domingo, 20 de fevereiro de 2011
Joan D. Vinge
Joan Carol Dennison (2 de Abril de 1948) nasceu em Baltimore, Maryland (EUA).
Filha de um engenheiro aeronáutico, desenvolveu precocemente o interesse pela astronomia, sua grande paixão de infância. Durante o ensino médio descobriria a ficção cientifica, assumindo o lugar da astronomia, principalmente influencida pelo estilo de Andre Norton.
Quando começou a faculdade Vinge optou pelo estudo de Artes, mas logo se desiludiu com seus professores e trocaria o mundo das artes pelo da antropologia, na qual formou-se pela San Diego State University em 1971. Logo após, trabalhou como um arqueóloga no Condado de San Diego.
Em janeiro de 1972 ela se casou com o escritor de ficção científica e matemático Vernor Vinge, e no ano seguinte, começou um esforço sério para escrever ficção científica.
Seu primeiro conto publicado, "Tin Soldier", apareceu em uma antologia de novos escritores chamada Orbit 14, em 1974. Esta primeira fase de sua carreira, foi pontuada por aparições em diversas revistas e antologias.
Logo, vários de seus trabalhos passaram a ganhar prêmios importantes: O romance 'Snow Queen' ('A Rainha da Neve') ganhou o Prêmio Hugo de ficção científica. 'Eyes of Amber' (Olhos de Âmbar) ganhou o Prêmio Hugo de 1977, também sendo indicada para vários prêmios Hugo, Nebula, John W. Campbell Award New Writer. 'Psion', foi nomeado melhor livro para Jovens Adultos pela American Library Association.
Na década de 80 Vinge ficou muito ocupada com a produção de 'novelizações' a partir de filmes de grande bilheteria, como 'Mad Max Beyond Thunderdome', 'Ladyhawke', 'Willow', 'Santa Claus: The Movie', e uma série de outros. Ela também fez adaptações para livros infantis, como 'Star Wars Retorno do Jedi Storybook',que ganhou o Prêmio North Dakota Children's Choice de 1984.
Nos primeiros anos de sua carreira Vinge ganhou a reputação de ser uma das poucas mulheres autoras de ficção científica hard, e ela era uma freqüente colaboradora da Analog, certamente a publicação mais dedicada a esse estilo de FC. No entanto, ao mesmo tempo, suas histórias têm abordado temas menos ciêntíficos, como estruturas sociais - o que não surpreende, dada a sua formação de antropóloga.
Recentemente novelizou 'Lost in Space' ('Perdidos no Espaço').
Vinge continua a publicar para crianças e adultos.
Joan D.Vinge ( O Feitiço de Áquila, Lost in Space, Voices from the Dust, CAT series, Eyes of Amber, Fireship, Mother and son, Psiren, Snow Queen series, Tin Soldier, To bell the cat, View from a heigh, World's End, The Peddler's Apprentice (com Vernor Vinge), La Reina de la Nieve, Ojos de Ambar ) [ Download ]
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Solaris - Stanislaw Lem (parte 25)
O VELHO MIMÓIDE
Estava sentado junto da janela panorâmica e olhava para o Oceano.
Nada mais havia a fazer, agora que o relatório, que levara cinco dias a preparar, não passava de um padrão de ondas viajando no espaço. Iam se passar meses antes que um padrão semelhante partisse da Terra para criar a sua própria linha de turbulência no campo gravitacional da galáxia, em direção aos dois sóis gêmeos de Solaris.
Sob o sol vermelho, o Oceano estava mais sombrio que nunca e o horizonte estava obscurecido por uma neblina avermelhada. O tempo estava estranhamente cerrado e parecia estar preparando um daqueles terríveis furacões que surgiam duas ou três vezes por ano à superfície do planeta, cujo único habitante, é racional supor-se, controla o clima e cria as tempestades a seu bel-prazer.
Se passariam vários meses antes de eu poder partir. Do meu ponto de vantagem no observatório, veria o nascer dos dias — um disco cor de ouro pálido ou de púrpura esbatida. Uma vez por outra iria me deparar com a luz da madrugada saltitando por entre as formas fluidas de qualquer edifício surgido do Oceano, observaria o Sol refletido na esfera prateada de uma simetríade, acompanharia as oscilações dos graciosos agilus que vergam sob o vento e iria me distrair observando velhos e poeirentos mimóides.
E um dia as telas de todos os videofones começariam a piscar e todo o equipamento de comunicação ganharia vida de novo, ressuscitado por um impulso cuja origem estava à bilhões de milhas d distância, e que anunciaria a chegada de um colosso de metal.
O Ulisses, ou talvez o Prometheus, aterraria na Estação, acompanhado pelo ruído sibilante dos seus gravitadores, e eu sairia para o telhado plano para observar os regimentos dos brancos robôs dos serviços pesados, em completa inocência prosseguindo com as suas tarefas, não hesitando em se destruir ou destruir qualquer obstáculo imprevisto, em estrita obediência às ordens registradas nos cristais que formam a sua memória. Depois a nave se elevaria sem ruído, mais rápida que o som, deixando um estrondo sônico para trás, por sobre o Oceano, e a face de todos os passageiros se iluminaria com a ideia de voltar para casa.
Que significava essa palavra para mim? A Terra? Lembrei as grandes e ruidosas cidades por onde iria vaguear e onde me iria perder e pensei nelas como pensara no Oceano na segunda ou terceira noite, quando me quisera atirar para as suas sombrias ondas.
Vou misturar-me por entre os homens. Ficarei calado e atento, um companheiro que sabe apreciar. Farei muitos conhecimentos, amigos, mulheres — talvez até arranje uma esposa. Durante uns tempos terei de fazer um esforço consciente para sorrir, acenar com a cabeça, ficar parado e executar os milhares de pequenos gestos que constituem a vida sobre a Terra, e mais tarde esses gestos voltarão a ser menos reflexos. Encontrarei novos interesses e ocupações e não me entregarei a eles por completo, tal como também nunca mais me entregarei por completo a nada nem a ninguém. Talvez à noite olhe para a escura nebulosa que tapa a luz dos sóis gêmeos e recorde tudo, até o que agora estou a pensar.
Com um sorriso condescendente e levemente infeliz, relembrarei as minhas loucuras e as minhas esperanças. E esse Kelvin do futuro não terá menos valor que o Kelvin do passado, o qual, em nome de um ambicioso empreendimento chamado Contato, estava preparado para tudo. E nenhum homem terá o direito de me julgar.
Snow entrou na cabina, olhou em volta e olhou de novo para mim.
Fui até junto da mesa:
— Andava à minha procura?
— Não tem nada para fazer? Podia dar-lhe algum trabalho... uns cálculos. Não seria nada particularmente urgente...
— Obrigado — sorri —, não precisava ter-se incomodado.
— Tem a certeza?
— Sim. Estive pensando em certas coisas e...
— Gostaria que pensasse um pouco menos.
— Mas você não sabe o que eu estava pensando! Diga-me uma coisa. Você acredita em Deus?
Snow lançou um olhar apreensivo na minha direção:
— O quê? Quem é que, nos dias de hoje, ainda acredita...
— Não é assim tão simples. Não me refiro ao tradicional Deus da religião da Terra. Não sou perito em histórias das religiões e talvez isto não seja nada de novo... você por acaso não saberá se alguma vez existiu uma crença num... deus imperfeito?
— Que quer dizer com esse imperfeito? — E Snow franziu a sobrancelha. — De certo modo, todos os deuses das velhas religiões eram imperfeitos, tendo em conta que os seus atributos eram apenas os atributos humanos ampliados. O Deus do Velho Testamento, por exemplo, exigia uma submissão humilde e sacrifícios e tinha ciúmes dos outros deuses. Os deuses gregos tinham faniquitos e querelas de família e eram tão imperfeitos como os mortais...
— Não — interrompi. — Não estou pensando em um deus cuja imperfeição é fruto da candura dos seus criadores humanos, mas um deus cuja imperfeição represente a sua característica essencial: um deus limitado na sua onisciência e poder, falível, incapaz de prever as conseqüências dos seus atos e criando coisas que conduzem ao horror. Ele é um deus... doente, cujas ambições excedem os seus poderes e que, a princípio, não perceba este fato. Um deus que criou os relógios, mas não o tempo de que estes são a medida. Criou sistemas e mecanismos que serviam fins específicos, mas agora os ultrapassou e traiu. E criou a eternidade, que deveria ser a medida do seu poder e que afinal é a medida da sua infinita derrota.
Snow hesitou, mas a sua atitude não mostrava já nada daquela reserva cautelosa das últimas semanas:
— Houve o Maniqueísmo...
— Não tem nada a ver com o princípio do Bem e do Mal — interrompi imediatamente. — Este deus não tem qualquer existência fora da sua matéria. Gostaria de libertar-se dessa matéria, mas não pode...
Snow ponderou o problema durante algum tempo:
Não conheço nenhuma religião que corresponda à sua descrição. Essa espécie de religião nunca foi... necessária. Se bem o compreendo, e temo que sim, o que você tem em mente é um deus em evolução, que se desenvolve com o decurso do tempo, cresce, continua sempre a aumentar em poder, ao mesmo tempo em que tem consciência da sua impotência. Para o seu deus, a condição divina é uma situação sem objetivo. E, compreendendo essa verdade, ele entra em desespero. Mas, Kelvin, esse seu deus desesperado não será a humanidade? É do homem que você está falando, e isso é uma falácia, não só em termos filosóficos como também místicos.
Insisti:
— Não, nada tem a ver com o homem. O homem pode talvez corresponder, sob certos pontos de vista, à minha definição provisória, mas isso acontece porque a definição tem imensas lacunas. Apesar das aparências, não é o homem que cria os deuses. São os tempos, a época, que os impõem. O homem pode seguir de acordo com a sua época ou rebelar-se contra ela, mas a essência da sua cooperação ou rebelião vem do exterior. Se existisse apenas um único ser humano, aparentemente ele poderia tentar a experiência de criar, em inteira liberdade, os seus próprios fins... mas só aparentemente, porque um homem que não cresceu junto a outros seres humanos não poderá tornar-se um homem. E o ser (o ser que tenho em mente) não pode existir no plural, entende?
— Oh, então nesse caso... — Apontou para fora da janela.
— Não, o Oceano também não. Durante o seu desenvolvimento ele chegou provavelmente muito próximo do estado divino, mas regressou a si próprio demasiado cedo. É mais semelhante a um eremita do cosmo, do que um deus. Ele repete-se, Snow, e o ser em que estou a pensar nunca faria tal coisa. Talvez já tenha nascido num canto qualquer da galáxia, e em breve venha a ter um entusiasmo infantil qualquer que o leve a apagar uma estrela e a acender outra. Passado um tempo, acabaremos por reparar nele...
— Já reparamos — disse Snow com sarcasmo. Novas e supernovas . De acordo com as suas ideias, são velas sobre o altar desse deus.
— Se pretende entender literalmente o que digo...
— E talvez Solaris seja o berço da sua criança divina — continuou Snow, com um sorriso crescente, que aumentava o número de rugas que tinha em volta dos olhos. — Solaris podia bem ser a primeira fase do deus desesperado. Talvez a sua inteligência venha a crescer enormemente. Todo o conteúdo das nossas bibliotecas solaristicas podia ser apenas um registro dos seus problemas de dentição...
