terça-feira, 18 de outubro de 2011

The Thing e suas várias versões



O livro 

"O lugar fedia. Um mau cheiro pungente, que só as cabanas enterradas no gelo do acampamento na Antártida poderiam ter, composto por suor humano e óleo de gordura de foca derretida. A aplicação de linimento combatia o cheiro de mofo das roupas de neve suadas; o odor acre de gordura queimada vinha da cozinha, e o cheiro animal, não-desagradável, dos cães, diluído pelo tempo, pairava no ar. Odores remanescentes de óleo de máquina contrastavam fortemente com o cheiro dos trajes de couro. 

No entanto, de alguma forma, além de todos os odores de seres humanos e seus associados - cães, máquinas e cozinha - outra mácula sobressaia a todas estas. Um odor diferente dos cheiros da indústria e da vida. E era um cheiro de vida. Mas vinha da Coisa que estava amarrada com corda e lona, em cima da mesa, pingando lentamente, metodicamente sobre as pranchas pesadas, úmida e macilenta, sob o brilho direto da luz elétrica."

Assim começa 'Who Goes There?', o conto de ficção científica do escritor John W. Campbell, Jr. originalmente publicado sob o pseudônimo de Don A. Stuart, em agosto de 1938, na revista Astounding Stories. Em 1973 o conto foi escolhido pela Science Fiction Writers of America, como sendo um dos melhores contos de ficção científica já escrito, e foi novamente publicado no livro The Science Fiction Hall of Fame, Volume 2.


Sinopse do livro: Um grupo de pesquisadores científicos, isolados na Antártida, descobrem uma nave alienígena enterrada no gelo. Eles tentam descongelar o interior da nave espacial com uma carga de termite, mas acidentalmente acabam destruindo-a quando o casco de magnésio da nave é inflamado pela carga. No entanto, eles recuperam o piloto alienígena, que os pesquisadores acreditam que estava em busca de calor quando congelou. O descongelamento revive o ser, que pode assumir a forma, memórias e a personalidade de qualquer ser vivo que devora.

Os pesquisadores tentam então descobrir o alienígena entre eles, simplesmente referido como a Coisa, antes que possa escapar e dominar o mundo. Em última análise, eles percebem que mesmo pequenos pedaços do alienígena se comportam como organismos independentes, e utilizam essa fraqueza para testar quais os homens foram "convertidos", tomando amostras de sangue de todos na base e mergulhando um fio quente dentro do frasco de sangue. O sangue de cada homem é testado, um de cada vez, e o doador é imediatamente morto, quando o sangue se manifesta.

A Coisa original tinha (sem o conhecimento dos pesquisadores) assumido o controle de um homem chamado Blair, que por conta de um colapso nervoso, havia sido isolado em uma pequena cabana. Com os outros monstros dentro da base destruídos, os humanos sobreviventes entram na cabana para encontrar e matar a criatura original.

Leia o livro - Who Goes There? - John W. Campbell, Jr. [ Download ]




The Thing from Another World 

"O Monstro do Ártico" é um filme de 1951 e que foi adaptado por Charles Lederer, a partir do livro de Campbell. No filme, um cientísta conta a história de uma tripulação da Força Aérea e pesquisadores em um remoto posto avançado no Ártico, que lutam contra um alienígena malévolo, basicamente uma planta-vampiro.

Estrelado por Kenneth Tobey, Margaret Sheridan, Robert Cornthwaite e Douglas Spencer, foi dirigido por Howard Hawks e Christian Nyby, e lançado pela RKO Radio Pictures Inc.

O filme de Nyby é memorável por muitas razões, incluindo as cenas assustadoras em que os pesquisadores e a tripulação militar tentam retirar um OVNI que caiu sob o gelo, usando bombas termite. Presumivelmente devido a restrições de orçamento e os risíveis efeitos especiais da época, o ser alienígena (interpretado por James Arness), é um cruzamento de vampiro com um super vegetal humanoíde, utilizando-se do sangue das vítimas para irrigar sua prole, que cresce no jardim interno da base. A criatura é capaz de regenerar seus membros e é extremamente forte e voraz.

Na seqüência mais aterrorizante do filme, a criatura ataca os sobreviventes e depois de encharcado com gasolina, foge em chamas no deserto gelado. Mas retorna para um final, que lembra um pouco a morte da Bruxa Malvada do Oeste, em "O Mágico de Oz" (1939).






O lançamento coincidiu com a Guerra da Coréia e o auge do sentimento anti-comunista provocado pelo macarthismo e pelas ambições territoriais da Rússia de Stalin. A idéia de norte-americanos sendo perseguidos por uma força "destituída de moralidade" se encaixava bem para a época. O filme também reflete um ceticismo pós-Hiroshima sobre a ciência e os cientistas.

No final, são os bravos soldados americanos e o cientista sensato, que vencem o monstro.





The Thing 

Com o título em português de "O Enigma de Outro Mundo", o filme "The Thing" de 1982, dirigido por John Carpenter (roteiro de Bill Lancaster) com Kurt Russel no papel principal, é uma adaptação fiel do conto "Who Goes There?" de John W. Campbell Jr.

A história gira em torno de um alienígena que muda de forma e que se infiltra em uma estação de pesquisa científica na Antártica e mata a primeira equipe de pesquisa norueguesa. Uma equipe de pesquisadores americana nas proximidades é mandada para investigar o incidente e por sua vez é atacada pelo alienígena.





 A despeito dos memoráveis e nauseantes efeitos especiais de Rob Bottin ("The Howling") e o primoroso trabalho de maquiagem, a performance dos atores é pobre, e o filme não teve na época, uma boa bilheteria. Muitos fatores podem ser atribuídos, que incluem o lançamento de "ET, o Extra-Terrestre", uma visão mais otimista do contato alienígena. No entanto, com o passar dos anos, "O Enigma de Outro Mundo" tornou-se um 'cult', sendo várias vezes relançado no mercado de DVD e também na forma de um game em 2002.







The Thing

O filme "A Coisa" de 2011, do holandês Matthijs van Heijningen Jr., diretor de comerciais para televisão e videoclips (este é seu primeiro longa), conta no elenco com Mary Elizabeth Winstead ("Scott Pilgrim vs the World"), Joel Edgerton ("Warrior") e roteiro de Eric Heisserer ("Final Destination 5").

O filme carece das credenciais de seus antecessores e a história se passa meses antes dos acontecimentos vistos no filme de Carpenter, servindo de um prelúdio.






Sinopse:

Em um acampamento de pesquisa da Antártida, a descoberta acidental de uma nave alienígena, leva a um confronto entre a estudante de paleontologia Kate Lloyd e o cientista Dr. Sander Halvorson, do grupo original de pesquisadores noruegueses. Enquanto o Dr. Halvorson decide manter o foco de sua pesquisa, Kate e seus parceiros decidem investigar a forma de vida alienígena.

A criatura, acidentalmente despertada de sua prisão de gelo, tem a capacidade de se transformar em uma réplica perfeita de qualquer ser vivo. A paranóia se espalha como uma epidemia entre o grupo de pesquisadores e Kate se junta ao piloto de helicóptero da tripulação, Carter (Joel Edgerton), para tentar matá-la, enquanto a criatura aos poucos coloca humanos contra humanos, eliminando um por um.





segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quenched Consciousness




Se você gosta do trabalho de Jean Giraud, aka Gir, aka Moebius, não pode deixar de conhecer Quenched Consciousness.


















domingo, 16 de outubro de 2011

Alien na revista MAD (Jan/80)






Mad 212 - Jan/80 [ Download ]

sábado, 15 de outubro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 10)






— Não toque nela! — disse Dallas.

