on the Bounty
The Naked and the Dead
Night Flight
Nightrunners of Bengal
Northwest Passage
O’Brian, Patrick
O’Donnell, Peter
The Odyssey
The Old Man and the Sea
“The Open Boat”
Orient Express
The Ox-Bow Incident
The Phantom of the Opera
Prester John
Preston, Douglas
The Prisoner of Zenda
pulp heroes
The Quiller Memorandum
Raise the Titanic!
The Red Badge of Courage
Reilly, Matthew
The Reivers
The Riddle of the Sands
Riders of the Purple Sage
Roberts, Kenneth
Robeson, Kenneth
Robin Hood
Robinson Crusoe
Rohmer, Sax
Rollins, James
Scaramouche
The Scarlet Pimpernel
science fiction adventures
The Sea-Hawk
The Searchers
The Sea Wolf
The Secret Agent
The Secret Sharer
series novels for younger readers
The Shadow
Slade, Michael
Smith, Wilbur
The Spider
The Spy Who Came in from the Cold
Stewart, Mary
superheroes
Swiss Family Robinson
A Tale of Two Cities
They Came to Cordura
The Thirty-Nine Steps
The Three Musketeers
The Time Machine
“To Build a Fire”
Treasure Island
The Treasure of Sierra Madre
Treece, Henry
true-life adventures
Twenty Thousand Leagues
Under the Sea
“The Valley of Spiders”
Verne, Jules
The Virginian
Watership Down
Wheatley, Dennis
The White Company
The Wizard of Oz
The Wreck of the Mary
Deare





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quinta-feira, 3 de março de 2011

The Secret History of Science Fiction



Em 1998, o Village Voice publicou um ensaio de Jonathan Lethem intitulado "Close Encounters: The Squandered promise of Science Fiction ", que começa com uma história alternativa na qual "Gravity's Rainbow" de Thomas Pynchon era escolhida como Prêmio Nebula de 1973 pela SFWA (Science Fiction Writers of America). Na verdade, embora a obra de Pynchon tenha sido um marco da ficção pós-moderna e de fato nomeado para o prêmio Nebula do mesmo ano, o prêmio foi para "Rendezvous with Rama" de Arthur Charles Clark.

Lethem chamou a este momento "uma lápide marcando a morte da esperança de que a ficção científica estaria prestes a fundir-se com o mainstream."

{...}



Introduction 
James Patrick Kelly & John Kessel

Angouleme 
Thomas M. Disch

The Ones Who Walk Away From Omelas
Ursula K. Le Guin

Ladies and Gentlemen, This Is Your Crisis
Kate Wilhelm

Descent of Man
T. C. Boyle

Human Moments in World War III 
Don DeLillo

Homelanding 
Margaret Atwood

The Nine Billion Names of God 
Carter Scholz

Interlocking Pieces 
Molly Gloss

Salvador 
Lucius Shepard

Schwarzschild Radius 
Connie Willis

Buddha Nostril Bird 
John Kessel

The Ziggurat 
Gene Wolfe

The Hardened Criminals 
Jonathan Lethem

Standing Room Only
Karen Joy Fowler

10 16 to 1 
James Patrick Kelly

93990
George Saunders

The Martian Agent, A Planetary Romance 
Michael Chabon

Frankenstein’s Daughter
Maureen F. McHugh

The Wizard of West Orange
Steven Millhauser




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quarta-feira, 2 de março de 2011

Hollywood Utopia




Contents
ACKNOWLEDGEMENTS
FILMOGRAPHY
HOLLYWOOD UTOPIA: ECOLOGY AND CONTEMPORARY AMERICAN CINEMA
NATURE FILM AND ECOLOGY
WESTERNS, LANDSCAPE AND ROAD MOVIES
CONSPIRACY THRILLERS AND SCIENCE FICTION: 1950s TO 1990s
POSTMODERNIST SCIENCE FICTION FILMS AND ECOLOGY
CONCLUSION
BIBLIOGRAPHY
GLOSSARY OF TERMS


