sábado, 17 de setembro de 2011
O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 6)
Kane torceu uma chave. A couraça de proteção retraiu-se, revelando três botões escondidos. Ele os apertou em seqüência. Com um gemido a porta deslizou para o lado.
Entraram.
Sete trajes pressurizados alinhavam-se contra a parede. Eram volumosos, incômodos, mas absolutamente necessários para a excursão, mesmo que a análise da atmosfera exterior, feita por Ash, fosse só meio correta. Ajudaram-se uns aos outros a enfiar aquelas peles artificiais de proteção, e verificaram o funcionamento de todas elas.
Só então envergaram os elmos — o que foi feito com a solenidade e o cuidado devidos. Cada um verificou se o capacete do vizinho estava hermeticamente selado. Dallas conferiu o de Kane, Kane o de Lambert, e Lambert o do capitão. Executaram a operação com seriedade, embora mais parecessem versões espaciais de macacos numa sessão de faceirice coletiva. Ligaram em seguida os reguladores automáticos. E logo respiravam o ar dos cilindros, um pouco choco, é verdade, mas saudável e limpo.
Dallas, com uma desajeitada manopla enluvada, ativou o intercomunicador do capacete:
— Transmitindo. Podem ouvir-me?
— Recebendo — anunciou Kane, depois de uma pausa em que pôs sua própria aparelhagem para funcionar. — Você também me ouve?
O capitão fez que sim, com a cabeçorra. Depois voltou-se pesadamente para Lambert, ainda muda e emburrada.
— Recebendo — disse ela também, mas sem esconder o enfado. Não gostara nada de ser escolhida para a expedição.
— Vamos, Lambert — disse Dallas, para animá-la. — Estou levando você pelos seus méritos, não pela boa disposição.
— Obrigada pela lisonja — respondeu Lambert secamente —, mas é só também. Por que não escolheu Ash ou Parker? Qualquer dos dois teria dado saltos de alegria.
— Ash tem de ficar a bordo, e você sabe disso. Parker tem muito que fazer na casa de máquinas, e não seria capaz de sair de um simples saco sem os seus instrumentos. Não me importa que você me amaldiçoe a cada passo, desde que nos leve à fonte daquele maldito sinal.
— Maravilhoso.
— Muito bem, estamos entendidos. Não toquem nas armas sem ordem.
— Você espera mesmo companhia? — perguntou Kane, desconfiado.
— Sempre é bom estar preparado.
Dedilhou os controles externos da roupa espacial, abriu outro canal, e perguntou:
— Ash? Está me ouvindo?
Foi Ripley quem respondeu:
— O senhor oficial de ciência está descendo para sua ampola transparente de observação. Conceda-lhe dois minutos, capitão Dallas.
— Entendido — e voltando-se para Kane —, feche o postigo interno. — O executivo operou os controles necessários e a porta deslizou por detrás deles. — Agora, destranque o postigo externo.
Kane repetiu o processo que os admitira à câmara. E quando o último botão foi apertado, recuou para junto dos outros, à espera. E Lambert apertou-se contra a porta interna, numa reação instintiva em face do desconhecido.
A porta externa correu. Nuvens de vapor e de poeira cósmica dançaram à frente dos três terráqueos.
A luz da madrugada era de um laranja-calcinado. Não tinha o confortante amarelo do Sol. Mas Dallas esperava que mudasse, com a progressão do dia. Dava, em todo caso, claridade bastante para verem naquela atmosfera densa, carregada de partículas.
Pisaram na plataforma elevadora, que corria entre duas guias verticais. Kane tocou num botão, e a plataforma desceu. Tinha censores debaixo do piso para saber onde ficava o chão. Computou, assim, a distância, e deteve-se quando sua base roçou a parte superior do solo, que era de pedra escura.
Com Dallas à frente, mais por hábito do que realmente por protocolo, a pequena patrulha se adiantou cautelosamente pela superfície. Era de lava endurecida, que não cedia debaixo de suas botas. Ventos da força de vendavais açoitaram-nos quando se detiveram para um primeiro reconhecimento da paisagem. De momento, nada podiam ver, salvo o que corria por entre seus pés e se perdia na névoa alaranjada e marrom.
"Que lugar deprimente!" pensou Lambert. Não necessariamente assustador, embora a impossibilidade de ver muito adiante do nariz fosse desconcertante. Lembrava-lhe um mergulho à noite em águas infestadas de tubarões. Era impossível dizer o que poderia surgir, de chofre, da escuridão.
Talvez ela estivesse a tomar uma decisão muito drástica muito cedo, mas não pensava assim. Em toda aquela terra embuçada não havia uma só nota mais vibrante de cor. Não havia, por exemplo, nem azul nem verde. Tudo lavado em sépia e amarelo, com algum laranja, castanhos desbotados, cinzentos sujos. Nada capaz de alegrar a vista, aquecer a alma ou aliviar as preocupações da mente. A atmosfera semelhava um experimento malogrado de química com cloro e enxofre. E o chão parecia um tombadilho coberto de excreta. Tinha pena de qualquer coisa que tivesse um dia vivido ali. A despeito de qualquer evidência pró ou contra, sentia que nada vivia ali agora.
E se Kane estivesse com a razão? Talvez aquilo fosse a pervertida idéia de paraíso de alguma criatura inimaginável. Nesse caso, não gostaria de encontrá-la...
— Em que direção?
— O quê?
O nevoeiro, os vapores, lhe haviam toldado os pensamentos. Sacudiu-os dentro da cabeça.
— Em que direção, Lambert?
Dallas mirava-a, inibido.
— Estou bem. Excesso de preocupações.
Na mente, visualizava sua estação a bordo do Nostromo. Aquele assento e o seu instrumental de navegação, tão confinantes e sufocantes em condições normais, pareciam-lhe, agora, um pedaço do céu.
Conferiu uma linha na tela de um pequeno engenho que levava preso ao cinto.
— Para lá — disse. — Naquela direção. — E apontou.
— Você mostra o caminho — disse o capitão. E pôs-se imediatamente atrás dela.
Seguida, então, por Dallas e Kane, Lambert começou a caminhar, em meio à tempestade. Bastou que deixassem a massa protetora do Nostromo, para que vento e poeira os envolvessem.
A mulher parou, contrariada, e acionou os instrumentos que levava na roupa.
— Não posso ver nada!
Surpreendentemente foi a voz de Ash, que soou dentro do seu capacete.
— Sintonize o situador, Lambert. Ele está dirigido para o transmissor do sinal de socorro. Deixe que ele guie você e não mexa nele. Eu mesmo o dirigi e está correto.
— Já está ligado, Ash, e sintonizado também, ou você pensa que eu não conheço o meu ofício?
— Não quis ofendê-la — respondeu, do conforto da nave, o oficial de ciência.
Dallas falou também, da concha do seu capacete:
— O situador está funcionando a contento. Você pode me ouvir, Ash?
Dentro da sua ampola transparente, situada no ventre do Nostromo, Ash desviou os olhos das figuras que o pó ocultava a meio ou fazia dançar a distância, e fixou-os no seu console brilhantemente iluminado. Três imagens de ouro, estilizadas e hieráticas como ícones, desenhavam-se ali, nítidas e claras contra o fundo da tela. Ele tocou um controle, e ouviu-se um pequeno gemido. Sua cadeira deslocou-se para o lado, e Ash ficou alinhado precisamente com o painel aceso.
— Vejo-os perfeitamente aos três aqui na minha bolha plástica. E posso ouvi-los também com clareza. O nevoeiro não é tão espesso que interfira muito, pelo menos aqui na superfície. E como o sinal de socorro está em outra freqüência, não há perigo de superposição.
— É bom, isso. E promissor. — A voz de Dallas parecia artificial. — Estamos captando vocês muito bem. Vamos manter os canais abertos. Não queremos ficar perdidos aqui fora. Não nestas circunstâncias, neste tempo.
— Correto. Acompanharei cada passo de vocês. Mas não os incomodarei, a não ser que alguma coisa muito importante aconteça.
— Muito bem, Dallas desligando — disse Dallas. Mas deixou aberto o canal de comunicação com a nave. Depois, vendo que Lambert percebera, acrescentou:
— Estamos perdendo um tempo precioso. Prossigamos.
Sem uma palavra, ela voltou sua atenção para o situador e recomeçou a andar em meio a todo aquele lixo que se movia por si mesmo. A gravidade, ligeiramente mais baixa, reduzia o peso das roupas e dos tanques de oxigênio. Intrigava-os, porém, o enigma de um mundo tão pequeno capaz de gerar atração tão forte. Dallas anotou mentalmente que seria aconselhável fazer uma pesquisa geológica mais aprofundada da sua composição. Talvez fosse influência de Parker, mas a possibilidade de que o planeta escondesse grandes depósitos de metais preciosos não podia ser ignorada.
A Companhia, naturalmente, chamaria a si a descoberta, uma vez que fora feita a expensas dela e em horário por ela comprado a bom dinheiro. Mas, de qualquer modo, haveria polpudas bonificações. A escala involuntária poderia, afinal de contas, render alguma coisa.
O vento era impiedoso, açoitava-os sem trégua com pó e cascalho.
— Impossível enxergar a mais de três metros, em qualquer direção — queixou-se Lambert.
— Deixe de lamúrias — disse Kane.
— Mas eu gosto de me lamuriar...
— Vamos. Deixem de portar-se como crianças. O lugar não é apropriado.
— E, todavia, é maravilhoso. — Lambert não se deixara intimidar. — Intocado pelo homem, preservado pela natureza. Lugar ideal, se a gente é uma pedra.
— Já disse: chega.
Ela calou-se, mas continuou a resmungar coisas ininteligíveis. Dallas não podia proibir também que falasse entre os dentes.
De súbito, os olhos dela registraram uma informação que, momentaneamente, galvanizou seus pensamentos. Alguma coisa desaparecera da tela do situador,
— O que foi? — perguntou Dallas.
— Espere.
Ela ajustou ligeiramente o aparelho, o que era difícil, dada a espessura das luvas. A linha que sumira da face da tela reapareceu.
— Eu tinha perdido uma linha. Captei-a de novo.
— Algum problema? — Uma voz distante soou nos capacetes deles. Era Ash que se inquietava.
