quinta-feira, 12 de maio de 2011

Sienkiewicz - Vampires









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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Bernie Wrightson - Frankenstien





















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terça-feira, 10 de maio de 2011

Moebius Giraud - Artbook

















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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Michael Kaluta - Metropolis













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domingo, 8 de maio de 2011

Daniel F. Galouye



Daniel Francis Galouye (11 de Fevereiro de 1920 - 07 de Setembro de 1976) nasceu em New Orleans, Louisiana(EUA).

Podemos dizer que Galouye foi um escritor que nos deixou poucos livros (cinco) e meia centena de contos, porém suas ideias e argumentos são tão originais que se diferenciavam de outros escritores com obras bem mais volumosas.

Escreveu principalmente contos, nos gêneros ficção científica apocalíptica, fantasia e mistério, para revistas populares nos anos 40 e 50 (Galaxy, Fantasy and Science Fiction), inclusive, como era hábito da época, utilizando diversos pseudônimos, como Dan Galouye, Daniel L. Galouye, Louis G. Daniels, Daniel F. Galouje, Daniel Galouye.

Frequentou a Louisiana State University, estudou jornalismo, foi piloto de provas da Marinha americana durante a segunda grande guerra (chegou a pilotar aviões-foguete protótipos), quando sofreu um acidente que lhe causou sequelas sérias, inclusive paralisia parcial, afetando sua carreira jornalistica e literária, além de abreviar sua vida.

Aos 32 teve publicado seu primeiro conto, Rebirth, na Imagination (revista famosa por divulgar space-operas intergaláticas), que publicou boa parte de seus primeiros trabalhos.

Graduou-se pela Pensacola Naval Air School e como tenente foi também responsável pelo treinamento de pilotos americanos no Hawai. Somente ao dar baixa na marinha, iniciou sua carreira de repórter, depois tornou-se editor em 1956, mas sua saúde debilitada levou-o a aposentar-se prematuramente nove anos depois.

Assim como seu contemporâneo Alfred Bester, teve uma carreira como escritor relativamente curta. Chegou a morar em New York, o centro de publicação da FC americana na época. Pode-se dizer que Galouye não é um autor celebrado nos dias de hoje, nunca esteve entre os mais populares da FC durante sua carreira de quase dez anos, porém sua verve imaginativa, seu talento inovador, permaneceu registrado em seus livros.

Dark Universe , publicado em 1961, é o melhor deles.

Em Dark Universe (Mundo tenebroso), seres humanos vivem em um mundo de absoluta e perpetua escuridão e orientam-se principalmente através do som. A luz é um ente abstrato e mágico, sobre a qual discutem frequentemente. Muitos dos seus habitantes veneram a luz, criando uma religião a partir dela.
Dark Universe foi indicada ao Hugo de 1961.

Em seus personagens, econtramos sempre a urgência de sobreviver em circunstâncias contrárias, criaturas esquecidas de suas histórias pessoais, sem saber o que se passa ao redor. De certo modo, suas histórias possuem uma similiaridade com as de A. E. van Vogt.

Apesar de Dark Universe ser tão elogido pela crítica, seu maior sucesso foi sem dúvida 'Counterfeit World' (aka Simulachron-3) de 1964. Num futuro próximo é inventada uma máquina capaz de criar um modelo cibernético igual ao nosso, utilizado a princípio para pesquisas de mercado. Dentro deste universo simulado, cada "indivíduo" é uma unidade virtual inteligente. Um dos gênios responsáveis pela invenção percebe uma série de circunstâncias estranhas dentro deste mundo virtual e passa a investigá-las.

Apesar de estarmos bastante habituados hoje com a expressão 'realidade virtual', Galouye foi um dos primeiros escritores a descrevê-la em detalhes.

Em 1973, o famoso diretor alemão de cinema, Rainer Werner Fassbinder, adaptou-o em uma série de episódios para a televisão chamada "Welt am Draht" (Mundo Conectado).
Em 1999, outro diretor de cinema, Josef Rusnak, levaria Simulacron-3 para hollywood, com sua adaptação chamada 'The Thirteenth Floor' (O 13° andar).

Galouye recebeu em 2007, o prêmio póstumo Cordwainer Smith Rediscovery, concedido a escritores falecidos que por seu trabalho, merecem ser descobertos pelos leitores de hoje.
 


Daniel F. Galouye ( Simulacron-3, Misión Diplomática, Ojos Artificiales, Mundo Tenebroso, A Scourge of Screamers, Dark Universe ) [ Download ]

sábado, 7 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 9)




OITO
O caminho para baixo


Talvez nós vamos morrer, Maryann pensou quando eles tinham finalmente parado de correr e ela podia pensar. Mas isso era impossível. Estava tão frio! Ela desejava entender o que Anderson estava falando. Ele apenas disse: "Nós vamos ter que fazer um inventário."
Estavam todos parados na neve. Estava tão frio, e quando ela tinha caído, a neve tinha entrado dentro de seu casaco, por seu colarinho. A neve ainda estava caindo no escuro. Ela ia pegar um resfriado e o que ela faria? Onde viveria? E seu bebê – o que seria dele?

"Maryann?" Anderson perguntou. "Está conosco, não é?"
"Maryann!" Buddy latiu impaciente.
"Estou aqui" disse ela, fungando o liquido que escorria de seu nariz.
"Bem, o que você trouxe com você?"

Cada uma de suas mãos dormentes (ela tinha esquecido as luvas também) estava segurando algo, mas ela não sabia o quê. Ela ergueu as mãos para que pudesse ver.

"Candeeiros", disse ela. "Eram da cozinha, mas um deles está quebrado."
Então se lembrou de cair sobre ele e seu corte no joelho.

"Quem tem fósforos?" Orville perguntou.
Clay Kestner os tinha encontrado. Acendeu o candeeiro bom.
Com a luz Anderson contou os restantes:

"Trinta e um."
Houve um longo silêncio, enquanto cada sobrevivente examinava outros trinta rostos e registrava suas próprias perdas. Dezoito homens, onze mulheres e duas crianças.
Mae Stromberg começou a chorar. Ela perdera o marido e uma filha, embora seu filho estivesse com ela. Em meio ao pânico Denny não tinha sido capaz de encontrar o sapato do pé esquerdo, e Mae tinha arrastado-o do incêndio em um dos trenós das crianças. Anderson, que tenham concluído o inventário, mandou que Mae ficasse quieta.

"Talvez haja mais comida lá atrás," Buddy estava dizendo a seu pai. "Talvez não esteja tão queimada que não possamos comê-la."
"Eu duvido", afirmou Orville. "Os lança-chamas malditos são muito rigorosos."
"Quanto tempo poderemos durar racionando?" Buddy perguntou.
"Até o Natal," Anderson respondeu secamente.
"Se durar até o Natal", afirmou Orville. "Essas máquinas estão provavelmente vasculhando a floresta agora, atrás de qualquer um que escapou do fogo. Há também a questão de onde passaremos a noite. Ninguém pensou em trazer tendas."
"Nós vamos voltar para a cidade velha", disse Anderson. "Podemos ficar na igreja e usar as tábuas como lenha. Alguém sabe onde estamos agora? Toda Planta maldita nesta floresta parece com outra Planta maldita."
"Eu tenho uma bússola", Neil se voluntariou. "Vou levar-nos lá. Apenas me sigam."

Na distância um grito, um grito muito breve.
"Eu acho que veio daquele lado", disse Neil, que se deslocou em direção ao grito.
Formaram uma falange larga com Neil na cabeça e caminharam pela neve. Orville puxando Greta no trenó, e Buddy com Denny Stromberg em suas costas.

"Posso segurar sua mão?" Maryann perguntou a ele. "As minhas estão adormecidas".
Buddy deixar que ela unisse sua mão a dele, e caminharam juntos durante meia hora em absoluto silêncio. Então ele disse: "Estou feliz que você está salva."
"Oh!" Foi tudo que conseguiu dizer. Seu nariz estava escorrendo como uma torneira pingando, e ela começou a chorar também. As lágrimas congelaram em seu rosto frio. Ah, ela era tão feliz!
Eles quase atravessaram a aldeia sem perceber. Uma polegada de neve tinha coberto as cinzas frias e niveladas. Denny Stromberg foi o primeiro a falar.
"Onde nós vamos agora, Buddy? Onde vamos dormir?"
Buddy não respondia. Trinta pessoas esperaram em silêncio Anderson, que estava chutando as cinzas com a ponta da bota, conduzindo-os através deste Mar Vermelho.
"Nós devemos ajoelhar e rezar", disse ele. "Aqui, nesta igreja, devemos ajoelhar e pedir perdão pelos nossos pecados." Anderson ajoelhou sobre neve e cinzas.
"Deus onipotente e misericordioso...".
Uma figura saiu do mato, correndo, tropeçando, sem fôlego, uma mulher em roupas de dormir, com um cobertor enrolado como xale. Caiu de joelhos no meio do grupo, não conseguia falar. Anderson acabou de orar. Na direção de onde tinha vindo, a floresta brilhava fracamente, como se, à distância, uma vela estava queimando em uma janela.

“É a Sra. Wilks" Alice Nemerov anunciou, e no mesmo momento Orville disse: "É melhor rezar em outro lugar."
"Não há nenhum outro lugar", disse Anderson.
"Deve haver" Orville insistiu. Sob a pressão das horas de crise, ele tinha perdido a noção da sua motivação original de salvar os Andersons para sua vingança pessoal, para uma agonia lenta. Seu desejo era mais primário, auto-preservação.
"Se não sobraram casas, ainda deve haver lugar para se esconder: uma toca, uma caverna, um bueiro..."
Algo que ele disse tocou-lhe a memória. Uma toca? Uma caverna?
"Uma caverna! Flor, muito tempo atrás, quando eu estava doente, você me disse que tinha estado em uma caverna. Você nunca tinha visto uma mina, mas você esteve em uma caverna. Era aqui perto?"
"Perto da margem do lago... o velho lago. Próximo do Resort Stromberg. Não é longe, mas eu não vou lá desde que eu era uma garotinha. Eu não sei se ainda é lá".
"Como um grande caverna é isso?"
"Muito grande. Pelo menos, eu achava."
"Você poderia nos levar até lá?"
"Eu não sei. É difícil no verão encontrar o caminho através das plantas. Todos os marcos antigos se foram, e com a neve...".
"Leve-nos lá, menina! Agora! "Anderson disse asperamente. Era ele novamente, nem mais nem menos.
Deixaram a mulher semi-nua para trás, deitada na neve. Não era crueldade: era simplesmente o esquecimento. Quando eles foram embora, a mulher olhou para eles e disse: "Por favor"
Mas o povo a quem ela se retratava não estava mais lá. Talvez nunca tenham estado lá. Ela se levantou e deixou cair o cobertor. Fazia muito frio. Ela ouviu o som de zumbido novamente e correu cegamente de volta para a floresta, na direção oposta daquela que Flor tinha tomado.
As três esferas incendiárias deslizaram para o local onde a mulher se deitara, rapidamente convertendo a manta em cinzas, e seguiram atrás de Sra Wilks, seguindo o rastro de sangue.