SELECT FILMOGRAPHY
Andromeda Strain (1970) Robert Wise
Alien Resurrection (1997) Jean-Pierre Jeunet
Blade Runner (1982) Ridley Scott
Blade Runner: The Director's Cut (1991) Ridley Scott
Contact (1997) Robert Zemeckis
Dances with Wolves (1990) Kevin Costner
Dances with Wolves - Special Edition (1991) Kevin Costner
Dark City (1998) Alex Proyas
Easy Rider (1969) Denis Hopper
Emerald Forest (1985) John Boorman
Endangered Species (1982) Alan Rudolph
Fifth Element, The (1997) Luc Besson
Grand Canyon (1991) Lawrence Kasdan
Incredible Shrinking Man (The) (1957) Jack Arnold
Invasion of the Body Snatchers (1956) Don Siegel
Jaws (1975) Steven Spielberg
Jurassic Park (1993) Steven Spielberg
Last of the Mohicans (1992) Michael Mann
Logan's Run (1976) Michael Anderson
Lost World, The: Jurassic Park (1997) Steven Spielberg
Medicine Man, The (1992) John McTiernan
Men in Black (1997) Barry Sonnenfeld
Safe (1995) Todd Haynes
Searchers, The (1956) John Ford
Soylent Green (1973) Richard Fleischer
Star Trek: First Contact (1996) Jonathan Frakes
Straight Story, The (1999) David Lynch
Terminator (1984) James Cameron
Terminator 2: Judgement Day (1991) James Cameron
Thelma and Louise (1991) Ridley Scott
Them(1954) Gordon Douglas
Titanic (1997) James Cameron
Twister (1996) Jan De Bont
Waterworld (1995) Kevin Reynolds
Yearling, The (1946) Clarence Brown


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terça-feira, 1 de março de 2011

Praticamente Inofensiva - Douglas Adams



 Uma das coisas mais extraordinárias da vida é o tipo de lugares nos quais ela está preparada para sobreviver. Seja nos mares inebriantes de Santragino V, com peixes que parecem não dar a mínima para onde estejam nadando, nas tempestades de fogo em Frastra, onde, segundo dizem, a vida começa aos 40.000 graus, ou simplesmente entocada no intestino grosso de um rato pela mais pura diversão, a vida encontra uma maneira de ir levando as coisas em qualquer lugar.

Ela suporta viver até mesmo em Nova York, embora seja difícil entender o porquê.

No inverno a temperatura cai para muito abaixo do limite legal, ou pelo menos cairia, se alguém tivesse o bom senso de estipular um limite legal. A última vez em que fizeram uma pesquisa sobre as cem características mais marcantes dos nova-iorquinos, o bom senso foi parar em septuagésimo nono lugar.

No verão é quente pra burro. Uma coisa é ser uma dessas formas de vida que florescem no calor e achar, como os frastranos, que uma temperatura entre 40.000 e 40.004 graus é muito agradável. Outra coisa completamente diferente é ser um animal que precisa se enrolar nas peles de diversos outros animais quando seu planeta está em um ponto da órbita para descobrir, meia órbita mais à frente, que sua própria pele está fervendo.

Há um enorme exagero quanto à primavera. Muitos habitantes de Nova York se vangloriam orgulhosamente dos prazeres da primavera, mas, se entendessem o mínimo que fosse dos tais prazeres da primavera, saberiam que existem 5.983 lugares melhores do que Nova York para desfrutá-la — e isso sem sair da mesma latitude.

Mas o pior mesmo é o outono. Poucas coisas são piores do que o outono em Nova York. Alguns dos seres que vivem no intestino grosso dos ratos talvez discordem, mas a maioria das coisas que vivem nos intestinos grossos de ratos são bastante desagradáveis — então podemos e iremos ignorar sua opinião. Durante o outono, Nova York cheira como se alguém tivesse fritado cabras por lá e, se você estiver realmente precisando respirar, a melhor solução é abrir uma janela e enfiar a cara em um prédio.


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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Antologia DIESELPUNK recebendo contos



Antologia DIESELPUNK Guidelines

Por que Dieselpunk? Simples. Porque a Vaporpunk não foi o bastante!

A antologia Dieselpunk pretende reunir noveletas de história alternativa do subgênero dieselpunk escritas por autores brasileiros e portugueses, com fins de publicação pela editora Draco em 2011.

Por considerarmos que a dimensão ideal precípua para expressar um enredo de história alternativa é a noveleta (e não o conto, como no caso da ficção científica), decidimos fixar os limites das submissões entre 8.000 e 18.000 palavras. Isto não quer dizer, em absoluto, que submissões fora deste padrão serão sumariamente rejeitadas. Se o trabalho submetido possuir qualidade literária e se enquadrar na temática proposta, essa qualidade pesará em nossa apreciação, ainda que o texto seja menor ou maior do que o limite proposto. No entanto, convém deixar claro que olharemos com maior simpatia trabalhos dentro do intervalo citado.

