Mostrando postagens com marcador Bradbury. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bradbury. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de março de 2012

A ficção utópica como representação – negação da realidade histórica: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury


 
A ficção especulativa tece com a História uma relação específica e original, por um lado recusando a referencialidade empírica, por outro ancorando em mecanismos próprios do seu género literário que recriam contextos reais e conhecidos.

A análise deste aparente paradoxo sugere o contributo incontornável desta ficção para o debate sobre a Literatura e a História.

O conceito de ficção especulativa associa-se à criação de um mundo imaginário que transcende a noção do “mundo possível” dos textos ficcionais, porquanto se caracteriza por um afastamento do real empírico, desenvolvendo-se em torno de uma diegese particular: o espaço, o tempo, os objectos, as personagens do texto narrativo especulativo podem não corresponder à lógica do mundo real. Esse universo narrativo constrói-se à revelia da representação mimética da realidade que muitos autores imputam aos modos ficcionais; todavia, ele não deixa, ainda assim, de projectar uma relação com o mundo real que pode traduzir-se numa transfiguração desrealizante do mesmo (Reis, 1994: 245).

O próprio termo “especulativo” remete para a ligação entre conhecimento histórico e imaginação, uma extrapolação que, segundo Robert Heinlein, traduz o espírito do tempo (Davenport, 1969: 29) e que assume diferentes expressões em textos de ficção científica, fantástica, maravilhosa ou utópica. A ficção especulativa conquista, assim, um papel contíguo e complementar ao do romance histórico, que aqui nos propomos exemplificar com a obra de Ray Bradbury, Fahrenheit 451.





Defensores da ficção especulativa acentuaram a sua vertente de crítica social, devido ao seu carácter mais abrangente face ao romance histórico e à sua interpretação do ritmo e das mutações constantes da vida moderna (Davenport, 1969: 41). Esta perspectiva redutora encontra oposição no seio dos próprios escritores de ficção científica, como Kornbluth, que lhe outorgam uma simbologia profunda e a capacidade de abordar temas mais universais (Davenport, 1969: 49/50). Porém, nas suas vertentes utópica e distópica, a primeira posição parece ter fundamento, já que o paradigma utópico se associa à criação de uma sociedade imaginária perfeita, ao sonho da felicidade colectiva, isto é, à negação da sociedade real.

Embora o texto Utopia, de Thomas More, constitua a matriz referencial desta definição e das múltiplas expressões que se lhe seguiram, a República de Platão havia já traçado o projecto de uma cidade ideal, política e socialmente perfeita. Os textos utópicos mais recentes são fiéis à coordenada central destas narrativas matriciais: a ideia absoluta de uma alteridade radical face à realidade coeva e conhecida.
Deste modo, a crítica social e política e às instituições (Baczko, 1985: 357) não é explícita, ela descodifica-se a partir de uma leitura em negativo: a Cidade Nova das Utopias é a substituição, por oposição absoluta, à cidade real – metonimicamente, à sociedade real. A ficção científica surge, no século XIX, como a expressão mais optimista da utopia, fruto das revoluções industrial e científica e consumidora incondicional dos referentes postos à sua disposição pela ciência e pelo progresso. São exemplo desta corrente autores como Júlio Verne, H. G. Wells, Bellamy, Lasswitz (McQuairie, 1980: 242).

A história do século XX, particularmente da segunda metade, com a Segunda Guerra Mundial, vê consolidar-se uma outra dimensão da utopia: as correntes antiutópicas, ou distópicas, associadas ao crescente questionar do impacto da tecnologia no comportamento da humanidade, e a uma leitura dos acontecimentos históricos em que a utilização perversa do conhecimento e do progresso tecnológico e científico se relaciona com os regimes totalitários. A antiutopia exprime desconfiança face ao avanço desordenado, desregrado, da ciência (Taylor, 1972: 861). Baczko indica dois textos fundamentais do século XX como expressão exemplar da antiutopia: Brave New World, de Aldous Huxley (1932) e 1984, de George Orwell (1949). Enquanto o primeiro se centra na crítica implícita ao progresso técnico e científico, o segundo veicula uma crítica de natureza política aos regimes comunistas totalitários. Numa e noutra obra, o conflito entre o indivíduo e a sociedade assume um crescendo significativo, pois os protagonistas progridem no sentido da recuperação do poder do pensamento e da identidade individual, numa ruptura gradual com o poder e a ideologia instituída. O herói torna-se antiherói devido à solidão a que a sua capacidade de pensar o remete, e é também o pensamento que, ao dar-lhe o sonho da liberdade, o condena no final de cada uma destas narrativas. A vitória é, assim, da sociedade e do colectivo.

