sábado, 17 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 16)




LOGO QUE, oficialmente, deixou o trabalho naquela noite, Rick Deckard cruzou a cidade para a rua dos animais: os vários quarteirões dos grandes comerciantes de bichos, com suas imensas vitrinas e cartazes atraentes.

Ainda não o deixara a nova, horrível e excepcional depressão que o abatera antes naquele dia. Isto, estar entre animais e negociantes de animais, parecia o único ponto fraco no véu de depressão, uma falha através da qual poderia, talvez, agarrá-la e exorcizá-la, No passado, de qualquer modo, a vista de animais, o cheiro de transações financeiras envolvendo altas somas, fizeram muito por ele.
Talvez, nesse instante, o efeito fosse o mesmo.

— Sim, senhor — disse um novo e elegantemente vestido vendedor, em tom de prosa, quando ele ficou olhando boquiaberto, expressão vidrada e humilde para as peças expostas. — Está vendo alguma coisa que o agrade?
— Estou vendo um bocado de coisa de que gosto. É o custo que me incomoda — disse Rick.
— O senhor simplesmente nos diz o tipo de negócio que quer fazer — sugeriu o vendedor —, o que quer levar para casa e quanto quer pagar. Levaremos a proposta ao nosso gerente de vendas e obteremos sua aprovação.
— Eu tenho três mil, em dinheiro. — O Departamento, no fim do dia, pagara sua recompensa. — Quanto custa — perguntou — aquela família de coelhos ali?
— Senhor, se o senhor pode fazer um pagamento inicial de três mil, posso transformá-lo no proprietário de alguma coisa muito melhor que um casal de coelhos. Que tal um bode?
— Não pensei muito em bodes — disse Rick.
— Posso perguntar se isto representa uma nova faixa de preços para o senhor?
— Eu, geralmente, não ando por aí com três mil no bolso — reconheceu Rick.
— Era isso o que eu pensava, quando o senhor falou em coelhos. O problema com coelhos, senhor, é que todo mundo tem um deles. Eu gostaria de vê-lo subir para a classe dos bodes, que acho que é a sua. Para ser franco, o senhor me parece mais um amigo dos caprinos.
— Quais são as vantagens dos bodes?
— A evidente vantagem do bode — explicou o vendedor — é que ele pode ser ensinado a dar cabeçadas naqueles que queiram roubá-lo.
— Não se eles o atingem com um dardo paralisante e descem por escada de corda de um hovercar pairando no alto.

Sem se deixar abater, o vendedor continuou:
— Um bode é leal. E possui uma alma livre, natural, que nenhuma gaiola pode prender. E nos bodes há um aspecto adicional excepcional, que o senhor talvez desconheça. Com muita freqüência, quando a pessoa investe num animal e o leva para casa, descobre alguma manhã que ele comeu alguma coisa radiativa e morreu. Um bode não é incomodado por quase-alimentos contaminados. Pode comer ecleticamente, mesmo coisas que derrubariam uma vaca ou um cavalo e, principalmente, um gato. Como investimento a longo prazo, achamos que o bode — e especialmente a cabra — oferecem vantagens sem concorrência ao criador sério.
— Esse bode é fêmea?
Notara um bode preto, grande, colocado bem no centro da jaula. Dirigiu-se para lá e o vendedor acompanhou-o. O bode, achou Rick, era belo.
— Sim, esse bode é fêmea. Um bode núbio preto, muito grande, como o senhor pode ver. É uma oferta soberba no mercado deste ano, senhor. E estamos oferecendo a um preço atraente, muito, muito baixo.

Tirando do bolso o amarfanhado Sidney's, Rick consultou na lista bodes, núbios, pretos.
— Será uma compra à vista? — perguntou o vendedor. — Ou o senhor vai dar de entrada um animal usado?
— Só dinheiro — disse Rick.

Num pedaço de papel, o vendedor rabiscou um preço e, em seguida, por um instante, quase furtivamente, mostrou-o a Rick.
— Caro demais — disse Rick. Tomou o papel da mão do vendedor e escreveu uma cifra mais modesta.
— Nós não poderíamos vender um bode por esse preço — protestou o vendedor. Escreveu outra cifra. — Esse bode tem menos de um ano. A esperança de vida dele é muito longa. — Mostrou a cifra a Rick.
— Negócio feito — disse.
Assinou o contrato com reserva de domínio, deu como entrada seus três mil dólares — todo o dinheiro do prêmio — e logo depois viu-se no carro, muito confuso, enquanto empregados da loja ajeitavam a gaiola da cabra. Sou dono de um animal agora, disse para si mesmo. De um animal vivo, não elétrico. Pela segunda vez em minha vida.

A despesa, o endividamento contratual, apavoravam-no.
Descobriu que tremia um pouco. Mas eu tinha que fazer isto, afirmou para si mesmo A experiência com Phil Resch... Tenho que recuperar minha confiança, minha fé em mim mesmo e em minha capacidade. Ou não vou conservar meu emprego.

Com as mãos dormentes, lançou o hovercar para o alto, a caminho de seu apartamento, e de Iran. Ela vai ficar zangada, pensou. Porque o animal vai preocupá-la, a responsabilidade. E uma vez que ela fica em casa o dia todo, um bocado de trabalho de manutenção do animal caberá a ela.

Mais uma vez, sentiu-se desalentado.
Ao pousar no telhado de seu prédio, passou algum tempo no carro, compondo mentalmente uma história bem verossímil para contar à esposa. Meu emprego exige o animal, pensou, raspando o fundo de seus argumentos. Questão de prestígio.
Não poderíamos continuar por mais tempo cuidando de uma ovelha elétrica, isso minava minha moral Talvez eu possa lhe dizer isso, resolveu.

Descendo do carro, tirou do assento traseiro a gaiola da cabra e, resfolegando, conseguiu colocá-la no chão. A cabra, que deslizara para um lado durante a mudança de posição, considerou-o com acesa perspicácia, mas não emitiu som algum.
Desceu até seu andar e seguiu um caminho conhecido pelo corredor até a porta,
— Hei — recebeu-o Iran, ocupada na cozinha com o jantar. — Por que chegou tão tarde?
— Venha até o telhado — disse ele. — Quero lhe mostrar uma coisa.
— Você comprou um animal. — Tirou o avental, passou pensativa a mão pelo cabelo e saiu com ele do apartamento, percorrendo ambos em grandes e ansiosos passos o corredor. — Você não devia tê-lo comprado sem mim — reclamou. — Eu tenho o direito de participar de uma decisão dessas, a aquisição mais importante que nós jamais.
— Eu queria que fosse uma surpresa — desculpou-se ele.
— Você ganhou algum dinheiro de prêmio hoje — acusou-o Iran.
— Ganhei — concordou Rick —, aposentei três andros. — Entraram no elevador e, juntos, aproximaram-se mais de Deus. Eu tinha que comprar o animal — disse.
— Hoje, alguma coisa saiu errada. Uma coisa sobre aposentá-los. Para mim, não teria sido possível continuar sem comprar um animal. — O elevador chegou nesse momento ao telhado. Saiu à frente da mulher na escuridão da noite e levou-a à gaiola. Ligando os holofotes — mantidos ali para uso de todos os residentes do prédio — apontou para a cabra, em silêncio. À espera da reação dela.
— Oh, meu Deus — disse baixinho Iran. Foi até a jaula, olhou para dentro, recuou e, em seguida, deu a volta, examinando a cabra de todos os ângulos. — Ela é real?
— perguntou. — Não é falsa?
— Absolutamente real — assegurou ele. — A menos que me tenham passado a perna. — Mas isso raramente acontecia. A multa por falsificação seria astronômica: duas vezes e meia o pleno valor de mercado do animal. — Não, não me passaram para trás.
— É um bode — disse Iran. — Um bode preto núbio.
— Fêmea — corrigiu-a Rick. — Assim, mais tarde, talvez possamos cruzá-la. E teremos leite, com o qual poderemos fazer queijo.
— Poderemos tirá-la daí? Colocá-la onde está a ovelha?
— Ela precisa ficar amarrada — disse ele. — Pelo menos durante alguns dias.
Em voz baixa e estranha, disse Iran:
— "Minha vida é amor e prazer." Uma velha canção, de Joseph Strauss. Lembra-se? Quando nos conhecemos? — Pôs suavemente uma das mãos no ombro dele, inclinou-se e beijou-o. — Muito amor E muito prazer.
— Obrigado — disse ele, e abraçou-a.
— Vamos descer correndo e dar graças a Mercer. Depois, poderemos voltar aqui novamente e dar logo a ela um nome. Ela precisa de um nome. E talvez você possa arranjar uma corda para amarrá-la. — E começou a afastar-se.

Ao lado de sua égua, Judy, penteando-a e escovando-a, o vizinho, Bill Barbour, gritou para eles: — Hei, que bonito bode vocês arranjaram, Deckard. Parabéns. Boa noite, Sra. Deckard. Talvez vocês ganhem cabritinhos. Eu talvez troque meu potro por uns dois cabritos.
— Obrigado — disse Rick. E seguiu Iran na direção do elevador, — Isto lhe cura a depressão? — perguntou à esposa, — Cura a minha.
— Claro que cura minha depressão — garantiu ela. — Agora podemos dizer a todo mundo que a ovelha é falsa.
— Não há nenhuma necessidade de fazermos isso — retrucou ele, cauteloso.
— Mas nós podemos dizer — insistiu Iran. — Compreenda, agora nós não temos nada para esconder. O que sempre quisemos, realizou-se. É um sonho! — Mais uma vez, pôs-se nas pontas dos pés, inclinou-se e beijou-o, habilmente, o hálito ansioso e errático fazendo-lhe cócegas. Ela estendeu a mão para apertar o botão do elevador.
Alguma coisa avisou-o. Alguma coisa obrigou-o a dizer:
— Não vamos descer ainda para o apartamento. Vamos ficar aqui com a cabra. Vamos simplesmente nos sentar, olhar para ela e talvez lhe dar alguma coisa para comer. Para que começássemos, a loja me deu um saco de aveia, E podemos ler o manual sobre manutenção de caprinos. Incluíram isso também, sem cobrar extra. Vamos chamá-la de Euphemia. — O elevador, porém, chegara e Iran já entrava. — Iran, espere — disse ele.
— Seria imoral de nossa parte não nos fundirmos com Mercer num gesto de gratidão — respondeu Iran. — Segurei hoje os punhos da caixa e ela me aliviou um pouco a depressão... apenas um pouco, não como isto. Mas, de qualquer modo, fui atingida por uma pedra, aqui. — Mostrou o punho, onde ele viu uma pequena contusão escura. — E lembro-me que pensei como ficamos melhor, numa situação tão melhor, quando estamos com Mercer. A despeito da dor. Dor física, mas, espiritualmente, juntos. Senti todo mundo, em todo mundo, que havia feito a fusão no mesmo momento. — Com a mão, impediu que se fechasse a porta corrediça do elevador.
— Entre, Rick. Isto levará apenas um momento. Você raramente experimenta a fusão. Quero que você transmita agora a todas as pessoas o estado de espírito em que se encontra. Você deve isso a elas. Seria imoral conservar isto apenas para nós mesmos.
Ela, claro, tinha razão. Assim, entrou no elevador e, mais uma vez, desceram.