— Nada de importante — informou Dallas. E fez um pequeno círculo de 360 graus tentando encontrar algo de sólido na tempestade. — Ainda e sempre vento e pó. O raio do situador começa a falhar, a interromper-se. Perdemos a transmissão por um segundo.
— Ainda está bem nítida aqui atrás — Ash conferiu suas leituras. — Não penso que tenha sido a tempestade. Talvez estejam entrando em terreno mais acidentado. Isso poderia bloquear o sinal. Cuidado, então. Se o perderem e recobrarem de novo verifiquem meu próprio canal até que possam receber de novo a transmissão. Eu os orientarei daqui.
— Vamos ter isso sempre presente, Ash, mas por enquanto não é necessário.
— Comunicaremos a você qualquer problema desse tipo e dessa seriedade.
— Confere. Desligando.
Tudo ficou silencioso de novo. Andaram calados pelo vasto limbo alaranjado de partículas. Depois de algum tempo, Lambert estacou.
— Perdeu-o de novo?
— Não. Mudança de direção — gesticulou para a esquerda deles. — Temos de ir agora para lá.
Tomaram a nova direção, Lambert de olhos pregados à tela do situador, Dallas e Kane de olhos pregados em Lambert. Em volta deles, a tempestade parecia ganhar violência.
Partículas maiores faziam um barulho fino, martelante, nos visores dos capacetes, trasmudando-se no cérebro deles em palavras onomatopaicas:
Tic-tic... queremos entrar... plic, ploc... queremos entrar...
Dallas sacudiu-se como um cachorro. O silêncio, a desolação envolta em nuvens, a cerração amarelenta, tudo aquilo começava a ter efeito sobre ele.
— Está perto — disse Lambert. Os monitores das roupas transmitiram, imediatamente, ao remoto Ash, a aceleração simultânea dos seus pulsos.
— Muito perto mesmo.
Prosseguiram. Alguma coisa surgiu à frente, muito acima deles. A respiração de Dallas ficou mais curta, de excitação, mas também de esforço físico.
Desapontamento... Era apenas uma grande formação rochosa, retorcida e grotesca. A previsão de Ash de que encontrariam, provavelmente, terreno mais alto confirmou-se. Abrigaram-se por um instante à sombra do monolito. E nesse momento exato a linha desapareceu outra vez do situador de Lambert.
Aconteceu outra vez.
— Teremos ultrapassado o sinal?
Kane estudou as rochas, tentou ver por cima delas, não pôde.
— Não pode ser. Só se for uma fonte subterrânea.
Dallas recostou-se contra a parede rochosa.
— Talvez esteja por detrás disto aqui — bateu na rocha com o punho cerrado. — Ou pode ter sumido devido à tempestade. Vamos parar um pouco e ver.
Esperam ali, descansando as costas no paredão liso.
— Agora sim é que estamos cegos — disse Kane.
O dia vai raiar logo — ajustou o seu pick-up. — Ash, se me pode ouvir: quanto falta para amanhecer?
A voz do oficial de ciência soou débil, distorcida pela estática.
— O sol nasce em cerca de dez minutos.
— Poderemos ver melhor, então.
— Ou menos do que agora — disse Lambert. Não se preocupava em disfarçar seu desânimo. Estava muito cansada, e tinham ainda de alcançar a fonte do sinal. Nem se tratava de fraqueza física. A desolação, o colorido sobrenatural começavam a fatigar-lhe a mente. Tinha saudades do seu console, limpo, familiar, brilhante.
A claridade crescente não ajudava, tal como previra. Ao invés de reanimá-los, o sol nascente assustou-os, fazendo com que o ar passasse de cor de laranja a cor de sangue. Talvez tudo ficasse menos terrificante quando a fraca estrela chegasse a seu zênite.
Ripley passou a mão na fronte e deixou escapar um suspiro de exaustão. Fechou e aparafusou o último dos painéis em que estivera trabalhando, depois de verificar que os novos componentes funcionavam bem. Então, pôs suas ferramentas na bolsa.
— Agora, você mesmo pode cuidar do resto. Tudo o que era mais delicado está feito.
— Não se incomode. Nós nos arranjaremos — disse Parker. Teve o cuidado de manter a voz neutra. Não olhou, também, para ela, concentrando-se no seu trabalho. Preocupava-o ainda a possibilidade de que ele e Brett ficassem à margem das eventuais descobertas da expedição.
Ripley dirigiu-se para a mais próxima das subidas, mas acrescentou:
— Se você tiver dificuldades e precisar de mim, estou na ponte.
— Certo — respondeu Brett, pelos dois. Macio.
Parker viu desaparecer sua delicada silhueta.
— Filha da puta — disse.
Ash apertou um controle. Um trio de formas moventes entrou em foco, perdendo seus halos imprecisos, quando o acentuador se pôs em ação. Ele conferiu seus outros monitores. Os sinais dos três trajes espaciais continuavam a chegar-lhe, fortes e nítidos.
— Como vão indo? — quis saber uma voz, no intercomunicador.
Rapidamente, ele desligou a tela, e acionou seu respondedor.
— Até agora, bem.
— Onde estão eles? — perguntou Ripley.
— Aproximando-se da fonte emissora. Atingiram terreno rochoso, e os sinais falham intermitentemente, mas estão de tal modo próximos da sua origem que não vejo como poderão errar. Logo teremos notícias deles.
— Por falar no sinal, não temos mais nenhum dado sobre ele até agora?
— Não, ainda não temos.
— Você já tentou passar a transmissão pelo ECIU para uma análise mais detalhada?
— Ouça, tenho tanto interesse quanto você nisso. Mas se a própria Mãe não identificou a pulsação até agora, de que adiantaria qualquer esforço meu?
— Você se importaria se eu tentasse?
— Mas de modo nenhum! Mal não fará, e pelo menos servirá para matar o tempo. Peço unicamente que me mantenha informado, que me diga se conseguiu alguma coisa, caso tenha sorte.
Ela se afundou um pouco mais no seu assento. A ponte parecia curiosamente espaçosa agora, com o resto da tripulação ausente e Ash embaixo, na sua ampola. Na verdade era a primeira vez que se lembrava de ter ficado assim sozinha ali. Provocava uma sensação estranha, não muito agradável.
Mas se ia dar-se ao trabalho de fazer a análise do sinal pelo ECIU, cumpria começar. Bastou tocar num controle para encher a ponte com o uivo atormentado da nave alienígena. Nervosa, ela se deu pressa em reduzir o volume. A coisa já era suficientemente aflitiva em intensidade moderada.
Podia perfeitamente entender que Lambert tivesse sugerido tratar-se de uma voz. Mas isso era afinal de contas um conceito mais fantasioso que científico.
Controle-se, mulher. E veja o que a máquina tem a dizer sobre o assunto. Suas reações emotivas devem ficar fora disso.
Ciente da improbabilidade do sucesso onde a Mãe falhara, ativou um painel pouco usado. Como dissera Ash, isso, pelo menos, a ocuparia. Não suportava ficar sentada, à toa, numa ponte vazia. Pensava demais.
Melhor um trabalho de faz-de-conta do que nenhum.
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Como aprendi a parar de me preocupar com o futuro e passei a amar a Ficção Científica
Este artigo pretende ser tanto uma introdução ao conto 'Nebulous mechanisms' (Mecanismos nebulosos), quanto apresentar o conceito de prototipagem através da Ficção Científica (FC).
Na tradição do lendário Isaac Asimov, abordaremos a longa e simbiótica história entre o fato científico e FC.
Introdução
'Nebulous mechanisms', a história que acompanha esta introdução, é uma obra indiscutível de FC. Firmemente enraizado na rica história do gênero, está repleta do que você poderia esperar encontrar, estações espaciais, mineração de asteróides, viagens espaciais, robôs e uma boa e saudável dose de drama - todos os ingredientes para um bom e velho conto de FC. 'Nebulous mechanisms' contudo é um pouco mais do que apenas uma boa história, é um protótipo ficcional. A idéia fundamental do conto está baseada em um ensaio chamado 'Using Multiple personas in Service Robots to improve exploration strategies when mapping new Enviroments (Usando múltiplas personas em robótica para melhorar as estratégias de exploração quando mapeando novos ambientes) (Egerton, Callaghan, Clarke).
Usamos a história como um experimento intelectual para explorar a teoria e para examinar suas implicações no futuro imaginado. Pense nisso como uma realidade virtual no papel, projetado especificamente para testar as possíveis ramificações da teoria. 'Nebulous mechanisms' foi o primeiro de uma bem sucedida série de contos de FC baseada em teorias emergentes na pesquisa robótica, ciência da computação, artificial inteligência e na neurociência.
Nesta introdução eu queria falar um pouco da história da Prototipagem através da Ficção Científica, antes de você querer ir em frente e ler o conto. Eu não quero adiantar o final, mas você pode querer descobrir por que robôs no planeta anão Ceres 1 estão indo à igreja...
1) A ficção científica é a única e verdadeira literatura do século vinte (1).
A mistura de ficção científica e fato científico não é revolucionária, a relação simbiótica remonta centenas de anos atrás. Tem sido bem documentado que a FC inspirou gerações de cientistas, pesquisadores e até astronautas. O autor britânico de FC, inventor e futurista Arthur C. Clarke resumiu desta forma, em seu ensaio 'Aspects of Science Fiction' (Aspectos da ficção científica).
"Todos os pioneiros da astronáutica foram inspirados por Jules Verne, e vários (por exemplo, Goddard, Oberth, von Braun) escreveram ficção para popularizar suas idéias. E eu sei por experiência própria que muitos astronautas americanos e cosmonautas soviéticos foram inspirados para assumir suas carreiras por conta das histórias que leram quando crianças. (Uma de minhas posses que mais me orgulho é uma monografia, 'Wingless on Luna', com a dedicatória: "Para Arthur, que visualizava os nuances do vôo lunar antes de eu os ter experimentado! - Neil Armstrong”)” (2).
Como assinala Clark, o fato científico e a ficção tem sido mesclados explicitamente na maioria do século XX. Físicos e pioneiros de foguetes Robert Goddard, Hermann Oberth e Wernher von Braum usaram histórias como uma forma de divulgar os seus pensamentos, enquanto o astronauta Neil Armstrong foi inspirado e impulsionado pela ficção de Clark.