Grande parte da costa do antigo lago ainda era reconhecível sob o manto de neve: a formação das rochas, as escadas descendo para a água e até um poste que tinha feito parte do píer do resort.
A partir do cais Flor estimou uma centena de metros até a entrada da caverna.
Ela passou ao longo do rochedo que subira três metros acima da praia e jogou a luz da lamparina em fendas. Para onde quer que ela apontava, Buddy retirava a neve com uma pá, que, junto com um machado, ele tinha resgatado da Sala Comum. Os outros raspavam a neve (que tinha mais de um metro de profundidade entre as pedras) com as mãos nuas ou como estivessem.
O trabalho era lento, Flor lembrou-se da entrada da caverna na metade do rochedo, então alguém tinha que escalar as rochas cobertas de neve para poder cavar. Apesar do perigo envolvido, eles não tiveram tempo de ser cuidadosos. Atrás das nuvens, a partir do qual a neve caia com constância, não havia lua, a escavação prosseguiu na escuridão quase total. Em intervalos regulares um deles pedia uma parada repentina no trabalho e ficavam se esforçando para ouvir sons reveladores de seus perseguidores que alguém tinha pensado ter ouvido.
Flor, sob o peso da responsabilidade a qual estava desacostumada, tornou-se errática, correndo de pedra em pedra. "Aqui" ela dizia e, em seguida "Ou aqui? "
Ela estava a quase duzentos metros do cais, e Buddy começou a duvidar de que havia uma caverna. Se não existisse, então certamente eles tinham chegado ao fim.
A perspectiva da morte perturbou-o mais do que não entender o propósito dessas queimadas. Se isto fosse uma invasão (e até mesmo seu pai não poderia duvidar de que agora, o Bom Deus não precisa de construir máquinas para  sua vingança), o que os invasores queriam? Seriam as Plantas os invasores? Não, não, eram apenas Plantas. Aquele infeliz que supostamente era o real invasore - dentro dos globos incendiários (ou quem construiu-os e colocou-os para trabalhar) - queria a Terra não por outra razão mas para suas malditas Plantas.
Seria a Terra então, a sua fazenda? Se sim, porque nunca houve nenhuma colheita?
Isso feria seu orgulho, pensar que sua raça, sua espécie, o seu mundo estava sendo derrotado com tal aparente facilidade. O pior, o que não podia suportar era a suspeita de que tudo isso não significava nada, que o processo de aniquilação era algo quase mecânico: os destruidores da humanidade não estavam em outras palavras, numa guerra, mas apenas pulverizando o jardim.

A abertura da caverna foi descoberto inadvertidamente, Denny Stromberg caiu através dela. Sem o acaso feliz, eles poderiam muito bem ter passado a noite inteira sem encontrá-la, já que haviam passado por ela.
A caverna se estendia além do que a luz do lampião permitia ver da entrada, mas antes de explorar sua profundidade, todos já estavam lá dentro. Todos os adultos exceto Anderson, Buddy e Maryann (todos  com menos de um metro e sessenta e oito) tiveram que curvar-se ou mesmo rastejar pra não bater a cabeça ao teto. Anderson declarou ser o momento certo para uma oração silenciosa, para o qual Orville foi grato. Encolhidos próximos uns dos outros buscando o calor, suas costas contra a parede inclinada da caverna,  tentaram recuperar o seu sentido de identidade, de propósito, de qualquer sentido perdido nas horas passadas em debandada em meio à neve.
A lamparina foi deixada acesa, uma vez que Anderson considerou que os fósforos eram mais preciosos que o óleo.
Depois de cinco minutos entregue à oração, Anderson, Buddy, Neil e Orville (embora não da hierarquia da família, mas aquele que pensou nas cavernas e em mais coisas além do que Anderson se importava de contar) exploraram o fundo da caverna. Era grande, mas não tão grande quanto eles esperavam, estendendo cerca de vinte metros e estreitando continuamente. Na sua extremidade distante, havia uma pequena reentrância cheia de ossos.

"Lobos!" Neil disse.
Uma inspeção mais detalhada confirmou serem esqueletos dos lobos, limpos, no topo da pilha.
"Ratos", Neil afirmou. "Só ratos."
Para alcançar a área mais profunda da caverna tinham que se espremer passando pela raiz gigante de uma Planta que tinha quebrado a parede da caverna. Além da pilha de ossos que os homens examinaram, esta era a única outra característica excepcional da caverna. A raiz da Planta, a este nível muito pouco se distinguia do seu tronco. Tinha a parte exposta na caverna, o mesmo diâmetro do tronco da Planta, cerca de quatro a cinco metros de diâmetro. Perto do chão da caverna, a superfície lisa da raiz estava desgastada, assim como os troncos lisos verdes eram muitas vezes mastigados por coelhos famintos.
Aqui, no entanto, parecia haver mais de uma mordidela.
Orville inclinou-se para examiná-la.

"Coelhos não fazem isso. Atingiu o cerne da madeira".
Ele estendeu a mão para dentro do buraco escuro. A camada periférica de madeira não penetrava mais do que trinta centímetros, além disso seus dedos encontraram o que parecia um emaranhado de cipós e além disso (com o ombro todo pressionando contra o buraco), nada, o vazio, o ar.

"Esta coisa está oca!"
"Bobagem", disse Anderson. Ele ficou ao lado de Orville e empurrou seu braço dentro do buraco.
"Não pode ser", disse ele, sentindo o mesmo que o outro.
"Coelhos certamente não fariam esse buraco" Orville insistiu.
"Ratos" Neil repetiu, mais do que nunca confirmando seu julgamento. Mas, como de costume, ninguém prestou atenção nele.
"Vazio como o caule de um dente de leão, vazio."
"Ela está morta. Cupins devem ter feito o serviço."
"As únicas Plantas que vi mortas, Sr. Anderson, são aquelas que matamos. Se você não se opor, eu gostaria de ver o que há lá embaixo."
"Eu não vejo que bem que possa fazer. Você tem uma curiosidade doentia sobre estas Plantas, rapaz. Às vezes tenho a impressão de que você está mais do lado delas do que do nosso."
"Seria bom", afirmou Orville dizendo uma meia verdade (pois ele ainda não se atrevia a expressar sua esperança real), "se puder fornecer uma porta dos fundos para a caverna, uma saída de emergência para a superfície, no caso de sermos seguidos aqui."
"Ele está certo sobre isso, você sabe," Buddy disse.
"Eu não preciso de sua ajuda para fazer a minha cabeça. Nem de você", acrescentou Anderson, quando ele viu que Neil tinha começado a sorrir. "Você está certo de novo Jeremias..."
"Me chame de Orville, senhor. Todo mundo me chama assim".
Anderson sorriu com azedume.
"Muito bem. Vamos começar a trabalhar agora? Pelo que me lembro, um dos homens conseguiu trazer um machado. Ah, foi você, amigão? Traga isso aqui. Enquanto isso, você (indicando Orville), vai garantir que todos vão para o fundo da caverna, onde está mais quente. E talvez mais seguro. Além disso, encontre alguma maneira de bloquear a entrada, senão a neve vai cobrí-la de novo. Use o seu casaco, se necessário."

Quando a abertura para a raiz tinha sido suficientemente alargada, Anderson empurrou a lamparina e apertou seu torso ossudo através dela. A cavidade estreitava-se rapidamente acima, tornando-se mais um emaranhado de cipós, havia pouca possibilidade de uma saída, pelo menos não sem muito trabalho duro. Mas abaixo havia um abismo que se estendia muito além do alcance da luz da lamparina. A eficácia da lamparina era ainda mais reduzida pelo que parecia ser uma rede de gaze ou teia de aranha que enchia a cavidade da raiz. A luz que passa através desse material, mostrou-se difusa e suavizada, para além de uma profundidade de cinco metros se podia discernir apenas um brilho rosado disforme.
Anderson atacou estas tranças de gaze, sem resistência, e elas se romperam. Suas mãos calejadas não poderiam mesmo senti-las.
Anderson contorceu-se para fora do buraco estreito para a caverna propriamente.

"Bem, não vai ser útil para escapar. É sólido para cima. Vai para baixo, porém, mais longe do que eu posso ver. Olhem por si mesmos, se quiserem."
Orville afundou-se no buraco. Ficou lá muito tempo, Anderson tornou-se irritado. Quando reapareceu, ele quase sorria.
"É para onde nós vamos, Sr. Anderson. É perfeito!"
"Você está louco", disse Anderson com naturalidade. "Já está ruim onde estamos."
"Mas o ponto é" (E esta tinha sido a sua esperança, não expressa original.) "Vai estar quente lá embaixo. Depois de conseguir descer uns quinze metros abaixo da superfície, encontraremos confortáveis dez graus centígrados. Não há inverno nem verão lá embaixo. Se preferir mais quente basta apenas ir para baixo para mais profundo. Aquece um grau para cada dezoito metros."
"Ah, o que você está falando?" Neil chiou. "Isso soa como um monte de besteira."

Ele não gostou da maneira que Orville, um estranho, estava dizendo a eles o que fazer todo o tempo. Ele não tinha o direito!
"Não é uma coisa que eu deveria saber, sendo um engenheiro de minas? Não é por isso que estou vivo, afinal."
Ele deixou que pensassem sobre isso e em seguida, continuou calmamente:
"Um dos maiores problemas em trabalhar em minas profundas é mantê-los a uma temperatura suportável. O mínimo que podemos fazer é ver o quão para baixo vai. Deve ser uns quinze metros pelo menos, que seria apenas um décimo da profundidade."
"Não tem nada quinze metros abaixo do solo" Anderson opôs. "Nada além de pedra. Nada cresce na rocha."
"Diga isso para a Planta. Eu não sei se ela segue tão fundo, mas volto a dizer que deveríamos explorar. Nós temos um pedaço de corda, e mesmo se nós não tivéssemos, aqueles cipós segurariam qualquer um de nós. Eu os testei."
Ele fez uma pausa antes de voltar para o argumento decisivo:". Além do mais, é um lugar para se esconder se essas coisas vierem atrás de nós."

Seu último argumento era tão válido quanto eficaz. Buddy desceu pela corda para a primeira ramificação secundária a partir da raiz vertical principal (Buddy tinha sido escolhido porque  era o mais leve dos homens), quando houve um rangido na entrada da da caverna, como quando as crianças tentam encher uma garrafa de vidro com areia.
Uma das esferas, havia seguido-os à caverna, estava agora tentando abrir seu caminho através da estreita entrada.

"Atire!" Neil gritou para seu pai. "Atire!" Começou a pegar a Python no coldre de seu pai.
"Eu não pretendo desperdiçar munição boa. Agora, tire suas mãos de mim e vamos empurrar as pessoas para baixo pelo buraco."

Orville não precisou argumentar mais. Não havia nada além para fazer. Nada. Eles eram bonecos do destino agora. Recuou e ouviu como se a esfera tentasse entrar na caverna à força. De certa maneira, ele pensou, essas esferas não eram mais inteligentes do que uma galinha tentando abrir caminho através de uma cerca de arame. Porque não bastava atirar? Talvez as três esferas tivessem que estar agrupadas sobre o seu alvo antes que pudessem disparar. Elas eram, quase certamente, autômatos. Orientavam os seus próprios destinos não mais do que os animais que foram programados para perseguir.
Orville não tinha nenhuma simpatia para com as máquinas burras e nenhuma com suas presas.
Ele se imaginou naquele momento como senhor das marionetes, até que o real senhor das marionetes, movimenta-se um dedo, e Orville passaria a correr atrás de seus semelhantes.