Na sala de estar, em frente à caixa de empatia, Iran rapidamente ligou-a, sua face animada de crescente satisfação.
A emoção iluminava-a como se ela fosse uma lua nova crescente.
— Eu quero que todo mundo saiba — disse ao marido. — Uma vez, isto aconteceu comigo. Uma vez entrei em fusão e captei alguém que acabava de adquirir um animal. E depois, certo dia... — Seu rosto ensombreceu-se momentaneamente, desaparecido o prazer. — Certo dia, comecei a receber de alguém cujo animal tinha morrido. Mas outros de nós compartilhamos com elas nossas diferentes alegrias... eu não tinha nenhuma, como você bem pode imaginar, e isso animou a tal pessoa. A gente pode até mesmo fazer contato com um suicida potencial. O que temos, o que estamos sentindo poderia...
— Elas terão nossa alegria — comentou Rick —, mas nós perderemos. Trocaremos o que sentimos pelo que elas sentem. Nossa alegria se perderá.

A tela da caixa de empatia mostrava nesse instante correntes velozes de vivas e informes e cores. Inspirando profundamente, a esposa segurou firme os dois punhos.
— Nós não perderemos realmente o que sentimos, não se o mantivermos claramente na mente. Você nunca, realmente, sentiu a sensação de fusão, sentiu, Rick?
— Acho que não — respondeu. Mas, nesse momento, pela primeira vez, começou a perceber o valor que pessoas como Iran obtinham com o mercerismo. Possivelmente, sua experiência com Phil Resch, o caçador de cabeças, alterara alguma minúscula sinapse nele, fechara um circuito neurológico e abrira outro. E isto, talvez, tivesse ocasionado uma reação em cadeia.
— Iran — disse em tom urgente, puxando-a da caixa de empatia. — Escute aqui. Quero lhe falar sobre o que me aconteceu hoje.

Levou-a até o sofá e sentou-a de frente para ele.
— Conheci outro caçador de cabeças — disse. — Um que nunca vi antes. Um tipo predatório, que parece gostar de destruí-los. Pela primeira vez, depois de estar com ele, considerei os andros de maneira diferente. Quero dizer, à minha própria maneira, eu estivera considerando-os como ele. — Submeti-me a um teste, a uma pergunta, e confirmei isso — continuou Rick. — Eu tinha começado a empatizar com andróides e veja só o que isso significa. Você mesma disse isso esta manhã: "Aqueles pobres andros". De modo que você sabe do que é que eu estou falando. Este foi o motivo por que comprei a cabra. Nunca me senti antes assim. Talvez pudesse ser uma depressão, como essas que você sente. Agora posso compreender por que você sofre quando está deprimida. Sempre pensei que você gostava disso e que podia deixar esse estado a qualquer tempo, se não sozinha, pelo menos com ajuda do condicionador. Mas quando a pessoa fica deprimida daquele jeito, ela não se importa, cai em apatia, porque a pessoa perde o senso de valor. Não importa se a pessoa se sente melhor, porque se não tem valor...
— O que é que você me diz de seu trabalho? — O tom de voz dela atingiu-o como uma estocada. Pestanejou.— Seu emprego — repetiu Iran. — Quais são os pagamentos mensais pela cabra? — Estendeu a mão. Pensativo, ele tirou do bolso o contrato que assinara e entregou-o à esposa.
— Tudo isso — disse ela em voz fraca. — Os juros. Meu Deus... só os juros. E você fez isso porque estava deprimido. Não, como uma surpresa para mim, como disse antes. — Devolveu-lhe o contrato. — Bem, isso não importa. Ainda estou contente porque você comprou a cabra. Eu a amo. Mas é um enorme ônus.
Parecia desolada.
— Eu posso mudar para outro trabalho — disse Rick. — O Departamento realiza dez ou onze atividades diferentes. Roubo de animais. Eu poderia ser transferido para isso.
— Mas o dinheiro do prêmio. Vamos precisar dele, ou levam de volta a cabra.
— Eu conseguirei que prorroguem o contrato, de trinta e seis para quarenta e oito meses. — Tirou do bolso uma caneta esferográfica e rabiscou rapidamente nas costas do contrato. — Dessa maneira, serão cinqüenta e dois e cinqüenta a menos por mês.
Tocou nesse momento o videofone.
— Se não tivéssemos voltado para aqui — queixou-se Rick —, se tivéssemos ficado no telhado, fazendo companhia à cabra, não teríamos recebido este telefonema.
Dirigindo-se para o videofone, disse Iran:
— Por que é que você está com medo? Não vão tomar a cabra, ainda não. — Começou a erguer o aparelho.
— É o Departamento — disse ele. — Diga que eu não estou em casa. — Dirigiu-se para o quarto de dormir.
— Alô — disse Iran no aparelho.
Mais três andros, pensou Rick, que eu devia estar caçando hoje, em vez de ter vindo para casa. Na videotela já se formara o rosto de Harry Bryant, de modo que era tarde demais para fugir. Sentindo duros os músculos das pernas, voltou ao aparelho.
— Sim, ele está — dizia nesse momento Iran. — Nós compramos uma cabra. Dê um pulinho aqui para vê-la, Sr. Bryant. — Uma pausa, enquanto ela escutava. Em seguida, passou o aparelho a Rick. — Ele tem uma coisa que lhe quer dizer.
Dirigindo-se para a caixa de empatia, sentou-se sem demora e, mais uma vez, agarrou os punhos duplos. Foi absorvida quase no mesmo instante.

Rick permaneceu com o telefone na mão, consciente da partida mental da esposa, consciente de sua própria solidão.
— Alô — disse no aparelho.
— Temos gente seguindo dois dos andróides restantes — informou Harry Bryant. Falava do escritório. Rick notou a escrivaninha conhecida, a confusão de documentos e papéis, o entulho. — Obviamente, eles desconfiaram de alguma coisa... Deixaram o endereço que D ave lhe deu e agora podem ser encontrados no...espere. — Bryant procurou na escrivaninha e, finalmente, localizou o que queria.

Automaticamente, Rick tirou a caneta do bolso e, com o contrato de compra da cabra sobre os joelhos, preparou-se para escrever.
— Edifício Conapt 3967-C — continuou o Inspetor Bryant, — Vá para lá logo que puder. Temos que supor que eles sabem sobre os que você pegou: Garland, Luft e Polokov. Foi por isso que fugiram ilegalmente.
— Ilegalmente — repetiu Rick. Para salvar a vida.
— Iran disse que você comprou uma cabra — disse Bryant — Hoje mesmo? Depois que deixou o trabalho?
— A caminho de casa.
— Eu vou aí ver a sua cabra depois que você aposentar os andróides que restam. Por falar nisto...falei há pouco com Dave. Contei o trabalho que lhe deram. Ele manda parabéns e diz para tomar mais cuidado. Disse que os tipos Nexus-6 são mais sabidos do que pensava, Na verdade, ele não queria acreditar que você pegou três num só dia.
— Três é suficiente — queixou-se Rick. — Não posso fazer mais nada. Tenho que descansar.
— Mas amanhã eles desaparecem — disse Bryant. — Saem de nossa jurisdição.
— Não tão cedo assim. Ainda vão ficar por aqui.
— Vá lá hoje à noite — ordenou Bryant. — Antes que eles se fortifiquem, Não esperam que você ataque tão depressa.
— Claro que esperam — disse Rick. — E vão estar à minha espera.
— Está com medo? Por causa do que Polokov...
— Eu não estou com medo — declarou Rick.
— Então, qual é o problema?
— Muito bem — concordou Rick. — Vou para lá. — Começou a baixar o telefone.
— Informe-me logo que obtiver algum resultado. Estarei aqui no escritório.
— Se eu os pegar, vou comprar uma ovelha.
— Você já tem. Tem desde que o conheço.
— É elétrica — disse Rick. E desligou. Uma ovelha de verdade desta vez, disse a si mesmo. Tenho que conseguir uma. Como compensação.

A esposa continuava agachada em frente à caixa preta de empatia, o rosto em êxtase, Ficou ao lado dela durante algum tempo, uma das mãos em seu peito, sentindo-o, subindo e descendo, a vida nela, a atividade. Iran não o notou: a experiência com Mercer, como sempre, tornara-se completa.

Na tela a figura apagada, velha, envolvida no manto de Mercer, subia laboriosamente e, no mesmo instante, uma pedra passou por ele. Observando-o, pensou Rick: meu Deus, há alguma coisa pior na minha situação do que na dele. Mercer não tem que fazer coisa alguma que lhe seja estranha. Ele sofre, mas, pelo menos, não se exige que viole sua própria identidade.

Curvando-se, suavemente, tirou os dedos da esposa dos punhos duplos. Em seguida, ele mesmo, assumiu-lhe o lugar. Pela primeira vez em semanas. Obedecendo a um impulso. Não planejara isso. De repente, acontecera.

À sua frente, uma paisagem de ervas daninhas, sarças, uma desolação. O ar recendia a odores selvagens; isto era o deserto e não havia chuva.
Viu um homem, uma luz triste em seus olhos cansados, cheios de dor.
— Mercer — disse Rick.
— Eu sou seu amigo — disse o velho. — Mas você deve continuar como se eu não existisse. Pode compreender isto? — Estendeu mãos vazias.
— Não — respondeu Rick. — Não posso entender isso. Eu preciso de ajuda.
— Como é que eu posso salvá-lo — disse o velho — se não posso salvar a mim mesmo? — Sorriu. —Não compreende? Não há salvação.
— Então, para o que serve isto? — indagou Rick. — Para o que é que você serve?
— Para lhe mostrar — retrucou Wilbur Mercer — que você não está sozinho. Estou aqui com você, e sempre estarei. Vá e faça seu trabalho, mesmo sabendo que é errado.
— Por quê? — perguntou Rick. — Por que devo fazê-lo? Vou pedir demissão de meu cargo e emigrar.
O velho respondeu:
— Pedir-lhe-ão que faça o mal onde quer que vá. Esta é a condição básica da vida, ser obrigado a violar sua própria identidade. Em alguma ocasião, todas as criaturas vivas têm que fazer isso. É a sombra final, a derrota da criação, a maldição em ação, a maldição que se alimenta de toda a vida. Em toda parte do universo.
— Isso é tudo o que você pode me dizer? — perguntou Rick.

Uma pedra assoviou na sua direção; abaixou-se, mas ela pegou-o na orelha. Imediatamente, soltou os punhos e se viu, mais uma vez, em sua sala de estar, ao lado da esposa e da caixa de empatia. A cabeça doia-lhe fortemente com a pancada; levantando a mão, notou que o sangue começara a correr, caindo em grandes e brilhantes gotas por um dos lados de seu rosto.
Iran, com um lenço, enxugou-lhe a orelha.
— Acho que estou contente porque você me soltou. Eu realmente não posso suportar isso, receber uma pedrada. Obrigado por ter recebido a pedrada em meu lugar.
— Estou indo — disse Rick.
— Um trabalho?
— Três. — Tomou-lhe o lenço e dirigiu-se para a porta, ainda tonto e, nesse momento, com vontade de vomitar.
— Boa sorte — disse Iran.
— Eu não consegui coisa alguma segurando esses punhos — explicou Rick. — Mercer me falou, mas o que disse não ajudou. Ele não sabe mais do que eu. Ele é simplesmente um velho subindo uma colina para morrer.
— Mas essa não é a revelação?
— Eu já tive essa revelação — retrucou Rick. Abriu a porta que dava para o corredor. — Até mais tarde. — Saindo para o corredor, fechou a porta às suas costas.

