sábado, 19 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 2)




Os baldes estavam cheios e Buddy agarrou as alças  e fez o caminho de volta para o campo. Pela centésima vez naquele dia, passou por cima do tecido canceroso que se formou sobre o coto da planta que tinha irrigado o milharal no ano passado. Desta vez, seu pé descalço pisou a madeira lisa, onde havia uma poça de seiva escorregadia. Desequilibrado pelos baldes, ele não conseguiu recuperar o equilíbrio. Caiu para trás, a seiva nos baldes derramou-se sobre ele. Deitado no chão, a seiva se espalhara por seu peito e braços, e uma miríade de moscas pousou para se alimentar.

Ele não tentou se levantar.

‘Não fique deitado ai’ disse Anderson, “temos muito trabalho por fazer”. Esticou uma mão, mais gentil que suas palavras, para ajudar Buddy a se levantar.
Quando agradeceu ao pai, havia um tremor em sua voz quase perceptível.

"Está bem?”
“Acho que sim” Sentiu dor no coccix, que tinha batido no toco, então desceu até ao riacho para lavar a porcaria de si.
“Tá na hora mesmo de ir comer.”

Buddy assentiu. Agarrando os baldes (era incrível como automático o trabalho se tornara, até mesmo para ele), partiu para o caminho que levava da floresta ao riacho (que mais para o interior, era o rio Gooseberry) do qual a aldeia retirava sua água.

Sete anos atrás, toda esta área da floresta e a aldeia estava sob dez a quinze metros de água. Mas as plantas haviam drenado a água. Eles ainda estavam drenando, e todos os dias o litoral norte do Lago Superior movia-se alguns centímetros mais para o sul, embora a taxa de sua retirada parecia estar diminuindo e a mais nova das plantas atingira os limites do seu crescimento.

Ele despiu-se e deitou-se de corpo inteiro no rio. A água morna movia-se languidamente sobre suas pernas nuas, limpando a sujeira e a seiva e as moscas mortas que tinham ficado agarradas nele como  papel pega-mosca. Prendeu a respiração e baixou a cabeça lentamente dentro da água que fluia, até ficar totalmente submerso.

Com a água em seus ouvidos, ele podia ouvir alguns sons mais distintamente: suas costas contra as pedras do leito do córrego, e,mais distante, um outro som, um barulho baixo que cresceu, muito rapidamente, batidas. Ele conhecia o som, e sabia que não deveria estar ouvindo-o agora, aqui.

Ergueu a cabeça para fora da água a tempo de ver a vaca desabalada, correndo na direção dele e a tempo para ela vê-lo. Gracie saltou, e sua patas traseiras passaram a poucos centímetros de sua coxa. Então ela  correu para dentro da floresta.

Em seguida, Buddy contou enquanto elas atravessavam o riacho: oito. . . onze. . . doze.
Sete Herefords e cinco Guernseys. Todas elas.

O mugido de um touro soou no ar, e Studs entrou em sua visão, o grande Hereford marrom da aldeia, com seu topete branco. Ele olhou Buddy com desafio casual, mas haviam negócios mais urgentes do que o acerto de contas. Ele apressou-se atrás das vacas.

Studs ter escapado do cercado era uma má notícia para as vacas todas prenhas, e não era bom para nenhuma delas ser montada por um touro ansioso. A notícia seria ainda pior para Neil, que era responsável por Studs. Isso poderia significar uma surra. Este pensamento não entristeceria Buddy profundamente, mas ainda assim ele estava preocupado com o gado. Apressou-se a vestir seu macacão, que ainda estava grudento de seiva.

Antes que ele tivesse preso as tiras sobre os ombros, Jimmie Lee, o mais jovem dos dois meio-irmãos de Buddy, veio correndo perseguindo o touro. Seu rosto estava vermelho com a emoção da perseguição e mesmo quando ele anunciou a calamidade "Studs fugiu!" um sorriso formou-se em seus lábios.

Todas as crianças, e Jimmie não era exceção, sentiam uma simpatia demoníaca, por coisas que causavam desordem no mundo adulto. O jovem vibrava com terremotos, tornados e touros que escapavam.

Não seria bom, Buddy pensou, que seu pai visse o sorriso. Para Anderson, a simpatia mesmo secreta, pelo poder de destruição foi metamorfoseado pela ação do tempo em uma severa, mal humorada oposição aos mesmos poderes, uma magnífica teimosia, implacável na sua forma crua e rude, de como se opunha ao inimigo. Nada poderia seguramente provocar mais esta impiedade, do que ver esta excitação nas bochechas de seu filho mais novo e (como comumente era) mais querido.

"Pai", disse Buddy. "Cadê todo mundo?"
"Clay está reunindo todos os homens que pode encontrar, e Senhora e Flor e as mulheres estão indo lá para assustar as vacas para longe do milho.”

Jimmie gritou a informação sobre seu ombro enquanto trotava ao longo da trilha larga aberta pelo rebanho. Era um bom menino, Jimmie Lee, brilhante como um botão. No velho mundo, Buddy tinha certeza, ele teria se tornado mais outro filho pródigo. Eram sempre os mais brilhantes que se rebelavam. Agora seria sorte se sobrevivesse.
Todos eles.

Com os trabalhos da manhã findados, Anderson olhou para seu campo e viu que estava bom.
A colheita não seria grande e suculenta, como nos velhos tempos.

Eles haviam deixado os sacos de sementes de hibridização mofando nos depósitos abandonados da velha Tassel. Híbridos davam um rendimento melhor, mas eram estéril. A agricultura já não podia pagar por luxos assim. A variedade que ele estava usando agora era muito mais próxima hereditariamente ao milho indiano antigo, dos astecas zea mays. Sua estratégia contra as usurpantes Plantas fora baseada no milho. O milho tinha se tornado a vida do seu povo: o pão que comiam e a carne também. No verão, Studs e suas doze esposas, poderiam pastar no volumoso verde tenro que as crianças raspavam das laterais das Plantas ou poderiam pastar entre as mudas ao longo da margem do lago, mas quando o inverno chegasse o milho sustentaria o gado assim como sustentava os moradores.

O milho cuidava  de si quase tão bem quanto ele cuidava dos outros. Ele não precisava de um lavrador para revolver a terra, apenas uma vara afiada e mãos para soltar as quatro sementes e o pedaço de excremento que seria seu primeiro alimento. Nada tinha o rendimento por hectare que o milho tinha, nada exceto arroz provinha tanto alimento por onça (1 onça = 28 gramas). A terra era valiosa. As Plantas exerciam uma pressão constante sobre os milharais. Todo dia as crianças menores tinham que sair e caçar entre as fileiras de milho os germes verde-limão,  que em uma semana poderiam crescer para o tamanho das mudas, e em um mês seria grande como um bordo crescido.

Malditos! pensou. Que Deus os amaldiçoe! Mas essa maldição perdia muito de sua contundência na convicção de que Deus lhes tinha enviado em primeiro lugar.

Deixe os outros falarem sobre espaço exterior, tanto quanto gostassem: Anderson sabia que o mesmo Deus irado e ciumento que tinha visitado uma vez antes de uma enchente sobre a terra que era corrupto tinha criado as Plantas e semeado-as. Nunca discutiu sobre isso. Se Deus podia ser tão convincente, por que Anderson elevaria a sua voz? Contavam sete anos aquela primavera desde que a primeira muda da Planta tinha sido vista. Elas tinham vindo de repente, em Abril de '72, um bilhão de esporos, invisíveis para todos a não ser para os microscópios mais poderosos, disseminaram a mensagem por todo o planeta por um semeador igualmente invisível (e onde estava o microscópio ou telescópio ou tela de radar que fará Deus visível?), e dentro de dias cada centímetro de terra, na fazendo ou no deserto, selva e tundra, ficou coberta com um tapete verde dos mais ricos.

Todos os anos desde então, haviam cada vez menos pessoas, e mais convertidos à tese de Anderson.
Como Noé, ele estava rindo por último.
Mas não o impedia de odiar, assim como Noé deve ter odiado as chuvas e a elevação das águas.

Anderson não tinha sempre odiado as Plantas. Nos primeiros anos, quando o Governo tinha acabado de cair, e as fazendas estavam em seu auge, saía à luz do luar somente para assisti-las crescer. Era como os filmes sobre crescimento acelerado das plantas que ele havia visto na escola de agricultura anos atrás. Ele pensou que poderia lutar contra elas, mas estava errado. As Plantas daninhas infernais tinham arrancado sua fazenda de suas mãos e a cidade das mãos de seu povo.

Mas, por Deus, ele ia consegui-las de volta. Cada centímetro quadrado. Mesmo se tivesse que arrancar cada raiz de cada Planta com as suas duas mãos. Cuspiu bastante.

Nestes momentos, Anderson tinha consciência de sua própria força, da força da sua determinação, como um homem jovem está consciente da compulsão de sua carne ou uma mulher está consciente da criança que ela carrega. Era uma força animal, e que, Anderson sabia, era a única força suficientemente forte para prevalecer contra as Plantas.

Seu filho mais velho saiu correndo da floresta gritando. Quando Buddy correu, Anderson sabia que havia algo errado. "O que ele disse?", perguntou para Neil.
Embora o velho não quisesse admitir isso, sua audição estava começando a ir embora.
"Ele diz que Studs alcançou as vacas. Parece um monte de besteira para mim."
"Peça a Deus que seja", respondeu Anderson, e seu olhar caiu sobre Neil como um peso de ferro.

Anderson mandou Neil de volta para a vila para garantir que os homens não se esqueçessem de levar cordas e aguilhões na pressa da perseguição. Então, com Buddy partiu na trilha limpa que o rebanho tinha feito. Estavam cerca de dez minutos na frente, pela estimativa de Buddy.

"Estão longe" disse Anderson, e começaram a correr ao invés de andar.

Foi fácil, correndo entre as Plantas, pois cresciam muito afastadas e sua cobertura era tão espessa que não permitia deixar crescer vegetação rasteira. Mesmo fungos adoeciam aqui, por falta de comida. Os poucos álamos que ainda estavam de pé estavam podres no núcleo e só esperando que um vento forte derrubásse-os . Os pinheiros e abetos tinha inteiramente desaparecido, digeridos pelo solo que um dia os alimentara. Anos antes, as plantas tinham suportado hordas de parasitas comuns, e Anderson esperara que as videiras e trepadeiras fossem destruir seus parasitas, mas as plantas tinham se reunido e foi o parasita que sem motivo aparente morreu.

Os troncos gigantes das Plantas subiam fora da vista, suas estruturas espirais escondidas pela folhagem maciça; seu verde suave e vivo, imaculado e intocável, e como todos os seres vivos, indispostos a tolerar qualquer forma de vida, além da sua própria.

Havia nessas florestas uma solidão estranha, doentia, uma solidão mais profunda do que a adolescência, mais perverante do que a da prisão. Parecia, de certa forma, apesar de seu crescimento, verde e florescente, morta. Talvez fosse porque não havia nenhum som. As grandes folhas sobre eles eram demasiadas pesadas e rígidas na estrutura para serem agitadas por qualquer coisa, que não fosse os ventos de um furacão. A maioria das aves tinha morrido. O equilíbrio da natureza foi tão profundamente afetado que mesmo os animais que se julgava não ameaçados se juntaram às fileiras sempre crescente dos seres extintos. As plantas estavam sozinhas nestas florestas, e o sentimento de serem algo à parte de tudo mais, de pertencerem a uma ordem de coisas diferente era inevitável. Aquilo devorava o coração do homem mais forte.

"Que cheiro é esse?" Buddy perguntou.
"Não sinto cheiro de nada."
"Tem cheiro de algo queimando."

Anderson sentiu pontadas de esperança.
"Um incêndio? Mas eles não iriam queimar nessa época do ano. Elas estão muito verdes."
"Não são as Plantas. É outra coisa."

Era cheiro de carne assada, mas ele não diria isso. Seria demasiado cruel, demasiado irracional perder uma das vacas preciosas para um banquete de saqueadores.
  
Seu ritmo desacelerou da corrida para um trote, de um trote para um cauteloso deslizar de espreita.

"Eu sinto agora", Anderson sussurrou.

Retirou do coldre o Colt Python .357 Magnum, que era o sinal mais visível de sua autoridade entre os cidadãos de Tassel. Desde sua condecoração ao cargo mais alto (formalmente, ele era o prefeito da cidade, mas na verdade ele era muito mais), ele nunca foi visto sem ele. A potência desta arma como um símbolo (para a vila que tinha ainda um estoque considerável de armas e munições) residia sobre o fato de que era apenas utilizado para o mais grave dos propósitos: matar homens.