Analogamente, gostaríamos de receber trabalhos dieselpunks cujos enredos dissessem respeito, direta ou indiretamente, às culturas brasileira e/ou portuguesa, mostrando o impacto social do avanço tecnológico precoce na história dessa(s) cultura(s). Não se trata de uma exigência estrita. Trabalhos dieselpunks que nada tenham a ver com o Brasil ou com Portugal serão apreciados com a atenção devida e poderão ser eventualmente aceitos. Porém, cumpre frisar de antemão nossa predileção por dieselpunks que sejam lusófonos de corpo (i.e, escritos por autores portugueses e brasileiros) e de espírito (enredo, personagens, ambientação lusófonos).

Pensamos na antologia Dieselpunk como uma continuação temática da Vaporpunk (Draco, 2010) ou, se preferirem, uma espécie de irmã mais jovem. Como no caso da antologia anterior, em que não nos prendemos à definição castiça de steampunk, também não nos prenderemos agora à definição estrita de dieselpunk.

Isto quer dizer que a ação da noveleta submetida não precisa necessariamente transcorrer na Londres Vitoriana de fins do século XIX ou na América do Norte do início do século XX. Ao contrário, seria melhor que a ação transcorresse no Brasil ou em Portugal desses mesmos períodos históricos (ou quiçá antes, se o avanço tecnológico for realmente radical) ou ainda, quem sabe, nos análogos alternativos do Brasil ou de Portugal. Tampouco se faz necessário que o motor de combustão interna seja a única tecnologia precoce presente nos enredos propostos. Antes de mais nada, estamos interessados em enredos que mostrem o impacto social do emprego amplo e precoce de avanços tecnológicos nas culturas portuguesa e/ou brasileira. Tais enredos podem se constituir em passados alternativos ou em presentes alternativos.

Nos passados alternativos, a ação transcorre numa época bastante anterior ao presente, como por exemplo, na noveleta “Custer’s Last Jump”, de Steven Utley & Howard Waldrop, em que o advento da aviação em meados do século XIX modifica a história da Guerra de Secessão e das Guerras Índias que se seguiram.

Nos presentes alternativos, a ação se passa mais ou menos em nossa época, só que numa linha histórica alternativa, modificada pelo advento precoce de uma tecnologia.
Quando principiamos a cogitar essas guidelines, pensamos em conceituar steampunk e dieselpunk aqui. Contudo, descobrimos uma definição castiça adequada na Wikipedia. Os conceitos ali expressos são mais restritivos do que aqueles que lhes estamos propondo, mas já dá para ter uma idéia geral. Portanto, usem e abusem: http://en.wikipedia.org/wiki/Steampunk. Se possível, dêem preferência ao verbete da Wikipedia em inglês, visto que sua tradução na Wikipedia em português encontra-se incompleta e, em alguns trechos, errada.

Se quiserem, sintam-se à vontade para consultar o ensaio “Steampunks!” constante na coletânea em e-book Ensaios de História Alternativa , cujo download é gratuito no site:

http://www.scarium.com.br/e-books/sebook3_06_03.html

No que se pese que se trata de um texto escrito em 1998, é mais atualizado do que o verbete da Encyclopedia of Science Fiction, escrito pelo Peter Nicholls.☺

No que concerne especificamente à subtemática dieselpunk, apenas como fonte de inspiração, talvez valha a pena conferir o site: www.dieselpunks.org. Embora a subtemática ainda não possua seu próprio verbete na Wikipedia, uma há uma definição curta em “temáticas derivadas do cyberpunk ”, aqui:
http://en.wikipedia.org/wiki/Dieselpunk#Dieselpunk

Em termos literários, stricto sensu, dieselpunk é a adoção precoce da tecnologia do motor de combustão interna e as consequências que esse avanço tecnológico precoce na sociedade.

Nossa deadline é 31 de março de 2011.

A submissão deve ser mandada somente em versão eletrônica, formato universal de texto (.txt) ou rich text file (.rtf), para o e-mail glodir@unisys.com.br, com cópia de segurança para ericksama@gmail.com. Confirmaremos a recepção de cada trabalho submetido.

Em caso de dúvida, não hesite em nos contatar.
Aguardamos a submissão da sua noveleta.
Gerson Lodi-Ribeiro (organizador)
Erick Sama (editor).
Outubro de 2010.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Entrevista com Marcello Simão Branco

Aproveitando o lançamento de 'Assembleia Estelar', o Capacitor Fantástico entrevista seu organizador, o pesquisador e escritor Marcello Simão Branco.