Conaot 3967-C, pensou, lendo o endereço nas costas do contrato. Isto fica longe, nos subúrbios. Lá quase tudo está abandonado. Um bom lugar para quem quer esconder-se. Exceto pelas luzes da noite. É por elas que me guiarei, pensou. As luzes. Fototrópicas. Como a mariposa da caveira. E em seguida, depois disto, refletiu, não haverá mais.
Vou fazer alguma outra coisa, ganhar a vida de outra maneira. Estes três são os últimos. Mercer tem razão. Tenho que acabar com isto. Mas, pensou, não acho que possa. Dois andros juntos...Isto não é uma questão moral, é uma questão prática.

Eu, provavelmente, não posso aposentá-los, compreendeu. Mesmo que tente. Estou cansado demais e hoje aconteceram coisas demais. Talvez Mercer soubesse disso, refletiu. Talvez tenha previsto tudo o que vai acontecer.
Mas sei onde procurar ajuda, que me foi oferecida antes e que recusei.
Chegou ao telhado e um momento depois, na escuridão de seu hovercar, discou.
— Rosen Association — respondeu a telefonista de plantão.
— Rachael Rosen — disse ele.
— Perdão, senhor?
— Chame Rachael Rosen — ordenou em voz áspera Rick.
— A Srta. Rosen está esperando . .
— Tenho certeza de que está — respondeu. E esperou.
Dez minutos depois, o rosto pequeno e moreno de Rachael Rosen apareceu na videotela.
— Alô, Sr. Deckard
— Está ocupada agora ou posso conversar com você? — perguntou. — Como você disse hoje, mais cedo — mas não parecia que era o dia de hoje; uma geração nascera e morrera desde que falara com ela pela última vez. E todo o peso, todo o cansaço dela, resumira-se em seu corpo; sentia o fardo físico. Talvez, pensou, por causa da pedra. Com o lenço, enxugou a orelha que ainda sangrava.
— O senhor cortou a orelha — disse Rachael, — Que pena.
— Você pensou, realmente, que eu não lhe telefonaria? Como você disse?
— Eu lhe disse — admitiu Rachael — que sem mim um dos Nexus-6 o pegaria antes que o senhor o pegasse.
— Você se enganou.
— Mas está telefonando, de qualquer modo. Quer que eu vá até aí, em São Francisco?
— Hoje à noite — disse ele.
— Oh, é tarde demais. Vou amanhã. É uma hora de viagem.
— A ordem que recebi foi pegá-los hoje à noite. — Interrompeu-se por um momento e depois disse: — Dos oito iniciais, sobraram três.
— O senhor dá a impressão de que passou por momentos horríveis.
— Se você não vir aqui hoje à noite — disse Rick —, vou caçá-los sozinho e não poderei aposentá-los. Eu acabei de comprar uma cabra — acrescentou, — Com o dinheiro de prêmio dos três que peguei.
— Vocês, humanos — riu Rachael. — Caprinos têm um cheiro horrível.
— Só os bodes. Li isso no livro de instruções que veio com ela.
— O senhor está realmente cansado — comentou Rachael. — Parece confuso. Tem certeza, realmente, que sabe o que está fazendo, pegar mais três Nexus-6 no mesmo dia? Ninguém jamais aposentou seis andróides num único dia.
— Franklin Powers — disse Rick. — Há mais ou menos um ano, em Chicago. Ele aposentou sete.
— Da obsoleta variedade McMillan Y-4 — observou Rachael. — Isto é uma coisa diferente. — Pensou um pouco. — Rick, não posso ir, Nem mesmo jantei ainda.
— Preciso de você — disse. Senão, vou morrer, pensou. Sei disso. Mercer sabia. Acho que você sabe, também. E estou perdendo meu tempo fazendo-lhe um apelo. Ninguém pode apelar para um andróide; não há nele coisa alguma que ressoe.
— Sinto muito, Rick — disse Rachael —, mas não posso ir aí hoje à noite. Terá que ser amanhã.
— Vingança de andróide — comentou Rick.
— O quê?
— Porque eu lhe dei uma rasteira na Escala Voigt-Kampff.
— Você pensa isso? — Olhos esbugalhados, ela perguntou: — Realmente?
— Adeus — disse Rick e começou a desligar.
— Escute aqui — interrompeu-o rapidamente Rachael —, você não está usando a cabeça.
— Parece isso porque vocês tipos Nexus-6 são mais inteligentes do que os humanos.
— Não, eu realmente não compreendo — suspirou Rachael. — Posso ver que você não quer realizar esse trabalho hoje à noite ...talvez nunca mais. Você tem certeza que quer que eu torne possível para você aposentar os três andróides restantes? Ou quer que eu o convença a não tentar?
— Venha até aqui — sugeriu ele — e nós alugaremos um quarto de hotel.
— Por quê?
— Por causa de uma coisa que ouvi hoje — respondeu ele, rouco. — Sobre situações envolvendo homens, humanos, e mulheres, andróides. Venha a São Francisco hoje à noite e eu desisto dos andros restantes. Faremos outra coisa.

Ela observou-o atenta, e em seguida disse bruscamente:
— Muito bem. Vou para aí. Onde é que eu o encontro?
— No St. Francis. É o único hotel mais ou menos decente ainda em funcionamento na área da baía.
— E você não fará nada até que eu chegue aí.
— Ficarei no quarto do hotel — prometeu ele — assistindo a Buster Amigão na TV. A convidada dele nos três últimos dias foi Amanda Werner. Gosto dela. Poderia ficar olhando-a o resto de minha vida. Ela tem seios que sorriem.

Desligou e simplesmente ficou ali durante algum tempo, a mente vazia.
Finalmente, o frio do carro despertou-o. Ligou a chave de ignição e um momento depois tomava a direção do centro de São Francisco.
E do St. Francis Hotel.


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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vimana


Sobre o portal VIMANA:

Dizem que as vimanas eram as naves espaciais dos deuses da antiga Índia.

Sendo assim, nada mais natural que escolhêssemos esse nome para o portal que reúne autores, jornalistas, pesquisadores, artistas e amantes da ficção científica, fantasia e terror, em todas suas vertentes. E que também traz uma série de textos a respeito do universo insólito, os enigmas e mistérios que cercam a humanidade desde que ela existe.

O portal é um espaço aberto para que todos os interessados nesses assuntos possam divulgar seus trabalhos – sejam livros, ilustrações, fotografias, entrevistas, matérias, vídeos, áudios; não há restrição quanto à mídia, desde que circule pelos temas propostos.

Dessa forma, seguindo o conceito da democratização do conhecimento, pretendemos estabelecer um grande ponto de encontro do universo fantástico brasileiro, ampliando a discussão sobre o gênero e propondo reflexões mais aprofundadas.

Muitos teóricos das comunicações já disseram que informação é fundamental – e, para alguns, é poder. No nosso caso, acreditamos que informação é vital, desde que bem fundamentada; caso contrário, é apenas boato e fofoca.

Nesse contexto, o portal Vimana surge como um espaço de crescimento constante – tanto de material de pesquisa quanto de novidades e informações. É um espaço aberto para os fanáticos por ficção científica, fantasia, terror e mistérios. Para os que conhecem muito (ou tudo) sobre algum dos assuntos, ou para os que sabem pouco, mas querem saber mais.

A Vimana é uma nave bem grande, e pode abrigar os mais diversos personagens, com as mais variadas histórias. E tem uma imensa capacidade de navegação, que pode nos levar a... bem, isso vocês é que decidem.

Dimensão Paralela



Apresentação:

A rede social Dimensão Paralela foi criada com o objetivo de divulgar diferentes artes da cena gótica brasileira, podendo também estudar e divulgar artistas e obras estrangeiros. Apreciamos diferentes assuntos como a literatura, canto e música, dança e expressão corporal, teatro, desenho e pintura, animações, escultura, artersanato, origami, cinema, fotografia, filosofia, mitologias, ciências, ecologia, moda e estética e tantas outras possibilidades.

Valorizaremos as mais diferentes formas de expressão, em especial as artes alternativas capazes de revelar e criar estéticas vindas de fontes incomuns como a introversão filosófica, solidão, mistérios e segredos, maturidade, sensibilidade e assim por diante.

Portanto se você é uma pessoa que tem uma mente madura e sensível para entender e sentir certas coisas tão subjetivas e abstratas fora da realidade "normalóide" seja bem-vindo a essa Dimensão Paralela.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sites sobre cinema fantástico

Toda semana surgem na rede, sites/blogs brazucas sobre cinema e tv, e cada vez mais é possível encontrar aqueles que se dedicam aos gêneros, em especial, a Ficção Científica, a Fantasia e o Terror.
Vale a pena conhecer alguns deles...








quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ciência à mão - Portal de ensino de ciências - Ficção Científica



No portal Ciência à mão da USP, é possível encontrar vasto material sobre ficção científica, voltado para o ensino de ciências através da discussão da literatura e do cinema de FC.

 

terça-feira, 13 de julho de 2010

Trilhas sonoras do filme Blade Runner




Blade Runner OST - The 25th Anniversary Edition
Blade Runner OST - 'Struzan Beta Edition'
Blade Runner OST - 'Definitive Edition'
Blade Runner OST - 'Deck Definitive Edition'
Blade Runner OST - 'MR3' Edition
Blade Runner OST - Gongo Version
Blade Runner OST - 'Off World Music'
Blade Runner OST - 'Esper' Edition
Blade Runner - Los Angeles - November 2019



Do blog 36-15 Moog

Radiation Cinema


Nossos B-movies favoritos, resenhas e imagens fantásticas! Radiation Cinema !




segunda-feira, 12 de julho de 2010

Carta de Philip K. Dick sobre o filme Blade Runner



11 de Outubro de 1981


Mr.Jeff Walker
The Ladd Company
4000 Warner Boulevard
Burbank
Calif.91522


Caro Jeff:

Aconteceu de assistir ao programa "Hooray for Hollywood", que passou hoje à noite no canal 7, com uma matéria sobre BLADE RUNNER (bem, para ser honesto, eu não assisto a esse programa; alguém me avisou que iriam fazer uma matéria sobre BLADE RUNNER e que seria bom se eu assistisse). Jeff, depois de assistir – e especialmente depois de ouvir Harrison Ford falar sobre o filme - cheguei à conclusão que não se trata de ficção científica; e que não é fantasia; isso é exatamente aquilo que Harrison disse: futurismo. O impacto de BLADE RUNNER será simplesmente surpreendente, tanto no público quanto nas pessoas criativas – e, eu acredito, na ficção científica como um todo. Desde que comecei a escrever e a vender obras de ficção científica há trinta anos que isso é algo importante para mim. Devo dizer com toda franqueza que esta área gradualmente e permanentemente vem se deteriorando nos últimos anos. Nada que fizemos, individualmente ou coletivamente, chega aos pés de BLADE RUNNER. Não é escapismo; é super-realismo, tão realista e detalhado e autêntico e convicnente que, bem, depois de assistir ao programa eu reencontrei pálida, por comparação, a minha “realidade” atual. O que quero dizer é que todos vocês podem ter criado coletivamente uma forma única de expressão artística e gráfica que nunca foi vista. E, eu acho, BLADE RUNNER pode revolucionar nossos conceitos sobre o que é a ficção científica e, mais, o que ela pode ser.