Um aspecto pertinente comum a estes dois textos é sem dúvida o contributo que dão à expressão de angústias colectivas associadas a um determinado período ou contexto histórico (Baczko, 1985: 363).
A antecipação é o meio escolhido para exprimir uma leitura negativa da história; o efeito de verosimilhança e a coerência interna do texto apoiam-se em recursos característicos da ficção científica, entre os quais se salienta a utilização de um tempo futuro. Este aspecto é distintivo na ficção especulativa, opondo-a ao romance histórico, já que este se reporta a acontecimentos passados, enquanto a narrativa especulativa não narra o que aconteceu, mas o que poderia acontecer: para isso, interpreta o presente com minúcia cirúrgica, apropriando-se assim da dimensão de historicidade da literatura. Fahrenheit 451 foi escrito por Ray Bradbury em 1953 e herda dos dois textos a que aludimos aspectos significativos, em especial de 1984, de Orwell.

Trata-se de um romance que entronca numa concepção de narrativa especulativa, visto criar uma sociedade imaginária que degenera de aspectos da sociedade contemporânea à própria narrativa.

A história desenvolve-se em torno da actividade levada a cabo pelos bombeiros, cuja missão é localizar e queimar todos os livros existentes na cidade. O livro e a leitura constituem algo de proíbido, de exógeno à sociedade de Fahrenheit. A questão do controle e censura estatal sobre a imprensa e a escrita em geral foi tratada nos exemplos clássicos de distopia a que aludimos, como 1984 e Brave New World (Seed, 1994: 237), e aparece depurada e celebrizada no título deste romance de Bradbury, que como se sabe refere, em graus da escala de Fahrenheit, a temperatura à qual os livros ardem.

Esta imagem central é atribuída, segundo alguns críticos, à inspiração na destruição nazi dos livros pelo fogo, frente à Universidade de Berlim, em plena ascensão do nazismo (Seed, 1994: 236). Como é que a actividade de incendiar os livros, subversão moral da função altruísta e humanista dos bombeiros no mundo real, empírico, e que se constitui como leitmotiv da narrativa, reflecte a sociedade americana?

O protagonista de Fahrenheit, Guy Montag, é justamente um dos bombeiros encarregues de tal tarefa.
No início da narrativa, ele é a expressão do próprio sistema, executa a ideologia do poder, usa a sua farda e insígnia (identificadas com a América) e vive inebriado pela própria rotina. Usufrui do conforto material que a profissão lhe proporciona e não se questiona sobre a sua acção, até conhecer Clarisse, uma jovem de 17 anos, cuja influência é determinante na sua percepção do mundo, visto que o leva progressivamente a questionar os seus actos; são as suas perguntas e a sua curiosidade que o incitam a buscar a verdade e o auto-conhecimento, o que redunda numa ruptura assumida relativamente ao sistema e que se exprime através do confronto entre Montag e Beatty, o chefe dos bombeiros.

Clarisse é, assim, uma personagem catalisadora (Seed, 1994: 233), porquanto é ela que faz despoletar a trama narrativa – ela pensa e sente, enquanto as outras personagens, tal como Montag, aceitam.
Este é, de resto, um traço distintivo das distopias dos anos cinquenta, o pressuposto de que a insatisfação face ao regime contemporâneo será, mais cedo ou mais tarde, registada pelos protagonistas, frequentemente devido à função catalisadora de personagens como Clarisse (Seed, 1994: 233).
Assim, é esta personagem que desencadeia também uma interpretação crítica da sociedade, e é através dela que Montag verbaliza e caracteriza o mundo que o rodeia. Porém, o que é interessante em Clarisse é que, como refere McGiveron (McGiveron: 3), ela apenas enuncia os factos, sem teorizar sobre eles.
A verdade sobre os factos tem de ser descoberta e enunciada: Clarisse é a linguagem, Montag é o leitor que a interpreta. Assim, Clarisse antecipa a metáfora final das book people (pessoas que memorizaram livros), pois ela própria é metáfora do texto literário, os seus enunciados oferecem outros níveis de sentido. E que sociedade é esta que a interpretação das palavras de Clarisse desvenda?
Por exemplo, o universo familiar de Montag insere-se no contexto de prosperidade económica que marcou os anos cinquenta na América, de que a sua casa é exemplo. O quarto de Mildred, a mulher de Montag, é hipérbole deste fascínio novo, com as paredes forradas de écrans gigantescos, o que se associa igualmente ao impacto da televisão. Esta personagem retrata justamente a inércia, a inactividade, o conformismo e a ausência de pensamento político que marcaram a sociedade dos anos cinquenta. O mundo de Mildred é constituído pela televisão, pelo automóvel, pelas festas e pelo consumo de tranquilizantes, expressão última da anulação do próprio pensamento, do vazio que se instala e se repercute nas próprias relações humanas, de que o casamento de Montag e Mildred é paradigmático.