Na década de 1970 todo um subgênero de ficção científica surgiu em torno escritores alinhados com as chamadas "Hard sciences" (por exemplo, informática, astronomia, física, química, etc.) O autor norte-americano de FC, Alan Steele, definiu o subgênero como: "FC Hard é uma forma de literatura que utiliza tanto a ciência estabelecida ou cuidadosamente extrapolada como sua espinha dorsal." (3)
Muitos críticos vêem a FC Hard como a única e legitima ficção científica porque se baseia na ciência real, em oposição a FC Soft, ou mesmo pseudociência ou fantasia científica que aborda viagem no tempo, poderes extra-sensoriais e super-heróis. Independentemente como você se posiciona neste debate, é claro que a pesquisa, a teoria e a prática científica, têm um efeito considerável por vezes, polarizando a ficção científica.
O século XXI trouxe-nos algumas explorações fascinantes sobre a relação específica entre ficção científica e tecnologias que estão sendo criadas.
Genevieve Bell e Paul Dourish em seu artigo 'Resistance is Futile:Reading Science Fiction alongside Ubiquitious Computing ' (Resistir é inútil: A Leitura de Ficção Científica e Computação Ubíqua) argumentam que o entendimento de ficção científica, no caso programas de TV populares britânicos e americanos como Dr. Who e Star Trek, são essenciais na concepção de novas tecnologias. Eles afirmam que a ficção científica pode ser utilizada como uma ferramenta para o design. O as visões futuristas da sci-fi expressas em programas de televisão podem ser usadas para entender a imaginação coletivo das pessoas quanto a como devem parecer as tecnologias do futuro, permitindo assim que os cientistas desenvolvam tecnologias e produtos que são facilmente compreendidas.
[Nota do tradutor: Computação ubíqua é definida como "máquinas que estão inseridas no ambiente humano sem forçar que nós entremos no ambiente delas".]
"Indiscutivelmente, uma gama de tecnologias contemporâneas - de PDAs a telefones celulares - adotaram as suas formas e funções da ficção científica. Tal como no famoso caso do escritor britânico de ficção científica Arthur C. Clark e sua invenção "especulativa' das comunicações via satélite, a FC não somente antecipou, mas deu forma ao futuro tecnológico ao afetar o imaginário coletivo. Ao mesmo tempo, a FC na cultura popular fornece um contexto em que novos desenvolvimentos tecnológicos são facilmente entendidos. Visões forjadas na ficção científica aparecem como protótipos para cenários tecnológicos (4)
Julian Bleecker expandiu essa noção em sua ficção recente 'Design Future; A Short essay on design, science, fact and fiction' (Design futuro: Um breve ensaio sobre design, ciência, fato e ficção). Bleecker vê a interação entre a FC e a ciência como um terreno fértil para a inspiração e criações de protótipos físicos. Estas ferramentas de design são tanto reais e falsas, operacionais e simbólicas, sério e irônico. Bleecker os descreve como uma conflação "de design, ciência e FC ... a amálgama de práticas que juntas dirigem as expectativas do que cada uma faz por conta própria e as funde em algo novo." (5)
Como 'Design Future' de Bleecker, protótipos de ficção científica como 'Nebulous Mechanisms', procuram um meio termo produtivo entre ciência e ficção. Eles são uma nova lente através da qual as teorias emergentes podem ser vistas de uma forma diferente, livremente exploradas e, finalmente desenvolvidas. Bleecker faz uma excelente observação: "produtivamente, embaraçar ciência e ficção científica pode ser o único caminho para a ciência de verdade alcançar algo além de si mesma e conseguir mais do que as formas costumeiras de inovação incremental ". (6)
É precisamente esta fusão produtiva e a união de ciência e ficção que pode desbloquear, ampliar e expandir as fronteiras do pensamento científico atual.
2) Uma boa história de FC, acima de tudo, apresenta uma ideia poderosa. (7)
A abordagem para 'Nebulous Mechanisms' e histórias que praticam a prototipagem através da ficção científica, deve ser simples como uma história bem contada e tão complexa quanto a teoria científica em que se baseou.
Para compreender o funcionamento da protótipo de ficção científica é útil separar o funcionamento do conto em si para entender melhor como o experimento é conduzido.
Alan Moore, autor de Watchmen e 'V for Vendetta' (V de Vingança), fez um trabalho eficiente ao dissecar a estrutura da narrativa em seu ensaio 'Writing for Comics'
(Escrevendo para quadrinhos). Ele descreve os componentes essenciais de uma história como enredo, ambiente, personagens e ritmo, mas central para cada história deve haver uma idéia. Para Moore, a história é construída sobre a idéia, é a razão de ser da história, é o que impulsiona todos os outros componentes. Todos os outros componentes da história servem para facilitar a compreensão da idéia central.
Aplicando o exemplo de Moore, a idéia em 'Nebulous Mechanisms' foi originada pelo ensaio 'Using Multiple personas in Service Robots to improve exploration strategies when mapping new Enviroments (Usando de múltiplas personas em robótica para melhorar as estratégias de exploração quando mapeando novos ambientes). Mas para o protótipo ser bem sucedido não podemos parar em uma idéia atraente. Os leitores devem aceitar o futuro imaginado como real, plausível e aceitável. Eles devem ser atraídos para o drama, a história deve prender a atenção do leitor; Manter um nível adequado de suspensão de descrença. Este nível de descrença pode ser usado como um teste da validade do protótipo.
O leitor acredita naquele mundo? A ciência está invisível na ação escondida sob a capa da ficção?
Moore descreve a necessária suspensão da descrença desta forma:
"A meu ver, uma história de sucesso de qualquer tipo, deve ser quase como hipnose: Você fascina os leitores com sua primeira frase, atrai mais com a sua segunda frase e os coloca em um transe suave na terceira. Então, tomando cuidado para não acordá-los, você os carrega para os becos de sua narrativa e quando eles estão irremediavelmente absortos dentro da história, rendidos a ela, você os pega violentamente com um bastão de softball, em seguida, levá-os choramingando até o fim na última página. Acredite em mim, eles vão te agradecer por isso. O importante é que o leitor não deve acordar até que você queira..." (8)
O sucesso do experimento está no equilíbrio tênue entre a credibilidade da história e da exploração da teoria científica. É dentro destes controles e balanços que podemos explorar a beleza da teoria científica amarrada ao drama realizável no mundo real.
3) Às vezes, um robô é apenas um robô
Nos últimos 50 as introduções das antologias sobre histórias de robôs dirão que a era deles chegou. Estamos rodeados de robôs que constroem nossos carros, pilotam nossos aviões, trabalham em nossas fábricas, em nossos elevadores e até mesmo bombardeiam nossos inimigos. Os robôs do mundo real evoluíram para além do "homem de metal" da ficção científica e tornaram-se ciborgues, IAs e outros agentes inteligentes. Thomas M. Disch na introdução para seu essencial exame da ficção científica, 'The Dreams our stuff is made' diz que "o robô tem sido empregado para uma grande variedade de fins dramáticos (9).
Desde que Karel Capek cunhou o termo robô em sua peça de 1920, 'RUR' (Rossum's Universal Robots), os robôs têm sido largamente empregados por autores de ficção científica. Eles expressaram o nosso mais terrível temor sobre a desigualdade de gênero, classe e raça. A partir dai se pensa que quando você vê um robô em qualquer história, então deve ser uma representação de algo mais.
Quem é o robô e o que faz deve significar alguma coisa.
Mas há alguns casos, como em 'Nebulous Mechanisms', um robô é concebido para ser apenas um robô. No início, havia basicamente dois tipos de histórias de robô.
O primeiro foi baseado no enredo básico faustiano de Frankenstein. Cientista cria robô.
Robô mata cientista. Muito simples. Isaac Asimov, no início de sua carreira reconheceu esta abordagem faustiana padrão.
"... Uma dos enredos mais comuns na ficção científica é o da invenção de um robô, geralmente retratado como uma criatura de metal, sem alma ou emoção. Sob a influência do destino final de Frankenstein ... parecia haver apenas um enredo. Robô é criado e destrói seu criador, robô é criado e destrói seu criador, robô é criado e destrói seu criador ..." (10)
O segundo tipo de história de robô surgiu nos Estados Unidos em meados do século XX. Sam Moskowitz em sua introdução 'The Coming of the Robots' assinala que "Psicologicamente o tempo estava maduro para o assalto contra o preconceitos dos leitores sobre robôs. " (11)
Ele passa a descrever duas histórias semelhantes publicadas dentro de algumas semanas uma da outra em 1938. 'I Robot' por Eando Binder inverte o enredo de Frankenstein e 'Helen O'Loy' de Lester Del Rey, que apresenta um mundo onde os robôs progrediram tanto que são indistinguíveis dos seres humanos. Na história, dois amigos depois de comprar um robô, acham que o robô está amando um dos proprietários, Dave. Ambos são histórias pungentes e para pré-adolescentes. Helen O'Loy é descrita como "um sonho em plástico e metal." (12)
Em última análise, Helen que é incapaz de envelhecer, cuida de seu amor até o final, colocando linhas de idade em seu rosto e tingindo os cabelos de grisalho para pensar que está envelhecendo com ele.
Eu explorei temas similares em meu romance 'Fake plastic love' (Amor plástico de mentira), expandindo o conceito de Del Rey do robô doméstico na bela Ann-Mar, que se parece com a estrela do cinema americano Ann Margaret com o vocabulário de uma revista de fofocas. "Ela era basicamente uma garota dos sonhos... seu cabelo vermelho sintético era perfeito demais. Seus lábios também, com o permanente batom vermelho." (13) Ambos os robôs possuem interesses amorosos e ambos são descaradamente robôs, porem enquanto Helen se esforça para ser humana, Ann-Mar continua a ser inequivocamente um robô.
É neste ponto que chegamos a 'Nebulous Mechanisms'. Os robôs da história são realistas ou pelo menos representações realistas de robôs que se esforçam para ser mais do que o que são. Eles não aspiram a participar nos assassinatos de vingança de seus mestres Frankenstein nem se esforçam para "passar" ou tornar-se humano. Os robôs de 'Nebulous Mechanisms' são robôs e apenas isso,.
4) Como amar a Ficção Científica
Se você ainda não adivinhou, vou ser honesto com você, eu amo a Ficção Científica.