—... e nós não teríamos passado de um brinquedo com que o bebê brincou durante algum tempo. É possível. E sabe o que você acaba de fazer? Apresentou uma hipótese inteiramente nova a respeito de Solaris! Meus parabéns! De súbito tudo tem o seu lugar: a impossibilidade de estabelecer contato, a ausência de respostas, várias... como direi, várias peculiaridades no seu comportamento em relação a nós. Tudo é explicável se o considerarmos em termos de comportamento de uma criança pequena.
— Renuncio à paternidade da teoria — resmungou Snow, em pé junto à janela.
Por muito tempo continuamos a olhar para as sombrias ondas. Na neblina que obscurecia o horizonte, uma longa mancha pálida começou a surgir no oriente.
Sem desviar os olhos do fulgente deserto, Snow perguntou abruptamente:
— O que lhe deu essa ideia de um deus imperfeito?
— Não sei. A mim parece-me perfeitamente possível. É o único deus em quem imagino poder acreditar, um deus cuja paixão não é redenção, que nada salva, que não serve a nenhum propósito... um deus que se limita a ser.
— Um mimóide — sussurrou Snow.
— O quê? Ah, sim, já notei. Um mimóide muito velho.
Ambos olhamos para o nebuloso horizonte.
— Vou lá fora — disse eu abruptamente. — Ainda nunca saí da Estação, e esta é uma boa oportunidade. Voltarei daqui a meia hora.
Snow abriu interrogativamente os olhos.
— O quê? Vai lá fora? Aonde vai?
Apontei em direção à mancha cor de carne que ficava semi escondida pela neblina:
— Ali. O que poderia me deter? Levo um helicóptero dos pequenos. Quando regressar à Terra, não quero ser obrigado a confessar que sou um solarista que nunca pôs o pé em Solaris!
Abri um armário e pus-me a escolher um traje atmosférico enquanto Snow olhava em silêncio. Por fim, este disse:
— Não estou gostando disso.
Escolhi um traje. Voltei-me então para ele:
— O quê? — Fazia tempo que não me sentia tão excitado. — Com o que se preocupa? Confesse! Você está com medo que eu... garanto que não tenho qualquer intenção... sinceramente nunca me passou pela cabeça.
— Vou com você.
— Obrigado, mas prefiro ir sozinho. — Enfiei o traje. — Já reparou que será o meu primeiro voo por sobre o Oceano?
Snow resmungou qualquer coisa, mas não consegui entender o quê.
Eu estava ansioso por reunir o resto do equipamento.
Acompanhou-me à base de lançamento e ajudou-me a puxar o aparelho para fora e a colocá-lo no disco do elevador. Estava verificando o meu traje quando me perguntou de repente:
— Posso confiar na sua palavra?
— Continua preocupado? Sim, pode. Onde estão os tanques de oxigênio?
Não trocamos mais palavra. Fiz deslizar e fechei o telhado transparente, fiz-lhe sinal e ele pôs o elevador em funcionamento. Emergi no telhado da Estação; o motor ganhou vida; as três lâminas giraram e o aparelho elevou-se —estranhamente leve— no ar. Depressa a Estação ficou para trás.
Sozinho por cima do Oceano, o vi com outros olhos.
Estava voando muito baixo, a cerca de uns cem pés, e pela primeira vez senti uma sensação muitas vezes descrita pelos exploradores, mas que, da altura que estava a Estação, nunca notara pessoalmente: o movimento alternado das luzentes ondas em nada se assemelhava à ondulação do mar ou a um amontoar de nuvens. Era como a pele de um animal a rastejar — as contrações incessantes e lentas de tecido muscular a segregar uma espuma carmesim.
Quando voltei o aparelho na direção do mimóide que seguia à deriva, o sol acertou-me nos olhos e lampejos vermelho-sangue batiam na cabine abaulada.
O negro Oceano, relampejando em sombrias chamas, estava tingido de azul.
O aparelho deu uma volta pelo largo e o vento empurrou-nos para uma boa distância do mimóide, uma silhueta longa e irregular que se erguia acima do Oceano.
Emergindo da neblina, o mimóide já não era rosado, antes de um cinzento-amarelado. Perdi-o momentaneamente de vista e pude avistar a Estação, que parecia sentada sobre a linha do horizonte e cujo traçado exterior fazia lembrar um antigo zepelim.
Mudei de direção e o corpo total do mimóide foi crescendo na minha linha de visão — uma escultura barroca. Tive medo de ir de encontro às saliências bulbosas e fiz o aparelho subir de modo tão abrupto que perdeu a velocidade e começou a capotar; mas a minha cautela fora desnecessária, pois os picos arredondados dessas torres fantásticas estavam baixando.
Voei junto à ilha e, lentamente, metro a metro, baixei até ao nível dos picos desgastados pela erosão. O mimóide não era grande. De ponta a ponta media cerca de três quartos de milha e tinha poucas centenas de metros de largura. Em alguns pontos estava quase a partir-se. Era óbvio que este mimóide era um fragmento de uma formação muito maior. Pela escala de Solaris, era apenas minúscula lasca, com semanas ou talvez meses de idade.
Por entre os penhascos sarapintados junto ao Oceano, encontrei uma espécie de praia, uma superfície inclinada mas bastante plana, de vários metros quadrados, e para lá me dirigi. Os rotores quase bateram num penhasco que subitamente me surgiu no caminho, mas aterrei em segurança, desliguei o motor e fiz deslizar o teto para trás. Em pé sobre a fuselagem, assegurei-me de que não havia hipótese do aparelho deslizar para dentro do Oceano. As ondas lambiam a margem dentada a cerca de quinze metros de distância, mas o aparelho estava solidamente apoiado sobre as suas pernas; saltei para o “solo”.
O penhasco em que quase batera era uma gigantesca membrana ossuda, atravessada por várias aberturas e cheia de saliências nodosas. Uma fenda com a largura de vários metros cortava-o no sentido da diagonal, o que me permitiu examinar o interior da ilha, interior esse que já espreitara pelas aberturas que havia na membrana.
Caminhei cuidadosamente pela borda mais próxima, mas as minhas botas não mostravam qualquer tendência para deslizar e o traje não prendia os movimentos, e continuei subindo até que cheguei a uma altura como de quatro andares acima do Oceano e pude ver uma vasta paisagem petrificada, que se estendia sem fim até desaparecer de vista nas profundezas do mimóide.
Era como olhar para as ruínas de uma antiga cidade, uma cidade marroquina com dezenas de séculos de idade, arrasada por um terremoto ou qualquer outra calamidade: descobri uma emaranhada teia de ruelas serpenteantes, atulhadas de escombros, e vastas alamedas caindo abruptamente em direção à espuma oleosa que flutuava junto à praia.
A uma certa distância, grandes edifícios continuavam intactos, sustentados por arcos ossificados. Viam-se negras aberturas nas paredes inchadas e imersas — vestígios de janelas ou postigos. Toda a cidade flutuante descaía ora para um lado ora para o outro, tal como um navio a naufragar, depois assentava e rodava lentamente e o sol provocava sombras sempre em movimento, as quais se estendiam pelas fileiras de ruínas. De vez em quando, uma superfície polida apanhava e refletia a luz.
Arrisquei-me a subir mais acima, depois parei; riachos de fina areia começaram a escorrer pelos rochedos acima da minha cabeça, caindo em cascata pelas ravinas e alamedas e ricocheteando em rodopiantes nuvens de pó.
O mimóide não é feito de pedra, e para desfazer a ilusão basta que apanhemos um pedacinho dele: é mais leve que pedra-pomes e é composto por pequenas células muito porosas.
Eu estava agora suficientemente alto para sentir a oscilação do mimóide. Este movia-se para diante, propulsionado para um destino desconhecido pelos músculos sombrios do Oceano, mas a sua inclinação variava. Balouçava de um lado para o outro, e a lânguida oscilação era acompanhada pelo suave murmúrio de espuma amarela e cinzenta que brotava da praia imersa. O mimóide adquirira o seu movimento balouçante há muito tempo já, provavelmente na altura do seu nascimento, e mesmo depois de crescer, e apesar de começar já a partir-se, mantinha o padrão original.
Só nesse momento me apercebi de que não estava nem um pouco interessado no mimóide e que voara até ali não para explorar a formação, mas para conhecer melhor o Oceano.
Com o helicóptero poucos passos atrás de mim, sentei-me na praia áspera e cheia de fissuras. Uma densa onda negra quebrou de encontro à beira da margem e espraiou-se, não preta mas de um verde-sujo. A onda ao recuar, deixou viscosos riachinhos que deslizaram trementes de volta ao Oceano. Aproximei-me mais, e quando veio a onda seguinte, estendi a mão.
O que se seguiu foi a reprodução fiel de um fenômeno que fora analisado um século antes: a onda hesitou, retraiu-se, depois envolveu a minha mão sem lhe tocar, de modo que uma delgada camada de “ar” separava a minha luva dentro de uma cavidade que um minuto antes fora um fluido e tinha agora uma consistência carnuda.
Levantei lentamente a mão, e a onda, ou antes, uma excrescência da onda ergueu-se ao mesmo tempo, envolvendo a minha mão num casulo translúcido com reflexos esverdeados. Levantei-me para poder erguer a mão ainda mais alto, e a substância gelatinosa esticou como uma corda, mas não quebrou. O corpo principal da onda permanecia imóvel na praia, rodeando os meus pés sem lhes tocar, como um estranho animal pacientemente à espera que a experiência acabasse.
Do Oceano nascera uma flor, e o seu cálice era moldado com o feitio dos meus dedos. Recuei. O caule tremeu, oscilou de modo incerto e caiu de novo na onda, que o absorveu e recuou.
Repeti várias vezes a brincadeira, até que —como já o primeiro observador verificara — uma onda me ignorou, cheia de indiferença, como se aborrecida com uma sensação demasiado conhecida. Eu sabia que para reavivar a “curiosidade” do Oceano teria de esperar várias horas. Perturbado pelo fenômeno que eu próprio estimulara, de novo me sentei. Embora tivesse lido numerosas descrições do caso, nenhuma me preparara para a experiência como a vivi e senti-me até certo ponto mudado.
Em todos os seus movimentos, considerados em conjunto ou separadamente, cada um desses braços que saiam do Oceano parecia exibir uma espécie de alerta, cautelosa mas não feroz, uma curiosidade ávida por apreender rapidamente uma forma nova e inesperada e lastimando ter de recuar, incapaz de exceder os limites estabelecidos por alguma misteriosa lei. Era impossível descrever o contraste entre essa viva curiosidade e a brilhante imensidão do Oceano, que se estendia a perder de vista... Nunca sentira tão fortemente a sua gigantesca presença ou o seu poderoso e imutável silêncio ou as forças secretas que davam às ondas a sua subida e descida regular.
Sentei-me sem nada ver e mergulhei num universo de inércia, deslizei por uma encosta irresistível e identifiquei-me com o mudo colosso fluido; era como se, sem o mínimo esforço de palavras ou pensamentos, lhe tivesse perdoado tudo.