O cheiro tornou-se muito forte e, depois, numa curva do caminho eles encontraram doze carcaças.
Haviam sido incineradas até as cinzas, mas os contornos eram claros o suficientemente para indicar qual delas era Studs. Havia também uma pequena mancha de cinza próxima a eles no caminho.

"Como..." Buddy começou a dizer. Mas ele realmente queria dizer o que, ou mesmo quem, algo que seu pai rapidamente entendeu.
"Jimmie!" o velho gritou furioso, e enterrou as mãos no pequeno monte de cinzas ainda fumegantes.
Buddy desviou os olhos, tanta tristeza era como embriaguez: não era justo que ele encarasse seu pai assim.

Não havia nem sequer uma carne que sobrasse, ele pensou olhando para as outras carcaças.
Nada além de cinzas.

"Meu filho!" o velho chorava. "Meu filho!" Ele segurou no dedo um pedaço de metal que outrora fora a fivela de um cinto. Suas bordas estavam derretidas pelo calor, e o calor retido ao metal estava queimando os dedos do velho homem. Ele não percebeu.
Fora de sua garganta veio um ruído, mais profundo do que um gemido, e suas mãos cavaram as cinzas mais uma vez. Ele cobriu o rosto com elas e chorou.

Depois de um tempo, os homens da aldeia chegaram.
Um deles tinha trazido uma pá para usar como um aguilhão. Eles enterraram as cinzas do menino lá, porque o vento já começava a espalhá-las sobre o chão. Anderson guardou consigo a fivela.

Enquanto Anderson estava falando as palavras sobre a sepultura rasa de seu filho, ouviram o mugido da última vaca viva, Gracie. Então, logo que tinham dito amém, correram atrás da vaca sobrevivente. Com exceção de Anderson, que voltava para casa sozinho.

Gracie levou-os a uma agradável e velha perseguição.



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terça-feira, 15 de março de 2011

Philip K. Dick - Exhilaration and Terror of the Modern



Este livro discute a ficção científica de Philip K. Dick, tanto os contos quanto os romances.

A discussão é de dois pontos de vista: histórico e formal.

O primeiro considera a ficção como representação de uma resposta para a pós-modernidade, e investiga um confronto entre humanismo e pós-modernismo.

A segunda considera questões de gênero e forma. Dick é um entusiasta mais do que um escritor de ficção científica convencional, de modo que ele explora as convenções do gênero, em vez de obedecê-las. Não que sua versão de FC seja simplesmente lúdica: o choque entre humanismo e pós-modernismo escapa da ficção, a tensão entre realismo e fantasia, endêmica a Ficção Científica, é agravada no caso.

[...]

Preface 
Acknowledgments
Abbreviations 

PART I
1. Philip K. Dick and the Postmodern
2. Complications of Humanism and Postmodernism 
3. Static and Kinetic in Dick’s Political Unconscious 

PART II
4. Mired in the Sex War: Dick’s Realist Novels of the Fifties 
5. The Short Stories: Philip K. Dick and the Nuclear Family 
6. The Man in the High Castle: The Reasonableness and Madness of History
7. Eating and Being Eaten: Dangerous Deities and Depleted Consumers
8. Critique and Fantasy in Martian Time-Slip and Clans of the Alphane Moon
9. Critical Reason and Romantic Idealism in Martian Time-Slip
10. A Scanner Darkly: Postmodern Society and the End of Difference
11. Gestures, Anecdotes, Visions: Formal Recourses of Humanism
12. Postmodernism and the Birth of the Author in Valis 
Works Cited 
Index


Philip K. Dick - Exhilaration and Terror of the Modern - Christopher Palmer [ Download ]

segunda-feira, 14 de março de 2011

Land of the Zombies, Filmes de Zombies e Black Zombie

Melhor do que um blog sobre zombies, só três !






domingo, 13 de março de 2011

Entrevista com Thomas Disch





Esta semana, em Strange Horizons, apresentamos mais um autor, como o fazemos periodicamente, esta edição traz o romancista, poeta e crítico Thomas M. Disch. Em sua carreira de quase 40 anos, Disch distinguiu-se como um dos escritores mais originais e versáteis surgidos do movimento New Wave da ficção especulativa, que transformou o gênero na década de 60. Ele é mais conhecido no mundo da FC por dois romances, Campo de Concentração e 334, assim como outros, muitas vezes de contos satíricos. Ele também escreveu poesia, horror e críticas teatrais.

Meu primeiro encontro com o trabalho de Disch foi na coleção de Samuel R. Delany , Jewel-Ringed Jaw; e a admiração de Delany por Disch levou-me às suas histórias e romances. Wings of Songs é provavelmente o meu romance favorito de Disch, embora também seja muito afeiçoado a The Genocides. Fiquei encantado pela  oportunidade de falar com ele ao telefone em sua residência em Nova York, sobre sua vida e carreira.




David Horwich: Vamos começar pelo seu início. Quando começou a escrever?

Thomas M. Disch: Há sempre um começo? Lembro-me no jardim de infância em Minneapolis, com Dennis White, meu melhor amigo naquela idade, contando-lhe histórias sobre Ronald Rabitt. Era uma série de aventuras. Essas são as primeiras histórias que eu lembro de ter contado, mas quem sabe  que histórias  eu contei aos meus pais? Contar histórias era absolutamente natural para mim. É minha maneira de me relacionar com as pessoas, eu acho.

DH: Então, você sempre foi de contar histórias. Quando você começou a escrevê-las?

TD: Eu suponho que eles me pediram para fazer esse tipo de coisa na escola, eu não me lembro das histórias que escrevi. Tinha blocos cheios, mas não de histórias, de enredos imitando Asimov,  inspirados em The Caves of Steel .  Eu descobri a ficção científica, e pensei, oh sim! Civilizações galácticas em conflito umas com as outras! Então enchi cadernos completos com descrições de personagens, enredos e histórias futuras do meu próprio império galáctico, sobre o qual eu não me lembro de nada. Isso foi por volta dos 11 ou 12.

DH: É quando você encontrou a ficção científica pela primeira vez?

TD: Tinha cerca de 11 anos, sim. Eu descobri através do meu amigo Bruce Burton, com quem eu jogava Story Tag - uma versão mais elaborada dos contos de Ronald Rabit. Ele apareceu com idéias que me surpreenderam. Só depois de um bom tempo eu descobri que ele estava pegando todas da Astounding Science Fiction - plágio em Story Tag! [Risos] Eu pensei que ele de repente se tornara uma espécie de gênio ou algo assim. Ele parou de ganhar na Story Tag quando eu percebi o que ele estava fazendo

Em Fairmont, Minnesota, você só poderia obter revistas de FC, assinando-as, então eu tinha as minhas próprias assinaturas. Acho que subscrevi a Galaxy antes de Astounding; de qualquer forma, esses foram os meus anos de revistas de FC, 1951, '52, '53. Quando  fiz 14, eu estava vivendo em Twin Cities, e na décima série tivemos que ler Júlio César. Quando descobri Shakespeare, e conheci a poesia e como funcionava, eu surtei. Antes disso, eu achava que era coisa de cartão comemorativo. Então abandonei a ficção científica, e voei para as estrelas. Minha ambição era tornar-me, um Shakespeare, Thomas Hardy, Dostoevksii, eu lia qualquer livro da biblioteca que me dava na telha.


DH: Foi quando você começou a escrever poesia?

TD: Eu comecei a escrever poesia antes de escrever contos, no ensino médio. Mas eu sabia que o que eu estava escrevendo era simplesmente inferior - uma das maldições da inteligência - então eu não persegui ambições literárias mais longe do que as atribuições da escola e do ensino médio me levassem. Isso também serviu para a faculdade. Eu me inscrevi em um curso para aprender a escrever contos com um grande professor, e ele me incentivou, e eu também tinha outros colegas para comparar-me, mas eu sabia que ainda não estava preparado.

Então, quando eu tinha 22 anos, um calouro na faculdade, tive o que depois chamamos de um colapso nervoso. Eu não queria fazer as provas finais, eu não tinha estudado para elas, e eu não poderia fazer o teste de cálculo sem estudar, então fui confrontado com esta crise. Ao mesmo tempo, eu sabia que, de alguma forma, se eu me sentasse no fim de semana que eu estava tendo meu colapso nervoso e escrevesse uma história, esta seria publicável,  eu estava pronto para escrever uma história publicável. Então escrevi "A Double-Timer",  sete mil e quinhentas palavras. Foi a primeira história que eu escrevi pensando, "esta pode ser publicada." E assim foi. E eu nunca fiz os testes.


DH: Então foi uma crise pessoal que o levou a um momento em que você estava pronto para passar ao nível seguinte?

TD: Eu não acho que foi realmente uma crise pessoal, acho que foi uma decisão inconsciente. Isso é o que eu sempre senti sobre colapsos nervosos, se você não está realmente doido, ou esquizofrênico, basicamente, você está fazendo uma decisão que é tão difícil que você precisa da desculpa da neurose. Acho que colapsos nervosos eram muito mais comuns no final dos anos 50 e início dos anos 60,  o mundo é mais moderno sobre essas coisas hoje, para que as pessoas possam tomar decisões sem alegar uma desculpa. Mas funciona em ambos os sentidos, era uma grande vantagem ter colapsos nervosos.

DH: Depois de ser publicado pela primeira vez no início dos anos 60, você pensava em tentar fazer uma carreira escrevendo?

TD: Bastante. Era 1962 eu tinha vendido a primeira história para a Fantastic. Eu comecei a escrever outras histórias em rápida sucessão, e elas foram ficando melhores, gradualmente, sensivelmente. A gama de histórias foi também, naturalmente, aumentando, e eu pensei - hei, eu posso fazer isso, na verdade, eu acho que posso fazê-lo muito bem.

DH: Você estava escrevendo principalmente ficção científica, neste momento?

TD: Quase tudo, porque era um campo vasto. Eu não iria ameaçar Saul Bellow, ou mesmo o povo do The New Yorker. Eu nunca vendi para o The New Yorker. Eu tive só um período de teoria da literatura. Eu venho do bairro errado para vender para a revista The New Yorker. Não importa o quão bom eu sou como um artista, que sempre poderão sentir o cheiro de onde eu venho. Eu acho que o único de todos nós, que encontrou seu caminho na revista The New Yorker foi Ursula Le Guin, e mesmo ela era como se um alienígena visitasse a revista.

DH: É isso ainda é verdade hoje?

TD: Ah, sim. É mais verdadeiro hoje, porque acho que sou mais fiel à minha visão - Eu sei o que é, e eu sei que sou o inimigo. Isso é verdade para a poesia também. Eu conheci o editor de poesia da The New Yorker, de forma amigável - Howard Moss, na época - e ele nunca usaria nada meu. Mas há lugares que o fazem, porque eles são menos comprometidos com uma visão de como vêem seu público. O The New Yorker tem um entendimento muito bom do que seu público quer - é John Updike, classe média alta, são as pessoas de uma determinada renda. E se você não está escrevendo para confortar estas pessoas, elas não querem te ouvir. Isso é verdade para quase tudo. É tudo direcionado para uma certa idade, preferência sexual...

DH: Mercado publicitário.

TD: Todas essas coisas. Todos os dados demográficos. Fazem parte da realidade. Às vezes são realidades forjadas – porém mais velho e mais sábio - desde que eu tenha um lugar para publicar, eu posso ser blasé sobre isso.

DH: Foi uma luta para estabelecer sua carreira? Como era a ficção científica no início dos anos 60?

TD: Um campo totalmente aberto para mim. Eu rapidamente me tornei muito bom, na mesma medida em que enviava sinais de alerta para algumas pessoas. Mesmo aquelas que não gostavam de mim era uma espécie de elogio, de certa forma. Algis Budrys me chamou de "niilista". Essa é a palavra que as pessoas usam quando querem dizer "este é o nosso inimigo. Ele não acredita em nada." Significa, ele não acredita em nada do que nós acreditamos (e nós acreditamos em um monte de porcaria).

DH: Você estava tentando fazer algo diferente...

TD: Eu não tinha que tentar. Se eu seguisse a minha visão, isso já era diferente. Havia muita gente da minha idade e geração e com o mesmo passado que o meu, e que estava escrevendo de forma semelhante a minha, então eu não estava sozinho...  Eu fazia parte da "New Wave", que significava: espertinhos de nível universitário. O tipo velho escritor safado tinha só o ensino médio. A ficção científica nos anos 30 e 40 era uma literatura da classe trabalhadora, como a literatura pulp de detetive. O país inteiro estava se tornando gradualmente mais educado, e eu fazia parte de toda essa transição.