Dois dos meus maiores afetos são o rigor intelectual da investigação científica e o desenvolvimento de tecnologia, bem como uma boa e desafiadora história de FC.
A ficção científica é o playground do intelecto. Muitas pessoas se enganam quando pensam que o objetivo do gênero é o de prever o futuro. Se isso fosse verdade, então o a FC teria uma péssima reputação dado seus muitos enganos.
Não, a ficção científica cria não apenas um futuro único, mas vários futuros; uma grande variedade de Terras e inúmeras variações sobre a humanidade e a tecnologia. Se você olhar para trás, você verá que escritores de ficção científica se mantiveram por quase cem anos. Eles têm escrito sobre a era espacial, muito antes assim como após o ocorrido. Eles sonharam sobre os canais de Marte e as realidades desse planeta fascinante vermelho. Toda esta especulação e energia produziram um efeito interessante sobre você e eu.
Andy Sawyer capturou este efeito em seu ensaio 'Tales of Future Passed: A Kipling Continuum and other lost World of Science Fiction' (Contos do Futuro passado: O Continnuum de Kipling e outro Mundo Perdido da Ficção Científica).
Ele escreveu:
"Nós lemos muitas histórias envolvendo as primeiras viagens à Lua, colônias lunares e a exploração do espaço, agora que temos internalizado um conjunto virtual de histórias de viagens espaciais como resultado, não conseguimos entender completamente que de fato isso não aconteceu." (14)
Estes futuros que Sawyer descreve estão alojados em nossa história cultural coletiva.
O futuro e a ficção científica se misturaram em nossa educação e na imaginação a tal ponto que não há meio melhor para usar como uma plataforma para prototipagem de ficção. Prototipagem através da ficção científica nos permite criar múltiplo mundos e uma grande variedade de futuros para que possamos estudar e explorar os meandros da ciência moderna. São uma ferramenta poderosa destinada a melhorar as práticas tradicionais de pesquisa e design. As descobertas que fazemos com esses protótipos podem ser usados para questionar e explorar o pensamento atual em um nível jamais abordado no passado; ou seja, usando múltiplas realidades e futuros para testar as implicações e complexidades da teoria. Além disso, a resposta dada pode fornecer uma arquitetura de tecnologia da experiência do consumidor, investigação e formação como um usuário pode encontrar, explorar e, finalmente, usar essa tecnologia.
A Ficção Científica nos permite ver sob uma nova luz, à luz de um futuro novo, que não é nosso, mas reflete diretamente quem somos e para onde podemos estar indo e sob esta mesma lente quanto à ciência, permite-nos ver os múltiplos futuros a partir da teoria que estamos formulando hoje.
por Brian David Johnson
Mecanismos Nebulosos - Brian David Johnson [ Download ]
[1] J. G Ballard, Literary Review, 2001.
[2] A. C. Clark, Greetings, Carbon-Based Bipeds!, St Martin’s Press, 1999.
[3] A. Steel, Hard Again, New York Review of Science Fiction, 1992.
[4] P. Dourish, G. Bell, Resistance is Futile: Reading Science Fiction and Ubiquitous Computing. 2009.
[5] J. Bleecker, Design Fiction: A short essay on design, science, fact and fiction, 2009.
[6] J. Bleecker, Design Fiction: A short essay on design, science, fact and fiction, 2009.
[7] J.G. Ballard, Sunday Times, 1985.
[8] A. Moore, Alan Moore’s Writing for Comics, Avatar Press, 2008.
[9] T. M. Disch, The DREAMS OUR STUFF IS MADE OF: How Science Fiction Conquered the World, Free Press, 2000.
[10] I. Asimov, Introduction. The Rest of the Robots, Doubleday, 1964.
[11] S. Moskowitz, Introduction, The Coming of the Robots, Crowell-Collier Publishing Company, 1963.
[12] L.D. Rey, Helen O’Loy, Street and Smith Publications, 1938
[13] B. D. Johnson, Fake Plastic Love, iUniverse, 2007
[14] A. Sawyer, Tales of Futures Passed: The Kipling Continuum and other lost World of Science Fiction,
World Weavers: Globalization, Science Fiction and the Cybernetic Revolution (2006), p126
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Empty-World
Empty World. Um site dedicado à literatura e ao cinema que retrata o fim do mundo, o apocalipse, a guerra nuclear, praga, seca, fome e guerra... Populações dizimadas e sobreviventes lutando para reconstruir suas vidas após o evento apocalíptico...
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Space Monster
Filmes clássicos de FC, Terrror, do fantástico em geral, enfim, tudo que a gente aqui do Capacitor Fantástico gosta, você vai encontrar no excelente blog SPACE MONSTER.
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Tag: cinema, Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Bowie2001
Que tal juntar um dos maiores artistas da música mundial com um filme que marcou a história do cinema?
O resultado desta incomum, mas bem sucedida união, pode ser vista e ouvida graças ao trabalho do DJ e produtor musical, o brasileiro (apesar do nome) Fritz Von Runte.
Autor de diversas estrepolias sonoras,o veterano Fritz Von Runte se inspirou nas imagens do clássico 2001 - Uma Odisséia no espaço de Stanley Kubrick, para criar o projeto BOWIE2001, uma experiência audiovisual maravilhosa, mesmo para quem não é fã do músico.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Minority Report - Philip K. Dick
O conto Minority Report (O relatório da minoria) de Philip K.Dick foi publicado a primeira vez em 1956 e aborda, como outros trabalhos seus, a questão do livre-arbítrio. Neste conto, PKD nos apresenta o Precrime, um nova tecnologia capaz de detectar crimes antes que eles aconteçam.
Precrime
Definido como um sistema profilático de segurança, o Precrime pune, com a detenção, pessoas que no futuro próximo cometerão um crime. O método substituiu o sistema tradicional de investigação-acusação-veredito, quando se tem uma vítima e se busca punir o culpado (ou culpados) pelo crime.
Como é dito no livro:
"A punição nunca foi um impedimento e dificilmente proporciona conforto para a vítima já morta".
O Precrime é baseado na noção de que assim que um caminho desagradável futuro é identificado, um caminho alternativo e melhor pode ser criado com a prisão antecipada do futuro agressor.
No cerne do sistema estão três mutantes conhecidos como 'PRECOGS', seres humanos que foram diagnosticados ao nascer como retardados (hidrocefalia) e que possuem a habilidade de 'ver o futuro' - um futuro próximo, somente algumas semanas adiante. Apesar da aparência humana, os PRECOGS são basicamente cérebros - seus corpos estão deformados e não possuem consciência ou qualquer ligação com o mundo real. Eternamente presos às máquinas que os mantém vivos, suas atividades cerebrais são monitoradas, decupadas e analisadas por computadores que transformam suas visões aleatórias em simbolos interpretáveis e que são convertidas, em parte, em predições (as informações não pertinentes à segurança dos cidadãos são passadas para outras agências governamentais). Os resultados finais são analisados conjuntamente pelo Precrime e pelas Forças Armadas, evitando, assim, qualquer tipo de manipulação.
O sistema funciona da seguinte maneira: A interpretação das visões de cada PRECOG gera um relatório. Conforme são comparados e analisados, um relatório pode diferir do outro e o computador escolhe aqueles dois que mais se assemelham e então produz o relatório da maioria, considerado a predição mais acurada. Porém, sua existência implica na existência de um relato da minoria também, que acaba sendo desprezado.
A história inicia quando o comissário do Precrime John Anderton é apontado como o assassino de um homem desconhecido...
O Filme
Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise (como o capitão John Anderton) a adaptação para o cinema é apenas vagamente baseado no conto de PKD. Estilicamente, o filme, que se passa em 2054, é uma combinação de ficção científica e thriller de ação, com uma forte dose de 'film noir', principalmente na concepção das imagens dessaturadas.
Lançado em 2002 e orçado em 142 milhões de dólares, teve sua produção iniciada muito tempo antes, em 1997, logo após Total Recall, outra adaptação de um conto de PKD. O roteiro escrito por John Cohen foi apresentado ao ator e produtor Tom Cruise (que na época estava compromissado com a série Missão Impossível) que o entregou ao amigo, o diretor Spielberg, que se mostrou bastante interessado. A produção iniciaria somente quatro anos depois, quando Spielberg, já de pré-contrato assinado, passou a encontrar-se com diversos cientistas e pesquisadores, a fim de conceber um futuro plausível para o filme. A filmagem acabou sendo postergada por conta do atraso dos projetos de Cruise e Spielberg (trabalhando em I.A). Posteriormente o roteirista Scott Frank precisou reescrever o roteiro de Cohen, acatando sugestões do diretor para acentuar os vilões e os mocinhos da trama.
Nas palavras de Steven Spielberg: "A história de Philip K. Dick era só o trampolim. A maior parte do filme não segue a história - para o desgosto dos fãs Philip K. Dick, tenho certeza."
Ocasião e coincidência.
O conto de 1956, mesmo sem se passar em um tempo definido, reflete as preocupações de PKD (um eterno paranóico), com os rumos da política daquela época. Os roteiristas do filme captaram antecipadamente o frenesi anti-terror gerado pelo 11/9. A intuição de Dick foi trazida para as telas do cinema, justo no momento que tal especulação passou a se materializar na vida real de diversas formas, como o banco de dados para crimes futuros e a predição de roubos da polícia de NY.
Minority Report - A nova lei - Phulip K. Dick [ Download ]
Minority Report - Roteiro de Scott Frank [ Download ]
Minority Report - Roteiro de Jon Cohen [ Download ]
domingo, 11 de setembro de 2011
Secret Cinema apresenta Alien
Esqueça o multiplex. Vida longa para o Secret cinema !!
Já falamos aqui no Capacitor Fantástico sobre este grupo maravilhoso Future Cinema que através de sessões clandestinas em Londres, propõe uma outra maneira de curtir o cinema, como uma grande festa reunindo encenação teatral, circo, música, imagem e magia, sim, verdadeira magia.
sábado, 10 de setembro de 2011
O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 5)
III
Talvez fosse melhor para a paz de espírito de todos se a emergência tivesse continuado. Mas com a energia e as luzes recuperadas e nada a fazer senão olharem uns para os outros, os cinco tripulantes da ponte começaram a ficar irrequietos.