Estudava a forma inerte do seu colega.
Tentou, em seguida, uma experiência, acenando com a mão para a coisa que estava agarrada à face de Kane. Ela não se moveu. Com um tremendo esforço de vontade, pronto para pular para trás e fugir, ele estendeu a mão para ela. Primeiro, para a base, depois para a protuberância do olho, nas costas. A besta não tomou conhecimento dele nem mostrou sinal de vida. Mas pulsava, de leve.

— Está viva? — perguntou Lambert, cujo estômago começava a ficar embrulhado.
Era como se houvesse tragado um litro de resíduos mal reciclados do Nostromo.
— Não se move, mas acho que sim. Segure os braços dele, eu pego as pernas. Talvez possamos soltar isso no chão.
Lambert correu a obedecer-lhe, mas deteve-se e olhou-o incerta:
— Por que pego eu nos braços?
— Inferno! Quer trocar, é isso?
— É isso mesmo.
Dallas foi trocar de lugar com ela. Mas, ao fazê-lo, viu mover-se um dos dedos da mão. Quase imperceptivelmente. Não podia ter certeza.
Começou a levantar Kane pelos braços, sentiu o peso morto e hesitou.
— Não conseguiremos nunca levá-lo de volta à nave desse modo. Você pega de um lado e eu de outro.
— Certo.
Viraram cuidadosamente para o lado o corpo do oficial executivo. A criatura, porém, não caiu. Continuou colada ao rosto dele tão firmemente como antes.
— Não adianta. Aliás, não pensei mesmo que a coisa se soltasse. Vamos levá-lo assim mesmo.
Dallas pôs um braço atrás dos ombros de Kane e o corpo ficou sentado.
Depois levantou-o, enquanto Lambert passava o outro braço pelo seu pescoço.
— Pronto? — ela concordou com uma inclinação de cabeça. — Fique de olho na criatura. Se der sinais de que vai cair, largue o seu lado e corra — ela concordou de novo, com um aceno. — Vamos, então.

Pararam à porta da nave. Ambos respiravam com dificuldade.
— Coloque-o no chão — disse Dallas. Lambert obedeceu, com alívio. — Isso não vai ser possível. Os pés dele vão esbarrar em tudo que é pedra, em tudo que é buraco. Fique aí, de guarda. Vou fazer uma padiola.
— Com o quê?
Mas Dallas já se afundava outra vez na nave alienígena, em direção à câmara que tinham acabado de deixar.
— A trípode do guincho. É suficientemente forte — ouviu no seu capacete.

Enquanto esperava por Dallas, Lambert sentou-se o mais longe possível de Kane.
O vento assobiava do lado de fora anunciando a proximidade da noite.
Ela sentiu-se incapaz de tirar os olhos do pequeno monstro preso a Kane; incapaz de não pensar no que acontecera. Apenas abstinha-se de pensar no que a coisa estaria fazendo a Kane. Tinha de abster-se, ou não poderia conter um ataque de nervos.
Dallas voltou, com os pedaços da trípode desmontada debaixo dos braços.
Depositando-os no convés, começou a armar uma grosseira padiola com dedos que o medo fazia ágeis. Uma vez pronta, baixou-a cautelosamente para a superfície. Caiu da altura de uns poucos metros, mas sem quebrar-se. Decidiu que era suficientemente forte para agüentar o peso de Kane até o Nostromo.

O curto dia do planetóide chegava ao fim, a atmosfera assumia outra vez a cor do sangue, e o vento era mais alto e assobiava lugubremente. Não que não pudessem levar Kane ou achar a nave no escuro. Mas Dallas não tinha nenhum desejo, sobretudo agora, de passar a noite ao relento nesse mundo de espantos. Alguma coisa mais grotesca do que a imaginação era capaz de conceber, erguera-se das profundezas da nave sinistrada para deixar seu selo no rosto de Kane e nas suas mentes. Terrores ainda maiores poderiam estar por vir, embuçados no crepúsculo impregnado de poeira cósmica. Desejava desesperadamente estar de volta ao abrigo das paredes de metal do Nostromo.

Quando o sol se pôs atrás das nuvens, o colar de luzes que marcava a base do rebocador acendeu-se. Não bastavam para alegrar a paisagem em volta da nave, mas pelo menos faziam visíveis os contornos melancólicos do rochedo ígneo em que pousara. Redemoinhos de pó mais espesso obliteravam, às vezes, mesmo essa pobre tentativa de afastar a treva.

Na ponte, Ripley esperava resignadamente por uma palavra da patrulha há tanto tempo muda. O sentimento de desamparo e impotência do primeiro momento já se dissipara a essa altura. Fora substituído por uma espécie de entorpecimento da alma e do corpo. Não tinha coragem de olhar pelas escotilhas. Deixava-se ficar sentada, apenas, provando, de quando em vez, um pouco de café morno e fitando sem expressão seus mostradores preguiçosos.

Jones, o gato, sentava-se de frente para uma janela. Achava a tempestade uma maravilha e criara um jogo frenético, que consistia em derrubar com a pata qualquer partícula maior que batesse contra a moldura externa de metal. Jones sabia que jamais apanharia uma deles. Tinha certa compreensão das leis da física por detrás de transparências.
Isso atrapalhava um pouco o brinquedo, mas não o inutilizava. Podia, também, fazer de conta que os pequenos fragmentos de pedra eram pássaros, embora nunca tivesse visto nenhum em sua vida. Mas entendia esse conceito também, instintivamente.

Outros monitores, além do de Ripley, eram objeto de observação; outros aferidores estavam sendo avaliados com a devida regularidade. Sendo dos tripulantes o único inimigo do café, Ash fazia o seu trabalho sem qualquer estimulante líquido. Bastava um dado novo para reacender-lhe o interesse.

Dois instrumentos inertes há muito tempo, de súbito entraram em ação. E os números, compondo-se em série uns depois dos outros na unidade de saída, afetaram o sistema do oficial de ciência tão poderosamente como qualquer narcótico. Ele ativou amplificadores e conferiu cuidadosamente as séries de algarismos antes de ligar o intercomunicador para a ponte e anunciar a sua recepção.

— Ripley? Você está aí?
— Han, han — depois percebendo o ardor da voz dele, endireitou-se na cadeira.
— Boas notícias?
— Penso que sim. Acabo de captar os sinais dos trajes deles. E suas imagens estão de volta às telas.
Ela respirou fundo antes de fazer a pergunta, necessária, mas angustiante:
— E... quantos são?
— Três, todos três... Posso captar três sinais, constantes.
— Oinde estão?
— Perto, muito perto... Alguém deve ter tido a idéia de ligar de novo os instrumentos, para que pudéssemos acompanhar a sua progressão de retorno. Vêm para cá, em marcha regular. Um pouco lenta, mas firme. Parece-me que tudo está bem.
"Não conte muito com isso" — pensou ela enquanto ativava seu próprio transmissor.
— Dallas! — chamou. — Dallas, você me ouve? — Um furacão de estática foi a única resposta. Ripley insistiu, sintonizando melhor: — Dallas, aqui é Ripley, responda...
— Calma, Ripley. Podemos ouvi-la muito bem. Estamos voltando.
— Mas o que aconteceu? Perdemos a imagem de vocês nos painéis, e os sinais também, quando entraram naquele casco. Vi as fitas de Ash. Vocês terão...
— Kane está ferido — Dallas parecia zangado, exausto. — Precisaremos de auxílio para levá-lo para cima. Ele está inconsciente. Alguém terá de ajudar a tirá-lo da câmara de descompressão.
— Vou eu — respondeu Ash, sem hesitação.

— Na retaguarda, Parker e Brett escutavam atentamente a conversação.
— Inconsciente — repetiu Parker. — Eu sempre soube que Kane se meteria em confusões...
— Certo — disse Brett, preocupado.
— Não é um mau sujeito, para um oficial de bordo. Gosto mais dele que desse Dallas. Não é tão disposto a dar ordens. Imagino o que lhes terá acontecido por lá.
— Eu também. Logo saberemos.
— Pode ser que só tenha caído e perdido os sentidos com a queda.
A explicação era tão pouco convincente para Parker quanto para Brett. Ambos calaram-se, atentos ao transmissor.