Capacitor Fantástico: Nos fale um pouco sobre o que encontraremos em 'Assembleia Estelar'?

Marcello Simão Branco: O livro é uma antologia de contos e noveletas com histórias de ficção científica de conteúdo político. Narrativas sobre escolhas eleitorais no futuro, histórias alternativas, guerras futuras e caos social, novas formas de hegemonia política no século XXI, revoluções, sociedades anarquistas, divisão política humana na conquista do espaço etc. São 14 histórias com dez dos principais autores brasileiros: André Carneiro, Ataíde Tartari, Carlos Orsi, Daniel Fresnot, Fernando Bonassi, Flávio Medeiros, Jr, Henrique Flory, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos, alé de quatro estrangeiros, incluindo três estrelas da FC internacional, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin, e o português Luís Filipe Silva. O livro ainda contém um longo artigo escrito por mim em que analiso as relações históricas e temáticas entre a FC e a política, no exterior e no Brasil.






CF: Como e quando surgiu a ideia incomum de casar FC com política?

MSB: Bom, minha formação é de doutor em ciência política, então acabou sendo natural tentar aproximar estes dois campos de interesse. Mas de maneira concreta me inspirei no livro "2084: Election Day: Stories About the Politics of the Future", organizado por Isaac Asimov e Martin H. Greenberg - este um antologista e cientista político - em 1984, com a mesma proposta. Fui atrás deste livro e tomando ele como base, organizei "Assembleia Estelar". Mas o resultado ficou diferente, já que o norte-americano centra-se mais na política interna dos EUA e sua democracia e além de temas de política externa. Já "Assembleia Estelar" tem um conteúdo político mais variado, conforme comentei na resposta anterior.


CF: Como foi feita a seleção dos trabalhos?

MSB: Enviei a proposta do livro para cerca de 40 autores brasileiros e alguns portugueses. A receptividade foi grande e a maioria enviou trabalhos. A partir daí, selecionei os que entraram no livro. Adicionalmente também procurei autores com histórias já publicadas há alguns anos que eu considero de boa qualidade, e as incluí no livro também. E por fim, a Devir me permitiu escolher histórias de FC política dos autores
estrangeiros que ela tem contrato.



CF: Como foi ou está sendo, esta parceria com a Devir?

MSB: Muito pródiga. O Douglas Quinta Reis, diretor editorial, é, sobretudo, um fã de FC e entende o que um leitor e aficcionado do gênero espera de uma editora. A proposta de "publicar FC para quem gosta de FC", casa perfeitamente com minha trajetória dentro do gênero e a editora é muito aberta ao debate e sugestão de ideias e trabalhos. Nesse sentido, além do aspecto comercial, há um engajamento dentro da linha editorial que justifica a parceria que temos realizado, seja em "Assembleia Estelar", seja na coleções de livros em geral e também no "Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica".


CF: Quais outras coletâneas você organizou?

MSB: Além desta, organizei profissionalmente "Outras Copas, Outros Mundos", para a editora Ano-Luz, em 1998. Foi outra antologia temática pioneira na FC brasileira - e internacional - relacionando o fantástico com o futebol. Foram 11 contos de autores nacionais, às vésperas da Copa do Mundo de 1998. Algumas outras foram em caráter amador, na coleção "Terra Incognita", da mesma Ano-Luz, por volta de 2000 e 2001, como livros de contos de Carlos Orsi e Simone Sauressig.


CF: A FCB parece estar se avolumando de forma nunca vista, algo que os militantes no fandom não poderiam ter previsto dez anos atrás. É somente a internet, é um momento financeiro favorável, ou modernização do mercado gráfico/editorial, ou tudo junto? Como você vê a situação atual? Os leitores estão procurando mais literatura fantástica hoje?

MSB: Acredito que sim. Na verdade, há muitos mais livros do que é possível ler e comprar à disposição do leitor brasileiro hoje. Mas o mercado é também grande o suficiente para se segmentar em gêneros, temas e faixas etárias diferentes, embora a maior oferta seja para os livros de caráter infanto-juvenil. O mercado editorial para os gêneros fantásticos atravessa um grande momento, mas pode não ser definitivo. No fundo, ainda é uma questão de obter retorno do mercado e seguir as tendências que vêm do exterior, mesmo porque a maior parte dos livros publicados pelas grandes editoras é de autores e temas da moda no exterior. Veja o sucesso da fantasia no início dos anos 2000 e o dos vampiros nos últimos anos.