Não havia lugar bastante para estender as pernas ou descansar. Um só dentre eles que se pusesse a andar de um lado para o outro ocuparia todo o espaço disponível do convés. Então, sem assunto, puseram-se a lustrar seus respectivos consoles, a consumir quantidades imoderadas de café pedido ao cozinheiro automático e a revolver o cérebro em busca de alguma ocupação que os impedisse de pensar na apertura em que se achavam metidos. De qualquer maneira, preferiam não especular em voz alta sobre o que pudesse existir do lado de fora, talvez até na vizinhança mais imediata da astronave.
De todos eles, só Ash parecia relativamente alegre. Sua única preocupação no momento era a condição mental dos seus colegas.
Não havia distrações a bordo. O Nostromo era um simples cargueiro, um rebocador, uma nave de serviço. Não um iate de recreio. Uma vez livre das tarefas que lhe incumbiam, sua tripulação passava o tempo nos confortáveis abismos do hipersono.
Era natural, por isso, que uma vigília ociosa causasse nervosismo, sobretudo em circunstâncias tão incertas.
Ash, no entanto, podia passar e repassar problemas teóricos no computador sem jamais entediar-se. Achava inclusive estimulante esse tempo acordado.
— Alguma resposta aos nossos chamados externos? — Perguntou o capitão, debruçando-se em sua cadeira para ver melhor o oficial de ciência.
— Já tentei todos os sinais que constam do manual mais a associação de idéias.Também deixei que a Mãe experimentasse uma abordagem estritamente mecanológica. Tudo pura perda de tempo — Ash sacudiu a cabeça e pareceu desapontado. — Sempre e exclusivamente o mesmo sinal de alerta, repetido a intervalos regulares. Todos os outros canais permanecem vazios. Tudo o que se pode captar é uma ligeira crepitação em... deixe-me ver... zero ponto três três. E apontou para cima com o polegar. — A Mãe diz que se trata da descarga característica da estrela central deste sistema. Se alguma coisa ou alguém está vivo, nada mais pode fazer senão enviar aquele sinal de alerta ou pedido de socorro, ou o que seja.
Dallas fez um barulho grosseiro.
— Temos plena potência agora. Vamos ver onde estamos afinal. Pise, aí, no chão.
Ripley acionou o comutador. Um colar de luzes poderosas, pérolas brilhantes no engaste tenebroso do Nostromo, acendeu-se do lado de fora das escotilhas.
O vento e o pó cósmico ficaram mais evidentes então, formando às vezes pequenos redemoinhos no ar, soprando às vezes em linha reta com incrível força na linha visual deles. Rochas isoladas, protuberâncias e crateras eram os únicos acidentes na paisagem devastada. Nenhum sinal de vida, nem um traço de líquen, nenhum arbusto mesmo enfezado, nada.
Só o vento e o pó, girando na noite alienígena.
— E o tal oásis? — disse Kane, baixinho.
Nada. Desolação monótona, inóspita.
Dallas levantou-se, caminhou até uma escotilha e ficou a contemplar a tempestade incessante, as lascas de rocha que ricocheteavam contra o vidro espesso. Perguntava-se se jamais o ar se aquietaria num planeta desses. Por tudo o que tinham logrado saber das condições locais, o Nostromo poderia muito bem ter descido num claro dia de verão. Mas isso era improvável. Aquele globo não tinha dimensões suficientes para produzir condições meteorológicas deveras violentas, como as de Júpiter, por exemplo. Consolava-se até certo ponto com isso, isto é, com a convicção de que o tempo lá fora não podia ficar muito pior. As peculiaridades do tempo no lugar foram, inevitavelmente, o principal assunto das conversações.
— Não podemos sair. Não podemos ir a lugar nenhum com um tempo desses — disse Kane. — Pelo menos, não no escuro.
Ash levantou pela primeira vez os olhos do seu console. Não se mexera. Parecia feliz, física e mentalmente. Kane não podia entender como o oficial de ciência conseguia isso. Se ele mesmo não tivesse deixado, várias vezes, sua própria estação, já estaria louco àquela altura.
Ash percebeu o olhar do chefe, e forneceu alguns dados tentadores:
— A Mãe diz que o sol local nasce dentro de vinte minutos. Se nos decidirmos a ir a alguma parte, não será nas trevas.
— Já é alguma coisa — admitiu Dallas, agarrando-se àquela última gota de encorajamento. — Se esses que nos chamaram não dizem mais ou se não podem dizê-lo, cabe a nós irmos em busca deles. Ou do objeto sinistrado, se a pulsação que ouvimos for apenas automática. A que distância estamos da fonte transmissora?
Ash analisou suas leituras e ativou uma plotadora ao nível do solo para confirmação.
— A cerca de três quilômetros, quase tudo em terreno plano, tanto quanto os examinadores automáticos são capazes de descobrir. A fonte transmissora está a nordeste da nossa presente posição.
— Composição do terreno?
— Parece ser a mesma que determinamos grosso modo na descida. A mesma matéria dura sobre a qual estamos pousados agora. Tudo basalto maciço, com variações menores. Embora eu não exclua a priori a possibilidade de encontrar alguns bolsões amigdaloidais, aqui e ali.
— Teremos cuidado, então.
Kane conferia mentalmente distâncias e prováveis tempos de percurso.
— Pelo menos, é suficientemente perto para irmos a pé.
— Sim — Lambert parecia satisfeita. — Eu não gostaria de mover a nave. Uma descida vertical, de órbita para terra, é infinitamente mais fácil de planejar que um deslizamento na superfície com um tempo desses.
— OK. Sabemos pelo menos em que solo vamos pisar. Resta descobrir o que teremos de atravessar. Ash, por favor: uma análise preliminar da atmosfera.
O oficial de ciência acionou os seus botões. Uma pequena vigia se abriu como uma boca na pele do Nostromo. Por ela um frasco de metal foi exposto ao vento, sugou uma porção infinitesimal da atmosfera daquele mundo, e recolheu-se.
A amostra foi despejada numa câmara de vácuo. Instrumentos dos mais sofisticados puseram-se a esquadrinhá-la, parte por parte. E em breve essas partes de ar começaram a aparecer sob a forma de números e símbolos nas janelas do console de Ash.
Ele as analisou rapidamente, pediu a repetição de uma leitura, depois apresentou um sucinto relatório aos companheiros.
— A mistura é quase primitiva. Grandes quantidades de nitrogênio inócuo, algum oxigênio, alta concentração de dióxido de carbono em liberdade. Há também metano e amônia, uma parte em estado congelado... Faz frio, senhores, lá fora. Vou examinar agora com maior detalhe os diversos elementos constituintes, mas não espero qualquer surpresa. Tudo me parece standard — e, naturalmente, irrespirável.
— Pressão?
— Dez ao quarto dinas por centímetro quadrado. Não nos deterá ou atrasará, a não ser que o vento realmente se desencadeie.
— E a umidade? — quis saber Kane, em cuja mente as imagens de um oásis extraterreno começavam a desvanecer-se, como se desvanecem, via de regra, as miragens.
— Noventa e oito duplo P. Talvez não cheire bem, mas que é úmido não tenho dúvida. Vapor dágua em quantidade. Uma mistura bizarra, podem crer. Jamais imaginei encontrar tanto vapor d’água coexistindo assim tranqüilamente com o metano. Não aconselharia que alguém bebesse água das eventuais nascentes. Talvez nem seja água...
— Alguma outra coisa que a gente precise saber?
— Só que o escudo fundamental basáltico é de lava fria e dura. E que o ar também é frio, muito abaixo dos níveis suportáveis — informou Ash. — Precisaríamos de roupas especiais para suportar temperaturas tão extremas, mesmo que o ar fosse respirável. Se existe vida nessas condições terá de ser muito robusta.
Dallas pareceu resignado.
— Teria sido absurdo esperar outra coisa. A esperança, porém, é a última que morre. O pouco de atmosfera que existe serve apenas para atrapalhar a visão. Eu preferia não ter atmosfera nenhuma, mas afinal de contas não fomos nós que projetamos essa rocha.
— Nunca se pode saber — disse Kane, de novo em tom filosófico. — Talvez para outros, isso seja o paraíso...
— De qualquer maneira — disse Lambert —, não me parece o caso de excomungá-lo. Poderia ser mil vezes pior!
Depois olhou o vendaval lá fora. Amainava, agora que o dia vinha raiando.
— Eu, por mim, prefiro isso a ter de descer num gigante de gás, com ventos de 300 km em momento de calmaria e 10 ou 20 gravidades pela frente. Pelo menos podemos andar por aí sem precisarmos de estabilizadores ou apoio do gerador. Vocês não sabem a sorte que têm!
— Curioso, mas não me sinto uma felizarda — disse Ripley. — Preferiria muito mais estar de volta ao meu hipersono. — Alguma coisa se moveu aos seus pés, e ela se abaixou para acariciar a anca de Jones, o gato. O animal, gratificado, soltou um ronrom.
— Oásis ou não oásis — disse Kane, com vivacidade —, eu me apresento como voluntário para descer na frente. Gostaria de uma oportunidade de observar nosso misterioso sinal. Nunca se sabe o que se vai encontrar.
— Jóias? Dinheiro? — perguntou Dallas, sem esconder um sorriso. Eram notórias a ingenuidade e boa-fé de Kane.
O executivo deu de ombros:
— E por que não?
— OK. Estou ciente. — Ficou entendido que Dallas seria também um dos membros da pequena expedição. Ele olhou em volta, procurando mais um elemento para completar o grupo. Ninguém se candidatou.
— Lambert. Você.
— Está bem. Mas por que logo eu?
— E por que não você? Você é a nossa indicadora natural das direções a seguir. Vamos ver se é tão boa de terreno quanto aqui neste lugar.
Disse e foi-se pelo corredor. Mas à porta fez uma pausa para acrescentar, com simplicidade:
— Ainda uma coisa. O mais provável é que encontremos uma carcaça morta e uma pulsação automática, repetitiva. Ou já teríamos tido notícia de sobreviventes. Mas não podemos saber o que vamos realmente encontrar. Esse mundo não me parece formigante de vida, hostil ou de qualquer outra espécie Mas cumpre não correr riscos desnecessários. Iremos armados.
Hesitou ao ver que Ripley também se juntara a eles.