— Lá está ela — disse Dallas. E com o resto de força que lhe restava, mostrou a nave.
Três formas esguias, imprecisas, que eram como árvores nuas como árvores no inverno, surgiram do crepúsculo. Sustentavam outra forma que era maior mas igualmente amorfa: o casco do Nostromo. Tinham quase chegado à nave quando Ash atingiu a porta mais interior da câmara estanque. Parou, verificou se o fecho estava pronto para ser destravado, e tocou o botão do intercomunicador mais próximo:

— Ripley, é Ash. Estou junto da comporta interna — deixando o canal aberto, deslocou-se até junto de uma escotiIha vizinha. — Nenhum sinal deles por enquanto. Já é quase noite lá fora, mas quando se aproximarem do elevador poderei distinguir as luzes dos seus macacões.
— OK — ela pensava furiosamente, e alguns dos seus pensamentos teriam causado espanto ao oficial de ciência. Causavam espanto a ela mesma.
— Em que direção? — perguntou Dallas, apertando os olhos para distinguir os contornos da nave à luz velada dos holofotes.
Lambert mostrou à esquerda.
— Naquela direção, acho. Aquela é a primeira perna. O elevador deve estar imediatamente por trás dela.

Prosseguiram, então, naquele rumo até quase tropeçar na base do elevador, firmemente encravada no chão duro. A despeito da sua fadiga, transferiram a forma inerte de Kane
da padiola improvisada para o elevador, sustentando-o entre eles dois.

— Acha que conseguirá mantê-lo de pé? Será mais fácil do que ter de levantá-lo outra vez.
Ela tomou ar.
— Sim, creio que sim. Desde que alguém nos ajude uma vez dentro da câmara.
— Ripley, você está a postos?
— Estou aqui, Dallas.
— Estamos subindo — deu uma olhadela para Lambert. — Pronta?
Ela assentiu.
O capitão apertou um botão, houve uma sacudidela, e o ascensor subiu devagar, parando justamente ao nível da porta. Dallas inclinou-se levemente, alcançou um comutador.
O postigo externo deslizou para o lado, e eles entraram na comporta.
— Devo pressurizar?
— Não importa. Podemos dispensar uma câmara cheia de ar. Num minuto estaremos lá dentro e poderemos tirar estas miseráveis roupas.
Fecharam a porta externa e esperaram que a interna se abrisse.
— O que houve com Kane? — perguntou Ripley. Dallas estava cansado demais para perceber na voz dela outra nota que não a de solicitude por um colega acidentado. Sacudiu o ombro de modo a que Kane ficasse um pouco mais alto, sem se importar muito com a criatura. Não se movera um centímetro durante toda a caminhada e ele não acreditava que se pusesse a mexer agora de repente.
— É alguma espécie de organismo — informou. E o eco da sua voz, débil embora na concha do capacete, confortou-o de certo modo. — Não sabemos o que se passou nem de onde veio isso aí. Aferrou-se a ele. Nunca vi coisa igual nem parecida. Não se move agora e não mudou de posição no caminho. Temos de levá-lo assim mesmo para a enfermaria.
— Quero um relato completo — disse Ripley, friamente.
— Relato completo droga nenhuma! — disse Dallas. Quisera eliminar a fúria e a frustração da voz, mas não podia. Como ser razoável numa situação daquelas? — Ouça, Ripley, não vimos o que aconteceu. Ele estava no fundo de uma espécie de poço, abaixo de nós. Não sabíamos nem mesmo que alguma coisa acontecera antes de içá-lo para fora. Está claro agora? É tão completo quanto possível.
Houve apenas silêncio do outro lado.
— Escute, Ripley, abra a porta.
— Espere um pouco — disse ele. Escolhia as palavras com cuidado. — Se o deixarmos entrar, toda a nave pode ficar infectada.
— Com os diabos! Isso não é um germe! É maior do que a minha mão, e de uma solidez assustadora.
— Você conhece as normas de quarentena — a voz dela tinha uma determinação que Ripley estava longe de sentir. — Vinte e quatro horas para descontaminação. Vocês dois têm ar suficiente nos cilindros, e posso fornecer-lhes tanques extras, se necessário. Vinte e quatro horas não vão bastar, talvez, para provar que a coisa não é mais perigosa, mas isso já escapa à minha responsabilidade. Tenho apenas de impor as normas. Fazê-las obedecer. Aliás, você as conhece tão bem quanto eu.
— Conheço exceções também. E sou eu que tenho aqui o que resta de um bom amigo, e não você. Em vinte e quatro horas ele poderá muito bem estar morto, se é que já não está. Abra a porta.
— Ouça, Dallas — implorou Ripley. — Se abro, se quebro a quarentena, todos poderemos morrer.
— Abra essa bosta de porta! — berrou Lambert. — Para o diabo com as normas da Companhia. Temos de levá-lo para a enfermaria, onde o médico automático possa cuidar dele.
— Mas eu não posso! Se você estivesse na minha posição, com as mesmas responsabilidades, faria o mesmo.
— Ripley — disse Dallas pausadamente —, você pode me ouvir?
— Posso ouvi-lo perfeitamente — respondeu a moça, muito tensa. — E a resposta ainda é negativa. Vinte e quatro horas de descontaminação. Depois, ele será admitido.

Dentro da nave, outra pessoa tornou uma decisão. Ash apertou o botão de emergência que ficava fora da porta interna.
Acendeu-se uma luz vermelha, e houve um longo assovio, alto e característico.

Dallas e Lambert fitaram a porta, que começou a deslizar para o lado.
O console de Ripley iluminou-se, com as inacreditáveis palavras:

POSTIGO INTERNO ABERTO. POSTIGO EXTERNO FECHADO.

Ela ficou olhando, paralisada e incrédula, para a informação. Mas seus instrumentos confirmaram o que vinha de ler.

Com sua pesada carga entre eles, Dallas e Lambert entraram cambaleando no corredor, tão logo tiveram espaço suficiente na abertura para passar. No mesmo momento, Parker e Brett chegavam.
Ash adiantou-se para ajudar a mover o corpo, mas foi afastado por um gesto de Dallas.

— Fique a distância.

Dallas e Lambert depuseram Kane no chão e retiraram seus próprios capacetes.
Mantendo-se longe da forma em repouso, Ash deu-lhe volta até poder avistar a coisa presa à cabeça.

— Meu Deus! — murmurou.
— Está viva — disse Parker. Estudou a forma alienígena, admirando-lhe a simetria, o que não lhe tirava nada da repelência.
— Não sei, mas não lhe bote a mão! — avisou Lambert, enquanto retirava as botas.
— Não tenha medo disso — disse Parker. Inclinando a frente, procurava perceber detalhes, ver que parte da besta estava em contacto com Kane. — O que isso está fazendo com ele?
— Não sabemos. Temos de levá-lo à enfermaria e descobrir.
— Certo — disse Brett. — Vocês dois estão bem?
Dallas fez que sim com a cabeça.
— Estamos cansados, muito cansados. Só isso. O bicho não se moveu, mas é preciso observá-lo todo o tempo.
— Muito bem — os dois engenheiros ergueram Kane do chão, ajudados por Ash, e levaram-no.


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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Original SCIFI TOP 100


Inscrições para a Antologia SOLARPUNK




"As tramas tanto podem ser ambientadas em cenários históricos alternativos quanto em futuros próximos ou distantes. Não é inteiramente inconcebível se pensar em enredos “solarpunk” ambientados em cenários mais típicos do horror ou da fantasia. Desta forma, pretendemos reunir na antologia Solarpunk contos e noveletas de ficção científica, história alternativa, horror ou fantasia escritos em bom português, com fins de publicação pela editora Draco em 2012."