Televisão e tranquilizantes, aliás, assumem igual preponderância na destruição da capacidade de reflexão e de pensamento; ambos desempenham uma função narcótica que, no caso da televisão, veicula ainda uma crítica à tecnologia de que é metonímia e ao consumismo de que é, a um tempo, expressão e pivô.
A televisão não substitui apenas o pensamento, visto que a própria trama narrativa, com o móbil da destruição dos livros pelo fogo, legitima, no nosso entender, que ela represente a substituição absoluta do livro, a grande ameaça que a sociedade contemporânea viu posteriormente comprovada.

Enquanto Mildred veicula uma leitura da sociedade e da cultura da época, a proibição da leitura que justifica a trama narrativa acusa questões do foro ideológico e político, acentuando a negação da liberdade individual, a violação de direitos humanos inalienáveis e a perseguição dos indivíduos pelo sistema.
A cultura de suspeição sobre o indivíduo reflecte ainda o conflito entre este e a maioria instituída, a cultura de massas e o conformismo que lhe é consequente (Hoskinson, 1995: 2). Estas são características dos regimes totalitários que já Orwell reproduzira em 1984, e que se explicam no contexto da América dos anos cinquenta, com a fobia aos regimes comunistas, concretizada na acção política do macartismo. The witch hunt, ironia no país baluarte dos direitos humanos e do culto da liberdade individual, metamorfoseia-se em expressões múltiplas de confiscação da liberdade – no caso de Fahrenheit, a liberdade de possuir livros e de os ler.

Mas a década de cinquenta protagoniza ainda outras vulnerabilidades da sociedade americana inerentes ao clima de Guerra Fria, razão pela qual Fahrenheit é considerado, por alguns críticos, como uma cold war novel. Por exemplo, outro importante aspecto que o romance reflecte é a fragilidade da vida humana numa era de consciência atómica (Hoskinson, 1995: 4) e de sentimentos escatológicos impulsionados por essa consciência.

A parte final de Fahrenheit apropria-se dessa dimensão, já que, ao concretizar a sua fuga da cidade, Montag assiste ainda à destruição desta por uma bomba, testemunhando igualmente a morte da sua mulher, Mildred, expressão e vítima do próprio sistema. Este recurso final oferece ainda outras perspectivas de leitura, uma vez que o regime, o sistema, a maioria, resistem ao indivíduo – este é bem sucedido na fuga e na criação de uma alternativa, mas não os derrota; eles são, antes, destruídos por um factor endógeno, a bomba. Ou seja, o criador é vítima da sua criação e, como no mito de Frankenstein, soçobra ao monstro que criou. Em última análise, enfatiza-se assim uma perspectiva didáctica relativa-mente aos perigos que minam a sociedade da época, com a bomba e os riscos de uma guerra.

No final de Fahrenheit, contrariamente a Brave New World e a 1984, o protagonista conquista a liberdade e a felicidade individual, ainda que sacrificadas à clandestinidade. Os dissidentes encontram refúgio no meio rural, no contacto com a natureza, uma espécie de paraíso perdido que convoca o mito da Arcádia, e transferem para si próprios o conteúdo dos livros que não podem ter existência física: cada pessoa memoriza um livro, cada pessoa é um livro.

Este final confere a Fahrenheit uma dimensão utópica que questiona o pendor distópico de toda a narrativa. Assim, o final do romance aponta para um contraste entre os valores e as características da sociedade coeva da narrativa, que inequivocamente nega, e princípios estruturantes da cultura americana, como o mito do novo começo e o primado da liberdade individual.