Durante aquela última semana tinha-me comportado de modo tão normal que Snow deixara de me vigiar constantemente. À superfície eu estava calmo; em segredo, sem realmente o admitir, aguardava algo. O regresso dela? Como podia esperar tal coisa? Todos sabemos que somos criaturas materiais, sujeitos às leis da fisiologia e da física e nem mesmo a força de todos os nossos sentimentos combinados pode vencer essas leis. Podemos apenas detestá-las. A fé, velha como a vida, dos amantes e dos poetas no poder do amor, que é mais forte que a morte, que “finis vitae sed non amo ris”, é uma mentira inútil e nem mesmo divertida.
Teremos, pois, de nos resignar a ser um relógio que mede a passagem do tempo, umas vezes a funcionar bem, outras a precisar de reparação, cujo mecanismo gera o desespero e o amor logo que é posto em funcionamento pelo seu fabricante? Teremos de nos habituar à ideia de que todos os homens revivem velhos tormentos, tormentos esses que ficam cada vez mais profundos porque se vão tornando cômicos com a repetição? Que a existência humana tenha de repetir-se, está bem, mas que se repita como uma música em voga ou um disco que um bêbedo faz continuamente tocar, enquanto vai metendo moedas na máquina dos discos...
Aquele gigante líquido causara a morte de centenas de homens.
Toda a raça humana tentara em vão, estabelecer com ele até a mais tênue das ligações, e agora agüentava ali com o meu peso, sem reparar mais em mim do que repararia num grão de pó. Eu não acreditava que ele pudesse reagir à tragédia de dois seres humanos. Contudo, as suas atividades tinham um propósito... Certo que eu não tinha uma certeza absoluta, mas partir significaria desistir de uma probabilidade, talvez infinitesimal, talvez apenas imaginária... Deverei então continuar a viver aqui, entre objetos em que ambos tocamos, no ar que ela respirou? Em nome de quê? Na esperança do seu regresso? Eu não esperava nada. E, contudo vivia na expectativa.
Desde que ela partira, era tudo o que me restava. Não sabia que empreendimentos, que brincadeiras, até que torturas me aguardavam ainda.
Não sabia nada, mas persistia na fé de que a era dos milagres cruéis ainda não acabara.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Horror Masters
Horror Masters.com - Mais de 2.900 histórias de horror!
Há seções especiais para histórias de fantasmas, vampiros, monstros, ocultismo, lobisomens, bruxas e horror em geral.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Contos Fantásticos e Best SF
Desde a antiguidade os homens têm contado histórias, mas somente a 200 anos atrás, com os irmãos Grimm, se começou a investigar as origens das histórias e, desde então, tentamos responder a perguntas como: por que as contamos?
Uma resposta poderia ser porque são arrebatadoras.
Quem resiste a um bom conto de FC, Terror ou Fantasia?
Frequentemente desprezados por grandes editoras e relegados a parcas coletâneas independentes, os contos constituem a espinha dorsal da literatura de gênero, como disse Doctorow, 'tudo termina e começa com um pequeno e tímido conto'.
Dois sites, um brasileiro e outro americano, onde o conto tem o devido destaque.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
O Visitante do labirinto - Rafael Ábalos
Um jovem príncipe, filho do Honorável Rei Winder Wilmut Winfred, está perdido na mata próximo do Lago Fergonol depois de ter saído para um passeio ao longo de suas margens.O jovem chega a uma cabana onde descobre com surpresa que um homem estranho está a sua espera, é Gorgonan, duende do Lago Fergonol, que anunciou que ele tinha atravessado as portas do labirinto invisível, tal como anos atrás, tinha feito seu pai, o rei. A perplexidade do Príncipe aumenta com a visita de três outros duendes, Borbarón, Candelán e Sandelón, os três idênticos a Gorgonan. Ele informa que o herói deve se preparar para no dia seguinte fazer uma viagem que o levará a descoberta de si mesmo.
Um livro contendo todos os elementos das lendas e contos de aventura: um jovem que se perde na floresta e encontra uma cabana onde vivem os duendes, navios piratas, seres fantásticos como o dragão, cavaleiros andantes, castelos sob cerco, os barões gananciosos...
[...
O vento cantou melodias que pareciam vir de flautas de bambu, o velho e desajeitado Gorgonan sentou na sua agradável cadeira de balanço de vime brincando com seu cachimbo de bolhas de sabão e anéis mágicos no ar de espuma azul. Sentou-se na porta de sua casa confortável, de frente para as águas geladas do lago em cuja superfície espelhava as neves eternas das montanhas que ficavam nas suas margens como um gigante sonolento e preguiçoso. No céu, uma lua minguante com brilho de águas em movimento, brilha uma louca corrida entre uma infinidade de estrelas cintilantes.
Gorgonan sabia que estava próxima a chegada do Visitante. Apareceria pelo atalho do oeste com a precisão de um relógio de sol, no justo momento em que a lua se desvanecesse no horizonte. Por isso não mostrava nenhuma impaciência. — O que tem que chegar, chegará, — disse para si mesmo, olhando as pontas reluzentes de suas botas como se falasse com elas. Ele nunca as tinha limpado com tanto esmero. Mas esta era uma ocasião única, embora o Visitante ignorasse ainda seu irremediável destino: só era um jovem príncipe um pouco atordoado, esguio e de olhos apagados, que, nessa mesma tarde decidiu aventurar-se a passear pelas margens do lago e que agora vagava perdido e assustado pelo bosque que o envolvia, fechado e denso como um enigma indecifrável. ...]
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
E.T. O Extraterrestre em sua Aventura na Terra
[...Michael pós os enchimentos nos ombros e pegou o capacete. Estava se sentindo violento hoje, querendo ação. Em poucas passadas estava outra vez no alto da escada. Mas deparou com Elliott ali, bloqueando-lhe a passagem.
— Michael...
— O que está querendo, cara? Michael adiantou-se.
— Tenho uma coisa muito importante para contar a você.
— E o que é?
— Lembra do duende?
— Duende? Ora, saia da minha frente ...
— Espere um instante, Michael. Estou falando sério. Ele voltou.
— Elliott... — Michael não tinha muito o que fazer com o irmão menor. Elliott era como um fuinha desagradável, cheio de movimentos furtivos...
— Saia da minha frente.
— Posso mostrar o duende a você. Mas não se esqueça de que ele me pertence.
Michael hesitou.
— Está bem ... mas que seja depressa.
— Jure primeiro. E tem de ser o juramento mais solene que você puder fazer.
— Está bem, está bem, juro tudo. Mas mostre logo o que tem. É um gambá ou algo assim? Está no seu quarto? Mamãe vai matá-lo.
Elliott levou Michael pelo corredor.
— Tire as ombreiras — disse ele, ao entrarem no quarto. — Pode assustá-lo.
— Não enche, Elliott. Elliott levou-o até o armário.
— Feche os olhos.
— Por quê?
— Feche os olhos sem fazer perguntas, Michael.
Dentro do armário, o veterano botânico intergalático estava revisando tudo o que sabia a respeito de aparelhos de comunicações, pois em breve teria de construir um. Ouviu os dois humanos entrarem no quarto, mas ignorou a aproximação, mais concentrado em vasculhar o cérebro à procura de indicações para a construção do transmissor. A porta do armário abriu-se de repente.
Elliott passou o braço por ele e acenou com a cabeça, num gesto tranqüilizador.
— Venha conhecer meu irmão.
Eles saíram, no momento em que Gertie, de volta do jardim de infância, entrava correndo no quarto. Vendo o monstro, ela gritou. E o monstro também gritou. Além de Michael, que acabara de abrir os
olhos. As vozes misturadas alcançaram o centro de comando da casa, onde Mary estava sentada, tentando recuperar as forças.
— Oh, Deus...
Ela se levantou da mesa da cozinha. Que ritual selvagem sua família estava agora realizando? Parecia que estavam arrancando a calcinha de Gertie. Dentro de 20 anos, Gertie estaria tentando recordar a cena, num diva de analista.
Mary subiu a escada, preparada para tomar anotações, que entregaria mais tarde a Gertie, quando ela começasse a fazer análise.
Ela avançou exausta pelo corredor, a caminho do quarto de Elliott. Um dia inteiro de trabalho no escritório, seguido por um trauma infantil em casa... apenas mais um dos pequenos desafios da vida.
Mary parou por um momento à porta de Elliott. Esperava que pelo menos o quarto estivesse arrumado.
Abriu a porta. Cada objeto que Elliott possuía fora jogado no chão. Mary olhou para o filho. No meio de tudo aquilo, como ele podia exibir uma expressão tão inocente?
— O que aconteceu aqui?
— Aqui onde?
— Onde? Olhe só para esta confusão! Como é possível?
— Está falando do meu quarto?
— Isto não é um quarto, mas um acidente. Contratou um furacão para vir aqui?
Dentro do armário, o veterano botânico intergalático estava encolhido entre Michael e Gertie. A garotinha parecia prestes a mordê-lo. A boca do menino estava entreaberta, numa expressão apatetada, os ombros enormes e disformes ocupavam um espaço considerável no armário apertado. O hóspede do espaço esperava que o arranjo atual não fosse permanente, já que o aposento era muito apertado.
Ele espiou por uma fresta na porta. A mãe das crianças estava apontando para as coisas que ele espalhara pelo quarto, à procura de componentes para o seu transmissor.
Tentou avaliar o grau de cordialidade da mulher da Terra. Ela não usava correntes de metal, não parecia armada, era tão atraente quanto a princesa marciana do poster. Só não tinha, é claro, a silhueta inferior em forma de pêra, a suprema beleza. E também não podia se gabar da elegância incomparável de dedos compridos nos pés...]
E.T. O Extraterrestre em sua Aventura na Terra - William Kotzwinkle (baseado no roteiro de Melissa Mathison) [ Download ]
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Tim Powers
Timothy Thomas Powers (29 de fevereiro de 1952) nasceu em Buffalo, Nova Iorque(EUA) e cresceu na Califórnia, para onde sua família se mudou em 1959.
Estudou Inglês e Literatura na California State Fullerton, onde conheceu James Blaylock e K.W. Jeter, que se tornariam amigos e colaboradores ocasionais. Outro escritor que ele conheceu durante este período foi Philip K. Dick. O personagem "David" no romance Valis de PKD, é baseado em Powers.
Seus livros são conhecidos por apresentar o que se convencionou chamar de "histórias secretas '- ele se utiliza de eventos históricos, mas mostra uma outra visão deles, em que a magia é uma força importante das motivações e ações dos personagens. Como em 'Three Days to never', que explora viagens no tempo, criaturas sobrehumanas, além de Charlie Chaplin e Albert Einstein.
Powers também escreve Ficção Científica, mas frequentemente é na Fantasia, na magia e no sobrenatural que seu trabalho ganha em ênfase.
Seu primeiro romance de maior destaque foi 'Drawing of the Dark'(1979), mas o aquele que o colocou no mapa foi o seguinte 'Anúbis Gates'(1983), que ganhou o prêmio Philip K. Dick Memorial. Anubis Gates foi desde então, traduzido e publicado em diversos idiomas.