Deixe-me resumir desta forma. A ficção científica preparou lenta e inevitavelmente uma morte monótona para si mesma: tornou-se senso comum, derivativa, rasa. De repente, vocês aparecem, alguns dos melhores talentos que existem hoje em dia, e agora temos uma nova vida, um novo começo. E sobre o meu papel no projeto BLADE RUNNER, só posso dizer que nunca havia imaginado que um trabalho meu – ou um conjunto de ideias minhas – poderia ser elevado a dimensões tão inacreditáveis. Minha vida e meu trabalho criativo estão justificados e completos graças à BLADE RUNNER. Obrigado… e será um sucesso comercial tremendo. Provará-se invencível.

Cordialmente,

Philip K. Dick

domingo, 11 de julho de 2010

Paolo Bacigalupi



Paolo Bacigalupi (1 de Abril de 1973) nasceu em Colorado Springs, Colorado (EUA),viveu no oeste americano com seus pais, por um breve tempo em uma comunidade, e frequentou o Oberlin College, em Ohio, onde conheceu sua esposa e formou-se em Estudos do Leste Asiático.

Após graduar-se em 1994, trabalhou na China, como consultor para empresas estrangeiras interessadas em entrarem no mercado chinês, retornou para aos EUA dois anos depois, passando a trabalhar para uma empresa de desenvolvimento WEB, em Boston. Bacigalupi trabalha no High Country News, um jornal ambientalista bi-semanal.

Vencedor de diversos prêmios de Ficção Científica e Fantasia, como Nebula, Compton Crook e Theodore Sturgeon, Paolo costuma aparecer em diversos jornais da costa oeste americana.

Seu romance de estreia "The Windup Girl" (2009), arrebatou o prêmio Nebula e o Locus de 2010, e foi indicado pela revista Time Magazine como um dos melhores livros (Top 10 Books) de 2009.

Segundo a revista, "um sucessor de William Gibson, mas sem os computadores."

Apesar de não citar influências, ele não nega ter aprendido as lições de mestres do passado - a intensidade de William Gibson, as histórias de Heinlein, os futuros ambientalmente comprometidos de John Brunner, e de Ursula K. Le Guin, a noção de que "você pode realmente dizer alguma coisa com FC, e ser boa FC."

Como qualquer escritor de ficção científica, ele não tem a pretensão de prever o futuro. Mas, diz ele, seus mundos brotam organicamente, como cogumelos a partir de estrume, a partir das tendências atuais.

The Windup Girl (que levou 3 anos para ser escrita) é a história de Emiko, uma mulher criada em uma creche de engenharia de crescimento, para atender aos caprichos sexuais de um empresário japonês e posteriormente abandonada, passa a vagar pelas ruas de Bangkok. Situado em um mundo sem petróleo, onde a economia global é definida por calorias, Emiko encontra Anderson Lago, que está à procura de alimentos extintos, para a sua empresa AgriGen.

Comida e energia, são temas comuns em seu trabalho.
Dono de um estilo pessimista, distópico, perturbador e intenso, sua obra não apresenta as emocionantes fronteiras do espaço, e nenhuma saída mágica para uma energia não poluente.

Bacigalupi diz que escrever de outra forma seria desonesto.  

"Toda vez que você lê uma notícia e olha os dados, eles não levam a nada de bom", diz ele. "Nada do que se diz, nos convence de que vai ser melhor, que haverá mais energia, que as espécies ameaçadas... Eu não vou escrever para consolar o leitor, e dizer que está tudo bem... Nós não estamos fazendo nada que seja minimamente sustentável." 


Site de Paolo Bacigalupi

Paolo  Bacigalupi ( The Windup Girl, Pocket Full of Dharma, Pump Six, Pump Six and Other stories, The Calorie Man, The Fluted Girl, The People of Sand and Slag, The Tamarisk Hunter, Yellow Card Man, Ship Breaker ) [ Download ]

sábado, 10 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 15)





— PODEMOS CONVERSAR? — perguntou Roy indicando Isidore.
Pris, vibrando de felicidade, respondeu:
— Tudo bem, até certo ponto. — A Isidore, disse: — Desculpe-nos. — Levou os Batys até um canto da sala e conversou com eles em voz baixa. Voltaram em seguida para junto de J. R. Isidore, que se sentia embaraçado e deslocado.
— Este é o Sr. Isidore — apresentou-o Pris. — Está cuidando de mim. — As palavras saíram-lhe dos lábios envolvidas num sarcasmo quase malicioso.
Isidore piscou.
— Estão vendo? Ele me trouxe um pouco de comida natural.
— Comida! — ecoou Irmgard Baty e dirigiu-se em passos flexíveis até a cozinha a fim de verificar. — Pêssegos — disse, imediatamente pegando uma tigela e uma colher.

Sorrindo para Isidore, comeu, com pequeninas dentadas animais. Seu sorriso, diferente do de Pris, transmitia um calor simples e não possuía veladas conotações.
Indo atrás dela — sentia-se atraído por ela — disse Isidore:
— Vocês são de Marte.
— Somos, desistimos de lá. — Sua voz subia e descia, enquanto que, com a sagacidade de uma ave, seus olhos azuis faiscavam para ele. — Que prédio horrível este onde vocês moram. Ninguém mais mora aqui, não é? Não vimos nenhuma outra luz.
— Eu moro lá em cima — explicou Isidore.
— Oh, eu pensei que você e Pris, talvez, estivessem morando juntos. — Irmgard Baty não dava a impressão de desaprovar. Falava sério, obviamente, como uma mera declaração de fato.

Azedamente, mas ainda sorrindo, Roy Baty disse:
— Bem, eles pegaram Polokov.
O júbilo que aparecera na face de Pris ao ver os amigos desfez-se imediatamente.
— Quem mais?
— Pegaram Garland — continuou Roy Baty. — Pegaram também Anders e Gitchell e hoje, um pouco mais cedo, pegaram Luba. — Deu as notícias como se elas, perversamente, o agradassem, como se tivesse prazer em contá-las. Como se apreciasse o choque que via na face de Pris. — Eu não acreditava que eles pegariam Luba, Lembra-se que eu continuei a dizer isso durante...a viagem?
— Então, isso deixa... — disse Pris.
— Nós três — completou Irmgard com um tom de apreensiva urgência na voz.
— Esse é o motivo per que estamos aqui. — A voz de Roy Baty trovejou com um novo e inesperado calor humano; quanto pior a situação, mais parecia ele apreciá-la.
Isidore não conseguia entendê-lo absolutamente.
— Oh, Deus — exclamou Pris, abalada.
— Bem, eles tinham aquele investigador, aquele caçador de cabeças — disse agitada Irmgard — chamado Dave Holden. — Os lábios dela gotejaram veneno ao pronunciar o nome. — E Polokov quase o pegou.
— Quase o pegou — repetiu Roy, seu sorriso nesse momento de proporções imensas.
— De modo que ele está no hospital, esse tal Holden — continuou Irmgard. — E, evidentemente, deram a lista dele para outro caçador, e Polokov quase o pegou, também. Mas tudo terminou com ele aposentando Polokov. Depois, ele foi atrás de Luba. Sabemos disso porque ela conseguiu comunicar-se com Garland e ele mandou alguém capturar o caçador e levá-lo para o prédio da Mission Street. Entenda, Luba telefonou-nos depois que o agente de Garland capturou o caçador. Ela tinha certeza de que tudo acabaria bem, certeza de que Garland o mataria. — E acrescentou:
— Mas evidentemente alguma coisa saiu errada na Mission. Não sabemos o quê. Talvez nunca venhamos a saber.
— Esse caçador tem nossos nomes? — perguntou Pris.
— Oh, tem, sim, querida — respondeu Irmgard. — Mas ele não sabe onde nós estamos. Roy e eu não vamos voltar para nosso apartamento. Colocamos no carro tudo o que pudemos e resolvemos ocupar um destes apartamentos abandonados, neste velho prédio infestado de ratos.
— Isso é prudente? — perguntou Isidore, reunindo coragem. — T-t-todos ficarem em um único lugar?
— Bem, eles pegaram todos os outros — retrucou Irmgard em tom de voz tranqüilo.
Ela também, como o marido, parecia estranhamente resignada, a despeito de sua agitação superficial.

Todos eles, pensou Isidore, são estranhos. Sentiu isso, mas sem poder determinar o motivo. Como se um desligamento peculiar e maligno lhes saturasse os processos mentais. Exceto, talvez, Pris. Ela, sem dúvida alguma, estava profundamente amedrontada. Pris parecia quase certa, quase natural. Mas...
— Por que você não vai morar com ele? — perguntou Roy a Pris, indicando Isidore. — Ele poderia lhe dar certo grau de proteção.
— Um debilóide? — perguntou Pris. — Eu não vou morar com um debilóide. — Suas narinas se dilataram de indignação.