DEADLINE 31 DE MARÇO DE 2012

Maiores detalhes: Solarpunk Guidelines

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Akihiro Yamada

























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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Morfologia do Conto Maravilhoso







Resumo
Notas Bibliográficas e de Organização
Prefácio à Edição Brasileira
Prefácio

1. Para um Histórico do Problema
2. Método e Material
3. Funções dos Personagens
4. A Assimilação. Os Casos da Dupla Significação Morfológica da mesma Função
5. Alguns outros Elementos do Conto Maravilhoso
6. Distribuição das Funções entre os Personagens
7. Meios de Inclusão de Novos Personagens no Decorrer da Ação
8. Sobre os Atributos dos Personagens e sua Significação
9. O Conto como totalidade

Conclusão
Apêndice I: Dados para a Tabulação dos Contos
Apêndice II: Outros Exemplos de Análise
Apêndice III: Esquemas e Observações sobre Eles
Apêndice IV: Lista de Abreviaturas

O Estudo Tipológico - Estrutural do Conto Maravilhoso, por E. M. Meletínski
A Estrutura e a Forma - Reflexões sobre uma Obra de Vladimir Propp, por Claude Lévi-Strauss
Estudo Estrutural e Histórico do Conto de Magia, por V. I. Propp

Morfologia do Conto Maravilhoso - Vladimir I. Propp [ Download ]

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A importância do Maravilhoso na Literatura Infantil




Em seus primórdios, a Literatura foi essencialmente fantástica.

Nessa época era inacessível à humanidade o conhecimento científico dos fenômenos da vida natural ou humana, assim sendo o pensamento mágico dominava em lugar da lógica que conhecemos. A essa fase mágica, e já revelando preocupação crítica às relações humanas ao nível do social, correspondem as fábulas.

Compreende-se, pois, porque essa literatura arcaica acabou se transformando em Literatura Infantil: a natureza mágica de sua matéria atrai espontaneamente as crianças.

A literatura fantasista foi a forma privilegiada da Literatura Infantil, desde seus primórdios (sec. VII), até a entrada do Romantismo, quando o maravilhoso dos contos populares é definitivamente incorporado ao seu acervo (pelo trabalho dos Irmãos Grimm, na Alemanha; de Hans Christian Andersen, na Dinamarca; Garret e Herculano em Portugal; etc.)

Considera-se como Maravilhoso todas as situações que ocorrem fora do nosso entendimento da dicotomia espaço/tempo ou realizada em local vago ou indeterminado na terra. Tais fenômenos não obedecem as leis naturais que regem o planeta.

O Maravilhoso sempre foi e continua sendo um dos elementos mais importantes na literatura destinada às crianças. Através do prazer ou das emoções que as estórias lhes proporcionam, o simbolismo que está implícito nas tramas e personagens vai agir em seu inconsciente, atuando pouco a pouco para ajudar a resolver os conflitos interiores normais nessa fase da vida.

A Psicanálise afirma que os significados simbólicos dos contos maravilhosos estão ligados aos eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional. É durante essa fase que surge a necessidade da criança em defender sua vontade e sua independência em relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos.

É nesse sentido que a Literatura Infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta. O maniqueísmo que divide as personagens em boas e más, belas ou feias, poderosas ou fracas, etc. facilitaà criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social. Tal dicotomia, se transmitida atravás de uma linguagem simbólica, e durante a infância, não será prejudicial à formação de sua consciência ética.. O que as crianças encontram nos contos de fadassão, na verdade, categorias de valor que são perenes. O que muda é apenas o conteúdo rotulado de bom ou mau, certo ou errado.

Lembra a Psicanálise, que a criaça é levada a se identificar com o herói bom e belo, não devido à sua bondade ou beleza, mas por sentir nele a própria personificação de seus problemas infantis: seu inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e proteção. Pode assim superar o medo que a inibe e enfrentar os perigos e ameaças que sente à sua volta, podendo alcançar gradativamente o equilíbrio adulto.

A área do Maravilhoso, da fábula, dos mitos e das lendas tem linguagem metafórica que se comunica facilmente com o pensamento mágico, natural das crianças. Segundo a Psicanálise, os significados simbólicos dos contos maravilhosos estão ligados aos eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.


CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA.
"A IMPORTÂNCIA DO MARAVILHOSO NA LITERATURA INFANTIL" [online]

domingo, 9 de outubro de 2011

Alien Cards





















Alien Cards [ Download ]

sábado, 8 de outubro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 9)








V


Descansando pela breve interrupção da descida Kane deu um chute na parede fronteira e recomeçou. Deu um segundo chute, com o mesmo ímpeto — e já não encontrou a parede. O poço dissolvera-se. Suspenso no seu frágil fio de aranha, ele pairava agora sobre um abismo de escuridão impalpável.    

"Alguma espécie de recinto" — pensou. — "Talvez outra grande abóbada como a de cima."
Fosse o que fosse, emergira do poço. Respirava ainda com dificuldade, e o calor era o mesmo ou maior.

Curiosamente a escuridão parecia mais opressiva do que fora dentro do poço, malgrado as paredes, o espaço confinado. Pensou no que poderia jazer abaixo, na profundidade que teria, no que lhe poderia ocorrer se o cabo se partisse agora.
"Calma, Kane, calma", disse consigo. "Pense em diamantes. Límpidos, grandes, com mil facetas. Diamantes sem falhas e de muitos quilates. Não pense nessa escuridão nevoenta, que cheira a fantasmas alienígenas, a memórias meio esquecidas, a..."
Diabo, lá estava ele a fazê-lo de novo.

— Você vê alguma coisa?

Apanhado de surpresa, respondeu com um reflexo, dando uma sacudidela no cabo, e começou a balançar perigosamente. Usou o mecanismo para firmar-se outra vez, e limpou a garganta antes de responder. Tinha de lembrar-se que não estava só.
Dallas e Lambert aguardavam-no logo em cima, e não muito distantes, afinal.
Bastava uma pequena caminhada para alcançarem, todos três, o abrigo seguro do Nostromo, onde havia café quente, doces cheiros familiares e o imensurável conforto do sono profundo.

Por um momento desejou intensamente estar de volta a bordo. Repetiu, porém, consigo mesmo que não havia diamantes na nave e, certamente, nenhuma glória.
Aqui, talvez, conquistasse tudo isso.

— Não, não vejo nada. Há outra grande caverna debaixo dos meus pés. Saí do poço.
— Caverna? Cuidado, então, Kane. Não se deixe tentar! Olhe que ainda faz parte da tripulação.
— Eu? Você recorda o que foi dito sobre poços? Talvez seja verdade, no fim das contas.
— Então, você estará nadando em diamantes a qualquer momento.

Ambos deram risinhos de satisfação. Dallas riu amarelo. Sua voz parecia estranhamente cava e distorcida no alto-falante do capacete. Kane tentou em vão tirar o suor da testa. Os trajes espaciais tinham este grande inconveniente. Quando se começava a transpirar, a única coisa susceptível de limpeza era a placa lisa do visor.

— OK, não é uma caverna, pronto. Mas é quente como nos trópicos.

Inclinando-se com cuidado, procurou ler os instrumentos que trazia na cinta. Estava por demais abaixo da superfície para que o vasto espaço fosse efetivamente uma caverna. Mas até aquele momento nada encontrara que indicasse estar fora do ventre da nave alienígena.
Havia só um meio de ter certeza. Localizar o fundo.

— Como é o ar por aí? Além de quente?
— Outra verificação, diferentes leituras.
— Semelhante ao da superfície, grosso modo. Alto conteúdo de nitrogênio, pouco ou nenhum oxigênio. A concentração de vapor d’água é ainda mais alta aqui, graças ao aumento da temperatura. Posso colher uma amostra, se você quiser. Ash se divertirá com ela.
— Não importa no momento. Prossiga.