— Não, Ripley, você terá de esperar a sua vez. Este é o contingente máximo que posso tirar da nave.
— Mas eu não ia sair, eu gosto daqui. Apenas, já fiz tudo o que tinha para fazer. Parker e Brett precisarão de ajuda, na fixação daqueles delicados tubos...
Estava muito quente lá atrás, na casa de máquinas, a despeito de todos os esforços da unidade de resfriamento. A quantidade de solda que Parker e Brett haviam sido forçados a empregar e o espaço diminuto em que operavam eram responsáveis por isso. Junto dos termostatos, o ar continuaria relativamente frio. Mas o ar contíguo à própria soldadura poderia aquecer-se rapidamente.
O 'maçarico' a laser não podia ser responsabilizado. Gerava um raio relativamente frio. Mas onde o metal fundia e escorria para selar alguma coisa, surgia um calor localizado, que era como um subproduto da operação. Os dois homens trabalhavam despidos da cintura para cima e, mesmo assim, tinham o dorso reluzente de suor.
Não muito longe deles, Ripley encostou-se a uma parede e lançou mão de uma ferramenta especial para fazer saltar fora um dos panos de proteção. Com isso, ficaram expostas complexas agregações de fios coloridos e formas geométricas miniaturizadas. Duas pequeninas seções haviam sido calcinadas. Usando outra ferramenta, ela retirou esses componentes enegrecidos e procurou numa sacola que trazia a tiracolo as apropriadas peças de reposição.
Estava a fixar a primeira delas no lugar, quando Parker desligou o laser e examinou o próprio trabalho com olho crítico.
— Nada mau, se posso dizer.
E, virando-se para a mulher:
— Ripley, queria perguntar-lhe uma coisa.
Ela não se voltou. O suor colava-lhe a túnica ao peito. O segundo módulo foi encaixado com precisão no lugar, como um dente que é reimplantado no seu alvéolo.
— Então? Estou ouvindo.
— A gente vai sair para a tal expedição, ou fica fechado aqui dentro até que tudo esteja consertado? A energia já foi restabelecida. O resto — e indicou a sala devastada com um gesto largo e brusco da mão — é puro trabalho de maquilagem. Nada que não possa esperar alguns dias.
— Vocês sabem muito bem o que se passa.
Sentou-se, esfregou as mãos e reclinou-se para encará-lo: — O capitão escolheu os dois elementos de que precisa, e pronto. Ninguém mais sai até que eles estejam de volta e relatem o que viram. Três fora, quatro dentro. São as normas, não são?
Ripley fez uma pausa, pois uma idéia lhe acudira. Encarou Parker outra vez:
— Mas não é isso que preocupa você, e sim o que poderão encontrar. Ou estaremos todos desde sempre enganados a seu respeito? Será você, afinal de contas, um cientista puro, devotado a alargar as fronteiras do universo conhecido?
— Puxa, Ripley, nada disso!
Parker não parecia ofendido. O sarcasmo não era habitual na moça.
— Só me interessa alargar as fronteiras da minha conta bancária. Teremos participação no que os três encontrarem, caso seja valioso?
— Não se preocupem — Ripley parecia agastada —, vocês terão o que lhes for devido.
E pôs-se a procurar na sacola de sobressalentes um pequeno módulo maciço a fim de preencher o último claro no quadrado que abrira na parede.
— Pois eu não trabalho mais — anunciou Brett, de repente —, a menos que tenha garantida a minha parte nesse pacote'.
Ripley encontrou a peça que procurava e foi fixá-la no lugar. Só então falou:
— O contrato lhes garante expressamente uma parte em tudo o que se ache. Todos dois sabem disso muito bem. Vamos acabar com essa atitude então, e trabalhar!
E voltou-lhes as costas, a fim de experimentar se os novos módulos funcionavam direito.
Parker olhou-a com fúria e chegou a abrir a boca para unia boa réplica. Mas calou-se. Afinal, ela respondia pela segurança de bordo e hostilizá-la só lhes faria mal. Ele falara demais e fora repreendido. Seria melhor deixar as coisas como estavam. Por mais que isso lhe custasse. Parker sabia ser pragmático quando a situação assim exigia.
Ligou de novo o laser, com raiva. E começou a soldar outra seção do conduto rompido.
Brett, no controle da energia para o laser e dos fios do soldador, disse em voz alta, mas dirigindo-se a ninguém em particular:
— Certo.
Dallas, Kane e Lambert, munidos agora de botas, casacos e luvas, e armados com pistolas de laser — pareciam miniaturas do soldador usado por Parker e Brett —, dirigiam-se para a saída por um estreito corredor. Detiveram-se junto de uma porta maciça, muito bem marcada com símbolos e palavras:
PRINCIPAL CÂMARA DE COMPRESSÃO.
ENTRADA PROIBIDA A ESTRANHOS.
Dallas sempre achava cômica e redundante aquela inscrição. Pois como poderia haver 'estranhos' a bordo? E todo mundo a bordo estava obviamente autorizado a usar a câmara.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Secret Cinema apresenta BLADE RUNNER
Secret Cinema é uma comunidade de amantes do cinema. O grupo inglês Future Cinema responsável pela iniciativa, vem crescendo em número de adeptos e oferece uma experiência diferente a partir de um filme conhecido, uma nova forma de cinema. Como não poderia deixar de ser, as sessões que misturam teatro, vídeo, performances e música, ocorrem sempre clandestinamente, em locais e horários que são divulgados somente na última hora.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2010
Numa iniciativa dos jornalistas e pesquisadores de ficção científica e fantasia Marcello Simão Branco e Cesar Silva, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica foi publicado pela primeira vez em 2005. Apresenta um amplo e profundo panorama do cenário fantástico nacional, em suas três manifestações principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de “fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.
Contém notícias sobre prêmios e personalidades, listas dos livros lançados durante o ano, artigo sobre o mercado editorial, com dados estatísticos e tabelas. Resenhas de vários dos principais livros de autores brasileiros e estrangeiros, entrevista com a “Personalidade do Ano”, ensaio de um especialista convidado, e uma seção histórica com datas e resenhas de livros importantes.
Editora: Devir
Autores: Marcelo Simão Branco e César Silva
Acabamento: Brochura com laminação brilhante e orelhas
Número de páginas: 240
Dimensões: 14 × 21 cm
ISBN: 9772178624005
O Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2010 está disponível para venda na Livraria Moonshadows
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Capacitor Fantástico
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Tag: evento, Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Mistério/Suspense
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Ficção Científica, mas não como você a conhece
Enquanto muita gente vem enchendo a bola de mais uma bienal do livro que em nada acrescenta à vida dos leitores (mas com certeza satisfaz aos interesses de editores e profissionais da área) a British Library está exibindo desde Maio de 2011, sua primeira exibição explorando a ficção científica através da literatura, cinema, desenho e som, Out of this World: Science Fiction but not as you know.
Segundo os organizadores, uma oportunidade para desafiar a percepção do público visitante para o gênero, graças às preciosidades da coleção particular da biblioteca, desde manuscritos do início da FC, até os romances de Cory Doctorow e China Miéville.
Os eventos incluem a participação de muita gente famosa como Alan Moore, Neil Gaiman, Brian Aldiss, John Clute, Michael Moorcock e Norman Spinrad entre outros.
Apenas para dar um gostinho...quem sabe você tem um troco sobrando e não dá um pulinho em Londres (é quase tão longe quanto o Riocentro, só que bem mais agradável.)
Sexta-feira dia 09/09/11 - Lemistry - 100 anos de Stanislaw Lem
O grande escritor europeu, Stanislaw Lem (1911-2006) transcende tanto a literatura polonesa quanto seu gênero escolhido, a ficção científica. Mais conhecido por seu romance Solaris, filmado duas vezes, ele era um contador virtuoso de histórias repletas de filosofia, comédia e alegorias. Celebrando o centenário de nascimento, os escritores John Gray, Toby Litt e Wojciech Orliński, e os cineastas Ari Folman (de Valsa com Bashir e atualmente filmando O Incrível Congresso de Futurologia, de Lem) e The Quay Brothers. Presidido pela jornalista e crítica Rosie Goldsmith.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
sábado, 3 de setembro de 2011
O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 4)
— Turbulência — disse Ripley, e pôs-se a batalhar com seus controles.
Luzes de navegação e de aterrissagem — pediu Dallas. Queria perceber alguma coisa, a despeito do verdadeiro furacão que reinava fora. — Talvez possamos descobrir alguma coisa visualmente.
— Não há substituto possível para os instrumentos — disse Ash. — Não num tempo como esse.
— Também nada substitui um input máximo. De qualquer maneira, quero ver.
Luzes patentes acenderam-se debaixo do Nostromo. Mas não deram aquele campo de visão desimpedido que Dallas tinha desejado. Sua penetração nas nuvens era fraca. De qualquer modo, iluminaram os escuros painéis, clareando ao mesmo tempo a ponte e a atmosfera mental. Lambert sentiu menos agudamente que navegavam em tinta preta.
Parker e Brett não podiam ver as nuvens de fora, mas podiam senti-las. A sala das máquinas mudou de posição subitamente, rolou para o lado oposto, voltou à posição primitiva.
Parker soltou uma praga.
— O que é isso? Você ouve?
— Sim, ouço.
Brett conferiu um mostrador, nervosamente.
— Queda de pressão na entrada número três. Devemos ter perdido uma das couraças de blindagem.
Apertou diversos botões.
— Não disse? Perdemos uma. Está entrando pó.
— Feche a abertura, feche-a.
— E o que pensa que estou fazendo?
— Bonito. Agora temos uma passagem cheia de pó.
— Isso não será problema, espero. — Brett ajustou um controle. — Vou contornar o número três e fazer sair o pó à medida que entra.
— Mas o desastre está feito — disse Parker. Não queria nem pensar no efeito que teriam tido todos os abrasivos do vento sobre o revestimento interno do orifício de entrada. O que será isso que estamos atravessando? Nuvens ou rochas? Se não batermos, aposto dinheiro vivo como teremos um curto-circuito a qualquer momento.
Alheios às maldições da sala de engenharia, os cinco tripulantes da ponte continuavam a lutar para que o rebocador descesse sem dano e o mais próximo possível da fonte do sinal.