DH: O quanto este também foi um produto, ou influenciado por, das mudanças culturais e sociais em curso nos anos 60?

TD: Bem, nós tínhamos uma mudança cultural e social em curso. Fazíamos parte dela, refletíamos em nossas próprias vidas, nós espelhando, e estimulados pelos nossos escritos e outros veículos. Foi se reforçando mutuamente. É bom ter feito parte da história dessa forma.

DH: Você tinha o sentimento na época de que você e seus colegas estavam fazendo algo diferente e novo?

TD: Ah, claro, sabíamos disso. Foi sim uma sensação gloriosa. Sabíamos que estávamos detonando. E isso era divertido.

DH: Então, a recepção foi positiva na época dentro do gênero, dentro do fandom?

TD: Bem, foi positiva e negativa. A geração mais velha que está sendo deixada de lado não fica muito feliz com isso. Os mais velhos tinham uma escolha - poderiam se juntar a nós, ou poderiam tentar lutar. Foi realmente um caso de quais iriam se ajustar e quais iriam se afastar.

Havia uma certa geração marginal - Brian Aldiss, Phil Dick, pessoas da nossa geração - que tinha a opção de se tornar New Wave com a gente, e tirar partido de todas as liberdades de escrita - a linguagem adulta, a comédia. Você poderia finalmente escrever para adultos! Isso foi maravilhoso! Para muitos dos escritores mais velhos, era um chamariz para eles, e eles tiveram um renascimento; Damon Knight foi um deles. Mas havia alguns velhos que simplesmente não conseguiam adaptar-se, como Algis Budrys e Ray Bradbury, acho que eles ficaram para trás, como uma espécie de volta ao Paleolítico.


DH: John Campbell ainda era um dos editores mais fomosos quando você estava começando. Você teve algum encontro com ele?

TD: Não, não. . . Eu não teria me socializado com ele, e eu não acredito que ele apareceria em público, fora de sua própria sala do trono. Eu fui a um monte de convenções de ficção científica - nunca o vi por lá. Acho que as pessoas que se davam muita importância não se misturavam com os novos. Eu nunca vi Heinlein.

DH: Você tem um favorito seu desse período?

TD: Realmente não, porque eu não leio as coisas, a não ser por algum motivo que tenho que o fazer. Quando tenho, normalmente fico agradavelmente surpreso e acho que, hei, isso é muito bom - e não li isso em 40 anos. Eu estava relendo uma história que escrevi em 1964, "Flags Dangerous", que está em um CD que eu fiz recentemente (que vai responder à sua pergunta, um dos favoritos). É perfeitamente diferente, a história boba, quando eu escrevi, eu sabia que tinha encontrado a voz certa e a forma de escrever FC de humor e me fazia rir. Um humorista, que escreve apenas para se divertir. Na mesma época, eu encontrei a mesma voz na minha poesia.

DH: Você publicava poesia nesta época também?

TD: Sim, nesta mesma época eu vendi o meu primeiro poema para a Minnesota Review, e eu passei a escrever poesia desde então. É parte do que eu faço.

DH: Poesia de ficção científica?

TD: Não, não é ficção científica - é poesia. Há um certo elemento na poesia em tudo...Metáforas, quando exploradas, podem se tornar ficção científica, mas isso não faz parte do objetivo, é apenas algo que acontece naturalmente em poemas. Há uma corrente dentro da ficção científica que acha que há algo chamado de "poesia de ficção científica", e para mim isso é sempre um sinal de alerta - como uma doença de pele - devemos evitar essas pessoas cuja idéia de poesia é que existem dois tipos distintos, ficção científica e não ficção científica. É só poesia.

Suponho que, em última análise é a forma mais gloriosa da literatura, mas em nossos tempos você não pode viver de poesia, e eu acho que escrevi boa poesia , como pode-se esperar que um poeta profissional o faça durante sua vida. Tenho sete livros de poesia, e há uma possibilidade agora de um Collected Poems. O Collected Poems seria pelo menos o dobro da massa física real da poesia publicada, e talvez mais que o dobro. Seria um livro de 500 páginas ou mais, o que é bastante bom. Estou sempre atento à possibilidade - sempre que houver um bom poema lá, eu deixo tudo e escrevo o poema. Às vezes vem mais difícil e mais rápido do que outros, mas nunca houve um período em minha vida que não tivesse minhas antenas prontas para receber um poema.


DH: Não é assim com a prosa?

TD: Com histórias eu tenho um arquivo de idéias que é de cinco centímetros de espessura. Você não pode escrever toda idéia que você tem. É uma questão de mercado - escolher escrever uma história particular, que seria publicada em algum lugar onde eu quero ser publicado, ou ganhar algum dinheiro legal - todas essas questões estão envolvidas na decisão de usar uma ideia em particular. Além disso: eu iria me divertir? Algumas histórias dão mais trabalho do que divertem. Muito trabalho. É como alfaiataria. Eu não acho que para um alfaiate um terno seja diversão - é trabalho. Escrever ficção, e qualquer romance, é um tipo de trabalho.

Mas com a poesia, embora não haja trabalho, a atenção que é necessária para fazer um bom poema para concluir, raramente ultrapassa um dia ou dois. Eu não escreveria um poema a menos que eu pense que vá ser bom. Eu não iria sentar e dizer, oh, eu tenho que escrever um poema agora, e ligo meu cérebro e me pergunto o que fazer. Está lá ou não está. Se ele está lá, eu escrevo. A poesia é como uma visita. É por isso que eles falam sobre a musa. Se ela vier, você acaba dizendo Olá para ela.


DH: Você acha que a New Wave atingiu o seu objetivo? Será que as coisas começaram a mudar depois de um certo tempo, ou...

TD: Conseguimos o nosso objetivo, e de uma forma irônica ela falhou. A ficção científica, em nossa cultura, é basicamente destinada a crianças ou adultos jovens, como eles dizem, e uma certa dose de ficção científica tem que atender as necessidades emocionais e intelectuais de jovens de 13, 14, 15 anos. Se ele não conseguir fazê-lo como um gênero, então não vai ter seu lugar no mercado. Então inevitavelmente, o povo que inventa e escreve para Star Trek ou fantasia de capa e espada e feitiçaria abastecem  esse público, e o público sempre se renova. Não é o mesmo público - as pessoas crescem e entram na idade da ficção científica, então vivem através dela e em seguida, eles abandonam a ficção científica, e uma nova geração toma o seu lugar.

Bem, se isso é a verdade, então alguns escritores não são, por temperamento, adequados para escrever para esse público, não vão ser bem-vindos ou bem-sucedidos na ficção científica. Assim, alguns escritores de ficção científica saltam fora - Ursula o fez - ou encontram um nicho para ele, como Silverberg, com os  livros Majipoor depois que ele havia feito New Wave. Quero dizer, foi definitivamente um retrocesso, e isso foi feito para poder ganhar dinheiro. Ele era um escritor, um profissional, e ele tinha que ir onde o público estava.

Outras pessoas acham novas audiências no resto da cultura. Eu o fiz, de certa forma, embora os romances de terror sejam um deslocamento lateral - é um público diferente e, presumivelmente, um público mais velho, e é um público diferente culturalmente. As necessidades emocionais que você está fornecendo são diferentes. Além disso, todos esses gêneros estão deslocando-se em termos de audiência ao longo do tempo. A ficção científica encolheu sensivelmente após a New Wave. Há menos revistas para se publicar. Esta sempre foi a maneira que um escritor novo e jovem fazer-se conhecido, e que agora está mais difícil. Eu estava na Readercon, em Boston, e você olha para fora para a audiência - é chocante a quantidade de velhos em geral. Claro, Readercon visa o público leitor, ao invés da audiência televisiva que parece ser o foco da maioria das convenções de ficção científica.


DH: Você acha que isso é inerente ao gênero, ou é mais um resultado das demandas de comercialização e publicação de nossa cultura?

TD: Nunca foi uma necessidade estética, você poderia sempre escrever ficção para adultos, a questão é, você pode ganhar a vida escrevendo isso? Se você escreve ficção muito boa, e é ficção científica, normalmente você pode encontrar um lugar para publicá-la, a menos que você escreva uma espécie peculiar de romance que cria a sua própria audiência especial no âmbito da ficção científica. Estou pensando em R.A. Lafferty, que escreveu como se fosse Piers Anthony escrevendo para adultos, simplesmente não há público fora da FC para essa combinação particular, é um sabor que só existe dentro da Ficção Científica. Eu suponho que há alguns escritores como esses, que são tão sui generis que só podem ser publicado dentro dos muros do gueto.

Philip K. Dick... não poderia ter seu trabalho publicado no mainstream, ele tinha uma dificuldade enorme em conseguir que a sua boa FC fosse publicada. Fez o que precisava fazer para sobreviver por tempo suficiente para tornar-se reconhecido. Ele pensou bem em seu auge criativo, mas a admiração de seus pares não era suficiente para colocar uma refeição na sua mesa. Ele tinha muitas responsabilidades, e eu não acho que ele tratou de todas lá muito bem, havia uma pressão constante sobre ele.


DH: Você mencionou o gueto da Ficção Científica. Quantas vezes você encontrou estes muros?

TD: Os esnobes? Muitas vezes. Há um certo tipo de acadêmico que conta com esse tipo de defesa, mas isso se tornou coisa do passado, os acadêmicos hoje são mais cuidadosos em suas 'esnobices' do que eram, digamos, 20 anos atrás. O esnobismo mais eficaz é simplesmente não ler as pessoas que você esnoba, e não escrever sobre eles, e não ir nas cerimônias de seus prêmios e tudo mais. O gueto ainda é muito eficaz nesse sentido, em que as portas para publicações são fechadas para escritores de ficção científica. No entanto, existem bem poucas pessoas de FC que batem nestas portas. Então parece haver um consenso geral de que vivemos em dois mundos diferentes, e só se casar com a nossa própria espécie.




[continua...]

sábado, 12 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 1)






“Passou a colheita, findou o verão, e nós não estamos salvos."
Jeremias 8, 20


Para Alan Iverson






UM
O pródigo

Conforme a menor e em seguida as estrelas maiores desapareceram com o raiar do dia, a massa imponente da floresta que cercava o milharal reteve por um pouco, a escuridão da noite. Uma leve brisa soprava do lago, farfalhando as folhas do milho jovem, porém as folhas da floresta escura não se mexiam. Agora a parede leste da floresta brilhava verde-acinzentado, e os três homens à espera no campo, sabiam, embora não pudessem ver, que o sol já estava alto.

Anderson cuspiu - o dia de trabalho tinha oficialmente começado. Ele começou a percorrer o caminho até a inclinação suave em direção à parede leste da floresta. A quatro fileiras de distância de cada lado, seus filhos seguiram-o - Neil, o mais novo e maior à direita, e Buddy à esquerda.

Cada homem carregava dois baldes vazios de madeira. Nenhum deles usava qualquer calçado ou camisa, pois era verão. Suas roupas estavam em frangalhos. Anderson e Buddy tinham chapéus de abas largas de ráfia bruta, como os chapéus que se usam nas festas e feiras estaduais. Neil de óculos de sol, mas sem chapéu. Os óculos eram velhos, a ponte do óculos tinha sido quebrada e remendada com cola e uma tira da mesma fibra da qual os chapéus tinham sido feitos. Seu nariz era marcado, onde ele repousava.

Buddy foi o ultimo a chegar ao topo da colina. Seu pai sorria enquanto espera que o alcançasse.
O sorriso de Anderson nunca era um bom sinal.

"Está dolorido de ontem?”
"Estou bem. Desaparecerá quando eu começar a trabalhar."
Neil riu. "Buddy está com dor porque ele tem que trabalhar. Não é assim, amigo?"
Foi uma brincadeira. Mas Anderson, cujo estilo era lacônico, nunca ria das piadas, e Buddy raramente achava engraçadas as piadas feitas por seu meio-irmão.
"Você não entendeu?" Neil perguntou. "Dolorido. Buddy está dolorido porque ele tem que trabalhar."
"Nós todos temos de trabalhar" disse Anderson, e isso terminou com a piada.
Eles começaram a trabalhar.

Buddy retirou o tampão de sua árvore e inseriu um tubo de metal onde o tampão estivera. Abaixo da torneira improvisada ele pendurou um dos baldes. Puxar os tampões era um trabalho árduo, e tinham feito isso a semana toda. A seiva que escorria do buraco agia como uma cola. Este trabalho parecia sempre durar apenas o tempo suficiente para a dor de seus dedos, pulsos, braços, costas, voltar, mas nunca para abatê-lo.