Kane virou uma chave. Seu cinto registrou a composição aproximada da atmosfera naquele nível. Isso alegraria Ash, embora uma verdadeira amostragem tivesse sido melhor. Ainda bufando, Kane ativou o equipamento do peito.
Com um confortante zumbido, o cabo recomeçou a descer com ele.
Era mais solitário do que no espaço exterior.
Girando devagar à medida que o cabo desenrolava, ele se aprofundava numa escuridão total, sem qualquer estrela ou nebulosa à vista.
Tão repousado ficara com o negrume absoluto, que levou um choque quando seus pés tocaram uma superfície sólida. Grunhiu de surpresa e quase perdeu o equilíbrio. Firmando-se a custo, pôs-se de pé, e desativou o mecanismo de descida.
Preparava-se para desafivelar também o cabo quando se lembrou das instruções de Dallas. Ia ser difícil explorar atado como estava, mas Dallas não conteria sua irritação se descobrisse que Kane se soltara. Tinha, pois, de fazer o que pudesse, e rezar para que o cabo não se prendesse a alguma coisa invisível, acima da sua cabeça.
Respirando com maior desafogo, ligou tanto o bastão luminoso quanto as luzes da roupa, a ver se percebia melhor onde se encontrava.
Ficou logo evidente que sua idéia de estar numa caverna fora tão inadequada como emotiva. O aposento era obviamente outra dependência da nave alienígena.
A aparência despojada, as paredes nuas, o teto alto, pareciam indicar um porão de carga. A luz revelava, sucessivamente, estranhas formas ou formações, que ou constituíam parte integrante do porão ou eram coisas que se lhe tinham, de um modo ou de outro, agregado. De aspecto eram moles, quase flexíveis, em oposição à sólida aparência das costelas de metal que reforçavam as paredes de corredores e câmaras.
Alinhavam-se ao longo dessas paredes, na mais perfeita ordem.
E, todavia, não lhe comunicavam a impressão de haverem sido armazenadas. Havia um excesso de espaços vazios na vasta câmara abobadada. Naturalmente, antes de ter uma idéia precisa do que eram aqueles volumes todos não se poderia especular sobre o sistema que presidira (caso isso tivesse ocorrido) ao seu armazenamento.

— Você está bem, Kane? — era a voz de Dallas.
— Sim. Você deveria ver isto aqui.
— Ver o quê? Achou algo?
— Não estou certo. Mas é estranhíssimo.
— De que está falando, homem? — Houve uma pausa. E depois: — Kane, poderia ter a bondade de ser mais específico? 'Estranhíssimo' não diz muito... toda esta espaçonave é estranha, mas não poderemos descrevê-la assim no relatório...
— OK. Pois é um outro imenso recinto, como o de cima. E contém algo, à volta toda, junto das paredes...

Empunhando a barra de luz numa postura inconscientemente agressiva, de quem aponta uma arma, ele andou até a parede mais próxima e examinou uma das referidas massas em repouso. Assim perto, concluiu que não eram parte da estrutura. E não era só isso: pareciam mais orgânicas do que nunca.

No alto, Dallas virou-se para Lambert:
— Quanto falta para o pôr do sol?
Ela estudou seus instrumentos, tocou brevemente um controle num deles.
— Vinte minutos — informou. E acompanhou a notícia com um olhar significativo.

Dallas não comentou, voltou sua atenção outra vez para o negro círculo do poço, e continuou olhando fixamente para baixo, embora nada pudesse ver.
Um novo lampejo do seu bastão luminoso revelou a Kane mais um pouco dos peculiares objetos presos ao solo da câmara, no centro do salão. Ele se aproximou deles rodeando-os para examinar espécimes individuais, um por um. Cada um deles tinha aproximadamente trinta centímetros de altura, era de forma oval e de aparência coriácea. Escolhendo um deles à esmo, focalizou nele mais demoradamente o seu feixe de luz. Essa iluminação sustentada não revelou nada de novo, nem pareceu ter qualquer efeito sobre o ovóide.

— É certamente alguma espécie de área de estocagem — disse. Mas não obteve resposta dos alto-falantes do capacete. — Disse que se trata, indiscutivelmente, de um depósito de alguma coisa. Alguém me ouve?
— Muito bem, claramente — respondeu o capitão. — Estávamos digerindo a informação, só isso. Você diz estar seguro de encontrar-se num porão de carga, de carga específica?
— Isso mesmo.
— Alguma coisa em favor dessa conjectura além do tamanho e forma dos volumes?
— Claro. Os volumes estão nas paredes e também no chão. Todos semelhantes. Não são parte da estrutura da nave. O recinto está cheio deles. Parecem de couro. Na verdade, parecem-se muito com aquela urna que você encontrou lá em cima, só que são aparentemente muito mais moles. Parecem também estar selados, ao passo que o seu estava rompido e vazio. Estão arrumadinhos, segundo a idéia que alguém de ordem, embora a meu ver haja um enorme desperdício de espaço.
— Parece uma carga muito esquisita, se e que se trata mesmo de carga. Você não consegue ver se há, de fato, alguma coisa nos volumes? — Dallas tinha bem presente na cabeça a urna vazia que encontrara.
— Agüente-se aí. Vou dar uma olhadela mais de perto.
Deixando o bastão luminoso, Kane aproximou-se do espécime que vinha estudando, estendeu a mão enluvada e tocou-o. Nada aconteceu. Inclinando-se, tocou de leve nos lados, depois no topo. Não havia qualquer pegador ou alça, qualquer solução de continuidade, brecha ou greta na lisa superfície oblonga.
— É estranho, Dallas; porém mesmo através das luvas essa coisa transmite uma sensação bizarra.
A voz do capitão carregou-se de receio

— Eu tinha pedido apenas que você visse o que estava dentro. Não abra! Você não sabe o que pode conter!

Kane escrutinou o objeto mais de perto. Não mudara nem mostrava qualquer sinal de haver sido afetado pelo fato de ser puxado ou palpado.

— Dallas. Não sei o que contém, mas seja o que for está hermeticamente fechado. Talvez eu ache algum ovóide rachado ou partido como o outro.

No lusco-fusco das luzes da roupa espacial, uma pequena saliência fez-se visível na esticada superfície do ovóide que ele vinha tocando. Uma segunda erupção apareceu em seguida, depois outra, e mais outras, até que houve algo como uma série de calombos semelhantes, de tamanho moderado embora, por toda a superfície do topo.
Kane passara em revista alguns outros dos volumes e informava:

— Nada. Nem fenda nem rachadura em todos os volumes — disse e dirigiu, distraidamente, o foco de luz  para o ovóide que tinha examinado antes com maior detalhe. Logo se curvou sobre ele, surpreso com o que descobria.
A superfície, antes opaca, se tornara agora translúcida. E diante dos seus olhos arregalados, tornou-se aos poucos transparente como vidro. Kane acercou-se, dirigiu o feixe de luz para a base do objeto, cravou os olhos nele, incrédulo.
Mal respirava agora, pois uma forma se fizera visível dentro daquela espécie de caixa.
— Jesus!
— O que é Kane? O que se passa? — Dallas fazia esforço para não gritar.

Um pequeno pesadelo — era o que, agora se tornava patente no interior do ovóide. Compacto e delicado, dobrado sobre si mesmo, enrolado, feito de uma carne delicada, em filigrana. Para Kane que estava paralisado de horror, a coisa parecia uma espécie de delirium tremens arrancado a qualquer mente doentia e insuflado com forma e solidez.
A 'coisa' tinha a forma geral de uma mão, com muitos dedos longos e ossudos fechados para a palma. Semelhava a mão de um esqueleto, salvo pelo número de dedos a mais. Alguma coisa saía do centro da palma, uma espécie de tubo. Uma cauda muscular enrolava-se debaixo da base da mão. Nas costas havia também algo, que ele não percebia bem, mas que era convexo e parecia um olho vidrado.
Esse olho... Se era de fato um olho e não simplesmente alguma excrescência mais brilhante, pedia um exame mais acurado. A despeito do sentimento de repugnância que lhe mordia o ventre, Kane acercou-se ainda mais e ergueu a luz para ver melhor.
O olho moveu-se, e olhou para ele.