A descida pelo buraco da raiz foi rápida e eficiente. O tamanho do buraco assegurava que não mais de uma pessoa passasse por vez, mas o medo que essa pessoa conseguisse descer tão rápido quanto podia. O invisível (a lamparina ia abaixo com Buddy) a presença da esfera de metal batendo-se ao teto e nas paredes da caverna era uma forte motivação para a velocidade.

Anderson fez cada pessoa retirar sua roupa de frio volumosa e empurrá-la através do buraco à sua frente. Por fim só Anderson, Orville, Clay Kestner, Neil e Maryann permaneciam. Era evidente que para Clay e Neil (o maior dos homens da aldeia) e para Maryann, agora em seu oitavo mês, o buraco teria que ser ampliado. Neil cortava a madeira macia com pressa frenética.
Maryann desceu primeiro pela abertura ampliada. Quando ela alcançou seu marido, que estava escarranchado no v inverso formado pela divergência do ramo novo com a raiz maior principal, suas mãos estavam feridas de ter escorregado na corda com demasiada presa. Assim que ele a abraçou, toda a sua força pareceu escapar de seu corpo. Ela não podia ir em frente.

Neil foi o próximo a descer, em seguida Clay Kestner. Juntos, carregaram Maryann até a raiz secundária.
Anderson gritou:
"cuidado ai embaixo!" E uma chuva de objetos, alimentos, cestas, potes, roupas, o trenó, tudo que o povo havia trazido com eles desde o fogo caiu no abismo. Buddy tentou contar os segundos entre o momento em que eles foram soltos e o momento em que bateram no fundo, mas depois de um certo ponto, ele não conseguia distinguir os sons dos objetos ricocheteando nas paredes da raiz e a queda marcante ao final, se é que havia.
Anderson desceu após a última das provisões ter caído.

"Como Orville vai descer?" Buddy perguntou. "Quem vai segurar a corda para ele?"
"Eu não me preocupei em perguntar. Onde está todo mundo?"
"Lá em baixo..."

Buddy fez um gesto vago na escuridão da raiz secundária. A lamparina iluminava o eixo principal, onde a descida era mais perigosa. A raiz secundária divergia em um ângulo de quarenta e cinco graus. O teto (por aqui poderia ser dito haver piso e teto) erguia-se a uma altura de pouco mais de dois metros. Toda a superfície da raiz era um emaranhado de cipós, de modo que a inclinação era fácil de escalar. O espaço interior foi preenchido com a mesma teia frágil, embora aqueles que tinham precedido Anderson tinham arrancado a maior parte dela.

Orville desceu pelos cipós, o fim da corda atada na sua cintura, à maneira de um alpinista. Uma precaução desnecessária, uma vez que os cipós, ou o que quer que fossem agüentavam firmes. Quase rígidos na verdade, por ser tão estreitamente unidos.

"Bem", afirmou Orville com uma voz tão grotesca de bom ânimo, "aqui estamos, sãos e salvos. Vamos descer até onde os mantimentos estão?"

Naquele momento ele sentiu uma sublimidade quase divina, pois tinha segurado a vida de Anderson em suas mãos, literalmente, por uma corda e cabera a ele decidir se o velho morreria naquele momento ou sofreria ainda mais um pouco.
Não tinha sido uma escolha difícil, mas, ah, tinha sido sua!





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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Feliz Star Wars Day !!




L5



L5 é uma minissérie de ficção científica hard para distribuição online.

Imagine voltar de uma aventura desgastante apenas para descobrir que sua casa está abandonada, vazia.

Não apenas sua casa, mas seu bairro, sua cidade, na verdade tudo parece ter desaparecido. Isso é o que acontece com a tripulação da primeira missão tripulada a estrela de Barnard - retornam após o despertar da animação suspensa para descobrir que sua nave enviou-os em uma excursão relativista enquanto eles dormiam, dilatando o tempo de forma tão severa que quase 200 anos se passaram na Terra.

Seguindo as tradições da FC hard, a exploração de sua própria civilização irá levá-los em uma jornada trans-humanista e espiritual.


terça-feira, 3 de maio de 2011

Unidentified Enemy

Invasão do mundo: Batalha de L.A. como filme pode não ser grande coisa, mas o site de divulgação é espetacular!




Assista ao filme!



segunda-feira, 2 de maio de 2011

Splice - A nova espécie



Splice é um uma dessas joías do cinema que talvez por conta de uma campanha de propaganda tímida, acaba por não receber a atenção compatível com sua grande qualidade.

Neste filme de 2009, dirigido por Vincenzo Natali, um casal de geneticistas brilhantes e pouco convencionais, Elsa e Clive (Sarah Polley e Adrian Brody), são bem sucedidos em criar organismos amorfos para fornecer material genético para produtos farmacêuticos. Quando a diretoria da empresa na qual trabalham, resolve tirar proveito financeiro da extração das enzimas valiosas, ao invés de focar na continuação das pesquisas, eles decidem continuar suas experiências para criação de um organismo humano híbrido, por conta e risco.

O filme consegue com maestria atravessar por diversos gêneros, do horror ao thriller psicológico, indo além do tema banal do criador versus criatura. Seus atores, principalmente Sarah Polley, que nos envolve com seu personagem, joga tanto com nossa simpatia quanto com nossa indignação. Ela e o marido Clive, vivem uma relação profissional em desacordo com suas motivações íntimas.

Um filme perturbador e que gera questionamentos dolorosos, sem respostas fáceis.


Assista ao filme !



domingo, 1 de maio de 2011

Jack Williamson

 


John Stewart Williamson (29 de abril de 1908 - 10 de Novembro de 2006) nasceu em Bisbee, Arizona (EUA). Em busca de melhores pastagens, sua família migrou para o Novo México em 1915. A família logo voltou para o Texas.

Foi através da biblioteca da sua cidade que Williamson quando jovem, descobriu a revista Amazing Stories. 
Aos 20 anos vendeu para esta mesma revista seu primeiro conto (The Metal Man) e na década de 30 já era um autor estabelecido, e conta-se que Isaac Asimov quando adolescente, ficou emocionado ao receber um cartão postal de Williamson, seu ídolo, felicitando-o pelo seu primeiro conto publicado e dizendo: "Bem-vindo às fileiras".

Williamson serviu no exército americano na Segunda Guerra Mundial como meteorologista.

Como o término da guerra, passou a ser um colaborador regular de revistas populares, embora não atingindo o sucesso financeiro. Publicou diversas vezes em colaboração com Frederik Pohl.

Uma de suas primeiras séries, a famosa "A Legião do Espaço", era uma "space opera" cujos personagens foram retirados de 'Os Três Mosqueteiros' acrescido de 'Falstaff'.

Mas sem dúvida, Williamson sempre será lembrado por 'With folded hands'. Nesta história há pela primeira vez a introdução do robô como o conhecemos, chamados simplesmente de humanóides, que passariam a aparecer em vários de seus romances.

Professor emérito de inglês na Eastern New Mexico University (ENMU). Mais tarde se doutorou pela Universidade do Colorado, com uma dissertação sobre H.G. Wells. Graças a Jack Williamson, a Biblioteca da ENMU tem uma das maiores coleções de ficção científica do mundo.

No campo da ciência legítima, Jack Williamson cunhou a palavra de terraformação.

Obteve o título de Grão-Mestre em 1976 e foi presidente da SFFWA (Science Fiction and Fantasy Writers of America) entre 1978 e 1980, e recebeu prêmios numerosos demais para serem listados em detalhes. 

Williamson escreveu continuamente até pouco antes de sua morte, com mais de 50 romances e pelo menos 15 coleções de contos.

Perguntado sobre as recompensas de ser um escritor, respondeu:

"Para mim, acho que a maior recompensa é a satisfação de criar. Criar uma história e colocá-la no papel da forma que deve ser. Eu nunca escrevi bestsellers ou ganhei uma grande quantia de dinheiro com isso, mas quando eu olho para trás, vejo que fui capaz de passar a maior parte da minha vida fazendo algo que eu gostava. Quando olho para as pessoas ao meu redor, muitos deles estão trabalhando por dinheiro, em empregos que odeiam. Para mim tem sido amplamente compensador. É claro, escrever é um trabalho árduo, sentado muitas horas à máquina de escrever ou no computador, batendo nas teclas. Por muitos anos como um escritor de revistas populares, tentando desesperadamente ganhar a vida, trabalhei em histórias que foram mal concebidos ou não chegaram a bom termo. Nos últimos anos eu tive mais liberdade para escrever apenas o que eu queria escrever. Uma história não funciona a menos que seja algo que você realmente acredita. O leitor não vai acreditar, não vai se interessar se você não está interessado. Meus arquivos estão cheios de idéias abandonadas, histórias inacabadas que não deram certo, porque eu não me importava, não sabia o suficiente sobre a motivação, ou os personagens, ou o que eu queria dizer."



Jack Williamson ( El Hombre de metal, El principe del Espacio, Los Humanoides, Terraformar la Tierra, The Ultimate Earth, After World's End, Afterlife, Brother to Demons, Brother to Gods, Dark Star One, Eldren series, Hindsight, Hole in the world, Manseed, Nitrogen Plus, Star Bright, The firefly tree, The Happiest creature, The Hummanoids, The Legion of Time, The pygmy planet, The story Roger never told, The trial of Terra, Three from the Legion, Through the Purple Cloud Part, With Folded Hands, El paraje muerto, LA era de la Luna, La legion del Espaço, Mas Oscuro de lo que Pensais  ) [ Download ]

sábado, 30 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 8)







SETE
O Advento


Gracie, a vaca, vivia ali na Sala Comum com todo mundo. As galinhas, também tinham um canto para elas, mas os suínos foram alojados em um chiqueiro do lado de fora.

Durante quatro dias, a partir daquele Ação de Graças, a neve tinha caido lentamente, pesadamente, como neve a se instalar na cidade em miniatura, dentro de um peso de papel de vidro.
Depois de uma semana de tempo invernal as crianças já usavam o trenó nas margens do velho lago. Depois a neve começou a cair a sério, impulsionada por ventos que faziam Anderson temer pelas paredes reforçadas.
Três ou quatro vezes por dia, os homens saiam ao exterior para limpar a "cobertura" que se formara no teto da Sala Comum. Assim que a metade da cobertura de neve pesada era limpa, a outra metade surgia para substituí-la. Além desta tarefa e os cuidados com os suínos, os homens ficavam ociosos durante uma nevasca. O resto do trabalho, cozinhar  tecer, cuidar das crianças e dos doentes, era trabalho das mulheres.
Mais tarde, quando o tempo melhorasse, eles podiam caçar novamente, ou, com mais esperança de sucesso, encontrar peixes no gelo do lago. Havia também uma abundância de Plantas para cortar.

Era difícil passar por esses dias ociosos. Bebida não era permitida na Sala Comum (do jeito como estava, já havia brigas suficiente), e o jogo de cartas logo perdia seu atrativo quando o dinheiro em disputa não era diferente daquele que as crianças brincavam no Monopólio.
Havia poucos livros para ler, com exceção da Bíblia de couro de bezerro de Anderson (a mesma que certa vez estivera no púlpito da Igreja Episcopal), e o espaço interior era valisoso. Mesmo se tivessem livros, era improvável que alguém iria ler. Orville talvez, ele parecia uma espécie de amigo dos livros. Buddy também. E a Senhora tinha lido muito também.

A conversa, nunca ia além das reclamações. A maior parte dos homens imitava Anderson, sentado imóvel na orla de sua cama, mastigando a polpa da Planta. Era questionável contudo se como Anderson, poderiam dirigir este tempo para fins úteis. Quando a primavera chegava, todas as ideias, os projetos, as inovações vinham de Anderson e de mais ninguém.