Antes do terrível trabalho de carregar os baldes começar, Buddy parou e olhou para a seiva escorrendo pelo tubo como mel verde-limão para dentro do balde. Estava saindo devagar hoje. Até o final do verão esta árvore estaria morta e pronta para ser cortada.

Vista de perto, não se parecia muito com uma árvore. Sua pele era lisa, como o caule de uma flor. Uma árvore desse tamanho teria rachado através da pele sob a pressão de seu próprio crescimento, e seu tronco seria áspero com uma casca. Dentro da floresta você poderia encontrar árvores de grande porte, que tinham atingido o limite de seu crescimento e começaram finalmente a formar algo como uma casca. Pelo menos seus troncos, apesar de verdes, não estavam úmidos ao toque como esta.

Essas árvores ou Plantas, como Anderson chamava, tinham seiscentos metros de altura, e suas maiores folhas eram do tamanho de outdoors. Aqui na orla do milharal eram mais novas, não chegavam a dois anos e de apenas cento e cinquenta metros de altura. Mesmo assim, aqui como na floresta profunda, o sol apareceu por entre a folhagem ao meio-dia tão pálido como o luar em uma noite nublada
.
Tirem o cano!" Anderson gritou. Ele já estava no campo com seus baldes cheios de seiva, a seiva  transbordava dos baldes de Buddy também.
Porque é que nunca temos tempo para pensar? Buddy invejava a capacidade de Neil de fazer as coisas, de girar a roda da sua gaiola, sem saber como ela trabalhava.
"Vamos logo!" Neil gritou de longe.
"Vamos logo!" Buddy ecoou, sabendo que seu meio-irmão também tinha sido pego em seus próprios pensamentos, quaisquer que fossem.

Dos três homens que trabalhavam no campo, Neil certamente tinha o melhor corpo. Exceto por um queixo retraído, que dava uma falsa impressão de fraqueza, era forte e bem proporcionado. Era quase quinze centímetros mais alto que o pai ou Buddy, ambos homens baixos. Seus ombros eram mais amplos, o peito maior, e seus músculos, embora não tão definidos como Anderson, eram maiores. Não havia no entanto, nenhuma economia em seus movimentos. Quando ele entrava, era correndo. Quando se sentava, era largado. Ele suportava a pressão do dia de trabalho melhor do que Buddy simplesmente porque ele tinha mais material para suportar Nisso ele era bruto, mas pior do que ser bruto, Neil era burro, e pior do que ser burro, era vil.

Ele é malvado, Buddy pensou, e ele é perigoso. Buddy desceu pelo caminho do milho, um balde cheio de seiva em cada mão e seu coração transbordante com má vontade. Isso lhe conferia uma espécie de força, e ele precisava de toda a força que conseguiu reunir, de qualquer fonte. Seu café da manhã tinha sido leve, e almoço, ele sabia, não seria o bastante, e não haveria jantar.
Mesmo a fome, tinha aprendido, tinha seu próprio tipo de força: a vontade de arrancar mais alimentos do solo e tirar mais solo das Plantas.

Não importava o quanto de cuidado que ele tomava, a seiva acertava as pernas de suas calças enquanto ele andava, o tecido rasgado e preso à sua perna. Mais tarde, quando o dia estaria quente, o corpo todo estaria coberto com a seiva. A seiva secaria, e quando ocorresse, o tecido engomado iria arrancar os cabelos do corpo, um por um. Mas não era o pior, graças a Deus, o corpo tem um número finito de cabelos, mas ainda haviam as moscas que enxameavam sobre sua carne para se alimentar da seiva. Ele odiava as moscas, que não pareciam ter um número finito.

Quando chegou ao pé do declive no meio do campo, Buddy baixou um balde no chão e começou a alimentar as plantas jovens sedentas com o outro. Cada planta recebeu cerca de um quilo do grosso e verde nutriente e com bons resultados. Não era Quarto ainda, e muitas plantas já estavam na altura
dos joelhos. O milho teria crescido bem nos solos ricos atrás do lago, em qualquer caso, mas com a alimentação adicional extraida da seiva roubada, as plantas vicejavam fenomenal, como se estivessem no centro de Iowa em vez do norte de Minnesota. Este parasitismo inconsciente do milho servia a outra
finalidade além disso, para que o milho crescesse, as Plantas de cuja seiva haviam bebido morriam, e cada ano o limite de campo poderia ser aumentado um pouco mais.

Tinha sido idéia de Anderson usar as Plantas contra elas mesmas dessa maneira, e todo milho no campo era um testemunho de seu ardil. Olhando para as longas fileiras, o velho sentia-se como um profeta, diante da visão de sua profecia. Seu lamento agora era de que ele não tinha pensado nisso antes, antes da diáspora de sua aldeia, antes que as Plantas tivessem tomado sua fazenda e as fazendas de seus vizinhos.
Se apenas...
 
Mas isso era história, água debaixo da ponte, leite derramado, e, como tal, pertencia a uma noite de inverno na Sala Comum quando havia tempo para se lamentar. Agora, e pelo resto do dia, havia trabalho a fazer. Anderson olhou em volta para seus filhos. Eles seguiam atrás, ainda esvaziando seus baldes, o segundo balde, sobre as raízes do milho.

“Vamos!", gritou. Então, voltando-se para a colina com seus dois baldes vazios, ele deu um sorriso fino, sem alegria, o sorriso de um profeta, e cuspiu através do espaço entre os dentes da frente, uma fina corrente do suco da Planta que mascava.

Ele odiava as Plantas, e o ódio lhe dava forças.

Eles trabalharam, suando ao sol, até meio-dia. As pernas de Buddy estavam tremendo da tensão e de fome. Mas cada viagem até as fileiras de milho era mais curta, e quando ele voltou para as Plantas, houve um momento (e cada um maior do que a anterior), antes da baldes estarem cheios, quando ele podia descansar.

Às vezes, apesar de não gostar do sabor vagamente anis, ele enfiava o dedo no balde e lambia a calda agridoce. Não nutria, mas dissipava sua fome. Ele poderia ter mastigado a polpa de talha do floema do tronco, como seu pai e Neil faziam mas "mastigar" lembrava-lhe da vida que ele havia tentado escapar  dez anos antes, quando deixou a fazenda indo para cidade. Sua fuga havia falhado, tão certo como a
próprias cidades tinham falhado em se manter. No passado, tal como na parábola, ele teria ficado satisfeito com as cascas que os porcos comiam, e voltou para Tassel e para a fazenda de seu pai.

Fiel à forma, o bezerro engordado tinha sido morto, e se o seu regresso fosse uma parábola, teria sido um final feliz. Mas foi a sua vida, e ele ainda era, em seu coração, um filho pródigo, e houve momentos em que ele desejava ter morrido de fome na cidade.

Mas em uma disputa entre a fome na barriga e predileções da mente, a barriga tinha mais chances de ganhar. A rebeldia do filho pródigo tinha sido reduzida ao uso de certas palavras e coisas pequenas: como uma obstinada recusa em usar a palavra ‘naum’ e um desprezo pela música country, um ódio por "mastigar", e uma repugnância para o caipira, o caipira e o cacarejar mudo. Em uma palavra, Neil.

O calor e o cansaço de seu corpo conspiraram para direcionar seus pensamentos para canais menos conturbados, e como ele ficou olhando para os baldes enchendo lentamente, na sua mente surgiram as imagens de outros tempos. Da Babilônia, aquela grande cidade.

Ele se lembrava de como à noite, as ruas se assemelhavam a rios de luz e como os brilhantes, anti-sépticos carros escorriam pelos rios. Uma hora após a outra, o som não diminuia, nem as luzes se apagavam. Haviam os drive-ins, e quando o dinheiro era pouco, as lanchonetes de fast-food. Garotas de shorts serviam-o em seu carro. Às vezes os shorts tinham franjas brilhantes que saltavam sobre as coxas bronzeadas.

No verão, enquanto os caipiras trabalhavam nas fazendas, haviam praias com iluminação artificial, e sua língua seca enrolava agora lembrando como entre o labirinto de tambores de óleo vazios apoiando a balsa de mergulho, ele tinha beijado Irene. Ou alguém. Os nomes não importavam mais.

Fez outra viagem para baixo e quando alimentava o milho, lembrou os nomes que não importavam mais  agora.

Ah, a cidade fervilhava de meninas. Poderia ficar em uma esquina, e em uma hora centenas delas passariam por ele.  Centenas de milhares de pessoas!

Lembrou-se da multidão no inverno, no auditório aquecido no campus da universidade. Ele usava uma camisa branca. O colarinho apertado no pescoço. Em sua imaginação, ele afrouxou o nó de uma gravata de seda. Seria listrada ou lisa? Pensou nas lojas cheias de ternos e jaquetas.
Ah, as cores! A música e depois os aplausos!

Mas o pior de tudo, pensou descansando junto à Planta, é que não havia ninguém com quem falar.
A população total de Tassel era de duzentos e quarenta e sete, e nenhum deles, nenhum deles, conseguia entender Buddy Anderson. Um mundo havia se perdido, e eles não estavam cientes disso.

Nunca fora o mundo deles, mas por um breve tempo, fora de Buddy, e tinha sido belo.



Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 1) [ Download ]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (5/5) - Thomas M. Disch



[Ler 4/5]

Não quero sugerir que o paralelo que estou observando, entre a FC e a religião, é sempre uma coisa boa. Há aspectos da religião que causaram problemas, historicamente falando. Por exemplo, houve a Inquisição, numa época em que se você tivesse noções que pudessem ser consideradas heréticas, isso certamente lhe traria problemas.

A religião é freqüentemente organizada para criar problemas para  pessoas que têm ideias erradas. Na FC também. Há influências ortodoxas na FC e eu senti em minha própria experiência, e outros também sentiram. Como a maioria dos hereges, tenho a tendência em pensar em ortodoxia como sendo uma oposição ao livre exercício da imaginação. Os ortodoxos, naturalmente, pensam que são defensores da verdade.

Acho que quando falamos de arte versus religião (se não estamos considerando a religião um ramo da arte) o imperativo artístico é o de fazer coisas novas, criar uma imagem que não é apenas um eco do bem sucedido de ontem, e se opõe necessariamente à outra sentença, ou seja, fazê-lo de novo da mesma forma.

Como escritor, o que muitas vezes se sente dos editores, e as vezes dos leitores, é que se deve repetir algo: se é tão bom, então faça-o como você fez da última vez.Isso geralmente é feito, as pessoas, parece-me, escrevem substancialmente o mesmo livro novamente. O processo é chamado ortodoxia, e o resultado pode ser um livro de bolso ou um ícone. A maioria dos romances de bolso ortodoxos são baseados em um livro chamado 'The Hero with a Thousand Faces', de Joseph Campbell. Campbell mostra como todos os mitos podem ser resumidos em um mito para todos os fins.Moisés é a mesma história de Teseu, e isso é o mesmo para todas as outras histórias famosas. Assim, uma vez que há somente uma história para contar, os escritores só precisam escrever esta história. E qual é essa história? Aventura!

Pegue qualquer uma delas, como 'Lord Vallentine’s Castle' de Robert Silverberg, e sob sua pintura nova há o chassi de 'The Hero with a Thousand Faces'. Silverberg, é claro, não tem a única cópia do livro de Campbell. A minha ‘The Brave Little Toaster’ é um conto de aventura investigativa com o mesmo enredo. Não há necessariamente nada de errado nisso, todos os escritores na verdade, provavelmente vão escrever uma, algum dia, talvez até sem saber, porque é um padrão muito básico, mas não é o único padrão para se contar uma história. Experimente dizer isso para um pintor de ícones ortodoxos, e você só terá um olhar vazio em resposta.

Há outro aspecto de sempre contar a mesma história, e não é uma questão do enredo, mas da moral da história. Tem sido por vezes sugerido que eu sou um niilista, e sinto que isso equivale a dizer que sou um herege. Niilistas não acreditam em nada, e isso significa que há, portanto, algo em que acreditar, ou seja, uma posição ortodoxa. 

O meu niilismo parece resumir-se entre aqueles que me apontam como tal para um livro chamado 'OS GENOCIDAS' no qual a Terra é destruída por invasores alienígenas. Eu não quero sugerir no livro que a terra deva ser destruída por invasores alienígenas, ou que venha a ser destruída, ou mesmo que nós merecemos esse destino. Eu queria escrever o que se pode chamar de uma tragédia épica, e ao mesmo tempo que pode ser uma ambição um pouco pretensiosa (para um pequeno livro), a noção de que qualquer um poderia escrever uma tragédia foi um erro da minha parte, que eu compreendi desde então. Não estou me contradizendo, preste atenção, mas quando o Grande Inquisidor me tinha sob seu poder, ele me apontou que os problemas não deveriam existir na FC, a menos que eles estejam lá para serem resolvidos, e que os homens podem olhar para um futuro de imortalidade e que é bem possível, que nenhum de nós vá algum dia morrer.