Em termos da coerência interna do texto, o recurso às book people e à estratégia de memorização de livros é particularmente relevante, pois a relação homem-livro é estilizada até à dimensão da própria identidade. Além disso, essa fusão representa a apologia do registo do passado, da expressão do imaginário, da memória e da história colectivas. Assim, este final optimista que confere a Fahrenheit um carácter híbrido, ilustra de modo singular a questão inicial que apontámos, isto é, de que modo a ficção especulativa se inscreve na relação entre Literatura e História.

Fahrenheit é exemplar, porque se desdobra em plataformas de leitura: comunga da dimensão premonitória e didáctica da ficção científica e utópica – como refere o protagonista, …books just might stop us from making the same insane mistakes (Bradbury, 1991: 74); cria uma metalinguagem que nasce da leitura da realidade coetânea; recorre magistralmente à representação metafórica, substituindo essa realidade por um mundo imaginário que nos devolve as angústias e as esperanças reais de uma época. Por fim, interpreta a História de forma imediata, aduzindo, no nosso entender, perspectivas complementares e incontornáveis à representação histórica noutros géneros ou subgéneros literários.




Fernanda Luísa da Silva Feneja 
© Universidade Aberta 
ACTAS DO COLÓQUIO — LITERATURA E HISTÓRIA — 2002

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ray Bradbury





Eu queria escrever uns versos para Ray Bradbury,
o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas
como no tempo em que acreditávamos no Menino Jesus
que vinha deixar presentes de Natal em nossos sapatos empoeirados de meninos
e nada tinha a ver com a impenetrável Santíssima Trindade.
Era no tempo das verdadeiras princesas,
nossas belíssimas primeiras namoradas
- não essas que saem periodicamente nos jornais.
Era no tempo dos reis verdadeiramente heráldicos como os das cartas de jogar
e do bravo São Jorge, com seu cavalo branco, sua lança e seu dragão.
Era no tempo em que o cavaleiro Dom Quixote
realmente lutava com gigantes,
os quais se disfarçavam em moinhos de vento.
Todo esse encantamento de uma idade perdida
Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar
e os nossos antigos balõezinhos de cor
agora são mundos girando no ar.
Depois de tantos anos de cínico materialismo
Ray Bradbury é a nossa segunda vovozinha velha
que nos vai desfiando suas historias à beira do abismo
- e nos enche de susto, esperança e amor.



Esconderijos do Tempo - Mário Quintana


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fahrenheit 451 em quadrinhos






O americano Tim Hamilton é o reponsável pela adaptação para os quadrinhos do livro 'Fahrenheit 451', de Ray Bradbury.

Fahrenheit 451 em quadrinhos [ Download ]






QUEIMAR ERA UM PRAZER.


Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.

Punho de cobre na mão, armado desse imenso piton que cuspia o veneno da sua gasolina sobre o mundo, sentia o sangue bater-lhe nas têmporas e as suas mãos tornavam-se as mãos de uma espécie de maestro prodigioso dirigindo todas as sinfonias do fogo e do incêndio, ao ritmo das quais se desmoronavam os farrapos e as ruínas carbonizadas da história...

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury  [ Download ]

domingo, 22 de agosto de 2010

Feliz aniversário Bradbury



Uma 'homenagem' da humorista Rachel Bloom, ao grande escritor de FC, Ray Bradbury, que completa 90 anos hoje. De todos os presentes imaginários, acho que este seria o mais bizarro...

domingo, 26 de julho de 2009

Formado em bibliotecas, escritor paga sua dívida (Folha de São Paulo)


Quando alguém que está perto de fazer 90 anos já escreveu dezenas de romances, contos e roteiros de filmes famosos e realizou seu objetivo de fazer uma viagem simulada a Marte, o que falta fazer?

"Bo Derek é muito minha amiga, e eu gostaria de passar mais tempo com ela", diz Ray Bradbury sobre a atriz de Hollywood que apareceu em mais de duas dúzias de filmes desde o final da década de 1970.

Uma resposta improvável, mas Bradbury, escritor de ficção-científica, é muito específico em sua excêntrica lista de interesses e em como tenta concretizá-los em sua idade avançada e no estado de relativa imobilidade.