Logo em seguida a este sucesso de crítica e vendas, Powers publicaria o apocalíptico 'Dinner at Deviant's Palace'(1985) que também ganharia um PKD Memorial award.
Já com um público consolidado de fãs, Powers lançaria 'No Stranger Tides'(1987) que mistura piratas e vodu e a seguir 'The Stress of her regard'(1989) explorando o sobrenatural de poetas como Byron, Shelley e Keats. Sua fantasia contemporânea também foi premiada com um World Fantasy Award e um Locus, através de 'Last Call'(1992), que formaria uma trilogia com 'Expiration date'(1995) e 'Earthquake Weather'(1997), ambos também vencedores do prêmio Locus.
Em 2001, 'Declare', uma história sobre espiões sobrenaturais, ganharia os prêmios World Fantasy e International Horror Guild award.
Powers também lecionou em meio período, na Orange County High School of the Arts, onde seu amigo, Blaylock é diretor do Departamento de Escrita Criativa.
Mais recentemente Powers voltou às manchetes quando o ator Johnny Depp subiu no palco do Anaheim Convention Center, em sua fantasia de Jack Sparrow, e surpreendeu seus fãs anunciando que o quarto filme da série se chamaria 'Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides' (Piratas do Caribe: Navegando em águas misteriosas).
Sobre o anúncio, Powers declarou que estava ainda curioso para ver como Hollywood adaptará sua fantasia histórica à franquia milionária.
'No Stranger Tides' é sobre Jack Shandy Chandagnac, filho de um titereiro britânico que assumiu a tradição da família, depois que seu pai morreu indigente. Ele embarca para a Jamaica para encontrar o tio que roubou a herança de seu pai, mas no caminho é capturado por piratas que praticam feitiçaria voodu - eles lhe dão a opção de unir-se às suas fileiras ou a execução. Logo, relutantemente, ele se junta com Barba Negra na busca da fonte da juventude.
Powers também acrescentou: "Algumas pessoas me perguntam se estou preocupado com que eles possam estragar o meu livro. Eu sempre penso em algo que James Cain disse, quando as pessoas perguntaram o que pensava sobre o que Hollywood tinha feito de seus livros. Ele apontava para a estante e dizia: "Eles não fizeram nada para eles, vejam'.
Powers vive atualmente em Muscoy, California, com sua esposa Serena (sua agente) e um coelho chamado Mac Sidhe.
Tim Powers ( Cena En El Palacio De La Discordia, La Fuerza De Su Mirada, Dinner at Deviant's Palace, The Anubis Gates, En Costas Extranas, Esencia Oscura, La Ultima Partida, Las Puertas de Anubis, Drawing of the Dark, Last Call, On Stranger Tides, Stress of Her Regard, Three Days to Never, The Bible Repairmen, The Skies Discrowned ) [ Download ]
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Solaris - Stanislaw Lem (parte 24)
VITÓRIA
Mais três semanas.
Os escudos subiam e desciam sempre nas mesmas horas. Eu continuava prisioneiro dos meus pesadelos, e todas as manhãs o fingimento recomeçava. Mantinha uma compostura fingida e Rheya fazia o mesmo teatro. O engano era mútuo e deliberado e o nosso acordo contribuía para a nossa última evasão. Falávamos do futuro, da nossa vida na Terra nos arredores de qualquer grande cidade. Passaríamos o resto da vida entre árvores verdes e um céu azul e não voltaríamos a sair da Terra. Juntos fizemos o projeto da casa e do jardim, e discutíamos por causa de pormenores, tais como a localização de uma sebe ou de um banco.
Não creio que, nem por um instante, estivesse sendo sincero.
Nossos planos eram impossíveis, e eu sabia, pois mesmo que Rheya pudesse abandonar a Estação e sobreviver à viagem, como poderia eu passar pelos inspetores da imigração com a minha passageira clandestina? A Terra só admite seres humanos, e mesmo desses só os que são portadores dos devidos papéis. Rheya seria detida para uma verificação de identidade logo na primeira barreira, seríamos separados e ela logo se trairia.
A Estação era o único lugar onde podíamos viver juntos. Rheya devia saber disso.
Uma noite ouvi Rheya sair silenciosamente da cama. Queria fazê-la parar; na escuridão e no silêncio, conseguíamos por vezes afastar o desespero por um momento, ajudando-nos mutuamente a esquecer. Rheya não notou que acordei. Quando estendi a mão ela estava fora da cama e seguia descalça em direção à porta. Sem ousar elevar a voz, sussurrei o seu nome, mas ela já estava do lado de fora, e pela porta aberta vinha uma estreita faixa de luz do corredor.
Houve um som de sussurros. Rheya falava com alguém... mas, quem? Quando tentei levantar-me, o pânico apoderou-se de mim e não consegui mover as pernas. Pus-me à escutar, mas nada ouvi. O sangue latejava-me nas têmporas. Comecei a contar, e estava a chegar aos mil quando houve um movimento junto à porta e Rheya regressou. Ficou um segundo parada sem se mexer e obriguei-me a respirar de modo regular.
— Kris? — sussurrou.
Não respondi.
Entrou rapidamente na cama e deitou-se, tendo o cuidado de não me incomodar. Zumbiam-me perguntas na cabeça, mas não queria ser o primeiro a fazer qualquer movimento e não o fiz. O interrogatório silencioso continuou por uma hora, talvez mais. Depois adormeci.
A manhã foi como outra qualquer. Observei furtivamente Rheya, mas não vi qualquer alteração no seu comportamento. Depois do café nos sentamos junto à grande janela panorâmica.
A Estação pairava entre nuvens cor de púrpura.
Rheya lia e enquanto olhava para fora notei subitamente que, pondo a cabeça num certo ângulo, podia ver-nos a ambos refletidos na janela. Retirei a mão da grade. Rheya não fazia ideia de que a estava observando. Olhou para mim, obviamente convencida, pela minha posição, de que eu estava olhando para o Oceano, depois inclinou-se e beijou o lugar onde a minha mão pousara. No minuto seguinte estava novamente lendo.
— Rheya — perguntei docemente —, onde foi ontem à noite?
— Ontem à noite?
— Sim.
— Deve... deve ter sonhado, Kris. Não fui a lugar nenhum.
— Não saiu da cabine?
— Não. Deve ter sido um sonho.
— Talvez... sim, talvez tenha sonhado.
Nessa mesma noite comecei a falar novamente do nosso regresso à Terra, mas Rheya me fez parar:
— Não volte a falar da viagem, Kris. Não quero mais ouvir falar disso, sabe muito bem...
— O quê?
— Não, nada.
Depois de irmos para a cama, disse-me que tinha sede:
— Tem um copo de suco de fruta naquela mesa. Pode me dar? — Bebeu metade e estendeu-me o copo.
— Não tenho sede.
— Então bebe à minha saúde — sorriu.
Tinha um gosto um pouco amargo, mas eu tinha a cabeça noutras coisas. Rheya apagou a luz.
— Rheya... Se não quer falar da viagem, falemos de outra coisa qualquer.
— Se eu não existisse, você se casaria?
— Não.
— Nunca?
— Nunca.
— Por que não?
— Não sei. Estive dez anos sozinho e não me casei. Não falemos disso... — Estava um pouco tonto, como se tivesse bebido demais.
— Não; vamos falar nisso. E se eu te pedisse?
— Que voltasse a me casar? Não seja boba, Rheya. Não preciso de ninguém a não ser você.
Sentia a sua respiração na cara e os seus braços em volta de mim:
— Diz isso de outra maneira.
— Te amo.
A cabeça dela caiu-me sobre um ombro e senti-lhe as lágrimas.
— Rheya, que foi?
— Nada... nada... nada... — Ecoou a sua voz no silêncio, e os meus olhos fecharam-se.
Acordei com a madrugada vermelha e sentia a cabeça a ponto de estourar e o pescoço tão rígido que parecia ter os ossos soldados uns aos outros. Tinha a língua inchada e um gosto horrível na boca. Estendi então a mão para Rheya, mas senti apenas o lençol frio.
Sentei-me de supetão.
Estava só — só na cama e só na cabina. A janela côncava refletia uma fileira de sóis vermelhos. Arrastei-me para fora da cama e cambaleei até ao quarto de banho, balançando como um bêbedo e batendo contra a mobília. Estava vazio.
— Rheya!
Sempre a chamar, corri de uma ponta à outra do corredor.
— Rheya! — gritei uma última vez e depois a minha voz calou-se. Já sabia a verdade...
Não recordo a exata seqüência dos acontecimentos depois disso, enquanto, meio nu, percorri toda a Estação, tanto no sentido do comprimento como no da largura. Parece-me que cheguei até a ir à seção de refrigeração, busquei nos depósitos com os punhos fechados em portas trancadas, depois voltava atrás, para de novo me atirar contra as portas que tinham resistido. Quase cai escada abaixo, voltava a levantar-me e seguia sempre para a frente. Quando cheguei às portas duplas e blindadas que davam para o Oceano, continuava ainda a chamar, tinha ainda a esperança de que fosse tudo um sonho. Alguém apareceu junto de mim. Umas mãos agarraram-me e puxaram-me para longe.
Recobrei os sentidos deitado numa mesa de metal na pequena oficina e a ofegar.
A garganta e as narinas ardiam-me devido a um vapor alcoólico qualquer, tinha a camisa ensopada em água e o cabelo colado de encontro ao crânio.
Snow estava atarefado junto a um armário de remédios, remexendo em instrumentos e vasos de vidro, que tilintavam com insuportável clamor. Depois a sua face apareceu, fitando-me gravemente nos olhos.
— Onde está ela?
— Não está aqui.
— Mas... Rheya...
Inclinou-se para mim, aproximou bem a face e falou lenta e claramente:
— Rheya morreu.
— Ela voltará — sussurrei.
Em lugar de temer o seu regresso, desejava-o. Não tentei recordar por que tinha eu próprio tentado uma vez afastá-la, nem por que tanto receio tivera do seu regresso.
— Beba isto.
Snow estendeu-me um copo e atirei-lhe à cara. Recuou cambaleante a esfregar os olhos, e quando voltou a abri-los eu estava de pé, dominando-o sobre ele. Como era pequeno...
— Foi você!
— Que quer dizer com isso?
— Ora, Snow, você sabe muito bem do que estou falando. Foi você quem se encontrou com ela na outra noite. Disse-lhe para me dar um comprimido para dormir... Que aconteceu a Rheya? Diga-me!
Procurou no bolso da camisa e tirou um envelope. Arranquei-o de sua mão. Estava lacrado e não tinha qualquer nome. Dentro tinha uma folha de papel dobrada duas vezes e reconheci a letra, grande e bastante infantil:
“Meu querido, fui eu quem lhe pediu. Ele é um bom homem. Peço perdão por ter sido obrigada a mentir para você. Te peço que me faça uma última vontade — ouve o que ele tem para te dizer e não atente contra si. Você foi maravilhoso.”
Havia mais uma palavra, que ela riscara, mas podia-se ainda ver que tinha assinado “Rheya”.
A minha mente estava agora inteiramente lúcida. Mesmo que tivesse querido gritar histericamente, a voz tinha sumido e nem forças tinha para gemer.