Rapidamente, Irmgard contestou-a:
— Acho que você está sendo tola em ser esnobe numa ocasião como esta. Caçadores de cabeças movem-se com grande rapidez. Ele pode tentar liquidar tudo esta noite mesmo. Pode haver um bônus para ele se conseguir fazer o trabalho...
— Cristo, fechem a porta — disse Roy, dirigindo-se para ela. Bateu-a com força com um golpe e, em seguida, fechou-a a chave sem demora. — Acho que você deve ir para o apartamento de Isidore, Pris, e também acho que Irm e eu devemos ficar neste mesmo edifício. Desta maneira, podemos nos ajudar mutuamente. Tenho alguns componentes elétricos no meu carro, sucata que arranquei da nave. Vou instalar um aviso de dupla ação, Pris, de modo que você nos possa ouvir e nós possamos ouvi-la e também preparar um sistema de alarme que qualquer um de nós pode disparar. É óbvio que as identidades artificiais não deram certo, nem mesmo a de Garland. Claro, Garland pôs a própria cabeça no nó, trazendo o caçador de cabeças para a Mission Street. Isso foi vim erro. E Polokov, em vez de se manter tão longe quanto possível do caçador, resolveu abordá-lo. Nós não vamos fazer isso. Vamos ficar na moita. — Não parecia preocupado o mínimo. A situação parecia despertar-lhe uma energia quase maníaca. — Eu acho... — inalou barulhentamente, prendendo a atenção de todos ali na sala, inclusive Isidore. — Eu acho que há um motivo por que nós três ainda continuamos vivos. Acho que se ele tivesse a menor pista sobre o lugar onde estamos agora, já estaria aqui. A idéia toda por trás de caçada de cabeças é trabalhar rápido como o diabo. É nisso que está o lucro.
— E se ele esperar — concordou Irmgard — nós escapuliremos, como fizemos antes. Aposto que Roy tem razão. Aposto que ele tem nossos nomes, mas não nossa localização. Pobre Luba, na Casa da Ópera, bem à vista de todo mundo. Nenhuma dificuldade para encontrá-la.
— Bem — disse afetado Roy —, ela quis a situação dessa maneira. Acreditava que ficaria mais segura como uma figura conhecida do público.
— E você disse para ela fazer o contrário — lembrou Irmgard.
— Isso mesmo — anuiu Roy. — Disse a ela e disse a Polokov para não tentar passar por um agente do W.P.O. E disse também a Garland que um de seus próprios caçadores o pegaria, o que foi possível, concebível e exatamente o que de fato aconteceu. 
Balançou-se para a frente e para trás sobre seus grossos calcanhares, sua face transbordando de sabedoria.
— E-e-eu acho pelo que e-e-estou ouvindo que o Sr. Baty é o líder natural de vocês.
— Oh, sim, Roy é um líder — garantiu Irmgard.
— Ele organizou nossa... viagem. De Marte até aqui.
— Neste caso — opinou Isidore — é melhor vocês fazerem o que e-e-ele sugere. — Sua voz fraquejou, de esperança e tensão. — Eu acho que seria s-s-sensacional se você fosse morar comigo, Pris. Eu ficaria em casa uns dois dias, longe do trabalho... Eu tenho férias vencidas. Para ter certeza de que você ficaria bem. — E talvez Milt, que era muito inventivo, pudesse projetar uma arma que ele pudesse usar. Alguma coisa imaginativa, que matasse caçadores de cabeças... o que quer que eles fossem. Tinha na mente uma impressão indistinta, mal entrevista, de alguma coisa implacável que conduzia uma lista impressa e uma arma, que desempenhava automaticamente a função banal e burocrática de matar, uma coisa sem emoções, ou mesmo uma face, uma coisa que, se morta, era imediatamente substituída por outra parecida com ela, E assim por diante até que todas as pessoas que fossem reais e vivas tivessem sido eliminadas.

Incrível, pensou, que a polícia não possa fazer coisa alguma com relação a isso, Não posso acreditar nisso. Estas pessoas devem ter feito alguma coisa. Talvez tenham emigrado de volta para a Terra ilegalmente. Fomos avisados — a TV nos avisa — para comunicar o pouso de qualquer nave fora dos campos aprovados. A polícia tinha que estar vigilante para casos como esses.
Mas, mesmo assim, ninguém mais era deliberadamente assassinada. Isto era contra o mercerismo.

— O debilóide — disse Pris — gosta de mim.
— Não o chame assim, Pris — disse Irmgard, Lançou um olhar de compaixão a Pris. — Pense no que ele poderia chamar você.
Pris nada disse. Sua expressão tornou-se enigmática.
— Vou começar a armar o aparelho de alarma — disse Roy. — Irmgard e eu vamos ficar neste apartamento. Pris, você vai com o Sr ... Isidore. — Dirigiu-se para a porta, andando com espantosa velocidade para um homem tão pesado.

Num instante, desapareceu pela porta, que voltou a fechar-se com um estrondo. Nesse momento, Isidore teve uma momentânea, estranha alucinação: viu por um momento uma estrutura de metal, uma plataforma de polias, circuitos, baterias, torretas e engrenagens — e, em seguida, a figura desleixada de Roy Baty desapareceu. Uma vontade de rir subiu dentro dele. Nervosamente, suprimiu-a. E sentiu-se confuso.
— Um homem de ação — disse Pris em voz distante. — É uma pena que ele seja tão desajeitado com as mãos, fazendo coisas mecânicas.
— Se nós formos salvos — retrucou Irmgard em tom de repreensão, severo, como se a repreendendo —, será por causa de Roy.
— Mas valerá a pena? — perguntou Pris, principalmente para si mesma. Encolheu os ombros e, em seguida, inclinou a cabeça na direção de Isidore. — Muito bem, J. R., vou-me mudar para seu apartamento e você pode me proteger,
— T-t-todos vocês — respondeu imediatamente Isidore.

Solene e em voz baixa, um pouco formal, Irmgard Baty lhe disse:
— Quero que saiba que apreciamos muito o que está fazendo, Sr. Isidore. O senhor é o primeiro amigo que penso que encontramos aqui na Terra. Isto tudo é uma grande bondade sua e, talvez, algum dia, possamos retribuir o que está fazendo por nós. — Deslizou para ele e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Você tem alguma ficção pré-colonial que eu possa ler? — perguntou-lhe Isidore.
— Perdão? — Interrogativamente, Irmgard olhou para Pris.
— Aquelas velhas revistas — explicou Pris. Juntara umas poucas coisas para levar consigo. Isidore tomou-lhe a trouxa das mãos, sentindo aquela alegria que vem apenas da satisfação de um objetivo atingido. — Não, J. R., nós não trouxemos nenhuma conosco, pelas razões que expliquei.
— E-e-eu vou à biblioteca amanhã — disse ele, saindo para o corredor. — E vou arranjar para v-v-você e para mim alguma coisa para lermos, de modo que você possa ter alguma coisa para fazer, além de esperar.

Levou Pris escada acima para seu apartamento, escuro, vazio, congestionado de coisas, morno. Levando as coisas dela para o quarto, imediatamente ligou o aquecedor, as luzes e o único canal de seu aparelho de TV.
— Eu gosto daqui — disse Pris, mas no mesmo tom desligado e remoto de antes.

Andou de um lado para o outro, as mãos enfiadas nos bolsos da saia, na sua face uma expressão amarga, quase de indignação em seu grau de desagrado. Em contraste com o que dissera pensar.
— O que é que há? — perguntou ele, colocando-lhe as coisas em cima do sofá.
— Nada. — Parou à janela panorâmica, puxou para os lados a cortina e olhou abatida para fora.
— Se você pensa que eles andam à sua procura... — começou ele.
— É um sonho — explicou ela — induzido pelas drogas que Roy me deu.
— P-p-perdão?
— Você realmente pensa que existem caçadores de cabeças?
— O Sr. Baty disse que eles mataram seus amigos.
— Mas Roy Baty é tão louco como eu — retrucou Pris. — Nossa viagem foi entre um hospital para doentes mentais na Costa Leste e aqui. Todos nós somos esquizofrênicos, com vidas emocionais defeituosas... o efeito de achatamento, é assim que chamam a isso. E nós temos alucinações coletivas.
— Eu não pensei que aquilo fosse verdade — disse ele, aliviado.
— Por que não pensou? — Girou para fitá-lo atentamente, num olhar tão sério que ele sentiu que enrubescia.
— P-p-porque coisas como essas não acontecem. O g-governo jamais executa pessoa alguma, por qualquer crime. E o mercerismo...
— Mas, compreenda — explicou Pris —, se o indivíduo não é humano, então toda a coisa se torna diferente.
— Isso não é verdade. Mesmo animais, mesmo enguias roedores, serpentes e aranhas, são sagrados.

Pris, ainda olhando-o fixamente, disse:
— Assim não pode ser, pode? Como você disse, mesmo animais são protegidos pela lei. Toda a vida. Todo ser orgânico que se contorce, estrebucha, cava, voa, anda em bandos, põe ovos ou... — Interrompeu-se porque nesse momento Roy Baty entrou abruptamente, abrindo com violência a porta do apartamento. Trazia a reboque uma extensão de fio.

— Os insetos — disse ele, sem demonstrar o menor embaraço por tê-los ouvido sem que eles soubessem — são especialmente sacrossantos. — Tirando um quadro da parede da sala de estar, ligou um pequeno aparelho eletrônico ao prego, deu um passo para trás, examinou o trabalho e voltou a recolocar o quadro no lugar. — Agora, o alarma. —
Puxou o fio que se arrastava e que terminava num aparelho complexo. Sorrindo seu estranho sorriso, mostrou o aparelho a Pris e Isidore. — O alarma. Estes fios correm por baixo do tapete. São antenas. Captam a presença de uma ... — hesitou — entidade mentacional — disse obscuramente — que não é uma de nós quatro.

— Bem, toca, e depois o quê? — perguntou Pris. — Ele vai entrar aqui com uma arma. Não podemos cair sobre ele e matá-lo a dentadas.
— Este aparelho — continuou Roy — tem uma unidade Penfield. Logo que o alarme soa, ela emite um estado de espírito de pânico para o. .. intruso. A menos que ele aja com grande rapidez, o que pode fazer. Um pânico enorme. Aumentei a freqüência até o máximo. Nenhum ser humano pode permanecer nas vizinhanças por mais de alguns segundos. Tal é a natureza do pânico: leva a movimentos circulares aleatórios, fuga sem finalidade e espasmos musculares e neurais. — E concluiu: — O que nos dará oportunidade de pegá-lo. Possivelmente. Tudo dependendo da competência dele.
— O alarme não nos afetará? — quis saber Isidore.
— Bem, e daí? — disse Roy, voltando a seu trabalho de instalação. — De modo que ambos saem correndo daqui no maior pânico. Isto nos dará tempo para reagir. E eles não matarão Isidore. Não figura na lista deles. Este o motivo porque ele é útil como proteção.
— Você não podia arranjar coisa melhor, Roy? — perguntou brusca Pris.
— Não — respondeu ele —, não posso.
— A-a-amanhã eu posso conseguir uma arma — disse Isidore entrando na conversa.
— Você tem certeza de que a presença de Isidore aqui não vai disparar o alarme? — perguntou Pris. — Afinal de contas, ele é...você sabe.
— Compensei as emanações cefálicas dele — explicou Roy. — A soma delas não provocará coisa alguma. Será necessária a presença de mais um ser humano. Uma pessoa. — Fechando a cara, olhou para Isidore, dando-se conta do que dissera,
— Vocês são andróides — disse Isidore. Mas não se importou Isto não fazia diferença alguma para ele. — Agora estou compreendendo por que eles querem matar vocês — continuou. — Na realidade, vocês não são vivos.
— Tudo nesse instante fazia sentido para ele. O caçador de cabeças, a morte dos amigos deles, a viagem para a Terra, todas essas precauções.
— Quando usei a palavra "humano" — disse Roy Baty a Pris —, usei a palavra errada.
— Tudo bem, Sr. Baty — tranqüilizou-o Isidore. — Mas o que é que isso me importa? Quero dizer, eu sou um especial. Eles tampouco me tratam muito bem, como, por exemplo, eu não posso emigrar. — Descobriu que começara a gritar. — Vocês não podem vir para cá. Eu não posso. .. — Acalmou-se.
Após uma pausa, Roy Baty observou laconicamente:
— Você não gostaria de Marte. Não está perdendo coisa alguma.
— Eu estava me perguntando quanto tempo demoraria antes de você compreender — disse Pris a Isidore. — Nós somos diferentes, não?
— Foi isso provavelmente o que fez com que Garland e Polokov cometessem erros — disse Roy Baty. — Estavam tão danadamente certos de que conseguiriam passar por humanos, Luba, também.
— Vocês são intelectuais — disse Isidore. Sentia-se excitado novamente, por ter compreendido. Emoção e orgulho. — Vocês pensam abstratamente, e eu não. .. — Fez um gesto, as palavras enredando-se umas nas outras. Como sempre. — Eu gostaria de ter um intelecto, como vocês têm. Neste caso, eu passaria no teste, não seria um debilóide, Acho que vocês são muito superiores. Eu poderia aprender um bocado com vocês.