Isto é uma sorte para as Bibliotecas Públicas do Condado de Ventura, nos EUA -porque, entre as paixões de Bradbury, nenhuma é tão intensa quanto seu antigo entusiasmo por salas cheias de livros. Seu romance mais famoso, "Fahrenheit 451", que trata da queima de livros, foi escrito em uma máquina de escrever alugada no porão da Biblioteca da Universidade da Califórnia em Los Angeles; seu romance "Algo Sinistro Vem Por Aí" contém uma cena de biblioteca seminal.
Bradbury fala frequentemente em bibliotecas de toda a Califórnia e, no final de junho, esteve em Ventura para uma palestra beneficente para a Biblioteca H.P. Wright, que, como muitas outras do sistema público estadual, corre o risco de fechar as portas por causa do corte de orçamento.

"As bibliotecas me criaram", disse Bradbury. "Não acredito em colégios e universidades. Acredito em bibliotecas porque a maioria dos estudantes não tem dinheiro. Quando me formei no colégio, durante a Depressão [dos anos 1930], não tínhamos dinheiro. Eu não pude ir à faculdade, então fui à biblioteca três dias por semana durante dez anos."

Os dólares do imposto predial, que fornecem a maior parte do financiamento das bibliotecas no condado de Ventura, caíram precipitadamente, deixando o sistema de bibliotecas com um buraco de aproximadamente US$ 650 mil. Quase a metade dessa quantia é atribuída à Biblioteca H.P. Wright, que atende a aproximadamente 65% dessa cidade costeira a cerca de 80 km a noroeste de Los Angeles. Em janeiro, a Biblioteca Wright soube que, a menos que conseguisse US$ 280 mil, seria fechada.

O grupo que levanta fundos para a entidade tem até março de 2010 para atingir essa meta.
A conversa com Bradbury custa US$ 25 por pessoa e inclui uma projeção de "The Wonderful Ice Cream Suit" (O maravilhoso traje de sorvete), filme baseado em seu conto de mesmo nome.
O objetivo financeiro do evento não é uma solução a longo prazo. Isso só aconteceria se os impostos territoriais fossem aumentados ou os eleitores aprovassem um aumento de meio centavo no imposto das vendas locais em novembro, parte do qual iria para as bibliotecas.

Ameaças fiscais às bibliotecas irritam profundamente Bradbury, que passa todo o tempo que pode conversando com crianças em bibliotecas e incentivando-as a ler. A internet? Não o provoque. "A internet é uma grande distração", bradou Bradbury em sua casa em Los Angeles. "É insignificante; não é real", ele continuou. "Está no ar, em algum lugar."

Quando não está angariando dinheiro para bibliotecas, Bradbury ainda escreve durante algumas horas todas as manhãs; lê George Bernard Shaw; recebe visitantes, incluindo repórteres, cineastas, amigos e filhos de amigos; e assiste a filmes em sua TV gigante de tela plana.

Ele ainda pode ser visto regularmente na Biblioteca Pública de Los Angeles, que visitou frequentemente na adolescência.

"As crianças me perguntam: 'Como também posso viver para sempre?'", disse.
"Eu lhes digo: façam o que vocês amam e amem o que fazem. Essa é a história da minha vida."


13/7/2009 - Folha de São Paulo
Formado em bibliotecas, escritor paga sua dívida
Por JENNIFER STEINHAUER
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1307200918.htm

sábado, 25 de julho de 2009

O contribuinte








Ele queria ir para Marte no foguete.

Foi bem cedo até o campo de lançamento e gritou através da cerca de arame farpado para o homem uniformizado, que ele queria ir para Marte.

Disse que pagava seus impostos, e que seu nome era Prochard, e tinha o direito de ir a Marte. Afinal não era um bom cidadão nascido em Ohio?

Então por que ele não poderia ir para Marte?

Balançou os punhos na direção deles e disse que queria ir embora da Terra, qualquer um com juízo queria ir embora da Terra.

Haveria uma guerra nuclear acontecendo na Terra nos próximos anos e ele não queria estar ali quando acontecesse.

Ele e milhares de outros como ele, se tinham algum juízo, iriam para Marte. Não iriam?
Para fugir das guerras, da censura, estadismo e o recenseamento, e o controle do governo disso ou daquilo, da arte e da ciência! Podiam ficar com a Terra!
Ele ofereceu a mão direita boa, seu coração, sua cabeça, pela oportunidade de ir para Marte!
O que precisava fazer, onde precisava assinar para entrar no foguete?

Eles riram dele. Ele não queria ir a Marte, disseram, será que não sabia que a primeira e a segunda Expedições haviam falhado, desaparecido, e os homens provavelmente haviam morrido?