— Acercando-nos do ponto de origem. — Lambert estudou um mostrador. — Descendo a vinte e cinco quilômetros. Vinte. Dez, cinco...
— Reduzindo a velocidade e virando — disse Dallas, debruçado sobre o leme manual.
— Curso exato, três graus quatro minutos à direita.
Dallas ateve-se a essas indicações.
— Conseguimos. Estamos a cinco quilômetros do centro do círculo de busca e a descida é estável.
— Apertando agora — e Dallas mexeu no leme mais uma vez.
— Três quilômetros. Dois.
Lambert parecia um tanto excitada, embora Dallas não pudesse saber se era em virtude do perigo ou da proximidade da fonte do sinal.
— Estamos praticamente por cima dela agora.
— Belo trabalho Lambert. Ripley, que tal o terreno? Ache-nos um lugar para a aterrissagem.
— Estou tentando, capitão.
Ela inspecionou vários painéis, e sua expressão de contrariedade aumentou a cada leitura. Dallas continuava a zelar para que a nave mantivesse sua descida no centro do alvo enquanto Ripley lutava para decifrar a superfície invisível do solo.
— Visibilidade nula.
— Estamos cientes disso — disse Kane. — Podemos ver por nós mesmos.
Os raros vislumbres do solo que os instrumentos haviam dado, tinham bastado para botá-lo de mau humor. Sugeriam um mundo deserto, desolado e hostil.
— O radar só me dá estática — Ripley gostaria que o material eletrônico reagisse a imprecaçôes tão prontamente quanto os humanos reagem. — O sonar só me dá estática.
O infravermelho, mais estática. Aguentem-se aí, que vou experimentar o ultravioleta. O espectro está suficientemente alto para que não haja interferência.
Um momento de espera. Depois, surgiram algumas linhas afinal.
Era a tão esperada leitura. Seguiram-se palavras brilhantemente iluminadas, e um croqui do computador.
— Isso resolveu o problema.
— Temos um lugar para aterrissar?
Ripley pareceu de todo tranqüila.
— Tanto quanto eu saiba, acho que podemos descer em qualquer lugar. A leitura diz que o solo é plano aí em baixo. Totalmente plano.
Dallas visualizou a lava muito lisa, uma crosta já resfriada mas fina, debaixo da qual se escondia um inferno em fusão.
— Sim, plano. Mas feito de quê? Água, areia, queijo fresco, ou como a Lua?
— Experimente lançar uma sonda de superfície, Kane. Obtenha uma definição. Eu baixo a nave o bastante para que nos livremos da maior parte dessa interferência. Se o solo é mesmo chato, pode chegar perto sem correr demasiados riscos.
Kane virou rapidamente vários interruptores.
— Controlando. Análise ativada. Ainda captando estática.
Cautelosamente, Dallas aproximou a astronave da superfície.
— Ainda barulhento, mas melhorando.
Mais uma vez Dallas perdeu altitude. Lambert não tirava o olho dos instrumentos. Eles tinham altura mais que suficiente para estarem em segurança, mas, à velocidade em que iam, isso podia mudar de repente se algo de errado acontecesse com os motores ou se alguma corrente desse outro mundo começasse a soprar de súbito de baixo para cima. Não podiam reduzir mais a sua velocidade. Com o vento que havia, poderiam perder o controle da nave.
— Clareando, clareando... Agora!
Kane estudou as leituras e linhas fornecidas pelo analista de imagens:
— Já esteve em fusão, anteriormente. Mas não mais. E não há muito tempo, segundo a análise. É principalmente basalto, um pouco de riólito, com camadas superpostas de lava. Mas estas, ocasionais. Tudo resfriado e sólido, hoje em dia. Nenhum sinal de atividade tectônica.
Kane lançou mão de mais alguns instrumentos para aprofundar sua investigação dos segredos da crosta daquele mundo minúsculo.
— Nenhuma falha geológica de importância debaixo dos nossos pés ou em nossa vizinhança imediata. O lugar me parece excelente para a aterrissagem.
Dallas pensou um pouco.
— Você está seguro da composição da superfície?
— É velha demais para ser diferente — o oficial de ciência parecia melindrado. — E tenho conhecimentos bastantes para verificar a idade das rochas ao mesmo tempo que sua composição. Pensa o senhor que eu deixaria a nave descer pela chaminé de um vulcão?
— Está bem, está bem. Desculpe. Estou apenas procurando certificar-me. Não faço uma aterrissagem sem mapas nem balizamento desde os tempos da escola. Estou um tanto nervoso.
— E não estamos todos?
— E se baixássemos? — ninguém fez objeção. — Vamos botá-la no chão. Vou descer em espiral tão bem quanto possa. Mas você, Lambert, mantenha uma vigilância rigorosa daquele pulso intermitente. Não queremos pousar na cabeça da nave sinistrada. Advirta-me se chegarmos perto demais.
Alguns reajustes foram feitos, algumas ordens dadas e executadas por fiéis servidores eletrônicos. O Nostromo começou a evoluir em espiral rumo à superfície, enfrentando lufadas de ventos contrários e rajadas de ar negro a cada metro do caminho.
— Quinze quilômetros e descendo — anunciou Ripley em voz neutra. Doze... dez...oito.
Dallas acionou um comando.
— Velocidade de descida. Cinco.. .três.. .dois... Um quilômetro.
O mesmo comando foi de novo tocado.
— Diminuindo... Ativar os motores de aterrissagem.
— Feito.
Operando o seu console, Kane parecia confiante.
— Descida controlada agora por computador.
Um alto zumbido, áspero, encheu a ponte quando a Mãe assumiu a responsabilidade da descida, regulando os últimos metros com uma precisão que nenhum piloto terrestre
poderia igualar.
— Descendo sobre pás de aterrissagem — disse Kane.
— Desligue os motores.
Dallas efetuou uma última verificação antes da aterrissagem e virou várias chaves para DESLIGADO.
— Motores desligados. Engenho de descida funcionando corretamente.
A ponte vibrava com uma palpitação forte, ritmada.
— Novecentos metros e descendo.
Ripley vigiava seus controles.
— Oitocentos... setecentos... seiscentos.
Continuou a contar de cem em cem metros. E logo já contava de dez em dez.
A cinco metros do solo o rebocador hesitou, pairando por cima da superfície envolta em densas trevas e varrida por ventos de tempestade.
— Descer as patas — disse Kane, e correu a executar a manobra que Dallas começava a ordenar. Um gemido fino, quase indistinto, fez-se ouvir na ponte. Várias pernas telescópicas de aço projetaram-se do corpo da astronave, que ficou semelhante a um grande besouro surgindo de um pesadelo. As pás de aterrissagem roçavam quase a superfície ainda invisível da rocha abaixo deles.
— Quatro metros... ufa! — Ripley interrompeu o que ia dizendo. E o Nostromo interrompeu a sua descida. As pás tocaram rocha dura, resistente, mas os maciços amortecedores calçaram o contacto.
— Estamos em terra.
Algo rompeu-se. Um circuito menor, provavelmente, ou talvez uma sobrecarga não de todo compensada, a que ninguém acudira prontamente. Um choque terrível correu pela astronave. O metal do casco vibrou com um gemido metálico, fantasmagórico.
— Não sei onde está! Perdi! — gritava Kane quando as luzes se apagaram.
Instrumentos pediam atenção ao mesmo tempo e ruidosamente, no escuro, à medida que a falha elétrica repercutia até as extremidades nervosas do Nostromo.
Quando o choque chegou à engenharia, Parker e Brett preparavam-se para uma nova rodada de cervejas. Uma série de canos enfileirados no teto pré-moldado explodiu prontamente. Três painéis no cubículo de controle inflamaram-se, enquanto a válvula de pressão mais próxima inchava, rebentando logo depois.
Não havia mais luzes, e eles se puseram a tatear em busca de lanternas manuais, de bateria. Parker tentou achar o botão que controlava o gerador de reserva, que alimentava a astronave na falta dos motores.
Uma certa confusão controlada reinava na ponte. Quando as exclamações e perguntas amainaram, foi Lambert quem deu forma à indagação geral:
— O gerador secundário já devia ter entrado em ação a essa altura.
Deu um passo, mas bateu com o joelho na quina de um console.
— Por que não está funcionando? — perguntou Kane. Encostado à parede, palpou-a com a mão. — Controles de reserva de aterrissagem... aqui. — Passou os dedos por diversos botões com que estava familiarizado. — Botão do compartimento de proa, aqui... Junto dele deve estar... Sua mão se fechou no controle de luz de emergência, e torceu-o. Um clarão muito tênue revelou várias silhuetas fantasmagóricas.
Com essa luz de Kane como guia, Dallas e Lambert localizaram suas próprias barras luminosas. As três fontes juntas davam luz suficiente para trabalharem.
— O que aconteceu? Por que o gerador não acendeu? E qual foi a causa do acidente?
Ripley ligou o intercomunicador:
— Sala de máquinas, o que houve? Qual é a situação aí?
— Péssima. — Parker parecia ocupado, zangado e preocupado ao mesmo tempo. Um zumbido longínquo, como que de asas aflitas de algum inseto monstruoso, fazia um fundo para as palavras dele. Cresciam de intensidade e apagavam-se quase, como se houvesse dificuldade em manter a comunicação com o alto-falante que era onidirecional.
— Pó por toda parte, nos motores, foi isso o que aconteceu. Ocorreu durante a descida. Acho que não fechamos a escotilha a tempo, e não nos livramos do pó a tempo. Temos um fogo elétrico aqui atrás.
— E não é pequeno — acrescentou Brett. Foi sua única contribuição à conversa. Parecia fraco, a distância.
Houve um intervalo, em que apenas podiam ouvir pelo sistema de intercomunicação o esguicho dos extintores químicos.
— As entradas ficaram entupidas — explicou por fim Brett aos seus alarmados ouvintes —, depois superaquecidas. Queimamos uma célula inteira, penso eu. Cristo, está uma zorra completa aqui embaixo...
Dallas olhou para Ripley.
— Aqueles dois me parecem por demais ocupados. Um de vocês me responda. Alguma coisa estourou. Espero que tenha sido só no departamento deles, mas pode ser pior. O casco foi fendido? — O capitão respirou. — Se foi, onde? E quais as proporções do desastre?