Então, o ovóide explodiu. Impelida para fora pela repentina libertação de energia contida na cauda em espiral, a mão abriu-se e saltou sobre ele. Kane levantou o braço a fim de aparar o golpe, mas era tarde demais. A mão agarrou sua placa facial. Ele teve uma horrível visão em close-up do oscilante tubo do meio da palma que tocava o vidro, centímetros acima do seu nariz. Alguma coisa começou então a chiar e o material da placa facial começou a derreter.
O astronauta entrou em pânico, tentou despregar a criatura do seu escafandro.
Mas ela já perfurara a veste espacial. Atmosfera alienígena, fria e áspera misturou-se ao ar respirável. Kane sentiu-se tonto, continuou a repelir debilmente aquela mão de pesadelo. Alguma coisa comprimia-lhe, com força, os lábios.

Para além de todo o horror concebível, ele cambaleava agora, procurando ainda livrar-se daquela abominação. Os dedos afuselados, compridos, sensitivos, tinham se enfiado pela máscara rompida. Envolviam a sua cabeça, apertavam os lados do seu rosto; e a cauda grossa enrolou-se do lado de dentro do capacete em torno do seu pescoço, como uma cobra.
Apenas capaz de respirar ainda, com aquele tubo horrendo, como um gordo verme, a descer-lhe agora pela garganta abaixo, Kane embaraçou um pé no outro, tropeçou e caiu de costas.

— Kane, Kane, você me ouve? — perguntava Dallas, suando dentro da roupa. — Kane, responda-me!

Silêncio. O capitão pensou rapidamente:
— Se você não puder usar mais o seu comunicador, dê dois sinais com a unidade rastreadora.

E olhou para Lambert, que poderia captar o sinal. Ela esperou um pouco, depois mais um pouco, antes de abanar a cabeça lentamente.

— O que acha que aconteceu?
— Não sei. Talvez tenha caído, danificado suas células elétricas. Kane não pode ou não quer responder. O melhor será içá-lo.
— Mas não é prematuro? Eu também estou preocupada, mas, mesmo assim...

Dallas tinha uma nota de desvario no olhar. Quando percebeu que Lambert o observava, acalmou-se:
— Estou bem. Estou muito bem. É este lugar... — e mostrou, com um vago gesto, as frias, plúmbeas paredes. — Mas insisto, vamos puxá-lo.
— Ele perderá o equilíbrio, se não está esperando isso... Poderá ferir-se, sobretudo se de fato caiu, se jaz numa posição falsa, torcida. E se não aconteceu nada, ele vai falar nisso anos a fio...
— Pois tente o contacto, pela última vez.
Lambert manipulou freneticamente seu comunicador:
— Kane, com mil diabos, responda!
— Continue tentando — disse Dallas.
Mas enquanto ela o fazia, o capitão debruçou-se sobre o poço e examinou o cabo. Movia-se fácil na sua mão, fácil demais. Puxou, e um metro de linha veio para cima, sem a esperada resistência.

— O cabo está solto — disse.
— E ele não responde. Não pode ou não quer. Você acredita que terá se soltado voluntariamente? Ouvi o que você lhe disse, mas sabe como ele e. Pensou, provavelmente, que você não perceberia uma temporária redução na tensão do cabo. Se viu algo de insólito e se teve medo que o cabo se partisse, ou prendesse em alguma coisa, ou ficasse fora do seu alcance, seria bem capaz de desligar-se dele.
— Não me importa o que tenha encontrado. O que importa, o que me alarma, é que ele não responde!
Dallas ligou o motorzinho.
— Lamento assustá-lo. Se não houver nada de errado com ele ou com o equipamento, vou fazê-lo desejar ter-me obedecido.

Um piparote em outro comutador, e o molinete começou a enrolar o cabo. Dallas observava fixamente e só afrouxou um pouco a expressão tensa, aflita, quando viu que a linha se retesava depois de haver recolhido uns dois metros. Como seria de esperar, o cabo passou a subir mais devagar.
— Há um peso na extremidade. O cabo pegou.
— Ou terá ficado preso a alguma coisa.
— Não pode ser. Continua a subir macio, alterou-se apenas a velocidade. Se estivesse enganchado em algum obstáculo e se puxasse alguma coisa além de Kane, a diferença de peso faria que subisse mais devagar ou mais depressa. Penso que ele ainda está lá, embora incapaz de responder.
— Mas, e se ele objeta e tenta usar a unidade que tem no peito para descer?
Dallas sacudiu a cabeça com brusquidão:
— Não pode fazer isso — e, apontando o guincho: — É o nosso cabo que está na roldana, não o portátil que ele está usando. Ele vai subir, queira ou não queira.

Lambert olhava, ansiosa, para a escuridão do poço.
— Ainda não vejo nada.
Um bastão luminoso fez dançar um incerto feixe numa parcela do poço. Era Dallas, que varria com a lança de luz as lisas paredes de cor cinza.
— Nem eu. Mas a linha continua a enrolar-se e vem tesa.
Continuava, de fato, sua firme subida. E as duas figuras, petrificadas nas suas estranhas, volumosas, vestes, aguardavam que alguma coisa surgisse no halo expectante da lanterna de Dallas. Vários minutos se passaram até que o cone de iluminação foi interrompido por algo que ascendia.
— Aí vem ele.
— Mas não se move! — exclamou Lambert, à espreita de um gesto qualquer da forma que se acercava, de um gesto obsceno que fosse... Mas Kane não se mexia.
A trípode inclinou-se um pouco para baixo quando os últimos metros de cabo foram engolidos pelo mecanismo.
— Prepare-se para agarrá-lo no momento em que balance para seu lado!
Lambert se aprestou, do outro lado do poço.
O corpo de Kane surgiu à vista, a balouçar lugubremente na ponta do cabo. Parecia frouxo e inerte.
Dallas debruçou-se no vazio, com a intenção de agarrar o astronauta imóvel pelo peito dos arreios. E sua mão quase fizera contacto com ele quando percebeu, dentro do capacete fraturado, a criatura cinzenta e igualmente imóvel que envolvia a cabeça de Kane.
 Puxou a mão como se a tivesse queimado.

— Que foi? — perguntou Lambert.
— Cuidado! Há algo no rosto dele, dentro do capacete!
Ela contornou o buraco.
— Mas o quê...
E aí teve sua primeira visão da criatura, aninhada lá dentro como um molusco na concha.
— Jesus!


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domingo, 2 de outubro de 2011

Cracked especial - Alien










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sábado, 1 de outubro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 8)







Não era possível ver nada.
Dallas moveu a lanterna devagar de um lado para outro. O feixe era estreito, mas poderoso. Revelaria qualquer coisa que estivesse a uma distância razoável abaixo deles.
— O que temos lá? Um novo porão de carga?
— Impossível dizer, daqui. Apenas se aprofunda, indefinidamente. Tem paredes lisas, como estas de cima, e tão longe quanto minha luz alcança. Não há sinal de elevador, escada ou qualquer meio de descida. Nem posso ver o fundo. A luz não chega lá. Talvez seja um poço de acesso de alguma espécie...
Desligou a lanterna, mudou de posição e, um metro mais adiante, começou a remover equipamento da cintura e da mochila que tinha às costas. Botou tudo no chão, ergueu e olhou em torno da sala, cinzenta e mal iluminada.
— O que quer que esteja lá embaixo, pode esperar. Vamos examinar este andar primeiro. Quero ter certeza de que não haverá surpresas. Talvez até encontremos outra descida mais praticável.
Acendeu de novo a luz portátil e fez com que seu feixe varresse as paredes próximas.
A despeito da sua aparência de interior de ventre de baleia, elas continuaram misericordiosamente imóveis.
— Espalhem-se, mas não muito. Sobretudo, não nos percamos jamais de vista. Isso não deve levar mais que uns dois minutos.