Agora, parecia haver mais alguém capaz de pensar, que pelo contrário, preferia pensar em voz alta. Para o velho ali sentado, ouvindo Jeremias Orville, as idéias apresentadas por ele pareciam as vezes positivamente não religiosas. A maneira como ele falava sobre as Plantas, por exemplo, como se fossem apenas uma espécie de laboratório. Como se ele admirasse a sua conquista. Disse muitas coisas, quase no mesmo fôlego, que fazia sentido. Mesmo quando o tempo era o assunto da conversa (e muito frequentemente era), Orville tinham algo a dizer sobre isso.

"Eu ainda mantenho", disse Clay Kestner (isso foi no primeiro dia da nevasca ruim, mas Clay tinha que manter a mesma coisa há vários anos), "que o tempo não está mais frio, mas nós sentimos mais frio. É psicosomático. Não há nenhuma razão para que o tempo esteja mais frio."
"Pô, Clay", Joel Stromberg respondeu, balançando a cabeça reprovando (embora possa ter sido apenas reflexo da doença), "se o inverno hoje não é mais frio que o inverno nos anos sessenta e cinqüenta, eu vou comer o meu chapéu. Costumavamos nos preocupar se nós iamos ter um Natal branco. Eu digo que é pelo que aconteceu com o o lago."
"Bobagens!" Clay insistiu, não sem justiça.
Normalmente, ninguém teria dado mais atenção para Clay e Joel do que ao vento se lamentando sobre as Plantas lá fora, mas desta vez Orville se intrometeu: "Vocês sabem, pode haver uma razão para estar ficando mais frio. O dióxido de carbono."
"O que o cu tem a ver com as calças?" Clay brincou.
"O dióxido de carbono é o que as Plantas – qualquer planta, usa para combinar com a água quando estão fazendo seus próprio alimento. É também o que nós, ou seja, animais - exalamos. Desde que as Plantas chegaram, eu suspeito que o velho equilíbrio entre o dióxido de carbono que utilizam e a quantidade que emitimos já começou a favorecer as Plantas. Portanto, há menos dióxido de carbono na atmosfera. Agora, o dióxido de carbono é um grande absorvedor de calor. Ele armazena o calor do sol e mantém o ar quente. Assim, com menos dióxido de carbono, mais frio e neve. Isso é apenas uma teoria, é claro."
"Isso é uma teoria dos infernos!"
"Eu concordo com você, Clay, uma vez que não é minha. É uma das razões que os geólogos dão para a idade do gelo."

Anderson não acreditava em geologia, uma vez que era contra o que dizia a Bíblia, mas sobre o que Orville disse sobre o dióxido de carbono era verdade, então o agravamento dos invernos (e que estes eram piores, ninguém duvidava disso) poderia muito bem ter uma causa. Mas verdade ou não, havia algo que ele não gostava no tom de Orville, algo mais do que apenas a atitude de "sabe-tudo pós-graduação da faculdade”, que Anderson usava para ferir Buddy. Era como se essas pequenas palestras sobre as maravilhas da ciência (e foram mais do que algumas poucas),  tivessemm um único objetivo: levá-los ao desespero.

Mas ele sabia mais ciência do que ninguém, e Anderson a contragosto respeitava isso. Além disso ele tinha impedido Clay e Joel de ficar argumentando sobre o tempo e, por essa pequena bênção, Anderson não podia deixar de dar graças.

Não estava ainda tão ruim quanto ficaria em fevereiro e março, mas já era muito ruim: o espaço mínimo, as discussões bobas, o barulho, o fedor, o atrito de carne na carne e nervo no nervo. Seria muito ruim.
Quase intolerável. Duzentas e cinqüenta pessoas vivendo em 2.400 metros quadrados, e muito do espaço fora entregue ao armazenamento. No inverno passado, quando havia quase o dobro de pessoas na mesma sala, quando todos os dias testemunhávamos uma nova morte, a cada mês uma nova epidemia causada pelo frio mortal, havia sido imensuravelmente pior. Os mais sensíveis, aqueles que não conseguiam suportar, tinham enlouquecido, passando a cantar e rir, para enganar o degelo do mês de Janeiro, e estes foram embora este ano.

Este ano, as paredes estavam firmemente ancoradas desde o início, este ano o racionamento não foi tão desesperadamente rígido (apesar de haver menos carne). Ainda assim apesar de todas estas melhorias, ainda era uma forma intolerável de viver e todo mundo sabia disso.

A única coisa que Buddy não podia suportar, a pior coisa, era a presença de tanta carne. Todos os dias ela esfregava-se contra ele, exibia-se, fedia em suas narinas. E qualquer uma das centenas de mulheres na sala, mesmo Flor, pelo simples gesto, pela palavra mais mansa, desencadeava sua luxúria. Simplesmente não havia lugar, durante o dia ou a noite, na acanhanhada Sala Comum, para o sexo. Sua vida erótica era limitada a ocasiões em que ele poderia impor a Maryann ir com ele visitar a casinha onde congelavam a comida,  atrás do chiqueiro. Maryann, em seu sétimo mês e propensa a qualquer resfriado, raramente ia com ele.

Não ajudava que, enquanto havia luz na sala, Buddy poderia olhar por cima de tudo que ele estava fazendo (ou, mais provavelmente, ele não estava fazendo) e ver, a não mais de vinte metros de distância, Greta.

Mais e mais, ele buscava refúgio na companhia de Orville Jeremiah.
Orville era o tipo de pessoa, familiar para Buddy da época da universidade, de quem ele sempre gostou muito mais do que eles gostavam dele. Embora ele nunca contasse uma piada para Buddy, quando o homem falava, e ele falava incessantemente - Buddy não podia deixar de rir. Era como se as conversas sobre livros e filmes ou a forma como as pessoas falavam no velho Jack Paar Show, pudessem tornar divertida a coisa mais banal. Orville nunca bancava o palhaço, era o seu humor, a maneira como ele olhava para as coisas com uma irreverência, (não tanto que alguém como Anderson pudesse reclamar), uma paródia oblíqua. Nunca se sabia onde poderiam chegar, de modo que a maioria das pessoas, caipiras como Neil, ficavam relutantes em conversar com ele, embora o escutassem com prazer.

Buddy se viu imitando Orville, usando suas palavras, pronunciando-as da sua maneira (ge-nu-í-no ao inves de ge-nuí-no), adotando suas idéias. Era uma constante fonte de saber. Buddy, que considerava sua própria educação apenas suficiente para avaliar o âmbito de outra pessoa, considerada Orville enciclopédico. Buddy caiu de quatro tão completamente sob a influência do homem, que não seria injusto dizer que ele estava apaixonado.
Houve momentos (por exemplo, quando Orville passava muito tempo com Flor) que Buddy sentia algo como o ciúme. Ele teria se surpreendido ao saber que Flor se sentia da mesma forma quando Orville gastava seu tempo com Buddy. Era evidentemente um caso de paixão, de primeiro amor.
Mesmo para Neil ele tinha algo a dizer, o recém-chegado, um dia Orville o levou para um canto e lhe ensinou um monte de piadas sujas.   

Os caçadores caçavam sozinhos, os pescadores pescavam juntos. Neil, um caçador, estava agradecido pela oportunidade de estar sozinho, mas a falta da caçada de dezembro agravou-lhe quase tanto quanto a pressão e o clamor da Sala Comum. Mas no dia que a nevasca parou, ele encontrou rastros de veados na neve ainda fresca perto do milharal oeste. Seguiu-os por quatro milhas, tropeçando em seus próprios sapatos de neve, em sua ânsia.
Os rastros terminavam em uma concavidade de cinzas e gelo. Não havia rastros indo para longe ou se aproximando da área. Neil jurou em voz alta. Ele gritou por um tempo, sem estar ciente de que estava gritando.
Era para livrar-se da pressão.

Nenhuma caça agora, pensou ele, quando começou a pensar novamente.
Decidiu que iria descansar o resto do dia. Descansar! Ha! Ele teria que lembrar-se disso. Com os outros caçadores e pescadores ainda longe da Sala Comum talvez ele tivesse um pouco de privacidade. Isso foi o que ele fez, foi para casa e bebeu um chá fétido com sabor de alcaçuz (ou o que eles chamavam de chá) e começou a se sentir sonolento, e sabia que estava olhando, ou pensando (ele estava olhando para Flor e pensando nela) quando de repente Gracie começou a fazer um alvoroço como nunca tinha ouvido antes. Ele só tinha ouvido isso antes uma vez: Gracie estava parindo.

A vaca estava fazendo grunhidos como um porco. Virada de lado, mexia-se no chão. Era a primeira cria de Gracie, e ela não era grande o bastante. Era de se esperar problemas.
Neil atou uma corda ao redor do  pescoço, mas ela estava se debatendo, e ele não podia prender as pernas, então tinha que deixar isso de lado. Alice, a enfermeira, estava ajudando ele, mas desejava que seu pai estivesse lá. A velha Gracie estava berrando como um touro agora. Qualquer vaca que demora mais de uma hora parindo é uma perda certa, até meia hora já é ruim. Gracie estava com dor e gritando já por meia hora.
Manteve-se contorcendo-se para tentar escapar das dores.
Neil prendera a corda para evitá-la de fazer isso.

"Eu posso ver a cabeça. A cabeça está saindo agora", disse Alice.
Ela estava de joelhos na traseira de Gracie, tentando aumentar a abertura.
"Se isso é tudo que você pode ver, como você sabe que é ela?"

O sexo do bezerro era crucial, e todos na Sala Comum se reuniam em volta para assistir ao parto. Após cada urro de dor, as crianças gritavam como encorajamento para Gracie. Então as contorções pioraram, enquanto seu bezerro acalmou.
"É isso aí, é isso!" Alice estava gritando, e Neil colocava força na corda.
"É um menino!" Alice exclamou. "Graças a Deus, é um menino!"
Neil riu da velha.
"É um touro, é o que você quer dizer. Vocês da cidade são todos iguais!"

Sentia-se bem porque ele não tinha cometido qualquer erro e tudo estava uma maravilha. Ele foi até o barril e retirou a parte de cima e serviu-se de uma bebida para comemorar. Ele perguntou a Alice se ela queria, mas ela apenas olhou para ele engraçado e disse que não.

Ele sentou-se na única cadeira da sala (a de Anderson) e assistiu o bezerro mamar o úbere cheio de Gracie. Gracie não tinha levantado. Ela devia estar esgotada. Por que, se Neil não estivesse por perto, ela provavelmente não iria sobreviver. O sabor de alcaçuz não era tão ruim uma vez que você se acostumava com ele.
Todas as mulheres estavam quietas agora, e os filhos também.

Neil olhou para o bezerro e pensou como um dia ele seria um touro grande com tesão por pegar Gracie – a mãe dele! Animais, pensou confuso, apenas animais. Mas não era exatamente isso. Ele precisava beber um pouco mais.

Quando Anderson chegou em casa parecia que tinha tido um dia ruim (a tarde já se foi?), mas Neil se levantou da cadeira quente e gritou feliz:
"Ei, papai, é um touro!"

Anderson veio e olhou para Neil parecendo muito com a noite de Ação de Graças, de preto e com aquele sorriso feio (mas ele não tinha dito uma palavra sobre beber demais no jantar), e bateu no rosto de Neil, que simplesmente foi direto ao chão.