Após um intervalo, Roy Baty disse:
— Vou acabar de instalar o alarma. — E voltou a trabalhar.
— Ele não compreende ainda — disse Pris numa voz seca, quebradiça — como nós saímos de Marte. O que fazíamos lá.
— O que não podíamos evitar de fazer — grunhiu Roy Baty.
Irmgard estava na porta aberta que dava para o corredor e eles a notaram no momento em que falou:

— Não acho que tenhamos que nos preocupar com o Sr. Isidore — disse, séria. Dirigiu-se em passos rápidos para ele e olhou-o no rosto. — Como ele disse, tampouco o tratam muito bem. E ele não está interessado no que fazíamos em Marte. Conhece-nos, gosta de nós, e uma aceitação emocional como esta... é tudo para ele. É difícil para nós entendermos isto, mas é verdade. — A Isidore disse, mais uma vez bem perto dele e observando-o com atenção:
— Você poderia ganhar um bocado de dinheiro nos denunciando, compreende isso? — Virando-se, anunciou: — Está vendo, ele compreende, mas ainda assim não vai fazer coisa alguma.
— Você é um grande homem, Isidore — disse Pris.
— Um crédito para sua raça.
— Se ele fosse um andróide — disse convicto Roy —, nos denunciaria amanhã às dez. Iria para o trabalho e isso seria o fim. Estou arrasado de admiração. — Seu tom de voz não podia ser decifrado. Isidore, pelo menos, não podia compreendê-lo. — E nós imaginamos que este aqui seria um mundo sem amigos, um planeta de faces hostis, todos contra nós. — Soltou uma gargalhada alta.
— Eu não estou absolutamente preocupada — declarou Irmgard.
— Você devia estar morrendo de medo — observou Roy.
— Vamos votar — sugeriu Pris. — Como fazíamos na nave quando estávamos em desacordo.
— Bem — disse Irmgard —, não vou dizer mais coisa alguma. Mas se recusarmos esta oportunidade, não acredito que possamos encontrar outro ser humano que nos aceite e nos ajude. O Sr. Isidore é ... — Procurou a palavra.
— Especial — acabou Pris a frase para ela.

Solene, cerimoniosamente, fizeram a votação.
— Nós ficamos aqui — disse firme Irmgard. —Neste apartamento, neste edifício.
— Eu voto que matemos o Sr. Isidore e nos escondamos em algum outro lugar — disse Roy Baty. Ele e a esposa — e John Isidore — voltaram-se rigidamente para Pris.
Em voz baixa, ela resolveu:
— Eu voto para que façamos aqui nossa defesa. — E acrescentou em voz mais alta: — Acho que o valor de J. R. para nós supera o perigo que ele encerra, o de saber. Obviamente, não podemos viver entre humanos sem sermos descobertos. Foi isso o que matou Polokov, Garland, Luba e Anders. Foi isso o que matou todos eles.
— Talvez eles tenham feito justamente o que estamos fazendo — observou Roy Baty. — Depositaram fé, confiaram em um dado ser humano, que pensaram que era diferente. Como você disse, especial.
— Nós não sabemos se foi isso — objetou Irmgard.
— Isso é apenas uma conjectura. Acho que eles, que eles...
— Fez um gesto vago. — Andaram por aí. Cantaram em um palco, como Luba. Nós confiamos ...eu vou-lhe dizer no que foi que nós confiamos e que nos pôs nesta encrenca toda, Roy: em nossa droga de inteligência superior! — Olhou zangada para o marido, seus pequenos e altos seios subindo e descendo rápidos. — Nós somos tão sábios...Roy, você está agindo assim, nesse momento. Droga, você está agindo assim agora!
— Eu acho que Irm tem razão — apoiou-a Pris.
— Assim, confiamos nossas vida a um tipo subpadrão, bichado... — começou Roy, mas desistiu. — Estou cansado — disse simplesmente. — Foi uma longa viagem, Isidore. Mas não ficaremos muito tempo aqui. Infelizmente.
— Tomara que eu possa tornar agradável a estada de vocês aqui na Terra — disse feliz Isidore.

Tinha certeza de que poderia. Parecia-lhe a coisa mais fácil do mundo, a culminação de toda sua vida, e da nova autoridade que manifestara naquele dia no videofone, no trabalho.



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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Modern Classics of Science Fiction - Gardner Dozois



Let me talk to you for a moment about a few things that this anthology is not.

It is not an evolutionary overview of science fiction, for many of the stories that have had the greatest evolutionary impact on the field, and that would have to be included and analyzed in such an overview, were also stories that I personally didn’t much like, and they are not here.

It is not really a historical survey of the various periods of science fiction history, either, since such a survey, to function well, would have to include a balanced selection of represen-tative stories from the various aesthetic factions that are always in contention in any period of genre history, and would have to look beyond first-rate authors to the second-rank authors, from whose work you can often get a more accurate idea of the essential nature of the different kinds of work that are being done… but those stories are not here, either.

It isn’t a Politically Correct book, either, since to be Politically Correct, more care would have had to be taken in selecting the proportionately proper number of writers from each of SF’s political cliques and pressure groups—are there enough hard-science writers enough leftists enough British writers enough women—and no such demographic care was exercised.

Nor is it made up of comfortably expedient choices that could be expected to score me a lot of personal brownie points—several of my best friends and closest colleagues have no work here, for instance, which will no doubt hurt their feelings, and there are a number of important and influential genre figures I could usefully have flattered by putting them in these pages and who will probably not be flattered by finding that they have been omitted.

Nor was the book designed with an eye to insuring me a margin of safety with reviewers, since there are a number of icons, from Heinlein to Dick to Ballard, that I will no doubt be pilloried for leaving out.
...

The best stories, in fact, seem essentially to be timeless. (We’re still reading the Odyssey, aren’t we?) A good story is like a benign virus—even when it orginates in the minds of men and women long years dead, it can reach across the abyss of the grave, across thousands of miles of distance and hundreds of years of time, across every barrier of custom or prejudice or age, and, touching a living mind, infect that mind with the dream at its heart… can leave the one that it infects with dreaming shaken and changed forever, forever dizzy and raddled with a vision that came to them from outside the fortress self, burning up with the fever of dreams. And then they may touch someone else…

Long years from now, long after everyone in this anthology or involved with it have gone to dust, the stories here may still touch someone, and cause that person touched to blink, and put the book down for a second, and stare off through the hollow air, and shiver in wonder.



Contents
Preface

The Country of the Kind - Damon Knight
Aristotle and the Gun - L. Sprague de Camp
The Other Celia - Theodore Sturgeon
Casey Agonistes - Richard McKenna
Mother Hitton’s Littul Kittons - Cordwainer Smith
The Moon Moth - Jack Vance
The Golden Horn - Edgar Pangborn
The Lady Margaret - Keith Roberts
This Moment of the Storm - Roger Zelazny
Narrow Valley - R. A. Lqfferty
Driftglass - Samuel R. Delany
The Worm That Flies - Brian W. Aldiss
The Fifth Head of Cerberus - Gene Wolfe
Nobody’s Home - Joanna Russ
Her Smoke Rose Up Forever - James Tiptree, Jr
The Barrow - Ursula K. Le Guin
Particle Theory - Edward Bryant
The Ugly Chickens - Howard Waldrop
Going Under - Jack Dann
Salvador - Lucius Shepard
Pretty Boy Crossover - Pat Cadigan
The Pure Product - John Kessel
The Winter Market - William Gibson
Chance - Connie Willis
The Edge of the World - Michael Swanwick
Dori Bangs - Bruce Sterling

Afterword

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terça-feira, 6 de julho de 2010

Perilous Planets - Brian W.Aldiss



Long before I began compiling this book, I could see what it had to contain. Its title and its contents leaped at me while I was working on the first anthology in this series, Space Opera, three years ago.

For the majority of readers new to science fiction, a landing on another planet - a planet,because unknown, even more perilous than Earth - must be their peak experience of the genre. If they don't get the true sf charge out of touchdown on Procyon v, they will never get any charge at all. The cutting edge of science fiction lies along the interface between the known and the unknown.

So what I wanted for my anthology was that seminal story in which our brave astronauts, or space-travellers as they used to be called, make the first-ever voyage through space, see the stars like jewels flung into the sack of night, and touch down on a totally unknown planet. There they jump out to test the atmosphere, find it even better than Earth's, and take a stroll amid the glorious scenery. Whereupon something awful appears and - according to which seminal story you read -attempts to eat them, warps their minds with obscene telepathic messages, or captures them and takes them into subterranean tunnels.

It was a fantastic story, one you remember for the rest of your life.
My trouble was, I had forgotten which story it was.
...
So this anthology does not contain that first-landing story you remember. It was just a folk-memory. All parts of the legend are, of course, embedded in H. G. Well's novel, The First Men on the Moon.

One never forgets the moment when Cavor and Beford see the sun rise, watch the plants grow, and sniff the air, to find it even better than Earth's.

What this anthology does contain are stories which, while being excellent in their own right, range along the whole spectrum of interest aroused by that feat which still remains imaginary: standing upon another planet. (The Moon is a satellite, not a planet.) That particular kind of thrill has been conjured in literature since time immemorial; during time memorial, sf is the name of the literature that does it now.

Actual unrestricted travel in space, if it ever comes, may alter the nature of science fiction, as reality wipes out folk memories. There must be other beings on other planets who dream similar tales.

Brian W. Aldiss - October 1976


CONTENTS
Introduction
'How Are They All on Deneb IV ?' - C. C. Shackleton

SECTION 1 UNINHABITED PLANETS
'. . . Because They're There'

Mouth of Hell - David I. Masson
Brightside Crossing - Alan E. Nourse
The Sack - William Morrison

SECTION 2 INHABITED PLANETS
Whatever Answers the Door . . .

The Monster - A. E. van Vogt
The Monsters - Robert Sheckley
Grenville's Planet - Michael Shaara
Beachhead - Clifford D. Simak

SECTION 3 A DASH OF SYMBOLS
No Names to the Rivers

The Ark of James Carlyle - Cherry Wilder
On the River - Robert F. Young
Goddess in Granite - Robert F. Young
The Seekers - E. C. Tubb

SECTION 4 Mars AND VENUS
Love and War

When the People Fell - Cordwainer Smith
The Titan - P. Schuyler Miller

SECTION 5 BECOMING MORE ALIEN
A Universal Home Truth

Four in One - Damon Knight
The Age of Invention - Norman Spinrad
The Snowmen - Frederik Pohl
Schwartz Between the Galaxies - Robert Silverberg

Afterword


Perilous Planets - Brian W. Aldiss [ Download ]

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A arte de Moebius















A arte de Moebius [ Download ]

domingo, 4 de julho de 2010

John Scalzi



John Michael Scalzi II (10 de Maio de 1969) nasceu em Fairfield, California (EUA).