— Como?
— Mais tarde, Kelvin. Precisa acalmar-se.
— Já estou calmo. Conte-me como foi.
— Desintegração.
— Mas... que usaram...
— O aparelho Roche não servia. Sartorius construiu uma outra coisa, um novo desestabilizante. Um instrumento miniatura, com um alcance de poucos metros.
— E ela...
— Desapareceu. Um estalido e um sopro de ar. E é tudo.
— Um instrumento de pequeno alcance...
— Sim, não tínhamos recursos para construir uma coisa maior.
As paredes pareciam cerrar-se sobre mim e tive de fechar os olhos.
— Ela vai voltar.
— Não.
— O que você sabe sobre isso?
— Lembra-se das asas de espuma? Desde esse dia que já não voltam.
— Você a matou — murmurei.
— Sim... Se estivesse no meu lugar, que outra coisa teria feito?
Afastei-me dele e comecei a percorrer a sala de um lado para o outro. Nove passos até ao canto. Meia volta. Mais nove rígidos passos e de novo estava em frente a Snow.
— Ouça, vamos escrever um relatório. Vamos pedir ligação imediata com o Conselho. É possível e eles aceitam, não têm outro remédio. O planeta não ficará mais sujeito à convenção dos quatro poderes. Seremos autorizados a utilizar todos os meios ao nosso dispor. Podemos mandar vir geradores antimatéria. Nada poderá se opor, nada...
Falava aos gritos, e as lágrimas cegavam-me os olhos.
— Quer destruí-lo? Por quê?
— Vá embora, deixe-me em paz!
— Não, não vou embora.
— Snow? — Fulminei-o com o olhar, mas limitou-se a abanar a cabeça. — Que quer? Que pretende que eu faça?
Voltou até junto da mesa.
— Ótimo, vamos fazer um relatório.
Recomecei a andar de um lado para o outro.
— Sente-se.
— Faço o que me der vontade!
— Há dois pontos absolutamente distintos. Um, os fatos. Dois, as nossas sugestões.
— Precisamos falar disso agora?
— Sim, agora.
— Não vou lhe ouvir, entende? Não estou interessado nas suas distinções.
— Enviamos a nossa mensagem há cerca de dois meses, antes da morte de Gibarian. Teremos de estabelecer com exatidão como funciona o fenômeno dos “visitantes”...
Agarrei-lhe no braço.
— Quer calar essa boca?!
— Me dê uma surra se quiser, mas calar eu não calo.
— Oh, então fale, se isso lhe dá prazer... — e soltei-o.
— Bem, então ouça. Sartorius vai querer esconder certos fatos. Estou quase certo disso.
— E você? Não vai esconder nada?
— Não. Agora não. Este assunto ultrapassa as nossas responsabilidades individuais. Sabe-o tão bem como eu. “Ele” deu uma demonstração de atividade racional. É capaz de realizar uma síntese orgânica ao nível mais complexo, uma síntese que nós próprios nunca conseguimos realizar. Ele conhece a estrutura, microestrutura e metabolismo dos nossos corpos...
— Certo... Mas, por que parar aí? O Oceano realizou conosco uma série de... experiências. Uma vivisseção psíquica. Utilizou conhecimentos que roubou dos nossos espíritos sem o nosso consentimento.
— Isso não são fatos, Kelvin. Não são nem mesmo proposições. São teorias. Poderia igualmente dizer que ele tomou em consideração os desejos escondidos em recantos das nossas mentes. Talvez nos estivesse a enviar... dádivas.
— Dádivas! Meu Deus! — Estremeci com incontrolável ataque de hilaridade.
— Calma! — Snow agarrou-me na mão e apertei a sua até ouvir ossos a estalar. Continuou a olhar para mim sem qualquer alteração na expressão.
Soltei-o e fui até ao canto da sala.
— Vou tentar me controlar.
— Sim, claro. Compreendo. Que lhes pedimos?
— Deixo isso com você... Neste momento estou incapaz de raciocinar direito. Ela disse alguma coisa... antes?
— Não, nada. Se quer saber a minha opinião, de hoje em diante já temos uma possibilidade.
— Uma possibilidade? Que possibilidade? — Olhei para ele e, de súbito, fez-se luz. — Contato? Continua com essa história do contato? Não está farto desta casa de doidos? Que mais precisa? Não, é absolutamente impossível. Não conte comigo!
— Por que não? — perguntou calmamente. — Você próprio o trata como um ser humano, agora mais do que nunca. Odeia-o.
— E você não?
— Não, Kelvin. Ele é cego. — Pensei que talvez não tivesse ouvido corretamente. — ...ou antes, ele “vê” de modo diferente de nós. Para ele não existimos no mesmo sentido em que existimos para cada um de nós. Reconhecemo-nos uns aos outros pelo aspecto da face e pelo corpo. Essa aparência, para o Oceano, é como uma janela transparente. Ele introduz-se diretamente no cérebro.
— Certo, e depois? Aonde quer chegar? Ele conseguiu recriar um ser humano que existe apenas na minha memória, e com tanta exatidão que os seus olhos, gestos, voz...
— Não pare. Fale.
— Estou a falar... A sua voz... por que pode nos ler como num livro aberto. Vê o que quero dizer?
— Sim, ele poderia fazer-se compreender.
— Não é o corolário evidente?
— Não, não necessariamente. Talvez tenha usado uma fórmula que não possa ser expressa em termos verbais. Pode ter partido de uma gravação impressa nas nossas mentes, mas a memória do homem é arquivada em termos de ácidos nucléicos que gravam cristais assíncronos de moléculas grandes. “Ele” retirou a impressão mais profunda e mais isolada, a estrutura mais “assimilada”, sem necessariamente saber o que significava para nós. Suponha que eu sou capaz de reproduzir a arquitetura de uma simetríade, que conheço a sua composição e que disponho.da tecnologia exigida... Crio uma simetríade e atiro-a para dentro do Oceano. Mas não sei por que procedo assim, não sei a sua função e não sei o que a simetríade representa para o Oceano.
— Sim. Talvez tenha razão. Nesse caso, não nos desejava qualquer mal e não estava a tentar nos destruir. Sim, é possível... e sem qualquer intenção...
A boca começou a tremer-me.
— Kelvin!
— Está bem, não se preocupe. Você é bom, o Oceano é bom. Todos são bons. Mas, por quê? Explique-me. Por que fez ele isso? O que você lhe disse... a ela?
— A verdade.
— Perguntei-lhe o que você disse.
— Você sabe muito bem. Venha comigo até à cabine e vamos escrever o relatório.A
— Espere. Não pode estar pensando em continuar na Estação.
— Sim, quero ficar.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Ficção científica e ensino de ciências
Tem sido comum a proposta de empregar filmes de ficção científica — FC — para introduzir conceitos de ciência em sala de aula (Southworth, 1987; Martin-Diaz et al., 1992; Dubeck et al., 1990; 1993; 1998; Freudenrich, 2000; Dark, 2005).
No entanto, muitas vezes, o potencial didático de uma obra é associado à precisão científica das situações retratadas. Assim, filmes que exibem cenas fantasiosas ou mesmo flagrantemente contrárias ao conhecimento científico seriam didaticamente menos relevantes do que as que trazem situações realistas.
Nas pesquisas em ensino de ciências, no entanto, a noção de “erro” conceitual tem sido examinada com critérios menos valorativos, seja por aquelas baseadas no desenvolvimento cognitivo, derivadas dos trabalhos pioneiros de Viennot (1979) e de Saltiel e Viennot (1985), seja pelas ligadas à história e à natureza do conhecimento científico, que mostram como o desenvolvimento do conhecimento no plano individual está sujeito a indefinições e obstáculos similares aos da construção do conhecimento social da ciência, aspecto já destacado nos anos 1980 por Gilbert e Zylbersztajn (1985).
Além disso, também não é possível ignorar que a obra ficcional segue suas próprias leis: aquilo que um cientista consideraria um erro pode constituir uma estratégia narrativa fundamental para que a história atinja o efeito pretendido pelo autor.
Nessas duas vertentes do erro — etapa do conhecimento e estratégia narrativa — há um aspecto em comum: a apreensão do real a partir de conceitos para representar o mundo por meio da linguagem. As pesquisas em ensino mencionadas baseiam-se, sobretudo, em dados da expressão verbal dos estudantes sobre fenômenos e situações. São narrativas sobre o mundo, calcadas em experiências que embora possuam referências na vivência direta com o mundo, são predominantemente representações culturais coletivas da ciência. A FC, por outro lado, destrincha essas experiências culturais a partir de ideias científicas e colocam-nas sob a perspectiva das questões humanas a elas subjacentes.humanas a elas subjacentes.
Interessa verificar se tais aspectos do erro (etapa de aprendizagem e procedimento narrativo) são epistemologicamente conciliáveis, de forma a ser possível estabelecer entre eles uma relação de necessidade. Se não, a ficção será quando muito um simples recurso para estimular o estudante e facilitar o ensino.
Entretanto, se há uma relação intrínseca entre a questão conceitual da ciência e a lógica ficcional, talvez seja possível encontrar nas obras de ficção algo mais profundo do que uma simples estratégia agradável de ensino.
(...)
Ficção científica e ensino de ciências: para além do método de ‘encontrar erros em filmes’ [ Download ]
Luís Paulo Piassi e Maurício Pietrocola
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
A Viagem do Peregrino da Alvorada - As Crônicas de Nárnia - C. S. Lewis
[...Era uma vez um garoto chamado Eustáquio Clarêncio Mísero, e na verdade bem merecia esse nome.
Os pais diziam Eustáquio Clarêncio, e os professores, apenas Mísero. Não posso dizer como era chamado pelos amigos, pois não tinha amigos. Não tratava o pai e a mãe por papai e mamãe, mas por Arnaldo e Alberta. Os pais eram gente moderna, de idéias abertas. Vegetarianos, não fumavam nem bebiam, e usavam roupa de baixo de fabricação especial. Havia muito pouca mobília em sua casa, pouquíssima roupa de cama e mantinham sempre as janelas escancaradas.
Eustáquio gostava de animais,especialmente de besouros quando estavam mortos e espetados num cartão. Também gostava de livros instrutivos, com gravuras em que se podiam ver armazéns para guardar cereais ou robustas crianças estrangeiras fazendo ginástica em escolas-modelo.
Eustáquio não gostava nada mesmo era dos primos, os quatro Pevensie: Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia. Mas ficou contentíssimo quando soube que Edmundo e Lúcia vinham passar uns tempos com ele, pois lá no fundo adorava bancar o mandão e chatear os outros. Apesar de ser um molengão, que na hora da briga não conseguia nem enfrentar Lúcia, e muito menos Edmundo, sabia que há muitas maneiras de aborrecer os outros, quando a casa é da gente e eles são nossos hóspedes...]
A Viagem do Peregrino da Alvorada - As Crônicas de Nárnia - C. S. Lewis [ Download ]
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
1º Convescot Steampunk de 2011 e Steamcast 001
A Loja São Paulo do Conselho steampunk convida toda a sociedade neo-vitoriana para um passeio ao ar livre e um saboroso piquenique. Este encontro social ocorrera no dia 13 de fevereiro de 2011 a partir das 13:30 no Parque do Ipiranga, São Paulo. Após o piquenique os participantes estão convidados a conosco visitar o Museu Paulista.