"Maldito idiota estúpido!" Anderson gritou. "Seu bosta, idiota! Você não sabe que Gracie morreu? Você a estrangulou até a morte, seu filho da puta!"

Então chutou Neil. E foi cortar a corda ainda apertada em torno do pescoço de Gracie. Sangue derramou no chão e Senhora recolheu algum com uma bacia. O bezerro puxava o úbere da vaca morta, mas não havia mais leite. Anderson cortou a garganta do bezerro também.

Não era culpa dele, era? A culpa era de Alice. Ele odiava Alice. Ele odiava seu pai também. Ele odiava todos aqueles bastardos que pensavam ser tão inteligentes. Ele odiava todos eles. Ele odiava todos eles.
Cobriu sua dor com as duas mãos e tentou não gritar de dor nas mãos, dor na cabeça, a dor de odiar, mas talvez ele gritasse, quem sabe?

Pouco antes de escurecer a neve começou a cair novamente, uma queda perfeitamente perpendicular, através do ar sem vento. A única luz na Sala Comum vinha do lampião queimando na alcova da cozinha, onde Senhora estava vasculhando potes bem lavados.
Ninguém falava.
Quem ousava negar o quão gostoso ficara o mingau de fubá e coelho temperado com o sangue da vaca e do bezerro. Estava calmo o suficiente para ouvir as galinhas cacarejando em seus refúgios no canto distante.

Quando Anderson saiu para comandar o abate e a salga da carcaça, nem Neil nem Buddy foram convidados a participar. Buddy estava sentado na cozinha, no tapete sujo de boas-vindas e fingiu ler um texto de biologia na penumbra. Ele o tinha lido por várias vezes antes e conhecia algumas passagens de cor. Neil estava sentado perto da porta, criando coragem de ir lá fora e juntar-se aos homens.

De todos os habitantes da cidade, Buddy era provavelmente a única pessoa que sentira prazer na morte de Gracie. Naquelas semanas desde a Ação de Graça, Neil havia ganho seu lugar de predileto de seu pai. Agora, desde que Neil tinha sido tão eficaz na reversão dessa tendência, Buddy argumentou que seria apenas uma questão de tempo antes de voltar a gozar dos privilégios de sua primogenitura. A extinção da espécie (eram os Herefords uma espécie?) não foi um preço muito alto para pagar.

Havia um outro que se alegrou com essa sucessão de eventos, mas ele não era, nem na sua própria estimativa, um deles, um dos moradores. Jeremias Orville tinha esperança de que Gracie e seu bezerro ou ambos pudessem morrer, já que a preservação do gado tinha sido uma das realizações mais orgulhosas de Anderson, uma lembrança que a civilização-como-nós-a-conhecemos não estava fora de moda e um sinal, para aqueles que acreditam em sinais, que Anderson era realmente um dos Eleitos. Que aquele que
realizaria as esperanças de Orville fosse a incompetência do próprio filho do homem, dava a Orville um prazer quase estético: como se alguma divindade estivesse acompanhando a sua vingança, e escrupuloso para que as leis de justiça poética fossem observadas.

Orville estava feliz esta noite, e trabalhou para esquertejar a vaca com uma fúria silenciosa. De vez em quando, quando não podia ser visto, engolia um bocado de carne crua já que estava tão faminto quanto qualquer homem ali.
Mas ele passaria fome de bom grado se antes pudesse ver Anderson passando fome também.

Um barulho estranho, um som de vento, mas não era vento, chamou sua atenção. Parecia familiar, mas não conseguia definí-lo.
Era um som que pertenciam aos da cidade.

Joel Stromberg, que estava cuidando dos porcos, gritou:
"Ah, hei – não... que porr..."
De repente Joel foi metamorfoseado em um pilar de fogo.

Orville viu isso tão claramente quanto tinha ouvido o som anterior, mas sem pensar atirou-se sobre um banco de neve nas proximidades.
Rolou na neve até estar fora da vista de tudo, das carcaças, dos outros homens, do chiqueiro. As chamas subiam a partir da queima do chiqueiro.

"Sr. Anderson!" Gritou. Apavorado para não perder sua pretensa vítima para os incendiários, ele rastejou de volta para resgatar o velho.

Três corpos esféricos, cada um com cerca de cinco metros de diâmetro flutuou pouco acima da neve na periferia das chamas. Os homens (com excepção de Anderson, que estava agachado atrás do flanco da vaca morta, mirando com a sua pistola a esfera próxima) ficaram olhando as chamas, como se enfeitiçados. Nuvens de vapor escapavam de suas bocas abertas.

"Não desperdice balas nos escudos Mr. Anderson. Venha, eles irão incendiar a Sala Comum em seguida. Temos que tirar as pessoas de lá."

Anderson concordou, mas não se mexeu. Orville teve que puxá-lo.
Nesse momento de incapacidade e estupor, Orville pensou ver em Anderson a semente do que Neil tinha se tornado.
Orville entrou na Sala Comum primeiro. Como as paredes foram reforçadas para suportar a neve, nenhum deles tinha conhecimento do fogo lá fora. Eles estavam como antes, durante toda a noite, pesados de tanta infelicidade. Vários deles já na cama.

"Todo mundo pegue suas roupas", Orville ordenou com uma voz calma e  autoritária. "Deixem este local o mais rapidamente possível pela porta da cozinha e corram para a floresta. Levem só o que está à mão, mas não percam tempo procurando coisas. Não espere ninguém. Rápido! Agora."

Muitos que tinham ouvido Orville olhavam estupefatos. Não era para ele estar dando ordens.
"Rápido" Anderson dirigiu "e sem perguntas."

Eles estavam acostumados a obedecer Anderson sem questionar, mas ainda havia muita confusão. Anderson, acompanhado de Orville, entrou diretamente na área da cozinha, onde sua família estava alojada. Estavam todos empacotando suas roupas pesadas, mas Anderson os apressou mais ainda.
Lá fora havia gritos, breves como o de um coelho abatido, conforme os dispositivos incendiários iam se virando contra seus espectadores.

Um homem em chamas correu para a Sala e caiu no chão, morto. O pânico começou.
Anderson, já perto da porta, impunha respeito, mesmo no meio da histeria e
conseguiu tirar sua família entre os primeiros.
Passando pela cozinha, Senhora agarrou uma panela vazia. Flor carregava uma cesta de roupa para lavar, muito pesada, que ela esvaziou na neve. Orville, na sua ansiedade de vê-los fora e em segurança, não levou nada consigo. Não haviam nem cinqüenta pessoas correndo pela neve quando o canto mais distante da Sala comum pegou fogo.
As primeiras chamas subiram dez metros acima do telhado, em seguida, começou a escalar os sacos de milho empilhados contra as paredes.

Era muito difícil correr na neve carregando pacotes, assim como é difícil correr com água até os joelhos: assim que você consegue o momentum, você está apto a cair para a frente.

Senhora e Greta haviam saído de casa vestindo apenas chinelos de palha e como outros só com seus camisolões ou embrulhados em cobertores.
Anderson tinha chegado quase ao limite da floresta, quando Senhora jogou de lado sua panela e exclamou: “A Bíblia! A Bíblia ficou lá!“
Ninguém a ouviu. Ela correu em direção ao prédio em chamas. No momento em que Anderson estava ciente da ausência de sua esposa, não havia mais como impedí-la. Seu próprio grito não foi ouvido, entre tantos outros.
A família parou para ver.

"Continuem correndo" Orville gritou para eles, mas não ganhou nenhuma atenção. A maioria dos que tinham fugido da casa chegavam à floresta agora.

As chamas iluminavam a vizinhança do prédio por uma centena de metros, fazendo a neve brilhar com um brilho laranja instável de sombras devido a fumaça ondulada, como o fogo das trevas.

Senhora entrou pela porta da cozinha e não reapareceu mais. O teto desabou, as paredes caíram para fora, como peças de dominó. Os três corpos esféricos poderiam ser vistos em silhueta, subindo. Em formação cerrada, eles começaram a deslizar em direção a floresta, seu “hummmmm” disfarçado pelo crepitar das chamas.
Dentro do triângulo definido por eles, a neve derretera e o vapor subia ao ar.

"Por que ela faria uma coisa dessas?" Anderson perguntou para sua filha, mas vendo que ela estava delicadamente equilibrada à beira da histeria, ele a pegou com uma mão, enquanto na outra trazia uma corda que tinha pego de um carrinho de mão fora de casa e correram atrás dos outros.

Orville e Neil praticamente carregavam Greta, que gritava obscenidades em seu rico contralto.

Orville estava frenético, e além do frenesi havia uma sensação de alegria e prazer que o fazia querer comemorar, como se a conflagração atrás deles fosse tão inocente como uma fogueira festiva.

Quando gritou ‘Depressa, Depressa!’ era difícil saber se chamava Anderson e Flor ou os três incendiários não muito atrás deles.



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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nave Escrava - Frederik Pohl



 Durante o voo de Montauk levamos um susto por causa de um míssil teleguiado, mas depois descobrimos que era um dos nossos. Chegamos a vê-lo muito bem pela janela de nosso avião de transporte, enquanto se aproximava uivando para interceptar nossa linha de voo, e cento e quarenta passageiros aspiraram ruidosamente o ar, todos ao mesmo tempo. Entretanto o radar IFF do míssil conseguiu nos reconhecer. Logo desviou, deu uma volta completa e foi embora, a caça de um Caodai, apesar de eu saber que naquela área não poderia encontrá-lo.

Foi assim que conseguimos aterrissar bem no horário. Desembarquei no litoral da Flórida. Completamente contra minha vontade.
Não encontrei o helicóptero que deveria estar a minha espera. Falei com a moça atrás do balcão dos cartões postais, era apenas uma maruja, mas realmente bonitinha, e pedi que me deixasse usar seu telefone. Então chamei o número que constava em minhas ordens. A voz que me respondeu tinha um tom bastante displicente e me comunicou que breve mandariam alguém me buscar. Então apanhei minha bagagem e me sentei para esperar.

O salão estava cheio de gente e a espera foi demorada. Por causa do meu translado desde meu cruzador, que se encontrava na linha de piquetes, até o litoral e a espera pelo transporte até Montauk e finalmente a longa viagem até a Flórida, eu não tinha pregado olho durante a noite toda. Comecei a cochilar. Alguém me sacudiu.

— Tenente, precisa sair daqui. – Era um fuzileiro atarracado, cuja braçadeira indicava que era da patrulha de terra. — Os prisioneiros terão que passar neste ponto.
— Entendo. Muito obrigado. – Levantei-me para deixar a passagem livre.

Um avião de transporte acabava de aterrissar na pista e uma fila de Caodais, baixinhos e robustos, estava descendo a rampa com as mãos entrelaçadas em cima da cabeça, vigiados por guardas armados da Polícia de Segurança. Comecei a observá-los com curiosidade. Era a primeira vez que via os inimigos em carne e osso e eles não se pareciam com os cartazes encontrados nos alojamentos dos oficiais, nos campos de treinamento. Pensei que eram muito escuros e não podiam ser da Indochina. Talvez fossem originários de algum estado satélite do Oriente Médio.

— Como é que você gostaria de se defrontar com um destes nenéns num combate? – perguntou um capitão da Força Aérea que se encontrava ao meu lado.
— Já me aconteceu algumas vezes - respondi lançando-lhe um olhar. Voltei para telefonar. Sentia-me um pouco envergonhado por tê-lo esnobado. Mas era verdade: a bordo do Spruance tivera a ocasião de tomar parte em repetidos entreveros e estes heróis que ficavam em segurança na madre pátria eram muito irritantes.