Mas eles não podiam provar, não tinham certeza, ele disse, colado na cerca de arame.
Talvez fosse a Terra do Leite e do Mel, de onde o Capitão York e o Capitão Williams nunca se preocuparam de voltar.

Agora, ou eles abririam o portão para que ele entrasse a bordo do foguete da terceira Expedição ou ele teria que chutá-los para longe?

Mandaram que se calasse.

Ele viu os homens indo para o foguete.

Esperem por mim! Gritou. Não me deixem aqui neste mundo terrível, eu tenho que sair daqui, tem uma guerra atômica chegando! Não me deixem na Terra!

Eles o arrastaram para longe.
Bateram a porta da viatura policial fechando-a na sua cara, e o levaram naquele início de manhã, seu rosto contra o vidro da janela, e pouco antes das sirenes, viu o fogo vermelho e ouviu o estrondo e então sentiu o enorme tremor do foguete prateado que partia, deixando-o para trás em uma segunda-feira comum em um banal planeta Terra.


THE TAXPAYER - THE MARTIAN CHRONICLES por Ray Bradbury
(Doubleday - Maio de l950)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Zen in the Art of Writing - Ray Bradbury


Sometimes I am stunned at my capacity as a nine-year-old, to understand my entrapment and
escape it.

How is it that the boy I was in October, 1929, could, because of the criticism of his fourth grade schoolmates, tear up his Buck Rogers comic strips and a month later judge all of his friends
idiots and rush back to collecting?

Where did that judgment and strength come from? What sort of process did I experience to enable me to say: I am as good as dead. Who is killing me? What do I suffer from? What's the cure? I was able, obviously, to answer all of the above. I named the sickness: my tearing up the strips. I found the cure: go back to collecting, no matter what. I did. And was made well.
But still. At that age? When we are accustomed to responding to peer pressure?
Where did I find the courage to rebel, change my life, live alone?
I don't want to over-estimate all this, but damn it, I love that nine-year-old, whoever in hell he was. Without him, I could not have survived to introduce these essays.

Part of the answer, of course, is in the fact that I was so madly in love with Buck Rogers, I could not see my love, my hero, my life, destroyed. It is almost that simple. It was like having your best allround greatest-loving-buddy, pal, center-of-life drown or get shotgun killed. Friends, so killed, cannot be saved from funerals. Buck Rogers, I realized, might know a second life, if I gave it to him. So I breathed in his mouth and, lo !, he sat up and talked and said, what?
Yell. Jump. Play. Out-run those sons-of-bitches. They'll never live the way you live. Go do it.
Except I never used the S.O.B. words. They were not allowed.

Heck! was about the size and strength of my outcry. Stay alive!
So I collected comics, fell in love with carnivals and World's Fairs and began to write. And what, you ask, does writing teach us? First and foremost, it reminds us that we are alive and that it is a
gift and a privilege, not a right. We must earn life once it has been awarded us.
Life asks for rewards back because it has favored us with animation.

So while our art cannot, as we wish it could, save us from wars, privation, envy, greed, old age, or death, it can revitalize us amidst it all.
Secondly, writing is survival. Any art, any good work, of course, is that.
Not to write, for many of us, is to die.

We must take arms each and every day, perhaps knowing that the battle cannot be entirely won, but fight we must, if only a gentle bout. The smallest effort to win means, at the end of each
day, a sort of victory. Remember that pianist who said that if he did not practice every day he would know, if he did not practice for two days, the critics would know, after three days, his audiences would know. A variation of this is true for writers. Not that your style, whatever that is, would melt out of shape in those few days.

But what would happen is that the world would catch up with and try to sicken you. If you did not write every day, the poisons would accumulate and you would begin to die, or act crazy, or
both.

You must stay drunk on writing so reality cannot destroy you.

CONTENTS

PREFACE
THE JOY OF WRITING
RUN FAST, STAND STILL, OR, THE THING AT THE TOP OF THE
STAIRS, OR, NEW GHOSTS FROM OLD MINDS
HOW TO KEEP AND FEED A MUSE
DRUNK, AND IN CHARGE OF A BICYCLE
INVESTING DIMES: FAHRENHEIT 451
JUST THIS SIDE OF BYZANTIUM: DANDELION WINE
THE LONG ROAD TO MARS
ON THE SHOULDERS OF GIANTS
THE SECRET MIND
SHOOTING HAIKU IN A BARREL
ZEN IN THE ART OF WRITING
... ON CREATIVITY