Ripley examinou rapidamente os instrumentos de pressurização, depois correu os olhos pelos diagramas individuais para situar-se bem. E pôde responder com alguma confiança:
— Não vejo nada de maior. Ainda temos pressão normal em todos os compartimentos. Se há um buraco, é minúsculo, e a auto-selagem do casco já se encarregou de obturá-lo.
Ash estudou seu próprio console. Como os outros, tinha alimentação própria, independente, para o caso de falha maciça da energia como a que estavam experimentando naquele momento.
— O ar em todos os compartimentos não mostra sinais de contaminação pela atmosfera exterior. Penso que estamos ainda estanques, capitão.
— Essa é a melhor notícia que recebo em sessenta segundos. Kane, ligue os painéis externos que ainda estejam com energia.
O oficial executivo ajustou uns três pinos. Houve um visível tremeluzir, um bruxuleio, um vislumbre de vagas formas geológicas, depois completa escuridão outra vez.
— Nada. Estamos tão cegos do lado de fora quanto aqui dentro. Temos de ligar a energia sobressalente pelo menos para sabermos onde estamos. As baterias não são bastante fortes nem mesmo para a menor projeção de imagens.
Os censores auditivos exigiam menos energia. Traziam as vozes daquele mundo para dentro da cabine. Os sons distorcidos da ventania cósmica subiam e desciam contra os receptores impossíveis, enchendo a ponte de uma algaravia, como peixes a discutir.
— Quisera que tivéssemos descido à luz do dia, disse Lambert, espreitando por uma escotilha escura que lhe devolvia apenas o próprio rosto ansioso. — Teríamos sido capazes de ver sem instrumentos.
— Mas o que há com você, Lambert? — Brincou Kane. — Será que tem medo do escuro?
Ela, porém, não sorriu de volta.
— Não é o escuro que conheço que me dá medo, mas o que não conheço.Especialmente quando há neles sons como o dessa pulsação de alarme — respondeu. E concentrou de novo sua atenção na janela coberta de pó.
Sua disposição em expressar alto e bom som o que lhes ia, a todos, na alma, não contribuiu para aliviar a tensão na ponte. Exígua sempre, parecia agora sufocante naquela quase-escuridão.
E o silêncio que reinava entre eles agravava o clima de nervosismo geral.
Foi um alívio quando Ripley anunciou:
— Conseguimos reparar a intercomunicação.
Dallas e os outros se imobilizaram, na expectativa. Todos a olhavam. Ripley remexeu no amplificador.
— É você, Parker?
— Sim, sou eu.
Pelo tom, o engenheiro estava fatigado demais para assumir sua habitual petulância.
— Qual é a situação aí?
Mentalmente, Dallas cruzou os dedos.
— E o fogo? Dominado?
— Sim, finalmente, conseguimos apagá-lo. — Ele suspirou, e o som não era muito diverso dos silvos da ventania. — Chegou a atingir aquele velho sistema de lubrificação que reveste as paredes do corredor até o nível C. Houve um momento em que pensei que nossos pulmões ficariam inteiramente ressequidos. Mas a camada combustível era mais fina do que eu pensava e queimou toda ela tão rapidamente, que não houve tempo de esgotar nossa provisão de ar respirável. Os purificadores estão agora removendo o gás carbônico a contento.
Dallas molhou os lábios secos.
— E os prejuízos? Não importam os danos superficiais. Tudo o que me interessa é desempenho e funcionamento da nave.
— Vejamos... Dois painéis totalmente perdidos.
Dallas podia vê-lo a enumerar os itens nos dedos.
—... A unidade divisora da carga secundária está fora de combate e pelo menos três celitas do módulo doze se foram. Com tudo o que isso implica.
Deixou que a notícia tivesse todo o seu impacto antes de acrescentar:
— Quer saber também os dados miúdos? Dê-me uma hora e terá uma lista exaustiva.
Deixe isso para lá. Mas espere um segundo na linha. — Voltou-se para Ripley e comandou:
— Tente os painéis outra vez.
Ela o fez, sem resultado. Permaneceram tão vazios como o cérebro de um contador da Companhia.
— Temos de nos arranjar sem eles por mais algum tempo, é só — disse-lhe o capitão.
— Parker — continuou Ripley. — Está certo de que isso foi tudo?
Curiosamente, simpatizava agora com Parker e Brett, e era a primeira vez que isso acontecia desde que se tinham tornado membros daquela tripulação. Ou desde que ela passara a integrar o grupo, pois Parker pelo menos era mais antigo no Nostromo.
— Até agora, foi — Parker tossiu no alto-falante. — Estamos tentando agora recuperar toda a potência anterior das máquinas. Doze módulos paralisados causaram grande confusão por aqui. Quando tivermos examinado tudo que o fogo devorou, poderei falar de energia.
— E consertos? Vocês podem se arranjar sozinhos?
Dallas revisava, na cabeça, o relatório do engenheiro.
Poderiam, achava ele, remendar os danos iniciais, mas o problema das celitas levaria tempo. Que dano teria o módulo doze era coisa em que preferia não pensar no momento.
— Não podemos fazer grande coisa aqui, mesmo que você o deseje.
— Não pensei que pudessem. Não esperava isso. Mas o que poderão fazer?
— Podemos mudar o itinerário de alguns desses duetos e realinhar tomadas inutilizadas. — Temos de cuidar primeiro da avaria grossa. E será impossível concertar os duetos sem botar a nave em dique seco. Teremos, por enquanto, de fazer de conta.
— Entendo. O que mais?
— Já disse. O módulo doze. E digo logo o mais grave: perdemos uma célula principal.
— Como? Foi o pó?
— Em parte — Parker interrompeu-se, trocou palavras inaudíveis com Brett, depois voltou ao alto-falante. — Alguns fragmentos se aglutinaram no interior dos orifícios de entrada, empastaram-se, provocaram um excesso de aquecimento e, em seguida, o fogo. Você sabe como são sensíveis esses propulsores. A coisa varou a blindagem e fez explodir o sistema inteiro.
— Há algo que você possa fazer? — perguntou Dallas. O sistema tinha de ser reparado de qualquer maneira. Era impossível substituí-lo.
— Penso que sim, e Brett também. Temos primeiro de limpá-lo inteiramente, inclusive com o aspirador. Aí veremos de fato como está. E como se comporta. Se agüentar firme depois de raspado, então tudo estará bem. Se não, podemos tentar um remendo com metal. Mas se descobrirmos alguma fissura longitudinal, aí então...
E sua voz sumiu-se.
— Não falemos de problemas finais como esse — sugeriu Dallas. — Atenhamo-nos ao mais imediato, e esperemos que não haja outros.
— De acordo.
— Certo — disse Brett; e pela direção da voz trabalhava em alguma coisa à esquerda do engenheiro.
— Ponte desligando.
— Engenharia desligando. Guardem o café quente.
Ripley torceu o interruptor da intercomunicação e olhou, expectante, para Dallas. Este estava sentado, quieto. Pensava.
— Quanto tempo levará para ficarmos de novo em condições operacionais, Ripley?
— Admitindo que Parker esteja correto a respeito das proporções da avaria, que ele e Brett façam os reparos mencionados, e que a maquinaria se agüente?
Ela estudou as suas leituras, e considerou o problema por um momento.
— Se eles conseguirem consertar os duetos estragados, e reparar o módulo doze pelo menos de maneira a que ele possa receber sua porção da carga, como antes, eu diria entre quinze e vinte horas.
— Nada mau. Eu tinha calculado dezoito. — «Não sorria, mas estava um pouco mais esperançoso. — E os auxiliares? Talvez devam estar prontos para entrar em ação logo que tivermos nossa energia de volta.
— Estou trabalhando nisso — disse Lambert, e reajustou instrumentos que não se podiam ver. — Estaremos prontos aqui quando eles estiverem prontos na engenharia.
Dez minutos mais tarde um pequenino alto-falante na estação de Kane deixou escapar uma série de pulsações breves mas agudas. Kane estudou um instrumento, depois ligou seu comunicador individual:
— Ponte. Aqui, Kane.
Exausto mas satisfeito consigo mesmo, Parker falou do fundo da nave:
— Não sei quanto tempo vai agüentar... algumas das soldas que tivemos de fazer são, necessariamente, precárias. Mas se tudo marchar como deve, podemos refazer uma por uma, dar uma caprichada, quando tivermos tempo para isso. E aí terão mais segurança. Vocês já devem ter energia agora.
O executivo torceu uma válvula. As luzes brilharam na ponte, leituras armazenadas piscaram, depois acenderam-se, e houve grunhidos e murmúrios de aplauso do resto da tripulação.
— Temos a energia e as luzes de novo em boas condições — informou Kane. — Bom trabalho o de vocês dois.
— Todo trabalho nosso é bom — respondeu Parker.
— Certo. — Brett devia estar junto do intercomunicador dos fundos, junto dos motores, a julgar pelo zumbido igual que fazia um elegante contraponto à sua resposta, monossilábica como sempre.
— Não fiquem muito excitados — continuou Parker. — Os novos encadeamentos devem agüentar, mas não prometo nada. Estamos apenas juntando o que podemos aqui atrás, e o melhor que podemos. Alguma novidade desse lado aí?
Kane sacudiu a cabeça, mas lembrou-se de que Parker não podia ver o gesto.
— Não, nada.
Depois, deu uma olhadela pela vigia mais próxima. As luzes da ponte lançavam seu débil clarão sobre um trecho Pouco característico do solo, pelo menos inteiramente árido, e tempos em tempos, a tempestade que rugia lá fora expunha à vista uma nuvem mais densa de areia ou um fragmento maior de rocha. E havia, então, um breve lampejo, fruto do reflexo. Mas era tudo.
— Pura rocha. É verdade que não podemos ver muito longe. E sabemos tão pouco que talvez estejamos a cinco metros do oásis local...
— Pois continue a sonhar... — disse Parker. Em seguida, gritou algo ininteligível para Brett e encerrou a transmissão com um esmerado:
— Entrarei em contato se sobrevierem problemas. Façam o mesmo.
— Mandaremos um cartão postal — respondeu Kane. E desligou.
O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 4) [ Download ]














