Kane e Lambert ativaram seus próprios iluminadores.
Caminhando em linha, começaram a explorar o vasto recinto.
Fragmentos de algum estranho material, cor de cinza, jaziam um pouco por toda parte. A maior parte estava enterrada debaixo das dunas de poeira e de pedra-pomes pulverizada que se tinham acumulado depois de entrar, em ondas, pelas escotilhas.
Kane ignorou aquilo. Procuravam coisas intactas.
De súbito, a luz de Dallas caiu numa forma que não fazia parte do soalho.
Chegando perto, desenhou com a luz os seus contornos. Parecia tratar-se de uma pequena urna ou vaso, de cor parda e de aspecto brilhante. Mais perto ainda, inclinou a cabeça para olhar o que tinha dentro. A tampa estava estilhaçada. Iluminou o interior do objeto.
Nada. Vazio.
Desapontado, afastou-se, pensativo. Como explicar que uma coisa aparentemente frágil ficara relativamente intocada, enquanto que outras substâncias mais duráveis tinham secado ou partido?
Talvez pudesse testar a qualidade do material tentando derretê-lo a pistola.
Ia dirigir de novo o cone de luz para o piso quando caiu, por acaso, sobre algo complexo e obviamente, audaciosamente, mecânico. No interior dos contornos semi-orgânicos, cetáceos, da nave alienígena, uma forma confortadoramente funcional era um alívio grande. Embora o próprio desenho dela não lhe fosse familiar.

— Aqui!
— Algo errado? — perguntou Kane.
— Não. Mas encontramos afinal um mecanismo.

Lambert e Kane correram a juntar-se a ele, levantando com as botas pequenas nuvens de pó animado. Juntaram suas luzes à do capitão. Tudo parecia quieto e morto, embora Dallas tivesse a impressão de uma força paciente que funcionava, macia e imperturbável, por detrás daqueles painéis. A prova de vida mecânica era dada agora pela barra, isolada, que se movia para frente e para trás, num sulco profundo, embora não fizesse qualquer ruído.

— Parece que ainda funciona. Há quanto tempo terá sido posta em marcha? — Kane examinou o instrumento, fascinado. — Para que servirá?
— Isso posso dizer a você.

Voltaram-se ambos para Lambert. Ela confirmou o que Dallas já adivinhara. Tinha nas mãos o seu situador, o instrumento que os conduzira desde o Nostromo.
—  É o transmissor! O que emite a pulsação que ouvimos desde o espaço, e exatamente como imaginávamos, parece novo em folha, mas pode muito bem estar transmitindo esse pedido de socorro há anos... — deu de ombros —  décadas... ou mais tempo ainda..

Dallas fez passar um instrumento por cima da superfície do transmissor.
— Repulsão eletrostática. Isso explica a ausência de pó. O que é mau. Não há quase vento nenhum aqui, e a espessura da camada poderia indicar quanto tempo o mecanismo foi posto em funcionamento.

Desligou o analisador e botou-o de volta no seu coldre de bolso.
— Alguém encontrou mais alguma coisa?
Ambos sacudiram a cabeça.
— Só paredes reforçadas com nervuras e pó, muito pó — disse Kane, desanimado.
— Nenhum sinal de outra comunicação com o resto da nave? Nenhum alçapão?
De novo a dupla resposta negativa.
— Isso nos deixa com o primeiro poço. Ou então teremos de perfurar uma parede dessas. Será melhor experimentar o primeiro, antes de começar a arrebentar coisas.
Percebeu a expressão de desconsolo de Kane.
— Quer desistir?
— Ainda não. Só desistirei depois de termos esquadrinhado cada centímetro dessa miserável engenhoca sem encontrar nada. A não ser, naturalmente, paredes cinzentas e maquininhas seladas hermeticamente.
— Não que me importasse muito — disse Lambert, com raiva.
Voltaram sobre seus passos e dispuseram-se em círculo na borda da abertura circular do chão. Dallas ajoelhou-se com cuidado, como cumpre fazer num traje espacial, e palpou a orla do buraco.
— Não é possível dizer muito, com essas luvas tão grossas, mas me parece regular. O orifício deve ser parte normal da nave. Pensei que talvez tivesse sido resultado de uma explosão. E isso explicaria o chamado de socorro que estamos captando.
Lambert estudou o poço.
— Uma carga especial poderia ter feito um buraco redondo como esse.
— Você gosta mesmo de estragar o prazer da gente, não é? — Dallas estava desapontado. — Mas continuo a pensar que se trata de uma passagem normal, habitual, da nave. Os lados são regulares demais, mesmo para uma carga moldada, fosse qual fosse a sua potência.
— Estava apenas dando minha opinião.
— De qualquer maneira, ou a gente olha o que está lá embaixo, ou a gente sai e procura outra entrada — continuou Dallas. E voltando-se para Kane: — Parece-me que você tem aí a sua grande oportunidade.
O executivo mostrou-se indiferente.
— Como queira. Para mim é o mesmo. Se me sentir bonzinho sou até capaz de contar-lhe sobre os diamantes.
— Que diamantes?
— Os que vou encontrar nas arcas alienígenas lá de baixo, cheias até a boca, derramando-se pelo chão... — e fez um vago gesto em direção às trevas inferiores.
Lambert ajudou-o a ajustar o equipamento de alpinismo que trazia no peito, assegurando-se de que as correias estavam firmemente presas às costas e aos ombros. Tocou, de leve, o botão de controle e foi recompensado com um sinal abafado.
Uma luz verde acendeu e apagou na frente da unidade.
— Está funcionando. Estou pronto — disse Kane. E para Dallas: — Você também?
— Só um minuto mais — o capitão armara uma trípode com elementos curtos de metal. Parecia frágil, fina demais para suportar o peso de um homem. Na verdade, poderia sustentar três homens sem sequer envergar.
Quando estava bem presa, Dallas virou-a de modo a que seu ápice ficasse no centro do buraco. As pernas foram presas às bordas por braçadeiras. Havia uma pequena roldana no topo, com um cabo. Dallas desenrolou com a mão um metro ou dois de um cabo guia, cuja ponta entregou a Kane. O oficial executivo fixou-a na alça que tinha no peito, afivelando-a bem.
Lambert assegurou-se de que estava firme puxando-a com toda a força.
— Não se desprenda desse cabo em nenhuma circunstância — recomendou o capitão com toda a seriedade. — Mesmo que as tais pilhas de diamantes estejam um pouco fora do seu alcance.

Verificou também, pessoalmente, o funcionamento do cabo. Kane era um bom oficial. A gravidade ali era menor que a da Terra, porém mais que adequada para causar dano a Kane se ele caísse. 'Não tinham idéia da profundidade daquele poço nem onde ia dar nas vísceras da espaçonave. Poderia ser até um poço de mina, entranhar-se pelo solo adentro. E esse pensamento sugeriu outro, que fez Dallas sorrir com seus botões.
Talvez Kane acabasse por encontrar mesmo seus diamantes.

— Volte em menos de dez minutos — falava com toda a sua autoridade. — Entendido?
— Sim, sim — disse Kane.

Sentou-se na geringonça, passou as pernas por cima da borda circular. Depois, agarrando-se ao cabo com as duas mãos, começou a descer pelo meio do buraco.
A parte inferior do seu corpo logo desapareceu no ar negro.

— Se você não voltar espontaneamente em dez minutos eu o puxo — avisou Dallas.
— Calma. Serei um bom menino. Além disso, sou capaz de me cuidar.
Parou de balançar, então. E ficou pendurado, imóvel, sobre o vazio.
— Isso. Mantenha-nos informados.
— Entendido.