A reação que consegui na sala de operações do Projeto Mako foi de surpresa total.
— Tenente, o senhor está me dizendo que ninguém foi buscá-lo? – perguntou uma voz incrédula. — Espere um minuto.
Esperei. A voz voltou após um intervalo.
— Sinto muito, tenente – falou ofegando um pouco. — O piloto se confundiu. Estará lá dentro de quinze minutos.

O salão de espera agora já estava apinhado de prisioneiros, talvez uns cem. Apesar de serem prisioneiros, formavam um grupo muito calmo. Havia um PS armado de rifle automático para cada três prisioneiros, e mesmo assim sua proximidade me proporcionou uma sensação esquisita. Afinal, durante as ações, nunca tinha me aproximado de um Caodai, a menos de mil jardas, em águas de cem braças.

O capitão da Força aérea, boquiaberto, ainda observava os Caodai, e me lançou um olhar de reprovação; daí decidi ir na direção oposta. Era a primeira vez que me encontrava na Flórida e do terraço do aeroporto consegui ver uma paisagem de palmeiras e hibiscos, idêntica àquela prometida pelos folhetos das agências de turismo, nos dias em que ainda existiam folhetos deste tipo.

Estes dias já estavam muito longe. Há três ou quatro anos, mas naquela época eu ainda era um civil, e minha mulher também. Aliás, o país inteiro era civil, exceto oito ou dez milhões de tropas regulares. Era muito difícil lembrar...



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Lançamento de Mortal Engines de Philip Reeve e debate




Algo de muito especial vai acontecer amanhã…

Estarão presentes na Livraria Saraiva do Morumbi Shopping, às 16 horas, entusiastas dos gêneros SteamPunk, DieselPunk, CyberPunk, amantes da Ficção Científica e de Fantasia em geral, atendendo ao lançamento de “Mortal Engines” (Site Oficial), de Philip Reeve.

Será uma tarde de diversidade cultural na Literatura Fantástica, ao redor de uma obra passada em um planeta Terra pós-apocalíptico, onde, toda a tecnologia humana fora perdida e, graças a instabilidade geológica decorrente de um holocausto nuclear, cidades se tornaram colossais veículos carregando dezenas de milhares de habitantes – eternamente em busca de outras cidades para caçar, consumir e pilhar.

A mistura de sofisticação e improviso, das tecnologias remanescentes e técnicas redescobertas… a amálgama embaralhada da História humana se transformou em uma caricatura de um passado distante que se infiltrou para o que chamávamos de presente dando origem a um futuro improvável, retrofuturista e anacrônico.

Em “Mortal Engines” o futuro é coisa do passado e esta diversidade vai se fazer sentir na presença do Conselho SteamPunk, de Goths, Head Bangers, Nerds, Geeks e de todos os amantes da boa literatura com a intenção de passarem juntos pelo portal temporal que vai nos levar ao universo alternativo criado por Philip Reeve.

Um verdadeiro mercado de artefatos, acessórios e vestimentas baseados na estética SteamPunk, DieselPunk, CyberPunk, Vitoriana e de diversas outras procedências, estarão disponíveis para compras no local além de outras fascinantes obras de Ficção Científica e Fantasia lançadas pela Novo Século Editora.

Para tanto, o evento contará com a presença de membros da Liga de Artífices SteamPunk, como Naná Hayne, Susie Hervatin, a marca Secret Garden e Lili Angelika, que vão expor suas peças e promover um desfile de trajes Vitorianos em meio aos presentes.

Os fundadores do Conselho SteamPunk aproveitarão a ocasião para formar uma mesa redonda sobre os sub-gêneros retrofuturistas, sobre a expressão multi-dimensional destes sub-gêneros e sobre a relevância da Literatura Fantástica para anunciar seu mais novo projeto: 2011: A Revolução RetroFuturista


Livraria Saraiva – Shopping Morumbi
Av. Roque Petroni Jr,  1.089 – Morumbi
São Paulo – SP – Cep: 04707-000
Tel: (11) 5181.7574
Horário: 16:00




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quinta-feira, 28 de abril de 2011

The Mammoth Book of Haunted House stories - Peter Haining



Contents
ACKNOWLEDGMENTS
THE HAUNTED HOUSE by Elizabeth Albright and Ray Bradbury
FOREWORD

1 HAUNTED PLACES: Stories of Fact and Fiction

THE HAUNTED AND THE HAUNTERS Edward Bulwer-Lytton
AUTHENTIC NARRATIVE OF A HAUNTED HOUSE Joseph Sheridan Le Fanu
A CASE OF EAVES DROPPING Algernon Blackwood
A HAUNTED HOUSE Virginia Woolf
GHOST HUNT H. Russell Wakefield
DARK WINNER William F. Nolan

2 AVENGING SPIRITS: Tales of Dangerous Elementals

THE OLD HOUSE IN VAUXHALL WALK Charlotte Riddell
NO. 252 RUE M. LE PRINCE Ralph Adams Cram
THE SOUTHWEST CHAMBER Mary Eleanor Freeman
THE TOLL-HOUSE W. W. Jacobs
FEET FOREMOST L. P. Hartley
HAPPY HOUR Ian Watson

3 SHADOWY CORNERS: Accounts of Restless Spirits

THE ANKARDYNE PEW W. F. Harvey
THE REAL AND THE COUNTERFEIT Louisa Baldwin
A NIGHT AT A COTTAGE Richard Hughes
THE CONSIDERATE HOSTS Thorp McClusky
THE GREY HOUSE Basil Copper
WATCHING ME, WATCHING YOU Fay Weldon

4 PHANTOM LOVERS: Sex and the Supernatural

A SPIRIT ELOPEMENT Richard Dehan
THE HOUSE OF DUST Herbert de Hamel
THE KISSTRUCK BOGIE A. E. Coppard
MR EDWARD Norah Lofts
HOUSE OF THE HATCHET Robert Bloch
NAPIER COURT Ramsey Campbell

5 LITTLE TERRORS: Ghosts and Children

LOST HEARTS M. R. James
THE SHADOWY THIRD Ellen Glasgow
A LITTLE GHOST Hugh Walpole
THE PATTER OF TINY FEET Nigel Kneale
UNINVITED GHOSTS Penelope Lively

6 PSYCHIC PHENOMENA: Signs from the Other Side

PLAYING WITH FIRE Sir Arthur Conan Doyle
THE WHISTLING ROOM William Hope Hodgson
BAGNELL TERRACE E. F. Benson
THE COMPANION Joan Aiken
THE GHOST HUNTER James Herbert
COMPUTER SEANCE Ruth Rendell

7 HOUSES OF HORROR: Terror Visions of the Stars

IN LETTERS OF FIRE Gaston Leroux
THE JUDGE'S HOUSE Bram Stoker
THE STORM McKnight Malmar
THE WAXWORK A. M. Burrage
THE INEXPERIENCED GHOST H. G. Wells
SOPHY MASON COMES BACK E. M. Delafield
THE BOOGEYMAN Stephen King

APPENDIX: Haunted House Novels: A Listing




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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ficção Científica e Tradução - Projeto de Tradução do Conto "Primeiro Contato" De Murray Leinster




RESUMO

Há um tipo de literatura que surge a partir do final do Séc. XIX e início do Séc. XX, no qual seus autores mesclam ficção e fatos científicos (e seus possíveis desdobramentos): a ficção científica. Esses textos tendem a apresentar registros diferentes, variando, por exemplo, do dominantemente técnico à narrativa poética, o que faz com que eles possam ser considerados como obras textualmente híbridas.

Além das questões ditas literárias, essa característica impõe aos seus tradutores diversos problemas que se assemelham – e em muitos casos são idênticos – àqueles encontrados na tradução de textos técnicos. Por isso, e para fundamentar a escolha de estratégias tradutórias adequadas, é conveniente termos um modelo ao qual possamos recorrer para analisar os textos, de modo a formalizar um procedimento que oriente um tratamento adequado dos diversos registros dando conta, tanto de sua dimensão técnica, quanto da literária.

Aplica-se aqui o modelo proposto por Christiane Nord, seguindo-se os princípios básicos do Funcionalismo alemão e da Teoria do Escopo de Hans J. Vermeer, cujo objetivo, grosso modo, é fornecer critérios para as escolhas que um tradutor deve fazer ao longo de suas traduções.

O presente trabalho se propõe como elaboração e realização do projeto de tradução anotada do conto de ficção científica First Contact (Primeiro Contato), de Murray Leinster, incluindo comentários e notas de tradução, bem como referências a características da ficção científica e pontos de contato desse texto com alguns textos escritos antes do Séc. XIX que apresentam alguma vinculação com a ficção científica do Séc. XX.



INTRODUÇÃO
1 FICÇÃO CIENTÍFICA
1.1 ORIGEM DA EXPRESSÃO
1.2 O QUE É FICÇÃO CIENTÍFICA?
1.3 TEMAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA
1.4 ANCESTRALIDADE
1.5 JULES VERNE E H.G. WELLS
1.6 A FICÇÃO CIENTÍFICA INTER ARTES
2 A TRADUÇÃO DE FICÇÃO CIENTÍFICA
2.1 O MODELO DE ANÁLISE DE TEXTOS DE CHRISTIANE NORD
2.2 PROJETO DE TRADUÇÃO
2.3 FIRST CONTACT
2.4 TRADUÇÃO ANOTADA
3 CONCLUSÃO
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
4.1 NOTA
4.2 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
4.3 DICIONÁRIOS
4.4 REVISTAS E PERIÓDICOS
4.5 CONSULTAS VIA INTERNET
5 ANEXOS


Ficção Científica e Tradução [ Download ]
Projeto de Tradução do Conto "Primeiro Contato" De Murray Leinster
Ralph Lorenz Max Miller Jr..
Dissertação - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná.

First Contact - Murray Leinster [ Download ]

terça-feira, 26 de abril de 2011

The Best from the rest of the World: European Science Fiction



A ficção científica é o ramo da literatura que capta o universo através de uma lente grande angular.
Ao contrário da literatura mainstream, que tenta, mais ou menos retratar o mundo real e pessoas reais em situações presentes ou históricas, com o máximo de verossimilhança, a ficção científica reconhece desde o início que é fantasia, que não está mostrando o que é, ou o que foi, mas ações de pessoas e coisas contra o pano de fundo da imaginação sem limites.

Tudo o que poderia ter sido, tudo o que pode vir a ser,o mundo de hoje como talvez poderia ser se as coisas das quais não temos conhecimento estivessem acontecendo, todos esses horizontes infinitos são captados pela lente da ficção científica. No entanto, para que o leitor possa ser convencido da credibilidade, a melhor ficção científica tenta convencer o leitor de que este não é apenas outro conto de fadas, estes contos também são parte de um mainstream paralelo não perceptivo.

A ficção científica sempre esteve conosco - escritores sempre especularam sobre horizontes ainda não comprovados - e os exemplos podem ser encontrados desde o início da tradição escrita e podem ser encontrados em todos os períodos através das estórias contadas. De certa forma é escapismo e é um tipo de genética da curiosidade: as pessoas sempre querem saber o que está além da próxima colina, e além do horizonte mais distante, e no fim do arco-íris.

Quando contadores de estórias já não podiam mais convencer uma platéia (como os nossos antepassados menos informados), a arte da ficção científica passou a existir.