Lady Bigby
Entrevista com Fábio Ori
Steamcast 001 do Conselho Steampunk
SteamPunk ~ SteamCast ~ Interview with Kevin Mowrer (Português/English) from Conselho SteamPunk on Vimeo.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Lançamento - Space Opera
SPACE OPERA é um subgênero da Ficção Científica que destaca aventuras espaciais e planetárias, utilizando-se muitas vezes de cenários exóticos e personagens heróicos, em histórias regadas com muito drama, ação e conflitos pessoais.
Sucesso na literatura, na TV e no cinema, quem nunca imaginou viajar em uma nave estelar e explorar novos mundos? Ou lutar contra um temido Império Galáctico? Ou destruir implacáveis robôs que tentam exterminar a humanidade? Ou ainda travar uma luta mortal contra um arqui-inimigo usando armas do futuro?
Com a presença de Gerson Lodi-Ribeiro, Clinton Davisson, Maria Helena Bandeira, Jorge Luiz Calife, Letícia Velásquez, Marcelo Jacinto Ribeiro, Flávio Medeiros Jr., Larissa Caruso e Hugo Vera, a antologia “Space Opera – Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final” trará nove histórias onde os autores instigam os leitores a sentimentos de curiosidade a cada nova tecnologia apresentada, ansiedade a cada aventura vivida e tensão a cada momento de perigo e reviravolta, além de, é claro, a diversão que a Space Opera oferece.
Do Space Opera
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Jack London
John Griffith Chaney (12 de Janeiro de 1876 - 22 de Novembro de 1916) nasceu em um bairro operário de São Francisco (EUA).
Escritor, jornalista e ativista social, Jack London foi um dos primeiros romancistas a obter celebridade mundial, além de uma grande fortuna.
Dotado de um estilo próprio, vigoroso, sintético (dizer muito com poucos vocábulos), amante da aventura e dono de uma grande sensibilidade artística, London em apenas 14 anos, escreveu 43 livros, além de centenas de contos, artigos e reportagens.
Filho de um escritor e marinheiro que ganhava a vida como astrólogo, e de uma professora de música e médium (que alegava receber o espírito de um chefe indígena), Chaney ao nascer foi logo entregue aos cuidados da ex-escrava Virginia Prentiss (sua mãe acabara de tentar um mal sucedido suicídio), e que seria uma figura materna fundamental por toda a vida. Antes de completar um ano de vida, sua mãe se casaria com John London, um viúvo, veterano da Guerra da Secessão e chefe de ferrovia.
London era essencialmente um autodidata. Lia sem parar tudo que aparecia, e segundo ele, este seria o segredo de seu sucesso literário. Apesar de terminar os estudos obrigatórios na escola (com destaque como orador), o jovem London não pode comparecer a formatura, por não possuir roupas adequadas.
A verdadeira paixão de sua vida eram os livros. Leu 'Uma vida' de Garfield, e 'Viagens Africanas', de Paul de Chaillu, e 'Signa', de Ouida, história que Jack havia de reproduzir, em linhas gerais, em sua própria vida, pois descreve como um menino italiano sem educação formal, alcançou a fama como um compositor de ópera.
Aos 11 anos já trabalhava como jornaleiro, aos 14 passava o dia na fábrica de enlatados Hickmott's (seu padrasto, ferido em um acidente de trem, estava preso a uma cama, inválido, sem poder prover financeiramente a família).
Com dinheiro emprestado de sua mãe adotiva negra, comprou uma chalupa (pequeno barco a vela) de um pirata de ostras chamado French Frank, e se se tornou ele próprio um pirata de ostras, pilhando os bancos de ostras particulares e vendendo as ostras nas docas. Após alguns meses, o barco ficou avariado, mas graças as suas novas amizades, London foi contratado como membro da Patrulha Pesqueira da Califórnia.
Depois de ter lido Moby Dick, de Herman Melville, se alistou para embarcar numa expedição em um veleiro americano de pesca de focas, percorrendo Coreia, Japão e Sibéria,. Ao retornar aos EUA, porém, deparou-se com a crise trabalhista e foi demitido.
Em Okland, sua mãe mostrou-lhe um anúncio do jornal San Francisco Call, sobre um concurso literário que oferecia um prêmio em dinheiro ao primeiro colocado. Jack sentou-se à mesa da cozinha e começou a escrever 'Typhoon off the Coast of Japan' (‘Tufão nas costas do Japão’), que contava sua experiência da viagem recente. Ganhou o prêmio: vinte e cinco dólares! Entusiasmado, continuou a escrever e a enviar originais para revistas, que entretanto, lhe foram devolvidos sem publicar. Assim sendo, voltou a trabalhar temporariamente como foguista na usina elétrica de Oakland.
Era o início dos movimentos trabalhistas na costa oeste, e London, de novo desempregado aos 19 anos, se uniu à marcha de protesto de trabalhadores, ao mesmo tempo em que começou uma vida como andarilho, passando a fazer viagens de trem como clandestino, o que o levaria a cumprir um mês de prisão em Niágara Falls, por vadiagem.
O episódio do encarceramento, a experiência de perder sua preciosa liberdade, criou nele a determinação de abandonar a pobreza.
Matriculou no Ginásio Oakland, tomou gosto por escrever artigos diversos para o jornal acadêmico, o Aegis. Embora quisesse cursar a Universidade da Califórnia, circunstâncias financeiras forçaram-no a abandonar os estudos e ele nunca se formou. Neste período, em Berkeley, London procurou e encontrou um jornal com a notícia sobre a tentativa de suicídio de sua mãe e descobriu posteriormente, através de uma troca de cartas, que seu pai biológico não era quem ele pensava ser.
Abalado com a descoberta, aos 21 anos, ele e seu amigo James Shepard, embarcaram na Corrida do Ouro do Klondike, que se tornaria o cenário de suas primeiras histórias de sucesso. Esta passagem nas lavras de ouro, não lhe rendeu o dinheiro esperado, mas escorbuto, além de é claro, mais material para contos como ‘To Build a Fire’ (A fogueira), que muitos críticos consideram o seu melhor.
De volta a Califórnia em 1898, London começou a escrever deliberadamente para ser publicado. Segundo ele, sua única esperança de escapar da pobreza, era se educar e 'vender seu cérebro'.
Sua primeira história publicada foi ‘To the Man On Trail’, frequentemente incluída em antologias. Mas nem tudo era perfeito para o jovem escritor. Quando o jornal The Overland Monthly ofereceu somente cinco dólares por sua história, e demorou a pagar-lhe, London quase desistiu de seguir a carreira. Em suas palavras: 'Fui salvo literalmente e literariamente, quando a revista The Black Cat aceitou 'A Thousand Deaths', pagando 40 dólares'.
London teve a sorte de escolher o momento de iniciar sua carreira de escritor. Na época, novas tecnologias possibilitaram o surgimento de revistas de baixo custo. Isso resultou em uma explosão de revistas populares voltadas para o grande público, e um mercado enorme para contos. Em um ano ganhou aproximadamente 2.500 dólares somente escrevendo, uma fortuna para a época, considerando que um bom salário na época, não excedia 60 dólares ao mês.
Em janeiro de 1903, Jack London entregou o manuscrito concluído da primeira de uma série de histórias sobre o Alaska, 'The Call of the Wild' (Chamado selvagem) ao The Saturday Evening Post. A história tinha como personagem um cão mestiço de São Bernardo com Pastor escocês, chamado Buck, inspirado em um cão seu.
Agora com uma carreira lucrativa, London casou-se com Elizabeth Maddern no mesmo dia em que 'The Son of the Wolf' (‘O filho do lobo’) foi publicado. Sua primeira filha, Joan, nasceu um ano depois (e Becky no ano seguinte). O temperamento de London porém, levaria-o ao divórcio e, sem perder tempo, ao segundo casamento.
Em 1905, London comprou por 26 mil dólares, um rancho de 1.000 acres chamado Glen Ellen, no condado de Sonoma, Califórnia. Escreveu: ‘Juntamente com minha esposa, o rancho é a coisa que mais prezo neste mundo.’
Ele tentou desesperadamente fazer do rancho um empreendimento comercial bem-sucedido. Escrever se tornara mais ainda, um meio para um fim: ‘Escrevo com nenhum outro propósito senão fazer crescer a beleza que agora pertence a mim. Escrevo um livro por nenhum outro motivo que não seja acrescentar três ou quatro centenas de acres à minha magnífica propriedade.’
Após 1910, seus trabalhos literários eram, na maioria, escritos para atender à necessidade de receita para o rancho, que acabou sendo um enorme fracasso econômico e que o obrigou a regressar a produção em série de livros e contos de aventuras e viagens, como 'Lost Face', 'Burning Daylight', 'Smoke Bellew', 'The Cruise of the Snark', 'When God Laughs', 'Adventure', 'South Sea Tales', 'A Son of the Sun' e 'The House of Pride'.
A vida de Jack London sempre fora uma montanha russa de altos (muito altos) e baixos (muito baixos), e a desgraça seguinte seria perder sua bela mansão, por conta de um incêndio possivelmente criminoso.
Como se não bastasse, London enfrentava com freqüência, processos de plágio, não somente por ser um escritor conhecido e rico, mas também por causa de seus métodos de trabalho. Em uma carta, declarou: ‘expressar para mim é mais fácil que inventar’. London comprava enredos e romances de jovens autores e utilizava também de incidentes recortados de jornais, como material para seus textos, sem dar devido crédito às fontes.
Alguns de seus melhores contos foram deste período difícil, como um romance de ficção científica chamado 'The Scarlet Plague' (1915). Contudo, a sua obra mais extraordinária em termos de imaginação neste período foi o romance sobre viagens no tempo, 'The Star Rover' (traduzido no Brasil como ‘O andarilho das estrelas’).
Dívidas, uma falha renal que lhe provocava dores intensas, alcoolismo e o medo de perder a sua criatividade o assombravam nos últimos dias de vida. London morreu na varanda de seu rancho em Glenn Ellen, sendo possível que uma overdose deliberada de morfina tenha sido a causa, tal qual seu conto ‘The Little Lady of the Big House’, onde a heroína, sofrendo a dor de um tiro mortal, comete suicídio com morfina.
Sobre ele, escreveu L.E.Doctorow para o New York Times:
‘Jack London nunca foi um pensador original. Ele devorara o mundo, física e intelectualmente... era o tipo de escritor que encontra uma idéia e a dilata a partir de sua psique. Era um operário genial da literatura, que sabia instintivamente que ela era uma generosa anfitriã, sempre com espaço para mais um à sua mesa’.