CF: Não lhe parece que a estratégia para chegar aos leitores de amanhã, tenha que ser repensada, e que estamos perdendo um tempo precioso insistindo em modelos tradicionais/conservadores? Por exemplo, a maioria das editoras ainda se definiu por adotar modelos eletrônicos em seus lançamentos, e mal se utilizam da internet para disseminar seus produtos. Não lhe parece que estaremos sempre 'correndo atrás do prejuizo'?

MSB: Sim, mas é que as grandes editoras têm, em geral, uma estrutura pesada e conservadora. Elas deverão mudar aos poucos, seguindo a tendência das editoras estrangeiras e o quando tiverem um retorno financeiro seguro de novas estratégias. Também a disseminação de novas tecnologias associadas ao livro deve, a médio prazo, provocar um impacto não desprezível na estratégia das editoras.


CF: Você deve se lembrar de um tempo em que autores internacionais de FC e Fantasia, tinham seus livros publicados no Brasil. A partir de um determinado momento, estas publicações deixaram de acontecer e ficamos afastados da FC mundial (ainda hoje estamos). Você considera que este fato prejudicou de alguma maneira a FCB? A FCB que temos hoje, está de alguma forma descompassada em relação a FC mundial, ou escrava do universo das séries televisivas e do cinema blockbuster?

MSB: Olha, esta fase que você comenta já passou. De uns cinco anos para cá, a quantidade de livros de FC, fantasia e horror no Brasil atingiu números centenários. Em 2009, por exemplo, tivemos 364 livros destes gêneros publicados no país, sendo quase 40% deles, de autores nacionais (ainda que em editoras pequenas, edições amadoras e eletrônicas). 

A internet coloca a FC brasileira em contato permanente com centros importantes da FC internacional. Inclusive, alguns autores e críticos têm publicado em revistas nos EUA e na Europa. Algumas poucas editoras (como a Aleph e a Devir) têm publicado livros de autores importantes e atuais. Mas o que poderia tornar ainda mais efetiva a aproximação dos temas da FC internacional e brasileira seria a publicação de uma revista profissional de contos, a exemplo do que foi a "Isaac Asimov Magazine", no início dos anos 1990. 

De qualquer maneira, os melhores autores brasileiros de hoje escrevem uma FC instigante e ousada a par do que acontece nos principais centros da FC mundial. Não porque seguem necessariamenrte as tendências, mas porque desenvolvem caminhos próprios, a partir da realidade brasileira.


CF: Você e Cesar Silva são os pesquisadores responsáveis pelo sempre aguardado 'Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica'. No decorrer do tempo em que trabalharam para a elaboração do anuário, foi possível perceber alguma tendência ou mudança significativa nas publicações nacionais, em relação a outras épocas?

MSB:  Sim, principalmente na quantidade, como disse antes. No primeiro "Anuário", de 2004, tivemos 130 livros publicados no ano. Em 2009, como disse antes, 364. E agora em 2010, passará com folga dos 400 livros. Duas características podem ser apontadas como principais: 1) a expansão dos lançamentos baseia-se nos livros para o público infanto-juvenil; 2) o expressivo aumento quantitativo na publicação de autores nacionais (48 num total de 130 em 2004 (37%) e 142 de 364 (39%) em 2009), com a manutenção de um patamar em termos proporcionais. Surgiram várias editoras novas que publicam autores nacionais e outras tradicionais que voltaram a dar espaço à FC, fantasia e horror.
Contudo, se aumentou a quantidade, falta ainda que os bons autores nacionais sejam publicados pelas grandes editoras, pois estas priorizam os autores estrangeiros.



CF: Para terminar, você tem alguma outra coletânea em vista? Alguma sugestão de leitura ou link que queira divulgar?

MSB: Uma nova coletânea neste momento não. Mas para os próximos anos é possível que coordene um novo projeto. Dois livros que li recentemente merecem ser recomendados: "O Incrível Homem que Encolheu", de Richard Matheson (editora Novo Século) e "Selva Brasil", de Roberto de Sousa Causo (editora Draco), pois estão entre os melhores lançamentos de 2010. Sugiro também a visita aos sites das editoras que publicam FC&F de maneira regular e engajada, como, por exemplo, a Devir, a Aleph e a Tarja Editorial. A maior parte do que há de melhor vem sendo realizado por estas editoras. Afora, isso, vale a pena conhecer o blog de Cesar Silva, www.mensagensdohiperespaço.blogspot.com, que realiza um trabalho de divulgação e análise sobre a FC&F brasileira dos mais idealistas e independentes.