O que hoje sabemos, avançando a linha do que poderia ser, traz o fator "e se..." - e temos então a FC. Fantasia concebida como realidade. [...]




Contents
Introduction by Donald A. Wollheim 
Party Line by G~rard Klein (France)
Pairpuppets by Manuel Van Loggem (Holland)
The Scythe by Sandro Sandrelli (Italy) 
A Whiter Shade of Pale by Jon Bing (Norway) 
Paradise 3000 by Herbert W. Franke (Germany) 
My Eyes, They Burn! by Eddy C. Bertin (Belgium) 
A Problem in Bionics by Pierre Barbet (France) 
The King and the Dollmaker by Wolfgang Jeschke (Germany) 
Codemus by Tor Age Bringsvaerd (Norway) 
Rainy Day Revolution No. 39 by Luigi Cozzi (Italy) 
Nobody Here But Us Shadows by Sam J. Lundwall (Sweden) 
Round and Round and Round Again by Domingo Santos (Spain) 
Planet for Sale by Niels E. Nielsen (Denmark) 
Ysolde by Nathalie-Charles Henneberg (France)

The Best from the rest of the World: European Science Fiction - Donald A.Wollheim [ Download ]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

2000 AD SCI-FI SPECIAL 1980





2000 AD SCI-FI SPECIAL 1980 [ Download ]

sábado, 23 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 7)



SEIS
Ação de Graças

Nuvens cinzentas estavam se concentrando acima.
O chão estava seco, nu, cinzento, sem grama, sem árvores, só as plantas, dobrando para o inverno, como guarda-sóis, cresciam aqui.
A luz, sem brilho outonal enfraquecida às vezes, e uma brisa passava pelo parque, trazendo poeira.

Sentado na mesa de piquenique de concreto em bancos frios, uma pessoa poderia ver a sua própria respiração. As mãos nuas dormentes e duras de frio. Por todo o parque, as pessoas exercitavam seus dedos congelados dentro de seus sapatos e desejavam que Anderson terminasse logo a oração.

Em frente ao parque estava o que restou da Igreja Congregacional.
Anderson não tinha deixado que seu próprio povo canibalizasse a madeira da igreja, mas no último inverno saqueadores tinham arrancado as portas para usar de lenha e quebrado as janelas para se divertir. Os ventos tinham enchido a igreja de neve e poeira, e na primavera o chão de carvalho tinha sido coberto com um tapete verde de plantas jovens.
Felizmente, ele descobrira a tempo (pelo o qual eles deveriam ser gratos), mas mesmo assim o chão, provavelmente em breve sofreria o colapso de seu próprio peso.

Buddy, vestindo seu único terno, tremia com a oração se arrastando lenta. Anderson, em pé na cabeceira da mesa, também vestindo um terno para a ocasião, mas Neil, sentado no lado esquerdo de seu pai em frente a Buddy, nunca tinha possuído um terno. Ele de camisa de lã e jaqueta jeans, estava invejavelmente confortável.

Era costume da gente da cidade, como expatriados que voltavam para casa em breves visitas para estabelecer a sua residência de posse, celebrar todas as festividades, exceto Natal, aqui no parque da cidade velha. Devido as tantas coisas desagradáveis e desanimadoras que tiveram que fazer, aquilo era necessário para a sua moral.

Anderson, tendo finalmente estabelecido o princípio de que o Deus Todo-Poderoso foi responsável por suas múltiplas bênçãos, começou a enumerá-las. A mais notável dessas bênçãos nunca foi diretamente referida de que, após sete anos e meio, eles estavam todos vivos (todos os que estavam), enquanto muitos outros, a grande maioria, estava morta. Anderson, porém, se ocupava em bênçãos mais periféricas, relativas a esse ano: a abundância da colheita, a saúde de Gracie em seu décimo mês com bezerro (não referindo-se às perdas associadas), as duas últimas ninhadas de porcos, e os caçadores terem voltado para casa com caça. Infelizmente, esta tinha sido pouca (um cervo e vários coelhos), uma nota mal-humorada, ao final da oração.

Anderson logo chegou ao fim, agradecendo o seu Criador pela riqueza de sua criação e seu grande Salvador pela promessa da Salvação.
Orville foi o primeiro a responder. Seu amém era reverente e ao mesmo tempo viril. Neil resmungou alguma coisa como o resto deles e estendeu a mão para a jarra de uísque (aquilo que chamavam de uísque), que ainda estava três quartos cheia.
Senhora e Flor, que estavam sentadas junto da cabeceira da mesa mais próxima da churrasqueira, começaram a servir a sopa. Tinha leve sabor de coelho e temperada com ervas do lago.

"Mande ver!" Disseram alegremente. "Há muito mais chegando."
O que mais você poderia dizer em Ação de Graças?
Já que era um feriado importante, toda a família reunira-se, em ambos os lados da mesa. Além dos sete Andersons, estavam Mae, a irmã mais nova da Senhora, o marido Joel Stromberg, ex-Lakeside Stromberg's Resort Cabanas, e os dois pequenos Strombergs, Denny, de dez anos, e Dora, de oito. Além destes os “convidados especiais” dos Andersons (ainda em liberdade condicional), Alice Nemerov RN, e Jeremias Orville.

Senhora não podia fazer nada a não ser lamentar a presença dos Strombergs, pois ela tinha certeza de que Denny e Dora só a fariam lembrar do marido, ausente da mesa. Aquele ano não tinha sido amavel com a sua irmã querida. Mae, admirada pela beleza em sua juventude
(Embora provavelmente não no mesmo grau que Senhora tinha sido), mas aos quarenta e cinco anos ela era uma mulher desmazelada e uma encrenqueira. Na verdade, ela ainda tinha o cabelo vermelho-fogo, mas que apenas apontava para a decadência do que permaneceu. A única virtude que restava era que ela era uma mãe solícita. Demasiado, Lady pensava.

Senhora que sempre odiou feriados. Agora, quando não havia nem mesmo a gula do ritual de um jantar com peru para aliviar a tristeza sob a aclamação do feriado, a única esperança era terminar o mais rapidamente possível.
Estava agradecida, pelo menos, por estar ocupada com o serviço. Se fosse cuidadosamente desleixada, poderia sair de perto.

"Neil," Greta sussurrou. "Você está bebendo demais. É melhor você parar."
"Hã?" Neil respondeu, olhando para a esposa (ele tinha o hábito, quando comia, de se inclinar sobre o seu alimento, especialmente se fosse sopa).
"Você está bebendo demais".
"Eu não estava bebendo, pelo amor de Deus!", Disse ele, para a platéia inteira ouvir. "Eu estava comendo minha sopa!"

Greta levantou os olhos para o céu, um mártir da verdade. Buddy sorriu transparecendo seu propósito, e ela pegou o seu sorriso. Houve um lampejo de cílios, nada mais.

"Em qualquer caso, não é problema de vocês o quanto eu bebo ou não bebo. Eu vou beber tanto quanto eu quero. "Para demonstrar isso, serviu-se de um pouco mais da bebida destilada a partir do bagaço das folhas da Planta. Não possuía o gosto de Jim Beam, mas Orville era testemunha da sua pureza por sua própria experiência em Duluth. Fora a primeira utilização, como alimento, que Anderson tinha encontrado para as plantas, e desde que ele não era um abstêmio, deu sua benção ao projeto. Anderson franziu as sobrancelhas pela forma que Neil enchia a cara, mas não disse nada, não querendo que pensassem que ele estivesse tomando as dores de Greta. Anderson acreditava firmemente na supremacia do sexo masculino.

"Alguém quer mais sopa?" Flor perguntou.
"Eu" disse Mary Ann, que estava sentada entre o marido e Orville. Ela comia tudo o que podia agora, por causa do bebê. Por seu pequeno Buddy.
"E eu também", afirmou Orville, com aquele sorriso especial dele.
"Eu também", disse Denny e Dora, cujos pais lhes tinham dito que poderiam comer tudo durante o jantar, que Anderson estava oferecendo.
"Alguém mais?"

Todo o resto tinha se voltado para o uísque, que tinha se provado desagradavel como licorice.
Joel Stromberg estava descrevendo o progresso de sua doença para Alice Nemerov RN.
"E isso realmente não doi, essa é a coisa mais engraçada. E sempre que eu quero usar as minhas mãos elas começam a tremer. E agora a minha cabeça da mesma maneira. Alguma coisa tem de ser feito."
"Temo, Sr. Stromberg, que nada possa ser feito. Costumava haver algumas drogas, mas mesmo elas não funcionam muito bem. Seis meses, e os sintomas reaparecem. Felizmente, como você diz, não doi."
"Você é uma enfermeira, não é?"

Ele ia ser um desses! Muito cuidadosamente, ela começou a explicar tudo o que sabia sobre a doença de Parkinson, e algumas coisas que ela não sabia. Se ela pudesse envolver mais alguém na conversa! A outra única alma próxima era o menino Stromberg roubando bebidas dos outros copos (o gosto ruim foi o suficiente para Alice) sentado diante o prato vazio de Senhora.
Se Senhora ou Flor pudessem parar de servir comida e sentar-se por um minuto, ela poderia escapar do hipocondríaco intolerável.

"Diga-me," ela disse, "quando tudo começou?"

Os peixes foram comidos, e Flor começou a recolher os restos. O momento que todos estavam esperando, o momento terrível não poderia ser mais adiado. Enquanto Flor trazia o prato de polenta fumegante na qual foram jogados poucos fragmentos de frango e de legumes, a Senhora distribuía as salsichas.
Um silêncio caiu sobre a mesa.

Cada um deles tinha uma única salsicha. Cada salsicha tinha cerca de nove centímetros de comprimento e três quartos de polegada de diâmetro. Eles haviam sido grelhada sobre o fogo e chegou à mesa ainda chiando.
Tinha alguma carne de porco nelas, Alice tranquilizou-se.
Provavelmente não seriam capazes de dizer a diferença.

A atenção de todos voltou-se para a cabeceira da mesa.

Anderson ergueu a faca e garfo. Então, ciente da solenidade do momento, ele cortou um pedaço de salsicha quente, colocou em sua boca, e começou a mastigar. Depois do que pareceu um minuto inteiro, ele engoliu.
Pela graça de Deus… Alice pensou.
Flor estava muito pálida, e debaixo da mesa Alice alcançou a sua mão para emprestar a sua força, apesar de Alice não se sentir tão bem assim...

"O que todo mundo está esperando?" Anderson reclamou. "Tem comida na mesa."

A atenção de Alice se desviou para Orville, que estava sentado ali com a faca e o garfo na mão, e aquele sorriso estranho dele. Ele pegou Alice fitando-o e piscou para ela. Por tudo que era sagrado! Seria para ela? Orville cortou um pedaço da salsicha, e mastigou com gosto. Ele sorriu otimista, como um homem em um anúncio de creme dental.

"Sra. Anderson" ele disse: "você é uma cozinheira maravilhosa. Como você faz isso? Eu não tive um jantar de Ação de Graças assim desde Deus sabe quando."

Alice sentiu os dedos de Flor relaxar e largá-la. Ela está se sentindo melhor, agora que o pior já passou, pensou Alice.  Mas estava errada. Houve um barulho forte, como quando um saco de farinha ao cair ao chão, e Mae Stromberg gritou. Flor tinha desmaiado.