Escritor de Ficção Científica e Fantasia, Scalzi é mais conhecido pelo livro Old Man's War, que lhe valeu uma indicação ao prêmio Hugo. Em Old Man's War, todo cidadão da Terra ao completar 75 anos é recrutado para juntar-se às forças de defesa das colônias humanas no espaço (o autor admite simiilaridades com o famoso livro de Robert A. Heinlein, "Starship Troopers").

Após o sucesso deste seu livro de estreia, Scalzi escreveu mais três livros, utilizando-se deste mesmo tema e foi escolhido como melhor escritor novato de 2005 (prêmio John W.Campbell).

Scalzi também foi indicado para o Hugo, na categoria romance por "The God Engines", uma história de fantasia científica (ou dark fantasy) sobre o capitão da espaçonave Righteous, Ean Tephe, um militar da fé, fiel ao Império (uma sociedade altamente religiosa e militarizada), e que é enviado, junto com sua tripulação, para realizar uma missão secreta em uma terra sagrada distante.

Scalzi trabalhou em jornais, como crítico de cinema, manteve colunas de crônicas bem humoradas em diversos periódicos de Chicago e também escreveu livros sobre outros assuntos, como finanças e astronomia, além de presidir a SFFWA (Science Fiction and Fantasy Writers of America) em 2010.

Scalzi faz parte do time dos consultores do seriado de televisão, Stargate Universe, e mantém um blog (Whatever), onde fala sobre seu ofício de escritor, entre outras coisas.

 
John Scalzi (Alien Animal Encounters, Old Man's War, The Ghost Brigades, The Sagan diary, The Last Colony, Zoe's Tale, Pluto Tells, La Vieja Guardia, The Android's Dream, The Rough Guide to Sci-Fi movies, Agent to the Stars, The God Engines) [ Download ]

sábado, 3 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 14)



COMO UM ARCO de fogo puro, John R. Isidore cruzou o céu de final da tarde a caminho de casa, terminado seu dia de trabalho. Será que ela ainda está lá? pensou.

Lá naquele velho apartamento cheio de entulho, assistindo ao programa de Buster Amigão na TV, tremendo de medo toda vez que imagina que alguém vem pelo corredor. Incluindo, acho, eu mesmo.

Parara antes num armazém de secos e molhados do mercado negro. No assento ao seu lado, balançava para a frente e para trás uma sacola na qual havia guloseimas como pasta de feijão de soja, pêssegos maduros e um bom e macio queijo de cheiro forte, enquanto ele, alternativamente, acelerava e reduzia a velocidade do carro.

Tenso naquela noite, dirigia algo erraticamente. E seu supostamente consertado carro tossia e rateava, como andara fazendo durante meses, antes da revisão.
Safados, pensou Isidore.

O cheiro dos pêssegos e do queijo saturava o carro, enchendo-lhe as narinas de prazer. Só raridades, pelas quais desperdiçara o salário de duas semanas — tomado por conta ao Sr. Sloat. E, além disso, sob o assento, onde não podia rolar ou quebrar, uma garrafa de vinho Chablis oscilava de um lado para o outro: a maior de todas as raridades! Guardara-a num cofre de segurança no Bank of America, conservando-a como um tesouro, recusando-se a vendê-la por mais que lhe oferecessem, para o caso de, em algum distante, tardio, último momento, aparecer uma mulher.
Isto não acontecera, não até este momento.

Como sempre, o telhado morto, juncado de lixo de seu prédio de apartamentos deprimiu-o. Indo do carro até a porta do elevador, reduziu sua visão periférica: concentrou-se no valioso saco e na garrafa que levava, tomando todo o cuidado para não tropeçar num entulho qualquer e esborrachar-se numa ignominiosa ruína econômica. Ao chegar o elevador, rangendo, entrou e apertou o botão — não do seu andar — mas do andar mais baixo, onde naquele momento residia a nova moradora, Pris Stratton.
Logo depois, estava à frente da porta dela, batendo com a borda da garrafa, seu coração despedaçando-se dentro do peito.

— Quem é? — perguntou uma voz, abafada pela porta, mas ainda clara. Um tom amedrontado, mas afiado como uma lâmina.
— Sou eu, J. R. Isidore — respondeu vivamente, adotando a nova autoridade que tão recentemente adquirira graças ao videofone do Sr. Sloat. — Trouxe algumas coisas boas e acho que podemos fazer um jantar mais do que razoável.
A porta foi aberta, até certo ponto. Pris, luz alguma na sala às suas costas, olhou para o corredor às escuras.

— Você parece diferente — comentou ela. — Mais adulto.
— Nós tivemos algumas questões de rotina a tratar durante o expediente, hoje. O habitual. Se você me d-d-deixasse entrar...
— Você falaria sobre elas. — Não obstante, abriu a porta o suficiente para que ele entrasse. Em seguida, vendo o que ele trazia, soltou uma exclamação, sua face iluminada por um exuberante júbilo de elfo.
Mas, quase no mesmo instante, sem aviso algum, uma amargura letal cobriu-lhe a face, acomodou-se nela como se fosse concreto. O júbilo desaparecera.
— O que é? — perguntou ele.
Colocou o embrulho e a garrafa na cozinha e voltou apressado para a sala.
Numa voz sem expressão, Pris respondeu:
— Para mim são um desperdício.
— Por quê?
— Oh... — Encolheu os ombros, afastou-se, sem direção fixa, as mãos profundamente enterradas nos bolsos da saia pesada, um tanto antiquada. — Algum dia, eu lhe direi. —

Ergueu a vista. — De qualquer modo, foi muita bondade sua. Agora, gostaria que fosse embora. Não sinto vontade de conversar com ninguém. — De modo vago, dirigiu-se para a porta que dava para o corredor. Arrastando os pés; parecia esgotada, sua reserva de energia quase extinta.
— Eu sei o que é que há com você — disse ele.
— Oh? — A voz dela, quando reabriu a porta do corredor, caiu ainda mais para um tom desalentado, abatido, estéril.
— Você não tem amigos. Você está muito pior do que quando a vi esta manhã.Acontece isto porque...
— Eu tenho amigos. — Uma autoridade inesperada endureceu-lhe a voz e, palpavelmente, ela recuperou forças. — Ou tinha. Sete deles. Isso era para começar, mas agora os caçadores de cabeças já tiveram tempo de trabalhar. Assim, alguns deles, talvez todos, estão mortos. — Foi devagar até a janela, olhou para a escuridão e para as poucas luzes, aqui e ali. — Eu talvez seja a única dos oito que sobrou. Assim, você talvez tenha razão.
— O que é um caçador de cabeças?
— Pessoas como você não devem saber. Um caçador de cabeças é um assassino profissional, a quem se fornece uma lista de pessoas que deve matar. Ele recebe uma soma — mil dólares é a taxa atual, segundo sei — por cabeça que elimina. Geralmente, ele tem também contrato com a municipalidade e recebe um salário. Mas o mantêm baixo para que ele sinta incentivo.
— Tem certeza? — perguntou Isidore.
— Tenho. — Inclinou a cabeça. — Você quer dizer, se tenho certeza do incentivo? Sim, ele tem um incentivo. Ele gosta de fazer isso.
— Eu acho — retrucou Isidore — que você está enganada. — Nunca, em toda sua vida, ouvira falar em tal coisa. Buster Amigão, por exemplo, jamais a mencionara. — Isso não está de acordo com a atual ética merceriana — observou ele. — Toda a vida é uma: "homem algum é uma ilha", como disse Shakespeare nos velhos tempos.
— John Donne.

Isidore gesticulou, agitado.
— Isso é a pior coisa que ouvi até hoje. Você não podia chamar a polícia?
— Não.
— E eles estão atrás de você? É possível que eles venham aqui e matem você? — Compreendia, nesse momento, porque a moça agia de forma tão furtiva. — Não é de espantar que você esteja com medo e não queira falar com pessoa alguma. — Mas, pensou, isso deve ser uma desilusão. A moça deve ser psicótica. Com mania de perseguição. Talvez devido a dano cerebral provocado pela poeira. Talvez seja uma especial. — Antes disso, eu pego eles — prometeu.
— Com o quê? — Levemente ela sorriu, mostrando dentes pequeninos, regulares, brancos.
— Vou pedir licença para portar um tubo de laser. É fácil de conseguir, por aqui, onde não há quase ninguém. A polícia não faz ronda... A pessoa deve cuidar de si mesma.
— E quando você estiver no trabalho?
— Eu peço uma licença.
— Isso é muita bondade sua, J. R. Isidore — disse Pris. — Mas se os caçadores de cabeças pegaram Max Polokov, Garland, Luba, Hasking e Roy Baty... — Interrompeu-se por um momento. — Roy e Irmgard Baty. Se estão mortos, então nada mais realmente importa. São meus melhores amigos. Por que diabos não tenho notícias deles? — praguejou, zangada.
Indo até a cozinha, Isidore apanhou pratos, terrinas e copos empoeirados, há muito tempo sem uso. Antes de começar a lavá-los, deixou correr, até clarear, a água quente enferrujada. Logo depois, Pris apareceu, sentou-se à mesa. Isidore abriu a garrafa de Chablis e dividiu os pêssegos, o queijo e a pasta de feijão.

— O que é essa coisa branca aí? Não o queijo — disse ela, apontando.
— É feita de feijão de soja. Eu gostaria de ter um pouco... — Interrompeu-se, enrubescendo. — Antigamente, era comido com caldo de carne.
— Um andróide... — murmurou para si mesma Pris.
— Este é o tipo de lapso que um andróide comete. É isto o que os desmascara.

Aproximou-se, parou ao seu lado e, em seguida, para sua completa certeza enlaçou-o pela cintura e, por um instante, apertou-o. — Vou experimentar uma fatia de pêssego — disse ela e, com todo o cuidado, apanhou uma escorregadia fatia rosa-alaranjada, sedosa, com seus longos dedos. Mas, quando comeu a fatia, começou a chorar.

Lágrimas frias desceram-lhe pelo rosto e molharam o peito do vestido. Isidore não sabia o que fazer, de modo que continuou a dividir a comida. — Droga — disse ela, furiosa. — Bem... — Afastou-se dele e andou de um lado para o outro, vagarosamente, em passos medidos, em volta da sala. — ... compreenda, nós vivíamos em Marte. É por esse motivo que conheço andróides. — A voz dela tremia, mas ela conseguiu continuar. Obviamente, significava muito para ela ter alguém com quem falar.