Embora não esteja convencido, não me oponho ao Grande Inquisidor, e outros de sua fé, publicando livros que expressam a ortodoxia, a visão alegre da imortalidade destinada a humanidade, e a conseqüente irrelevância da experiência trágica, mas acho que os hereges devem ser autorizados a distribuir seus panfletos e publicar seus romances também.

Tudo isso resume-se a uma declaração a favor do pluralismo, e que parece ser um fundamento bastante inglês. Historicamente a Inglaterra foi o primeiro país em que várias religiões aprenderam a viver lado a lado com êxito. Com certeza eles ainda se reúnem, algumas vezes, em congressos ecumênicos, ou se não lá, vivem todos na mesma aldeia e zombam uns das igrejas dos outros, amigavelmente, no espírito pacífico e pluralista, o espírito de uma boa convenção.

De modo que este parece ser o meu final feliz. Exceto, e me ocorre a dúvida, se eu poderia com base nestas idéias, qualificar-me como um pensador religioso. E se assim for, se eu poderia solicitar a vocês, tornarem-se membros da minha própria congregação. Os benefícios fiscais seriam simplesmente maravilhosos para mim.



Ficção científica como uma Igreja - 'On SF' por Thomas M. Disch.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (4/5) - Thomas M. Disch




[Ler 3/5]

A escala de tempo é outro aspecto do Sublime, o fato de que você pode olhar para trás na história da mesma maneira que você pode olhar no espaço, ou você pode olhar avante na história através das dimensões, como as projeções de Stapledon através de eras e eras de futuridade. Wells foi o primeiro escritor a explorar a história humana universal que remonta ao período dos homens das cavernas ou mesmo a formação geológica da Terra. É um novo sentido da história que temos, as dimensões de tempo, que precisa ser comemorado de alguma forma, ser entendido, compreendido e pensado.
Então esse é outro aspecto de sublimidade, a histórica.

Mas ainda há mais uma, e é onde a palavra realmente tem seu peso. Antes de paisagens serem consideradas Sublimes (de acordo com Reynolds) Michelangelo foi creditado como sendo o grande pintor sublime. Isso também se relaciona com o que era suposto haver e que Rafael e outros não tinham: ‘terribilitá’, uma palavra italiana maravilhosa; ‘Terribility’ (terrabilidade) não funciona em inglês da mesma forma que ‘terribilità’ em italiano. Significa que você olha para um Michelangelo e você se relaciona com a imagem que está vendo: uma imagem humana tão poderosa e tão profundamente significativa que você olha para ela e sente algo além do humano na imagem humana, algo semelhante a Deus. E, é claro, era o que Michelangelo estava pintando: imagens de deuses.

Agora, pintar um retrato de um deus assim não é fácil. Você não precisa sequer ser cristão para entender o que a imagem humana pode ser ilimitadamente significante para os seres humanos, pois ela pode condensar tudo o que é significativo e maravilhoso, a alma quebrando-se em uma imagem - ou um conto.

O sublime humano pode ser encontrado tanto na literatura quanto na pintura.

Os artistas Michelangelo e Reynolds não podem ser comparados com outros pintores: mas com Homero e Milton. Atualmente os romancistas raramente escrevem sobre deuses, raramente escrevem sobre heróis no sentido de pessoas vestindo algo apropriado para um baile à fantasia. A não ser por heróis militares e cowboys, cada um tem seu próprio uniforme, os heróis dos romances modernos tendem a ser pessoas comuns.

Há também aspectos da observação ligados ao ritual de evocação dos heróis extraordinários de fantasia. Parsifal, de Wagner, tem um pouco em comum com a Missa Solene em latim. Ou a Society for Creative Anachronism, que organiza justas para aqueles rituais que anseiam por uma participação mais energética.

Eu tenho minha própria sugestão de um ritual que poderia ser devolvido e renovado nos dias de hoje: a construção de pirâmides. Sinto que foram negligenciadas por bastante tempo. Certa vez eu estava em uma catedral na Itália, e ela parecia tão fácil de fazer. Era uma catedral nova e não muito bem construída. Não havia muito que distingui-la como uma obra de arquitetura, e eu não pude deixar de pensar: ‘Ei, eu poderia fazer isso!’ Então pensei que talvez não pudesse de verdade, mas eu certamente poderia fazer algo!

No entanto, se você não tem uma religião, provavelmente não iria querer construir uma catedral, porque estaria preso a todo um sistema com o qual não concorda.

Mas quanto a pirâmides, você teria a satisfação de construir algo sem ter que ser um verdadeiro crente. Então escrevi um artigo, propondo que construíssem pirâmides em Minnesota, e que foi publicado e muito bem recebido. Liguei para voluntários e recebi um monte de e-mails de pessoas que queriam construir pirâmides em Minnesota, e de voluntários para serem uma espécie de escravos para tal. Infelizmente, ninguém escreveu se oferecendo para financiá-la, e paramos ai. Eu devia ter me ocupado organizando uma angariação de fundos, pois assim haveriam pirâmides hoje em Minnesota, e não seria apenas um devaneio meu.


Ficção científica como uma Igreja (5/5) 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (3/5) - Thomas M. Disch



[Ler 2/5]

Se você não tem uma religião para esses fins, então é terrível. Mas deixei de fora algo óbvio. A idéia central da religião é supostamente sobre a experiência humana de nossa relação com outra coisa: Deus, o infinito, ou o quer que seja. A questão é: pode este paralelo ser prolongado a partir dai? Se existem todas essas semelhanças com a religião, então não refletiria a FC também, este aspecto central da religião?

(Há muitas histórias na FC sobre religião, e vou recomendar a você apenas a sensacional Enciclopédia de Ficção Científica, onde Brian Stableford escreveu um artigo absolutamente definitivo sobre o assunto É um assunto extenso, e há muito o que dizer. Mas não é bem onde eu quero chegar aqui.)

O que tenho em mente é: Todo fã de FC irá lhe dizer que o elemento básico da FC é a Sensação de Deslumbramento (Sense of Wonder). Esta sensação pode ser facilmente relacionada com a religião, e posso dar-lhe um nome diferente, o Sublime.

Comecei a ler recentemente um livro chamado 'Turner and the Sublime' (de Andrew Wilton). O Sublime é instantaneamente reconhecível em pinturas de JMW Turner, ou John Martin (se você viu a pintura do Apocalipse na Tate Gallery, com o raio colidindo com o penhasco, sabe do que estou falando). Martin fez dilúvios e catástrofes em larga escala, e há uma série de paisagens marinhas, com tempestades no mar e turbilhões distantes. A imensidão faz parte disso, mas não apenas o tamanho, também a sensação de olhar para grandes distâncias e perder-se em reverência.

É como olhar as estrelas, de certa forma, mas observar estrelas envolve um pouco de pensamento. Se você não tem imaginação, um céu negro com poucos pontos que piscam pode ser interpretado como uma espécie de show de luzes. Quando você começa a especular sobre o que o céu realmente é, o quão longe estão as estrelas e como quão grande cada uma delas é, você começa a ficar perdido nessas idéias, que é quando a Sensação de Deslumbramento começa a acontecer.

Acho que o arquétipo dos livros de FC são aqueles que apelam diretamente para esse sentimento, que o ajudam a formar uma visão da vastidão do espaço. (Olaf) Stapledon, e outro que vem imediatamente à mente (comparável a uma imagem de John Martin) é 'Rendez-vous com Rama' de (Arthur Charles) Clarke, onde você tem um artefato que é misterioso, explorado em suas grandes dimensões, totalmente impressionante, e que desaparece sem ter sido explicado, é apenas observado. Ringworld (e Larry Niven) é outro exemplo óbvio da satisfação que contemplar um fenômeno em grande escala pode te dar. Em menor escala, eu escrevi uma história sobre um elevador que só vai para baixo, sempre, sem parar.

Você pode percorrer esta trilha até o início do romance gótico - não é FC, mas um primo amado: O Castelo de Otranto (romance de 1764 escrito por Horace Walpole e considerado o primeiro romance gótico) é um livro absolutamente idiota que eu não acho que alguém poderia ler hoje em dia sem rir, mas em um ponto só, bate todos os outros. A única coisa que acontece é que a interessante Sensação de Deslumbramento é um capacete gigante que aparece do nada e cai no meio da praça da cidade, matando o amado da heroína. Isso acontece na página 2. Ninguém pode explicá-lo, é um capacete muito grande. Mais tarde, outros pedaços de armadura aparecem, da mesma forma, gigantescos.

Tem que ser algo na noção de grandeza que é inspiradora, que desperta o sentimento de admiração e nos faz ajoelhar e rezar. Tudo isto está relacionado ao que Freud escreveu sobre a ‘experiência oceânica’ - que é uma religião sem uma teoria, o sentimento que você tem em uma noite estrelada.

Mas isso não é tudo que existe do Sublime, porque não há nenhum sistema para tal ainda: está relacionado com o universo. As religiões sempre olham para o universo e descobrem deuses. E os deuses têm invariavelmente uma forma muito humana. É na formação da idéia de qual forma humana os deuses devem ter, é que entra o negócio de escrever histórias.


Ficção científica como uma Igreja (4/5)

terça-feira, 8 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (2/5) - Thomas M. Disch



[Ler 1/5]

Isso não esgota o paralelo entre FC e religião. É quase tão longe quanto fui em Minneapolis, e não fui bem recebido. Mas desde então, ao longo dos anos, tenho pensado sobre todas as formas de natureza religiosa do fandom de FC, e suas convenções, como uma coisa boa, especialmente se você não tem outra religião.
Se você pensar sobre alguns dos propósitos para os quais as religiões servem às pessoas, e pensar em como a FC pode servir a alguns propósitos, existe sim bastante coisa em comum.

O lado óbvio é o da vida social. Certamente quando metodistas se reúnem e decidem assar bolos e vendê-los uns aos outros, e depois sentar-se e comê-los, eles não estão realmente pensando sobre a salvação neste momento. Eles estão desfrutando do café e dos bolos com seus amigos

E é bom ter ocasiões para se reunir e tomar um café com bolo, mesmo se você for Presbiteriano, Unitarista ou fã de FC.

Depois há a questão da peregrinação. No caminho até Leeds percebi que era abril e percebi que eu estava presente em uma peregrinação. Dez quilômetros de interminável congestionamento na M1. Peregrinos, todos nós. E como diria Chaucer (escritor medieval inglês) um dos propósitos de fazer uma peregrinação não é chegar lá, mas sim trocar histórias ao longo do caminho.

Depois há o aspecto que os teólogos chamam de Ágape, ou comunhão, ou como era praticada pelos romanos, as orgias de embriaguez. Este é um aspecto importante da religião. As pessoas que lêem sobre história da religião, sabem que não há um só registro que não cite estes intervalos periódicos durante o ano, em que as pessoas precisam relaxar um pouco. E assim nós temos os feriados.

Há também o aspecto nacionalista da religião. Hoje em dia é considerado quase cafona, e nem me lembro que pertencemos a nações, mas gostando disso ou não, a nacionalidade é uma das principais formas de se classificar pessoas em grupos. No decorrer das vezes em que estive em convenções na Inglaterra (um vez estive em Bristol, e outra em Buxton) vi uma enorme quantidade de ingleses que não tinha visto antes em outra parte. E eu ficava pensando: ‘Bem, sou um turista’.

Mas se você fosse inglês, veria o mesmo e não pensaria em si mesmo como um turista. Religiões e o sistema de peregrinação fornecem maneiras de você começar a conhecer a sua nação, por assim dizer, através da experiência direta. Você visita outras cidades e você vê do que eles gostam e você vive lá algum tempo. Com pessoas convergindo de toda a sua nação, você se mistura e ouve sotaques engraçados e pede para que repitam até você poder entender o que estão dizendo. Depois de algum tempo, você tem realmente um sentido de grupo social maior. Como uma força unificadora social, uma das funções da religião sempre foi torná-lo consciente do grupo maior ao qual pertence.

Essas são coisas realmente boas sobre o sistema de convenções de FC. 


Ficção científica como uma Igreja (3/5)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (1/5) - Thomas M. Disch



Exorto-vos a meditar comigo sobre o tema da Ficção Científica (FC), como uma experiência religiosa e como uma igreja.