Ele, Buddy, não devia ter permitido isso, muito menos ter dado a idéia  e insistido nisso, mas muito provavelmente ele, Buddy, não teria sido capaz de manter à aldeia através desses sete anos infernais. Primitivo, pagão, sem precedentes, como era, havia uma lógica para isso.
Isso. Estavam todos com medo de chamar pelo seu nome correto. Mesmo Buddy, na privacidade inviolável de seu próprio conselho, evitou a palavra para isso.
A necessidade pode ter alguma justificativa. Havia todo um amplo precedente (O banquete Donner, o naufrágio da Medusa), e Buddy teria não teria que ir mais longe do que isso para arranjar uma desculpa, se eles estivessem famintos.

Além da necessidade, explicações podiam ser elaboraradas particularmente pela metafísica. Assim, metafisicamente, nesta refeição a comunidade estava unida por um complexo vínculo, o ponto central pelos quais os elementos uniam-se na cumplicidade do assassinato, cumplicidade alcançada por um ritual tão solene e misterioso como o beijo com o qual Judas traiu Jesus Cristo, um sacramento. O mero horror incluso da tragédia, e o almoço de Ação de Graças da cidade foi o crime e a expiação, por assim dizer, de um só golpe.

Apesar da teoria, Buddy em seu coração, não sentia nada além do horror, o horror apenas, e nada em seu estômago senão a náusea.
Bebeu outro gole firme do álcool com sabor de alcaçuz.
Neil, tinha terminado com sua segunda salsicha, começou a contar uma piada suja. Todos, com exceção de Orville e Alice, tinham ouvido-o contar a mesma piada no almoço de Ação de Graças passado. Orville foi o único a rir, o que piorou a situação ao invés de melhorar.

"Onde diabos está o veado?" Neil gritou, como se  naturalmente, fosse a continuação do desfecho da piada.
"O que você está falando?" perguntou o pai. Anderson, quando bebia (e hoje ele quase equiparava a Neil), alterava-se. Em sua juventude ele tinha uma reputação como um brigão depois da oitava ou nona cerveja.
"O veado, por amor de Cristo! O cervo! Eu atirei noutro dia! Não vamos ter um veado? Que raio de Ação de Graças é essa?"
"Neil" Greta repreendeu: "Você sabe que tem que ser salgado para o inverno. Haverá pouca carne até lá."
"Bem, onde estão os outros veados? Três anos atrás, as florestas estavam repletas de veados. "
"Estive pensando sobre isso mesmo", afirmou Orville, e novamente foi David Niven ou, talvez, um pouco mais sombrio, James Mason. "A sobrevivência é uma questão de ecologia. Isso é como eu explico. Ecologia é a maneira das plantas e animais diferentes viverem juntos. Ou seja, quem come quem, o veado... e tudo mais, eu temo, estão se tornando extintos."

Houve um silêncio, mas perceptível suspiro de diversas pessoas na mesa que tinham também pensado o mesmo, mas nunca ousaram dizer na presença de Anderson.

"Deus proverá", Anderson contrapôs sombriamente.
"Sim, deve ser a nossa esperança, para a Natureza por si só, não. Basta considerar o que aconteceu com o solo. Isto costumava ser o solo da floresta . Olhe para ele!" Pegou um punhado de pó cinzento no chão. "Poeira. Em alguns anos, sem grama para segurá-lo, cada centímetro do solo irá dar no lago. O solo é uma coisa viva. Está cheio de insetos, vermes, e não sei o quê."
"Toupeiras", Neil colocou.
"Ah, toupeiras!" disse Orville. "E todas aquelas coisas que vivem sob as plantas e nas folhas em decomposição no solo ou dependem delas, da mesma maneira que fazemos. Você já deve ter notado que as Plantas não perdem as folhas. Assim, exceto onde plantamos, o solo está morrendo. Não, ele já está morto. E quando o solo está morto, as plantas, as nossas plantas não serão capazes de viver novamente. Não do jeito que costumavam."
Anderson bufou seu desprezo por tão absurda noção.
"Mas veados não vivem no subsolo!" Neil opôs.
"É verdade, eles são herbívoros. Herbívoros precisam comer grama. Por um tempo, eu suponho que possa ter vivido das plantas jovens surgindo perto do lago, ou então, como coelhos, podem comer a casca das plantas mais velhas. Mas nem isso serve como uma dieta nutricionalmente adequada, ou não foi suficiente ou... "
"Ou o quê?" Anderson exigiu saber.
"Ou a vida selvagem está sendo eliminada da maneira como suas vacas foram no último verão, do jeito que Duluth foi, em agosto."
“Não pode prová-lo!" Neil gritou. "Eu vi montes de cinzas nas florestas. Eles não provam nada. Nada!" Ele tomou um longo gole da jarra e levantou-se, acenando com a mão direita para mostrar que não podia ser provado. Ele não estimou a posição ou a inércia da mesa de concreto muito bem, de modo que,
vindo de encontro a ela, bateu de volta ao seu assento e em seguida, puxado pela gravidade para o chão. Rolou na lama cinza, gemendo.
Tinha se machucado.

“Ele está bêbado!” Greta cacarejou desaprovando, e levantou-se da mesa para ajudá-lo.
"Deixe-o!" Anderson disse.
"Perdão!" ela declamou grandiosamente. "Desculpe-me por viver."
"De que cinzas ele estava falando?" Orville perguntou a Anderson.
"Eu não tenho a menor idéia" disse o velho. Tomou um gole do jarro e lavou sua boca com aquilo. Então deixou escorrer-lhe a garganta, tentando esquecer o sabor concentrando-se no efeito dela.
O pequeno Denny Stromberg se inclinou sobre a mesa e perguntou a Alice Nemerov se ela ia comer mais de sua linguiça. Ela tinha comido apenas uma única mordida.
"Não" Alice respondeu.
"Posso comer então?" perguntou ele. Seus olhos verdes azulados brilhavam do licor que ele tinha ingerido durante toda a refeição. Caso contrário, Alice estava certa, seus olhos não iriam brilhar. "Por favor?"
"Não perturbe Miz Nemerov, Denny. Ele não quis ser rude. Não é querido?"
"Pode comê-la" disse Alice empurrando a lingüiça fria no prato do menino.
Coma e que se dane, pensou.
Mae tinha acabado de observar que eles eram treze à mesa. ". . . por isso, se você acredita nas superstições antigas, um de nós vai morrer antes do fim do ano", ela concluiu com um riso alegre, ao qual apenas se juntou seu marido.
"Bem, eu acredito que está ficando muito frio", acrescentou ela, levantando as sobrancelhas para mostrar que suas palavras tinham mais do que um significado único.
"Mas o que esperar, já que é final de novembro?"
Ninguém parecia esperar qualquer coisa.
"Sr. Orville, me diga, você é nativo de Minnesota? Pergunto por causa do seu sotaque. Parece inglês, se entende o que eu quero dizer. Você é americano?"
"Mae, que coisa!" Senhora repreendeu-a.
"Ele fala engraçado. Denny notou isso também."
"Sério?" Orville olhou para Mae Stromberg atentamente, como se quisesse contar cada cabelo crespo vermelho, e com o estranho sorriso.
"Isso é estranho. Fui criado toda a minha vida em Minneapolis. Acho que é apenas a diferença entre a cidade e o interior."
"E você é uma pessoa da cidade, de verdade, tal como o nosso Buddy. Eu aposto que você queria estar lá agora, né? Eu conheço o seu tipo." Ela piscou lasciva para indicar o tipo que era.
"Mae, pelo amor de Deus"
Mas Denny teve sucesso onde Senhora não pode, em fazer a Sra. Stromberg parar. Vomitou tudo sobre a mesa. Os respingos salpicaram as quatro mulheres ao redor dele - Senhora, Flor, Alice, e sua mãe e houve uma grande comoção ao tentarem escapar do perigo que era a boca de Denny. Orville não podia ajudar a si mesmo, e riu. Ele foi acompanhado, felizmente, por Buddy e pequena Dora, cuja boca estava cheia com salsicha. Mesmo Anderson fez um barulho que poderia caridosamente ser interpretado como riso.

Buddy desculpou-se e Orville fez mais elogios para o cozinheiro e um gesto quase imperceptível para a direção de Flor que, no entanto, Flor percebeu. Stromberg levou seu filho para a floresta, mas não longe o suficiente para impedir que o resto deles ouvisse as chicotadas.
Neil dormia no chão.
Maryann, Dora, e Anderson ficaram sozinhos na mesa. Maryann ora chorando e ora não, o dia todo. Agora, uma vez que ela também bebera, começou a falar: "Ah, eu lembro do tempo...".
"Perdoe-me", disse Anderson deixando a mesa, e levando a jarra com ele.
"...nos velhos tempos", Maryann continuou. "Era tudo tão bonito, o peru e a torta de abóbora, e todo mundo feliz...".

Greta, depois de sair da mesa, tinha ido vagar pela igreja. Antes de desaparecer no vestíbulo escuro, ela e Buddy haviam trocado um olhar e Buddy fez um sinal com a cabeça afirmativamente. Quando o jantar acabou, ele seguiu para lá.

"Olá estranho!" Aparentemente, ela insistia nesta jogada permanentemente.
"Olá, Greta. Você está em forma hoje."

No vestíbulo, eles estavam fora da linha de visão da área de piquenique. O chão era sólido. Greta segurou a nuca de Buddy firmemente em suas duas mãos frias e puxou seus lábios para os dela. Seus dentes rangiam, e as suas línguas reconheceram-se com familiaridade.
Quando ele começou a puxá-la para mais perto, ela recuou a rir baixinho. Tendo conseguido o que queria, ela podia se dar ao luxo de provocar.
Sim, esta era a velha Greta.

"Neil não estava bêbado?" Ela sussurrou. "Ele não estava chapado?"
A expressão em seus olhos não era exatamente como ele se lembrava, e ele não poderia dizer, se o corpo sob suas roupas de inverno havia mudado da mesma forma. Ocorreu a ela perguntar o quanto ele havia mudado, mas o desejo crescendo dentro dele anulou tais irrelevâncias. Agora era ele quem a beijou. Lentamente, em um abraço, que começou a descer ao chão.
"Oh não", ela sussurrou: "Não."

Eles estavam de joelhos quando Anderson entrou. Ele não disse nada durante muito tempo, nem eles se levantaram. Um olhar estranho, manhoso no rosto de Greta e Buddy pensou que tinha sido por isso, que Greta esperava.
Ela tinha escolhido a igreja para isso mesmo.
Anderson fez um gesto para que se levantassem, e permitiu que Greta saisse, depois de cuspir na cara dela.
Foi esta a compaixão, que não exigia punição pela lei...a sua propria, de adúlteros: que sejam apedrejados! Ou era apenas fraqueza em relação a familia? Buddy não podia ler nada da careta do velho.

"Eu vim aqui para rezar", disse a seu filho quando eles estavam a sós.
Então, ao invés de terminar sua frase, balançou a perna e o chutou
(lentamente, talvez fosse o licor) a tempo de Buddy escapar do pontapé.
"Ok, garoto, vamos cuidar disso mais tarde", prometeu Anderson, sua voz engolindo as palavras.
Então ele entrou na igreja para rezar.
Parecia que Buddy não desfrutaria da posição que ele tinha herdado em junho do ano passado, de ser o preferido de seu pai.
Assim que deixou a igreja, os primeiros flocos de neve da nova estação caíam do céu cinzento.
Buddy assistiu-os derretendo na palma de sua mão.



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