Zen in the Art of Writing - Ray Bradbury [ Download ]

domingo, 5 de abril de 2009

E de Espaço - Ray Bradbury


Indice

Introdução
Crisálida
Pilar de Fogo
Hora Zero
O Homem
Fuga no Tempo
O Pedestre
Saudações e Adeus
O menino invisível
Venha ao meu porão
O piquenique de um milhão de anos
A mulher gritando
O sorriso
Eles eram morenos e de olhos dourados
O Bonde
A máquina voadora
Ícaro Montgolfier Wright

E de Espaço - Ray Bradbury [ Download ]


Sobre a Digitalização desta Obra:
Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda
deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade é a marca da distribuição, portanto:
Distribua este livro livremente! Se você tirar algum proveito dessa obra considere seriamente a possibilidade
de adquirir o original: Incentive a publicação de novas obras e novos autores!
Boa Leitura!
Coletivo Adoramos Ler

Ray Bradbury


Ray Douglas Bradbury (22 de Agosto de 1920) nasceu na pequena cidade de Waukegan, USA, foi inúmeras vezes identificado como o poeta da Ficção Científica, graças a sua românticas descrições de ambientes e ricas e apaixonadas construções de personagens.

Junto com Arthur C. Clarke, Asimov, compõe a Santíssma Trindade da Ficção Científica, os três (assim como Robert Heinlein), foram os primeiros a receber o título de Grande Mestre, pela SFWA.

Bradbury preocupava-se mais com o lado humano e visionário de seus personagens do que com a descrição científica e tecnológica, o que era uma inovação para a época.

O seu estilo se tornou bastante peculiar, sendo dotado de um romantismo nostálgico.

Bradbury muitas vezes retrata o homem como refém de sua época.
Seres perplexos ante as maravilhosas mudanças que vão ocorrendo ao seu redor.

Seu livro The Illustrated Man (1951) está entre os 100 maiores livros da ficção de todos os tempos, sem esquecer de outros tantos já clássicos trabalhos, como The Martian Chronicles (1950), The Golden Apples of the Sun (1953), Fahrenheit 451 (1953) e Something Wicked This Way Comes (1962).

Ninguem melhor do que Ray Bradbury, para falar sibre ele mesmo:

Júlio Verne foi meu pai. H. G. Wells foi meu sábio tio.
Edgar Allan Poe foi o primo com asas de morcego que guardávamos lá em cima, na sala do sótão.
Flash Gordon e Buck Rogers foram meus irmãos e amigos.
Aí têm minha ascendência. Acrescentando, claro, o fato de que muito provavelmente Mary Wollstonecraft Shelley, autora de Frankenstein, foi minha mãe.
Com uma família dessas, eu não poderia deixar de ser outra coisa: um escritor de fantasia e de curiosíssimas histórias de ficção científica.

Vivi nas árvores com Tarzã uma boa parte de minha vida, com meu herói, Edgar Rice Burroughs. Quando desci da folhagem, pedi uma pequena máquina de escrever quando tinha doze anos, para o Natal. E matraqueando na máquina , escrevi meu primeiro seriado de imitação, John Carter, Condestável de Marte, e de cor, bati episódios inteiros de Chandu, o Mágico.

Mandei tampas de caixas pelo correio, e acho que juntei-me a todas as sociedades secretas do rádio que existiam. Guardei histórias em quadrinhos, a maioria das quais ainda tenho, em grandes caixas, no porão da minha casa, na Califórnia. Ia às matinês do cinema.

Devorava as obras de H. Rider Haggard e Robert Louis Stevenson.
Em meio aos verões de minha juventude, pulei alto e mergulhei bem fundo no vasto oceano do
Espaço, muito, muito tempo antes que a Era Espacial propriamente dita fosse mais do que um pontinho no telescópio de duzentas polegadas, de Monte Palomar.

Em outras palavras, eu me apaixonei por tudo o que fazia.
Meu coração não batia, explodia. Eu não me aquecia com um assunto; eu fervia.
Sempre corri e gritei quando se trata de uma lista de coisas grandes e mágicas que eu sabia que simplesmente não poderia viver sem elas.

Eu era um menino-mágico imberbe que puxava coelhos irritadiços de cartolas de "papier-mâché". Tornei-me um homem-mágico barbado que puxa foguetes de sua máquina de escrever e dos Ermos do Espaço, que se estendem tão longes quanto o olho e a mente podem ver
e imaginar.