CF: Obrigado Marcello, pela sua gentileza em conceder esta entrevista!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

As parábolas sem conclusões de Stanislaw Lem e “Solaris”




Solaris foi o primeiro romance do famoso escritor polaco Stanislaw Lem a ser traduzido para inglês. Para poder compreender o seu contexto, o qual é a redescoberta da parte de Lem da ficção científica como uma forma de literatura maleável e satisfatória, o leitor deve conhecer a espantosa amplitude dos interesses e realizações de Lem. Porque Lem não é apenas o mais importante escritor de ficção científica da Europa, mas é também um fenômeno cultural em si mesmo.

O senhor existe Sr. Lem?

O nosso autor desmentiu os rumores que diziam que era apenas um computador e que usava a sigla LEM = Lunar Excursion Module [Módulo de Excursão Lunar]. Embora os seus conhecimentos enciclopédicos e furiosa produtividade nos despertem por vezes certas dúvidas, o seu sutil sentido de humor e súbitos ataques de autocrítica vêm confirmar o seu desmentido.

A verdade é que Stanislaw Lem nasceu em 1921, na cidade de Lwow, na Galícia, onde tanto o seu pai como a sua mãe eram médicos. A ocupação nazista proibiu os estudos universitários aos intelectuais polacos, por isso o jovem Lem trabalhou durante a guerra como mecânico de garagem, mantendo contato com o movimento da Resistência, por quem nutria simpatia.

Lem descreveu a sua infância e adolescência durante o período antes da guerra num encantador livrinho autobiográfico, High Castle (Wysoki zamek, 1968).

Em 1944, Lem deixou Lwow, então incorporada na URSS, e foi para Cracóvia, onde reside desde essa data. Lá se formou em medicina e durante algum tempo trabalhou como interno nos hospitais. O período da guerra e o ambiente que imediatamente se seguiu foram o cenário da única novela de Lem que não é de ficção científica, Time Saved (Czas nieutracony), aparentemente escrita durante os anos 1948 a 1950, mas publicada apenas em 1955, e à qual foi atribuído o prêmio literário da cidade de Cracóvia. O protagonista é um jovem médico polaco, que, da solidão, encontra o caminho para uma participação social.

Nos primórdios da sua carreira, Lem escreveu artigos de jornal e poesia, mas o seu interesse dominante nessa época era o estudo da história e da metodologia da ciência, especialmente o desenvolvimento e as implicações da cibernética. A fascinação por este assunto permaneceu viva em Lem, o qual se tem mantido a par do desenvolvimento da ciência moderna e sempre teve o mais profundo interesse pela filosofia da ciência, seus meios e fins (veja-se a discussão sobre “solarística” nesta mesma novela).


A primeira novela de ficção científica de Lem, The Astronauts (Astronauci, 1950, filmada com o nome de The Planet of Death — O Planeta da Morte), nasceu da sua preocupação a respeito do poder destrutivo da ciência quando usada de modo irracional. Narra uma expedição a Vênus, expedição essa que partiu de uma Terra do século 21, utópica e sem classes: depois de muitos perigos e aventuras, a tripulação, que é internacional, descobre que a vida inteligente foi exterminada pela guerra nuclear. Embora a novela siga a vulgar forma de aventura à moda de Júlio Verne, acrescentada de um utopismo socialista e com um aviso a respeito das alternativas catastróficas, é a primeira de uma longa lista de obras de ficção científica de caráter parabólico.

As obras de Lem são parábolas que falam de nós próprios através de situações espantosas acontecidas em outros mundos.

A obra de não-ficção de Lem, provocativa e de caráter pioneiro, traduz as mesmas preocupações que a sua ficção cientifica e lança sobre esta uma imensa luz.

Muitos dos seus artigos sobre medicina, cibernética, filosofia e literatura não foram ainda reunidos, mas os livros seguintes indicam as áreas dominantes dos seus interesses: Cybernetic Dialogues (Dialogi, 1950, escrito na forma racionalista de uma discussão entre “Hylas” e “Philinous”); Getting Into Orbit (Wejscie na orbite, 1962, ensaios sobre Camus, Dostoievsky e futurologia, escritos nos anos 50); Summa Technologiae (1964, um volume de quinhentas páginas, brilhante e altamente controverso, sobre o “jogo Homem-Natureza”, sócio-cibernética e os prospectos da engenharia cósmica e biológica. Traduzido já na URSS, o livro aguarda apenas um editor inteligente para criar análoga sensação no mundo que fala outras línguas); The Philosophy of Chance (Filozofia przypadku, 1968, um volume correspondentemente grosso sobre a teoria da literatura e da cultura); e Science Fiction and Futurology (Fantastyka i futurologia, no prelo).