Kane acionou o equipamento de alpinismo. O cabo começou a desenrolar sem ruído, baixando-o no interior do poço. Estendendo as pernas, sentiu a parede lisa. Apoiando-se nela com os pés e na parede do outro lado com os ombros, pôde descer como se andasse num penhasco vertical.
Depois, imobilizou-se e apontou para baixo o feixe de luz do seu bastão. Viu ainda uns dez metros de metal escuro; depois nada.
— Faz mais calor aqui — informou, após uma breve inspeção do equipamento sensório do seu traje espacial. — Deve ser pelo ar quente que vem de baixo. Talvez seja parte do complexo do motor, se o motor estiver ainda funcionando. Alguma coisa alimenta aquele transmissor.

Chutando, intermitentemente, o paredão e manipulando o cabo, recomeçou a descer. Depois de alguns minutos dessa manobra, parou para recobrar fôlego. Estava mais quente, e o calor aumentava à medida que descia. Essa mudança contínua não era compensada com a necessária rapidez pelo equipamento de resfriamento da roupa, e Kane começou a suar, embora a unidade condicionadora do capacete, que era independente, mantivesse livre de vapor a placa da cara. Ouvia que sua respiração era forçada, e isso o aborreceu, pois sabia que Dallas e Lambert podiam ouvi-la também, do alto. Não queria ser içado de volta.
Recostando-se, olhou para cima e viu a boca do poço, um círculo de luz emoldurado de negro. Uma sombra apareceu, borrando um dos nítidos contornos.
Uma luzinha remota brilhou, houve um reflexo baço, macio.

— Você está bem, aí dentro?
— Sim. Mas está quente. Posso vê-lo. Ainda não cheguei ao fundo — disse. Depois respirou, engolindo dois grandes haustos de ar. O tanque regulador gemeu, em sinal de protesto. — É trabalho duro descer. Não posso falar mais agora.
Dobrando os joelhos, chutou a parede e soltou mais cabo. Sentia-se mais seguro agora. O poço continuava sem qualquer indicação de que poderia estreitar ou mudar de direção. Não temia que se alargasse.
Chutou mais forte, da vez seguinte, soltando mais cabo também, e descendo mais depressa, em conseqüência. Mas sua lanterna, que continuava a iluminar as profundezas, mostrava, ainda e sempre, a mesma invariável, monótona, escuridão.
De novo sem fôlego, fez uma pausa que aproveitou para conferir seus instrumentos.
— Curioso — disse no pick-up —, estou abaixo do nível do solo.
— Entendido — respondeu Dallas. E, pensando em poços de mina: — Mudou o aspecto geral do poço? A parede ainda é do mesmo material?
— Tanto quanto eu possa ver. Como vou indo de cabo?
Houve um pequeno intervalo, enquanto Dallas inspecionava a bobina.
— Muito bem. Temos ainda uns cinqüenta metros, se o poço for mais fundo do que isso, teremos de desistir e trazer mais cabo da nave. Mas não acho que se aprofunde tanto.
— Por que não?
— A nave ficaria desproporcionada — respondeu Dallas, um tanto inseguro.
— Desproporcionada com relação a quê? E a que idéias de proporção?
Dallas não respondeu.

Ripley teria desistido da sua investigação se tivesse outra coisa para fazer.
Mas não tinha.
Brincar com o teclado do ECIU era melhor que andar sem destino por uma nave deserta ou contemplar os lugares vazios à sua volta.
De súbito, um alinhamento mais ou menos casual de prioridades do seu questionário fez reagir o gigantesco Banco de Memória da nave. A leitura resultante surgiu na tela tão inesperadamente que ela quase a apagou para continuar com a série antes de perceber que recebera uma resposta adequada.
O defeito dos computadores — pensou — era que não tinham intuição. Deduziam apenas. O que condicionava o resultado à qualidade das perguntas.
Estudou com avidez a resposta. Depois, de testa franzida, martelou o console para saber mais. Às vezes a Mãe era, involuntariamente, evasiva. Havia que extrair o que era relevante de um labirinto de sutilezas.
Dessa vez, porém, a resposta veio clara, sem margem para engano. Embora ela tivesse desejado, ardentemente, o contrário.
Ligou com urgência urgentíssima o intercomunicador.
— Ampola científica. Que diabo a mordeu, Ripley?
— É uma emergência, Ash. — Tinha a voz entrecortada. — Consegui algo do Banco, afinal, via ECIU. Não importa como o tenha conseguido. Eu mesma não sei muito bem.
— Felicitações.
— Deixe isso pra lá — cortou ela, aflita. — A Mãe decifrou, ao que parece, parte da transmissão alienígena. Ela ao está certa do resultado, mas teme, e eu também, que não se trate de um S.O.S.
Isso tirou a voz a Ash, mas só por um instante. Quando respondeu, seu tom era tão controlado quanto de hábito, a despeito da importância da revelação de Ripley.
Ela maravilhou-se com o autodomínio dele.
— Se não é um pedido de socorro, o que é, então? — perguntou calmamente. — E por que o nervosismo? Pois você está nervosa, não é?
— Claro que estou nervosa! E vou ficar pior, se a Mãe estiver com a razão. Como já disse, ela não tem certeza. Mas pensa que o sinal pode ser um aviso.
— Que espécie de aviso?
— Que diferença faz?
— Não precisa gritar, Ripley.
Ripley respirou fundo, duas vezes. Depois contou até cinco.

— Temos de falar com eles. Eles têm de saber disso imediatamente.
— De acordo — disse Ash. — Mas é inútil. Desde que entraram na nave alienígena, perdemos contato. Já não sei deles há algum tempo. A combinação da proximidade do transmissor alienígena com a composição peculiar do casco da nave sinistrada vem impedindo todas as minhas tentativas de restabelecer a comunicação. E, pode crer, eu tenho tentado!
Dito isso, fez uma espécie de desafio.
— Pode tentar você mesma, se quiser. Eu a ajudarei na medida do possível.
— Escute, Ash, não estou pondo em dúvida sua competência. Se diz que não consegue contato, é porque não consegue contato. Mas, por Deus, temos de passar essa informação!
— O que sugere?
Ela hesitou. Depois disse, com firmeza.
— Eu vou atrás deles. Eu lhes direi pessoalmente.
— Não, não acho bom.
— É isso uma ordem, Ash? — Ela sabia que, numa emergência como aquela, o oficial de ciência, mais graduado do que ela, tinha a última palavra.
— É uma questão de bom senso, Ripley. Sei que você não gosta muito de mim. Mas procure ver a coisa desapaixonadamente. Não podemos dispensá-la. Somos quatro aqui, você e eu, Parker e Brett. A nossa capacidade de decolar é mínima. Três fora, quatro na nave. É a regra. Foi por isso que Dallas nos deixou para trás. Se você, por qualquer razão que seja, vai correndo ao encontro deles, ficamos presos aqui até que alguém volte. Se não voltarem, ninguém saberá o que aconteceu neste planetóide — fez uma pausa e acrescentou: — Além disso, não devemos imaginar que alguma coisa lhes tenha ocorrido. Estarão provavelmente muito bem.
— OK — disse ela, a contragosto. — Você tem razão. Mas trata-se de uma situação  excepcional. Continuo a achar que alguém deveria avisá-los.
Ripley nunca tinha ouvido Ash suspirar. E ele não o fez. Mas deu-lhe a impressão de que se resignava a uma decisão forçada.
— De que adiantaria? — disse com voz neutra e como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Até que um de nós chegue lá eles já saberão que se trata de um sinal de alerta. Estou certo ou errado?

Ripley não respondeu, mas sentou-se, encarando-o fixamente.
Ash não pestanejou. Ficou também a encará-la; o que ela não podia ver da ampola científica era o diagrama que se formava no monitor do console dele, em cima.
Teria parecido lhe de maior interesse...



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