Meu entusiasmo sustentou-me bem, através de anos.
Nunca me cansei dos foguetes e das estrelas.

Nunca cessei de gostar de me apavorar com algumas de minhas histórias mais exóticas e tenebrosas. Assim, aqui, nesta nova coleção de histórias, você encontrará não só E de Espaço, mas uma série de subtítulos que muito poderiam ser: T de Trevas, A de apavorar ou D de
deliciar. Aqui você vai encontrar quase todas as faces de minha natureza e minha vida que possa querer descobrir.

Minha capacidade de rir-me alto com a simples descoberta de que estou vivo num estranho,
selvagem, e estimulante mundo. Minha capacidade igualmente grande de pular e ir plantar groselhas quando sinto o cheiro de estranhos cogumelos crescendo em meu porão, à meia-noite, ou ouvir uma aranha cantarolando enquanto tece sua tapeçaria, no armário embutido, pouco antes do nascer do sol.

Você que está lendo, e eu, que escrevo, somos bastante iguais.

A pessoa jovem dentro de mim atreveu-se a escrever estas histórias para entretê-lo. Encontramo-nos no território comum de uma Era incomum, e compartilhamos nossos dons de sombra e luz, sonhos bons e maus, alegrias simples, e mágoas não tão simples.

O menino mágico fala de um outro ano. Fico de lado e deixo-o dizer o que mais precisa dizer. Escuto, e divirto-me. Espero que você, também.
RAY BRADBURY
Los Angeles, Califórnia -1o de Dezembro, 1965.

site oficial de Ray Bradbury


Livros de Ray Bradbury (Al Abismo de Chicago, Caleidoscopio, Cuento de navidad, Dandelion wine, Death is a lonely bussiness, El dragon, El flautista, El ordenador encantado y el papa androide, El pueblo donde nada baja, El robo sublime, En el expresso al norte, Encontro nocturno, End of the beginning, Eran morenos y de ojos dorados, Fabulas fantasticas, Fahrenheit 451, Fenix Brilhante, The foghorn, Icaro Montgolfier Wright, La tercera expediction, Las doradas manzanas del sol, Medicine for Melancholy, The october game, The pendulum, Quicker than the eye, Somethimh wicked this way comes, The sound of thunder, The illustrated man, The martian chronicles, The veldt, Tres x infinito, Unterderseaboat Doktor, When elephants last in the dooryard bloomed) [ Download ]

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury


QUEIMAR ERA UM PRAZER!

Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.

Punho de cobre na mão, armado desse imenso piton que cuspia o veneno da sua gasolina sobre o mundo, sentia o sangue bater-lhe nas têmporas, e as suas mãos tornavam-se as mãos de uma espécie de maestro prodigioso dirigindo todas as sinfonias do fogo e do incêndio, ao ritmo das quais se desmoronavam os farrapos e as ruínas carbonizadas da história.

Avançou entre um fulgor de pirilampos.

Teria gostado acima de tudo, segundo a velha tradição, de mergulhar no braseiro uma alcachofra presa na ponta de um pau, enquanto os livros, com um bater de asas, morriam no umbral da casa e no jardim. Enquanto os livros se estorciam entre nuvens de fagulhas e partiam, calcinados, com o vento.

Montag sorriu, com o áspero sorriso de todos os homens chamuscados e repelidos pelas chamas.





Fahrenheit 451 - Ray Bradbury [ Download ]

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A cidade inteira dorme e outros contos breves - Ray Bradbury


'A cidade inteira dorme e outros contos breves' traz 13 contos do mestre da Ficção Científica(FC) Ray Bradbury, autor dos clássicos 'Fahrenheit 451' e 'As crônicas mercianas'.

Ray Bradbury é um escritor que usa as convenções do gênero fantástico para tornar nosso fantasmas mais reais.
O ficcionista norte-americano oscila entre o terror psicológico, as alegorias mágicas e a invenção de mundos alternativos - às vezes fundindo-se num único relato, mas sempre fazendo com que a imaginação seja um elemento inerente à realidade.

Sumário

Prefácio
Uma pequena viagem
O lixeiro
O visitante
O messias
A autêntica múmia egípcia feita em casa
A cidade inteira dorme
O homem ilustrado
O homem em chamas
As frutas no fundo da fruteira
O dragão
O pedestre
O alçapão
A hora zero

A cidade inteira dorme e outros contos breves - Ray Bradbury [ Download ]