É domingo de Páscoa, estamos reunidos para celebrar nossos ritos peculiares, e por isso começarei o serviço agora.

A primeira vez que eu tentei elaborar algo assim, foi em Minneapolis, na primavera de 1973, quando fui a uma pequena convenção de Ficção Científica (deve ter sido por volta da Páscoa).

Duas ou três pessoas discursavam antes de mim. Enquanto falavam, ocorreu-me que esta era uma reunião religiosa, algo que nunca entendi sobre as convenções até então. Não se assemelhava ao catolicismo no qual fui criado (cresci na época em que as missas eram em Latim), mas havia uma grande semelhança entre a convenção de FC em Minneapolis e certos cultos pentecostais que eu tinha presenciado na Guatemala.

Agora que tenho o gancho, vou fazer uma digressão para falar sobre as minhas experiências na Guatemala.

Eu estava viajando com Tony Clark, um vigarista profissional que vendia relógios de ouro maciço na sua van, e a van ficou presa na lama. A única maneira para chegar onde eu queria ir, era tomar um avião que, por razões políticas parou na fronteira das Honduras Britânicas, e eu não consegui ir adiante. Não havia transporte público da fronteira para a única cidade, Belize. Então comecei a pegar carona, e não havia muito trânsito no interior das Honduras Britânicas, quando finalmente um Land Rover veio e parou para mim. O motorista era muito simpático, e eu estava muito amigável também. Acontece que ele estava lá como missionário do Evangelho Pentecostal, e achava que a Divina Providência colocara-me lá na estrada para ele me encontrar. Eu não poderia contradizer isso. Levou-me para sua casa e participei de seu trabalho. E foram horas muito agradáveis. Eles cantavam e dançavam e estavam convencidos de sua natureza especial ali: do fato de que, das poucas pessoas da raça humana que iriam ser salvas nos tempos vindouros, estavam aqueles da região central das Honduras Britânicas, os privilegiados que não iriam para o inferno, mas para o céu.

Esse é o paralelo que eu observei com Minneapolis.

Bendito é o texto, bem-aventurados são aqueles que lêem FC, porque eles herdarão o futuro.

Também há sugestões de poderes secretos, que algumas poucas pessoas possuem, sugerindo que estes poderes secretos mentais, de vários tipos, são relacionados com quem lê FC. Tais poderes, não raramente, estão associados também com a experiência religiosa. Há também a revelação feita a Noé. Como Noé, muitos escritores de FC e seus fãs, se consideram sabedores sobre a catástrofe que se aproxima (o que quer que possa ser), e estão contando em estar entre os poucos felizardos que sobreviverão.
Necessita citar capítulo e versículo?

Depois há a questão da cura e aqui vou entrar em outra digressão.

Minha primeira grande conferência de FC foi a Conferência dos Escritores de Milford (Connecticut), em 1964. Eu não conhecia ninguém em Milford de antemão e ninguém lá nunca tinha ouvido falar de mim, porque eu estava lá como convidado de Dobbin Thorpe. Dobbin havia publicado uma história surpreendente e Damon Knight gostou dela e foi assim que Dobbin foi convidado.

Eu ficaria hospedado com Walt e Leigh Richmond, proprietários da Red Fox Inn, a cerca de dez quilômetros fora de Milford. Na pousada participei de uma cena com a qual estava pouco familiarizado.
Walt Richmond estava examinando um escritor jovem de FC que também fora convidado. Ele tinha uma doença em seu joelho, relacionada com um trauma de infância e que Walt estava investigando. Acontece que este companheiro tivera todo tipo de problemas não resolvidos com seu pai, e todos eles se concentravam em engrams (conceito de neuropsiquiatria) em seu joelho. Eu não sabia sobre a teoria por trás de tudo isto, mas fiquei impressionado com o fato de que ambos entendiam o que estavam fazendo e que eles esperavam que eu também soubesse. Eu era tímido e eu não deixei Walt elucidar sobre meus engrams.Mas eu tive que contar esta história porque os Richmonds estão entre aquelas pessoas que possuem poderes psíquicos de algum tipo estranho. Escreviam livros, e Leigh explicou o método da sua colaboração.

É comum quando você escreve em colaboração com outros, as pessoas quererem saber como você realmente o faz. Walt e Leigh tinham encontrado uma técnica muito incomum e eficaz. Ele pensava no que iriam escrever e projetava isso psiquicamente. Ela sentava-se na máquina de escrever e escrevia a história que ele havia projetado para ela. Nunca tiveram que trocar uma palavra sequer!

Isto foi o mais perto que cheguei dos arcanos interiores do templo da Verdade.

Acreditar em Ficção Científica.

Os Richmonds compreendiam todo tipo de coisas sobre a Atlântida. Eles escreveram livros sobre ela, livros que eram visões de coisas que tinham realmente acontecido. Claro que ficaram um pouco irritados quando as pessoas consideravam os livros como ficção, porque sabiam que não era ficção. Mas por outro lado, eles tinham que ganhar a vida, e assim era publicada, como ficção.



Ficção científica como uma Igreja (2/5)

domingo, 6 de março de 2011

Thomas M. Disch


 
Apesar de americano, Disch era associado frequentemente com a ficção científica new wave da Grã-Bretanha - onde viveu no final dos anos 1970 - e que era centrada em autores como Michael Moorcock e M.John Harrison, invés de figuras como Philip K Dick e Ursula Le Guin nos Estados Unidos, igualmente empenhados em ampliar o alcance do gênero de suas origens.

O trabalho de Disch era conscientemente literário e ambicioso - e tornou-se ainda mais com o passar do tempo - notável desde o princípio por sua sagacidade sarcástica, fria raiva, o cinismo e a dependência da ironia e da alegoria. Em seus últimos romances e poemas, muitas vezes parecia que a sátira dera lugar à amargura.

O crítico John Clute chamou-o de "talvez o mais respeitado, mais invejado e menos lido de todos os escritores modernos de primeira linha da Ficção Científica". Ele era bem-visto pela sua poesia (que assinava como Tom Disch) por muitos que não tinham sequer idéia de que ele escrevia ficção de gênero.

Thomas Michael Disch nasceu em 2 de fevereiro de 1940 em Des Moines, Iowa, filho de um caixeiro-viajante. Ele foi educado em casa e em uma escola católica militar. Em 1953 a família mudou-se para Minneapolis-St Paul, em Minnesota, e na escola tomou gosto pela poesia, memorizando milhares de versos.

Imediatamente após a escola mudou-se para New York, onde teve uma série de empregos de curta duração como vendedor, em escritórios, livrarias, jornais e na chapelaria de um teatro. O último o levaria a carregar uma lança no Lago dos Cisnes (por trás de Margot Fonteyn) e (escondido) como um servo de Don Giovanni no Metropolitan Opera. Ele também teve uma breve passagem no exército, do qual foi prontamente dispensado por invalidez depois de um colapso nervoso. Trabalhou com seguros e, em seguida matriculou-se em cursos diversos (arquitetura) e aulas noturnas de escrita criativa na Universidade de Nova York.

Conforme os exames se aproximavam em 1962, percebeu que era provável que falhasse e, sob a perspectiva de outro colapso nervoso, dedicou o fim de semana anterior para escrever um conto ao invés de revisar seu trabalho de aula. 'The Double Timer' foi vendido por 112,50 dólares para a revista Fantastic Stories e ele desistiu dos estudos.

Posteriormente contudo (apesar de escrever) continuou em uma série de bicos (caixa de banco,  trabalhou em um necrotério, redator de publicidade) para pagar as contas. Suas primeiras histórias de Ficção Científica, reunidas em 1966 em 'One Hundred and Two H Bombs', possuia um conto, "White Fang Goes Dingo", que foi mais tarde expandido do que era conhecida como Mankind Under the Leash and The Puppies of Terra (A humanidade sob a coleira e os animais de estimação da Terra). A maior parte deste trabalho foi mais tarde reeditado na coleção 'The Early Science Fiction Stories of Thomas M Disch' (1977, editado por David G Hartnell).

Os animais de estimação da Terra reapareciam no tema do primeiro romance, 'OS GENOCIDAS' (1965). Nele os alienígenas utilizam a Terra como uma espécie de estufa. Quando os seres humanos iniciam uma luta contra a transformação de seu meio ambiente, que ameaça a sua sobrevivência, são exterminados como pulgões.

No segundo livro, os seres humanos são igualmente tratados como pouco importantes por alienígenas conquistadores, apesar de serem mantidos como animais de estimação. A indiferença do universo para o sofrimento humano foi um tema constante na obra de Disch.

Campo de Concentração (1968) descrevia uma América num futuro próximo em que os presos políticos recebem doses de uma droga que melhora consideravelmente a sua inteligência, mas reduz sua expectativa de vida apenas a poucos mês. Um tema não muito diferente de 'Flowers for Algernon' de Daniel Keyes (filmado como Charly, no mesmo ano), mas no conto de Disch, a analogia com 'Doctor Fausto' de Thomas Mann eram explícitas.

De fato, uma dificuldade persistente para a reputação de Disch era de que muitos de seus romances eram excessivamente literários para os padrões da ficção científica da época, quando o mainstream literário era definido quanto ao gênero. Nos anos posteriores, isso levou-o a afastar-se, para produzir, entre outros livros, romances de terror, críticas, poesias e peças teatrais. Mas a partir de meados de 1960 sua produção era tão prolífica como a de muitos de seus contemporâneos, que haviam iniciado suas carreiras em revistas populares.

Ele e John Sladek, colaborando sob o nome de Cassandra Knye, escreveram horror gótico, 'The House that fear built' (A casa que o medo construíu) de 1966, e dois anos mais tarde escreveu, como Thom Demijohn, um romance (não de ficção científica), 'Alice Black' (1968). Disch produziu novelizações da série de televisão 'The Prisoner' e do longa-metragem  'Alfred The Great' (ambos de 1969, este último com Victor Hastings). Outra novela, enorme, a gótica 'Clara Reeve' (1975), surgiu sob o nome de Leonie Hargreave.

Mas seus romances mais conhecidos, e mais elogiados, '334' (1972) e 'On Wings of Song' (1979), ambos de ficção científica, se passam em um futuro próximo em Nova York. O primeiro descreve a luta dos moradores de um prédio (o 334 do título, que também foi utilizado como base para a estrutura do livro) contra as restrições e a indiferença das autoridades em uma cidade distópica. 'On Wings of Song' (Nas Asas da Canção),  ganhou o Prêmio John W Campbell, era menos pessimista e mais popular que grande parte de sua obra. Celebra as artes (especialmente a ópera) como um mecanismo de transcendência espiritual em um futuro repressivo, em que o fundamentalismo dominou o meio-oeste americano.

A partir da década de 1980, quando retornou para a América, Disch concentrou-se na ficção de horror, escrevendo uma série de romances situados em Minneapolis: 'The businessman' (O Empresário) de 1984, foi seguido por 'The MD' (1989), 'The Priest' (1994) e 'The Sub' (1999) , satirizando o sonho americano, concentrando-se nas conseqüências terríveis de pessoas realizando seus desejo íntimos.

Em 1986 produziu um jogo de computador de aventura, 'Amnesia', que tornou-se popular no Commodore 64 e no Apple II. No mesmo ano, escreveu um livro infantil, 'The Brave Little Toaster', que foi transformado em um filme de animação distribuído pela Disney. 'The Brave Little Toaster Goes to Mars' veio em 1988.

Também produziu duas obras de crítica mordaz sobre a FC: 'The Dreams Our Stuff is Made Of'(1998) e 'Disch on SF'(2005), bem como dois livros de poesia, 'The Castle of Indolence'(1995) e 'The Castle of Perseverence'(2001).  Por muitos anos escreveu críticas de teatro para o jornal The Nation.

Sua própria poesia teve um público relativamente restrito, até a publicação de seus poemas selecionados, "Yes, Let's" em 1989. Foi seguido por 'Dark Verses and Light'(1991) e 'About the size of it'(2007). Sua peça 'The Cardinal Detoxes' (1990), que estava prevista para ser encenada em uma antiga escola em Low East Side, Manhattan, provocou a ira da Arquidiocese de Nova York, que possuía a propriedade. Após uma tentativa frustrada de obter uma ordem judicial impedindo a execução de ir em frente, a Igreja em seguida tentou trancar o local pouco antes da performance.