Fórum brasileiro sobre Jack London
Jack London ( The Human Drift, Goliath, A Relic of the Pliocene, O Apelo da Selva, Adventure, Before Adam, Burning Daylight, Heathen, The Sea Wolf, A Daughter of the snows, A Lei da Vida, Call of the Wind, Crucero del Snark, Cuentos de Ciencia Ficcion, Cuentos, El Hijo del Lobo, El Hombre de la Cicatriz, El Vagabundo de Las Estrellas, Martin Eden, Narrativas Breves, Natal na Terra das Neves, O Andarilho das Estrelas, O Lobo do Mar, Patrulha Pesquera, Relatos de los Mares del Sur, The Red One, The Multiny of Elsinore, The People of the Abyss, The Valley of the Moon, Jacket Star Rover, Jerry of the Islands, A bordo del Francis Spight, Amor a la Vida, Antes de Adan, El Diente de Ballena, El Valle de La Luna, Gente del Abismo, Muertes Concentricas, El Pagano, Para acender un fuego, La Peste Escarlata, Un trozo de carne, The Iron Heel, Scab, Short Stories, Tales of the Klondike, The Call of the Wild, The Faith of the Man, The Jacket, The Night-Born, The Son of the Wolf, The Strenght of the Strong, The War of the Classes, White Fang, Caninos Brancos, Preparando uma fogueira ) [ Download ]
Joyas Literarias Juveniles - Jack London
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Solaris - Stanislaw Lem (parte 23)
OS SONHOS
Quando passaram seis dias sem qualquer reação da parte do Oceano, decidimos repetir a experiência. Até essa data, a Estação estivera localizada na intersecção do paralelo 43 com o meridiano 116. Nos mudamos para o sul, mantendo uma altitude constante de 1200 pés acima do Oceano — o nosso radar confirmou as observações automáticas enviadas pelo satélite artificial, que indicavam uma concentração da atividade do plasma no hemisfério sul.
Quarenta horas mais tarde, um feixe de raios X modulados com os meus padrões cerebrais bombardeava, a intervalos regulares, a superfície quase imóvel do Oceano.
No final desta jornada de dois dias, tínhamos chegado próximos da zona polar.
O disco do sol punha-se num dos lados do horizonte, enquanto que amontoados de nuvens purpúreas anunciavam a madrugada do sol vermelho.
No céu, chamas ofuscantes e chuva de centelhas verdes chocavam-se com o sombrio fulgor púrpura. Até o Oceano participava nesta batalha entre as duas estrelas, reluzindo aqui com lampejos mercuriais, ali com reflexos carmesins.
A menor nuvem que se lhe passasse por cima enchia de iridescência a luzente espuma na crista das ondas.
Mal o sol azul se tinha posto e logo, no ponto de encontro entre o sol e o céu, indistinta e mergulhada numa neblina encarnada cor de sangue (imediatamente sinalizada pelos detectores), uma simetríade brotou qual gigantesca flor de cristal. A Estação manteve o rumo e passados quinze minutos, o colossal rubi, que pulsava em moribundos lampejos, mais uma vez ficou escondido abaixo do horizonte. Alguns minutos mais tarde, uma delgada coluna jorrou a milhares de metros de altura na atmosfera, ficando a sua base oculta à vista pela curvatura do planeta. Esta árvore fantástica, que continuava a crescer e a cuspir sangue e mercúrio, marcava o fim da simetríade: os emaranhados ramos no topo da coluna derreteram, formando um gigantesco cogumelo, iluminado simultaneamente por ambos os sóis e arrastado pelo vento, enquanto que a parte de baixo inchava, se fendia em pesados torrões e emergia lentamente. Os estertores da morte duraram bem mais de uma hora.
Mais dois dias passaram.
Os nossos raios X tinham irradiado uma vasta extensão do Oceano e fizemos uma última repetição da experiência. Do nosso posto de observação avistamos uma cadeia de ilhotas a duzentas e cinqüenta milhas para sul — seis promontórios rochosos, recobertos por uma substância semelhante a neve, que era afinal um depósito de origem orgânica, o que provava que a formação montanhosa fizera outrora parte do leito do Oceano.
Seguimos então para sudoeste e rodeamos uma cadeia de montanhas coroadas por nuvens que se amontoavam durante o dia vermelho e depois desapareciam.
Tinham decorrido dez dias depois da primeira experiência.
À primeira vista, nada de especial estava a acontecer na Estação. Sartorius programara a experiência de modo a haver repetições automáticas a determinados intervalos. Eu nem sabia se alguém verificava o aparelho para ver se funcionava corretamente. Na realidade, porém, a calma não era tão completa como parecia, mas isso não se devia a qualquer atividade humana.
Eu temia que Sartorius não tencionasse realmente abandonar a construção do aniquilador. E como iria Snow reagir quando descobrisse que lhe tinha escondido informações e exagerado os perigos Que poderíamos correr numa tentativa para aniquilar as estruturas de neutrinos? Contudo, nenhum dos dois voltou a falar no projeto, e me perguntava repetidamente por que se mantinham tão calados. Suspeitava vagamente que me escondiam qualquer coisa — talvez andassem a trabalhar em segredo — e todos os dias inspecionava a sala onde estava o aniquilador, uma cela sem janelas situada diretamente abaixo do laboratório principal.
Nunca encontrei ninguém na sala, e a camada de pó que havia sobre a armação e os cabos do aparelho era a prova que há semanas ninguém lhe tocava.
Na verdade, não encontrava ninguém em parte nenhuma e já não conseguia entrar em contato com Snow: ninguém respondia quando tentava telefonar para a cabine de rádio. Alguém tinha de estar controlando os movimentos da Estação, mas quem? Não tinha qualquer ideia a esse respeito e, por estranho que pareça, considerava a pergunta fora da minha alçada. A ausência de resposta da parte do Oceano deixava-me igualmente indiferente, a tal ponto que, passados dois ou três dias, deixara de ter esperanças ou receios e desligara-me por completo da experiência e seus possíveis resultados.
Durante dias seguidos ficava sentado na biblioteca ou na minha cabine, acompanhado pela sombra silenciosa de Rheya. Tinha a consciência de que havia um mal-estar entre nós e de que o meu estado de negligente suspensão não poderia prolongar-se para sempre. Obviamente era a mim que competia por fim a esta situação, mas até a ideia de qualquer espécie de alteração me incomodava: estava incapaz de tomar qualquer decisão, por mais trivial que fosse. Tudo o que havia no interior da Estação, e a minha relação com Rheya em particular, me parecia frágil e sem substância, como se a mínima alteração pudesse perturbar o perigoso equilíbrio e tudo fazer ruir. Não sabia dizer de onde me vinha esse sentimento, e o mais estranho de tudo era que também Rheya sentia algo semelhante.
Quando hoje volto a recordar esses momentos, fico fortemente convencido de que essa atmosfera de incerteza e suspense e o meu pressentimento de um desastre iminente eram provocados por uma presença invisível que se apoderara da Estação. Creio também poder afirmar que essa presença se manifestava de modo igualmente forte em sonhos. Nunca antes tivera visões dessa espécie, nem voltei a ter depois, por isso decidi anotá-las e transcrevê-las aproximadamente, na medida em que meu vocabulário o permita, dado que posso apenas descrever aspectos fragmentários, quase que por completo despidos de um horror impossível de comunicar.
Uma região obscura, no coração da vastidão, longe do céu e da terra, sem chão por baixo nem abóbada de céu por cima, nada. Sou prisioneiro de uma matéria extraterrestre e o meu corpo está revestido de uma substância morta e sem forma — ou antes, não tenho corpo, eu sou essa matéria extraterrestre. Nebulosos glóbulos rosa pálido rodeiam-me, suspensos num meio mais opaco que o ar, pois os objetos só se tornam nítidos quando vistos de muito perto, embora quando se aproximam fiquem anormalmente distintos e a sua presença se revele com uma nitidez sobrenatural. A convicção da sua realidade substancial e tangível é no momento tão dominadora que mais tarde, quando acordo, tenho a impressão de ter acabado de abandonar um estado de verdadeira percepção e tudo o que vejo depois de abrir os olhos me parece nebuloso e irreal.
É assim que o sonho começa.
Em redor de mim algo aguarda o meu consentimento, a minha íntima aquiescência, e sei, ou antes, existe o conhecimento de que não posso ceder a uma tentação desconhecida, pois quanto mais o silêncio parece prometer, tanto mais terrível será o resultado obtido. Contudo, em essência, eu nada sei disso, pois se soubesse teria medo, e não sinto o mínimo temor.
Aguardo. Da névoa rósea que me envolve emerge um objeto invisível e toca-me. Inerte, aprisionado na matéria que me recobre, não posso recuar nem desviar-me, e sou tocado, a minha prisão é tocada, e sinto esse contato como uma mão, e essa mão recria-me. Até esse momento pensava que via, mas não tinha olhos: agora tenho olhos! Sob a carícia dos dedos hesitantes, os meus lábios e faces emergem do vazio e, à medida que a carícia prossegue, passo a ter uma face, sinto o peito a respirar — existo. E, uma vez recriado, é a minha vez de criar: aparece à minha frente uma face que nunca vi antes, simultaneamente misteriosa e conhecida. Luto para fixar o olhar, mas não consigo orientar a direção dos meus olhos, e, num silêncio absorvido, para além de qualquer esforço da vontade, descobrimo-nos mutuamente um ao outro. Estou de novo vivo e sinto-me como se as minhas capacidades não tivessem qualquer limitação. Esta criatura — uma mulher? — permanece junto de mim e ambos estamos imóveis. Os nossos corações batem em uníssono, e de repente, do vazio que nos rodeia e onde nada existe nem pode existir, surge uma presença de uma crueldade indefinível e inimaginável. A carícia que nos criou e nos envolveu num manto dourado transforma-se agora no rastejar de inúmeros dedos. Os nossos corpos nus e brancos dissolvem-se num enxame de coisas negras e rastejantes e sou — somos— uma massa de vermes glutinosos e enovelados, sem fim, e nessa infinidade, não, eu sou infinito, e grito sem que se ouça qualquer som, implorando a morte, um fim. Mas simultaneamente sou dispersado em todas as direções, e a minha dor expande-se num sofrimento mais agudo que qualquer estado acordado, uma dor penetrante e espalhada que chega aos distantes pretos e encarnados, dura como rocha e sempre crescente, uma montanha de dor visível na ofuscante luz de um outro mundo.
Este sonho foi um dos mais simples. Não posso descrever os outros por me faltarem as palavras para traduzir o horror. Nesses sonhos não tinha consciência da existência de Rheya, nem havia qualquer eco de acontecimentos passados ou futuros.
Tinha também sonhos sem visões, durante os quais, num silêncio imóvel e granuloso, sentia que era lenta e minuciosamente explorado, embora nenhuma mão ou instrumento me tocassem. Contudo, sentia-me invadido até ao âmago, ficava despedaçado e desintegrava-me, e só o nada ficava. A aniquilação total era seguida de um tal terror que a mera lembrança dele ainda hoje me põe o coração a bater mais apressado.
E assim passavam os dias, cada dia igual ao anterior. Tudo me era indiferente e apenas temia as noites, e não conseguia encontrar maneira de escapar aos sonhos.
Rheya nunca dormia. Deitava-me junto dela lutando contra o sono, e a ternura com que a abraçava era apenas um pretexto, um modo de evitar o momento em que seria forçado a fechar os olhos. Não lhe contava os meus pesadelos, mas deve tê-los adivinhado porque a sua atitude traduzia involuntariamente um sentimento de profunda humilhação.