Contudo, apesar de todo o seu renascentismo universalista de interesses e imensa erudição, Lem é antes de tudo um escritor que escolheu a ficção científica por ser potencialmente adequada às suas preocupações e elevou-a à dignidade de um estilo literário superior. Desde a época áurea de H. G. Wells que a ficção científica européia  — não obstante uns esparsos esforços de Zamiatin, A. Tolstoy, Huxley, Capek e, de modo mais notório, Stapledon— não atingia este nível.

A obra de Lem desenvolveu-se paralelamente ao renascimento da ficção científica britânica com Wyndham, Clarke e Aldiss, e um pouco antes do renascimento da ficção científica soviética com Yefremov, Dneprov e os Strugatskys. Na verdade, com o seu exemplo de uma especulação não dogmática e aberta, mas também cientificamente plausível e filosoficamente pioneira, Lem contribuiu até profundamente para o desenvolvimento destes últimos. Juntamente com os britânicos e soviéticos — e a ficção científica americana—, Lem, por si só, tornou-se o quarto pilar da ficção científica mundial desde a segunda grande guerra.

É óbvio que Lem está absolutamente a par da ficção científica dos estados Unidos dos anos 40 e 50. Se a evidência dos seus próprios livros não fosse suficiente, um comentário publicado na Áustria em 1969 atesta que, nos anos 50, tinha lido  “... gente como Knight, Bradbury, Brown, Bester, Pohl, Blish, Kutter, Russel, Asimov, Clarke, Dick, Campbell, Heinlein...”
Em outros ensaios refere-se a Wyndham, Boucher, Leiber, Seabright, Van Vogt e Sheckley. Foi também leitor da edição francesa de Galaxy até 1965  (ponto em que parece ter desistido, por tédio, da ficção científica ocidental).

Assim, depois da segunda grande guerra, Lem teve os mesmos antecedentes que os escritores de ficção científica ingleses e russos: Verne, Wells, Stapledon, Capek e a ficção científica americana, “tecnologicamente” antifascista, dos anos 40 e 50.

É porém igualmente óbvio que, com este denominador comum ou erário mínimo de toda a ficção científica dos nossos dias, misturaram-se também outros antecedentes, procedentes de uma diferente tradição e meio ambiente, contribuindo assim para o método criativo específico de um escritor altamente individualizado.
O sistema de aproximação ou ângulo de visão de Lem serão discutidos na análise de Solaris, a seguir a uma lista com anotações das suas obras de ficção científica, a qual poderá eventualmente fornecer as primeiras pistas:

— The Astronauts (Astronauci, 1951 — veja-se acima).
— Sesame (Sezam, 1955, contos).
— The Magellan Nebula (Oblok Magellana, 1955, uma novela utópica a respeito da vida e descobertas de uma gigantesca nave espacial, cujo nome já é revelador: Gaea). Hoje em dia Lem considera as suas primeiras obras como sendo de uma ingenuidade cheia de otimismo; eu sou levado a contrapor que esta ingenuidade utópica continua a ser um dos pólos da tensão criativa de Lem, até nas suas obras mais ricas.
— The Star Diaries of Ion Tichy (Dzienniki gwiazdowe, uma série de “jornadas” realizadas por um Dom Quixote, Gulliver ou Candide cósmicos — várias histórias publicadas em 1954, com primeira edição de1959; edição final aumentada em 1966). É sem dúvida uma das obras-primas de Lem. O horror satírico e grotesco destas histórias e os seus bem apontados dardos alegóricos são provavelmente a razão de ser esta a sua obra mais traduzida.
— Invasion from Aldebaran (Inwazja z Aldebarana, 1959). Uma coleção de histórias diversas escritas nos anos 50, incluindo algumas sátiras muito boas sobre o tipo de história de ficção científica dos Estados Unidos e as primeiras histórias do ciclo do “piloto Pirx”.
— The Investigation (Sledztwo, 1959). Um mistério nas fronteiras da ficção científica: a Scotland Yard investiga uma série de casos que poderiam ser ressurreições de mortos; são apresentadas várias hipóteses, mas não há qualquer solução final definida.
— Eden (Eden, 1959). Uma pequena novela a respeito de uma tripulação de exploradores num planeta desconhecido, ironicamente chamado Eden, e das dificuldades que tiveram para compreender as relações biológicas e sociais entre a estranha espécie inteligente desse planeta, espécie essa que está a caminhar para uma monstruosidade biossociológica.
— Return from the Stars (Powrot s gwiazd, 1951). Um astronauta, devido a uma contração do tempo, regressa a uma humanidade sem conflitos, pseudo-utópica, e encontra-se em vias de degenerar numa antiutopia hedonista. (Esta obra será publicada em breve, nesta coleção.)
— Solaris (1961 — ver mais adiante).
— Memoirs found in a Bathtub (Pamietnik znaleziony w wanniet 1961). Uma novela formalmente similar ao duplo horizonte do Iron Heel de Londres: num futuro utópico, durante umas escavações nas montanhas Rochosas, são encontradas umas memórias nas ruínas de um Quinto Pentágono subterrâneo. Todo o “universo de grutas-de-aço” do escritor das memórias, isolado de qualquer verificação empírica, é um gigantesco centro de espionagem que existe com a finalidade de competir com um “antiuniverso” inimigo, cuja existência é pouco provável; o narrador perde a esperança e comete suicídio.
As últimas quatro novelas — das quais encontramos o eco nos nº 13 e 18 mais adiante — são variações sobre um modelo de “conte philosophique” do século 18, do tipo de Voltaire ou Diderot, satiricamente invertidas e inclinando-se para o humor negro, muito semelhante ao que encontramos em Swift. Nas situações abertas e imprevisíveis que apresenta, Lem não se preocupa tanto com o “progresso”, que em todas as novelas é pressuposto, como com o preço de certas espécies de progresso e a impossibilidade de uma “solução final”. Graças a uma rigorosa mas perturbante precisão de pormenores e estrutura, Lem tem impressionante sucesso em transmitir estilisticamente a opacidade criada pelos “ruídos da informação”. Isto permite-lhe rivalizar com a densidade da melhor ficção científica americana moderna e reprovar a grande tradição de ficção científica que vem desde Swift, passando por Wells, Stapledon e Capek, recorrendo a um novo arsenal de artimanhas baseadas na cibernética, na teoria da informação e na moderna filosofia da ciência.
— The Book of Robots (Ksiega Robotów, 1961). Mais histórias de Ion Tichy e Pirx, assim como The Lymphater Formula, um conto sobre um microcosmo artificial.
— Lunar Night (Noc Ksiezycowa, 1964). Histórias e também quatro peças para a televisão, nas fronteiras do ciclo de Tichy, algumas também representadas no teatro.
— The Invincible (Niezwyciezony, 1964). Um conto longo cuja situação básica é similar à de Eden, com um retoque sombrio, que consta do fato de o planeta explorado ter tido uma evolução cibernética em vez de biológica. (Publicada em Portugal com o título de A Nave, Invencível.)
— Robotic Fables (Bajki Robotów, 1964). Consta de contos populares humoristicamente recontados, sob um disfarce cibernético e adaptados aos nossos dias.
— The Cyberiad (Cyberiada, 1965). Uma série de histórias grotescas que apresentam dois construtores robôs, rivais entre si, Trurl e Klapaucjusz.
— The Hunt (Polowanie, 1965). Coleção de contos, incluindo alguns a respeito de Pirx.
— Tales of Pilot Pirx (Opowiesci o pilocie Pirxie, 1968). Coleção de nove contos sobre o desenvolvimento pouco heróico de um astronauta, desde a fase de jovem exemplar, à moda de Heinlein, até se tornar um protagonista complexo.
— His Master's Voice (Geospana, 1969). Novela que trata de um projeto gigantesco para decifrar as informações que vêm do espaço e que resulta numa descodificação parcial, em que cada sucesso é seguido por novos problemas. Como é usual nas parábolas de Lem, há vários níveis de significação que refletem, de um modo satírico, os dilemas sociais dos nossos dias.

Existem cerca de quarenta traduções destas obras na União Soviética, Japão, nas duas Alemanhas, Iugoslávia, França, Itália e toda a Europa de Leste, atingindo (contando com os originais polacos) mais de 10 milhões de exemplares — 4 milhões só na URSS. Com exceção de um conto mutilado aparecido numa velha antologia, a obra de Lem foi apresentada ao leitor da língua inglesa apenas na antologia de Darko Suvin, Other Worlds Other Seas (Nova Iorque, Random House, 1970), que contém dois contos de Ion Tichy, um de Pirx e uma das “fábulas robóticas”.


Solaris - Stanislaw Lem (Posfácio) [ Download ]