Apesar daqueles que apoiavam a peça de Disch, alegarem de que não havia nada de profano na peça, um monólogo sobre um arcebispo em uma clínica de recuperação de alcoolatras,e que matou uma mulher grávida em um acidente por dirigir embriagado e tentar subornar um juiz, Disch era, sem dúvida alguma, hostil à religião. Em seu blog no LiveJournal, que manteve até 02 de julho, ele se proclamou Deus, e encorajou leitores a erguerem santuários em seus quintais, para que suas ferramentas de jardinagem fossem dedutíveis do imposto de renda. Um de seus últimos livros, intitulado 'The Word of God' é composto por histórias curtas a partir do ponto de vista da  Divindade.

Uma figura corpulenta, tatuada, que oscilava entre o charme e a rabugice, Tom Disch viveu por muitos anos com o poeta Charles Naylor, com quem produziu várias antologias. Naylor morreu em 2005, após uma longa doença que esgotou as economias do casal. Sua casa em Barryville, New York, sucumbiu a fungos, e Naylor o tinha nomeado como inquilino do apartamento da Union Square West, Disch então esteve sob ameaça constante de despejo. Tornou-se cada vez mais deprimido, tanto por seu fracasso em obter o reconhecimento por seu trabalho e devido as circunstâncias de sua vida. No seu último post no blog, reclamava do aumento do preço dos alimentos.

Ele disparou contra si mesmo, no Dia da Independência dos EUA, em 2008.


Obituário - The Telegraph - 08 Jul 2008
http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/2271007/Thomas-M-Disch.html


Thomas M. Disch ( 334, After Pottsville, Camp Concentration, Casablanca, Come to Venus Melancholy, Descending, In Xanadu, Minnesota Gothic, On Wings of Song, Ringtime, The Businessman, The Genocides, The MD, The Pressure of Time, The Priest, The Prisoner, The Roaches, The Shadow, Understanding Human Behavior ) [ Download ]

sábado, 5 de março de 2011

Solaris - Stanislaw Lem



O que é SOLARIS?

Solaris tem vários planos.

É um quebra-cabeça, uma parábola a respeito das relações e noções humanas e uma
demonstração de que os critérios antropocêntricos e as “soluções finais” de estilo religioso são inaplicáveis no mundo moderno.

Ao nível de enredo a novela está construída como um quebra-cabeças detetivesco, com um narrador que fala na primeira pessoa e que é catapultado para o centro de uma enorme confusão, que lhe é desconhecida e que gradualmente vai compreendendo os estranhos fenômenos que se passam no planeta Solaris. O planeta é completamente coberto por um oceano orgânico; em Summa Technologiae, Lem definiu razão ou inteligência como um “regulador homeostático de segundo grau, capaz de neutralizar as perturbações do meio que a rodeia por meio de uma ação baseada em conhecimentos historicamente adquiridos” e, nesse sentido, o Oceano Solaris é, sem sombra de dúvida, uma entidade inteligente.

Acaba por reagir às atividades de uma estação de pesquisa humana, sintetizando para cada cientista uma pessoa real, que, graças a qualquer processo incompreensível, lhes tinha conseguido “extrair” da camada mais profunda da memória, arquivada nas circunvoluções cerebrais. Segundo a hipótese não completamente convincente de Lem, essa memória é um trauma provocado por um sentimento de culpa de origem erótica, e por isso cada cientista é visitado pela mulher que de qualquer modo perdeu ou desprezou. Pelo menos ...visto que Lem é propositadamente pouco claro neste ponto ... é esse o caso com o protagonista Kelvin e a sua esposa Rheya, que morrera depois de ter sido afastada dele.

Semelhante ao Gosseyn de Van Vogt, os “Duplos” (ou Espectros, como lhes chama Lem) ressuscitados são humanos, embora o Oceano tenha formado as suas albuminas a partir de neutrinos e não de átomos. Os espectros apresentam alguns traços não humanos, tal como uma necessidade inelutável de permanecer junto da pessoa “fonte” e uma força sobre-humana, quando isso lhes é vedado; contudo, não só possuem emoções e consciências humanas, como também se tornam rapidamente sociáveis quando em companhia humana, ficando cada vez mais independentes do Oceano.
Em breve, Kris Kelvin sente-se tão fortemente atraído pelo “espectro” Rheya como tinha estado pela mulher, embora de um modo sutilmente diferente.

Tal confusão biopsicológica é característica de todo um grupo de contos americanos de ficção científica, por exemplo A Case of Conscience de James Blish. Lem usa esta convenção com grande maestria, aplicando-lhe as inclinações cognitivas às relações pessoais mais íntimas e dolorosas, de preferência a aplicá-las a exóticas excentricidades xenobiológicas. Este fato enriquece as suas novelas com um calor particular e uma proximidade de referência.
Contudo, Lem usa também essa convenção como um meio para conseguir uma novela mais rica e com vários níveis. O modelo do mistério detetivesco sugere e está ligado a um dos temas básicos de Lem — o engano que há em pretender alcançar uma solução final ou o conhecimento total a respeito de qualquer situação complexa.


O homem sempre projeta os seus próprios modelos mentais sobre o universo estranho: em Solaris, esse universo muito amavelmente materializa uma.dessas projeções.

Por isso, de certo modo, as estrelas são para Lem o mesmo que a utopia foi para Thomas More, ou Brobdingnag para Swift: um espelho parabólico para os homens se verem a si próprios, um caminho indireto para compreender o nosso mundo, as espécies e os tempos.

O Oceano — o artifício básico desta novela — é um mágico mais poderoso que os feiticeiros de Glubbdubbdrib, que materializaram o passado para Gulliver com o fim de lhe ensinar a verdadeira história da humanidade. De um modo muito Swiftiano, o Oceano de Lem materializa o trauma moral mais importante de cada homem. Assim, mostra a Kelvin um país mais estranho que Solaris ou Laputa: os recônditos da sua própria alma. Nesse país há tigres: “podemos observar, como se através de um microscópio, a fealdade monstruosa que há em nós próprios, a nossa loucura, a nossa vergonha!”, proclama um dos companheiros de sofrimento de Kelvin. Por outro lado, essa é também uma terra de cordeiros; na verdade, da ressurreição de cordeiros chacinados: o sonho de sempre de uma segunda hipótese para os nossos mal aproveitados encontros pessoais, quer tenhamos tido o papel de destruidor quer o de destruído, é algo que em Solaris pode também materializar-se.

Tudo depende da personalidade de cada um: Gibarian suicida-se, Sartorius refugia-se no isolamento, Snow fica mais que semiparalisado; mas o narrador-protagonista Kelvin consegue vencer e chegar a uma nova fé num “deus imperfeito”, embora seja uma fé relativa e provisória e dolorosamente ganha.

A ciência da solarística como uma procura do Graal do “Santo Contato” entre as civilizações cósmicas foi uma tragicomédia de erros, contudo é ainda possível o Santo Contato entre personalidades ensangüentadas mas não rebaixadas, como as de Kelvin e Rheya.

O nível de parábola da novela dá a entender que tal ressurreição e contato é um mistério mais materialista que espiritualista, que é mais uma questão de história e de gente da terra que uma questão de abstrações e estrelas celestiais. Vai buscar a sua força a algumas das mais profundas e vivas heresias da história européia a respeito das relações humanas, desde a tradição que passa pelos gnósticos e joaquinitas, até ao quente socialismo utópico de Fourier e Marx.

O que é talvez mais notório é que se trata de uma parábola sem referências a qualquer sistema conhecido (por exemplo, o meio cultural polaco, a Bíblia ou os sagrados livros de Stalin). A verdade que ensina por meio da sua fábula é uma verdade aberta e dinâmica. As melhores novelas de Lem têm no seu âmago cognitivo a realização, ao mesmo tempo simples e difícil, de que nenhum sistema fechado de referência, por mais sedutor que pareça aos cansados e pobres de espírito, é viável na era da teoria da relatividade e das ciências pós-cibernéticas. As ciências do século 20 são polivalentes e podem ser utilizadas para fins amplamente diferentes entre si. A única certeza a respeito da sua metodologia é que conduz a vastas áreas de novas descobertas, técnicas e orientações, áreas onde não há fantasmas — e levam a um novo conhecimento que dá à humanidade novas séries de possibilidades por onde escolher.

As ciências modernas não dão conclusões e a antecipação na nossa era será tanto mais significante quanto mais claramente rejeitar tanto a utopia clássica do tipo de Platão e More, como a distopia do tipo de Huxley e Orwell, que anteriormente estava na moda.

Ambas são estáticas e fechadas; nenhuma faz justiça às imensas possibilidades da moderna ficção científica numa era polarizada entre a lei dos números gigantescos e a escolha étnica. Claro que a ficção científica adotou desde Wells uma filosofia da história vagamente materialista; mas, sem dialética, isso pode facilmente levar-nos de volta à velha contradição entre um otimismo fácil ou um cínico desespero. Daí que o principal horror do artista da dialética que é Lem seja a escatologia — qualquer afirmação quanto a uma perfeição final e estática, seja ela religiosa no sentido cristão ou um mito laico no estilo liberal ou pseudo marxista.
Em situações radicalmente novas, é errônea a confiança nos enquadramentos familiares da imaginação; mesmo uma ciência completamente nova como a solarística — cuja descrição, com todas as suas voltas e meandros e uma história completa com santos, heréticos e bufões, nos oferece algumas das páginas mais brilhantes da ficção científica moderna — pode tornar-se uma simples sublimação de místicas nostalgias por uma revelação final, “uma liturgia que emprega a linguagem da metodologia”.

Um motivo importante para a recusa de Lém em aceitar soluções finais é o fato de despojarem o homem das suas ilusões a respeito da realidade humana e cósmica.

É isto que torna tão imperativo o conhecimento do eu; retomando a tradição das “novelas educacionais” tão queridas dos racionalistas, as principais novelas de Lem apresentam um único protagonista (ou um grupo de protagonistas), que, enquanto investiga uma nova situação de ficção científica, vai dolorosamente aprendendo a verdade a respeito de si próprio, das suas limitações e principais pontos de força.

O enredo e a parábola fluem organicamente desta preocupação central de, à moda de Copérnico ou Bruno, destronar a teoria antropocêntrica. Só para os outros homens o homem é a medida para todas as coisas e os seus modelos mentais não podem ser projetados com utilidade sobre o universo. É particularmente lastimável, faz notar Lem, limitar as possibilidades de novos mundos ao papel antropomórfico dos nossos governantes ou sujeitos — um golpe na ficção científica ocidental, projetando a guerra fria sobre tramas cósmicas.

Poder-se-ia chamar anti-aristotélica a esta inimizade de Lem pela lógica exageradamente apreciada do “ou-ou” e pelos horizontes fechados da história (em certo sentido, muito mais que a aproximação “Null A” de Van Vogt, que depressa resvala para artimanhas de enredo). Contudo, como Lem uma vez disse, se é verdade que a história não tem princípio, meio ou fim, uma peça ou novela certamente tem.

Mas o final ou desfecho de uma novela que se quer adequada a uma cognição com abertura, e que é exigida pelas modernas ciências naturais e antropológicas, terá igualmente de ser aberta. Por isso, no final de Solaris não prevalece nem uma fé tecnocrática e liberal no progresso automático, nem um amor decadente pela morte fácil.

No capítulo final, o protagonista, que veio da Terra com o seu bloco de apontamentos, a chave do seu apartamento e as suas certezas, compreendeu uma vez por todas a utilidade dessas coisas. As ilusões escatológicas foram despedaçadas e viu que o homem pode apenas confiar em si próprio e na sua dialética da realidade: “Nunca mais voltarei a entregar-me completamente a algo ou alguém... E este Kelvin do futuro não será homem de menos valor que o Kelvin do passado; um homem que está preparado para tudo o que se lhe depare em nome de um empreendimento ambicioso, chamado Contato. E nenhum homem terá o direito de me julgar.”

Esta renúncia pode ser sociologicamente reportada às amargas experiências sofridas neste século pelos intelectuais da Europa Central. Porque Lem vem de uma região, coincidindo com o velho império dos Habsburgos, que no nosso século produziu um tão grande número de escritores, sempre harmonizados à marcha variável da história: Musil e Svevo, Krleza e Andric, Hoffmansthal e Kafka, Hasek e Capek, vêm-nos logo à lembrança. A tradição barroca deste meio ambiente está presente, sem sombra de dúvida, na imaginação de Lem. Contudo, esta foi também a região de grandes esperanças, esperanças que explodiram depois das duas grandes guerras.

O lugar único ocupado por Lem na ficção científica deve-se ao seu gênio pessoal em fundir a brilhante esperança com a amarga experiência, a visão de uma estrada aberta para o futuro com a visão dos perigos certos e possíveis derrotas, inseparáveis do risco dessa abertura. Este ângulo de “visão dupla” subverte tanto a aproximação estilo “inferno cósmico” da maior parte da ficção científica americana, como o utopismo determinístico de quase toda a ficção científica soviética, usando simultaneamente as forças de ambas; justapõe as negras centelhas da primeira aos brilhantes horizontes da segunda, de modo que cada uma das cores faz sobressair a outra.