Como já disse, há bastante tempo que não via Snow ou Sartorius, mas Snow dava ocasionalmente sinal de vida. Deixava-me um recado à porta, chamava-me pelo videofone para me perguntar se notara qualquer novo acontecimento ou alteração ou qualquer outra coisa que pudesse ser interpretada como uma resposta aos repetidos bombardeamentos de raios X.
Dizia-lhe “Não” e fazia-lhe a mesma pergunta, mas Snow, no pequeno écran, limitava-se a negar com um gesto de cabeça.
No décimo quinto dia depois da conclusão da experiência, acordei mais cedo que de costume, exausto devido ao sonho da noite anterior. Todos os meus membros estavam semi entorpecidos, como se emergissem dos efeitos de poderoso narcótico.
Os primeiros raios do sol vermelho brilhavam pela janela, uma manta de chamas encarnadas varria a superfície do Oceano e apercebi-me de que a vasta expansão, que nos últimos quatro dias não fora perturbada pelo mínimo movimento, começava a agitar-se. O sombrio Oceano ficou abruptamente coberto por tênue neblina, a qual parecia, ao mesmo tempo, ter uma consistência muito palpável. Aqui e ali essa neblina agitava-se e os seus tremores transmitiam-se em todas as direções até à linha do horizonte. Depois, o Oceano desapareceu por completo sob umas membranas espessas e enrugadas, com saliências róseas e depressões cor de pérola, e estas estranhas ondas suspensas sobre o oceano puseram-se de súbito a girar e aglutinavam-se formando grandes bolas de espuma azul esverdeada. Uma tempestade de vento levantou-se até a altura da Estação, e para onde quer que se olhasse, víamos imensas asas membranosas planando no céu vermelho. Algumas dessas asas de espuma, as que encobriam o Sol, eram negras como piche, enquanto outras, porque estavam expostas obliquamente à luz desse sol, brilhavam com focos luminosos cor de púrpura. E o fenômeno continuava, como se o Oceano estivesse em mutação ou a descascar uma velha pele escamosa.
De vez em quando podia aperceber-se a negra superfície do Oceano através de uma abertura, que num instante voltava a ser tampada pela espuma.
Asas de espuma planavam à nossa volta,.apenas a poucos metros da janela, e uma caiu e roçou pelo vidro, parecendo seda. E, enquanto o Oceano continuava a produzir estes fantásticos pássaros, os primeiros a voar dissipavam-se já bem no alto, decompondo-se no zênite em filamentos transparentes.
A Estação permaneceu imóvel durante todo o tempo que o espetáculo durou — cerca de três horas, até que a noite surgiu. E mesmo depois de o Sol se pôr e as sombras se terem espalhado sobre o Oceano, o brilho pálido de miríades de asas podia ainda aperceber-se a subir para o céu, pairando em densas massas e elevando-se, sem esforço, em direção à luz.
Este espetáculo aterrorizou Rheya, mas para mim não foi menos desconcertante, embora a novidade não nos devesse ter perturbado, visto que duas ou três vezes por ano, ou mais, se a sorte lhes sorria, os solaristas observavam formas e criações nunca antes registradas.
Na noite seguinte, uma hora antes do nascer do sol azul, fomos testemunhas de outro fenômeno: o Oceano estava a tornar-se fosforescente. Manchas de luz cinzenta subiam e baixavam ao ritmo de invisíveis vagas. Isoladas a princípio, depressa essas manchas cinzentas se espraiaram e ligaram umas às outras e em breve formaram um tapete de luz espectral que se estendia até onde a vista podia alcançar. Durante quinze a vinte minutos a intensidade da luz foi aumentando progressivamente, até que o fenômeno teve um final surpreendente. Uma cortina de sombra aproximou-se vinda de ocidente, estendendo-se ao longo de uma frente de várias centenas de milhas. Quando esta sombra em movimento chegou à Estação, a parte fosforescente do Oceano, recuando para leste, parecia estar tentando escapar ao gigantesco extintor. Era como uma aurora posta em fuga e recuando até ao horizonte, que ficou orlado de um fulgor que ia esmorecendo, até que finalmente a escuridão venceu. Pouco depois o Sol ergueu-se acima das vastidões do Oceano, que eram atravessadas por algumas vagas solidificadas, cujos reflexos mercúricos bailavam sobre a minha janela.
A fosforescência era um efeito já registrado, observado por vezes antes da erupção de uma assimetríade, e sempre indicativa de um aumento local da atividade do plasma.
Porém, no decurso das duas semanas seguintes, nada aconteceu, nem no interior nem no exterior da Estação, exceto numa ocasião em que, no meio da noite, ouvi o som de um grito lancinante, que não podia ter saído de nenhuma garganta humana. O uivo agudo e prolongado acordou-me no meio de um pesadelo, e a princípio pensei que era o começo de outro. Antes de adormecer tinha ouvido uns ruídos abafados vindos do lado do laboratório, parte do qual ficava diretamente acima da minha cabine. Pareciam objetos pesados e máquinas a serem arrastados para outro lugar. Quando me apercebi de que não estava sonhando, decidi que o grito também viera de cima, mas não pude perceber como conseguira atravessar o teto à prova de som. Os horríveis ruídos continuaram durante quase meia hora, até que os meus nervos ficaram em frangalhos e eu alagado em suor. Preparava-me para ir investigar quando os gritos cessaram e foram substituídos por sons abafados, como um arrastar de objetos pelo soalho.
Rheya e eu estávamos sentados na cozinha, dois dias mais tarde, quando Snow apareceu. Estava vestido como se vestem as pessoas na Terra depois de um dia de trabalho e parecia outra pessoa, mais alto e mais velho. Não olhou para nós nem puxou uma cadeira, mas ficou em pé junto à mesa, abriu uma lata de carne e começou a engoli-la, intercalada com grandes nacos de pão. A manga do casaco roçava no tampo gorduroso da lata.
— Cuidado, Snow, a manga!
— O quê? — resmungou e continuou a entupir-se de comida, como se há dias não comesse. Encheu um copo de vinho, bebeu-o de um só trago, deu um suspiro profundo e limpou a boca. Depois olhou para mim com os olhos injetados de sangue e balbuciou:
— Ah, você deixou de fazer a barba?...
Rheya tirou a mesa. Snow balançava sobre os calcanhares, depois fez uma careta e chupou ruidosamente os dentes, deliberadamente exagerando a ação. Fixava-me com insistência:
— Decidiu, então, deixar de se barbear? — Não dei resposta. —Acredite em mim — continuou —, está cometendo um erro. Foi assim que ele começou...
— Vá deitar-se.
— Por quê? Quando me sinto com disposição para conversar? Ouça, Kelvin, talvez o Oceano nos queira bem... talvez nos queira agradar e não saiba muito bem como fazê-lo. Espia os desejos que temos no cérebro, e só dois por cento dos processos mentais são conscientes. Isso significa que ele nos conhece melhor que nós próprios nos conhecemos. Temos de conseguir entender-nos com ele. Está me escutando? Não quer? Por quê? — neste ponto pôs-se a soluçar. — Por que você não fez a barba?
— Cale a boca!... Você está bêbado!
— Eu, bêbado! E se estivesse? Só porque vagueio de uma ponta à outra do espaço e ando a meter o nariz no cosmo, acha que não me é permitido embebedar-me? Por que não? Você acredita na missão da humanidade, não acredita, Kelvin? Gibarian falou-me sobre você antes de começar a deixar crescer a barba... Foi uma ótima descrição. Mas não vá ao laboratório, se não quiser perder a fé. Aquilo pertence a Sartorius. O Fausto, ao invés... anda à procura de uma cura para a imortalidade! Ele é o último cavaleiro do Sagrado Contato, o homem de quem precisamos. A sua última descoberta também é bastante boa... uma morte prolongada. Nada mal, hem? “Agonia perpétua”... da palha... dos chapéus de palha... e você continua a não querer beber, Kelvin?
Ergueu as pálpebras inchadas e olhou para Rheya, que estava encostada à parede e absolutamente imóvel. Depois começou a cantarolar:
— Oh, bela Afrodite, filha do Oceano, a tua mão divina — Engasgou-se com o riso.
— Condiz, hem, Kel... vin. — Parou com um ataque de tosse.
— Cale a boca e saia daqui! — rugi por entre os dentes cerrados.
— Está me expulsando? Você também? Você não faz a barba e me expulsa? E o que me diz dos meus avisos, dos meus conselhos? Colegas interestelares devem ajudar-se uns aos outros! Ouça, Kelvin, vamos lá embaixo, abrimos as comportas e os chamamos. Talvez eles nos ouçam. Mas qual é o nome dele? Demos nomes a todas as estrelas e planetas, embora talvez já tivessem os seus próprios nomes. Que descaramento! Venha, vamos lá abaixo. Vamos gritar-lhe, talvez ele se comova. Fará para nós simetríades de prata, irá orar em forma de cálculos, nos enviará os seus anjos ensangüentados. Partilhará os nossos problemas e terrores e nos pedirá que o ajudemos a morrer. Já está pedindo, implorando. Com cada uma das suas criações está implorando que o ajudemos a morrer. Você não está achando graça... mas já sabe que sou um brincalhão. Se as pessoas tivessem mais humor, talvez as coisas tivessem corrido de modo diferente. Sabe o que ele quer fazer? Quer castigar o Oceano, ouvi-lo gritar do topo de todas as suas montanhas ao mesmo tempo. Se pensa que ele nunca terá a coragem de apresentar o seu plano àquele punhado de velhos tremelicantes que nos mandaram para cá, para nos redimirmos de pecados que não cometemos, tem razão, ele tem medo. Mas tem medo apenas do pequeno chapéu, ele não ousará, Fausto não...
Nada respondi. A agitação de Snow aumentava. As lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo e caíam-lhe na roupa. Continuou:
— Quem é responsável? Quem é responsável por esta situação? Gibarian? Giese? Einstein? Platão? Todos criminosos... Repare, numa nave espacial uma pessoa corre o risco de arrebentar como um balão, de congelar ou assar ou de cuspir todo o seu sangue numa única golfada, antes mesmo de poder gritar, e tudo o que sobra são ossinhos a flutuar dentro de cascos blindados, de acordo com as leis de Newton, corrigidas por Einstein, dois marcos milenários do nosso progresso. Seguimos pela estrada afora, cheios de fé, e vemos aonde nos conduz. Pense no nosso sucesso, Kelvin; pense nas nossas cabines, nos pratos inquebráveis, nas pias imortais, legiões de fiéis guarda-roupas, dedicados armários... Se não estivesse bêbedo, não estaria falando desta maneira, porém mais cedo ou mais tarde alguém tinha de dizer estas coisas, não é? Você fica ai sentado como um cordeiro num matadouro e deixa a barba crescer... De quem é a culpa? Descubra você mesmo.
Deu lentamente a volta e saiu, estendendo um braço para se segurar à porta. Depois os seus passos morreram ao longo do corredor.
Tentei não olhar para Rheya, mas os meus olhos foram atraídos para ela, mesmo contra minha vontade. Queria levantar-me, tomá-la nos braços e acariciar-lhe o cabelo.
Não me mexi.
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