— E as únicas pessoas na Terra que você conhece — disse Isidore — são seus companheiros ex-emigrantes.
— Nós nos conhecíamos de antes da viagem. De uma colônia próxima a Nova Nova York. Roy Baty e Irmgard tinham uma farmácia. Ele era farmacêutico e ela cuidava dos cosméticos, cremes, ungüentos. Em Marte, as pessoas usam um bocado de preparados para a pele. Eu... — Hesitou. — Eu comprei várias drogas de Roy... Eu precisava delas no princípio, porque... bem, de qualquer modo, aquilo é um lugar horrível. Isto — com um único e violento gesto varreu a sala, o apartamento — isto nada é. Você pensa que estou sofrendo porque me sinto solitária. Droga, Marte toda é solitária. Muito pior do que isto aqui.
— Os andróides não fazem companhia a vocês? Eu ouvi um comercial sobre... — Sentando-se, começou a comer. Ela, também, apanhou um copo de vinho e bebeu, sua fisionomia sem expressão. — Eu entendi que os andróides ajudavam.
— Os andróides também se sentem solitários — disse ela.
— Gostou do vinho?
Ela pôs o copo na mesa.
— É bom.
— É a primeira garrafa que vejo em três anos.
— Nós voltamos — disse Pris — porque ninguém deve ser obrigado a morar lá. O planeta não foi concebido para ser habitado, pelo menos não no último bilhão de anos. Ele é tão velho. A gente sente isso nas pedras, a terrível antiguidade. De qualquer modo, no princípio, consegui drogas com Roy. Eu vivia para aquele novo analgésico sintético, a silenizina. E então conheci Horst Hartman, que tinha uma loja de filatelia, de selos raros do correio. Lá a gente tem tanto tempo que é obrigada a escolher um hobby, alguma coisa a que possamos nos dedicar interminavelmente. E Horst despertou meu interesse pela ficção pré-colonial.
— Você quer dizer velhos livros?
— Histórias escritas sobre viagens espaciais, mas antes das viagens espaciais.
— Como era que podia haver histórias sobre viagens espaciais antes...
— Os autores — explicou Pris — inventavam essas histórias.
— Baseados em quê?
— Em imaginação. Verificou-se depois que muitas delas estavam totalmente erradas. Por exemplo, escreviam sobre Vênus como se fosse um paraíso selvagem, com monstros enormes e mulheres usando peitorais faiscantes. — Olhou-o, atenta. — Isto o interessa? Mulheres grandalhonas com longos cabelos louros amarrados em tranças e peitorais faiscantes, do tamanho de melões?
— Não — retrucou ele.
— Irmgard é loura — disse Pris — mas baixinha. De qualquer modo, pode-se ganhar uma fortuna contrabandeando ficção pré-colonial, velhas revistas, livros e filmes para Marte. Nada é tão excitante como isso. Oh, ler sobre cidades e enormes empresas industriais e colonização realmente bem-sucedida. Você pode imaginar o que poderia ter sido. O que Marte devia ser. Canais.
— Canais? — Obscuramente, lembrou-se de ter lido alguma coisa sobre o assunto. Nos velhos dias, acreditava-se que havia canais em Marte.
— Cruzando o planeta todo — continuou Pris. — E seres vindos das estrelas. Com sabedoria infinita. E histórias sobre a Terra, com cenário em nosso tempo e mesmo depois. Onde não há poeira radiativa.
— Eu pensaria — disse Isidore — que isto faria as pessoas se sentirem ainda piores.
— Não faz — respondeu seca Pris.
— Você trouxe consigo alguma coisa desse material de leitura pré-colonial? — Ocorreu-lhe que devia experimentar um pouco disso.
— Não vale nada aqui porque na Terra a moda nunca pegou. De qualquer modo, por aqui há bastante, nas bibliotecas. É onde conseguimos todo o nosso... roubado de bibliotecas aqui na Terra e enviado por foguete automático a Marte. A gente está bobeando pelos espaços vazios à noite quando, de repente, vemos um clarão, e lá está um foguete, rachado, e velhas revistas de ficção pré-coloniais derramando-se por toda parte. Uma fortuna. Mas, claro, a gente as lê antes de vendê-las. — O assunto começou a entusiasmá-la. — Entre todos...

Nesse momento, uma batida à porta que dava para o corredor,
Lívida, Pris murmurou:
— Não posso atender. Não faça nenhum barulho. Simplesmente fique sentado aí. — Fez força para escutar. — Será que a porta está fechada à chave — disse em voz quase inaudível. — Deus, tomara que esteja. — Seus olhos, alucinados e poderosos, fixaram-se implorantes nele, como se rezando para que ele transformasse aquilo em verdade.
Uma voz distante chamou do corredor:
— Pris, você está aí?

Uma voz de homem:
— Somos nós, Roy e Irmgard. Recebemos seu cartão.
Levantando-se e indo até o quarto, Pris reapareceu logo depois, trazendo uma caneta e um pedaço de papel Voltou a sentar-se e rabiscou uma apressada mensagem:
VÁ ATÉ A PORTA.
Nervoso, Isidore tomou-lhe a caneta e escreveu:
E DIGO O QUÊ?
Com raiva, Pris escreveu:
VEJA SE SÃO REALMENTE ELES.

Levantando-se, entrou sombrio na sala de estar. Como é que eu sei se são eles ? perguntou a si mesmo. Abriu a porta.
No corredor escuro havia duas pessoas, uma mulher pequenina, bonita à maneira de Greta Garbo, com olhos azuis e cabelos louros; e um homem, mais alto, com olhos inteligentes, mas sem expressão, e feições mongóis que lhe davam um aspecto brutal.

A mulher usava um casaco na moda, botas lustrosas de cano alto, e calça comprida afilando nos tornozelos; o homem vestia camisa amarrotada e calças manchadas, o que lhe dava um ar de vulgaridade quase proposital. Ele sorriu para Isidore, mas seus olhos brilhantes e pequeninos permaneceram evasivos.
— Nós estamos procurando... — começou a loura baixa, mas, nesse momento, seus olhos ultrapassaram a figura de Isidore, suas feições se dissolveram em enlevo e ela passou rápida por ele, gritando:
— Pris! Como vai?

Isidore virou-se. As duas mulheres se abraçavam nesse momento. Deu um passo para o lado e Roy Baty entrou, sombrio e grande, sorrindo seu sorriso torto e mudo.



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sexta-feira, 2 de julho de 2010

RPGCon 2010



A RPGCon 2010 acontece nos dias 03 e 04 de JULHO, no Colégio Notre Dame, Sumaré, São Paulo.

O encontro possui uma extensa programação:
  • II Encontro Nacional de Blogs de RPG
  • Área de Jogo Organizado coordenado pela RPGArautos.
  • Etapa seletiva do World Cosplay Sumit – o WCS – organizado pela editora JBC
  • Bazar Medieval com a presença da Taberna de Odin e o Clã Hednir, entre outros.
  • Espaço Cosplay e estúdio fotográfico para o público caracterizado
  • Feira de RPG Independente e espaço do fanzineiro
  • Exposições do Estúdio Melies e Hard Replic Esculturas
  • Palestras sobre o mercado editorial
  • Feira de Jogos Usados
  • Demonstração de jogos de tabuleiro
  • Campeonatos de Legend of the Five Rings, Magic: The Gathering e Pokémon
  • Torneio Nacional de Muchkin

Entre os diversos eventos programados, o Conselho Steampunk organizou uma mesa redonda sobre FC e especialmente steampunk, com autores nacionais, no sábado, dia 03/07, das 13 às 14h no mini-auditório.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Homem Duplo - Eando Binder



O caixão de alumínio, brilhando na clara luz do sol, subiu até o apogeu de 33,261 milhas acima da terra.

Então mergulhou, numa velocidade crescente, até o perigeu de 486 milhas, chicoteando ao redor da terra para mais uma vez fazer a ascensão. a seu ponto mais alto.

A cada 10 horas e 16 minutos, a silenciosa nave espacial completava seu eterno ciclo, não variando nem por um fio.

Dentro, num leito, jazia uma figura vestida num traje espacial, rígida numa morte congelada, seus olhos sem vida não vendo a grandiosa rotação de estrelas cada uma em sua órbita circular.

O sopro da vida há muito tinha deixado Dr. Wayne Durk, astronauta.

Sua mão direita enluvada ainda agarrava a alavanca do controle manual - a alavanca que ele tinha freneticamente acionado muitas vezes sem resposta dos retrofoguetes. E com o sistema automático já atingido por um meteorito, esta tinha sido a sua última esperança de voltar a terra.

O meteorito. Ele veio colidindo com a nave espacial cilíndrica, uma espécie rara do tamanho de uma bola de "baseball" partindo fios vitais e rompendo cadeias de comutadores e retransmissores. O ar tinha saído rapidamente do respiradouro e somente o traje espacial hermeticamente fechado manteve Durk vivo - para uma morte mais lenta.

O sistema de alimentação de oxigênio da nave tinha parado também e ele teve que cortar seu cordão umbilical rapidamente. Depois disto, sua vida fora medida pelo oxigênio que restava em seu traje - quinze minutos no máximo. Não havia nenhum tubo de oxigênio de emergência para ser usado. Não era este tipo de traje.  Seu rádio também tinha sido destruído. Nenhuma chance de avisar o Controle para um possível salvamento. Além disso, a poderosa pancada do meteorito tinha afastado sua nave da órbita prevista.

Os confusos homens do radar lá embaixo tinham visto o ponto luminoso desaparecer de suas telas. Procurá-lo tornou-se irremediável quando a nave fez uma nova e casual curva através do espaço numa órbita completamente desconhecida e excêntrica. Quanto a isso, o veículo tripulado se juntara à multidão de restos espaciais que giravam ao redor da terra em várias alturas, totalizando milhares de peças, pequenas ou grandes. Mas foi uma destas peças do lixo inútil que agora, após o longo silêncio do espaço, completou o milagre contrário. Um satélite morto e incendiado, que data dos primeiros dias dos lançamentos espaciais na década de 1960, veio atingir o veículo tripulado por um corpo congelado.

A colisão foi silenciosa no vácuo sem ar. Mas peças de metal despedaçado voaram de ambos. Foi uma pancada vertical que enviou o satélite girando para cima num ricochete e a nave tripulada para baixo.

Então, nesta série de acontecimentos caprichosos, outro milagre casual tomou lugar.
Dentro, no meio dos labirintos dos sistemas eletrônicos da nave, alguns circuitos foram ativados pelo impacto do choque. Atrasadamente, as fitas computadorizadas comandaram o sistema de poder motriz e os retro-foguetes funcionaram silenciosamente. Os tanques de propelentes hipergólicos, não afetados pelo longo estágio dormente no espaço, estavam ainda intactos e obedientemente supriram os impulsores insaciáveis.

O homem congelado a bordo não se preocupou com a libertação prematura de sua órbita eterna entre estrelas não cintilantes. O sistema completamente automatizado prosseguiu em sua programação contínua, colocando o escudo de calor na frente, esperando pelo atrito com o ar para anular drasticamente a velocidade de 17.000 milhas por hora. Na marca das 500 milhas por hora, os foguetes de freio nas bordas do escudo de calor explodem para amortecer a queda final. Todos os sistemas funcionaram. Nada tinha sido atingido pelo meteoro exceto a superfície dos controles automático e manual, por isso apenas a colisão no meio do espaço pôde engatar os mecanismos na operação.
Os destroços da nave espacial fixaram-se suavemente numa geleira.

E por isso, o astronauta Wayne Durk aterrizou depois de tudo...

Um homem morto.

Não, não completamente um homem morto.


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