Em cada empreendimento, a dialética de Lem encara, antes de mais, as suas contradições internas: ele é um escritor na grande tradição da agudeza de espírito que hesita entre dois níveis cognitivos diferentes. Não admira que o seu livro favorito seja o Don Quixote e que a época que o persegue seja o fim do século XVn e princípio do XVm.

Se, no final da novela, Kelvin é um homem mais sensato e mais triste, a tristeza talvez tenha sido um preço alto, mas não injusto, a pagar pela sabedoria ganha.

Isto é exprimido em termos teológicos na parábola final do “deus imperfeito... cujas ambições excedem os seus poderes”. Podemos discordar filosoficamente de Lem, mas já vimos demasiados sedutores deuses da história, devido à sua pretensa infalibilidade, transformarem-se em monstros que tudo devoram, para que possamos agora afastar as suas opiniões com mero encolher de ombros. Estão ainda demasiado próximas de nós ideologias nacionais e religiosas de todo o gênero, para que tal possamos fazer.
Bem sabemos que as mais luminosas esperanças da humanidade estão sujeitas a degenerar em justificação para uma Inquisição, as “purgas” de Stalin ou os massacres de My Lai.

O deus imperfeito, desesperante, mas também cativante, é um conceito próximo do Star Maker de Stapledon, um dos raros escritores de ficção científica por quem Lem tem admiração e a quem é comparável em categoria. Este critério cosmológico, correlativo à declaração ética da independência citada, é o que Kelvin, o protagonista de Lem, provisoriamente aprendeu com o planeta Solaris. Nós, os leitores, podemos aprender ainda mais com a novela Solaris: podemos aprender como o conhecimento se pode transformar em parábola — e sabedoria e prazer estético. Talvez tivéssemos começado a pôr em dúvida se a ficção científica teria categoria para os nossos dias, muitas vezes deprimentes, mas sempre excitantes.

A obra de Lem é um testemunho persuasivo de que tais dúvidas podem ser postas de lado. Porque Solaris — quebra-cabeças, parábola e conhecimento de liberdade— não é um aviso nem uma solução. É um exemplo daquilo que a ficção científica pode fazer: mostrar-nos a nossa era como “a era dos milagres cruéis” e era de se manter a fé.



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sexta-feira, 4 de março de 2011

Encyclopedia of Adventure Fiction


 Contents

List of Entries
Introduction
A-to-Z Entries
Bibliography of Adventure Fiction
Selected Bibliography of Secondary Sources
Index




List of Entries

Adventures of Huckleberry Finn
The Adventures of Tom Sawyer
The African Queen
Alice’s Adventures in Wonderland
Allan Quatermain
All Quiet on the Western Front
Ambler, Eric
Around the World in Eighty Days
Arthurian adventures
Beau Geste
Billy Budd
The Black Arrow
The Black Swan
Brand, Max
The Bridge Over the River Kwai
The Bronze God of Rhodes
The Bull from the Sea
Burroughs, Edgar Rice
The Call of the Wild
Canning, Victor
Captain Blood
Captains Courageous
Charteris, Leslie
Clavell, James
A Coffin for Dimitrios
The Count of Monte Cristo
The Cruel Sea
Cup of Gold
The Da Vinci Code
Destry Rides Again
Don Quixote
The Eagle Has Landed
espionage
fantasy adventures
First Blood
Forester, C. S.
The Great Train Robbery
Green Mansions
Greenmantle
Grey, Zane
Gulliver’s Travels
The Guns of Navarone
Hamilton, Donald
hard-boiled detectives
Heart of Darkness
Hercules My Shipmate
Higgins, Jack
A High Wind in Jamaica
Hopscotch
Howard, Robert E.
The Hunt for Red October
Innes, Hammond
Ivanhoe
Jamaica Inn
James Bond
Jaws
Jenkins, Geoffrey
Johnny Tremain
Journey into Fear
Kidnapped
Kim
King of the Khyber Rifles
King Solomon’s Mines
“The Lady or the Tiger?”
L’Amour, Louis
The Last of the Mohicans
“Leiningen versus the Ants”
The Lodger
The Lone Wolf (series)
Lord Jim
Lord of the Flies
Lorna Doone
Lost Horizon
“The Lottery”
Ludlum, Robert
MacLean, Alistair
The Man in the Iron Mask
“The Man Who Would
Be King”
Marathon Man
The Mark of Zorro
Marquand, John P.
The Master of Ballantrae
men’s adventure series
Moby-Dick
The Moonstone
“The Most Dangerous Game”
Mundy, Talbot
Mutiny on the Bounty
The Naked and the Dead
Night Flight
Nightrunners of Bengal
Northwest Passage
O’Brian, Patrick
O’Donnell, Peter
The Odyssey
The Old Man and the Sea
“The Open Boat”
Orient Express
The Ox-Bow Incident
The Phantom of the Opera
Prester John
Preston, Douglas
The Prisoner of Zenda
pulp heroes
The Quiller Memorandum
Raise the Titanic!
The Red Badge of Courage
Reilly, Matthew
The Reivers
The Riddle of the Sands
Riders of the Purple Sage
Roberts, Kenneth
Robeson, Kenneth
Robin Hood
Robinson Crusoe
Rohmer, Sax
Rollins, James
Scaramouche
The Scarlet Pimpernel
science fiction adventures
The Sea-Hawk
The Searchers
The Sea Wolf
The Secret Agent
The Secret Sharer
series novels for younger readers
The Shadow
Slade, Michael
Smith, Wilbur
The Spider
The Spy Who Came in from the Cold
Stewart, Mary
superheroes
Swiss Family Robinson
A Tale of Two Cities
They Came to Cordura
The Thirty-Nine Steps
The Three Musketeers
The Time Machine
“To Build a Fire”
Treasure Island
The Treasure of Sierra Madre
Treece, Henry
true-life adventures
Twenty Thousand Leagues
Under the Sea
“The Valley of Spiders”
Verne, Jules
The Virginian
Watership Down
Wheatley, Dennis
The White Company
The Wizard of Oz
The Wreck of the Mary
Deare





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quinta-feira, 3 de março de 2011

The Secret History of Science Fiction



Em 1998, o Village Voice publicou um ensaio de Jonathan Lethem intitulado "Close Encounters: The Squandered promise of Science Fiction ", que começa com uma história alternativa na qual "Gravity's Rainbow" de Thomas Pynchon era escolhida como Prêmio Nebula de 1973 pela SFWA (Science Fiction Writers of America). Na verdade, embora a obra de Pynchon tenha sido um marco da ficção pós-moderna e de fato nomeado para o prêmio Nebula do mesmo ano, o prêmio foi para "Rendezvous with Rama" de Arthur Charles Clark.

Lethem chamou a este momento "uma lápide marcando a morte da esperança de que a ficção científica estaria prestes a fundir-se com o mainstream."

{...}



Introduction 
James Patrick Kelly & John Kessel

Angouleme 
Thomas M. Disch

The Ones Who Walk Away From Omelas
Ursula K. Le Guin

Ladies and Gentlemen, This Is Your Crisis
Kate Wilhelm

Descent of Man
T. C. Boyle

Human Moments in World War III 
Don DeLillo

Homelanding 
Margaret Atwood

The Nine Billion Names of God 
Carter Scholz

Interlocking Pieces 
Molly Gloss

Salvador 
Lucius Shepard

Schwarzschild Radius 
Connie Willis

Buddha Nostril Bird 
John Kessel

The Ziggurat 
Gene Wolfe

The Hardened Criminals 
Jonathan Lethem

Standing Room Only
Karen Joy Fowler

10 16 to 1 
James Patrick Kelly

93990
George Saunders

The Martian Agent, A Planetary Romance 
Michael Chabon

Frankenstein’s Daughter
Maureen F. McHugh

The Wizard of West Orange
Steven Millhauser




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quarta-feira, 2 de março de 2011

Hollywood Utopia




Contents
ACKNOWLEDGEMENTS
FILMOGRAPHY
HOLLYWOOD UTOPIA: ECOLOGY AND CONTEMPORARY AMERICAN CINEMA
NATURE FILM AND ECOLOGY
WESTERNS, LANDSCAPE AND ROAD MOVIES
CONSPIRACY THRILLERS AND SCIENCE FICTION: 1950s TO 1990s
POSTMODERNIST SCIENCE FICTION FILMS AND ECOLOGY
CONCLUSION
BIBLIOGRAPHY
GLOSSARY OF TERMS


SELECT FILMOGRAPHY
Andromeda Strain (1970) Robert Wise
Alien Resurrection (1997) Jean-Pierre Jeunet
Blade Runner (1982) Ridley Scott
Blade Runner: The Director's Cut (1991) Ridley Scott
Contact (1997) Robert Zemeckis
Dances with Wolves (1990) Kevin Costner
Dances with Wolves - Special Edition (1991) Kevin Costner
Dark City (1998) Alex Proyas
Easy Rider (1969) Denis Hopper
Emerald Forest (1985) John Boorman
Endangered Species (1982) Alan Rudolph
Fifth Element, The (1997) Luc Besson
Grand Canyon (1991) Lawrence Kasdan
Incredible Shrinking Man (The) (1957) Jack Arnold
Invasion of the Body Snatchers (1956) Don Siegel
Jaws (1975) Steven Spielberg
Jurassic Park (1993) Steven Spielberg
Last of the Mohicans (1992) Michael Mann
Logan's Run (1976) Michael Anderson
Lost World, The: Jurassic Park (1997) Steven Spielberg
Medicine Man, The (1992) John McTiernan
Men in Black (1997) Barry Sonnenfeld
Safe (1995) Todd Haynes
Searchers, The (1956) John Ford
Soylent Green (1973) Richard Fleischer
Star Trek: First Contact (1996) Jonathan Frakes
Straight Story, The (1999) David Lynch
Terminator (1984) James Cameron
Terminator 2: Judgement Day (1991) James Cameron
Thelma and Louise (1991) Ridley Scott
Them(1954) Gordon Douglas
Titanic (1997) James Cameron
Twister (1996) Jan De Bont
Waterworld (1995) Kevin Reynolds
Yearling, The (1946) Clarence Brown


Hollywood Utopia - Ecology in Contemporary American Cinema - Pat Brereton [ Download ]

terça-feira, 1 de março de 2011

Praticamente Inofensiva - Douglas Adams



 Uma das coisas mais extraordinárias da vida é o tipo de lugares nos quais ela está preparada para sobreviver. Seja nos mares inebriantes de Santragino V, com peixes que parecem não dar a mínima para onde estejam nadando, nas tempestades de fogo em Frastra, onde, segundo dizem, a vida começa aos 40.000 graus, ou simplesmente entocada no intestino grosso de um rato pela mais pura diversão, a vida encontra uma maneira de ir levando as coisas em qualquer lugar.

Ela suporta viver até mesmo em Nova York, embora seja difícil entender o porquê.

No inverno a temperatura cai para muito abaixo do limite legal, ou pelo menos cairia, se alguém tivesse o bom senso de estipular um limite legal. A última vez em que fizeram uma pesquisa sobre as cem características mais marcantes dos nova-iorquinos, o bom senso foi parar em septuagésimo nono lugar.

No verão é quente pra burro. Uma coisa é ser uma dessas formas de vida que florescem no calor e achar, como os frastranos, que uma temperatura entre 40.000 e 40.004 graus é muito agradável. Outra coisa completamente diferente é ser um animal que precisa se enrolar nas peles de diversos outros animais quando seu planeta está em um ponto da órbita para descobrir, meia órbita mais à frente, que sua própria pele está fervendo.

Há um enorme exagero quanto à primavera. Muitos habitantes de Nova York se vangloriam orgulhosamente dos prazeres da primavera, mas, se entendessem o mínimo que fosse dos tais prazeres da primavera, saberiam que existem 5.983 lugares melhores do que Nova York para desfrutá-la — e isso sem sair da mesma latitude.

Mas o pior mesmo é o outono. Poucas coisas são piores do que o outono em Nova York. Alguns dos seres que vivem no intestino grosso dos ratos talvez discordem, mas a maioria das coisas que vivem nos intestinos grossos de ratos são bastante desagradáveis — então podemos e iremos ignorar sua opinião. Durante o outono, Nova York cheira como se alguém tivesse fritado cabras por lá e, se você estiver realmente precisando respirar, a melhor solução é abrir uma janela e enfiar a cara em um prédio.


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